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A

Cruz e o Ministério Cristão


Traduzido do original em inglês
The Cross and Christian Ministry
por D. A. Carson Copyright © 1993 by D. A. Carson

Publicado originalmente em inglês por Baker Books,


uma divisão de Baker Publishing Group
Grand Rapids, Michigan 49516, U.S.A


Copyright © 2009 Editora Fiel
1a Edição em Português: 2009
1a Reimpressão: 2011


A versão bíblica utilizada neste livro é a Almeida Revista e Atualizada (ARA - SBB)


Todos os direitos em língua portuguesa reservados por
Editora Fiel da Missão Evangélica Literária


PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO
ESCRITA DOS EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.


Presidente: James Richard Denham III
Presidente Emérito: James Richard Denham Jr.
Editor: Tiago J. Santos Filho
Tradução: Francisco Wellington Ferreira
Revisão: Franklin Ferreira e Tiago J. Santos Filho
eBook: Heraldo Almeida
Capa: Edvânio Silva

ISBN: 978-85-8132-333-6


Caixa Postal, 1601
CEP 12230-971
São José dos Campos-SP
PABX.: (12) 3919-9999
www.editorafiel.com.br
Este livro é dedicado com gratidão a
Perry e Sandy,
não porque necessitem dele,
mas sim por serem um modelo
deste livro.
S UM ÁR IO

Capa
Folha de Rosto
Créditos
Dedicatória
Prefácio à edição em português
Prefácio
Capítulo 1: A Cruz e a Pregação (1 Coríntios 1.18-2.5)
Capítulo 2: A Cruz e o Espírito Santo (1 Coríntios 2.6-16)
Capítulo 3: A Cruz e o Sectarismo (1 Coríntios 3)
Capítulo 4: A Cruz e a Liderança Cristã (1 Coríntios 4)
Capítulo 5: A Cruz e o Cristão Transcultural (1 Coríntios 9.19-27)
Editora Fiel
PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS

m dos temas mais discutidos atualmente no ministério cristão é questão da liderança.


Centenas de títulos têm sido escritos sobre assunto em todo o mundo evangélico. É
fato consumado que o crescimento das igrejas evangélicas aliado ao apelo do enfoque
gerencial e gestorial tem produzido uma efervescência sem precedentes sobre o assunto.
Com toda a certeza, a palavra liderança está na ordem do dia.
Apesar do grande interesse no assunto, poucos estudos bíblicos fundamentados numa
exegese segura das Escrituras têm sido disponibilizados nos últimos tempos. Parece que a
Bíblia tornou-se uma referência secundária para muitos. Em minha perspectiva, vivemos
uma situação dramática: autores de perfil prático falam de liderança sem qualquer
fundamentação exegética, enquanto que autores de perfil teológico e técnico pouco escrevem
sobre questões práticas do cotidiano ministerial.
Foi nesse incômodo vazio literário que surgiu este opúsculo elaborado pelo conhecido
estudioso do Novo Testamento D A Carson. O renomado erudito canadense é hoje um dos
autores mais prolíficos e premiados da área bíblica no mundo de fala inglesa. Sem dúvida
alguma, trata-se de um nome de peso que em muito tem contribuído para os estudos
teológicos e exegéticos nas últimas décadas.
A partir de uma exposição de trechos escolhidos da epístola de Paulo de 1 Coríntios,
Carson aborda exegética e expositivamente elementos fundamentais do texto que são úteis
para a condução do ministério cristão. Deve ser destacado aqui que esta carta paulina tem
muito a nos ensinar, visto que o apóstolo dos gentios discute questões essenciais para a
prática da liderança e a condução do ministério cristão no contexto confuso de Corinto.
Como se pode facilmente perceber na leitura da obra, a ênfase do opúsculo de Carson é
a cruz, marca do cristianismo bíblico. Em dias quando o mero pragmatismo tem sugerido
que um bom líder cristão é apenas um gestor operacional eficiente que conhece elementos
básicos de psicologia, Carson recupera o tom ético, marcado pela valiosa alteridade que
permeia a espiritualidade neotestamentária. Em resumo, veremos que não é possível ser um
líder sem desafiar o egoísmo e o pecado que está em nós e que prejudica o ministério cristão.
Está de parabéns a Editora Fiel pela escolha de uma obra tão sucinta, prática, objetiva e
séria. Absolutamente relevante e útil para a igreja evangélica brasileira.

Luiz Sayão,
Pastor da Igreja Batista Nações Unidas, em São Paulo — SP

PREFÁCIO

or muito tempo, inúmeros evangélicos têm visto a cruz exclusivamente como o


meio pelo qual Deus realizou, em Cristo Jesus, a nossa redenção. É claro que
nenhum verdadeiro cristão deseja minimizar a centralidade da cruz no
propósito redentor de Deus. Contudo, se vemos a cruz apenas como o meio de nossa
salvação, e nada mais do que isso, ignoraremos muitas de suas funções no Novo Testamento.
Em particular, no que diz respeito a este estudo, deixaremos de vê-la como o teste e o padrão
de todo ministério cristão autêntico. A cruz estabelece não somente o que devemos pregar,
mas também a maneira como pregamos. Ela prescreve o que os líderes cristãos têm de ser e
como devem ser vistos pelos membros das igrejas. A cruz nos diz como servir e nos atrai a
prosseguir no discipulado, até que entendamos o que significa ser cristãos transculturais.
O conteúdo dos cinco capítulos deste livro foi preparado inicialmente como uma série
de quatro palestras (os capítulos 3 e 4 foram desenvolvidos de uma das palestras), para o
International Council of Accrediting Agencies (ICAA), filiada à World Evangelical Fellowship. O
ICAA coordena várias agências credenciadoras regionais cujo propósito é a promoção de
educação teológica de alta qualidade em instituições evangélicas ao redor do mundo.
A série de palestras foi revisada e apresentada novamente no congresso mundial da
International Fellowship of Evangelical Students (IFES), que ocorre de quatro em quatro anos.
Os representantes vieram de 108 ou 109 países. Foi um grande privilégio tentar expor a
Palavra de Deus para eles. Em muitas conversas pessoais, aprendi desses irmãos e irmãs em
Cristo. Sou grato a Deus por sua firmeza, zelo e liderança modesta.
O texto que você tem em mãos foi revisado mais uma vez, para acomodar-se à página
impressa. Embora estes capítulos sejam uma exposição de parte de 1 Coríntios, meu
interesse vai muito além do cuidado por coisas antigas. Cada nova geração de cristãos precisa
aprender a mensagem destas seções de 1 Coríntios, pois, do contrário, o evangelho será
deixado de lado por diferentes tendências.
É comum pessoas afirmarem que o evangelicalismo está se fragmentando. Visto que isso
é, até certo ponto, verdadeiro, temos de focalizar-nos conscientemente no que é central — o
evangelho de Jesus Cristo. Isso significa que temos de decidir “nada saber... senão a Jesus
Cristo e este crucificado” (1Co 2.2), da maneira como o fez Paulo. Isso moldará a nossa visão
de ministério e a nossa compreensão da centralidade do evangelho.
Eu seria negligente se não expressasse minha gratidão à publicadora Baker Book House,
por manter seu interesse nesta série de exposições bíblicas. Há alguma coisa mais
importante do que aprender a pensar os pensamentos de Deus à sua maneira?

Soli Deo Gloria
D A Carson

CAPÍTULO 1
A C R U Z E A P R EGA Ç Ã O
1 CORÍNTIOS 1.18-2.5

18 Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.
19 Pois está escrito:
Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos.


20 Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a
sabedoria do mundo? 21 Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve
a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação. 22 Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam
sabedoria; 23 mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; 24 mas para os que
foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. 25 Porque a loucura
de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.


26 Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos
poderosos, nem muitos de nobre nascimento; 27 pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para
envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; 28 e Deus escolheu as coisas
humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; 29 a fim de que ninguém se
vanglorie na presença de Deus. 30 Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e
justiça, e santificação, e redenção, 31 para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.


[1]Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de
linguagem ou de sabedoria. 2 Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. 3 E foi em
fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. 4 A minha palavra e a minha pregação não consistiram em
linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, 5 para que a vossa fé não se apoiasse em
sabedoria humana, e sim no poder de Deus.


O que você pensaria se uma mulher chegasse ao trabalho usando brincos que
estampavam uma imagem da nuvem, em forma de cogumelo, da bomba atômica lançada
sobre Hiroshima?
O que você pensaria de uma igreja adornada com um afresco das inúmeras sepulturas
em Auschwitz?
Ambas as visões são grotescas. Não são intrinsecamente detestáveis, mas são chocantes
por causa de suas poderosas associações culturais.
O mesmo tipo de horror chocante estava associado com a cruz e a crucificação no século I.
Sem a sanção explícita do próprio imperador, nenhum cidadão romano seria morto por
crucificação. Ela estava reservada para os escravos, estrangeiros, bárbaros. Muitos achavam
que esse não era um assunto que devia ser conversado entre pessoas educadas. À parte da
tortura perversa infligida àqueles que eram executados por crucificação, as associações
culturais traziam à mente imagens de maldade, corrupção e rejeição profunda.
No entanto, hoje, cruzes adornam nossos prédios e timbres de cartas, embelezam
bispos, resplandecem em lapelas, oscilam em brincos — e ninguém se escandaliza. Essa
distância cultural do século I nos impede de sentir apropriadamente a ironia de 1 Coríntios
1.18: “A palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos,
poder de Deus”.
Essa distância cultural precisa ser encurtada. Precisamos retornar sempre à cruz de
Jesus Cristo, se temos de determinar a medida de nosso viver, serviço e ministério cristão.
Começando no começo, desejo delinear o lugar da cruz na pregação e na proclamação
cristã. Será proveitoso desenvolvermos o assunto em três partes, correspondentes aos três
parágrafos de nosso texto bíblico.

A MENSAGEM DA CRUZ (1.18-25)
Paulo já havia censurado os cristãos de Corinto por seu espírito de divisão. Um grupo
dizia: “Eu sou de Paulo”; outro: “Eu sou de Apolo”; outro: “Eu sou de Cefas”; e outro, talvez
o mais santarrão deles, dizia: “Eu sou de Cristo” (1.11-12). Ambas as cartas de Paulo àqueles
cristãos mostram que eles eram constantemente tentados a se apegarem a líderes fortes e a
menosprezarem os outros. Fascinados pela retórica dos eruditos de seus dias, os coríntios
eram, às vezes, mais impressionados pela forma e aparência do que pelo conteúdo e a
verdade. Eles amavam a sabedoria humana — ou seja, a “sabedoria de palavra” (1.17), a
perspicácia e a eloquência que caracterizavam mais do que uma escola de pensamento na
Grécia do século I.
Ora, enquanto muitas vozes estridentes diziam às pessoas o que elas deviam crer e como
deviam viver, apelando eloquentemente à “sabedoria de palavra”, Paulo resolveu proclamar
o evangelho (1.17), a “palavra da cruz” (1.18). Toda a sua ênfase estava no conteúdo da
mensagem. Deus se agradava em salvar aqueles que criam por meio da “loucura da
pregação” (1Co 1.21). Nestas palavras, Paulo enfatizou o conteúdo da mensagem, e não o ato
de pregar, como podem sugerir algumas versões da Bíblia.
Paulo descreveu duas características essenciais na mensagem da cruz:
Por determinação de Deus, a mensagem da cruz divide a raça humana (1.18-21)

O mundo antigo empregava várias polaridades para descrever a humanidade: romanos e
bárbaros, judeus e gentios, escravos e livres. Todavia, nesta passagem, Paulo apresentou a
única polaridade que tem importância crucial; ele distinguiu os que perecem e os que são
salvos. A linha divisória entre os dois grupos é a mensagem da cruz: “A palavra da cruz é
loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18).
De fato, Paulo ressaltou que essa distinção fundamental surge do propósito de Deus,
que já havia sido afirmado. No versículo 19, ele disse: “Está escrito” e, em seguida, citou as
Escrituras. Deus já havia declarado seu pensamento sobre essa questão. Portanto, para Paulo
a questão estava resolvida.
A passagem da Escritura que ele citou foi Isaías 29.14: “Destruirei a sabedoria dos sábios
e aniquilarei a inteligência dos instruídos”. Em outras palavras, a mensagem da cruz não é
nada mais do que o meio de Deus fazer o que Ele disse que faria: por meio da cruz, Ele
rejeita e descarta todas as pretensões humanas quanto à sabedoria e o poder.
Isso é central ao tema das Escrituras. Deus nos atraiu em direção a Si, nos fez
reconhecer, com gozo e obediência, que Ele é o centro de tudo e o único Deus. O âmago de
nossa rebelião ímpia é o fato de que cada um de nós deseja ser o número um. Fazemos de
nós mesmos o foco de todos os nossos pensamentos, esperanças e visualizações. Essa
ambição de ser o primeiro se expressa não somente em ódio, guerra, cobiça, imoralidade,
malícia, amargura e outras coisas, mas também em justiça própria, autopromoção, religiões
inventadas e deuses domesticados.
Reconhecemos como somos egocêntricos ao considerarmos a atitude que demonstramos
depois de uma argumentação com alguém. Costumeiramente, reprisamos em nossa mente a
argumentação, considerando todas as coisas que podíamos e devíamos ter dito. E, nessas
reprises, sempre pecamos. Depois de uma argumentação com alguém, você já imaginou uma
reprise em que perdeu?
Nosso egocentrismo é profundo. É tão brutalmente idolatrado, que tenta dominar o
próprio Deus. Em nossa insensatez desesperada, agimos como se pudéssemos ser mais
espertos do que Deus, como se Ele nos devesse explicações, como se fôssemos sábios e
determinantes quanto a nós mesmos, e Deus existisse apenas para satisfazer nossas
necessidades.
No entanto, Deus afirma: “Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência
dos instruídos”. De fato, essa verdade já fora deixada implícita no versículo 18. Alguém
poderia esperar que Paulo dissesse: “A palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas
para nós, que somos salvos, é sabedoria de Deus”. Mas ele insistiu que a palavra da cruz é o
“poder de Deus”. É claro que depois Paulo diria que o evangelho é também a sabedoria de
Deus (1.24), mas ele começou em um tom diferente. Isso não é um lapso da parte de Paulo. O
ensino dos versículos é crucial. Paulo não desejava que os cristãos de Corinto pensassem que
o evangelho é apenas um sistema filosófico, um sistema altamente sábio que supera a tolice
dos outros sistemas. Ele queria dizer muito mais: onde a sabedoria humana falha
completamente em lidar com as necessidades dos homens, Deus mesmo entra em ação.
Somos incapazes no que diz respeito a lidar com nosso pecado e sermos reconciliados com
Deus; mas, onde somos incapazes, Deus é poderoso. A insensatez e a sabedoria humana são
igualmente incapazes de alcançar o que Deus realizou na cruz. O evangelho não é apenas um
conjunto de bons conselhos; também não é boas notícias a respeito do poder de Deus. O
evangelho é o poder de Deus para aqueles que creem. A cruz é o lugar em que Deus destruiu
completamente toda a arrogância e pretensão dos homens.
Paulo enfatiza esse ensino com três perguntas retóricas: “Onde está o sábio?” (1.20). Na
Corinto do século I, a “sabedoria” não era entendida como a habilidade prática de viver sob
o temor do Senhor (conforme vemos frequentemente no livro de Provérbios). Também não
era vista como alguma combinação de intuição, discernimento e esperteza pessoal (como a
sabedoria é vista hoje no Ocidente). Pelo contrário, a sabedoria era a filosofia pública, uma
cosmovisão bem articulada do mundo que tornava a vida compreensível e ordenava as
escolhas, valores e prioridades dos que a adotavam. “O sábio” era alguém que adotava e
defendia uma das diversas e competitivas cosmovisões populares. Nesse sentido, o “sábio”
podia ser um epicurista, ou um estóico, ou um sofista, ou um platônico; mas os sábios
tinham isto em comum: afirmavam ser capazes de dar sentido à vida, à morte e ao universo.
Um sistema organizador e uma cosmovisão coerente instilam um senso de poder. Se
você pode explicar a vida, permanece no controle dela. Os gregos eram famosos por sua
busca de sistemas coerentes que colocasse em ordem o mundo. Em resumo, eles buscavam
“sabedoria”.
No entanto, a pergunta retórica de Paulo visava indagar realmente qual desses sistemas
públicos de pensamento revelou o evangelho. Que “sábio” discerniu o maravilhoso plano de
redenção de Deus?
Em relação à cruz, como permanecem os apelos roucos das filosofias públicas
competitivas? Que lugar tem a cruz no comunismo? Ou no capitalismo? O hedonismo
sistemático leva à cruz? E o que podemos dizer sobre o pluralismo dogmático? O
humanismo secular leva alguém ao ato mais extraordinário da auto-revelação divina que já
ocorreu — a cruz de Cristo?
A elevação das virtudes da democracia leva os homens à cruz? Na América, os pais
fundadores concebiam a democracia como uma maneira de estabelecer responsabilidade
pela restrição do poder. Se a população como um todo não gostasse dos poderes executivo,
legislativo e judiciário do governo, a urna de eleição proporcionava o meio de removê-los.
Estranhamente, os políticos modernos falam sobre “a sabedoria do povo americano”, como
se um discernimento especial residisse na população. Essa não era a percepção dos pais
fundadores e, com certeza, não é uma avaliação cristã. Certamente a democracia é a melhor
forma de governo nos lugares em que a população é razoavelmente instruída e compartilha
de muitos valores comuns, mas, até nessas condições, o voto da maioria nem sempre revela
grande discernimento. É a melhor maneira de limitar o poder e de tornar o governo mais ou
menos responsável; porém não é a melhor maneira de determinar o certo e o errado, a
verdade e a mentira, o bom e o mau. A democracia por si mesma leva alguém à cruz? Não é
sempre errado equiparar o evangelho com a “maneira americana” ou, mais amplamente,
qualquer sistema democrático com o evangelho?
O argumento de Paulo é que nenhuma filosofia popular, nenhuma “sabedoria” aceita
por todos, pode ter importância duradoura, se o seu âmago não é a cruz. Não importa quais
sejam os méritos ou os deméritos desses vários sistemas, eles exaurem seus recursos em
níveis superficiais. Não reconciliam os homens e mulheres com o Deus vivo. E nada é mais
importante do que isso. Esses sistemas não podem desvendar a sabedoria de Deus na cruz.
E, se a cruz está oculta, todas as outras sabedorias são tolice. Onde está o sábio?
“Onde, o escriba?” (1.20). A palavra grega grammateus, usada nesta pergunta, não era
usada na cultura grega para denotar qualquer tipo de avanço escolar. O que Paulo tinha em
mente era o uso dessa palavra entre os judeus que falavam grego; o grammateus era o
“escriba”, o perito na lei de Deus, a pessoa que tinha conhecimento do legado bíblico e de
toda tradição que fluía desse legado. Paulo antecipa tanto os gregos que buscavam sabedoria
como os judeus que buscavam sinais miraculosos (1.22).
Logo, o ensino de Paulo nesta passagem é que teólogos, eruditos bíblicos, moralistas e o
equivalente antigo dos clérigos não se sairiam melhores do que o “sábio”. Nenhum deles
havia desenvolvido um sistema em que a cruz permanecia no âmago; nenhum deles
antecipara as boas-novas de Deus, que enalteceria a morte do Messias há muito esperado.
Com menos desculpas, a nossa geração multiplica os sentimentos religiosos de “auto-
realização” e “necessidade pessoal”, minimizando a análise inteligente do que custou ao
Deus todo-poderoso para buscar seres humanos rebeldes e conquistá-los para Si mesmo.
“Onde, o inquiridor deste século?” (1.20). A palavra inquiridor poderia ser traduzida mais
literalmente por “debatedor” ou “orador”. Mas, na cultura grega, a retórica era altamente
valorizada, e os melhores filósofos públicos eram quase sempre retóricos talentosos e
treinados. Para eles, a forma era tão importante quanto o conteúdo.
Mas, onde estavam esses filósofos e oradores quando Jesus morreu na cruz? Até que
ponto a sua paixão por forma os preparou para seguir Alguém que nunca acompanhou as
tendências mais recentes? Não importa quão celebrados eram, enquanto dominavam os
meios de comunicação daqueles dias e recebiam folhas de louro por seu brilhante
desempenho; eles eram cegos e perdidos no que diz respeito àquilo que tinha importância
transcendental.
Este é o fato mais evidente: na cruz, Deus tornou “louca a sabedoria do mundo” (1Co
1.20). Paulo não estava dizendo apenas que Deus fez a sabedoria do mundo parecer tolice. As
suas palavras têm um significado mais forte: Deus tornou louca a sabedoria do mundo. Ele
reduziu à loucura a sabedoria do mundo. Deus removeu as pretensões dessa sabedoria e
estabeleceu as suas tolices. Como Ele fez isso?
Em primeiro lugar, Paulo disse, o desígnio sábio de Deus incluía a ruína de todos os
esforços humanos para conhecê-Lo. Foi “na sabedoria de Deus” que o “mundo não o
conheceu” (1.21). Os sábios, os instruídos e os filósofos fracassaram em entender; Deus em
sua providência onisciente realizou as coisas dessa maneira. O fracasso deles é
completamente digno de culpa; a sua ignorância quanto a Deus e sua preocupação infindável
e egoísta eram dignas de culpa. No entanto, nenhum mal, incluindo o deles, pode escapar
dos limites da soberana providência de Deus — é Ele mesmo quem garante que o mundo,
em sua sabedoria, não O conhece. Não é difícil saber por quê: nesta ordem caída, a sabedoria
humana (no sentido que já descrevemos) é profundamente idólatra. Como podem as
tentativas idólatras de domesticar a Deus ser recompensadas com um conhecimento
profundo do Altíssimo? Isso jamais acontecerá! Deus mesmo garantiu que não acontecerá.
Assim, o próprio Deus estabeleceu a completa loucura da sabedoria deste mundo.
Há uma segunda maneira pela qual Deus tornou “louca a sabedoria do mundo”. Visto
que, por meio da sábia providência de Deus, o mundo não O conheceu, Ele determinou que
alguns homens e mulheres cheguem a conhecê-Lo — por um meio completamente
inesperado e imprevisto pelas pessoas sábias do mundo. “Aprouve a Deus salvar os que
creem pela loucura da pregação” (1 Co 1.21).
Precisamos considerar atentamente essa afirmação. A Nova Versão Internacional, em
inglês, expressa-a de modo correto: Deus determinou salvar aqueles que creem “pela loucura
do que é pregado”, e não “pela loucura da pregação”, como se houvesse algo inerentemente
transformador no ato de pregar. Conforme vimos, a ênfase é o conteúdo e não a forma da
pregação.[2] Paulo estipulou o conteúdo do que foi pregado no versículo 23, ainda a ser
explorado. Em palavras simples, “Cristo crucificado”. Esse conceito é algo que o mundo,
apesar de vangloriar-se de sua sabedoria, jamais teria imaginado. Mas Deus humilha ainda
mais as pretensões do mundo. Ele determina que a mensagem da cruz, o conteúdo do que é
pregado, salve “os que creem”.
Isso é admirável. Deus não dispôs as coisas de modo que a loucura do evangelho salve
aqueles cujo QI está acima de 130. Onde estaria o restante? Tampouco a loucura do que é
pregado transforma o jovem, o belo, o extrovertido, o educado, o rico, o sadio, o correto.
Onde ficaria o velho, o feio, o introvertido, o inculto, o pobre, o doente, o perverso?
Os deuses dos ricos não são gentis para com aqueles que os ricos desprezam como
pobres. Os deuses dos sábios não são amáveis para com aqueles que os sábios rejeitam como
estultos. Os deuses da elite social não são pacientes para com os excluídos.
Visto que este mundo é caído e rebelde, os deuses que são “descobertos” (não seria
melhor dizer inventados?) pela sabedoria humana são meras projeções de nossa arrogância.
Todavia, o Deus verdadeiro, o Deus que está lá (como Francis Schaeffer costumava dizer),
rejeita todos esses deuses. Ele tornou “louca a sabedoria do mundo” (1.20). Essas pessoas
são salvas por Deus, não porque Ele ama pessoas que se vangloriam de alguma qualidade ou
discernimento superior, nem porque ama as pessoas que se julgam sábias, e sim porque
determinou salvar aqueles que creem nEle. Pela graça de Deus, estes confiam nEle,
descansam nEle e entregam-se a Ele. Deus é o centro dessas pessoas, a sua rocha, a sua
âncora, a sua confiança. Assim, Deus repele, silenciosa e eficientemente, a sabedoria de
nossa cultura como loucura absoluta.
Portanto, a mensagem da cruz divide a raça humana; essa mensagem é “loucura para os
que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18). De um lado,
estão aqueles cuja religião, ou cuja falta de religião, procura um Deus popular e acessível aos
informados, aos iniciados, aos sábios; do outro lado, estão aqueles que receberam a loucura
do evangelho, pela fé, e são salvos.
Paulo enfatizou um segundo elemento na mensagem da cruz:
A mensagem da cruz prova que a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria humana; a
fraqueza de Deus é mais forte do que a força humana (1.22-25)

Em seguida, Paulo dividiu aqueles que perecem em dois grupos. Esses dois grupos
representam as idolatrias fundamentais de sua época e de cada época.
“Os judeus pedem sinais” (1.22). No aspecto histórico, é claro que isso aconteceu com
Jesus mais do que uma vez. Quando “alguns escribas e fariseus” lhe disseram: “Mestre,
queremos ver de tua parte algum sinal”, Ele respondeu: “Uma geração má e adúltera pede
um sinal” (Mt 12.38-39). Eles estavam provando a Jesus publicamente, exigindo um sinal (Mt
16.1). Até aqueles que, motivados por desespero, pediram-Lhe uma ajuda miraculosa foram
censurados gentilmente com palavras como estas: “Se, porventura, não virdes sinais e
prodígios, de modo nenhum crereis” (Jo 4.48). Em alguns casos, como na alimentação dos
cinco mil, o poder miraculoso de Jesus foi atraente à multidão somente por causa do que Ele
lhes deu (Jo 6.26).
Alguém poderia perguntar por que Jesus rejeitaria esses pedidos. Afinal de contas, Ele
realizou muitos milagres. Por que Ele devia se opor quando alguém Lhe pedia um milagre?
Tais pedidos não Lhe davam oportunidade de manifestar uma obra ainda mais poderosa?
Essas perguntas não compreendem o ensino de Paulo. Há um tipo de anelo pela
manifestação do poder de Jesus que é totalmente santo, submisso e, às vezes, desesperado.
Há outro tipo que coloca a pessoa na posição de senhor. Alguns querem ver Jesus realizando
milagres para que possam avaliá-Lo, analisar suas reivindicações, testar suas credenciais. Em
um nível, Jesus se acomoda à nossa incredulidade, realizando milagres que dão origem à fé
(Jo 10.38). Mas, em outro nível, Ele não pode se reduzir a um gênio poderoso que realiza
truques espetaculares à ordem de alguém. Quando as pessoas avaliam a Jesus, elas estão na
posição de superioridade, na posição de juiz. Visto que estão pondo à prova as credenciais de
Jesus, esquecem que Deus é Aquele que os avalia. E, enquanto exigem sinais, se Jesus
assente constantemente, Ele não é nada mais do que um milagreiro exímio.
Assim, a exigência por sinais se torna o protótipo de toda condição que os seres
humanos levantam como impedimento de se abrirem para Deus. Eu me dedicarei a este
Deus, se Ele curar meu filho. Seguirei este Jesus, se eu puder manter minha independência.
Eu me tornarei alegremente um cristão, se Deus provar-se a Si mesmo para mim.
Abandonarei meu pecado e lerei a Bíblia, se meu casamento entrar em ordem, para a minha
satisfação. Reconhecerei a Jesus como Senhor, se Ele realizar, sob exigência, o tipo de milagre
que remova toda a minha dúvida. Em todos os casos, estou avaliando a Jesus, e não Ele a
mim. Não estou me achegando a Ele de acordo com as suas determinações; estou
estipulando os termos que Jesus tem de aceitar, se deseja ter o privilégio de minha
companhia. “Os judeus pedem sinais.”
“Os gregos [ou seja, os gentios] buscam sabedoria” (1.22). Já vimos o que isso significa. Essas
pessoas talvez não suscitem condições que Deus tem de satisfazer, mas fazem algo
igualmente péssimo. Criam estruturas de pensamento que mantêm a ilusão de que podem
explicar tudo. Acham que são científicas, estão no controle e são poderosas. Se Deus existe,
Ele tem de satisfazer os padrões elevados da habilidade acadêmica e filosófica de tais
pessoas e, de algum modo, se encaixar no sistema delas, para que receba algum tipo
respeitável de audiência.
Em ambos os grupos, “judeus” e “gregos”, há egocentrismo profundo. Deus não é aceito
de boa fé. A exigência por sinais e a busca por sabedoria, bem como os inúmeros
descendentes que elas têm gerado, tratam a Deus como se nós tivéssemos o direito de
aprová-Lo e de examinar suas credenciais. Essa é a impiedade mais reprovável, a insolência
mais aterrorizante e a característica mais horrível de nossa profunda rebelião e perdição.
Por contraste, o apóstolo Paulo disse: “Nós pregamos a Cristo crucificado” (1.23). Esse é
o nosso conteúdo. E para aqueles que não conhecem a Cristo essa é uma mensagem
sobremodo esquisita. No século I, talvez ela tenha parecido uma contradição de termos —
como vapor congelado, amor odioso, declínio para cima ou sequestrador santo — porém,
uma expressão muito mais chocante. Para muitos judeus, o Messias que eles tanto
esperavam[3] tinha de vir em esplendor e glória. Tinha de começar seu reino com poder
incontestável. “Messias Crucificado” — esta justaposição de palavras era bem próxima de
blasfêmia, visto que todo judeu sabia que Deus mesmo havia declarado que todo indivíduo
pendurado vergonhosamente em um madeiro estava sob sua maldição (Dt 21.23). Como
poderia o Messias de Deus ficar sob essa maldição? Como poderia o Messias de Deus ser
crucificado? Para o judeu, essa ideia era um “escândalo” (1.23), o maior dos escândalos.
Paulo pensava assim antes de ser convertido. Ele se sentia ultrajado pelo fato de que seus
compatriotas honravam como Messias, e como Deus mesmo, um homem que Deus havia
amaldiçoado (ver Gl 1.13-14; 3.13).
No entanto, os “gregos” não tinham maior consideração pelo “Cristo crucificado”. Eles
exaltavam a razão e a filosofia pública, e não a fé e os criminosos notórios. Não se passariam
muitos anos até que o imperador Trajano rejeitasse o cristianismo como uma “superstição
perniciosa” — e estava apenas expressando uma opinião sustentada pela maioria. No
aspecto mais amplo, os romanos mais interessados em poder do que em filosofia rejeitariam
como loucura a expressão “herói crucificado” (1.23). Talvez essa foi a razão por que Paulo
deixou de usar o termo “gregos” e mencionou os “gentios” (v. 22). Ele queria deixar claro que
a cruz era loucura não somente para os gregos, mas também para os gentios; ninguém era
excluído; a cruz era um escândalo e loucura para todos. A própria palavra que Paulo usou
para expressar a ideia de “loucura” não foi acidental. Pode ser entendida com o sentido de
“obsessão” ou “loucura”. Os gentios descreviam a mensagem da cruz não como uma tolice
ingênua e excêntrica, mas como uma estupidez perigosa e quase insana.
A cruz é desprezada e rejeitada por todos. Contudo, Paulo insistiu: “Nós pregamos a
Cristo crucificado” (1.23). A mensagem da cruz pode ser insensatez para os que estão
perecendo, “escândalo para os judeus, loucura para os gentios” (1.23), “mas para os que
foram chamados, tanto judeus como gregos... poder de Deus e sabedoria de Deus” (1.24).
Essa é uma afirmação admirável!
Sentiremos melhor o seu poder se observarmos duas coisas. Primeira, aqueles que não
pertencem a este mundo condenado são “os que foram chamados”. A razão fundamental por
que eles são diferentes é que Deus os chamou — e isso, conforme o pensamento de Paulo
significa que Deus os alcançou e os salvou. A chamada de Deus, conforme Paulo se refere a
ela, é eficaz — aqueles que são chamados por Deus inevitavelmente são convertidos (cf. Rm
8.30). Essas mesmas pessoas podem ser descritas como “os que creem” (1.21). Do ponto de
vista humano, a fé se apropria dos benefícios ímpares da cruz de Cristo. Mas temos de fazer
a pergunta inevitável: se a sabedoria de Deus assegurou que o mundo não O conheceria por
meio de sua sabedoria, como essas pessoas creram? Se pessoas achavam a cruz repulsiva e
insensata, como chegaram a se deleitar nela? Eis a resposta de Paulo: foram chamadas pelo
próprio Deus (1.24) — um fato que ele reiterou nos versículos posteriores.
Segunda, esse povo chamado por Deus, “tanto judeus como gregos” (isto é, chamados
por Deus sem distinção racial), chegou a descobrir que Cristo, o Cristo crucificado, é o
“poder de Deus e sabedoria de Deus” (1.24). A linguagem foi cuidadosamente escolhida. Os
judeus exigiam sinais miraculosos e esperavam um Messias poderoso. Eles ficaram
ofendidos com a inadmissibilidade ridícula e a fraqueza inerente de qualquer noção de um
“Messias crucificado”. Mas, em ironia profunda, este é o momento da sublime fraqueza, a
cruz de Jesus Cristo, que manifesta mais intensamente o poder de Deus — e os cristãos
reconhecem isso. Por sua parte, os gentios amavam o que chamavam de sabedoria.
Rejeitavam como insensatez grosseira qualquer noção de um herói que foi crucificado.
Contudo, em profunda ironia, este é o momento da loucura transparente, a cruz de Jesus
Cristo, que manifesta mais intensamente a admirável sabedoria de Deus. Essa foi a razão por
que Paulo disse: “Para os que foram chamados”, independentemente de sua formação
cultural, Cristo é “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1.24).
Isso é prazerosamente irônico e totalmente apropriado. É irônico porque aquilo que o
mundo rejeita com estremecimento não é nada menos que o caminho de Deus para a bênção
que, de outra maneira, o mundo não pode obter. É apropriado porque todo o egocentrismo
rebelde do mundo é exatamente aquilo que assegura que ele não pode entender a cruz,
enquanto o sábio plano de redenção de Deus depende de que o próprio Deus se auto-
renuncie para realizar a consumação de sua autoridade.
Paulo não chegou facilmente a esse discernimento. Para ele, tudo começou na estrada de
Damasco. Quando Paulo esteve face a face com Jesus ressuscitado e glorificado, a quem ele
havia rejeitado como um usurpador descarado que merecia a maldição de Deus derramada
sobre Ele, teve de revisar muitas de suas estruturas de pensamento. Se Jesus estava vivo, os
cristãos, que continuavam a insistir que eram testemunhas da ressurreição, tinham de ser
ouvidos com novo respeito. Se Jesus estava vivo e glorificado, Deus não podia ter lançado
sobre Ele uma maldição irrevogável. Mas, se a cruz não significava que Jesus fora condenado
sob a maldição de Deus, então, o que ela significava? Se a ressurreição provava que Jesus fora
vindicado pelo próprio Deus, embora tivesse morrido, sob vergonha, na cruz odiosa, o que
significava aquela morte?
Somente o que os cristãos afirmavam fazia sentido. Jesus era o Messias prometido, mas
também era o Servo sofredor. Certamente, Ele era o supremo Rei que reivindicava possuir
toda a autoridade, mas ele também era o cumprimento de inúmeros séculos de sacrifícios
sangrentos, que apontavam para o único e supremo sacrifício que podia lidar eficazmente
com o pecado. Jesus morreu sob a maldição de Deus, não por causa de seu próprio pecado, e
sim por causa de meu pecado. E o valor do seu sacrifício é comprovado mais
espetacularmente por meio do fato mais notável da História: Deus O ressuscitou dentre os
mortos.
Chamados por Deus, os cristãos têm sempre firmado sua confiança na cruz de Jesus
Cristo. Essa é a razão por que ainda cantamos este hino da Idade Média:
Oh, fronte ensanguentada, em tanto opróbrio e dor, de espinhos coroada com ódio e
com furor!
Tão gloriosa outrora, tão bela e tão viril!
Tão abatida agora de afronta e escárnio vil!

Quão humilhada pende a face do Senhor!
Não vive, não resplende já não tem luz nem cor.
Oh, crime inominável fazer anuviar
o brilho inigualável de um tão piedoso olhar!

Estás tão carregado, mas todo o fardo é meu.
Eu só, me fiz culpado, e o sofrimento é teu.
Eu venho a ti, tremente; mereço a punição, mas olhas-me, clemente, com santa
compaixão.

Sê meu refúgio forte, meu guia, vida e luz.
Que eu sinta, vendo a morte, conforto em tua cruz!
Na cruz com fé me abrigo: ao ver que ao lado estás, eu me unirei contigo e vou dormir
em paz.

Bernard de Clairvaux (1090-1153)
O que o mundo rejeita como loucura, a loucura de Deus, comprova-se mais sábia do que
a sabedoria dos homens (1.25). Isso é muito mais radical do que dizer: Deus tem mais
sabedoria do que os seres humanos; ou: Ele é mais poderoso do que os seres humanos —
como se estivéssemos lidando com meros graus de sabedoria e poder. Estamos lidando com
pólos opostos. A “sabedoria” e o “poder” humanos são, do ponto de vista de Deus,
insensatez rebelde e fraqueza moral. E o momento em que Deus revelou mais
dramaticamente sua própria sabedoria e poder, o momento em que seu querido Filho foi
crucificado — embora isso seja menosprezado como indigno de atenção pela espalhafatosa
sabedoria deste mundo rebelde, pela patética “força” dos auto-iludidos —, aquele foi o
momento da sabedoria e do poder de Deus. “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que
os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1.25).
Essa lição tem de ser constantemente reassimilada por aqueles de nós que estamos em
algum tipo de ministério cristão. O evangelicalismo ocidental tende a mover-se em ciclos de
tendências. No momento, as editoras estão transbordando de livros que nos ensinam como
fazer planos para o sucesso, como a “visão” se torna “alvos de ministério” bem articulados,
como o conhecimento do perfil detalhado de nossa comunidade é uma chave para o alcance
evangelístico bem-sucedido. Não estou sugerindo, nem por um momento, que não há nada a
ser aprendido nesses estudos. Contudo, talvez alguém possa se desculpar por admirar-se de
quantas igrejas foram plantadas Paulo, Whitefield, Wesley, Stanway e Judson sem
desfrutarem dessas vantagens. É claro que todos precisamos entender as pessoas a quem
ministramos, e todos podemos nos beneficiar de pequenas doses desses livros. Mas grandes
doses, mais cedo ou mais tarde, diluirão o evangelho. Sutilmente, começamos a pensar que o
sucesso depende mais da prudente análise sociológica do que do evangelho. Barna se torna
mais importante do que a Bíblia. Dependemos de planos, programas, afirmações de visão —
mas, em algum ponto ao longo do caminho, sucumbimos à tentação de substituir a loucura
da cruz pela sabedoria do planejamento estratégico. Insisto novamente que minha posição
não é um apelo dissimulado em favor do obscurantismo e de ministérios baseados em
intuição e experiência, que não planejam nada. Pelo contrário, temo que a cruz esteja em
perigo constante de ser removida do lugar central que deve ocupar por meio de percepções
relativamente periféricas que são valorizadas em demasia. Sempre que os assuntos
periféricos estão em risco de ocupar o centro, não estamos distantes da idolatria.

O ALCANCE DA CRUZ (1.26-31)
Embora Paulo tenha sido breve em falar sobre a maneira como a mensagem da cruz
divide a raça humana, ele se focalizou em grande parte naqueles que rejeitavam essa
mensagem. Agora, ele se volta exclusivamente para aqueles que a aceitam — e conclui que
aquilo que essas pessoas são, apóia sua percepção quanto ao conteúdo da mensagem da cruz.
Ele insiste que, em sua maioria, aqueles que aceitaram essa mensagem não são os sábios, os
glamorosos, os dotados, os religiosos. Não, eles são os ninguéns.
Paulo apresenta o seu argumento, oferece uma justificativa teológica para o ensino e
termina com uma visão cristã do gloriar-se.

O argumento de Paulo (1.26)

Paulo se dirigiu aos seus irmãos em Cristo: “Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação;
visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem
muitos de nobre nascimento”. Neste ponto, Paulo estava tratando no nível empírico: esses
são os fatos observáveis. E desejava que aqueles irmãos reconhecessem tais fatos. Ao exortar-
lhes a considerar o que eram quando “foram chamados”, Paulo desejava que lembrassem seu
estado de vida quando foram convertidos.
E o que eles eram? Muitos deles não eram “sábios”, nem “poderosos”, nem de “nobre
nascimento” (1.26). Certamente, Paulo adaptou a linguagem de Jeremias 9.23-24. Nesta
passagem, o profeta cita a Deus, como se Ele dissesse:
Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; mas o que se gloriar,
glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o S ENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas
coisas me agrado, diz o S ENHOR [ênfase acrescentada].


Paulo falou sobre o sábio da mesma maneira como o fez Jeremias. O homem “forte” de
Jeremias se torna o “poderoso” em Paulo — ou seja, a força em consideração não é a força de
levantar peso, e sim a força do formador de opinião, o homem de influência. O “rico” se
torna a pessoa de “nobre nascimento”, visto que naquela era pré-industrial a maioria dos
ricos provinha das classes mais altas.
É claro que Paulo reconheceu que essas categorias não tinham qualquer importância
eterna. Ele falava sobre aqueles que eram sábios segundo os padrões humanos — e,
implicitamente, sobre aqueles que eram influentes ou de nobre nascimento conforme os
padrões humanos. A expressão que ele usou sugere[4] que ele estava eliminando esses
padrões, que são deste mundo, deste mundo caído, em oposição aos padrões de Deus.
Contudo, os padrões humanos são os que a maioria da sociedade estima grandemente. Paulo
recordou aos cristãos de Corinto que “não muitos” deles satisfaziam esses padrões.
Antes de avançarmos na consideração do argumento de Paulo, é importante lembrar que
alguns dos oponentes dos cristãos procuraram usar as palavras de Paulo contra o evangelho.
Eles diziam que somente os tolos e os ignorantes se tornavam cristãos. Por exemplo, no
século II, o crítico Celsus zombou do cristianismo nestes termos:
As suas prescrições têm este sentido: “Não se aproxime nem o instruído, nem o sábio, nem o sensível, pois
consideramos más estas capacidades. Mas, quanto aos ignorantes, aos estúpidos, aos iletrados, e aos infantis, que se
acheguem com ousadia”. Pelo fato de que eles mesmos admitem que tais pessoas são dignas de seu Deus, mostram que
desejam e são capazes de convencer somente os tolos, estúpidos e indignos de honra, somente escravos, mulheres e
crianças [Contra Celsum 3.44].


Seguindo pensamentos semelhantes, muitos dos intelectuais contemporâneos
trabalham arduamente para transmitir a impressão de que todos os cristãos são tolos,
embusteiros ou ambas as coisas. E, numa leitura superficial, Paulo talvez seja entendido
como que favorecendo essas críticas.
Uma leitura mais cuidadosa demonstra que o ensino de Paulo é bem diferente. Em
primeiro lugar, ele disse repetidas vezes “não muitos de”. Nos dias do grande evangelista
George Whitefield, a condessa de Huntingdon costumava dizer que fora salva por um “m”. A
Palavra de Deus afirma “nem muitos de nobre nascimento”, e não “nenhum de nobre
nascimento”. Além disso, tem sido comprovado que o cristianismo do século I era
espantosamente heterogêneo. Era a única sociedade que, em todo o império, colocava juntos
escravos e livres, judeus e gentios, ricos e pobres, homens e mulheres. Se havia muitos
pobres, iletrados, escravos e analfabetos, havia também pessoas como Crispo, Gaio,
Filemom, Erasto — sem mencionar homens como o próprio Paulo.
Então, o que Paulo estava dizendo neste versículo? Sem dúvida, o seu principal ensino é
este: ser influente ou de nascimento nobre não é um critério de ser um cristão ou de ser
espiritual. Se muitos na igreja de Corinto foram atraídos de segmentos da sociedade que não
eram muito estimados, conforme os padrões humanos, ninguém podia argumentar que a
igreja era basicamente uma organização de classe elevada, com algumas exceções, a fim de
provar quão receptiva era a igreja. Antes, a igreja era uma congregação de pessoas de classe
baixa, que tinham pouca sofisticação, para provar que os “sábios”, os “poderosos” e os “de
nobre nascimento” não eram necessariamente excluídos.
A graça de Deus pode alcançar qualquer pessoa. Contudo, ser bem reputado na
sociedade pagã não é, de modo algum, uma vantagem. Se alguém se achega a Deus com base
em alguma suposta sabedoria, riqueza ou poder, tal pessoa é necessariamente rejeitada. Se
Deus aceitasse os homens com base nesses critérios, Ele comprometeria a Si mesmo. Seria o
pior tipo de esnobe, o tipo de pessoa que é impressionada por vantagens completamente
superficiais —como um indivíduo de classe social inferior vestindo um paletó de luxo,
desesperado por ser aprovado e ansioso por bajular todo aquele que fala com linguagem
polida. Paulo insistiu que essa percepção de Deus é completamente ilógica. Deus não se
deixa impressionar pelas filosofias populares, poder político e riqueza extravagante, que o
mundo tanto admira. E os crentes de Corinto devem ter reconhecido esse ensino de Paulo e
rejeitado por si mesmos essas devoções pagãs. Afinal de contas, a simplicidade do seu
contexto de origem deve tê-los alertado quanto ao tipo de pessoa que Deus busca
frequentemente.
Essa é uma verdade que nossa geração não pode ignorar. Por que gostamos de exibir
constantemente atletas cristãos, personalidades dos meios de comunicação e cantores
populares? Por que devemos imaginar que as suas opiniões ou experiências de graça são
mais significativas do que as de qualquer outro crente? Quando conversamos com os
incrédulos sobre as pessoas de nossa igreja, pensamos imediatamente nos desprezados e
humildes que se tornaram cristãos ou gostamos de impressionar os outros com a
importância dos homens e das mulheres que se tornaram cristãos? A maioria do
evangelicalismo moderno está infectada pelo vírus do triunfalismo, e a doença resultante
destrói a humildade, minimiza a graça e tributa muita honra ao dinheiro, à influência e à
“sabedoria” de nossa época.

A justificativa teológica de Paulo (1.27-30)

A evidência empírica é que a igreja de Corinto era constituída de pessoas vindas de
diferentes contextos; porém a maioria deles não podia se orgulhar de qualquer grande
superioridade cultural. Há uma razão para isso?
Paulo insistiu que há. Deus mesmo “escolheu as coisas loucas do mundo para
envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e
Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para
reduzir a nada as que são” (1.27-28). Paulo pressupôs que as pessoas não vêm a Cristo, se Ele
não as escolhe. Portanto, se há muitos “ninguéns” que vêm a Cristo, isso significa que Cristo
os escolheu. A razão fundamental por que não há muitas “pessoas importantes” na igreja
cristã (“importantes” conforme os padrões humanos) é que Deus escolheu
preferencialmente os ninguéns.
Deus escolheu as coisas loucas, insistiu Paulo, “para envergonhar os sábios”. Isso não
significa que Ele faz com que sintam-se envergonhados, e sim que os envergonha, despreza-
os. De modo semelhante, Deus escolheu os ninguéns para “reduzir a nada” os que são
alguém (1.28). Em outras palavras, Deus se deleita em anular todas as pretensões deste
mundo rebelde. Onde os orgulhosos exibem seus poderosos intelectos, Deus escolhe o
simples; onde os ricos avaliam uns aos outros com base em seus respectivos patrimônios,
Deus escolhe o pobre; onde os líderes egoístas lutam por poder, Deus escolhe os ninguéns.
Todas “as coisas que são” — isto é, as coisas que parecem ter substância e são altamente
promovidas neste mundo caído — são reduzidas a nada. São identificadas como coisas que
não têm qualquer importância eterna, visto que Deus não vincula a salvação a qualquer
dessas coisas. De fato, Ele age para destruir a presunção de tais pessoas: Deus escolhe os
ninguéns.
A principal razão da escolha de Deus é sobremodo importante: Ele os escolhe “a fim de
que ninguém se vanglorie na presença de Deus” (1.29). Ele não somente envergonhou e
nulificou o mundo, por escolher muitas pessoas que o mundo não estima, mas também fez
isso para anular a vanglória humana. Deus age para redimir homens e mulheres caídos
porque Ele é gracioso, e por nenhuma outra razão. Deus não deve a ninguém o perdão e a
vida eterna. Se Ele outorgasse esses dons maravilhosos com base em um critério
desenvolvido pelo departamento de imigração de muitos países — quanto mais educado,
habilidoso, sofisticado e rico você fosse, tanto mais fácil lhe seria entrar no reino de Deus —,
aqueles que viessem a conhecer a Deus, por meio da fé em Jesus Cristo, teriam um motivo
legítimo para gloriarem-se. No entanto, Deus age à sua maneira “a fim de que ninguém se
vanglorie na presença de Deus” (1.29). “A minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a
minha honra, às imagens de escultura” (Is 42.8). “Por amor de mim, por amor de mim, é que
faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem”
(Is 48.11). Repetidas vezes, Paulo teve de advertir aos crentes de Corinto quanto aos perigos
de sua vanglória (cf. 1Co 3.21; 2Co 10-13). Se alguém possui uma compreensão profunda do
evangelho, terá de dizer, com Paulo: “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída” (Rm
3.27).
Em resumo, os próprios coríntios são uma prova incontestável de que a sabedoria e o
poder de Deus são radicalmente diferentes da sabedoria e do poder do mundo. O alcance da
cruz medido pelo perfil da igreja de Corinto confirma a mensagem da cruz: a salvação é o
dom gratuito de Deus, garantida pela morte ignominiosa de seu próprio Filho. Essa morte
abominável é um ato triunfante de Deus, sua obra mais admirável e poderosa, a ação por
meio da qual Ele degrada e repudia todas as pretensões humanas. A salvação de Deus
provém da graça de Deus, sendo recebida por aqueles que creem nEle — não por “pessoas
bonitas”, pelos ricos ou pelos poderosos. Os crentes de Corinto deviam entender isso
somente por considerarem o que eram quando Deus os salvou.
Entretanto, há um tipo de gloriar-se permitido aos cristãos. De fato, isso lhes é
ordenado.

Uma visão cristã do gloriar-se (1.30-31)

Paulo não estava dizendo que os cristãos não tinham do que se orgulharem. Pelo
contrário, disse-lhes que, ao gloriarem-se das coisas que eram motivo de orgulho para o
mundo, estavam se gloriando das coisas erradas.
Isso é verdade até na passagem de Jeremias à qual Paulo se reportara. Naquela
passagem, Deus não somente proíbe o sábio, o rico e o forte de gloriarem-se de suas
conquistas, mas também acrescenta: “O que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e
saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas
me agrado” (Jr 9.24). É claro que isso não é uma aprovação aos fanáticos religiosos e egoístas
que vivem por aí e reivindicam que todas as suas opiniões a respeito de tudo são corretas,
porque conhecem o Senhor. O principal ensino desta afirmação solene é que o gloriar-se
humano é maligno, pois eleva o ego ao pináculo da importância. Infelizmente, é possível isso
acontecer tanto no campo religioso como em qualquer outro. Esse tipo de gloriar é realizado
com o propósito de enaltecer-nos. E indica que estamos nos focalizando no que é efêmero e
não tem qualquer importância eterna.
A única coisa de importância transcendente para o ser humano é o conhecimento de
Deus. Esse conhecimento não pertence àqueles que se focalizam incessantemente em si
mesmos. Aqueles que chegam a conhecer verdadeiramente a Deus deleitam-se apenas em
conhecê-Lo. Ele se torna o centro de suas vidas. Tais pessoas se deleitam, se gloriam e
meditam nEle. Querem saber mais e mais como Ele é. Quando aprendem que Ele é o Deus
que exercita “misericórdia, juízo e justiça na terra”, desejam naturalmente que essas mesmas
virtudes prevaleçam — não porque seus egos estão presos a certas ideias arbitrárias de
“justiça”, e sim porque o seu foco é Deus e Ele é a fonte de suas virtudes e caráter. Eles se
gloriam em Deus.
Ora, o ato mais dramático de “misericórdia, juízo e justiça” da parte de Deus já
aconteceu — a morte de seu Filho. Por meio desse ato, Deus assegurou que inúmeros
homens e mulheres O conhecerão verdadeiramente e saberão como Ele é. “Mas vós sois dele,
em Cristo Jesus” (1.30), disse Paulo aos coríntios. Ou seja, visto que Deus os escolheu, como
o versículo anterior esclarece, eles se tornaram cristãos e, agora, estão “em Cristo Jesus”.
Foram reconciliados com Deus; sabem que Ele é eterno; provaram o bendito alívio do perdão
de seus pecados. Assim, Cristo Jesus, crucificado e ressuscitado, é Ele mesmo o plano e a
sabedoria de Deus. Ele “se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria” (1.30). Essa não é a
sabedoria do mundo, que não tem lugar para a cruz. Essa “sabedoria”, que não é fútil, nem
ostentosa e possui importância eterna, realiza mudanças eternas e traz homens e mulheres a
um profundo relacionamento com o Deus vivo.
Em poucas palavras, esta “sabedoria”, este plano, significa nada menos que nossa
“justiça, e santificação, e redenção”.[5] Para que ninguém seja tentado a pensar que a
sabedoria de Deus é nada mais do que uma versão incrementada da sabedoria do mundo,
Paulo desenvolveu-a imediatamente em termos bíblicos tradicionais. Essa sabedoria nos
assegura “justiça” (um termo que reflete nossa posição legal diante de Deus), nossa
“santificação” (um termo apropriadamente religioso que reflete a esfera exclusiva à qual
agora pertencemos) e nossa “redenção” (um termo extraído do comércio de escravos visando
expressar nossa recém-obtida liberdade do pecado, da corrupção e da morte).
Não devemos nos admirar de que Paulo terminou citando Jeremias: “Como está escrito:
Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor” (1.31). Somos tão insensatos quanto os coríntios,
quando valorizamos aquilo que não permanece, quando promovemos os valores, os planos e
os programas de um mundo que está desaparecendo, como se essas coisas tivessem
significado profundo. Esse curso de vida tão mal direcionado revela eloquentemente quão
pouco conhecemos a Deus. Pois, quanto mais conhecermos a Deus, tanto mais desejaremos
que toda a nossa existência gire em torno dEle, e tanto mais perceberemos que os objetivos e
os planos realmente importantes são aqueles que estão vinculados a Deus e à nossa
eternidade com Ele. Jesus não ensinou a seus discípulos que acumulassem tesouros no céu
(Mt 6.19-21)?
Portanto, a mensagem da cruz deve moldar nosso ministério (1.18-25). O alcance da cruz
confirma essa mensagem e nos traz de volta ao que é fundamental (1.26-31). Contudo, há
mais um elemento que devemos considerar.

O PREGADOR DA CRUZ (2.1-5)
O próprio exemplo de Paulo deve ter dito aos cristãos de Corinto que eles estavam
seguindo um caminho perigoso, pois, em sua pregação, ele mesmo se havia afastado
conscientemente da pompa retórica de seus dias. Paulo escreveu: “Eu, irmãos, quando fui ter
convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou
de sabedoria [tanto a ostentação de linguagem como a de sabedoria talvez se refiram, neste
versículo, à forma e não ao conteúdo]” (2.1).
Já se argumentou persuasivamente que Paulo aludia aos sofistas de seus dias. Muitos
movimentos intelectuais valorizavam demais a retórica. Os filósofos eram amplamente
louvados por sua oratória e seu conteúdo. Mas os sofistas levavam esses ideais a novos
ápices. Seguindo convenções rígidas e, de algum modo artificiais, esses oradores públicos
eram louvados e seguidos (e tinham alunos que lhes pagavam) em proporção à sua
habilidade de declamar em assembleia pública, de escolher um assunto e desenvolvê-lo com
persuasão e de falar efusiva e convincentemente em contextos jurídicos, religiosos,
comerciais e políticos. Eles gozavam de tanta influência no mundo mediterrâneo, e não
menos em Corinto, que os oradores públicos que não satisfaziam seus padrões, ou por
alguma razão decidiam não satisfazê-los, eram vistos como terrivelmente inferiores.
É difícil avaliarmos em nossos dias quão influente era essa devoção à retórica. Há pelo
menos uma sugestão no fato de que Paulo achou necessário lidar novamente com o assunto
em 2 Coríntios (ver 10.9-10; 11.5-6). Devemos lembrar que a retórica foi uma matéria central
em muitas das universidades do Ocidente até o começo do século XX. O surgimento da
imprensa, do rádio e, especialmente, da televisão elevou tanto a comunicação “fria”, que a
oratória “fervorosa” agora parece estranha — ou bizarra, ou perigosa. Os jornalistas
televisivos mantêm uma postura tranquila e uma voz calma quando descrevem a fome no
Sahel, reportam um terremoto que matou duas mil pessoas na China central ou anunciam
quem ganhou uma partida de basquete.
A retórica traz consigo muitos perigos. Aqueles que seguem a eloquência e percepções
bombásticas que têm pouca consistência valiosa estão fomentando seu orgulho próprio. Esse
tipo de oratória deixou Paulo inquieto. Apresenta muitas tentações que levam ao orgulho,
sendo perigosa para qualquer pessoa interessada em pregar o evangelho do Messias
crucificado.
Por isso, Paulo fez uma escolha. Ele “decidiu” (2.2) adotar um caminho mais restrito,
embora remasse contra a correnteza das expectativas culturais. Quando a pressão por
“contextualizar” o evangelho põe em risco a mensagem da cruz, ao inflar o ego humano, as
pressões culturais têm de ser ignoradas.
Dois entendimentos errôneos sobre o compromisso de Paulo têm de ser evitados com
determinação. Primeiro, seria impróprio inferir que Paulo era um orador incompetente ou
um péssimo comunicador. Quando Paulo e Barnabé estiveram em Listra, onde os padrões
sofistas de retórica exerciam pouca influência, os pagãos identificaram Paulo com Hermes, o
deus grego da comunicação (o deus que os romanos chamavam de Mercúrio), porque Paulo
era o principal dos oradores (At 14.12). Sem dúvida, Paulo demonstrava muitas habilidades
de discurso e se esforçava para melhorar a clareza e o impacto de sua apresentação. Em
Tessalônica, ele “arrazoou”, expôs e demonstrou que o Messias tinha de padecer e ressurgir
dentre os mortos (At 17.2-3). Paulo evitou a comunicação artificial que rendia aplausos ao
orador, mas distraía da mensagem. Pregadores indolentes não têm o direito de apelar a 2
Coríntios 2.1-5 para justificarem a negligência no estudo e a pregação desleixada no púlpito.
Esses versículos não proíbem a preparação diligente, a paixão, a articulação clara e a
apresentação persuasiva. Pelo contrário, eles advertem contra qualquer método que leva as
pessoas a dizerem: “Que pregador maravilhoso!”, em vez de: “Que Salvador maravilhoso!”
Segundo, estaríamos completamente errados se concluíssemos, com base nesta
passagem, que Paulo era insensível às peculiaridades culturais entre os diferentes grupos
que evangelizava. Por isso, não precisamos nos importar com essas minúcias. De fato, Paulo
era admiravelmente flexível. Isso pode ser demonstrado com clareza ao recorrermos ao livro
de Atos e compararmos o sermão de Paulo em Antioquia da Psídia, em uma sinagoga
judaica (At 13.13-41), com o seu sermão no Areópago, em Atenas, em um ambiente
completamente pagão (At 17.16-31). E pode ser determinado com mais segurança se
apelarmos aos escritos de Paulo em 1 Coríntios. Retornaremos a essa admirável flexibilidade
no último capítulo deste livro, no qual consideraremos mais atentamente algumas partes de
1 Coríntios 9. No momento, basta insistirmos que, apesar da grande flexibilidade e da
sensibilidade cultural de Paulo, elas não eram ilimitadas. Paulo traçava o limite quando
achava que o evangelho poderia estar em perigo. E pensava claramente que o evangelho era
colocado em perigo por qualquer tipo de eloquência ou retórica que não reforçava a
mensagem do Messias crucificado. O discurso inteligente, habilidoso, divertido e brilhante
pode receber aplausos calorosos dos literatos, mas não se harmoniza facilmente com o ódio
da cruz. Paulo não o utilizaria de modo algum.
Nem tampouco os primeiros puritanos ingleses. Em uma época em que os eruditos
usavam o púlpito para expor seu grande conhecimento, os puritanos resolveram falar com
simplicidade e ênfase que visavam produzir o maior bem aos ouvintes. Seus sermões eram
elaborados para beneficiar seus ouvintes com o evangelho eterno, e não para ganhar o
aplauso de outros pregadores eruditos. Quando Thomas Goodwin foi à Universidade de
Cambridge, em 1613, ele desejava rivalizar com os melhores pregadores “espirituosos”, tais
como o Dr. Senhouse, do Saint John’s College. Mas, depois de sua conversão, Goodwin
adotou o princípio puritano:
Cheguei a adotar o princípio de que eu pregaria de forma totalmente íntegra e sã, com palavras sóbrias, sem qualquer
ar de espirituosidade ou vaidade ou eloquência... e tenho prosseguido nesse propósito e nessa prática por todos esses
sessenta anos [Goodwin escrevia já no fim de sua vida]. Tenho pregado o que tenho julgado ser verdadeiramente
edificante, visando levar meus ouvintes à conversão e à vida eterna.[6]


Creio que entendo isso com maior clareza quando ouço um cristão egípcio com
extraordinária habilidade de comunicação. O árabe é uma língua que se transmite em dois
níveis. Há um tipo de árabe popular — ou, mais precisamente, há vários tipos de árabe
popular, dependendo da região — e um árabe “literário” e “culto”. Este pode ser achado não
somente em boa literatura árabe, mas também, sendo a pessoa habilidosa, pode ser achado
em suas mensagens orais. O cristão egípcio ao qual me referi era um jornalista, lido
amplamente tanto por causa do tom de sua prosa como da qualidade de seu conteúdo. Ele se
sentiu chamado por Deus para o ministério cristão, abandonou jornalismo e logo
estabeleceu uma igreja enorme. Muitos dos que frequentavam sua igreja faziam-no somente
porque gostavam muito de ouvir suas preleções.
Esse pregador se viu em dificuldades. Percebeu que as pessoas estavam mais
interessadas em sua maneira de falar do que em seu Salvador. Depois de muito auto-exame,
passou a usar um árabe mais coloquial. Seu raciocínio foi bem simples: seu propósito era
transmitir a mensagem da cruz, e chegou à conclusão de que sua retórica estava sendo um
impedimento. Esse homem entendeu o apóstolo Paulo.
O que nos impede?
Talvez eu fosse injurioso se tentasse elaborar uma lista de coisas que podem ser
impedimentos em nossa cultura, não porque ela difere de uma região para outra, e sim
porque está sempre mudando. Em vez disso, considerar de modo breve os valores que Paulo
(o pregador) expôs seria uma atitude mais sábia e tolerante.
Anuncie o testemunho de Deus. Foi isso que Paulo fez. “Eu, irmãos, quando fui ter
convosco, anunciando-vos o testemunho[7] de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem
ou de sabedoria” (2.1). Já vimos que Deus se agradou em salvar aqueles que creem “pela
loucura da pregação” (1.21), cujo foco é o conteúdo. Entretanto, Paulo escreveu sobre a
“loucura da pregação”, e não sobre a “loucura do que era discutido, comentado ou
compartilhado”. Por isso, o conteúdo da mensagem de Paulo, nesta passagem, é “o
testemunho de Deus” (ou seja, o que Deus fez em Cristo Jesus). Mas o que Paulo fez com
essa mensagem foi proclamá-la. Ele a anunciou.
Visto que “pregar” ou “anunciar” não está restrito a algo feito atrás de um púlpito de
madeira entre onze e doze horas da manhã nos domingos, é difícil evitarmos a força desta
ênfase sobre a proclamação no Novo Testamento. A razão da ênfase está na própria
mensagem. Deus toma a iniciativa, e as boas-novas são anunciadas, são proclamadas. Ele não
está negociando, e sim anunciando e confrontando. Realizada de modo correto, a pregação é
a reapresentação do evangelho de Deus, as boas-novas de Deus, pelas quais homens e
mulheres chegam a conhecê-Lo. Logo, a pregação é mediador do próprio Deus. Muitos
pregadores, temerosos de serem arrogantes, evitam falar sobre pregação. Preferem pensar
no que fazem chamando-o de “compartilhar”. Em alguns contextos restritos, não há nada
errado no “compartilhar”. Todavia, algo importante se perde quando nunca falamos ou
pensamos em pregar ou anunciar. Essa é a nossa tarefa, nossa vocação. Não é arrogante
reapresentar tão vigorosamente quanto pudermos o evangelho de Deus; ao fazermos isso,
estamos apenas cumprindo fielmente nosso dever. Além disso, se nos focalizarmos na
proclamação poderosa do evangelho, seremos menos seduzidos, pelos gritos das sereias, a
abrandarmos a inegociabilidade inerente à pregação.
Focalize-se no Cristo crucificado. Foi isso que Paulo fez. “Porque decidi nada saber entre
vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (2.2). Estas palavras não significam um novo
desvio da parte de Paulo e, menos ainda, que ele se dedicava a ignorar com prazer qualquer
coisa além da cruz. Não, estas palavras significam que o seu ensino e o seu ministério
estavam presos à cruz. Ele não podia falar sobre alegria cristã, ética cristã, comunhão cristã,
doutrina cristã ou qualquer outra coisa sem vinculá-la à cruz. Paulo se focalizava no
evangelho; sua vida centralizava-se na cruz.
Isso é mais do que um compromisso com uma confissão de fé. Revela as prioridades de
Paulo, seu estilo de vida e, nesse contexto, seu estilo de ministério. Se Paulo sustentava que
Deus se revelara de modo supremo na cruz e que seguir o Salvador crucificado e ressuscitado
implicava morrer diariamente, então, adotar um estilo de ministério triunfalista, planejado
para impressionar e receber aplausos, é uma atitude ridícula. Pelo fato de que Paulo decidira
“nada saber... senão a Jesus Cristo e este crucificado”, ele podia formular seu procedimento
na retórica.
O que significa hoje decidir “nada saber... senão a Jesus Cristo e este crucificado”? Em
sentido mais restrito, que elementos de nosso ministério precisam de revisão quando
julgados por esse padrão? Este compromisso deve moldar não somente a nossa mensagem,
mas também o nosso estilo.
Temos nos tornado tão direcionados por performance, que dificilmente percebemos
como comprometemos o evangelho. Considere um pequeno exemplo. Em muitas de nossas
igrejas, as orações nos cultos matinais servem, em grande medida, para mudar o ambiente
no santuário. As pessoas da congregação abaixam a cabeça, fecham os olhos e, quando
olham alguns minutos depois, veem os cantores nos seus lugares ou o grupo de teatro
pronto para a apresentação. Tudo acontece tão calmamente. Mas também é tão profano.
Nominalmente, estamos juntos em oração, dirigindo-nos ao Rei do céu, o soberano Senhor.
Na realidade, alguns de nós estamos fazendo isso, enquanto outros estão andando
apressadamente na ponta dos dedos ao redor da plataforma; e outros, com seus olhos
fechados, estão ocupados se perguntando que novo e agradável cenário os confrontará,
quando chegar o momento de uma olhada furtiva.
Uma performance agradável se tornou mais importante do que o temor do Senhor? A
excelência, um dos equivalentes modernos para a retórica antiga, tomou o lugar do
conteúdo? A competência profissional e a exibição primorosa se tornou mais importante do
que a consideração sóbria a respeito do que significa focalizar-se no Cristo crucificado?
Não tema a incapacidade, a fraqueza ou um senso de derrota. A verdade quanto a esse
assunto é que tais experiências são frequentemente as ocasiões em que Deus demonstra em
grande medida o seu poder. Enquanto as pessoas forem impressionadas por personalidade e
dons admiráveis, há poucas possibilidades de você impressioná-las com o Salvador
crucificado. Paulo confessou: “E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre
vós” (2.3). E isso foi tão verdadeiro que ele necessitou de um encorajamento especial da parte
de Deus (At 18.9-10). Paulo sabia que o poder de Deus é demonstrado mais grandemente em
nossa fraqueza (2Co 12.1-10). Embora ele tenha sofrido temores, doenças, fraquezas e um
tremendo senso de ser vencido pela enormidade da obra, ele não temeu o medo. A sua
fraqueza não era formada por focalizar-se na própria fraqueza. De modo algum! Ele pôde
escrever: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas
perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou
forte” (2Co 12.10). Esse é o testemunho de um homem que aprendeu a ministrar sob a cruz.
Evite resolutamente manipular as pessoas. Paulo escreveu: “A minha palavra e a minha
pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria” (2.4). Ele não estava
dizendo que nunca tentara ser persuasivo. Em outra passagem, Paulo testemunhou: “Assim,
conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens” (2Co 5.11). Mas evitava a
persuasão manipulativa; esquivava-se da pregação que induzia ou comovia as pessoas por
sua eloquência e não apresentava fielmente o evangelho. É a verdade e o poder do evangelho
que têm de mudar a vida das pessoas, e não o glamour de nossa oratória ou o poder
emocional de nossas histórias.
Anos atrás, falei em uma grande convenção de jovens na Austrália. Fiquei bastante
impressionado quando o líder e organizador daquelas reuniões dirigiu-se às 300 ou 400
pessoas e aos líderes de grupos e lhes disse que evitassem a manipulação. Assegurem-se de
que os jovens durmam bem, ele afirmou. Não queremos decisões apenas porque eles estão
tão cansados, que sua resistência está baixíssima. Não coloquem essas pessoas em
encruzilhadas emocionais que impelem a decisões; tais decisões raramente são dignas de
alguma coisa. Não envergonhem essas pessoas nem as embaracem diante dos outros.
Preguem o evangelho corretamente com sinceridade.
Esse líder estava apenas seguindo o conselho de Paulo. Estava mais interessado na
integridade da apresentação, que não podia ser divorciada da integridade do evangelho, do
que na pressão por estatísticas impressionantes.
Reconheça que um ministério centrado na cruz se caracteriza pelo poder do Espírito e se
comprova em vidas transformadas. A mensagem de Paulo era acompanhada de “demonstração
do Espírito e de poder, para que a vossa fé [a fé dos convertidos] não se apoiasse em
sabedoria humana, e sim no poder de Deus” (2.4-5).
Isso é o que precisamos: unção, a unção do Espírito, a demonstração do poder do
Espírito. Onde esse poder está presente, as pessoas não podem deixar de conhecê-lo, e a fé
dos que se convertem a Cristo está ancorada seguramente em Deus mesmo. Onde esse poder
está ausente, nada pode compensar a perda, e a fé dos novos convertidos, em certa medida,
está presa a coisas erradas.
Mas Paulo disse mais a respeito do Espírito nos versículos seguintes.

REFLEXÕES CONCLUSIVAS
A mensagem da cruz esmaga as grandes idolatrias do mundo eclesiástico: nossa
autopromoção interminável, nosso amor ao mero profissionalismo e nosso vício por métodos
bem definidos. Sem dúvida, em algumas circunstâncias pode ser errado criticar qualquer
dessas tendências. No entanto, consideradas juntas, elas formulam um padrão de ministério
que está tão distante da mensagem da cruz, do demonstrável alcance da cruz e desta
descrição neotestamentária do pregador da cruz, que temos de confessar, com vergonha, que
nos voltamos aos ídolos e por isso arrepender-nos de nosso pecado.
A pregação bíblica enfatiza o evangelho e eleva constantemente ao Cristo crucificado.
Mas também reconhece que a cruz não é apenas o nosso credo; é o padrão de nosso
ministério.

PERGUNTAS PARA REVISÃO E MEDITAÇÃO


1. Por que os seres humanos acham a cruz de Jesus Cristo tão intragável?

2. Explique o que Paulo quis dizer quando usou a expressão “a loucura de Deus”?

3. Por que Deus salva frequentemente os ninguéns? Que significado a sua resposta tem para
você mesmo?

4. O que significa “gloriar-se no Senhor”? Você se gloria dessa maneira?

5. Descreva em resumo o ponto de vista de Paulo sobre o que a pregação deveria ser, de
acordo com esta passagem.

[1] É claro que a própria NVI, em inglês, fala sobre a “loucura do que é pregado”, e não sobre “a loucura do que é discutido ou
compartilhado” ou algo semelhante. A importância da escolha da linguagem, por parte de Paulo, será abordada adiante, neste
capítulo, quando considerarmos 1 Coríntios 2.1-5.
[2] Messias e Cristo são equivalentes. Aquele procede de um contexto hebraico, e este, de um contexto grego.
[3] “Oh, Fronte ensanguentada!”, Antigo hino latino, século XIV, HCC 130 (Rio de Janeiro: JUERP, 1992).
[4] No grego, kata sarka, que significa, literalmente, “de acordo com a carne”.
[5] Algumas versões seguem a King James, que diz: “...Cristo Jesus, que se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria,
justiça, santificação e redenção” —, sugerindo haver quatro coisas que, conforme esta passagem, Cristo se torna para nós. Mas
tanto o grego como a lógica tornam mais coerente a tradução da NVI — Cristo “se tornou sabedoria de Deus para nós”; em
seguida, a sabedoria é expandida em categorias bíblicas que distinguem-na da sabedoria do mundo. Esta sabedoria significa
nossa justiça, nossa santificação, nossa redenção.
[6] Thomas Goodwin, Works, ed. J. Miller (Londres: James Nichol, 1861), 2:l xivf. Citado em: J. I. Packer, Entre os gigantes de
Deus: uma visão puritana da vida cristã (São José dos Campos: Editora Fiel, 1996), p. 80.
[7] Alguns manuscritos trazem a expressão “o mistério de Deus”, em vez da expressão (literal) “o testemunho a respeito de
Deus”. A distinção é bem sutil no grego e faz pouca diferença ao meu argumento nesta altura.
CAPÍTULO 2
A C R U Z E O ES P ÍR ITO S A NTO
1 CORÍNTIOS 2.6-16

6 Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos
desta época, que se reduzem a nada; 7 mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus
preordenou desde a eternidade para a nossa glória; 8 sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu;
porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; 9 mas, como está escrito:
Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para
aqueles que o amam.


10 Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de
Deus. 11 Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também
as coisas de Deus, ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus. 12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e
sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. 13 Disto também
falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais
com espirituais. 14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode
entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 15 Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo
não é julgado por ninguém.


16 Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo.


É irônico que uma passagem que deveria ensinar-nos a ser humildes tem sido usada por
alguns para justificar uma incrível medida de arrogância. Essas pessoas ecoam suas opiniões
acerca de quem Deus é e o que Ele está fazendo. E, se as desafiamos em qualquer ponto, elas
podem responder com as palavras de Paulo no versículo 12: “Não temos recebido o espírito
do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi
dado gratuitamente”. Várias vezes já me disseram que, por contraste, sou um daqueles que
Paulo descreve no versículo 14: “O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus,
porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”.
Em outras palavras, se você concorda com tais pessoas, é espiritual; se discorda, não é
espiritual. Pressione-os mais um pouco e lhes pergunte como sabem que sua interpretação é
a correta e que testes aceitam sobre a sua própria autoridade; a resposta talvez seja dada,
com suprema confiança, nas palavras do versículo 15: “O homem espiritual julga todas as
coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém”. Nos piores casos, isso leva a
autoritarismo flagrante — líderes egocêntricos que não prestam contas a ninguém, exceto a
si mesmos.
Quase que por reação, outros têm argumentado que esta passagem não diz nada sobre a
obra do Espírito em ajudar as pessoas a entenderem a verdade, mas somente acerca do
Espírito ajudando as pessoas a aplicarem a verdade a si mesmas. Se a interpretação bíblica é
mantida refém de algum tipo de experiência mística, eles dizem, e excluída do âmbito das
palavras, da história, da gramática e da exegese, não há um ponto de parada lógico. E, no
final do dia, estamos presos ao subjetivismo, cada um reivindicando que sua opinião foi
ensinada pelo Espírito Santo. A interpretação bíblica tem de estar por aí, no mercado das
ideias; e os intérpretes bíblicos ateístas também podem estar corretos, da mesma forma que,
frequentemente, os fiéis, os intérpretes crentes. O que acontece é que, sem o Espírito, eles
são incapazes de aplicar a si mesmos o texto que interpretam corretamente. É claro que isso
parece uma maravilhosa defesa da objetividade da verdade. Mas alguém poderia achar que
esse não é o entendimento óbvio dos versículos 12 a 16.
De fato, desde a Reforma, esses versículos têm sido usados para justificar
primariamente uma proposição bem diferente. Neste caso, o ensino tem sido o de que “o
homem natural” (2.14) se refere àqueles que estão profundamente mortos, e, por isso, é
tolice pensar que certos argumentos podem trazê-los à fé. As “coisas do Espírito” são
“loucura” para essas pessoas, que não podem “entendê-las, porque elas se discernem
espiritualmente”. Em outras palavras, o Espírito Santo tem de realizar uma obra antecedente
no coração e mente dessas pessoas, para que elas creiam. Sem essa obra, as verdades do
evangelho sempre parecerão estranhas para nós.
Essa interpretação é a mais próxima do assunto desta passagem, porém é importante
colocarmos o capítulo em seu contexto. Se devemos entender com lógica esta passagem e
descobrir como a cruz de Cristo é um tema dominante, temos de fazer duas coisas.
Em primeiro lugar, temos de assimilar com determinação o fato de que esta passagem é
uma continuação do argumento iniciado em 1.18. Conforme vimos, a última metade do
capítulo 1 exalta “a palavra da cruz” (1.18) em contraste com a “sabedoria” do mundo.
Quando Paulo falou a respeito de suas próprias prioridades como pregador (2.1-5), ele ainda
pensava na mensagem da cruz. O conteúdo de sua “mensagem” e sua “pregação” não eram
“linguagem persuasiva de sabedoria”, e sim “Jesus Cristo e este crucificado” (2.2). Portanto,
quando Paulo prossegue e insiste que sua mensagem era uma mensagem de “sabedoria”
(2.6), não devemos pensar que ele havia mudado para uma nova mensagem. Não, ele ainda
falava sobre o que significava a afirmação “os poderosos deste século” crucificaram “o
Senhor da glória” (2.8). Em outras palavras, Paulo não estava introduzindo outro assunto, um
novo discurso de sabedoria esotérica. Ele ainda estava focalizado na mensagem da cruz — e
não entenderemos este capítulo, se não tivermos isso em mente.
Segundo, temos de observar que o argumento nestes versículos é estabelecido
amplamente em termos de três contrastes predominantes. Esses contrastes se sobrepõem
um pouco e precisam ser entendidos corretamente.

Primeiro contraste: aqueles que recebem a sabedoria de Deus e aqueles que não a recebem (2.6-
10a)

Paulo já havia mostrado (1.18-25) que a mensagem do Messias crucificado, que o mundo
julgava loucura, é realmente a mais sublime demonstração da sabedoria de Deus. Para
alguns, a cruz é uma mensagem de fraqueza e loucura, mas para os que creem em Cristo essa
mensagem é “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1.24). Nesta altura, Paulo queria
desenvolver um pouco mais aquilo que, nesta sabedoria, torna-a impossível de ser
reconhecida pelas pessoas, em especial quando elas mesmas têm buscado ostensivamente a
sabedoria de Deus.
Paulo começa estabelecendo o contraste. Ele acabara de explicar sua própria resolução
de evitar a retórica manipuladora, a eloquência, mas não quis aventurar-se a dar a impressão
de que a mensagem da cruz é “loucura” em todos os sentidos: “Entretanto, expomos
sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos
poderosos desta época, que se reduzem a nada” (2.6). A única palavra neste versículo que
tem desencadeado discussão interminável é a palavra experimentados, às vezes traduzida
como “perfeitos”. Com muita frequência, essa palavra está conectada a um subconjunto de
todos os verdadeiros crentes, ou seja, os crentes “experimentados”. Em outras palavras,
entendida dessa maneira, ela nos apresenta implicitamente uma distinção na comunidade de
cristãos: há crentes experimentados; há crentes não experimentados — um ensino que Paulo
apresenta no início do capítulo 3, conforme veremos.
Mas essa interpretação não se enquadra nesta passagem. O vocábulo “experimentados”,
neste contexto, deve se referir a todos os cristãos, que amam a mensagem da cruz, em
contraste com o mundo, que a rejeita. Por que Paulo escolheu esta palavra — experimentados
— para descrever todos os cristãos neste contexto? Ele não podia ter imaginado que ela
conduziria a todos os tipos de interpretação errônea?
É quase certo que Paulo a escolheu por que os coríntios amavam-na — e amavam aplicá-
la a si mesmos. Pensavam de si mesmos como “experimentados” e, sem sugerirem que Paulo
não era um verdadeiro cristão, pensavam que ele e sua mensagem eram inexperientes. No
capítulo seguinte, Paulo achou necessário dizer-lhes que, na igreja cristã, eles eram os não-
experimentados (3.1-4). Mas, antes de chegar lá, Paulo tinha de desafiar a classificação
fundamental deles. Todos os cristãos são “experimentados” no sentido de que estão em
harmonia com a mensagem da cruz, enquanto todos os outros, por definição, não estão. A
mensagem de Cristo crucificado é única linha divisora na raça humana.
O argumento de Paulo é claro. Assim como a nossa “mensagem de sabedoria” não é “a
sabedoria deste século” (2.6), assim também aqueles que aceitam a mensagem da sabedoria
de Deus não pertencem a este século. De fato, “a sabedoria deste século”, embora seja
exposta pelos poderosos desta época, permanece sem valor eterno. Os poderosos “se
reduzem a nada” (2.6). Por que os cristãos deveriam se apaixonar pelos heróis que ganham os
aplausos efêmeros de um mundo decadente e, sob uma perspectiva eterna, não têm qualquer
importância? Isso recorda aos leitores aquilo que o salmista descreve: não somente o
perverso desaparecerá, mas também “o caminho dos ímpios perecerá” (Sl 1.6).
A expressão “os poderosos desta época” não é uma referência aos demônios ou mesmo
aos líderes políticos, e sim àqueles que regem a aparência e os valores de qualquer época — o
“sábio”, o “escriba” e o “inquiridor”, citados em 1.20, e os “sábios”, os “poderosos” e os “de
nobre nascimento”, citados em 1.26. Eles são os melhores que o mundo pode apresentar, mas
se opõem à mensagem da cruz. Por que, então, deveríamos nos colocar ao lado deles no que
diz respeito ao que é importante?
A sabedoria deles não tem valor decisivo. Não é o que nós proclamamos. “Não”,
escreveu Paulo, enfatizando a diferença entre os “poderosos” e aquilo que o cristão valoriza,
“mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou
desde a eternidade para a nossa glória” (2.7). Essa “sabedoria”, a sabedoria da cruz, é
caracterizada por três coisas: Primeira, a sabedoria é, literalmente, a sabedoria “em
mistério”. É a sabedoria que esteve oculta por muito tempo, mas agora foi revelada. Esse é o
significado predominante do vocábulo mistério no Novo Testamento. Isso mostra que Paulo
considerava a mensagem da cruz como algo que estivera oculto no passado, mas fora
revelada em sua época.
Precisamos considerar mais atentamente isso. Os escritores do Novo Testamento
disseram constantemente que a vinda de Jesus Cristo e das boas-novas que Ele trouxe
haviam sido profetizadas nas Escrituras antigas. Nesta e noutras passagens, Paulo (e outros
escritores do Novo Testamento) argumentou que a vinda de Jesus Cristo e de suas boas-
novas estava oculta no passado, mas foi revelada. Como se pode dizer que, por um lado, o
evangelho havia sido profetizado e agora cumprido; e, por outro lado, estivera oculto e fora
revelado agora?
Essa é uma pergunta difícil, e alguns dos assuntos mais debatidos na história da igreja
estão vinculados a ela. Não posso explicar essas coisas aqui. Mas observo que, em uma
passagem notável, Paulo ousou apresentar esses dois temas juntos. E, no final de Romanos,
ele escreveu:
Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a
revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos, e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio
das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações, ao Deus
único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos. Amém! [Rm 16.25-27 — ênfase
acrescentada].


Isso é admirável. De uma só vez e ao mesmo tempo, Paulo disse que o evangelho esteve
“guardado em silêncio nos tempos eternos”, mas agora se tornou manifesto e conhecido por
meio da revelação das Escrituras proféticas! Então, o evangelho está oculto ou não?[8] Se ele
esteve oculto, como se tornou conhecido por meio das Escrituras? Se o evangelho é revelado
por meio das Escrituras, como podemos dizer que esteve oculto, visto que o Antigo
Testamento sempre existiu entre os judeus, por muito tempo?
Creio que o argumento de Paulo é este: apenas crer no Antigo Testamento não é
suficiente. Afinal de contas, até que se tornasse um cristão, ele mesmo cria fervorosamente
no que hoje chamamos de Antigo Testamento — mas isso não lhe garantiu achar ali a
mensagem do Messias crucificado. Foi somente quando ele se encontrou com o Jesus
ressuscitado, na estrada para Damasco, que foi compelido a reexaminar toda a estrutura de
suas crenças. E passou a entender o Antigo Testamento com nova percepção. Descrevi
brevemente um pouco desse entendimento de Paulo no primeiro capítulo deste livro.
A verdade é que muito do Antigo Testamento aponta para Jesus, tanto em profecia
como em termos ocultos — em tipos, sombras e estruturas de pensamento. O sistema de
sacrifícios prepara o caminho para o supremo sacrifício. O ofício do sumo sacerdote antecipa
o supremo intermediário entre Deus e os homens pecadores, o homem Jesus Cristo. A
Páscoa revela a ira de Deus e provê uma figura do último Cordeiro pascal cujo sangue desvia
aquela ira. O anúncio da nova aliança (Jr 31) e de um novo sacerdócio (Sl 110) pronuncia, em
princípio, a obsolescência da aliança e do sacerdócio antigos.
Hipoteticamente, se houvesse pessoas perfeitas capazes de observar o que estava
acontecendo, pessoas que tivessem um coração imaculado para Deus, elas poderiam ter
cumprido muito bem os padrões e entendido o plano. Todavia, o mundo tem sido habitado
por pecadores, desde a Queda, e as Escrituras do Antigo Testamento, outorgadas por Deus,
foram constantemente, em certa medida, mal compreendidas. E o fato de que essa má
compreensão era um erro humano foi pressuposto por Jesus mesmo, quando Ele repreendeu
seus seguidores, dizendo: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas
disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lc
24.25-26).
No entanto, ao mesmo tempo, essas coisas tinham de ser ocultadas. Se todas as profecias
a respeito de Jesus fossem bastante claras, absolutamente específicas e inequívocas, alguém
não poderia imaginar como o Sinédrio, Pôncio Pilatos e Herodes erraram tão radicalmente
no que fizeram. De fato, eles mesmos teriam entendido. Contudo, Paulo diz empiricamente
que nenhum deles entendeu: “Sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século
conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória”
(2.8). Assim, o plano sábio de Deus era usar seres humanos ímpios para cumprir seus
propósitos de redenção. Foi a sua graça e sabedoria inigualáveis que proveram revelação
suficientemente clara para que os acontecimentos para os quais ela apontava fossem
entendidos depois de consumados; bem como revelação suficientemente ocultada para que
pecadores rebeldes interpretassem-na de modo errado e estruturassem-na de maneiras
incorretas.
Portanto, a mensagem de “sabedoria”, a mensagem da cruz que proclamamos é “a
sabedoria de Deus em mistério”, uma sabedoria que esteve oculta, em grande medida, por
muito tempo, até que o Messias fosse crucificado.
Segunda, essa sabedoria sempre foi o plano de Deus, que a destinou “desde a
eternidade para a nossa glória” (2.7). Paulo não desejava que algum de seus leitores pensasse
que a manifestação presente dessa sabedoria, oculta no passado, identificava-a como uma
nova ideia, uma mudança recente nos pensamentos de Deus. Não, de maneira alguma. Na
mente de Deus, essa sabedoria se estendia à “eternidade”. Foi Deus mesmo quem decidiu
trazê-la agora à plena revelação; em poucas palavras, Ele a “preordenou desde a eternidade
para a nossa glória”.
Esse é um pensamento maravilhoso, abordado pelos outros autores do Novo
Testamento. Pedro disse que foi revelado aos escritores do Antigo Testamento “que, não para
si mesmos, mas para vós outros, ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por
aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho” (1Pe 1.12). Jesus
Cristo foi “conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim
dos tempos, por amor de vós” (1Pe 1.20). Em um nível, até algumas das lições morais obtidas
dos tristes relatos do fracasso e defeitos humanos, na antiga aliança, contribuem para o
nosso bem — “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para
advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1Co 10.11).
Os grandes heróis da fé, na antiga aliança, não receberam eles mesmos o que fora prometido,
“por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem
aperfeiçoados” (Hb 11.40).
Implicitamente, é claro que isso significa que os cristãos de Corinto estavam cometendo
a mais admirável tolice por adotarem as posições expostas pelas autoridades mais apreciadas
de uma cultura que não conhecia a Deus. Deus determinou propositadamente trazer seu
plano de redenção à consumação na vida de todos os que creem e permanecem ao lado da
cruz. Então, por que eles deveriam menosprezar essa herança incomparável do Deus todo-
poderoso, por se tornarem apaixonados pelas ilusões efêmeras daqueles que negam a cruz e
são formadores de opinião, os quais pertencem a uma época que está desaparecendo? Isso é
tão irônico e trágico.
De fato, a ironia começa com a morte brutal de Jesus. As autoridades que crucificaram
Jesus estavam, de certo modo inconscientemente, realizando os propósitos de Deus. Como o
disseram os primeiros cristãos, em sua oração: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta
cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios
e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At
4.27-28). As autoridades achavam que estavam destruindo um pretenso messias. De fato,
estavam executando ilegal e imoralmente “o Senhor da glória”. Achavam que eram tão
sábios, tão politicamente astutos; na verdade, por meio de sua tolice realizaram, conforme a
perfeita providência divina, o plano sábio de Deus — aquele plano que eles rejeitaram como
loucura. Graça admirável: nos sábios propósitos de Deus, eles mataram o Senhor da vida.
Paulo conclui seu argumento citando as Escrituras, num aparente amálgama de Isaías
64.4 e 65.17, conforme o texto grego do Antigo Testamento que ele usou — “Nem olhos
viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem
preparado para aqueles que o amam” (2.9). É claro que não, pois naquele tempo o plano
sábio de Deus ainda estava “oculto”, ainda era um “mistério” — estava amplamente
escondido. “Mas”,[9] agora, “Deus no-lo revelou” (2.10).
Embora essas palavras sejam frequentemente citadas em funerais para referirem-se à
glória que espera o crente depois da morte (o que é, com certeza, um bom pensamento),
Paulo usou essas palavras para se referir ao que estava oculto no passado, mas fora revelado
aos crentes.
Descobrimos mais uma vez quão impiamente medíocre é a atitude de honrar com nossa
lealdade os cativantes formadores de opinião de nossos dias, se não têm qualquer
entendimento da cruz. Recebemos o formidável privilégio de beneficiar-nos do infinitamente
sábio plano divino de redenção. Venderemos essa herança maravilhosa por algo ilusório e
sem valor?
Não há espiritualidade profunda e estável que não reconheça que conhecer a Deus e
estar reconciliado com Ele, por meio do Messias crucificado, é um privilégio sobremodo
profundo.
No entanto, há um terceiro elemento que caracteriza a sabedoria de Deus. Paulo se
referiu muito pouco a esse elemento, que se avulta em sua apresentação e se torna o foco do
segundo contraste. É este: embora Deus tenha trazido o seu plano extremamente sábio à
fruição no evangelho do Messias crucificado, as pessoas ainda não creem. Ainda não
percebem que o plano de Deus é sábio. Se nós os “experimentados” chegamos a assimilar o
evangelho, isso acontece porque “Deus no-lo revelou pelo Espírito” (2.10).
Em outras palavras, houve um ato público de auto-revelação de Deus na crucificação de
seu próprio Filho, mas tem de haver uma obra particular de Deus, por meio de seu Espírito,
na mente e coração do homem. Isso é o que distingue o crente do não-crente, os
“experimentados” das pessoas deste século e dos poderosos desta época. Se vemos a verdade
do evangelho, isso não se deve à nossa percepção, nem ao nosso brilhantismo. Isso é obra do
Espírito Santo. Se devemos expressar gratidão incondicional a Deus pelo dom de seu Filho,
também devemos expressá-la pelo dom do Espírito, que nos capacita a compreender o
evangelho de seu filho.
E isso nos traz ao segundo contraste.

Segundo contraste: o Espírito de Deus e o
espírito do mundo (2.10b-13)

Já aprendemos que aqueles que recebem a sabedoria de Deus, a mensagem da cruz, são
distinguidos “deste século” pelo Espírito de Deus, que lhes revela essa sabedoria. Mas, por
que essa ajuda de fora seria necessária? “Conhecimento é conhecimento”, alguém poderia
afirmar. “Se Deus se revelou em acontecimentos genuínos na história, por que Ele deveria
ainda ser tão inacessível para algumas pessoas? Apesar de tudo que dizem, os cristãos não
estão fazendo um apelo a um tipo de conhecimento esotérico e instável que ninguém pode
desfrutar?”
Observe, porém, como a pergunta foi apresentada. Foi expressa tão-somente em termos
de conhecimento empírico — como o tipo de conhecimento que se baseia nos experimentos
respeitáveis de laboratório de química. Mas todos somos intuitivamente cônscios de outras
dimensões de “conhecimento”. Por exemplo, nossa observação de um acontecimento
histórico concreto, no qual estávamos presentes, ou nosso conhecimento de pessoas ou de
um indivíduo em particular está vinculado a um tipo de experiência pessoal que não é
estritamente repetível. Quão mais difícil é entendermos exatamente o que significa conhecer
a Deus, um Ser de ordem diferente dos relacionamentos horizontais que nos ocupam
costumeiramente!
Acrescente mais um fator: o problema é não somente que Deus é muito maior do que
nós, mas também que somos tão rebeldes, que distorcemos a maior parte da informação que
Ele nos proveu graciosamente a respeito de Si mesmo. Se estamos profundamente infectados
com o “espírito do mundo” (v. 12), se a “sabedoria humana” (v. 13) é aquilo de que
dependemos regularmente, temos de reconhecer, com vergonha, que em 1 Coríntios 1-2
Paulo não nos dá uma estimativa elevada dessas vantagens.
O ensino de Paulo é que a possibilidade de conhecer a Deus e de entender seus
caminhos não pertence a qualquer ser humano como um componente essencial de seu ser. A
distância é muito grande; nosso egocentrismo é muito profundo. E nada na “sabedoria deste
século” (v. 6) pode ajudar-nos.

A sabedoria própria desta época é... aquela que surge e está caracterizada por rebelião contra Deus; representa
(embora pareça esplêndida e espiritual — ou científica) a criatura tentando garantir sua posição contra o Criador; em
resumo, essa sabedoria (no que diz respeito ao homem) é antropocêntrica.[10]


A revelação se torna necessária. O agente que a produz em nós é o Espírito Santo.
Entre os seres capazes de conhecimento — humanos, anjos, Deus —, há barreiras
elevadas que impedem um ser de entender completamente o que o outro está pensando. Não
importa se eu conheço bem a você, nunca saberei quais são todos os seus pensamentos. Não
importa quão bem você me conhece, nunca saberá tudo a meu respeito. Quanto menos
entenderemos os pensamentos do anjo Gabriel, quando, por assim dizer, ele falou a Maria
(Lc 1.26-38). Contudo, o único ser conhecível que sabe todos os pensamentos, até os
pensamentos de Deus, é o próprio Deus. Ou, afirmando-o de outra maneira: “O Espírito a
todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus” (2.10b).
É claro que a palavra espírito é flexível na Bíblia. Ela pode ser usada para se referir ao
interior de um ser humano, ao “homem interior”, sendo quase idêntica à palavra mente.
Assim, quando Paulo perguntou: “Qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu
próprio espírito, que nele está?” (2.11), ele pretendia dizer que os pensamentos de cada ser
humano estão, em grande medida, velados para os demais seres humanos. Somente a
própria pessoa sabe o que ela mesma está pensando. De fato, esta é uma limitação humana:
“Qual dos homens sabe” os pensamentos de outrem? Deus não conhece qualquer limitação
quando examina os nossos pensamentos. Nós enfrentamos essa limitação, quando tentamos
discernir os pensamentos de outra pessoa, exceto os nossos próprios. Usando a mesma
linguagem de “espírito” Paulo reforça o seu argumento: “Assim, também as coisas de Deus,
ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (2.11). Isso significa que, se temos de
entender a Deus, pensar os seus pensamentos, à sua maneira, e conhecê-lo verdadeiramente,
temos de receber o Espírito de Deus. Não podemos achá-Lo por nós mesmos.
No entanto, nós já recebemos o Espírito de Deus; isso é que nos torna cristãos. “Nós não
temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus” (2.12), e o propósito
desse dom é “que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”. Agora vemos,
com clareza, as duas dimensões primárias da revelação. A primeira ocorre no cenário
público. As palavras “o que por Deus nos foi dado gratuitamente” referem-se à cruz do
Messias e tudo que Ele realizou por nós. Recebemos essas coisas da incomparável graça de
Deus. Ele deu “gratuitamente” essas coisas a seu povo. A cruz realiza a redenção do povo de
Deus; também manifesta a sua insondável sabedoria, mostrando publicamente um plano
que esteve misericordiosamente oculto nas eras passadas.
O fato triste, porém, é que, apesar dessa revelação, não queríamos entender o que Deus
nos outorgou gratuitamente. Esse entendimento depende de uma segunda dimensão de
revelação, uma dimensão que acontece na pessoa. Sem essa dimensão, ninguém jamais teria
entendido o que Deus revelou a respeito de Si mesmo e de sua sabedoria no cenário público.
Nossa ignorância, nosso egocentrismo profundo, nosso amor à ostentação, ao poder e ao
prestígio não nos permitiam entender a cruz ou o quanto necessitávamos dela. Em poucas
palavras, nossa condição de criaturas perdidas exigia a obra do Espírito de Deus, a fim de
que entendêssemos “o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (2.12).
Que grande Deus nós temos! Ele não somente nos redimiu por meio da ignominiosa
crucificação de seu Filho amado, mas também nos enviou seu Espírito para nos capacitar a
entender o que Ele fez. Éramos tão insensatos e cegos, que nem mesmo queríamos começar a
compreender “o que por Deus nos foi dado gratuitamente”, se Deus não tivesse dado esse
passo adicional.
Mas foi o mesmo Espírito que impulsionou Paulo a pregar a mensagem da maneira
como ele o fez. Paulo escreveu sobre essa mensagem: “Disto também falamos, não em
palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas
espirituais com espirituais” (2.13). O texto grego desta última sentença é difícil,[11] mas a
tradução “expressando verdades espirituais em palavras espirituais” provavelmente é a
correta. O que isso significa? Certamente significa algo assim: em seu ministério, Paulo,
impulsionado pelo Espírito, explicava as coisas espirituais (a mensagem da cruz, incutida
pelo Espírito nas pessoas, v. 12) em palavras espirituais — ou seja, em palavras apropriadas à
natureza da mensagem. Em outras palavras, Paulo insistiu que foi o próprio Espírito Santo
quem o ensinou a evitar a “sabedoria de palavra”, que esvazia a cruz de seu poder (1.17), e
quem o levou a abster-se do tipo de pregação retórica e imaginativa caracterizada por
“linguagem persuasiva de sabedoria” (2.1-5).
Acima de tudo, Paulo se focalizava na mensagem da cruz. O espírito do mundo não
pode achar sentido para a cruz; o Espírito de Deus capacita aqueles que O têm a entender a
cruz. Esse mesmo Espírito impulsiona os homens espirituais, como Paulo, a pregá-la e a
ensiná-la de modo apropriado. Eles evitarão resolutamente toda exibição ostentosa,
abandonarão toda manipulação barata e se sentirão felizes em sustentar o escândalo da cruz,
pois a cruz foi o instrumento de sua redenção. Eles ficarão atentos quanto a uma pregação
evangélica que fala muito sobre Deus satisfazendo nossas necessidades e capacitando-nos a
sentir-nos satisfeitos, se tal pregação não estiver apoiada na mensagem da cruz. Desejarão
usar uma linguagem clara, transparente, poderosa, verdadeira, sincera, compassiva,
cativante, centrada na cruz — uma linguagem “espiritual” apropriada à mensagem espiritual
que estão transmitindo. Eles reconhecem que o Espírito de Deus, que abriu os seus olhos
para aceitar a cruz, também os ensina a proclamar a “Cristo crucificado” de um modo que se
conforma com a humilhante imensidão da mensagem.

Terceiro contraste: o homem natural e o
homem espiritual (2.14-16)

Alguém talvez ache que Paulo falou demais ao abordar esses contrastes fundamentais.
Ele contrastou aqueles que recebem a sabedoria de Deus com aqueles que não a recebem
(2.6-10a), ele contrastou o Espírito de Deus com o Espírito do mundo (2.10b-13). Por que esse
passo adicional? Não seria redundante?
Paulo queria ter certeza de que seus leitores assimilariam a sua completa dependência
do Espírito Santo, pois nenhuma outra coisa humilharia tanto as suas intermináveis
pretensões de grandeza, todo o espírito de divisão, o egocentrismo e a falta de amor que
acompanha de perto a bajulação. Essa foi a razão por que o apóstolo deu esse passo
adicional.
Paulo contrastou o “homem natural” (v. 14) com o “homem espiritual” (v. 15). Ao
terminarmos de considerar esse contraste exposto por Paulo, perceberemos com clareza por
que devemos ter o Espírito Santo, se buscamos achar sentido no evangelho. Paulo disse duas
coisas a respeito daqueles que não têm o Espírito, as pessoas naturais.
Primeiramente, ele insistiu que tais pessoas não aceitam “as coisas do Espírito de Deus”
por uma única razão: tais coisas lhes “são loucura”. Neste ponto, Paulo não estava
enfatizando que todos os seres humanos que não têm o Espírito são incapazes de receber as
coisas espirituais (embora isso seja exatamente o que ele diria em seguida), e sim que
empiricamente eles fazem isso. E como eles podem fazer tal coisa? Ninguém deseja aceitar
aquilo que julga ser loucura. O que eles consideram loucura, no contexto de 1 Coríntios 1 e 2,
é a mensagem de Cristo crucificado, a “loucura da pregação” que salva os que creem (1.21).
Essas verdades maravilhosas, redentoras e transformadoras de vidas, procedentes do
Espírito Santo, são rejeitadas como tolice, pois estão relacionadas com um Messias que não
se enquadra facilmente nas inclinações triunfalistas de seres humanos autônomos. Essa é a
conclusão de 1 Coríntios 1.18-25 e 2.10b-13.
Em segundo, Paulo insistiu que os seres humanos não podem “entendê-las, porque elas
se discernem espiritualmente” (2.14, ênfase acrescentada). Essa é a verdade que
complementa o versículo 12. Ali, aprendemos que o Espírito nos foi dado (isto é, dado aos
crentes), “para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”. Neste
versículo, Paulo excluiu a possibilidade de que alguém possa entender as coisas espirituais
sem a ajuda do Espírito. O foco é a nossa completa incapacidade.
Lembro-me de haver dado uma cópia do livro Cristianismo Básico, de John Stott, a uma
brilhante aluna de graduação na Universidade de Cambridge, vinte anos atrás. Alguns meses
depois entrei em contato com ela, para saber o que fizera com o livro. Ela disse que lera todo
o livro e se mostrara tão desconfiada, que examinou realmente muitas das referências
bíblicas, para assegurar-se que o autor não estava tentando incutir-lhe algo sorrateiramente.
Ela chegara a uma conclusão: o cristianismo era ótimo para pessoas boas, mas não para ela.
Isso não é admirável? Como uma brilhante aluna de graduação compreendia tão
erroneamente o que Stott estava falando? De algum modo, nada do que ele dissera se
harmonizava para ela. As coisas de Deus permaneciam como loucura para ela, porque são
discernidas espiritualmente.
É claro que muitas vezes Deus usa meios diferentes e demorados para produzir
entendimento. Eu e outros conversamos com ela profundamente sobre o evangelho, e, no
devido tempo, ela se tornou cristã. Todavia, já conversei com muitos que não se tornaram
cristãos. Qual é o fator de distinção entre aqueles com os quais conversei e se tornaram
cristãos, como essa moça, e aqueles com os quais conversei, mas permaneceram incrédulos?
A distinção crucial é o dom do Espírito Santo. Vários obreiros cristãos podem fazer o seu
melhor, porém, usando a analogia que Paulo emprega no capítulo seguinte, Paulo planta a
semente, e Apolo rega-a, mas somente Deus pode fazer a planta crescer e produzir fruto
(3.7).
O que temos de lembrar sempre é que essa incapacidade humana de entender as coisas
espirituais é uma incapacidade digna de culpa. Deus não nos criou com uma constituição
incapaz de entendê-Lo, nem brinca conosco para obter divertimento. Pelo contrário, Ele nos
fez para Si mesmo, mas fugimos dEle. O âmago de nosso estado de perdição é a profunda
focalização em nós mesmos. Não queremos conhecer a Deus, se esse conhecimento tem de
ocorrer nos termos dEle. Ficamos felizes em ter uma divindade que podemos manipular.
Não queremos um Deus perante o qual temos de admitir que somos rebeldes de coração e
mente, que não merecemos o seu favor e que nossa única esperança é a sua graça perdoadora
e transformadora. Certamente, não podemos sondar um Criador poderoso que toma o lugar
de um criminoso detestável, para salvar-nos do julgamento que merecemos.
Ou, mais precisamente, não podemos sondar essas coisas, a menos que tenhamos o
Espírito de Deus. Isso é o que significa, neste contexto, ser um “homem espiritual” (v. 15). O
homem espiritual é o homem que tem o Espírito de Deus. O Espírito descortina percepções
de entendimento que, de outro modo, permaneceriam opacas para nós. “O homem espiritual
[isto é, a pessoa que tem o Espírito] julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por
ninguém” (2.15).
Infelizmente, esse versículo tem sido removido de seu contexto para justificar a mais
terrível arrogância. Algumas pessoas acham-se especialmente espirituais e cheias de
discernimento; pensam que esse versículo as autoriza, a elite dos eleitos, a fazer julgamentos
infalíveis em um grande espectro de assuntos. Além disso, elas insistem que são tão
espirituais, que os outros não têm o direito de julgá-las. Afinal de contas, o apóstolo não
disse que o “homem espiritual... não é julgado por ninguém”?
Isso não corresponde à verdade. No contexto, o “homem espiritual” é a pessoa que tem
o Espírito Santo, em contraste com o homem que não tem o Espírito. Em poucas palavras, o
“homem espiritual” é o cristão, e não o membro de uma elite de cristãos. Quando Paulo
disse que “o homem espiritual julga todas as coisas”, neste contexto, ele não estava
significando todas as coisas em sentido pleno — como se a pessoa espiritual, o cristão, seja
especificamente equipado para julgar as evidências científicas em favor de um quark
específico ou maravilhosamente preparado para avaliar a mais recente técnica do uso de
cortisona para aliviar a bursite.
As distinções do contexto têm de prevalecer. Como alguém disse: “A pessoa profana não
pode entender a santidade; mas a pessoa santa pode entender as profundezas do mal”.
Aqueles que são habitados pelo Espírito de Deus podem discernir todas as coisas, incluindo
as pessoas que não têm o Espírito; mas o inverso não é possível”.[12] Em poucas palavras,
quando Paulo disse: “O homem espiritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado
por ninguém” (2.15, ênfase acrescentada), “todas as coisas” inclui o âmbito da experiência
moral e espiritual, desde o paganismo mais rude até ao que significa ser um verdadeiro
cristão. O cristão vive em ambos os mundos e pode falar sobre ambos, com base na
experiência, na observação e numa compreensão genuína da Palavra de Deus. Mas a pessoa
que não tem o Espírito de Deus não pode julgar as coisas do âmbito espiritual — assim como
um daltônico não pode fazer distinções precisas sobre os tons maravilhosos das cores de um
pôr-do-sol ou de um arco-íris, ou como um surdo não tem capacidade de comentar a
harmonia da Quinta Sinfonia, de Beethoven, ou a voz e a técnica de Pavarotti.
É importante pensar sobre as implicações deste versículo. Na sociedade ocidental
contemporânea, os cristãos estão constantemente sendo chamados de ignorantes e incapazes
de entender o mundo real. Paulo disse o contrário: os cristãos são capazes, como os outros
pecadores, de entender a complexa e emaranhada natureza do pecado, de compreender as
maneiras como raciocinam os “pretensiosos” seres humanos autônomos e de explicar o que
é o mundo para os pagãos modernos em nossa era pós-moderna. Mas, devido ao fato de que
receberam o Espírito de Deus, também são capazes de dizer algo prudente e verdadeiro a
respeito de como é o mundo aos olhos de Deus. Podem falar sobre a beleza da santidade, o
plano divino de redenção e reconciliação, o julgamento por vir e a natureza da nossa
condição desesperadora. Em resumo, eles podem falar sobre o Cristo crucificado. Podem
falar com ardor e compromisso, com base na experiência purificadora de haverem sido
perdoados por meio da morte de Outrem, que em amor se ofereceu em benefício de um
rebelde. Eles podem explicar quão grande diferença isso faz quando pensam sobre o futuro e
planejam suas prioridades. Podem examinar juntos (embora não concordem sempre) como
deveria ser uma sociedade cristã. E, capacitados pelo Espírito, podem mostrar, por suas
vidas, como uma sociedade deveria ser, à medida que homens e mulheres redimidos estão
“sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22). E tudo isso os torna mais
abrangentes em sua perspectiva do que os seus contemporâneos pagãos. A perspectiva
restrita é mantida pelo pecador que nunca provou a graça, pelo ser humano caído que nunca
desfrutou de discernimento transformador, proporcionado pelo Espírito, quanto aos
propósitos sábios de Deus.
Com base nessa perspectiva, é insensatez — essa não é uma palavra forte demais —
exaltar a perspectiva do mundo e cobiçar secretamente sua visão limitada. Isso era
aparentemente o que os crentes de Corinto estavam fazendo; isso é o que estamos em perigo
de fazer toda vez que adotamos os distintivos de nosso mundo, amamos os seus ídolos e
buscamos seus aplausos.
Paulo concluiu seu argumento com uma citação bíblica extraída de Isaías 40.13: “Pois
quem conheceu a mente[13] do Senhor, que o possa instruir?” (1Co 2.16). No contexto de
Paulo, a citação se aplica de duas maneiras. Por um lado, ela é um importante lembrete de
que ninguém pode sondar as profundezas dos pensamentos de Deus e muito menos
confrontar seu juízo com o de Deus. Em nossa finitude e pecado, não conhecemos por nós
mesmos a mente do Senhor. Consideraremos loucura a sua sabedoria. Não daremos ao
Messias crucificado o seu devido lugar. A menos que o Espírito nos ilumine, os pensamentos
de Deus permanecerão profundamente estranhos para nós.
Mas, por outro lado, Paulo disse: “Nós, porém, temos a mente de Cristo” (2.16). Essa é
outra maneira de dizer que recebemos o Espírito de Deus (vv. 11-12) e, por isso, entendemos
um pouco da sabedoria de Deus, a sabedoria da cruz. Isso nos separa do mundo. E,
implicitamente, o mundo também não nos entenderá. Portanto, Paulo usou a citação de
Isaías 40 para apoiar sua afirmação no versículo anterior: “O homem espiritual... não é
julgado por ninguém”. Ele não quis dizer que os cristãos não têm nada a aprender dos não-
cristãos ou que sempre estão isentos de correção e repreensão (até da parte dos não-cristãos).
Antes, Paulo queria dizer que a mente de Cristo é estranha para o incrédulo; e, visto que
temos a mente de Cristo, também seremos estranhos para os incrédulos.
Esta passagem nos recorda as palavras de Jesus:

Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo
amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.
Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também
perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Tudo isto, porém, vos farão por
causa do meu nome, porquanto não conhecem aquele que me enviou (Jo 15.18-21).


Em poucas palavras, o abismo que existe entre o homem espiritual e o homem natural é
imenso. O precipício que há entre o mundo e o povo de Deus é intransponível, sem a obra do
Espírito de Deus. Portanto, algo terrivelmente trágico acontece quando os crentes começam a
desejar os aplausos deste mundo perdido.

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque
tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai,
mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus
permanece eternamente (1Jo 2.15-17).

REFLEXÕES CONCLUSIVAS

Há várias lições praticas importantes que a igreja precisa aprender desta passagem.
Duas dessas lições são particularmente relevantes para a igreja contemporânea.
O que significa ser “espiritual” está profundamente ligado à cruz, e a nada mais. Ou, em
termos mais exatos, ser espiritual, nesta passagem, implica ter o dom do Espírito Santo — e
isso significa entendimento e apropriação da mensagem da cruz, “a sabedoria de Deus em
mistério”. Para o apóstolo Paulo, ser espiritual não conduz à atitude de parecer superior aos
outros, a círculos íntimos de santos especialmente dotados, a elitismo espiritual. Nesta
passagem, há somente uma divisão fundamental na raça humana. De um lado estão aqueles
que não têm o Espírito de Deus, os quais por consequência ignoram, de maneira culposa, a
mensagem do Messias crucificado. Do outro lado, estão aqueles que têm o Espírito, que, por
consequência, assimilam a mensagem da cruz.
Isso não é uma negação do fato de que existe gradação de maturidade entre os
espirituais. De fato, Paulo introduzirá algo sobre isso no próximo capítulo. Mas aqueles que
são mais maduros na jornada cristã não podem afirmar que são “mais espirituais”, no
sentido de que pertencem a uma classe separada de crentes. Eles não têm o direito de
reivindicar percepção especial que vai além da capacidade de assimilação dos cristãos
normais. A pessoa espiritual é apenas um crente que se apegou à mensagem da cruz. Na
verdade, aqueles que são mais maduros são agradecidos pela cruz e recorrem continuamente
a ela como a medida do amor de Deus por eles e como o supremo padrão de abnegação
pessoal.
A coerência exige que o homem espiritual rejeite a sabedoria do mundo e abrace a
“sabedoria de Deus em mistério”, sem reservas. Quando a sabedoria, tal como acontece
nestes dois capítulos de 1 Coríntios, é concebida como uma filosofia popular de vida e não
somente como os dons saudáveis do bom senso ou coisas semelhantes, há apenas duas
alternativas: em última análise, ou a sabedoria é do mundo e se opõe a Deus, ou é outorgada
por Deus e está vinculada à cruz. Não há meio termo. Aqueles que tentam criar um meio
termo, imitando os coríntios — que confessavam o Jesus da cruz e cujos corações eram
constantemente atraídos para uma ou outra das filosofias populares e aos valores do
momento —, esses não ganharão nada, exceto a reprovação das Escrituras.
Essa lição é especialmente importante quando tantos cristãos de nossa época se
identificam com um “tema singular” (um conceito extraído da política), e não com a cruz, e
não com o evangelho. Se forem pressionados, eles apoiarão enfaticamente o evangelho. Mas
seu ponto de auto-identidade, o foco de sua mente e coração, o que ocupa suas energias e
interesses, é algo mais: um estilo de adoração, a questão do aborto, educação no lar, o dom
de profecia, psicologia popular, certo tipo de aconselhamento, ou seja lá o que for. É claro
que todos esses assuntos têm sua importância. Sem dúvida precisamos de cristãos que
trabalhem neles de tempo integral. Mas aqueles que têm ministérios engajados nesses
assuntos devem cumpri-lo como uma extensão do evangelho, uma extensão da mensagem da
cruz. Eles devem se esforçar de modo especial para não transmitir a impressão de que ser
realmente espiritual, ou sábio, ou criterioso implica uma resposta apropriada à questão na
qual estão engajados.
Ouvi um líder menonita avaliar seu próprio movimento dessa maneira. Uma geração de
menonitas apreciava o evangelho e acreditava que o evangelho subentendia certos
compromissos sociais e políticos. A próxima geração dissimulou o evangelho e enfatizou os
compromissos sociais e políticos. A geração atual se identifica com tais compromissos,
enquanto o evangelho é confessado de modo diferente ou mesmo negado. O evangelho não
está mais no centro do sistema de crenças de alguns que se chamam menonitas.
Quer queiramos, quer não, essa é uma interpretação correta sobre os menonitas e, com
certeza, uma advertência saudável para muitos evangélicos. Já estamos naquele estágio em
que muitos líderes evangélicos dissimulam a mensagem da cruz e não lhe atribuem muita
ênfase. O seu foco está em outras coisas. E alguns, conforme penso, estão em perigo de se
distanciarem dos principais componentes da mensagem da cruz, embora ainda ministrem
no contexto do evangelicalismo. Talvez sejamos a geração de crentes que destruirá muito do
cristianismo histórico no evangelicalismo — não, em primeira instância, por meio de
incredulidade, e sim por trazermos questões relativamente periféricas ao ponto em que, de
modo funcional, substituam aquilo que é essencial. E qual será o fim dessa tendência?
Temos de retornar à cruz e ao plano redentor de Deus que se centraliza na cruz,
tornando isso o âmago de nossa auto-identificação. Temos de resistir, conscientemente, a
todas as bajulações de movimentos, filosofias e sistemas de valores que toleram a cruz,
promovem-na nominalmente, mas, na realidade, substituem-na. Temos de reconhecer que
ser sábio, ser espiritual, significa apegar-nos, com a ajuda do Espírito de Deus, à mensagem
do Messias crucificado.
Além disso, temos de insistir, com o mesmo vigor de Paulo, que essa percepção quanto à
mensagem da cruz não pode ser obtida sem a obra do Espírito. Como reagiremos, então, em
relação àqueles que nos dizem que isso parece uma maneira esotérica de lidar com o
conhecimento? Alguém pode com segurança deixar de lado a exegese árdua, as palavras e
contextos dos livros bíblicos, o difícil encargo de estudar e pensar, trocando-os por alguma
forma de afirmação subjetiva de que está sendo guiado pelo Espírito? Podemos nos livrar
deste encargo, colocando-nos ao lado daqueles que dizem que o Espírito Santo não nos
capacita a entender o texto, mas somente a aplicá-lo a nós mesmos?
Essa reação extrema não é menos problemática do que o subjetivismo que ela procura
evitar. Contra o mal de uma abordagem vaga e mística da exegese bíblica, ela restringe o
papel do Espírito Santo a mera aplicação — embora, levando em conta esse papel, 1
Coríntios 2.14 exija algo mais consistente do que essa reação.
O que pode ajudá-lo a pensar claramente a respeito dessa questão é reconhecer que 1
Coríntios 2 não está preocupado com a mecânica de como em geral as pessoas entendem a
sua Bíblia ou com a qualidade de uma escola específica de exegese de um texto hebraico. De
qualquer maneira, é evidente para qualquer cristão que tenha lido amplamente sobre essa
área de conhecimento que um incrédulo confesso pode produzir, com frequência, uma
excelente exegese de uma ou outra passagem bíblica — uma exegese melhor do que a
produzida por aqueles que têm menos experiência, mas, pela graça de Deus, possuem o
Espírito de Deus. Contudo, Paulo não estava abordando questões gerais de epistemologia.
Não estava nem mesmo esclarecendo como uma pessoa chega ao conhecimento do que
significam algumas passagens específicas das Escrituras. O foco de Paulo era a mensagem
fundamental do Messias crucificado. E isso, Paulo insistiu, é fundamentalmente
incompreensível à mente humana sem o Espírito.
Mas (alguém poderia dizer) certamente existem pessoas que podem articular a
mensagem da cruz e não crer nessa mensagem. Nesse sentido, eles a entendem, mas não
creem nela. Tudo de que necessitam é aplicá-la a si mesmos. Nesse caso, não é o papel do
Espírito reduzi-la a mera aplicação?
Suspeito que isso produz uma falsa dicotomia entre o entendimento e a aplicação. Paulo
não estava dizendo que ninguém, entre judeus e gentios, não entendia, em alguma medida, a
mensagem da cruz em seus dias. Alguns deles, incluindo Paulo (Saulo) antes de sua
conversão, sabiam bem o que os cristãos acreditavam sobre a cruz e podiam resumi-lo com
exatidão. Nesse sentido, eles entendiam a mensagem da cruz. No entanto, alguém entendia
verdadeiramente essa mensagem à parte do quebrantamento, contrição, arrependimento e
fé? Repetir mecanicamente a natureza da transação que os cristãos julgam ter acontecido no
Gólgota é uma coisa; olhar para Deus e sua santidade, para as pessoas e seus pecados sob a
perspectiva da cruz transforma a vida. Então, o que Paulo disse é que nosso egocentrismo,
nosso pecado é tão profundo que não podemos ver realmente a cruz sem a obra do Espírito.
O que o Espírito realiza em nós é mais do que mera aplicação da verdade já assimilada. O
ensino de Paulo é que assimilar genuinamente a verdade da cruz e ser transformado não
pode ser separado — ambos dependem por completo da obra do Espírito.
Percebemos isso com clareza quando perguntamos por que alguns que podem articular
formalmente a mensagem da cruz, mas não se tornam cristãos. Em última análise, isso
acontece porque eles não pensam que a mensagem é verdadeira. E por que não? Bem, talvez
porque acham que a mensagem seja um tanto primitiva. Ou talvez julguem difícil acreditar
que Jesus ressuscitou dos mortos. Ou talvez construam um tipo de cristianismo cheio de
altruísmo e amabilidade, mas concluem que o ensino do Novo Testamento sobre o Messias
crucificado é um supérfluo opcional, um componente não essencial do “cristianismo”.
Todavia, em qualquer dos casos, só podem dar esse passo se introduzem algum conteúdo filosófico ou
teológico que os capacite a remover a centralidade da mensagem da cruz. Em outras palavras, eles
introduzem consciente ou inconscientemente uma das sabedorias deste mundo e, por isso,
não compreendem a mensagem da cruz. No nível mais profundo, eles não a entendem. A
razão desse fracasso não está no âmbito da epistemologia aparentemente neutra. Está, sim,
em nossa profunda teimosia, nosso auto-interesse condenável, nossa alienação de Deus,
nossa correspondente recusa de reconhecer quão perdidos estamos. Para sairmos desse
estado de perdição, necessitamos do poder do Espírito de Deus. Essa é a razão por que, ao
tratarmos da assimilação da mensagem do Cristo crucificado, isso nunca é uma questão de
avaliar com neutralidade as evidências.
Assimilar verdadeiramente que o Deus eterno, nosso Criador e Juiz, enviou, motivado
por sua graça indizível, o seu Filho para sofrer a horrível morte de um criminoso detestado,
para que fôssemos perdoados e reconciliados com Ele; que esse plano sábio foi levado à
conclusão por meio de líderes pecaminosos que pensavam estar controlando os
acontecimentos e agiam impulsionados por interesses egoístas, enquanto, de fato, Deus
estava realizando os seus propósitos redentores; que nossa única esperança de vida na
presença deste Deus santo e amoroso está em nos entregarmos sem reservas à sua
misericórdia, recebendo com fé o dom do perdão comprado por preço elevado — tudo isso é
impossível sem a obra do Espírito.
Os cristãos dizem, com incessante temor e gratidão: “Deus no-lo revelou pelo Espírito”
(1Co 2.10a).

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO


1. Como esta passagem é, às vezes, abusada por pessoas que usam-na para justificar sua
própria autoridade espiritual? Como você responderia a essas pessoas?

2. Quem são os “experimentados” neste capítulo? Quem são os “espirituais”?

3. Por que Paulo chama o evangelho de “sabedoria de Deus em mistério”? O que isso
significa?

4. Por que devemos ter o Espírito de Deus, para compreendermos o evangelho?

5. Por que Paulo achava que os cristãos tinham uma perspectiva mais ampla e maior
conhecimento do que os incrédulos? Que diferença isso deve fazer em nossa perspectiva
quanto à vida?

[8] É possível traduzir o versículo de maneira um pouco diferente, mas a força da tensão que descrevi não é amenizada.
[9] Alguns manuscritos trazem “por” em lugar de “mas”, no começo do versículo 10. Nesse caso, o fluxo do pensamento seria
um pouco diferente. A primeira parte do versículo seria o fundamento da verdade de que Deus preparou essas coisas para
aqueles que o amam — pois Deus nos revelou essas coisas pelo seu Espírito. Todavia, o pensamento geral não é alterado: as
coisas que não foram percebidas pela mente, ouvido e coração humano, essas coisas nos são agora reveladas. Talvez eu devesse
acrescentar que a sintaxe do versículo 9 é um tanto difícil. Traduzido de maneira um tanto pedante, o versículo talvez diria: “O
que nenhum olho viu, o que nenhum ouvido ouviu, o que nenhuma mente imaginou, isso é o que Deus tem preparado para
aqueles que o amam”.
[10] C. K. BARRET , A commentary on the First Epistle to the Corinthians (New York: Harper & Row, 1968), p. 70.
[11] No grego, all en didaktois pneumatos, pneumatikois pneumatika sugkrinontes. As três principais opiniões são: (1) NVI, em
inglês: “expressando verdades espirituais em palavras espirituais”; (2) NVI, em inglês, margem: “interpretando verdades
espirituais para homens espirituais”; (3) King James Version, em inglês: “comparando coisas espirituais com espirituais”. Os
fatores interpretativos determinantes são dois: (a) o significado de sugkrinontes. Esse verbo ocorre somente três vezes em todo o
Novo Testamento. As outras ocorrências também se acham noutra epístola de Paulo (2Co 10.12, onde ocorre duas vezes), cujo
contexto sugere que o verbo significa “comparar”. Muitos intérpretes julgam isso razão suficiente para se alinharem com a
King James Version, a terceira opinião. Insistem que o verbo nunca tem o sentido de “explicar” ou “interpretar”, quer no
grego clássico, quer nas outras duas ocorrências do verbo no Novo Testamento. Isso é correto. Contudo, duas entre três não é
uma vantagem estatística convincente. E, mais importante ainda, esse verbo significa regularmente “explicar” ou “interpretar”
na Septuaginta, que representa o tipo de tradução grega do Antigo Testamento da qual Paulo extraiu muito de seu vocabulário
religioso. E, sendo as outras coisas iguais, esse é o significado mais lógico para esta passagem. (b) O significado de pneumatikois
na última sentença. Esse termo se refere a “palavras ensinadas pelo Espírito” (entendendo-a no gênero neutro) ou a “pessoas
espirituais” (entendendo-a no masculino)? Se a interpretarmos no segundo sentido, talvez antecipando o argumento do
versículo 14, a segunda opinião (NVI, em inglês, margem) é correta. De fato, a sintaxe favorece muito o primeiro significado;
pneumatikois se refere a didaktois pneumatos e justifica a primeira opinião (NVI, em inglês). Se pneumatikois se referisse à pessoa,
deveríamos esperar a ocorrência de um artigo.
[12] Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 118.
[13] Embora a Septuaginta, o Antigo Testamento grego, se refira neste versículo à mente do Senhor, esta é a sua tradução da
expressão hebraica “o espírito do Senhor” — em um uso bem semelhante ao de 1 Coríntios 2.11.
CAPÍTULO 3
A C R U Z E O S EC TA R IS MO
(1 CORÍNTIOS 3)

1 Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais, como a crianças em Cristo. 2 Leite
vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda
sois carnais. 3 Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?
4 Quando, pois, alguém diz: Eu sou de Paulo, e outro: Eu, de Apolo, não é evidente que andais segundo os homens?


5 Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um.
6 Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. 7 De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que
rega, mas Deus, que dá o crescimento. 8 Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão,
segundo o seu próprio trabalho. 9 Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós.


10 Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre
ele. Porém cada um veja como edifica. 11 Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é
Jesus Cristo. 12 Contudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno,
palha, 13 manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual
seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. 14 Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou,
esse receberá galardão; 15 se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que
através do fogo.


16 Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? 17 Se alguém destruir o santuário de
Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado.


18 Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar
sábio. 19 Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na
própria astúcia deles. 20 E outra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos.
21 Portanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: 22 seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a
vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, 23 e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus.


Poucas passagens do Novo Testamento têm sido abusadas, por escritores e pregadores,
mais do que esta.
Em primeiro lugar, grandes segmentos do cristianismo têm apelado a esta passagem
para apoiar a doutrina do purgatório. Ensina-se que, diferentemente do inferno, o purgatório
é uma experiência temporária. Os cristãos que têm pecados não confessados vão ao
purgatório e sofrem ali por um tempo, até Deus julgar que estão prontos para o céu. Essa
pessoa será salva “como que através do fogo” (1Co 3.15). Esta é a única passagem do Novo
Testamento que tem uma chance remota de apoiar a doutrina do purgatório; portanto, é
importante que entendamos o que a passagem significa. Falando de um modo geral, aqueles
que aceitam a doutrina do purgatório fundamentam muito da força de seu argumento não
no Novo Testamento, nem no Antigo, mas nos livros apócrifos e na tradição da igreja.
Em segundo (e mais comumente no evangelicalismo, em especial o evangelicalismo
americano), alguns recorrem a esta passagem para estabelecer uma divisão tríplice da raça
humana. De um lado, está o “homem natural” (2.14), a pessoa que não tem o Espírito de
Deus, o não-regenerado. Do outro lado, está o “homem espiritual” (2.15), o cristão que anda
com o Senhor, em obediência alegre e frutificação. Entre os dois, está o homem “carnal” (3.1-
4), aquele que é um cristão, tem certeza do céu, mas não vive de maneira distinta do mundo.
Somos ensinados que “esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo”. As obras
que ele ou ela tiver feito serão “queimadas”; essa pessoa “sofrerá... dano” (3.15).
Em um nível superficial, essa interpretação parece bastante plausível, até que alguém
observa (conforme veremos) que o versículo 15, o qual se refere a sofrer o dano e ser salvo
como que através do fogo, não aplica essa linguagem ao crente mundano ou carnal.
Certamente, há algo que é chamado de crente carnal ou mundano, mas a teoria do “crente
carnal” assumiu, em anos recentes, extremos bizarros que têm pouca relação com o ensino
deste capítulo de 1 Coríntios. Quando lembramos que esta é a única passagem do Novo
Testamento que usa essa linguagem, somos forçados a reconhecer: é importante que
tenhamos a interpretação correta da passagem.
Duas observações preliminares nos impelirão ao rumo certo.
1. Este capítulo, 1 Coríntios 3, é parte de um argumento extenso que se desenvolve de
1.10 até 4.21. Basicamente, Paulo estava abordando o espírito de divisão, o sectarismo ímpio,
que impregnava a igreja de Corinto. Alguns da família de Cloe o haviam informado de que
alguns membros da igreja diziam: “Eu sou de Paulo”; ou: “Eu, de Apolo”, ou de alguém
mais. Esse tema ainda está presente no capítulo 3 (vv. 5-6, 21-23) e se estende até ao capítulo
4 (ver 4.6). O problema do sectarismo estava profundamente arraigado na igreja de Corinto, e
isso talvez possa ser comprovado pelo fato de que Paulo sentiu a necessidade de falar
amplamente sobre a natureza e a centralidade do amor (1Co 13), mostrando-o como o
caminho que o cristão deve seguir, o “caminho mais excelente” (1Co 12.31). Portanto, a nossa
maneira de interpretar 1 Coríntios 3 tem de se enquadrar no argumento que o apóstolo
desenvolve desde 1.10 ate 4.21.
2. Embora nestes capítulos Paulo tenha abordado diretamente o sectarismo pernicioso
dos crentes de Corinto, ele não fez isso por atacar os dois problemas que estavam por trás do
sectarismo e o fortaleciam. O primeiro desses problemas era a má compressão do evangelho
e, em particular, da centralidade da cruz. Em termos pragmáticos, o amor deles pela
ostentação, o prestígio, a retórica, a aprovação social e a “sabedoria” louvada publicamente
— em resumo, o seu triunfalismo rude — demonstrava que não refletiam de maneira
profunda as implicações do evangelho do Messias crucificado. Essa foi a razão por que Paulo
gastou tanto tempo falando sobre tais assuntos nos dois primeiros capítulos da epístola.
Contudo, a segunda má compreensão demonstrada por esses crentes barulhentos se referia
à natureza da liderança cristã. Visto que alguns cristãos diziam: “Eu sou de Paulo [ou de
Apolo, ou Cefas, ou de Wesley, ou de Calvino]”, atribuindo a alguns líderes cristãos o ponto
primordial de sua identificação, eles não entendiam verdadeiramente a natureza da
liderança cristã. Corrigir essas compreensões errôneas foi o que ocupou o apóstolo em 1
Coríntios 3 e 4.
Paulo elabora três argumentos no primeiro destes dois capítulos.

O SECTARISMO REVELA UMA ESPIRITUALIDADE IMATURA, PERVERSA E
INACEITÁVEL (3.1-4)
Embora Paulo estivesse para repreender os coríntios de maneira severa, nem por um
momento ele pensou que eles não eram cristãos. Afinal de contas, eles tinham o Espírito de
Cristo, como ele acabara de explicar no capítulo 2. Para Paulo este era o fato determinante:
“Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). No coração, eles
tinham aceitado realmente a mensagem do Cristo crucificado, ainda que sua vida não
estivesse conformada a essa mensagem. Além disso, Paulo desejava que aqueles cristãos
reconhecessem que os reputava como irmãos. Essa foi a razão por que neste capítulo dirigiu-
se a eles chamando-os de “irmãos” (3.1).
Contudo, mesmo não dizendo aos seus leitores que eles não tinham o Espírito de Deus,
o que Paulo disse é chocante: “Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais [isto
é, aqueles que têm o Espírito]” (3.1, ênfase acrescentada). Em vez disso, Paulo se dirigiu a
eles “como a carnais”. A palavra grega aqui traduzida é sarkinos (A palavra que Paulo usava
costumeiramente para significar “carne” era sarx). A palavra latina equivalente é “carnal”. É
por isso que chegamos a usar a expressão “crente carnal”. Não há dúvida de que existe tal
coisa. Mas o que é um “crente carnal”, um “crente mundano”? Entenderemos o que Paulo
disse se seguirmos quatro passos.
Primeiro, a expressão crente carnal é potencialmente enganosa. A palavra carnal tornou-
se associada com o pecado sexual (entendemos com clareza o sentido da expressão “desejo
carnal”). E nessa conjuntura Paulo não estava acusando os crentes de Corinto de lascívia ou
conduta sexual imprópria. Essa talvez seja a razão por que algumas versões da Bíblia usam a
palavra “mundano” para traduzir sarkinos, pois sugere um erro mais amplo do que apenas o
pecado sexual.
Segundo, a palavra sarkinos, em si mesma, significa simplesmente algo como “feito de
carne” — ou seja, meramente humano. A mesma palavra se acha em 2 Coríntios 3.3, onde
Paulo diz que na nova aliança a lei de Cristo está escrita “não em tábuas de pedra, mas em
tábuas de carne, isto é, nos corações” — literalmente, “corações de carne”. Nesta passagem,
não há necessariamente qualquer conotação de coisas más. Então, o que Paulo estava
dizendo em 1 Coríntios 3.1 era que descobrira que não podia falar àqueles crentes como a
“espirituais” (ou seja, pessoas que tinham o Espírito), mas tinha de dirigir-se a eles como a
“carnais” (ou seja, pessoas que não tinham o Espírito).
Portanto, embora, por um lado, Paulo acreditasse que seus leitores possuíam o Espírito
de Deus e os chamou de “irmãos”, por outro lado, sentiu que não podia dirigir-se a eles
como pessoas que tinham o Espírito. Essa foi a razão por que ele teve de reapresentar-lhes os
elementos básicos do evangelho nos dois primeiros capítulos da epístola. O que eles eram?
Eles tinham ou não o Espírito? Eram cristãos ou não? Paulo explicou nesta linguagem
paradoxal: eles eram “crianças em Cristo” (3.1). Sim, eles eram cristãos. Sim, tinham o
Espírito. Mas, em certas particularidades, ainda a serem delineadas, não agiam como pessoas
que tinham o Espírito. Paulo os julgou espiritualmente imaturos — horrivelmente,
inaceitavelmente, espiritualmente imaturos. E acrescentou: “Leite vos dei a beber, não vos
dei alimento sólido; porque ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis” (3.2).
Quando minha filha nasceu, minha esposa se viu incapaz de alimentar nosso bebê. Isso
me proporcionou o privilégio de servir-lhe a alimentação da meia-noite. Tiffany era um
sonho: eu podia preparar o alimento, trocá-la, dar-lhe toda a mamadeira e colocá-la de volta
no berço em 20 minutos.
Depois, nasceu o nosso filho. A alimentação da meia-noite era horrível no caso dele.
Embora tivesse um grande apetite, ele sugava e bebia em apenas três velocidades: devagar,
quase parado e parado. E o pior: ele tinha de arrotar em pequenos intervalos de tempo
durante a alimentação — isso tornava o processo dolorosamente lento; pois, do contrário, ele
manifestaria seu admirável dom de lançar vômito. Sem aviso prévio, ele poderia expelir o
que havia engolido e enviá-lo a cinco metros de distância através da sala. Se houvesse uma
competição olímpica de regurgitar, ele ganharia uma das medalhas. Nunca o coloquei de
volta no berço antes de uma hora; o mais comum era uma hora e meia.
Pelo menos, ele tinha uma desculpa. Era bebê, e seu aparelho digestivo não era tão bem
desenvolvido como o de sua irmã na mesma idade. O melhor de tudo — ele superou essa
etapa rapidamente. Há cristãos que, falando em referência à vida espiritual, são
regorgitadores de categoria internacional, mesmo depois de anos e anos de vida. Não podem
digerir o que Paulo chamou de “alimento sólido”. Temos de dar-lhes leite, pois não estão
prontos para mais nada. E, se tentarmos dar-lhes outra coisa que não seja leite, eles vomitam
e fazem uma bagunça com tudo e todos ao seu redor. Em alguma medida, o número de anos
que têm como cristãos leva-nos a esperar deles um comportamento maduro, mas nos
desapontam. Ainda são bebês e manifestam sua imaturidade na maneira como reclamam, se
lhes damos mais leite. O conhecimento sólido das Escrituras não é para eles, nem a reflexão
teológica, nem o pensamento cristão crescente e perspicaz. Não querem nada mais do que
outra sessão de cânticos ou uma “mensagem simples” — algo que não os desafie a pensar, a
examinar sua vida, a fazer escolhas e a crescer no conhecimento e adoração do Deus vivo.
Os crentes de Corinto eram terrivelmente imaturos.
Terceiro, essa imaturidade era algo pelo que eles teriam de prestar contas.
Diferentemente de meu filho, que não podia evitar sua condição, Paulo considerou essas
pessoas de Corinto responsáveis por seu “mundanismo”. Ele deixou isso claro numa
pequena mudança de vocabulário nos versículos 1 a 3. A palavra traduzida “carnais”, no
versículo 1, é sarkinos, como já falamos. Nas duas ocorrências de “carnais” nos versículos 2 e
3, a palavra traduzida é sarkikos. Se existe uma diferença de significado entre as duas
palavras, é esta: enquanto sarkinos significa “feito de carne” ou “constituído de carne” (e isso
se refere àqueles que agem como se não tivessem o Espírito, mas são apenas humanos,
“carnais”), sarkikos significa algo como “característico da carne humana”. Em outras
palavras, essa palavra assume imediatamente conotações morais. A vida humana, sem o
Espírito de Deus, não é neutra; tem certas características que são totalmente repreensíveis.
Esse significado de sarkikos se torna claro de seu uso em 2 Coríntios 1.12. Nesta passagem,
Paulo testifica: “Com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na
graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco” (ênfase
acrescentada). Em outras palavras, Paulo se comportou não em harmonia com a “sabedoria”
que reflete o ponto de vista da natureza humana pecaminosa, e sim em harmonia com a
graça de Deus. De modo semelhante, em 1 Coríntios 3.3 Paulo disse aos coríntios que eles
estavam agindo da maneiras que eram características das pessoas que não têm o Espírito —
de pessoas que, por não terem o Espírito, não possuem nada em que possam se amparar,
exceto a sua própria natureza pecaminosa, sua natureza “carnal”. Estavam agindo como
pagãos.
Quarto, Paulo deu consistência a essa acusação. É muito importante assimilar que
evidência ele citou para apoiar sua conclusão de que os crentes coríntios eram carnais. Já
vimos uma dessas evidências: Paulo os achou presos no estágio do “leite”. Não estavam
crescendo em seu entendimento e aplicação da Palavra de Deus, em sentido geral, e do
evangelho, em sentido específico. Mas Paulo acrescentou mais duas evidências, relacionadas
entre si: (1) os crentes de Corinto manifestavam “ciúmes e contendas” (3.3). Visto que
manifestavam esses pecados, eram carnais (sarkikos), exibindo o que era característico da
natureza humana caída. Eles agiam “segundo o homem” (3.3), ou seja, como se não tivessem
o Espírito. (2) Os crentes de Corinto haviam sucumbido ao sectarismo: um grupo afirmava
seguir a Paulo, outro se associava com o nome de Barnabé, outro, com o de Pedro, e assim
por diante (1.11-12; 3.4). O sectarismo e todas as animosidades triviais que ele produz são
características do “homem” — não de homens e mulheres que possuem o Espírito do Deus
vivo.
Isso é o que Paulo quis dizer com a expressão cristão “carnal” ou cristão “mundano”
(adotando a expressão mais comum). Paulo não tinha em mente alguém que fizera uma
profissão de fé, seguiu na jornada cristã por algum tempo e retornou a um estilo de vida
indistinguível, em todos os aspectos, do estilo de vida do mundo. Afinal de contas, os
crentes de Corinto estavam se congregando para adoração (1Co 14), invocavam o nome do
Senhor Jesus Cristo (1.2), tinham dons espirituais extraordinários (1.5, 7; 12-14), lutavam com
questões teológicas e éticas (1Co 8-10) e estavam em contato com o apóstolo cujo ministério
os trouxera ao Senhor. Em vez de se entregarem à carne, ao mundo e ao diabo, eles buscavam
a experiência espiritual, embora às vezes imprudentemente.
É claro que, se cristãos professos se afastam por muito tempo, alguma classificação
adicional tem de ser achada para eles. Paulo tinha uma dessas classificações. Em 2 Coríntios,
depois de haver descoberto que a igreja de Corinto, apesar da restauração temporária, havia
sucumbido novamente aos falsos apóstolos (2Co 11.13) e a um estilo de vida que não se
gloriava na cruz (2Co 10-13), Paulo se sentiu forçado a transmitir essa exortação severa:
“Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não
reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” (2Co 13.5). Em
outras palavras, se o seu afastamento do evangelho se tornara bastante sério, Paulo
questionou se eram realmente crentes. E isso aconteceu em um momento em que a igreja de
Corinto ainda se mantinha unida como um corpo de cristãos professos.
Isso significa que não devemos aplicar a expressão “cristão carnal” ou “cristão
mundano” a qualquer pessoa que fez uma profissão de fé, talvez anos atrás, e que, durante
muitos anos, tem vivido sem qualquer evidência de possuir a fé, a vida, o arrependimento, os
valores ou interesses cristãos. Nesses casos, é mais provável que estejamos lidando com
conversões espúrias.
Uma vez que isso seja claro, o ensino de Paulo se torna vigoroso. Aqueles que têm o
Espírito e, portanto, se harmonizam com a mensagem da cruz (1Co 2), espera-se que
amadureçam rapidamente. Esse amadurecimento se revelará em uma capacidade crescente
de receber mais e mais verdades cristãs (3.2). Também se manifestará em uma atitude de
coração sensível que evitará contendas e ciúmes, recusando-se a mergulhar no sectarismo. Se
alguns que têm o Espírito são lentos em mostrar essa maturidade crescente, a interpretação
mais gentil é que eles são “carnais”. Nessas questões, eles estão agindo como “homens”, e
não como cristãos capacitados pelo Espírito Santo. Eles são vergonhosa, inaceitável e
espiritualmente imaturos.

O SECTARISMO IGNORA DUAS VERDADES IMPORTANTES SOBRE OS
LÍDERES CRISTÃOS (3.5-17)
Essas verdades podem ser delineadas facilmente: 1. Os líderes cristãos são apenas
servos de Cristo e não devem receber aquela submissão reservada unicamente para Deus.
2. Deus cuida de sua igreja e tem os seus líderes como responsáveis pela maneira como
a edificam.
Não menos importante do que essas duas verdades era a maneira como Paulo as
estabeleceu. Ele formulou seu argumento retratando duas analogias, uma da agricultura (3.5-
9) e a outra da arquitetura (3.9b-15), acompanhando-as de uma pergunta retórica poderosa e
uma conclusão alarmante (3.16-17).

A analogia extraída da agricultura (3.5-9a)

Depois de repreender os cristãos de Corinto por sua imaturidade espiritual, atestada por
suas contenções e apego faccioso a líderes humanos específicos, Paulo julgou necessário
dizer algo a respeito de como esses líderes deveriam ser vistos. “Quem é Apolo? E quem é
Paulo?” A resposta é devastadoramente simples: “Servos por meio de quem crestes, e isto
conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co 3.5). Os líderes cristãos são, em primeiro
lugar, “servos”. Neste contexto, Paulo não quis dizer “servos da igreja”, e sim “servos de
Jesus Cristo”, pois o servir se realiza “conforme o Senhor concedeu a cada um”. Além disso,
eles são chamados especificamente de “servos de Cristo” em 1 Coríntios 4.1. Se o Senhor
Jesus mesmo designou a cada um a sua tarefa, é insensato classificá-los de acordo com o seu
trabalho. Esses servos não obtiveram seu status por ambição e “dons naturais” (como se no
mundo de Deus houvesse qualquer dons que Ele não tenha dado!), mas por designação
específica do Senhor. Cumprindo as responsabilidades que lhes foram confiadas, eles se
tornaram os agentes que trouxeram os coríntios à fé — “Servos [de Cristo] por meio de quem
crestes” (3.5).
Agora Paulo apresenta a analogia extraída da agricultura. Em uma grande fazenda,
talvez uma pessoa plante a semente, e outra a regue, mas somente Deus pode fazê-la crescer.
Cumular o semeador de louvores impróprios e exclusivos significa ter uma percepção muito
limitada; elogiar somente aqueles que fazem a irrigação e esquecer aqueles que semeiam
significa ser míope. Em todos os casos, é Deus quem faz as coisas crescerem. Ele não deve
ser louvado?
Embora os trabalhadores sejam encarregados de diferentes tarefas, eles “são um” (ou
seja, “têm um só propósito”, 3.8, NVI). Nenhum dos deveres dos trabalhadores tem
importância independente. É na agregação das tarefas, coroadas pelo próprio Deus, que faz
as coisas crescerem, que por fim chega-se à colheita. Sem dúvida, cada servo “receberá o seu
galardão, segundo o seu próprio trabalho”. Paulo não queria negar a importância da
fidelidade e do empenho individual. Mas, no que diz respeito à grande tarefa às mãos —
fazer as coisas crescerem e trazê-las à colheita —, é importante levar em conta todo o quadro.
“Somos cooperadores... de Deus” (3.9), Paulo afirmou. O apóstolo não estava dizendo que
ele, Apolo, outros cooperadores e Deus estavam no mesmo nível. Pelo contrário, Paulo estava
afirmando que ele, Apolo e qualquer outro cooperador eram apenas colegas de trabalho,
serviam na mesma obra, possuídos e usados por Deus. A expressão de Deus neste versículo é
possessiva. Somos cooperadores, disse Paulo, e somos de Deus. É claro que, no caso de Paulo,
ser servo de Jesus Cristo e um dos cooperadores de Deus significa a mesma coisa.
Todo o âmbito da analogia se torna claro. O campo representa os coríntios e pertence a
Deus (“lavoura de Deus... sois vós”, 3.9). Os que trabalham no campo são pessoas como
Paulo e Apolo e pertencem a Deus (“de Deus somos cooperadores”, 3.9). Deus é o dono do
campo e dos trabalhadores. Ele atribui aos trabalhadores as suas tarefas, e somente Ele pode
fazer a semente crescer.
Antes de prosseguirmos à próxima analogia, temos de assegurar-nos de que dois fatos
na analogia da agricultura ficaram claros. O primeiro é que a analogia como um todo enfatiza
fortemente uma verdade que os crentes de Corinto ignoravam: os líderes cristãos são apenas
servos de Cristo e não devem receber a lealdade reservada tão-somente a Deus. Não estamos
dizendo que a gratidão a Paulo, Apolo ou qualquer outro cooperador cristão era
inapropriada. Pelo contrário, o que Paulo julgou inescusável foi o tipo de apego bajulador e
defensor a um líder específico que resultava em contendas, ciúmes e senso de superioridade.
Implicitamente, esse tipo de lealdade atribui muita importância a determinada pessoa.
Conduz a uma atitude de dar ao líder uma posição quase semelhante a uma divindade. De
fato, um pouco de reflexão sóbria nos lembra que muitos líderes cristãos contribuem
apropriadamente ao nosso crescimento e frutificação espiritual, mas, em todos os casos,
somente Deus pode dar vida e frutos, embora Ele use instrumentos. Nenhum líder cristão
deve ser venerado, ou atendido, ou adulado com o tipo de lealdade e devoção reservadas
somente para Deus. Isso é insensatez; denuncia a profunda ignorância quanto à natureza da
verdadeira liderança cristã e às maneiras corporativa e mutuamente sustentadoras pelas
quais os líderes cristãos complementam a obra uns dos outros, sob a designação de Deus.
Subentendemos disso (embora não fosse parte do argumento de Paulo) que os líderes
cristãos não devem apresentar-se como se tivessem o monopólio da verdade, ou todos os
dons, ou autoridade e percepção exclusivas. Somos apenas “servos”. Somos “cooperadores” e
pertencemos a Deus.
O segundo detalhe que temos de observar nesta analogia é que toda a força do
argumento depende de uma distinção entre os cristãos de Corinto e os obreiros cristãos,
como Paulo e Apolo. Isso se torna claro não somente do contexto (segundo o qual grupos de
crentes daquela igreja estavam tentando alinhar-se com líderes específicos), mas também da
estrutura da analogia: “De Deus [nós, que ele, Paulo, Apolo, e, em princípio, os outros
cooperadores] somos cooperadores; lavoura de Deus, edifício de Deus sois vós” (3.9) [ênfase
acrescentada]. É claro que noutros contextos Paulo identificou todos os cristãos como
pessoas que servem a Cristo, como servos de Cristo. Mas, neste contexto, era essencial ao
argumento de Paulo que ele mantivesse a distinção. Essa distinção, conforme veremos, recai
sobre a próxima analogia — e esse é um fator crucial na interpretação correta da passagem.

A analogia extraída da arquitetura (3.9b-15)

O final do versículo 9 é transicional. “Lavoura de Deus... sois vós”, escreveu Paulo,
findando a analogia da agricultura. E acrescentou: “Edifício de Deus sois vós”. Assim,
saímos da fazenda e chegamos ao local de construção. Uma vez mais, é mantida a distinção
entre os crentes e os líderes. Neste ponto, os crentes são “edifício de Deus”, os líderes são os
construtores.
O ensino geral desta analogia, especialmente em sua primeira parte, é o mesmo da
analogia anterior. Nós a entenderemos melhor se lembrarmos que processo lento era a
construção de um prédio antes de surgirem os equipamentos de força. As catedrais na
Europa levavam geralmente quatro ou cinco séculos para serem terminadas; às vezes, até
mais. Nos dias de Paulo, um templo, que é uma construção mais modesta do que uma
catedral da Idade Média, precisava, às vezes, de décadas para ser concluído. Portanto, um
construtor lançava o alicerce; outros completariam as várias fases do edifício e se mudariam,
aposentariam ou morreriam; e o seu lugar seria assumido por outros. A lição é clara: Paulo
lançou o fundamento, outros edificaram sobre esse fundamento. O importante é o projeto
como um todo. Implicitamente, é tolice focalizar todo o louvor em apenas um dos
edificadores que contribuíram para o projeto. Afinal de contas, os próprios edificadores
compartilharam da mesma visão e do mesmo propósito.
No entanto, há dois elementos na analogia que a diferenciam da anterior. E estão
relacionados. O primeiro é que Deus cumpre um papel diferente nas duas “parábolas”. Na
analogia da agricultura, Deus é representado como o dono do campo que emprega
trabalhadores; além disso, Ele é louvado como Aquele que dá vida: Deus faz os cereais
crescerem. Nesta analogia, extraída da construção civil, não há nada orgânico, não há nada
crescendo. Por isso, Deus cumpre um papel diferente. Jesus Cristo mesmo se torna o
fundamento que Paulo lança (3.11). Deus não é mencionado de maneira específica desde o
versículo 11 até ao 15, mas está por trás do julgamento implícito em “o Dia” e “o fogo” que
revelará a qualidade da obra de cada construtor. Em outras palavras, Deus é o dono do
edifício e julga a qualidade da obra de cada construtor. Conforme veremos, isso se torna
explícito em 3.16-17.
O segundo elemento que distingue essa analogia da anterior é a forte ênfase colocada
sobre a responsabilidade dos edificadores. Paulo logo advertiu: “Cada um veja como edifica”
(3.10b). Ele mesmo lançara “o fundamento como prudente construtor”, e “ninguém pode
lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (3.10-11). Se o que
está sendo construído é a igreja de Deus, então, o único fundamento possível é Jesus Cristo,
ou, mais plenamente, “Jesus Cristo e este crucificado”, usando a expressão de 1 Coríntios 2.2.
Paulo ainda estava pensando no exclusivo poder, sabedoria e autoridade vinculadas ao
evangelho. Se alguém tenta lançar outro fundamento, deve ser para outra construção. A
igreja não será edificada sobre qualquer alicerce rival.
Mas onde o alicerce é “Jesus Cristo e este crucificado”, há o perigo de serem usados
acabamento e materiais inferiores. Os construtores podem usar “ouro, prata, pedras
preciosas, madeira, feno, palha” (3.12). Essa escala de valores era importante para Paulo. Ele
fez distinção entre apenas dois tipos de materiais de construção: o que não podia resistir ao
fogo que provará “qual seja a obra de cada”, naquele “Dia” em que a obra de cada construtor
se manifestará como realmente é (3.13); e o que resiste. “O Dia” é o dia do Senhor, o tempo
do peneiramento final. “O fogo” distingue o bom do mau. Como vemos frequentemente no
Antigo Testamento, o fogo consome a escória, deixando o metal precioso. À primeira vista,
podemos pensar que “ouro, prata, pedras preciosas” são materiais estranhos. Talvez Paulo os
tenha escolhido não porque passarão intocáveis pelo fogo (o ouro, por exemplo, pode
derreter, mas ainda continua sendo ouro), mas porque ouro, prata e pedras preciosas
figuraram proeminentes na construção do templo de Salomão. Então, quando Paulo
desenvolveu sua analogia neste versículo, o edifício que será construído é nada menos que o
“santuário de Deus” (3.16).
Esse fogo não é o purgatório. Nada é dito a respeito de atormentar os edificadores ou
purificá-los pelas chamas. Pelo contrário, é a qualidade de sua obra que é revelada pelo fogo.
Se a obra de um construtor é queimada, “sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo,
todavia, como que através do fogo”. A imagem é a de alguém fugindo de um prédio tomado
por grande incêndio. A pessoa escapa. Mas, quanto do edifício em que estivera trabalhando
sobrevive às chamas?
Duas coisas têm de ser ditas para esclarecer a figura que Paulo retratou e aplicar seu
ensino à nossa vida. Primeira, aquele que sofre “dano”, mas é salvo “como que através do
fogo”, não são os cristãos carnais ou mundanos citados em 3.1-4, e sim os líderes cristãos que
edificam a igreja com materiais que não resistirão à conflagração final. Os cristãos mundanos
citados em 3.1-4 constituíam toda ou parte da igreja em Corinto; e a igreja é representada, na
primeira analogia, pelo campo e, na segunda, pelo edifício. Aqueles que poderíamos chamar
de “edificadores da igreja”, como Paulo, Apolo e outros evangelistas, pregadores e
ensinadores, são tanto os que trabalham no campo como os que constroem o edifício. É a
obra deles que será provada pelo fogo.
Isso significa que a sofisticada apresentação da teoria do “crente carnal”, a qual propõe
que algumas pessoas fazem uma profissão de fé e logo depois retornam a um estilo de vida
indistinguível da vida de um incrédulo, mas finalmente vão ao céu, sendo salvas por um triz
(“como que através do fogo”), não acha qualquer base nesta passagem.
Este pensamento deve ser bastante solene para aqueles que estão engajados no
ministério vocacional. É possível edificar a igreja com materiais tão inferiores, que no Último
Dia você não terá nada a exibir como sua obra. Pessoas podem vir, sentir-se ajudadas, unir-se
à adoração coletiva, servir nas comissões, dar aulas na Escola Dominical, gozar de comunhão,
levantar fundos, participar de sessões de aconselhamento e de grupos de auto-ajuda, mas,
apesar disso, não conhecer o Senhor. Se a igreja está sendo edificada com grande medida de
charme, personalidade, oratória agradável, pensamento positivo, habilidades
administrativas, experiências emocionais e espertezas, mas sem a proclamação de “Jesus
Cristo e este crucificado”, repetida, fervorosa e ungida pelo Espírito, podemos estar
ganhando mais adeptos do que convertidos. Nem por um momento estou sugerindo que
habilidades administrativas são desnecessárias ou que as capacidades fundamentais de uma
pessoa são opcionais. Mas o elemento fundamental e inegociável, sem o qual a igreja deixa
de ser igreja, é o evangelho, a “loucura” de Deus, Jesus Cristo e este crucificado.
Se percebermos isso com clareza, muitas outras coisas se encaixarão. Reconheceremos
que a revelação de Deus em seu Filho é de suprema importância. Admitir a necessidade do
Espírito de Deus para iluminar a mente de homens e mulheres que, de outro modo, não
entenderiam o evangelho ressaltará a importância da oração. Viveremos e serviremos à luz
do julgamento final, pois teremos de prestar contas de nosso ministério. Não recusaremos a
ajuda prática daqueles que têm algo a dizer sobre técnicas ou perfis sociológicos; antes,
permaneceremos totalmente comprometidos com a centralidade da cruz, não em níveis
vagos e teóricos, e sim em toda a nossa estratégia e decisões práticas. Temeremos adotar
abordagens que removam da cruz de Cristo o seu poder (1.17). E a única aprovação que
buscaremos será a do Senhor, que provará a qualidade da obra de cada construtor no Último
Dia.
Segunda, os prospectos diante dos edificadores da igreja não são meramente negativos.
Há uma alternativa: “Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse
receberá galardão” (3.14, ênfase acrescentada). Alguns cristãos sentem-se temerosos de que a
simples menção de recompensa colocará em risco a liberdade da graça. Ignoram não
somente que Jesus prometeu recompensas aos seus seguidores (cf. Mt 6.4, 6, 18), mas
também que esta passagem de 1 Coríntios prepara a base para essa ideia. Na analogia
extraída da agricultura, fomos informados de que cada trabalhador “receberá o seu galardão,
segundo o seu próprio trabalho” (3.8). Na analogia extraída da construção civil, Deus é
Aquele que julga a qualidade do labor de cada construtor — e, em princípio, isso revela a
possibilidade do dano e da recompensa.
É importante reconhecer que Paulo achou necessário combater os dois extremos. Por um
lado, várias formas de religião helenista produziram uma dicotomia enorme entre
“espiritualidade” e conduta. Os indivíduos podiam ser tão “piedosos”, tão “religiosos”, tão
“espirituais”, sem permitir que isso causasse a menor diferença em sua ética, em sua
conduta diária. Por contraste, os crentes retratados na Bíblia, quer na antiga aliança, quer na
nova, não podiam pensar dessa maneira. Na Bíblia, espiritualidade e ética andam lado a lado.
A piedade e a conduta não podem ser divorciadas. Há consequências em nossa crença e
compromissos espirituais, e tais consequências envolvem não somente esta vida, mas
também a vida por vir. Por isso, a ênfase de Paulo sobre a recompensa era uma proteção
importante contra muitos dos ensinos das religiões helenistas do século I.
Por outro lado, algumas formas de judaísmo tendiam a unir estritamente as
recompensas à qualidade da obediência de uma pessoa. Mais cedo ou mais tarde, se tornava
difícil evitar algum tipo de “teologia do mérito”. Contudo, para Paulo as recompensas não
eram creditadas como dívida; eram resultado da graça. Se Paulo trabalhava arduamente, isso
acontecia por causa da graça de Deus em sua vida: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e
a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos
eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10). O fato de que a graça de
Deus capacita toda a nossa obra destrói toda a mecânica da teologia de méritos: muito
trabalho, muita recompensa. No final do dia, trabalhamos e ministramos tendo em vista e
lembrando constantemente que, se houve frutos, isso aconteceu porque a graça de Deus agiu
em nós. Desenvolvemos a nossa salvação, mas temos de lembrar que isso resulta da obra de
Deus em nós, capacitando-nos a querer e a agir de acordo com o seu beneplácito (Fp 2.12-13).
Essa postura condicionou Paulo a evitar o legalismo.
A esta altura deve ser claro que essa segunda analogia, baseada na construção civil,
estabelece não somente a primeira verdade proeminente que os coríntios ignoravam (os
líderes cristãos são apenas servos de Cristo e não podem receber a fidelidade reservada
somente para Deus), mas também a segunda grande verdade: Deus cuida de sua igreja e tem
seus líderes como responsáveis. Essa é uma lição terrivelmente importante. Se os líderes são
elevados demais na mente das pessoas, eles não podem fazer quase nada; e grande número
de seus seguidores os acompanharão inquestionavelmente. Admiramo-nos de como alemães
eruditos seguiram Adolf Hitler sem protestarem; admiramo-nos de quantas pessoas
religiosas seguiram Jim Jones até a morte. Mas exemplos que não sejam tão extremos podem
ser difíceis de detectarmos. É possível exaltarmos tanto algum líder cristão, que começamos
a achar desculpas para as suas faltas graves e, talvez, catastróficas. Temos de lembrar que os
líderes não são mais do que servos. Enquanto isso, Deus ama a sua igreja e pedirá contas
daqueles que procuram edificá-la.
Esses fatos são ressaltados poderosamente nos versículos seguintes.

A pergunta retórica de Paulo e sua
conclusão alarmante (3.16-17)

“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (3.16),
indagou Paulo. O edifício agora se torna o “santuário de Deus”. É crucial entendermos que
neste contexto o “santuário de Deus” não se refere ao corpo humano, e sim à igreja. Em
outra passagem, essa metáfora é usada para fomentar a pureza sexual no ser humano
individual (1Co 6.19). Se o “o vosso corpo é santuário do Espírito Santo”, é importante
manter o santuário puro. Mas aqui, em 1 Coríntios 3, esse não é o assunto. Paulo não estava
dizendo: “Olhem! Se Deus, o Espírito, toma residência no corpo do cristão, é importante não
contaminar esse corpo com pecado sexual, indolência, maus hábitos ou qualquer coisa
semelhante”. Pelo contrário, ele estava dizendo algo assim: “Vocês não compreenderam que
é o Espírito quem dá vida ao corpo de Cristo na terra, a igreja, a comunidade dos redimidos?
Ela é o ‘edifício’, o ‘santuário’ em que os trabalhadores têm laborado. E vocês têm de
entender que Deus ama a igreja e guarda-a com zelo como a habitação do seu próprio
Espírito”. Mas existe uma implicação: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o
destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (3.17).
À luz dos versículos imediatamente anteriores, essa advertência é, com certeza,
direcionada, em primeira instância, aos construtores que têm utilizado materiais inflamáveis
(madeira, feno e palha), que não poderão resistir ao fogo no Último Dia. Contudo, é muito
provável que a linguagem generosa de Paulo aplique a advertência a outras pessoas além dos
líderes. Afinal de contas, ele não disse: “Se algum construtor destruir o santuário de Deus”, e
sim: “Se alguém destruir o santuário de Deus” (ênfase acrescentada). Por meio dessa
linguagem inclusiva, ele podia estar pensando no tipo de dano causado ao santuário de
Deus, a igreja, pelos próprios cristãos de Corinto. Ao tirarem sua atenção do evangelho,
enquanto se focalizavam nos aplausos, aprovação e sabedoria do mundo, aqueles cristãos
estavam em risco de destruir a mensagem que trouxera a igreja à existência.
As maneiras de destruir a igreja são muitas e variadas. O sectarismo a destruirá. A
heresia a destruirá. Tirar os olhos da cruz e permitir que outros assuntos, secundários,
dominem a agenda da igreja há de destruí-la — sem dúvida, talvez de maneira mais lenta do
que a heresia, mas a longo prazo tão eficaz quanto esta. Edificar a igreja com conversões
superficiais e programas maravilhosos que raramente trazem as pessoas a um conhecimento
profundo do Deus vivo também destruirá a igreja. Entreter as pessoas e nunca estimular a
beleza da santidade ou a centralidade do amor auto-sacrificial edificará uma assembleia de
pessoas religiosas, mas destruirá a igreja do Deus vivo. Fofocas, falta de oração, amargura,
permanente falta de conhecimento das Escrituras, autopromoção, materialismo — todas
essas coisas e muitas mais podem destruir uma igreja. E fazer isso é perigoso: “Se alguém
destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é
sagrado” (3.17). Cair nas mãos do Deus vivo é algo terrível.
Os facciosos da igreja de Corinto ignoravam essas verdades, que muito frequentemente
são ignoradas pelos seus correlatos contemporâneos. Isso exige auto-exame atencioso e
arrependimento íntimo.

O sectarismo ignora a riqueza da herança que nós, cristãos,
por direito desfrutamos (3.18-23)

A primeira parte deste parágrafo de 1 Coríntios 3 (18-21a) é uma pausa para revisão.
Paulo retorna ao contraste entre a sabedoria do mundo e a de Deus, entre a insensatez do
mundo e a loucura de Deus. Contudo, embora Paulo estivesse, em parte, revendo um dos
temas centrais destes capítulos, também nos levou a um pensamento novo. Ele começou com
uma advertência. À luz do fato de que Deus cuida de seu santuário e tem como responsáveis
aqueles que o destroem, Paulo escreveu severamente: “Ninguém se engane a si mesmo”
(3.18). Não pense que você pode adotar as filosofias e valores do mundo, como se não
tivessem um impacto profundamente prejudicial à igreja. Não pense que isso não lhe trará
maus resultados. Não se iluda pensando que você, um cristão de grau avançado, tem o
evangelho, quando, na realidade, o abandonou e está causando danos à igreja de Deus.
O caminho da verdadeira sabedoria, como Paulo já havia explicado em detalhes nos dois
primeiros capítulos desta epístola, é ficar ao lado de Deus. Nesta posição descobrimos que o
Todo-Poderoso reverte completamente muitos dos valores apreciados pelo mundo. O que o
mundo julga sábio, Deus rejeita como loucura; o que o mundo despreza como loucura é nada
menos que a sabedoria de Deus. O mundo ama poder e prestígio; Deus se revela mais
poderosamente na cruz, em sublime e débil fraqueza — todavia, essa “fraqueza” afeta o seu
plano totalmente admirável de redenção, comprovando-se assim mais forte do que toda a
“força” do mundo.
O mundo anela por líderes fortes, mas os líderes da igreja têm de ser, antes de tudo,
servos do Senhor Jesus Cristo. O mundo exibe seus heróis e gurus; os cristãos lembram-se de
que Deus ama escolher os fracos, humildes e desprezados — os ninguéns — para que
nenhuma pessoa se glorie diante dEle. O mundo tenta impressionar com sua retórica e
sofisticação, apreciando mais a forma do que o conteúdo. Os apóstolos de Jesus Cristo
valorizavam a verdade acima do estilo e rejeitavam discretamente apoiar-se em qualquer
forma que se mostrasse atraente, diversiva e que colocasse em risco a verdade do evangelho.
Esse é o tipo de inversão que tem de ser confrontada por todos os que entendem a cruz.
“Se alguém dentre vós se tem por sábio neste século, faça-se estulto para se tornar sábio.
Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (3.18b-19a). Paulo nos leva de
volta aos temas do capítulo 1 e, à luz de seus comentários intervenientes, reveste-os de nova
e poderosa ênfase. Não se engane, Paulo disse, ser um cristão envolve harmonizar-se com os
valores de Deus em face dessa grande inversão. E tenha certeza de que Deus conhece o seu
coração e nunca se engana. Tampouco Ele é vencido pela sagacidade dos artifícios e
pretensões humanos. “Está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles [citando Jó
5.3]. E outra vez: “O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos
[citando Sl 94.11]” (1Co 3.19b-20).
A aplicação imediata desta exortação é a proibição franca do sectarismo: “Portanto,
ninguém se glorie nos homens” (3.21a). Gloriar-se a respeito de algum herói ou guru é
errado por duas razões. Primeira, o foco está errado; a focalização se concentra em uma
pessoa e não no Senhor Deus. A analogia extraída da agricultura nos lembra que somente
Deus determina a tarefa e pode dar vida. Por isso, somente Ele deve ser louvado. A analogia
extraída da construção civil nos recorda que Deus é o Juiz e se interessa profundamente com
o tipo de edifício, o tipo de “templo” que estamos edificando. Ele considera os edificadores
como responsáveis por sua obra — e, em princípio, ameaça destruir aquele que destrói o seu
templo. Então, por que devemos gloriar-nos a respeito de nosso apego a um edificador
específico? Paulo já havia defendido a prioridade mais simples e mais fundamental: “Aquele
que se gloria, glorie-se no Senhor” (1.31). Agora, Paulo apresenta a implicação negativa:
“Portanto, ninguém se glorie nos homens” (3.21a).
A segunda razão por que é errado gloriar-se a respeito de algum líder humano é que isso
nos afasta da herança mais ampla que temos por direito. Talvez você esteja se gloriando
porque julga ter a melhor parte; de fato, está roubando a si mesmo, porque está se
restringindo a apenas uma parte da herança que lhe pertence em Cristo Jesus.
Esse é o argumento de Paulo nas palavras finais deste parágrafo: “Tudo é vosso: seja
Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas
presentes, sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus” (3.21b-23). Parte
do significado desta declaração é bastante clara. Paulo, Apolo, Cefas (e, em princípio,
qualquer outro excelente líder da igreja), todos contribuem à igreja. Eles pertencem à igreja,
da mesma maneira que os lavradores pertencem ao campo e à sua colheita, e os construtores
e os pedreiros pertencem todos ao projeto de construção do edifício. Focalizar uma parte do
projeto como se ela fosse tudo é o mesmo que excluir-se do projeto como um todo. Nutrir
afeição e lealdade indevida e exclusiva para com um líder significa depreciar o que deve ser
recebido dos demais líderes. Em outras palavras, o sectarismo ignora a riqueza da herança
que possuímos como cristãos.
Mas Paulo apresentou essa verdade de uma maneira que vai além das pessoas. “Tudo é
vosso”, ele disse. E, na lista dada em seguida, embora comece consigo mesmo, Apolo e
Cefas, ele acrescentou: “Seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes,
sejam as futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus”. O que ele queria dizer?
As cinco coisas que acompanham os nomes “Paulo, Apolo e Cefas” representam as
tiranias fundamentais da vida humana, as coisas que nos escravizam, que nos mantém
cativos. (1) O mundo nos espreme em seu molde (cf. Rm 12.1-2). Exige tanto de nossa atenção
e lealdade que raramente dedicamos pensamentos e afeições ao mundo por vir. Este mundo
nos prende; não nos encoraja a erguer-nos às inexploráveis dimensões do novo céu e da nova
terra. (2) De modo semelhante, a vida presente reivindica ser tratada como se fosse digna de
respeito primordial. Apegamo-nos à vida como se a Bíblia jamais dissesse que nossa vida é
como um vapor que desaparece rapidamente, quando passam os primeiros sopros da brisa.
Esquecemos que Jesus nos instruiu a não temermos aqueles que podem tirar esta vida, e sim
temermos a Ele, que “pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28).
Então, há sabedoria em atendermos incessantemente às fortes pressões desta vida, se não
pensamos na vida por vir? No término desta vida, há somente (3) morte, que paira sobre nós,
o espectro final. A morte é uma tirania da qual ninguém escapa. Seu poder se estende muito
além da mera experiência. Ela se manifesta no horizonte, lança suas grandes sombras e nos
constrange durante toda a nossa existência. A própria tentativa de vivermos suprimindo o
pensamento da morte é uma reação abismal que atesta silenciosamente o poder de sua
tirania. Isso também é feito pelo nosso hábito de estabelecer “alvos de vida”, com base na
mórbida suposição de que teremos mais ou menos uns setenta anos de existência. Como
mudariam os nossos alvos de vida se planejássemos não somente para os setenta anos de
existência neste mundo, mas também para a eternidade? Isso não estava incluído no que
Jesus quis dizer quando exortou-nos a acumular tesouros no céu (Mt 6.19-21)? Mas achamos
muito difícil atender a essa admoestação, porque a morte nos tiraniza. (4) A urgência
contínua do presente e (5) as vagas promessas e ameaças do futuro se combinam para afastar a
nossa atenção de Deus, que nos sustenta em suas mãos, tanto no presente como no futuro.
Esse era o alvo do ensino de Paulo. Se pertencemos verdadeiramente a Cristo, e Cristo
pertence a Deus, consequentemente pertencemos a Deus. E que Deus! Ele é soberano sobre
essas tiranias insignificantes. Tem mostrado seu grande amor ao seu povo. Pagou por eles o
preço da redenção, a morte de seu Filho amado. Todas essas cinco realidades parecem
diferentes, se as examinarmos com base na posição segura de pertencermos a Jesus. (1) Este
mundo se torna a passagem para o próximo. Deus nos colocou aqui; e, reconhecendo seu
domínio soberano, nos deleitamos nos excelentes dons que Ele nos dá aqui, enquanto
reconhecemos que a lealdade a Cristo significa que não “somos” mais dessa ordem caída que
está em rebelião contra o seu Senhor. Não, não pertencemos mais a ela. Contudo, num
sentido mais importante, este mundo é nosso. Tudo pertence ao nosso Pai celestial, e somos
seus filhos. Portanto, tudo é nosso. É claro que o mundo não é “nosso”, para que o
exploremos de modo egoísta e insensível. Ele nos pertence somente em conexão com nosso
relacionamento com Deus, o Pai. Mas isso significa que pertencemos Àquele que um dia
criará novos céus e nova terra e nos capacitará a nos deleitarmos neles. Somos herdeiros de
Deus; somos co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17). Se sofremos neste mundo, como Jesus
sofreu, isso é algo relativamente banal, levando em conta o fato de que Deus, em sua graça,
nos uniu no “lado vencedor”. Não podemos mais ser tiranizados por este mundo, pois seu
domínio não é absoluto. Nossa fidelidade pertence a Outro, e nossa visão está lançada para
além deste mundo, para o mundo por vir.
Coisas semelhantes podem ser ditas a respeito das outras tiranias. (2) A vida presente
não é mais aquilo ao que devemos nos apegar. É a esfera em que podemos servir a nosso
Deus e Redentor, em antecipação à vida por vir. (3) A morte, aquele terrível “ultimo inimigo”
(1Co 15.26), não pode ter a palavra final, pois nosso Senhor venceu a morte. A sua
ressurreição pressagia a nossa. Em um nível, a morte pode ser saudada, pois, como Paulo,
reconhecemos que estar ausente do corpo significa habitar com o Senhor (2Co 5.8). E
entendemos o que Paulo quis dizer, quando afirmou: “Para mim, o viver é Cristo, e o morrer
é lucro” (Fp 1.21). (4) O presente é o ambiente em que eu vivo e sirvo a Deus, mas não pode
devorar-me. Deus é tão soberano sobre o presente como sobre o passado e o futuro. (5) E, se
Ele exerce domínio sobre o futuro, este se torna algo que não preciso temer, e sim aceitar —
porque pertenço a Cristo, e Cristo, a Deus, que controla o futuro.
Essas tiranias — “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes,
sejam as futuras” — não mais nos dominam. Foram vencidas decisivamente. Estão sob o
domínio do Redentor soberano; e, visto que pertencemos à companhia dos redimidos, elas
são nossas.
Neste fato, há uma abrangência de visão que é tragicamente perdida quando todo o
nosso cristianismo significa apenas “achar realização”, ou buscar paz pessoal, ou, pior ainda,
identificar-nos com o grupo “certo” ou com um guru cristão. Somos de Deus, e isso
transforma tudo. Se entendemos verdadeiramente isso, não há mais tiranias. Queremos tudo
que Deus tem para nós, tanto nesta como na vida por vir. Isso significa que nunca
reduziremos as dimensões do cristianismo bíblico determinadas por Deus a tudo que pode
ser aceito por um único ensinador ou obreiro cristão, não importando quão capaz ou sábio
ele seja. O sectarismo é completamente insensato. Ele causa danos à igreja, empobrece
aqueles que o adotam, porque os afasta da riqueza da herança que pertence a todos os filhos
de Deus.
O que isso pode significar para nós hoje, em termos práticos? Certamente não significa
que todo líder cristão e toda herança cristã possuem o mesmo valor. Em outras passagens,
Paulo aborda a importância do discernimento e da avaliação das coisas para seguir o que é
melhor (cf. Fp 1.9-11). Também não significa que tudo que se identifica como “cristão” é
necessariamente cristão. Mas significa que se você é, por exemplo, um luterano, você não
deve fugir daquilo que é certo e bom nos wesleyanos, reformados, carismáticos, anabatistas e
outros segmentos (É claro que eu poderia ter reescrito essa sentença em qualquer outra
combinação).
Na igreja local, isso significa que ela não celebrizará um líder específico
(preferivelmente, um líder aposentado ou falecido!), em detrimento de todos os outros. Em
última análise, fazer isso é o mesmo que atribuir-lhe poderes tirânicos. Isso fomenta o
sectarismo e ignora a ampla e rica herança que possuímos porque somos cristãos e
pertencemos a Deus. E, no sentido já expresso, o que pertence a Deus também pertence a
nós. Devemos ter conflitos em nossas igrejas por causa de música? Devemos ter a melhor
música, a mais centralizada em Deus, a mais fiel e a mais edificante. No entanto, a música
tem de ser uma questão de estilo? Não há nada a ganharmos da exposição à companhia dos
santos, em muitas partes do mundo, que expressam sua adoração ao Salvador com uma
riqueza de hinos que não podemos esgotar, mas que ignoramos em detrimento de nós
mesmos?
“Tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus.”

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO


1. De acordo com Paulo, quem são os cristãos “carnais” ou “mundanos”?

2. Como se manifesta a espiritualidade deles?

3. Quais são as principais verdades sobre os líderes cristãos que os versículos 5-17 nos
ensinam?

4. De quem são as obras que serão queimadas conforme o versículo 15? Formule a
advertência em suas próprias palavras.

5. Explique em suas palavras os últimos versículos do capítulo.

CAPÍTULO 4
A C R U Z E A LID ER A NÇ A C R IS TÃ
(1 CORÍNTIOS 4)

1 Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de
Deus. 2 Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel. 3 Todavia, a mim mui
pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo. 4 Porque de nada
me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem me julga é o Senhor. 5 Portanto, nada
julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas
também manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá o seu louvor da parte de Deus.


6 Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso
exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em
detrimento de outro. 7 Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por
que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?


8 Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a
reinar convosco. 9 Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos
condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens. 10 Nós somos loucos por
causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo; nós, fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e nós, desprezíveis. 11 Até à presente hora,
sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, 12 e nos afadigamos, trabalhando com
as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; 13 quando caluniados,
procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.


14 Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados.
15 Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo
evangelho, vos gerei em Cristo Jesus. 16 Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. 17 Por esta causa, vos
mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como,
por toda parte, ensino em cada igreja.


18 Alguns se ensoberbeceram, como se eu não tivesse de ir ter convosco; 19 mas, em breve, irei visitar-vos, se o
Senhor quiser, e, então, conhecerei não a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos. 20 Porque o reino de Deus consiste
não em palavra, mas em poder. 21 Que preferis? Irei a vós outros com vara ou com amor e espírito de mansidão?


Muitas pessoas, em um momento ou outro, sonham consigo mesmas tornando-se
grandes líderes. O que a sua mente imagina?
É claro que isso depende, em parte, do campo em que ela se ocupa. Ser um líder, por
exemplo, no basquete, não exige os mesmos dons exigidos de ser um líder na Associação
Americana de Bordado. Apesar disso, há qualidades em comum. Aquele que devaneia a
respeito de ser líder em qualquer campo imagina que isso implica ser o melhor ou, pelo
menos, melhor do que muitos outros — ser bem-sucedido onde outros fracassam, ser firme
onde outros tropeçam, criar onde outros apenas fazem a sua parte, ganhar elogio e aplauso,
talvez depois de alguma rejeição e dificuldade inicial. Ser líder pode significar fama, dinheiro
e algumas isenções de responsabilidades e da existência enfadonha de mortais ordinários.
Ser um líder significa ganhar respeito. Raramente aqueles que sonham com liderança, mas
nunca a experimentaram, pensam nas responsabilidades, nas pressões e nas tentações que
os líderes enfrentam. Quase nunca eles se focalizam na responsabilidade, no serviço e no
sofrimento.
Os primeiros capítulos de 1 Coríntios nos apresentam alguns elementos da liderança
cristã, embora este não seja o tema primário da epístola. Em 1 Coríntios 1 a 4, Paulo estava
lidando primariamente com o assunto do sectarismo que dividia a igreja por meio de
contendas, ciúmes e exaltação pessoal. Contudo, visto que grande parte dos conflitos surgia
do hábito de grupos diferentes da igreja se associarem a vários líderes cristãos bem
conhecidos (“Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas”, e assim por diante, 1.11-12),
Paulo achou necessário corrigir vários entendimentos errados a respeito da natureza da
liderança cristã genuína. Aqueles crentes estavam adotando muitos modelos do mundo ao
seu redor. Estavam apaixonados pelos mestres sofistas, muitos dos quais valorizavam a
forma acima do conteúdo, o prestígio acima da humildade, o estoicismo acima do amor, uma
filosofia estruturada (“sabedoria”) acima das confissões sinceras de ignorância e limitação
do conhecimento humano, a retórica acima da verdade, o dinheiro acima das pessoas e a
reputação acima da integridade.
Nesse tipo de contexto, Paulo, conforme descobrimos, retornou aos ensinos básicos e
explicou o que significa confessar a Cristo crucificado. Mas ele também precisou livrar os
seus leitores da tendência perniciosa de celebrizar certos líderes cristãos e ignorar outros.
Assim, em 1 Coríntios 3, Paulo insistiu, entre outras coisas, que os líderes cristãos são servos
de Cristo e não devem receber a lealdade reservada exclusivamente para Deus. De fato, como
servos, eles são responsáveis diante de Deus pelo tipo de ministério que exercem. Visto que
Deus cuida de sua igreja, esses terão de prestar contas a Ele. De fato, Deus até ameaça punir
todo aquele que destrói sua igreja.
Em 1 coríntios 4, Paulo ainda confrontava o sectarismo dos crentes de Corinto. Por isso,
quando falou sobre a natureza da liderança cristã, ele a relacionou ao assunto que tinha à
mão: “Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa
causa” (4.6). O fato é que, ao confrontar a tendência dos coríntios para contendas e
sectarismo, Paulo nos deu uma grande percepção quanto ao que significa ser um líder
cristão. E faz isso com base na perspectiva que veremos neste capítulo. Certamente isso não é
tudo que a Bíblia diz sobre a natureza da liderança que agrada a Deus. Todavia, os princípios
articulados em 1 Coríntios 4 têm importância capital. Estão todos vinculados à cruz.

A LIDERANÇA CRISTÃ ESTÁ ENCARREGADA DOS
“MISTÉRIOS” DE DEUS (4.1-7)

Paulo começou dizendo aos coríntios o que eles deviam pensar dos líderes cristãos:
“Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e
despenseiros dos mistérios de Deus” (4.1). Dois elementos se destacam, e ambos estão
vinculados ao que Paulo já explicara. (1) Os líderes cristãos são “ministros de Cristo”. A
linguagem é reminiscente da analogia da agricultura apresentada no capítulo 3 (embora a
palavra “ministro” seja diferente). Os líderes cristãos não tentam ser gurus independentes e
mestres que sabem tudo. Eles se veem apenas como servos e querem que os outros cristãos
os vejam dessa maneira. Mas eles são servos de um Senhor específico: servem a Jesus Cristo.
(2) No âmago da comissão que receberam do seu Senhor está uma tarefa particular. Eles são
“despenseiros dos mistérios de Deus”. Você recordará que em 1 Coríntios 2 Paulo explicou a
natureza desse mistério. Ele não estava dizendo que o evangelho é “misterioso”, e sim que,
em algumas maneiras, ele esteve oculto antes da vinda de Jesus Cristo e foi agora revelado.
O evangelho é, em si mesmo, o conteúdo desse mistério, a sabedoria de Deus resumida na
ênfase da pregação de Paulo: Jesus Cristo e este crucificado.
Evidentemente, há um sentido em que todos os cristãos são “ministros [servos] de
Cristo” e todos são despenseiros do evangelho, “os mistérios de Deus”. Contudo, Paulo
deixou claro que estava se dirigindo primariamente aos líderes. Ele escreveu em seguida:
“Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo [ambos líderes],
por vossa causa” (4.6, ênfase acrescentada), mostrando assim que ainda mantinha a distinção
entre os líderes e os outros que predominavam no texto de 1 Coríntios 3. Paulo não estava
dizendo que ele, Apolo e outros líderes eram servos de Cristo, enquanto os outros cristãos
não eram, e que eles tinham o encargo dos mistérios de Deus e os outros crentes não sabiam
nada a respeito desses mistérios. Os líderes não constituem uma classe sacerdotal singular.
Pelo contrário, o que, em certo sentido, é exigido de todos os crentes é requerido
especialmente dos líderes das igrejas. Há uma diferença quanto ao grau. Essa foi a razão por
que Paulo disse: “Admoesto-vos... a que sejais meus imitadores” (4.16).
Aqueles de nós que desejam ser líderes nas igrejas hoje têm de começar pelo
reconhecimento de que não há nenhuma qualificação especial, elitista. Essa observação está
em completa harmonia com as listas de qualificações para a liderança apresentadas em
outras passagens do Novo Testamento. Por exemplo, quando Paulo delineou em 1 Timóteo
3.1-7 as qualificações para um presbítero (“bispo”), a característica mais admirável daquela
lista é que ela não contém nada extraordinário. Não contém nada a respeito de inteligência,
decisão, iniciativa, riqueza, poder. Quase tudo na lista se encontra também em outras
passagens do Novo Testamento que expõem qualidades requeridas de todos os cristãos. Por
exemplo, o presbítero não deve ser “dado ao vinho” (1Tm 3.3) — e isso não significa que os
demais crentes têm permissão de embriagarem-se (Ef 5.18). O presbítero deve ser
hospitaleiro (1Tm 3.2), mas todos os cristãos também devem ter essa qualidade (Hb 13.2). Os
únicos elementos da lista de qualificações dos presbíteros que não se aplicam, em qualquer
outra passagem, a todos os cristãos são duas: (1) não ser um “neófito” (1Tm 3.6), qualidade
essa que certamente não pode ser aplicada aos novos cristãos, e (2) ser “apto para ensinar” (1
Tm 3.2), qualidade essa conectada às responsabilidades peculiares do ministério de
pastor/presbítero/bispo.
Portanto, temos de reconhecer, com base em 1 Timóteo 3 e 1 Coríntios 4, que as
exigências da liderança cristã não separa um cristão introduzindo-o em categorias especiais e
elitistas em que novas regras e privilégios são estabelecidos. Pelo contrário, a liderança cristã
exige uma focalização nas qualidades e virtudes que devem estar presentes em todos os
cristãos, em todos os lugares. Isso é o que torna possível os líderes cristãos servirem como
modelos e ensinadores na igreja de Deus.
Neste contexto de 1 Coríntios, os dois elementos da liderança cristã que Paulo destaca
são bem claros. Os líderes cristãos são servos de Cristo e foram encarregados do evangelho,
os mistérios de Deus. Se todos os cristãos devem servir a Cristo, quanto mais os seus líderes
devem fazê-lo inequivocamente? Se todos os cristãos desfrutam da sabedoria de Deus
transmitida pelo Espírito Santo, quanto mais os seus líderes, que foram encarregados dessa
grande herança, devem administrá-la sabiamente?
É importante pensar no que esses elementos significam. De fato, quando entendidos de
modo apropriado, eles se tornam um só. A expressão “despenseiros dos mistérios de Deus”
poderia ser traduzida mais literalmente por “mordomos dos mistérios de Deus”. É verdade
que os mordomos desfrutavam uma posição de confiança, mas, em uma sociedade mais
hierárquica do que a nossa, essa posição era comumente ocupada por criados ou até por
escravos. E confiança lhes era dada em sua função como criados, como escravos. Quando os
líderes cristãos são chamados “ministros de Cristo”, a obrigação específica colocada sobre
eles como servos de Cristo é a obrigação de promover o evangelho. Isso é tudo que está
implícito em ser “despenseiro dos mistérios de Deus”. O que significa ser um ministro de
Cristo é estar obrigado a promover, por palavras e exemplo, o evangelho do Messias
crucificado.
Isso é absolutamente fundamental. Não há uma liderança cristã válida que não pulse
com esse mandato. No Ocidente, temos de nos arrepender de nossa eterna fascinação por
liderança que tem mais sabor de modelos hierárquicos (eu sou o chefe e, para todos os que
estão sob minha autoridade, o que eu disser deve ser feito) ou de modelos democráticos (dê
às pessoas o que elas querem; faça outra consulta, realize outra pesquisa popular e esfregue
onde elas sentem coceiras). Toda liderança cristã válida, por mais variado que seja o seu
estilo, por mais sábio que seja o seu uso das descobertas sociológicas, por mais
diversificadas que sejam as suas funções, tem de começar com este reconhecimento
fundamental: os líderes cristãos estão encarregados do evangelho, os mistérios de Deus que
estiveram ocultos em épocas passadas e que agora estão sendo proclamados, por meio do
ministério deles, a homens e mulheres em todos os lugares. Além disso, eles devem
acautelar-se de assumir essa posição, se o seu interesse verdadeiro está em outras coisas. Os
servos de Cristo têm um encargo fundamental colocado sobre eles: o evangelho lhes foi
confiado, e todo o ministério deles gira em torno de torná-lo conhecido e de encorajar, por
palavra, exemplo e disciplina, o povo de Deus a vivenciá-lo.
Com base nessa percepção fundamental quanto à natureza da liderança cristã, Paulo
poderia ter descrito muitas consequências possíveis. De fato, ele resolveu descrever apenas
duas.
Os líderes cristãos têm de se mostrar fiéis Àquele que lhes designou sua tarefa essencial (4.1-4).
A lógica de Paulo é fácil de ser deduzida. Ele insistira que os líderes cristãos são aqueles aos
quais foram confiados “os mistérios de Deus” (4.1). Qualquer leitor atento podia imaginar a
consequência: “Ora... o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado
fiel” (4.2). Mas, para com quem? Não para com a igreja. Aqueles que são ministros de Cristo,
aos quais foram confiados os mistérios de Deus, não se veem como vencedores de
confrontações populares — nem mesmo no âmbito da igreja. Isso era o que Paulo tinha em
mente quando disse: “Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por
tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo” (4.3). Há somente uma pessoa cujo
“Bem feito!”, no Último Dia, será realmente importante. Em comparação, a aprovação ou
desaprovação da igreja não significa nada.
O importante também não é a sua própria estimativa de seu ministério. Sentir-se bem
quanto a seu ministério pode ter alguma utilidade em determinadas ocasiões, mas com
certeza não tem significado final. Você pode pensar no seu ministério acima do que Deus
pensa sobre ele. Mas, se você está constantemente tentando agradar a si mesmo, a fazer da
auto-estima o seu alvo final, então está esquecendo-se de quem você é servo, a quem deve
esforçar-se para agradar. Por isso, Paulo escreveu com franqueza: “Eu tampouco julgo a mim
mesmo” (4.3). Ele não estava dizendo que não havia lugar na sua vida para auto-exame ou
autodisciplina; seus próprios escritos contradizem esse entendimento (cf. 1Co 9.24-27; 2Co
13.5). Paulo queria dizer que seu próprio julgamento de si mesmo podia não ter importância
decisiva. Ele declarou: “Porque de nada me argúi a consciência” (4.4). Ou seja, quando ele
escreveu essas palavras, não estava consciente de qualquer pecado ou erro escondido
furtivamente em sua vida. Mas ele não sabia tudo a respeito de si mesmo. Embora a sua
consciência não o arguisse, ele podia estar enganado quanto a si mesmo. Ainda que tivesse
uma consciência limpa, Paulo disse, “nem por isso me dou por justificado”. No final do dia,
havia uma só opinião sobre o seu ministério que era realmente importante: “Quem me julga
é o Senhor” (4.4).
A primeira consequência deste ensino de Paulo é bem simples. Os líderes cristãos
dignos desse nome estarão sempre conscientes de que devem lealdade dedicada e
comprometida somente a uma Pessoa: o Senhor que os comprou. Por inferência, é
importante que os servos do Senhor mantenham a paz entre o povo do Senhor e ganhem a
confiança e o respeito deles. Pode haver lugar para uma carta de recomendação (cf. Fp 2.19).
Contudo, a lealdade crucial de uma líder não se manifesta à igreja, ou a qualquer líder
individual, ou a qualquer tradição. A sua lealdade é devida somente ao Senhor e aos
“mistérios de Deus”, que o designou. E, se isso às vezes significa que haverá um choque de
vontades entre esse líder e a igreja, que assim seja. A loucura do Cristo crucificado tem de
prevalecer, mesmo quando toda a igreja toma um caminho que a afasta da centralidade do
evangelho. O que é mais trágico é o triste espetáculo de supostos líderes cristãos que buscam
arduamente a aprovação de colegas e dos membros da igreja e, por isso, desviam seu foco do
evangelho e do “Bem feito!” do Messias crucificado.
Aqueles que seguem os líderes cristãos têm de reconhecer que estes são chamados para agradar a
Cristo — e, portanto, devem se refrear de julgá-los (4.5-7). Em outras palavras, se é importante
para os líderes cristãos verem a si mesmos como servos de Cristo encarregados de uma
comissão magnífica, também é importante que o restante da igreja os veja como
responsáveis perante o Senhor e evitem julgá-los, como se a igreja fosse o árbitro final do
sucesso ministerial.
É fácil explorar esta passagem para que diga mais do que ela realmente diz. Nenhum
leitor atento pode imaginar que Paulo estava abolindo todas as funções de julgamento na
igreja. Afinal de contas, no próximo capítulo desta epístola, ele repreende severamente a
igreja por deixar de agir disciplinarmente em um caso de imoralidade (1Co 5). A autoridade
disciplinar da igreja estende-se até sobre os líderes. Conforme o último capítulo de 2
Coríntios, Paulo esperava que os crentes exercessem disciplina sobre os falsos apóstolos,
antes que ele chegasse à cidade e se sentisse constrangido a tomar ações drásticas. As
fofocas casuais a respeito dos presbíteros da igreja devem ser ignoradas, mas, se forem
provadas como verdadeiras, há uma ocasião para disciplinar os líderes (1Tm 5.19-20). Além
disso, certamente ninguém pode imaginar que Paulo insistia nesta passagem que os cristãos
não têm qualquer obrigação de julgarem a si mesmos, a fim de provarem a realidade e a
consistência de sua fidelidade a Cristo. Embora nenhuma opinião do cristão acerca de si
mesmo tenha importância final, isso não impediu Paulo de dizer, nas circunstâncias
apropriadas: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós
mesmos” (2Co 13.5).
Se considerarmos mais amplamente as Escrituras, acharemos facilmente passagens que
proíbem o “julgar” e outras passagens que o ordenam. Por exemplo, acharemos, por um
lado, Jesus dizendo: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que
julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também”
(Mt 7.1-2). Por outro lado, ele disse: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta
justiça” (Jo 7.24). Essa tensão contínua é bem forte em todo o Novo Testamento. Há muitas
passagens que condenam o que podemos chamar de “julgamentalismo”. Ao mesmo tempo,
um capítulo após outro exorta os cristãos a serem discernidores, a distinguirem o certo do
errado, a buscarem o que é melhor, a exercerem disciplina na igreja, e assim por diante —
funções que exigem o uso correto do julgamento.
Atingir o equilíbrio nesta área nunca foi fácil. Talvez tenha se tornado ainda mais difícil
em nossos dias, por conta do ataque violento do pluralismo. O tipo de pluralismo ao qual me
refiro ensina que todas as opiniões são iguais, de modo que a única opinião necessariamente
errada é aquela que diz que a outra opinião está errada. Aplicada à religião, nenhuma fé tem
o direito de afirmar que outra fé é errada; isso é visto como intolerante, fanático, ignorante.
Nessa atmosfera, as passagens bíblicas que condenam o julgamentalismo são regularmente
mostradas como se fossem tudo o que a Bíblia diz sobre o assunto. Em muitos círculos hoje,
“não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7.1) tornou-se o versículo mais conhecido de
toda a Bíblia, substituindo facilmente João 3.16. Todavia, eles esquecem comumente que, em
seguida, Jesus falou a seus discípulos: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os
porcos as vossas pérolas” (Mt 7.6); e isso pressupõe que alguém tem de julgar quem são os
porcos e os cães. Em outras palavras, o pluralismo tem enviesado e investido grande
quantidade de energia em apenas um lado do que a Bíblia apresenta.
Podemos ganhar estabilidade e equilíbrio se lembrarmos o tipo de pessoas que os dois
lados abordam. Proibições dirigidas contra a atitude de julgar têm em vista a justiça própria
das pessoas que desejam proteger o seu território. Essas pessoas são, com frequência, muito
legalistas, têm todas as respostas certas, querem desesperadamente elevar seu grupo acima
dos outros e estão em perigo constante de usurparem o lugar de Deus. Em contraste, as
exortações bíblicas no sentido de sermos discernidores ou julgarmos bem, em algumas
circunstâncias, são dirigidas contra aqueles que são negligentes e indisciplinados quanto às
coisas santas, em especial à Palavra de Deus. Essas pessoas costumam acompanhar a
maioria, em vez de pensarem no que está envolvido na lealdade a Deus e à sua verdade, em
determinado contexto cultural. É totalmente desastroso apelar ao julgamento quando a situação
exige tolerância ou proibir todo julgamento quando isso é exatamente o que é necessário. Ambos os
erros causam danos sérios à igreja e refletem uma mente indisposta a avaliar seu
procedimento por meio do equilíbrio e sensatez da Palavra de Deus.
O que estava acontecendo na igreja de Corinto? Parece que alguns crentes estavam
prontos a rejeitar certos líderes cristãos, porque preferiam seguir outro líder como guru.
Elevar um líder e oferecer-lhe a lealdade que deve ser dada somente a Deus é muito mau.
Rejeitar toda a autoridade de um líder cristão revela uma terrível falta de cortesia e coloca
em lugar de Deus um juiz designado pela própria pessoa.
Duas outras considerações devem controlar nossa tendência de julgar os outros. (1) Não
sabemos o fim da história. Alguns que começam bem terminam mal. Outros que começam
devagar, hesitando, terminam com um triunfo próspero. “Portanto, nada julgueis antes do
tempo, até que venha o Senhor” (4.5a). Não conhecemos os motivos das pessoas que estamos
julgando. Isso é uma prerrogativa reservada somente para Deus, “o qual não somente trará à
plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações”
(4.5b). Há alguns líderes que ministram de modo competente e podem agradar grandes
multidões, mas seus corações são pântanos de lascívia, arrogância e ambição. Há outros,
talvez menos dotados, que lutam silenciosa e fielmente contra os grandes desapontamentos
e pressões, mas seu coração clama: “Eis-me aqui. Envia-me. Torna-me tão santo, amável e útil
quanto um pecador perdoado pode ser”. As motivações íntimas não devem ser levadas em
conta? E quem pode fazer isso, senão Deus?
Talvez a característica mais notável deste parágrafo de 1 Coríntios seja a maneira como
ele termina. Visto que Paulo pensava no dia do Juízo Final, ele deveria ter dito: “Naquele dia,
cada um receberá a sua recompensa de Deus”. Mas, em vez disso, ele falou: “Então, cada um
receberá o seu louvor da parte de Deus” (4.5c). Como isso é maravilhoso! O Rei do universo,
o Soberano que suportou nossa rebeldia incessante e buscou-nos ao preço da morte de seu
Filho, consumou nossa redenção por amar-nos! Ele é um Pai sábio que conhece os meios de
encorajar os mais frágeis esforços de seus filhos. O que essa maneira de concluir o parágrafo
nos mostra é que, neste caso, pelo menos, Deus julga menos severamente do que os juízos
designados pelas próprias pessoas na igreja. Paulo pressupõe que os líderes em questão não
devem ser disciplinados, evitados ou ignorados; eles são líderes cristãos verdadeiros (bona
fide) e, no Último Dia, o próprio Deus os elogiará.
É claro que isso não significa que todo líder cristão exerce seu ministério isento de
qualquer repreensão. Barnabé e Pedro se mostraram incoerentes em Antioquia (Gl 2.11-14).
Paulo foi impaciente com João Marcos (At 15.37-40); Apolo necessitava de mais instrução
para corrigir sua pregação (At 18.24-28). Em todos os casos, algum discernimento, algum
julgamento por parte dos cristãos era necessário. O princípio em favor do qual Paulo
argumentava nesta passagem não levava à conclusão de que os cristãos devem ser tão
medíocres que não façam qualquer distinção. Só porque os calvinistas têm coisas a aprender
de Wesley, e os wesleyanos, de Calvino, isso não significa que ambos esses homens estavam
certos em tudo que diziam e ensinavam. Paulo não estava isentando os cristãos de sua
responsabilidade de discernir e provar todos os ensinos por meio das Escrituras, a fim de
seguir o melhor. Pelo contrário, ele estava condenando aquele tipo de julgamento que rejeita
um líder cristão somente porque ele não se enquadra perfeitamente em meu partido, ou
porque parece competir com meu guru preferido, ou porque não está sob minha influência.
Sem dúvida, os líderes cristãos cometem todos os tipos de erros e dizem todos os tipos
de coisas insensatas. Todavia, eles não são marionetes que a igreja deve contratar ou
despedir como se fossem nada mais do que seus empregados. A igreja não é o patrão e o
pastor, o empregado. Tanto o líder cristão como a igreja têm um supremo patrão — o próprio
Jesus Cristo. O ideal é que a igreja e o líder trabalhem em harmonia sob a direção de um
único Cabeça. Na prática, quando a igreja se afasta do evangelho, talvez seja necessário o
líder tomar ações drásticas (como em 2 Coríntios 13). Quando o líder se afasta, é necessário
que a igreja aja. Mas ambos os lados têm de reconhecer que há apenas um Cabeça. Na
situação dos cristãos de Corinto, Paulo julgou importante que eles reconhecessem que os
líderes cristãos são chamados primariamente a servir ao Senhor Jesus Cristo. Portanto, a
igreja não tem o direito de permanecer em juízo a respeito deles.
Embora Paulo tenha formulado seu argumento de maneira um tanto abstrata,
aparentemente ele pensava no sectarismo explícito na igreja de Corinto. “Estas coisas,
irmãos, apliquei-as[14] figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por
nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito” (4.6a). Essa citação de
Paulo não se encontra nas Escrituras. Talvez fosse um slogan comum na igreja primitiva,
semelhante a “prenda-se ao texto”. Por elevarmos o critério do gosto pessoal ao nível que
condicionou os coríntios a rejeitarem alguns líderes, os crentes de Corinto não se prenderam
à revelação bíblica; antes, estavam indo além dessa revelação. Uma pessoa pode distorcer
facilmente a verdade e o equilíbrio da Escritura, indo além do que ela afirma, e negar
algumas partes dela. Se nesses pontos aqueles crentes se apegassem à orientação bíblica,
nenhum deles se ensoberbeceria “a favor de um em detrimento de outro” (4.6).[15]Como
poderiam? Teriam mais interesse em “gloriar-se” no Cristo crucificado: “Aquele que se
gloria, glorie-se no Senhor” (1.31). Exaltar uma pessoa entre as outras redimidas pelo
Messias crucificado é abominável.
Em qualquer caso, Paulo argumentou, se você recebeu alguma ajuda, discernimento ou
fortalecimento especial sob o ministério de um líder específico, isso não é um dos melhores
dons de Deus para você, em vez de um motivo de orgulho? Ainda que trabalhemos
arduamente, a habilidade de trabalhar em grande medida não é o fruto de boa saúde e de
um treinamento que produziu disciplina e responsabilidade? “Pois quem é que te faz
sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias,
como se o não tiveras recebido?” (4.7).
Assim Paulo identifica o âmago do problema. Esse tipo de julgamento é motivado por
orgulho. A ironia é que essa arrogância repugnante estava sendo direcionada contra aqueles
a quem haviam sido confiados “os mistérios de Deus”, o evangelho do Messias crucificado,
as boas-novas pelas quais essas pessoas dadas a julgamentos haviam sido salvas. Como
alguém sensato podia ser arrogante junto à cruz?

LIDERANÇA CRISTÃ SIGNIFICA VIVER À LUZ DA CRUZ (4.8-13)
A linguagem de Paulo agora é embebida em ironia pungente. Os crentes de Corinto
haviam se tornado presunçosos, satisfeitos consigo mesmos, sossegados, orgulhosos. “Já
estais fartos” — resultando em que não sentiam necessidade do que ainda não tinham. “Já
estais ricos” — por isso, não buscavam a riqueza espiritual ou não atentavam à ordem de
Jesus para acumularem tesouros nos céus. “Chegastes a reinar” — ou melhor, “começastes o
vosso reino”. Paulo não estava falando a respeito do status daqueles cristãos (“vos tornastes
reis”), e sim da percepção deles quanto às suas próprias funções (“começastes o vosso
reino”).
Isso necessita de esclarecimento. Desde o início, os cristãos haviam sido ensinados a
olhar adiante, para o final desta era, quando Cristo mesmo retornará. O Novo Testamento
termina com o Espírito e a noiva (a igreja) se dirigindo ao Senhor Jesus exaltado e clamando:
“Vem!” (Ap 22.17). Esperamos a consumação da salvação que foi “preparada para revelar-se
no último tempo” (1Pe 1.5); aguardamos “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”
(2Pe 3.13). No entanto, os cristãos se regozijam no fato de que Jesus Cristo ressuscitou dos
mortos e já começou a reinar. Ele possui toda a autoridade no céu e na terra (Mt 28.18). Já
fomos introduzidos em seu reino. Deus nos “libertou do império das trevas e nos
transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos
pecados” (Cl 1.13-14). Paulo descreveu o Espírito da graça de Deus como o “penhor” e a
garantia de toda a herança por vir.
Portanto, em um sentido, os cristãos são direcionados ao futuro e estão aguardando o
reino. Podemos chamar essa posição de escatologia futurista. Em outro sentido, os cristãos já
foram transferidos do reino das trevas para o reino do Filho de Deus. Já estamos no reino.
Essa posição é, às vezes, chamada de escatologia realizada ou inaugurada. É muito importante
manter o equilíbrio entre essas duas posições. Se dedicarmos todas as nossas energias em
relação ao futuro, todos os tipos de distorções aparecem. Por exemplo, você pode imitar os
crentes de Tessalônica, os quais pensavam que a volta de Jesus e o fim desta era seriam tão
iminentes, e que eles podiam abandonar seus empregos e parasitar os outros que ainda
trabalhavam; e, com muito entusiasmo, começaram a agir de modo irresponsável. Ou, por
outro lado, você pode se focalizar tanto no futuro, que minimiza inconscientemente os
grandes privilégios que já possui em Cristo. Nesta percepção, tudo neste mundo é obscuro,
sombrio, monótono, quando, porém, o fim chegar...
Ou talvez você erre de outra maneira: enfatiza em demasia as bênçãos que o cristão já
desfruta, a ponto de desprezar o fato de que algumas dessas bênçãos estão reservadas para o
futuro. Você começa a aplicar ao presente passagens e temas que giram em torno do que será
a vida depois que o Messias retornar. Tanto os judeus que aguardavam a vinda do Messias
como os cristãos que esperam o seu retorno têm insistido que o seu povo reinará com Ele. Os
crentes de Corinto, interpretando isso desde o passado até ao seu tempo, acharam que já
haviam começado a reinar — “sem nós”, disse Paulo de maneira áspera. “Sim, tomara
reinásseis para que também nós viéssemos a reinar convosco” (4.8). Isso significaria que
Cristo já havia retornado, o reino consumado de Cristo tinha começado, e todos os cristãos
estavam participando desse reino. Mas ele ainda não tinha começado, e os coríntios estavam
profundamente enganados.
Historicamente, os cristãos têm muitas vezes confundido o equilíbrio bíblico nesta área,
por serem muito apegados ao seu tempo e, por isso, deixarem de ouvir, com cuidado e
reflexão, as Escrituras. Em tempos de guerra, fome e grandes distúrbios sociais, é comum os
cristãos não instruídos clamarem: “É o fim!” Eles põem suas roupa de ascensão e esquecem
que Jesus nos disse que ninguém sabe o tempo, o dia, a hora ou a época de seu retorno. Por
outro lado, quando as coisas vão razoavelmente bem, quando a sociedade parece estável,
quando não há guerras no horizonte, quando a maioria das pessoas em nossa cultura tem
bastante para comer, e o estado de espírito é hedonista e orientado para o sucesso, cristãos
não instruídos adotam sua própria forma de triunfalismo. Ressaltam que Deus é seu Pai, é o
grande Rei, e, por isso, devem viver como príncipes e princesas.
É claro que os crentes de Corinto adotaram essa forma de escatologia. Isso estava
vinculada ao orgulho e à contínua auto-exaltação deles. Paulo destruiu as grandes pretensões
deles ao avaliar o status dos líderes reconhecidos da igreja, os apóstolos. “Porque a mim me
parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados
à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo” (4.9a). Provavelmente, a figura aqui
exposta foi extraída dos desfiles triunfais de retorno das legiões romanas. Os oficiais
militares mais importantes vinham primeiro; depois, os menos graduados. Atrás deles, os
prisioneiros eram conduzidos em ordem decrescente de categoria. Entre os inimigos
derrotados, as classes mais baixas e os escravos constituíam a retaguarda, comendo a poeira
dos outros e sabendo que estavam destinados ao espetáculo. Morreriam nas mãos dos
gladiadores ou seriam lançados às feras selvagens, para divertir a população. De fato, Paulo
disse: uma vez que a arena em que as lutas da igreja estão sendo travadas inclui tanto a
esfera espiritual como a física, os apóstolos se tornaram “espetáculo ao mundo, tanto a
anjos, como a homens” (4.9b).
Com ironia pungente, Paulo ampliou o contraste. Referindo-se aos assuntos do capítulo
1, ele escreveu: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo” (4.10). De
fato, se os cristãos de Corinto seguissem o argumento de Paulo, perceberiam que os
verdadeiros loucos eram eles mesmos — precisamente porque não era assim que eles se
viam. Paulo e outros líderes espirituais eram “loucos” somente porque permaneciam ao lado
da loucura da cruz. “Nós somos... fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e nós, desprezíveis”
(4.10b). A ironia ainda é total. Se Paulo e seus colegas apóstolos eram “fracos”, isso acontecia
porque se mantinham ao lado da “fraqueza” de Deus que, na verdade, é mais forte do que
todo poder humano. Se eram desprezados, isso era feito por um mundo que via a cruz como
loucura, enquanto a única honra que os coríntios tinham recebido era a honra de si mesmos
e, talvez, os aplausos duvidosos de um mundo que eles haviam repudiado por se tornarem
cristãos.
Os cristãos de Corinto precisavam obter um vislumbre melhor do que está envolvido na
verdadeira liderança cristã? Sim, Paulo disse, eis o quadro: “Até à presente hora, sofremos
fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos,
trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando
perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos
chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos” (4.11-13).
Não é necessário que expliquemos em detalhes esses versículos, mas alguns
comentários sobre eles acentuarão o seu impacto. As expressões “até à presente hora” e “até
agora” são provavelmente a maneira de Paulo atrair a atenção para a situação escatológica.
Paulo e seus colegas apóstolos ainda estavam sofrendo, até aquele momento, embora o reino
escatológico tivesse sido inaugurado pelo triunfo de Cristo. Em outras palavras, os cristãos
de Corinto estavam distorcendo a sua teologia, enquanto ignoravam a evidência bastante
óbvia. As privações do ministério itinerante (“fome”, “nudez” e “esbofeteados”), a própria
natureza da vida apostólica, culminam em “não temos morada” — exatamente porque a
“morada” deles não estava neste mundo.
À primeira vista, a expressão “trabalhando com as nossas próprias mãos” parece estar
fora de lugar. Na verdade, pelo fato de que os mestres no mundo helenista consideravam o
trabalho manual como inferior a eles, enquanto Paulo sustentava frequentemente a si mesmo
e a sua equipe (e, às vezes, insistiu em fazer isso) por meio de sua habilidade em lidar com
couro, foi fácil para os coríntios rejeitá-lo como uma espécie inferior na profissão de ensino.
Mas aquilo que eles desprezavam, Paulo o julgava exemplar. E, quanto à maneira de
responder aos escárnios e insultos de um mundo cético, Paulo nos oferece seu testemunho
como modelo: “Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos;
quando caluniados, procuramos conciliação” (4.12-13) — ecoando em sua própria prática o
ensino (Lc 6.28) e o exemplo (Lc 23.24) do Senhor Jesus. Resumindo tudo, Paulo disse que ele
e seus colegas tinham “chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos” (4.13),
refugo de todos, sujeira de todos, lixo de todos — tudo que é desprezível em uma sociedade
de pessoas belas e prósperas.
Não podemos ignorar o modelo de Paulo — não o modelo que ele era para os outros, e
sim o modelo que ele escolhera para si mesmo. Somos relembrados novamente da cruz. O
profeta escreveu sobre o Servo sofredor: “Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo,
mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os
homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens
escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso” (Is 53.2b-3). Paulo testemunhou
aos cristãos de Filipos que ele desejava experimentar não somente o poder da ressurreição de
Cristo, mas também a comunhão dos seus sofrimentos (Fp 3.10). De fato, ele escreveu aos
cristãos de Roma e lhes falou que eram “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se
com ele sofremos, também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). Se Paulo insistiu que era
um modelo para os outros, aconselhando-os a que o imitassem (4.16), ele fez isso porque
seguia o exemplo de Cristo (11.1).
Paulo não era tão ingênuo a ponto de pensar que todos os cristãos devem sofrer
idealmente na mesma medida. Na verdade, em uma de suas cartas ele testemunha a sua
disposição de suportar medida desproporcional de sofrimento, para que outros tivessem
alívio. Mas, o que estava em risco, para Paulo, era uma postura fundamental, uma maneira de
ver as coisas. Podemos resumi-la em três pontos.
Seguimos um Messias crucificado. Todas as promessas escatológicas referentes ao novo céu
e à nova terra, todas as bênçãos de pecados perdoados e do bendito Espírito de Deus não
negam o fato de que as boas-novas que apresentamos se focalizam na loucura do Cristo
crucificado. E essa mensagem não pode ser eficazmente transmitida se nos fundamentarmos
na arrogante posição de condescendência triunfalista. Até ao fim desta era, tomaremos nossa
cruz — ou seja, morreremos diariamente para o interesse próprio — e seguiremos a Jesus.
Quanto menos uma sociedade conhece esse caminho, tanto mais loucos pareceremos e tanto
mais sofrimento suportaremos. Que assim seja! Não há outra maneira de seguir a Jesus.
Os líderes da igreja sofrem mais. Eles não são como generais do exército que ficam atrás
das tropas. Eles são as tropas de assalto, a linha de frente, aqueles que lideram pelo exemplo
e pela palavra. Louvar uma forma de liderança que despreza o sofrimento significa negar a
fé.
De certo modo, todos os cristãos são chamados a esta visão da vida e do discipulado. Paulo
também disse: “Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. Por esta causa, vos
mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus
caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja” (4.16, 17, ênfase
acrescentada).
Temos de reconhecer sinceramente que essa postura é estranha a muito de nossa
experiência no mundo ocidental. Até recentemente, até os não-convertidos no mundo
ocidental aderiam aos valores judaico-cristãos. Contudo, esse consenso está erodindo
rapidamente; e, à medida que isso acontece, há mais e mais oposição a qualquer forma de
cristianismo que tente manter fidelidade às Escrituras.
No entanto, parte do motivo por que essa postura de Paulo parece estranha para muitos
de nós é o fato de que temos nos tornado inconscientemente mais semelhantes aos cristãos
de Corinto do que a Paulo (ou seja, mais bíblicos!). Muitos de nós somos prósperos e
acomodados, tendo pouco incentivo para vivenciarmos uma vibrante antecipação da vinda
de Cristo. Nosso desejo pela aprovação do mundo sobrepuja frequentemente nosso anseio
pelo “Bem feito!” de Jesus. O lugar próprio para começarmos a mudar essa traição profunda
do evangelho é na cruz — em arrependimento, contrição e uma nova paixão não somente por
colocar o evangelho do Messias crucificado no centro de nossa pregação, mas também em
nossa vida e na vida de nossos líderes.

A LIDERANÇA CRISTÃ SIGNIFICA ENCORAJAR —
E, SE NECESSÁRIO , IMPOR — O CAMINHO DA CRUZ
ENTRE O POVO DE DEUS (4.14-21)

Não basta o líder cristão ter muitos seguidores. Afinal de contas, esse líder pode estar
construindo com material perecível, de qualidade inferior (3.12-15). O líder cristão não deve
somente pregar a mensagem da cruz e viver à luz da cruz, mas também fomentar o viver
cristão autêntico. A ortodoxia não é o suficiente. Os cristãos têm de vivenciar o que creem. O
evangelho do Messias crucificado precisa transformar nossas crenças e nosso
comportamento. E, onde o afastamento do caminho da cruz for notório, o líder talvez precise
recorrer a alguma forma de disciplina.

Encorajando os crentes (4.4-17)

Paulo começa com uma alternativa mais gentil. Apesar da ironia pungente que
apresentou nos versículos anteriores, ele insistiu: “Não vos escrevo estas coisas para vos
envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados” (4.14). Em um
nível, é claro que os havia envergonhado. Contudo, essa não era a razão por que escrevera
daquela maneira. Antes, escrevera para “admoestá-los” — corrigi-los, encorajá-los no
caminho certo. Em alguns assuntos que introduziria depois, Paulo mostrou que o
comportamento cristão era tão chocante, que tentou envergonhá-los francamente (6.1-6;
15.34), mas não neste assunto.
Ainda usando um tom gentil, Paulo recordou-lhes que os havia levado a Cristo. Expôs
seu apelo em termos de uma família próspera do século I. Usando uma hipérbole
compreensível, Paulo disse aos cristãos de Corinto que, embora tivessem “milhares de
preceptores em Cristo”, tinham somente um pai. O “preceptor” nas famílias gregas do
século I eram comumente um servo de confiança encarregado de cuidar de um filho. Ele
levava o filho (geralmente, um menino) à escola, buscava-o e supervisionava a sua conduta.
Esses preceptores exerciam certa autoridade sobre o filho, mas essa autoridade nunca era
idêntica à do pai.
Paulo fora o primeiro que trouxera o evangelho aos coríntios; nesse sentido, ele se
tornara o único “pai” deles, um fato que não poderia ser mudado. Paulo foi cuidadoso em
não dar a impressão de que ele mesmo realizara a conversão dos coríntios, como se tivesse
poderes mágicos. Pelo contrário, ele se tornara o pai deles por meio do “evangelho” (4.15).
Paulo lhes pregara o evangelho. Pela graça de Deus, o evangelho transformou aqueles
coríntios, porque “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). O
seu relacionamento com aqueles irmãos não podia ser duplicado ou substituído. Paulo
lançou a semente; outros a regaram. Lançou o fundamento; outros edificaram sobre ele.
Paulo os “gerou” pelo evangelho; outros serviram como preceptores.
“Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores” (1Co 4.16) — escreveu Paulo. A
lógica implícita na palavra “portanto” talvez escape ao leitor moderno, visto que em nossas
famílias não há pressão para que o filho imite o pai. De fato, muitos de nós somos tão
individualistas, que frequentemente exibimos nossa independência como um distintivo de
honra. Mas, no século I — de fato, quase em toda cultura pré-industrial —, esperava-se que
os filhos imitassem os pais. Em termos de profissão, se um pai era um padeiro, o filho
provavelmente seria um padeiro; se um pai era um criador de ovelhas, essa seria quase
certamente a vocação do filho. Este deveria levar adiante os valores, a herança e o nome da
família. Com essa expectativa cultural controlando sua analogia, Paulo argumentou que, se
ele se tornara o “pai” dos cristãos de Corinto, eles deveriam imitá-lo.
No contexto destes capítulos, Paulo desejava que eles imitassem sua paixão por viver à
luz da cruz. Não esperava que sofressem exatamente da mesma maneira que ele sofrera. Não
exigiu que se tornassem apóstolos ou plantassem igrejas em terras distantes. O que ele
realmente esperava era que os cristãos de Corinto imitassem seus valores, sua postura
quanto ao mundo, suas prioridades e sua apreciação da centralidade do evangelho do
Messias crucificado.
Paulo não podia dizer tudo em uma carta. Por isso, resolveu enviar Timóteo, “filho
amado e fiel no Senhor”. Sem dúvida, Paulo recomendou Timóteo com tanta amabilidade
porque desejava que os coríntios o recebessem e o tratassem afetuosamente. Explicou-lhes
por que enviava Timóteo, seu jovem colega: ele “vos lembrará os meus caminhos em Cristo
Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja” (4.17).
Há dois elementos admiráveis nesta comissão. Primeiro, Paulo não estava enviando
Timóteo apenas para expor doutrina, mas também para recordar àqueles crentes os
“caminhos dele em Cristo Jesus”. O cristianismo bíblico inclui tanto o credo como a conduta,
tanto a crença como o comportamento. Às vezes, as verdades elementares das Escrituras não
são entendidas ou cridas, e torna-se necessário considerar novamente os ensinos básicos.
Nesta passagem, Paulo deu a impressão de que o maior problema dos cristãos de Corinto era
o fato de que eles não viviam de acordo com o que sabiam. Discernindo com base nestes
quatro primeiros capítulos da epístola, muitos daqueles cristãos não estavam nem mesmo
fazendo a conexão entre o que eles criam e a maneira como deveriam viver. Queriam insistir
que Jesus havia sido morto e ressuscitara em favor de seus pecados, mas não podiam
assimilar como essa realidade histórica, esse supremo momento dos propósitos redentores
de Deus não somente realizara a salvação deles, mas também devia moldar a sua maneira de
viver. Por isso, Paulo enviou Timóteo para que lhes recordasse seus “caminhos em Cristo” —
que significava uma maneira de viver que se harmonizava com o que ele ensinava.
Isso sugere que o líder cristão de nossos dias deve não somente ensinar o evangelho,
mas também ensinar como o evangelho se expressa na vida e conduta diária. Devemos
explicar e ser modelo dessa união.
Precisamos resgatar urgentemente essa visão acerca do que os líderes cristãos precisam
tentar fazer. A necessidade é evidente mesmo em seminários denominacionais, como o
seminário em que ensino. Sempre temos alunos que vêm de contextos seculares totalmente
pagãos, que se converteram em sua adolescência ou juventude e ingressam no seminário em
seus trinta anos de idade. Comumente, vêm de famílias disfuncionais e trazem certa medida
de bagagem familiar. E isto é ainda mais dramático: um número surpreendente deles não
consegue fazer com facilidade a conexão entre as verdades do evangelho e a maneira de
viver.
Alguns anos atrás, um aluno que estava quase se graduando foi chamado para
aconselhamento por um dos professores. Este ouvira dizer que o rapaz planejava retornar à
ciência da computação e abandonar os planos de entrar no ministério pastoral. O rapaz era
amável e tinha a média B+. Mas, quando o professor o sondou, tornou-se óbvio que ele não
tinha compreendido bem as coisas. Podia definir a expiação, mas não sabia como sentir-se
perdoado. Podia defender a prioridade da graça na salvação, mas ainda achava que nunca
poderia ser suficientemente bom para tornar-se um ministro do evangelho. Podia definir a
santidade, mas se via praticando autodisciplina rígida, em vez de buscar a santificação. Sua
vida e sua compreensão teológica não se harmonizavam.
Pela graça de Deus, aquele professor era espiritualmente perceptivo. Levou o aluno de
volta à cruz e desenvolveu a conversa a partir daquele ponto. O rapaz começou a chorar e
chorar, à medida que vislumbrava o amor de Deus por ele. Hoje ele é um ministro do
evangelho.
Líderes cristãos fiéis têm de fazer a conexão entre o credo e a conduta, entre a cruz e a
maneira de viver. E têm de ser exemplos dessa união em sua própria vida.
No segundo elemento de sua comissão a Timóteo, Paulo disse que Timóteo transmitiria
coisas que estariam de acordo com o que ele, Paulo, ensinava “em cada igreja” (4.17). Em 1
Coríntios, Paulo enfatizou repetidas vezes a mesma verdade: ele era coerente em sua vida e
doutrina e esperava que isso fosse vivenciado em cada igreja (cf. 7.17, 11.16, 14.33). Isso
sugere que a igreja de Corinto estava tentando constantemente provar quão independente
era. Paulo lhes disse que existe um tipo de criatividade que nos tira do âmbito da fé cristã.

Advertindo os crentes (4.18-21)

Paulo foi o primeiro a reconhecer que nem todos os problemas seriam resolvidos por
uma carta. Neste caso, o triste estado da igreja de Corinto tinha sua fonte em um grupo de
pessoas que Paulo chamou de “ensoberbecidos”. Em muitas instituições, um pequeno
número de pessoas molda amplamente a opinião de quase todo o corpo. No caso da igreja de
Corinto, esses ensoberbecidos, formadores de opinião, não somente haviam influenciado a
congregação, mas também estavam confiantes de que Paulo não apareceria lá — “Alguns se
ensoberbeceram, como se eu não tivesse de ir ter convosco” (4.18). Ele não podia determinar
um tempo em que apareceria lá, mas prometeu: “Em breve, irei visitar-vos, se o Senhor
quiser” (4.19). E reconheceu, assim como Tiago, que os planos quanto ao futuro devem
sempre estar sujeitos ao “se o Senhor quiser” (Tg 4.15-16). Quando ele fosse, conheceria “não
a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos. Porque o reino de Deus consiste não em palavra,
mas em poder” (4.19-20).
Para entender essa ameaça, é necessário lembrar o fluxo do argumento. Imediatamente,
somos lembrados da discussão em 1 Coríntios 1. Os coríntios haviam sido intoxicados pela
“sabedoria do mundo” e, por causa disso, estavam removendo da cruz de Cristo o seu poder
(1.17). Estavam tão apaixonados pela forma e pela retórica, que exibir-se com eloquência se
tornara mais importante do que o evangelho, que se revela em seu grande poder quando não
está competindo com pessoas mais interessadas em promover a si mesmas do que no poder
de Deus (2.1-5). Quando Paulo viesse a Corinto, não se deixaria impressionar pela “palavra”
deles; nem mesmo se importaria com o que os ensoberbecidos estavam falando, embora
tivessem grande eloquência e retórica. Não, ele se interessaria somente por uma coisa: que
poder eles tinham? À luz de 1 Coríntios 1.18-25, isto se refere ao poder do evangelho, o poder
de perdoar, transformar, chamar homens e mulheres ao reino do amado Filho de Deus.
Meras conversas não mudam as pessoas; o evangelho, sim, muda. Paulo procuraria as
credenciais deles: que pessoas a eloquência de vocês transformou verdadeiramente, por
trazê-las ao conhecimento pessoal do Messias crucificado? Ele os exporia, mostrando que
eram religiosos tagarelas e vazios.
É possível que a ameaça de Paulo seja ainda mais profunda. No começo do capítulo
seguinte, ele abordou diretamente um homem cujo pecado sexual exigia ser confrontado
pela disciplina da igreja. Paulo esperava que a igreja entregasse esse homem a Satanás (5.5).
Contudo, há evidência de que, se a igreja mostrasse indisposição para exercer essa disciplina,
Paulo agiria por si mesmo. Em Éfeso, por exemplo, havia dois homens, Himeneu e
Alexandre, que “vieram a naufragar na fé”, os quais, disse Paulo, “entreguei a Satanás, para
serem castigados, a fim de não mais blasfemarem” (1Tm 1.20). Em uma carta posterior
dirigida aos coríntios, Paulo adverte que talvez teria de ser severo no uso de sua autoridade
apostólica, se eles não colocassem a casa em ordem (2Co 13.10).
Em outras palavras, trazer o povo de Deus ao viver cristão coerente, à luz do evangelho
do Messias crucificado, era tão importante para Paulo, que ele não se desviaria do seu alvo.
Se motivasse as pessoas nessa direção, por meio do encorajamento e da admoestação, isso
seria vantagem para elas; mas, se fosse necessário usar a disciplina, Paulo não a evitaria.
Então, ofereceu aos coríntios uma escolha: “Que preferis? Irei a vós outros com vara ou com
amor e espírito de mansidão?” (4.21). É claro que ele não estava dizendo que, se fosse com a
vara (uma vara de correção, continuando a metáfora do relacionamento pai e filho), não os
amaria. O contraste se refere à maneira ou à forma de sua ida, e não aos seus motivos.
Contudo, a disciplina física machuca, mesmo realizada por um pai que insiste estar batendo
em seu filho porque o ama. Para o filho é melhor mudar seu comportamento, para que a
maneira como seu pai venha não seja com “vara”, e sim com um espírito de mansidão.
Em resumo, os líderes cristãos não ousam negligenciar sua responsabilidade de liderar o
povo de Deus a viver de conformidade o evangelho. Essa foi a razão por que Paulo instou os
cristãos a viverem de modo digno da vocação que haviam recebido (Ef 4.1). Foi a razão por
que orou em favor de que tivessem uma maneira de viver digna do Senhor, o Messias
crucificado, e O agradassem em tudo (Cl 1.10). E, se o povo de Deus resistir teimosamente,
em desobediência, essa pode ser a ocasião para que os líderes cristãos admoestem,
repreendam e disciplinem com firmeza aqueles que confessam o nome de Cristo e não O
seguem. Os passos mais severos nunca devem ser tomados apressada ou levianamente. Mas,
às vezes, eles têm de ser tomados. Isso faz parte da responsabilidade da liderança cristã.

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO


1. O que significa ser “despenseiros dos mistérios de Deus”?

2. Quando os cristãos devem “julgar” uns aos outros? Quando devem parar de fazer isso?

3. Que exemplos de ser “espetáculo” por amor a Cristo você já vivenciou ou sobre os quais
ouviu falar?

4. De que maneira Paulo tencionou incutir simultaneamente em seus convertidos o
evangelho como um credo e o viver cristão autêntico?

5. Como os líderes cristãos devem ser diferentes da maioria dos líderes do mundo?

[14] Acho que o verbo grego, embora esteja no aoristo, se refere ao tempo presente (Compare com a tradução da NVI, em
inglês: “Tenho aplicado”).
[15] 1 Coríntios 4.6-7 contém um texto grego difícil que poderia ser entendido de diversas maneiras. Com alguma hesitação,
sigo a NVI.
CAPÍTULO 5
A C R U Z E O C R IS TÃ O TR A NS C U LTU R A L
(1 CORÍNTIOS 9.19-27)

19 Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. 20 Procedi, para
com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim
vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. 21 Aos sem lei, como se eu mesmo
o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei.
22 Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos
os modos, salvar alguns. 23 Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele.


24 Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal
maneira que o alcanceis. 25 Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a
incorruptível. 26 Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. 27 Mas esmurro o
meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.


É melhor começarmos explicando o que significa a expressão “cristão transcultural”.
A expressão cristão transcultural possui um sentido especializado entre os missionários,
devido, em parte, à crescente globalização (outra palavra recém-cunhada!) da igreja.
Globalização é um termo que inclui muitos fenômenos relacionados. Os missionários não
estão mais tomando a mesma direção, saindo do chamado Primeiro Mundo para o Terceiro
Mundo. Agora, eles estão saindo de muitas partes do mundo para muitas outras partes. As
facilidades de comunicação capacitam os cristãos de todo o mundo a trabalharem juntos em
projetos concretos e formas de alcançar os perdidos. Cada vez mais, a igreja em uma parte
do mundo é informada do que acontece em muitas outras partes do mundo. Reflexões
teológicas e modelos de treinamento bíblico e teológico não estão mais presos
exclusivamente a modelos criados no Ocidente e exportados para as outras partes do globo.
Movimentos globais de dinheiro e de pessoas mudam diversas prioridades — tanto na igreja
como fora dela.
Quase em reação à globalização, muitas pessoas estão agindo com nacionalismo
crescente, às vezes com etnocentrismo quase ameaçador. Os cristãos não estão imunes a
essas poderosas correntes de pensamento. Eles também podem ser envolvidos em
nacionalismo fanático que coloca os interesses de minha nação, classe, raça, tribo e herança
acima das exigências do reino de Deus. Em vez de sentirem que sua cidadania mais
importante está no céu e que estão apenas de passagem neste mundo, a caminho de seu lar
na Jerusalém celestial (Hb 12.22-23), eles se enredam com prioridades insignificantes que
constituem uma negação implícita do senhorio de Cristo.
Então, o que precisamos é de cristãos transculturais — não apenas cristãos americanos,
ou britânicos, brasileiros ou quenianos e sim cristãos transculturais. Neste caso, a expressão
significa cristãos autênticos no Senhor Jesus Cristo, a respeito dos quais as seguintes
afirmações são verdadeiras:
A fidelidade deles a Jesus Cristo e a seu reino é colocada conscientemente acima de toda fidelidade à nação, língua,
raça e cultura; O compromisso deles com a igreja, a comunidade messiânica de Jesus, é o compromisso com a igreja em
todos os lugares, onde quer que a igreja seja verdadeiramente manifesta, e não somente com a manifestação da igreja em
sua terra natal; Eles se veem antes e acima de tudo como cidadãos do reino celestial e, por isso, consideram todas as outras
cidadanias como uma questão secundária.
Como resultado, eles são resolutos e sacrificiais no que diz respeito ao mandato supremo de evangelizar e fazer
discípulos.


A igreja é a única instituição que possui relevância eterna. Se alguém deve transcender
as limitações das lealdades meramente temporais, os que constituem a igreja são os que
devem fazer isso.
Na passagem que consideraremos, Paulo, o mais autêntico cristão transcultural, delineia
uma série de convicções e prioridades que devemos adotar, se temos de ser nós mesmos esse
tipo de cristão.

TEMOS DE CONHECER AS LIBERDADES E AS RESTRIÇÕES QUE TEMOS EM
JESUS CRISTO
Paulo iniciou esta passagem com o que, à primeira vista, parece ser uma contradição. Ele
estava falando a respeito de como mudava aquilo que hoje chamamos estilo de vida, quando
tentava evangelizar diferentes grupos de pessoas: “Procedi, para com os judeus, como judeu,
a fim de ganhar os judeus” (9.20a). Em seguida, explicou que características dos judeus
exigiam flexibilidade autêntica de sua parte: “Para os que vivem sob o regime da lei, como se
eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo
da lei” (9.20b, ênfase acrescentada). Por outro lado, Paulo se comportava de maneira diferente
entre os gentios: “Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus,
mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei” (9.21, ênfase
acrescentada). Então, Paulo estava ou não sob a lei?
O significado da passagem é alvo de muitos debates. Tentarei defini-lo seguindo vários
passos.
1. É claro que Paulo via a si mesmo no que poderíamos chamar de uma terceira posição.
Ele não se via como um judeu cristão, alguém que obedecia normalmente a lei de Moisés e
tinha de mudar o comportamento para ganhar os gentios.[16] Ele também não se via como
um gentio que adotara o fardo da lei para ganhar os judeus. Paulo se via em uma terceira
posição, da qual ele tinha de curvar-se para ganhar judeus e gentios. “Para os que vivem sob
o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse... Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse” (ênfase
acrescentada). Paulo ocupava uma terceira posição.
2. Quando Paulo disse que se tornava como judeu ou como gentio, ele introduziu
imediatamente uma observação parentética que estabeleceu as limitações de sua
flexibilidade. Essas observações parentéticas são muito difíceis. Por um lado, para os que
estavam sob a lei, Paulo se tornou como se também estivesse sob a lei; isso provavelmente
significa que ele observava escrupulosamente leis relacionadas a alimentos e outros preceitos
que o capacitavam a mover-se livremente nas comunidades judaicas e ganhar audiência —
embora, conforme ele insistiu na afirmação parentética, não estivesse sob a lei.
Por outro lado, para os que não tinham a lei ele se tornava como se não tivesse a lei — e
isso provavelmente significa que ignorava as restrições legais que separava os judeus dos
gentios, vivendo livremente entre os gentios com se fosse um deles, embora, conforme
insistiu na afirmação parentética, não estivesse livre para fazer o que desejasse. Ele não
estava “sem lei para com Deus”, mas “debaixo da lei de Cristo”. A menos que Paulo estivesse
se contradizendo, ele não tencionava que “lei para com Deus”, no segundo caso, significasse
exatamente o mesmo que a expressão “a lei”, no primeiro caso.
Além disso, não importando o que ele pretendesse dizer ao afirmar que não estava sem
lei para com Deus, há algo intuitivamente óbvio quanto a isso. Podemos com facilidade ouvir
Paulo dizendo: “Para os judeus, eu me tornei um judeu. E, para os gentios, um gentio”. Não
podemos imaginá-lo dizendo: “Para o fofoqueiro, tornei-me um fofoqueiro”; “para o
adúltero, tornei-me um adúltero”. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que disse não
estar sob a lei como o estavam os demais judeus, Paulo não estava sugerindo que era
antinomiano (alguém que se sente completamente livre de todas as exigências e
mandamentos de Deus).
3. Há outras passagens, mesmo em 1 Coríntios, em que a lei de “Deus” ou os
mandamentos de “Deus” não podem ser reduzidos ao código de Moisés. A passagem mais
discutida é, creio eu, 1 Coríntios 7.19: “A circuncisão, em si, não é nada; a incircuncisão
também nada é, mas o que vale é guardar as ordenanças de Deus”. Alguns cristãos que dão
muita importância à lei gostam de citar a segunda parte deste versículo: “O que vale é
guardar as ordenanças de Deus”. O que devemos lembrar é que o judeu do século I diria:
“Espere um momento! A circuncisão é uma das ordenanças de Deus. Como você pode dizer
que a circuncisão não é nada e, imediatamente, comentar que o importante é guardar as
ordenanças de Deus?” A única resposta é que, para Paulo, os mandamentos de Deus,
normativos para o cristão, não podiam ser equiparados ao código de Moisés.
4. Se entendemos de modo correto 1 Coríntios 9.19-23, Paulo disse que não estava sob a
aliança da lei (mosaica). Não era mais a aliança da lei que o prendia ao Deus de seus pais. A
fim de ganhar seus compatriotas judeus, ele se contentava em viver sob as estipulações
daquela aliança da lei e não ser desnecessariamente ofensivo aos judeus, mas insistia que a
aliança da lei não mais o prendia. E não podia. Ele estava sob a nova aliança (cf. 1Co 11.25).
Por outro lado, para ganhar aqueles que não tinham a lei de Deus expressada na velha
aliança — ou seja, os gentios —, Paulo se preparava para viver sem quaisquer restrições da
lei-aliança sobre eles; mas há restrições que não podemos ultrapassar. Paulo não era
infinitamente flexível. Ele não vivia “sem lei para com Deus”. Isso não significa que Paulo
não era livre da aliança da lei (mosaica), pois ele acabara de dizer isso. Pelo contrário, acho
que Paulo disse que não era livre das exigências, dos requerimentos de Deus. Em seguida, ele
estipula onde estão esses requerimentos: “Não estando sem lei para com Deus, mas debaixo
da lei de Cristo” (ênfase acrescentada). Essa expressão é peculiar, mas o cerne da ideia é
bastante claro. Todas as exigências de Deus sobre ele são mediadas por Cristo. Aquilo que
Deus exigia dele como um crente da nova aliança, um cristão, isso o limitava. Ele não podia ir
além dessas restrições. Havia um limite rígido para a sua flexibilidade, enquanto procurava
ganhar os perdidos de diferentes grupos religiosos e culturais. Paulo não podia fazer o que é
proibido ao cristão e podia fazer tudo que é ordenado ao cristão. Ele não era livre da lei de
Deus; estava sob a lei de Cristo.
Assim, embora esta passagem seja, às vezes, interpretada com o sentido de que
devemos nos sentir livres para reformular o evangelho, quando nos movemos de uma cultura
a outra, isso era exatamente o que Paulo não estava dizendo. Paulo estava pronto para ser
extraordinariamente flexível nas situações em que a lei de Deus, mediada por Cristo, não o
impedisse. Contudo, ele mesmo estava sob “a lei de Cristo”, que, nesta epístola, está
claramente vinculada ao próprio evangelho, o evangelho do Messias crucificado.
5. Nesta altura, a questão óbvia é como a lei de Cristo, que Paulo diz que lhe impunha
limitações, estava relacionada à aliança da lei mosaica, que Paulo afirmou que não o impedia.
Uma coisa era Paulo dizer que não estava sob uma aliança A, mas sob uma aliança B.
Todavia, outra coisa bem diferente era Paulo dizer que os mandamentos e as proibições de
ambas as alianças são totalmente disjuntivos, de modo que nada têm em comum. As
alianças não podem ser idênticas em seus mandamentos, pois, do contrário, seria difícil
alguém falar em duas alianças. Contudo, por causa do Deus da Bíblia, é inimaginável que as
duas alianças sejam totalmente disjuntivas em seus respectivos mandamentos. Então, surge
a pergunta legítima: como os mandamentos, as “leis”, no sentido moderno da palavra, da
nova aliança se relacionam como os mandamentos, as “leis”, da antiga aliança?
Embora essa pergunta seja importante e tenha uma longa e confusa história de
interpretação, não a abordarei aqui, pois isso nos afastaria do ponto que desejo atingir.
Naquele ponto, Paulo não mudará de atitude.
6. O propósito desta discussão complexa se torna claro agora. Embora Paulo fosse um
apóstolo e evangelista extraordinariamente flexível, ele distinguia os elementos do
cristianismo de maneira tão profunda e saliente, que sabia quando ser flexível e quando
podia ser firme. Em outras palavras, sua compreensão da teologia capacitou-o a saber quem
ele era, o que se esperava dele, o que tinha liberdade de fazer e o que deveria não fazer em
qualquer circunstância.
Em resumo, também devemos saber quais são as nossas liberdades e restrições em
Cristo. A única maneira de chegarmos a essa maturidade é meditarmos frequentemente nas
Escrituras, tentando assimilar o seu sistema de pensamento — como as partes se combinam
para serem coerentes.
Evidentemente, esta não é a única passagem que é muito importante em ajudar os
cristãos a lidarem com a questão a respeito de quem eles são. Os cristãos são aqueles que
foram justificados pela fé em Cristo Jesus e, por consequência, têm paz com Deus (Rm 5.1).
Os cristãos são aqueles que invocam o nome do Senhor Jesus Cristo (1.2). Os cristãos são
aqueles que suplicam a Deus que o seu poder esteja neles, para que Cristo habite neles pela
fé, enquanto reconhecem cada vez mais as infinitas dimensões do amor de Deus por eles, em
Cristo Jesus (Ef 3.14-21). É imensamente importante que os cristãos saibam quem eles são
como filhos do Deus vivo, o que se espera deles, em que áreas podem ser flexíveis e em que
situações têm de ser tão rígidos como o aço.
Somente as pessoas que obtêm esse conhecimento podem se a unir a Paulo e dizer, sem
comprometerem-se: “Fiz-me tudo para com todos” (9.22). Hoje a expressão “tudo para com
todos” é frequentemente usada como uma forma de menosprezo. Se ele (ou ela) não tem
determinação, dizemos: tem duas caras; é “tudo para com todos”. Mas Paulo usou-a como
um testemunho de seu compromisso evangelístico. Ele não poderia ter feito isso se não
soubesse o que ele mesmo era como cristão. A pessoa que vive por regras intermináveis e
forma sua própria identidade por conformar-se a tais regras não pode ser flexível de maneira
alguma. Em contraste, aquele que não tem fundamentos, herança, identidade própria e
valores inegociáveis não é realmente flexível; está apenas sendo levado de um lado para
outro pelos caprichos de toda opinião excêntrica que aparece por aí. Essas pessoas podem se
“adaptar”, mas não podem ganhar ninguém. Não estão presas a nada firme e sólido; por
isso, não podem ganhar outros para aquilo a que estão presas. Portanto, o propósito da
afirmação de Paulo no versículo 22 é crucial: “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por
todos os modos, salvar alguns” (ênfase acrescentada). Essa perspectiva é tão importante, que
retornarei a ela.
No século XIX, quando Hudson Taylor, o fundador da China Inland Mission (hoje,
Overseas Missionary Fellowship), começou a usar cabelos longos e trançados, como os homens
chineses da época, a vestir-se como eles e a comer os mesmos alimentos que eles comiam, foi
zombado por muitos de seus colegas missionários. Mas Hudson Taylor havia meditado sobre
o que era essencial ao evangelho (e, portanto, inegociável) e o que era uma expressão cultural
que poderia ser um obstáculo desnecessário à proclamação eficaz do evangelho.
Para ser um cristão transcultural é importante que cresçamos em nossa compreensão
das Escrituras e em nossa exposição a outras culturas, de modo que não vinculemos ao
evangelho as nossas preferências culturais e as invistamos com a autoridade do evangelho.
Não estamos dizendo que todos os elementos culturais são moralmente neutros. De maneira
nenhuma. Toda cultura tem em si boas e más características. Pessoas ímpias podem
manipular o apelo à cultura para perseguir os cristãos (como ocorreu, por exemplo, em Atos
16.20-21). Contudo, é importante que o evangelista, plantador de igreja e testemunha de
Cristo seja tão flexível quanto possível em cada cultura, para que o evangelho não pareça
desnecessariamente esquisito no nível meramente cultural. Mas também é importante
reconhecer os elementos pecaminosos na cultura, quando estes se manifestam, e entender
como as normas bíblicas podem avaliá-los. Haverá ocasiões em que será necessário
confrontar a cultura. Afinal de contas, apelar simplesmente às normas culturais, enquanto
exigimos mais flexibilidade da parte dos cristãos, é apenas uma maneira de dizermos que o
evangelho não tem o direito de julgar a cultura — e isso não produzirá bons resultados.
Para começarmos a julgar essas questões corretamente, precisamos saber que liberdades
e restrições possuímos em Cristo Jesus. Temos de desenvolver uma compreensão firme da
teologia bíblica.

NÃO DEVEMOS INSISTIR EM NOSSOS “DIREITOS”

Esta parte do argumento de Paulo se torna bem clara se acompanharmos o seu
pensamento desde 1 Coríntios 8.1 a 11.1, uma passagem que se mantém como uma unidade
controlada por dois ou três temas. Não podemos parar agora e considerar os cinco pontos do
argumento de Paulo, mas há alguns elementos desse argumento que podem ser sumariados
e o estabelecem claramente: não devemos insistir em nossos “direitos”.
1 Coríntios 8 discute amplamente se o cristão deve ou não comer carne oferecida aos
ídolos. Parece que a maior parte da carne era abatida em conexão com uma associação de
comerciantes de um templo e vendida bem à porta deste. Os cristãos que se haviam
convertidos recentemente do paganismo tendiam a achar que comprar e comer aquela carne
era um compromisso perigoso. Essa atitude sinalizava um interesse nas velhas divindades
pagãs e, por isso, envolvia o cristão na idolatria. Outros cristãos, mais maduros, achavam que
cortar um pedaço de carne em frente de um ídolo de pedra não afetava a carne; ela ainda era
alimento e nada mais. Por isso, podia ser comprada e comida com sã consciência. Só porque
os pagãos achavam que o ídolo representava uma divindade, isso não significava que os
cristãos tinham de satisfazer essa superstição. E, assim, a igreja de Corinto estava dividida.
É instrutiva a maneira como Paulo tratou desse problema. Em 1 Coríntios 10, ele proibiu
completamente qualquer envolvimento na adoração realizada nos templos pagãos. Por trás
dos ídolos estão forças demoníacas perigosas demais para brincarmos com elas. Além disso,
não podemos participar de rituais de culto sem que tenhamos comunhão com os adoradores
do ídolo. Fique longe da idolatria!
Mas, no capítulo 8, a linha de pensamento de Paulo era mais sutil. Por um lado, ele
concordou que comprar carne abatida em frente de um ídolo não compromete o cristão. A
carne não era afetada. Por outro lado, aqueles que achavam que isso era comprometedor e
cuja consciência Paulo definiu como “fraca” (porque achavam que algo era mau quando
realmente não era) não deveriam comprar e comer aquela carne. Estariam ferindo sua
própria consciência. Paulo achou que isso envolvia o risco de corromper a consciência dos
cristãos, porque, se eles se habituassem a ignorar a voz da consciência, poderiam ignorar essa voz
quando a consciência estivesse bem informada e os avisasse de algo positivamente mau. Sem dúvida,
a longo prazo, Paulo desejava que esses cristãos crescessem em seu conhecimento das
Escrituras e do evangelho, para que não julgassem ser mau aquilo que não o era (como o
comer carne que havia sido oferecida aos ídolos). Mas, até que eles alcançassem essa
maturidade, não deviam corromper sua própria consciência.
Enquanto isso, Paulo disse aos que tinham consciência “forte” (forte porque eram
suficientemente informados de que, nessa questão, pelo menos, eles não qualificavam como
mau algo que não era realmente mau) que estavam certos no assunto de carne oferecida aos
ídolos e que a discussão não devia acabar nesse ponto. Ele deviam também sentir obrigação
para com seus irmãos e irmãs mais “fracos”. Se aquele que tinha consciência fraca visse
outro cristão, mais velho na fé, supostamente mais sábio, comendo carne oferecida a ídolos,
poderia sentir-se estimulado a fazer o mesmo — em desafio à sua própria consciência e
detrimento de sua vida espiritual. Os cristãos mais fortes se mostrariam insensíveis se
insistissem em seus próprios direitos. “E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-
lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais. E, por isso, se a comida serve de
escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo”
(8.12-13).
Nesse conselho espiritual, há dois elementos que precisam ser entendidos.
Primeiro, o tipo de situação que Paulo enfrentou neste caso não deve ser confundido
com outra situação diferente. Suponha que você é um cristão que, devido a sua formação
cultural, sempre se envolveu em beber socialmente. Agora, você muda para um ambiente
que é socialmente mais conservador. Algum cristão mais velho pode encontrá-lo e dizer-lhe:
“Estou ofendido pela sua atitude de beber. Paulo disse que, se alguém é ofendido pelo que
fazemos, temos de parar com isso. Estou ofendido. Portanto, você deve parar de beber
socialmente”. Como você reagiria?
Esse cristão mais velho está apenas manipulando-o. Ele não é uma pessoa que tem uma
consciência fraca e está em risco de mudar de comportamento por causa de seu exemplo e,
assim, ferir sua consciência. De modo nenhum. Se esse irmão o vir bebendo novamente, ele o
repreenderá nos termos mais severos. Ele pensa que é o mais forte e não o mais fraco. Em
outras palavras, este caso não se assemelha à situação com a qual o apóstolo teve de lidar. De
fato, seria mais sábio dizer a esse irmão: “Sinto muito por perceber que você tem uma
consciência tão fraca”. Ele provavelmente se sentirá tão incerto quanto à sua resposta, que o
deixará por algumas semanas.
Para desenvolvermos um exemplo moderno parecido com a situação que Paulo
enfrentou, teríamos de mudar um pouco a história. Você se tornou um dos responsáveis pela
mocidade de uma igreja. Alguns dos jovens que vêm de lares socialmente conservadores
encontram-no bebendo e, contra a consciência que desenvolveram sobre esses assuntos,
acompanham-no. Com o passar do tempo, eles se tornam indiferentes quanto a todas as
questões morais sérias. Assim, você se tornou cúmplice da destruição moral deles.
No caso abordado por Paulo, devemos observar que a consciência do cristão forte não é
manipulada pela ameaça de um cristão mais antigo que deseja que todos obedeçam às
mesmas regras. Antes, o cristão forte é exortado a desistir de seus direitos em favor dos
outros. Finalmente, o apelo diz respeito ao amor pelos irmãos e irmãs em Cristo. Os cristãos
fortes podem estar certos em uma questão técnica, mas, a menos que abandonem
voluntariamente o que é, de fato, o seu direito, eles causarão dano à igreja e, assim, pecarão
“contra Cristo” (8.12). Afinal de contas, insistir em seus direitos pode envolvê-lo em pecado
— não o pecado relacionado aos seus direitos (aliás, nisso você está certo!), e sim o de falta
de amor, o de mostrar-se indisposto a renunciar seus direitos em benefício do proveito
eterno e espiritual de outros. Como podem os cristãos manter-se ao lado da cruz e insistir
em seus próprios direitos?
Segundo, Paulo não pode ser subestimado como um teólogo insensível e meramente
acadêmico. Ele ousou se oferecer como um exemplo do que os cristãos deveriam imitar: “Por
isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não
venha a escandalizá-lo” (8.13).
Esse versículo serve de transição para 1 Coríntios 9, no qual Paulo se dedica a explicar
seus motivos e sua autodisciplina. Por um lado, ele estava simplesmente mostrando em
quantas áreas diferentes praticava o que pregava. E, entre outras coisas, ele desiste
alegremente de seus direitos em favor do bem espiritual de outros. Ao mesmo tempo, parece
claro que pelo menos alguns da igreja de Corinto não o tinham em alta estima, porque, na
opinião deles, Paulo não preservava os seus direitos. Ele não impunha a sua autoridade, nem
fazia as pessoas respeitarem-no. Eles estavam tão acostumados com as formas de liderança
na Corinto pagã do século I, especialmente a liderança dos sofistas e de outros mestres
itinerantes, que não entendiam um pregador como Paulo. Por isso, o apóstolo apresentou
uma defesa de suas prioridades: “A minha defesa perante os que me interpelam é esta” (9.3).
O que Paulo nos oferece é uma profunda explicação cristã de sua íntegra auto-renúncia.
Paulo começou sua defesa insistindo que era um apóstolo. Tinha visto o Senhor
ressuscitado e recebido sua comissão diretamente dEle. Num sarcasmo cortês, Paulo sugeriu
que, se outros tinham motivos para duvidar de seu apostolado, os próprios coríntios tinham
pouca desculpa. Eles existiam como cristãos porque eram fruto do ministério apostólico de
Paulo (9.1-2)!
O ponto importante da acusação contra Paulo, conforme parece, era o fato de que ele
recusava o apoio (“o direito de comer e beber”, 9.4) dos coríntios e não viajava, em seu
ministério itinerante, com os confortos e amparo que os líderes mais antigos deviam ter —
tal como ser acompanhado da esposa em uma viagem de despesas pagas. A princípio, talvez
seja difícil entendermos por que isso era considerado uma acusação grave. Mas, na maior
parte do mundo helenístico do século I, os mestres itinerantes eram julgados, em parte, pela
quantidade de dinheiro que conseguiam obter. As pessoas queriam gloriar-se de quanto
haviam pago a determinado mestre por uma série de palestras — assim como há pessoas
hoje que se gloriam, de maneira um tanto queixosa, de quanto lhes custa enviar um filho a
uma grande universidade.
Se Paulo não aceitasse dinheiro dos irmãos de Corinto, que desejavam dar-lhe bastante,
para sentirem-se bem, por pensarem quão importante era seu mestre, alguns achavam que
Paulo realmente não entendia as regras do jogo; por isso, ele não valia muito. Sob o ponto de
vista daquela igreja, Paulo estava se rebaixando ao trabalhar para manter-se — isso era algo
que nenhum mestre grego sonharia em fazer! O problema da atitude dos coríntios em
relação ao dinheiro e ao ensino se destaca de modo mais pungente em 2 Coríntios 11.7, ss.[17]
Paulo começou a abordar o problema por insistir que tinha o direito de receber aquele
apoio. Era tolice imaginar que somente ele e Barnabé tinham de trabalhar para sustentarem-
se (9.6). Os soldados servem e são pagos por aqueles a quem servem; os viticultores e os
pastores são sustentados pelas rendas obtidas de seu labor. Não devemos esperar que os
ensinadores da Palavra fossem sustentados pelos frutos de seu trabalho — os convertidos
que eles ganham (9.7)? A própria Escritura apresenta muitos precedentes ao princípio de que
os trabalhadores — animais ou pessoas — devem ser sustentados pelo seu labor (9.8-10). Se
Paulo havia plantado “as coisas espirituais” entre os coríntios, certamente não era demais
esperar que colhesse deles “bens materiais” (9.11)! Afinal de contas, eles haviam sustentado
outros líderes cristãos. Paulo não tinha o direito de esperar o mesmo (9.12a)?
Então, o clímax: “Entretanto, não usamos desse direito; antes, suportamos tudo, para
não criarmos qualquer obstáculo ao evangelho de Cristo” (9.12b). Do ponto de vista de Paulo,
aceitar dinheiro dessas pessoas, enquanto implantava uma igreja entre elas, poderia ser
prejudicial à integridade de seu testemunho e à credibilidade do evangelho. Por isso, ele
desistiu espontaneamente de seu direito de ser sustentado por eles. Isso não significa que
Paulo achava que todos os líderes cristãos ou todos os plantadores de igreja deveriam adotar
esse mesmo comportamento. De modo nenhum. Ele insistiu que, de acordo com a
normalidade das coisas, aqueles que trabalham na esfera espiritual devem ser sustentados
pelo fruto de seu trabalho. “Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho
que vivam do evangelho” (9.13-14). Em seguida, Paulo expressou a sua postura: “Eu, porém,
não me tenho servido de nenhuma destas coisas” (9.15). Ele também não condescendeu com
uma prática muito empregada em algumas cartas de oração de missionários, nas quais, por
argumentarem que não pedem nada, eles já estão, de fato, pedindo! Isso não aconteceu com
Paulo, pois ele acrescenta: “Não escrevo isto para que assim se faça comigo; porque melhor
me fora morrer, antes que alguém me anule esta glória [ou seja, ele havia renunciado o seu
direito de ser sustentado por aqueles aos quais ministrara]” (9.15).
A princípio, isso parece refletir uma linguagem muito exagerada ou chocante. Mas, em
algumas sentenças que são frequentemente mal entendidas, Paulo explicou por que adotara
essa postura. Em seu caso, disse Paulo, ele não tinha outra escolha no que diz respeito a
pregar o evangelho. Os outros apóstolos eram em algum sentido voluntários. Pelo menos,
dois ou três deles procuraram Jesus, enquanto ainda eram discípulos de João Batista (Jo 1.35-
41). Todos eles foram convidados por Jesus a unirem-se ao seu grupo e crescerem no
entendimento e na fé durante todo o seu ministério, coroando as incertezas com a convicção
que obtiveram como resultado da ressurreição e do Pentecostes. Não foi assim com Paulo. O
Jesus ressuscitado apareceu a Paulo na estrada de Damasco, em uma luz brilhante,
realizando a sua salvação e a sua chamada para o ministério, por meio de uma revelação
impactante. Paulo não podia abandonar a sua pregação sem abandonar a sua salvação. Para
ele, ambas são idênticas. Paulo nunca se ofereceu como voluntário. Fora cativado por Cristo
para a salvação e o ministério apostólico em um ato de revelação impressionante da parte do
Cristo glorificado. Outros podem ter sido voluntários. “Se anuncio o evangelho, não tenho de
que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o
evangelho! Se o faço de livre vontade, tenho galardão; mas, se constrangido, é, então, a
responsabilidade de despenseiro que me está confiada” (9.16-17). Em outras palavras,
embora muitos pregadores sintam algum tipo de compulsão divina, o senso de Paulo quanto
à compulsão divina era singular. Estava preso à singularidade de sua conversão.
“Nesse caso, qual é o meu galardão?” (9.18), indagou Paulo. Se a sua pregação não fosse
um comprometimento sincero e espontâneo com a tarefa (visto que ele não tinha realmente
outra escolha quanto a esse assunto, senão o tentar afastar-se completamente do evangelho),
como ele poderia demonstrar que seu coração e alma estavam no ministério? Que elemento
de seu ministério provava que a graça de Deus havia capturado seu coração e sua vontade e
que suas ações trariam consigo a recompensa de Deus? Somente este: “É que, evangelizando,
proponha, de graça, o evangelho, para não me valer do direito que ele me dá” (9.18).
Isso é admirável. Paulo se mostrou tão preocupado em provar seu próprio compromisso
— sincero, espontâneo e voluntário — com a tarefa da pregação apostólica à qual havia sido
chamado, que decidiu abandonar um de seus direitos. Ele renunciou o direito de ser
sustentado, sabendo que essa decisão lhe custaria grande quantidade de tempo, esforço,
labor e mal-entendidos adicionais. Mas ela o capacitou a pregar o evangelho “de graça” e ser
um exemplo da liberdade da graça na maneira como servia. Essa renúncia também o
capacitou a mostrar que servia não meramente por obrigação, mas também por conta de
uma mente e vontade transformadas, de modo que, pela graça de Deus, ele estava, de fato,
acumulando tesouros no céu.
Que atitude estimulante! Que perspectiva cristã profunda! Muitos ministros do
evangelho estão hoje muito preocupados com os níveis de salário e os pacotes de benefícios.
Certamente, essas questões têm de ser consideradas. Todavia, Paulo estava mais preocupado
em demonstrar que ministrava compelido por uma vontade transformada — por uma paixão
de salvar, e não por uma coerção relutante. E, se a única maneira de demonstrar esse
compromisso era por abandonar alguns de seus direitos, então, que assim fosse. Paulo os
abandonaria alegremente.
Foi com esta atitude que Paulo começou o primeiro parágrafo que citei no início deste
capítulo: “Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior
número possível” (9.19). Enquanto os coríntios desprezavam Paulo por não haver exigido um
bom pagamento, ele se deleitava em sua renúncia íntegra. De fato, ele disse, esta maneira de
abordar o ministério afetava mais do que apenas a vida financeira. Afetava todas as suas
decisões. Paulo sabia o que ele era como cristão: era livre e não pertencia a ninguém. Ao
mesmo tempo, resolveu voluntariamente tornar-se servo de todos.
Assim, o exemplo pessoal de Paulo exerce um impacto enorme sobre toda a questão
relativamente menor suscitada em 1 Coríntios 8, a respeito de o cristão poder ou não comer
carne sacrificada a ídolos. Essa é provavelmente a razão por que, neste parágrafo, Paulo não
disse somente coisas como: “Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os
judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse”, mas
também: “Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos” (9.20-22). Ele
retornou à sua discussão anterior sobre os cristãos fracos. Mas o fato é que o exemplo de
Paulo vai muito além da questão de comer carne oferecida a ídolos. Tornou-se seu estilo de
vida; era o desenvolvimento, em uma maneira de viver extraordinária, do que significa tomar
a cruz e seguir a Jesus. Era uma demonstração do que significa ser um cristão transcultural.
Não devemos insistir em nossos direitos. Enquanto o defender os nossos direitos for o
princípio que norteia nossas prioridades, não poderemos seguir o caminho da cruz.
Esse tipo de auto-renúncia é muito fácil de ser admirada nos outros cristãos. Uma
pessoa pode formar todos os tipos de lições interessantes derivadas desta abordagem de
Paulo a respeito do que fazer em relação a comer carne oferecida a ídolos. Contudo, o poder
desta posição se torna óbvio somente quando apelam a abandonarmos os nossos direitos.
Mesmo no lar, muitas discussões são fomentadas porque nenhum dos lados quer
abandonar sua posição. Lutamos para proteger nossos direitos. Mas suspeito que alguns dos
testes mais confirmadores da prontidão para desistir de nossos direitos ocorrem quando
somos lançados em circunstâncias multiculturais por um tempo. Pequenas coisas podem ser
muito irritantes. Quando eu moderava seminários que incluíam pensadores cristãos de
diferentes lugares do mundo, dedicava grande parte de minhas energias observando os
diferentes traços culturais. Desde os primeiros momentos em que os participantes entravam
na sala, as diferenças culturais se manifestavam. Os latinos chegavam, e havia beijos por
todos os lados. Aparecia um alemão, e tinha de apertar as mãos de cada um. Os hispânicos
queriam ficar a uns quarenta centímetros de distância quando conversavam com você. Os
anglo-saxões preferiam ficar a quase um metro. Para os anglo-saxões, os hispânicos pareciam
insistentes e rudes; para estes, os anglo-saxões estavam constantemente se esquivando, eram
distantes, não gostavam de amizade e apresentavam-se com ar de superioridade. Os
japoneses entravam e curvavam a cabeça. O americano entrava e dizia em voz alta: “Olá,
pessoal. Desculpem o atraso”. Ele estava atrasado — uns dez minutos. Mas só sabia o que
significa realmente “estar atrasado” quando o africano chegava.
Em algum ponto da discussão, o erudito japonês expressava o que julgava ser um
argumento poderoso e convincente: “Irmãos, vocês acham que seria possível pensarmos em
considerar este assunto desta outra maneira?” Depois de terminar sua sugestão
despretensiosa, proferida calmamente, o norueguês o rejeitava nestes termos: “Isso não
pode ser! Não é isso o que a passagem significa”. O japonês sentia-se intimidado e ficava em
silêncio, durante as próximas duas horas, admirando-se do tipo de bárbaros que encontrara.
A metade do restante dos membros achava que o erudito japonês era tímido.
Era muito bom que o seminário durava somente alguns dias. Meses e meses de uma
nova cultura pode ser desgastante. Na verdade, isso é o que está acontecendo agora na
América ou em qualquer outro país industrializado do Ocidente. O ritmo das mudanças é
tão rápido que gerações diferentes estão colidindo umas com as outras quase à semelhança
de culturas conflitantes. Por exemplo, os gostos radicalmente diferentes quanto à música que
atualmente dividem muitas igrejas são, em parte, choques culturais. E não é fácil ser sábio.
Uma pessoa disse certa vez que as palavras decisivas de uma igreja são estas: “Sempre o
fizemos desta maneira”. Por outro lado, tenho simpatia pela posição de C. S. Lewis, que
afirmava poder suportar qualquer modelo de adoração coletiva, contanto que ela não
mudasse frequentemente. Ele argumentava que qualquer novidade é um elemento de
distração. A mais profunda e melhor adoração coletiva acontece quando as formas são tão
familiares, que você nunca as vê e elas podem penetrar a realidade. Mas tente explicar isso na
próxima reunião de sua igreja.
Em última análise, nunca pode haver paz e progresso nesta e em muitas outras questões
enquanto todos os lados envolvidos não ouvirem atentamente uns aos outros e resolverem
com humildade, à medida que expõem o caso, nunca insistir em seus próprios direitos. Esse
é o caminho da cruz. É a própria vida daqueles que estão envolvidos em promover o alcance
intercultural da cruz — e isso significa: todos nós.

TEMOS DE ADOTAR COMO NOSSO ALVO A SALVAÇÃO DE HOMENS E
MULHERES
Paulo salientou isso repetidas vezes. “Fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior
número possível” (9.19). “Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os
judeus... Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. (9.20, 22, ênfase
acrescentada). E mais: “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar
alguns” (9.22, ênfase acrescentada). No final de toda seção, o mesmo pensamento ainda
estava na mente de Paulo: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer,
fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem
para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também eu procuro, em
tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que
sejam salvos. Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (10.31-11.1, ênfase
acrescentada).
Esse alvo, repetido pelo apóstolo a fim de ressaltar sua importância, teve o efeito de
focalizar e limitar alguns dos outros princípios que ele formulou. Falarei brevemente sobre
duas áreas em que isso é verdade.
Primeira, embora, ao abordar o último assunto eu tenha resumido grande parte do
pensamento de Paulo nestes capítulos, usando o título “não devemos insistir em nossos
direitos”, esse título precisa de esclarecimento. Achei melhor dispor as palavras de modo
impactante. Permanece o fato de que a sentença é um pouco enganosa. Se o alvo do exercício
fosse meramente não insistirmos em nossos direitos, então, sempre nos seria exigido que
não fizéssemos isso. E nos tornaríamos o mais admirável conglomerado de covardes. Mas, de
fato, Paulo mesmo, que falou tanto a respeito de auto-renúncia e de não insistir em seus
direitos, às vezes os julgou importantes. Por exemplo, em mais do que uma ocasião ele
apelou à sua cidadania romana para escapar de espancamento. Ele não estava preservando os
seus direitos?
No entanto, Paulo não estava interessado em defender seus direitos como um fim em si
mesmo. “Fiz-me escravo de todos”, Paulo ressaltou, “a fim de ganhar o maior número possível”
(9.19, ênfase acrescentada). Se o bem-estar espiritual de ninguém era ameaçado quando ele
comesse carne, sem dúvida ele a comeria. Paulo sofreu espancamentos da parte de sinagogas
judaicas; mas, quando, em algumas ocasiões, estava para ser açoitado pelos romanos, ele
apresentou às autoridades a questão concernente à sua posição legal como cidadão romano.
Paulo fez isso porque estava interessado em estabelecer precedentes legais que protegeriam
a igreja. Certamente esse é o entendimento de Lucas quanto aos acontecimentos do livro de
Atos. Lucas relatou cuidadosamente uma decisão após outra tomada em favor do
movimento cristão recém-nascido. Ele pretendia que esse acúmulo de precedentes legais
ajudassem a proteger a igreja. Em outras palavras, Paulo ainda estava agindo com base em
um princípio: queria ganhar o maior número possível. Em algumas ocasiões, um cristão
insistir em seus próprios direitos pode ser necessário. Contudo, ele deve estar pronto a
abandonar o apelo aos seus direitos. O melhor curso de ação a ser tomado em uma crise
específica pode ser determinado por esta indagação a respeito do alvo e do efeito das opções:
como este curso de ação contribui para ou obstrui a obra do evangelho?
Em segundo lugar, com base na perspectiva do tema amplo do capítulo, é importante
reconhecer que tornar-se um cristão transcultural não pode ser um fim em si mesmo. O alvo
não é que o cristão se torne tão internacional e culturalmente flexível, que não se encaixe em
lugar nenhum; antes, o alvo é que ele se torne tão compreensível e flexível que possa se
encaixar e promover o evangelho em qualquer lugar.
Essa é uma lição que tenho aprendido de maneira desagradável. Quando voltei para
casa, no Canadá, depois de um período de três anos no exterior, fui para uma região
metropolitana na qual antes havia servido como pastor. Trouxe minha esposa comigo, uma
jovem britânica que nunca vivera fora da Inglaterra. Achamos o cenário da igreja bastante
desanimador. Para que ela conhecesse a região, levei-a a diferentes igrejas nas primeiras
poucas semanas em que estávamos no país, e cada exposição era pior do que as anteriores.
Achei as pessoas e as igrejas muito paroquianas, restritas e coisas semelhantes. Não
proporcionei à minha esposa nenhum apoio emocional em sua tentativa de se adaptar a uma
nova cultura.
Num domingo à tarde, depois de seis semanas ou dois meses, disse à minha esposa:
“Hoje sairemos da cidade; iremos a uma zona rural, a uma igreja que tem um pastor sério
em relação à Palavra de Deus. Vamos lá hoje à noite”. Mas aconteceu que o pastor titular não
estava pregando lá naquela noite. Houve um pregador convidado, de Nova Iorque, que
vociferou contra os males do comunismo. A sua frase-chave, retumbada em um sotaque
nasal e agudo, típico de nova-iorquinos, era: “A luta contra o comunismo é uma luta por
Deus”. Minha esposa e eu fomos embora.
Precisei de mais seis meses para que pudesse fitar-me no espelho e dar-me uma boa
reprimenda. “Carson, seu idiota hipócrita. Se o Senhor o chamasse à Jamaica, ou ao Japão,
ou às ilhas Maurício, ou a Mombasa, você lidaria com isso. Você se disciplinaria para
entender a cultura e as pessoas e aprenderia a ministrar naquele ambiente. Você é tão
arrogante que não pode fazer os mesmos ajustes, quando retorna a seu próprio povo? Não
pode ver que não foram eles que mudaram, e sim você? Despreza-os porque não desfrutaram
da exposição cultural em diferentes países como você experimentou?” Então, pela
misericórdia de Deus, finalmente sosseguei.
Desde então aprendi que o choque da reversão cultural é o pior choque cultural. Muitas
pessoas que ficam no exterior por vários anos preparam-se para lidar com a nova cultura,
mas quase nunca se preparam para lidar com o impacto de reintegrarem-se à cultura que
deixaram para trás. No seminário em que ensino, advertimos constantemente alunos de
outros países quanto aos choques de reversão cultural que devem esperar enfrentar quando
retornarem.
Esse tipo de desorientação também explica, em parte, a frequência e a intensidade das
críticas que muitos líderes do “Terceiro Mundo” proferem contra as instituições e as igrejas
do Ocidente. Deus sabe que há muito a criticar no Ocidente. Contudo, em minha
experiência, poucos líderes do “Terceiro Mundo” gastam muito tempo criticando o Ocidente
e enfatizando a necessidade de teologia contextualizada apropriadamente, depois que eles
passam alguns anos estudando no Ocidente. Muitos deles não mais se encaixam bem em seu
país. Onde eles aprenderam as suas críticas a respeito do Ocidente? É claro que no próprio
Ocidente! Criticar o Ocidente é algo tipicamente ocidental. De fato, criticar o lugar em que
vivemos é tipicamente ocidental. Poucos desses líderes estrangeiros, por alguma razão, se
envolvem realmente em teologia contextualizada. Em vez disso, criam a sua reputação por
criticarem o Ocidente.
Sem dúvida, tenho encontrado muitas exceções a essas generalidades. Mas elas se
mostram verdadeiras para muitos dos que têm viajado pelos círculos evangélicos em muitas
partes do mundo.
Todas essas críticas mudariam sua face se o nosso alvo sempre fosse “ganhar o maior
número possível”. Muito dessa esquisitice de não se encaixar bem em qualquer lugar
desapareceria, se apenas resolvêssemos agir de uma maneira que atingisse esse alvo.
Quanto maior for o abismo entre a cultura da igreja e a cultura da sociedade
circunvizinha da igreja, tanto mais importante será sabermos como transpor esse abismo.
Contudo, a preocupação tem de ser nunca provarmos quão cosmopolitas ou quão flexíveis
somos. O alvo sempre deve ser “ganhar o maior número possível”.
É fácil recordarmos ocasiões em que esse não era o nosso alvo. Um amigo meu, pastor
de uma igreja na Inglaterra, foi convidado a ir à Escócia e dar palestras a uma missão
sustentada por um grupo cristão numa universidade da Escócia. Admiravelmente, embora
eles esperassem a presença de 75 pessoas na primeira noite, apareceram 150 — metade delas
era de muçulmanos que haviam decidido ir à reunião para descobrirem por si mesmos o que
os cristãos pensavam. Os cristãos da universidade acharam que precisavam “aquecer” a
audiência e formaram um grupo de cantores que entoou certo número de canções populares
escocesas. Em seguida, o grupo musical, cheio de energia e entusiasmo, anunciou que
gostaria de cantar algumas músicas cristãs. E começaram (você pode acreditar?) com
“Desperta, desperta, ó Sião, e te reveste de vigor...” — 75 muçulmanos foram embora
naquele momento.
Não precisamos ser muito severos em relação a esses irmãos escoceses. Eles apenas não
pensaram. Mas isso é, em si mesmo, a tragédia. Eles nunca perguntaram atentamente: “O
que devemos fazer para ganhar o maior número possível”? Pelo menos, eles não deram à sua
missão o nome de cruzada! Essa palavra não tem boa aceitação entre os muçulmanos.
As barreiras têm de ser vencidas. Grupos diferentes têm linguagem, características,
tolerâncias, história e memórias diferentes. Alguns grupos empregam um senso de humor
quase individual. Precisei de três ou quatro dias, na primeira ocasião em que preguei na
Austrália, para entender que as apresentações mais calorosas eram as mais sarcásticas, visto
que os australianos frequentemente se engajam no seu passatempo nacional de
“menosprezar pessoas bem-sucedidas”.
As diferentes camadas sociais têm de ser atravessadas. Em alguns países, como na
Inglaterra, o evangelho mudou-se quase totalmente para a classe média e média alta da
sociedade. Estudar as razões históricas por que isso aconteceu não serve, por si mesmo, para
resolver o fato de que o evangelho quase não tem alcançado os assalariados daquele país.
Temos de adotar como nosso alvo a salvação de homens e mulheres. Essa visão nos
capacita a evitar um cristianismo enclausurado. Precisamos meditar em Salmos 96 e 98,
Isaías 49.1-3, Jeremias 12.12-13, Miqueias 4, Colossenses 1.15-29 a Apocalipse 4-5. Temos de
possuir uma conscientização e uma compaixão de alcance global. A sensibilidade cultural e a
flexibilidade têm de se tornar ferramentas que nos capacitam a enfrentar com sabedoria e
coragem os desafios da evangelização que alcança diferentes culturas, e não um fim em si
mesmo para criar uma elite míope de pessoas amáveis e flexíveis.

TEMOS DE RECONHECER QUE ESTA POSTURA ESTÁ UNIDA À NOSSA
PRÓPRIA SALVAÇÃO
Essa é a conclusão a que Paulo chega no versículo 23. “Tudo faço por causa do evangelho,
com o fim de me tornar cooperador com ele”. Talvez devêssemos esperar que ele escrevesse:
“A fim de que eles compartilhem das bênçãos do evangelho”. Contudo, não foi isso que ele
disse. Paulo deu todos os passos delineados no capítulo e se sujeitou a uma auto-renúncia
rigorosa por amor ao evangelho, para que se tornasse “cooperador com ele”. O que ele quis
dizer?
Se o entendemos corretamente, Paulo estava dizendo que não podia imaginar qualquer
outra maneira de ser um cristão. Ele agia desta maneira para promover o evangelho e, com
certeza, pretendia que suas ações contribuíssem para o bem de seus ouvintes. Todavia,
seguir o Messias crucificado implicava que Paulo tinha de tomar a sua própria cruz todos os
dias, morrer para o interesse pessoal e servir Aquele que o comprara. Você não pode
promover o evangelho de outra maneira. Promovê-lo desta maneira — morrendo para o
interesse pessoal, desistindo de toda insistência sobre a santidade de seus direitos e se
esforçando para ganhar o maior número possível — significa seguir o Cristo crucificado, que
morreu, literalmente, para o seu interesse pessoal, abandonou toda insistência na santidade
de seus direitos reais e se entregou para comprar homens e mulheres de todos os povos,
línguas, tribos e nações. Não há outra maneira de seguir a Cristo; não há outra maneira de
cooperar com o evangelho.
Esse é o principal ensino do último parágrafo de 1 Coríntios 9. Usando metáforas de
esportes, corrida e boxe, Paulo exortou os irmãos de Corinto a correrem a carreira cristã e a
lutarem o combate cristão de tal modo que alcançassem o prêmio. Isso significa, como
significava para os atletas olímpicos, autodisciplina, auto-renúncia e treinamento rígido. Esse
foi o tipo de disciplina que Paulo impusera sobre si mesmo e esperava que todos os cristãos
adotassem. Boxear um oponente imaginário ou passear de modo agradável e perambulante
através da campina, enquanto pessoas sérias lutam e correm arduamente, não leva ninguém
a ganhar o prêmio. Paulo mesmo seria desqualificado se deixasse a corrida para apanhar
flores. Por definição, o verdadeiro cristão é alguém que persevera (cf. Jo 8.31, Cl 1.21-23, Hb
3.14, 2Jo 9). Para o apóstolo Paulo, essa perseverança estava presa ao seu ministério. Em
outras palavras, ele fazia tudo por amor ao evangelho, de modo que cooperasse com o
evangelho.
Evidentemente, ninguém sugerirá que todo cristão tem servir ao Senhor Jesus Cristo
exatamente como Paulo o fez. Mas Paulo queria que os cristãos de Corinto tivessem a mesma
atitude de auto-renúncia que ele demonstrava. Para ele, essa atitude não é opcional, está
implícita no que significa ser um cristão. O cristão forte que insiste em seus próprios direitos
está pecando contra Cristo (8.12). Em princípio, isso também é verdade quanto àquele que
não está crescendo no compromisso de “ganhar o maior número possível”, por seguir o
caminho da cruz.
Isso significa, ao final do dia, que todo cristão deve ser um cristão transcultural. Minha
introdução neste capítulo foi levemente enganadora. Talvez desse a entender que existem
dois tipos de cristãos: os cristãos globais e todos os demais. Mas Paulo via como abaixo do
normal qualquer coisa menos do que um cristão global, no sentido definido neste capítulo.
Onde houver um fracasso no discipulado, onde houver pecado contra Cristo, onde houver
recusa persistente de seguir a Paulo, como ele seguia a Cristo no caminho da cruz, ali
também achamos uma perambulação sem alvo. E, se você está vagueando sem alvo, quando
deveria estar correndo em busca do prêmio, será desqualificado.

Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal
maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a
incorruptível (9.24-25).

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO



1. O que é um “cristão transcultural”?

2. Por que é importante saber o que você é como cristão?

3. Que “direitos” você renunciou por amor ao evangelho? Que direitos você está pronto para
renunciar?

4. Como o interesse de “ganhar o maior número possível” molda a sua vida? Seja específico.
O que você pode fazer para melhorar nesta área?

5. Em suas palavras, explique como a mensagem do Messias crucificado está unida ao que
significa ser um cristão transcultural?

[16] Em alguns contextos, isso é exatamente o que Paulo pensa a respeito de si mesmo: um judeu cristão. É essa auto-
identificação que torna a sua dor tão pungente em Romanos 9.1-5. Em outra de suas epístolas, ele lembra aos leitores que
descendia da tribo de Benjamim (Fp 3.5). Passagens como essa servem para tornar 1 Coríntios 9 mais impressionante. Neste
contexto, em que Paulo fala sobre a sua relação para com a lei, ele não se identifica como um judeu cristão ou como um gentio
cristão, e sim como alguém diferente.
[17] 2. A abordagem de Paulo quanto ao sustento da parte das igrejas é complexa e não pode ser explorada plenamente nesta
altura. É certo que ele aceitou, em algumas ocasiões, dinheiro das igrejas que fundou, especialmente da igreja em Filipos.
Todavia, parece que ele nunca aceitou dinheiro das igrejas como pagamento pelo serviço prestado. Em outras palavras, Paulo
não foi “pago” para ministrar em Filipos, mas aceitou dinheiro daqueles irmãos quando serviu em Corinto. Havia outros
princípios que governavam as decisões financeiras de Paulo.
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