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ANAIS DO

II Congresso Brasileiro de
Literatura Infantil e Juvenil

~filerneme~
JULHO 1987

FUNDAÇÃO NACIONAL DO LIVRO


INFANTIL E JUVENIL
ínc Ice

Editorial - Eliana Yunes


1

Discurso de Abertura do 2° Congresso Bras. de Lit. Inf. e Juvenil 2

à. Entrevistas 2 e4

3.1 Programação Infantil na T.V. - Rosa Fisher


2

3.2 Ziraldando histórias - Ziraldo

Literatura Infanta-Juvenil Bras. e os meios de comunicação de massa - Arnaldo' Niskier

O espaço da infância na cultura - Eliana Yunes

Poesia e consciência linguistica na infância - Maria da Glória Bordini

>1.7
Partilha e conflito, de interpretações em leitura - Ezequiel Theodoro da Silva (conferência e debate) 11

É com imagem que conto histórias - Angela Lago 15

Quadrinhos & quadrinhos para crianças - Moacy Cirne 15

De boas intenções... - Gustavo Bernardo


16

Ensino da Língua Materna e Literatura Infantil - Neuza Salim


17

Leitura versus Leituras - Nelly Novaes Coelho 19

Leitura em sala de aula: filosofia de educação e de vida - Werner Zotz


21

SECRETARIA MUNICIPAL
DE EDUCAÇÃO E CULTURA
CRI% ÁS — GO.
Anc is co 2Congrcso 3rasileiro
cc Litcratura Infcntil e Juvenil resumo
Apresentação Bloch; Brasiliense; Casa da Filosofia; CEP/RJ; Conselho Diretor
Esta publicação reúne alguns textos, artigos Codecri; Comunicação; Conquista; Diálogo; En- Ana Maria Filgueiras
e entrevistas representativos do 2° Congresso sino Moderno; Formato; Global; Gutemberg; Ir- Nélson Fernandes Guimarães
Brasileiro de Literatura Infantil e Juvenil realiza- radiação Cultural; José Olympio; LPM; Mercado
do de 20 a 24 de julho de 1987 na Universidade Aberto; Miguilim; Nórdica; Pasárgada; Plaza Conselho Curador
Federal Fluminense (Niterói - RJ), cujos temas Shopping; Portinari; Primor; Orientação Cultu- Henrique Luz
foram a LITERATURA INFANTIL E JUVENIL E ral; Rocco; Salamandra; Sindicato dos Profes- Paulo Adolfo Aizen
OS MEIOS DE COMUNICAÇÁO DE MASSA E sores/RJ; Summus. Terezinha Saraiva
CONTRIBUIÇÕES DA LITERATURA INFAN-
TIL E JUVENIL PARA O ENSINO DE LÍNGUA Agradecimento Especial Secretaria
MATERNA Editora Brasil-América (EBAL) Secretária Geral - Eliana Yunes
O material de que dispúnhamos foi reunido Secretária de Administração - Elizabeth D'An-
Montagem e Organização do Resu- gelo Serra
com o objetivo de documentar o congresso de mo dos Anais
efetiva importância para a área da literatura in- Secretária de Planejamento - Sonia Salomão
Anna Claudia Ramos Khéde
fantilj Dado que os textos não nos chegaram em Clarissa Rollin P. Bastos
sua totalidade, fizemos uma seleção capaz de Eliana Yunes . Representantes da FNLIJ
indicar o nível dos debates, Maria Alice Martins Acre - Maria José F. Mansour
Ninfa Parreiras Amazonas - Ana Lúcia N. da Silva Abrahim
Realização . Bahia - Elizabeth de Andrade Lima Hazin
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil Fundação Nacional do Livro Infan- Ceará - Horácio Diclimo P. B. Vieira
til e Juvenil Espírito Santo - Francisco Aurélio Ribeiro
Organização do Congresso Rua da Imprensa, 16 - 10° andar - Tel.: 262-9130 Goiás - Maria Zaíra Turchi
Denise Vilardo Nunes Guimarães - CEP 20030 - Rio de Janeiro-RJ - Brasil Maranhão - Rosa Maria Ferreira Lima
Inez Rocha Mato Grosso - Laura Battista Nardes
Luiz Raul Machado Conselho Administrativo
Mato Grosso e BSB - Maurício Corrêa Leite
Violeta de San Tiago Dantas Quental Affonso Romano de Sant' Anna
Mato Grosso do Sul.- Ceila Maria Puia Ferreira
Eliete Soares de Castro Rosa Alfredo Machado
Minas Gerais - Vânia Maria Resende
Alfredo Weiszflog
Patrocínio • Paraíba - Ana Albertina Graça Branco
Arnaldo Nislcier - Presidente
Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) Paraná - Glória Kirinus
Colina Dutra da Fonseca Rondon
Secretaria Geral do MEC Pernambuco - Maria Lúcia Peixoto da Silva .
Ferdinando Bastos de Souza
Piauí - Maria do Socorro R. Magalhães
Apoio Helena de Miranda Rosa e Souza
Rio Grande do Norte - laçonara Miranda de Al-
Henrique Sérgio Gregori
Alba Química: Ao UNTO Técnico; Atual; Cedi- buquerque
Horário Macedo
bra; Cia. Editora Nacional; Cia. Melhoramentos Rio Grande do Sul - Terezinha Juraci Machado
José Mindlin
de São Paulo; Coca-Cola; Compactor; Editora da Silva
Maria Alice Giudice Barroso Soares
do Brasil; FTD; Inacem; Memórias Futuras, Mo- Rondônia - Glória Valladares Granjeiro
Mário Brockmann Machado
derna; Nestlé; Nova Fronteira; Paulinas; Pinto e Santa Catarina - Nelita Bortolotto
Bastos Copiadora; Record; Universidade Fede- Manoel Marços Maciel Formiga São Paulo - Maria Tereza Palumbo da Silva •
ral Fluminense; Vigília. Mônica Paula Rector
Werner Klatt
Agradecimentos VVIadimir Murtinho
Agir; Antares; Arco-íris; Ática; Bertrand Brasil; Dil Márcio G. Souza
Ec Itoric
Fundação Nacional do Livro Infantil e tina, com uma exposição de livros infantis brasi- Prêmio Luis Jardim — O Melhor Livro de

A Juvenil — FNLIJ — fundada em 23 de


. maio de 1968, é uma entidade de direito
privado de caráter técnico-educacional,
leiros e conferências em Bogotá. Foi convidada
a participar do Festival Flor de Septiembre, em
Portoviejo, no Equador e a levar sua mostra à
Imagem.
Em 1987 foí ainda criado o Prêmio Odylo Cos-
ta, filho, de poesia para crianças, assim como
sem fins lucrativos, A FNLIJ é a seção brasileira Venezuela, Cuba e Bolívia. entre 1981 e • 1985, conferiu o Prêmio Alfredo
do International Board on Books for Young Ainda na área internacional, participou da As- Machado Quintella, para inéditos de literatura
People — IBBY, órgão consultivo da UNESCO sembléia "Bandeira da Paz" na Bulgária, envian- juvenil.
para o livro infantil e juvenil. do uma delegação de crianças e especialistas Através de todos estes trabalhos e pesquioas,
Os seus principais objetivos, resumidamente, em Educação Artística. a FNLIJ visa a formação de um público leitor
são: incentivar a qualidade da produção do livro Em 1987 recebeu a Menção Honrosa da Bie- ativo, desenvolvendo o hábito de leitura nas
infantil e juvenil; divulgar e promover o livro nal de Ilustração de Bratislava (Tche- crianças e nos jovens, e tenta ampliar o círculo
infantil; estimular autores e ilustradores através coslováquia) pelo trabalho de pesquisa e de leitores em todo o território nacional, procu-
da instituição de prêmios, bolsas de estudo ou incentivo que realiza no campo da imagem, em rando paralelamente, divulgar a literatura infan-
cursos de especialização; organizar e dinamizar livros. til brasileira dentro e fora do país.
bibliotecas infanto-juvenis; colaborar com pro- Em território nacional, organizou o 1° e 2° Neste sentido, uma de suas metas prioritárias
gramas bibliotécnicos e pesquisar a bibliografia Congresso Nacional de Literatura Infantil e Juve- é a formação de recursos humanos para a leitu-
e novos campos referentes ao tema da criança e nil, em 1985 e 1987 respectivamente, na Univer- ra, que vem sendo fornecida com a sistematiza-
da literatura infantil. sidade Federal Fluminense de Niterói, além da ção de programas como Oficina de Leitura
Para isto, a FNLIJ promove cursos, seminários, la. Mostra de Ilustrações de Livros Infantis, no (apoio MEC) e cursos de difusão e aperfeiçoa-
mesas-redondas, exposições e concursos com a BNDES, em 1987, com a colaboração da AIRJ. mento em convênio com Universidades (apoio
finalidade de contribuir para a atualização dos A FNLIJ desenvolve um trabalho de produção CERLALC — UNESCO).
educadores, profissionais que desenvolvem e publicação de periódicos que são distribuídos Junto ao públicco infantil desenvolve projetos
trabalhos afins, e todos aqueles que se preocu- aos seus associados: NOTICIAS (jornal mensal que facilitam o acesso ao livro e a prática de um
pam com a criança e com os livros que ela lê. — apoio XEROX), Resenha de Livros para a novo conceito de leitura :Livro Mindinho, seu
Participa de Feiras Internacionais do Livro Infância e Juventude (bimestral — apoio INL — Vizinho (apoio White Martins), Viagem da Leitu-
Infantil e Juvenil e envia delegados a diversos MINC), e elabora uma Revista de Literatura In- ra '(apoio INL — Ripasa), Meu Livro, meu
congressos, seminários e bienais realizados em fantil cuja publicação deverá iniciar-se em 1988. nheiro (apoio INAMPS), Leitura na Rua (BNDES)
vários países, buscando o intercâmbio cultural, a Estas publicações', vão atender à criação e revi- entre outros.
divulgação de idéias e pesquisas no campo da talização das seções infantis de bibliotecas pú- Em 1988, dá início ao curso de Pós-Graduação
produção de livros para a infância e juventude. blicas do projeto MINC — MEC. em Literatura Infantil através de um convênio
Seleciona os artistas que participam da Bienal Além disso, realiza com o financiamento do com a UFRJ, Faculdade de Letras, em nível de
de Ilustradores de Bratislava (Tchecoslováquia) INEP a pesquisa da Bibliografia Analítica de especialização.
e divulga o Prêmio. Noma, concedido pelo Cen- Literatura Infantil e Juvenil. Dela já editou 2 vo- Muitas entidades vêm colaborando com este
tro Asiático da UNESCO. lumes: o primeiro relativo ao período 65/74 e o projeto de alcance social amplo para O país. Pa-
Na América Latina, tem recebido o apoio do segundo, ao período 75/78. ralelamente, deu-se o 10 Encontro Nacional de
CERLALC (Centro Regional para o Fomento do A organização do terceiro volume fez parte de Pesquisadores, com o objetivo de discutir as
Livro na América Latina e Caribe) para projetos um trabalho de pesquisa desenvolvido este ano questões ligadas à área e propor diretrizes pa-
que realizam cursos de atualização de profes- revendo critérios de análise e crítica, e tem sua ra os trabalhos que se realizam em total disper-
sores para o trabalho com o livro e a leitura nas publicação planejada para 1988, englobando o são — como ficou patente no evento (apoio
áreas mais carentes do país. período de 1979/82. CNPq)
Mantém relações com o PILI (Projeto Intera- Um Centro de Documentação e Pesquisa de Contudo, é nesta luta por uma causa despres-
mericano de Literatura Infantil), visando organi- Literatura Infantil e Juvenil (CEDOP) encontra- tigiada duplamente no país — por se tratar de
zar a Rede Latino-Americana de Literatura In- se em fase de reorganização e automatização criança e da literatura (educação e cultura como
fantil, relativa a informações e documentação visando um melhor atendimento do público inte- fundamentos) — que a FNLIJ tem feito avançar a
sobre o livro, envolvendo vários países latino- ressado no livro infantil e juvenil. O Centro de teoria e a prática da literatura infantil, mobilizan-
americanos, com o apoio da OEA (Organização Documentação possui o maior acervo da Améri- do os melhores pedagogos, escritores, bibliote-
dos Estados Americanos). ca Latina em literatura infantil brasileira e es- cários e estudiosos do tema, como evidencia
Em 1984, recebeu a Medalha e Diploma de trangeira, com cerca de 30.000 volumes e este volume.
Menção Honrosa do Prêmio Iraque de Alfabeti- 10.000 documentos. . Sem dogmatismos e exclusivismos, a FNLIJ
zação da UNESCO, por indicação do IBBY, pelo A FNLIJ confere prêmios anuais para o livro quer favorecer a descentralização do debate e
trabalho que desenvolve e, em particular, pela infantil e juvenil em várias categorias: associar-se aos que no país empreendem ações
realização do Projeto Ciranda de Livros. condizentes com sua política e filosofia de
No biênio 1985/86, além de intensificar as ati- *Prêmio Ofélia Fontes — O Melhor para a atuação. •
vidades na área de formação de recursos bana- Criança
nos para o trabalho com a criança e a leitura, a Prêmio Orígenes Lessa — O Melhor para o
FNLIJ estendeu sua participação à América La- Jovem
1
Discurso
cc Ao rturc Elizabeth Serra
Secretaria Geral- 24 de Julho. 1987

. ascida há 19 anos, cruzando a própria ra et?' sua obra, a Fundação Nacional do Livro Origenes Lessa; "O Melhor Livro de Imagens" —
N crise da independência, a Fundação Na-
cional do Livro Infantil e Juvenil chega ao
II Congresso Nacional, reunindo repre-
Infantil e Juvenil — que já lembrou Lobato e sua
herança na prosa — deseja reafirmar a prece-
dência que a linguagem poética tem na comuni-
Prêmio Luis Jardim, que a Fundação Nacional do
Livro Infantil e Juvenil atribui anualmente:
Referente á obras publicadas em 1986, em
sentantes de todas as regiões do país, pesquisa- • cação infantil. pesquisa feita junto a bibliotecários, críticos,
dores, estudiosos, críticos, professores e inte- Homenageando Laura Sandroni, ex-Diretora professores e estudiosos, foram indicados: O
ressados na relação livro/criança, corno pais, Executiva da Fundação Nacional do Livro Infan- menino marrom, de Ziraldo (Melhoramentos);
editores, autores e ilustradores. til e Juvenil, reconhecemos publicamente sua Fruta no Ponto, de Rosearia Murray (FTD); Chi-
Mas a Fundação Nacional do Livro Infantil e dedicação à causa da literatura infantil brasilei- quita Bacana e as outras pequetitas, de Angela
Juvenil neste Congresso, reúne, mais que tudo, a ra, sem a qual rigorosamente o estágio da ques- Lago (Lê).
força de espírito corajosa que tem sido sua mar- tão seria outro no País. Selecionados como "altamente recomendá-
ca de luta nestas duas décadas. Apesar do rare- Homenageando Ana Maria Machado, atual, veis" estão as obras: para crianças: Correspon-
feito interesse por parte das autoridades em presidente do Júri Hans Christian Andersen, dência, de Bartolomeu Campos Queirós (Mi-
apoiar este trabalho pioneiro e indispensável na atribuído pelo IBBY, a Fundação Nacional do guilim); Bacurau dorme no chão, A lenda do
história brasileira contemporânea para crianças Livro Infantil e Juvenil saúda a inteligência, guaraná, A linguagem dos pássaros, O menino e
brasileiras — grande parte sem sequer frequen- qualidade, a habilidade desta autora brasileira . a flauta e Subida pro céu, Série Morena, de Ciça
tar a escola — a Fundação Nacional do Livro que bem ilustra a produção nacional de obras Fittipaldi (Melhoramentos); Uma velha e
Infantil e Juvenil não desiste, insiste e lá e aqui infantis, além da competência com que soube três chapéus, de Sylvia Orthof
pela sensibilidade de pessoas, vem fazendo ag direcionar a representação no exterior. (FTD); A menina e a estrela, de Beatriz Veloso
condições para tocar esta tarefa urgente. O convite à Regina Yolanda para presidir este Alves (AGIR). Para o jovem: Coração não toma
A estas pessoas é que devemos, na abertura Congresso, completa o ciclo de homenagens ao sol, Bartolomeu Campos Queirós (FTD), O
deste encontro, uma saudação especial. Em cir- grupo de pessoas que na história institucional ' canto da praça, de Ana Maria Machado (Sala-
cunstâncias adversas, com soluções raras muitas foram a presença da Fundação Nacional do Li- mandra), Você viu meu pai por ai?, de Charles
vezes, elas contribuíram para que este trabalho vro Infantil e Juvenil dentro e fora do País. Mas Kiefer (Mercado Aberto), Histórias de Antiga-
chegasse ao dia de hoje. Os tempos mudaram, a não se justifica apenas nisso. Ilustradora reno- mente, de Ruth Rocha (José Olympio). Livros de
dinâmica de trabalho se transformou, .as pers- mada que levou aos foros internacionais o inter- • Imagem: Quem cochicha o rabo espicha, Quem
pectivaá e aspirações evoluíram, mas sua passa- câmbio no campo da imagem, que já nos ren- embaralha se atrapalha e Quem espia se arre-
gem pela história da Fundação Nacional do Li- dem prêmios, Regina é antes e sobretudo, a pia, Coleção Ping-Poing, de Eva Furnari (FTD),
vro Infantil e Juvenil é inalterável. Evidente- educadora pertinaz que não envelhece. Conse- Foge Tatu!, de Mary e Eliardo França (Mercado
mente, a homenagem que hoje prestamos a es- gue, com o passar dos anos, manter-se na van- Aberto), Quer brincar?, de Eva Fumai (FTD), A
tas pessoas — que mais do que se destacaram guarda dos processos educacionais, pela boca do sapo, O caracol e O susto, Coleção Gato
que têm posto em destaque a luta pela literatura concepção de criança, de arte e de educação, e Rato, de Mary e Eliardo França (Anca).
infantil brasileira — é representativa apenas, de que balizam sua proposta e ação. Dentro deste contexto expressivo, por oca-
um elenco mais amplo, que mesmo no anonima- Esta é, pois, uma honrosa ocasião para atri- sião do II Congresso Nacional tornado viável
to não deixou de contribuir decisivamente para buir, independemente de quaisquer diferenças, pelo descortinio da Secretaria Geral do Ministé-
a causa justa que a Fundação Nacional do Livro honra a quem tem mérito. rio de Educação e do CNPq, passamos do dis-
Infantill e Juvenil lidera. Daí desejarmos juntar neste momento, a seus curso à prática fazendo-lhes entregar o registro
Homenageando Cecília Meireles, poeta de nomes, os dos premiados pelos concursos "O destas homenagens e premiações.
estirpe e sensibilidade, que não via a criança Melhor Livro para a Criança" — Prêmio Ofélia
como menor, mas a transformou em interlocuto- Fontes; "O Melhor Livro para o Jovem" — Prêmio

Progrc mc ção Infc nti I nc TV


Entrevista com ria de Educação tem o meu cargo, que na ver- tudo que está ligado corri a música, esta coisa
Rosa Maria Bueno Fischer. dade é o cargo da pessoa responsável pela pro- toda.
dução de Programas Educacionais. Basica-
mente estes programas são destinados às crian- — O desenvolvimento da criança através
ças e aos jovens, ou então a pais e educadores. do programa de sensibilização para a história.
Jornalista Este programa tem um quadro em que a Bia
Mestre em Filosofia da Educação Mas a prioridade é a criança.
FNLIJ— Qual a programação atual da FUNTEVÊ conta uma história. A gente tentou recuperar
Autora do livro O Mito na Sala de Jantar Ed . Movimen-
to, Porto Alegre, 1984 dirigida ao público infantil e juvenil? pela TV o contador de histórias, segundo algu-
Superintendente de Produção de Conteúdos/Diretoria ROSA — Estamos produzindo um programa mas idéias discutidas com a FNLIJ em 1986. Não
de Educação — TVE/Rio chamado Canta Conto. É um programa de meia é uma dramatização, é no máximo a dramatiza-
hora, diário, apresentado pela Sia Bedran. Ela é ção dela, mas não existem personagens.
musicista, cantora, compositora, professora e FNL11 — São histórias clássicas da Literatura
FNIAJ — Qual o seu trabalho na TVE? atriz também. É um programa destinado à crian- Infantil ou são histórias criadas por ela?
ROSA — Eu trabalho na Diretoria de Educação. ça pequena, vamos dizer, do pré-escolar e pri: ROSA Estamos usando livros da Literatura
Meu cargo na TVE é de Superintendente de meiras séries do 1° grau, que visa desenvolver Infantil Brasileira, alguns dos melhores livros, A
Produção de Conteúdos. dois pontos principais: gente tem Ruth Rocha, Ana Maria Machado-,
Existe um Centro de TV com um Superinten- 1° — A musicalidade, a educação musical, a Sylvia Orthof. Basicamente 99% das histórias são
dente de Programação e Produção e na Direto- sonoridade, quer dizer, a sensibilização para nacionais. Mas estamos atendendo também à
2
histórias do folclore universal, contos clássicos, uma vez é um programa para ganhar 'pais e ROSA— Os mitos têm determinado tempo. Ago-
contos de fada. Tentamos reunir vários tipos de educadores, porque no final tem uma lição de ra ela é forte. Acho que ainda tem um tempo pra
histórias para criança, também por sugestão da moral e uma mensagem. Por incrível que pare- ela, mas cada vez mais ela está ficando máquina
FNLIJ. ça, pais e educadores gostam disto. Para a crian- de fazer dinheiro. Estamos vivendo uma época
FNLIJ — Este programa é semanal.? ça, no fundo é uma chatura que pinta. de sacudida de valores e daqui a pouco as pes-
ROSA — Não, ele é diário e veiculado pela Eu acho que 90% da programação veiculada soas vão se dar conta de que é preciso superar
manhã e tarde. Queremos atender às crianças em nossa televisão — Mura Maravilha, Xuxa, estas. figuras conturbadas.
nos dois turnos. Se pudéssemos, faríamos mais Bozo — é muito aliada ao consumo. É uma coisa FNLIJ — E a violência dos desenhos animados?
programas. Como produzimos pouco, repetimos muito dura ver a criança ser convidada a com- ROSA — Quando me perguntam a respeito da
a programação da manhã à tarde. O Canta Conto prar o tempo todo. violência na televisão, nos desenhos animados
é um programa que tem bonécos, é o lugar do Nos últimos 5 anos, como resultado de pesqui- ou filmes, eu acho que é importantíssimo a gente
"humor", do "non-sense". Tem também um qua- sas realizadas, a presença da criança na TV tem não esquecer que há criações na literatura, no •
dro em que a Bia visita alguns lugares, por sido enorme. Só que como cenário, como figu- cinema, etc... que tratam de fantasmas, de me-
exemplo o Jardim Botânico, e dá voz a seres ração. dos profundos da pessoa. É necessário que a
inanimados, Então, ela fala coma pedra, com a FNLIJ — Você acha o programa da Xuxa preju- narrativa, que a ficção, que aquela realidade pro-
flor, com a água, com &estátua. É o momento do dicial? jetada tenha elementos que estão dentro da
inanimado, em que a criança dá vida aos seres ROSA — O problema é o seguinte, eu não acho gente. As fantasias estão dentro da gente. Na fic-
através da Bia. Estamos reformulando este pro- que ele seja um bom programa, Tem uma ção, você encontra momentos
grama para introduzir um maior número de enorme produção, mas é muito ligado ao de alívio, momentos de medo. Faz-se uma ca-
crianças. Por enquanto só há um quadro com consumo. tarse através da ficção. Eu não vejo problema
crianças, que é o quadro das brincadeiras musi- Agora, quanto ao fato de ser prejudicial, eu quanto a ter monstros ou momentos de violência
onde se dá o desenvolvimento da educa- não vejo a coisa assim, Acho que a gente não • em si. Mas é preciso ter cuidado na escolha dos
ção musical, da sonorização. As crianças tocam pode ver uma programação de TV isolada do desenhos animados porque a maior parte deles
instrumentos ou fazem gestos e reproduzem no conjunto da TV e do conjunto da sociedade. é americana e servem para veicular uma ideolo-
corpo uma situação musical. Este é o nosso pro- Então é prejudicial em relação a que? O progra- gia determinada. Alguns são mais ingênuos, ou-
grama principal, mas temos um outro de dese- ma da Xuxa está lá, está sendo assistido. Agora, tros são bastante reacionários. Fievel, um Conto
nho animado, que se chama SUPER TELINHA se a criança tem opções, que não sejam só pro- Americano é umá história reacionária do ponto
Estamos trazendo desenho animado não comer- gramas de TV, se tem outras coisas para fazer, de vista ideológico e político, porém é uma his-
cial. É desenho animado mais artesanal de se ela tem relação decente com os pais, pode tória profundamente humana e sensível.
países de toda a Europa, além de desenhos conversar sobre o que vê, a programação da Então eu acho que isto deveria ser mais plural.
animados nacionais. Xuxa não fica tão forte. É claro que poderia se Quer dizer, quando colocamos no ar alguns
FNLIJ — No Canta Conto não há espaço para dizer que é prejudicial no sentido do abandono desenhos franceses, ou do leste europeu, 'etc...,
desenho animado? em que as crianças ficam, da repetição de. um estamos colocando uma outra ideologia. Então
ROSA — Por enquanto, não. O desenho animado modelo de comportamento. E isto fica forte por- tem de ser uma coisa mais aberta, a criança •
só entra em cenas curtas, cenas que pontuam o que há ausência de outros valores. Mas se a pode ver um desenho animado americano, ale-
programa, que costuram um quadro no outro. atuação do adulto e de outras pessoas da relação mão, tcheco, etc... e assim ter acesso ao máximo
FNLIJ — Como você analisa a programação in- da criança é forte e boa, estas coisas ficam relati- de informação, de modo de pensar a vida. E
fantil da televisão brasileira? zadas. neste sentido a TV comercial não tem dado mui-
ROSA — O que tem acontecido nos últimos anos to opção.
Nós, com o Canta Conto, fizemos uma tentativa
é um investimento muito grande em produção FNLIJ — E o Sitio do Pica-Pau Amarelo?
de colocar um programa infantil de bom nível no
para criança, porque a criança é o público por
ar. No início não tinha audiência pela manhã. ROSA — A gente continua colocando no ar,
, excelência da televisão. A criança tem uma porque foram 10 anos de produção. Eu acho que
Passou a ter. É lógico que ninguém está queren-
identificação muito grande com este veículo. A foi uma produção muito boa, mas depois o espí-
do audiência, porque a TVE não tem condições
linguagem da televisão é muito próxima da lin- rito de Monteiro Lobato ficou um pouco deturpa-
disso e nem é esse o seu propósito. Mas aconte-
guagem da criança no sentido de uma lingua- do. Mas o fato de existir uma super produção
ceu que se conseguiu atrair o público. As crian-
gem mosaico. A televisão não é linear, ela é para criança brasileira, com linguajar brasileiro,
ças escrevem cartas ou telefonam pra Bia. A Ana
capaz de passar de um cenário pra outro, de um sobre o nosso folclore, já o coloca como uma das
Maria Machado me disse que na Livraria dela
mundo para outro, assim como a criança tem coisas mais importantes produzidas pela televi-
(Malasartes) têm crianças que chegam e dizem
muita facilidade de sair da fantasia pra reali- são brasileira.
"Ah, eu quero comprar o livro da historinha do
dade, de estar num país e pas.sar pra outro, de
tatu que saiu no programa da Bia". Eu estou com um projeto, que gostaria de
sair do real e ir pro imaginário. A TV é isso o
tempo todo. A TV tem investido muito na progra- O programa está tendo uma boa penetração. colocar em execução, que é uma adaptação de
mação infantil, porém é muito mais no sentido de Acho que é uma alternativa que a gente colocou contos e lendas, uma dramatização como, o Sitio.
no ar. Seria adaptar uma história da literatura universal
captar o público, do que de dar ao público uma
coisa boa, nova. FNLIJ — Como você vê o depoimento de mães como por exemplo Alice no Pais das Maravilhas
quando dizem que a criança só quer ver a Lixa? e fazer 4 programas que iriam ao ar todo sábado.
Então,-há uma intensa programação que su-
Ou adaptar um conto, um mito de nossa cultura e
põe que a criança é um ser absolutamente agita- ROSA — É difícil você fazer educação e TV
fazer uma história, uma dramatização com cená-
do, frenético, louco e um ser com uma necessi- comercial.
rio brasileiro. Um programa de 1/2 ou 1 hora, tipo
dade imensa de moralização, de doutrinação, de Já pensou se a Bia Bedran no meio do progra-
ma mostrasse e vendesse uma boneca com a especiais, com muita fantasia muita ficção e qua-
fazer a cabeça. A televisão é um negócio tão
avançado do ponto de vista tecnológico, e tão cara dela? Fica deformado o que você vai dizer lidade de interpretação. A criança é exigente e
atrasado do ponto de vista educacional e cultu- para a criança. Quando as mães dizem que as tem necessidade de ser bem atendida do ponto
ral... principalmente na programação infantil. O crianças só querem ver a Xuxa, acho que elas é de vista estético. Com relação aos programas
Bozo dá lições de moral, a Xuxa fica o tempo todo que querem ser a Xuxa e querem inclusive que informativos para crianças, eu destaco, o docu-
mentário. Acho que deveria se investir mais em
dizendo "vamos sorrir, vamos ser amigos". É a os filhos se vistam como a Xuxa. É bom analisar
coisa de doutrinar a criança o tempo todo. • esse fenômeno do ponto de vista do adulto. Está documentários ligados ao mundo animal e à na-
Até o desenho animado, do He-man e da She- havendo um enfraquecimento no relacionamen- tureza. Nós cornpramos um programa america-
Ha de grande audiência não é de boa qualidade; no — REINO ANIMAL, mas é um pouco antigo.
to de pais e professores com as crianças, então
pelo contrário é um desenho de pouca quali- Por .que não saímos por aí com geólogos, zoólo- •
eles se projetam numa figura como a Xuxa como
gos e fazemos grandes seriados com uma lin-
dade técnica, que não tem nenhuma criativi- se ela fosse resolver todos os problemas de
dade do ponto de vista do traço e da animação. educação. Há uma certa preguiça, uma certa guagem mais popular, mais infantil?
Mas é avançado do ponto de vista de um mito do dificuldade de se educar na nossa época. FNLIJ — Você gostaria de acrescentar mais al-
irmão e da irmã, do He-man e da She-Ha. A FNLIJ — Você acha que o mito Xuxa vai conti- guma coisa?
narrativa é muito bem construída, porém mais nuar por muito tempo? ROSA — Temos que lutar e divulgar a necessi-

3
dade de revolucionar a educação no Brasil. Não A televisão conta histórias para as crianças e nezes, que era um católico, carola.
adianta publicar livros maravilhosos ou fazer os pais em casa não são capazes de comprar um Nós eramos a vanguarda literária do ginásio, e
programas maravilhosos. A escola está muito livro, de ler sentado ao lado da criança, ou ficamos com antipatia das meninas. Porque Eurí-
aquém do que se espera. Ela é retrógrada em contar uma história antes dela dormir. Parece pedes Cardoso? Quem é esse babaca? Que era
relação à literatura, à televisão, e a todos os que isso está perdido. Mas é fundamental recu- um cara de direita a gente já sabia. Com tanta
outros meios de comunicação. perar as coisas mais simples, mais prosaicas gente boa em Caratinga convocaram ele só por-
como contar histórias. Isto na escola também: ter que a Irmã sugeriu No dia da festa Euripedes
Está atrasada em relação a tudo que está disciplina, aprendizado, mas basicamente ter não apareceu. "Caímos de pau" nas meninas, foi
acontecendo na sociedade. Não existe maneira diálogo, que é algo que se perdeu. Isso é funda- ótimo. A minha primeira visão politica do mundo
de renovar este país, se na educação as coisas mental pra deslanchar qualquer coisa. É revolu- foi essa indignação, o primeiro ato politico da
vão do jeito que vão. O ensino é artificial, superfi- cionar a educação, buscando as coisas mais minha vida foi esse protesto. Fiz o 1° e 2° científi-
cial, mentiroso e, ainda, autoritário. simples co aqui no Rio. Desenhei em muitas revistas —
Cezinho, Vida Infantil, Vida Juvenil. Desenhei o
, que pude aqui, e depois trabalhei em agências
de publicidade e comecei a desenhar profissio-
nalmente. Depois fui pra Belo Hofizonte e fiz

Ziralc anc o Históric vestibular de Direito, sou advoga-do, sou ba-


charel em Direito. É uma vida longa. Virei autor
infantil depois de velho.
Entrevista com Ziraldo FNLIJ — Você já desenhava quando morava em
Autor de livros para crianças Caratinga?
ZIRALDO — O dia inteiro, sem parar. Dese-
nhava feito um danado, desenhava tudo. Fazia
FNLIJ — Você é de Caratinga. Isto teve algu- criança. Culturalmente essa é uma coisa que não livro, fazia gibi no caderno de desenho, fazia
ma importância na sua formação como escritor? se dispensava, fazia parte de nossa vida, Eu me história em quadrinho e vendia pros meus co-
ZIRALDO — De eu ser do interior? Acho que lembro de algumas empregadas de casa, algu- legas.
teve sim A influência provinciana na minha for- mas cozinheiras. A gente ia pra cozinha ouvir FNLIJ — Você falou que não dá pra ser autor,
mação foi uma coisa muito poderosa. contar história. Eu tinha um tio chamado Manzi- porque não teve uma infância sofrida, mas você
A infância, essa fase da vida do homem, é nho, que era fantástico. Ele inventava, parava de escreve...
muito poderosa. Principalmente se a pessoaque contar, a gente insistia e ele ficava inventando. ZIRALDO— Escrevo, claro que escrevo! É brin7
transa esta etapa da sua formação, foi uma pes- Todas as histórias clássicas da infância, Pedro cadeira. É muito difícil você ser um bom escritor
soa por temperamento atenta. Todo artista é em Malasartes, Joãozinho e Mariquinha, as de as-
geral uma pessoa muito atenta quando está for- sem conhecer a angustia, o desespero, sem co-
sombração, tudo isto foi muito marcante, pois nhecer os sentimentos mais profundos do ser
mando o seu caráter. O que gera a possibilidade não tinha televisão e nem cinema com facili- humano: Eu queria ser ilustrador. Desenhava
do cara ser artista depois de adulto é essa liga- dade.
história em quadrinho. Depois comecei a fazer
ção com as coisas em volta, que ele quando A mamãe era muito criativa, inventadeira de humor e virei cartunista. Em 60 comecei a fazer o
criança anota Todas as pessoas que eu conheci moda, de festinha, de brincadeiras. A gente Pererê. Foi uma experiência maravilhosa. Eu
criança e que depois se transformaram, ou em nunca brincava com ela dos brinquedos clássi-
, artista ou em qualquer pessoa ligada a esse aprendi como lidar com a linguagem da criança,
cos da maneira que todo mundo brincava. A como contar história, como narrar história.
mundo, eram crianças muito atentas. Entrevistei mamãe brincava de chicotinho queimado, in-
o Grande Otelo pra TVE. Ele saiu de Uberaba ventando um chicotinho originalíssimo. Ela Em 1969 eu fiz o primeiro livro pra criança —
com 8 anos e meio. Escreveu um livro de memó- sempre inventava alguma coisa. Por tempera- Fácts — que fez um sucesso extraordinário.
rias. Está com 72 anos e é uma vida absoluta- Mento ela não aceitava o brinquedo do velho Flicts foi um divisor de águas na história da lite-
mente fantástica, riquíssima: tem Carmem Mi- estilo. O meu pai só me dava livro de presente, ratura infantil brasileira. Não se publicava livro
randa, Cassino da Urca, Orson Welles, tem toda não dava brinquedo. Meus pais eram absoluta- pra criança no Brasil, ele é o primeiro álbum de
uma vida artística aqui no Rio — cinema, televi- mente simples. Mamãe não tinha nem o primá- capa dura, estilo europeu. Não tinha essa coisa
são. Metade do livro ele fala dos anos que viveu rio. Meu pai fez curso de guarda-livros, terminou de livro de texto ilustrado.
em Uberaba, porque lembra de tudo com uma primário, mais 3 anos de contador prático. Eles Depois veio a fase mais dura da ditadura e eu
nitidez inacreditável. Lembra o nome das pes- dois tinham muita sensibilidade, uma cabeça que era autor infantil, ilustrador, desenhista, car-
soas, o nome do bairro, das ruas, como eram as muito boa para essas coisas. Eu tive uma infância tazista, capista de livros, fui pra luta política. Fui
casas, como era a bisavó, a avó, a mãe, como ele muito boazinha, não dava pra ser escritor. Escri- pio Pasquim e abandonei completamente a
saiu de lá e foi para São Paulo. tor tem que ter uma infância sofrida, muita an- idéia de ser autor infantil. Virei chargista políti-
João Cabral de Melo Neto também falou numa gústia pra fazer uma boa obra de arte. Eu tive co. Fazia charge pro Jornal do Brasil e pro meu
entrevista sobre a presença fantástica de Recife uma infância ótima, não dava pra ser autor não. Pasquim.
na vida dele. Ele passou toda a vida fora de lá, FNLIJ — E como você veio pro Rio? Você fez o Em 1979, 10 anoS depois, recebi um convite
mas a infância e a adolescência passou em Re- colégio aqui? • para fazer outro livro infantil. Já havia a abertura,
cife. Então, aquela coisa ficou bem marcada. ZIRALDO — Fiz o primário na minha terra, fiz o já havia um espaço maior pra se dizer as coisas.
No meu caso, eu era um menino muito atento, grupo escolar, aquela coisa de Getúlio Vargas. Fiz o Planeta Lilás. Em 1980 eu estava fazendo
com o olhão aberto pras coisas. Os valores da Eu era fã do meu país, marchei muito, Era capas e desenhos pra Melhoramentos, e me
vida no interior — como é que se transa com as apaixonado por Getúlio, desenhava Getúlio em ocorreu o Menino Maluquinho. A partir daí eu
pessoas, como se relaciona com as pessoas — tudo que era caderno. Desenhava Tiradentes, virei autor para criança. Eu hoje sou antes de
marcaram demais a minha infância. Tudo aquilo bandeira do Brasil. No dia 5 de setembro tinha mais nada um autor pra criança. Não digo que é
foi muito marcante na minha vida e todo meu um feriado do Getulio, que era o dia da Raça. autor infantil porque parece um retardado men-
trabalho é assentado nos valores criados lá. Na Claro que não existe mais, porque não tem raça tal. Eu sou um autor que faço livro pra criança.
literatura infantil, no livro pra criança, isso é brasileira. Mas lembro que no Dia da Raça FNLIJ — Você falou que com o Pererê aprendeu
ainda mais marcado. Eu não escrevi ainda as cheguei em casa às gargalhadas, porque 12 des- a trabalhar para criança. Como foi isso?
minhas memórias, mas os meus personagens maiaram na fila, tudo de fome ou esquistoso7 ZIRALDO — Na prática, é claro. Eu fui um leitor
vivem muito em função daquele sentimento pro- mose. Os meninos eram barrigudinhos, tudo muito mais atento e mais assíduo na minha infân-
vinciano que ainda marca minha vida. doente, tudo subnutrido. Eu perdi metade dos cia Com o Pererê, eu só botei no papel e na
FNLIJ — E como começou isso? Você lia muito meus amigos de infância de esquistosomose. E a minha prancheta o que estava dentro de mim, o
na infância? Tiveram muitos contadores de his- gente ainda tinha que marchar no Dia da Raça. que já estava na minha ansiedade.
tória que passaram por sua vida? Fiz o ginásio em Caratinga. As meninas do FNLIJ — E o menino Maluquinho? Você também
ZIRALDO — Muito contador de história. Primei- Colégio das Irmãs convidaram para paraninfo colocou o que estava dentro de você?
ro, tinha-se o hábito do contador de histórias pra um cara chamado Euripedes Cardoso .de Me- ZIRALDO — Claro. Fiz uma conferência sobre

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criança num colégio. Estávamos batento papo, e desenvolvi esta idéia de que o importante é que Vale ressaltar que foi nesse período que sur-
as pessoas me perguntando como se cria filho. uma criança seja feliz. A gente tem mania de giu a chamada "corrente realista" na literatura
Mas eu não sei como se cria filho. Desenvolvi chamar de maluco o menino que é alegre. Aí infanto-juvenil. A preocupação moralista e tam-
então aquela tese — acho que tem que acabar veio a idéia: "Por • que não escrever um livro bém pedagógica deu lugar aos temas ligados à
com o negócio de que criança é um vir a ser. sobre isso?" nossa realidade. Passou-se a questionar nossa
Criança não é um vir a ser. Criança é um ser finito Não sou tratadista, nem educador. Tenho pa- realidade através de um humor feito com bas-:
nela mesma, é uma coisa acabada, finita. Se você vor da idéia de escrever texto educativo. Então tante seriedade. A questão da fantasia ou reali-
ficar imaginando que ela vai crescer, você ferra eu pensava: um dia quem sabe, eu podia contar • dade deixou de ser relevante, o que importava
a vida dela, porque estará transando em cima de isso, passar isso num livro infantil. Fiquei resis- (e ainda importa) era a criança vista como um
uma coisa que não está ali. Como se criança ser huniano e não como um pré-adulto, ou um
tindo muito tempo, porque tenho pavor de pas-
fosse uma coisa provisória. Se você transa um adulto miniaturizado.
sar mensagem em livro, de ensinar as coisas
ser provisório você deforma, porque não passa E onde entra Monteiro Lobato, depois do sur-
com livro. Um dia juntei tudo que acontece de
pela cabeça dele que é um ser provisório, ele gimento dessa corrente? Simplesmente ele é
bom na vida das crianças que eu conheço e fiz o
está vivendo o definitivo. Uma criança tem que Menino Maluquinho. intocável. A literatura infanto-juvenil brasileira
ser vista, convivida, tratada como uma criança.. tem nele o seu divisor de águas. Apesar de ter
Ninguém trata uma criança pra ela ser uma boa FNLIJ — Você entrevistou algum menino? sido um escritor conservador para os adultos,
criança, mas para ser um bom adulto. Então, Z1RALDO — Eu fui um menino, não esqueci io Monteiro Lobato era modernista para as crian-
ças. E foi o primeiro a criar a fantasia "abrasilei-
rada", sem trenós, neves e outros elementos
estranhos à nossa realidade, numa época em
. que o pouco que se produzia era uma cópia de

Litoratura intento juv nul modelos estrangeiros.


A função social da literatura infantil ultrapassa
a sua própria expectativa, pois é na infância que

orasiloira e os meios c e se forma o hábito de leitura. Mas até onde pode-


mos delinear uma divisão entre a literatura adul-
ta e a infanto-juvenil? Será que ela existe? Seria
uma divisão cultural ou econômica?
comunicação ce mc ssc Na verdade, o que existe é literatura. E se a
literatura infanto-juvenil tem perdido um pouco
da sua fantasia e tem ganho traços "realistas", não
Arnaldo Niskier vamos ignorar que a literatura adulta sempre
teve, na sua essência, desde a criação de perso-
Introdução nagens até o estilo de escrever, diversas parti-
cularidades da literatura infanta-juvenil.
A criação da Fundação Nacional do Livro In-

A literatura infanto-juvenil tem ocupado


um grande espaço nos meios de comuni-
cação de massa, nos últimos anos, devido
a fatores histórico como, por exemplo, o
questões vão surgindo, tais como: seria o livro
infanta-juvenil um instrumento de obrigação es-
colar ou uma opção de passatempo? Deve ou
não ser didático? Devemos aboliar as bruxas e
fantil e juvenil, em 1968, também colaborou mui-
to para a tomada de consciência de autores,
ilustradores e editores, no sentido de aumentar a
bicentenário de nascimento dos irmãos Grimm, produção dos livros infanta-juvenis. Até hoje, a
fadas ou devemos resguardar a sua existência
Fundação luta com bravura para sobreviver e
"julgamento" do Lobo Mau por um tribunal de histórica? Como encarar realidade e fantasia? cumprir suas finalidades, apesar dos seus pou-
Veneza e o relançamento do desenho animado Vivemos o mundo da eletrônica, com todas as
Branca de Neve e os Sete Anões, apresentado cos recursos.
suas facilidades momentâneas. Veremos como a
pela primeira vez há 50 anos. Sua manutenção é assegurada pela contribui-
nossa literatura infanta-juvenil convive com os
ção dos sócios e pelas magras verbas dos
Aqui no Brasil, a literatura infanto-juvenil pa- novos tempos. convênios com o INEP e com o INL. A FNLIJ
rece ter alcançado finalmente o seu merecido possui um acervo considerável, mas luta até hoje
lugar, com a consolidação das livrarias especia- O crescimento da literatura infanto-
para obter maior apoio tanto federal como da
lizadas que, apesar do pequeno número, mos- juvenil brasileira iniciativa privada para que consiga realizar ple-
tram que já temos um público definido e interessa- namente seus objetivos.
do. As vendas cresceram de modo constante e Se antes tínhamos que nos sujeitar à tradução , Todas essas iniciativas têm colocado a litera-
expressivo. de obras estrangeiras, hoje o que se vê é outra tura infanta-juvenil brasileira numa posição de
Também o surgimento da crítica especializa- realidade.besde que pais, professores e psicó- relevo. A prova disso é que diversas autoras têm
da, nos principais órgãos da imprensa, tem logos passaram a se preocupar com o conteúdo conseguido a marca representativa de um mi-
contribuído muito para desmistificar uma falsa dos livros dirigidos às crianças, surgiu em nosso lhão de exemplares vendidos no seu conjunto
realidade, antes tida como verdadeira — a de meio editorial o que se pensou que fosse um de obras. É um fato auspicioso que seria impos-
que a literatura infanto-juvenil era um gênero de fenômeno, um "boom", mas, na verdade, era o sível há alguns anos, e que muitos autores da
segunda categoria. florescimento dos nossos autores e ilustradores. literatura adulta não conseguem alcançar. Ruth
É preciso, também, que o programa Salas de Tudo começou no início da década de 70, e a Rocha, que foi uma das autoras dessa façanha,
Leitura, da Fundação de Assistência ao Estu- própria Lei n? 5.692, de 1971, trazia nos seus acha que a nossa literatura infanta-juvenil só
dante (FAE), seja reconhecido como um dos dispositivos o incentivo à leitura de autores na- perde para a americana e a inglesa, assim mes-
caminhos para o incentivo à literatura infanta- cionais, e, no caso do 1° grau, os autores de mo por causa da parte gráfica.
juvenil, para que seja ampliado. Essa foi uma das literatura infanto-juvenil. Antes, em 1969, houve O reconhecimento internacional também tem
poucas oportunidades que o governo federal, • surgimento da Revista Recreio, que chegou a sido muito importante. Em 1982, Lygia Bojunga
através do MEC, se preocupou com o assunto. vender um milhão de exemplares por mês, que Nunes ganhou o prêmio "Hans Christian Ander-
A existência hoje de uma literatura infanto- também colaborou para o crescimento do gêne- sen" pelo conjunto de sua obra. Esse prêmio
juvenil brasileira amadurecida é um fato que ro. Ela foi o grande embrião da leva de autores corresponde ao Nobel de literatura infantil.
merece a maior consideração. No passado, o que surgiram naquela década, e que até hoje Também em 1982, Ana Maria Machado ganhou
que havia era a aventura de ChapeuzinhoVerrne- continuam fazendo o mundo do sonho da criança prêmio "Casa de Las Américas", em Cuba,
lho, o desespero de João e Maria, a inocência de brasileira, a saber: Lygia Bojunga Nunes, joel pelo livro De Olho nas Penas.
Branca de Neve, o sonho da Cinderela, e por aí Rufino, Ziraldo, Sylvia Ortho Ruth Rocha, Ana Muitos livros têm sido traduzidos para diver-
afora... 'Maria Machado e outros. Anos depois, na mes- sas línguas, inclusive o sueco e o japonês, e
Resolvido em parte esse problema — já te- ma trilha, criamos em Bloch Educação e revista outros autores, como 'Angela Lago, Rui de Oli-
mos muitos autores e ilustradores — outras "Bloquinho", que chegou a 13 edições diferentes. veira e Gian Calvi têm recebido também prê-

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mios no exterior. Aqui no Brasil, a cada ano, são fantil até a nível de pós-graduação. No Brasil, já a sugerir às crianças historinhas criadas de im-
criados novos prêmios de incentivo aos autores tivemos no Instituto de Educação o curso de proviso. Na verdade, a Xuxa, com o seu progra-
e ilustradores, São exemplos: Bienal Nestlé, Ja- Literatura Infantil; mas foi estranhamento desati- ma inicial, revolucionou a pedagogia dos pro-
buti, João de Barro, APCA, ABL, FNLIJ, INL, o vado. Isso demonstra o quanto a nossa literatura gramas infantis da televisão, como foi dito pela
Prêmio Odylo Costa filho e outros. infanto-juvenil é desprezada pelas autoridades.. imprensa na época. Era a fada madrinha da
A falta de um planejamento de marketing pa- Um fato a se assinalar é que tem havido um criançada. Se hoje ela convive com He-Man e o
ra a Literatura Infanto-Juvenil é uma falha que aumento crescente de lançamentos de livros da Castelo de Grayslcyll e com a violência de Ram-
está sendo corrigida pela FNLIJ. Durante as fé- literatura adulta. E aí surge a questão: será que bo, já é outra história (e em outra televisão).
rias, o número de livros vendidos diminui sensi- os filhos também não acompanham esse hábito? Na Rede Manchete, à tarde, temos hoje o
velmente. Não deveria ser o contrário? Para os Numa casa onde os pais lêem, é claro que os programa infantil Lupu Limpim Claplá
adultos a mídia faz o maior estardalhaço — filhos só podem querer seguir o mesmo cami- com Lucinha Lins e Cláudio Tovar, um programa
existem campanhas de vendas direto dos tradi- nho. que inovou a programação infantil da televisão
cionais best-sellers. Mas para as crianças ainda O pré-escolar é o grande momento onde brasileira Inovou porque as estórias do progra-
não há quase nada. deve haver um estímulo à leitura. Essa relação ma tiveram um caminho surpreendente. 'Elas
E por falar em best-sellers, por que um livro deve ser bem natural, e de forma lúdica, tanto foram transformadas num livro, que foi o primei-
infanto-juvenil nunca freqüenta a lista dos mais em casa quanto na escola. Mas nós temos uma ro de uma série que pretendemos lançar. É o
vendidos? Atualmente, criou-se até uma relação grande preocupação com o que a criança real- caminho inverso: em lugar do livro ser adaptado
à parte na grande imprensa, onde são mostrados mente deseja. Afinal, o que ela pensa sobre os para as telas, foi a televisão que proporcionou
os livros infanto-juvenis que têm tido maiores títulos que estão à sua disposição? Sendo ela a uma produção literária.
saídas. A discriminação é flagrante. Todos nós maior interessada, é justo que se faça um levan- São lamentáveis algumas ausências em nosso
sabemos que os livros infanto-juvenis têm alcan- tamento nacional sobre as aspirações do público vídeo. Por exemplo: por que acabou o Sitio do
çado marcas invejáveis, não conseguidas por infanto-juvenil. Isso evitaria o pseudodidatismo Picapau Amarelo? Nessa competição acirrada
autores da. literatura adulta. que pode ser detectado em muitas obras. que as redes de televisão vivem, será explicável
A existência da crítica especializada não a a retirada do ar da obra de Monteiro Lobato se
Fantasia e realidade ela não tivesse nenhuma audiência. Mas não era
exime de certos deslizes como a falta de crité-
rios na avaliação das Obras. Foi o caso recente Discute-se muito o didatismo na literatura in- isso o que ocorria Era um dos programas cam- •
de Maria Angélica de Oliveira, colaboradora do fanto-juvenil. Mas o que é e o que não é didáti- peões de audiência no seu horário. Por que terá
Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo. Ao co numa obra? O assunto pode até sei debatido sido sacrificado?
analisar o meu livro O Saruê Astronautra, ela o em seminários e congressos. O livro infanto- Outra experiência que tinha muito a ver com a
achou triste e conformista, por ser, segundo. suas juvenil, de início, engloba uma relação entre a literatura infante-juvenil foi o projeto de Ely Bar-
próprias palavras, "um exemplo acabado de fantasia e a realidade. Mas, ao mesmo tempo — bosa, também retirado do ar: a TV Tutti-Frutti,
produção destinada a ensinar alguma coisa". Se- que pode ser provado pelas produções da Depois de anos de pesquisas, ele conseguiu
rá que ela está me sugerindo fazer livros que chamada "geração realista" — a realidade atual, criar um programa onde uma cidade era habita-
"deseduquem" as crianças? Será que, ao tentar com os seus problemas sociais, políticos e eco- da por frutas e legumes. Era apresentado na TV
pasçar para as crianças a necessidade de prote- nômicos, tem sido apresentada sob a ótica da. Bandeirantes. Juntamente com outro projeto seu,
ger o nosso meio ambiente — tema do livro — fantasia, da mágica, do lúdico. Inversão de va-• Boa Noite Amiguinhos, a TV Tutti-Frutti teve o
estamos prestando um "desserviço" à educação? toras? interesse despertado por empresas de cinema
Como educador, sinceramente, não deu para Essa nova maneira de encarar a realidade, americanas, mas aqui foi relegado a um segundo
entender o sentido da crítica. que a literatura infanto-juvenil mostra nas suas plano por nossas emissoras.
obras, transmite emoções, desperta curiosi-
A Lei Santey dades, produz novas experiências, enfim, faz Também Os Trapalhões, que estavam enve-
A Lei Sarney pode ser a grande ponte para com que a criança viva intensamente. Essa é, na redando no caminho dos temas internacionais —
colaborar na evolução desse marketing. A cria- nossa opinião, o sentido didático que a literatura As Minas do Rei Salomão, O Mágico de Oz, Ilha
ção de bibliotecas, que facilita o contato das infanto-juvenil deve ter. Quando ela se manifes- do Tesouro — agora se convenceram do grande
'crianças com o livro infanto-juvenil, além de au- ta 'de forma dirigida, moralizante, além de não filão que é a nossa literatura infanto-juvenil. Par-
mentar as tiragens, diminui o custo dos livros. atingir a sensibilidade das crianças, cai no vazio. tiram para o Auto da Compadecida, de Ariano
Tanto o Estado, que deveria ter essa obrigação, Em termos de números, o mercado editorial in- Suassuna. Com esse abrasileiramento do quar-
como a iniciativa privada, podem investir nesse fanto-juvenil recebe uma percentagem muito teto, ganha o cinema nacional, ganha a nossa
processo, assim como em co-edições junto a grande de obras desse nível. Daí a nossa preo- literatura infanto-juvenil, e, principalmente, ga-
pequenas editoras. Agora que a Lei Sarney já foi cupação em reverter esse quadro. nham as crianças, que se beneficiarão desse
regulamentada, é hora de se buscar os mecanis- casamento perfeito.
Literatura infanto-juvenil e tele- Seguindo o velho conselho de Monteiro Loba-
mos que possibilitem a sua plena aplicação junto
à Literatura Infanto- Juvenil. visão to, nós, da Rede Manchete, criamos o programa
A televisão poderia ser a maior divulgadora quinzenal chamado Homens e Livros, que pro-
da literatura infanto-juvenil. A prova disso é que move entrevistas com escritores, debates com
Literatura infanto-juvenil e a edu- editores, críticos, livreiros e autores, além de
"O feijão e o Sonho", de Orígenes Les,sa, quando
cação - foi adaptado para a tela, teve diversas edições testemunhos de escritores experimentados,
A população escolarizada no Brasil é defi- do livro relançadas. Além da adaptação das imortalizados pela Academia Brasileira de Le-
ciente, existindo o fato já bastante divulgado das, obras, a televisão poderia ter em sua programa- tras. O telespectador é informado aos domingos
8 milhões de crianças dos sete aos quatorze anos ção normal programas ligados à literatura, com sobre tudo que está acontecendo no campo edi-
fora das escolas. Para que o país consiga vencer devido tempo reservado à literatura infanto- torial, sendo dada maior atenção aos autores
os graves problemas sociais que atravessa, in- juvenil. Atualmente, temos na TV Educativa o nacionais.
clusive o da educação, será preciso que se co- • programa "Canta Conto", apresentado por Bia Os lançamentos dos livros infante-juvenis são
mece na infância a corrigir tais distorções. O Bedran, no horário vespertino, que é de ótima apresentados no programa sempre com desta-
incremento do hábito de leitura na população qualidade, e alcança o objetivo desejado. Mas que. São feitos, também, periodicamente, pro-
infanto-juvenil seria um dos primeiros passos. será que isso é tudo que a televisão pode ofe- gramas especiais enfocando a literatura infanto-
Os pais devem considerar o livro como um recer? juvenil, em datas especiais como o Dia da Crian-
instrumento em que a criança tenha 'um relacio- A televisão não é mais considerada, como foi ça. Essa tem sido a nossa contribuição para que
namento íntimo, e no qual vai aprender lições há alguns anos, a inimiga da literatura. Ao consigamos valorizar o hábito de leitura. Para
que ajudarão muito na sua formação posterior. contrário, trabalhando em conjunto, podem ser um país de 135 milhões de habitantes, menos de
Se uma criança não possui o hábito de leitura na intercomplementares. Essa foi a nossa intenção um livro por pessoa, realmente, não é um bom
infância, na adolescência ou na fase adulta as quando, na TV Manchete, lançamos há três anos índice.
coisas se tornarão mais difíceis. Clube da Criança, com a apresentadora Xuxa No rádio, infelizmente, existe uma total ausên-
No exterior existem cadeiras de Literatura In- Em meio às brincadeiras e prêmios, lá estava ela cia de espaço para a literatura infanto-juvenil.

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Até há pouco tempo, tínhamos o programa da quez; e as promoções de Jayme Cortez, recente- sociais desfavorecidas que não alcançam a
Geny Marcondes na Rádio MEC. O rádio tem mente falecido? De certa forma, têm razão os condição de sujeito no fazer cultural e se redu-
uma penetração muito grande em todo o país, que dizem que o Brasil produziu pouco durante zem a consumidores da cultura massificada; no
principalmente no interior, e poderia ser um todos esses anos em relação aos herois importa- entanto o problema é escamoteado quando a
bom canal de divulgação dos livros dedicados dos. Mas devemos valorizar o que foi feito. relação desigual passa pela faixa etária. Chauí
às crianças. São 1.200 emissoras, em todos os A nossa principal criação chama-se A Turma (1) assinala que a cultura vista como um guia
nossos Estados e Territórios, mas o que fazem da Mônica, de Mauricio de Souza, que atual- prático da sexualidade, do trabalho, do gosto,
elas pela nossa literatura? mente é a nossa reação contra as histórias es- etc. se transforma "em poderoso elemento de
trangeiras. Suas tiras são exportadas para diver- intimidação social". Se a criança pertence a uma
Literatura infanto-juvenil e os
sos países, inclusive os Estados Unidos. classe "intimidada", será duplo o preconceito
quadrinhos que a atinge: o da idade e o da classe: (2)
Maurício de Souza levou seus personagens a Apesar dos "progressos", a intimidação tem
Os quadrinhos, juntamente com a televisão, já uma incursão vitoriosa também no cinema. E sido a estratégia da escola, da família, dos orfa-
foram considerados inimigos da literatura infan- tem projetos de mais 12 filmes. Além da criação
to-juvenil. Mas na verdade, eles ajudaram a natos, dos reformatórios: concebida a sociedade
de uma cidade com seus pergonagens no estilo e a cultura sob este enfoque instrumental (ela
preencher uma lacuna muito grande, devido às da Disneylândia — Monicalândia? — hoje ele
poucas opções de lançamentos de autores na- deve ser assimilada por todos como condição de
tem suas tiras publicadas em 170 jornais de todo sua inserção no grupo), resta à criança o papel
cionais, numa época em que tínhamos acesso país. A versatilidade dos seus personagens é de objeto no processo de renovação social, ex-
apenas à tradução de obras estrangeiras que tanta que eles alcançaram até os jogos eletrôni-
nada tinham a ver com a nossa cultura Apesar cluída que está da condição de agente de sua
cos. Assim como nas revistas em .quadrinhos, própria história. Promove-se a reificação da in-
desse campo também ter sido dominado pelas será possível ver as "brigas amigáveis" de Môni-
produções americanas, desde 1934, quando sur- fância enquanto se submete a criança a
ca e Cebolinha num videogame. constantes retificações de rumo, modo idêntico
giu o Suplemento Juvenil, pelas mãos de Adolfo É saudável ver nos nossos principais jornais, com que a sociedade adultocêntrica e produtiva
Aizen e do desenhista Monteiro Filho, foram numa proporção quase igual, as "tiras" de au- trata louco, deficientes, velhos e ... artistas — os
surgindo manifestações de artistas brasileiros. tores brasileiros como Miguel Paiva, Luiz Fer- que não produzem para o sistema e sua repro-
Os escritores famosos chegavam a escrever es- nando Veríssimo, Angeli, Laerte, Ota, Bruno Li-
pecialmente para o suplemento, como foi o caso dução.
berati, Maurício de Souza, Silvério, Marcelo e Perroti (3) nos alerta sobre a resistência das
de Jorge Amado, que publicou a novela infantil Humberto, Glauco e muitos outros pelo pais afo- expressões culturais nos grupos excluídos dos
Os Quatro Ases, que é uma raridade da literatu- ra. Antes, os jornais s6 publicavam "tiras" estran- privilégios do capital e nos remete a Florestan
ra infanto-juvenil brasileira. Além dele também geiras. Existe no Brasil uma variedade imensa, e Fernandes (4) e seu estudo do folclore entre
colaboraram Raimundo Magalhães Jr., Odylo em nenhum momento se observa a tradicional
Costa, filho, Dalton Trevisan e outros. O pionei- crianças na periferia de São Paulo. Analisando
moral individualista e discriminatória Por si só as "trocinhas" do Bom Retiro, o sociólogo conclui
rismo de Adolfo Aizen deve ser ressaltado: nas isso já representa um grande avanço. que, embora elas busquem elementos na cultura
páginas do Suplemento Juvenil era possível ver
O que se pode afirmar, para finalizar, é que adulta, estes são reelaborados conforme sua ne-
adaptações para quadrinhos de romances de
vivemos um tempo de construção do sólido edi- cessidade, distanciando-os das funções de ori-
autores brasileiros consagrados, e fatos da nossa
fício em que se vai transformando a literatura gem. Assim ao conservadorismo e ao anacronis7
história.
infantil e juvenil brasileira. Cada um de nós terá mo, que relegam à infância materiais simbólicos
Quem não se lembra do famoso Pererê, cria-
a chance de dar a sua colaboração, sem esque- abandonados pelos adultos, corresponde um as-
ção do Ziraldo? E mais: o Fradim, do Henfil; o
cer os sofisticados meios eletrônicos de que hoje pecto de reinvenção, que efetivamente não
Capitão Cipó, de Daniel Azulay; os heróis cria-
dispomos. • pode ser ignorado.
dos por Miguel Paiva; o Rango, de Edgar Vas-
As recomposições infantis variam de tal forma
que tomam irreconhecíveis os objetos primiti-
vos. Multiplicam-se as variantes, alterando a ló-
gica inibidora dos brinquedos produzidos pelo

O csocço c c Infância adulto. O ilogismo emancipado' quebra e re- .


compõe as regras de conduta e padrões de
comportamento. Para além da esfera psicanalíti-
ca, no campo formal, há um certo parentesco

no culturc entre o brinquedo e a criação artística, seja pelo


experimentalismo, seja pela paródia ou ainda
pelas técnicas da mais estrita estratégia do pós-
Eliana Yunes moderno, em que velhas matérias são retoma-
das, apropriadas e transformadas em sua função.
Professora da PUC/RJ e UFRJ
Não deixa de ser interesánte notar com
Secretária geral da FNLIJ
Aries, ao registrar a passagem dos objetos reli-
giosos e ex-votos para bonecos infantis, que "o
ualquer tentativa de falar sobre a produ- antropologia moderna nos ensinou com Lévi-
que se transformará em seu monopólio (da
Q ção cultural para crianças, obriga a uma
revisão dos termos que ela mesma se
propõe. Por exemplo, produção para
Strauss que tudo o que não é natureza, é cultura.
Apesar de não ser possível aqui analisar os
diversos conceitos de cultura em circulação, im-
criança) nas épocas modernas foi dividido, du-
rante a antiguidade com os mortos" (5). E com os
parias, acrescente-se.
crianças, implicitamente, afirma a incapacidade porta assinalar o constante engano de tomá-lo
da infância na elaboração de seus recursos lúdi- como equivalente a produto cultural, isto é, co- Apesar da tentativa de bloquear-lhes o pre-
cos já que deixa de ser sujeito do ato de criar e mo expressão acabada de um processo, como sente e nele, uma cultura caracterizada por sua
se transforma em mero consumidor do produto objeto estático pronto a ser transferido, bem de natureza lúdica (6), a criança se recusa à condi-
alheio. Do teatro ao cinema, da musica aos brin- consumo a ser assimilado. Esta visão que nas ção de mero elemento receptivo e exerce uma
quedos (a exceção rara está na nova Literatura últimas décadas gerou pacotes culturais como função criadora, à revelia das programações do
Infantil) sua participação é dispensada ou artifi- parte dos programas de democratização do consumo.
cialmente provocada durante espetáculos sem acesso à cultura, promove antes a perversão do Florestan ainda assinala a efetividade desta
capacidade de envolver seu público. conceito, fetichizando-o e com isto dissolvendo energia transformada através do papel integra-
Além disto, produção cultural é um conceito debate sobre as condições e as determinantes dor que a brincadeira dispõe na reeducação do
que circula contemporaneamente como se a da produção, bem como o sentido de sua diver- imigrante. Através das "trocinhas",, os filhos de
cultura fosse algo que só existisse ao esquema sidade. estrangeiros adquirem uma cultura de que não
conscientemente .montado em segmentos so- Nos debates dos últimos anos, aparece exaus- dispõem em casa e ainda exercem uma função
ciais para resultar em produtos específicos. A tivamente o problema da situação de classes decisiva na "re-educação dos pais, clafarnilia em

7
geral, servindo de transmissão de elementos Talvez o que melhor ateste a condição criativa salientam o jogo sonoro, os paralelismos sintáti-
culturais" (7). É interessante notar que, há duas da criança seja justamente sua capacidade de cos ou a representação de um mundo pelo
décadas, os técnicos dos institutos americanos sobrevivência fora da produção ortodoxa adulta. avesso.
de lingústica na Amazônia, para quebrar o "si- Na rua, aprendendo a lidar com o sistema em Se essa persistência pode ser, com certa malí-
lêncio" cultural do índio, usaram justamente suas choques heterodoxos, ela inventa: na mentira, o cia, atribuída ao apego à liberdade lógica e ao
próprias crianças como "informantes", a partir do calço para viabilizar o desejo; na esperteza, a egocentrismo da idade infantil, sendo, pois, in-
convívio que elas tinham com as "brincadeiras" possibilidade de escapar do mais forte; nas terpretável como atitude regressiva, também
das crianças índias, tampinhas, nas latas vazias, no lixo do consumis- não se pode negar que essas mesmas caracte-
A função integradora que o brincar da criança mo descartável, .o brinquedo, a materialização rísticas dos poemas para crianças respondem a
exerce, no caso paulista, sobre outro grupo de da fantasia. • uma relação angustiada do adulto com o mundo
adulto, não pode ser tomada como cooptação social crescentemente administrado em que
ingênua pelo sistema através das crianças. É vive. Assim, vale a advertência de que a literatu-
necessário antes observar, a) que o papel das ra, qualquer que seja sua intencionalidade no
crianças só foi aceito nas famílias imigrantes por- Notas Bibliográficas momento da criação, consegue durar enquanto
que o aculturamento era uma necessidade de O que é educador hoje? Da arte à criança: a dialoga com o leitor propondo-se a transforma-
sobrevivência e b) que o repasse só pôde se dar morte do educador. In: Brandão Carlos (org.) O lo e a transformar-se sob a sua leitura como o
na medida que o imigrante, em situação margi- educativo, vida e morte. Rio, Graal, 1982. entende Wolfgang ISER (2).
nal, encontra-se sensível à assimilação. Perroti, Edmir. "A criança e a produção cultu- Sendo o poema uma forma literária em que a
Destas observações é forçoso reconhecer a ral" In: Zilbermann, Regina (org) A produção linguagem sobressai, valendo-se de recursos
passividade infantil como uma construção histo- cultural para crianças. Porto Alegre. Mercado
Aberto, 1982. p.10-27. compositivos voltados não para fins práticos,
ricamente determinada e que sua criatividade é Perroti, E., op. cit., p. 21. mas estéticos, produz-se, da mobilização alta-
discriminada menos pelas razões ditas naturais Fernandes, Florestan. Folclore e mudança so- mente organizada dos elementos lingüísticos no'
—incapacidade, imaturidade, irresponsabili- cial na cidade de São Paulo, 2.? ed. Petrópolis, texto, o que se costuma denominar de efeito
dade para participar — e mais pelo temor de Vozes, 1970. poético, ou seja, a relativa autonomia dos signos
uma intervenção estranha no sistema estabele- Ariès, Phillippe. História Social da Criança e quanto a seus referentes no mundo, provocando
cido. Basta ver o desacerto dos pais com as da Família. Rio, Zahar Editores, 1978. p. 65. are-visão desse mundo de uma perspectiva não
"saídas" dos filhos no seu círculo de relações Fernandes, Florestan, op. cit., p. 171. automatizada.
sociais. Idem, ibidem, p. 198. A Significação dos signos poéticos se constrói
não predominantemente pela designação dos
referentes por eles assinalados, mas no contexto
interno do poema, pela renovação semântica
que estabelecem com os signos vizinhos, Resul-
Po . sia o consciôncic ta do todo que assim se independiza do contexto
externo a criação de um novo universo de signi-
ficações, o qual, por sua vez — sendo da nature-

lingüística na infância za da linguagem as funções expressiva da subje-


tividade do emissor, representativa do mundo e
apelativa à atenção do receptor — entra em
relação indireta com o real, no sentido de que
Maria da Glória Bordini afeta o conjunto de representações que os ho-
Professora da UFRGS e CPL/PUCRS mens dele se fazem em diferentes momentos e
Escritora sociedades históricas.
Pesquisadora Diz Jan MUKAROVSKI (3), que "a denomina-
ção poética difere da denominação comunicati-
poesia infantil, assim como as demais for- ticas semelhantes ainda está em processo de va pelo fato de que sua relação com a realidade
A mas da literatura destinada às crianças,
inclui em si, como componentes estrutu-
rais específicos, a transitoriedade etária
formação e precisa de um bom esforço interpre-
tativo para descobrir a graça do poema.
À diferença da poesia — ou da literatura —
é enfraquecida em beneficio de sua inserção
semântica no contexto. As funções práticas da
língua, ou seja, a representação, a expressão e o
de seu receptor e suas limitações lingüístico- escrita sem essa orientação para um leitor espe- apelo, acham-se subordinadas, na poesia, à fun-
cognitivas. Isso significa que o poema infantil cial, os poemas infanto-juvenis tendem a neces- ção estética. Graças a ela, a atenção concentra-
pode perder a sua potência significativa à medi- sidades lúdico-sonoro-ideativas próprias de seu se no próprio signo /.../ O enfraquecimento da
da que o leitor avança no tempo, bem como estágio de desenvolvimento, o que explica por relação da denominação poética com a reali-
pode não conseguir falar a leitores em fases que o pré-adolescente despreza as rimas de dade imediatamente referida por todo signo
etárias para as quais não foi intencionado, . infância e as cantigas de roda e por que o jovem particular é contrabalançado pelo fato de que a
Veja-se um poema como este de OIÇA (1), em geral renega as formas poéticas que lhe obra poética mantém, enquanto denominação
que, com base numa breve anedota, utilizando chegam via escola e não por sua própria escolha global, uma relação com o universo inteiro, tal
algumas repetições de palavras e rimas para É evidente que a transitoriedade do leitor como este se reflete na experiência vital do
identificar-se como discurso poético, joga com imprime no texto marcas que o distinguem, em sujeito receptor e emissor".
um trocadilho simples, mas gracioso, a fim de decorrência das tentativas do autor-adulto de
No caso da poesia infantil, a atenção sobre o
obter efeito cômico: transpor o abismo etário e experiencial, adap-
signo corre o risco de esmaecer-se, tendo em
Era uma vez uma ovelha tando temas, técnicas compositivas e discurso
vista a assimetria entre autor-adulto e leitor-
que tinha um belo casaco, aos níveis de apreensão lingüística e intelectual
criança, que pode determinar uma compreen-
casaco dé pura lã. do leitor-criança que a obra tem em mira.
são inadequada do processo adaptativo. Nesse
Um dia lhe deu na telha Sem embargo, não são esses traços adaptati- caso, seja no plano estético ou no ideológico, a
- pois era uma ovelha esnobe - vos que conferem ao texto poético infantil o seu tendência adulta de ensinar os bons costumes e
comprar um casaco novo. caráter passageiro, relegando a poesia para certas noções básicas sob forma lingüísticamente •
Depois dizia pro povo, crianças ao plano de avaliação crítica deprecia- dita, ou a de facilitar a representação do mundo
arrebitando o nariz: tiva que ela freqüentemente ocupa em nosssa para um intelecto em formação, a partir da infan-
- O outro era muito pobre. sociedade. É sabido que a grande arte poética tilização do discurso e da redução do plano se-
_Este, eu trouxe de Baaaaaaaris! preserva e dialoga com formas rimadas infantis mântico e esquemas, ataca o efeito poético pela
Um tal texto parecerá infantil a uma criança de e que, na história de leitura do adulto, permane- raiz, desvalorizando a poesia infantil como possi-
dez anos, enquanto fará as delicias de uma de cem peças adquiridas na infância com plena bilidade de arte literária.
cinco, cujo.nívelde apreensão de formas lingüís- vigência significativa — por exemplo, as que A questão está no desequilíbrio entre a emis-

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são poetizante — que sempre deveria ser lin- melam, viram pasta, tando-o dentro do poema, seja como sujeito poé-
gilisticiamente exigente, no ponto de vista estru- que desgraça! tico, seja como voz ou como personagem, forne-
tural e a recepção possível dessa poetici- E eu de guarda cendo aos diversificados receptores reais um
dade, segundo as Condições psicobiológicas e com a caixa, suporte textual de identificação lingüístico-
sócio-culturais da criança. Diferentes soluções olho a esquina, ideológica, a ser aceito ou rejeitado, mas com o
para esse desacerto fundamental foram encon- e tu não passas, Manaria,. qual o leitor concreto pode conversar;
tradas em nossa história literária, cabendo re- e gentes me olham determina, de acordo com as normas estéti-
cordar os poemas de exaltação moral e cívica de refletido na água cas vigentes, o horizonte de expectativas do
Olavo Bilac que pecavam por excesso de de- quem o bobo? texto em termos de norma/desvio; criando certa
pendência e uma visão ideologizada do real, ou Palhaço com a caixa? distância entre o que a sociedade infantil espera
certos textos de Cecília Meireles, em que a e eu não ligo do poema como objeto lingüístico e o que ele lhe
vocação pedagógica representa a criança como e vejo se tu passas, Mariana, dá, o que pode ser menos, o mesmo ou mais do
um ser desajustado e carente de correção cari- mas, nada, ela não passa, que o esperado e, assim, estabelece o grau de
nhosa. Se tais manifestações literárias não atin- só de pirraça. maior ou menor poeticidade.
gem a autonomia desejável, diminuindo-se as- Neste texto, ressalta o torneio cotidiano do fra- A competência lingüística da criança, em vir-
sim sua força crítica garantida pela relação indi- seado dos versos livres, bem à maneira do léxi- tude de tais estratégias textuais, não constitui
reta com a cultura social, nem por isso abando- co de um garoto comum, cabendo ao ritmo ner- impedimento insuperável à fruição do poema
nam o trabalho sobre o signo — que consagrou voso, irregular, a criação da atmosfera tensa do genuíno, pois o escritor pode adequar seu texto
essa poesia junto à crítica e ao grande público namorado recente. O autor, porém, não utiliza a ela por esses vários caminhos, isolados ou
da época, graças a maestria de sua execução gírias etárias e prefere assegurar a identificação combinados. Observe-se como se opera a adap-
lingüística (mesmo porque corroborava a reto- do leitor com o tema pela aliteração contrastiva tação no poema de Elias José (6).
ricidade das normas ideológicas introjetadas dos pp e ss, qq e nn, numa onomatopéia do
pelas massas): Cigarra Moderna
movimento dos passantes e do alvoroço Ci-ci-ci-ci-ci-ci
O problema ocorre quando, à manipulação ou envergonhado do herói. Evoca-se, por esse é a cigarra,
pobreza no plano das significações, une-se a meio, a nostálgica Procissão de pelúcia, que cantora de garra,
deficiência no agenciamento das instâncias lin- também se situa numa praça e fala em perdas, a melhor que já ouvi.
güísticas, acabando o autor por renunciar à es- mas não explicitamente, e a partir de uma me- Ci-ci-ci-ci-ci-ci
pecificidade de seu fazer poético, o que degra- mória adulta e não de criança, com forte efeito é a cigarra,
da a grande maioria das produções poéticas aliterativo e de nonsense. Estabelece-se, assim, cantora mais bacana
para a infância ainda hoje e com freqüência uma relação de absurdo, que transita do poema que qualquer baiana
redunda em livros com poemas desiguais, em de Cecilia para a situação do namorado de Ma- das estrelas daqui.
que poucos se salvam, no conjunto. riana, reforçando seu sentido de incompreensi- Ci-ci-ci-ci-ci-ci .
O importante, desse ângulo essencialmente bilidade dos desencontros amorosos. Todo esse voz que não desafina,
literário, é que a poesia infantil supere o desen- complexo de significações aflora em versos apa- é a cantora mais fina
contro autor/leitor pelo trabalho compositivo es- rentemente singelos, bem acessíveis à compe- de todas daqui.
merado e consciente de que há diferenças efeti- tência lingüística de um leitor da mesma faixa Cheia de brilho
vas entre o poético para adultos e para crianças, etária do herói. e vidrilho
diferenças que requerem uma tomada de posi- A competência lingüística tem início desde é. o mais alto astral,
ção ao lado da criança, sem a falsa pretensão de que a criança adquire domínio sobre certos fo- a estrela que todo mundo vê,
igualdade, mas também sem o peso da superio- nemas e, combinando-os, se faz entender, mes- maior pique da tevê.
ridade adulta. mo que não conheça o léxico de sua comuni- Mas já houve um tempo
Ignorar ou superdunensionar esses fatores di- dade. Mais tarde, dependendo de sua posição que era um inferno
ferenciais significa não alcançar o efeito poético. em grupos e classes sociais determinadas, ela passar no relento
Diante da diferença, diz Regina Zilberman (4), incorpora vocábulos e padrões sintáticos cor- todo o inverno.
".caso o escritor obtenha uma solução estetica- rentes em seu ambiente, os quais podem (ou Hoje, pra desfazer a lenda
mente convincente para esse dilema, ele não) entrar em conflito com a chamada norma . e acabar com intrigas,
conquista enfim o estatuto artístico, o reco- culta, o código lingüístico imposto pelas elites dá parte de sua renda
nhecimento e o prestígio que até então têm sido dominantes, que o jovem precisa aprender para prosindicato das formigas
sonegados à produção literária para crianças". não se inferiorizar socialmente. • O elemento onomatopaico em refrão, as rimas
A principal dificuldade da poesia infantil é A poesia, relacionando-se com essa compe- misturadas, bem como os versos e estrofes não
descobrir o ponto de equilíbrio entre os modos tência, que talvez não seja inata, mas que certa- regulares, atendem ao mesmo tempo a expecta-,
comPositivos de obter o centramento da aten- mente se modifica na passagem do status infantil tivas já criadas pela poesia folclórica — repeti-
ção sobre o signo, sem romper com a relação para o adulto, precisa haver-se com três obstá- ção fônica e cadências marcadas — mas rom-
indireta do todo poético com o horizonte de culos lingüístico-ideológicos: pem com a fixidez rítmica, sugerindo uma vida
representações de seu receptor criança O poe- 1) por tradição, o emissor adulto trabalha com a de cigarra dinâmica, que o aproveitamento de
ma entra em diálogo com esse horizonte só norma culta (mesmo o que chamamos poesia chavões populares e provenientes dos mídia
quando opera pelo desvio, isto é, quando leva folclórica é registrado e depois lido em termos acentuam. A modernização da fábula da cigar-
em conta o status de aquisição das normas lin- de norma culta); ra, no plano serriântico, assim sublinhada nos
güLsticas do receptor (ou não há comunicação) o poema não pode dar conta da multiplici- outros planos do verso, da rima, do léxico, etc.,
mas subverte tais normas, abrindo-lhes pers- dade concreta de competências psico-socio- inclui unia voz que„fala em defesa do inseto
pectivas novas de comunicação com o mundo lingüísticas de seus receptores-crianças; usualmente desprezado, não 'em termos com-
humano. o texto deve se efetivar pela tensão entre as passivos, como certas adaptações didáticas,
Leia-se o poema de Sérgio Caparelli (5) que normas acatadas e as que propõe, se não quiser mas de relações de trabalho históricas e modifi-
tematiza um desengano amoroso adolescente, perder ou em cómunicabilidade ou em poetiCi- cáveis.
intertextualizando a Procissão de pelúcia; de dade. Tudo isso, porém, não contraria o potencial
Cecília Meireles no plano sonoro: É visível a incompatibilidade entre esses três lingüístico de uma criança medianamente infor-
fatores, que o poeta para crianças procura resol- mada e exemplifica as modalidades de adapta-
EU E OS BOMBONS
ver por conciliação, sem garantias de sucesso. ção antes referidas: a exploração da oralidade, ti
Mariana passa sempre pela praça Assim, ele:
só hoje é que não passa receptor mirim representado como alguém que
aproxima-se do desempenho oral da criança acompanha as estrelas dos mídia e pode verifi-
e eu, aflito, com essa caixa de bombons!
ou das camadas populares, traduzindo-o por sua car as semelhanças da cigarra com elas, e a
Oh, Mariana, aparece, vê se passa, arte em termos cultos, o que gera a transforma-
dê o ar de sua graça inversão inesperada de uma fábula conhecida,
ção subrreptícia da norma dominante; contrariando expectativas e produzindo o riso.
pois já se derretem os bombons idealiza um receptor mirim Médio, represen- Outro membro da equação competência lin-

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güística-adaptação é a qualidade fluente da combinação dos signos, o que obriga o receptor mática para a proficiência linguística de um pe-
competência lingüística infantil, que não é es- a deter-se na linguagem, a apalpá-la e degusta- queno consumidor encaminhaçlo para vencer no
tanque e, portanto, pode ser alterada também la, tanto mais quanto sua capacidade de obser- mundo e não para simplesmente conviver
pelo poema, se este a desafiar, forçando-a a vação e análise se apurarem sob o impulso dos com ele,
acomodar-se a ele. A resistência infantil ou juve- enigmas verbais postos pelo texto a sua inter- É discutível, aliás, que a pura exposição ao
nil ante a poesia não assinala nada mais do que a pretação. poema incremente a consciência lingüística na
defesa ante a mudança das normas já adquiri- Veja-se este texto de Cecília Meireles (9), em infância. Essa consciência, diz-nos a sociolin-
das, algo tanto mais perturbador à medida que o que a tessitura sonora reforça o sentido dos vocá- güística, se forma no convívio social, antes de
ser humano se desenvolve. bulos e imagens repetidas e invertidas, numa tudo, nos enfrentamentos com o outro, que obri-
Um texto experimental como o de CARROLL brincadeira de intercâmbio fônico que apresen- gam o falante a refinar seus meios expressivos
(7) aparentemente incompreensível, quando ta uma visão do luar e do aro de Raul totalmente para dar conta das tensões da vida em socie-
analisado por critérios bastante arbitrários, imbricados, num momento de encantamento lí- dade. A função da poesia, bem como da arte
adquire um sentido aceitável por uma criança e rico, desinteressado de tudo e valendo por si literária em geral, não é aperfeiçoar o domínio
aponta tanto mais para a estrutura da linguagem mesmo, que dificilmente ocorreria na percep- da linguagem, mas, através da linguagem, per-
poética quanto mais se recusa à compreensão ção da criança de seus próprios jogos. mitir ao sujeito um distanciamento crítico da rea-
imediatista: A lua é do Raul lidade que ela lhe apresenta à consciência.
Raio de lua Roda o luar No poema de Henriqueta Lisboa (11), esse
Jaguadarte
Era briluz. As lesmolisas touvas Luar. na rua questionamento do horizonte existencial do lei-
Roldavam e relviam nos gramilvos Luar do ar toda tor se faz a partir de um diálogo ficcional, que
Estavam mimsicais as pintalouvas azul. azul. opõe duas forças em disputa, a prudência adulta
E os momirratos davam grilvos Roda da lua. Roda o aro da lua. e a vitalidade infantil, dando ganho de causa à
(Tradução de Augusto de Campos) Aro da roda Raul, última, através de ritmos exclamativos e exorta-
na tua a lua é tua, tivos regulares e entonação ascendente:
Para que Alice possa compreender o poema, a lua da tua rua! Tempestade
rua,
Humpty-Dumpty precisa explicar apenas o léxi- A lua do aro azul. — Menino, vem para centro,
Raul!
co. "Briluz" é o "brilho da luz às quatro horas da olha a chuva lá na serra,
tarde, quando se passa a cena descrita nos ver- Manifestando ao pequeno leitor as possibili-
dades de combinação de significantes e signifi- olha 'como vem o vento!
sos". "Lesmolisas" significa "lisas como lesmas". — Ah! como a chuva é bonita
"Touvas" são bichos que "têm algo de toupeiras, cados da língua que lhe. é familiar, cria-se uma
descrição totalmente .inusitada de objetos co- e como o vento é valente!
algo de lagartos e algo de saca-rolhas, e têm — Não sejas doido, menino,
pêlos espetados como escovas". "Roldavarn" é muns de sua realidade, com o emprego de ma-
téria lingüística também muito conhecida. Além esse vento te carrega, •
"rodavam em roldão" ou "como uma roldana" e essa chuva te derrete!
"relviam" não é senão "se revolviam na relva" disso, há a captura do leitor não só na rede de
sonoridades, mas colocando, em meio a uma — Eu não sou feito de açúcar
"Gramilvos" são "tufos de grama plantados em . para derreter na chuva.
torno dos relógios de sol, onde se ouvem os cena idílica, um garoto a quem o sujeito lírico
chama a atenção para o que está acontecendo Eu tenho forças nas pernas
silvos das serpentes", acrescenta Alice entusias- para lutar contra o vento!
mada, ao que continua Humpty-Dumpty: "Mimsi- por um recurso atrativo tal como a simbiose
lua-roda, no plano das imagens, e da entonação E enquanto o vento soprava
cais" são "mimosas e musicais", "pintalouvas" são e enquanto a chuva caía,
"aves canoras meio pintassilgos e meio louva-a- vocativa e exclamativa, no plano fraseológico.
Isso sem mencionar que Raul, o personagem que nem um pinto molhado,
deus", "momirratos" são "ratos careteiros ou car- teimoso como ele só:
.navalescos" e "grilvos" são "misturas de gritos suporte da identificação do leitor, é um palindro-
mo de luar, o que fecha todas as saídas à distra- — Gosto de chuva com vento!
com silvos bem agudos, com algo no meio pare- gosto vento com chuva!
cido com o chilro dos grilos". Do quadro fantásti- ção no que tange ao discurso.
Convém lembrar, entretanto, que a poesia • Sem dúvida, um poema como esse desafia a
co decorrente de tais representações, ressalta própria aceitação da criança leitora das razões
sua natureza integralmente fundada no discurso, não é escola, não quer ensinar a linguagem e
não suporta ser tratada como objeto de estudo dos adultos. Obriga-se a repensar seus esque-
qual, por sua vez, tem suas estratégicas de mas de valores, sem que a interpretação escolar
significação postas à luz sem piedade, dispen- gramatical. EJesualdo (10) que historia a relação
poesia-escola como um recurso ancilar depre- possa influir muito sobre as conclusões. A valori-
sando tratados de lingüística ou semiótica, mas zação da teimosia é obtida não só pelo desfecho
respeitando o repertório cognitivo do receptor. ciado: "... a poesia em geral — e mais raramente
a poesia lírica — não penetrou na escola a não temático, mas pela regularidade da versificação
E por esses recursos de superação da assime- em redondilha maior, das curvas melódicas,
tria que a poesia infantil pode tornar-se, a partir ser às costas do canto, ou do tímido recitativo,
gênero no qual, com freqüência, chegou ao exa- contrariada pelo tom crescentemente afirmativo
da fruição estética, uma das muitas fontes de da voz infantil representada no texto.
conscientização do leitor-criança quanto à lin- gero. Não foi, porém, somente nesses dois servi-
ços que ela esteve presente. Além de sua estrita Essa é a verdadeira possibilidade de coexis-
guagem em si e quanto às correlações entre ela tência entre poesia e escola: a de que o poema
e a vida. A atenção concentrada sobre o signo, função moralista, na exaltação do patriotismo /.../
prestou-se também à simples função de propor- possa dizer-se, para que o aluno também o pos-
decorrente da estrutura específica do texto poé- sa. Num regime escolar em que só interessa a
tico, que paraleliza vários níveis lingüísticos do cionar leitura'.
informação assimilada, isso não ocorre Ligia Ca-
discurso pelo princípio da equivalência, como A tendência utilitarista da escola, que não demartori Magalhães (12), revisando critica-
quer Roman Jákobson (8) é o caminho para reflete senão os interesses do regime social que mente o papel da escoá em relação à poesia,
despertar a percepção das possibilidades da a sustenta e transforma a experiência do poético chega à constatação de que se, não se deseja
linguagem na criança. em mero exercício de habilidades de leitura, sufocar a poeticidade
O jogo de sonoridades iterativas, melódicas, desveste o poema de suas potencialidades es- dos textos, deve-se permitir que a criança brin- 1:0
polifonicas, determinado pelos ritmos imprimi- pecíficas como forma estética de conhecimento. que com a língua, o que o poema proporciona
dos aos fonemas da língua, associados ou entre- Com efeito, na poesia, o aprendizado possível se em maior grau do que qualquer outro discurso.
meados de pausas e curvas de entonação, real- produz pela própria estrutura do poema, que Diz ela que se trata "tão-somente de pretender
ça o lado dos significantes, enquanto o emprego seduz e estimula o leitor fisicamente pelos rit- que a criança tenha com a língua uma experiên-
figurado ou não do léxico, a posição das palavras mos e efeitos acústicos e intelectual e afetiva- cia que lhe permita tomar consciência de que
no verso e na estrofe, sua repeticão ou coinci- mente pelas representações ou vivências da esta lhe oferece muitas possibilidades, não ape-
dências fono-morfo-sintátiras, retrabalha o la- consciência que suscita. É evidente que a nas a relação passiva entre língua e falante, mas
do dos significados. Corno significantes e signifi- conscientização da linguagem, portanto, origi- a possibilidade de uma experiência lúdica com
cados se unem nos signos por acordo arbitrário na-se do contato leitor criança — poema infantil fenômeno lingüístico. Esta posição abala a es-
de uma comunidade, o trabalho artístico não em situação estética e não prática, como é a da cola em suas bases, porque exige que o aluno
pode alterar demais esse consenso, mas pode escola, que pode transformar o poema em mer- seja aceito como sujeito, que tenha direito à
intervir. criativamente nos eixos de seleção e cadoria a ser conquistada pela moeda da gra- palavra, que seja um indivíduo pleno e não ape-

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nas um intelecto. O lugar e a função da poesia na No âmbito escolar, todavia, é provável que um Ele está pronto
escola seriam, portanto, através de um poder poema assim não fosse selecionado e discutido e no ponto agorinha, quando
sobre a língua, conduzir a criança ao poder de. ou que, se viesse a ser introduzido numa escola /você estiver,
dizer e de se dizer." progressista, por ekemplo, fosse analisado em Não precisa de faca nem garfo ou colher
Esse comportamento em relação ao poema, cotejo com visitas a favelas ou pesquisas jornalís- ou prato, guardanapo ou toalha de mesa.
entretanto, não é o mais freqüente, como se ticas ou de pessoas-fonte, as quais, pela proximi- Pois não tem coração
pode notar na seleção que os livros didáticos dade como real concreto, acabariam por obscu- nem talo
oferecem da poesia brasileira ou nos exercícios recer sua força lírica em favor de uma informa- ou casca
que seguem os textos. Pseudopoetas ombreiam- ção sociológica apenas para o intelecto e não ou caroço
se a poetas genuínos, textos sobre a natureza, as para o aluno integral. ou semente
datas cívicas e o bom menino concorrem com os A seleção e o trabalho com poesia junto à ou pelezinha
de Dnunmond, Vinicius, Cecília e outros. Com criança não podem ignorar, portanto, a função pra jogar fora,
eles deve-se fazer pesquisa de vocabulário, ver- do poema infantil de mobilizar integralmente a It doesn't always have to rhyme •
sificação ou tropos, respondendo perguntas do criança leitora, graças à presentikação dos sig-
tipo o-que-o poeta-quis-cliwr com o verso X ou a nos lingüísticos em termos lúdicos, indepen-
dente dos temas que aborda. Pela ficcionali-
Notas aibliográficas
estrofe Y Descontando-se a intenção de veicular
, poesia de lavra própria ou de extração pedagó- dade produzida pela "atenção concentrada nos CIÇA. Bichos, bicho! II. de Ziraldo. São Paulo,
gica, o que ainda só acontece nos livros de co- signos", o poema opera um distanciamento críti- FTD, 1985. (Col. Primeiras Histórias). pg. 7
municação e expressão, pode-se até admitir que co no seu receptor em relação ao mundo das ISER, Wolfgang. Problemas da teoria da litera-
representações em que ele está imerso e que tura atual. In: LIMA, Luiz Costa, org. Teoria da
o professor-autor esteja preocupado em infor- literatura em suas fontes. 2.ed. Rio de Janeiro,
mar sobre a linguagem poética e a fornecer precisa discriminar. Faz isso, todavia, não re- Francisco Alves, 1983. v.2. pg. 381.
instrumentos básicos para a análise textual, co- nunciando ao prazer do imaginário, à explora- TOLEDO, Dionisio, org. Círculo lingüístico de
mo ao pedir que o aluno encontre três metáforas ção estética de possibilidades fora do alcance Praga; estruturalismo e semiologia. Porto
no poema Z. Entretanto, esse tratamento de for- da experiência efetiva, porque a linguagem as- Alegre, Globo, 1978. pg. 165.
ma só serve para transformar a leitura da poesia sim lhe faculta, apropriando-se do mundo e ZILBERMAN, Regina £ MAGALHAES, Ligia
'em charada sem atrativos e acentua a tendência deixando-o numa reserva de sinais que podem Cademartori. Literatura infantil: autoritarismo e
à sacralização do poema como algo misterioso, reconstrui-lo e remodelá-lo para a consciência. emancipação. São Paulo, Ática, 1982. pg. 84.
cifrado por recursos de linguagem que só per- Ao jovem leitor, cumpre antes de tudo o direito a CAPARELLI, Sérgio. Restos de arco-íris. Por-
tencem aos eleitos e que veicula uma transcen- essa experiência na sua especificidade, não to Alegre, L£PM, 1985. (Col. Jovem L£PM). pg. 51
dência oculta ao comum dos mortais. substituída por outras atividades não lingüísticas JOSÉ, Elias. Lua no brejo. 11. de Marco Cena.
Poesia, porém, não é sinônimo de epifania que pertencem a áreas diversas da arte e da Porto Alegre, Mercado Aberto, 1987. (Série O
cultura humana. • Menino Poeta). pg. 28.
mística da Verdade, nem é mero jogo sibarita
Por isso, a leitura do poema, seja espontânea, CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice; no pais
com sons e imagens, para o lazer do intelecto e das maravilhas; através do espelho e o que Alice
das emoções. Poesia, mesmo destinada a crian- seja escolar, não pode sufocar a dimensão lúdica encontrou lá. Trad. de Sebastião Uchoa Leite.
ças, é arte que mostra o homem ao homem, em inerente ao poético, a gratuidade prazerosa com Rio de Janeiro, Fontana/Summus, 1977. pág. 197
todas as suas possibilidades. É esse poder da que, parafraseando Heidegger, o Ser passeia na JAKOBSON, Roman. Lingüística e comunica-
palavra poética que a escola por vezes esquece, sua morada, a linguagem, pastoreado pelo Poe- ção. São Paulo, Cultrix, s. d. pg. 130
temerosa de ver contestadas as suas bases no ta. Poesia, para uma criança, deve ser brinca- MEIRELES, Cecília. Ou isso ou aquilo. In:
Establishment. deira que traz admiração e gozo, não a sensação' Obra poética. Rio de Janeiro, Aguilar, 1972. pg.
Pense-sé no que significaria á leitura na esco- de intangibilidade e distância inacessível, Eve 729-30.
la de um poema como o de Maria Dinorah (13), Merriam (In Larrick, 1975:105), transforma essa JESUALDO. A literatura infantil. São Paulo,
que, numa linha inédita de denúncia social em idéia num poema que deveria ficar exposto em Cultrix, EDUSP, 1978. pg. 178.
poesia irífantil, de repente propõe um devaneio livrarias e salas de aula e que encerra esta LISBOA, Henriqueta. O menino poeta. Il. de
liricamente metafórico para solucionar, no plano conversa: Leonardo Menna Barreto Gomes. Porto Alegre,
temático, uma situação de desvalia, identificável Mercado Aberto, 1984. (Série O Menino Poeta).
Como se come um poema pg. 14.
pelo leitor-criança como fielmente retratada a Não seja polido. ZILBERMAN, Regina e Magalhães, Ligia Ca-
partir de condições sociais conhecidas. Quan- Morda. demartori. op. cit., pg. 40. .
do esse leitor embarca no sonho do herói que Pegue com os dedos DINORAH, Maria. Panela no fogo, barriga
fala no texto, eis que dão-lhe um murro na cara e lamba o suco que vai vazia. Il. de Leonardo Menna Barreto Gomes.
com o verso final, remetendo-o de volta ao inver- /lambuzar o seu queixo. Porto Alegre, L£PM, 1986. pg. 15.
no social que ele, leitor, não pode equacionar
com suas forças infantis:
Canção do menino Apenas tive medo.
Pra falar a verdade, Mas hoje há tanto frio,
nunca tive um pijama tanta umidade,
Pra quê, que invento um cobertor
Partilho conflito c
se nunca tive cama? de sol poente,
Verdade verdadeira, e um pijama de sonho
nunca tive um em cama quente.
intororotc çõ s cm citurc
brinquedo É bom brincar de gente
Um texto como este, que condensa sua denún- Um caminho °aro o c esenvolvimento
cia também nos padrões rítmicos, ora secos, ora
dolentes, na dureza aliterativa dos tt e qq, vv, e
gg, em contrastes com o lamento onipresente
cc linguacenn c o leitor infantil (*)
dos nn e mm, projeta um mundo de significações Ezequiel Theodoro da Silva
com o qual o leitor-criança pode ou não identifi-
car-se afetivamente, mas ante o qual não pode Fac. de Educação- UN1CAMP - PG em Biblioteconomia - PUCCAMP - Assoc. de Leitura do Brasil/ALS
alegar incompreensão ou indiferença, porque a
convenção lingüística adotada é a do realismo, través desta conferência, eu gostaria de tual, linguístico e afetivo das crianças brasileiras
que se quer transparente, de modo a levar o
entendimento direto às coisas, se bem que sub-
terraneamente o discurso se torne melódico pa-
A refletir e debater com vocês uma ques-
tão que tem me preocupado muito
nestes últimos tempos, qual seja as ca-
em sua relação direta com as práticas de leitura
no âmbito da escola. A gênese desta minha
preocupação está amarrada ao fenômeno que
ra conquistar a adesão a si pelo sentimento. racterísticas do desenvolvimento social, intelec- muitos estudiosos chamam de "esquecimento,

11
ofuscamento ou mesmo apagamento do sujeito separa as teorizações sobre as crianças brasilei- to, ou seja, uma aversão das crianças por qual-
que lê" (neste caso, da criança que lê) — fenô- ras da realidade concretamente vivida por essas quer tipo de material impresso.
meno este que é muito próprio daquelas socie- crianças. Mais do que isso, me ,espanto, muitas Visto sob o ângulo da psicologia dialética, o
dades fechadas e autoritárias, onde os indiví- vezes, com a total ausência de teorizações que conceito de desenvolvimento implica, sempre,
duos são massageados pela ideologia, são mani- sirvam para sustentar, crítica — e coerente- em mudanças qualitativas do pensamento e da
pulados pelas regras do consumo e da massifi- mente, as práticas pedagógicas na área da lite- ação do ser humano durante a sua trajetória de
cação. Num país com uma taxa altíssima de ratura infantil e da educação em geral. Quando vida em sociedade ou, como querem alguns, no
crianças órfãs, abandonadas e analfabetas, e não são inocentemente conduzidos pelas teorias devir de sua existência dentro de uma socie-
onde existe até comércio e exportação de associacionistas da instalação de hábitos, muitos dade historicamente situada. Essas mudanças
bebês, não há como fugir de uma reflexão pro- • professores ainda abordam o desenvolvimento ocorrem por saltos ou transições, o que nos per-
funda sobre o estatuto da infância e sobre o infantil com base em categorias rígidas e não são mite (1°) detectar e visualizar a criação, pelo
destino das novas gerações brasileiras. "A crian- poucos os que tomam a criança como um "adulto sujeito, de funções ou capacidades instrumen-
ça brasileira? Coitada H", diria o observador em miniatura", desprezando o fato de que "a tais, cognitivas e afetivas, aqui entendidas como
mais crítico e perspicaz. criança real, que vive sua vida de criança (...) meios utilizados no enfrentamento das circuns-
Somente agora o sujeito-criança parece ga- não é uma miniatura, uma larva, nem um anor- tâncias e das exigências sociais, e (2°) isolar
nhar um espaço maior de análise e discussão, mal, simples e radicalmente a criança é dife- determinadas etapas de construção, organiza-
' transformando-se, por isso mesmo, em objeto de rente do adulto. Ela vive colocada no mesmo ção e consolidação dessas capacidades, comu-
preocupação e de pesquisa em vários pontos do meio que o adulto, se vale das mesmas capaci- mente chamadas de "estágios de desenvolvi-
país. Ainda assim e considerando a grande dades instrumentais (como a linguagem, por mento." Psicólogos como PENDE, FREUD,
quantidade e variedade de crianças deste país, exemplo), mas com alcances qualitativo e quan- KOHLBERG, ERIK ERIKSON, GIBSON e PIA-
dentro ou fora das escolas, são poucos — muito titativo diferentes. A criança não requer um GET, a partir de determinados pressupostos,
poucos — os estudos que tratam, por exemplo, mundo especial, nem um tratamento basica- focos ,de observação e pontos de vista,
de questões relacionadas com a estética da re- mente diferente; ela só exige, como nós adultos, chegaram a delinear, cada um deles, hierar-
cepção, com a compreensão e fruição de textos respeito por sua personalidade, isto é, o direito quias evolutivas desses estágios, muitas das
diversos, com o consumo de informações passa- de interpretar e modificar o mundo de acordo quais transmitidas aos professores em cursos de
das por diferentes veículos de comunicação, como grau de integração e desenvolvimento de psicologia dá educação e do desenvolvimento.
com a experiência literária construída pelas - seus níveis neurofuncionais e de suas funções Não querendo cansá-los agora com a recupera-
crianças ao longo de sua trajetória acadêmica, psíquicas." (1) Dessa forma, é um absurdo que- ção e descrição dessas hierarquias (nem tería-
etc... Por outro lado, os poucos estudos exis- rer edificar para a criança um mundo de fadas, mos tempo para isso no espaço desta conferên-
tentes nessas áreas encontram-se dispersos — retirado e distante da totalidade da vida social, cia), gostaria de deixar clara a idéia de que "D
como que "perdidos e empoeirados" nas prate- ou então querer "adultizar" a conduta e o pensa- desenvolvimento procede numa série de fases
leiras das bibliotecas universitárias —, carecen- mento dessa criança, não levando em conside- com períodos alternados de crescimento rápi-
do de síntese, sistematização e divulgação — ração a peculiaridade dos seus interesses, das do, acompanhados por um desequilíbrio segui-
trabalhos estes que poderiam, sem dúvida, for- suas capacidades e dos seus problemas bem do por períodos de calma relativa ou consolida-
necer conhecimentos- mais objetivos sobre as como os condicionamentos históricos, temporais ção." (2)
crianças brasileiras em suas interações ou possi- e espaciais a que está submetida. Jean Jacques É importante ressaltar que a passagem de
bilidades de interação com a literatura e com Rousseau não considerou muito bem esses ele- uma etapa desenvolvimental para outra de-
outros tipos de materiais escritos. mentos e deve estar, até hoje, procurando um pende da estrutura sócio-cultural onde a criança
mundo que corresponda à alma pura e não- está inserida. Mais especificamente, o floresci-
Num congresso como este, que busca, muito corrompida do seu Emílio. A vertente de traba-
oportunamente, tematizar a relação entre litera- mento, organização e consolidação de novas ca-
lho idealista e romântico ainda está muito pre- pacidades (biológicas, cognitivas, lingiMsticas
tura infantil e desenvolvimento da linguagem, sente no tratamento com crianças e temos um
temos de trazer à baila e tecer na reflexão al- e afetivas) dependem da densidade dos estímu-
certo cuidado com ela... los sócios-culturais encontrados pela criança no
guns aspectos essenciais sobre o desenvolvi-
mento total da criança, tentando relacioná-los Estou insistindo para que compreendamos o meio onde vive; esses estíniulos, tomados emn
com a leitura da literatura e com a conseqüente ser criança, o sujeito-criança de modo que a suas dimensões quantitativa e qualitativa impõem
inserção dessa criança no mundo da escrita, em literatura infantil, enquanto uma possibilidade desafios e demandas ao nível da ação sobre e da
termos de vivência de situações e de convivên- de prazer estético e de conhecimento, não fique relação com objetos e entes específicos. Com
cia com livros. Nesse sentido, vou aproveitar ao perdida no espaço e nem venha a parecer um • esta colocação fica mais fácil entendermos que
máximo a oportunidade que me deram para corpo estranho àqueles para quem se destina. os estágios de desenvolvimento são etapas da
falar mais detidamente sobre alguns princípios' Esta minha insistência, creio eu, tem a sua razão vida do ser humano repletas de experienciação
e aspectos oriundos da psicologia do desenvol- de ser mesmo porque não quero tomar a criança e construção, de novas descobertas e de práti-
vimento infantil, na tentativa de; com vocês, como um pressuposto pré-fixado e nem cas inovadoras, permitindo o enfrentamento e a
compreender melhor essa capacidade que as quero que ela fique simplesmente sub- transformação das circunstâncias presentes no
crianças possuem para ler o mundo e os símbo- entendida. Quero, isto sim, induzir a nossa dis- meio sócio-cultural. Daí que quando uma crian-
los que o expressam. Convém lembrar que cussão para um entendimento crítico da criança ça desenvolve e domina uma nova capacidade,
esses princípios e aspectos geralmente passam e das circunstâncias que a envolvem em nossa ela se satisfaz e repete ou pratica essa nova
por alto em congressos e seminários ou simples- sociedade de modo que o poder instrumental da capacidade inúmeras vezes com o intuito de
mente nunca são devidamente tematizados, leitura e o amor pela literatura, comumente (mas consolidar e estender esse domínio e aumentar
privilegiando-se as indagações acerca dos ob- não necessariamente) adquiridos e desenvolvi- mais ainda o seu grau de satisfação, preparan-
jetos artístico-literários em detrimento da aná- dos no período da infância, possam ser devida- do-se para novos desafios. Acredito que todos os
lise da criança que lê ou que tem potencial para mente consolidados em termos de vida e de pais aqui presentes já viram as suas crianças
ler, como se a literatura infantil pudesse existir mudança social. Em nome do ensino da leitura e exibirem incessantemente os seus desenhos,
fora da experiência social, fora dos circuitos em nome da importância da literatura se come- depois de adquirir a capacidade de representa-
concretos de leitura, que lhe dão vida e signifi- tem crimes pedagógicos terríveis nas escolas ção do mundo através de traços, figuras e cores.
cado. De nada. adianta ao professor ser um deste pais e a principal razão desses crimes Mesma coisa com aquela criança que, depois de
grande conhecedor das produções literárias in- parece recair na faltá de sensibilidade dos pro- dominar a habilidade de ler, vai lendo em voz
fantis e acompanhar os últimos lançamentos, se fessores para com esse importantíssimo estágio alta todos os símbolos escritos que lhe apare-
ele não tiver sensibilidade e compreender, pelo do desenvolvimento humano chamado "infância" cem à frente, quando em um passeio ou uma
estudo da teoria e pela vivência da prática, os — estudos recentes sobre a relação entre leitura viagem, por exemplo.
processos subjacentes ao desenvolvimento bio- e educação escolarizada mostram como grande Vemos, então, que a criança constrói a sua
lógico, psicológico e social das crianças. parcela das nossas escolas públicas, ao invés de experiência ao longo do seu processo de desen-
Faço mais um parênteses para confessar, desenvolver e consolidar o gosto pela leitura nos volvimento em função da densidade de estímu-
desde já, o meu espanto frente .ao abismo que alunos de 1? grau, consegue exatamente o opos- los e das incitações do seu meio sócio-cultural.

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Sem esses estímulos e SM essas incitações, co- suas indagações, inquietações e interesses. Os tos extraídos de uma ou mais histórias. Desse
locadas nos picos de cada uma das transições do professores, neste caso, fazem a mediação entre forma, as incursões da criança no imaginário
desenvolvimento infanil, as novas capacidades os leitores e os livros, observando, facilitando, proposto pelos livros de ficção não se consti-
ou funções, próprias de cada estágio evolutivo, partilhando, dirigindo e, o mais importante, tuem apenas em instrumentos de revelação do
permanecem como latentes, ou seja, não aflo- aprendendo com esse processo dinâmico. Qual- real, mas devem ser entendidas, também, como
ram e nem se consolidam, pois que não permi- quer descuido dos docentes pelo caminho que condições para a construção e transformação dc
tem a sua expressão nas ações, nos co- os leitores tentam construir em sua trajetória de real. •
nhecimentos e nas experiências da criança. crescimento será extremamente prejudicial, Em recente visita que fizemos a um "shopping
Com base nessa dinâmica geral do desenvolvi- gerando sérias lacunas em sua formação. center" de Campinas, minha filha Marília, de seis
mento humano e sabendo que ela se constitui a A insistência da escola brasileira na oferta im- anos, deu um forte puxão no meu braço e me
partir da dialética indivíduo-meio sócio-cultural, positiva de literatura com conteúdo didático e disse baixinho" olha ali, pai, um homem com
convém recuperarmos e discutirinos agora al- moralizador ou, ainda, na atribuição unidirecional aids!" Como havia muita gente passando, eu o-
guns princípios e aspectos mais diretamente re- e redundante de sempre-os-mesmos-livros-e-os- lhei e não vi nada. Meio espantado e surpreso,
lacionados com a capacitação da criança para a mesmos-autores, desconsiderando a cami- perguntando a mim mesmo se seria possível
prática da leitura, em especial para a fruição do nhada e os interesses das crianças, coloca-se identificar um sujeito com aids passeando num
texto literário. como um contra-senso e como um fator que leva, "shopping center", eu rapidamente me abaixei e
Na área do desenvolvimento perceptivo,creio sem dúvida, à morte paulatina do potencial de perguntei a ela: "Onde, onde? Me mostra!" E ela,
ser importante discorrer um pouco sobre o prin- leitura das crianças. Por outro lado, pensando dentro dos limites do seu mundo interpretativo,
cipio da discrepância, sistematizado por JE- nesse contínuo crescendo de experiências atra- me apontou um rapaz que apresentava um cura-
ROME KAGAN e que encontra plena sustenta- vés de livros desafiadores, sem o qu não há tivo com gaze e esparadrapo em cima do seu
ção nas pesquisas e observações feitas por coerência programática, devemos enfatizar a • olho esquerdo... Acho que vocês podem imagi-
JEAN PIAGET. Em termos bem gerais, o princí- real necessidade de integração dos professores nar a barra que foi explicar pra ela que aquele
pio da discrepância estabelece que a criança das diferentes séries e dos diferentes graus es- curativo não indicava, necessariamente, um por-
olhará, ouvirá, tocará ou brincará com objetos colares de modo que exista continuidade e se- tador de aids. E um amigo meu, com filho mais ou
que são moderadamente discrepantes daqueles quência nesse trabalho. Na ausência de integra- menos na mesma idade, quase caiu de costas
que ela já experimentou anteriormente. Assim, ção e de comunicação real entre os professores, quando o Junior lhe jogou a seguinte pergunta:
na linha evolutiva do seu desenvolvimento, é em beneficio dos alunos-leitores, continuaremos "Pai, pra gente combater a aids, é melhor camisa
fundamental que a criança se defronte com ní- a falar aos ventos sobre a importância da convi- de manga- curta ou de manga longa?"
veis moderados de novidade de modo que ocor- . vência com a literatura, sem poder e sem saber Estes dois incidentes, ainda que bastante en-
ra a assimilação de novas experiências ao re- como concretizar, na prática, ações pedagógi- graçados, são extremamente elucidativos, pois
pertório de experiências que ela já possui. Em cas conseqüentes. E o lêitor que se dane no mostram que as crianças lêem e interpretam o
outras palavras, para que ocorra mudança e in- .circulo da inconstância, da mesmice e da bara- mundo de acordo com o grau de desenvolvimento
cremento na experiência da criança, a sua área funda escolar! de suas funções cognitivas e afetivas. E nós,
de ação deve ser necesariamente contemplada Na vertente do desenvolvimento lingüístico, não adultos, temos muito a aprender com essas in-
com novos objetos e com novas formas simbóli- posso deixar de destacar a qualidade inventiva terpretações. Imaginem quando o problema é
cas; caso contrário, existe o risco da estagnação, da linguagem da criança, o que significa dizer levado para o terreno da leitura e interpretação
pois a curiosidade da criança fica impossibilita- que ela não copia ou imita ad-eternum as estru- do texto literário, polissêmico por natureza e
da de ser exercida e praticada. A "mesmice", turas lingüísticas que ouve ou lê, mas inventa-as polivalente em tèrmos de significações — "C..) a
sabemos todos nós, coloca-se como um sério de acordo com sua própria gramática e de acor- verdadeira narração fantástica é, de imediato, e
bloqueio a qualquer tipo de mudança e desen- do com a sua capacidade de imaginação. Por por essência, suscetível a várias leituras, pode
volvimento. outro lado, a densidade da linguagem falada ser compreendida, sentida e vivida em vários
O princípio da discrepância gera uma série e/ou escrita, presente nas situações vividas pela planos, revela-se multívoca. A narração fantásti-
de implicações pedagógicas, principalmente no criança, desempenha um papel crucial no seu ca convida (...) mais que qualquer outra, a uma
que tange aos tipos de literatura a serem oferta- desenvolvimento e no seu conhecimento do "leitura aberta", ou mesmo a leituras sucessivas e
dos à criança. Assim, se os textos — literários mundo. Regina Zilberman, ao tratar deste mesmo múltiplas." (4)
ou não—colocados à disposição da curiosidade assunto em sua relação com a leitura do texto Conhecer, discutir e aprofundar as várias in-
da criança forem redundantes em termos de literário, diz que "(...) quando se compromete terpretações atribuídas aos textos literários —
forma e de conteúdo temático, existe o risco de com o interesse da criança, a literatura infantil eis aí um caminho coerente para o desenvolvi-
estagnação da sua experiência de leitura por transforma-se num meio de acesso ao real, na mento do leitor infantil, sob todos os aspectos.
falta de novidade e, conseqüentemente, de de- medida em que lhe facilita a ordenação de ex- Isto porque "a leitura crítica sempre leva à pro-
safio. Sem o componente da discrepância inci- periências existenciais, através do co- dução ou construção .de um outro texto: o texto
tando a novos arrojos da imaginação e a novas nhecimento de histórias, e a expansão do seu do próprio leitor. (...) a leitura crítica sempre
descobertas, a criança patinará no mundo da domínio linguistico." (3) Na base desta coloca- gera expressão: o desvelamento do SER do lei-
circularidade literária, caindo no desinteresse e ção de Regina, coloca-se a relação dinâmica tor. "(5) Experienciar, pelo diálogo, pela partilha
na apatia e, o que é pior, não colocando em entre linguagem e realidade; assim, a fruição do e pelo conflito, as várias alternativas interpreta-
prática as novas funções ou capacidades em texto literário, pelas práticas do ouvir e/ou ler, cionais dos textos literários é, sem dúvida, uma
direção à conquista da sua maturidade como configura-se como uma janela através da qual o condição essencial ao alargamento da com-
leitora. Resulta daí que o componente curricular sujeito-leitor pode compreender melhor o mun- preensão do mundo pela criança — compreen-
de leitura (de literatura e de outros tipos de do e organizar as suas próprias experiências. são esta que leva consigo o alargamento do seu
texto) não pode deixar de levar em conta uma Enquanto experiência de linguagem e, ao domínio linguístico.
ordem ou sucessão, com os professores sempre mesmo tempo, de 'revelação, descoberta, e A questão é saber se a escola, através dos
atentos a uma diferenciação crescente de gê- aprofundamento de referenciais de realidade, seus professores, oportuniza tempo e espaço
neros, temas e modalidades literários no sentido leitura da literatura infantil influi significativa- para a expressão e partilha das interpretações,
. de aprimorar a capacitação na área dos proces- mente no processo de desenvolvimento da dentro de uma atmosfera democrática, livre,
sos de leitura e, ao mesmo tempo, no sentido de criança. Além da usufruição do texto literário, não-autoritária. A questão é saber se a escola
atender à demanda ou aos anseios das crianças que é, em si mesmo, um processo criativo, a não pedagogiza o:rumo das interpretações, in-
por novidade em suas diferentes etapas de de- aventura do ler vai permitir à criança um refina- vadindo a subjetividade das crianças e dirigin-
senvolvimento. Essa ordem ou sucessão, vale a mento de sua razão (inteligência) pelas re- do-a para o "certo e consagrado." A questão é
pena dizer, não é e nem poderia ser fixa e linear flexões feitas acerca do possível, acerca dos saber se a escola está interessada em cultivar a
— do tipo para-tal-idade-tal-livro ou para-tal- problemas do seu tempo do seu contexto. Por imaginação criadora e a sensibilidade das crian-
série-escolar-tal-livro — pois ela deve ser outro lado, conduzida pela sua capacidade de ças, vistas aqui como opacidades de experimen-
construída fundamentalmente pelas crianças- imaginação e pela inventividade da sua lingua- tação e organização da realidade. A questão é
leitoras através de práticas cada vez mais desa- gem, a criança é capaz de criar novas sínteses, saber se a escola adota uma pedagogia dialógi-
fiadoras de leitura e conhecimento, a partir de novas funções ou prolongamentos dos elemen- ca, que procura conhecer e levar em conta as

13
reais necessidades e os interesses concretos tado como opção consciente (desenvolvida e (conitivista, fenomenológica e dialética) para
das crianças. A questão, enfim, é saber se a conseguida através da história da pessoa, a par- orientar o Processo ensino-aprendizagem e pa-
escola está decididamente comprometida com tir da sua convivência social, no horizonte de ra servir como parâmetro de análise às práticas
desenvolvimento da ciança — desenvolvi- determinados valores), creio que o questiona- de leitura. Finalmente, que nenhuma dessas teo-
mento este que lhes prepare adequadamente mento colocado nessa pergunta é condição bá- rias seja tomada como uma "camisa de força" nas
para a transformação desta sociedade absurda e sica para a própria vida e liberdade da pessoa. relações adulto-crianças, mesmo porque as teo-
podre em que vivemos. Estas questões eu deixo Mais especificamente, eu não posso me realizar rias não são eternas, mesmo porque as posturas
para o nosso debate. • socialmente fazendo um trabalho "alienado." e as práticas humanas evoluem historicamente.
3 "Na sua opinião, passar uni mundo de fadas 5 "Como atender necessidades individuais dos
(") Conferência proferida no Congresso Brasileiro de para a criança é errado?" leitores em uma turma de 1° grau, por exemplo,
Literatura Infantil, organizado pela Fundação Nado- R. — Fique bem claro que não sou contra ne- até para que se evite a mesma de indicações de
nal do Livro Infantil e Juvenil. Rio de Janeiro, 22 de nhuma modalidade de literatura, incluindo o leitura extra-classe? Como orientar este cami-
julho de 1987. conto de fadas. Acredito que o potencial de nhar, que será individual, de acordo com as
imaginação da criança pode ser alimentado com
Notas bibliográficas diferentes modalidades, inclusive com o conto
experiências de cada um, dentro do coletivo de
uma sala de aula? Não deverá ser a leitura tam-
MERANI, Alberto L.. Psicologia Infantil. de fadas. A questão, me parece, é saber porque, • bém uma experiência da comunidade (turma)?
Trad. por Carlos Henrique Escobar. Rio de Ja- para que e como o professor propõe e dinamiza a Como orientar as trajetórias individuais e do
neiro: Paz e Terra, 1972, pág. 9-10. 'leitura do conto de fadas junto às crianças. É grupo dentro do cotidiano da sala de aula?"
BEE, Helen. A Criança em Desenvolvimento. exatamente essa dinâmica, fincada na prática e R. — Basicamente, fazendo com que as expe-
(3? ed.) Trad. por Rosane Amador Pereira. São
na percepção crítica da realidade vivida pela riências e as vivências individuais sejam sociali-
Paulo: Harper & Row do Brasil, 1984, p. 380.
ZILBERMAN, Regina & CADEMARTORI, Li- criança, que pode e deve orientar o certo e o zadas, partilhadas dentro de uma atmosfera de
gia, Literatura Infantil: autoritarismo e emanci- errado em qualquer programa de leitura. Aquilo cooperação e reciprocidade. E isso não é fácil.
pação. São Paulo: Atica, 1982, p. 14. que é certo para o adulto poder ser extrema- de áe conseguir porque valores como a disputa.
HELD, Jacqueline. O Imaginário no Poder. mente errado para a criança e vice-versa. E e a competitividade estão na hasP da sociedade
As crianças e a literatura fantástica. Trad. por frente à crise de valores por que passa a socie- capitalista. A mesmice de indicações para leitu-
Carlos Rizzi. São Paulo: Summus, 1980, pág. dade brasileira neste momento, eu sou forçado a ra (1 livro só para ser lido por toda a classe),
30-31. dizer que a possibilidade de intuição daquilo devemos contrapor .a variedade de oferta (1
SILVA, Ezequiel T. O Ato de Ler. Fundamen- que é certo está muito mais do lado das crianças livro de literatura por aluno, já compondo um
tos Psicológicos para uma nova pedagogia da
do que dos adultos. Por isso mesmo, repito, te- acervo maior de possibilidades de leitura),
lèitura. (4? ed.) São Paulo: Cortez e Autores
Associados, p. 81.
mos muito que aprender com elas... oportunizando a troca de livros entre as crianças
4 "O que o senhor quer dizer quando fala na e construindo, paulatinamente, circuitos de lei-
relação escola e estética da recepção? Como o tura. Com isso, creio eu, vai sendo construída a
Res costas às perguntas senhor estabelece a relação entre prática e experiência comunitária de leitura; neste caso, a
dos congressistas teoria?" própria turma estabelece os "controles" do seu
R. — Subjacente a esta minha conferência, está a desenvolvimento de leitura e se os livros forem
1° Por que até o momento não existe um projeto a • idéia de uma pedagogia de leitura centrada nos estimulantes, todas as crinças vão participar ati-
nível de instituições oficiais em que se pense na interesses, nas inquietações e necessidades da vamente do processo (as experiências levadas a
pré-escola? criança, sem perder de vista a análise e a per- efeito pelo Prof. João Wanderley Geraldi, do
R. — No meu ponto de vista, não é só a pré- cepção-ciltica da realidade. Disse que as expe- IEL-UNICAMP, podem demonstrar a objetivi-
escola que não está sendo pensada, mas o siste- riências vividas pela criança devem ser incor- dade desse caminho). Convém lembrar que a
ma educacional brasileiro como um todo, A ra- poradas ao ensino .proporcionado via escola. leitura da literatura' não precisa e não deve ne-
zão principal do descaso está, sem dúvida, na 'Sendo assim, quando falei de "estética da recep- cessariamente ocorrer somente extra-classe —
esfera política. Resumidamente falando, eu diria ção", pretendia instigar ou estimular investiga- porque não proporcionar momentos desse tipo
que não é 'interesse da classe dominante pro- ções, estudos, etc... que analisassem as reações de leitura dentro da própria sala, como um tipo
porcionar boas escolas para a população — dai das crianças aos livros de literatura em direção à específico de aula? Gostaria de dizer ainda que
a miséria e a pobreza das nossas escolas públi- formação do gosto, em direção a uma verdadei- não sou contra a sugestão de leitura de um texto
cas bem como a perda da dignidade dos nossos ra educação literária. Assim, em função do co- único para toda a classe, pois tudo vai depender
professores. Tratei mais intensamente deste as- nhecimento objetivo dessas reações, creio que do objetivo que está sendo perseguido pelo pro-
sunto em alguns artigos do meu livro Leitura e seria mais fácil construir os parâmetros de uma lessor na área da educação dos leitores-mirins.
Realidade Brasileira (Porto Alegre: Mercado estética da recepção de textos literários infantis, 6 "Ao avaliarmos trabalhos de literatura infantil,
Aberto, 1985). orientando uma pedagogia menos autoritária e você acha inconveniente a atribuição de notas?"
2 "Qual o papel da vocação, . do se sentir mais realista para a escola brasileira. Por outro R. — Depende do que se entende por avaliação
chamado para exercer a profissão? Eu sinto que lado, esgás investigações fariam com que os pro- e pelo seu indicador, a nota. A avaliação, no meu
isto é uma condição básica, indispensável para fessores questionassem os padrões instituídos ponto de vista, é uma parte essencial do proces-
buscar os meios. Me parece que muitos educa- pela estética burguesa, que geralmente (e infe- so de planejamento/execução do ensino, ao lado
dores não questionam a sua vocação." lizmente) orientam os processos de seleção de do estabelecimento de objetivos, seleção de
R. — Espero que o termo "vocação" não esteja obras para a infância/juventude e os tipos de conteúdos e definição de metodologia, A nota ou
sendo confundido com "dom", "sacrifício" ou "sa- reação a, essas obras. conceito indica não só a aprendizagem e/ou
cerdócio", pois isso poderia assinalar uma certa Quanto à relação prática-teoria, minha intenção atitudes das crianças, mas também a própria
ingenuidade por parte de quem formulou a per- foi a de levar os interlocutores a um questiona, qualidade do trabalho docente — daí a sua rele-
gunta. Além disso, mais do que "profissão", o mento das teorias psicológicas que procuram vância e significação para os alunos e para o
magistério deve ser visto como um trabalho que explicar os comportamentos da criança. Mais professor. No meu ponto de vista, mesmo que a
depende de determinadas condições para ser especificamente, das teorias associacionistas, leitura de obras literárias seja colocada como
produzido. Através da inculcação da ideologia condutivistas ou comportamentalistas que mol- uma atividade livre ou espontânea, a experiên-
do dom (sacrifício ou sacerdócio), a classe domi- dam o comportamento da criança através de cia em si não dispensa uma discussão avaliativa
nante quer fazer o professor acreditar que a esquemas estímulo-resposta (S-R). Tais teorias por parte da classe, dirigida e coordenada pelo
docência deve ser produzida "a qualquer custo", são as que predominam nos cursos de formação professor, enfocando os seus aspectos quantita-
ou seja, mesmo que as condições não sejam de professores e, no fundo, escondem atrás de si tivos e qualitativos. Sem isso, pode-se perder o
proporcionadas. Infelizmente, ainda tem muito uma visão de mundo e do homem, que serve rumo das coisas e eu sinceramente não acredito
professor que engole essa, sacrificando a sua fundamentalmente à manutenção e reprodução que o ensino seja um processo sem rumo, a
saúde física e mental na tentativa de impor quali- do sistema capitalista de produção em nosso menos que o professor adote o "espontaneismo"
dade onde a qualidade é impossível de ser contexto. como parâmetro de ação. Acho que todos aqui já
conseguida, dadas as condições da escola e do Além disso, nesta conferência tentei provocar a superaram essa invenção pedagógica maluca
sistema. Caso o termo "vocação" seja interpre- busca e o estudo de outras teorias psicológicas chamada "ensino não-diretivo", não é mesmo?

14
É com c imo gemo ue
conto históric
Angela Lago, 1987
Autora e ilustradora premiada pela FNLIJ com o prêmio Luis Jardim — o melhor livro de Imagens— com "Chiqui ta Bacana e outras Pequetitas."

A
o preparar este texto, me permiti pensar pequenez ou de tentar tocar uma ponta deste ela me desdenhe pelas dificuldades que por
a respeito da minha própria infância e deslumbramento, que me isolarei na mesa de ventura lhe impõe, do que perceba em facilita-
me perguntar porque, para que, para trabalho, que, por esta esperança, se transforma ções, que por ventura me escapem, um desenho
quem, desenho e conto histórias em li- no meu lugar a salvo. que não projetei.
vros de imagem. Parece-me assim que escrevo para a sombra Acredito em contos de fada. E percebo, cada
Há uma imagem que avassala toda a minha desta criança que se maravilhou e se sentiu vez mais, a complexidade destas narrativas, que
vida, que me traz de volta as perguntas de maior perdida e que me escapole do peito, na calada desvendam nossos sentimentos mais 'intensos
angústia e a sensação da maior beleza, e, esta da noite, na hora da falta, nos rompantes da diante da vida e do anseio amoroso. Creio, as-
imagem eu a vi, pela primeira vez, por volta dos paixão e'do descomedimento. sim, que se as crianças são capazes de captar e
4 e 5 anos. Desenho para apaziguá-la, para a consolar do amar estas pérolas engendradas na concha do
Acostumada a ir para a cama, mal começava a que não tem consolo, para brincar com ela. tempo, será sempre pouco para elas o que de
escurecer, numa casa de muitos filhos e mãe Sinto hoje, também, que a esta minha criança mais profundo conseguir arrancar de mim
atarefada e enérgica, saí pela primeira vez à se somam outras crianças. As que vi crescer e mesmo.
noite, quando fui a uma coroação, por volta desta hoje já são moços e moças e até adultos, e as Na verdade, estes contos — sobretudo os
idade. , crianças do vizinho ou da amiga, e mesmo aque- clássicos coletados pelos irmãos Grimm — têm
Maio, lua Nova talvez, céu límpido, olhei para las que pressinto nos disfarces dos crescidos, sido a minha porta mágica, o meu abre-te Sésa-
cima e fiquei estatelada. Mil furinhos tilintando Somam-se crianças que vi ou ouvi, por acaso, na mo, para me aproximar' dos miúdos e fazer ami-
num céu imenso. rua, no ônibus, e crianças imaginárias, persona- gos entre eles. Não acredito que nenhum livro
Na minha cabeça de menina, comecei então a gens de livros e filmes. de imagem, por mais belo que seja, possa subs-
montar um quebra-cabeça interminável. A noite Colcha de retalhos, feita de momentos de en- tituir a experiência de ouvir e contar estas histó-
coroada, o manto da poderosa Nossa Senhora contro, de alegria compartilhada, de enterneci- rias.
Natureza, a voz da minha mãe dizendo: mento ou compaixão, esta minha criança interna O livro de imagem, como eu o sonho, já pres-
— A terra é também do tamanho da ponta de não é mais só a minha, mas todas as crianças que supõe o desejo da criança por livros. Pressupõe
um alfinete e nós somos pequenas pulgas pulu- de alguma forma me tocaram, me ensinaram que ela já aprendeu a gostar de histórias, e quer
lando. suas próprias experiências, se acrescentaram à buscá-las por conta própria, mesmo que não
Desde então, escuto os gritos de Joãozinho e minha vida, como se fossem minha vida. saiba ler.
Maria, abandonados no fundo da floresta. E cada Por certo, é também para esta criança múlti- As imagens, portanto, como estas histórias de
vez que olho as estrelas tenho s sensação de pla, sem idade certa, sem contorno definido, encantamento, deverão revelar o inesgotável—
pulgas e alfinetes que me espetam e pinicam em que desenho. não há 'compreensão que esgote uma vivência
cada poro. Sonho que alguém encontre na minha leitura verdadeira e profunda. Cada vez que voltamos
Aos 6 anos, vi, pela primeira vez, o mar das do mundo a sua própria leitura. Que alguém ao trajeto de uma emoção, novas trilhas se
minhas primas cariocas, com o despeito secular descubra os seus próprios caminhos nos meus abrem.
dos mineiros, mas com este trunfo, ao mesmo descaminhos e reinvente meu conto, na medida Assim, este livró que idealizo deve se ofere-
tempo belo e aterrador: eu já tinha minha expe- das suas próprias fantasias. cer como um objeto amoroso, um corpo de se-
riência de infinidade, ou, se me permitir inven- Não sei se esta criança, que me responderá gredos a serem descobertos. Deve se oferecer
tar palavras, minha experiência de infinitude, de no espaço mágico do livro, já sabe ler ou não. ainda como um objeto de paixão, paia que cada
infinidão. Por isto, venho desenhando de maneira que ela um o reinvente à sua revelia e nele espelhe a
Parece-me que tudo que escrever ou dese- possa ler sozinha, mesmo que ainda não saiba o própria face.
nhar se remeterá sempre, de alguma maneira, alfabeto. No entanto, não me preocupo que ela Para mim, tentar fazê-lo trata-se da minha
a esta experiência: eu vi um céu cheio de es- entenda tudo, porque eu tão pouco entendo tu- busca, mesmo que canhestra, de resgatar a via-
trelas. do. Prefiro que ela se perca, a que encontre um gem, maravilhosa e inquietante, de um olhar
Será sempre por desejo de escapar a minha trajeto sem novidade ou surpresa. Prefiro que numa vastidão inundada de pequenas luzes. •

Qucc rinhos 8( c U C c nnhos SECRETARIA MUNICIPAL

rc cricnçcs DE EDUCAÇÃO E CULTURA


ORIXÁS GO.
Moacy Cirne
Prof. de Comunicação UFF. • Autor de Livros sobre História em quadrinhos e objetos verbais (poemas processos)

s estórias em quadrinhos, há pelo menos


A 20/22 anos, atravessam uma fase de ple-
na criatividade enquanto discurso sim-
bólico carregado de concreção gráfico-
mento de imagens que são impulsionadas, de
uma forma ou de outra, por verdadeiros cortes
gráficos, tem uma dimensão estética própria
fundada num particular grafismo de relações
papel; o seu prazer da leitura passa por algumas
configurações significantes bastante complexas.
E, a partir de 1965/66, o seu discurso narrativo
tem-sé revelado primoroso em várias produ-
visual. O que significa isto? Significa que o dis- sernióticas. Afinal, os quadrinhos não são apenas ções, seja pelo expressionismo gráfico, seja pela
curso dos quadrinhos, marcado pelo agencia- divertimento, não são apenas um cineminha de contundência temática, seja pela unidade visual

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da página ou da tira, seja ainda pela pesquisa médio e a articulação dos quadros clássicos que vante serviço político à sociedade, garantindo-
das formas que totalizam a soma quadrinhística. caracterizam suas estórias são um recurso esti- se espaço à emergência das diferenças. Quan-
Basta tomar como exemplo a 'Valentina' de Cre- lístico como qualquer outro, no caso importante do serve à criação do hábito de ler, no sentido
pax, o Corto Maltese' de Pratt, a 'Paulette' de para captar melhor a atenção do leitor jovem. hipnotizado e apassivado que a expressão "hábi-
Wolinski & Pichard, a 'Saga de Xam' de Rollim & (Embora o Disney produzido na Itália, hoje, te- to" nos traz, presta-se um relevante serviço polí-
Devi!, 'Os Fradinhos' e 'Zeferino' de Henfil, 'O nha suas veleidades estéticas.) tico à parcela da sociedade que detém algum
Demolidor e 'Batman' de Frank Miller, os Os quadrinhos são bons, os quadrinhos são poder e que tem algum medo das diferenças,
quadrinhos de Corben, Barbe, Sià, Fred, Moe- ruins? Tomada isoladamente, em abstrato, esta é visto que o poder sempre prega a igualdade
bius, Paulo Caniso, Luiz Gê, Angeli e alguns uma questão tão absurda e equivocada quanto (aquela igualdade, dos espelhos defronte dos
outros, que fazem da "banda desenhada" uma indagar se a literatura é boa ou má, se o cinema é espelhos...).
. alta voltagem informacional ao nível da lin- bom ou mau, se a música é boa ou não, e assim Um texto que fuja às séries literárias cor-
guagem. por diante. rentes, sejam as pertinentes ao estilo da época,
Os quadrinhos, como linguagem, como dis- sejam as pertinentes à produção cultural de .,
Mas, já agora, uma primeira pergunta precisa
curso narrativo gráfico-visual, enfim, como bem mercado, raramente servirá ao "hábito", uma
ser colocada: citamos apenas quadrinhos para
simbólico que aponta para o solo significante da vez que sua decodificação e 'fruição tenderá. a
adultos ou, no máximo, quadrinhos juvenis (o
arte, não são bons nem ruins: existem, simples- exigir do leitor bem mais do que o hábito lhe
caso de Frank Miller e Fred). E os quadrinhos
mente. Do mesmo modo — se pensarmos em faculte. Tenderá a exigir resistência, insistência,
para crianças? Outra pergunta igualmente já
. nomes do porte de Corben e dos demais citados humildade, alguma dor e algum prazer — dor
pode Ser colocada: existe mesmo uma crise dos
no início —, não estão em crise, seja temática, que às vezes fere e não cicatriza, prazer que às
quadrinhos? Na verdade, estas perguntas cor-
seja estética ou semioticamente. vezes dilacera e não termina. Mas o texto que
rem paralelas, na medida em que muita gente
Os que estão em crise — e reconhecemos que se encaixe nas séries literárias correntes tanto
pensa que as estórias em quadrinhos — que em
isto é grave — são os quadrinhos voltados para o pode servir ao "hábito" quanto ao "gesto" de ler,
1954 eram acusadas de seduzir os inocentes, nos
público infantil e, por extensão, como simples dependendo, aí sim, do leitor e da maneira de
Estados Unidos, acarretando homossexualismo
conseqüência, os quadrinhos gerados pela in- ler.
e delinqüência juvenil — só existem para o públi-
dústria cultural, alimentadores da cultura de Naturalmente, a maioria dos textos de literatu-
co infanto-juvenil. E Barbe? E Crumb? E Cre-
massa. E este é um problema que precisa mobi- ra infanto-juvenil se encaixa numa série literária
pax? E Shelton? E Corben? E Wolinski? E Feif-
lizar criadores, editores e profissionais da indús- de determinados padrões que permitam sua di-
fer? E Luiz Gê? São autores que se destinam a um
tria cultural; mas só poderemos enfrentá-lo ten- vulgação mais fácil. Tais padrões diferem da-
público adulto, antes de mais nada.
do uma clara consciência crítica das limitações queles que informam os best-sellers comuns,
Problematizemos a pergunta colocada antes: ideológicas que marcam toda e qualquer cultura pois não se trata de seduzir os leitores em poten-
como pensar, aqui e agora, os quadrinhos para de massa numa sociedade de classes. cial, mas sim: de seduzir tutores e governantas
crianças? Problematizar tal pergunta, com todas De qualquer maneira, retomando uma ques- dos leitores em potencial. De toda forma há pa-
as suas implicações semânticas, significa não tão anterior, diremos que, assim como existem drões, com suas matrizes básicas e seus clichês
perder de vista o aparato semiológico da "banda boa e má literatura, bom e mau cinema, existem de efeito.
desenhada": sua relação com o cinema, com as bom e mau quadrinho. Disney, no geral (depois A discussão da maneira de ler, no caso da
artes gráficas, com a própria literatura (embora, de 1947/48), é ruim, mas Ziraldo e Henfil são literatura infanto-juvenil, torna-se fundamental.
neste caso, em tom menor). Por outro lado, as ótimos; as aventuras de Super-Homem são criti- Seus leitores "sofrem" esta maneira, através das
facilidades estéticas que norteiam as aventuras cáveis, até mesmo babacas, mas as estórias do adoções, das provas, das fichas de leitura embu-
,de um Mickey ou de um Pato Donald, por exem- Espírito (de Eisner) são excepcionais; o Fantas- tidas nos livros, das ilustrações dirigidas. Todos,
plo, não podem nos enganar. Sob a capa da ma e Mandrake não são mais os mesmos, professores, editores e também autores, cheios
aparente facilidade, muitas vezes se encontra mas o Mago de Id continua bom; Riquinho e de boas intenções, além da intenção implicita,
um apurado sentido narrativo e/ou um bem arti- Brotoeja sempre foram fracos, mas Horácio (nos nem por isto indigna, de vender muito e agradar
culado enredo de conotações existenciais, polí- anos 60), o Louco (nos 70) e Chico Bento (nos 80), bastante. Todas as boas intenções defendem
ticas, sociais ou simplesmente cômicas. Como o de Maurício de Souza, têm momentos bastante tanto as "crianças" quanto a "arte", preparando
Mickey dos anos 40. Como o Pererê dos anos 60. expressivos. consumidores de cultura. Todas as boas inten-
Como o Gato Félix dos anos 20 e 30. Como os Assim é a vida, assim é a arte, assim são os ções justificam o aparato que cerca os textos, nas
Sobrinhos do Capitão dos anos 10.e 20. O plano quadrinhos. • orelhas, nos prefácios, e principalmente nas fi-
chas de leitura. Um outro aparato cerca, por sua
vez, a adoção dos textos, incluindo dramatiza-
ções e palestras do autor. De certo modo, cum-
000 s intençõos... prem-se as boas intenções, divulgando oficial-
mente a literatura não como aqueles "clássicos
chatos", e Sim como até mesmo um lazer aprazí-
Gustavo Bernardo vel e reflexivo, de acordo com as concepções
pedagógicas que defendem o prazer como
Autor do Livro Pedro pedra, Livraria Tata= Edt,
Rio de Janeiro, 1982 condição do aprender.
Professor da UERJ Estas concepções coMbatem as posturas mo-
ralistas e autoritárias de uma pedagogia de pal-
e boas intenções o inferno está cheio, diz Até, aqui, nada demais. O fato de se inserir na matórias e caras feias. Em si, não são erradas,
a vox populi. Eis uma maneira curiosa de indústria cultural, quase como um gênero espe- exceto quando se apresentam como as únicas
]) colocar aspas irônicas em um adjetivo, cial de best-seller, não toma nenhuma literatura corretas. Porque não será um bom combate, o
protegendo um mínimo de dúvida sobre pior, ou melhor. Ao permitir a semi- do verso contra o reverso: ficamos na mesma
certas formulações idealistas, gramaticalmente profissionalização de alguns escritores, faculta página estagnada. Melhor combate se Mostra-
arrumadinhas, tanto que caprichosamente es- mesmo uma investigação estética conseqüente, rá aquele que procurar investigar as diferenças
condem determinadas concretudes. capaz de beneficiar a literatura como um toda para além das polarizações maniqueístas. Não
A literatura infanto-juvenil segue parte das inclusive as obras ditas de vanguarda. Mas deve só como prazer se aprende; a dor também é boa
leis intrínsecas de toda literatura, e parte das ser levado em conta para fundamentar umprin- professora. óbvio, não aquela dor que a vingan-
leis de mercado que a fazem um produto bem cípio de análise política deste produto cultural. ça e o ressentimento produzem, nem a dor reco-
definido da indústria cultural. As leis de merca- A que e a quem serve esta literatura? As re- lhida e fruto do medo. Não há aqui intenção de
do se articulam diretamente com a escola, este postas não se oferecem em múltipla escolha. ressuscitar a 'palmatória — até porque ela não
privilegiado agente de divulgação e reprodu- Quando serve à promoção do gesto de ler, de morreu, escondida por trás de sorrisos moder-
ção. Esdritores, editores e fundações não ler livros e de ler o mundo, em seus aspectos nos. A dor de que se fala será outra, bem outra:
desconhecem isto. ambíguos e pluri-simbólicos, presta-se um rele- aparece quando se assume um desafio e se en-

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frenta a si mesmo, no enfrentar o desafio. Apa- uma porcelana chinesa fabricada no quintal do de 1° grau, depois de uma greve prolongada e
rece quando o leitor supera aquela concepção país vizinho. de um diálogo político frustrado.
de lazer e prazer como alienantes pontos de
fuga de um real desagradável porém intransfor- Na outra ponta desta literatura de mercado, na Neste contexto, nosso primeiro impulso foi
editoração, encontramos dois outros modos de preparar uma "redação escolar" para vocês, re-
mável, e passa a ler para entender o mundo e se
vender gato por lebre. Lebre, aqui, seria a lin- produzindo a fala dos Congressos, dos livros;
entender um pouco Aparece quando o leitor se
permite inquieto, disposto a sofrer e a amar o guagem literária, ambígua, sedutora, que se es- vetando nossa experiência ou manipulando-a de
gueira célebre entre micro-traições do lugar- modo a adaptá-la ao consenso acadêmico.
seu tanto — disposto, portanto, a se deixar trans-
formar por sua práxis, desta maneira modifican- comum, rompendo unidades idealizadas. Gato, Acontece, no entanto, que essa experiência é a
aqui seria o discurso meloso, neo-romântico e/ nossa "palavramundo" e isso nos fez decidir por
do, o mínimo que seja, o mundo do qual faz
parte ativa. ou neo-realista unívoco e autoritário. Vende-se um texto-depoimento, testemunho de nossa re-
gato por lebre quando o texto vem embrulhado flexão e prática. O que há aqui de consenso com
Refletindo sobre prazer e dor, e sobre o pra-
em um projeto gráfico facilitador, desrespeitan- a reflexão acadêmica — e são muitos — não são
zer afim à dor, quero combater não os textos da
do o caráter de desafio dá literatura em nome citações, "expressões bonitas" colhidas agora
literatura infanto-juvenil brasileira, e sim o apa-
sua popularização, incorrendo ha banalização para embelezar esta redação. É o resultado de
rato que à volta deles se faz. Porque tal aparato
através, por exemplo. de ilustrações naturalistas uma leitura assimilada às crenças e à prática por
termina por "kitschizar" o texto literário, tornan-
dos personagens. Vende-se gato por lebre, tam- que vimos lutando.
do-o de um vazio perceptível por crianças sensí-
bém, quando o texto vem acompanhado das Nossa experiência com a literatura infantil e
veis que ainda resistam às clicherizações. Por-
famigeradas fichas de leitura, ou mesmo de pro- juvenil no ensino da língua materna no 1° grau
que tal aparato serve à formação de uma
postas sugeridas pelo próprio autor (perigo mor- nasceu de uma luta contra o silêncio passivo dos
consciência acrílica incapaz de reconhecer tal.), que se encarregam, nas suas perguntas
mesmo as diferenças menos sutis, ocupada em cadernos cheios, dos programas vencidos, o
"objetivas", de desfazer as metáforas .que ainda medo das aulas de redação, do papel em- branco
defender igualdades abstratas, idelizadas, sobreviviam.
vagas. do zero, das leituras obrigatórias, dos exercícios
Este artigo não pretende convencer profes- de interpretação, das aulas de gramática, do
As concepções pedagógicas hedonistas, em- fracasso, da repetência, da evasão.
bora se apresentem como anti-repressoras e sores e editores a fazer diferente, Se os primei-
ros têm sua prática informada pelo idealismo Tudo que aprendêramos, tudo a que assistía-
defensoras das crianças e dos personagens, ter- mos ao noss . o redor eram cursos de língua por-
minam por Se revelar profundamente autoritá- moderno, de cunho psicológico, há coerência no
seu fazer que se tenta hedonista, Se os segundos tuguesa que ensinavam a ler, mas não criavam
rias, porque defendem uma verdade fechada A leitores; ensinavam a escrever, mas não gera-
nível da sala de aula, a pura e simples elimina- têm sua prática informada pelo resultado das
vendas, onde livro didático sem respostas e li- vam um pensamento crítico, divergente; ensina-
ção de notas e provas não resolve problema vam a falar de boca fechada.
nenhum. Ao contrário, cria outro problema, re- vro infanto-juvenil sem ficha professor brasileiro
não adota, há mais coerência ainda O que se Neste contexto, a descoberta da literatura
forçando um tipo de leitura dos livros (e do infantil representou um contrato de alegria.
mundo) frouxa e imprecisa. Qualquer método pretende é combater isto, teoricarhente, como
parte de um combate a longo prazo, levado já oficina literária foi nossa primeira tentativa de
pedagógico é antes uma circunstância, fruto da uma prática renovadora. Ela nasceu junto com
relação estabelecida em tal instante. Nenhum por alguns professsores, autores, ilustradores, e
editores. Um combate contra as "boas" intenções uma biblioteca infantil, de prateleiras áloridas,
método em si presta, e todos servem se não se almofadas... Neste ambiente desenvolvíamos
repetem. A nota em si, também, não será boa do prazer pelo prazer, da formação do hábito
pelo hábito, da arte pela arte ou da venda pela atividades de animação de leitura visando a uma
ou má, e pode até ser ótima, se com ela se esta- prática pactuada com o prazer e a crítica. Dessa,
belece uma relação de instrumento ritual mas venda. Um combate contra a pedagogia frouxa e
ahistórica, que tem medo do rigor mas diz que cralizar o livro, o professor, a aula de português
não fetichista, onde se configure um trampolim foi o gesto primeiro...
de rigor em direção a alguma qualquer supe- não gosta de repressão. Um combate contra os
projetos gráficos facilitadores, com ilustrações Até aí tudo nos parecia absolutamente certo.
ração.
naturalistas e simbolicamente empobrecedoras. A oficina literária passou a representar para nós
Não simplesmente evitando a nota defende- — alunos e professores — um hiato de prazer
remos a literatura. Melhor defesa acontecerá Um combate contra as fichas de leitura, contra as
Mas depois, vinham as aulas de português, mo-
através de exemplos de paixão e dúvida enten- orelhas e prefácios kitschizantes. mentos de seriedade, de retornar ao livro didáti-
dendo que cada estratégia não passa de um Um combate, enfim, contra as concepções co, ao conteúdo gramatical. E tudo voltava ao
atalho quase ao acaso. Isto é, reconhecendo o unívocas da literatura infanto-juvenil. Os seus que era antes. A mudança acontecia, assim, cer-
caráter falível de nossas soluções, bem como a textos precisam respirar um pouco fora desses, cada de uma certa culpa...
necessidade de levá-las a termo. O prazer, sem "fatos enfatuados", porque nós precisamos saber
dúvida, quer-se bem vindo, mas para tanto deve quem se garante; onde há jóia, rara e onde há joio, Aos poucos, no entanto, as atividades ligadas
ser raro — senão, vira um esgar de prazer, vira "novo" • à leitura e produção de textos foram tomando o
espaço e, a cada dia, sobrava menos tempo para
o livro didático, para as orações subordinadas

Ensino c c Linguc Vc terno substantivas objetivas diretas.


Daí nasceu um segundo momento em nossa
experiência. Gratificados com a resposta positi-
va dos alunos, começamos nossa "pregação"

e Lit rc turc Info n til Contar aqui, ali, como era a oficina literária, as
estratégias usadas, as técniCas de dinamização.
de leitura... E vimos juntar-se a nós alguns sonha-
Neuza Salirn dores. Mas começamos também a colher frutos
que jurávamos não haver semeado. O que para
Professora do Colégio de Aplicação da UM nós tinha sido aventura, descoberta, sonho, era
Pesquisadora para outros um amontoado de dicas.
Aos poucos fomos aprendendo que as CREN-
uero começar por lhes dizer que prepa- de Fora — MG), temos estado afastados. da "re- ÇAS que nos sustentavam é que nos ditavam o
Q rar esta intervenção neste Congresso
não foi, para nós, tarefa fácil. O papel em
branco, o título na folha e um longo silên-
dação acadêmica", pois temos andado lá fora:
com os professores de I° grau do interior de
Minas, enfrentando a discordância sistemática
"como". Outras crenças, outras prática gerariam,
ainda que embaladas de modo semelhante. A -
.mudança teria, pois, que passar por crenças e
cio... Atuando no 1? grau e, ao mesmo tempo, dos supervisores educacionais, as Delegacias não por técnicas. Seria um processo mais longo,
coordenando um projeto de ação junto a profes- de Ensino, a Secretaria de Educação. Esta expe- mais penoso. Esta percepção crítica permitiu-
sores de Língua Portuguesa — (Projeto de riência vem mudando nossa palavra. Neste mo- nos ler e explicitar nosso caminho. Se o refazer-
Apoio ao Ensino 'de Língua Materna — MEC/ mento mesmo, estamos procurando a palavra mos neste momento é porque foi um caminho de
SESii—UFJF/C.A, João XXIII — 10? DRE — Juiz capaz de reatar o diálogo com estes professores emoções e sonhos, requisito básico para que

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pudéssemos elaborar uma leitura mais acabada, uma concepção de linguagem que, coerente ção só se fará possível se o professor for real-
menos subjetiva dos porquês e para quês do com a concepção de educação defendida mente um bom leitor, sem simulação, e não al-
considere como "forma de ação na integração dos guém que oferece a leitura como um remédio
ensino da lingua portuguesa.
Surgiu, assim, o nosso terceiro momento. indivíduos na sociedade" para os males da língua portuguesa.
A literatura infantil ensinou-nos o prazer em Tal concepção-implica ir de encontro a uma Outra qüestão essencial: que metodologia
sala de aula e a reflexão nos fez sujeitos de nossa prática artificial, simulada da atividade linguísti- propor, como vencer o desafio de uma prática
prática e nos conferiu o poder de questioná-la, ca. Na escola há um falsPamento da interlocução, de sala de aula capaz de superar a simulação de
transformá-la, sem medo, sem. culpa, objetivan- já que papéis de locutor interlocutor estão pre- leitura até hoje instaurada?
do uma coerência de concepções de lingua- viamente marcados: "O professor e a escola ensi- Se acreditamos no poder emancipatório da
gem, de educação e de sociedade. nam; o aluno aprende (se puder) Tentar ultra leitura, nosso propósito é formar leitores
Explicitar nossas crenças neste momento é á passar esta artificialidade é efetivamente tentar conscientes, reflexivos e críticos. Nas palavras
única forma de definir o ensino da língua mater- assumir-se como "tu" da fala do aluno, na dinâmi- de Lajolo pensamos encontrar uma pista para
na que pretendemos e o espaço que a literatura ca das trocas do eu/tu. esta prática:
infantil poderá ocupar nesta prática. Nova postura decorre dai: dar voz ao aluno, "Ler não é apenas decifrar, como num jogo de
Nenhuma prática educativa é neutra e a nossa fazê-lo EU - sujeito de sua palavra e não um mero advinhações, o sentido de um texto. É, a partir do
tem-se firmado em uma crença primeira: o ho- repetidor da fala do professor e da escola. texto, ser capaz de atribuir-lhe significação,
mem e o seu direito de vida digna AQUI e AGO- Outra implicação desta concepção: aceitar a conseguir relacioná-lo a todos os outros textos
RA. Não cremos em sistemas. que condenam o dinâmica das trocas do eu/tu significa reconhecer significativos para cada um, reconhecer nele o
presente, decretam o escuro e investem no futu- a legitimidade da variedade lingüística utilizada tipo de leitura que seu autor pretende e, dono da
ro. Não cremos, pois, nesta escola que sacrifica a pelo interlocutor-aluno, sem perder de vista o própria vontade, entregar-se a esta leitura, ou
alegria, o universo do aluno, em nome de prepa- objetivo primeiro do ensino rebelar-se contra ela, propondo outra não pre-
rá-lo para a vida. Escola não é preparação para a da língua portuguesa, qual seja, levar o aluno ao vista"
vida, criança não é vir-a-ser; escola é VIDA ou domínio da variedade culta escrita dessa língua Antes de delinear o cerne de uma metodolo-
não é nada, ou melhor, é apenas mecanismo Desta forma, firmamos mais um princípio: a gia que acreditamos capaz de gerar esta leitura
repressor. conquista da língua-padrão deve ser um direito crítica, faz-se necessário considerar mais alguns
A escola, apesar da propalada democracia, assegurado a todos os alfabetizandos, pois ela critérios — o que ler — que darão rumo a este
continua se valendo de uma "imparcialidade" constitui-se em instrumento de poder, arma po- fazer.
que tem servido para camuflar uma ação com- derosa na luta pelos direitos de cada um na Em se tratando de leitura literária no 1° grau
prometida até as raízes com uma ideologia de sociedade. Neste sentido, apontamos a busca de tirios assistido a um embate: há os que, defen-
dominação. Uma prática contada, recontada e uma prática competente que leve não só à apro- dendo o prazer da leitura, negam qualquer in-
vetada nos meios acadêmicos permanece intac- priação desta língua de cultura, mas também ao terferência pedagógica na livre escolha do alu-
ta nas escolas de 1? grau: todas as mães, cantadas questionamento da legitimidade do domínio de no, e há os que consagram o "bom" texto rejeitan-
em prosa e verso, são loiras, ternas e rainhãs do uma língua sobre as outras. do as escolhas "menores". Dentre os primeiros
lar; a pátria é urna noção abstrata de verdes e Raspados em tais fundamentos, três práticas estão os que fazem prevalecer o critério da
sabiás; e o único saber e a única língua conside- são sugeridas para o ensino de língua portugue- quantidade — a liberdade do leitor propiciaria a
rados legítimos, "certos", são os da classp domi- sa na escola de 1° grau: prática de leitura, prática freqüência à leitura. Para os segundos preva-
nante. Não sobra espaço para a criança brasilei- de produções de textos, prática de análise lin- lece a qualidade do texto legitimada pelo saber
ra de pele e coração feridos. A pátria, a mãe, os güística. São estas apenas separações didáti- dominante.
deuses da escola não são, na certa, os mesmos cas, uma vez que a ação pedagógica deve se Para nós a norma é a diversidade. Uma norma
de Joãozinho. estabelecer num todo, sem fissuras, e são práti- que se impõe desde a seleção de textos de
Nem mesmo para os "bem nutridos" há espaço cas, porque implicam numa concepção de natureza diferente (literários, informativos, for-
nesta escola comprometida com a alienação. linguagem com ação "sobre o outro e sobre o mativos), legitimados ou não pelo saber oficial
Para esses ela é uma instituição bolorenta, inca- mundo. (de "Capricho" a "Isto é", de best-seller a Sete
paz de gerar os questionamentos e os desafios Cartas e Dois Sonhos...). Do confronto na diversi-
que o mundo lá fora, os computadores, os jogos, dade é que poderá haver a ruptura, a transfor-
1. Prática de leitura mação do aluno em leitor crítico, gerando a qua-
as viagens, as violências lhes apresentam. Sem
falar dos enigmas internos — angustias, medos, Procuraremos nos deter agora na prática de lidade da leitura.
solidões que não escolhem idade ou classe leitura para que possamos, por fim, sugerir o Se rejeitar a escolha do aluno é um desacerto,
social. espaço da leitura literária e, consequentemente. acreditamos que também o é acreditar que o
da literatura infantil e juvenil no ensino da lin- salto da quantidade para a qualidade da leitura
Movidos por tais crenças, alfabetizar para nós gua portuguesa no 1° grau. ou para a diversidade se faça sozinho, principal-
é arrancar do silêncio, ajudar o aluno a conquis- Convém-nos animar, em primeiro lugar, um mente em uma sociedade em que as fissuras
tar a sua identidade no questionamento, na di- conceito de leitura que, coerente com a concep- entre as classes se aprofundam cada vez mais e
vergência. A leitura da palavra deve ajudar a ler ção de linguagem aqui assumida, delineará essa certos bem culturais são vetados aos menos pri-
o mundo e não a ter medo dele. Nisto a literatura prática:"... a leitura é um processo de interlocu- vilegiados. Um projeto democrático de leitura
infantil pode mais que o livro didático, que a ção entre leitor/autor mediado pelo texto. En- tem que propiciar a diversidade para todos. O
cartilha. contro com o autor, ausente, que se dá pela ponto de partida é diferente, mas o ponto de
Quanto à concepção de linguagem, a socie- palavra escrita" chegada deveria ser o mesmo.
dade e, consequentemente, a escola, vêm se "... o sentido é inacabado, incompleto, relati- Nossa prática tem nos mostrado que vetos
'valendo de concepções como a idealista — "lin- vo, histórico, social. O sentido se estabelece nas como "fica proibida a interferência do professor
gua é expressão do pensamento" — que tem trocas humanas, nas relações que fazem a cultura na escolha do aluno"; "fica proibida a leitura de
servido para rotular wria enorme faixa da popu- Não está no texto, nem no leitor, mas na relação um só título por toda a classe", precisam ser
lação brasileira como portadora de um mal: "difi- entre eles" relativizados.
culdade de raciocínio". Outra concepção consi- Em uma prática de leitura assim concebida é A leitura solidária, compartilhada não sõ
dera a "lingua como instrumento de comunica- prioritário definir o papel do professor. entre leitor/ autor, mas :entre leitores-aluno e
ção" e sacrifica o sujeito em nome do emissor/ Cabe a ele compartilhar a leitura com o outro, professor pode ser uma experiência prazerosa:
receptor bem treinados para o uso de um có- leitor-aluno, sem ler por ele, sem impor-lhe uma tecer a leitura, vencendo juntos os desafios do
digo. leitura acabada, sua ou do livro didático. Respei- texto, seus significados ocultos, somando-se as
E os professores, instrumentos inocentes e tar o diálogo do aluno com o texto, sabendo que diferentes forma de ler, de acordo com a expe-
úteis, transmitem passivamente qualquer reca- a sua é apenas uma das leituras possíveis. riência de vida e da leitura de cada sujeito-
do. Aplicadores de técnicas e métodos para os Para nós, o ponto vital da ação pedagógica na leitor.
quais foram treinados, ignoram as Concepções relação texto-aluno seria o poder de sedução do Uma prática de leitura reflexiva, crítica, na
que a eles subjazem. professor, pois cabe a ele a intermediação posi- escola, acontece na experiência coletiva e, se
Nossa prática tem procurado manter-se fiel a tiva ou negativa entre texto e leitor. E esta sedu- admitimos a mediação do professor nas leituras

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informativa e formativa acreditando poderem poder emancipatóno da leitura e, em especial, isolada (i.é.limitada às condições imediatas ou
sair fortalecidos desta prática, por que não a da literária que se abre mais ao diálogo, ao momentâneas do aprendiz) resulta da interação
literária? questionamento, devido à incompletude de sua essencial que existe entre a criança e sua per-
A interferência em si náo significa, a nosso essência. E mais: quem experimenta o prazer de cepção/compreensão do mundo que a rodeia. O
ver, um desrespeito à natureza do literário. A uma leitura como essa, sabe que uma democra- que equivale a dizer que o alcance ou possibili-
prática enganosa dos questionários, dos resu- cia não deve repartir apenas o feijão, mas tam- dades de toda leitura-de-texto depende essen-
mos, das respostas "certas", das fichas uni- bém o sonho. cialmente das prévias leituras-de-mundo que o
formes, das provas, propondo a convergência Para que os riscos de escolarização da litera- leitor (criança, jovem ou adulto) tenha feito e já
onde a divergência, a subjetividade são espera- tura sejam menores, é preciso que voltemos os incorporado como conhecimento,
das, é que vem sacrificando a leitura literária. olhos para os professores de 1? grau, os estu- É de se compreender, pois, que (principãl-
A ditadura do "gosto do aluno" pode levar a dantes de magistério ou licenciandos em Letras,. mente a partir da política de democratização do
uma circulação exclusiva nas escolas de textos não para treiná-los, repassar-lhes métodos e ensino, ainda em curso entre nós) essa vincula-
como horóscopo, "Sabrina", •"Meu pé de laranja- técnicas, mas sim para resgatar o direito de ção da leitura (de textos) às leituras (de mundo)
lima", almanaques de piadas, curiosidades e serem leitores antes de quererem simuladamente tenha posto em questão todos os antigos proces-
pensamentos, jornais de manchetes escanda- fazer leitores. Que a própna Universidade, antes sos de ensino/aprendizagem da lingua e literatu-
losas. de apontar o dedo para o 1° grau, deixe de fazer ra. E isso porque toma-se evidente que a leitura
Firmamos tais critérios, sugerimos uma res- da literatura um pretexto e olhe, com urgência é acessível a cada indivíduo, na medida da "ba-
posta metodológica que acreditamos capaz de para os seus cursos de pedagogia, redutos fome. gagem cultural" pré-existente nele, a partir de
promover uma leitura crítica. No cerne desta cedores de métodos, técnicas em "abstrato" suas várias leituras do mundo que o cerca e o
metodologia está a busca: da construção de atinge interiormente.
sentidos através de desvelamento das relações
textuais (exploração das idéias, argumentos, Esse é um fenômeno bastante complexo.
elementos de linguagem, implícitos...), intertex- '
Bibliografia Hoje, aqui, pretendemos apenas destacar
tuais (relação do texto com outros textos) e GERALDI, João Wanderley. "Prática de - leitura (dentre os muitos que a análise do problema
contextuais (relação do texto com 9 contexto em de textos na escola". In: Leitura: teoria e prática. permite) alguns pontos para debate agora ou
que leitor/autor se inserem). Mercado Aberto, ano 3, n? 3, 1984, p. 25. para reflexão posterior, uma vez que estamos
A esta altura acreditamos já ter definido o Diretrizes para o aperfeiçoamento do ensino/ diante de uma "questão aberta", cuja solução
aprendizagem da Lingua Portuguesa. MEC. definitiva (?) sem dúvida, ainda tardará...
espaço da literatura infantil e juvenil no ensino 1986
de língua portuguesa. Só gostaríamos de frisar 1. Contemporaneamente o conceito de "leitura"
GERALDI, João Wanderley, Op. cit., p. 16 está essencialmente ligado ao conceito de
alguns pontos de nossa reflexão. PAULINO, M. das Graças R "Leitura literária".
Conferência pronunciada no 1° Encontro de Pro- "cultura", na medida em que, "leitura" deixou de
Não negamos os perigos da escolarização da ser entendida como simples atividade mental,
literaturaa no 1° grau. Ela tem servido de pretex- fessores de Língua Portuguesa de Juiz de Fora,
1987, mimeo. isolada, que depende apenas do domínio mecâ-
td a tantas causas pedagágicas!... Acreditamos, nico da linguagem escrita; para ser descoberta
LAJOLO, M. "O texto não é pretexto". In: ZILBER-
no entanto, que precisamos correr esse risco, MAN, Regina (org). Leitura em crise na escola: como atividade polivalente que implica, no lei-
pois a escola representa para a maioria das as alternativas do-professor. Mercado Aberto, p. tor, a interação de suas disponibilidades men-
crianças a única forma de aceso a esta opção de 51-62. tais, sensoriais e afetivas, com as influências re-
leitura. Ruim com a escola, pior sem ela, alguns MAGNANI, Maria do R. M. "Algumas considera- cebidas do mundo exterior, onde vive.
chegam a caracterizar a literatura como uma lei- ções sobre a prática de leitura de textos". Confe-
tura secundária na escola brasileira considera- rência pronunciada no 1? Encontro de Profes- Por sua vez, tais "influências" resultam das
da a urgência em se preparar os alunos para sores de Língua Portuguesa de Juiz de Fora, "leituras" espontâneas e naturais que o indivíduo
enfrentarem as leituras que a sociedade cobra 1987, mimeo. realiza, ao conviver com o que está à sua volta.
deles. INDURKY, Freda e ZINN, M. Alice Kauer. "Leitu- Nessa ordem de idéias, conclui-se que leitura e
Para nós tem sido diferente. Sem acreditar ra como suporte para a produção textual". In: leituras se influenciam reciprocamente: os li-
que os que lêem textos literários são necessaria- Anais do 4? COLE. Campinas, 1983, p. 207-213. mites ou alcance da leitura-de-texto estão vincu-
Programa de Ensino de Língua Portuguesa e lados aos limites ou alcance da leituras-de-
mente melhores e mais lúcidos que os que não Literatura Brasileira para o 1° e 2° graus. Secreta-
lêem, sem acreditar que ela seria a redenção da ria de Estado de Educação de Minas Gerais. mundo (visuais, auditivas, sensoriais, emotivas,
pátria e das classes oprimidas, apostamos no Belo Horizonte, 1986. intelectuais, fisiológicas, etc.) já assimiladas pelo
leitor e que, ao mesmo tempo, são enriquecidas,
modificadas ou ampliadas por aquela leitura-de-
texto.
Daí que as diferentes propostas, que vêm sen-
Leiturc versus Lcituras do feitas para uma nova ou possível didática da
leitura, tenham como denominador comum essa
interação, - a que se dá em todo leitor, entre a
Nelly Novaes Coelho "cultura ambiental", já por ele assimilada, e suas
possibilidades ou limites da decoclificação dos
Professora, pesquisadora da USP. Ensaísta e crítica
literária textos (literários ou não) que lhe forem dados
para leitura (isto é para compreensão e inter-
pretação do sistema de signos verbais ali regis-
iiug ma das marcas do nosso tempo é a des- a saciedade que um dos pontos críticos dos tados).
coberta da "leitura" como um dos fenô- debates têm sido, exatamente, os problemas A certeza desse fenômencs psíquico-
menos mais importantes, dentro do pro- ligados às relações entre leitor e leitura. intelectual é que gera as inúmeras atividades
cesso da educação e, ao mesmo tempo, Para simplificar, podemos dizer que na raiz pedagógicas que, desde o estágio do pré-leitor,
dos mais complexos da pedagogia moderna (e desses problemas estão, pelo menos, duas cau- partem do mundo real, visual e concreto; fami-
dos meios de comunicação-de-massa...). sas distintasnas interligadas Uma, seria a regu- liar e acessível à criança, para chegarem à no-
Professores, bibliotecários, pesquisadores ou lamentação oficial do ensino que, dos anos 70 meação das referidas realidades. E com esse
estudantes que, nestes últimos anos, têm para cá, tornou obrigatória a leitura literária, ou processo (que vai do real para sua representa-
acompanhado os inúmeros congressos, encon- melhor coloca como condição básica do ensino ção verbal) vão se estabelecendo no espírito da
tros, seminários, mesas-redondas, etc., que (co- da língua a convivência das crianças com a criança as relações existentes entre o mundo
mo este Congresso Brasileiro de Literatura literatura. Outra, seriam os resultados das expe- concreto da praxis e o mundo abstrato do pensa-
Infantil e Juvenil), vêm sendo realizados em to- nências psicolinguísticas, provando que ã aqui- mento, das idéias e da linguagem. Nessa linha
dos os nossos grandes centros urbanos, em tor- sição e o desenvolvimento da linguagem nas inscrevem-se também todas as práticas que re-
no de literatura destinada às crianças, já sabem cnanças, longe de ser uma atividade interior, comendam que se parta da "realidade do aluno". -

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para se chegar à aprendizagem de realidades e intocáveis, consagrados pela tradição e pre- difundida caoticamente pelos mil meios-de-
que lhe são totalmente desconhecidas. servação pela Sociedade. Acervo esse que de- comunicação -de-massa (que alcança cada indi-
2. Diante desse novo conceito de leitura, como vena ser assimilado pelos novos e reproduzidos víduo no mais íntimo de sua privacidade), come-
atividade polivalente, cabe uma pergunta: por em suas vidas, sem nehuma alteração, para que çam a ser valorizadas as chamadas "culturas in-
que ele vem provocando tanto debate e tantas "sistema" pudesse se perpetuar. Desse objeti- feriores" (a dos povos colonizados, a de grupos
controvérsias, se todos estão de acordo quanto à vo, surgiu a pedagogia tradicional, fundamenta- marginais ao progresso social, etc.) O mundo se
referida interdependência entre leitura-de- da no autoritarismo do professor (detentor das transforma em urna imensa "aldeia global"
texto e leitura-de-mundo? Onde estariam as dis- verdades) e caracterizada pelas atividades re- (McLuhan) onde convivem as mais díspares
cordâncias? produtoras, miméticas... que apelavam basica- "culturas", cada qual reivindicando (e aparente-
Permito-me, aqui, voltar um pouco no tempo. mente para a memória do aprendiz (e não, para mente conseguindo) igual legitimidade em rela-
Parece-nos evidente que essa "interdependên- estimulo de suas potencialidades, como se ção à "cultura oficial". Portanto, na "cultura de
cia" não foi desconhecida pelas sociedades do propõe hoje). mosaico" (Jean Onimus) que atua diariamente
passado. Mas a verdade é que, antes do nosso 3. Do exposto facilmente se deduz que o atual sobre nós (princiPalmente através da televisão e
século, nunca constituiu problema. E isso por- . debate em tomo da leitura .de literatura (e do dos meios publicitários) convivem, num mesmo
que, como sabemos, em cada época, impõe-se . ensino da água), para além de ser um proble- plano de valor, as grandes criações da cultura
sempre uma única cultura, tida como absoluta e ma cultural, é um 'problema político. Há vários clássica e as produções "alternativas"; a arte pri-
verdadeira, que anulava ou reduzia ao silêncio "mundos" ou "realidades" que lutam pela própria mitiva e as mais sofisticadas artes experimen-
quaisquer outras, diferentes, que pudessem hegemonia nas sociedades modernas... e en- tais; os misticismos orientais; a filosofia banto, a
existir. Assim, o progresso da humanidade de- quanto dura essa luta ou esse confronto de forças dos "hippies", a dos "punks", a música selvagem,
pendeu sempre da adaptação dos indivíduos à díspares, hão há possibilidade de conciliação e a "clássica", o rock-and-roll ou a pura explosão
cultura dominante em seu tempo. E em nosso de se conseguir uma nova unidade. de ritmos, sons e gestos libertos; a dissonância e
tempo histórico, essa cultura se caracterizou É preciso lembrar que após a Segunda Guer- a harmonia; o culto do Kitsch, do mau gosto, da
sempre pela busca de homogeneidade ou de ra, rompe-se definitivamente a unidade cultural mediocridade, ao lado de formas belas, supe-
unidade dos valores ou padrões conSagrados; do Ocidente, uma vez que se abala pela raiz a riores, requintadas... •
aos quais todos os indivíduos "civilizados" tinham hegemonia politico-econômica da Europa, a São eqsas algumas das mil leituras-de-mundo
que se adaptar, para alcançarem a auto- fundadora e guardiã da cultura tradicional. Ao que se oferecem hoje a cada indivíduo, sem que
realização, apontada como ideal, pelas forças mesmo tempo, os avanços na área das ciências haja um "filtro selecionador" que lhes dê unidade
sociais unificadoras. • humanas (Antropologia, Etnologia...) rompem ou possa homogeneizar a imagem de mundo
Como resultado, houve sempre uma rígida com o conceito de "cultura universal", para cria- que cada um apreende, assimila e transforma
separação cultural entre povo (aqueles que não remo novo conceito de "identidade cultural" que em vivência interior.
tinham acesso à leitura-de-mundo oficial, ideal, seria específica de cada povo. Nesses rastros, Daí a polêmica atual: leitura (de textos) versus
letrada ou culta) e classes dominantes (aqueles uma transformação estrutural começa a se pro- leituras (do mundo) que se diversifica em
que pautavam suas vidas ou sua leitura-de- duzir no mundo. A multiplicidade de povos ou "culturas" díspares.
mundo pelos valores ideais e absolutos da cultu- de grupos que procuram ascenção no concerto Dal as naturais discordâncias quanto à orien-
ra instituída). das nações, corresponde à multiplicidade de tação didática que seria ideal, para levar a bom
Nessa ordem de idéias, compreende-se por- sistema culturais, que se defrontam hoje no es- termo a interação: leitura a ser proposta às crian-
que no passado não houve, como há hoje, polê- paço planetário e nos atingem a cada momento. ças, meninos ou jovens e as diferentes leituras
micas acerca da leitura-de-textos contraposta a Entretanto. como nehuma transformação es- que cada um já possui, interiorizadas, como "ba-
possíveis e diferentes leituras-de-mundo. Como trutural se faz sem desequilíbrios profundos, o gagem cultural" indispensável à decodificação
havia uma só cultura oficial, considerada legíti- rompimento daquela unidade cultural (que até verbal necessária.
ma pelos poderes dominantes, todos os leitores há pouco servia de base ao mundo ocidental) Analisando os vários aspectos do problema,
tinham como horizonte, para suas leituras-de- vem provocando a grande diáspora dos nossos cada um de nós deve fazer sua opção e se enga-
textos, uma mesma leitura-de-mundo: aquela tempos. É fácil verificar que já não há, em parte jar nas experiências indispensáveis para que
que a cultura instituída permitia. Qualquer dife- alguma, uma única cultura ou ordem-de- um dia cheguemos a um novo sistema de ensino/
rença que pudesse surgir era ignorada ou mini- valores ou de certezas a servir de base ou de aprendizagem ... e no qual possam ser concilia-
mizada... E com isso as duas leituras coincidiam princípio orientador aos homens. Consciente ou das a liberdade individual e o respeito pela cole-
sempre: a da decodificação verbal do texto e a inconscientemente, vivemos hoje em plena era tividade. Ou ainda, a invenção, a criatividade de
do contexto ideológico que lhe servia de guia ou do relativismo. Nada é certo, indiscutível ou cada um com a disciplina exigida por qualquer
parâmetro. absoluto. Tudo depende de... sistema social.
Complementarmente, na .área do ensino, ha- Assim, ao lado da "cultura selvagem", gerada Como dissemos no início, estamos diante de
via um só objetivo: transmitir, de geração para pelo progresso fantástico de nosso século, em uma "questão em aberto"...
geração, o acervo de valores culturais, absolutos todos os setores do conhecimento e da ação, e

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Leitura em sala cc aula:
filosofia ce ecucação c e vida.
Werner Zotz
Autor de livros pa5a crianças

scritor, fui convidado para falar com


E vocês sobre leitura em sala de aula. Isso
se explica...
Enquanto escritor; sempre busquei'
maioria das faculdades de Letras, já é uma reali-
dade em dezenas delas. E a cada ano, mais e
mais faculdades acordam para o que deveria ser
seu principal objetivo: formar e capacitar edu-
dar ao meu oficio - e às obras dele resultantes - cadores, seres pensantes e inquietos, preocupa-
dimensão de empreendimento e arte, com reais dos com o futuro e com a realização do homem.
características literárias. Em contraposição a as- P.- E você acredita que a adoção de livros na
. pectos tidos como educacionais (lições de mo- escola contribui para criar o hábito da leitura?
ral, de bons costumas ou mesmo pretexto para R.- Primeiro, gostaria de fazer uma correção:
ensino de regras gramaticais), a inquietação, as mone de Beauvoir afirma que "toda obra literária prefiro falar em prazer da leitura e não em hábi-
dúvidas, as perguntas... • essencialmente é uma procura". Além de um to. Os hábitos podem ser muitos, nem todos agra-
No entanto, nestes últimos dez anos, a par das bom texto, precisa ter uma estrutura, caracteri- dáveis. E leitura deve ser sinônimo de prazer,
atividades literárias, envolvi-me também com zar-se como empreendimento... de gostosura..
um trabalho preocupado com os rumos da edu- P.- Os mesmos critérios valem para a literatura Não, o fato de se colocar um livro da mão da
cação em nossas escolas. Mais precisamente, infantil e juvenil? criança não é garantia de ser estar contribuindo
com a leitura em sala de aula. Assim, já viajei por R.- Acredito que a literatura infantil e juvenil tem para a formação de um futuro leitor. Ao contrá-
centenas de cidades brasileiras. Discutindo linguagem e características peculiares. Não a rio, isto até pode afastar alguém do convívio com
meus livros, sim. Mas, principalmente debaten- linguagem recheada de diminutivos e com vo- os livros. Dependendo do caso, a leitura tanto
do - com professores e universitários - o papel e cabulário simplório. Falo de uma linguagem de- pode transformar-se em sinônimo de esponta-
a importância do educador na formação de no- purada, trabalhada e que, por isso mesmo, al- neidade, liberdade e prazer, como também de
vos leitores, como um processo capaz de des- cança a verdadeira simplicidade. E o livro tam- chateação, de cobrança, de dever escolar, de
pertar pessoas e consciências críticas, com ra- bém precisa ser gostoso. Muitas crianças, ao castigo...
ciocínio próprio... contrário dos adultos, ainda não formaram seu P.- Então, qual a saída?
Havia elaborado um resumo do que deveria próprio mecanismo de defesa contra os livros R.- Não existe uma receita pronta, pelo menos
ser esta conversa. Agora, acredito ser mais pro- chatos, piegas ou pedantes. E ainda levantar eu não a conheço. O educador vai precisar usar
dutivo entrarmos direto numa conversa mais problemas, fazer pensar, ser dar lições toda sua sensibilidade, tendo em mente que
franca e direta. Os motivos: muitos dos assuntos prontas... cada situação e ocasião tem aspectos muito par-
que eu abordaria, já foram enfocados por pales- Mas, mesmo tendo características peculiares, ticulares.
trantes anteriores; como não pudemos iniciar as no geral, os critérios devem ser os mesmos da É preciso nunca esquecer que, infelizmente,
atividades na hora prevista, e como nos resta dita literatura adulta. É preciso também lembrar escola é sinônimo de chatice. O aluno tem pavor
pouco tempo, a conversa vai possibilitar respon- que nem tudo que se publica para leitura dos de dever, de lição, de prova, de cobrança (Mais
der mais de perto às suas dúvidas. adultos pode ser considerado literatura. lamentável que que, normalmente, tem razão,
Mas ainda, antes de iniciarmos esta conversa, P.- O que você queria dizer com o perigo da porque se cobra dele tanta coisa sem sentido...).
gostaria de registar uma observação. Normal- intelectualização?. E o que lhe é exigido dentro desse contexto
mente, em contato com educadores, busco ex- R.- Há pouco, ouvindo vocês discutirem a leitura sempre será associado a esta imagem
pressar minha preocupação com um arrazoado. em sala de aula, em apartes à palestra anterior, Assim, o primeiro cuidado é coma escolha do
de livros lançados como sendo literatura infantil. percebi uma certa tendência em se analisar o livro. O cuidado não pode restringir-se à lingua-
ou juvenil, que no entanto nada tem de literatura. assunto apenas pelo lado acadêmico... gem, mas também com o interesse do assunto,
São apenas livroscontando uma história, e apro- Por que isso acontece? Pela própria deficiên- com a forma de abordá-lo e desenvolvê-lo. E
veitando-se de um momento propício de marke- cia do nosso ensino, e o ensipp supefior não é fundamental não negar ao aluno a possibilidade
ting comercial. Aqui, ao contrário, pelo que exceção à regra geral. Por praconceito contra a de pelo menos palpitar, não lhe negando a liber-
. pude perceber, corre-se o risco inverso. De literatura infantil e juvenil: Por desconhecimen- dade de divergir.
intelectualizar de tal forma o estudo da literatura, to, já que muitos professores universitários não Com o livro escolhido, começa o calvário
que nossa linguagem também não vai ser com- se atualizaram. Por uma visão elitista do saber e maior: o texto vira pretexto para provas, de-
preendida. do conhecer: os professores formam os alunos à veres, estudo da análise sintática e de gramáti-
... Estou à disposição para iniciar nossa ., sua imagem e semelhança, buscando ¡passar- ca. O prazer da leitura é substituído pela obriga-
conversa... lhes as mesmas preocupações, sem se darem ção de se preencher corretamente uma chata
P.- Com respeito à sua última observação... conta que a maior parte deles irá encaminhar-se ficha de leitura..
Quais seriam os critérios para julgar uma obra mesmo é para o ensino de primeiro e segundo É preciso avaliar o aluno, trabalhar o livro em
literária? graus. Pela valorização exagerada da gramática sala de aula? Então, por que não inventar e im-
R- É fundamental que um livro seja bem escrito. e das regras normativas da nossa língua, daí que provisar atividades gostosas, lúdicas? Mas nun-
Sem esta característica, não se pode afirmar que o "saber" passa a contar mais que o "pensar". E ca com o objetivo de dar nota ao aluno, como
seja uma obra literária. No entanto, escrever também, é forçoso que se diga, por uma defor- resultado da leitura Porque o importante não é o
bem é apenas um dos deveres do escritor. Si- mação cultural e literária: substitui-se a leitura resultado, é o processo...
pelo estudo do estruturalismo ou qualquer outro
modismo do momento. O mesmo acontece nos
cursos pedagógicos que formam professores
que irão lecionar nas primeiras séries do primei-
ro grau. •
Embora lentamente, caminhamos para mudar
este panorama. A literatura infantil e juvenil,
mesmo não estando integrada ao currículo da

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SECRETARIA MUNICIPAL
DE EDUCAÇÃO E CULTURA
CRIXÃS - GOL

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