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FABAT – FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO

Felipe Diniz Pires de Souza

O MINISTÉRIO PASTORAL E A METANÓIA MINISTERIAL

Rio de Janeiro
2013
FABAT – FACULDADE BATISTA DO RIO DE JANEIRO

Felipe Diniz Pires de Souza

O MINISTÉRIO PASTORAL E A METANÓIA MINISTERIAL

TCC apresentado à Faculdade Batista do


Rio de Janeiro, como requisito para
obtenção do certificado em Pós Graduação
do curso de Teologia Bíblica e Sistemática
Pastoral.

Orientador: Prof. Fábio Py Murta de Almeida.

Rio de Janeiro
2013
Souza, Felipe Diniz Pires de
O Ministério Pastoral e a Metanóia Ministerial. / Felipe
Diniz Pires de Souza. Rio de Janeiro: FABAT, 2013.
40f.

TCC apresentado à Faculdade Batista do Rio de Janeiro, como


requisito parcial para obtenção do certificado de Pós graduação em
Teologia Bíblica e Sistemática Pastoral.
Orientador: Prof. Ms. Fábio Py Murta de Almeida.

1. Ministério Pastoral. 2. Vocação. 3. Administração Eclesiástica. I.


Título

CDU: 274

Felipe Diniz Pires de Souza

O MINISTÉRIO PASTORAL E A METANÓIA MINISTERIAL


Este TCC foi julgado adequado para obtenção do certificado do curso de Teologia
Bíblica e Sistemática Pastoral, e aprovada em sua forma final pela coordenação do
curso de pós-graduação em Teologia da Faculdade Batista do Rio de Janeiro, RJ.

_______________________________________________
Coordenador: Profª. Drª. Teresa Akil

_______________________________________________
Orientador: Prof. Ms. Fábio Py Murta de Almeida

Rio de Janeiro, 03 de junho de 2013.


AGRADECIMENTOS

A Deus por ser minha maior fonte de inspiração e razão do meu ministério.

A minha esposa pelo incentivo nos momentos de desânimo e desafios que pareciam
intransponíveis.

Aos meus amigos e irmãos em Cristo que oraram por mim neste período. Suas
orações foram coluna de sustentação em minha vida.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................ 08

1 – A FIGURA BÍBLICA DO PASTOR .................................................... 09


1.1 – Os Encargos do Pastor ............................................................... 12

2 – MUDANÇAS NAS CARACTERÍSTICAS PASTORAIS ..................... 17


2.1 – O Pastor e a Metanóia da Aprendizagem Organizacional ......... 18
2.2 – O Pastor e sua Vocação ............................................................. 22

3 – PROBLEMAS E PROPOSTAS PARA UMA POSSÍVEL MUDANÇA 27

CONCLUSÃO .......................................................................................... 38

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 39


RESUMO

Muito se vê nos dias de hoje pastores com várias atribuições em suas igrejas,
são muitas vezes mais administradores ou empresários do que propriamente
sacerdotes evangélicos, fruto de um mundo em constante mudança e que exige
através de vários meios que tudo se adapte às mudanças e exigências que elas
trazem. São benéficas tais mudanças para igreja e os sacerdotes? Em que implicam
tais mudanças? É o pastor realmente uma figura bíblica? O que ocasionou as
mudanças vistas atualmente? Quais as atitudes que devem ser tomadas para uma
possível mudança de postura?

Palavras chave
Compromisso, igreja, metanóia, pastor, transformação, vocação.
ABSTRACT

Much seen these days with various assignments pastors in their churches, are
often more managers or entrepreneurs than properly Evangelical priests, the result of
a changing world and demands through various means everything to adapt to
changing requirements and they bring. Such changes are beneficial to the church
and the priests? They involve such changes? It's really a pastor biblical figure? What
caused the changes seen today? What are the attitudes that must be taken for a
possible change of heart?

Key words
Commitment, church, metanoia, pastor, processing, vocation.

INTRODUÇÃO

Atualmente muitas pessoas questionam a origem do pastor nas igrejas


evangélicas, questionamento este muitas vezes gerado pelos maus exemplos que
muitos destes homens têm dado com grande frequência. Pastores que pastorearam
em épocas diferentes atestam que antes eram vistos como homens respeitados e de
confiança, não foram poucas vezes que muitos afirmaram que, se quisessem,
poderiam até mesmo comprar fiado em grandes lojas, pois seu respeito era tão
grande que eram tidos com grande estima, no entanto, hoje, o retrato é bem
diferente. Pastores cristãos de um modo geral, antes respeitados e acima de
qualquer suspeita, tornaram-se alvo de desconfiança e incredulidade. Se antes eram
como pessoas distintas, hoje são vistos por muitos como aproveitadores, charlatões,
ladrões e muitas outras coisas.
Ser pastor atualmente é um grande negócio. Se não são reconhecidos por
suas vidas santas e diferenciados das demais pessoas, com certeza o são por sua
postura empresarial, empreendedora e atitude teatral.
Todas estas coisas só fizeram desgastar a imagem e ideia do pastor de
igrejas. Esse desgaste gera a desconfiança que lança a pergunta: É o pastor
realmente uma figura bíblica? O que ocasionou as mudanças vistas atualmente?
Quais as atitudes que devem ser tomadas para uma possível mudança de postura?
No primeiro capítulo será abordada a figura do pastor biblicamente. Quais os
termos aplicados para o pastor e se essa figura já era comum tanto no Antigo quanto
no Novo Testamento, além de seus encargos.
No capítulo dois o assunto será a mudança de características pastorais
contemporâneas, o que a cultura tem de influência com esta mudança, que tipo de
mudança ocorreu, se são benéficas ou prejudiciais e a vocação do pastor com
relação a estas mudanças.
No terceiro e último capítulo serão abordados alguns problemas e possíveis
soluções para esta pesquisa.

1. A FIGURA BÍBLICA DO PASTOR

O embasamento para utilização do termo “pastor” encontra-se na Bíblia. É


clara a utilização em textos do Antigo Testamento. Segundo MacArthur 1 o Salmo 23,
em sua primeira frase, expressa o papel pastoral de Deus em relação ao seu povo.
Em sua obra MacArthur diz que essa figura (do Salmo 23), faz referência à
autoridade, ao cuidado terno, a tarefas específicas, à coragem e ao sacrifício exigido
de um pastor.2 Sendo assim, o primeiro grande exemplo de pastor é o de Adonai.

1
MACARTHUR, JR., John. Ministério Pastoral, Alcançando a excelência no ministério cristão. trad.
Lucy Yamakami. Rio de Janeiro. 4ª ed.CPAD, 2004, p. 54.
2
MACARTHUR, JR., (2004 apud TIDBALL, skillful shepherd’s: An introduction to pastoral theology,
1986, p.54).
Outros textos do Antigo Testamento como Gênesis 49.24, Isaías 53.6, Salmos 78.52,
53 e 80.1 fazem menção à necessidade que a ovelha tem de um pastor.
Toda a definição que MacArthur cita remete ao sentimento de amor. Sacrifício,
coragem e cuidado são posturas de quem ama e quer demonstrar esse amor de
maneira prática, sendo assim, Deus em seu infinito amor se coloca como um pastor
que tem em sua função prover as necessidades do rebanho. Quando o salmista
escreve o Salmo 23 ele escreve e descreve o conhecimento que tem sobre o ofício
de apascentar as ovelhas. A tradição judaica atribui a autoria deste salmo a Davi e
como o texto Bíblico em Samuel narra, ele era pastor de ovelhas, pois na ocasião de
sua unção como o escolhido de Deus para governar o povo estava no campo
cuidando das ovelhas de seu pai (1 Sm 16.1-13). O ofício de pastor era
extremamente comum entre o povo de Israel e muitas famílias mantinham rebanhos
para seu sustento.
A afirmação que a ideia do pastor de ovelhas é comum para o povo de Israel
é sustentada pela afirmação de alguns autores como, por exemplo, Rainer Kessler
que em sua obra História Social do Antigo Israel 3 defende o pensamento de que o
povo, conhecido primeiramente como Hebreu era formado por diversos povos.
Kessler diz em sua obra:

(...)Durante o segundo e o primeiro milênio houve migrações de povos tanto


a partir do Mar Mediterrâneo quanto do deserto no leste. A população é
mista. Não é à toa que textos bíblicos mais recentes apresentam os
moradores antigos de Canaã na forma de longas listas de povos (Gn 15,
18b-21; Ex 3,8.17). A historicidade das relações pressupostas nas listas não
tem importância alguma nisso. Importante é a consciência de que se trata
de um povo misto.4

Esses diversos povos tinham características específicas como, por exemplo,


o pastoreio de rebanhos de pequeno porte. Dois grupos dos que estavam naquela
terra e que teriam feito parte da origem do povo de Israel tem grande importância e
um destes era formado por pastores. Em sua obra, Kessler vai citar os dois grupos
mais importantes que habitavam naquela terra antes dos Hebreus.

Ao lado das cidades-estados organizadas como monarquias centralizadas,


provavelmente estruturadas de modo similar, as listas mencionam dois
grupos que não são idênticos nem a essa população domiciliada nem entre
si, os hapiru e os nômades shasu. (...) Os shasu mencionados nas fontes
3
KESSLER, Rainer. História Social do Antigo Israel. trad. Haroldo Reimer. São Paulo: Paulinas, 2009.
O trabalho de Kessler tem como objetivo estudar a origem do povo de Israel, em sua pesquisa para
encontrar sua formação comenta sobre os povos que viviam na região que seria a região do povo de
Israel tempos depois. Dois grupos em especial são citados por Kessler. Dentre estes um deles era de
criadores de gado de pequeno porte.
4
KESSLER, Rainer, 2009. p.27
egípcias são nômades, mais precisamente criadores de gado pequeno
(criadores de camelos, comparados com os modernos beduínos, só
aparecem mais tarde). Tais nômades criadores de gado pequeno são
amplamente atestados no Oriente Próximo durante o segundo milênio,
como mostram especialmente os textos de Mari.5
Com base no texto de Kessler, pode-se afirmar que o ofício de pastor já era
bem conhecido e difundido uma vez que tais povos já habitavam as terras que
seriam do povo de Israel no futuro. Deste modo a linguagem adotada nos textos
bíblicos do Antigo Testamento que citam o termo “pastor” como analogia de cuidado
entre alguém escolhido e separado por Deus ou em referência ao próprio SENHOR
não é estranha. No Salmo 23 Davi escreve colocando o SENHOR como aquele que
o guia, cuida e provê o que é necessário para sua vida.
Da mesma forma que no Antigo Testamento, no Novo também é possível
encontrar referências a este termo com relação ao cuidado de alguém para com o
próximo. O próprio Jesus se intitulou como o bom pastor, que dá a vida pelas
ovelhas. (João 10.11)
Ao ler este texto a primeira impressão que se tem é que Jesus faz uma
simples comparação similar à do Salmo 23 como sendo algo positivo, mas na
verdade se o leitor observar bem o texto verá que Jesus cita o mercenário que só
“cuida” das ovelhas pelo interesse do salário. A implicação que tal termo escolhido
por Jesus tem sobre seus ouvintes é, na melhor das hipóteses, de desconfiança.
Mesmo que tal profissão fosse de conhecimento há muitos séculos pelo povo Judeu,
ela ao mesmo tempo no período de Jesus era vista com reservas como afirma
O’Connor em sua obra Jesus e Paulo, vidas paralelas:

Um judeu podia conceber em seu coração um profundo desprezo pela lei,


ao mesmo tempo em que era ostensivamente obediente, isso era conhecido
apenas por ele. Existiam outros, contudo, cuja profissão era considerada
como uma proclamação do desprezo pela lei e, assim, identificavam o
praticante como um pecador. Essas eram as ocupações sem reputação das
quais a Mishnah nos oferece uma lista representativa: “Abba Gorion de
Sidon disse em nome de Abba Saul: um homem não deverá ensinar o seu
filho a ser um condutor de burros, ou um condutor de camelos, ou um
marinheiro, ou um carreteiro, ou um pastor, ou um lojista, pois essas artes
são artes de ladrões” (m. Kiddushin 4.14). (...) A um pastor da aldeia
confiava-se o encargo de levar de várias casas um certo número de ovelhas
e de cabras até o perímetro do deserto. A distância garantia que o
proprietário nunca soubesse se um cabrito se tinha tornado uma refeição
suculenta para o pastor. Daí que existisse a proibição taxativa: “ninguém
poderá comprar lã ou leite ou cabritos de um pastor, nem madeira nem
frutos daqueles que vigiam as árvores de fruto.” (m. Baba Kamma 10.9). a
ideia de um bom pastor teria levantado as sobrancelhas. 6

5
Ibid. Rainer, 2009. p.53
6
MURPHY-O`CONNOR, J. Jesus e Paulo: Vidas paralelas. São Paulo: Paulinas. 2008.pp. 84, 85
Jesus chama a atenção pelo exemplo que tomou. Que existissem pastores
honestos não devia ser impossível, mas muitos com certeza poderiam se aproveitar
da situação que sua profissão lhes garantia. A distância garantia o álibi, mesmo que
debaixo de desconfiança sobre a história contada. Com este exemplo, Jesus Cristo
se coloca como um diferencial, e é revelado como o Pastor principal no Novo
Testamento assim como o SENHOR o foi no Antigo Testamento, e neste sentido
como os pastores que o sucederiam deveriam se colocar, como um pastor bom que
leva sua missão a sério defendendo o rebanho com sua própria vida das investidas
dos lobos e outras intempéries que poderiam ocorrer.
MacArthur declara o seguinte a este respeito

O Novo Testamento constrói-se sobre o fundamento do Antigo, ao revelar o


Pastor principal, Cristo, em toda sua sabedoria, glória, poder e humildade
(Jo 10.11; 1 Pe 5.4). A pessoa e a obra do Grande Pastor culminam em sua
morte (isto é, o sangue da aliança eterna, Hb 13.20; 1 Pe 2.250 e a
ressurreição. O Bom Pastor deu a vida por suas ovelhas a quem chama
para si (Jo 10.11-16). Esses “chamados” representam a igreja. Cristo, como
cabeça da igreja, a lidera (Ef 1.22; 5.23-25) e pastoreia. Ele chama pastores
para serem subpastores, a fim de que atuem e supervisionem sob sua
autoridade (1 Pe 5.1-4).7

O pastor tem uma grande responsabilidade sobre seus ombros, o cuidado das
ovelhas do SENHOR. Uma reponsabilidade imensa, pois precisa dedicar sua vida ao
cuidado de ovelhas que não são suas. A diferença entre o mercenário que se
aproveita de sua profissão para tirar proveito próprio mesmo sem o dono ter a
certeza, e entre os pastores de hoje é a de que mesmo que as ovelhas não saibam
ou percebam que estão lidando com um mercenário o dono do rebanho sabe e
conhece as atitudes deste que tira proveito próprio das ovelhas que não são suas.
Observando esta perspectiva de Jesus como o Bom Pastor, sendo ele o maior
exemplo aos pastores modernos, é importante deixar claro que através das páginas
do Novo Testamento é apresentado a estes chamados ao ministério o papel e as
responsabilidades do pastor. Dentro do Novo Testamento está toda a base para o
Ministério Pastoral.7

1.1. OS ENCARGOS DO PASTOR

Segundo MACARTHUR existem ainda no Novo Testamento cinco termos


distintos que se referem ao ofício pastoral

Cinco termos distintos referem-se ao ofício pastoral:


7
Ibid. MACARTHUR, 2004, p.55
Presbítero ou ancião (presbyteros), um título que destaca a direção
administrativa e espiritual da igreja (At 15.6; 1 Tm 5.1.7; Tg 5.14 e 1 Pe 5.1-
4).
2. Bispo ou supervisor (episkopos), que salienta a direção supervisão e
liderança na igreja (At 20.28; Fp 1.1; 1 Tm 3.2-5; Tt 1.7).
3. Pastor (poimen), uma posição que denota liderança e autoridade (At
20.28-31; Ef 4.11), bem como direção e provisão (1 Pe 2.2S; S.2-3).
4. Pregador (kerux), que indica proclamação pública do Evangelho e ensino
do rebanho (Rm 10.14; 1 Tm 2.7; 2 Tm 1.11).
5. Mestre (didaskalos), 0 responsável pela instrução e exposição das
Escrituras, cujo ensino é tanto instrutivo (1 Tm 2.7) como corretivo (1 Co
12.28,29).
As Escrituras são bem claras quanto ao fato de que esses títulos dizem
respeito ao mesmo ofício pastoral.8

Independentemente da diferença entre termos, como supracitado, eles


remetem a uma mesma responsabilidade, o cuidado com as ovelhas do SENHOR.
As mudanças que ocorreram com os pastores na verdade não foi algo de
agora. Tudo isto é fruto da transição temporal pelos séculos da institucionalização da
igreja de Cristo. A cada novo período de adaptação e crescimento surgiu novas
características que foram distanciando a igreja do Novo Testamento de sua
simplicidade. De acordo com MACARTHUR “À medida que a igreja do Novo
testamento passava pelos primeiros séculos e tornava-se uma igreja oficial ou
organizada ia, com frequência, distanciando-se dos padrões simples. Apesar disso,
vozes potentes, tanto dentro como fora dela, clamavam por um ministério bíblico.” 9.
Apesar de tais mudanças dentro da igreja como cita MacArthur e da
desconfiança atual de muitas pessoas o termo é legitimamente bíblico como visto
nos parágrafos anteriores.
Biblicamente falando, o ofício de pastor é autêntico. No entanto, muitas
mudanças vêm ocorrendo com o passar dos anos e com a mudança da cultura.
Essas mudanças são, com toda certeza, a causa da desconfiança que cerca o ofício
pastoral. Se antes era fácil perceber e saber qual o ofício pastoral, hoje, devido às
necessidades é cada vez mais complicado definir como deve proceder um pastor
evangélico. De acordo com as Escrituras, o pastor é aquele que deve cuidar,
ensinar, liderar e dirigir o povo de Deus 10, mas a cada instante novas atividades e
características são incluídas ao modo de agir deste que foi separado para cuidar do
povo.
Ainda de acordo com as responsabilidades pastorais CARSON salienta que
uma delas é a humildade em lembrar-se que são servos e não senhores. Muitos

8
Ibid. MACARTHUR, 2004, p.56
9
Ibid. MACARTHUR, 2004, p.62
10
MACARTHUR, op. cit., loc. cit.
pastores são tentados no seu orgulho como aconteceu em 1 Coríntios 3 quando
grupos exaltavam a Paulo, Apolo e até mesmo Cristo, mesmo que tal exaltação
fosse por sectarismo e por contendas entre eles de quem era mais importante. A
reivindicação de pertença a certo líder poderia mexer com o ego e com isso este
reivindicar a lealdade das ovelhas para si como senhor destas. Esta atitude é
extremamente perigosa, pois, destrói a igreja do Senhor tirando o foco do que
realmente é central.

(...), em 1 Coríntios 3, Paulo insistiu, entre outras coisas, que os líderes


cristãos são servos de Cristo e não devem receber a lealdade reservada
exclusivamente reservada para Deus. De fato, como servos, eles são
responsáveis diante de Deus pelo tipo de ministério que exercem. Visto que
Deus cuida de sua igreja, esses terão de prestar contas a Ele. (...) 11

Inegavelmente esta é uma grande responsabilidade, pois, os pastores são ou


deveriam se ver como servos de Cristo. Seu prestígio não está em ser, ser
considerado ou se considerar maior do que outras pessoas, mas biblicamente está
em ser servo de Cristo. Seus ensinos por melhores que sejam jamais podem
usurpar a glória ou lealdade que as ovelhas precisam ter com o Pastor Supremo. Tal
responsabilidade está diretamente ligada à dependência a Cristo e como Jesus foi
humilde de dizer que fazia apenas o que via o Pai fazer, ou seja, ele refletia as
atitudes do Pai (João 5.19). Assim todo cristão e todo Pastor precisa ser reflexo do
que Jesus fazia. Nenhum pastor pode se considerar como um guru ou guia onde
seus ensinos são maiores que os de Cristo. Sua liderança precisa apontar para
Jesus, pois são despenseiros dos mistérios de Deus.
Com relação à postura do Pastor CARSON afirma:
(...) Os líderes cristãos não tentam ser gurus independentes e mestres que
sabem tudo. Eles se veem apenas como servos e querem que os outros
cristãos os vejam dessa maneira. Eles são “despenseiros dos mistérios de
Deus”. (...). Ele não estava dizendo que o evangelho é “misterioso”, e sim
que, em algumas maneiras, ele estava oculto antes da vinda de Jesus
Cristo e agora foi revelado. O evangelho é, em si mesmo, o conteúdo desse
mistério, a sabedoria de Deus resumida na ênfase da pregação de Paulo:
Jesus Cristo e este crucificado. (...) Os líderes não constituem uma classe
sacerdotal singular. Pelo contrário, o que, em certo sentido, é exigido de
todos os crentes é requerido especialmente dos líderes das igrejas. (...) 12

As responsabilidades pastorais são exigências normais a todos os crentes.


Paulo em suas cartas com frequência exorta com relação a ser atencioso no
exercício pastoral. Existem alguns textos que falam sobre as características do
11
CARSON, D.A. A cruz e o ministério cristão, lições sobre liderança baseadas em 1 Coríntios. Trad.
Francisco Wellington Ferreira. São José dos Campos, SP: Fiel, 2009 p.118
12
CARSON, D.A., 2009, pp.119, 120
bispo, que como já foi mostrado é um sinônimo para a função pastoral. Um destes
textos e talvez o mais utilizado seja o do Apóstolo Paulo em 1 Timóteo 3.1-7 que diz
o seguinte:
Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra
deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma
mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; Não dado
ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado,
não contencioso, não avarento; Que governe bem a sua própria casa, tendo
seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe
governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); Não neófito,
para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém
também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não
caia em afronta, e no laço do diabo.13

É interessante observar que ao pastor é exigido que seja um exemplo de


cristão, ou melhor dizendo, que seja um exemplo de ser humano. O texto acima
demonstra características que se qualquer ser humano seguir, certamente será
observado de maneira diferente pelos demais. Sendo assim, além da humildade é
necessário ao pastor observar que antes de tudo ele foi chamado para ser cristão.
ASCOL declara o seguinte a esse respeito:

Sempre pergunto às pessoas que aconselho: “Em ordem de prioridades,


para o que Deus chamou você?” É uma pergunta bastante esclarecedora,
porque conduz a pessoa a avaliar sua vida com base naquilo que é mais
importante. De tempos em tempos, faço esta pergunta a mim mesmo e vejo
que isso me ajuda a lutar por equilíbrio em minha maneira de viver. Eu lhe
encorajaria a parar e fazer aquela pergunta a você mesmo, e tornar isto
uma prática em seu ministério. Para o que Deus me chamou?
Primeiramente, ele me chamou para ser um sincero e dedicado seguidor de
Jesus Cristo. Esta é uma verdade tão básica que é fácil a tomarmos como
garantida e esquecermos dela. (...) Então meu amado irmão, guarde seu
coração. Vá à Palavra de Deus, primeiro e principalmente como um crente.
Lembre-se que antes de ser um pastor, você é uma ovelha. Como um
pastor, você precisa exatamente das mesmas coisas que recomenda aos
outros. Siga a sabedoria de Robert Murray M’Cheyne, que disse: “Não são
os grandes talentos que Deus abençoa, mas a grande semelhança com
Cristo. Um pastor que vive em santidade é uma arma poderosa nas mãos
de Deus.”.14

Tais características bíblicas apontam para o proceder do pastor como pastor e


como cristão. Manter as prioridades bíblicas apontadas neste texto são a credencial
para estar aprovado como ministro. A negligência de qualquer um destes aspectos
acarreta na desaprovação ao ministério pastoral. A não observação por negligência

13
ALMEIDA corrigida, revisada e fiel. SBB. Rio de Janeiro, 2005.
14
ASCOL, Tom. Amado Timóteo, Uma coletânea de cartas ao pastor. Trad. Maurício Fonseca S.
Júnior. São José dos Campos, SP: Fiel, 2005 pp.24, 25.
ou ignorância destes pré-requisitos traz alguns problemas sérios. Tais problemas
serão abordados em outro capítulo desta pesquisa. No entanto é importante
salientar que muito do que gera dúvidas hoje a respeito da figura do pastor é por
causa de algum destes pontos não observados.
Com certeza algumas destas prioridades são difíceis de sempre serem
cumpridas. O próprio dever pastoral às vezes faz com que algum destes pontos seja
negligenciado. Por exemplo, saber governar bem a casa. Se o pastor se sobre
carrega e acaba com seu tempo, provavelmente irá utilizar outro momento para
conseguir organizar o que não conseguiu antes e esse tempo pode ser o da família.
Tudo está ligado à sua natureza humana. Dominar a natureza humana, ou seja, ter
domínio próprio em todas as áreas é tarefa difícil e demanda toda a jornada cristã e
submissão ao Espírito. Mas talvez nada seja pior do que a dificuldade do pastor em
dizer não.
Como o pastor é o encarregado de cuidar das ovelhas de Cristo, e como as
mudanças culturais não param e as demandas sempre crescem fica a tentação de
querer fazer tudo sozinho e com isso vem a sobrecarga e consequentemente a lista
de 1 Timóteo fica negligenciada. Neste caso, o pastor precisa ficar atento às
prioridades que estão sendo postas em segundo plano e isto com certeza acarreta
na dúvida atual da figura do pastor.
ASCOL afirma em seu livro:

Nem sempre consigo manter as prioridades em seu devido lugar, mas isto
se tornou um claro objetivo em minha vida. Recordando frequentemente
estas prioridades, serei mais capaz de estabelecer e, manter um equilíbrio
em minhas obrigações. Talvez a atitude de disciplina que facilita este
equilíbrio é aprender a dizer não. Spurgeon declarou que, para um pastor,
aprender a dizer não é muito mais importante do que aprender o Latim! Ele
tinha razão. Não importa quantas coisas o pastor tente fazer, sempre haverá
mais a ser feito. Algumas coisas boas que tentam exigir a atenção do pastor
não devem ser feitas, de modo que ele possa fazer aquilo que é melhor e
mais excelente. Quando o pastor tem de fazer estas escolhas difíceis, deve
fazê-lo baseado nas prioridades de seu chamado. Então, ele pode
descansar seu coração sabendo que agiu com fé, fundamentado nas
exigências que Deus tem feito para sua vida.15

Sendo assim a obrigação do pastor bíblico é o de observar aquilo que Deus


ordenou que fizesse. Seu comportamento precisa ser de acordo com as Escrituras,
pois apenas desse modo as dúvidas a respeito de seu caráter desaparecerão.
Tendo observado estes exemplos nas Escrituras, pode-se comprovar que a
figura pastoral é bíblica, pois, além das referências através de textos que utilizam
palavras diferentes, mas que trazem a figura do cuidado pastoral existe textos
15
ASCOL, 2005 p.33.
normativos para a conduta daquele que foi separado para o ofício ministerial. Tais
textos embasam e justificam que no período bíblico, tanto no Novo Testamento como
no Antigo Testamento, a figura pastoral era reconhecida e aceita. O problema da
desconfiança atual com a figura pastoral vem devido a falhas comportamentais pela
falta de observância naquilo que é prioritário segundo as Sagradas Escrituras.
O capítulo a seguir discutirá essas mudanças que geram desconfiança e
confusão na definição do que é o pastor contemporaneamente.

2. MUDANÇAS NAS CARACTERÍSTICAS PASTORAIS

Um dos grandes desafios que um mundo pós-moderno oferece são as


mudanças que ocorrem quase a todo tempo. Viver em uma era em que a mudança é
algo natural e praticamente regra exige que o ser humano seja muitas vezes uma
metamorfose ambulante para que não se perca e fique para trás onde o que se vê
agora pode ser simplesmente o mero reflexo de um passado recente. É neste
mundo desafiador que a Igreja se encontra sofrendo as influências de tamanhas
mudanças, algumas tão assustadoramente contemporâneas que, por vezes, fica a
pergunta para quem vê: “Isto é uma igreja?”. Em alguns casos é comum até mesmo
se ouvir músicas extremamente populares como o Funk Carioca e ver jogos de luz
fazendo o templo brilhar como uma discoteca. Então, no caso da igreja, é fácil
observar que estas transformações são fruto de uma cultura que se adapta para
sobreviver.
O pastor como líder eclesiástico também tem se transformado, tem sofrido
influências e muitos hoje têm se comportado como verdadeiros profissionais, sendo
alguns administradores, presidentes, palestrantes motivacionais e até mesmo mega
empresários ao invés de serem pastores.
Obviamente que em termos culturais é impossível o evangelho e
consequentemente as igrejas e os pastores conseguirem separar-se da cultura ao
seu redor. Justo González afirma inclusive isto a respeito de Jesus como sendo
100% homem e 100% Deus.

Desde tempos muito remotos, a igreja afirma, com razão, que não é correto
dizer: “Isto Jesus faz como Deus; e isto como humano.” (...) Se o evangelho
é a mensagem do Deus feito carne de tal modo que, ao ver esse galileu
concreto vemos o Deus eterno, e não podemos separá-los um do outro, isto
também quer dizer que não podemos distinguir entre um evangelho eterno e
o evangelho histórico, concreto, específico. Em sua cultura galileia do
século 1 de nossa era, Jesus Cristo era e é o evangelho eterno, mas nem
por isso ele deixa de ser particular, concreto, de falar em uma língua
particular e de refletir um cultura particular. E isto quer dizer também que
não podemos pregar nem ensinar o evangelho à parte de uma cultura. Não
podemos dizer: “Isto é evangelho, e esta outra coisa é cultura.” O evangelho
é uma mensagem que engloba toda a existência humana, e não há,
portanto, elemento cultural que possa ignorá-lo, seja por estar a seu serviço,
seja por se lhe opor.16

GONZÁLEZ deixa claro que é inseparável a questão do evangelho e da


cultura e que nosso Novo Testamento foi escrito em sua grande parte em outras
culturas que não a judaica como consta a seguir

Nosso Novo Testamento é, em grande parte, o resultado dos desafios e


questões que os primeiros cristãos tiveram de enfrentar à medida que a
igreja ia se tornando cada vez menos judaica e mais gentílica; em outras
palavras, à medida que o evangelho ia cruzando fronteiras culturais,
deixando de ser uma mensagem puramente judaica e tornando-se também
uma mensagem para os gentios.17

Se a base para pregação aos povos passou e foi influenciada pelas culturas,
seria muita pretensão ou ingenuidade crer que a igreja atual também não passaria
por isto. No entanto a influência cultural não é o ponto de questionamento em si,
mas o submeter o evangelho e o comportamento pastoral à cultura como sendo a
segunda, superior ao primeiro. Transformações na igreja e nos pastores hão de
acontecer, mas nunca poderão usurpar o lugar daquilo que é nossa confissão de fé.
Cultura e evangelho se misturam, mas um é complementar ao outro, todavia, as
mudanças assumidas pelos líderes das igrejas têm sido mudanças que se sobrepõe
ao evangelho em detrimento de suas metas pessoais.

2.1. O PASTOR E A METANÓIA DA APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL

Como dito anteriormente o pastor tem sofrido transformações bem como a


igreja, instituição na qual tem a função de presidir e liderar. A igreja sofre com as
mudanças e exigências da cultura que a cerca. Por consequência o pastor sofre com
a pressão das pessoas que compõe sua igreja e não querem permitir que a mesma
fique descontextualizada, com a pressão externa que exige modificações através de
leis e a pressão de continuar sendo o que Deus o chamou para ser.
É interessante observar a utilização de uma palavra tão conhecida dos
pastores cristãos inserida em uma disciplina que faz parte da administração. No
16
GONZÁLEZ, Justo L. Cultura e Evangelho, o lugar da cultura no plano de Deus. Trad. Vera E.
Jordan Aguiar. São Paulo: Hagnos, 2011 p.99
17
Ibid. GONZÁLEZ, 2011. p. 100
entanto tal palavra é utilizada por Peter Senge, autor renomado do livro “A Quinta
Disciplina” que sugere uma visão sistêmica de vida, do mundo, e de todos os
aspectos da vivência humana. Sendo um livro de grande utilização nos meios
organizacionais e administrativos, porque sugere uma visão mais ampla para
administração, pela maneira de ver e encarar a vida pelo próprio administrador.
SENGE ensina em seu livro que a metanóia tem que ser bem sucedida junto
dos colaboradores, caso contrário a mudança organizacional será um fracasso. Todo
o conceito do livro depende da metanóia. Sobre a metanóia Senge diz o seguinte
Na cultura ocidental, a palavra mais precisa para descrever o que acontece
em uma organização inteligente de aprendizagem, é uma palavra que não
tem desfrutado de grande popularidade nos últimos cem anos. É uma
palavra que usamos há 10 anos em nosso trabalho com as organizações,
mas sempre aconselho a não utilização abusiva em público. A palavra é
“metanóia”, e pode ser traduzido por mudança mental ou mudança de foco,
o trânsito de uma perspectiva para outra. Esta palavra tem uma história rica.
Para os gregos, significava uma mudança ou alteração fundamental, de
maneira mais literal, transcendência (objetivo, acima e além, como em
“metafísica”) da mente (noia, raiz nous “da mente”). Na Tradição cristã
primitiva (gnóstica), assumiu o significado específico de uma intuição e
despertar mais alto e direto do conhecimento de Deus. (...) Compreender o
significado de “metanóia” é entender o significado mais profundo de
“aprendizagem”, pois a aprendizagem também envolve um movimento de
tráfego crítico ou mental. O problema em falar sobre “organizações
inteligentes” é que “aprendizagem” perdeu seu significado central no uso
contemporâneo. (...). (...) aprender tornou-se sinônimo de “absorção de
informações.” “Sim, no curso de ontem eu aprendi tudo sobre o assunto.”.
No entanto, a absorção de informações está longe de ser a verdadeira
aprendizagem. Não seria razoável dizer: “Ontem eu li um grande livro sobre
o ciclismo. Agora eu aprendi como fazer.”. A verdadeira aprendizagem
chega ao cerne do que significa ser humano. Através da aprendizagem
podemos nos recriarmos. Através da aprendizagem nos permitimos fazer
algo que não podíamos. Através da aprendizagem podemos perceber
novamente o mundo e nosso relacionamento com ele. O aprendizado
aumenta nossa capacidade de criar, de fazer parte do processo criativo da
vida. Dentro de cada um de nós existe uma necessidade profunda para este
tipo de aprendizagem. Bill O’Brien de Hanover Insurance, diz que para os
seres humanos essa necessidade é “tão fundamental como o impulso
sexual”.18

Por conta destas pressões o pastor tem passado, ainda que sem querer, pela
metanóia de SENGE no âmbito organizacional. Na verdade está havendo uma
mudança de pensamentos, uma absorção de novos valores, em fim uma conversão
dos pastores em administradores, contadores, presidentes de empresas, etc.
Todavia tais mudanças acarretam novos comportamentos e em acréscimos de
responsabilidade. O maior problema nisto, é que o pastor tem sua função agregando
mais atribuições do que deveria e o pior é o que acontece na vida dos membros da
18
SENGE, Peter M. The Fifith Discipline: The Art & Practice of The Learning Organization. was
originally published in hardcover by Currency Doubleday, a division of Bantam Doubleday Dell
Publishing Group, Inc., in 1990. pp. 23, 24.
igreja cujo pastor assume tal postura de mudança, pois a metanóia em termos
organizacionais não é acompanhada pelos colaboradores (membros), mas apenas
pelo gestor (pastor). Logo, toda luta travada pelo pastor através do acúmulo de
novas funções se torna um fracasso. Quanto à referência ao fracasso, não é pelo
que o pastor fez ou faz de novo em si, mas sim pelo que deixa de fazer quando se
envolve nesta transformação.
Com relação à organização da igreja como pessoa jurídica ou como
instituição provavelmente terá um grande sucesso, pois tudo o que estas novas
ações acarretam são diretamente ligadas à questões de sucesso empresarial. Uma
grande empresa alcança sucesso por uma boa administração, uma visão bem
definida de suas metas, pessoal capacitado, unidade de todos para alcançar o bem
comum e um excelente marketing. Estes detalhes são básicos para o sucesso de
uma organização e nestes termos o pastor tem a cada dia se parecido mais com um
empresário que visa os lucros concernentes ao seu desempenho. Quando
comparada à referência citada acima do que é necessário para ser uma empresa
bem sucedida, é possível se observar que hoje a grande luta, o grande desejo é ser
uma igreja que é praticamente uma empresa.
Esta visão da igreja ser uma empresa vem sendo disseminada já há algum
tempo. E recentemente podem-se observar claramente algumas estratégias de
administração de empresas sendo utilizadas como visão de Deus para os cristãos.
Como exemplo atual mais influente é possível perceber a Saddleback Valley
Community Church, igreja onde o renomado pastor Rick Warren é presidente. Esta é
uma das muitas igrejas surgidas recentemente com o claro enfoque administrativo,
tanto que o seu pastor antes de obter tamanha influência se aliou a Peter Drucker
que foi consultor da General Motors e outras grandes corporações além de ter
lançado os fundamentos das técnicas modernas de gerenciamento.
Claramente este enfoque empresarial veio de fora das igrejas para dentro,
trazido pelos pastores pela ânsia de autoafirmação e de obtenção de êxito diante
das exigências da pós-modernidade. O Bispo Walter McAlister em seu livro “O Fim
de Uma Era” afirma que tudo começou através da “comoditização”

Isso começou na sociedade e não na Igreja. Para entendermos esse


fenômeno, primeiro temos de entender o que é uma commodity: é um bem
de consumo, claro. Mas também é algo que afirma uma identidade, pelo
menos no sentido em que vou usar a palavra. Comprar uma camisa de
marca mostra status porque ela custa seis ou sete vezes mais que uma
normal, por exemplo. A “comoditização”, ou seja, a transformação de uma
experiência ou um valor em commodities, teve início com a Disney. Ela foi a
primeira empresa a vender comisetas com sua logomarca. As pessoas
visitavam os parques e, na tentativa de preservar a experiência, levavam
símbolos (...). a empresa promovia a si mesma e ainda lucrava com a
promoção. (...) Como somos serem emblemáticos por natureza, nos
cercamos de símbolos para tentar afirmar quem somos ou para tentar
perpetuar uma experiência que tivemos. Esse fenômeno acabou sendo
absorvido pela Igreja, no sentido das pessoas adquirirem símbolos que as
identificam com a sua congregação, com a sua fé.
A inserção da industrialização, da organização empresarial eclesiástica, teve
início aí como afirma McAlister.19.

Porém, além disto, existiram outros fatores que contribuíram para este
acontecimento na vida dos pastores em si. McAlister segue com sua colocação

Nestes últimos tempos, a Igreja demonstrou pouca sensibilidade para com


as pessoas que se ofereciam para fazer a obra de Deus e as explorou. (...)
Muitos pregadores visitantes tiravam do próprio bolso para abençoar igrejas.
Então, em defesa de seus ministérios, começaram a criar um certo mercado
de fitas, CDs, e livros para viabilizar sua atividade na obra de Deus. Naquela
época, esse mercado não era resultado de ganância e ou de ambições, mas
um canal para viabilizar a existência de ministérios. (...) O pastor passou a
ser levado, cada vez mais, a tentar ser um sucesso, a ser bem-sucedido, e
a maneira de ser bem-sucedido na fé passou a ser ter uma igreja grande,
cheia de pessoas, com um orçamento razoável e certa notoriedade pública.
A Igreja passou a sofrer com ondas e modas, principalmente motivadas por
pessoas que queriam achar um nicho e, por meio dele, se estabelecer como
bem-sucedidas nessa empreitada de supostamente servir a Deus. (...) Hoje
se exerce uma pressão sobre o pastor para que ele se promova bem. O
pastor tem de achar seu nicho, de ter algo interessante a dizer, precisa
aparecer nas conferências certas, tem de ter lido os livros certos, tem de
entregar as mensagens certas.20

Com esta pressão o pastor acaba se envolvendo de maneira mais


empresarial e passa a assumir posturas que exigem muito mais do que alguns anos
antes quando este tinha como foco o cuidar da obra de Deus e das pessoas as
quais tem responsabilidade.
Por um lado as igrejas-empresas passam a se tornar bem sucedidas por
técnicas que são obrigatoriamente necessárias para o êxito ministerial, passando a
serem superdesenvolvidas em termos de número de membros, riqueza financeira,
assim como de bens em geral. No entanto tal sucesso traz consigo um grande
problema. O pastor que antes tinha “apenas” a responsabilidade de cuidar das
coisas de Deus e de vidas passa a ter a responsabilidade de não permitir o
enfraquecimento do império construído. Esse processo é aprisionador e com certeza
opressor, pois, o mesmo tem sobre si a pressão de manter tudo funcionando
perfeitamente bem. Assim sendo, o pastor se esquece do que tem como obrigação e
19
MCALISTER, Walter. O Fim de Uma Era: Um diálogo crítico, franco e aberto sobre a igreja e o
mundo dos dias de hoje. Rio de Janeiro: Anno Domini, 2009. p.81
20
Ibid. MCALISTER, 2009, p.82,83
passa a priorizar o urgente ao invés do que é importante. Sua urgência em manter
tudo funcionando como deve o faz se omitir com relação aos deveres de sua
vocação. O relacionamento saudável do pastor com sua vocação se faz
extremamente necessário, por causa das implicâncias que a falta de atenção neste
relacionamento acarreta. O sucesso do pastor não é medido pelo que adquiriu ou
pelo que as pessoas julgam, mas sim por sua fidelidade à vocação que recebeu de
Deus.

2.2. O PASTOR E SUA VOCAÇÃO

Segundo o Moderno Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa vocação é


1 Ato ou efeito de chamar. 2 Teol Chamamento, eleição, escolha,
predestinação. 3 Inclinação, propensão, tendência para qualquer estado, ofício,
profissão etc. 4 Inclinação para o sacerdócio ou para a vida religiosa. 5 Disposição
natural do espírito; índole.21
Assim sendo, o pastor é uma pessoa que tem um chamado, que foi escolhido
e com isso tem a inclinação para dedicar sua vida em determinada área e neste
caso na área religiosa. Erwin Lutzer ainda define o chamado da seguinte forma: “O
chamado de Deus é uma convicção interior, dada pelo Espírito Santo e confirmada
22
pela Palavra e pelo corpo de Cristo” . Desta forma, pode-se entender que é algo
que parte de Deus para o homem, tornando-se assim uma convicção dada não pela
sua consciência, mas pelo Espírito Santo a fim de que viva para realizar o serviço a
Deus única e exclusivamente.
Com isso seria possível então alguém que recebe tal atribuição específica
mudar suas funções ou acrescentar afazeres sem trazer qualquer tipo de transtorno
para si e para os outros? É legítimo o pastor que tem plena certeza de sua vocação
fazer qualquer alteração que não seja proveniente de uma ordem ou visão dada por
Deus apenas para aperfeiçoar a igreja em termos administrativos?
Fica claro nos dias atuais que o pastor é visto e tem se colocado como um
profissional. Isso pode se dar pela ideia que muitos têm do pastor ser alguém que
não trabalha, sendo esta ideia reforçada com a ilustração do menino que é
questionado pela professora sobre a profissão de seu pai e este responde dizendo
21
MICHAELIS, Moderno Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa.
22
LUTZER, Erwin. De pastor para pastor, Respostas concretas para os desafios do
ministério.trad.José Ribeiro. São Paulo: Vida, 2000. p.14
que seu pai não trabalha porque ele é um pastor. Chega a ser engraçado ler um
trecho destes, mas isso pode trazer sérias complicações para a identidade
sacerdotal e para aqueles que são liderados por este. Tal pressão torna-se nociva,
pois, colabora para o pastor perder de vista a convicção do papel que precisa
exercer.
O pastor não é um profissional, então suas metas e seu sucesso não é
medido como são medidos os de um advogado, médico ou engenheiro, mas sim em
ser o que foi chamado para ser. Como visto anteriormente o pastor que se molda
pelos padrões profissionais acaba perdendo de vista a sua função verdadeira por
causa das muitas atividades que adquire para alcançar o sucesso que a cultura
mundial exige. John Piper em seu livro “Irmãos, Nós não Somos Profissionais”
afirma: “A motivação dos cristãos é tão importante quanto seus atos, pois o motivo
equivocado arruína as boas ações.”23. Essa verdade serve amplamente para os
pastores, pois muitos até fazem boas coisas, mas a intenção errada estraga tudo o
que foi feito. No mundo atual o pastor precisa se manter focado em sua vocação,
pois foi chamado para cuidar, para servir a Deus e não para ser servido, que é
exatamente o que ocorre quando passam pela metanóia organizacional. O que
produzem, produzem para o seu próprio deleite.
O pastor precisa examinar suas atitudes e se necessário passar pela
metanóia cristã. A Bíblia narra o que Deus disse em Jeremias 3:15 “E dar-vos-ei
pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com
inteligência”24. Ou seja, qualquer mudança ou variação deve ocorrer com a
orientação e autorização de Deus, pois Deus chama o pastor que seja segundo o
Seu coração, que se comporta de acordo com Sua vontade. O pastor não tem a
autoridade de agir diferente do que Deus já o chamou para fazer.
McAlister afirma em seu livro

Ser pastor é ser, sobretudo, um homem inteiramente comprometido com o


serviço a Deus. O pastor é em primeiro lugar, um homem que lidera, em
palavras e em ação, com sua vida. (...) O pastor é um líder, um exemplo e
um despenseiro da graça de Deus, no sentido de que tem a
responsabilidade de expressar um Evangelho verdadeiro e de viver um
Evangelho verdadeiro. O pastor, mais do que qualquer outra pessoa, tem

23
PIPER, John. Irmãos, nós não somos profissionais: Um apelo aos pastores para ter um ministério
radical. trad. Lilian Palhares. São Paulo: Shedd Publicações, 2009. p.49
24
ALMEIDA, João Ferreia. Bíblia.Corrigida e Revista – Fiel ao Texto Original. Trad. Noemi Valéria
Altoé da silva. Editora Atos, 2002.
obrigação de se na vida real aquilo que é no púlpito, pois transmite algo que
é o casamento entre o Espírito de Deus e quem ele é como pessoa. 25

Um pastor que deixa de cumprir a sua vocação se torna alguém responsável


pelos membros que se perdem, pois como referência, deixa de fazer o que Deus o
chamou para fazer, é responsável pelo rumo errado que sua congregação pode
tomar. Quando o pastor adota a postura organizacional como apenas presidente ou
administrador ele passa a se importar muito mais com a estrutura do que com
pessoas e isso é um grande perigo que o mesmo permite que se aproxime de sua
congregação.
Hernandes Dias Lopes em seu livro De: Pastor a: Pastor (2008, p.12) diz o
seguinte
Uma pesquisa feita recentemente no Brasil apontou os políticos, a polícia e
os pastores como as três classes mais desacreditadas do Brasil. Estamos
vivendo uma inversão de valores. Estamos vivendo uma crise de identidade.
Aqueles que deveriam ser os guardiões da ética tropeçam nela. 26

Obviamente por se desviarem, se afastarem ou esquecer-se de suas


vocações os pastores tem se colocado neste índice vergonhoso, juntamente com os
políticos e os policiais. Todos estes três tem a função de serem exemplos, mas por
assumirem novas posturas, cada um em sua realidade, tem caído no descrédito. Os
maiores escândalos na vida sacerdotal vêm dos pastores que priorizaram o sucesso
administrativo e com isso se esqueceram de sua vocação.
Todo empresário se interessa pelo lucro, não existem empresários que
invistam em suas empresas sem esperar delas o retorno no qual tanto investiram.
Os pastores que hoje se comportam como empresários se esquecendo de seu
chamado e passando pela metanóia organizacional visando somente o sucesso são
como os empresários seculares. Visam o lucro e não as vidas. Hernandes Dias
Lopes (2008, p. 17) diz o seguinte: “Há pastores que estão mais interessados no
dinheiro das ovelhas do que na salvação delas. Há pastores que negociam o
ministério, mercadejam a palavra e transformam a igreja em um negócio lucrativo.” 27
Os pastores precisam manter o foco no relacionamento saudável com Deus e
sua vocação. O resultado do esquecimento de sua vocação gera um desastre. A
comprovação são as Igrejas que perecem, pois nesta mudança de postura para uma

25
Ibid. MCALISTER, 2009, p.139
26
LOPES, Hernandes Dias. De pastor a pastor: Princípios para ser um pastor segundo o coração de
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008. p.12
27
Ibid. LOPES, 2008, p.17
visão organizacional, muitos se envolvem com práticas que levam a destruição
daquilo que deveriam cuidar. Hernandes Dias Lopes em seu livro Pregação
Expositiva (2008, pp. 13, 14) salienta

A influência de ensinos carismáticos e místicos. Muitos pastores usam a


Bíblia contra a própria verdade. Eles buscam experiências, não a verdade.
Em consequência disso, muitos movimentos estranhos são aceitos na
igreja. Alguns deles incluem o ensino da teologia da prosperidade, da
confissão positiva, do movimento da batalha espiritual, dos espíritos
territoriais, das novas profecias, visões e revelações. Tudo isso é um
subproduto da era pós-moderna em alguns aspectos. O pragmatismo
infiltrou-se na igreja. As pessoas não escolhem a igreja por causa de uma
necessidade espiritual, mas para satisfazer outras necessidades. A
influência do liberalismo ou a negação da infalibilidade das Escrituras
resulta em pôr a razão humana acima das Escrituras. O liberalismo
teológico produz o relativismo ético que matou e mata muitas igrejas em
todo o mundo.28

Logo, o pastor precisa se manter focado em sua vocação. Ele não tem o
direito de se colocar como alguém que possa deliberar sua mudança de postura por
necessidades próprias ou de outrem, sua vida pertence a Deus e é Deus quem tem
que direcionar para possíveis mudanças. O fenômeno que se segue atualmente de
mega igrejas que são administradas e tratadas como empresas, mostram como os
seus pastores se comportam, e em que implicam tais mudanças.
Quando o pastor se torna empresário da fé, passa a se preocupar
extremamente com a maneira como irá gerir a sua igreja, passando a deixar um
pouco mais de lado a questão de dedicar-se à oração e à pregação da Palavra,
cuidar das vidas que Deus lhe deu como responsabilidade, viver para servir a Deus
e fazer sua obra, pois fica tão ocupado que é inviável agir como agia antes. Quando
investem tempo em algo que seria o alimento solido, pela falta de dedicação à
vocação passam a se utilizar de ferramentas que na verdade são administrativas
que vem de fontes humanas e não de fonte divina. Perdem o contato mais próximo
com suas ovelhas em detrimento de um número maior delas, não as conhece pelo
nome e abre brechas para que lobos se aproximem e se apossem do rebanho.
Conclui-se então que tais transformações geram consequências muito mais
maléficas do que benéficas, que o pastor necessita investir o seu tempo e sua vida
nas coisas de Deus, nas coisas que realmente importam e não se moldar ao padrão
que a sociedade exige pela necessidade de se auto afirmar. A Igreja de Cristo é

28
LOPES, Hernandes Dias. Pregação expositiva: Sua importância para o crescimento da igreja. São
Paulo: Hagnos, 2008. pp. 13, 14
contemporânea sempre que o pastor tem o compromisso de pregar o evangelho
verdadeiro.
Diante desta realidade cabe então a busca por uma solução, se é que ela
existe. Não há a pretensão de absolutizar nenhum posicionamento que possa
sugerir um remédio para esta realidade, mas com certeza algumas posturas podem
ajudar no combate a esta realidade crítica. O próximo capítulo visa trazer algumas
atitudes para colaborar com a mudança de quadro citada até agora e alguns pontos
que ainda não foram citados para serem trabalhados paralelamente.

3. PROBLEMAS E PROPOSTAS PARA UMA POSSÍVEL


MUDANÇA

Obviamente que muitas atitudes precisam ser adaptadas devido às mudanças


a nível jurídico e institucional que o Estado impõe, mas a questão é que muitas
atitudes adotadas pelos pastores não está ligada a isto, mas ao desejo de ser mais
relevante e eficiente em sua função. O primeiro caso não exclui necessariamente o
modo bíblico de ser pastor, mas o segundo, que está ligado diretamente às
aspirações pessoais muitas vezes vai descaracterizando, desnudando o homem
separado do ser pastor. O que se pretende neste capítulo é discutir possíveis
mudanças de atitude que possam ajudar no resgate à uma atitude pastoral mais
saudável e equilibrada.
Como visto no capítulo anterior, evangelho e cultura são indivisíveis. E, assim
sendo, cultura influencia o evangelho, que influencia a cultura. Então, as
transformações são necessárias, mesmo porque a fé é viva e dinâmica e precisa
acompanhar as evoluções que surgem no mundo, no entanto acompanhar de uma
forma que não traga prejuízo à essência da confissão cristã de fé. O que contribui
então para que essa postura pastoral seja aceita pelos fiéis e pelos próprios
pastores?
Alguns autores falam sobre isto
Claro que muitos podem pensar que esse fato (mudança de característica
pastoral) é novo, mas a grande verdade é que os evangélicos foram extremamente
influenciados e ainda o são pelo catolicismo medieval. À primeira vista pode haver
uma resistência com esta afirmação, afinal protestantes romperam com o
catolicismo há séculos. Isto é verdade, mas com certeza sua influência ainda
encontra-se nas mentalidades evangélicas por todo o mundo.
Augustus Nicodemus Lopes fala com propriedade sobre esta realidade em um
de seus artigos

Os evangélicos no Brasil nunca conseguiram se livrar totalmente da


influência do Catolicismo Romano. Por séculos, o Catolicismo formou a
mentalidade brasileira, a sua maneira de ver o mundo ("cosmovisão"). O
crescimento do número de evangélicos no Brasil é cada vez maior –
segundo o IBGE, seremos 40 milhões esse ano de 2006 – mas há várias
evidências de que boa parte dos evangélicos não tem conseguido se livrar
da herança católica (...)29

Com certeza esta mudança de postura dos pastores que é constatada hoje
tem muito a ver com a cosmovisão adquirida que está enraizada profundamente na
essência evangélica, salvo poucas exceções. Mas que cosmovisão seria essa
herdada dos católicos? Ainda que o modo cristão evangélico de culto ou em outras
características seja diferente do catolicismo o apego a certas práticas é exatamente
o mesmo dos católicos, salvo, de igual forma, poucas exceções.
LOPES continua seu artigo esclarecendo que os valores apresentados por ele
fazem parte da natureza humana. Tudo o que é pontuado faz parte da natureza
humana, não sendo privilégio de A ou B. Todavia tais características atrapalham o
desenvolvimento cristão e influenciam negativamente prejudicando inclusive o
comportamento pastoral.

(...) creio que grande parte dos evangélicos no Brasil tem a alma católica.
Antes de passar às argumentações, preciso esclarecer um ponto. Todas as
tendências que eu identifico entre os evangélicos como sendo herança
católica, no fundo, antes de serem católicas, são realmente tendências da
nossa natureza humana decaída, corrompida e manchada pelo pecado, que
29
LOPES, Augustus Nicodemus. O que estão fazendo com a Igreja? Ascenção e queda do
movimento evangélico brasileiro. São Paulo: Mundo Cristão, 2008 p. 25
se manifestam em todos os lugares, em todos os sistemas e não somente no
Catolicismo. Como disse o reformado R. Hooykas, famoso historiador da
ciência, “no fundo, somos todos romanos” (Philosophia Liberta, 1957).
Todavia, alguns sistemas são mais vulneráveis a essas tendências e as
absorveram mais que outros, como penso que é o caso com o Catolicismo
no Brasil.30

Mais uma vez fica clara a influência cultural que é exercida sobre a Igreja e
sua liderança. Cada característica citada por LOPES será apresentada com uma
possível solução em diálogo com os problemas apresentados por ele e que com
certeza tem muito a ver com a realidade citada no capítulo anterior.
LOPES segue em seu artigo apontando as tendências que ainda influenciam
os evangélicos brasileiros.

O gosto por bispos e apóstolos – Na Igreja Católica, o sistema papal impõe


a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre
clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca
os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se
fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade
inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum,
infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos,
catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação
generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos
autonomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o
excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio
universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda
não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas
exceções.31

LOPES encerra este trecho falando sobre a cosmovisão não aprendida ainda
sobre o sacerdócio universal dos crentes que derruba a distinção entre clérigos e
leigos. Algumas das mudanças que a metanóia organizacional traz é do presidente,
daquele que não admite ser questionado, onde sua palavra é lei, pois é o ungido do
Senhor. Outro autor fala sobre este mesmo tema salientando a necessidade da
vigilância a respeito da tentação de se colocar como o crente suprassumo. SHEDD
declara
Os pastores devem tomar o cuidado de evitar o abuso do poder, “nem como
dominadores (katakupieuontes, “mandando”, “agindo como um tirano” [veja
Mc 10.42, em que a mesma palavra demonstra o modo como os
governantes gentios dominavam seus subordinados]) dos que vos foram
confiados” (klēron, “lote”, “porção”, v.3). Muitos cristãos elevam os pastores
a um alto pedestal. Alguns chegam quase a adorar os homens que Deus
tem usado poderosamente para transformar vidas. A adulação indevida
encoraja o líder a manipular os membros da igreja, abusando de sua
autoridade. Tais pastores são como os “falsos apóstolos” que perturbavam a
igreja de Corinto (2Co 11.13). Jesus advertiu seus discípulos quanto à
tentação de “reinar” (Lc 22.25, 26). A famosa maneira pela qual os

30
Ibid. LOPES, 2008. p. 26
31
Ibid. LOPES, 2008. p. 26
governantes romanos intimidavam e forçavam os subordinados a submeter-
se a exigências opressivas era um mau exemplo. (...) os pastores
subordinados que trabalham com entusiasmo e integridade logo se
encontrarão com Jesus, o Pastor Supremo, que os chamará para prestarem
contas e os recompensará por serviço fiel.32

SHEDD salienta o cuidado que os pastores devem ter. A sugestão para combater
este problema encontra-se nas declarações de João, o Batista “É necessário que ele
cresça e que eu diminua” em João 3:30 e do apóstolo Paulo em Coríntios 3.4-11

Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não


sois carnais? Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos
quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo
regou; mas Deus deu o crescimento. Por isso, nem o que planta é alguma
coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta
e o que rega são um; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu
trabalho. Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de
Deus e edifício de Deus. Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus
eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja
cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro
fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. 33

É necessário que o pastor se coloque subordinado a Cristo e Sua vontade.


Que siga o exemplo de João Batista sempre declarando com seus lábios, mente e
coração que convém a sua diminuição e o crescimento de Cristo. É necessário que
o homem de Deus não perca de vista que o fundamento é Cristo e não suas próprias
convicções ou vontade. O problema de um mega crescimento é o de que o homem,
de um modo geral, não está preparado para vencer a tentação da vaidade sem se
submeter a Cristo. Sua boa intenção, ainda que sincera, não é suficiente para
justificar sua postura errada. E aos crentes é necessário aprender a pensar. A serem
críticos e lembrarem-se que o pastor é um homem que precisa ser ajudado,
orientado e pastoreado. É necessário que os crentes olhem para as atitudes e como
os de Beréia analisem tudo sob a luz das Escrituras e não apenas a sinceridade das
boas intenções.
D. Martyn Lloyd-Jones declara o seguinte sobre as boas intenções

Atualmente, a sinceridade é com frequência o único teste aplicado. Basta


isso; e, se uma pessoa puder mostrar que é sincera em seus pontos de
vista, nada mais é exigido dela. Não se leva em conta a correção ou o erro
dos pontos de vista. De fato, isso está sendo reputado como algo sem
relevância. Quando alguém duvida da veracidade de alguma declaração,
isso é considerado quase como um sacrilégio, produto de um espírito ou de

32
SHEDD, Russel P. Nos passos de Jesus, uma exposição de 1 Pedro. Trad. Valéria Fontana. São
Paulo: Vida Nova, 1993. p. 93
33
ALMEIDA, João Ferreia. Bíblia.Corrigida e Revista – Fiel ao Texto Original. Trad. Noemi Valéria
Altoé da silva. Editora Atos, 2002.
uma mente dados à dissenção e ao legalismo. A reação a todos os
comentários e questionamentos feitos é que tal pessoa é honesta em seus
pontos de vista. A sinceridade é o teste supremo; e o que se requer de todos
não é que defendam opiniões corretas, mas que tenham, de algum modo,
uma opinião sincera. (...) Naturalmente, há nessa posição muita coisa com
que todos precisamos concordar. A sinceridade é um elemento essencial;
sem ela, ninguém pode esperar chegar à verdade. A pessoa insincera não
pode ser defendida. Porém, dizer que a sinceridade e a verdade são
idênticas é cair em um erro quase tão perigoso como defender a verdade de
modo insincero.34

Ainda que a maioria dos pastores inicie algo com uma boa intenção sincera,
jamais podem abrir mão de se submeterem a Cristo para que permitam que somente
Ele cresça.
LOPES em seu artigo ainda levanta outra atitude pastoral equivocada e que é
fruto deste posicionamento católico e da necessidade humana de reconhecimento

A ideia que pastores são mediadores entre Deus e os homens – No


Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a
graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os
sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é
concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam, na
Missa, o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água
benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do
povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação
humana passou para os evangélicos, com algumas poucas mudanças. Até
nas igrejas chamadas históricas os crentes brasileiros agem como se a
oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles, e que os pastores
funcionam como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do
Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores
neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas já assimiladas
como “a oração dos 318 homens de Deus”, “a prece poderosa do bispo tal”,
“a oração da irmã fulana, que é profetisa”, etc. 35

Tal postura tende, assim como no primeiro caso, ao favorecimento de uma


minoria, a interpretação de privilégios especiais para com estes e de uma falsa
mentalidade de um nível inalcançável de santidade. O pastor ao se colocar como o
mediador se coloca em uma posição de inalcançável e inquestionável, exatamente
como um dono ou presidente de empresa, com a diferença que tem o “aval” de Deus
para ser inquestionável.
O pastor tem a função de estar com suas ovelhas e ser exemplo de
humanidade. Deixar claro que ele é humano e ensinar as ovelhas como se portarem.
Ele é aquele que treina os crentes a alcançar algo que é para todos e não poucos
privilegiados. SHEDD declara

34
LLOYD-JONES, D. Martin. Sincero mas errado, qual o grande problema do homem?. 2ªEd. São
Paulo: Fiel, 2011. pp. 62, 63
35
Ibid. LOPES, 2008, pp. 27, 28
Um líder pastoral competente recruta pessoas para participarem do
processo de atingir a causa que ele escolheu apoiar. Jesus convenceu os
homens que chamou a juntar-se a ele na construção de sua igreja (Mt
16.18) e de que o Reino valia mais do que qualquer tesouro poderia custar
para alcançá-lo (Mt 6.33; 13.44-46; 16.24-27; Jo 12.25). M. Rush expressou-
o bem: “Apagar as velas de seus seguidores não tornará a sua mais
brilhante. Mas, quando você usa a sua para acender as deles, você não só
lhes fornece luz como também multiplica o brilho de sua própria vela.”. 36

Quando o pastor tende a se colocar como mais ungido que os demais


crentes, ele apaga as velas de seus irmãos. Esta atitude está presente nos pastores
atuais que passam por esta metanóia organizacional. No capítulo anterior foi dito
que tal postura acaba sendo aprisionadora e com isto gera competitividade eclesial.
Ninguém pode brilhar além do pastor e assim que alguém desponta com seus dons,
este trata de dar um jeito de colocar esta pessoa na “geladeira”. Vira uma
competitividade mercantilista, onde o produto do pastor “X” é mais abençoador que o
do pastor “Y”. O pastor precisa se colocar não como o único mediador entre Deus e
os fiéis, mas precisa ensinar a humildade de Cristo. Ele está ali não para ser o
maior, mas para ajudar ao corpo de Cristo a crescer juntamente com ele diante do
Senhor.
O pastor precisa, sempre que visto nesta situação de tentação, seguir o
exemplo de Jesus citado por Paulo em Filipenses 2.5-8, que mesmo sendo Deus,
não achou algo a que devesse se apegar, mas esvaziou-se de si mesmo. Essa
postura que LOPES (2008) ressalta pode ser traduzida como sentimento de orgulho
e soberba.
Baseado nestes dois pontos de LOPES (2008) constata-se que orgulho,
soberba e ambição são sentimentos comuns que surgem com esta metanóia vivida
pelos pastores modernos. Algumas sugestões de solução foram dadas
anteriormente. Em todas elas a saída básica é se submeter a Cristo, sua vontade e
sua palavra.
O problema desta metanóia é a busca pelo sucesso. Se fosse a busca pelo
sucesso de acordo com a Palavra seria diferente, pois esta não gera disputas e
dissensões, mas gera a espera pelo agir de Deus, no entanto o sucesso buscado
por tais pastores está aligado diretamente ao que o mundo entende por sucesso,
então, surgem as contendas, o egoísmo, partidarismo, mercantilismo, ambição,
abuso, etc.
Segundo Jorge H. Barro, “De fato o sucesso conforme entendido pelos
valores do mundo (quem tem mais membros, a maior equipe, o maior orçamento, a

36
Ibid. SHEDD, 1993, p.85
maior propriedade, nome famoso, entre outras coisas), conspira contra os valores do
Evangelho do reino.”.37 Sendo assim a medida de sucesso do mundo é pela
comparação do ter. Ter significa status, colocação diante dos homens e estas coisas
geram ambição.
BARRO segue em seu livro dizendo
A grande parte das definições fala que sucesso é pessoal e individual. Cada
um tem a liberdade para definir o que entende por sucesso. O grande
problema disso é que, quando eu defino o que é sucesso, faço-o de acordo
com meus êxitos, e isso se torna o centro das atenções. Quem iria definir
sucesso a partir das experiências de fracasso? Ninguém! Por exemplo: se
meus filhos nunca me deram grandes problemas, passo a definir a
educação de filhos a partir dessa experiência. Se tenho uma igreja grande,
será a partir dela que definirei sucesso de crescimento de igreja. Por outro
lado, as pessoas de modo geral também procuram valorizar aquilo que teve
sucesso. Você leria um livro sobre crescimento de igreja de um pastor cuja
igreja nunca passou de 100 pessoas? Certamente não, pois está pensando
nas categorias de sucesso com a lógica do mercado – números. Desta
forma, meu sucesso é condição para o sucesso do outro. Por quê? Por
causa da ambição!38

A ambição é gerada pelo desejo de alcançar glória diante dos homens, mas
se visto desta forma tem algo de errado, pois, os pastores precisam buscar a glória
de Deus. Ter glória diante dos homens utilizando as coisas de Deus como trampolim
é querer dividir a glória que devida apenas a Deus.
Jesus no evangelho de Mateus no capitulo 6 nos versos 2, 5 e 16 fala sobre
aqueles que desejam chamar a atenção para si de acordo com seus atos. Jesus
afirma que estes já receberam o seu galardão, sua recompensa, ou seja, sua
recompensa era o reconhecimento dos homens, a insuflação de seu ego. Aqueles
que buscam a glória terrena terão apenas esta glória.
A sugestão de solução é a de Jesus no mesmo capítulo 6 nos versos 33 e 34.
Embora o contexto seja sobre a preocupação com as coisas básicas deste mundo,
pode-se utilizar o mesmo princípio de buscar as coisa do alto ao invés da glória do
sucesso do mundo.
Jesus a exemplo do que ensinou no texto acima citado, buscou não sua
vontade, mas a do Pai que o enviou. Mesmo quando foi tentado por satanás no
deserto, para ter aquilo que muitos pastores hoje procuram, preferiu a glória que
Deus daria a ele. Ele é o maior exemplo a ser seguido. BARROS diz o seguinte a
este respeito “Se Jesus estivesse à procura de fama, esplendor e poder político
(reinos deste mundo), certamente teríamos uma base para fazermos o mesmo.” 39

37
BARRO, Jorge H. Pastores Livres, Libertando os pastores dos cativeiros ministeriais, Londrina:
Editora Descoberta, 2013. p.43
38
Ibid. BARRO, 2013, p.44
39
Ibid., BARRO, 2013, p.47
A respeito de missão de Jesus, pode-se a firmar que Jesus veio para servir.
Ele ensinou seus discípulos a importância do serviço. Jesus disse “Tomais sobre vós
o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração; e encontrareis
descanso para as vossas almas” (Mateus 11.29)40.
Com relação a esta palavra de Jesus existiu um homem na bíblia que
declarou aos seus filhos na fé que o imitassem como ele imitava a Cristo (1Cor
11.1). Este homem é Paulo. MURPHY-O`CONNOR declara o seguinte a este
respeito sobre Paulo

Paulo, (...), proclama encarnar a humanidade de Jesus. Claramente,


contudo, isso se refere ao seu comportamento moral e à sua dedicação
missionária. Está tão comprometido com Jesus como seu modelo principal
que ele espelha o Jesus que ele convida os outros a seguir: “Imitai-me,
como eu imito Cristo” (1Cor 11.1). a semelhança a Cristo está enraizada não
numa semelhança superficial nos sucessivos eventos de suas vidas, mas no
seu sucesso em “estar revestido de Cristo” (Gl 3,27) 41

Paulo foi de fato imitador de Cristo, caso contrário não reivindicaria esta
postura e não se colocaria como exemplo àqueles que liderava. Desta forma pode-
se afirmar que Paulo, assim como Jesus, foi exemplo de serviço. BARRO afirma que
“O apóstolo Paulo percebe seu ministério, como também dos seus colegas e das
igrejas, como sendo um serviço.”42
O apóstolo chama seu ministério de

(1) Serviço a Deus, (2) serviço aos santos, (3) serviço ministerial e (4)
serviço do Senhor. Poderíamos nos apropriar dessa compreensão de Paulo
e dizer que o serviço ministerial (pastoral) é, em primeiro lugar, um serviço a
Deus (e ao Senhor) e, consequentemente, um serviço aos santos. Nosso
serviço aos santos é fruto do nosso serviço a Deus. O nosso serviço a Deus
não nasce do nosso serviço aos santos. A ordem bíblica é: amar a Deus e
ao próximo. (...) Podemos facilmente nos iludir achando que se amamos a
igreja automaticamente estaremos amando a Deus. Isso não é verdade.
Inverter essa ordem é um oportunismo para justificar e espiritualizar nossa
relação com Deus. (...) Acima de todas as coisas, os pastores devem amar
o Deus-Pastor.43

Diante dos desafios destas novas posturas pastorais que elevam o ego dos
mesmos iludindo tais pastores e deixando confusos todos que tem uma concepção
do que deveria ser o pastor é necessário que estes busquem novamente o foco do
amor ao Senhor e entendam que seus ministérios são de serviço e não de status. O
40
ALMEIDA, João Ferreia. Bíblia.Corrigida e Revista – Fiel ao Texto Original. Trad. Noemi Valéria
Altoé da silva. Editora Atos, 2002.
41
MURPHY-O`CONNOR, J. Jesus e Paulo: Vidas paralelas. São Paulo: Paulinas. 2008. p. 129
42
Ibid. BARRO, 2013, p.48
43
Ibid. BARRO, 2013, p.49
apóstolo Paulo entendia isto e orientava suas ovelhas ao serviço. Quando o pastor
perde o foco do serviço e do amor a Deus, ele busca em métodos o sucesso que
precisa ser dado por Deus. De uma forma ou de outra, ele acaba conseguindo
algum sucesso, mas não o regado pelo serviço gerado pelo amor a Deus.
BARRO declara que

“Você me ama?” é a pergunta que pastor deve responder dia após dia.
Pedro ficou magoado pela insistência de Jesus. O que talvez Pedro não
estivesse entendendo, e nem sempre entendemos também, é a ordem das
coisas para pastorear, apascentar e cuidar. (...) Em lugar de sucesso, os
pastores são chamados e convocados para amar. Quem busca o sucesso
pela via pastoral revela que ama mais a si mesmo do que a Deus. Isso tem
nome: pastorcentrismo! Mas o eixo da pastoral é outro: “É necessário que
ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30). isso também tem nome:
Cristocentrismo.44

A cada dia o pastor deve se lembrar deste amor e lembrar-se da pergunta de


Jesus a Pedro. Tu me amas? Tal pergunta, sendo sincera, obterá uma resposta
sincera e um possível exame de sua real motivação para com seu ministério. A
perda desta visão gera apenas ambição humana.
Dentro da perspectiva da metanóia organizacional, e do que cedo ou tarde ela
acarreta, é comum presenciar, quer ao vivo, quer na televisão, rádio ou internet a
preferência que certos vocacionados, ou não, tem de escolher certos nomes
específicos para suas funções. Apóstolos, bispos, profetas, seja qual for a
nomenclatura utilizada o que se vê é a alimentação do ego. No entanto ainda que
desejem ser chamados assim o título sempre trará a conotação daquele que serve,
daquele que deveria se submeter à vontade e senhorio de Cristo. O problema é que
muitos destes homens ou mulheres com seus títulos e pompas não refletem
características necessárias àqueles chamados pelo Senhor para uma obra
específica. Mas será que os títulos desejados por estes denotam o que eles gostam
de reforçar: a hierarquia?
BARRO continua falando sobre o ministério pastoral o seguinte

Existe um grande desejo, por parte de certos pastores, para serem


chamados de apóstolos e bispos (epíscopo no grego), outros por
reverendos, e por aí vai. Dentre as várias características necessárias para
aquele que almeja ser um bispo, destacamos duas: não orgulhoso e
moderado (ver 1Tm 3.1ss; Tt 1.7ss). quando estudamos a lista dos dons,
particularmente a de Efésios (4.11), fica claro que não existe a possibilidade
de nenhuma hierarquia nos mesmos. Os dons não foram dados para
competição, mas para complementaridade.45

44
Ibid. BARRO, 2013, p.50
45
Ibid. BARRO, 2013, p.51
O texto aos Efésios não incentiva ou dá a entender que existe uma
competição ou uma posição de importância com relação aos dons, mas deixa claro
que cada um tem sua importância se complementando para o amadurecimento do
corpo de Cristo. Cada um destes dons tem uma função específica no corpo de
Cristo, eles edificam, fortalecem e amadurecem a Igreja do Senhor. Segundo
BARRO “Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres não são títulos, mas
funções! Muitos hoje querem o título, mas se esquecem de exercer a função.” 46.
Cada dom tem sua funcionalidade e propósito. Título sem ação é a mesma coisa
que discurso sem gestos coerentes com o que está sendo dito.
Dentro desta realidade onde o foco tem sido no peso que a nomenclatura
pode dar fica observado a questão do culto à personalidade. Culto este que
centraliza na figura de um título a importância central que este não deveria ter.
Quando a nomenclatura pastor, bispo, mestre, apóstolo, etc se torna o fim, então aí
há o esvaziamento da cruz de Cristo, logo a próxima sugestão para cada pastor é
buscar a cruz de Cristo.
BARRO declara em sua obra que

Quando existe culto a personalidade, quer seja a Paulo, Apolo, Pedro e aos
chamados apóstolos e bispos modernos, a consequência é óbvia e trágica:
esvaziamento da cruz de Cristo! (v.17). por quê? Muito simples! Porque as
pessoas tiram Cristo da cruz e colocam ali aqueles que não morreram nela,
mas ganham a fama. Quem faz questão de título, não faz questão da cruz!
Quem faz questão de título; faz questão também da glória, mas o recado já
foi dado: “Quem se gloriar, glorie-se no Senhor” (v.31). Assim o que muitos
pastores buscam hoje é o sucesso sem cruz, o status de um título e a sede
pelo poder.47

Quando o pastor busca seu sucesso fora da cruz de Cristo, ele tende a
encontrar no máximo uma aparente vitória, mas que no fim se mostrará com o seu
verdadeiro rosto de derrota, dor, mágoa e aflição. Sempre que um pastor busca êxito
longe da cruz de Cristo ele busca a pastoral do sucesso e não a pastoral do serviço.
O desafio é o pastor perceber e retornar aos caminhos que agradam ao coração de
Deus.
Dietrich Bonhoeffer durante sua vida teve um encontro com Cristo e
obteve uma percepção diferenciada a respeito do Sermão do Monte de Jesus.
Tal encontro gerou neste homem de Deus uma consciência que fez toda a
diferença em sua vida. Craig Slane em seu livro sobre Bonhoeffer narra o
seguinte sobre este fato
46
Ibid. BARRO, 2013, p.52
47
Ibid. BARRO, 2013, p.54
Teologicamente falando, o tom desses textos indica o tipo de encontro que
Bonhoeffer teve com Jesus. Em relação à sua vida anterior, ele é descrito,
curiosamente, como “libertação”. Quem poderia levar o Sermão do Monte a
sério e, ao mesmo tempo, considera-lo libertador? De que maneira a
confrontação com a difícil ética de Jesus daria lugar à liberdade? O fato é
que se pode esperar exatamente o oposto. A resposta reside na percepção
que Bonhoeffer teve, em três partes, de que o Sermão do Monte de Jesus
se coloca em forte contradição aos impulsos naturais do humano, que a
cruz marca a culminância lógica dessa contradição, e que os seguidores de
Jesus são obrigados a vivê-la em sua vida. Quando Bonhoeffer chama o
sermão de Jesus de uma “libertação”, creio que ele está oferecendo ao
leitor uma chave por meio da qual possa entender a natureza de sua
conversão. Ao expor a verdade que o movimento da vida decaída segue, de
maneira bastante literal, junto aos propósitos da cruz com os objetivos de
Deus, a cruz toma as criaturas de Deus e as impele a tomar uma decisão do
tipo sim ou não: uma decisão a favor de Deus, que exige a própria morte, ou
a morte a favor do eu, que exige a morte de Deus. A cruz destrói todo o
campo Neutro. É preciso estar de um ou de outro lado. 48

Bonhoeffer percebeu que não há como ficar em cima do muro. Ou a decisão é


por Deus ou pela sua própria vida. Os pastores que vivem essa nova forma de
pastorear, ou que estão buscando métodos e meios de fazerem crescer suas igrejas
muitas vezes têm se esquecido do que Bonhoeffer percebeu. Estes pastores tem se
esquecido da cruz de Cristo e buscado sucesso longe dAquele que os chamou e
capacitou. Estes têm escolhido a morte a seu favor que exige a morte de Deus em
suas vidas, ainda que no início o sentimento não fosse o do sucesso pessoal, a
busca da própria glória e a ambição do reconhecimento do homem. Com tudo isto
fica a pergunta: Vale a pena?

CONCLUSÃO

Diante do exposto nesta pesquisa, chega-se às seguintes conclusões:

1- O termo “pastor” e suas funções são utilizados e reconhecidos pela cultura


judaica tanto no Antigo como no Novo testamento.
2- As mudanças ocorridas no comportamento pastoral se dão pelas pressões
culturais, uma vez que é impossível separar a cultura do evangelho.

48
SLANE, Craig. Bonhoeffer, o mártir, Responsabilidade social e compromisso cristão moderno. Trad.
Emirson Justino. São Paulo: Vida, 2004. p. 256
3- Tais mudanças de um modo geral são mais nocivas que benignas, pois levam
o foco do vocacionado para outras áreas, podendo inclusive tirar o mesmo do
caminho em que Deus o colocou.
4- Para um retorno e equilíbrio das funções pastorais é necessário submissão à
vontade de Deus e sua palavra, ao senhorio de Cristo, resgatar o amor pelo
Senhor, ter como exemplo Cristo, retorno à cruz de Cristo, abandono do culto
à personalidade e à pastoral do sucesso e resgate da visão da pastoral de
serviço.

Os desafios em face da cultura são gigantescos. Principalmente no que diz respeito


à conservação da fé sem a perda do foco. O ministério pastoral é bíblico, porém sua
imagem desgastada pelas mudanças organizacionais é vista com desconfiança
pelas pessoas que não conhecem a Jesus. O maior desafio, no entanto é o dos
pastores fazerem a metanóia no sentido contrário e buscarem resgatar o que se
perdeu na busca, que muitas vezes pode ter sido legítima, de um sucesso ministerial
de propagação e crescimento da igreja. Por fim fica a pergunta: Pastor,
verdadeiramente qual é sua motivação em tudo que tem feito?

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