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Revista Científica Brasileira de Coaching

VOLUME 1 / NÚMERO 3 / 2014

ABORDAGEM CIENTÍFICA DO COACHING


REVISTA CIENTÍFICA BRASILEIRA DE
COACHING (BRAZILIAN JOURNAL OF
COACHING)

A Revista Científica Brasileira de Coaching (Brazilian


Journal of Coaching) é uma revista destinada a
apresentar os resultados dos estudos sobre coaching
desenvolvidos no Brasil e no mundo e uma iniciativa
da Sociedade Brasileira de Coaching® com publicação
quadrimestral.

Av. Fagundes Filho, 141, 11º andar - CEP 04304-010


- Vila Monte Alegre, São Paulo/SP – Brasil

Tel.: (11) 3775-5333 e (11) 4040-4213

Presidente
Villela da Matta

Vice-Presidente
Flora Victoria
SBCOACHING
EDITORA

EDITORES-CHEFES
Flora Victoria / Villela da Matta

EDITOR ADJUNTO
Jeferson Almeida

ASSISTENTE EDITORIAL
Rodrigo Vieira de Almeida

NORMALIZAÇÃO BIBLIOGRÁFICA E
REVISÃO
Renato Barreto

PROJETO GRÁFICO
Thiago Charlo Alves

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO


Flora Victoria
ĂƌŽů<ĂƵīŵĂŶ
S. Grace Russel
DĂƌLJtĂLJŶĞƵƐŚ
Fabio Paiva Reis
>ƵŝƐŶƚƀŶŝŽsĞĐŚŝĂƚŽ COMISSÃO EDITORIAL
Claudia Hölter
DĂƌŝŽŝǀŽDŽƩĞƌ:ƵŶŝŽƌ sŝůůĞůĂĚĂDĂƩĂͲ^ŽĂĐŚŝŶŐΠ
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6
ESCOPO
A Revista Científica Brasileira de Coaching (Brazilian
Journal of Coaching) tem como missão fomentar a
produção e a disseminação de conhecimento nas
diversas áreas de coaching.

A Revista Científica Brasileira de Coaching (Brazilian


Journal of Coaching) tem interesse na publicação
de artigos de desenvolvimento teórico, trabalhos
empíricos e ensaios. Aceitam-se colaborações do Brasil
e do exterior, nos campos relacionados ao Coaching
e de áreas afins. A pluralidade de abordagens e
perspectivas é incentivada. Como revista generalista
na área, cobre um espectro amplo de subdomínios
de conhecimento, perspectivas e questões.

A Revista Científica Brasileira de Coaching (Brazilian


Journal of Coaching) utiliza um modelo de negócios
no qual os gastos são recuperados em parte pelas
taxas de publicação do autor ou financiadores da
pesquisa de cada artigo publicado. Em 2014, artigo
original, relato de caso, relato de experiência, mini
revisões, pontos de vista, editoriais e carta ao editor
serão gratuitos.
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EDITORIAL experiências e definições de sucesso no processo de
coaching.
Apresentamos, com grande prazer, mais um número
Este número da RCBC apresenta também a
da Revista Científica Brasileira de Coaching (RCBC),
tradução Psicologia Positiva: A ciência no coração
editada pela SBCoaching Editora, pertencente
do coaching, de Carol Kauffman, do Institute of
ao grupo Sociedade Brasileira de Coaching®, em
Coaching (IOC). Neste texto, Kauffman apresenta
parceria com o Institute of Coaching Research
várias tendências que estão surgindo na teoria e
(ICR). Neste terceiro número da revista, a seleção
na pesquisa da psicologia positiva e explora suas
de artigos e demais textos de interesse dos nossos
aplicações no coaching. São debatidos estudos de
leitores foi pautada pela diversidade de temas e
emoções positivas, o estado de flow (fluxo), a terapia
abordagens sobre aspectos variados do coaching e
da esperança e a classificação de pontos fortes, com o
suas implicações sincrônicas e diacrônicas.
objetivo de oferecer uma fonte rica de conhecimento
que pode ser explorada para possíveis intervenções
Abrindo esta edição, o primeiro artigo, Desafios na
de coaching.
relação coach-coachee: O aprendizado de habilidades
sociais como chave para o desenvolvimento
Apresentamos também a resenha de Darlene
humano, de Flora Victoria, explora como a aquisição
Cardoso Ferreira sobre o livro Moral psychology:
da competência social é um requisito para a satisfação
a contemporary introduction (em tradução livre,
do indivíduo consigo mesmo e com o ambiente,
Psicologia moral: uma introdução contemporânea,
afetando positivamente aspectos essenciais como a
publicado pela Routledge), de Valerie Tiberius. É
autoconfiança e a própria saúde das pessoas.
comentado um dos pontos-chave do livro – a saber,
a relação entre psicologia moral e responsabilidade
A partir de uma perspectiva histórica, Fabio Paiva
moral. Para o coaching, esses são temas cruciais,
Reis, em Uma história do coaching, discorre sobre o
por sua ligação com conceitos como ownership e
desenvolvimento do coaching ao longo das últimas
bem-estar.
décadas e do seu crescente e notório processo de
embasamento científico ocorrido neste início de
Por fim, em continuidade à iniciativa de nossa última
século. A análise também aponta caminhos para o
edição, publicamos mais cinco Resumos de Propostas
estabelecimento do coaching como uma cultura
de Pesquisas de Coaching, originalmente elaborados
global.
por Carol Kauffman e colegas. Esperamos que os
temas apontados sejam pontos de partida para o
Já sob um olhar filosófico, o artigo O coaching e o
frutífero terreno de pesquisas a serem desenvolvidas
resgate dos conceitos éticos de virtude e felicidade
na área de coaching.
da Grécia antiga, de Luis Antonio Vechiato, mostra
como o coaching resgata a estreita relação entre essas
Agradecemos a todos que contribuíram para a
duas concepções éticas e trata seus elementos como
elaboração deste terceiro número da Revista Científica
estes foram pensados originalmente. A relevância do
Brasileira de Coaching. Esperamos colaborar com os
coaching na contemporaneidade é destacada no que
estudos nesse cenário e instigar leigos e especialistas
concerne ao comportamento humano e à sua relação
a intensificar o diálogo com os mais variados campos
com o pensamento ético grego.
de pesquisa do coaching.
Em Positive Coaching: uma parceria de sucesso
entre gestores e cogestores, Claudia Hölter discorre
sobre o bem-estar na carreira profissional de
Aproveitem a leitura.
executivos, com ênfase em secretariado executivo.
A autora sinaliza a importância de os indivíduos, em
parceria com seus gestores e por meio dos processos
de coaching e positive coaching, identificarem o seu
Flora Victoria e Villela da Matta
papel e as suas responsabilidades na estruturação e
no autogerenciamento de suas carreiras, tendo como
foco o aumento do nível de florescimento individual
e organizacional.

O cenário do coaching no Brasil é o tema explorado


por Mario Divo Motter Junior e Flávio Carvalho de
Vasconcelos em Os significados do sucesso em
coaching: Uma visão do contexto brasileiro. Neste
artigo, os autores buscam desvendar os requisitos
que constituem o sucesso do processo de coaching
e do relacionamento entre coach e coachee, à luz
de uma abordagem preocupada em contextualizar
a perspectiva do cenário brasileiro em relação a
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11

SUMÁRIO / TABLE OF CONTENTS

ARTIGOS

Desafios na relação coach–coachee: O aprendizado de habilidades sociais como chave para


o desenvolvimento humano
Challenges between coach and coachee: The learning of social skills as the key to human development.
Flora Victoria .....................................................................................................13

Uma história do coaching


A history of coaching
Fabio Paiva Reis ..................................................................................................23

O coaching e o resgate dos conceitos éticos de virtude e felicidade da Grécia antiga


Coaching and the rescue of the ethical concepts of virtue and happiness of Ancient Greece
>ƵŝƐŶƚƀŶŝŽsĞĐŚŝĂƚŽ...........................................................................................31

Positive coaching: Uma parceria de sucesso entre gestores e cogestores


Positive coaching: A successful partnership between managers and co-managers
Claudia Holter ....................................................................................................41

Os significados do sucesso em coaching: Uma visão do contexto brasileiro


The meaning of success in coaching: A vision of the Brazilian context
DĂƌŝŽŝǀŽDŽƩĞƌ:ƵŶŝŽƌĞ&ůĄǀŝŽĂƌǀĂůŚŽĚĞsĂƐĐŽŶĐĞůŽƐ ............................................51

TRADUÇÃO

Psicologia positiva: A ciência no coração do coaching


Positive psychology: The science at the heart of coaching
ĂƌŽů<ĂƵīŵĂŶ ..................................................................................................79

RESENHA

Usando a psicologia moral para o desenvolvimento do coaching: A moralidade como um dos


caminhos para o bem-estar
Using moral psychology to coaching development: Morality as a way towards well-being
ĂƌůĞŶĞĂƌĚŽƐŽ&ĞƌƌĞŝƌĂ ....................................................................................101

PROPOSTAS DE PESQUISA

Resumo de prospostas de pesquisas de coaching


Coaching research proposal abstracts
ĂƌŽů<ĂƵīŵĂŶ͕^͘'ƌĂĐĞZƵƐƐĞůĞDĂƌLJtĂLJŶĞƵƐŚ ..................................................107
UMA HISTÓRIA DO COACHING

2 A HISTORY OF COACHING

Fabio Paiva Reis


Mestre em História Social.
Doutorando em História pela Universidade do Minho, em Portugal.
Associado ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.
Desenvolvedor de Conteúdo da Sociedade Brasileira de Coaching®.
E-mail: fabioreis.es@gmail.com
24
25

UMA HISTÓRIA DO COACHING


A HISTORY OF COACHING

RESUMO: O objetivo deste artigo é apontar as origens do coaching a partir de estudos preexistentes e tentar
entender o que ele é e o que ele não é. Essas são questões recorrentes na atualidade e justificadas pelo fato
de o coaching ser muito recente, ter raízes em diversas disciplinas e ainda pouca base histórica. Por esse
motivo, este artigo discorrerá sobre o desenvolvimento do coaching nas últimas décadas do século XX e o seu
embasamento científico no século XXI como estrutura para o seu estabelecimento futuro como cultura global.

PALAVRAS-CHAVE: História. Coaching. Disciplinas.

ABSTRACT: The aim of this article is to identify the origins of coaching based on pre-existing studies and to
try to understand what it is and what it is not. These are recurring questions today and they are justified by
the fact that coaching is very recent, has roots in various disciplines and has little historical basis. Because
of that, this article discusses the development of coaching in the last decades of the 20th century and its
scientific basis in the 21th century as a framework for its establishment in the future as a global culture.

KEYWORDS: History. Coaching. Disciplines.


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INTRODUÇÃO questionados sobre as últimas décadas do século


XX, quando tudo parece ter de fato começado.
Publicações recentes, como as de Vikki Brock e Leni
Dizem que Tim Gallwey, aluno da Universidade de
Wildflower, são fontes importantes da História do
Harvard na década de 1970, ensinava outras pessoas
processo de consolidação do coaching em todo o
a jogar tênis. Um dia estava lá, no fim de mais uma
mundo.
tarde. Jogava as bolas de volta para os alunos de
maneira monótona, cansativa. Nessa hora, começou
a reparar que seus alunos pareciam melhorar no jogo,
mesmo sem ele apresentar um grande desafio ou dar DESENVOLVIMENTO
quaisquer instruções. Gallwey notou então que, no
subconsciente, seus alunos estavam percebendo o O coaching surgiu a partir da interação entre
próprio potencial. diferentes disciplinas e ciências, cruzadas de modo
a desenvolver sua raiz como junção de ideias. Nesse
Sarah Cook continua a história em seu livro Coaching sentido, a sua base já estava flutuando nos mares da
for High Performance (2010). Ela é fundadora e História há anos, nos campos profissionais de seus
diretora administrativa da Stairway Consultancy, pioneiros. Vikki Brock faz um pequeno resumo sobre
que oferece consultoria de liderança desde 1989. o coaching na antiguidade. Ela afirma que as raízes
Segundo ela, Gallwey reconhecia que as pessoas do coaching remontam a muito antes do século XX:
sofriam “interferência” de um diálogo interno, em
que diziam para si mesmas o que precisavam lembrar Filósofos orientais e antigos e antigos treinadores
durante o jogo e recriminavam jogadas ruins. Ele esportivos estão entre os primeiros praticantes.
chamou isso de Self 1. Ele percebeu também que havia No Oriente, o foco do treinamento físico era
momentos de fluxo de alta performance, atingido artes marciais ao invés de atletismo. No Ocidente,
quando se alcançava um estado de relaxamento imagens capturadas nas ânforas da Grécia antiga
focado, no qual o diálogo do Self 1 desaparecia e a fornecem evidências de que treinadores de
pessoa atingia o seu melhor. Esse era o Self 2. atletismo tiveram um papel na cultura ocidental
por quase três milênios. Assim como seus
Ele conseguia induzir seus alunos a esse Self 2 a partir homólogos nos esportes modernos de hoje, os
de perguntas simples, mas que os levavam a perceber treinadores da Grécia antiga – eles mesmos ex-
em que situação eles estavam e os faziam pensar em atletas – ajudavam os competidores dos seus dias
como melhorar sozinhos. Gallwey publicou um livro a atingir excelência pessoal (Brock, 2012a).
sobre o assunto em 1974, intitulado The Inner Game
of Tennis. Era o início da aprendizagem autodigirida.
E por causa de sua relação com o esporte, o nome Em seu livro Sourcebook of Coaching History, Brock
dado foi coaching. defende que o próprio Sócrates atuava da mesma
maneira que o coach, pois ele procurava encorajar
Esse é um caso interessante: é um início para o o autoconhecimento (2012b). Da mesma maneira,
coaching. Há sempre muitas maneiras de se contar filosofias orientais como as de Confúcio e Buda
uma história. A que eu quero contar é aquela que queriam que as pessoas encontrassem suas próprias
não fala só da origem do coaching, como o caso de respostas para a vida. De fato, ajudar pessoas a serem
Gallwey, mas também a história que aponta o que melhores é algo que parece fazer parte da natureza e
ele é, ou o que ele se tornou com o passar dos anos. da interação humana.
Dizem que são poucos os que sabem exatamente
o que é o coaching, ou, pergunta ainda mais Brock identifica nove raízes do coaching, a partir
complicada, o que ele não é. Gallwey, em sua quadra das quais esse processo conseguiu o material para
de tênis, trazia mais perguntas do que respostas. O se formar: educação, psicoterapia, estudos de
que não é um problema, já que essa é a base do comunicação, movimento de autoajuda, teoria
coaching. de sistemas sociais, motivação atlética, teorias de
desenvolvimento adulto, movimento holístico e
Acredito que, neste caso, falta uma base histórica. administração e liderança.
Nos sites mais simples da internet é possível
encontrar a história da psicologia, da autoajuda, da Essas raízes são divididas ainda em duas raízes
consultoria, mas não do coaching. Sendo ele mais mestras: uma é a filosófica, na qual o coach encontra
recente que os demais, essa falta de estrutura é, os principais pressupostos e crenças que sustentam o
talvez, compreensível. coaching; a outra é a das ciências sociais, na qual o
coach encontra os modelos e as técnicas que dão a
Meu objetivo, com este artigo, é apontar os base para a prática do coaching.
resultados de uma pesquisa bibliográfica, assim
como o que já foi escrito sobre o assunto. Considero O farmacêutico francês Emile Coué (1857-1926)
a pesquisa relevante porque, existindo de fato há poderia ser encaixado na primeira. Ele começou a
poucas décadas, os próprios pioneiros do coaching notar que, se dissesse para seus pacientes que um
ainda podem ser (e de fato são) entrevistados e remédio daria bons resultados, o remédio parecia ter
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mesmo um resultado melhor do que o esperado. No Na década de 1960, muita coisa aconteceu. “Edgar
século XIX, as disciplinas gerais já se dividiam e se Schein cunhou o termo ‘consulta de processo’ [...]
especializavam, com a psicologia ganhando bastante para descrever o papel não diretivo e questionador
força antes de estourar, no século seguinte. Coué, do consultor com grupos resolvendo seus próprios
interessado nessa nova área, começou a investigar problemas” (Brock, 2012a). Foi nesse período que o
o inconsciente na mesma época de outros grandes coaching surgiu no mundo de negócios. O motivo era
nomes, como Sigmund Freud. Chegou à conclusão a mudança no papel do líder. Programas de liderança
de que o inconsciente tinha um papel importante em começaram a lidar com temas voltados ao coaching,
nossas vidas e, mais importante, que ele poderia ser pois o novo líder precisava unir o desenvolvimento
manipulado e alterado (Voyles, 2014). organizacional com a psicologia.

Ele abriu uma clínica, onde começou a testar melhoras O livro The Inner Game de Tim Gallwey, como
não só mentais, como físicas. Ele desenvolveu um vimos, foi publicado em 1974, mas foi na década
método que permitia às pessoas ganhar os mesmos seguinte que ocorreu o verdadeiro impacto. Muitos
benefícios sem ajuda externa. Coué simplesmente dos primeiros nomes relacionados ao coaching se
dizia aos pacientes que eles iriam melhorar e um conheciam e se relacionavam, e assim desenvolveram
número considerável realmente começou a se sentir a ideia assim que puderam. Na década de 1980, as
melhor. Em um livro publicado em 1922, ele afirmou primeiras empresas começaram a oferecer coaching
que era possível treinar a mente para aceitar mais individual e empresarial nos Estados Unidos e no
sugestões positivas e desvalorizar aquelas negativas. Reino Unido.
Para isso, ele criou uma frase, “todos os dias, de todas
as maneiras, eu estou ficando melhor e melhor”, que Nesse período surgiram também as primeiras
deveria ser repetida como um mantra todos os dias empresas a oferecer treinamentos de coaching. John
de manhã e de noite. Whitmore, após estudar e trabalhar com Tim Gallwey,
utilizou aquela abordagem de performance no Reino
O farmacêutico francês acreditava que tínhamos um Unido e desenvolveu um modelo que seria utilizado
poder sem limites que nos permitiria fazer tudo o que em todo o mundo (Cook, 2010). Piloto de corrida
fosse possível. Ele foi uma grande influência para a inglês até a década de 1960, Sir Whitmore passou a
autoajuda nos Estados Unidos. Pesquisas posteriores se dedicar ao coaching com o objetivo de ensinar as
descobriram que há um limite para o que pode ser pessoas a aprenderem a partir de perguntas abertas
alcançado pela fé, mas o pensamento positivo foi que ajudam o coachee (aquele que recebe o coach)
unido a outras ideias. a aumentar a percepção sobre o seu estado atual e
sobre possibilidades para o futuro.
Da década de 1930 em diante, o foco nos objetivos,
defendido por Coué, foi unido à ideia do empenho Outro modelo foi desenvolvido por Thomas Leonard,
contínuo no aumento de performance. Conselheiros, que montou um currículo que organizava e codificava
terapeutas e psicólogos faziam o princípio do trabalho o coaching para treinar outras pessoas, de diferentes
de coaching, publicando artigos voltados para maneiras, para se tornarem coaches (Dueesae, 2009).
performance e desenvolvimento, além de aconselhar Considerado um dos grandes nomes do coaching,
seus clientes nos mesmos temas. Leonard foi um dos primeiros a viajar todo o mundo
e divulgar seu método.
É importante notar que ainda hoje a prática do
coaching, assim como em suas origens, está em Werner Erhard, que treinava tênis com Gallwey,
construção e em desenvolvimento. Mais importante, iniciou ainda em 1971 o Erhard Seminars Training
por causa de sua própria essência, ela é personalizada (est), um programa que pretendia desenvolver
pelo coach e para o coachee. Cada profissional e habilidades de mudanças na vida. O treinamento
cliente têm o seu contexto e condições específicas durava duas semanas e incentivava as pessoas a se
relativas à situação em que se encontram e àquela desligarem de seus padrões antigos e a encontrar
que desejam atingir. maneiras de alcançar satisfação, e não apenas
procurá-la. O objetivo era ter uma vida focada no
O pós-Segunda Guerra Mundial viu surgir ou serem momento.
fortalecidos processos que seriam muito importantes
na sociedade nas décadas seguintes e que estão Através dos est, que foram realizados entre 1971 e
diretamente relacionados ao desempenho humano. 1985, Erhard uniu pessoas de interesses semelhantes,
A psicologia humanista1 surgiu e se estabilizou, a que ajudaram a formar essa intercessão de disciplinas
meditação transcendental, a autoajuda, tradições e ciências que é o coaching.
espirituais e a medicina alternativa, o fortalecimento
da astrologia e, ainda, as primeiras empresas voltadas Outro importante grupo que discutiu assuntos
para consultoria psicológica marcaram o período. relacionados ainda na década de 1960 foi o Esalen
Institute, fundado por Richard Price e Michael
1
É um ramo da psicologia que divide o mesmo espaço que a psicanálise e a Murphy. Situado na Califórnia, esse instituto atraiu
terapia comportamental. Defende que o ser humano possui uma força de
autorrealização que o conduz ao desenvolvimento de uma personalidade grandes nomes, entre os quais artistas, filósofos e
criativa e saudável.
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psicólogos como o próprio John Whitmore, o escritor Whitmore escrever essa frase, o coaching se encontra
Aldous Huxley (autor de Admirável Mundo Novo), o em um estado de distinção e estabelecimento. Quais
famoso bioquímico Linus Pauling e o psicoterapeuta seriam, então, as influências sofridas pelo coaching
Fritz Perls (um dos desenvolvedores da terapia para chegar ao patamar atual?
Gestalt), entre outros. Todos eles ajudaram a formar
o instituto e deram cursos. Workshops começaram a A psicologia é uma das principais. Até o século XX
ser organizados em grande número, a fim de discutir muito centrada em patologias, doenças ou distúrbios,
questões relacionadas às experiências vividas naquele ela fez seus primeiros investimentos na psicologia
momento. humanista e no modelo de bem-estar. O coaching
abraçou essa nova área, afastando-se das terapias
O instituto formou grupos com o objetivo explícito de invasivas, voltadas para memórias reprimidas e
discutir as atuações nas reuniões do Esalen e como o situações passadas que afetam a vida de um
comportamento de cada indivíduo afetava os outros indivíduo. O coaching utilizou a psicologia de modo
e os comportamentos de outros os afetavam. A ideia bastante interativo, sem se prender aos modelos
era estabelecer um processo de questionamento clínicos, mas com fluidez e voltado aos interesses
para entender reações e impactos entre as pessoas imediatos do cliente. Sua ideia é focar o futuro, sem
envolvidas. Segundo Leni Wildflower, autora do livro presumir que o cliente tenha algum problema, mas
The hidden history of coaching, esses encontros sim que qualquer pessoa, em qualquer situação,
foram revolucionários (2012). pode ser alguém ainda melhor.

Eles davam ênfase ao silêncio, que se seguia a cada A autoajuda, que, como já demonstrado, ganhou
uma das falas dos participantes, desencorajando muita força no início do século XX, forneceu ao ser
brigas e confrontações. Era um processo que poderia humano algumas ferramentas focadas nas diferentes
e deveria ser usado na vida familiar e em ambientes maneiras de se viver. O coaching, apesar de também
de trabalho. Saber ouvir é, também, um dos pilares do ter sido influenciado por ela, fez diferente:
coaching. Muitas outras ideias, como saúde mental e
aumento do potencial humano, entre outras, foram Life coaching como nós conhecemos hoje não é
desenvolvidas no Instituto Esalen desde a década de sobre pregar filosofias, adorar deuses, ou mesmo
1960. dar conselhos. Life coaching é sobre prover
o framework que permita a introspecção. Ao
Conferências e fóruns internacionais permitiram o encorajar a pessoa a se aprofundar nelas mesmas
contato entre essas pessoas e que as ideias iniciais e dar uma olhada estruturada sobre suas vidas,
fossem divulgadas com grande força. Por isso, é um life coach pode ajudá-la a se ajudar a melhorar
impossível apontar um único criador do coaching, e progredir em direção aos seus objetivos (Life
apesar da posição privilegiada de alguns dos nomes Coach Directory, 2014).
aqui citados.

Todos esses programas e muitos outros que surgiram, O mundo organizacional, pela proximidade óbvia
com maior ou menor impacto, ajudaram a disseminar de áreas como administração, desenvolvimento
o coaching ao redor do mundo, primeiro em países organizacional e de carreira e recursos humanos,
de língua inglesa e, em seguida, em países de língua influenciou diretamente o desenvolvimento do
alemã. Poucos anos depois, na década de 1990, o coaching (e é, sem dúvidas, sua principal influência).
coaching abandonou as salas empresariais e migrou
para a vida privada, oferecendo soluções para As áreas que mais se assemelham ao coaching, nesse
relacionamentos, famílias e sociedade. Era o início do mercado, são a consultoria e o mentoring, mas as
processo de diferenciação. diferenças ficaram melhor demarcadas com o passar
dos anos.

DIFERENCIAÇÃO Iniciada no final do século XIX, a consultoria se


estabeleceu no momento da revolução industrial,
que trouxe grande complexidade e especialização de
O que esses eventos e essas pessoas criaram foi uma profissões e disciplinas. Inicialmente subcontratados
rede social que ficou marcada por sua diversidade, pela em organizações com problemas internos,
exploração e inclusão de ideias. Dessa diversidade, profissionais da área aos poucos se estabeleceram
muitos processos se desenvolveram, com objetivos em firmas independentes – as primeiras voltadas
semelhantes. Como escreve John Whitmore, “quer para a área de engenharia (Brock, 2008).
chamemos de coaching, advising, counseling, ou
mentoring, se feito da maneira certa, os princípios e A consultoria se encaixa normalmente em
metodologia fundamentais continuam os mesmos” papéis colaborativos e de expertise, focados no
(1992, p. 9). desenvolvimento organizacional. Um consultor é
normalmente contratado para apontar direções a
A situação atual do coaching talvez não se aplique serem tomadas, soluções, recomendações. Apesar de
mais a essa afirmação. Mais de vinte anos depois de
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suas funções às vezes se sobreporem às do coaching, E a expansão foi grande. Em 1995, havia oito
o papel principal do coach, hoje, é fazer as perguntas programas de treinamento específicos para
a fim de conseguir do próprio cliente o caminho a ser coaching. Quase 10 anos depois, em 2004, já eram
tomado, sem intervenção direta, mas com o óbvio 164 programas diferentes (Brock, 2012a). Doze
interesse no alcance de objetivos e aprendizado. associações foram criadas e dezenas de conferências
foram realizadas. Cerca de 50 livros sobre o assunto
Já o mentoring parece algo que sempre existiu, foram publicados apenas entre 1998 e 1999.
mesmo que não de maneira institucionalizada. É
focado no aprendizado a partir da transferência O século XXI começou voltado para apoiar o coaching
de conhecimento de uma pessoa mais experiente baseado em evidências2. Isso também aconteceu por
para uma menos experiente, por meio de guia de um motivo. Especialistas consideram o ano 2000
desenvolvimento e aconselhamento de carreira, como o tipping point (ponto crítico) da emergência
entre outros métodos. do coaching, quando o processo alcançou o seu
maior potencial de “contaminação” da primeira
O coaching se estabeleceu no mercado, em seus onda de modelos e processos de aplicação, em que
anos de desenvolvimento, de tal maneira que o empresas e profissionais disponibilizariam seus novos
coach não é necessariamente mais sábio no quesito serviços e melhorariam as ideias iniciais.
organizacional ou pessoal. O lado profissional do
coach se especializou em apresentar as ferramentas Para “epidemias” como essa, deve haver sempre
para que o coachee se desenvolvesse por si só, uma nova curva de inovação, intercalada com a curva
sem que fosse necessário que o profissional se anterior, que permite que o processo se revitalize e
especializasse na área do cliente. “contagie” novas pessoas, as quais, por sua vez, darão
início às novas curvas de inovação (Gradwell, 2002).
Entre essas e outras áreas de especialização, Atualmente, o coaching termina sua segunda curva,
portanto, o coaching encontrou influências, bases uma curva de proeminência: após um crescimento
metodológicas e uma área de mercado no qual rápido e desenfreado, livros e revistas com peer review
pudesse atuar. (revisão por pares) começaram a ser publicados. Era
preciso estabelecer um padrão científico, desenvolvido
por meio de pesquisas acadêmicas, que garantisse a
ESTABELECIMENTO qualidade do coaching baseado em evidências.

Ao encontrar o seu lugar no mundo, houve um boom A década de 2010 traz o coaching já estabilizado
do coaching na década de 1980: pesquisas doutorais academicamente, prevendo uma nova curva, iniciada
em universidades americanas começaram a surgir e a em 2005, cujo ponto crítico deverá acontecer em 2020.
tentar entender melhor as vantagens oferecidas pelo Para Vikki Brock, essa nova curva de desenvolvimento
processo. Diversos artigos apareceram em revistas estabelecerá o coaching como uma visão de mundo,
acadêmicas ou revistas voltadas para negócios, uma cultura global, entrelaçada com a própria vida das
discutindo o tema de maneira mais rápida e fluída na pessoas e espalhada através de interações e relações
sociedade. Era o progresso do coaching. humanas como um movimento social aberto e fluido
(2010).
Houve um motivo para esse boom. Foi uma época em
que se enraizaram na sociedade as questões-bases Para além do presente, portanto, imagina-se a
do coaching, como psicologia, negócios, esportes e, abordagem do coaching como parte integral do
principalmente, educação adulta. Vikki Brock escreve desenvolvimento humano, muito além do meio
sobre o assunto: organizacional, com novas formas de coaching que
poderão conviver ou eclipsar as que são atuais.
O setor de negócios estabilizou ferramentas e Caberá à comunidade do coaching continuar como
teorias, incluindo aquelas que se concentravam no uma rede social, aberta a discussões e à diversidade
individual e aquelas que focavam a organização. de ideias, promovendo essas mudanças, ou mudar e
Coaching individual foi praticado nos anos 1980 se estabelecer como um modelo fechado.
em portas fechadas, na forma de aconselhando
no ambiente de trabalho focado em problemas,
pessoas afetando os negócios como um todo, CONCLUSÃO
e estava disponível apenas para executivos. O
movimento do coaching em nível administrativo A história de Gallwey em sua quadra de tênis é apenas
intermediário ofereceu ao coaching sua grande uma das origens do coaching, que parece ter vindo
oportunidade de crescimento inicial. Aqueles que de diversos lugares. Antes dele, os Erhard Seminars
trabalhavam no desenvolvimento de organizações Training e o Esalen Institute já reuniam as pessoas ao
e consultoria administrativa estavam também redor do mesmo tema: o desenvolvimento humano.
bem posicionados para expandir seus esforços
(Brock, 2012a). 2
O coaching baseado em evidências é um tópico desenvolvido pelos
autores Anthony Grant e Dianne Stober no livro Evidence Based
Coaching Handbook (2006).
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Muito antes deles ainda, existiram os precursores das Gradwell, M. (2002). The Tipping Point: How Little
disciplinas que deram início à especialização científica Things Can Make a Big Difference. Boston: Back Bay
ao redor do homem, principalmente a psicologia. Books.
Coué, no século XIX, contemporaneamente a Freud,
desvendava os segredos do inconsciente e apontava Grant, A., & Stober, D. (2006). Evidence Based
para a importância dele no bem-estar de cada um. Coaching Handbook. Chichester, UK: John Wiley &
Sons.
Nas últimas décadas do século XX o coaching
dividiu espaço com outros processos utilizados para Life Coach Directory. (2014). History of Life
melhorar a performance no meio organizacional e Coaching. Acesso em 15 de 09 de 2014, disponível
se especializou. Foi na década de 1980 que ele de em Life Coach Directory: http://www.lifecoach-
fato se tornou independente de suas disciplinas- directory.org.uk/content/history-life-coaching.html
bases e encontrou espaço para atuar também na vida
particular d e cada um. Voyles, B. (2014). Emile Coué: Coaching Forefather?
Acesso em 09 de 09 de 2014, disponível em The
Por fim, foi na virada do século que o coaching Coaching Commons.
começou a basear seu processo, suas ferramentas
e resultados em evidências científicas, a fim de Whitmore, J. (1992). Coaching for performance:
encontrar validações que justificassem a sua Growing People, Performance and Purpose. London:
existência e importância. Nicholas Brealey.

Ainda jovem, o coaching parece estar caminhando Wildflower, L. (2012). The hidden history of
para se estabilizar como uma cultura global, presente coaching: Esalen and the human potential movement.
em todos os níveis da vida. Isso, porém, já está além Association for Coaching 10th Anniversary
da História. Conference: From Inner Game to Neuroscience, (pp.
1-9). Edinburgh.

Wildflower, L. (2013). The hidden history of


coaching. Berkshire: Open University Press.
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learn-about-coaching/the-history-of-life-coaching/