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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(C âm ara B rasil eira do L ivro, SP, Brasil )

Snbnclcll, Ana Lucia


M anual dc soc iologia jurídic a : introduç ão a uma leitura externa do direito /
Ann Lucin Snbndell. - 2 . cd, rev., a tual. c am pl. - Sfl o Paulo ; Ed itora Revist n
<!<>' Tribunais. 2002.

Hibliografia.
ISIIN R!S-203-23IO-Í

I i>mí■11' lo(*ih Jiiifdicn. I T íh ilo .


d* 1KH CD U -34:301

11n111 i |itti n i ii( iMi(|p«i *iMn nrill< o: I Snriolnprin jurídica 34:301


ANA LUCIA SABADELL

MANUAL DE
SOCIOLOGIA
JURÍDICA
l
Introdução a uma leitura externa do direito

2 ." ediçã o rev ista, atualiza da e am pliada

E D IT O R A I V I I
REVISTA DOS TRIBUNAI S
MANU a L Ot s SOC IO LO GIA JURÍDI CA
In tm tlm (To a uma leitura externa do Direito

’ ciliçno ivvísl a, alual izad a o . am pli ad a

Aha I .nciA SAi!Ann.Li,

\tu<ili<.ação a té outu b ro d e 2 00 2 .

OU2736

f*’►dcstii rríiçiln: 7003


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I >ÍH'llnK Anlornls)

liup irss n no Brasil ( I I - 2002 )


IMIN 81.?03 23tO 3
P ar a Dimitri.
INTRODUÇÃO À 2." EDIÇÃO

A sociologia jurídica tem como objeto de estudo a realidade do di


reito e isto impõe ao pesquisador a necessidade de acompanhar as trans
formações que sofre o sistema j urídico, atualizando co nstantem ente suas
referências. Por t al motivo, na nova ediçã o de nosso M anual, realizamos
uma revisão completa, esperando oferecer ao leitor uma visão mais
abrangente desta disciplina.

p rimAseirm odifi
o lu gar,cações
em tointroduzidas
d o s os capnít u loesta
s foedição são des duas
ra m feita revisordens. Emalização !
ões, atu
da bibliogra fia , am pliação e atualização de dado s estatí sti cos. Em segundo
luga r, f oi am pliado o estud o de alguns tem as. Na Lição 1 foi introduzida
uma apresentação da contribuição de Montesquieu para a sociologia
ju ríd ic a ; na L iç ão 4 rea liza m o s um estu d o m ais a b ra n g e n te Sobre a
anomia, o direi to alter nativo, o em préstimo jurídico e a acult uração jurí
dica; na Lição 5 foi ampliado o estudo do pluralismo jilrídico; na Lição
6 aprofund am os a análise da pro blem ática do poder; na Lição 10 foi fei
ta uma apresentação muito mais extensa c|a sociologia da aplicação do
direito.
A nova edição con tinua sendo fruto das exp eriê ncias de ensino da
sociol ogia jurídica e pretende c on stit uir um a aj uda p ara os estudantes de
Direit o que cursam esta dis ciplina e necessit am de um ponto de referên
cia a o mesmo temp o simp les e abrangente.
O program a aqui apresentado correspon de às possibilidades de en
si no (e de aprend izagem ) dos conceitos e dos debates fundamen tai s da
sociol ogia jurídica no âm bit o de um curso d e,dois semestres .
O caráter didá tico do livro levou a aban do nar as m aneiras acadê m i
cas e usar as palavra s m ais simples possíveis, para pe rd itir ao al uno que
ingre ssa na Faculdad e de D ir eit o, sem conhecim entos prévios de socio
logia, assimilar a matéria.
Um a outra conseqü ência do c aráter didático foi desistir da tent ação
de comentar a abundante bibliografia sobre os temas aqui abordados. O
I manuai . n r. so no m aiA ju r íd ic a

iiIuiio iii1(i prec isa de tais “s u tilez as ” em sua p rim eira fam iliarização com
íi mat éi i í . Além disso, o curto esp aço de tem po d edic ad o a esta discipli-
11ii nos cursos de graduação em Direito impede a concretização de um
BPOjclO dc ta l n atureza. E m todo o ca so, a lgum as info rm açõ es m aisd eta-
Ihmlíis sflo dndas em notas de rodapé, que complementam o texto.
No final dc cada capítulo são in dic ados, na seção “ Para ir m ais lon-
■ n iihiillios, pri nci pal mente em port uguês e es panhol , que pe rmi ti rã o
,i|in i Imik Imi os conhe cime ntos em temas específ icos. As indi cações com 
I li i .is ilos trabalhos citados no texto encontram-se na bibliografia.'
AlgunS manuais de soc iologia jurídica fazem um a apresentação da
rvol ni, ,io histórica da disciplina em diversos países, d ando m aior enfoque
.111c i ludo de conhe cidos au tores ;2 outras obras didáti cas dedicam -se mai s
ft iipirsentaçao dos principai s tem as e co nceitos da discip lina .3
No presente liv ro foi feita, a títu lo de in tr odução, um a apre senta çSò
mu inln das diversas escolas jurídicas, para posteriormente conceritrar-
Mfl d rlm içã o e apres entaç ão tem ática da soc iolog ia jurídica . Tamb ém
•.(• ilc/ttm a que os temas específicos da sociologia jurídica foram traba-
Ih ido s introd uz indo conceitos d e socio logia geral, essenciais para a com -
p i( ns;io da socio lo gia ju ríd ic a.

(Jtfundn citamos livros ou artigos, utilizamos o último sobrenome do autor.


Quund» apresentamos no texto teorias ou idéia s de um autor c itamos, por ra -
/(trs rucliisivnnienle didáticas, o nome completo do mestno.
11 l Mii loi a opçrto feita pelos Professores Cláudio e Solange Souto, que apre-
uiam um panorama da evolução desta disciplina na Europa, nos Estados
I lindos r no Brasil (1997, pp. 65-120 ). Salien tamos qu e esta obra, ao mesmo
irinpo mnm ial, ensa io e apres entação de pesquisas empíricas, apresenta uma
IffiftluÚLftr ImportAncia para o ensino da sociologia jurídica no Brásil, entre
lülfn s motivos, pofque rom pe com a tendência de expo sição rudimentár, pouco
Inlm iniiiln c fis vezes confus a do s con ceito s e dos objet os de aná lise da d isci
plina "obre o dese nvo lv iment o da disc ip lin a no Br asil cfr. Ju nq uei ra, 1993 e
>lK)(i
Numa pcispcctivn em parte dife rente si tu am -se os manu ai s do s Professores
Ii-iiii ( 'aihonnler (Fra nça), Renato Treves (I tália) e Ramón Soriano (Espa nha),
ipir dito p Artlciiiar atenção à anál ise das obras d os precur sores e d os principais
pxpOfiriilcsdn s ociologia ju rídica (Carbonnier, 1979, pp .7 3-1 60;Trevés, 1977
r l<W»; Soilnno, 1007).

" iiiiiinlnO
iuno » k*!ii|)Io,
p Vlnognzocitn Ferrari
mol os (Itália),
manu aisquedo apresentam
^ Profes sores
os Manfred
conceitosRehb ind er (Ale-
e as princi-
pi i (ilimvj,()ili\ ilisrip.li>\jt ( R elib in d ® 2000; TVm.nrt 1990}..
INTRODUÇÃO
ED IÇÀO A 2: ] 3

I
A última opção é feit a, apesar da consciência de que um a adequada
implementação da disciplina no âmbito universitário requereria ofere
cer no primeiro ano d e graduação a matéria sociologia, de forma a fami
li ari zar o al uno com os conceitos cen trais da discipli ha, è d eixar que o
estudo da sociologia jurídica seja desenvolvido no segun do ou no ter cei
ro ano de graduação.
Uma outra característica do livro é apresentar o debate mais atual
entre os s ociólogos d o direit o, u til izando sobretudo a produção d idát ica
e científica européia. Assim, o aluno tem a possibilidade de entrar em
contato com o “mundo” daqueles juristas-sociólogos, conhecendo as
tendências da pesquisa nas últimas décadas.
Um a constante preocu pação foi oferecer a o aluno exem plos de fá cil
com preensão, concretos e atuai s, que lhe perm iti ssem m elhor entender o
conteúdo dos conceitos e teorias. Tentou-se, assim, ifelàcionar os con
ceitos e as teorias com as experiências cotidianas dos alunos e com oS
elementos do sistema jurídico q ue estão ao seu conhecim ento, já no pri
meiro ano de estudo universitário.
O objetivo é ajud ar o aluno a fazer o nece ssário “salto qualitativo”
do concreto ao abstrato. Se o aluno conseguir, graças à própria reflexão
e pesquisa, multiplicar e ampliar estes exemplos, provando assim que
p ode m an ejar o co n h ecim en to teó rico de fo rm a au tô n o m a, o livro terá
alcançado o seu principal objetivo: in stigar uma leitura externa do sist e
ma jurídico, isto é, um a lei tura da reali dade jurídica qu e seja po lit ica
mente e teoricamente crítica.
Ao con cluir est e M anual quero fazer um agrad ecim ento especia l
a Dimitri Dimoulis. Ele é o responsável pela revisão completa tanto
da primeira como da segunda edição, tendo feito preciosas suges
tõ es para a sua m elhoria. En quan to com pan heiro, agradeço -lhe pe la
p aciên cia, ap o io e c o m p re e n sã o d u ra n te o p e río d o de elab o raç ã o deste
M anual.
Ag radeço i gua lme nte aos Professores E duardo Fang aniello e Ge ss él
M arques Junior, que rçalizaram um a leitura atenta e críti ca do texto e aõ
Profess or Karl A lbert Diniz de Sou za, qtie apoiou a reali zação d a pri m ei
ra edição. Agradeço também aos meus pais pelo coristante apoio, não
esqu ecendo q ue pa rte da revisão des te livro foi feit a por eles .
Por últ imo, lem bro com sauda des do fil ósofo e sociólogo do direi to
Professor Doutor Alessandro Baratta, que me deu, por tantos anos, a
oportunidade d e estudar e trabalhar como, professora e p esquisadora no
M MANUAL DE SOCIOLOOIA JURlDICA

"Inslimt filr Rechts- und Sozialphilosophie”, da Faculdade de Direito


iiii Universidade do Saarland na Alemanha.
A lrssandro B aratt a foi um pai intelect ual. Um h om em extremam én-
li olul iír io, que me ensinou au e o pr ofe sso ré antes de tudo um cúm plice
dí ;<mis nlimos. Som esln experiência, certamente este livro jamais teria
ildo pioduzido.
Silo Paulo, setembro de 2002.

A Autoka
) SUMÁRIO

in t r o d u ç ã o À r ; n i ( / Ã o ...................................................................... II

I, iç ãn 1 - ES CO LA S JU R ÍD ICA S...................................................................... 21

1. Escolas moralistas do direito (direito natural ou jusnaturalismo)...... 22

1.1 Ju sna tu ra lis mo g reg o..................................................I........................ 23


1.2 Es co là medi ev al ou teológ ica...................................I........................ 25

1.3 Es co la d o dir eit o natura l r acio n al...................................................... 26


1.3.1 Hu go Gro tiu s ( 15 8 3 -16 4 5 )...................................................... 27
1.3.2 Gottfricd Wilhelm Leibniz (1646-1716) .............................. 28
1.3.3 I lum in is mo ju r íd ic o ................................................................... 29
1.3.4 lmmanuel Kant (1724-1804) .................................................. 31
2. Escolas positivistas do direito.................................................................... 33
i_
2.1 Teorias positivi stas centradas na leg isl açã o .......... *........................ 34
2.1.1 Th om as H obb es (1 588-1679)................................................. 34
2.1 .2 Je an- Jac qu es Rou sse au 1[17 12 -1 77 8) .................................... 35

2.1.3 Hans Kelsen (1881-1973)..............................................! .........f 35


2.2 Teorias pos itivistas centradas na aplicação do dir eit o ................. 37
2.2.1 Jurisprudência dos interes ses ( In te ress enju risp rudenz )... 37
2.2.2 Realismo jurídico (Legal realism ) ..........................1.............. 38
2.2.3 Esco las po sitiv ista s de caráte r so ci oló gi co .......................... 40
2.2.3.1 Charles de Monte squie u (1689-1 755) ................. 41
i
2.2.3.2 Escola histórica do dire ito ....................................... 42
2.2.3 .3 Escola ma rxi st a .......................................................... 43
2.2.3.4 í'milc Durkheini (18 58- 191 7) ................................ 44
3. Conclusão: diferença entre escolas moralistas e escolas positivistas ... 47
Par a ir mais lo n g e ................................................................................................... 48
MANUAL DF. SOCÍOI.OG1A IURÍD1CA

Ll ff lo 2 - AIUjrD AOBm SOC IOLttõtC A DO Sis TBMA juR lÉSidQ ... 49


I Soc io log ia cio dir eit o (a bo rd ag em po si ti vi st a) ....................................... 51

7 Soc iol ogi a no direi to (a bo rd ag em ev ol uc io ni st a) ................................. 53


3. Outras concepções da sociologia ju rí di c a ............................................. 54
1 I Min içf lo da soc iolo gia ju ríd ica............................................................... 56
Poro ir K li f longe. ................................................................................................... 59

I U-jfc ' A FU NÇ ÃO l )A SO CI OL OG IA JURÍ DIC A F A EFICÁ-


( I A D O D I R H I T O ............................................................................ 60

1 11 iiIimcusio nnIidade do dire ito e especif icidade da abordagem


sociológica...................................................................................................... 61
2 Eleitas socia is, eficácia e adequa ção interna das normas jur ídi cas ...... 64

I Aná lise empírica da ef icácia da norma jur ídi ca .................................... 68


I Falor cs dc efi cáci a da no rm a no direi to m o d e rn o ................................. 69
4,1 I at ores in st rume nt ais ......................................................................... 70
•1 1 PatQfes referent es à situação so ci al .................................................. 71
/ m i if. 0ioi. \ lo n g e ................................................................................................... 73

I Içrto -I ( 'ON1 LITOS, IN TE GR AÇ ÃO E MU DA NÇ AS SOCIAI S. O


1’Al’E t HAS NOR MAS JU RÍD IC A S.......................................... 74

I 1'tnpins íunc ionalis las c teorias do conf lito so ci al ................................ 75


An om ia c icgras sociais................................................................................ 77

I O co nc ei to dc a n o m i a ......................................................................... 77
} A imn mia em D u rk h e im ..................................................................... 79
) 1 A an om ia em M erto n........................................................................... 82
'I ( 'onsIdria çOes críticn s acerca da a n o m ia ...................................... 86
M Aliml ldi idc dn a n o m ia .......................................................................... 88
’) “i, t Anomi n r. ine fic áci a do dir ei to ...... ........................................
. 88
M i AfTOrnlu r poder ......................................................................... 89
M l Anomin r pl ura li smo cult ural................................................. 90
<i iljii lio ru mo piopu lso r c olisláculo da mud ança so c ia l................... 90
I I ' ' i mu rlln ilr muii Iiiiiçii
sor lnl ........................................... 90
I Ki llJÇOf ■nlif ilin lio 9 SQi lodudc .......................... 92
l t |trliti, 0r ’, rniir n'ilMlfinn |mldi( «í r n niiiditnçn io('inl ......... ‘>3
17

3.4 Aiuaç âo do direit a oomo r& ior de mudança «ocl àl ........................ 98


3.4.1 I nten sid ade da mu dan ça e “direito al te rn at iv o" .................. 98
3.4.2 Esferas de manifestação da mudança ................................... 102
3.4. 3 Ri tm o da m ud ança..................................................................... 105
Par a ir mais lon g e .....................................i............................................................ 106

Lição 5 - LEGITIMIDADE E DIREI TO. O DIREITO COMO FATO R


DH CONSENSO SOCIAI.................................................................. 107

1. Mo no pó li o de viol ência le g a l..................................................................... 107


2. Legiti midade do p o der.................................................................................. 110
3. O papel do direito no proces so de legit imação do poder político.
Legit imida de for mal e ma te ria l ....................................>........................... 111
4. Cr ise de le gi ti mid ade .................................................................................... 116
5. Pl uralis mo ju r íd ic o ........................................................................................ 117
5.1 Definição e crité rios do pluralismo ju rí di co .................................. 117
I
5.2 Te or ias do plu ra lis mo ju r íd ic o ......................................................... 119
5.2.1 Teorias tradicio nais do pluralism o ju rí di co ........................ 120
5.2 .2 Teoria s moderna s do plur alismo ju rí di co ............................ 121
5.3 Crí tic a do plu ra lis mo ju rí di co. .. !....................................................... Í24
Par a ir mais lo n g e ................................................................................................... 129

LIçSo 6 - PODER, EST ADO E CONTROLE S O C IA L ............................... 130

1. Controle social .....................................................................i ........................ 130


1.1 C o n ce ito .................................................................................................. 130
1.2 For ma s de con tro le s o cial.............................................. ....................
. 132
1.2.1 Sanções formais e in fo rm ai s ................................................... 132
1.2.2 Con tr ol e pos it iv o e negati vo................................................... 133
1.2.3 Controle interno e externo ...................................................... 133
1.3 Finalidades do controle so c ia l .............................i............................ 134
1.3.1 Perspectiva libe ral- func iona lis ta ............. ............................ . 134
* 1.3.2 Pe rsp ecti va da teoria con fli ti va ............................................... 135
2. Pod er e burocracia......................................................................................... 136

2.1 P o d e r ........................................................................................................ 136


2.2 B uro cracia.............................................................................................. 140
| 1
18 MANUAl. DE SOCIOLOGIA JURfDICA

2.2.1 D efinição...................................................................................... 140


2.2.2 Burocracia e controle social ................................................... 142
Par a ir mais lon ge ................................................................................................... 142

l.lçiSo 7 - C O N T R O L E SO CI AL P. D IR E IT O ................................................. 143

1. Caracterí stica s do cont role soci al através do d ir e ito ........................... 143


1.1 Ame aça de cocr ção ............................................................................. 143
1.1.1 Dife ren ças co m as san çõe s so ciais........................................ 144
1.1.2 Formas e graus de coerção no sistem a ju rí d ic o ................. 144
1.2 Tipos de sançõ es ju rí di ca s ................................................................. 145
2. A ótica funcionalista do controle social atr avés do dir eito .................... 147
V Abordagem c rílicn d o controle socia l através do direito ........................ 150
3.1 Pun çõc s de cla rada s e fun çõe s la tente s........................................... 151
3.2 Negaçã o da ideologia funcionalista com relação a o controle
social ........................................................................................................ 152
3.2.1 Ilegitim idade do poder puniti vo ............................................. 152
3.2.2 Inexistência da distinção entre Bem e Mal (“normali
dade do cr im e” ) .......................................................................... 153
3.2.3 Inexistência d a culpabilida de pessoal (pluralismo cul
tural) .............................................................................................. 154
3.2. 4 Imp os si bi li da de de re ssoc ia li zaç ão....................................... 157
3.2. 5 Des igu al dad e na ap licação ...................................................... 157
l',im ir mais longe ................................................................................................... 160

IMo H PR OBL EMA S E MÉTO DOS D E PE SQU IS A N A S OC IO -


I <>(,IA JU R ÍD IC A ........................................................................... ‘61

I I i Hmh Iiiç í Io ............................................................................................. 161


i mi ulcitslit ú s dos métodos de pesquisa n a sociologia ju rí d ic a ...... 162
'I I oi miilnçiln dr liipól cses de tr ab alh o .............................................. 162
1 ludiii/ílo .................................................................................... 163
.’ I ( »l>|rlividndr ............................................................................ 165
i (Vlm|lfljl in^it •Icis dr pçsimisn................................................................. 168
l I Q | im ‘iv iiç Ao ............................................................. 168
.........11111<
i iH ......................................................... 169
SUMÁRIO lçf
!?
3.4 Tra bal ho co m d o cum ento s................................................................. 171
3.5 Es tudo s de c a s o .....................................................í............................... 172
3.6 Mé to do s experim entais....................................................................... 172
Par a ir mais lo n g e ................................................................................................... 174

Liç ão 9 - ESTRATIFI CAÇÃO SOCIAL E D IREITO ................................... 175

!. Intr oduç ão ...................................................................................................... 175


2. Perspectivas sociológicas de análise çlas classes sociais ...................... 176
2.1 Abordagem qual itat iva e qu ant itat iva ............................................ 176
2.2 Abo rd ag em obj eti va e su b jeti v a....................................................... 178
2.3 Elemento s de definição da classe soc ial: desigualdade, mobili
dade, le gi ti ma çã o .................................................................................. 179
3. As classes sociais na perspectiva da sociologia jurídica ..................... 181
3.1 Direi to mod ern o e “neut ral idad e de cla sse ” ................................... I 181
3 .2 Int eresse s de classe e for maç ão do sist ema ju rí d ic o .................... 182
3.3 Cla sse s soci ais e apl ic açã o do di re it o............................................. 184
Para ir mais longe ................................................................................................... 185

Liç ão 10 - SOC IOL OGIA D A APL ICA ÇÃ O DO D IR E IT O ..................... 186

1. Intr oduç ão ....................................................................................................... 186


2. Operadores do direito ...................... !........................................................... 188
2.1 M agistra tu ra .......................................................................................... I&9'

2.1.1 Posiç ão constit uciona l da magi stra tur a ............................... 189


2. 1.2 Per fil socia l da m agis tr atu ra................................................... 190
2.1.3 Sociologia da atividade ju di cia l ............................................. 1^2
2.2 Advo ca ci a .............................................................................................. 194
2.3 Polí cia ...................................................................................................... 197
3. Acesso h Justiçn ....................................... ....................................................
. 201
3.1 Bar rei ras de ac ess o à J u s t i ç a ............................................................. 201
3.2 Tentati vas de ref or ma ......................................................................... 203
3.3 Ini ciativa s de refo rma no Brasi l ....................................................... 205
4. Op in ião públic a e d ire ito ............................................................................. 207
Para ir mais longe ................................................................................................... 214
MANUAt. Dt- SOCIOLOGIA JURÍDICA

........iu k Ao iipn HI Çn pq c;<,<JÍ£t|,rto|<3A Í ftc* P H i S l T í l *• *


l
1. Definição monista ampliada ............................ .........................................
. 216
2. De fini ção pluralista....................................................................................... 217
;i. Definição constrativista-comunicativa .................................................... 218

m n L IO G R A F IA B Á S I C A ................................................................................... 223

KHVISTAS DP, SOCIOLOGIA JURÍDICA .................................................... 237

A .SOCIOLOGIA JURÍDICA NA IN T E R N E T ................................................. 239

I
Lição 1

ESCOLAS JURÍDICAS

SUMÁRIO: 1. Escolas moralistas do direito (direito natural ou


ju sn at ur al ism o) : 1.1 Jus nat ur al ism o gr ego; 1.2 Es ço la medieval ou teo
lógica; 1.3 Escola do direito natural r acional: 1.3.1 Hu go Grotius (158 3
1645); 1.3.2 Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716); 1.3.3 Iluminisrno
jurídico; 1.3.4 Im manuel Kant (1 724 -18 04 ) - 2. Es co la s positivistas do
direito: 2.1 Teorias positivistas centradas na Icgislaçílo: 2.1.1 Thotnas
Hobbes (1588-1679); 2.1.2 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778); 2*1.3

Hans Kelsen
ção (1881-1973);
do direito: 2.2.12.2 Teorias positivistas
Jurisprudência doscentradas na apliba-
interesses
(,Intere ss en ju risp ru den z ); 2.2.2 Reali smo jurídi co ( Legal realism)\ 2>2.3
Escolas positiv istas de caráter sociológico - 3. Conclusão: diferença
entre escolas moralistas e escolas poisitivistas.

Por “escola jurídica” entende-se um grupo de autores que com-


parte m d ete rm in a d a v is ão so b re a fu nçS o do d ire ito , so b re os crit ério s
de validade e as regras de interpretação das normas jurídicas e,
finalmente, sobre os conteúdos que o direito deveria ter. Em outras
palav ras, ca d a e sco la ju ríd ic a o fe re c e um a re sp o sta d iferen te a três
questões: “o que é”, “como funciona” e “como deveria ser configu
rado” o direito.
N o d eco rrer da his tó ria do d ireito surgir am vária s escolas ju ríd ic as.
Estas devem ser consideradas como produto de 1determ inada s épocas) e
culturas jurídicas. Isto não significa, porém, que cada época tenha uma
única escola jurídica. Ao analisar um determinado período histórico
podem os nos d efro n tar com a ex istên cia d e v ária s ten dên cias, não sendo
incomum detectar uma forte rivalidade entre elas (concorrência entre
teorias).

M as além, dlf eRtt Ças» p od em t^ffifeém se r içtentiftcado s po nto s de


eüiiUrtüídàde: as idéias de umâ escola s§o freqüentemente retomadas
MANUAL Dfe SOCIOLOGIA JURÍDICA

111m mitros nuío rcs , que po steriorm ente as desenvol vem sob outro pri s-
1TI8 dando surgime nto a um a nov a escola.
f; justamente a existência de características em comum que nos
pcim itc classificar as e sco la s ju ríd ic as em dois grandes grupos: mora-
li.itns r positivistas (Oimoulis, 1999). O objetivo do capítulo 6 pro por-
cmn.tr uma visão das características mais importantes de escolas de
imbos os grupos. Isto permitirá compreender o surgimento da aborda
rem soi iológica tio direito, que l evou, posteriorm ente, crin çno da
jis c ip lin a "so cio log ia juríd ica". .

I. ES COLA S MO RA LIS TAS DO DIRE ITO (DIREITO NAT URAL


OU JUSNATURALI SMO )
^ iu ..o - O '
Existem autores que acreditam que o direito é pré-determinado por
"leis". Quando falamos em “leis" que condicionam a existência do
direito não nos referimos àquelas que encontramos nos códigos, mas
sim" a valores, princípios, obrigações e também a regras..3ã~”própna
natureza, que influenciam a vida do homem em sociedade.
As esco las m oralist as partem da idéia de que o direito é pré-de ter -
mmado por tais “leis”, que fazem parte do direito natural. Existem
basicam en te duas fo rm as de co n ceb er o dir eito natu ra l.
A primeira entende que o direito natural é algo dado, inscrito na
“naturezãclas coisas” , e indepe nde do juízo q ue o hom em possa ter sobr e
o m esmo. Por exemplo, um à regra de dir eito nat ural é que só as mulher es
são cap azes de en gravidá r e, após o part o, prod uzir lei te materno. Mesmo
que os hom ens não se Conf ormem com esta r egra , até o present e m omen
to não existe possibilidad e de que um a pessoa do sexo ma sculino pos sa
engravidar. Po dem os d izer qu e se trata de um a regra de direi to natur al
que, apesar de não ser um direito escrito, influência o direito criado
pelo s hom ens. B asta le m b ra r das n o rm as consti tu cion ais e tr abalh is tas
que oferecem um a proteçã o especial às m ulheres no perfooo de gest ação
e amamentação.
A segunda vertente vê o direito natural como um direito ideal, ou
sqja, como um conjunto de normas justas e Corretas, que devem fazer
par to do d ir eito posit iv o, do d ir eito cria d o p elos hom ens. Exer tiplo : o
>!Í'í'.ic', "MÜUjOl fttle iide q y g io do s os sere s h u i^ n o s nn srg ju iguais p
devem ser tr atados Áè fetítià igüSl, Sfetírt tiÍSêtÍffllHaǧS 8 ÍUHdlimSüt&das,
por ( x m ip lò , na raça ou n a orig em étn ica. E sta vis ão p erm ite critic ar as
ESCOLAS JURfDICAS
j '!
| i
normas jurídicas que estabeleciam, rto passado, & escravidão e oli tras
for mas de discrim inação dos n egros e dos índios e reivindicar r efor mas
que possam garantir a plena igualdade dos sereè humanos, afastandó
todas as discriminações raciais. Na atualidade, a discussão sobre d
direito natural segue estn segunda vertente.
1.1 Jusnaturalismo grego

Na G récia antiga e nc ontra m os um grande desenvolvim ento do


pensam ento fil osófic o e polí tic o. C o m p a ra n d o a cultura grega com a de
outros povos da Antigüidade, sobretudo com os romanos, podemos
dizer que os gregos foram grande^ filósofos do direito. Até os dias dé
hoje encontramos autores e escola» jurídicas quej utilizam doncéitos B|
argumentos provenientes da filosofia grega.
A ativi dad e legis lat iva era con siderada com o um a parte nec es&á ria
do governo da cidade e, dependendo do regime político, as leis éram
estabelecidas e aplicadas pelos reis ou pelo povõ ( ciemos , significa o
conjunto dos cidadãos; quando estes exercem o poder - kratein - temo s
uma democracia).
Assim mesmo, nem os filósofos e nem os políticos gregos dedica-!
ram-se à interpretação do direito eberito e em rienhuma das cidades
gregas formou-se uma classe de juristas que se tivesse ocupado do
desenvolvimento de uma ciência jurídica.
I 1I
O exem plo de At enas, que é o m ais conhecido, nos indica que est amos
diant e de um m odelo jurídico radicalm ente difer eri te dos no ssos e muit ti
com patí vel com o pensam ento político que se desenvolveu em seu terri 
tório. No pe ríodo dem ocráti co, as decisõe s da po líti ca cotidiana eram to
madas em assem bléi a da qual part ici pavam todos o i cidadãos. Q uando se
trat ava de atividade de ca ráter legisl ati vo, a deci Sào era tom ada p or uma
assemb léi a com posta po r cidadã os esco lhidos atr avés de sorteio públi co.
Em casos de li tígi o entr e cidadão s decidiam tri bun ais popu lares, com po s
tos de 200 a 50 0jura do s, tam bém escolhidos atr avéls de sortei o. O bserve-
se que os atenienses excluíam as m ulheres e os estrangeiros do conceito
de cid adã o (W esel, 1997, pp. 118 e ss.) .
A prática do direito era, então, compatível com uma determinada
idéia dc democracia. Ou s,ç,jn. o sistema Jurídico fundamentado sobre
«.WfttttS es cri ta s (nmm) er a considerad o um a deco rrência da pol ít ica &
óas particularidades de cada cidade da Grécia antiga (uma conduta
podia ser p unid a em A te nas e não o ser em E sparta ).

I
J4 MAN UA L DE SO CIO LOGIA JURlDICA
I
Os fi lósofos gregos, sem se sentirem limitados pelo D ir eit o escri to
(- sem dar-lhe uma importância particular, realizavam análises sobre o
mundo, a sociedade e a sua organização política. Assim, foram desen
volvidas várias linhas filosóficas: atomismo, sofismo, idealismo, realis
mo, epicurismo, cstoicismo. Todas tinham, porém, uma base em co
mum: existe uma natureza muito bem organizada ifysis) que o homem
i<•nt:i conh ecer. Esta natu reza funcion a seg und o u m a orde n, à quai são
Milune iidos Iodos os seres an im ado s ou inanim ados. T rata-se das r egras
<li d iin lo natural que não estão esc rit as, m as que exist em no mundo e
que 0 homem acata.
() direito natural era para os gregos o corpo de normas invariáveis
i de validade geral , inde pend entem ente dos interesses e das opi niões
pie valc centc s em cad a so cied ad e. M u it os filó so fos gregos id entific a
vam o fundam ento do diruit o na turál com a jüSt iça e á r azão. Estes
purp om do en ten d im en to q u e as “le is ” dó d ir eito natura l im põ em ao s
homens uma série de limitès, que condicionam a sua vida. Exemplos:
o indi víduo necessita com er, se ele optar p or não com er, isso o le var á
.1 moiti: (lei); não é possível estar em duas cidades no mesmo dia e hora
(|imiic). Isl o significa qu e existem lei s e l imites imp ostos pela natureza,
vigor am indep ende ntem ente da vontade e dos inter esses do homem.
Assim sendo, o direit o natural é, ao m esmo tempo, anterior à cri ação
ilit soi iedade e das instituições políticas e superior ao direito escrito,
■•i iiibi leci do |ior cada socied ade . S egun do os fil ósofos gregos, o direi to
posil lv o dep en de dos in te resses e da uti li d ad e, sendo, p or ta l motivo,
impei leito e mutável.
(* pensamento grego considerava então que a natureza é de pef si
■m im ada , possuindo u m a séri e de regr as. O termo cosmos (universo)
ifii lli . o para os p,r ego s “ m und o co m regra s”, ou seja, a natureza orde -
nndu dn qual o homem faz parte. Cosmós possui também um seg und o
üigfl ificiido indica b eleza (a pálavra “cos m ético” deriva deste t ermo),
di mofisltindo assim, a grande admtfação pela perfeição da òrdem na-
tlmil
N o d li e it o nulm iil d e tre ta m -se dois m om ento s im port ante s.
i) f niiiimaçâo. ( onst ntn -s r. que o h om em faz parte de um cosmos
[iiiiiiin /n ordonudii), I|UC impríe a todos regras e limites. Trata-se, por-
iimiii, dr umn rniiMalnçNn do poder dn natureza.
li) UiIh <>i on ce ito <le nnlur e/. n abiu nge a soc ieda de com o um
tínlo A 'i m i
pode >,r co ii mi Ii- n i i
ipie eeilos valores lumumos sito e'ilá
ESCOLAS jurIdicas 25

veis, permanentes e imutáveis; porque fazem parte do cosmoi qtte


poss ui seu próp rio equilíbrio . O ho m em consti tu i apenas um a peq ue rfe

parcela do cosmos.
N este contexto, a exp ressão “natureza d as co isa s” signific a que,
quando há uma dúvi da, um conflito ou u m prob lèm a, a at itude a tim ar
é a de observar a situação e desta surgirá, de modo natural, a resposta.
Exemplo: se um filósofo grego tivesse que explicar juridicamente
porq ue a m ulher é in fe rio r ao h om em , ele po deria d izer quL isto se dev e
à sua constituição física. Sendo a mulher fisicamente mais fraca, isto a
impediria de exercer determinadas tarefas. Partindo deste raciocínio,
seri a possível justifica r um a restrição dos direito s da m ulher, sub mete rl-
do-a ao controle masculino, devido à sua “natural” incapacidade. Eits
outras palavras, as r elações de siguais e o status sobial inferior da mulher
justificavàm -se através de u m d ad o d e o rd em natu ral.
N esta m esm a lin ha de racio cín io, A ristó teles (3 8 4 a.C . - 322 a.C .)
justif icava a escravid ão atr avés das co nd içõ es físic as, in te le ctu ais e
morais de determinadas pesçoas, que eram nascidas som ente para faze r
tra balho m anual sob o com ando de outros e que deveriam , incl usi ve, ser
felizes de ter encontrado um senhor que lhes desse guarida (Aristóteles.
1991, livro I, cap. 1, pp. 9-16).
Resumindo: o direito natural é entendido como um conjunto dè
prin cípio s ou idéia s superio res, im utáveis , estáv eis e p erm anente s, sen
do que a sua autoridade provém da nnturcza c nfio da vontade dos
homens.
i
1.2 Escola medieval ou teológica
I
A idéia da existência de um direi to natural atravessou toda a idade
média, influenciàndo o surgimento de outras escolas, entre as quais b
mais importante é a escola teológica.
Iniciamos citando um a interessante análise da fi lósofa Han nah/»rendt
(1906-1975) que nos permite vislum brar as diferenças entre est a escol a
e o jusnaturalismo grego. Arendt chama a atenção para a bxistência de
duas cosmologias, ou seja, de duas visões ou explicações do mundo
(Arendt, 1999, pp. 28 ss., 187, 400 ss.; cfr. Altvíater, 1994, p. 192).
Existe uma cosmologia antiga, segundo a quál o mundo é com posto
por um a d iv ers id ade de seres, s endo o hom em um deles. N esta cosm olo gia
antiga, os homens são considerados como mortais enquanto o mundo

I
MANDAI, nr. SOC 101.001 A JURlniC A

(< considerado com o imo rtal . Eáta form a de con cebe r o mundo corres
ponde h idéia do jusnaturalismo grego, onde'á natureza com suas leis
v Emites impõe-se aos seres humanos.

milornlixiste também
denomina de umacosmologia
segunda cosmologia
cristã. (mais
Nesta moderna),
o homem éque a
colocado no
centro do mundo”, porque é considerado como imortal. Ou seja, a
condição de imortalidade coloca o homem numa posição de superiori-
diidc dianle dos demais seres. Ao contrário, o mundo é considerado
rom n m atéri a perecível. Is to é devido à influência do pensam ento cr is -
jSo, q ue afirm a q ue o ho m èm foi feit o à im agem e sem elhança de D eus,
si ndo que a sua alma permanecerá viva após a morte. Na mentalidade
Ci isLíi, Deu s reser va ao ho m em um futu ro infinito: após o Juízo F inal sua
alma irá ao inferno ou ao paraíso, e o mundo será destruído.
* A cscola teológica con sidera tam bém o direito natural com o imu-

lávc l, r> lávenal enatureza,


diretamente pe rm anen te. E ste
tal como direito nã osoautores
sustentavam pod e, porém
gregos. ,Asersuaobservad o
Imite é a religião. O direito natural fundamenta-se na vontade de Deus,
■ ndo produto de sua decisão, qu e cri a um a le i eterna par a governar o
um vers o. C) Deus cristão dá ao h om em o poder de do m inar o m undo e,
,ni mesmo tempo, outorga-lhe um código de leis.
Sfio leis que impõem ao homem determinadas condutas. Desta
fof ma, o D eus cristão se p ropõ e a reg ular a vida hum ana atr avés de um
liu n o IJm exem plo sã o as doze t ábuas de M oisés que ditam re gras
sol (om o deve atua r o hom etn em socie dade, exi sti ndo muitos out ros
m i

te m p lo ! na Bíb lia e em outros te xtos sagr ados.

( i pod ei da reli gião afetou a sociedade feudal européia com o um


iDllOj "illiienciando inclusive o direito secular. As condutas que
li ■on nvíim os valores relig ios os foram du ram en te repr im idas e os tri -
buOrtis da Inquisição p erse g u iam os hereges e to dos aq uele s que se
ilc- virtiiiivam dos piincípios cristãos.

I ' Kn c o I ü do direito natural racional

A |<;<11 íi do siíojB XVI, e até finais do século XVIII, ocorre o


)t ■ nyoivinv mlo do ju x tu itu rc ilis m o ra c io n a lista . N esta ép o ca com eça
,i tli .nvn lvi ■ se ;) econ om ia cap italista e surgem im portan tes avanç os
iiii i irm i !r; cxnlns c bio lóg icas , graç as à aplic açã o de mé todo s expe-
1111it■niiii A itludíiuças po lític as e cie ntí fica s rep er cu tem nas áreas
liiiimitni ■ íbicluÀD, na fiJ osdf in e na visão do direi to.
ESCOLAS JURÍDICAS 27

Segundo o racionalismo jurídico, o direito constitui uma ordem


preesta bele cid a, d eco rrente d a n atu reza d o ho m em e da socie dade. O
acesso ao direito não pode ser, porénl, oferecido átravés |de textos ou
tradições “sagradas”, como sustentava a escola teológica. O uso da
razão humana é o único meio adequado para descoorir os fundamehtos
da ordem jurídica natural . Q uand o estes autores fal am em uso da razã o
humana referem -se à capacidade de racioci nar, de pon derar e reflet ir d o
homem.
Assim hóuve um a inovação: não se fala mais do s desígn ios de Deus,
mas da i m portância da r azão hum ana. P drém, é necessário en tender que
exi ste um a evolução do pen sam ento racionali sta. O s autores dos sécul os
XVI e XVII, apesar de apregoarem a necessidade do uso da razão,
continuam vinculando-a a um pensamento de carátfcr religioso (funda
mentação de caráter teocrático). Estes autores vivehi um momentò de
transi ção. Não bu scam nos t extos sagrados uma revelação do presen te,
mas ainda sentem a necessidade de afirmar que a capacidade de racio
cinar tem uma srcem divina, é uma espécie de dom concedido por
Deus.
Quando nos aproximamos dos textos de autores raciònalistas do
século XVIII, percebemos que estes se distanciam do pensamentd
teocrático, ou séja, não consideram necessário justificar a razão através
da religião.
Assim mesmo, uma característica comum a todos os autores
raci ònali st as é a substi tui ção dos m étodos do p ensam ento do gm áti co da
teologia pelo uso da razão; a ciência jiirídica torna-se laica, desenvol
vendo uma intensa atividade metodológica para reestruturar os seus
modos de pensamento (cfr. Hespanha, 1998, pp. 111, 150).
Dentro desta escola destacaremos as idéias de tíês filósofos que se
ocuparam do direito. Trata-se de Grotius e Leibniz, que exprimem um
compromisso entre o pensamento teológico e o sistfema racionalista, e
de Kant que incorpora na sua teoria as idéias do movimento iluminista.
Também faremos algumas referências a este último movimento.

1.3.1 Hugo Grotius (1583-1645)

Grotius, filósofo e jurista holandês (obra principal: De ju re belli ac


pa cis, 162 5) , é considerado com o fund ado r do jusna türalism o m oderno .
Para Grot ius, a verdadeira natureza do s ho men s é a ràzão, no sentido d e
racionalidade. Isto significa que o natural é idêntico ao racional. Desta
?R MANDAI. OE SOCIOLOGIA JURÍDICA

loim», o nulor libera o pensamento filosófico e jurídico da referência a


Id^uis c princípios teológicos, considerando inadequado o recurso a
Outms fontes que vão além da própria razão humana. É que o uso de
outras fontes poderia conduzir a erros. Se a razão humana é necessari-

nmftnic cortlurn (Ic


ensinamentos a todos os homens, religião,
uma determinada deve seraceita
independente dos da
por uma parte
flumanidade.
Píira exprimir esla lese, drotius escreveu uma famosa e “escanda
losa" frase: Mesmo sendo blasfêmia dizer que Deus não existe, ou que
cslc não se interessa p elos assu nto s hu m an o s, os prin cíp io s do dir eito
natural p erm aneceriam v álid o s, p o rq u e são fun d am en ta d o s n a ju sta
razão, ou seja, na verdadeira natureza do homem e da sociedade. Por
conseqü ência, os princíp ios da p olíti ca e do direit o pod em (e devem) ser
deduzidos do raciocínio lógico, aplicando-se os métodos matemáticos
dr demonstração.
Segun do este autor , é ineren te ao hom em o desejo de soci abil idade,
oh seja, a necessidade de conviver com os demais de forma harmônica,
estabel ecendo la ços de solidariedade. E ste desej o ( appetitus societatis )
constitui o princípio fundamental do direito natural do qual resilltam
outr os p rincípi os de direit o, com o a necessidade de respeitar o s contra
io?. c dc reparar os danos.
Cria-se assi m um direito natural que result a de um a dedução lógi ca
e que possui validade universal, sendo que todos os seres humanos de
todas as socie dades e ép oca s s3o dotados da m esma raz3o. O direit o que
re sul tn da von tade de D eus ou dos ho m ens pod e ser dif erente do dir eit o
naiural-universal. Porém, somente este último oferece o critério de
ju sliçn, p o r ser im utá vel e in d ep en d en te d e u m a vonta de in div id ual.

1.3.2 Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716)

Leibniz, filósofo e matemático alemão (obras principais: Novo s


ensaios sobre o intelecto humano, 1703-1705; M onadologia, 1714),
iidoin tam bém a tese de que a vida em socieda de reg ula-se po r princípios
dc direit o natural. Este direito seria produ to da “etern a ra zSo” divi na, a
thilea ogpaz de estabelecer as regras adequadas para o cgnvívio em
sociedade. Leibniz fSCOnhece* SRqi lâHid ju su at lih lfis ti. qu ê âís leis pr o
duzidas pelos homens (leis positivas) podem ser Íítjiistas.
Um dos elementos mais importantes na obra de Leibniz é o reco
nhecimento da liberdade humana. Observa-se que o reconhecimento
ESCOLAS JURÍDICAS 29',
f Jf
I i | 'i i
desta liberdade está vinculado a uma idéia religiosa: Deus concede
liberdade, mas é o hom em q uem a “adm inistra”. Por isto podemos dizár
que est e reconhecim ento ainda é fei to dentro de u m a visão teocêui ric á.

Deus
Deus éexiste
que eo homem
tudo depende da sua
, cri ado à s vontade.
ua imagemA Verdadeira vontade
e sem elhança, sejaderespo rl-;
sável pelos seus atos. Segundo o autor, o homem é um instrumento dè
Deus. Trata-se, porém, de um instrumento vivaz e livre, que deve con
tri buir para a constru ção do bem com um , es colh end o liv rem ente, os seus
caminhos.
Temos aqui uma visão da sociedade que, mesmo sendo teológica,
rompe com o pensamento da estaticidade e da predeterminação
mu ndo e da su a ordem. C ada hom efr i é senho r do sj eu destino è det ermi
livremente seus atos.

1.3.3 Iluminismo jurídic o


O il um ini sm o constit ui um am plo m ovim ento que tom ot’ i
gradativamente todo o continente europeu no século XVIII, e teve umia
cono tação revolucion ária. E stá na base da Re volu ção Francesa de 178í>
(liberdade, igualdade e fraternidade: direitos nàturais do indivíduof.
Este movimento atinge todos os segmentos dà vida do homem em
sociedade e inclusive as ciências, tendo muitas repercussões no plano
ju ríd ico , j ,■;! 1
O iluminism o criti cava e questionava a sociedade daquela épot
(Antigo Regime) como um todo. As principais críticas referiam*se: [
a) à desigualdade diante da lei, que era mantida pelo sistenia polf-
tico. A sociedade d e “castas” (para usar a ju sta expressão: estam éntal ),
dividia- se entre rei s, nobres, clero, m ili tares e plebeus. E ram concedidos
p riv ilégio s le gais , d ep en dend o do staíus social de cada indivíduo;
b) à ex istência da servidão, isto é, de p essoas q ue não gozavám de
liberdade;
c) à limitação do direito de propriedade e da atividade econômicía
em geral;
d) ao autoritarismo dos monarcas s à exclusãoda participação
po p ular nos assunto s po lí tic os;
e) a o “abso lutism o” da igreja e à intolerânc ia (recorde-se a presença
da Inquisição);
<0 MANUAL DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

f) crunltlnde da jus tiça pena l;


g) f ts con diçõe s de vida d esum ana s, vincu ladas à organizaç ão Soc ial
do pfii iodo.

A i sperança do iluminismo era que a lógica c a ciÊncia formassem


0 fundam ento d e um novo aprendizado, seguro para toda a Europa
1ivili/.nda, combatendo todas as formas do pensamento dogmático. A
pnipoM a e d c re n o v a ç ã o radical, s i i a d a pela razão h u m a n a , (|iie dev e ser
nhli/aila liviemente e publicamente para uma revisão crítica de todos
0 pii iu ípios da vida social. O ob jetivo era alca nçar a felicidade do
hoim-m. jjue ganharia a sua autonomia intelectual, tomando-se final
mente “maior de idade”.1
O direito natural m edieval fundam entavà-se em um a arquitet ura
estática do mundo, onde era decisivo o conceito da hierarquia e auto-
1idndi Na con cep ção ilum inista, ao contrário, o direito deve ser funda-
mftntado no princípio da liberdade do indivíduo e pode ser justificado
Mimcnte sc permite a realização do bem comum e do bem-estar das
pessoas. A estática da h ie ra rq u ia natu ral é substit uída pelo prin cípio da
N/i tonalidade e da utilidade do d ireito pàrá ás pesso as (Luhm anrt, 1997 ,
p 27 D im oiilis, 2 000, pp. 21 7-22 0).
Q direit o tem assi m se^reger pelos princípios^da-fazão e,
p o ila n lo , d eve ser claro .g ..ç erto ._ N ão p o d em ex istir leis _ohscuras. é
nr, essári o que sej am estabelecidos princí pios ge rais-q ua permitam
iiiiltalhar com o direito, sob urna oütfa peFsnectiva. Um dos objetivos
dos jiu isla s ilu strad os é a co n stru ç ão de um sistem a ju ríd ico que po ssa
sei aplicad o a toda socied ade. T rata-s e da t entativa dé aplicação m assiva
do din ito, com o intuito de condicionai as grandes massas às regras
do sistema capitalista que se encontrava em franco desénvolvimento
(Salmdell, 2001-a).
N este senti do, os auto res ilu m in istas elabo raram pro po stas còncre-
lm para a reformulação do direito europeu dó Antigo Regime, objeti-
vmi do íom ár sua aplicação sistemática. U m dos autores mais importan-
i do ilum inism o juríd ico é o filósofo, juris ta e econo m istt ital iano
i iii i( H& ccáiiu( I7.í8 1794), que esc rev eu em 17 64 u m a ob ra intitu lad a

\ ■■viilui,n<i li|sl(VJttii de mo ns tr ou que os Idenl s ll uinl nist ns dc libe rdade ,


■ jm ti ít í1' <■ fnilm ii<l mle foram " tem pera dos” pelos fortes interesses ca pita-
li-iii-. i|i>> iUoqurnftlTi o s mov ime nto s de crítica e d e eman cipa ção intelectual
‘ l••ílfii{ ii , 1
ESCOLAS JURlDICAS 31

D ei delitti e delle p rne (“D os de litos e das p enas ” ). *3ec car ia aplicou as
Idéias Uuministas no campo do direito penal, propondo a adoçSo da
presun ção de in o cência , a ab o lição das p enas co rp o ra is e a in tr od ução
da pena privativa de liberdade.
Foi neste contexto que surgiu a idéia moderáa de Constituição
políti ca . Até então não existiam Constituições. A criação de um te xto
constitucional, superior às demais leis e incluindo os princípios funda
mentais dn organização social o política foi a primeira etapa no processo
de codificação do direito. No decorrcr do século XIX foram elaborados
cm muitos Estados d a Euro pa e da Amé rica os p r imeiros có digos (civil,
penal, com ercia l etc .) , que obje tivav am cria r norm aS ju ríd ic a s sim ple s,
coerentes e ordenadas de forma sistemática.

1.3.4 Immanuel Kant (1724-1804)

A escola racionalist a encon tra um rep resentan te “radical" na figur a


de
id éiKant, um dossermais
as devem consifamosos
deradasfilósofos
cbm o da cultura ência
c onseqü ocidental. As suas
da corre nte ilumini st a
no campo da política e do direito.
Immanuel Kant escreveu, entre outras, a obra M eta física dos cos
tumes (1797) e o famoso en saio O que é iluminismo? (1783). O direito
para K ant fu n d am en ta -se na razão h u m an a e, ain d a q u e na prática isto
não ocorra, assim deve sê-lo.
^ O que ist o signifi ca? U m ra ciona list a reco nhece a existência de u m
direito positivo (no sentido de leis aprovadas pelo poder político), mas
o submete a um dever ser, que são os princípios de organização da
sociedade est abelecidos pela razão. S om ente a razão perm ite dist inguir

oSejusto do oinjusto
o di reit e dizer
em vigor não se o direito
estiver em
de acordo vigor
com é asum, verd cias
exigên ad eiro direi ça,
da justi to.
então ele deve mudar, para tornar-se um verdadeiro direito. Neste sen
tido, o critério do “justo^éjgara Kant a essência do direito.
Para este autor, o 3Ireito deve garantir a liberdáde de todòs. Deve
ser composto por normas gerais, através das quais a liberdade e o
arbí tr io de cada pessoa po ssa con cili ar-se com a li berda de e o arbí tr io
de t odos os outros. Isto pode rea lizar-se através de um p roce sso racional
de reflexão pública sobre a organização da vida social, que permita
conciliar os interesses de todos os cidadãos. Uma ta! configuração do
direito é possível somente em uma sociedade “iluminada", ou seja,
composta por pessoas “adultas”.
,V2 MANDAI. DR SOCIOI.OOIA JURllIlCA

Kant entende que as pessoas deixam de usar o próprio raciocínio,


dc forma independente, quando seguem as orientações de outros, sem
passar p o r um p ro cesso d e refle xão in div id u al. O auto r afir m a, num
senti do figurat ivo, que t ais pesso as perm anecem na “m enoridade” e que
o il um inismo , ou sej a, a pos sibilidad e de t om ar-se um a pessoa esc lareci da,
significa justamente ultrapassar esta menoridade, que se perpetua por
culpa do próprio indivíduo .2
As conseqüências deste discurso podem ser resumidas na rejeição
dc quatro argumentos dc jusliflcaçjío de uma opinião ou decisão:
a) Rejeição de qu alqu er argumen to de aut oridade. N ãi devemos
aceitar uma opinião, exprimida por uma pessoa respeitada pelo seu
conhecimento, sem fazer um exame próprio da sua justificação.
b) R e je iç ã o de q u a lq u e r d e c isã o to m ada p o r u m a m aio ria se ela nãb
é baseada na razão humana. Exemplo: A pòpulação d è dètérihinada
local idade é consu ltada para sabe r se é a favor ou con tra a pena d e morte
c a maioria responde favoravelmente; para um iluminista isto não sig
nifi ca a aceitação desta opin ião, pois q ualqu er decisão de um a i Hãi oria
só é válida se for racional.'.................................... ............... ..........
.

c) Rejeição da força. Os poderosos podem impor as suas decisões,


causando medo aos out ros. Ist o não pode , porém, fundam entar a obri
gação de obediência dos demáis. Os cidadãos possuem o dirèito de
resistir a òrdens que consideram contrárias àos iirijperátivos da razão.
. . .
d) Rejeição dos interesses e desejos pessoais como justificação de
uma ação. Antes de agir de um a determinada forma, devem os pensar s e
a nossa ação possui u m a justifi cativa. N este áéi ltidò, nãò devemóà fazer
ao outro, aquilo que não gostaríamos qiie se fizesse conosco. Trata-se
do imperativo categórico: devemos agir de forma que a nossa ação
possa ser ad otad a co m o reg ra gera l.
Comparando as idéias racionálistas com as escolas anterióhnente
citadas, constatamos a rejeição ao argumento da fundamentaíção dò
direito no cosmos ou em D eus. A responsabili dade da convivênci a em
socie dade pertence exclusivamen te ao hom em. P orém, podem os de te c-

,?l "O Esclar ecimento é a sa ída do h omem da sua menoridade, causad a pel a suá
própr ia culp a. Me no ri da de é a in cap aci da de de utilizar o pr óp rio rà tió cí ni o
sem n ori entaç ão çja um a out*» pessoa. menorirtntté se dá po.r própria
a ü p a ly.vv’ 1" uSs é esfi?s& y&rwv» fato* dè »»»#* s«n» feita «iç
deci são c de co rag em em uti liz ar o pró pri o r acioc ínio Sê ttt â GíièíitaçS o áe UVtt
onlm" (Kant, 1998-a, p. 53).
E S CÓ L AS j u ríd ic a s 3 3 !
■ ü.
i
tar uma continuidade com o discurso da “natureza das coisas”, introdu
zido pelos gregos, pelo fato de a razâ o ser vista com o algo natural , que
res ult a da natureza do homem .
A escola moralista-racionalista chega à atualidade através de pen
sadores como Jtlrgen Habermas (1929-) e Robert Alexy (1945-jl na
Alemanha, e Ronald Dworkin (1931-) no espaço anglo-saxão. Esta
coírente busca na interpretação do direito a solução “justa” para cada
caso concreto, por meio do diálogo e da argumentação racional funda
mentada em argumentos moralistas.1
Em conclusão, o jurista que se atém a esta linha trabalha com
definições sub stanciais (ou m ateriais) do direito: direito é o que é justo,
correto, conforme os mandamentos da moral. Defende-se, assim, a;
prim azia do d ireito j u sto so bre o d ireito v ig en te . Ejiante d e norm as q ue
contrariam os princípios de justiça , o jurista deve ter dua s post ura d: 8fe í
as normas em vigor forem extremamente injustas devem ser excluídas

do sistema
corrigi das jurídico; nosoudemais
pelo juiz, casos, as normas
seja, interpretadas de emacordo
vigor devem
com ser
os princí pios
do direito justo .4

2. ESCO LAS PO SI TIVI STAS DO D IREITO

As escolas positivistas entendem o direito cbmo um sistema de


normas (r egra s), q ue regul am o com portam ento social . Regular o com 
porta m ento socia l sig nific a in flu e n cia r e m u d ar 6 comportamento do
homem.
O direito entao é elaborad o com o intuito de governar. Ou sej a, o
direito é um instrumento de governo da sociedade. E por detrás desta
ordem de “comando” está sempre uma vontade política. Isto n3o quer
dizer que esta vontade política seja o resultado de um processo demo
crát ico. Significa somen te que esta vontade ex iste e constitui a causà ou
a “fonte” do direito. i
Veja mos o exem plo do abort o. N os ordenam entos jurídicos m oder
nos (Estados constitucionais) existem em geral três possibilidades de
regulamentar a matéria:

Atex.y, D vw rkin , 1999.


w Cfr. as anál ises em Soriano , 1997, pp. 153 e ss.; Atien za, 1991, pp. 177 e ss.;
Dimoulis, 1899, pp. 14 e ss.
''I MANUAL Dl- SOCIOLOOIA JURÍDICA

a) aceita-se o aborto (direito à autodeterminação da mulher);


h) nflo sc accila cm hipótese alguma (direito do feto íl vida);
c) aceita-se em certas con diçõe s (harm onização dos dois dire itos).
Um sujeito político, ante este “leque” de possibilidades, escolhe
uma delas. A sua opção não 6 sempre a niàis jtista ou a mais adequada.
A questão central 110 p ositivismo é que os adeptos dest a escola vêem no
direito a expressão de uma vontade política mutável. O que hoje é um
delito p o d e n ão .ser amanhã. 1’assaremos agora a situar alguns autores
e alpimas correntes positivistas.

2 I T eorias p ositi vistas ce ntr ad as na legis lação

;>././ Thnmas Hobbes (1588-1679)

I 'rn su as o bras pr inc ipa is ( Sobre o cidadão, 1642; Leviatã, 1651),

0limites
lilósofo
parainglês Thomas Hobbes
a c onvivência social.afirma
D que é necessário
iversamen estabelecer
te de Grotius, Hobbes não
1nnsidera que a solidariedade seja uma característica nat ural do homem.
A buila do convívio social objetiva a satisfação de necessidades pes
soais c não se dá de forma harmônica.
N este senti do, afirm ará q ue o “estad o de n atu re za” é sin ônim o de
"estadode gu erra”, onde ca da indivíduo luta apenas pelos seus inter es-
'•s. Puflindo de u m a tal perspectiv a, fica claro que 0 direito que emána
d(> estado de natureza não constitui um “bom direito”. Da natureza
humana decorre 0 desejo ilim itado e a i déia de que o “hom em tem di rei to
ii mdo Isto desen cadeia um p rocesso dest ruti vo. Som ente a criação de
üm direito positivo permite aos homens viverem de modo ordenado,
srnuhdo os mandamentos da razão humana.
()s homens dcicidem então estabelecer um contrato social: abando
nam a; armas c entregam os direitos naturais à um a autoridade cent ral ,
1 um Aobüí ano I lohbe s pre con izou 0 pod er absoluto, afir m ando que só
ini ■ii» possível or ga niz ar a con vivên cia em sociedad e, garantindo
n .ey. ufimçn d r Iodos. Nrio imp orta se o po de r será exerc ido po r um rei
m i |hm uma junta dc governo, o importante é que exista alguém que

I ■■11*> d' cisôes em nom e d c todos e im ponha um a ordem, pacifi cando


II mii ledmle
Nu vi' ito dr I loblu-s é preferív el um dir eito estabele cido e im posto
l- 11 Uniu uiorid iull do que as "verd ad es” do direito natural, apresenta-
ESCOLAS JURÍDICAS
IJ

das pelos autores rncionalistns. A existência de uma lei ruim é semprei


pre ferív el a u m a sit uação de au sên cia ríe lel. Õs h o m en s devem obedecer,
ao'direito positivo porque sõ assim podem ser garantidos a seguránçai
e o bem com um . Is to expl ica á famosa frase de Hob bes: “auctorit as non| |J
veritas facit legem" (a autoridade, não a verdade, faz a lei).
Esta é a primeira teoria que justifica a superioridade do direuo
positivo perante o direito natural. Aqui, o conteúdo do direito é estabe
lecido por uma vontade política c as normas são respeitadas, porque
aquele que as ordena possui também í) poder de coação.

2.1.2 Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

Dentro da concepção positivista do direito, o autor mais demócrá-i.


tico é Rousseau, filósofo suíço, que passou grapde parte de sua vidà na
França (ob ra principal: Do contrato so cia l, 1762) . Este autor “deposita”
o dire ito nas mãos do povo , que pode m ode lá-lo segu ndo a sua livre
vontade. O autor afirma que os homens estabelecem um pacto social
ja aça evitàr a írflustiç a e a g u erra. D isco rd a n d o de H obbes ente nde,,
porém , q u e é o povo que deve fa z er e ap lic a r as suas le is.
Isto indica que estamos diante de um autor dèmocrático, diferente'
de Hobbes que atribui todo o poder ao monarca. Rousseau coloca a!: !
quest ão: o que é uma le i? É um a declaração púb lica e solene da vont ade
UB
geral sobre um objeto de interesse comum. Assim sendo, a lei é uma
vontade, que exprime decisões e interesses da coletividade (volonté
générale).
Por que se afi rm a que R ou sseau é positivista? Po rque o direit o para ;1
ele é o produto de uma vontade política. O poder legislativo toma
decisões que devem ser respeitadas, não existindo aqui uma instâncik
de controle, com o no jusna turalism o, que possa exa m inar s e este direit o .
é ou não correto.
I
2.1.3 ílcins Kelsen (1881-1073)

Este jurista, de srcem austríaca (obra principal: Teoria pura do


direito, 1934), deu uma rigorosa fundamentação metodológica à visãa
positiv is ta do direito, desen v o lv id a no século X IX em país es cò m o
f-rança e Alemanha. Kelsen elimina qualquer pergunta sobre as forças
sociais que criam o direito. Para os adeptos do positivismo jurídico (ou
Ui MANUAL DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

jd spO sitiv is m o) ex iste m a p e n a s as norm as ju ríd ic a s, estab ele cendo -se


,'Hüc cias determinadas rel ações.
O objeto da ciência jurídica é examinar como funciona o ordena
mento jurídico. Como diz Kelsen, o direito é o conjunto de normas em

vigor esociológica,
ifncia o estudo dashistórica
mesmas deve ser realizado
ou política. sem nenhuma
Na opinião interfe-
de Kelsen “a
joi isdicid ad e p arece d ec o rre r de valo re s in te rnos ao dis curso do dir eito,
valprcs que a vontade política 011 a utilidade social não podem substi-
I1111" ( I les pai ilia , IW 8 , p. 19.?)).
A constituição cria um a h ierarquia das fontes do di rei to, uma pirâ
mide normativa (constituição, lei, decreto). Para a teoria kelseniana, o
que principalm ente in teressa são as relações entre as di ferentes normas
juríd ic as (“estátic a d o d ire ito ” ). E ste auto r ta m b ém analisa as c o m p e
tências dos órgãos estatais e os procedimentos de criação de normas
( 'diiiAmicn do direito”).

A pesar da sua con cep ção puram ente jurídica do d ire ito, Kelsen nã o
nega que existam classes e conflitos sociais, que incidem sobre a c riação
0 a aplicação do d ire ito. P orém , o autor entende q ue estes temas não são
Objeto da ciência jurídica, mas sim de outras disciplinas como a soci
ologia, a ciência política, a filosofia, a teologia. Nesta perspectiva, as
causas de cri ação de um a n orm a e o problema do respei to a ela na pr áti ca
são fatos empíricos (srcem e resultado da norma jurídica), que não
inlerossam ao jurista, pesquisador da natureza da norma jurídica. Não
1ompete ao jurist a o estudo do com portamento h um ano ou das rel ações
fiiire direítò è sociedade.~
Muitos estudiosos dizem que o juspositivismo é uma abordagem
mgPmi n do direit o, porqu e não vê que 0 mesm o é predeter m inado pel os
interesses sociais, sendo muitas vezes o resultado de um jogo de inte
ress es. Na verdade, K else n pe rceb e m uito bem este context o, só que ele
entende que os estudos das normas jurídicas não abarcam outra coisa
que as próprias norm as. A sua obra busca a pureza m etodol ógica, ten
tando separar os diferentes níveis do discurso científico. Exemplo: se
11111juiz decide uma causa de forma contrária ao conteúdo de uma lei,
isto A considera^ na teong kelsenia.rçg um atç ilgpL Pofjjüf deveria;
[lOléiii, ü juiz aplicai 2 lei, f?!S§ffiO íjliãMíJ© â eOH§íèl!t ifljUilã? A fgg-
posta á que o juiz não pode decidir como cidadão, segundo o que ele
ou a sociedade - con sidera m ais justo. O juiz deve decidir s egundo
o direito cm vigor , pois s ua funç ão é ap licar a lei .
ESCOLAS JURÍDICAS 31

Como cidadão, o magistrado pode até negar â obediência, quando;


discorda d e determ inada s n orm as jur ídic as e reg im es p olíticos, ou feeja,;
quando considera que o direito positivo é contrário ao seu ideal de
ju stiç a. Isto não pode, porém , ser feit o no âm b ito das funções qüe 0
Estado lhe delegou. Manter uma adequada separação de papéis (juiz e
cidadã o) é o que apregoa a denom inada “teori a da in terpretação dist an-
cidda do direito” (Dimoulis, 1999, pp. 25-26).

2.2 Teorias positivistas centradas na aplicação do direito

Hobbes, Rousseau e Kelsen elaboram teorias positivistas centradas:


na legislação. A vontade do legislador é considerada como a espinhaf
dorsa l do sist em a jurídico.
Na his tória do pen sam ehto j u ríd ic o en con tram b s tam bém teorials do
direito positivo centradas na sua aplicação. Estás consideram como'

decisivos os processos
e da administração públide interpretação do direito através
ca. Os representantes d estasdosescolas
tributòais part em da
posiç ão de que os órgãos en carreg ad o s da ap lica çã o do dir eito sã o
aqueles que concretizam o conteúdo da lei e, às vezes, alteram o seu
significado.
Quem adota esta tes e elabora u m a anális e an tiforma lista do di réi to,
considerando que o positivi sm o centrado na legisl ação com ete o er ro de
mteressar-se principalmente por aquilo que está escrito nos diplomas
legais, ocupando-se de uma “letra morta”. O interesse pela realidade do
direito, tal como esta resulta de sua aplicação, motivou várias escoias
ju ríd icas a efetuarem aquilo que se d eno m in ou de ‘‘revolta contra o*
fo rm alism o'', ou seja, revolta contra u m a aná lise do sistem a jurídic o que i
insistia na letra da lei e nas construções formais sobre a validade do
direito. Entre as escolas positivistas antiformaliktas apresentaremos
aqui a jurisprudência dos interesses e o realismo jurídico.

2.2.1 Jurisprudência dos interesses


'
(Interessenjurisprudenz)
I i
j'
g§la abordgggm é exptimida pof juristas gjemães da. escola de
Tübifigss; eisjd rêpie-ssfitafifg inalg eoühsddo é Phiüpp Heek (1858
1043) (obras principais: Inte rpreta ção do direito e ju ris prudência dos
interesses, 1914; Formação de conceitos e jurisprudência dos interes
ses, 1932).
MANUAI. 6 U SOCIOLOGIA JURÍDICA

(Con stitui ndo qua lquer ca so jurídico um conflit o d e interes ses (m a


teri ais, éti cos, religioso s etc.), a decisão a ser tom ada dev e basear-se em
uma ponderação dos interesses em questão. A particularidade do siste
ma jurídi co é que ta l po nde ração deve ser fei ta l evando em con sideração
o conteúdo dn lei.
Est a teoria concede um am plo espaço de at uação ao juiz, afi rmando
qüç da “letra da lei” nem sempre resulta uma resposta unívoca. O juiz
dcvc entender quais são os interesses em jogo, no caso cm concreto, c
nícrccer uma solução q ue se ja confo rm e ao espírit o c à fi nali dade da lei.
Em outras palavras, a ponderação de interesses feita pelo magistrado
dcvc .cr conforme ;'i intenção do legislador, que já hierarquizou os
inicicsses “colidentes".
Assim sendo, os ade ptos desta corrente afi rmam que, muit o embo ra
os tribunais possam decidir com uma certa flexibilidade (porque a lei
nflD prevê soluções claras para todos os casos), devem evitar uma solu
ção subjetiva. Heck. insiste no dever de obediência dos juizes à lei, só
que esta obediência deveria ser uma “obediência inteligente”, levando
cm consideração a situação social no momento da decisão, sendo que
0 legislador limita-se a dar orientações gerais e nunca oferece uma
resposta concreta.
Enl outras palavras, quando o juiz aplica uma lei, deve fazer um
linlmlho dc adequação desta à situação que lhe é submetida, atuando
como mu “pensador-adjunto” do legislador. Temos aqui uma escola
ju ríB c n de corte so c io ló g ic o , po rq u e se p reo cu p a com as condiç ões de
ii|iln ação do direito na realidade social, ou seja, com o contexto de
. onllilos de necessidades humanas no qual o direito es.â inserido.

2,7 R ciU sm o jurí dico (Legal realism)


(> realismo jurídico começou a desenvolver-se no final do século
X I X (l# Escandináv ia e , sobretudo , nos EUA , onde se tomo u um a teori a
miiliO i m portan te, dev ido ao sistem a juríd ico adotad o (common law,
liiui lnmcii tado nos prece den tes da j urispru dên cia e não exclusivamente
ii.i legislação).
t icpicscn tantes m ais conh ecidos são, nos EUA, Oliver Wendel l
1liilm «I H-l l 191 5), R os coc Po und (18 70-1 964 ), Je rom eF ran k (1889-
l‘i"/) c K m i I i lewellyn (1893-1962), e, nos países da Estíandinávia,
A v l I lüjjc rçir tiin (18 68 1939), A nd ers Vilhelm Lu nd sted t (18 82-1 955 ),
I HI 11 iii'. I<um < Jlivc cE C a (18 97 -19 80 ) e A lf Ro ss (18 99 -197 9).
P.SCOLAS JURlDICAS

O reali smo jurídico escandinavo reali za principalm ente aná lisé| •


metodológicas e filosóficas sobre o que é o direito (pesquisa teóricaí:
O real ismo no rte- am ericano ded ica-se ao estudo da prática jurídica, is tò
é, dos fatores que influenciam as decisões dos tribunais. Ambos inlleres^
sani-se, porém, pela dimensão humana do fenflmeno jurídico, coilside-
rando o direi to como um fat o socia l e não como um conjun to de normas
abstratas. ^
Os adeptos desta corrente entendem que a leoria jurídica deve
somente descrever as decisões dos órgãos que são competentes para
aplicação do direito. Um realista dirá que as normas escritas não tèin
muita relevância, porque parte da idéia que não é possível aplicar o
direito tal como está previsto na lei.
Quando um realista pergunta o que prevê o direito, não cqnsiderâ
importante o conteúd o da norm a escrita e os ensinam entos da doutri na;
mas sim o modo de aplicação da norma em cad& momento histórico!
Segundo uma distinção feita por Roscoe Pound no começo de sácui<jj
XX, não interessa o direito “nos livros” (law ih books), rrías sim 0
direito “em ação” (law in action). Nesta ótica teórica, o direito é aquilo
que os órgãos competentes dizem que é o direito. Ou, segundo uma
famosa definição dada por Oliver Holmes em 1897: “entendo como
direito as profecias sobre aquilo que os tribunais vão fazer na prática”
(Holmes, 1897, p. 461).
Exemplo: uma lei prevê a conceésão de licença remunerada pós-
parto por um la pso de te m po razoável, para aten d e r às hecessid ad és db
recém-nascido. Os tribunais conçedem às mães uma autorização pard
afas tar -se do trabalho por um período de 12 meses, rejeitando sistematü,
camente os pedidos dos pais de usu fruírem uma licença si milar , Alguéni
poderia diz er que is to não é ju sto , p o rq u e um a li cença-m ate rnidad e dô
duração anual é excessiva. Outros poderiam dizer que o indeferimento
dos pedidos dos pais fere o princípio da igualdade. Os! tribunais pode
riam respond er que ist o é uma q uestão de interpretação e q ue a lei lhès
concede uma competência exclusiva para decidir em tais casos, ilací
especificando nem o sexo do beneficiário, nem a duração da licença.
O real ist a dirá que “o direit o” concede uma li cença-m aterni dade de
12 meses, não permitindo a licença-paternidade. Até este ponto a esco
lha metodológica do realista coincide com aquela do positivista jurídi-í \
co: os dois interessam-se por aquilo que prevê o direito e não por
opiniões subjetivas sobre o justo e o adequado.
■1(1 MANUAI. IJfi SOCIOLOGIA JURÍDICA

O reali sta distancia-se, porém, do juspositivista num ponto cru cia l.


() juspusitivi sta faz sem pre um juízo de valor jurídico sobre a jurispru 
dência, examinando se a decisão tomada está em conformidade com o
direilo em vigor (lei). O realista, ao contrário, interessa-se exclusiva
mente pelo direito “em aç ão ” e cons idera inúti l (ou impossível) dar uma
interpretação correta ou objetiva. Então, mesmo que os tribunais façam
imu interpretação evidentemente contrária ao sentido das normas em
v íjm ii , o realista continua considerando como direito aquilo que di?.em
os tribunais.
O realismo jurídico c uma teoria positivist a porque sustenta que o
direito é estabelecido através de uma vontade política. Segundo a visão
realista, o poder de definição do direito está nas mãos dos tribunais e
da administração e pouco depende do legislador. O interesse desloca-
sc para os órgil os autoriz ad os em aplica r o direito, ou seja, para aqueles
que configuram o direito "em açSo”.
Os representantes do positivi sm o jurídico criti cam os reali stas por
ignorarem que o direi to m oderno fun dam enta-se nas decisões do legi s
la dor . Além diss o, m uitos autores sustentam que o realismo é um a teor ia
ingênua do ponto de vista sociológico, já que muitos realistas não
examinam as razões da escolha de uma interpretação, que podem ser
ju ríd icas (resp eito à v o n tad e do le gis la dor), po lí ticas (p osiç ão política
dos juizes) ou sociais (srcem de classe, interesses pessoais).

2.2.3 Esco las po siti vistas de ca ráter sociológico

Todas as escolas positivistas que foram até aqui apresentadas reco


nhecem que o direito é o produto de uma vontade política, que se cria
num determinado m om ento e se extingue em outro. Porém, est as esc ola s
não têm o interesse em fazer uma leitura sociológica do direito.
Um tal interesse é expresso, ao contrário, pelas correntes socioló
gicas do positivismo, que colocam as seguintes questões:
a) Quem cria o direito e por que?
b) P or que um a n o rm a é (o u d eix a d e se r) aplic ada?
c) Qual é a relação entre o direito e a realidade?
As correntes sociológicas do positivismo tratam estas questões
tanto na perspectiva interna do direito (“de dentro para fora”), quanto
n.i |wi iie eti va extern a (“ de fora para den tro” ). Vamo s aqui apresentar
ESCOLAS JURÍDICAS 4|
I '
quatro abordagens sociológicas do direito, cujos representantes podem
sei considerados como precursores da sociologia jurídica .5

2.2.3.1 Charles de Montesquieu (1689-1755)

O filósofo francês Charles Louis de Secondat, b a r ã o da Brède e de


Montesquieu (obra prin cipal: Do esp írito das leis, 1748) ficou conhe
cido como o Icórico da separação dos poderes, que inspirou as Cons
tituições de finais do século XVIII nos Bstados Unidos e na França.
Menos conhecidas são as suas pesquisas sobre a organização social e
polí ti ca de vário s paí ses .
Montesquieu analisa os fatores naturais (características climáticas,
solo) e sociais (hábitos, religião, organização ecotíômica e políticá) que
explicariam as diferenças entre as leglslaçfleéj dos diversos <|ovo8

(Montesquieu, 1997 e 1997-a).


Em função desta multiplicidade de fatores surgem variaoos siste
mas jurídicos. Por esta razão, não é possível falar na existência de um
únic o m odelo de dir eit o “jus to ” ou adeq uado. O áutor fundam enta sua s
análises em pesquisas sobre os sistemas jurídicos de várias épocas e
país es, in clu in do a C hina e o Japão, e re ali za um a abordagem do direito
que podemos denominar de relativista.
Ao analisar as causas da diversidade do direito no mundo,
Montesquieu sustenta que ns leis seguem os costumes de cada povo.
Alterar estes costumes através de uma mudança de leis seria, de um
modo geral, um ato de tirania e provavelmente não obteria muito
êxito, devido à resistência da comunidade (livro XIX; 1997, pp. 359
e ss.).
As observações de Montesquieu parecem hõje triviais. Devemos,
poré m , le m brar que a m eados do século X V II I, o dir eit o era visto pelo s
racionalistas como expressão dos mandameptos universais da razão
hum ana ou com o resultado do con trato social e da vontade do mondrea.
Por este motivo, a análise de Montesquieu sobre as causas sociais da
diversidade das lègislações constitui uma verdadeira “revolução teóri
ca”, abrindo um caminho para a pesquisa sociológica do direito e da
política (A lthusser, 19 85 , pp. 28-41).

<" Para uma amp la apresen tação do s precur sores da s ociolo gia jurídica cf r.
Treves, 1996, pp. 30-54.
MANUAl- OH SOCIOLOGIA JURÍDICA

• ) f. ' EscflUt hislthicti do direito

1's in cscol » surge na p rim eira m etade do século XIX , em terri tóri os
ili milcs, R( pu senlanles principais são os juristas Gustav Hugo (1764-
1)1 I I. iiImíi pi incipnl: M tim tn l d o d ire ito n a tu n d e n q u a n to fi lo so fia do
ilin lOf po.fjjjvo , I7(W) »• l-ricdiic h C arl von S avign y (17 79-1 861 , obras
I>l*|lu íp iis: Sobre a vocação do nosso tempo para a legislação e a
ii n i i i d<< d ir e it o , IKM; Sistema dt > direito romano atual. 1839).
( 1 siirgim enlo des ia esco la U>i iclac ion ad n por algun s : ulores tom
g Iiili i de mn listado nacional na Alemanha até as ultimas de'cadas do
iilo XIX, f alo que teria levado “a valo rizar as form as tradicio nais e
.pont fmeas dc orga nizaç ão política (.. .) prese ntes na tradição na cional”
(llrspanha, 1998, p. 181).
A escola histórica apresenta-se como reação à èscola do direito'
[J t u hil racional. Para os ade pto s da vis3o histórica, o direito n ülo decorre
CÍi uin.i raz ão unive rsal v álid a para todo o gên ero h um ano e exprim ida
ilriiv^s de cod ificações gera is, ap licáveis em todos os países e épocas. J
Sc|Mindo csia escola, a evolução histórica 6 determinada pela prc-
iil. i dc um espírito peculiar: o espírito do povo ( Volksgeist ) ou a
Spiniüo da nação (Meinurtg der Nation). O Volksgeist marca todas as
manifestações de uma nação, encontrando-se também na srcem do
sistema jurídico.
Ao invés dc indagar o que deveria ser o direito, esta corrente dedi-
rou se a estudar a sua f orm ação na sociedade. Enquanto produto his tó- |
iii o, o direito fo i relac iona do com a idéia de na ciona lidade e com as '
p m iicu la rid ades de cad a povo. A ssim sendo, os representantes desta
i"(ola rejeitaram as tentativas de uma codificação do direito segundo
modelos racionais, considerados “artificiais”.
Na opinião de S avig ny, o espír it o do povo revela -se atra vés do
dm-ito costumeiro (“direito popular”), dos trabalhos de intelectuais
nacionais que se dedicam a estudar as raízes do direito e sistematizam
iis suas tendências (“direito sábio”) e, finalmente, através de obras
lili-fái ias , que exp rim em e p reservam o esp írito pop ular.
A escola histórica aproxima-se de uma concepção sociológica do
diii ito, ilü medida em que considera importante o surgimento “espon-
lílneo do direito nas tradiçõ es populares, dem on strand o as sim, um
I articulai interesse pela pesq uisa das tradições j uríd icas. A afirmação
di 1 "‘.lliv Hugo dc que “as leis não são a única fonte do direito” -

I
ESCOLAS JURÍDICAS '43
I

subentendendo que a verdadeira fonte do direito encontra-se nas tradi


ções criadas pelo povo 6 p ren u n cia um a te se cdntr al da socio lo gia
ju ríd ic a m odern a, que se in te ressa p ela “reali d ad e dd d ir eito ” (v er L iç ão
5, 5). Assim sendo, a escola histórica realiza uma leitura do caráter
soci al dos 'fcufi mcnos jurídicos. I |
2.2.33 Escola mar.xitía
I
A escola marxista inicia-se com as obras o as atividades políticas
de dois pensadores alemães: Karl Mnrx (1818-1883), cuja obra
pr in cipal é O Capital, livro de caráter eminentemente econômico, e
Friedrich Engels (1820-1895). Os dois autores escreveram inúmeras
obras de interesse p olít ico e filosófico, onde aborda m quest ões, ju rí
dicas.
O m arxi smo não é apenas uma teoria elaborkda por um grupo

restrito de intelectuais, corno as outras teorias que ápresentamos neste


capítulo. O marxismo é um fenômeno de massa, relacionado com o
movimento socialista mundial e com as experiências dos países que
conheceram uma revolução comunista.
Apresentamos aqui sucintamente alguns aspectos da visão crítica
do marxismo sobre o direito .7 Parte-se do princípio que o dir eit o pres
supõe o Estado: surge som ente quand o há um a sociedad e polit icamente
organizada, corri órgãos capazes de estabelecer regras e impor o cum
prim ento das suas prescrições.
Istojygnifiça_quejj_direito aperlas confirma e fortalece as relações
sodais^aplicando.regras a situaçoesTprèexrstentès. Marx observou que
o direito desenvolvido na sociedade capitalista estabelece normas uni
vers ais e uniformes para su jei tos desiguais, perp etuán do ass im as dife
renças socia is, baseadas na exploraç ão do trabalho das classes popular es
pelo s d ete n tores de capital.
N a vis ão m arx is ta , o d ir eito não é um fenômeno autônomo nem
exprime ideais abstrat os (igualdad e, liberdade, justiça, ordem, se guran
ça) . O direi to corresponde às relações econô m icas a n e-pr edon inanj ha
sociedade. A sociedade encontra-se dividida em claisses, desenvolven-

(l') A. Dufour , Dire ito his tóri co (csc ola <lo), in Ar na ud , I$ 99 , p. 252.
,7) Cotter relI , 1991, pp. 99 e ss., e 1 996, pp. 119 e ss.; Tom as ic , 1986, pp. 11 e
ss.; Naves, 2000.
|1 MAN UAI. Dl- SOCIOLOGIA JURÍD ICA

dn m ; um processo de dominação e de repressão das classes inferiores


|KH parte «Ias classes privilegiadas, que detêm o poder. O direito reflete
(■•.iii ic ilidude social, sendo que sua configuração corresponde às rela-
i,('iivi i|iu s< dao entre, as clas ses so ciais. Po r exem plo, as norm as relat ivas

.iii <1111'i11<dc piopiiedí ule protege m , dc 11111modo geral, os interesses dns


i hs se s so ciais mais abastadas.
N esta perspccliva o d ir eito aparece com o ex pressão dos in te resses
............. Ia ( lasse dominante. Mais especificamente, o direito moderno é
i mi n in a d o com o um instrum ento iiJ èol ógic o e polít ico de dom inação
da i Ia; se capitalista (b urgu esia) sobre a sociedad e. Em outras palavras,
0 direito constitui um meio de reprò3ução do sistema econômico capi-
inlisla, funijado na exploração da força de trabalho pelos detentores dos
mc ms de produção.
Em síntese, não existe, para os marxistas, um direito sem Estado,
i i i m um Estado sem d ireit o. O direito cri ado e ap li cado pelos aparelhos
do l ’ ;tado cum pre u m a d eterm inad a funçã o social: é um instrum ento de
mp rodução da d esigu aldade cocial, ape sar d a pod er ser n tMjzafjp algu
mas vezes pelos dom inados como uma arm a contr a a cl asse dominant e.

? \4 Émile Durkheim (1858-1917)

DurUieim foi o primeiro professor a ser titular de uma cadeira


um versi tílri a de “S oc iolo gia ” (criada em 1913 em Paris). É con siderado
como o precursor imediato da sociologia jurídica (obras principais: Da
divis/ío do trabalho social, 1893; A s regras do método sociológico,
1K(>S), Durkheim entende que o direito é um fenômeno social. A soci
edade hum ana é o m eio on de o direito surge e se desenvolve, pois a i déi a
do direito liga-se à idéia de conduta, de organização e de mudança.
Pnrkheim adotou a visão metodológica “positivista” do fundador
da sociologia Auguste C om te (1798-1857), mas criti cou o carát er fi lo
sófico e inclusive “metafísico” das teorias de Comte, insistindo na
necessidade da pcsqnisa empírica antes de fazer afirmações e elabo’ar
Iris sociológicas.
Segundo Durkheim, “a primeira regra e a mais fundamental é con-
sideiiir os latos sociais como coisas” (1999-a, p. 15). Isto significa que
o *ociólogo deve e studa r a sociedad e de forma objet iva. Esta é um
oigiinismo poderoso, que desenvolve uma vida própria, não dependen
do da vontade e dos desejos dos indivíduos, mas dos fa to s sociais.
ESCOLAS JURÍDICAS 45

O autor define com o fat o social 1 “toda m an eira d e fa zer , fi xada ou


não, suscetível de eXercer sobre o indivíduo umd coerçSo exterior”
(Durkheim, 1999-a, pp. 13, 105, 124).'Em palaVras mais simples,
Durkheim entende como fato social qualquer normá que é imposta aos
indivíduos pela sociedade. O autor denomina as normas do fatos sociais
para in dic ar dois elem ento s im p o rta n te s: p rim eiro , que a orig em de
todas as normas é a sociedade (e não o legislador ou determinados
indivíduos); segundo, que as normas não são simples “palavras”, mas
exist em ob jeti vam ente na socieda de o o sociólogo deve estudá-las como
fatos, ou seja, como “coisas”.
N esta persp ectiva, as regras do dir eito são fato s so cia is m uito im 
portante s, po rq ue im põem aos in d iv ídu os o b rig açõ es e m odos dc c o m 
porta m en to , apto s a g arantir a co e sã o socia l.
As sociedades apresentam uma estrutura de relâções e de vínculos
recíprocos que o autor denomina de solidariedade. Isto i um dado
obje tivo. A m aior parte das ativi dad es hu m anas pressup õe o rel aci ori a-
mento com outros indivíduos de forma estável, duradoura e segundo
regras concretas. Isto indica que há liames sociais concretos, ou seja,
que o indivíduo não é isolado e nem a evolução social depende da sua
vontade.
A solidariedade social só pode funcionar se existem formas de
control e e de constrang ime nto ap licáveis ao s indivíduo s que não respei
tam as regras em vigor e ameaçam a coesão social. Cada sociedade
est abele ce um padrão de comp ortamen to que correspond e à s ua “cons
ciência coletiva” (ou “consciência comum”).
D urkheim define a con sciência colet iva com o “o conjun to das c iien-
ças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma
sociedade” (Durkheim , 199 9, p. 50) . O direit o exp rime t fortalece esta
consciência e garante a estabilidade social através da aplicação de
sanções contra os indivíduos desviantes.
Durkheim considera o direito como um “símbàlo visíveF’ da soli
dariedade social (1999, p. 31). Em outras palavras, o direito torna
vis íve l o t ipo de estrutura social ex istente, send o q ue este “sem pre vari a
de acordo com as relações sociais que rege” (1999, p. 109).
O autor distingu e dois tipos de solid arieda de fcocial, ist o é, duas
for mas de vínculo entre os mem bros da sociedade. A primeira encontr a-
solidariedade mecâ
se nas(ou
nica sociedades antigas e Tais
por semelhança). pode sociedades
ser chamada de
impõem aos seus membros
Ifl MANUAL Dfl SOCIOLOGIA JURtDIGA

dgvciftN particularmente rígidos. Todos devem respeitar as regras esta-


b ílc c id a s pela autorid ade. O s valo re s socia is decorrem da tr adição e da
religião e o grupo organiza-se como uma verdadeira comunidade, fun
damentada em relações de parentesco e na preservação da propriedade
■oloiivn.
A solidariedade mecânica fundamenta-se na semelhança dos mem-
l>ii'S d;i sociedade, ou seja, na uniformidade do comportamento. Quem
ii in icspcila as regras é consid erad o a gressor da ordem socia l. O roubo
ii.K) i pgr exe m plo, con sid era do com o agressã o a um particular, mas
mm uma violação dos princípios fundamentais da comunidade. O
igr vss oi (5, poilanto, co nsid erad o com o inim igo pú blico e será subm e
tido a uma punição imediata e forte.
A sociedade moderna caracteriza-se, ao contrário, pela solidarieda-
,!>• o rg ânica (ou por dessemelhança). Trata-se de lima sociedade com
ple xa, fund am enta da na div is ão do trabálho, segundo o prin cípio da
especialização. O indivíduo não se vincula diretamente a valores soci
ais, não est á sub m etido a liames tradicion ais, a obriga ções religiosas o u
'comunitárias”. A solidariedade cria-se através de redes de relaciona-
mioio entre indivíduos e grupos, onde cada um deve respeitar as obri-
C.iiçuos assumidas por contrato. O próprio indivíduo se autopolièia,
p n n |u e sabe que se n ão atuar de um a d eterm ina d a form a (e stu dar,
liabalhar, ganhar salário, investir), não poderá sobrevive, nesta socie
dade imulam cntada na prop riedade privada, na concorrência e no i nter
câmbio de bens de valores equivalentes,
() aulor considerou que a distinção entre direito público e direito
piivado não 6 satisfatória do ponto de vista sociológico. A distinção
deve basear-se 110 tipo de solidariedade que prevalece na sociedade
1 Durkheim, 1999, pp. 36-37). O tipo de direito que corresponde à
solidariedade melzânica é o direito penal, que se fáz acompanhar de
inções repressivas (pu niçã o do desvio). O indivíduo está vinculado aos
valore, de uma sociedade homogênea, que impõe um comportamento
lllilfoi inç
() direi lo que ex prim e a solidariedade orgânica com preende o dir ei -
in (■ivil, com ercial, adm inistrativo e co nstituciona l, fazen do-se aco m pa
nhai de san çoc • reslituliva s (repara ção d e dano s). Este ti po de sanções
nmonte a dilôienciaçilo da sociedade em funções especializadas, onde
e 111 essrti ia » coopef açflo. 0 descum prim ento de obrigações contr atuai s
iíii iiinn 1 pni iMihi lidíi de dc lipo patrim on ial ( e não penal),
ESCOLAS JURlDICAS '

Podemos esquematizar a análise de Durkheini sobre as formas de


solidariedade social e as suas conseqüências para o direito da seguinte
forma:

Solidariedade V ínculo so cia l D ireito Tipò de Objetivo da


sanção sanção

Mecânica Sem elhança Penal Repressiva Reprovação

Orgânica Diferenciação Contratual Re stitut iva Re stau raç ão


(público/
privado)

Com o observa Georges G urvit ch “o desenvolvi m ento paral elb do


Contrato e do Estado, ambos acompanhados de sançOes restituitóHas,
é a manifestação mais exacta do fortalecimento da solidariedade orgâ
nica e do direito que lhe corresponde. Segundo Durkheini, este desen
volvimento conduz à realização dos ideais da igüaldade, de liberdade
e de fraternidade no campo do direito”, sendo aue os indivíduos são
considerados como titulares de direitos e não corrio coisas submetidas
a uin sistema de obrigações e de sanções .8

3. CONCLUSÃO: DIFERENÇ A ENTR E ESCOLAS M OR ALIS


TAS E ESCOLAS POSITIVISTAS

As escolas moralistas fundamentam o direito em uma autoridade


bem determ in ada (D eus, n atu reza, razão h um an a) que não te m um
caráter histórico, e não é um prod uto po lít ico. Para tais escolas o direit o
é imutável, estável e permanente. As escolas positivistas consideram 9
direito como um produto histórico de urrla determinada sociedade,
resultado de uma vontade política.
C ham a-se atenção a o fat o de exist ir em m uit os autores que r ecebem
influências de ambas concepções (moralista e. positivista), dificultando

,8> Gurvitch, 1968, pp. 245-246 . A tese de Durkhe im sobr e a imposi ção progres 

siva nossas
em da solidariedade orgânica
sociedades, onde éprevalece
desmentida
o pela formahomogeneizado
trabalho de divisão do trabalho
e
freqüentemente pouco especializado (Marconi, 1974. pp. 54 e ss.). Essa tese
c também invalidada pela enorme importância da repressão penal, isto é, das
sanções repressivas nas sociedades modernas.
lll MANDAI. III' SOCIOI.OOIA JURÍDICA

(wsim n identificação da opção teórica de cada autor (é este, por exem


plo o caso de Hobbes).
Hin tudo caso, á apresentação das várias escolas jurídicas nos per-
milr cliegar a uma conclusão: as escolas mais recentes tendem a
"desmistlficnr" o direito, faz.cndo uma leitura mais realista. Isto acbn-
it-<-( prin cipa lm en te com as escolas po sitivistas, que relacio nam os
Ic nrt menos jurídicos com o Estad o e com as mudanças hist óri cas. N est e
■icnliilo, podemos ili/cr que as cscolas positivistas <\ sobretudo, aquelas
ili rm alei sociológico, aproxim am -se de uma anális e sociol ógica do
dir eit o, colocand o a questão da srcem do sist em a jurídico e da funç ão
i|ii( este cumpre na sociedade.

Para ir mais longe

A m selek e G rzegorcz yk, 198 9; A m aud e D ulce, 2000, pp. 22 e s s.,


59 e ss., 102 e ss.; Atienza, 1985, pp. 185 e ss.; Atienza, 1991; Botíbio,
I99Q; Bodenheimer, 1994, pp. 125 e ss., 303 e ss.; Dimoiilis, 1999;
Hoyard-Fabre, 2002; Hespanha, 1998, pp. 143 e ss.; Marconi, 1974;
Pawlowski, 2000, pp. 63 e ss.; Raiser, 1999, pp. 49 e ss.; Schur, 1970,
pp. 38 e ss.; S erverin , 2 00 0 , pp. 17 e ss ., 74 e ss .; S oria no, 1997, pp. 91
c ss., 117 e ss.; Tarello, 1995, pp. 92 e ss., 180 e ss.; Treves, 1977, pp.
6 e ss., 43 e ss., 101 e ss.; Treves, 1996, pp. 5 e ss., 68 e ss., 103 e ss.
I

LiçSo 2
O
ABORDAGEM SOCI OLÓGICA
DO SISTEMA JURÍDICO

SUMÁR IO: 1. Soci ologia do d ireito (abordagem positivi sta) - 2. Socio


logia no dire ito (abordagem evolucionista) - 3. Outras co ncepções da
sociologia jurídica - 4. Definição da sociologia jurídica.

Desde finais do século XIX encontramo-nos dom o surgimentÜ de


análises profundas e sistemáticas sobre o direito nas obras de tíois
importantes sociólogos europeus. Trata-se de Émile Durkheim, a quem
já nos referim os, e de M ax W eber (18 6 4 -1 9 2 0 ), fam o so soció lo g o ale
mão, cuja obra mais importante, escrita em 1911-1912 e publicada
postu m am ente , é in ti tu lad a Economia e sociedade. Nesta obra O autor
anresent a um extenso estudo sobre a sociolog ia jurídica (Weber , 1999 ,
pp. 1-1 53), q u e in flu enciará so b rem an eira os so cio lo g o s do d ireito em
todo o mundo (Lascoumes, 1995).
A sociologia era então uma disciplina jovem, mas já voltava Seus
olhos ao direito. É importante lembrar que Durkheim e Weber dedica
ram-se ao estudo
qu edos
anvários
fenômo d ir eito
enosao sociai
la do ds,aeeco
foi ndentro
o m ia ,deda m
uma ta l da
perspectiva ali saram oral,
política, das classes socia is , da reli g iã o , d a fam ília etc. A contribuiç ão
de ambos autores para o desenvolvimento da sociologia jurídica é par
ticularmente importante, sendo seus text os de 'co ns ulta obrigatória >no
âmbito do estudo desta matéria.
A sociologia jurídica nas ce com o d isciplina específica no iníci o do
séc ulo XX, quando os fenômenos jurídicos com eçam a ser a nal is ados
atr avés do uso sistemático de conceitos e métod os da sociologia geral .1

n> Segu ndo Lévy-Bruh l (1988, p . 94), o termo "socio logia jurídi ca” fo i utiliz ado
pela pr imeira vez na obra A fü oso fi a do dire ito e a so cio lo gia publicada em
Ml MA NUA I. DR SOCIOLOGIA JURÍDIC A

<t lin11iiiio ( ’;irlo N ardi-G reco (1884 -?), form ado em sociolugia e dire ito,
I iiMu â iim 19 0? o li vro Sociologia jurídica. E sta é a primeira obra a ter
nmo 111uIo o nome da futura disciplina. O autor apresenta vários sis-
li iii is |ii iídi< os c an alis a as ca us as e as fun çõe s sociai s do direito,
fir.klimlo particularmente na determinação dc seus conteúdos pela
i .iiutiun econômica da sociedade (Nardi-Greco, 1907).
I oi I * 13, o jur ista Rupc n Eh rlich ( 18 6 2 -1922) aprese nta na A lem a
nha a mi i ohia í'iuul<imcnto\ da sot ioloyja dn direito. <|iie lerá ejande
i e| HTi ussão entre os estu dio sos d o direito. E hrlich sustenta que existem
v mós ordenamentos jurídicos na mesma sociedade (direito da comu
nidade, direito do Estado, direito dos juristas) e apresenta os métodos
iii pesquisa que a sociolo gia juríd ica deve em prega r para ana lisar tai s
ordenamentos (Ehrlich, 1986).2
Os trabalhos da sociologia jurídica partem da *ese de que o direito
é um fat o soc ial (ou uma “funçã o da sociedade” -E h rlic h , 192 2, p. 14 4).
0 direito se manifesta como uma das realidades observáveis na socie
dade: a sua criação, evolução e aplicação podem scr explicadas através
da análise de fatores, dc interesses e de forças sociais. Os sociólogos do
direito conside ram que o direito p ossui u m a única font e: ‘ ‘a vontade do
grupo social” (Lévy-Bruhl, 1988, p. 38). Assim sendo, a sociologia
ju rídic a deve pesq u isar aq u ilo q ue E h rlich cham a de “fato s do direito ”
('Taísachen des Rechts), cuja manifestação não depende da lei escrita,
mas sim da sociedade, que produz estes fatos e cria relações jurídicas
(1986, pp. 70 c ss., 362).1

1892 na Itália . Trata-se de um a obra de juv entu de de Dionis io Anzilotti (1867

m A1950),
primeum ira especialista do direito
obra brasileira internacional
cujo título faz umamundialmente reconhecido.
referência direta à nossa dis
ciplina é a de Queiroz Lima, publicada em 1922 e intitulada Princípios de
sociol ogia jur ídica (Limà, 1936). Na verdade, não se t ráta dè uma obra de
sociologia jurídica, mas de u m manual de introdução ao estu do do direi to que
concede um pe queno esp aço à problemática sociológ ica. Também ri o aho de
192.2, Pontes dc Mlrnndn publica o livro intitulado Sistema de ciênci a positiva
do direito , que 6 considerado como a primeira obrn brasileira dedicadn à
sociologia jurídica (Souto e Souto, 1997, pp. 104-105).
'*’ Nimli (irc co (1907 , pp. 18-31 , 294 -310) já utilizava o termo “fáíos jurídicos"
(fiitti ffiitriilici) puni indicar lima cntcgnrin específica dc “fnlos sociais" (fntti
,V(><iuli): ns regras que estabelecem proibições c ameaçam com sanções,

objetivando garantir
nianulençíío da ordea msegurança
social. da pessoa e de seus bens e também a i
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SI STEM A JURÍDI CO SI
; ^ 1 ]K

•fI,1
Part indo desta premiss a, foram desenv olvidas duas abordagens d a >
sociologia jurídica: a “sociologia do direito” e a “sociologia no direito”.
Apresentamos um exemplo para facilitar a compreensão da questão.
Pensem na atuação de um médico legista e de um médico-cirurgião.
O objetivo do médico-legisla é lazer um exame de óbito. Se ele, por
acaso, encontrar um tumor, não vai fazer uma cirurgia para eliminá-lo,
mas registrará, cm seu relatório, a existência do tumor. A sua interven
ção objetiva somente averiguar as causas da morte, por meio ilo exame
clínico d o corpo. Já o cirurgião trabalha num a outra perspectiva. Se es te
encontra um tumor, não se limitará à diagnose, mas vai extirpá-lo,
porque se u objetivo é m elhorar a saúde do paciente. O paciente não é,
neste caso, somente objeto de observação (diagnose), mas também
ob jeto de interv enç ão ativa (terapia ). | ' !
Veremos que as duas abordagens principais dentro da sociologia
jurídic a apresenta m enkre ela s u m a dif erença com parável à do exem plo
descrito.

1. SOCIOLOGIA DO DIREITO (ABORDAGEM POSITIVISTA)

Esta primeira abordagem opta por fazer um estudo sociológico,


colocando-se numa perspectiva externa ao sistema jurídico. Seus adep
tos consideram que a sociolog ia do direito faz parte das ciências sociai s,
sendo um ramo da sociologia. Por outro lado, o direito deve contihuar
util izando o se u m étodo tradici ona l, que lhe garante u m a posição autô
noma com relação às outras ciências humanas (já <jue o método aqui se
identifica com a ciência do direito).
Adep tos desta corrente são - apesar das fortes divergências ent re
ele s-N ikla s Luhm ann (1927-1998) na Alem anha, Renato Treve s ( 1907
1992) e Vincenzo Ferrari na Itália, e Ramón Soriano na Espanha. Quase
todos os sociólogos que se dedicam à sociologia jurídica adotam esta

O jurista alemSo Artliur NuBbaurn (1877-1964), qlie pesquisou a fuiiçüo


social de vários institutos do direito civil, considerou, em 1914, que a prin
cipal tarefa da sociologia jurídica é a pesquisa dos fatos jurídicos
( R ff ju .ium achtn fo rx rhunn ). Deveriam ser estudadas ás condiçfics de criáçfio
do direito c seus efeitos na vida social, para ajudar o legislador e o operador
do direito a adaptar as leis à realidade social (Rottlcuthner, 1981, pp. 175-176;
Pawlowski, 2000, p. 193).
MANUAL DR SOCIOLOGIA JURÍDICA

posiçflo melüd<>lógica.'i A sua o rig em deve ser bu scad a na ob ra d e Max


Wrbri, que queria construir uma sociologia livre de avaliações (“neu-
ijnli dadtí axiolrt gica” do p esq uisad or) e, em parte, nas aná lises de Kelsen
ioluc ii "pureza” da ciência jurídica.

I ■x|ilu|i h mik >-nos com palavras mais simples. Estes pesquisadores


....... (li itiin que a sociologia jurídica não pode ter uma participação
iii\ i ili nlro <lo direito. Se o direito 6 “a lei e as relações entre as leis”,
11iili i o 111u- não f or “ lei e re laç õe s ent re le is" fica fora da ciê nc ia jurídica.
A sociologia juríd ica pod e estudar e criticar o dir eito , m as não pode
II parl e integrante desta ciênc ia. A sua tarefa é a de ser um observador
iwiiíro do sistema jurídico.
Este tipo de análise tende a excluir da ciência jurídica outras
disciplinas, como a filosofia e a história do direito, a criminologia,
a psicologia jurídica. O p ositi vista entende q ue estas nâo se dedi cam
ao estudo das normas e das relações entre as mesmas. Há mais: o
p o sit iv ista crê q ue a a p lic a ç ã o im p a rcia l do d ir e ito é po ssív el e
constitui tuna garantia para os cidadãos. O juiz deve aplicar a lei e,
neste processo, deve ser o mais neutro possível. Agora, ao admitir
a contribuição de outros ramos, co rre-se o ri sco de que estes venham
a interferir na aplicação do direito.
Exemplo; Uma pesquisa sociológica indica que a população
considera injusto e inclusive perigoso que os condenados reinciden
tes possam usufruir de livramento condicional, após terem cumprido
metade da pena (art. 83 do Código Penal). Quem considera que a
sociologia do direito faz parte da ciência jurídica poderia aconselhar
aos juizes das Varas de execução penal a não aplicarem este dispo
sitivo legal, fundamentando uma tal decisão na rejeição popular do
dispositivo, ou seja, na sua falta de legitimidade.
O positi vista crit ica dura m ente um a tal postura que aconselha o juiz
a cometer uma ilegalidade, confundindo a aplicação do direito com as
opiniões políticas sobre o mesmo. Para o positivista as indagações
sociológicas sobre o direito são muito interessantes, mas rião podem
intervir na aplicação do mesmo.

III Entre o s autores brasil eiros que conside ram a disciplina como “uma especi
alização das ciências sociais”, preferindo a denominação “sociologia do
dijjjjitf)". cfr. Junqueira, 1993, p. 4 e passim.
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SISTEMA JURlDICO 5$

2. SOCIOLO GIA NO D IR E l t O (ABORDAGEM EVOLUCI O


N IS T A )
1
A segunda abordagem adota uma perspectiva intenta com relação
ao sistema jurídico. Os seus adeptos contestam d exclusividade de utr>
método jurídico tradicional, afirmando que a sociologia jurídica deve
int erfer ir ativamen te na el abo ração , no estud o do gm ático e inclusi ve na
aplicação do direito. Não há unia ciência jurídica autônoma porque o
direito, ademais dos métodos tradicionais, também emprega ou deve
empregar métodos próprios das ciências sociais.
Trata-se de uma ruptura com o conce ito kelsenian o de que o dir eit o
“é a norma e as relações entre as normas”. Isto porque se ac,eita que 05
conceitos elaborado s pela sociolog ia juríd ica integ rem a ciência jiirí di I
ca. Como veremos, coloca-se em dúvida a suplosta neutralidade tío
ju ris ta .
O jurist a-sociólogo pode influenciar o processo de elaboração das
leis (porém, elaborar leis é incumbência da política e hão constitui um
trabalho propriamente jurídico) e pode também influenciar n doutrina
(os estudiosos do direito). Até aqui os problemas não são grandes. A
discussão assume tons polêmicos quando o sociólogo do direito afirmai
a pretensão de p art ici par, através daá co ntribui çõeb de sua discipl ina, na
aplicação da lei . Em outra s p alavras, 0 conflito surge quan do se sustent a
que o juiz e os outros profissionais do direito devem fazer interpreta
ções , levando em co nsideração o po nto de vista sociológ ico-jurídico (t al
como no exemplo anteriormente citado).
Entende-se, assi m, qu e o m agist rado sem pre faz um j uízo de val ore s
e nunca aplica a lei de modo “puro”: nas suas decisões projeta valores
pessoais , exprim in d o a sua vis ão db m undo. Se nãô ex iste a neutralidade
e se o direito é uma forma de política, então por que a sociologia não
deveria tentar persuadir o juiz a aplicar um direito mais justo, em
sint onia com a realidade e a s nec essidad es sociais? Po r que a sociologia
ju ríd ic a n ão p o d e ria c o n trib u ir na “ h u m a n iz a ç ã o da so c ie d a d e ”
(Rehbinder, 2000, p. 239)?
A sociologia jurídica tem um método diversô do positivismo jurí
dic o, e que r que est e método seja reco nh ecido com o p arte i ntegrante d a
ciência jurídica. Desta forma, a sociologia jurídica quer compartilhar o
poder de “ influ ência ” que a d o g m áti ca do d ir eito d etém sobre o sis te m a
ju rídico .
MANUAL Dl! SOCIOLOGIA JURÍDICA

I jTversfls nutorc s de fen de m este tipo de po sição , inclusive alguns


que nilo se dedicam especificamente h sociologia do direito. Na Alema-
ii Iiíi sit uam os M anfred R eh bin de re Winfri cd Hassemer, na I tál ia Giovanni
Farcllo, na França André-Jean Amaud, no Chile Juan Bustos Ramirez

Roberto Bcrgnlli
Alcssandro na desenvolveu
Baratta, que Espanha. Naasmesma linha situa-se
suas atividades a obrae de
de pesquisa
de ensino em vários países da Europa e da América Latina, inclusive no
Ivhlsil. ÔS |iirist!is brasileiros t|iie trabalham no cftnpo da sociologia
1111í<Iic a adotam, em sua maioria, a ótica “evolucionista", considerando
a análise empírica do direito como um meio de mudança das normas
ju ríd ic as.

3. OU TRAS CO NC EPÇÕ ES D A SOC IOL OG IA JURÍ DICA

As duas abordagens supracitadas parecem ser inconciliáveis e nos


colocam diante de um dilema. É que ambas apresentam argumentos de
peso, to rnando dif íc il um a to m ad a de po siç ão “tr an q ü ila ” por parte do
pesquis ador. Isto porque co lo ca m o g ran d e p rob le m a da au to n om ia das
ciências jurídicas e da neutralidade do legislador e do intérprete do
direito.
A escolha torna-se ainda mais difícil, porque “na prática as coisas
são sempre mais complexas”. Ninguém é de forma taxativa, adepto de
uma determinada abordagem e, inclusive, entre os adeptos de uma
mesma abordagein, encontramos grandes divergências com relação à
metodologia e à visão política sobre a função do direito.
N as últ im as décadas d esen vo lv eram -se te nta tivas de u n if icar a p ers
pectiva in te rna da so cio lo g ia j u ríd ic a co m aq uela externa (socio logia no
ou do direito). Há assim estudiosos que tentam elaborar um “ponto de
vista externo moderado”, que permita ao pesquisador observar aquilo
que os juristas co nsideram com o direi to. Segun do esta opi nião, o s oció
logo do direito realiza uma análise externa daquilo que é considerado
com o direit o pelo pon to de vista da dogm áticâ juríd ica .5
O utros au tores insistem no fat o de que a soc iologia jurídica tem
necessariamente dois aspectos, o interno e o externo, serido que o
p esq u is ad o r não p o d e ig n o ra r nen h um dos dois , ou seja , deve tr abalh ar
ao mesmo tempo como jurista e como sociólogo (Commaille e Perrin,
1985).

,M P. Ost, Ciência do direito, in Arnaud , 1999, p. 9!.


ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SmT.MA JURÍDICO 5.1

Porém, o dilema “sociologia no ou do direito” não é a unica fôrma


para in dic ar as div ergência s m etodológic as entr e os j urista s-sociólo g os.
Muitos autores apresentam uma visão relativamente diferenciada des
tas abordagens.

Ao mesmonotempo
“sociologia emou
direito que um
do autor como(1977,
direito?” Treves pp.
coloca
122a equestão
ss.), outros
autores entende m q ue a discussão deveria ser feit a de m odo dive rso . Por
exemplo, Tammelo (na Áustria) e Papaclinstou (na Grtícia) emendem
que (5 mais importante conccntrarmo-n,os na discussão sobre se a socio
logia jurídic a constitui um ra m o do d ireito ou da sociologia, ou se
existem duas formas diferentes de trabalhar na sociologia do direito (a
pers pectiva do soció lo go e a do ju ris ta ).6 Uma tomada de posição ante
este tema ajudaria a resolver o problema da adoção do método Socio
lógico nas ciências jurídicas.
N es ta perspecti va, o te rm o “socio lo g ia do d ireito ” in dic a o ra m o da
sociologia que tem como objeto de estudo o direito. Trata-se de bma
leitura sociológica do sistema jurídico, feita preferencialmente por
sociólogos. Já os juristas que estudam as dimensões soçiológicas das
normas jurídi cas, fa zem uma “soc iologia jurídica ”, permanecend o d en
tro do s istema jurídic o e procura ndo co ntribuir para sua m elhoria. Nada
impede que estas duas abordagens se desenvolvam em paralelo. O certo
é que a forma de analisar e os resultados da pesquisa são diferentes em
cada caso.
N ão há dúvid as de que a m aio ria |d os auto re s usa os te rm os “socio 
logia juríd ica” e “sociologia do direito” com o sinô nim os (Carbonnief,
1979, p. 19; Treves, 1996, p. 5; Souto e Souto, 1997, p. 38). Por esté
motivo, resulta muito difícil impor esta distinção terminológica. Con
tud o, a l eit
diferent ura doelasistema
e daqu realizadajurídico feita pelos
pelos juristas . Sesociólog
o jurista os é extremam
pode ente
p ecar por um
par co conhecim ento socio ló gic o e por um a ten d ên cia a ju sti fic ar o
sistema jurídico, o sociólogo muitas vezes desconhece completamente
o direito, que é justamente a matéria que ele se propõe a analisar .7
Uma outra distinção é apresentada por Rehbinder (2000, pp. 4-5,
30) , que diferencia duas form as de trabalho no âm bito da Socio log ia d o

161 Tamme lo, 1974, pp. 276-280; Papac hri sto u, 1984, pp. 71-72.
171 O mesmo ocorre com a histó ria do direito, a psicologia juríd ica c a crim inologia.
Na Europa, estas disciplinas ins er em- se no pr og ra ma dos cursos de direito,
sendo ensinadas, na maioria dos casos, por juristas.
56 MANUAL DF. SOCIOLOGIA JURÍDICA

direito. No seu entendimento existe, por um lado, uma sociologia do


direito pura, q ue explica o sistema j urídico atr avés de um a teor ia socio
ló gi ca. Trata-se de um a ciência “do ser”, que evit a os juízos de valor Por
outro lado, existe uma sociologia do direito aplicada. E sta se dedica ao
estudo do si stem a jurídico, co m a finalidade de ajudar o legisl ador e os
pro fissio nais do dir eito a realiz arem refo rm as e a to m arem m elh ores
decisões, graças ao conhecimento da realidade social. Neste caso ela-
hpra-sc unia teoria do direito dc caráter sociológico. Trala-sc dc uma
i leiu ia valorativa, com finalidades práticas .11
As di ferenças de opiniões en tre os autor es podem parecer imp ercep
tíveis (ou pouco claras) para quem se inicia no estudo da sociologia
ju rídic a, porq ue os p rob le m as ab o rd ad o s são sim il ares e o q ue m uda é
n foi ma de en frentá-l os. Q uem , p orém, faz um a pesq uisa nesta área ,
dcpnrn-sc. sempre com estes dilemas.
Apesar da dificuldade em tomar posição e das controvérsias que
exist em, podem os dizer o seguinte: se nsibili zar e influenciar o processo
d< elatxu açí io das leis e participa r ativam ente do de bate dog m ático é um
di v*r da sociqj ogia jurídica, pelo m enos até quand o exist a dire ito.
( impos de pesquisa juríd ica diferentes da dogmática, c om o a f ilo-
a história, a psicologia e a sociologia jurídica, integram, sem
m i I is i ,

dúvida, 0 diieito e trazem imp ortantes contri buições de ou tr as áreas da s


i it^tn ias humanas. Isto é um aspecto positivo. Estas matérias fazem
pfiflc do estu d o dos sis te m as ju ríd ic o s e n3o se ensin am nas faculd ades
mplrwncnte para dar um pouco mais de cultura ao jurista. Estas
pi «mitiMii an a li sar o elo de lig a ç ã o entre o d ireito positiv o e a reali dade
n< ínl C om o po de ex istir um direito sem fun dam ento, sem ideal de
|ü iJ ç ú , ;c iii que se mantenha um vínculo real com a sociedade?

I DU Pl NlÇÃO l) A SO CIO LO G IA J UR ÍDI CA

iii dc< idir de forma taxativa, p ode m os nos con tentar com uma
■ li rtnlijfiH nli nples e ^eral da soc iolo gia ju ríd ica , que exp rim e à rel açã o
iii ii imiiv n " 4fil/( o social e o jurídico:

■ Mil.. >i tlili i rn ir ii dlstinçflo feit a nos Es tado s U nido s entr e a sociol ogia do di-
ir|iiil«i>i /cí»t') ipif minlisn a funçtlo do direi to na soci edad e, e os estu-
ili JíírfcllaO I*pntn (.vfn io Irga l xtuHies) que c uidam da aplicaçSo do dire :!o e
I JU ini inj x hior- .nu i ii sim md li ori n (T oma sic, 1986 , pp. áO-51).
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SISTF.MA JURÍDICO 57 f
I
A sociol ogia juríd ica examina a influência dos fato re s so ciais sôb re
o direito e as incidên cias deste últ imo na so ciedade, ou seja, os elem en 
tos de interd epen dên cia entre o soc ial e o jur ídico , realizand o Um a
lei tur a ext erna do sistema juríd ico .9
Em out ras palavra s, a sociologia juríd ica exam ina as causas (soci
ais) e os efeitos (sociais) das normas jurídicas. Objeto de análise é a
“realidade jurídica”, na tentativa de responder três questões fundamen
tais:
- Por que sc cria uma norma ou um in tei ro sistema j urídico?
- Quais são a s conseqü ência s do direito na vida social?
- Quais s ão as causas sociai s da “d ecadê ncia” do direito, que s e
m anifest a atr avés do desuso e da a bolição de ce rtajs norm as ou mesm o
através da extinção de determinado siste m a jur ídico ?10
Destarte, o jurista sociólogo examina as relaçfees entre o direilío e
a sociedade em três momentos: produção , aplicação e deca dência Ida
norma.
Desta defini ção resulta que o jurista-sociólog o observa o direi to “de
fora” (l eit ura externa), examinan do as relações entre direito e socieda
de. Par a justificar esta definiç ão são n ecessários do is esclareci m entos,
oportunam ente feit os por Niklas Luhm ann (1997, pp. 16- 17, 540-544) .
O prime iro refere-se ao sentido da observação externa. Olhar o
direito “de fora”, não significa que o pesquisador seja livre ou neutro
e que se encontre desvinculado de qualquer instituição e sistemg teó
rico. Quando se diz que a abordag em sociológica o bserva o d ir eit o “de
fora”, isto quer dizer que o pesquisador procura olhar o direito, aban
donando por um m om ento a óti ca do jurista, e colocan do-se num a out ra
pers pectiva, q ue po de ser a p o lític a, a eco n ô m ica, ã socia l, dependendo
do tipo de análise que ele está fazendo.

(9) Uma defi nição seme lha nte é dada por Treves (197 i , p. 226), Soriano (1997Jp.
17), Souto e Souto (1997 , p. 36), Arn aud e Du lce (200 0; p. 16), Serverin (20u0,
p. 3). Ver ta mbé m a análise crítica d e C or rea s (1 992 ) e as definições apresehta -
das em: R. Treves, Sociologi a do Direito, in Arnaud, 1999 , pp. 753-754.
<l0) He inz Mohn ha up t deno min a este úl tim o fe nô men o cie abdução do direito,
observando que a sociologia jurídica concentra sua àtençSo na produção e
aplicação das normas, desinteressando-se pelos processos de abandono ou
abolição das mesmas ( http://www.mpier.uni-frankfurt.de/Forschung/
Mitarbeiter_Forschung/Mohnhaupt-abdu ktion.htm).
MANIJAI. DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

Por exemplo, para estudar o impacto que o direito tem sobre a


ei onom ia, o pesq uisador n ão se d edicaria a anali sar ás no rmas de ca rát er
ei onômico numa perspectiva dogmático-jurídica. Ele trataria de anali-
ii Os ef ei to s des tas normns na so cie da de . Para isto exam inaria o gra u
tlr ülicilcia da lei (Lição 3, 2), detendo-se nas práticas de Fiscalização
c n mutação da atividade e co nô m ica por par te da administ ração, na
ilislfibuição dos auxílios estatais entre as empresas, na atuação econô-
inu :i das vmpresas públicas, nas decisões dos tribunais etc.
I lii.sla l omia, o jurista- sociólogo desvi ncula- se da dogmá ti ca jurí di
ca, apes ar de perm anecer ligad o ao direito. Contudo, enquanto pesquisa-
dm per ma nece “dentro” da so cie da de e, sobretudo, dent ro d o sistema ci
entifico da soc iologia. A ssim, o jurista-sociólogo não enunci a a única
vt-nlade sobre o sist ema jurídi co, co locan do-se na posição dé um juiz to
talmente independehte e imparcial. Tampouco se pode dizer què à sua
aborda gem seja m elho rou mais importante que a do juri sta “ do gm ático”.
A diferença está no fato que a sociologia do direito utiliza conceitos
pinpi i o s da sociologia, fazendo uma diferente leitura do sistema jurfdi-
i o O jur ista-so ciólog o intere ssa-se por in ter pret ar as relaçõ es das no r
mas jurídicas com a estrutura social e privilegia a abordagem quantita
tiva do sistema jurídico (estatísticas, generalização). O intérprete do
díicito objetiva, ao contrário, interpretar o sentido das norrilàs de per si
c busca soluções de casos concretos (concretização da norma jurídica).
Isto significa que a observdçãó sociológica do sistema jurídico é
exlrrna somente em relação ao direito positivo e que não pode ser

considerada
limsta. Elas nem melhor nem pior do
são simplesmente qué aquela
diferentes nos“interna”,
objetivosprópria
e nos dbmétodos
(ver Liçã o 3 1).
0 segundo esclareci m ento refere-s e à relação entre direito e soci-
dodi Ou seja ã relação entre o socia l e o juríd ico que estabe lece m os
aqui i omo objeto de análise da sociologia jurídica. Esta concepção é
cKiieimum nlc difundida. Muitos livros tratam deste tema e duas das
iiiii In influentes icvistas dn disciplina escolheram este binômio (direito
i u icdiule ) c o m o título h iw and Soc ict y Revi ew nos Estados Unidos,
■ i‘i SociiUi na l'iança.
lisln l<immologia pode induzir ao erro de que o direito seria um
si' lema situado fora da sociedade e, portanto, deveria ser analisado em
ijílS relaçcies com esta, tal como podemos analisar as relações entre duas
pessoas ou duas empresas. Na verdade, o direito nasce no meio socjal,
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SISTEMA JLlkfDICO 59

é cr iado, int erpret ado e aplicado po r mem bros da socieda de e pers egüe
finalidades sociais, tentando influenciar o comportamento de seus
membros. Em outras palavras, o direito é, ao mesmo tempo, parte e
produto do m eio socia l.

Partindparece
e sociedade o destacarecer
premissa,
de asentido.
tar efa de
P exam
or est ina r a relação
a razão, Lu hmentre
ann di
prefreiere
Jo
estabelecer, corno objeto de análise sociológica, “o direito da socieda
de", indicando que o direito (5 11111subsistem» desta última.
Apesar de ser muito adequada a análise de l.uhmann, entendemos
que 0 exame das relações entre o direito e a sociedade continua sendo
0 objeto de estudo da so ciologia juríd ica. No entan to, devem os fazer u m
escla reci mento terminológico. O j urista-sociólo go analisa a interação
entre o direito e a sociedade. Seu trabalho não é descrever como1 fun
ciona internamente o sist ema jurídico na sua autonamia (por exemplo,
estudar as p articu la rid ad es da con d u ta de om is são n o direito penal). Seu
objeto de análise é o modo de atuação do direito na sociedade, qu seja,
o exame das relações recíprocas entre o sistema social global e o
subsisterna jurídico.
Um econom ist a que estuda as relações com erciai s do Brasi l com os
outros países do mundo pode dizer que o seu tema de análise são as
rel ações econôm icas entr e “o Brasi l e o m und o” , no sen ti do do exame
da posição econômica do Brasil no mundo. Da mesma maneira, um
ju ris ta -so ció lo g o an ali sa o rela cio n am en to d o d ir eito com o m eio so cial,
para co nhecer as funções do d ir eito d en tro da socie dade.

Para ir mais longe


1

175 eArnaud, 1991, pp.


ss.; Atienza, 219pp.e ss.;
1985, 296 Arnaud e Dulce, Filho,
e ss.; Cavalieri 2000, 1998,
pp. 124
pp.e 11
ss.,e
ss., 2 1 e ss.; Co rrea s (o rg.), 1991; C ot terr ell, 1996, p £>. 50 b ss.; Ehrlich,
1986, pp. 37 e ss.; Ferrari, 1999, pp. 60 e ss.; Garcia, 1995, pp. 17 e ss.;
Junqueira, 1993, pp. 51 e ss.; Junqueira, 2001, pp, 115 e ss.; Lledó,
1995, pp. 264 c ss.; Luhmann, 1997, pp. 7 e ss., 440 e ss., 538 e ss.;
Pawlowski, 2000, pp. 192 e ss.; Re hbin der, 2000, pp. 8 e ss.; Rosa, 1981,
pp. 57 e ss.; R ottleuth ner, 19 81, pp. 31 e ss.; S ald an h a, 1989, pp. 23 e
ss.; Soriano, 1997, pp. 15 e ss.; 191 e ss.; Souto e áouto, 1997, pp. 36
e ss.; Sueur, 2001, pp. 23 e ss.; Tarello, 1995, pp. 349 e ss., 408 e ss.;
Treves, 1977, pp. 12 e ss., 122 e ss.; artigos na revista Sociologia dei
diritto, números 1 e 2 de 1974.
Lição 3

A FUNÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA


E A EFICÁCIA DO DIREITO

SUMÁR IO: I. Iridim cnsion alida de do direito e especificidade da abor


dagem sociológica - 2. Efeitos sociais , eficácia e adequação inte rna d as
normas ju rídicas - 3. Análise empí rica da eficácia da norma jurídica -
4 Fntorr-s de efic ácia da nor ma no dir eit o mode rno : 4.1 Fatores instru-
mrntnls; 4.2 Fatores referentes ô sltunçflo social.

A sociologia jurídica analisa o processo de criação do direito e sua


iplu açflo nn sociedade. E xam inarem os n este capítulo as especif ici dades
<In abo rdagem sociológ ica d o direito e e m segu ida an alisaremo s o t ema
díi cTicíicia do direito, que constitui um dos principais objetos de estudo
da sociologia jurídica.
( om eccm os cit ando um exem plo. O Código Penal brasil eir o pr oíbe
o Jdiiltéiio è prevê uma pen a entre quinze dias e se is meses para que m
n pm tica (art . 240). O ad vo gad o de um a m ulhe r presa em flagrante del ito
pela p ráti ca de adu ltério , ad m it e nos auto s q u e a sua clie nte com ete u este
íitn, mas pede a sua absolvição, sustentando que este artigo, na prática,
nSo «* mais aplicado: nem a políci a, nem os tribunais persegu em os
mlulicros. Por tal razão, seria injustificado condenar a acusada, já que
liojt cm dia sã o com etidos inúme ros adultér ios que perm anecem impu
ne* 0 liibunal não aceita o argumento e condena a acusada.
Em scRiiidn, um professor de ftlosoftn do direito publica um artigo,
illir rrmndo Cju<J a pu niçflo d o a du ltério é inju sta, eis q ue o pro ble m a das
K luç õtt s entre cônju ges é e stritam en te pesso al e por eles deve ser reso l
vido <) BsiiúdO <ll,c inte rv ém na intim ida de da s pe sso as com ete um
l',rn vi fjrro up cn m do os limites dc sua com petência. O tribunal deveri a
i ulv i n Q( nsnd ii, m os K índ o a todo s qu e a no rm a em qu es tão con traria

t
n . | n ini 11ii<i*. iln dir( ilo.
A FUNÇÃO DA SOCIOLO GIA JUR ÍDIC A F. A FHC ÁCI A DO DIRF.ITO 61

Com o se posicionaria o sociólogo do direi to eih face deste debate?


Deveria dar razão ao advogado, ao juiz ou ao professor? Para tratar a
questão, o jurista-sociólogo deverá realizar um estudo por etapas:
a) Fazer uma pesquisa empírica para averiguár em que medida o
artigo sobre o adultério é aplicado,
b) A nalisar a relação entre o direito e a evolução da sociedade, para ,
depois, tentar explicar porque a norma é aplicada ou não.
Ao realizar esta pesquisa o j urista-sociólo go não pode emitir juízos
de valor sobre o tratamento jurídico e social d o adultério. Sua função
é a de com preend er o pensamento e o com portam ento do leg isl ado r, das
autoridades e dos cidadãos, ou seja, as razões sociais que levam à
elaboração de determinadas norma's e sua aplicação. Por isto, deve
deixar de lado sua opinião pessoal.
Em outras palavras, o sociólogo do direit o não j ülg a, mas tent a com 
preender o fen ôm eno q ue se p ro p õ e a analisar: d ev e b u sc a r o sentido que

as pessoas
inst ituiçõesdesociais
uma determinada sociedade
. Isto é o que W eberdão aos acontecimentos
denom e às
ina de "sociologia compre
ensiva' ' {verstehende So ziologie -W eb er, 19 91 , pp . 3e ss .).
N o caso con creto , o so ció lo go do dir eit o d ir ia q u e o pro fe ssor de
filosofia exprimiu o ponto de vista da sua disciplina, que se intere'ssa
pela questão d a legit im id ade e do caráter j u sto do dir eito . C om re la ção
ao advogado, afirmaria que este tentou defen der a sua client e, e como
a situação de fl agrâ ncia não lhe perm itia outra alternativa, recorreu a um
argumento de caráter so ciológico-jurí dico, para afastar a aplicabi lida de
da norma. T al argumento teri a po ucas cha nces de convencer um juiz, já
que este deve aplicar o direito em vigor e não se influenciar pela
“real idade social”. Abso lvendo a acusada, o ju iz co m eteria uma ilega
lidade.
Em conclusão, percebe-se que, neste caso, não existe uma única
posiç ão correta . T udo d ep en d e do p on to de vis ta , sendo que a ta re fa das
autor idades que aplicam as norm as é diversa daque la dos estudi osos que
fnzcm uma análise sociológicn ou filosófica do direito.

1. TRIDIME NSIONA LIDAD E DO DI REITO É ESPECIFI CIDA


DE D A ABORDAGEM SOCIOLÓG ICA

O nosso exem plo nos perm ite tir ar duas conclusões com rel ação ao
papel da sociolog ia ju ríd ic a e do se u cam po de ação. E m prim eiro lugar,
MANIIAI. Dl- SOCIOLOGIA JURÍDICA

.. ií lnj>i;i imklicn não se interessa pelo estudo da justificação do


In. Ho , A iní ílise de seus fun dam ento s (razão, idé ia de justiça , moral,
\ uni n l( díi claísse do m inan te, rac ion alizaç ão) é pe rtine nte à filosofia do
<lnt'ii<>

ii\ ;• I i (IP i*, não


-i-j-uiulo lugar,
a doa sociologia
p ro ble m ajurídica
da va não
lidarealiza análises norma-
iii

se oc up de e da nte rpre taçã o


ffn 111rel (<> A v;iI idade é o bje to de aná lise do s teóric os do d ireito po siti vo,
i|in i ibWnm o s c rit n i© da norma váli da com o é o caso de Kelsen.
I ,ii li imicos examinam também o tema da interpretação jurídica, que
iti 11 rrssa particularmente aos assim chamados operadores do direito
I I ji tlbém denom inados de atoresj urídico s ou ag entes do direi to). Estes
lt finos são utilizados para designar as pessoas que exercem profissões
ju ríd ic as (ju iz es, advogados, prom oto res, po li c ia is etc .) e que trabalh am
t nm n aplicação do direito em casos concretos.
Os fi lósof os do direit o co stum am afir m ar que o sist ema j urídico tem
Ires dimensões, ou que pode ser abordado sob três pontos de vista:
ju stiç a, validade, efic ácia . T ra ta -se da te ori a “ tr id im ensio n al” do direito
(ou do trial ismo do con hecim ento jurídico), desenvo lvida, entre out ros,
pelo ju rista M ig uel R eale (1 994, pp . 23 e ss.; 2000, pp. 64 e ss.):
a) A questão da justiça interessa aos filósofos do direito, que exa
minam a assim chamada idealidade do direito (justificação do sistema
ju ríd ic o atu al; busc a dos m elh ores prin cíp io s de organiz ação social;
relações en tre direi to e m oral e entre n orm as po siti vas e ideais de justiça;
relações entre o direito e a “verdade”).
b) A análise das no rm as form alm ente válidas, ou seja, o estu do
“interno” do direito positivo, interessa ao “dogmático” ou intérprete do
direito (que visa identificar as normas válidas; buscar o sentido de cada
elemento do ordenamento jurídico; solucionar os problemas de colisão
entre normas e afaaptá-las aos problemas concretos). Neste caso, o
objeto do conhecimento é a normatividade do direito.
c) A terceira dimensão refere-se à eficácia das normas jurídicas e
corresponde ao campo de análise do sociólogo do direito. Tomando
como o bjeto de conhec ime nto a vida jurídica, este examina afacticidade
do direito, ist o é, a “realidad e soc ial do direito” (R ehbind er, 2000, p; 1).
Como escrevia Nardi-Greco no começo do século XX, a sociologia
ju ríd ic a elabora um a te ori a socio lógic a dos fenôm enos ju ríd ic o s, sem

interessar-se pelas
pelo s “ id eais questões
ju ríd técnicas pp.
ico s" (1907, da interpretação
452-453). do direito nem
A FUNÇÃO DA SOCIOLOGIA JURfD ICA E A EFICÁC IA DO DIREI TO 63

Assi m, podem os entender p orque a sociologia jurídica co nsider a o


dire ito com o fato soci al e porq ue a perspectiva do sbciólog o é difere nte
daqu ela do fil óso fo e do intérp rete do d irei to. So m ente !a sociologia
ju ríd ic a ex am in a sistem a ti c am en te a aplic ação p rátic a, ou seja , a eficá
cia do direito. Isto constitui o principal traço distintivo do seu trabalho
(Ferrari, 1999, p. 269).
Contudo, não podem os esquecer que est as tr ês dimensões do conh e
cimento jurídico estão relacionad as en tre s i. Por ex em plo, se a socieda
de considera que um a lei 6 injusta, esta provavelmente será revogada ou,
em todo caso, permanecerá sem efeitos práticos, será ineficaz. Desta
forma, o i ntérp rete do direit o não p ode ig no rar qu e a fal ta de legiti m ação
de uma lei em vigor pode leva r à sua revogação ou à sua ineficáci a. Por
outro lado, o sociólogo e o filósofo do direito nãc são indiferentes ao
tema da interpretação do d ireit o po sit ivo, já que n ecessitam conh ecér o
conteúdo das normas cm vigor para poder nrialiisar a realidade e a
idealidade do direito.
Assim sendo, o sociólogo d o direit o não trabalha ignorand o as análi
ses dos filósofos e dos intérpretes do direito. Existem inclusive estudio
sos que optam em favor da com plem entaridade dais três dimensõe s dò
conhec imen to jurídic o (Reale, 1994; Souto e Sou to, 1997 , pp . 40 e s s.).
Recapitulando: depois de estabelecido o fundamento e o conteúdo
de cada si stema norm ati vo, en tra em a ção a terceira dim ensão do direi to,
a sociologia jurídica, que analisa o impacto do sistema normativo na
sociedade. 1
Tom em -se, com o exem plo, as l eis sobre a fam íli a que se encontram'
no Có digo Civil . O intérprete tr abalha rá com as norm as, indicando, por
exemplo, quais são as condições para contrair matrimônio, segundo o
Código Civil. O filósofo do direito analisará a justificação e as conse
qüências morais e políticas da instituição do matrirriônio. Neste contex
to, tentará oferecer uma avaliação do significado do matrimônio, tal
como é configurado pelo direito em vigor.
O sociólogo do direit o vai ex am inar o imp acto social das previ sões
le gai s com relação ao casam ento, po dendo dedicar-se, poi exem plo, à
anál is e do grau de conhecim ento e d e aceit ação destas normas pel a popu 
laç ão. O jurista-sociólo go p erceb e que a lei t em a ca pacid ade de influen
ciar, cond icionar e inclusive t ransfo rm ar o com portam ento da população.
N este sentido, a so ciolog ia ju ríd ic a co n ced e , co m o j á vim os, um a p arti
cular at enção ao tema da eficácia e dos efeit os so ciais do direit o.
m MANI I AI . i m ; .so ciq i.oo ia ju rI d ic a

2. EFEITOS SOCIAIS, EFICÁCIA E ADEQUAÇÃO INTERNA


DAS NORMAS JURÍDICAS

Sobre a definição e as dimensões da eficácia da lei constatam-se


grand es controvérsias entre os so ciólogos do direito, existindo inclus ive
variações terminológicas. Pala-se assim em “eficácia”, “eficácia so
cial”, “efetividade” e “eficiência” do direito, dando a estes termos va-
rin das daf iniç ões, que ind icam as difere ntes concepções d o fenôm eno .1
lim nossa opinião, a análise das repercu ssões sociais de uma norma
ju ríd ic a form alm ente válida p ode ser feit a em tr ês per specti vas:
a) Efeitos da norma. Qualquer repercussão social ocasionada por
uma norma constitui um efeito social da mesma.
Exemp lo: uma le i estadual estabelece um aum ento de 50% dos im
postos a serem pagos po r em p resas de capital fe strangeiro . A lgu m as em 
presas d ecidem deslocar-se para o utros E stad os d a U n ião, o n d e a trib uta 
ção é muito menor . N ão estam os diante de um descum primen to da le i. A

decisão tomad a por estas em presas constitui apenas um efeito da le i.


b) Eficácia da norma. Trata-se do grau de cumprimento da norma
dentro da prática s oci al. U m a n orma é considerada socialmente e fica z
quando é respeitada por seus destinatários ou quando a sua violação
é efetivamente punida pelo Estado. Nos d ois casos a previsão norma tiva
6 respeitada, seja de forma espontânea, seja através de uma intervenção
coercitiva ou punitiva do Estado (Geiger, 1947, pp. 34-35; Kelsen,
2000, p. 12).
Podemos denominar a eficácia que resulta do respeito espontâneo
da norma de eficác ia do p receito ou primária. A eficácia qu e resulta da
intervenção repre ssiv a do Estado p ode ser quali ficada como eficácia da
sanção ou secundária.
Exemplo: 30% dos condu tores não respeita o li mite de ve locidade
nas estradas brasileiras. Se todos estes forem identificados e punidos,
6 possível afirmar q ue a n o rm a que lim ita a velocidade é plenam ente
eficaz (eficácia do preceito para 70%; eficácia da sanção para 30%).
Fntendc-se facilmente que, na real idade, as normas jurídicas nunca
são plenamente eficazes. Por mais que as autoridades de um Estado se

" 1'iirln, l ‘>99, pp. 122 c ss. ; P. Lns cou mes , Efctl vldn de, In Arnn ud, 1999, pp.
293 c ss.; R. Bettini, Eficácia, in Arnaud, 1999, pp. 296 e ss.; Barroso, 2000,
pp H3 c s.s.
A FUNÇÃO DA SOCIOLOGIA JU RÍDIC A E A EFICÁ CIA DO DIREITO 65

I ;
empenhem em descobrir e punir t odas as violações de normas, sempre
há casos de transgressão que permanecem impunes. Uma pesquisa
empíri ca pode estabelecer matematicamente o grau (a porcent agem) de
eficácia de uma norma. Neste caso, o pesquisador busca identificar a

“quota de eficácia”.
Segundo o modelo elaborado pelo sociólogo do direito alemSo
Theddor Geiger (1891-1952), 2 a quota de eficácia indica a relação
rntrr eficácia r ineficácia da norma. Cicigcr define como "situações
típicas da norma ” (1947, p. 15 ) o mimeib total ile casos nos quais a
norma deve ser cumprida.
Exemplo: todos os autom óveis devem paga r o IP VA. Hav endo 10
milhões de automóveis registrados no país, temos 10 milhões de situa
ções típicas da norma que obriga ao recolhimento do IPVA.
O ntímero de situações típicas pod e ser simbo lizado pela le tra ( $).
A quota de eficácia (qE) é o btida através da d ivisão dos ca sos de eficáci a
(E) pelo ntímero total de situações típicas (S): 1
qE = E / S
Se dos 10 milhões de proprietários de autom óveis 5 milhões pag a
ram o IPVA e 2 milhões de inadimplentes foram identificados pelas
autoridades fi scalizadoras e obrigados a pagar o IPVA co m mu lta e juros
ou punidos com outra sanção, teremos 5 milhões de casos de eficácia
do preceito e 2 milhões de casos de eficácia da sanção. Isto perfaz um
total de 7 milhões de casos onde n norma foi eficaí. Dividindo o E (=
7 milhões) pelo número total de situações típicas S (= 10 milhões)
teremos uma quota de eficácia de 7/10 = 70%.

“nos Resumindo, a quota


livros” estabe lecidoden eficácia
a no rm indica
a legal a(odistâiicia entre
deve r ser o direito
juríd ico) e o di reito
“em ação” (o grau de cumprimento do direito na realidade social)
(Ferrari, 1999, p. 262).
c) Adequação intern a da norm a. Trata-se d^ capacidade da norma
em atingir a finalidade social estabelecida pelo legislador. Uma norrria
I
121 Após a tomada d o poder pelo nacional-socialismo (1933) Geiger exilou-se na
Dinamarca e na Suéci a, onde conheceu a teoria do realismo jurídico e desen
volveu importantes pesquisas empíricas e teóricas no campo da sociologia
jurídico. Em 1947 o nutor pu blic ou, em id io ma nlcmflo. n conh ecid a ob ra
Estudos preliminares
Geiger cfr. para uma sociologia do direito.
Cabrera, 1992. Sobre as teorias de
1

\ 66 MANUAL. DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

ju ríd ic a é considerada internam e nte ade quada quando as suas c onseqii ên-
cas na prática permitem alcançar os fins objetivados pelo legislador.
Exemplo: uma norma proíbe a quem foi condenado por crime
falimentar exercer o comércio. Os empresários condenados por tais

ctimc.s voltam
as cafilhos
exercer. Aqui
atividades
a lei écomerciais, utilizando o nome delegislador

u
suas espos con torn ada. A finalidad e do
dc excluir do comércio pessoas que potencialmente criam perigo para
os negócios não é atingida.
Outro exemplo: a lei que prevê a responsabilidade do empregador

u
em caso de acidente d e trabalho na Fra nça. Naqu ele país , o empregad or
deve semp re indenizar os empre gado s vítimas de t ais acidentes (respon
sabilidad e obj etiva ). Para prev enir-se de e ventuais gastos muitos em pre
sários estabelecem contratos com seguradoras. Os prêmios pagos sãó

u
revertidos aó conumidor, pois são incorporados rio vajor firtàí da mer
cadoria. Assim sendo, o objétivò do legislador nSb é alcançado: nio é
otrabalhistas
emp regador e sim o con sumCarbonnier,
idor que arca2001,
com p. 150).
os c ustos dos aci dent es

u
(exemplo tirado cie

u
Para terminar, tomemos um exemplo que permite compreender
melhor a aplicação destes três conceitos (efeito, eficácia e adequação
interna da norma). Pens e-se na no rma que estab elece o rod ízi j de carros
no centro da cidade de São Paulo.
Efeit o da norma pode ser qualquer comportamento social causado
pel a m esm a, ta is com o, debates televisivos sobre o tema, notícias vei
culadas pelo jornal ou manifestações contra a sua vigência.
Eficácia é o grau de cum prim ento da norm a por parte dos mot oris tas
c o controle da sua aplicação pela polícia. Se a norma em questão não
possui n en hu m a efic ácia, então se fal a em “ letra m orta” ou e m “dir ei to

u
m
no papel” ( Papierrecht ).
A adequação intern a da norma nos indica se o respeito à mesma é
suficiente para alcançar os objetivos do legislador. Exemplo: o legisla -1
dor queria diminuir a poluição na cidade, os proprietários respeitam a
norma de rodíz io, mas todos c om pram um segundo veíc ulo, dest a f orma
a finalidade da lei não é atingida. Ou seja, mesmo sendo cumprida, a lei

u
nüO conseguiu alcançar os seus fins. A lei revela-se imprópria em rela-
çfio i sua finalidade social (di min uiç ão da polu içã o ). 3

u
A n|]Ji(sf£n»
exemplo dndo, dn Iclpossível
seria pode, Inclusive, crlnr
um numento efeitos contritrlos
de poluição, nos pretendidos.
devido à compra de No

n
111n sciiijrfdo cano mais antigo e, portanto, mais poluente. Em tal caso,

n
A FUNÇÃO DA SOCIOLOGIA JURÍDICA E A EFICÁCIA pO DIREITO 67

Deno min amo s esta adequ ação de “interna” porq ue se r efer e à rela
ção entre os objetivos pretendidos pelo legislador, quando ele edita a
norma, e os reSultados alcançados pela aplicação da mesma. Trata-se
ass im de um a avaliação interna ao sistema jurídi co* qu e respon de ã
pergunta se o m eio em preg ad o (no rm a) perm ite atingir os objeti vos d 0|
legislador. Tais objetivos podem sfer, cm geral, identificados na exposi
ção de motivos, a qual precede vários textos legais e tias discussões
parlamentares sobre os projetos de lei.
Duas observações:
- Norm as simbólica s. Uma norma inefic az ou inadequada pode ter
relevânci a social. Muitas vezes o legislador cria no rmas qu e dificilmen
te encontrarão sua aplicação na prática, ou seja, normas cuja baixa
eficácia poderia ser prevista já no momento da suà elaboração (“inefij-
các ia pré-program ada” - Rai ser , 199 9, pp . 255 -256)] Ta is normas'sáo
colocadas em vigor para dar uma m ensag em sobre as intenções pol íti cas
do legislador, para satisfazer os anseios de uma parte da população ou
par a exercer u m a função pedagóg ica, destacand o determ inados val ore s
c sensibilizando a sociedade (Cotterrell, 1991, pp. 96 e ss.). Nestes
casos, dizemos que a norma objetiva produzir efeitos simbólicos (“le
gislação simbólica” ou “lei-manifesto”).
Exemplo: a penalização do assédio sexual (art. 216-A do Código
Penal). É muito difícil que tais condutas sejam denunciadas e punidas.
O próprio legislador está ciente das poucas chances de eficáci a da norma,
mas decide criá-la para dar uma mensagem à sociedade, para educar ii
população e para satisfazer reivindicações de grupos de mulh eres.
A legislação simbólica é muitas vezes criticada bom o argumento
de que as normas j urídicas devem regulam entar as relações soci ais e nã o
fazer propaganda moral ou marketing político (Miiller, 1993; Lenne,
1994; Neves, 1994; Smaus, 1998, pp. 305-310; HanSjiirgens e Ltibbe-
Wolff, 2000).
- Adequação extern a da norm a. Além da adequação interna entre
fins e resultados, uma norma pode, também, ser avaliada do ponto dte

. '. . I . !
estamos diante de um efeit o pe rverso da lei que pretendia diminuir a poluição
e acabou causando um aumento da mesma (agradeço a observação do Pro
fessor Eduardo Fanganiello). Segundo Raiser (1999, p. 257) os efeitos per
versos também podem ser denominados de efeitos indesejáveis. Este autdr
cita o exemp lo do aum ento da alíquota de impostos que càusa fuga d e cap itais
para o exterior, tend o com o re su lt ado a di min ui çã o da arrecadação.
fiR MANU AL DE SOCIOLOG IA JURlDICA

vista externo ao sistem a jurídico. N este caso, os objetivos do legislador


c os resultados obtidos através da aplicação da norma são avaliados
segundo critérios dç “justiça”.
Exemplo: a lei que fixa um salário mínimo de R$ 200,00 é eviden-
Içm cwte contrá ria ao s critérios de ju st iça social, isto é , revela-se como
socinlmcntc c politicamente inadequada, mesmo se esta lei corresponde
à vontade do legislador e à política econômica do governo. O juízo de
valor sobre a adequação externa da norma pertence, porém, ao campo
da filosofia tio direito, e não faz parte da observação do jireito positivo,
realizada pela sociologia jurídica.

\ 3. ANÁLI SE EM PÍRIC A DA EFICÁCIA DA NORM A JURÍDI CA


\
Para estudar o tema da eficácia, o sociólogo do direito faz uma
\ pesquisa em pírica q u e lh e permite responder a quatro qutstôes:
1 a) Tem a norma efeitos, eficácia e adequação Interna?
b) Por que a n o rm a tem (nunca teve ou deix a d e ter) ef eit os, efic ác ia
A
4 r adequação interna? Ou seja, quais são as razões sociais que levam à
concretização (ou não) de tais aspectos?
1 c) Qual é a reação do legislador diante da constatação dos efeitos,
eficácia e adequação interna de determinada norma?
\

d) Quais são as razões sociais dè determinada reação do legislador?


I
Exemplo: o sociólogo interes sado em c onh ecer a quota de e ficá cia
l das normas do C ódigo Penal que proíbem o aborto fará entre vista s c om
U uma amostra da população feminina, escolhida segundo os critérios
metodológicos de sua disciplina (ver Lição 8 , 2.3, b). Em seguida
perguntará às m ulheres escolhidas se e quantas vezes engravidaram
l c praticaram aborto nos últimos cinco (ou dez ou vinte...) anos. Per
i
guntará, também, se o ato foi descoberto e punido pelas autoridades.
U Elaborando estatisticamente os resultados, o pesquisador poderá
estabelecer a quota de eficácia da norm a no período e espaço q ue co bri u
a pesq uisa .4 Se, por exemplo, resulta que d os 800 casos de gravidez ( S),
i
l
141 Aimvés dc procedim entos semelhantes pode m ser examinados os problema s
í dos efeitos sociais e da adequação interna da lei. O cientista deve primeiro
Hriim r imin prsquisa "de cam po”, que oferece um mnte rial empírico, e depois
IHoirdri n umn nnrtlise teórica, procurando ordenar, interpretar e relacionar
1 ruiir si 0s ilados recolhidos para alcançar uma explicação adequada do
\
IciiAinrnn,

1
1
1
A FUNÇÃO DA SOCIO LOG IA JURÍDIC A E A EFICÃCÍA DO DIREITO fiÇ
!
80 condu ziram a um aborto e destes 80 abor tos soi jnente 4 foram puni
dos, o resultado será uma quota de eficácia de 90,5%. Lembremos que
na eficácia (E) devemos contar, èegunao o modelo de Geiger, tanto os
casos nos quais a norma foi espontaneamente respeitada (720 casos),
quanto aqueles em que a polícia descobriu e os tribunais sancionaram
a infração (4 casos):
qE = E / S = 724 -f 800 = 90,5%.
Em alguns casos é fác il constat ar a quota de eficácia. Po dem os saber
quantos brasileiros tinham a obrigação legal de votar nas eleições pre
sidenciais de 2002 , quantos não cumpriram esta obrigação sem justifi
cação legal e quantos foram punidos pela Justiça eléitoral. Neste caso,
é fácil averiguar a quota de eficácia das normas que regulamentam a
obrigatoriedade do voto (arts. 14 e 15 da Constituição Federal).
Porém, na maioria dos casos 6 muito difícil détórminur a quota de
eficácia. Em primeiro lugar, é praticamente impossível averiguar toHos
os casos de desob ediência da n orma. Pen se-se na dificuldade e no custo
de investigar os supermercados de uma cidade para saber o número
exato de pessoas que furtaram mercadorias. Tal pesquisa 6 ainda mais
difícil de realizar quando abrange temas complexos, como a criminali
dade econômica.
Em segundo lu gar , há casos ondé é impossível res ponder c om jm
simples “sim ou não ” sobre a ques tão da obed iêncik à lei. Isto acont ece
freqüentemente no direito civil. Como constatar sb são respeitadaá as
regras do direito de família sobre a educação dos filhos?
Finalmente, é difícil identificar as situações nas quais deveria ser
aplic ada a norm a (“situações típicas da no rm a”). Fürtar é proi bidc jara
todos e em qualquer momento. Deveríamos então dizer que as pessoas
hosp ita liza das, sem possibili dade de locom oção devem ser considera
da s entre aquelas que respeita m a referida norm a pènal, ou se u comp or
tamento é irrelevante para a eficácia desta norma, já que estas, mesmo
se quisessem, não poderiam violá-la? Aqui, o pesquisador deve deter
minar as situações onde o respeito à norma torna-se relevante.

4. FATORES DE EFICÁCIA DA NORMA NO DIREITO MO


DERNO

Os fatorese das
características de eficáci a dedeumcada
finalidades a nor ma diferen
sistema jurídico.ciam -se em funç So da s
Apresentare
mos aqui os fatores de eficácia no direito moderno.
70 MANUAL DP. SOCIOLOGIA JURÍDICA

Há uma regra gèral: quanto mais forte é a presença destes fatores,


maiores serão as chances de eficácia da norma jurídica. Se a influência
destes fator es é fraca, é provável qu e se verifique a ineficácia d a norma.

4.J Fatores instrumentais

Estes fatores dependem da atuação dos órgãos de elaboração e de


aplicação do dircilo.
a) D ivulg ação do conteúdo da nomia na população pelos meios
adequados, empregando métodos educacionais c alguns dos meios de
p ropaganda política e comercial.
Exemplo: propaganda que orienta os eleitores para o uso de urna
eletrônica.
b) Conhecimento efetivo da norm a p or parte de seus desti natá rios ,
que depende principalmente da divulgaç ão do con teúdo da mesma e do
nível de instrução da população.
c) Perfeição técnica da norma: clareza na redação, brevidade, pre
cisão do conteúdo, sistematicidade. Estes são elementos que devem ser
observados durante a elaboração da lei, e que repercutem no Seu pro
cesso de efetivação.
d) Elaboração de estudos prepa ratórios sobre o tem a que se objetiva
legislar: aqui entram o trabalho das comissões de preparação de ante
proje tos, as estatísticas, as pesquisas de in stitutos especializados ko br e
necessidades e conteúdos de uma intervenção legislativa, e os estudos
sobre os custos e a infra-estrutura necessária para a aplicação de de
terminadas normas jurídicas.
e) Preparação dos operadores do direito responsáveis pela aplica
ção da norma.
f) “Rechts}olgen"! (conseqüências jurídicas) adaptadas à s itua ção
e socialmente aceitas. Trat a-se da elabo ração de reg ras que estimulam
a adesão dos cidadãos à norma em questão, tanto pelo oferecimento de
uma vantagem, como pela imposição de uma sanção não tradicional.
Exemplos: desconto para quem paga impostos com antecedênc ia; di mi-

' F.iii al emão Recht significa dir eito e Folge conseqüência. O termo Rechtsfolgen
inrlica as conseqüências jurídicas de lima norma, ou seja, as sançOes (Liç3o
7, 1.2), Fste termo foi equivoca damçnte traduz ido nò Brasil como “preceito "
ou “dispositivo" (Reale, 2000, p. 100).
A FUNÇÃO DA SOCIOLOGIA JURfDICA E A EFICÁCIA DO DIREITO 71

nuição da pena para os presos que estudam; subsUituição da pena ae


multa pela suspensão da carteira de motorista ou pela obrigação de
freqüentar curso de habilitação.
g) Expec tativa de conse qüên cias negativas. Se as pessoas, com oase
na s experiências anterior es, es peram que as s anções enunciadas pelâ l ei
sejam efetivamente aplicadas na prática, obviamente serão mais propí
cias a respeitar a lei. Se ao contrário, é conhecido que os operadores do
direito não fiscalizam e nem sancionam um determinado comportamen
to, então o número de infrações será provavelmente maior. Exemplo: se
os cidadãos sabem que por muitos anos os funcionários da Receita Fe
deral não persegu em a sonegaçã o fis cal ou que um determ inado m unicí
pio raram ente cobra as multas por infr aç õe s de trânsiito, se ntir-se -ã o “e n 
corajado s” a com eter infrações e nã o serão intimidad bs por (im ã re forma
legal que ameaça com maiores penas os infratores dbstas categorias

4.2 Fatores referentes à situação social

São fatores ligados às condições de vida da sociedade em determi


nado momento. O sistema de relações sociais e à atitude do poder
polí tic o diante da sociedade civil influenciam as chances de aplicação
(a quota de eficácia) das normas vigentes. Podemòs distinguir quatro
fatores.
a) Participação dos cidadãos no processo de elaboração e aplica
ção das normas. Uma reforma legal qiie atende reivindicações da mai
oria da população possui, logicamente, mais possibilidades de aplica
ção do que um a norm a decid ida de forma autoritária. Aqui encontramos
a importância das formas de mo cráticas de exercíc io do pod er. Se o po vo
participa ativam ente na tom a d a de decisões políticas e se o sistem a
polí tic o oferece espaço às iniciativas de auto-organização das vária s
comunidades (dem ocracia dire ta), oc orrerá uma maior “adesão” popu 
lar às metas políticas do Estado, aumentando assim o grau de obediên
cia ao direito.
Exemplo: Uma política de segurança que se fundamenta nos resul
tados obtidos em consultas populares, que se preocupa em adequar as
medidas a serem to mad as co m a realida de de cad a bairro e que inc ent iva
a participação popular no policiamento comunitário, pode ser muito
mais eficaz do que uma política fundamentada no aumento de penas e
na simples atuação repressiva da polícia.
1
1 72 MANtlAI. nn SOCIOLOGI A JURÍDICA

O caso da Constituição "cidadã” de 1988, que foi elaborada com


i forte partici pação, das diferentes cam adas da po pulaç ão e lev ou em
consideração as mais diversas preocupações e reivindicações sociais,
w indi ca que a participação popular nem sempre garante uma m aior e fi
cácia das normas jurídicas. A razão encontra-se na divergência de inte
i resses existentes nas sociedades divididas em classes e grupos. A ten
i tativa de conciliar os interesses de todos os grupos para alcançar uma
ampla aceitação de um texto legal pode conduzir à criação de normas
i
ronli;ulilóri;is. Ir . isto dilu-ulta p art icu larm ent e o proces so de aplicação
i do direito, tal como se observa 110 caso da Constituição Federal dc 1988
(A Constituição simbólica - Neves, 1994).
u
b) Coesão social. Quanto menos conflitos existam em uma socie
i dade, em determinado mom ento, e quanto mais consenso haja ent re o s
i cidadãos com relação à política do Estado, mais forte será o grau de
eficácia das normas vigentes. Este fator indica a forte relaçSo que se
t estabelece entre legitimidade do Estad o e Cumprimento das normas por
i parte da população.
i 1 Um típ ico exem plo é a legislação brasileira sobre a questão agrári a.
As enormes discrepâncias na distribuição da terra, que criam uma po
i
larização entre os proprietários de milhões de hectares e uma grande
massa de “sem-terra”, inviabiliza os projetos de reforma agrária e de
n
exploração dos recursos agrários, sendo que, fatalmente, cada projeto
i desagrada a uma das partes, acirrando o conflito. Em países onde foi
i
alcançado um equilíbrio (e uma maior eqüidade) na distribuição da
terra, os interesses são mais homogêneos e as chances de aplicação da
i legislação agrária maiores.
i c) Adequação da norm a à situ ação política e às relaçõ es de fo rça
i dominantes. A situação s ocioeco nôm ica de um país e a s força s polí tic as
que se encontram no p ode r influem sobre a efic ácia das normas jurídi
t cas. Uma norma que corresponde à realidade política e social possui
mais chances de ser cumprida.
As “aventuras” dos direitos sociais refletem este fator de eficácia.
Um e xem plo interessa nte é oferecido pelos países da Europa ociden tal .
Estes conheceram, após o fin al da Segund a Guerra Mundial, a constr u
m ção de um “Estado de bem-estar social” que garantia aos trabalhadores
u uma forte proteção (salário-desemprego, aposentadorias, seguro-sail-
de). A crise econômica e o enfraquecimento do movimento operário
i
desde o fin al dos anos 70 levaram ao progressivo ab ando no das pol íti cas

u
A FUNÇÃO DA SOCIOI OGIA JURlDICA E A EFICÁCIA DO DIREITO 73

I ,

públicas favoráveis aos trabalhadores e, de conseqüência, ao descunl-


primento dos imperativos constitucionais relativos aòs dir eito s so cia is.
d) Contemporaneidade das normas com a sociedade. Em geral , não
se toma m efic azes normas que e xprimem idéias antiga s ou inovad oras .
As dificuldades que encontra, na sua efetivação, a legisl ação brasi
leira sobre a proteção do meio ambiente, constituem um exemplo das
dificuldades práticas de legislações inovadoras. Em uma sociedade
culturalmente pouco “sensib ilizada” para questões am bientais, não e xist e
ainda por parte da população, c mesmo das autoridades fiscalizadoras,
a consciência da gravidade da situação e das conseqüências funestas
par a as gerações futuras da con tínu a destruição dos recursos natu rai s.
Exemplo: quem indo aò supermercado se preocupa em levar con
sigo o carrinho d e feira ou u m a bo lsa de c om pra s de material re ciclávjsl
com a finalidade de evitar o uso excessivo de bolsaB de pláBtico7 Este
banal exem plo indica o qu an to a consciência da pbpulaçSo ainda se
mantém distante da problemática ambiental. Obviamente sempre sfe
poderá retrucar que em países on d e não existe u m a efetivação dos
direitos fundamentais pretensões desta natureza parecem ingênuas e
irrisórias. Porém, isto nos indica que faltam as condições econômicas
e cult urai s para viabil izar o desen volvimento de um projeto de educaçáo
ambiental. Por outro lado, a ausência de uma consciência ambiental
constitui um dos maiores entraves para a implementação da legislação
ambiental brasileira, que é uma das mais avançadas do mundo.

Para ir mais longe

Carbonnier, 2001, pp. 136 e ss., 149 e ss.; Cavalieri Filho, 1998, pp.
47 e ss. ; Ferrari , 1999 , pp . 261 e s s.; Neves, 1994 , p p .4 2 e ss .; O p p , 1982;
Raiser, 1999, pp. 243 e ss.; Rehbinder, 2000, pp. 153 e ss.; Rosa, 1981,
pp . 131 e ss.; Rottleuthner, 1981, pp. 91 e ss. ; S o n an o , 1997, pp. 381
e ss. ,
m

u
Lição 4
u
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO
E MUDANÇAS SOCIAIS.
m O PAPEL DAS NORMAS
JURÍDICAS
u
SUM ÁR IO : I. Teorias funciona lista ® e, teorias do confl itp social -.2.
Anomia e regras sociais: 2.1 O conceito de anoftiia; 2.2 A anomi àém
Durkheim; 2.3 A anomia em Merton; 2.4 Considerações críticas acer ca
i da anomia; 2.5 Atualidade da anomia: 2.5.1 Anomia e ineficácia do

direito;
O direito2.5.2
com oAnprom ía sor
opul e poder; 2.5.3 da
c obstáculo Ano
mudmiaança
e pluralismo
social: 3 cultural - ito
.1 O conce 3.
u
dc mudança social; 3.2 Relações entre direito e sociedade; 3.3 Relações
entre o sistema jurí dico e a mudan ça social; 3.4 Atuação do direito como
fator de mudança social: 3.4.1 Intensidade da mudança e “direito alter
m nativo”; 3.4.2 Esferas de manifestação da mudança; 3.4.3 Ritmo da
mudança.

A sociologia define-se, de mod o geral, com o a “ciência da socieda


de”. De modo mais concreto, a sociologia examina o comportamento
humano no âmbito social, sendo particularmente interessada pelos
modelos de comportamento existentes na sociedade. Tais modelos são
o resultado de um pr ocesso de construção social da realidade e acab am
padronizando as relações que se estabelecem entre os indivíduos. Assim
sendo, a sociologia observa e analisa as regras que regem as relações
sociais, on seja, estuda n infernçSo entre pessoas e grupos .1

Rehbinder, 2000, p. 32. Cfr. a definição da sociologia em Vila Nova, 1999,


p. 183: “est udo cient íf ic o das formas c ult ura lm en te pa dr on izadas de interação
hum ana” . Assim, mesm o h$ grandes contro vérsia s sobre o objeto de estudo
da sociologia e, conseqüentemente, sobre sua definição, Cfr. Fernandes,
1986; Bottomorc, 1987, pp. 31 e ss.
CONFLITOS. INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS SOCIAIS 75

O estudo das relações soci ais e da interação entre pessoas requer a j


análise das regras de org aniz açã o social, do s conflito s e muda nça s j I
soc iais. Os grupos de poder proc uram influenciar as demais pessoas, de |
forma a que estas dltimas compartam os padrões de comportamento 1
dominantes ("integrar", ‘'socializar” ou "rcssocializar”).
A imposição de uma ordem social não se realiza sem que surjam
conflitos relativos às regras sociais. Muitas vezes estes conflitos levam
a uma alteração da organização da sociedade, 011 seja, a uma mudança
social.
Por est a razão a sociologia en contra-se c om o direi to, cujo obj etivo
prin cipal é estabelecer regras explícitas e coerentes,,que visam a regular
o com po rtam en to socíal. As regra s, por s ua vez,, são susc etíveis de j jj
mudança . Assim sendo, a sociolo gia juríd ica de para-se, na sua lel tür a
do di reit o, com os fenô me nos do confl ito, da integraçã o e da mud ança ’
social que se exprimem através do sistema jurídicò.

1. TEORIAS FUNCIONALISTAS E TEORIAS DO CONFLITO


SO CIA L i í
I
As princip ais teo rias da so cio log ia m od ern a são de t ipo ,
macrossociológico. Trabalhar na perspectiva macrossociológica signi
fica não se interessar principalmente pela interação entre indivíduos e ü
pequenos grupos (microssociologia), mas exa m inar a sociedade co m o j $i
um tod o, ou sej a, como um co mp lexo siste ma de vida, constituído i .
através de relações entre pe ssoas e grupos. Duas são as principai s .
correntes de teorias macrossociológicas: as teorias funcionalistas e as
do conflito social .2
As teorias funcionalis tas, tam bém deno minad as teor ias d a int egra
ção, dividem-se em várias correntes. Porém, como pertencem a uma
mesma “família”, partem de uma visão similar de como funciona a |
sociedade. Vamos apresentar aqui algumas características gerais.
Os funcionalist as con side ram a sociedad e com d uma grande m ácjui- |
na. F,sta distribui pap éis c rec urs os (din hei ro, podèr, prestíg io, edu ca- | H
ção) aos seus membros, que s3o identificados cortío as "peças da má
quin a” . A finalid ade da so cied ad e é a sua repro du çã o atrav és do fur ici- -
onamento perfeito dos seus vários componentes. Isto pressupõe que os
í :if.
llí Ferrari , 1999, p p. 56 e ss.; Ar na ud e Dulce, 200 0, pp. 138 e ss., 157 e ss.;
Macionis e Plummer, 1997, pp. 18 e ss.; Rex, 1968, pp. 81 e ss., 144 c ss.
7ei MANUAL PC SOCIOLOGIA JURÍDICA

Indivíduos sejam integrados no sistema de valores da sociedade e que


compartilhem os mesmos objetivos, ou seja, que aceitem as regras
sociais vigentes e se comportem de forma adequada às mesmas.
Toda sociedade prevê, porém, mecanismos de reajuste e de redis-
tiihuiçno tio recursos c funções, permitindo uma mudança paulatina
d< ntro dos limites estabe leci dos pela pró pria so ciedade. E xem plo: um a
constituição prevê um mecanismo concreto, caso seja necessário reali-
/:ii uma icvisão da mesma, listas seriam as alternativas funcionais que
pi-miitcm m udar parc ialm en te o funcio n am en to do sistem a sem af et ar
0 seu equilíbrio em geral.
( ada situaçã o de crise e de conflito que escap e a estes mecanism os
(< consider ada como u m a disfunção. Diante disto, a sociedade de ve
Kjajir: ou os elementos de contestação serão controlados e nèutraliíá-
(Ioü (re press flo) nu a mfk|iiirl» socia l se rri deslmfd n. Parn os funcion alistas,
Oü limçõe s sociais são ativida des das es trutura s sociais dentro do pro-
■esso de manutenção do sistema. As disfunções são atividades que se
npnem ao funcionamento do sistema social. Toda mudança social radi-
> il uma disfunção, um a f alha do sistema, que não consegue ma is
Inlftgrar as pessoas em suas finalidades e valores.
Aqui se encontra o ponto mais fraco das teorias funcionalistas.
1 st as consideram a so ciedade com o u m sistema harmônico e inte rpre 
tam qualquer conflito e qualquer crise como uma disfuncionalidade,
como uma manifestação de patologia social. Em outras palavras, os
limcionalistas adotam um modelo de equilíbrio e estabilidade social,
que concede muito pouco espaço aos processos de ruptura, de conflito
c dc mudança radical. Assim o funcionalismo é criticado como uma
l<oi i.i esiática, que não consegue interpretar os processos sociais fun
damentais, limitando-se a uma descrição superficial.
As teorias do conflito social (marxistas e liberais) opõeni-se às
tro na s funci onalis tas. Em ger al, as teorias do conflit o entendem que n a
sociedade agem grupos com interesses estruturalmente opostos, que se
n u oniiam n n situação de dçsiguald ade e em lut a perpét ua pelo p oder.
A- sin i ‘iend o, as teorias d o confiito con sid era m c om o n exo principal da
■eu dndc n i onçrto e o condicionamento ideológico, que exercem os
f iu p o d< poder sol ue os demais. Para estas t eorias, a s crises e as
ffliiClQfu.ii la h silo fe nô m en os no nn ni s da so cie da de , ou seja, expres -
■ . 11 >iii letir. de utiui co nllim a lula de inte res ses ç opi niõ es, q ue ob-
...

jailvn ii 11nu 1ii11> i dii ed tt i i I iiiii nik ia] A es ta bi lid ad e socia l í considerada
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS áoCIAIS 77 ji

!
com o um a situação de exceção, ou s eja, com o u m caso particular dentro \
do modelo de conflito. 1 !
O fundam ento a as teori as do conflito é exprimitío pela famosa fras e
inicial do M anifesto do Partido Comunüsta de Marx e Engels: “A his
tória de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes”. De
uma forma geral, os teóricos do conflito explicam o funcionamento
socia l através da hipóte se da estratific ação social (Lição 9). A hierarquia
social que existe nas sociedades modernas cria uma desigualdade no
acesso ao pòdcr e aos meios econômicos. Conseqüência desta situação
é a existência de contínuos conflitos. Os marxistas distinguem, como
dado fundamental, a existência de duas classes (detentores dos meios
de produção e explorados), os liberais analisam a atuação de vários
estr atos e elites s ociai s. A mb os con sideram , po rem, o confl ito (e a i
ruptur a) co m o a “lei” principal da história social . |

2 . A NOM IA E REGR AS SOCIAIS

2.1 O conceito de anomia

“Anomia” é um dos conceitos e temas da sociologia com os quais


trabalha o jurista-sociólogo (obviamente há muitos outros, tais como
“controle social”, “mudança”, “conflito”, “legitirtiidade”, “camada”, I
“classe”, aos quais fazemo s referências em outros capítulos). Anom ia é\,
uma palavra grega que é usada em quase todos oi idiomas da cultura
ocidental. A -n om ia significa literalmente au sênc ia de lei (a = ausê nc ia ; !,
nomos = lei ).3
Este conceito é utilizado entre os sociólogos desde Durkheim. i
Miranda R osa (1981, p. 98) ap onta qu e a anom ia tem três s ignif icád os:
a) Qu and o um a pessoa vive em situação de transgressão das nor mas,
demonstrando pouca vinculação às regras da estrutura social a qual
perte nce. E x em p lo: um delinqüènte. Aqui a n o m ia sig nifica principal
mente ilegalidade.
b) Q u a n d o ocorre um conflito de no rm as qu e acaba estabelecendo
exigências contraditórias, tornando difícil a adequação do comporta* ?
mento do indivíduo à norma. Exemplo: o conflito de deveres jurídicos
no caso de uma pessoa que deve prestar serviçd militar e possui a

m A partícula “a” é utilizada em palavras gregas para ind icar ausência de al go. I;
Exemplos: anorexia (ausência de apetite); anemia (ausência de sangue).
7H MANUAL DF, SOCIOLOGIA JURÍDICA

liberdade de seguir a sua consciên cia religio sa que lhe proíb e a violência
e u us o dc arma s. Aqui a anòm ia tem o sen tido de ausência de regra c lara
dc comportamento.
c) Quando se constata falt a de normas que vinculem as pessoas num
contexto social. 1 .° exemplo: nos anos 60 eclodiu o movimento da
contraeultura hippie (contracultura é um mo do de vida seguido por um
grande grupo de pessoas que se opõe conscientemente e frontalmente
no modo de vida dominante, rejeitando os seus valores e padrões de
Comportamento). Por um período não se sabia bem o que era justo/
inj ust o, ccrto/crrado. Em o utras palavras, explodiu uma crise de valor es,
cm que se questionava tudo (moral familiar, sexual, papel da mulher,
iiabalho assalariado, convenções sociais). Neste momento histórico,
que era um período de transição, vivia-se uma situação de anomia. No
■aso da mulher, houve uma transformação com relação ao seu papel na
:;ot iedade.
2." exemplo: o iluminismo jurídico. Pensem no momehto de tran
sição no século XVIII: a bol ia-se ou nâo a tortura judi cial? A inquisição?
A pena de morte? Com o questionam ento introduzido pelo iluminismo
ju ríd ic o, passou-se p o r u m m om ento de cris e, de dúvidas. Encontram os
Obras dc autores que defendem o velho sistema e muitas outras que
defendem as nov as idéia s ilumi nista s. Neste pro cesso há um m omento
de "prnla de referencial”.
V ’ exemplo: u ma g uerra, onde i mpera u ma situação de ausência de
itpias entre a população dos Estados em conflito (saques, atos de
vioI Pnc ia) . Istn acontece po rqu e as pessoas vive m em situação extr ema,
Com constante perigo de vida e com quebra do sistema de organização
social, que propicia a transgressão de qualquer norma.

Nestes tr ês exem plos anomia significa ausên cia de norm as de ref e-


iCncia na sociedade. Não se trata somente de um problema dos indiví
duos que trans griUem as regras de com por tame nto , nem de um a si tuação
de conflito de deveres em casos concretos, mas de uma crise social de
cairttcr amplo, onde os membros de grandes grupos sociais (e a socie-
dndo mesma) “não sabem o que fazer”.
Geralmente por anomia se entende este terceiro significado, que
indi ca iiinii sit uação de gran de interesse para o sociólogo e tambem para
o jn< • *;i A aimty^ii, n estí '^.utido, potjc ser in d u tiv a de uti^a mu dan ç^
loeidl 8 fltftoíte eáO átt ris éfôtSS S á s 19UHS k 'Wf mSjkfeáitsi*
imiir Aqui a anoeni a indica t.m to uma situação dc “crise de valores” na
CONF LITOS , INTEC.RAÇÀO E MUDANÇAS SOCIAIS 79
I I
I
sociedade (contestação das regras de comportaménto social), como
tamb ém um a situaçã o de crise da le gitim idade do po der p olítico e do s feu
sist ema jurídico.

Dois sociólogos
Durkheim e Merton. dedicaram -se particularm emente
Estes autores desenvolveram, ao estudo
períodos diverda anomi a:
sos, uma teoria sobre a anomia com grande repercussão no meio aca
dêmico.

2.2 A anomia em Durkheim

Durkheim publicou em 1897 uma obra, fruto de uma intensa pes


quisa, denominada O suicídio , onde apresenta uma análise sobre a
anomia (Durkheim, 2000).''
, í
N o fi nal d o s é c u lo X IX era c o rr iq u e i ra a id éia d e q u e os suicídio s
tinham correspondência (ou seja, relaçSo causai) corh as doenças psí
quicas, com a situação geográfica, o clima, a raça ou a etnia. Por outlro
lado , Durk hei m partia da hipóte se que o suicíd io estava relacion ado i
com fatores sociais. E tentou tratá-lo segundo a sua principal regra
metodológica: estabelece r relações d e causalid ade entre fato s socia is e
causas sociais (Durkheim, 1999-a, pp. 127 e ss.).
Na prim eira etapa do se u trabalho o autor dedicou-se a anali sar a
argumentação empregada na época para explicar a prática do suicídio,
concluindo que se tratavam de argumentos falsos t inconsistentes. O
autor demonstrou que as taxas de suicídio não tinham correspondência
com fatores extr a-s ocia is (D ur kh ei m , ÍOOO, pp . 31 ‘■162).
O passo seguinte foi apresen tar provas empíricas da veracidade , i
de
sua hipótese, Descartados os fatores não sociais, o autor estudou as
poss íveis ca usa s sociais que estariam relacionada* c o m o suicídio e
identificou uma série de fatores, tais como religião, estado civil, profis-

<4) O autor já havi a es tud ado o te ma na obra D iv is ãô socia l do tr abalh o ,


pu blicada em 1893. Comentando as fo rm as “a normais ” da divisSo do tr ab a
lho (crises econômicas, grandes conflitos entre as clásses sociais) que en
fraquecem a solidariedade social, Durkheim indicou que estes fenômenos
eram devidos à falta de regulamentação das relações sociais, ou seja, a um
e s t r a d e anorof e(Durkhei ro., 199 9, pp, 36 7 ç ss.). Pa ra solucionar o proble
ma dfc «WSüfe nã ,u",c'
Í 9KM * *9 D r i B I deiiffi* '
“moral'5 , eu séjá , dê féffíts de sol idarieda de capazes de diminui r as desigual
dades sociais (pp. 431-432).
HO MANUAl. DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

silo, sducação c lugar onde se vive. As taxas de suicídio eram maiores


om determ inadas situações com o, por exemplo, entre pessoas so lte ira s,
profissionais li be rai s, p essoas de religião protestante, de educação su
perio r ( nas com u nidad es urbanas (D urkheim , 2000, pp. 17 7-2 57) .
Tendo identificado as situações de alto risco, o autor examinou se
existiam características comuns a todas essas situações, de forma a
estabelecer um cio entre as mesmas. Também tentou identificar as
i. i/n r1; i|ti r p udessem exp licar porque as pessoas se suicidavam.
A causa encontrada pelo autor era o grau de coesão social. Apesar
das diferenças, a maioria dos suicídios coincidia em um ponto: consta
tava se um excesso ou uma falta de integração do suicida na sociedade
ou o suicídio era ligado a um a crise social geral, ou seja, a um a falta de
rcp,ras que vinculem os membros da sociedade. Assim _éndo, a causa
dos suicídios estava na própria sociedade, exprimia "tendíncias da
i olctividade” e deveria ser analisada através de conceitos sociológicos
e não ser vista como opção individual: “a taxa social de suicídios só se
explica sociologicamente” (Durkheim, 2000, p. 384).5
( om base a este critério o autor classificou o suicídio em três class es
t Du rkhe ini, 2000, pp. 2 58 e ss.) :
a) egoísta: neste caso, a pessoa se sente socialmente desvinculada
como, por exemplo, um viúvo sem filhos. O isolamento social margi
naliza a pessoa, que deixa de ter sentimentos de solidariedade social
(falta de integração).
b) alt ru ís ta : ao contrário do caso anterio r, a pessoa encontra-se
mmlo vinculada a um grupo social. Sentindo-se estreitamente ligada
nos valores do grupo, esta pessoa não valoriza particularmente a sua
vida o suicida-se facilmente por motivos de honra. O exemplo típico
,cna o do militar que se suicida no caso de uma derrota (suicídio por
ibncpaçílo ou por excesso de liame social).
c) anòmico: neste caso, a pessoa vivência uma situação de falta de
[imitas c regras sociais. As “perturbações da ordem coletiva” desorien-

Os dados utilizados por Durkheim nesta pesquisa nSo eram exatos (estatís
ticas municipais e estaduais, relatos de viagem, escritos de antropólogos de
soeifdndes primitivas), e algumas de suas conclusfies foram cientificamente
questionadas (Soriano, 1997, p. 95). De todas formas, seu estudo sobre o
sim fdin f. considerado, a té hoje, um texto de extremo valor, sobretudo porqu e
introduz melados dc pesquisa empírica de tipo sociológico.
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS SOCIAIS 81

tam os indivíduos, criando-se um desequilíbrio erjtre desejos e suas


possibilidades de satisfação (D urkh eim , 2000, p. 311). A conseqüência
é o sofrimento e desespero que podem levar o indivíduo ao suicídio.
F.sln categoria dc suicídio relaciona-se com duas situações aparen
temente contraditórias. A primeira refere-se ao aumento de suicídios
nos per íodos de depressão econ ômica ; a segunda ao aum ento da prát ica
dc tais atos nos períodos de prosperidade, quando se identifica um
crescimento acelerado (Durkheim, 2000, pp. 303-329, 36(>).
Segundo o autor, a causa comum está no fato de o homem ter cm
princípio desejos il imitados. S om en te a sociedade pode iinpor regras,
ou seja, colocar limites aos desejos do indivíduo, propiciando um equi
líb rio entre as neces sidade s pes soa is 'e os me ios disb oníveis para obter
sati sfaç ão. N o caso d e uma br usca mudança das cond ições eco nôm icàs,
os indivíduos perdem as referências anteriores e a sociedade não con
segue imediatamente impor novas regras.
Nesta situação caótica p o d em desencadear-se os desejos il imit ado s.
O rico que vive uma catástrofe não pode conformar-se com a sua nova
realidade e isto o leva ao desespero. Por outro lado, a pessoa que
enriqueceu bruscam ente entra em um a dinâm ica de amb ição ins aciá vel:
entra em lut a contínua e árdua e o m eno r insucesso po de lev á-l o também
ao desespero, não conseguindo mais distinguir entre aquilo que deseja
obter e aquilo que realm ente pod e obter . Trata-se assim de um a situa ção
de perda de referenciais.
Através desta análise, Durkheim apresenta a sua visão sobre a
anomia. Neste sentido, anomia significa “estado de desregramento”,
situação na qual a sociedade não desempenha o seu papel moderador,
ou seja, não consegue orientar e limitar a atividade do indivíduo. O
resul tado é que a vida se desre gra e o indivíduo sofre porque perde suas
referê ncias, vivendo num “ vazio” (Durkh eim, 2 000, pp. 315, 322, 3 28).
Da abordagem sociológica do suicídio nas obras de Durkheim
podemos destacar u m a regra geral: qu ando se criam na sociedade “e s
paços anÔmicos” , ou seja , q u a n d o um in divíduo ou um grupo perde as
referências normativas que orientavam a sua vida, então enfraquece a
solidariedade social, destruindo-se o equilíbrio entre as necessidades e
os meios para sua satisfação. O indivíduo sente-se “livre” de vínculos
soc iai s, ten do, m uitas vezes, um com port ame nto anti- social ou inclusi

ve autodestrutivo.
82 MA NU AL DP. SOCIOLO GIA JUR ÍDICA

2.3 A anomia em Mertoh

Em 1938 outro sociólogo daria um a contribuição fundamental para


a teor ia da anomia. Tr ata-se de Robert Kin g M erlo n (191 0-), q ue se s itua
nn linha teórica do funcionalismo.'’
Mcrton afirma que em todo contexto sociocultural desenvolvem-se
metas culturais. Estas expressam os valores que orientam a vida dos
indivíduos cm sociedade. Coloca-se então uma questão: como a pessoa
consegue alingir estas metas? Mcrton di/. que, para tal efeito, cada
sociedade estabelece determinados meios. Trata-se de recursos
institucionalizados ou legítimos que são socialmente prescritos. Exis
tem também outros meios que permitem atingir estas mesmas metas,
mas são rejeitados pelo grupo social. A utilização destes últimòs é
considerada como violação das regras sociais em vigor.
Exemplo: um meio institucionalizado para atingir a riqueza é criar
uma empresa
objetivo que,atingido
pode ser tendo sucesso, podeassaltos
praticando-se produzira bancos.
lucro. Este mesmo
A diferença
obvia men te est á no fato de que a nossa soci edad e aceita o primeiro meio
e proscrev e o segundo, pu nindo-o com o crime. Porém, do ponto de vis ta
funcional, o sociólogo pode dizer que ambos meios são equivalentes,
já q u e podem levar ao enriquecim ento. O utro exemplo: herdar o patri
mônio de um parente milionário é um meio de ascensão social leg íti mo;
a “prostituição de luxo” pode levar ao mesmo resultado, mas não deixa
dc ser uma conduta socialmente reprovável.
Estudando a sociedade norte-americana, Merton observou que a
meta cultural mais importante é o sucesso na vida, abarcando riqueza
e prestígio ( american dream). Assim sendo, o autor indica que o elemen
to econômico apresenta uma importância particular na formação do
conceito de sucesso nos EUA.

(<0 Como foi destacado (Soriano, 1997, p. 299), Merton questiona muitos aspec
tos da teoria funcional ist a, tal co mo est a foi elaborada , entre outros, pel o antro
pó logo Bronisl aw Ma li no ws ki (188 4-1 942 ) e pelo soci ól og o Talcott Parsons
( 190 2 -1979) . Por ta l razão, Me rton é conside rado como o teórico que constr ói
uma “ponte” entre o funcionalismo e as teorias do conflito social. As maiores
contribuições dc Merton na teoria sociológica são a análise das funções mani
festa s c latentes das insti tuições sociais (ver Liçã o 7, 3 . 1) e o estudo das estru
turas so ciais da anomia. Os trabalhos mais impo rtante s deste autor encontram-
sc na cole tânea deno minad a Teoria e estrutura social (Merton, 1970).
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇ/fiS áOCIAIS 83 ji
í
Porém, apesar desta meta cultural (riqueza, prestígio) ser compar-
tida por todos, existe uma evidente impossibilidade desta ser atingida
por u m a g rande parte da p opulação. A so c ied ad e é estruturada de tal
forma, que os meios socialmente admitidos não permitem a todos os
indivíduos (e nem sequer à maioria) alcançar a meta cultural. Disto
resulta um desajuste entre os fins e os meios. Este desajuste propicia o
aparecimento d e condutas que vão desd e a indiferença perante as metas
impostas pelo american drcam até a tentativa dc alcançar tais metas
através cie meios diversos daqueles sociahnenle prescritos.
O insucesso cm atingir as metas cullurais devido à insuficiência dos
meios institucionalizados pode produzir o que Merton denomina de
anomia : m anifestação de um co mp ortam ento no qual as “r egra s do jogo
social” são abandonadas ou contornadas. O indivíduo n^o respeita as
regras de comportamento que indicam os meios de ação socialmente
aceitos. Surge entSo o desvio, ou seja, o comportamento desviante.
O exemp lo típi co refere-se à criminalid ade, mas tam bém po dem|ser
incl uídas as f alta s disciplinares, os com porta me ntos não convencionais
e os que demo nstram desintere sse pelas metas cult urais. Em todos estes
casos detecta-se a inobservância das regras de conciuta social.
Examinando a situação conflitiva que pode ser estabelecida entre
as aspirações culturalmente prescritas (metas culturais) e o caminho
socialmente indicado para atingi-las (meios institucionalizados), Merton
fez uma classificação dos tipos de com portam ento. Trata-se daquilo q ue
o aut or denomin a de modo s de adaptação, que exprim e o posi cionamento
de cada indivíduo em face das regras sociais. Nesta classificação os
símbolos positivo e negativo são utilizados para indicar se os indivídu
os aceitam ou não as metas e os meios socialmente estabelecidos
(Merton, 1970, p. 213).
\
M odos de adapta ção M eta s cultura is M eios institucionaliza dos
1. Conformidade + +
2. Inovação + -
3. Ritualismo - +
4. Evasão - -

5. Rebelião ± ±
84 MA NUA L DE SOCIOLOG IA JURfDICA

O primeiro modo de adaptação é a conformidade : o indiv íduo busca


atingir as metas cülturais através dos meios estabelecidos na sociedade.
O indi víduo ad ere plenam ente às norm as soci ais, não e xistindo compor
tamento desviante. É o que se denomina de comportamento modal.
Neste caso a pessoa não dem onstra nenhum problem a de adaptação às
rcjjras estabelecidas cm determinaria sociedade.
O comportamento moda l 6 o ponto d e refer ência a partir do qual será
elaboraria a análise rios demais comportamentos, que são contrários às
metas culturais e (ou) aos meios institucionalizados para atingi-las.
Trata- se dc com portam ento s não-mod ais, desviantes, que indicam sit u
ações de anomia.
O segundo modo de adaptação é a inovação. Neste caso a condut a
do indivíduo é condizente com as metas culturais, mas existe uma
ruptura com relação aos meios instituci ònalizádos. N o m om éntô er ti qüe
percebe que os m e io s legítimos não estãb ao seu alcance, o indivíduo
tenta a tingi r a s me sma s metas servindo-se de meios socialmente repro
váv eis. Aqui a buscà do sucesso leva a um a violaçã o das regras socia is,
já q ue o indivíduo ad o ta o princípio de q ue “ os fi ns j ustificam os meios” .
Merton denomina esta conduta de “inovadora”, ressaltando o fato
de que o emprego de expedientes socialmente reprováveis pode, em
determinados contextos, ajudar a sociedade a m odemizar-se. Is to acon
tece quando a adoção de um tipo de comportamento por determinados
grupos de pess oas conseg ue impor-se socialmente, apesar da “condena
ção" inicial proferida pela própria sociedade.
Um exemplo é a criação dos primeiros grupos de Rock. Em um
prim eiro m om ento ho u ve u m a fort e reprovação, porque se tr atava de
uma ruptura em relação ao estilo de vida tradicional e ao gosto musical
da época . C om o passar do tempo o Ro ck foi so cialmente aceit o, sen do
considerado como mais uma forma de criação musical, deixando de
provocar conflitos e escândalos. O bv iam ente que nesta m odalidade de
adaptação também estão incluídas as condutas desviantes “anti-soci
ais”, como a criminalidade, porque esta não deixa de ser inovadora no
que tange à ruptura em relação aos meios institucionalizados, que são
substituídos por meios ilega is. O clássico “la drão” deseja obter sucess o,
utilizando meios diferentes (ilegais) para atingir ésta meta.
O terceiro modo dc adaptação é o ritualista. Aqui o indivíduo
demonstra um desinteresse em atingir as metas socialmente dominan
tes. O medo do insucesso, do fracasso p rod uz dese ncanto e desestímulo.
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS âOCIAIS 85

A pessoa acredita que nu nca poderá atingir a s “grandes m etas” ; conti


nua, porém, respe itando as regras s ociais , ap ega ndo -se às mes mas com o
em uma espécie de ritual.
Aparentemente constata-se um comportamenío conformista, por
que cstíí ajustado aos tipos de conduta socialmente recomendados.
Trata-sc, porém, de um comportamento anômico, porque o indivfduo
nãd comparte as metas sociais, limitando-se ao cumprimento de normas
e regulamentos, sem sequei indagar acerca da conveniência e da fina
lidade das mesmas. Um exemplo é oferecido pelo comportamento de
membros da classe média baixa que, tendo consciência da sua condição
social (e da impossibilidade de tornarem-se ricos), acomodam-se com
o pouco conquistado, e apeg am-se à ri tualidade do cotidiano e a o pleno
respeito da legalidade.
O quar to modo de adaptação é a evasão, quv| se caracteriza peló
abandono das metas e dos meios institucionalizados. Esta conduta in
dica uma falta de identificação com os valores e as regras sociaist o
indivíduo vive em determinado meio social, mas não adere ao mesmo.
Merton observa que se trata de um tipo de conduta estritamente indivi
dual e minoritária. Um exemplo é dado pelos mendigos, que vivem
como se fossem um corpo estranho dentro da sociedade. Aqui encon
tra mos um nítido com portam ento anômico. A conduta mais extrema de
evasão é o suicídio.
A conduta de rebelião é caracterizada pelo inconformismo e pela
revolta. O indivíduo é negativo com relação aos meios e às metas. A
diferença entre esta conduta e a de evasão consiste no fato de que o
indivíduo (ou o grupo) rebelde propõe o estabelecimento de novas
metas e a institucionalizaçã o de novo s m eios para átingi -las. Em outras
pal avras, a conduta de rebelião consiste na rejeição das metas e dos
mei os domin antes - julga dos com o insufici entes ou inadequados e
na luta pela sua substituição. A conduta de rebelião busca assim a
configuração de uma nova o rdem soci al. Por esta razão Merton enten jte
que esta conduta não pode ser considerada especificamente como ne
gativa, utilizando simultaneamente como símbolos os sinais positivo e
ne gat ivo . Ex emplos claros da conduta de rebelião constit uem os m ovi
mentos de revolução social.
Através da combinação destes modos de comportamento Merton
propõe u m a definição da sociedade anômica. Constata-se uma situação
de anomia generalizada, quando a sociedade acentua a importância de
MANUAL DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

determinadas metas, sem oferecer à maioria dos seus membros a pos


sibilidade de atingi-las através de meios institucionalizados (legítimos),
lista discrepância favorece particularmente o comportamento “inova
dor" (anôm ico) e le va ao crescimento dos caso s de desv io: os mem bros
da sociedade são pressionad os n atingi r determinadas metas (por exem
plo: enriquecer e oslenlnr a riqueza atra vés do co nsum o de luxo ), se m
(|ii(' seja possível, para a maioria déles, atingir este objetivo de uma
lotma <|ik - seja aceita pela opinião dominante.

2 4 Considerações críticas acerca da anomia

A teori a da anomia de Merton significo u um g rande avance teór ico


na análise do fenômeno, e isto por dois motivos em concreto: por ter s id o
o primeiro autor, após Durkheim, a se dedicar ao tejma e por ter desen
volvido o conceito de anomia em consonância com a problemática da
sociedade moderna. A importância do trabalho de Mer;on é indicada
pelo fa to de quase tod os os sociólogos m odernos, dedicados à an áli se
da anomia, fazcrc.ni referências a este autor.
Merton indica a cilada na qual se encontram as sociedades moder
nas: elas prescrevem aos indivíduos um determinado projeto de vida e
ao me sm o tem po impo ssibilitam a concretização deste projeto (ser ric o,
famoso e ter sucesso). Em tal situação, os conflitos e as violações de
regras são inevitáveis.
Esta teoria explica porque os membros das classes desfavorecidas
com etem a maior parte das infrações pe nais: se ndo excluídos do cir cuito
dos meios institucionalizados para atingir a riqueza, recorrem à delin
qüência para realizar os objetivos que a sociedade difunde. Em geral,
a delinqüência por motivos econô mico s pod e ser bem explicada atr àv és
da teoria da anomia de Merton. O mesmo acontece com os crimes de
motivação política (terrorismo, manifestações violentas, ocupações,
saques), que decorre m d e um a conduta de rebelião; finalmente o modelo
de evasão explica comportamentos desviantes autodestrutivos como o
alcoolismo ou a toxicodependência.
A teoria dc Mcrton não pode, no entanto, explicar todas as formas
de desvio social (exemplos: homicídio “passional”, estupro, crueldade
contra os animais). Al<5m disto, por ser muito geral, tampouco podé
explicar as diferenças no comportamento dc determinadas categorins
sociais como, por exemplo, a baixíssima criminalidade feminina, mes
mo erttre as mulheres que pertencem às classes sociais inferiores e, por
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇA S SOCIAI S 87
i (
1 i
1;
conseqüência, são desprovidas de meios institucionalizados para me
lhorar a sua posição social.
A principal crítica que pode ser lançada à teoria de Merton é que
o autor entende as condutas de inovação, ritualisrrio, evasão e rebelião,
como m anifestação d c uma disfunção dentro do siítema social. O aiilor
pa rte da id éia da existência de um equilíbrio socia l e considera o desvio
como manifestação patológica, apesar de reconhecer a contribuição do
sistema para a pro du ção d o com po rta m en to a nô m ico (ve i a crfl ica j ’.eral
do íu ncio nalism o, faç ão 4, I ).
Uma visão crítica da sociedade indica que nem todos os indivíduos
encontram-se em perpétua competição para atingir as mesmas metas
sociais, e que nem todos aceitam a meta do sucesso individual como
finalidade supre ma d a vida. Esta m eta constitui urrj a típica ideologia da
clas se méd ia (“concorrei e en riquecei-vos”) nas sociedade s capitalistas.
modernas, indicando os limit es de validade da teo riad a anomia (PavaHni ,1
1983, pp. 112 e ss.).
Uma crítica mais geral das análises sobre a anomia refere-se à
limita ção na ótica dc aná lise.' O ce ntro dc a tenção d o com porta me nto
do indivíduo desviante, ou seja, examinam-se as causas que fazem o
indi víduo perder as sua s referências e com portar-se de modo contrár io
às regras estabelecidas. Protagonista da desordem anômica é o indiví
duo (Marra, 1991, p. 35).
De tal forma, os teóricos da anomia consideram as regras e metas
socialmente estabelecidas como seguras, não se oèupando da comple
xidade das orientações culturais na sociedade, qué criam conflitos em
relação às normas e aos valores sòciais. Assim sendo, a anomia é ana
li sada com o um a fo nn a de desvio de determ inados indi víduos , limitan
do o problema a escolhas pessoais sem examinai' a dimensão social
(Marra, 1991, pp. 35 e ss .).7
Os teóricos da anomia identificam no comportamento anômico
(“rebelde” ou “inovador”) um incentivo à mudança social, ou entãç
consideram este comportamento como conseqíiênúia de mudanças so-

(71 Nos anos 60 Merton nccrtou part e das críticas que lhe foram lança das. Propôs
uma distinç3o entre a “anomia", que indi ca a situ ação do indivíduo desviante e
a “ anomie ”, que indica a situaçAo de uma sociedade cm crise de legitimidade
(ínlin dc coc sflo so cinl no senti do dc Durkhei ni, ausênci a dc valores comuns c

dc padrOes
do, dc com port necessário
o autor considerou ame nto acei
estutos pela
dar amaioria ) (Merton
relação entre , 1964). Assim
o comportament sen 
o anô
nimo do indiví duo e o grau de “ anomie” na sociedade.
HK MANtJAi. nr; s o c io l o g i a j i i r Id ic a

ciais, que desorienta m os indivíduos (Passas, 1993, p. 39 ). Sustenta- se,


assim, que a anomia anuncia uma mudança social ou que surge como
fenômeno de reação a esta mudança. Nos dois casos considera-se kjue,
110 momento de manifestação da anomia, a sociedade possui uma clara
orienlaçno em relação aos seus valores e regras.
Mais adequado seria, porém, pesquisar a possível falta de orienta
ção da própria sociedade. Neste caso, a anomia deveria ser considerada
como a ausência de normas e valores sociais e não como problema de
adaptação do indivíduo.
Uma outra via seria considerar o com portam ento anôm ico como re
sultado da conform ação do indivíduo à s regras de um subgrupo soci al,
que se encontram em conflito com as adotadas pelos grupos domi nantes .
Neste ca so , deveríam os considerar a anom ia co m o u m conflito entre os
vário s Sis te mas norm ativos que existem no âm bito da m esm a soci edad e.

2.5 Atualidade da anomia

Qual é a importância da problemática da anomia para a sociologia


jurídica moderna? C o m base nas referidas críticas e em algum as aná
lises recentes (Orrü, 1987; Marra, 1991; Hernández, 1993) podeinos
indicar três usos do conceito de anomia.

2.5. 1 An om ia e ineficácia do direit o


A anom ia le va , muitas vez es, ao descum prim ento das normas jurí
dicas, causando a ineficácia do preceito (Liç ão 3, 2, b). Neste co ntex to ,
a anomia permite distinguir duas hipóteses de ineficácia do direito:
a) Ineficácia ocasional, descumprimento da norma apesar de sua
acei taçã o. Exemplo: m uitos hom icidas estão plenam ente de acordo com
a proibição do homicídio e consideram que violaram a norma em uma
situação excepcional (mè do, deses pero etc.) . Aqui tem os um a inef icácia
do diréito sem relação com a anomia.
b) Ineficácia anêmica: descumprimento de norma que o indivíduo
consldcrn inadequada ou injusta. Exemplo: um grupo político pratica
atos terro ristas puníveis péla legislação acredi tando qu e age no interesse
da humanidade. A ineficácia da norma é devida à situação de rebelião
(|ui vivência este grupo.
A ineficácia anômica causa particulares problemas porque os indi
víd uOs vi olam as norm as por convicção. Dia nte desta situação, o Estado
pOde adotar quatro posturas:
CONPUTOS, INTPGRAÇAO R MUIMNÇA.S SOCIAIS 89

- Ma nter a norm a em vigor , tolerando sua viol ação. Neste cas o, a


anomia causa a comp leta ine ficá cia da norma, sendo que i Estado não
deseja garantir a eficáci a da sanção. Exem plo: a prática do aborto, que
é muito difundida no Brasil. Uma parte significativa das mulheres
considera o aborto como 1 um “direito”. As autoridades deixaram de
perseguir as m ulheres que aborta m cland e stina m ente e os m édicos que
as assistem .8 Por outro lado, o legislador não autorizou o aborto nos
primeiros m eses da gravidez, c om o aconteceu em outr os pa ís es .
- Realizar um a reforma legisl ativa , harm oniz and o o di reit o em vigor
com val ores da socied ade. E xem plo: a prestação de serviços alt ernati vos
para quem se recusa a servir nas Forças A rm ad a s por moti vos religiosos
ou políti cos. M uitos países, inc lusiv e o Brasil (art. 143, § 1.°, d^ Con sti
tui ção Fed eral , e Lei 8.239, de 04.10.1991), conc ederam a mem bros de
grupos religiosos e políticos o direi to de excetuar-se do c um prim ento de
obrigações militares contrárias a se u sistem a de val ore s.
- Fazer propaganda m oral para convencer as pessoa s a respei tarem
determin adas le is. Exem plo: as campan has que mostram as cons eqüên
cias desastrosas do uso de drogas, tentando mudar a opinião de muitos
jovens de que o uso de drogas é sinônim o de diversão e “ liberdade” , que
era o grande tópico abordado pelas propagandas de cigarros.
- Intensi fica r a r epressão para combater a tendência anômic a. Exe m 
plo: o co m bate da crim inalidade ec on ô m ic a das organizações mafiosas
na Itália e em outros países europeus. Apesar dos ghipos sociais vincu
lad os a esta s organizações considerarem seus códigos de comp ortam en
to como “honrados”, os Estados desenvolvem uma política criminal
repressiva, que visa coibir tais comportamentos.

2.5.2 Anom ia e poder

A anomia, enquan to fal ta de norm as de refer ência em determinado


contexto, está relacionada com os conceitos de autonomia e de
heterono mia (Fer rari , 1999 , p. 172). O termo auton om ia é com posto das
palavras gregas auto = m esmo e nomox = lei e significa que o indivíduo

(8) Calcu la-se que no Brasil ocorr em 1,5 milh ões de abort os ao a no. O número
de condenações é insignificante (Ardaillon, 1998). O mesmo fenfl meno cons
tata-se em outros países. Durante o período em que o aborto foi proibido na
Alemanha, as estatísticas indicavam que a polícia só tomava conhecimento
de 1% dos abortos realizados (Arzt e Weber, 2000, p. 15).
*>(> MANUAI. nr. SOCIOt.OOlA JURlniCA

rege por suas próprias leis; por isso é independente, autônomo. O


con tríí rio acontece no caso da heteronom ia (héteros = outro), qu e indica
;i sublnissão a leis estabelecidas por outros. Aqui as normas são estabe
lecidas pelos detentores do poder e impostas a todos, independentemen-
u da existência de cons enso .
As normas jurídicas são heterônomas. Considerado nesta ótica, o
pioblcm a da anom ia g anh a contornos m uito diferentes. O grupo que não
i c;peita ;is nonnas jurídicas vivência nmilas vc/.os um conflito entre
.11;i convicçocs c as pivscriçücs d o sist ema jurídic o ofi cia l. Nisles
casos, a anomia não indica a ausência de normas, e sim o conflito entre
as normas oficiais e as normas aceitas por um grupo social. Em outras
palavras, verif ic a-se um conflito entre a au to n o m ia dos grupos soci ai s
e a heteronomia que caracteriza o direito estatal.

2.5.3 Anomia c pluralismo cultural


Observou-se (Orr ú, 1993) que o conceito da anom ia é ca racte rizad o
por am bigüidades. Tanto D u rkh eim co m o M erton consideram , ao mes
mo tempo, a anomia como fenômeno normal (devido à particularidade
de cada pessoa) e como fenômeno patológico (desvio); como situação
negativa (falta de orientação, anarquia) e como situação positiva (ino
vação que revigora a sociedade).
As am bigüidades da anomia se explicam pelas caracte rístic as da s
sociedades modernas, onde prevalece a solidariedade orgânica (Lição 1,
2.2.3.4). Estas sociedades perm item a "livre esc olha ” de valores e modos
de vida por parte dos indivíduos. As amplas possibilidades de escolha
indiv idual geram conflitos porqu e faltam valores de referência comuns .
Exemplo: uma sociedade católica pode fixar o repouso semanal no
domingo.
pode fa zerUma sociedade
o mesmo semonde
pr oteconvivem muitos que
st os de g rupos grupos religiosos
querem nãohe ci men to
o re con
oficial dos próprids feriados. Em outras palavras, a multiplicidade de
valores e de modos de vida causa uma crise de legitimidade do direito
estata l e propicia os com port ame ntos an ômic os (He mán dez, 199 3-a, p. 22).

3. O DIREITO COMO PROPULSOR E OBSTÁCULO DA MU


DANÇA SOCIAL

'. I () conceit o de m m lnnçn s ocial

() estudo da anomia nos indica que o processo de integração social

dii indivíduo não sc realiza sem que surjam problemas e conflitos. As


CONFLITOS, INTFC.RACÃO E MUDANÇAS SOCIAIS 91

difere nças de op iniões e de interesses criam conflitos, q ue muita s vezes


causam modificações na organização da sociedade. A sociologia deno
mina est e fen ômen o de mudança soci al. “A mud ança social i ndica umâ
modificação na forma com o as pessoas trabalham, constituem famí lia s,
educam seus ftlhos, se governam e dão sentido à vida" (Vago, 1997, p.
286). Portanto, a mudança social indica uma reestruturação das relações
sociais.
A sociologia parte do princípio que a sociedade encontra-se cm
transformação Vontíntia: “a realidade social não r um estado constante,
mas um processo dinâmico’- (Sztompka, W998, p. 358). () fenômeno da
“mudança social” (social change) co meç a a s er objeto de est udos espe
cíficos nas primeiras décadas do século XX (Ferrari, 1999, p. 271).
Podemos dizer que o objeto geral de todos os trabalhos de sociologia
são as mudanças da sociedade no tempo.
Os sociólogos estudam principalmentte as formas de mudança so
cia l (tot al ou parcial ; lenta ou rápida; con tínua ou desc ontín ua) e as suas
causas, distinguindo os fatores que desencadeiam um determinado pro
cesso de mudança. Entre eles situam-se os fatores geográficos,
demográficos, ideológicos, econômicos, o contato entre as diversas
sociedades (difusão de conhecimentos e valores) e às inovações, tais t
como as descobertas e invenções. A mudança social è sempre conside
rada como produto da combinação de vários fatores (Sztompka, 1998;
Vila Nova, 1999, pp. 170 e ss.).
Há estudiosos que consideram que a mudança social tem algumas
caus as gerai s, permitindo as sim a formu larão de “ leis de desenvolvimento
social”. Exemplos de formulação de tais leis seriam o tema da racionali
zação da sociedad e na obra d e Webe r, a form a de sol idariedad e social ana
lisa da por Durk heim e o papel da lut a de classes na teoria marxist a.
Outros estudiosos rejeitam a possibilidade de fazer uma análise
geral (seguida da formulação de leis sociológicas) sobre a mudança
social e estudam os processos específicos e complexos de mudança em
determinadas áreas da vida social. Assim sendo, são pesquisadas as
estratégias dos vários atores sociais e os interesses que se encontram em
jogo em cada processo de m odific ação da organiz ação so cia l (e xemplo :
muda nça nos valor es sociais , nas relações dentro da famíl ia, na organ i
zação do trabalho, na estrutura das classes sociais).
Em todo caso, 6 evidente que a mud ança social relaciona-se co m as
muda nças do direito, ou seja, co m a m odific ação das n orm as legais e sua
aplicaç ão no seio da soci edade. Para explicar co m o o tema da mud ança
02 MANUAL nn SQCIOLOOlA JURlDICA

social é tratado no âmbito da sociologia jurídica, devemos situar em


prim eiro lu gar o dpbate acerca do papel d o direito na sociedade.

3.2 Relações entre direito é sociedade

1’íir tc- se d c um racio cínio mu ito sim ples, mas co m conseq(!6ncias


importantes para a análise do tema da mudança social. Este raciocínio
p o d e se r re s u m id o e m u m a p e rgu n ta: O c o n te x t o so cial (s istem a de
pro(lii<,'fhi. cultu ra, in teress es, id eo lo g ias , fo rç as p o líticas) d e te r m in a o
direito ou é o direito que determina a evolução social?
Uma part e dos estudioso s entende que o dire ito , co mo manifest ação
social, é determinado pelo contexto sociocultural: a sociedade produz
o direito que lhe convém. Dentro desta perspectiva, os autores mais
críticos sustentam que existe apenas uma imposição de interesses por
parte dos grupos q u e exercem o poder . Estes consegu em im p or aos
sujeitos mais fracos as regras de conduta que permitem reproduzir, em

nível normativo, a dominação social.


Em u ma posição contrária situam-se os autores que entendem oue o
direito é um fator determinante dos processos sociais. Os autores que
adotam est a perspectiva entend em qu e o direito possui a capacidade de
determinar o con texto social, de atuar sobre a realidade e de mudá-la. Por
exemplo, uma lei sobre um novo problem a socia l, ou uma mu dança nas
normas prom ovida por um novo gover no, po derá conseguir impor a os
membros de uma com unidad e novos tip os de comportamento.
A primeira posição é considerada com o realis ta; a segunda posiçã o
tem um caráte r ide alist a, porque se fundam enta na hipótese de que uma
vontade exprimida através de um mandamento (“dever ser”, norma
ju rídica) pode m u da r a realidade.
Porém, com relação a este tema entend emo s ser p ossível sustent ar uma
terceira posição que nos per mite con ciliar as duas supracitadas. O dire ito
6, em geral , config urado por interesses e necessidad es sociais, ou seja , é
produto de um co ntexto sociocultural. Ist o n ão im p ed e q u e o m esm o pos
sa infl uir sobre a situaçã o social, assumi ndo u m papel dinâmico.
Em outras palavras, o direito exerce um duplo papel dentro da
sociedade: ativo e passivo. Ele atua como um fator determinante da
realidade social e, ao mesmo tempo, como um elemento determinado
pcif esta r ealida de. D entr o deste contex to identif icam-se as pressões d os
grupos dc poder que podem induzir tanto para que se dê a elaboração
CONFLITOS. INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS SOCIAIS 93
I ;
de determinadas regras, bem como para que as regras em vigor não
sejam cumpridas, levando a um processo de anomia generalizado. Esta
análise permite superar “os modelos de relação causai simples” entre

direito e sociedade .9
3.3 Relações entre o sistema jurídico e a mudanÇa social
(
N o â m b ito da so c io lo g ia juríd ica, “ a m u d a n ç a c o n tín u a d as regras
do direito conslitui unia hipótese leóiicít fundamental" (Papaehiiston,
1984, p. 125). Realmente, esta hipótese constitui um elemento comum
das vári as abord agens da sociolo gia jurídic a. Isto pode ser observado
nos estudos de Marx e Engels sobre a determinação do direito pelas
mudanças econômicas, nas análises de Durkheim sobre a passagem do
direito repressivo ao direito restitutivo, nos estudos!de Weber sobre a

racionalidade
a transformaçãodb do
direito moderno
direito e, recentemente,
e do Estado nasglobalização.10!
na época dà análises sobre
Constata-se assim o fenômeno da “dinâmica” ou mesmo do
“evolucionismo” do direito (Papachristou, 1984, pp. 125-126). E aqui
surge a pergunta: quais são as formas e as modalidades de interação
entre o sistema jurídico e os outros campos de ação social no decorrer
do tempo? (Ferrari, 1999, p. 282).
N in gu ém coloca e m d úv id a q ue o direito m u d a ha evolução histó
rica, seguindo as transformações da sociedade. A criação e difusão de
novas tecnologias como, por exemplo, a formidável expansão da infor
mática nas últimas décadas, traz consigo mudanças legislativas para
confo rma r o sistema juríd ico a novas situações. N o início do século f oi
necessário estender o conceito da propriedade para proibir o furto de
eletricidade (a energia elétrica não gozava de proteção porque não era
uma “coisa”) . Da m esm a forma, os le gisla dores m odé m os introduzir am
normas para regulamentar os problem as relacionados com a in formáti ca
(proteção da privacidade, garantia dos direitos dos inventores e dos
usuários de prog ram as inform áticos). T emos aq ui casos de adaptação do .
direito à realidade social. 1
A mudança de vâlores sociais criou uma situação semelhante, no
que se refere à posição da mulher. Erfi muitos países foram efetuadas
profundas reform as legis la ti vas, sobretudo nas áreas do dir eito consti-

J. Cominaille, Mudança, in Arnnud, 1999, p. 512.


(l0> Sobre este último tema, cfr. Faria, 1998 e 1999; Arn aud e Dulce , 2000, pp.
348 e ss.
‘>4 MANUA1. I»!' SOriOLOUlA JU R I d K-A

tucional, do direilo de família, do direito do trabalho, do direito penal


e do direito internacional, visando estabelecer a igualdade entre os
gêneros feminino e masculino .11
As mudanças sociais são também a causa das recentes reformas
le gis
tio lat ivafiscalizador
poder s, que im põe m apapel
e do “dcsregu
e con lamentaçã
ôm ico do Eo stado
da econ) naom
e raia’neolib
*(re dução
eral
(Faria, 1999). O mesmo aconteceu com as reformas em muitos países
europeus, que aboliram as normas liberais com relação ao direilo dc
residência e de trabalho dos estrangeiros, para bloquear a entrada de
trabalhadores imigrantes (Gorski, 1998).
Em todos estes casos temos mudanças tecnológicas, sociais, polí
ticas e demo gráfic as, qu e o direito tenta acomp anhar . Até aqui a situação
é facilmente explicável, ape sar de existir a necessidade de analisar p or
que e como o direito acompanha cada situação de mudança social e,
sobretudo, qual 6 a eficácia de cada intervenção legislativa.

() na
direito problema
mudançacoloca-se
social. Osquando tentamos
sociólogos estudar
do direito o papel entre os
dividem-se ativo do
(luc entendem que o direito é um freio às mudanças sociais mais impor
tantes e os que sustentam que o direito pode ser um importante instru
mento (propulsor) da transformação social. '
A primeira corrente (o direito impede a mudança) sustenta que o
sistema jurídico é lento ao detectar as necessidades sociais e, observa
os problemas sociais desde os seus fechados centros de poder, muitas
vezes impedindo uma mudança. Assim sendo, o direito funciona como
fator negativo perante as necessidades e reivindicações sociais (papel
conservador do direito ).
Esta 6 a visão de autores críticos em face do sistema jurídico atual,
existindo vários níveis de crítica. As mais radicais, de inspiração mar
xista, consideram o atual sistema jurídico como um instrumento que
perm ite a m anutenção do poder d a classe dom in ante e reproduz as

1111 Dnlil, 1993; Vcrucc i, 1999; Bod eló n, 1996; Saba dcl l, 1998 e 1999. Nos
últimos anos vem se confirmando a tendência a empregar o termo “gênero”
ao invés do termo “sexo”. Enquanto esté último termo está relacionado com
ns carnctcrísticas biológica s do indivíduo, a palavra “gêner o” indica os aspec
tos sociais, culturais c psicológicos que incidem sobre homens e mulheres.
Assim, podemos talar de identidades feminina e masculina sem reduzi-las ao
plano biológico, est an do elas sujeitas a vari ações det er mi nadas pelos valores
dòminan tfS cm cada período histórico . ,
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS SOCIAIS 95

relações sociais de exploração. As críticas moderadàs sustentam que o


direito desenvolve uma espécie de resistência diante de determinadas
mudanças sociais. Exemplo: foi alterada, no transcorrer do século XX,
uma série de valores nos países da América Latina no que se refere à
moral sexual; porém os Códigos penais destes países continuam utili
zando termos com o "m ulhe r hone sta’’ e “honra sex ual” , denotan do uma
defasagem entre lei e realidade social.
A segunda corrente identifica o direito como instrumcntq eficaz
para a c o n secução dc grandes m u dan ças socia is. Acredita-se que o b te n 
do poder político é possível realizar mudanças através de reformas
jurídicas. Os partidários desta corrente en tend em q u e o direito d es em 
penha u m a função ed u cad o ra {papel progressista do direito).
Esta concepção foi exprimida na Europa a finais do século XIX
pelos representantes a o “socialism o ju ríd ic o ” - entre eles o jurista au s
tríaco Anton Menger (1841-1906) -, que tentaram formular as reivin
dicações socialistas em termos jurídicos. Tratava-se de uma teoria que
propunha a adoção de m ed idas preventivas, confiando no potencia l
transformador do direito. Objetivando evitar que a sociedade passasse
pela experiência violenta de um a revolução, os adeptos desta te ori a
p ropunham a realização de u m a extensa refo rm a jurídica, atra vés da
qual seria possível realizar a justiça social .12
No Brasil en contram os um exem p lo recente de confiança no papel
progressista do dir eito . D urante o p eríod o no qual perm aneceu no cargo
de Ministro da Justiça (1999-2000), o jurista José Carlos Dias propôs
uma ampla reforma do direito penal, através, dentre butras medidas, da
despenalização de determinados delitos, da abolição da lei dos crimes
hediondos e da introdução de penas alternativas.
Nesta tentativa de reform a, o m inistro seguia a corrente mais p ro 
gressist a do direito penal e da criminolog ia, qu e prop õe a adoção de uma
polí tic a crim inal m inim alista (Baratta, 2000). O s partidários desta cor-
unte acreditam que a realização de uma adequada reforma jurídica
contr ibui para a mu da nç a das estruturas sociais, gerad oras de um círcul o
vicioso de violência, permitindo, assim, exercer o controle social de
forma mais hum ana e civilizada. i
Resumindo, encontramos aqui duas correntes atitagônicas. Alguns
estudiosos e políticos vêem no direito um fator q ue im pede as mudan ças

(l2) Sobre os represent antes de ste mo vim ent o e a sua crftica por parte de autores
marxistas, cfr. Schottler, 1980; Arnaud, 1991, pp. 29 e ss.
MANUAL DE SOCIOLOGIA JURfDICA

da realidade social, enquanto outros o consideram como um propulsor


de lais mudanças.
As duas correntes são, em sua formulação absoluta, passíveis de
críti ca. Os trabalhos de sociologia jur ídi ca indi cam que devemo s dife
renciar sempre, segundo o ramo do direito, o problema concreto e a
situação social, tendo em mente que a capacidade reformadora do di
reito ó limitada. A história nos oferece exemplos em que a tentativa de
mudai o com po rta m ent o das pessoas através do direito fo i um completo
Iraca sso. Um caso co nhec ido é a “le i seca ” nos anos 20 nos EUA. Apesar
da enorme mobilização dos aparelhos repressivos do Estado (750.000
pessoas fora m presas por c onsu m o ou com ercialização de bebidas al
coólicas entre 192 0 e 193 2) e sta legislação n ão teve resultados prá ticos ,
tendo sido abolida nos anos 30 (Cotterrell, 1991, p. 61).
Soriano (1997, pp. 311-312) afirma que a relaçSo entre direito e
mudança social se concretiza da seguinte forma:
a) O direito é um a vari ável depend ente , ou seja , um fen ôm eno so
que muda historicamente cm função de outros fenômenos. A relação
entre os grupos e as classes sociais, definida principalmente pelo fator
econômico, determina as estruturas jurídicas. O direito pode ser, então,
considerado como um produto de interesses soci ais, que dependem das
relações de dominação em cadá sociédade.
Porém, a determinação social do direito não significa que este seja
produto de um único fator so cia l ou d a vontade de u m a cl asse. A lém dos
int eres ses econômi cos, o direito é influenciado por el ementos de ordem
física, (ais como as invenções e as tecnologias, e também por valores
élicos-culturais assumidos pelos povos de várias regiões do mundo
(pensem na diferença do direito entre países de tradição cristã e de
tradição muçulmana).
Um peso particular possui finalmente a tradição jurídica de cada
país, que não m u da de um dia para o outro co m b a s t nas mudanças
sociais. Assim se explien n rlefnsngem entre a evoluçRo da moral social
e a imobilidade do sistema jurídico que já constatamos no caso dos
deÜCOs sexuais. A importância da tradição jurídica explica também o
Inio do que países com semelhantes estruturas política e econômica
po isuàm sistemas juríd ic o s totalm ente diferentes, co m o m ostra o ex em-
pli. d 0 di reit o francês (fund ame ntado na lei es crita) confrontado com o
d 11>11<i in^lès (fu nda me ntad o no car áter v incu lante da jurisprudência).
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS SOCIAIS

b) A p esa r de ser u m a variável d ep en d en te da estrutura socia l-cul-


tura l, o direito possui uma autonom ia relati va c, por conseqüê ncia, pode
induzir a mudanças sociais. Apèsar de existirem controvérsias cdm
relaç ão aos limites da au tono mia do sis tema jurídicò, não se coloca em
dúvida que o direito tenha incentivado muitas transformações nas so
ciedades modernas.
As teorias que mais insistiram na visão do direito como produto
socialmente determinado , são justamente aquelas que, quando tentaram
aplicar a s suas idéia s na prática política, ut i li/ar am o direito com o meio
par a produ zir fortes m u d an ça s so ciais. O ex em plo mais claro é dos
regimes comunistas. D epois da R evolução Russa de 1917, os dirigent es
dos partidos comunistas utilizaram o direito como instrumento para
“educar” as massas aos no vos ideais e criar um a “legalidade socialista”,
radicalmente diferente daquela “burguesa”.
Soriano (1997, p. 312) ressalta que a influência do direito na mu
dança social pode ser de tipo direto ou indireto. Na maioria dos casos
o direito influi de forma direta: impõe-se, por exemplq, a obrigatorie
dade do uso do cinto de segurança e a limitação dè velocidade, ambas
associadas a sanções, para mudar b comportamento das pessoas no
trâ nsi to. Já as norm as relativas a reformas d o p rográ ma de edu cação são
de caráter i ndiret o: orie ntam o p rofesso r qua nto à matéria e aos métodos
de ensino, esperando que assim será alterado o conteúdo da educação
oferecida aos alunos, sem prescrever, porém, determinados conteúdos
de ensino e sem abolir a autonomia do professor.
Diant e de um a situação de mu dança soci al, o mesm o autor afi rma
que o direito pode adotar posições de reconhecimento, de anulação, de
canalização ou de transformação de suas tendências. No primeiro caso
(reconhecimento), o direito reconhece através das suaS normas a nova
realidade social, declarando a sua legitimidade é, às vezes, criando
instrumentos jurídicos que consolidam a mudança. No segundo caso
(anul ação) , o sistema jurídic o opõ e-se à mudan ça, ignorando-a ou mesm o
aplicando sanções contra determinadas inovaçõôs. No terceiro caso
(canalização), o direito tenta limitar o impacto de uma mudança, ou
alt erar os seus efei tos, através de reform as qu e satisfazem parcialm ente
as reivindicações sociais. No último caso (transformação), o direito
assume um papel particularmente ativo: tenta provocar uma mudança
na realidade soci al através de reform as gra duais e lentas (transi ção) ou
mesmo radicais e rápidas (revolução).

i
ma n i i a i m : snriot.on iA ju r íd ic a

A 11ui i ;iIk um a obse rvaç ão. Do p onto de vista da teori a do Estado,


i i o i i c ç ã o dc que é possív el realizar m uda nça s sociai s a part ir do
ilin iin não contradiz a tese de que o direito é um reflexo de fatores
ii iln Aini cos c rte interesses de class e, O pa p el dete rm inan te da eco nom ia
i dos interesses das classe s sociais é uma hipó tese teórica geral , dentro
d.i i|ii;il, cpnio já observamos, constata-se a atuação relativamente au-
Innitina do direilo, que pode inclusive incentivar mudanças sociais.
A histúiia ensina, porém, que o diicito não possui força suficiente
p.it.i miid af ;i e stru tu ra de classe social e os fu n d a m e n to s do siste m a
ei iinii mieo cjue são su scetíveis de alte ração som ente através de um
pnii es s o d e tr a n s fo r m a ç ã o política.

' 1 AI híiçiío tio direito como fator de mudança social

N o e s tu d o d as m u d a n ç a s soc ia is d e c o r r e n te s d a a tu a ç ã o do s istem a

jurídico su rg em três q u e s tõ e s p rin cip ais: intensidade, esferas de mani


festaçã o e ritmo da mudança (Soriano, 1997, pp. 313 e ss.).

f /. I Inte n sid ade da m udança e "direit o a lte rn a tiv o ”

lixi ste aqui uma regra: o direi to pode op erar m udan ças parc iai s, mas
dificilmente conseguirá mudanças radicais. É, por exemplo, relativa
mente fácil, modernizar um determinado setor da economia, sendo
pia lic a iu e n tr im p o ssív el m u d a i lodo o sis te m a de p ro d u ç ã o , através de
iclormas jurídicas.
Aléin disso, a intensidade da mudança depende de dois falores
gu ra is : da natureza do sistema jurídico que dev e produzir a m udança e
da sit uação p olítica do m om ento. Quan to mais aberto, fl exí vel e abst rat o
t( o siste ma ju ríd ico ,] mais fácil será oper ar um a m ud anç a social através
di sim inter preta ção. U m sistema jurídico com pleto e detalhado, com
rígidos procedimentos de controle e com “cláusulas pétreas” que difi
cultam as reformas, dificilmente permite mudanças sem ruptura.
A intensi dade da mud ança está també m con dicion ada pela natur eza
dn sistema pol íti co. Q uan do o poder polít ico é forl e e concentrado, pode
p io v o c a r u m a m u d a n ç a rá p id a a p a rtir d e r e fo r m a s ju ríd ic a s , E m s itu 
ações de revolução surgem poderes políticos fortes que produzem uma
mudança social através de um novo clireito. Em situações de fraqueza
do podei polít ico, em que falta a poss ibilidade e a vontade de reformas,
CONFLITOS, INTF.CrRAÇÃO E MUDANÇAS SQCIAIS 99

existindo um frágil compromisso eíitre diferentes grupos sociais, o j


direito não pode servir como instrumento de reformas. Pense-se nas
vicissitudes da reforma agrária no Brasil, cuja timidezje lentidão cons
titui um resultado da situação política, na qual os intefessados na mo
dernização agrária pactuam com representantes do poder latifundiário
e tentam canali zar as reaçõçs de protesto, freq üent eme nte viole ntas, por
parte do s “sem terra'’.
A mudança social através do direito foi discutida nas últimas déca
das , na teoria e na pratica jurídica, no âm hito das teori as sobre o “direito
alterna tivo". Nos anos 60 e 70 desenvolv eu-se um mo vim ento que tento u
prom over m udanças sociais através do direi to. Na It ál ia este m ovim ento
deno min ou-se de “uso alternativo do direit o” . Cons istia na interpretação
e aplic ação do dire ito com uma finalidade “emanc ipad ofa” , favore cendo
as classes e os grupds sociais mais fracos.
A aplicação do direito deveria tornar-se um instrumento de solidari

edade soci al.das


co e ambíguo O op erado emp
normas, r jurídicoregand
deveria tira r proveito
o métodos do caráteração
de interpret genéri
inova
dores , que lhe permiti riam fazer just iça soci al. A propo sta era a de tentar
mudar a sociedade a partir das estruturas formais do direito, sobretudo
graças à atuaç ão de juize s prog ressistas (Barc ellona, 1973; Losano, 2000,
pp . 1. 030 e ss.). O u se ja, con c eb e r o direito com o fat or de um a profunda
mudança social.
Inici ativa s análoga s foram tom ada s em outros pa ísefi europeus, sob o
impu lsodc gr upos dc ju fz cs ed c estud antes de dire i to corijpkimel i dos com
uma po líti ca de esquerda . Est es mov im ento» nãoco nsegilir ama lingirs eus
objeti vos. O d ireito m udou pouco na prática, não faltando casos de pun i
ção d e juizes que se mostrara m “ousad os” em suas decisões (Hespanh a,
1998, pp. 230 e ss.). Dian te desta situação, a maioria dòs adepto s do us o
alternativo do direito abandonou suas convicções políticas.
N a A m érica Latina, provavelm ente devido à gravidade da sit uação
social e à incapacidade do poder político de garantir o fexercício efetivo
dos direitos fundamentais da maioria dos cidadãos, a concepção da
alternância jurídica chegou a um ponto mais alto. Ademais de assumi
rem os métodos “italianos”, os representantes latino-am*iicanos desta
concepção elaboram uma nova idéia. Avançando mu|ito além do uso
alternativo do direito estatal, buscam alternativas ao direito estatal, ou
seja, outras fontes e modos de regulamentação social.
O verdadeiro direito alternativo seria então um novo sistct na ju rí 
dico. Os representantes deste movimento exprimiram a vontade de
100 M AN UA L DE SOCIOLOG I A J URÍDI CA

responder às verdadeiras necessidades soci ais dos países “subdesenvol


vidos” e de conseguir um a mudan ça na sociedade atrav és da aplicaçã o
de um “outro” direito, gerado espontaneamente no seio dos movimentos
sociais e suhstituindo paulatina mente o “opresso r” direito do E stado.
Esta tendên cia é muito forte no Brasil. Existe exten sa bibliografia
sobre o tema e mesmo programas de ensino universitário de “direito
alternativo” (Arrud a Júnior, 199 3, p p. 178 e ss.). Encontra mos tam bém
numerosas decisões de tribunais que fazem um uso alternativo do direito,
decidind o a favor da parte mais fr aca, mesm o quando isto i mpõe um a
interpretação do direito tecnicame nte duvidosa.
Exemplos: absolvição de um lenh ador que furtou um a moto-serra
para ut il iz á-l a como in stru mento de tr aba lho ; negação do pedido de
restituição de posse a proprietários de terras ocupadas p or trabalhadores
“sem-terra” e de prédios invadidos por pessoas “sem-teto”.’3
Em sua versão mais radical o direito alternativo apresenta-se como
um sistema que se distancia de elaradamente das no rmas estabe lecid as

pel o Estado
tamente, em: nom
“é oeco
dantra
just leiçagem — (Souto
social” que pode atuar, ,ex199
e Souto pl íci
7, ta
p . ou im plici
242).
Reivindi ca-se assim a legitimidade de novos sujeitos cole tivos, que
surgem dos mov imentos soci ais e poderiam atuar na solução de confli
tos , fora e além do direito do Est ado. Os princípios norteado res destes
novos legisladores e juizes seriam a satisfação das necessidades da
po pu laçã o, a democracia partici pa ti va e de sce ntral iz ad a, o desenvolv i
mento de u ma ética de solidari edade e o desenvolvimento de um a nova
racionalidade, visando a emancipação (Wolkmer, 1993, pp. 228-229;
1997, pp. 207-254).
Em p oucas palavras, o verdad eiro direito alter nativo é um “direit o
achado na rua”, um “dir eito comunitário”, “ vivo” ou me smo u m “dir eit o
insurgent e” e “ rebelde” , que resulta do “ pod er popular ” e exprime
valores libertários,’4
Deparamo -nos a ssim com duas versões da concepção do direi to
como fator de mud ança social. Ambas partem da tese que é possí vel usar
o direito como propulsor do processo de mudança social, diferencian
do-se no grau de intensidade de sta mudança. O uso alternativo do direito
ten ta, de acordo com o sign ificad o dado ao me smo na Europa, mudar
o direi to “por dentro” , respeitand o as normas jurídicas em vigor e
CON FLI TOS, I NTEG RAÇ ÃO E M UD AN ÇAS SOCI AI S 101

tentando introduzir a mudança através da atuação dos poderes co nsti


tuídos (mudança de baixa intensidade). Por sua vez, o direito alterna
tivo, no significado latino-americano do termo, tenta elaborar um novo
sistema jurídi co (novos sujei tos, novas no rmas), q ue seria antagônico

ao direito do
U mEstado
segundo(mud ançacode alta
elemento muintens idade).
m às duas ve rsões da alternâ ncia jur í
dica é que se objetiva alterar (com menor ou com maior intensidade) o
conteúdo da lei através da prática judicial. Isto cria um a série de pro
blemas polí ti cos , co locando a qu estã o se os j uizes e os doutr in adore s
do direito possuem a legitimação social e a capacidade prática de rea
liza r um a m udan ça radical do direito.
Além disto, devemos pensar que o direito alternativo não é sempre
pr ogr essi sta. Ace it ando a possi bil id ade de m udar o dir ei to at ra vés da
interpr etação jurídi ca, p odemos ta mbé m cair em um a concepção auto 
ritária d o direito alter nativo: osjuízes pod eria m erguer-se e m justiceiro s
acim a dos vai ores jurídic os de sua função, vetando direitos soci ais ,
reprimindo os desviantes e impondo interesses dos poderosos.
De fato, a experiência italiana dos anos 70 e 80 demon strou que
muitos doutrinadores, juizes e promotores interpretavam as leis penais
de forma extensiva ou mesmo ilega l, para com bater as organiza ções de
Esque rda acusadas de terr orism o. Um outro exemplo de “di reit o alter
nativo” conservador constitui o direito muçulmano tradicional, que em
muitos países islâmicos voltou a ser aplicado pelos juizes, mesmo
contra o direito estat al, após a vitória política de grupos fündame ntalistas
(Losano, 2000, pp. 1.053-1.054).
Atualmente, tamb ém vivenciamos u ma aplicação alternat iva d o di
reito no Brasil por parte de promotores ejuízes que, preocupados com os
índice s de criminal idade,interpret am a lei penal de forma extensi va. E xem 
plo: consid erar que a uti liz açã o de armade brinquedo em u m as salt o deve
ser equiparada ao emprego de arma de fogo. Esta interpretação prevale-
“ ceu na jurisprudênc ia por mui tos anos, tendo sido abandon ada pelo Su
perio r Tri bunal de Justiç a em 24.10.2 00 1 (REsp 213 ,0 54-SP).
III.1 MANUAL nf: SOCIOLOGIA JURÍDICA

l’or último, observamos que nem mesmo a busca de alternativas


"sociais" ao directo estatal (“direito achado na rua”) resulta sempre
p io g ressista. O d ire ito a lterna tiv o c r ia d o e a p lic a d o pe la s c o m u n id a d e s
pO dc sc r e x t r e m a m e n te o pre ssor, q u a n d o im p õ e aos in d iv íd u o s a v o n
tade Se um grupo, podendo até se tornar uma “lei do mais forte”
(I Irspanha, 19 93, pp . 28, 34). Im agin em , po r exemplo, resolver o s
(nnllilos trabalhistas sem a intervenção dos tribunais, com base em
HB iif iac ões e ntre os advogado s de um a gran de em presa e o e mpregado!
I )<> po nt o d c v ista d a me to dol ogi a, su rg e u ni p rob le ma. C
conciliar o caráter taxativo e positivo do direito estatal moderno, que
expiime uma determinada vontade política e reivindicí a supremacia
ihsoluta sobre qualquer outra vontade política, com interpretações “li
vres” ou fontes “al ternativas” do direito - funda men tadas em uma nov a
versão do jusnaturalismo?
A posição meto dológica da alternância jurídica é que “ o dir eito s e
i olhe da observ ação da realid ade” (H espa nha , 199 8, p . 229) e sustenta -
stj que, em comparação com o direito estatal, que protege a minoria dos

loitcs, o direito espontâneo-comunitário protege as necessidades de


Indo s, sendo um “direito jus to” (W olkm er, 199 3, p . 238).
Como seguir esta orientação jiis n a tu r a lis ta na prática, sem entrar
cm conflito aberto com o sistema normativo do Estado? O direito
alternativo se choca com os princípios da separação dos poderes e da
legal idade que reco nhec em ao legislador e sta tal o m onop ólio de cri ação
de normas leg ais e não perm item aos juiz es dec idir con form e s uas
avaliações subjetivas, nem a grupos sociais alterar o direito estatal
segundo a própria vontade (cfr. Grau, 2000, pp. 110 e ss.). Em outras
pala vra s, 6 praticamente impossível distinguir o direito alternativo da
fraiiCa ilegalidade ou da revolução política que institui um novo direito.

I I 2 E sfe ras de m a nif esta çã o da m u da n ça

O direito mo dern o possui duas esferas de man ifestação: a int er


lelativa ao direito nacional, e a externa, relativa ao direito internacional
e comparado. Um processo de mudança social pode ser impulsionado
pm a m b a s e sferas.
A constatação de um problema social poi parte do governo e a
p re ssã o política p o r p a rte dc g r u p o s d e s f a v o r e c id o s ou d is c rim in a d o s
p o d e m le va i a r e f o r m a s d o direito. T ais a lte ra ç õ e s o b je tiv a m realizar
CONFL ITOS , INTI-GRAC^ÃO H MUDANÇ AS SOC IAIS | ()3

I , . 1
mudanças sociais. Um exemplo clássico é a legislação trabalhista, ela
borada durante o regim e de G etúlio Vargas. U m exem plo mais atu al
refere-se à legislação que regula a união estável de pessoas de sexos
di fer ente s. M esm o constatando qu e o éoncubinato é uma matéri a regu
lada em diversas nações, a iniciativa do legislador brasileiro partiu da
constatação de problemas sociais e jurídicos do país.
Tqm a-se di fíci l pensar hoje em refo rmas do direito que não recebam
influenci as da legislação externa. I lá, porém, reform as que corr espo nde m
a uma demanda social do país e outras que são produlo de pressão
internacional, de imitação de legislações estrangeiras ou do contato
entre culturas e sistemas jurídicos diferentes. Nestes casos estamos
dia nte d o fen ômen o da transferência de direit o, cujas principais formas
são o empréstimo e a aculturação jurídica (Carbonniér, 1979, pp. 246
e ss.; Rouland, 1998, pp. 424 e ss.).
O emprésti mo jurídic o consiste na assimilação vólunlária de deter
minadas normas provenientes do direito de outras nações. Sabemos que
o direito sofre constantes transformações para adaptar-se aos processos1
de mudança da realidade social. Por exemplo, há 50 anos praticamente
nenhum E stado considera va necessário criar normas sobre a manipula
ção genética. O desenvolvimento da biogenética (fertilização in vitro,
clonagem, manipulação de genes etc.) levou alguns países, principal
mente os que detêm uma tecnologia mais sofisticada^ a legislar sobre
esta matéria. Outros países utilizaram estas normas como modelo para
o desenvolvimento de suas próprias legislações.
Geralmente, os país es que se encontram em fa se de desenvolvimen
to adotam instrum entos juríd icos do s países mais avan çados na tenta tiva
de modernizar as estruturas locais (administração pública, relações de
trabalho, organização e fiscalização do sistema fmancèiro e tributário).
O em préstim o deve ser precedido de um estudo detalhado da s
experiências estrangeiras. Isto permite ao país “importador” não só
adaptar a legislação alienígena às necessidades locais, mas também
identificar eventuais causas de ineficácia ou inadeqiiação da mesma
(Lição 3). Com base nestes estudos o país receptor poderá criar normas
dotadas dc maio r perfeiç ão técnic a c efic áci a.15

1151 Infel izmente isto não d mui tas vez es obser vado. A in tro dução do deli to de

aassédio sexual
total falta de cm 2001 dessa
eficíicia na legislação
norma nosbrasileira não previamente
países que levo|i cm consideração
a adotaram.
Por exemplo, na Espanha houve apenas duas condenações durante os quatro
primei ros anos de vi gência da lei (Evange lio, 2000, p. 95).
|H| MA NUA L DH SOCIOLOGIA JURÍDIC A
i
E m (imros casos o legislador nacional recebe influências do direito
imtm.u ionnt. Por exemplo, as autoridades de um país decidem adotar
medidas pa ra com ba ter a tor tur a, levando em consideração a exper iênci a
<lc Out ros paíse s e obv ia m en te os tratad os intern acion ais sob re o ass un-
hi I sic o ca so da I .ei ' M 5 5 , do 07.0 '1.1 0 ()7 , ( 111o defino os crimes dc
loiiina nn lirasil.
I 'm outro exem plo de emp réstim o refere-sc à problem ática
11i11•i11 >•: li11111;i11u'iil;iis da mulher. Muitos países com cultura tradicional
iei epcio naiam norm as que tulelam o s interess es femininos (igu al tra 
tamento, promoção e capacitação), elaboradas pela Organização das
N ações Unidas e pelas organiz aç ões regionais, co m o a O rganização do s
Estad os Americanos. Um a recepção “criat iva”, que considera as p arti 
cularidades de cada país, pode contribuir para a mudança de hábitos
soci ais, propiciand o um a m aior proteção das mulherbs (Sabadell, 1998).
A segunda forma dc transferOncia de direito é a acult uração jur í
dica. Neste cas o se verifica um a m aior influ ência da esfera ex terna . Por
aculturação jurídica entende-se o processo de recepção de um direito
alienígena que provoca alterações globais no direito do país receptor.
Concretamente, a aculturação pode ocorrer de duas maneiras. Primeiro,
através de uma decisão externa. Exemplo: durante a colonização do
contine nte americano foi imposto o sistema juríd ico das metró poles à s
colônias. Segundo, através de uma decisão interna. Exemplo: após uma
revolução ou secessão, as autoridades políticas decidem adotar o siste
ma jurídico de outra nação, por considerá-lo mais adequado.
Quando, porém, o país receptor não está em condições objetivas de
implementar o modelo jurídico importado, sobretudo porque o Estado
não possui o controle do território e da população, a aculturação apre
senta poucos efeitos práticos (falta de eficácia). Isto foi o que ocorreu
cm vários países da África. O sistema jurí dic o ofici al era im posto pelo
colonizador e, mesmo após a independência, as elites locais adotaram
sistemas jurídicos europeus. Em paralelo, porém, funcionava o antigo
sistema costumeiro local, que correspondia às estruturas políticas e à
mentalidade da populaçflo, vcrilicando-se a “resistência" da cultura
loc al diante dos m ode los eur ope us (R oula nd, 199 8, pp. 450 e ss.; Sueu r,
2001, pp. 56 e ss.).
Íí importante diferenciar a aculturação do empréstimo. O emprés
timo refe re-s e a matéria s específicas e não a todo o ord enam ento jurí-
di> o, htmo acontece com a aculturação. Além disto, o empréstimo é
CONFLITOS, INTEGRAÇÃO E MUDANÇAS SOCIAIS 10 5

voluntário, sendo que a aculturação jurídica pode ser produto de uma


imposição direta.

3.4.3 Ritma da mudança

Híi áreas de atuação social, onde é relativamente fácil introduzir


uma mudança e outras onde é mais complicado. As mudanças são mais
lápidas no seto r da organizaç ão do Estado do que no setor da cçoij omia
priv ad a, onde há uma m aior resistÍMicia dos agentes econôm icos.
No setor privado é mais fácil in tr oduzir , através do dir ei to , m u d an 
ças de algumas estruturas, criando incentivos ao desenvolvimento e à
competitividade (“modernização”). Se disto decorrerh benefícios e as
classes dirigentes estão de acordo, a mudança pode ^er rápida e bçrtH
sucedida.
Podem os pensar, por exemplo, no desenv olvime nto dc "zonas fran*
cas”. Através de reformas no direito tributário, no direito do trabalho e
na distribuição de auxílios estatais, incentiva-se a atividade econômica
em determinadas regiões. Muitas empresas e trabalhadores deslocam-
se para as zonas francas, onde há maiores possibilidades de lucro e de
emprego, propiciando o desenvolvimento econômico das regiões em
quest ão. Inicia-se assim um a grand e mu dan ça nas condições de vida dos
seus habitantes, o que leva também à modificação do comportamento
e ao surgimento de novos problemas (por exemplo, o aumento da
criminalidade como decorrência da urbanização).
Um outro exemplo é oferecido pelo direito ambiental que tenta,
através de uma combinação de incentivos e de sanções, reestruturar a
produção com o objetivo de p reserv ar os proce ssos de renovação dos
recursos naturais e a saúde pública.
As mudan ças globais são difí ceis no campo econ ômic o, porque ist o
pressupõe um a tran sfo rm ação radical na estrutu ra de classe do pa ís e cria
grandes resistências políticas. Ainda mais improváveis são as tentativas
de m udança que atingem práticas culturai s, corno as prát icas reli gios as
ou a situação no flmbito privado da família. Nestes casos as ideologias
transmit idas pela tradi ção apre sentam uma grande resi stênci a.
Um último tema relaciona-se à estratégia que devem adotar os
reformadores nas tentativas de mudança social. Deve sçr totalmente
abolido o antigo direito (estratégia de ruptura) ou tentar reformas par
ciais, através de compromissos táticos, que deixam em vigor parte do
Illll
MANIIAI. Hl*. SOCIOLOGIA JURlDlCA

i Iih tlo jntig o, para não colo car em perigo a reforma? N ão há uma rece ita
i ei ia TudO d< pen de rá d o se lor de at ua çã o e do apo io socia l co nce did o
m s propulsores da reform a. E m outras palavras, a m udança so cia l
mi ivtís do direito é um pro ble ma plen am ente e exclusivame nte polít ico .

I'inn ir mais longe


Anomia c direito:
I >m kli ci m, 2000; 1 lern ándc z, 1993 ; Mar coni , 19 74; M ana, 1991;
Mellon, 19(i4; Merton, 1970, pp. 203 ess.; Pavarini, 1983, pp. 108ess.;
Relibinder, 2000, pp. 137 e ss.; Rosa, 1981, pp. 93 e ss.; Soriano, 1997,
pp 1 4 1 e ss.
Mudança social e direito:
Ariiaiid, 1991, pp. 153 e ss.; Arnaud e Dulce, 2000, pp. 371 e ss.;
Anuil.i Júnior, 1993; Atienza, 1985, pp. 77 e ss.; Bottomore, 1987, pp.
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VVolkmcr, 109^ e 1997.
Lição 5
I
LEGITIMIDADE E DIREITO.
O DIREITO COMO FATOR
DE CONSENSO SOCIAL

SUM ÁRIO : 1. Monop ólio de violência leg al - 2. Legitimi dade do poder


- 3. O papel do direito no processo de legit imaç ão do poder pbl íticò;
Legi timidad e form al e materia l- 4 . Cri se de legitimidade- 5 . Plu ralis mo
jurí dico: 5 .1 Defíniçflo c critérios do pl ur al is mo jurídico; 5.2 Teorias do
pl uralis
5.2.2 mo jur
Teorias ídico: as
modern 5.2.1 Teorias
do plurali smotrajurídi
dici onai
co; s5.3doCrítica
pl uraldoismo jurí dico;
pluralismo
jurídico.

1. M ONO PÓLIO DE VIOLÊNC IA LEGA L

É muito comum ouvir, entre sociólogos do direito, as seguintes


frase s: o Estado man tém o m on op óli o1 da violência legíti ma; o Es tado

é um que
ções, aparelho
provêm violento ou um
dc Max mecanismo
Weber, de qviolência.
in dicam ue o EstaEstas afirma
do* quer o indivíduo
aceite ou niio, tem a capacidade de impor a sua vontade. Weber definia
o Estado como um mecanismo que consegue manter o monopólio do
exercí cio legít imo da violência fís ita .
Das análises de Weber2 desta cam -se trê s elementos:

A palavra monopólio 6 dc srcem grega: mnnns - único c pfllinn - venda,


significando a prerrogativa exclusiva de venda.
(2) As form ulaçõ es exata s são: “U ma empresa com caráter dè institui ção política
denominamos Estado, quando e na medida em que seu quadro administrativo
reivindica com êxito o monopólio legítimo da coação fííiica para realizar ns
ordens vigentes” (Weber, 1991, p. 34). “Hoje, o Esiado é aquela comunidade
humana que, denlro de determi nado território ( ...), recla ma paia si (com exito )
I OH manual nr; s o c i o l o gi a j u r I dica

i ) Violem ia legítima. As manifestações de violência física (exercí-


i Í0 <l< lorça c coação) pode in ser divid idas em duas categorias: aquelas
que si lo ace itas pela ma ioria da po pula ção (violência legítima) e aquelas
(|U£ são consideradas injustas, abusivas, sem justificação (violência
ilcjílim a). A vítima dc um a calúnia que arresta o caluniad or e o mantém
cm prisão fior dois anos cxerce violência ilegítima, que a sociedade
ii prova c o listado pune. O Estado que condena o mesmo caluniador a
ilni1, anos dc dclc nçã o, apl ican do o art . 118 do Cód igo Penal, cxcrcc um
i (iir.liaii)'imcnlo legítimo. I loje pode sei legítima somente a violência
Irai a que provem do Estado (exemplo: ação policial) ou é autorizada
poi d « (exemplo: le gítim a defesa ).
h) Violência legal. A justificação da violência legítima dife-e his-
lOfífcflmcnte e depende do tipo de organização social. Nas sociedades
modernas, a violência 6 aceita somente se fundamentada na lei estatal;
cm outras palavras, a violência legítima é, hoje, um sinflnimo da vio-
I4n5.fi legalmente prevista.
c) M onopólio de vio lência . A prerrogativa de exercer violência
legitima pode ser difusa ou centralizada. Na Idade Média era
freqüentemente permitida a vingança. Nas sociedades modernas a vio
lênci a legítima é cen traliz ada; o Esta do é a única organização social q ue
poss ui es ia prerrogativa em se u te rr it ório .
Resumindo. A coação física é considerada legítima nas sociedades
modernas se for fundamentada em lei estatal e exercida por autoridades
dO Estado ou - em caso s excepcionais - por quem foi lega lmente
li ihilitado para isto.
Um exe mplo nos ofere ce a políti ca tribut ária. O governo pod e exigir
0 pagamento de impostos, fundamentado-se na legislação tributária. Se
uma pessoa se nega a pagá-los, o governo conta com meios para
1onst rangê-la a dfetuar este pagame nto. Portanto, o Estado po de impor
<i sua políti ca, exe rcen do o “m onop ólio da v iolênci a legal”, dado que o
listado 6 a única instância social que possui aparelhos de violência
ÍOrtes e também legais. Os aparelhos do Estado atuam, em geral, com

o monopólio da coação física legítima (...). Este é considerado a única fonte


do ‘direito’ de exercer coação” (Weber, 1999, pp. 525-526). Segundo Kelsen
(2000, pp. <10-41), a ordem jurídico possui a "monopólio da coação” c o
Estado moderno “repre senta uma ordem jurídica centralizada no m ais elev ado
Bmi”.
LEGITIMIDADE E DIREITO , |( )9
!
base nas norm as jurídicas, que lh es oferecem a possibilidade (c om p e 
tênci a) de atua r, estabe lecen do as Final idade s e os limites desta atuação.
Neste sentido p odem exercer um a violência le gal (grevista e regulada
através de normas jurídicas) e aplicar o direito independentemente da
vontade dos cidadãos.
Um criminoso pode constranger uma pessoa, com ameaça ou
violência fís ica, a entrega r sua carteira. Esta é um a fo rma de violência
ilegal, contrária ,i lei e, como tal, punível. Quando o Estado constran
ge a lguém a pagar impostos - em preg and o, se f or necessár io, a té
violência física -, exerce um poder, qtíc lhe confere a lei. O Estado
atua de forma legal, e emprega a violência somente para enfrentar a
resistência da pessoa que se nega a cumprir uma obrigação legalmen
te estabelecida . I
Um outro exemplo oferecem as condutas que infringem a legisla
ção pen al. Se alg uém se nega a respeitar a pro prieda de privada e prat ica
furtos, o Estado pode impor, através da sua violência, um limite à stia
conduta, levando-o à prisão. Assim os aparelhos do Estado (neste caso
a polícia) nos ameaçam com o constrangimento e, se for o caso, exer
cem o constrangimento (arresto do infrator, inclusive com violência
física).
Porém, apesar de ser um aparelho violento, o Estado é fundamen
tado no consentimento (aceitação) por parte da população, e a sua
atuação também gera consenso. Assim, um governò que tem uma boa
pol ít ic a socia l, consegue suscitar a aejesão dos cidadãos, ou se ja , a
população passa a ap oiá- lo .
A obtenção do consenso é um tema de extrema importância para o

Estad
cia o, sendo
gera custos omateriai
fundame s nto
paradeo sua
po legitimidade. O emp ais de
der político, adem rego de violên
causar uma
situação de tensão e instabilidade. Po r esta razão, os detento res do poder
têm todo o interess e de m inimiz ar o uso de violência, procurando obter
a adesã o da população e o cum prim ento voluntário das obrigações. Aqu i
exis te uma re gra : m aior é o cons enso obtido pelo pod er pol íti co, m enor
é a necessidade de constranger as pessoas ao cumprimento das normas
jurídicas.
Exemplo: Se todos os brasileiros negarem-se a servir o exército, o
governo te m m eios militar es e policiai s, para constran gê-los ao cump ri
mento desta obrigação constitucional. Mas qualquer um pode imaginar

quaisempreendimento.
tal seri am as dificuldades práticas e as con seq üên cias políti cas de um
MANtJAI. DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

2. LEG ITIMIDAD E DO PODER


i '
O que se entende po r legitimidade? A legiti midade é decorrente
scnlimcnl o expresso por uma com unidade de que deter minada cond uta
é justa, correia. Daí dizer-se que esta implica sempre reconhecimento.
Assim, a legitimidade pode ser definida como um amplo consenso, no
suio da sociedade, de que uma autoridade adquire e exerce o poder de
modo adequado.
() termo legitimidade utiliza-se mais especificamente para referir-
se ao poder político, ao governo, ao Estado. Temos um poder legítimo,
se a população reconhece que as ordens emanadas das autoridades são
just as e que existe a o brigação de cum pri-las (dever de obediência). Em
Outras palavras, a po pu laç ão o bede ce ao pod er legítimo nã o som ente por
temer a aplicação de eventuais sanções, mas também por convicção.
Neste ca so , a ordem política encontra um am plo reconhecim ento e
consegue facilmente aplicar o direito.3
Ao analisarmos a relação entre legitimidade e Estado, podemos
apontar como marco histórico o discurso filosófico sobre o contrato
social. Ao final do século XVIII e início do século XIX, a idéia de
legitimidade, que estaríi na base do nascimento dos primeiros Estados,
se relacionava a um consenso inicial de todos os cidadãos, onde se
configurava a idéia de adesão ao contrato social, para a fundação de utn
Estado: os cidadãos iguais e livres decidem organizar a sociedade atra
vés da um contrato social, cujas regras fundamentais são fixadas na
( onsiituição.

<111c- Atualmente
consiste nap parlicip
ode- se açã
falaro dos
de um
cidconsen so funcional
adão s no e permanente
proc esso de tom ada de ,
decisões. A comunidade política se converte em protagonista do exer
cício do poder: os súditos tornam-se, pelo menos formalmente, cida
dãos, detentores da soberania, e legitimam o poder através da eleição
dos governantes e da participação cotidiana nos processos políticos
(debates, protestos, greves etc.).

I.i-inbiamos que o termo “legilimidade" 6 também utilizado em relação ao


direito. Uma norma jurídica é legítima quando é considerada justa e neces-
srtria. A sociologia jurídica analisa a legitimidade do direito de dois modos:
ii npiniilo dn populaçllo sobre n direito (l.içrio l(’ 4) e nvcrigun n
Hinirin das nonii ns jurídicas, ‘que est,1 rela ciona da com a aceitaç ão das
nniniir; pelas pessoas (Lição 3, 4,2 a).
LEGITIMIDADE E DIREITO [II
j \
3. O PAPEL DO DIREITO NO PROCESSO DE LEGITIMAÇÃO
DO PODER POLÍTI CO. LEGITIMIDA DE FO RM AL E MATE
RIAL
1 1.'

senhor,“Osenão
mais transformando
forte nunca é sua
suficientemente fortee para
força em direito ser sempre
a obediência emo
dever”. Esta constatação de Rousseau (Livro I, Cap. III; 1997, p. 59)
exprime uma lei fundamental cia política.
Não 6 difícil constatar que o direito tem uma importância particu
larmente grande para o processo de legitimação do poder político. O
direito dá ao poder, o que o constitucionalista alemão Carl Schmitt
(1978, p. 323) chamou de “mais-valia política” (potjtischer Mehrwert).
O que significa isto? Através do direito é possível criar legitimidade
para um governo, que passa a usufruir as vantagen s que oferecè a
aceitaçã o popular (estabilidade soci al, dim inuição dos conf litos, obedi
ênciaespontânea). 1 ! i
O dire ito é um instrumento que permite le gitimar o poder por dua s
razões. Em primeiro lugar, a existência de um sistema jurídico está
ligada à idéia do justo. Se as leis são respeitadas por todos, as pessoas
acreditarão que a justiça prevalece, que as autoridades do Estado não
exercem o poder arbitrariamente, mas se restringem a aplicar as regras
previamente estabelecidas.
Em segund o lugar, a existên cia do direito e o respeito a ele oferecem
ao cidadão um a sensaçã o dc segurança. O direito lhe permi te saber o que
deve fazer e o que pod e espera r dos outros, ou seja, lhe permite organizar
a sua vida e conseguir uma estabilidade.
Dc tal forma, os detentores do poder não são julgados somente em
base às suas decisões políticas, mas tam bém g a nh am um “prêm io” de
legitimidade devido ao funcionamento do sistemá jurídico. Esta é a
“mais-valia política” da qual se apropriam os detentores do poder legal.
Par a conseguir legitimidade, o poder político deve atuar em confo r
midade com as características e exigências de cada sociedade. Nos
sistemas capitalistas, a legitimidade é de tipo fo rm al-Ie gal. Os cidadãos
aceit am submeter-se somen te a ordens que em an am de normas jurídicas
estabelecidas segundo procedimentos previstos na Constituição. Acre
dit am na leg alid ade, considerand o-a co mo um elem ento ncccssdrio p ara
o bpm funcionamento da sociedade. Como apontava Max Weber, “a
forma de legitimidade hoje mais corrente é a crença na legalidade: a
I

1|2 MAN UAI. DR SOCIOLOGIA JURÍDICA

submissão a estatutos estabelecidos pelo procedimento habitual e. fo r 


malmente correto" (1991, p. 23; 1999, pp. 526, 529).
O poder políti co mo derno não se legiti ma somente por tomar deci
sões justas, como acontecia com os “bons reis” na Idade Media. A
legitimação passa pel o respeito às regras e ao s procedim entos definidos
pel o dir eito escrit o: “o b ed ece-se à ordem impessoal, objetiva e legal
mente estatuída” c não a determinadas pessoas (Weber, 1°91, p. 141).
Dentro do sistema de legitimidade Formal, o exercício da violência
íísica é considerado legítimo, somente quando praticado dentro dos
limites da legalidade. Assim sendo, falar-se do monopólio da violência
legítima nos sistemas capitalistas significa falar da violência legal.
Weber descreveu as etapas de racionalização no desenvolvimento
histórico do direito, sustentando que o direito moderno é caracterizado
pela racionalidade e pela formalidade. O direito é dl aro, sistemático e
esthbelece regras gerais, aplicáveis em vastas categorias da populaç2o.
Ist o perm ite a previsão e o fc ontro le das decisõ es, que não d epen dem do
poder
rigorosamágico de um
dc normas quejusilo
iz ou da vontade de econhecidas
precstabelecidas u m re i, mas
por sitodos
m da aplic ação
(Weber, 1999, pp. 142 e ss.; cfr. Quensel, 1997, pp. 140 e ss.).
Em uma obra mais recente, Luhmann descreveu a legitimidade
moderna como legitimação do poder através de procedimentos e não
atr avés do conteúdo das normas jurídicas ( Leg itim ation durch Verfahrert
- Luhma nn, 1980). Isto é uma outra forma de ex pres sara idéia de Webe r
de que a primeira condição da legitimidade moderna é o respeito à
formalidade. Um tribunal penal que julga sem respeitar os prazos
preestabelecidos, restringindo os direitos de defesa do acusado e inti 
midando as testemunhas, nunca conseguirá o reconhecimen to das su as

decisões
con den arcomo “justas”,
os autores mesmodelseito.através
de um de tais do
A finalidade métodos
processoconseguir
pena l é, sem
dúvida, encontrar a verdade. Porém, isto só pode ser feito através do
respeito a procedimentos e regras.
Como ressaltam os dois autores, a prevalência da legitimidade
formal explica-se através das características de uma sociedade capita
lista. Para o funciona men to de um sistema fundado na tro ca de merca
dorias entre pessoas livres e iguais, é absolutamente necessário que se
respeitem normas precstabelecidas e uniformes. É o que Weber deno
minou de “segu rança de tráfi co jurí dic a” (1999, p. 144), e que geralm en
te denominamos de segurança jurídica. O cidadão pode prever as de-

i
LEGITIMIDADE E DIREITO 113

cisõ es do governo e o com portam ento dos outros cidadãos, sendo gran
de a probabilidade de que todos obedecerão ao direito. O governo que
garant e a segurança jurídica permite o bo m funciohamen to de uma
sociedade capitalista. Por esta razão, goza de consenso
Neste sentido, podem os dizer que a eficácia do direito é uma con-|
dição i mportante da legitimidade fòrmal . Um go vern o que não consegue
aplicar o dire ito e não respei ta as nor ma s co nstitucion ais na sua at uação,
perde a su a legit imid ade, a sua posição de g arantidor dc uma ordem. O
resultado c a criação dc uma situação social anôniica.
Um governo democrático, ao ser eleito, encontra-se com um siste
ma jurídico em funcionamento. Se este governo implementar correta
mente este sistema, isto gerará consenso, coesão social, sendo que aá
pessoas acreditarão no governo, sentindo-sè “ seguras1’. Assim, se hojef
no Brasil toda a legislação penal fosse cumprida, teríamos uma dimi
nuição do sentimento de insegurança com o qual conVive o cidadão. E

não seriao.estranho
gov ern O m esmose aumentasse
aconteceri a legitimidade (aceitação
a se o governo decidissepopular) do
implementar os
direitos sociais, econAmieos c culturais proclamados na Constituição
Federal de 1988.
A legitimidade formal, fundamentada no respeito da legalidade é
necessária nos sistemas capitalistas. Não é, porém, süficiente. Existem
também exigências de legitimidade material (Weber, 1999, p. 153). A
maior parte dos conflitos políticos giram em torno da questão de se as
decisões do po der políti co são m aterialm ente justas, ist o é, donforme ao
“interesse comum”, aos ideais de liberdade, igualdade e solidariedade.
O que diferencia a nossa atual socied ade das anteriores é a nece s-
s. lade de qu e a legitim idade mate rial (justiça) dev e sem pre pressu por
a legitimidade formal, ou seja, o respeito às normas do direito. Não é
possível u m a legitim idade material que não respeite a le gitimidade
formal. I
Para exprim ir est a tese os jurista s na rram o caso do mo inho Arnold
(Wesel, 1997, pp. 398 e ss.). Christian Arnold era um pobre camponês
que vi via do trabal ho em um moinho de água qu e alugava em Pommerzi g,
na fronteira atual entre a Alemanha e a Polônia. O senhor da fazenda
vizinha usou a água do rio para criar carpas. A falta de água diminuiu
a produtividade (como diríamos hoje) do moinho e Arnold não podia
mais pagar o aluguel. Entrou em conflito com o fazendeiro que o
preju dicava, foi vencido em todos os processos, fez dívidas e, ao fim,
MAN UAI. OH SOCIOI.OCilA JURÍDICA

I>• ul< ii 0 nminKo, que foi a lug ado e m 1778 a o sen hor da fa ze nd a vizi-
nh J, fÇNpcinsíivel pela desgraça de Arnold.
I)csespfira da, a esp os a de Arn old pedi u ajuda ao re i da Prússia,
I tcdcrico 1 1,0 re i foi con ven cido pelas súplicas e recorreu pessoalmen-
li i oniia ns decisões, pedindo a indenização de Arnold. O tribunal
irn iioii o recurso c sua decisão foi confirmada pelo Supremo Tribunal
.Ir Berlim. Furioso perante a injustiça, o rei mandou prender todos os
ftwes implicados no caso Arnold o editou cm 1779 um “protocolo”,
onde ' lilieava as decisões judiciais sobre o caso, qualificando-as dc
mente injustas”. No intento de dar um exemplo para todos os
nihimais, l rederico II afirmou que mesmo um mendicante é pessoa
luimana, tal como o rei. Os tribunais devem, então, tratar os conflitos
sem consideração das diferenças sociais entre as partes, sendo que o
Supremo Tribunal deveria punir os juizes “injustos”.
0 Sup remo Tribunal negou-se a tom ar tais providê ícia s e o rei
iI iiq u pessoalmente. Co nde nou alguns juizes a pena de prisã o e re sti tui u
0 moin ho a Arnold. A ssim agiam, às vezes, os reis medievai s, que no
■ns£> de súplicas do povo tomavam a chamada “decisão de poder”, para
corrigir a “decisão de direito” dos tribunais. A reação dos juizes e dos
políticos da Prússia fo i tão fo rt e, que Frederico II nunca mais tomou uma
deeisão de poder”, sendo obrigado a criar um novo ministério, deno
minado “Ministério de Justiça e Legislação”, que deveria garantir a
independência do Poder Judiciário.
() precedente histórico levou os Estados de direito, que começaram
a formar-se ao fim do século XVIII, a concluir que uma decisão dos
órgãos competentes segundo a lei é mais legítima do que uma decisão
pol ít ic a, que desrespeita a ordem ju rid ica m e n te estabelecida. M esm o
sendo as decisões das autoridades competentes injustas, a cultura jurí
dica moderna as prefere a uma decisão tornada segundo o “sentimento
de jus tiç a” dos gove rnante s. O respeito ao direito positi vo é conside rado
mais importante do que a conformida de a exigência s de justiç a. A
historia do camponês Arnold fica na memória jurídica como o último
caso em que a p rete nsão dn legitimidade mate ria l (decisão “ju sta”)
posicionou-se acim a da legitim idade formal, acim a do respeito ao s
inhunais c ao direito positivo.
Iloje a legitimidade formal é dominante. Isto levou Carl Schmitt
( l‘)/K ) i lalar cm “revo lução m undial legal” , onde qualqu er mudan ça
» ial passa através do Estaao e do respeito pelo direito.
i .r-.orriMiDADF. r- DiRP.rrn I 15

0 processo de legitimação indi cd o grau de solidez e o nív èl dé


aceitação de um sistema político pelo povo. O reconhecimento tia legi
timidade e da autoridade, não signif ica, porém , qu e a Comunidade ap óit
cada um dos atos ou decisões do Estado. Muito pelo contrário, alguns
alos podem ser questionado* ou avaliados negativamente, mesmo se o
poder polí tic o es tá legit im ado. C o m o donseqtiência, poderá haver op o si
ção ou tentativas de alterar determinadas decisões, cuja legitimidade
material c contestada. Exemplo: as ações dc. protesto dos trabalhadores
da IVlmbrás quando da tentativa de privatização da empresa; o objetivo
não era a derrub ada do governo, mas so men te a revisão de uma série de
decisões de política econômica.
Em todo caso, o fundamental para a legitimidade material é o
convencimento de que, em último caso, a decisão deverá ser popular e
é o povo que tem o poder de exigir o cumprimento dè promessas de
ju st iça social.

Exemplo: Até 1995 o governo alemão do Chanceler Helmut Kohl


usufruía grande aceitação popular. Havia um consenso tão forte, que
este governante ficou no poder por mais de quinze anos. O vertiginoso
aumento do desemp rego e a dimin uição d os benefícios sociais causaram
a perda de legitimidade de seu governo, que foi derrotado nas eleições
de 1998, ganhas pela coligação de oposição social-dèmocrata e verde!
Algo muito freqüente nas sociedades modernas são as pesquisas de
opinião pública, feitas com o intuito de averiguar o grau de aprovação
so ci al q ue possui um determinad o governo. Ass imv quando o “Vo x
Populi” sai às ruas e pergunta: “Você está satisfeito com o governo
Fernando Henrique Cá rdoso?” , o que se quer constatar é justamen te o
grau dc legitimidade de seu governo.
A quantidade (ou grau) da legitimidade ( pouco, relati vamente, muito
le gí timo ) se r elaci ona co m o consenso. Qu and o um gov erno é conside
rado legítimo, isto significa que há um maior consenso e coesão em
torno das políticas e das metas sociais definidas pelos políticos.
Como conclusão podemos estabelecer dois fatos:
a) O direito em vigor, ao ser aplicado, propicia o processo dc
legit imação do Estado. Ho je é pre dom inan te a legitimidad e forma l, que
decorre do respeito às normas do direito escrito, estabelecido pelos
órgãos competentes.
b) O dir eito im põe condutas e prom ov e valores. C o m o tem po se
produz um condicionam ento da opinião pública, gerando a crença de
MANIIAI. DP SOCIOLOGIA JURÍDICA

(|iii uqi iil o (juc o direito or de na é justo. Co m o cons eqüên cia, o direito
t( i un ipi id q não exclu sivam ente pelo tem or da sanção, mas també m pela
onvi.c ção de que a previsão legal deve ser obedecida (exemplo: paga
mos ,i conta do restaurante de modo “automático”, e não porque pen

samos que o nrl. 176 do Código Penal pune como fraude a conduta de
inm n refeição cm restaurante sem dispor de recursos para efetuar o
|i;i|! ■mi-iit ()"). Esta é a pr inc ipa l va nta ge m qu e ofe re ce o dire ito a um
I><mli’t po lí nco le git im ado .
( nmu conclui Parrari, “o direito é uma modalidade específica de
.n,:iO oci al; está estritam ente ligado ao exercíc io do pode r e funciona
COiTiO símbolo legitimador deste último” (1999, p. 151).

I ( RjSÍÍ D.E LE G IT IM ID A D E

( i pm blema de legitimidad e envolve a s crises e a s mudanç as soci ai s.


A ort lft m institucional não é um corp o em repous o. Assim, um a crise d e
l>yiiimiilacle aumenta a tensão entre governantes e governados, poden
do levai a um processo de destruição, total ou parcial, da ordem
m Mliu tonal c. jurídica. Este processo é motivado pelas exigências de
ilt !■ «muni dos grupo s so ciais e ta mb ém pela inc apacid ade do sistem a
piílfUt i> de captar as necessidades de reforma. Isto aconteceu com os
■ nifTic soi ialistas do leste europ eu.
< )■ sist emas políti cos sem consenso não dispõem dos meios ne ces-
ii nu iiíiim coordenar e impor suas decisões. Por tal motivo empregam
,i i nrii,ilo com o meio par a enfre nta r a resis tênc ia que lhes é opo sta. Isto,
poi in, (mu fite agrava a crise de legitim idade do po de r.
As crises de legitimidade mais intensas podem gerar processos
irvfilu! idnários que estabelecem um novo poder. Nestes processos de
mu I inçn i ,ulii il, li no vo p ode r busc a ta mb ém a legitim ação através do
dlrt ii" ou seja , tenta torn ar-se legal, formu land o novos princípios e
ilmrs constitucionais. De tal forma, o direito torna-se meio de legiti-
mnçflo do pod ei político, de consenso e de pacificação socia l, que ev ita
o i ílfnu <l< inse gur anç a c de tensão.
I i i i i on< ltisãO, podemos dizer que a legitimidade nunca é obtida
d ...........Io ilcfirtllivo Mém do respeito à legalidade, o poder político
ili m ' ui(|i tnr diaiian inotó a sua legitimação pela adesão da opinião
| M11111( ,1
LEGITIMIDADE E DIREITO 117

5. PLURALISMO JUR ÍDICO

5. 1 Definição e critérios do plura lis m o jur ídico (

Até agora identificamos o direito com o direito do Estado, isto é,


com as normas jurídicas elaboradas, emitidas e garãntidas por órgãos
do Estado. A tese de que o direito é criado somente pelo Estado carac
teriza o “monism o juríd ico " (ou "ccntral ismo jurídico "). Como observa
Tamanalia, cstli visão é aceita hoje, sem a menor hesitação, por quase
todos os legisladores, juizes e advogados (1999, p. 101).
A sociologia jurídica intere ssa-se, com o já sa bemo s, pel a reali dade
ju rídica. A ssim sendo, não seria apropriad o es tend e r se u objeto de
estudo a outr as formas de regu lament ação do comportjamento s ocial que
vinculam as pessoas, apesar de não serem “oficiais"?
Uma tal ampliação do estudo sociológico irnplica no reconheci
mento de que o Estado não possui hoje o monopólio de criação das
normas jurídicas. Desta forma, quando examinamos a legitimação do
poder atra vés do dir ei to , não deveríam os nos lim itar apenas ao direi to
estatal, isto é, não deveríamos considerar o Estado como a única fonte
do direito em vigor.
A questão das forças criadoras do direito vem sendo tratada por
alguns estudiosos sob a ótica do “pluralismo jurídico”. Este tema pro
voca acirradas discussões no meio acadêmico (Olgiati, 1994; Roberts,
1999). O cerne da questão é saber se yigora um único ordenamento
jurídico na sociedade ou se fu n cio n am em paralelo m uitos sistemas de
direito, constatando-se a existência de um “direito múltiplo"
(Christopoulos, 2000, p. 175). No segundo casò, podem existir
ordenamentos jurídicos contraditórios (que levam a soluções difer entes
par a a m esm a sit uação), m as ta m b é m o rd e n a m en to s com plem entares,
aplicáveis a situações diferentes.
Podemos, assim, definir o plu ralism o ju ríd ico como teoria que
sustenta a coexistência de vários sistemas jurídicos no seio da mesma
sociedade.
Par a estudar a questão dev emos levar em cons ideração dois fa to re s:
O primeiro fator é a definição do dire ito adotad a por cada corrente
teórica. Quanto mais ampla for a definição, mais fácil será identificar
uma plurali dade de orden amento s jurídicos. Por exer ti plo , quem enten
de que “dir eito” é todo sistema de nor mas c onsidera das obrigat órias em
MANUAL DF. SOCIOLOGIA JURÍDICA

mu grupo social, está certamente adotando uma definição ampla do


ilm iflO que víl ' fi ni to além das nor mas prt evistas nos código s e na s
constituições.
Pm outro lado, qu em aceita a perspectiv a do positivis mo jurídico
dilcicncia as normas jurídicas dc outras normas sociais, considerando
i. om o juríd icas som en te .aquela s criadas pelas autoridad es estatais. Nesta
medida, os positivistas rejeitam a ju rid icid ade'' de normas de compor-
lamenln, criadas espontaneamente no âmbito dc um grupo social.
1'orlauto, a defini ção tio direito é de extrem a relevância na discussão
sobre o pluralismo jurídico.
O segundo fator refere-se à situação de cada sociedade e período
histórico, pois existiram em séculos passados experiências tanto de
pluralism o c o m o de cen tralism o j urídico. O ex a m e de cad a caso concre-
lo ind ica se exi ste um ord enam ento jurídico unit ário ou um a pluralida de
de sistemas jurídicos.
Exemplo: o pluralism o jurídico vigorou na Europa durante a Id ade
Média e Moderna (Hespanha, 1998, pp. 92-98). Em paralelo ao direito
criado pelos aparelhos centrais dos Impérios e dos Reinos (direito real),
vigoravam o sistema jur ídic o da Igr eja, uma multiplicidade de dir eit os
locais consuetudinários (fundamentados nos costumes e em antigas
tradiçõe s jurídicas) e os direit os das várias corporações (Univers idades ,
grupos de profissionais, “Irmandades”). O direito romano era reconhe
cido como fonte do direito; as opiniões dos grandes “doutores”
(jurisconsultos) e ram consider adas co mo legalmente válid as. Além disso,
os diferentes grupos étnicos (tais como os mouros, judeus e ciganos)
também mantinham o seu próprio direito, independentemente do lugar
em que moravam.
Uma carta de Agobardo, bispo da cidade francesa dt Lyon, escrita
no início do século IX, afirmava: “acontece muitas vezes que cinco
pessoas c am in h a m ou sen tam -se ju n ta s e n en h u m a delas tem u m a lei
comum com as demais” (citado por Wesel, 1997, p. 281).

A palavra '‘juricücidatlc" indica o caráter jurídico dc uni sislcma de normas


sociais, ou seja, indica que um determinado sistema de regras pode ser
flóíinido como "direito” (c. não como conjunto de regras mornis, religiosas,
políticas, de bo as mn neiras clc.). So br e a ju ri di ci dad e dos vítrios sistemas de
normas sociais cfr. Arnaud e Dulce, 2000, pp. 318 e ss.; M. Atienza,
Imisdii idade, in Arnaud, i999, pp. 433 e ss.
LEGITIMIDADE E DIREITO 119

I :
Esta situação foi denunciada pelos filósofo!? racionalistas e
iluministas que consideravam o direito medieval caótico e “monstruo
so”. A expansão do sistema capitalista trouxe consigo a consolidação e
a centralização do poder político, què conseguiu contíolar o território
dr um Estado e impor, como fonte exclusiva dc diréito, a sua própria
legislação. O direito do Estado, criado por um único legislador c apli
cado ipor jurista s profissionais a s erviço do Estado, se sobrepô s à
plu ralid ade de direitos c dc juris diç ões. Desta forma, o dir ei to dos
"sábios" sc impôs sobre os direi tos locai s, que eram criados e aplicados
por “r ústicos” (Hespanha, 1988).

5.2 Teorias do pluralismo jurídico


1|
Podemos dizer que, na nossa época, reaparecçti o fenômeno do
pluralismo dos ordenam entos jurídico s? No âm bito da sociologia ju r í
dica enco ntram os u ma forte corren te qué su stenta esta tese ( “juridicidade
policêntrica”). Os seus adeptos adotam um conceito sociológico do
direito, m uito mais vast o do que o conceito do positivism o jurídico, que
ident ific a o Direi to com o Estado. E sta opção teórica fo i exprimida pelo
sociólogo do direito francês Jean Carbonnier (1908-), em forma de um
teorema: “o direi to é ma ior do que as fo n tes fo rm ai s do direito” .*
Isto significa que, na perspectiva sociológica do pluralismo jurídi
co, 0 direit o n ão depen de da sa nção do Estado, ou seja, não se encont ra
exclusivamente nas fontes oficiais do direito oficial-estatal (constitui
ção, leis, decretos). O direito é considerado como manifestação de
eficácia de um sistema de regras e sanções, que podém ser observadas
na prática social e na consciência dos indivíduos: “Sendo embora o
direito estatal o modo de juridicidade dominante, ele coexiste na soci
edade com o utros modo s de juridi cidade, outro s direitos que com el e se
articulam” (Santos, 1986, p. 27).
Poderíam os, p or exemp lo, e stud ar no Brasil, além do direito ofi cia l,j
as normas de comp ortam ento e as sanções aplica das no âmbito de vário s
grupos ou organizações sociais: prisões, igrejas, cómunidades indíge
nas, “direito dos coronéis”, “direito do cangaço”, “direito das multina
cionais” etc.

,5) J.Falcão,
Carbonnier, As 45;
2001, p. hipóteses fund 1979,
Carbonnier, amentpp.ais177
da esoci
ss.,olog
213iae jurídica,
ss. in Souto e
120 M AN UA L DP. SOCIO LOG IA JURfD ICA
I
5.2. / Teorias tradicionais do pluralismo jurídico

A corrente do pluralismo jurídico parte da obra do jurista alemão


Oito von Gierke (1841-1921). Este autor analisou o direito das várias
At ('imi/ações sociais (“corp ora çõe s” - Gcnossrnschaftrn) nn Alema
nha, sustentando que cada organização possui vontade e consciência e
<i ia suas próprias regr as jurídica s.
Alguns juristas tio início do século XX estudaram os conflitos que
■•u rgiram entre o sis tem a jur ídic o imp ost o pel os eur opeus e as regras das
• om um dad es indígena s du rante o proc esso de colonização. O estudo
dc trs casos de “acu lturaç ão juríd ica” (Lição 4, 3.4. 2) permitiu desen 
volver teorias sobre o pluralismo jurídico. Precursor destes estudos é o
jiuis ta holandês C ornelis van Vollenhoven (1874-1933) que estudou o
direito “tiríat" dos povos da Indonésia colonizados pelos holandeses
11 nssi-m, l<)<)2).
Na m esma li nha c olocam -se outros estudiosos que fizera m uma
l< iltu9 sociológica do sistema jurídico. Entre eles pr dem os lembrar
I ugen Ehrl ich , que estudou as manifestações do “d irei to vivo ” nas
comunidades camponesas da região de Bukowina (Europa central),
i (as com unida des continu avam aplicand o o antigo direito costumeiro,
ign oi ind o 0 Có dig o Civil do Império Áustro -Hún garo que oficialmente
vigor ava nesta região. Ehrlich c onclu iu que o dir eito viv o, apesar de não
■ escCifiÕ, “dom ina a vid a” (1986, p. 378). Este surge em determinados
grupos soci ais (“associaçõ es sociais”), que exercem u m constrangimen 
to psi< ológico sobre o indivíduo, levando-o a respeitar o direito inde
pendentem ente da san ção es ta tal . A ssim sendo, a obrigatoriedade do

<liii Ho é uma decorrência do grau de aceitação social de suas regras.


fista conclusão foi exprimida na seguinte definição do direito: “As
nomms agem através da força social, a qual lhes é dada através do
icconhi ( imento por parte de um a assoc iação social (.. .). O direito é uma
oulem Interna de associações sociais (...). Nunca existiu uma época em
<|in n direito proCJnmndo pelo Es tad o tivesse sido o único direito ”
(1'h Hlch , 1986. pp I K. 47, 131).
Anrtlis.ec sen» Ihnntcs en co ntra m- se em Karl Lle wellyn, que junto
ii i nulfnpOlOyO Adüimson Hoebel publicou, em 1941, um estudo sobre
o ordenamento jjpíflico desruvolvido espontaneamente pelas tribos
< m-v mm na Améi i( a do N oite (I lew clly n e I loehel, I9Q9). Os autores
MinlI/níBm uma pes<|UÍ fl d< campo junto üs ôQmunidadcs indígenas,
LEGITIMIDADE E DIREITO ] 21 ’
i
; f
onde analisaram as regras de comportamento e de solução de conflitos'
(“atividades jurídicas”) das mesmas. Como critério de juridicidade foi |
consider ada à acei tação de determinadas n ormas e decis ões pela com u
nidade.6
Uma abordagem pluralista cncontra-sc, inmbéln, cm dois famoífos
juris ia s das prim eiras décadas do século XX na It ál ia . Santi Rom ano
(1875-1947) sustentou que qualquer “corpo social” (religião, partido,
empresa) constitui uma instituição e desenvolve seu próprio)ordena
mento jurídico. Este orden ame nto, por sua vez, func iona com o base a la
própri a in stit uiç ão .
Já Widar Cesarini Sforza (1886-1965) afirmou que as relações
jurídicas possue m vário s “estratos” . E m paralelo à vigê ncia do dfré it o I
estatal, encontram-se relações jurídicas regulamentadas por npfmas

consuetudinárias ou por
ílmbito dos '‘corpos acordos
sociais” entre
uma particulares.
vasta Surge, assim,
autoregulamentaçüo da no
vida
jurídica que é independente do direito do E sta do.7

5.2.2 Teorias modernas do pluralismo jurídico

Inúmeras têm sido, nas últimas décadas, as análises sobre o


pluralismo jurídico, sendo este abordado do pontõ de vis ta te órico e
empírico.8 Pod emo s destacar quatro concepções âtuais.
A prim eira encontra-se nas análises teóricas so bre a interlegalidade.
Os autores desta corrente identificam a existênc ia de vários sistemas de
normas jurídicas que interagem entre si, criando redes de relações
jurídicas continuam ente m utantes. O direito atual se ria, nesta perspec
tiva, “uma mistura desigual de ordens jurídicas com diferentes regras,
procedim entos, linguagens, escalas, áreas de co m petê nc ia e rriecanis-
mos adjudicatórios” (Faria, 1999, p. 163). Esta é a posição do pós-
modemismo jurídico, que considera o monopólio jurícjico do Estado
superado e acusa a sociologia jurídica de ter caído na armadilha de

,'1' Sobr e n visito plurnllsln dc Glcr ke, Ehrllcli e Uewe lly iH vejn Rchb indc r, 20U0,
pp. 49 e ss.; Treves, 1977, pp. 51-56 ; Wol km er, 1997, pp. 171-172, 177-179.
(7) Ver a apresentação da obra de Santi R om ano e Cesarini Sfo rza em Ferrari,
1999, p. 237; Wolkmer, 1997, pp. 172 e ss.
<fl) Sob re as corr ente s do plur ali smo ju ríd ico , cfr. J.-G. Belley, Pl ural ismo ju rí 
dico, in Arnaud, 1999, pp. 585 e ss. e extensivamente Wolkmer, 1997, pp. 137
e ss., 181 e ss.; Christopouios, 2000, pp. 175 e ss.
MAN1 IAI. DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

11 iíii o direito estatal com o o únic o siste ma juríd ico ex istente na


mk iadadc.;
Podemos tomar cómo exemplo os estudos do sociólogo do direito
p O O n u í s BQaventur a d e S o usa Santos so b re o pluralism o jurídico. Es te
imto r sustent a que existem seis ord enam entos j urídico s, que
i ni icspon dcm às seis fo rma s de p ode r atualme nte exerc ido:
n) direito doméstico: relaciona-se com o pa tr in rea d o , que é o poder
■xru ido pelos homens no espaço doméstico;
11) direilo da produção: relaciona-se com a exploração , que é o
pod ei exercido 110 espaço da produção, onde os trabalhadores são ex-
I>l( >1 :i(los pelos detentores dos meios de produção;
( ) direito da troca comercial: relaciona-se com a alienação, que é
11 form a de p oder que direciona o comp ortamen to das pessoas mani pu-
ladns pela propaganda c suhmctidns nos valores do consumismo no
(. paç o das trocas com erc iais ;
d) direito da comunidade ou dos grupos sociais: relaciona-se com
a diferenciação desigual , que é unia forma de poder exercida no âmbito
das v.íiias comunidades através da exclusão daqueles considerados
rstianhos”. O exercício deste poder se manifesta na discriminação dos
diferentes” (por exemplo, dos homossexuais, dos mendigos);
e) direito estatal: relaciona-se com a dominação, que corresponde
50 exercício do poder político do Estado;
í) direito das relações internacionais 011 sistê mico: relaciona-se com
a inx 0 desigual, dev ida ao poder exer cido pelos países mais fortes n as
irlações internacionais (Santos, 2000, pp. 284-303, 314-319).
A segunda abordagem interessa-se pelas sociedades multiculturais.
I >ianle do fen ôm eno da migr ação de po pul açõ es em todo o planeta, 0
direit o estat al pe rde su a unidad e. Deve respeitar a diferença de cren ças,
eoslumes e necessidades das comunidades que convivem sob um mes
mo terr itó rio . O direito não deseja mais “assimilar” as pessoas à cu ltura
dominante e abre espa ço para 0 rec onhe cimen to jurídico de um “direi to
dileiençn”.
Ao mesmo (empo, a reivindicação dos direitos de grupos discrimi
nad o! ' (mulheres, ho mo ssex uais, estran geiros, pessoas não pertencent es

ihn 11 píií modernismo jurídico, cfr. Santos, 2000, pp. 153-188, 206-224;
APnmid r Dulce, 2000, pp. 273-283, 381-420; Neves, 1995, pp. 10-11, 21;
Al vi li‘\iliiiri, Alvim, Hld ip er, 2002.
LEGITIMIDADE F. DIREITO 12 3

à raça branca ou portadoras de defldiência) modifica o princípio da


igualdade na t enta tiva de compe nsar as desv antag ens e prom dver o liv re
desenvolvimento de todos. Este é d caso das cotas reservadas, empre
gadas como medidas de ações afirmativas. Observa-se, assim, a fr a g 
mentação do direito estat al isegund o a srcem e as nec essid ades dos
vár ios grupos socia is. Nestes casos, teríamos u m plurálismo jurídico no
seio do direito estatal. Exemplos: direito das minorias étnicas, direitos
especiais da s mu lhere s e dos neg ros, direito das c ria nça s.10
A terceira concepção relaciona-se com as mudanças 110 direito
internacional, que reivindica, com uma força sempre crescente, um
espaço de normatividade em detrimento dos direitos nacionais. Assim
sendo, são fortalecidas as instituições supranacionais de caráter regio
nal (União Européia, Mercosul) e as organizações internacionais (Or
ganização das Nações Unidas, Organização Mundial do Comércio).
Multiplicam-se, também, ns normas internacionais relativas íl pro
teç ão dos di reit os humanos, fortalecendo-se o processo de implementação
dos mesmos. Finalmente, os mercados e os atores econômicos interna
cionais ganham mais poder na situação atual de globalização c dc
polí tic a (neoliberal) de desregulam entação da e c on om ia mundia l.
Est as evoluç ões fazem que o mo nopólio normativo do direi to esta
tal comece a ser contestado. Um novo direito, ainda fluido e incertoi
pretende prevalecer nos casos de conflito c om 0 direito estatal. Cons
tata-se, assim, uma concorrência ou mesmo uma “guerra” entre
ordenamentos j urídicos nacionai s, supranacion ais e interna cionai s
(Rigaux, 2000, p. 2 1). A coexist ência de no rma s estat ais e internacionais
cria uma nova forma de pluralismo jurídico (naciorlal/internacional).
Este plural ismo é ma rcado pela p o lic e n tric id a d e : trata-se da coexistêh-
cia de instâncias de criação e aplicação do direito relativamente inde
pendentes que despertam a atenção dos juristas-socirtlogòs nas últimas
décadas."
A quarta concepção do pluralismo jurídico interessa diretamente a
sociologia jurídica, na sua vertente empírica. Enc ontrá- se nas pesquisas
de campo sobre o “direito informal", o “direito do povo” e 0 funciona
mento de sistemas jurídicos relativamente au tônom os! no seio d e vári as

,l0) Cfr. a análise do direito francês em Rouland, 1998, pp. 591-698. Sobre as
ações afirmativas nos EUA cfr. Gomez, 2001.
Faria, 1999; Arnaud e Dulce, 2000, pp. 381 e ss.; Cliristopoulos e Dimoulis,
2001.
manuai . nr ? .sorio l.oriiA j u r í d i c a

íii!iiiln|ç(*)cs sociais (igrejas, sindicatos, associações profissionais e


desportivas, empresas).
O sociólogo francês , de srcem russa, George Gurvitch (1894
1965), insistiu particularmente na necessidade de a sociologia jurídica
4lCsviflfiyliir-.se
desia disciplina do6 estud
direitoarestatal.
todos osDe ncordojurídicos
sistemas com suasque idéias, a tarefa
funcionam na
mu lednde, sendo que somente uma análise global pode oferecer urna
\ r..io enuela sohie a realidade social do direilo. F m outras palavras, o
11111-.1;i sociologo deve interessar-sc por Iodos os comportamentos e
njgríis c| uc os grupos sociais cons ideram com o “direito” (“fa tos norma-
livos”); e não privilegiar o direito estatal, como fazem os juristas, que
idol am uma postura d ogm ática, esqu ecendo de que o d irei to do Est ado
eonstimi apenas um a p equ ena parte da “experiência jurídica” .12
Em relação ao Brasil, as pesquisas mais conhecidas sobre o
pluralismo jurídico são aquelas d e Boaventura de Sousa Santos. Est e

aulor estudou,
informal aplicando
nas favelas métodos
do Rio de observação
de Janeiro participante,
nos anos 70. o direito
O direito informal,
reconhecido pelos moradores das favelas, apresentava diferenças e se
melhanças com relação ao direito estatal (“direito do asfalto”). Funci
onava, assim, uma forma de “Justiça alternativa”, sendo que muitos
conflitos de habitação e de propriedade eram resolvidos dentro da
I iv iIa, em preg and o-se reg ras diferentes das estatais.1 3

5 ,' Crít ic a do pluralis m o jurídico

A te se. do plur alism o jurídico encon tra um a objeção de tipo lóg ico :
<hi devemos admitir que o direito informal é reconhecido pelo Estado,
ou devemos dizer que este reconhecimento não existe (Carbonnier,
ll) ifl, pp. 220-222; Papa christou , 198 4, pp. 103-1 04). No primeiro cas o,
trulá se simplesdiente de uma delegação do Poder Legislativo a instân-

11,1 Gurvitch, 1968, pp. 260-273. Cfr. Carbonnier, 1979, pp. 129-132; Treves,
IW6, pp. 159-168; Wolkmer, 1997, pp. 179-181; Christopoulos, 2000, pp.
180 188; Goyard-Fabre, 2002, pp. 162-166.
Snulos, 1980 e 1986, p. 27; cfr. do mesmo autor: Notas sobre a história
j111 f<11ct>soeinl dc Pas.írgada, in Souto c Falcfio, 2001, pp. 87 e ss. Sobre o
plf in lism o jutfdico na s favelas, on de coexi st em trOs autori dades (associaçBo
dos moradores; traficantes de droga; polícia), confrontar os interessantes

liabnllios dr Junmicir» e. Rodrigues, 1988 e 1992.


i.F.OITIMIDADF, F DIREITO i 12 5

cias e instituições sociais. Por exemplo, o Estado reconhece, através da


constituição e das leis, a possibilidade das empresas de elaborarem
regulamentos internos que vinculam os trabalhadores. A violação de
tais normas leva a sanções disciplinares impostas por órgãos das empre
sas.
se deAqui
uma não temos udo pod
delegação m ord ena
er dome nto jurí
Estado, quedico
está diferente
subm do ea stata
etid l: tratolea-
ao contr
de legalidade. O mesmo vale para o direito das comunidades indígenas
da America I,atina: muilas vezes o F.stado reconhece a sua existência o
perm ite a sua a p li c a ç ã o e n q u a n to "d ire ito p or d e l e g a ç ã o " .
No segundo caso, o di rei to informal consiste em um conjunto de
regras que, do ponto de vista do Estado, constitui um “não direito”.
N inguém é obrigado, por exemplo, a respeitar os preceitos morais de
um a Igr eja e, caso for con strang ido pelos correligion ários, p ode recorrer
à proteção do Estado. Há também casos nos quais á atuação de uma
organização contraria claramente a legislação em vigor. Exemplos: os

prin cípio sque


de segredo de devem
“honra” de um
respeitar grupo mafioso;
os membros de grupos as
de regras de hierarquia è
extermínio,
como ocorreu com os Esquadrões da Morte no Brasil; as obrigações que
impõem os “donos” de uma favela aos demais moraÜores.
Como observòu Rehbinder (2000, p. 52), se consideramos as regras
da máfia como direito no sentido informal, então deveríamos também
sustentar que um tribunal do Estado que decide punir um “chefão” da
máfia viola o direito mafioso e comete uma ilegalidade!
Estas críticas são feitas, como já dilssemos, do ponto de vista do
direito estatal e pressupõem que o Estado possa exercer o monopólio de
violência física, que compreende o monopólio de legislação. A socio
logia interessa-se pelo estudo da realidade social. Neste sentido, a
existência de um sistema de regras vinculantes que funciona na prática
constitui objeto de análise desta ciência. Se uma máfia consegue con
trolar um território e impor-se como “força da ordem”, influenciando o
comportamento dos indivíduos, ou se os moradores de uma favela
solucionam os conflitos recorrendo a um órgão informal da própria
favela, então o sociólogo deve analisar tais fenômenos que constituem
um direito “vivo”, ou seja, um a realidade normativa que concorre com
o direito oficial.
As análises sobre o direito alternativo (ver Lição 4, 3.4.1) funda
mentam-se na hipótese do pluralismo jurídico, ou seja, partem do prin
cípio que é possível construir e colocar em funcionamento um sistema
I i,, MA NU AL DE SOCIOLOGIA JURÍD ICA

j j r í d H p independe nte do sistem a jurídico do Estado. Neste sentido, a


aceitação das teses do direito alternativo depende da posição teórica
sobre o lema da existência de um direito não estatal.
lim nossa opinião, o sociólogo do direito deve dedicar uma parti
cular atenção aos
tais sislemas fenômenos
indica, cm geral,normativos
uma crisenão
de oficiais. A existência
legitimidade de
do direito
esta lai, ou seja , um a s itua ção na qua l o Estado não conseg ue exercer, n a
piá li ca. o pretendido m onop ólio de violência le ga l, nem pode alcançar
legitimaçã o e consen so social atravé s de sua ação. Trata-se de substitui r
0 direito do Estado por outros sistemas dc normas sociais capazes de
suprir as deficiências do direito oficial.
N inguém coloca em dúvida a existência de um a multiplicidade de
reg ras de com portamento, que são respeit adas por determinados gru pos
e com unid ades e por outros não. Em outras palavras , é fá cil i dentif icar
atualmente o p lu ralis m o no rm ati vo. Basta pensar que algumas Igrejas
proíbem o cque,
lícitas, sendo onsumem ooutros
de becasos,
bidaso alcoólicas
consumo de que o dir
drogas eito espela
proibidas ta tal considera
legislação penal faz parte tle alguns rituais religiosos. Consideramos,
pordm, e xtre m am ente arriscado reconhecer o caráter de “d ireito” a tais
sistemas normativos, por duas razões principais:
Primeiro, porque tais sistemas são extremamente fluidos e mudam
de modo informal. As regras podem ser alteradas facilmente e muitas
vezes os membros do grupo não sabem exatamente quais são as regras
váli das. Assim , irã o d possível distinguir entre direito, preceitos morais,
regras de convivência e a pretensão d e poder de determinados m embros
do grupo. Isto nos leva a colocar uma questão: é correto afirmar que
qualquer norma social é “direito”?
A resposta afirmativa ignora as especificidades do dire ito moderno
estatal: segurança jurídica, certeza, centralização, estabilidade, execu
ção assegurada pelo emprego de violência legal e legítima, aplicação
por juristas profissionais e, sobretudo, utilização da forma escrita que
fixa as regras. Estas características não se encontram nos direitos infor
mais. Se nós empregarmos o termo “direito” dc forma indiscriminada
pata qualquer sistema de norm as soc ia is , c orrem os o ris co de banali zá-
lo (Sueur, ?0 01, p. 39). S e todas as norm as soc iais são “direito” , então
leinio perde sua utilidade e mesmo seu significado! Por tais motivos,
1oie.idcnmios que os sistemas dc regras não oficiais, mesmo tendo um
p a u ili 'biigntoiie dade, não p dssuem o atri buto da juridicidade (cfr.
PnluH l')'J 9 )
LEGITIMIDADE E DIREITO 127 I

I
A segunda razão contra o reconhecime nto do pluralismo j urídic o
é que a existência de sistemas normativos paralelbs, não exclui a
atuação do Estado neste campo. Se existe vontade política, o Estado j
p ode re cu p erar o esp aç o , que devid o à sua ausência, foi tomado, por
c::emplo, pelos “ch efe s” da m áfi a.14 Além disso, os indivíduos que ;
obedecem ao direito informal sabem que existe também um direito
oficiaí que possui validade, e que p o de ser invocado a q u alq uer
momento. F m outras palavras. Iodos sabem que o verdadeiro direito
c o estatal.
Assim, consideramos mais adequado utilizar o termo “direito"
somente para indicar o direito criado pelo Estado. Outros sistemas de í
regras deveriam ser estudado s utilizando-se um a termino logia mais I
adeq uada à fraqueza normativa e à fluidez de con teúd o das norma s não- j
estatai s. Ao invés de adotar os termo s “direito altern ativo ”, “info rmal” , "
“espontâneo” ou “sistema jurídico no sentido amplo”; nos parece mais j
adequado seguir a proposta de C arbon nier e emp regar os te rm os '
“ infradireito ” ou “fen ôm en os infrajurí dicos", específicos da vivência
de determina dos grup os c situações soci ais. 1'
Trata-se, n a verdade, de sis temas de co ntrol e social n ão oficia is, que
concorrem com o dire ito (es tatal ), m as que não têm o pode r de subs tit uí-
lo; os fenômenos infrajurí dicos constituem sistemas de regras de com- :
portam ento, cuja v igência é lim itada e fluida, faltando sanções obriga
tórias e reconhecimento oficial.
Em relação ao papel do pluralismo jurídico nos países da América
Lati na, Marcelo Neves apresenta um a interessante anális e. Exam inando
as relações entre o poder, o direito e a legitimidade nós países subde
senvol vidos o u em des envolvimen to (“ mo dernid ade periférica”), o a utor
sustenta que em países com o o Brasil nu nca s e alcan çou um a distinção 1
funcional entre direito, política e economia. O direito estatal não funci-

,l4) Sob re as relaçõe s de conflito e de cum pli cid ade ent re o Esta do c a máfia na |
Itália, cfr. Rinaldi, 1998.
11,1 Carbonnier, 1979, pp. 225 c ss.; cfr. A.-J. Arnaud, Infradireito, in Arnaud,
1999, pp. 408-409.
Uma outra proposta foi formulada por Arnaud. P.ste autor distingue entre
o ''sistema do direito ", composto exclusivamente pelas normas do direito
estatal, e o “sistem a Jurídico ", que ab rang e todas as categor ias dc nor mas que
regulam as relações sociais na vida cotidiana (1991, pp. 237 e ss.: Ariiaud e
Dulce, 2000, pp. 324-325).
I 'H MANUAI. DF. SOCIOLOGIA JURÍDICA

ou» ( nqgUnlú sistema "fcchado”, segundo o código “legal/ilegal”, mas,


liem ao cofilrririo, padece das contínuas intromissões da política e da
et onomil cm seu funcionamento, As decisões jurídicas não respeitam
u\ i riliírios jurídicos sendo, em grande parte, devidas a interferências
<•xtr (jurídic as. A ssim não se criou um a esfera pr opr iam ent e jurídic a.
Impediu se "a construção da própria legalidade estatal”. O resultado é
,i fal ta d< iplicação do di reito estatal. Em term os de soc iolo gia jurídica,
ii \i\iem;i jurídico brasileiro se caracteriza por mna forte ineficácia
lN eves, I pp. 1 8, 2.1).
Hasla lembrar o exemplo do salário mínimo. Nas contínuas dis-
i u soes sobre a nec ess ida de e a po rcen tag em de um possível aumento,
ns políti cos e a mídia dis cutem sobre a viabilidade econôm ica de uma
ml medida. Geralmente, recusa-se um aumento drástico com o argu-
11u mn de que isso levaria ao endi vid am ento do ,Estado , à recessão
rionfim ica, ã inflação etc . Nesta s discus sões todos parecem ter e sque -
jild a prescrição q u e a C o nstituição Federal im põe ao le gis la dor: a
(.bTigflcriO ju ríd ic a de instituir um salário mínimo capaz de atender às
mi i essi dad es dc m or adi a, al ime nta ção , ed uc açã o, saúd e, lazer, vest u-
Irio, higiene, transporte e previdência social (art. 7.°, inc. IV). Tal
, h iir n ç ã o não está su je ita a co n sid era çõ es de p o ssib ilid a d e econô-
mii ii <>n p o lít ic a .
Se adotarm os a tese da incapacidade de alguns países de con stru ir
uma e ;l era de legalid ade estatal , as análises sobre o “direito não oficial”
e as propostas de substituir o direito estatal por um outro (direito
(In rnativo - co nf or m e a aspirações de just iça social), não devem ser
i mi .ideradas como alternativa ao direito estatal já existente, mas so
mente eotno expressã o de “meca nismo s inst ávei s e difusos de reaç ão à
ausência de legalidade” (Neves, 1995, p. 20).
I m pou cas palav ras, antes de se pensa r em reconhec er e promover
um direito alternati vo deveríam os m elho r refl etir sobre a quest ão de se
o dir< ito estatal consegue operar como meio de organização e de con-
itule do poder social c se goza de consenso popular, ou se é somente
nm di rei to “ no papel” que, p or razões históricas, p erm anec e ineficaz
na prática.
Assim a discussão não abrange somente a existência e a legitimi-
dnde do plu ralismo jur ídi co , mas tod a a idéia da juridic idade , qu e
deveria ser objeto de análise concreta em cada sociedade.
LEGITIMIDADE E DIREITO 129

Para ir mais longe

Legitimidade e direito:
Chevallier, 1990; Faria, 1984, pp. 45 e ss., 56 e ss.; Ferrari, 1999,

pp.
1999235
, pp.e ss.;
I 11 Le uh
ss.,m265
an ne, ss
1983, pp. 1Q9
.; Server in, 20e 00
ss. , epp.1985,
64 e pp.
ss.; 61 e ss.; !9
Weber, Ra9is9 er
,| ,
pp. 142 e ss., 18 7 e ss., 517 e ss.
Pluralismo jurídico:
Arnaud c Dulce, 2000, pp. 86 e ss., 381 e ss.; Azevedo, 200t), pp.
35 e ss.; Carbonnier, 1979, pp. 213 e ss.; Christopoulos, 2000, pp. 175
e ss., 229 e ss.; Cotterrell, 1996, pp. 24 e ss.; Galanter, 1993, pp. 77 e
ss.; Hespanha, 1993, pp. 18 e ss.; Krawietz, 1988, pp. 269 e ss.; NeVes,
1994, pp. 113 e ss. ; Ólgiati, 1994; Rehb inde r, 20 00 , pp. 49 e ss. ; Rigaux,
2000, pp. 3 e ss.; Roberts, 1999; Santos, 1980; Santbs, 2000, pp. 290
e ss.; -Sucur, 2001, pp. 35 e ss.; Wolkmer, 1993 e 19 !e>7.
Lição 6

PODER, ESTADO
E CONTROLE SOCIAL

SUMARIO: 1. Controle social: l.l Conceito; 1.2 Formas tle controle


social: 1.2.1 .Snn^õc s formai s c inf orma is; 1.2.2 Con tro lo positivo e
nrjiativo; 1.2.3 Controle, interno e exte rno - 1.3 Final idade s do controle
social: 1.3.1 Perspectiva liberal-funcionalista; 1.3.2 Perspectiva da
leoria cinillilivn 2. Poder c burocra cia: 2.1 Poder; 2.2 Burocracia:
2.2.1 DcfiniçSo; 2.2.2 Hurocra cia c controle social.

I. CON TRO LE SOC IAL

l.l Conceito

0 conirnl e so cial constitui um tema central da sociologia. O termo


aparece em estudos sociológicos a finais do século XIX. Estes estudos
CíXitnriiwam os meios que aplica a sociedade para pressionar o indiví
duo a adotar um comportamento conforme os valores sociais e, dessa
lotiitíi, garantir uma convivência pacífica. A sociologia do século XX
d( (l icou- sc ao exa me do s elem ento s e das finalidade s do contro le soc ial .

Definir
influencia o controle social
o comportamento dosémembros
uma tarefa difícil. Tudo
da sociedade, podeaquilo que
ser en
te ndiclo com o cont role social. Alg uém que r fazer “A” e um a o utra pessoa
ou instituição lhe incentiva ou lhe obriga a fazer “B”. Isto significa que
qualquer pesso a pode exe rcer um controle soc ial sobre os de mais, mesmo
através da simples expressão de idéias (Soriano, 1997, p. 317).
Exemplo: quando a professora dá uma aula, ela influencia os seus
alunos; quando os pais explicam o que é certo ou errado estão também
exercendo uma forma de controle social. Pensemos também nas perso-
rtnp.cns das novelas ou nos conhecidos apresentadores de televisão.
PODER, ESTADO E CONTROLE SOCIAL 1 3 1

Todos exercem uni control e social sobre o s telespectadores, p ropag ando


determinados valores morais, visões da sociedade, modos de compor
ta me nt o etc. . I
No v o cab u lário técn ico da s o c io lo g ia ju ríd i c a 0 controle social
6 definido como “qualquer influência volitiva dottiinante, exercida
por via individual ou grudai so b re o c o m p o rta m e n to de u nidades
indi viduai s ou grupais, no sentido dé m anter-se uniform idade quanto
a padrões sociais” (Souto e Souto, 1997, p. 177). Segundo uma
definição mais simples, “controle social é qualquer meio de levar as
pessoas a se co m p o rta re m de fo rm a so c ialm en te a p ro v ad a” (V ila
Nova, 19 99, p. 94).'
O termo “contro le soci al” possui na soc iologia um significado
muito amplo, eis que indica todo o processo de so cialização que orienta
o indivíduo, integrando-o aos valores e aos padrões de comportiunento

social.osPor
com esta razão,
conceitos o controle
de “poder” e desocial está intimamente
“dominação política”, relacionado
que criam
determinada ordem social e integram os indivíduos nela.
A sociologia jurídica concentra o seu interesse no controle social
efetuado através do direito e trabalha com uma série de distinções
(Soriano, 1997, p. 317), das quais indicamos quatro.
Em primeiro lugar, há dois modos de exercício do controle social:
como instrumento de orientação e corno meio de fisca liza çã o do com
portam ento social da pessoa. E xem plos: o p erso n ag em da novel a que
detalha as conseqüências desastrosas da droga e da violência objetiva
orientar o público; os policiais que efetuam rondas noturnas no centro
da cidade fiscalizam as pessoas com relação ao porte de substâncias
tóxicas ou de armas ilegais. Na maioria dos casos 0 controle social é,
ao mesmo tempo, fiscalizador e orientador.
Em segundo lugar, o controle social diferencia-Se com relação aos
destinatários. O controle social pode ser difuso (fiscalização do com
portam ento de todos) ou localizado (controle intenso dos grupos mar
ginali zados ou rebel des que apresentam um compo rtame nto anôm ico).2

,l( Cfr. Rchbinder, 2000, p. 43. Clark e Gibbs (1982, p, 157) conceituam o
controle social como “rcaçilo social a um comportamento que é definido
socialmente como desviante, seja porque exprime uma adaptaç3o excessivh
às normas, seja porque as viola”,
121 Os ind ivíduos e os grupos que atu am al ém das ref erências normativas d e uma
determinada sociedade (“marginais”) são intensamente fiscalizados pelns
| | 1 MANWAt. 1)!•; SO CIO líX ilA Jlllílm CA

I
I im terceiro lugar , o co ntro le social dife ren cia -se com relação aos s
ijh nles (jixcaUz.adores). O controle pode derivar dos órgãos estatais o u
11 1 v<?< n dude em gera l (press ão exercida pela opinião pública, pela famí
lia, pelo ambiente de trabalho). Nas socieda des m odernas, o controle so
i i ,il (< exercid o p rinc ipa lm en te pelos apa relho s do po der estatal q ue
nljjulivam inlhieneiai o comportamento das pessoas orientando-as aos
I mIio i / s preestabelecidos através dé normas jurídicas (controle institu-
ion;ili/ad(0.
IIma lilti ma dis tinç ão refere-se ao âm bit o de atuação. ( ) co ntr ole so 
i i.il p0<!<■ operar diretamente sobre os indivíduos ou indiretamente sobre
■ insti tuiçõe s socia is. O professo r exerce um controle soci al direto sob re
o* alunos, sendo que os órgãos do Min istério de Edu caçã o pode m influi r
mdm-tame nte sobre estes, alterando a estrutura ou o progra ma de ensino
das escolas. '
I
1,2 Formas de eontrole social

() controle social exerce se e m todas as situaç ões sociais, de formas


vai i idas e impre visíve is. () olh ar rcpr ov ant e tio gar ço m a um cli ente mal
vcsljdo, a risada irônica e o comentário do professor ao corrigir a prova
dO aluno que confundiu a conduta de “ inova ção” com a condu ta de “reb e-
Li.3q (teori a de M erto n sob re a ano mia) s ão express ões de contro le soci
al O m esmo aco ntece co m a “bron ca” levada pelo f il ho que vol ta é brio a o
ama nhe cer para a casa d os pais , com a perseguição do assaltante por poli 
>i ais armados e com a espio nag em informática que pro cura descobrir t er-
roí i .tas que p repa ram u m ataqu e contra um a em baixa da. O o bjetivo co -
mnm <5ada ptar a con dut a do indivíduo aos padrões de com portam ento
dominantes.
Hnumeramos aqui algumas formas típicas de controle social.

1,2.1 Sançõex form ais e i nforma is

Segundo o grau de organização , os meio s de controle social podem


sei l(>rmaix ou informais. Nas sociedades desenvolvidas e complexas

inutilidades dn Tistado (Ferrari, 1999, p. 173). Os comportamentos anômicos


■;ílii i onsid eradns soci alment e “ pato lóg icos ” e constit uem o o bjeto privilegia
do dc regulamentação e de aplicação de sanções, na tentativa de “normalizar”
n 'sociedade.
PODPR, PSTADO P CONTROI.P SOCIAL 13 3

denota-se a existência de meios de controle tanto formais como infor


mais. O controle formal é realizado, principalmente, pelas autoridades
do Esta do. Este pressupõe u m p rocesso de instit ucionaliz ação, como é
o caso do controle dos comportamentos desviantes, efetuado pelo sis-
irmn jurídico. I
O controle informal é, ao contrário, difuso, mutável c espontâneo
e realiz a-se atravé s da dinâmica que se desenvo lve no âm bito de peq ue
nos grupos sociais. Os meios dc controle informal são pi(5pr,ios de
sociedades pequenas e hom ogê neas (aldei as, tribo s), onde não há neces
sidade d e criar instituições específicas para o contro le dc seus membros.
Porém, o controle informal também se manifesta nas sociedades moder
nas. Neste contexto, este é exercido através da família, amigos, colegas
de trabalho, entre fiéis da mesma religião etc., que reprovam determi
nados comportamentos e fazem recomendações.

7.2.2 Controle positivo e negativo

Dependendo do tipo dc nlilação, os meios de controle podem ser


negativos ou positivos. O controle negativo consiste na reprovação de
ueterminados comportamentos através da aplicação de sanções. A in
tensidade das sanções negativas é variada. Esta pode ser leve ou grave,
de caráter intimidador ou de coação. Exemplos: advertência dada ao
aluno pelo diretor da escola; condenação a 20 anos de reclusão por
pr át ic a de hom icídio. As sanções negativas tê m o efeit o de coação pa ra
o infrator e de intimidação para os demais.
O controle positi vo consiste em premiar e incentivar o “bom com por 
tamento” ou em per suad ir o s indivíduo s, através de orientações e con se
lhos (sanções positivas ). Lev ando em con sider ação o crité rio da intensi
dade, ess e control e pod e ser gratificador, orient ado r ou persuasivo. Ex em 
plos: um prêm io ao m elhor aluno da classe, que in centiva o m esm o e s er
ve como exem plo aos demais (recomp ensa); os com unicados ao púb lico
divulga dos pelo governo através dos meios de com unic ação em caso de
epidemia (orientação); as advertências sobre os perigos do consumo de
tabaco que se enco ntram nos maço s de cigarro (persuasão). i

1.2.3 Controle interno e externo

Desde pequen os ap rendem os as regr as socia is (“po de” , “não pode”,


“deve”) através do relacionamento com outras pessoas, que as ensinam
<i MA NU AI. f iH SO CIOl.OfilA .11JRfniCA

e, íHi caso do descumprimento, aplicam sanções leves (exemplo: a mãe


admoesta os Rlhos ou ameaça com um castigo). Através desta aprendi
zagem, a pessoa “interioriza” as regras e os mecanismos de controle
social, sabendo como deve atuar em cada situação. Isto é o que se
denomina dc controle interno ou autodisciplina.

A rnaiot parte do controle social é efetuada de forma interna. O


indivíduo é ao mesmo tempo objeto do controle e seu fiscalizador.
( 'ienie da norma o da ev entu alid ade d c sanç ão, ele opta, cm geral, p or
rnuluimai se aos requisitos sociais. Conhecendo, por exemplo, as rc-
yras de lifmsito, o indivíduo não estaciona no meio da rua por medo da
k açiu dos ou tros motoristas a da polícia. As raízes da “autodisciplina”
não se encontram na livre vontade do indivíduo, mas sim no condici
onamento realizado através de mecanismos de controle social (“socia
lização”, isto é, aprendizado de regras e submissão a limites).
() controle social externo se efetua sobre os ind ivíduos através da atu
ai, ao dos outros e objetiva restaurar a ordem . Isto aconte ce, sobretudo,
quando lallia o controle interno e o indivíduo transgride as normas. O
■ ontrole externo é , na ma ior part e dos casos, repressivo: manifesta-se atra
vés da aplicação de sanç ões (exemplo: multa por exces so de velo cidade) .
Porém, este controle pode ser também preventivo, tendo a finalidade de
confirmar o valor das norma s sociais e de descobrir eventuais viol ações
(exemplo: controle dos torcedores na entrada de um estádio).

I ' Fin alidad es « Io con trole so cial

I )epcnde ndo da pos ição teórica adot ada (funcionalista ou con flit iva)
p odem se r fe it as afirm ações diferentes sobre a fin alid ade. Concentrare
mos nossa anãlise sobre o controle institucionalizado, que é realizado
pel as autoridades do Esta do.

m
r
/ ?. I P erspectiva U beral- fu ncio nali sta

n
Nes ta perspectiva, o controle socia l obje ti va im por regras e pad rõe s
de comportamento para preservar a coesão social perante comporta
mentos desviantes. O controle social diminui os conflitos e garante o

n
convívio pacífico, exprimindo o interesse de todos por usufruir uma
vidjj social oídenada. Nç.gtc caso, o controle é considerado legítimo c

n
iiecesSííiiu |i;trà 3 VSilS cirt M)2ÍC'Jãtlfc \ “évHIZftÇãtf), <k#fc qtl?
sejam respeitadas determinadas regras. Uma política liberal é ílertid-

n
rnniíR, e st a d o f o o n t r o u i .soriAi, 135

crítica de controle social limita o seu exercício em base a quatro prin


cípios (Soriano, 1997, p. 318):
a) conseguir uin bem-estar maior do, que existiria sem o uso do
controle social;

b) lim itação da intervehção ao estritam ente necessário (proporcio


nalidade entre meio e objetivo);
c) criação democrática dos instrumentos de controle;
dl responsabilidade dos agentes de controle (controle dos
controladores).

1.3.2 Persp ectiva da teoria con jliti va

Segu ndo a teoria do conflito social, o s inst rume ntos e os agèntes do


controle induzem as pessoas a se comportarem de forma funcional ao
sistema. “O que se controla”? “Quem é controlado”? “Para que se
controla”? Estas são as perguntas formuladas pela teoria do conflito
soc ial , que afirma que os detentores do p ode r direciona m o processo de
legislação e de aplicação do direito.
O sistema atu al é fund amen tado na concen tração do poder eco nô
mico e político. Objeto do controle é o comportamento que agride a
ordem estabelecida, sendo que, na maior parte dos casos, o controlei
exercido sobre as camadas mais carentes da população.
Com relação à sua finalidade, o controle social visa favorecer os
interesses da minoria que detém o poder e a riqueza (capital, prestígio,
educaç ão, bens de consumo). O controle social denota um a preocupação

em
recurcondicionar as apresenta
sos socia is, pessoas parandoaceitarem
a ordem a distribuição
social como desigual
“ju st a”dos
e intim idan
do quem a coloca em dúvida.
As regras sociais não exprimem uma “vontade geral” ou interesses
comuns de todos os cidadãos. Em outras palavras, os adeptos da teoria
conflitiva não aceitam a idéia de que é possível realizar um controle
social democrático e em favor da sociedade como um todo, tal como
sustentam os liberais.
Resumindo, as teorias do conflito partem da existCncia de grupos
sociais desiguais com interesses divergentes e consideram o controle
social institucionalizado como meio de garantia das relações de poder.
Tais relações são sçmpre assimétricas. Jgfn outras pstlavras, constata-se
u íB ütafcquilfliriü permanente entre os grupo* sociais, inexistindo o
oual tratamento e a reciprocidade nas relações sociais.
MANIJAI. DH SOCIOLOGIA JURÍDICA

2. PODER E BUROCRACIA

Junto ao direito situam-se outros dois meios de controle social: o


poder o a burocracia. D ireito, b urocracia e p od er relacio nam -se entre si
e eslão envolvidos na comum tarefa de controlar a sociedade. O poder
i‘ o su jeito agente do controle. A burocracia e o sistem a juríd ic o são os
prin cipais meios utilizados pel o poder para exercer o c< n trole na s so 
i ieilades modernas.

2.1 Poder

() poder está intimamente relacionado com o controle social. Exer


cer este controle significa deter um po der sob re as demais pessoas. Pode
iialar-sc de um poder muito “fraco” e limitado em um determinado
espaço ou situação. Exemplos: poder do árbitro sobre os jogadores de
lulebol; poder do zelador sobre os funcionários de um prédio. Aqui
interessa principalmente a forma mais concentrada do poder nas socie
dades modernas, desenvolvidas em paralelo à consolidação do sistema
■iplthlista. Estamos falando do poder do Estado, que é o principal
nge.nffe de controle social.
<>poder consiste na po ssibilida de de uma pesso a ou instit uição in-
fluqnc ittr o com portam ento de outras pess oas. S egund o a definição cl ás-
sii i de Wober, “poder significa toda probabilidade de impor a própria
voni iule numa relação social, m esm o contra res istências ” (Web er, 1991,
p n e 1999, p. 175).
Nes la definição interessam dois elem entos.
a) 0 poder cri a uma rel ação de desigualdade entre aquele que impõe
sua vontade (superior) c aquele que se submete à mesma (inferior).
( 'omo já havíamos afirmado, as relações de poder são assimétri cas: as
vantagens que obtém o superior são maiores daquelas obtidas pelo
inferior. Por esta razão o poder foi definido como “qualquer relação
mu i:il regulada por urna troca desigual” (Santos, 2000, p. 266).

Quanto mais forte é o poder, mais contundentes serão os meios de


• oeiçao que estão à sua disposição; quan to mais forte é o consenso do
i|iiiil esiu goza, mais provável será o cumprimento de suas ordens.
Exemplo: a orde m dada por um polici al ar mado para que uma pessoa
■,e ici irc de um estabelecimento , tem m aior probab ilidade de ser cum pri
da do que sc esla fossr dada por um garçom. O garçom detém um poder
PODER, ESTADO F. CONTROLF. SOCIAL ] 37

dentro de um restaurante, que, porém , é men os intenso em relação ao po 


der de um policial , fardado e armad o, qu e represen ta diretamente o poder
do Estado com a sua força (autoridade, po ssibilidad e de apljc ar sanções
penais , conhecim en to de técnicas de im posição de sua vonta de).
Outro exemplo: o primeiro governo Fernando Henrique Cardoso
cri ou um a mo eda fort e e com bateu a inflaçã o. Isto estabili zou a eco no 
mia e aumentou, em um primeiro mo men to, o pod er aquisi tivo de vár ias
rumadas da população. Como conseqüência, o governo lornou-se “po
pula r" , gozando da aceitação da população e conseguindo a imposição
de suas decisões com poucas resistêncids.
b) A relação de p o der indica q u e existe u m a chance de obediência,
já que o inferior pod e o p o r resistência e, se esta for efic az, o superior
não alcançará suas finalidades. Por isto, o exercício do podpr não pode
ser mais do que uma probabilidade de imposição de mandamentos. As
opiniões e os interesses dentro de um a soc ieda de são sem pre conflit ivos
e criam a tendência à desobediência, mesmo que se trate de um podpr
extremamente forte, eficiente e legítimo. Assim sendo, quem exerce o
poder muitas vezes necessita fazer concessõ es e m udar seus planos
diante da resistência de indivíduos ou grupos.
Exemplo: após uma greve de funcionários públicos, o governo
muitas vezes decide aceitar algumas das reivindicações salariais. Pre
fere, assim, adotar a estratégia da co nce ssão (ainda que parci al), já que
o confronto direto pode prejudicar a imagem do governo ante os gre
vistas e a população.
A história indica que nunca exisliu um poder verdadeiramente
absoluto, que tenha conseguido, de modo efetivo e pleno, impor a sua
vontade e fazer cumprir as suas ordens. M esm o o po der do Estad o, que
é o mais eficiente e legitimado nas sociedades modernas, não pode
impedir casos de insubmissão. Exemplo: ocorrem milhões de infrações
de trânsito (ou penais) a cada ano, que são, nésta perspectiva, casos de
não cumprimento das ordens do poder estatal.
O poder apresenta duas características: ele é plurifacet ário e
pluridim ensional.
O pod er é p lu rifa ce tá rio porque apresenta diversas formas de
manifestação: força, coação, influência, autoridade, manipulação. A
fo rça é o poder que se impõe e vence a resistência utilizando-se, se
necessário, de violência física. Coação é o exercício do poder através
da ameaça de violênc ia. In fl uência é o poder “pacífico”, que se vale da
persuasão. A autoridade pode ser definida com o o pod er ac eit o, porque
MAN UAI DE ,SOCIOLOGIA JURlDICA

<’ vi ;to co m o ra iy áv el ou po rque r esul ta da im pos ição de um a regra p ré-


111■tituídn. () poder se manifesta também através da manipulação quan
do nhli/n o engano para obter os seus objetivos.
I in: ilme nlü , existe m formas de ma nifesta ção do poder de car
omisso. Neste caso, o poder se manifesta através do silêncio e da
mdilnença. Exemplo: quando o Estado não toma as providências ne-
■essárias para efetuar os direitos sociais estabelecidos na Constituição
mi quando não concedo um aumento de salário aos funcionários cm
p e v o . Assim sendo, o "silencio" exprim e o poder político e econômico
que se revela mais forte que a reivindicação popular.
0 poder é ainda phirid im ensio nal, ou seja, tem vários campos
atuaçã o. Ger almente, identif ica-se o pod er com a capacidad e de tomar
decisões sobre questões públicas e de comandar a força pública. Este
é o poder político. Existe também um poder econômico, atualmente
exercido por aqueles que possu em m eiqs de produção e conhecimentos
tecnológicos. Isto lhes possibilita comprar a força de trabalho dos
demais e influenciar as decisões sobre a polí tica econô mic a de um paí s.
Uma outra forma de poder fundamenta-se em qualidades pessoais.
Trata-se do poder carism ático, que se expressa através do exercício da
liderança de um indivíduo sobre os demais (chefes de religiões, de
sindicatos, de partidos políticos e de comunidades locais; “grandes
intelectuais”; “estrelas” do espe táculo). Há tam bém um p oder exe rcid o
cm âmbitos estritamente privados, como na família, por parte dos
homens em relação às crianças e às mulheres. Este poder é denominado
de “dominação m asculina” o u “ patr ia rcado ” e se manifesta através da
desigualdade das relações entre os gêneros masculino e feminino.
No famoso estu do sobre “Os tipos de d o m in ação” , W eber dis tin gue
três formas de poder legítimo:-'
- o pod er tradicional, fun dame ntado em costum es antigos , que s ão
consagrados através do tempo e impõem o dever de obediência aos
chefes da comunidade (família, clã, feudo);
- o pod er carismático, fundamentado nas virtudes pessoais e quase
sobrenaturais de 11111indivíduo admirado por todos (r ei-purrreiro, ch efe
ineonleslado de um partido político);

Wehcr, 1991, pp. 139 e ss ; sobre a “sociologia d;\ dominação” , ver exterH
^niiwitlr IRR-5R0 Q rmtor rijjg^ ncin cnttg jjjfaçht
poder) tfiic indica io da s as friíiiias de pousr, e /-icnscritij! {tlóHii.HflpS; MLit8-
ridade.) que indica o poder legítimo, aceito pela maioria dos ihciivídíios.
PODER. ESTADO E CONT ROLE SOCI AL | 39
i
- 0 poder legal , funda men tado na validade de regra s preestabelecidas
e racionais, que organizam um sistema de poder de forma estável,
respeitando determinadas formas; aqui não se obedece à pessoa, mas à
regra que determina um sistema de poder.
Dep endendo do período hi stór ico, estas lon nas de poder gozam dc
um determinado grau de aceitação pela população, isto é, dc legitimi
dade: não se exercem através do recurso à violência, mas, em geral,
através do consenso da maioria da população, que reconhece o poder
como legítimo.
Cada form a de poder possui u ma es pecífica fonte de legi timidad e, que
lhe oferece aceitação popul ar. N o po der tradicional encontralnos o pres
tígio de costumes multisseculares, que todos aceitam; no poder
carismático, as virt udes pessoais que levam um a pessoa a apresentar -se
como superior a todos os outros; no poder legal* éncontramos a força
legitimadora das regras escr itas, que gar antem estabilidade, previsibili 
dade e ofere cem seg urança aos demais. Esta tercei ra forma de poder ga 
nha sua legitimidade através da legalidade (legitimidade legal-racional).
Nas soc ieda des m o de rna s o p od er c o rre sp o n d e ao te rceiro tipo
(poder legal), ou seja, adquire sua legitimidade através da legalidade.
O poder legítimo é aquele que detém os meios de Coerção e que exerce
0 comando, em conformidade com as regras jurídicas estabelecidas
pel a constituição. T rata-se do E sta do, que c o n seg u e ser respeitado não
só pela força, mas também pelo consenso.
Observa-se, atualmente, que outras formas de poder não possuem
a força de coerção própria do Estado, nem cónseguem ser legitimadas.
Exem plo: o pai que proíb e o fdho m aio r de 18 anos de sair de cas a,

par
vado, a puni-lo p oCódigo
art. 148 do r um a Penal).
“d e soO
b ed iê n cia”
Estado , co m eum
reconhece te poder
um delito (cárcere pri
aos pais
em determinadas situações e com limites muito estreitos. Assim, por
exemplo, o novo Código Civil regula o “poder familiar”, ao qual estão
sujeitos os fdhos menores (art. 1.630 e ss.). A lei concede aos pais a
possibilidade de dirigir a ed u c a ç ão dos fil hos e adm inistrar os seus bens ,
p odendo exigir d o s'm e sm o s o b ediência, respeito c os serviços próprios
de sua idade e condição. Se os pais superarem os limites do exercício
de tal poder (exemplo: “castigar im ode rada me nte o filho” - art. 1.638
do Código Civilpoderão perder esta prerrogativa, estando sujeitos a
s i i n r ^ s (“tnaijg.tj -gtos " jjfl; 136 cjy fr fd ip o PgHâ!) !sto significa qij g
bs páiS Haci d etêm um pfcider próprio, m a s q u e o E stado lh es coriceclé UH!
poder limitado, p od en do revogá-lo e ap licar sançõ es em caso de abu so.
| | [) MAN UAL |)| ; SOC IOLO dIA JURlWCA

I
() caso fio podei do Estado é diferente. Criando e aplicando um
';i' lema tl c nor mas jurídicas, o Esta do conce ntra e mo nop oliza o poder
legítimo. Isto significa que não regula somente o próprio poder, mas
também o espaço de atuação de outros poderes sociais. Por exemplo, o
palião pude aplicar sanções disciplinares contra seus em pregados so

mente na' Caso


estatais.' medida c m que.aseseventuais
contrário, tas sejamsançprevistas
ões sãopor no e rmas
ilegais jurídicas
o empregado
|Hiili pedir ajud a ao Esta do, atrav és de lima aç ão jud icia l.
I ima visão inov ado ra sobre as form as de pode r enc ont ra-s e na obra
do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984). O autor analisou o
p o d e r dis cip li nar, que é exercido de forma difusa e fragmentada nas
escolas, nas famílias, nas fábricas, nas prisões, nos hospitais. Foucault
i onsidera que a sociedade constitui-se num conglomerado de poderes
diteientes, que visam moldai- o comportamento humano através de
intervenções pontuais - mas muito efetivas - na vi da das pes soas.
Todas esta s forma s de poder convergem a um m esmo pont o: educar
o indivíduo a com port ar-se de aco rdo com mode los sociais. Exemplo:
na escola e na em presa , o indivíduo nã o só aprende qu e o trabalho é uma
Obrigação que enaltece o homem, mas tanibém aprende a trabalhar de
uma determinad a forma: executando tarefas difer enciadas, colabo rando
com os colegas, cumprindo os horários de trabalho etc.
Trata-se de intervenções produtivas, que o autor denominou de
“tecnolo gias do pod er” . Ou seja, atr avés do po der disciplinar o indivíduo
aprende a agir de determinadas formas e adquire determin ados hábit os.
Foucault afi rma que nosso com portam ento é muito mais infl uenci ado
pelos poderes disciplinares do q ue pelo p od er le gal exercido pelo Estado ,
através de proibições e sançõ es (Foucault, 197 7, 199 0 e 200 1).

2.2 Burocracia

2.2.1 Definição

O termo burocrac ia signific a “pod er de escritório” . Bureau: escri


tório (cm francês) e kratein: deter um poder, dominar (em grego). O

"O específico da atualidade é que a todas as demais associações ou pessoas


individuais somente se atribui o direito de exercer coação na medida em que
0 listado o permita’' (Weber, 1999, pp. 525-526).
podp .r . fstado r. controi .r soci AI 141

terino possui em geral um significado pejorativo, indicando o funcio


namento defeituoso de uma organização por excesso de formalidade.
Na sociologia, a burocracia é estudada com o li m sistema de orga 
nização de grandes grupos sociais e de atividades coletivas (exemplo:
listado, grandes empresas), que objetiva a racionalização e a eficácia.
Para a gestão de uma microerhpresa com três empregados evidente
mente não é necessário criar um dep artam ento de “recursos hum ano s” .
() mesmo não se pode. dizer de uma empresa com três mil empregados.
As análises de autores como Weber, Merton, Chinoy è Blau, que
examinaram os aspectos da burocracia, permitem formular um a sér ie d e
pr in cípio s, que ca racterizam o se u funciona m ento (Soriano, 1997, pp.
327-328): '
a) Princípio da generalidade e da imparcialidade. Há regras e pro
cedimentos preestabclecidos, que vinculam a todos. A aplicação destas
regras independe da vontade das pessoas que as executam e dos desti
natários.
Exemplo: um funcionário que falta ao trabalho, sem justificativa
legal, é subm etido a um desc onto salari al, m esm o se sol icita r ao depar
tamento de “recursos humanos” que o perdoe pela sua falta. A empre
gada doméstica que falta um dia, porque se sentid muito cansada, ao
conversar com a patroa e explicar o seu caso, pode obter uma resposta
diferente, já que a decisão depende da boa vontade da patroa e não de
um sistema de regras rígidas.
b) Princípio da racionalidade. Manifesta-se na adequação da orga
nização aos fins que persegue.
c) Princípio da eficiência. Consiste na obtenção dos melhores resul
tados através da aplicação de técnicas mais idôneas, por pessoas com
preparo profissional.
d) Princípio da impersonalidade. As pessoas concretas “não con
tam” ; o que vale s ão os cargos po r elas ocupados. Os cargos sobrevivem
às pessoas e não podem ser cedidos pelos seus titulares.
Iim base a ta is princípios pod em os da r um a definição: A b u m rra c ia é
a or ganização racional , form aliza da e centralizada de uma séri e de re
cursos human os e materiai s, pa ra ob ter a m áxim a eficác ia, po r meio de
regras e proced imen tos gerais de ap licação uniforme. O fim principal da
burocracia é a ef iciência . A racionalidade é intrínseca à burocracia e re-
sillta da adequa ção da or ganizaç ão à consec ução dos fins e stabel ecidos.
MANUAI. DH SOCIOLOGIA JURÍDICA

’ V.-’Burocracia e controle social

( ) p o d a <lu Estad o m ode rno exerc e-se através de aparelh os burocrá -


licos, organiaados de acordo com regras jurídicas. É que a burocracia
peiniiK' a centralização política do poder moderno, isto é, o co ntrole
eldivo de um (euitório c de uma população. Com os seus arquivos,
i ompuladorcs, saber técnico c com a possibilidade de aplicar sanções,
poss ível obter uma aplicação efeti va das regras estabelecidas pe lo
| MII ll' I

A burocracia “conhcce os cidadãos”. As autoridades do Estado


sabem se determinada pessoa é casada ou solteira, onde mora, onde
trabalha, quanto ganha, qual é o seu nível de estudo, se possui patrimô
nio, se tem antecedentes criminais, se viajou para o exterior etc. Como
iodo s som os obrigados a fornecer ao Estado dad os im portantes de no ssa
vid a e ativi dade (certid ão de nascim ento, carteir a dc identidade, carteira
de trabal ho, p ermissão para inici ar atividade econôm ica, declaração de
renda), a burocracia pode planejar várias intervenções na vida das pes
soas c influenciar o seu comportamento.
Assim sendo, a organização burocrática oferece a base para que o
direit o possa desem pen har um papel de contro le social sobre o compor
tamento das pessoas. As sociedades modernas são tão complexas que
o direito não poderia ser aplica do se m a e xistência de um a rede de
informações administrada pelo Estado. Pensem nas possibilidades de
controle dc uma polícia, que possui um sistema de cadastramento ele
trônico das impressões digitais da população. Esta pode facilmente
conferir as impressões digitais deixadas por assaltantes no local do
crime. Em outras palavras, a organização burocrática torna-se uma
importante condição de eficácia do direito no Estado moderno, permi
tindo um controle social massivo da população.

Para ir mais longe

Campilongo, 1997; Clark e Gibbs, 1982; Cotterrell, 1991, pp. 93 e


ss.; Fari a, 1984. pp. 31 ess. , 104 e ss.; Ferrari, 1 98 3, pp .44 8e ss. ;L uh m an n,
1983 ;Macion isePlumm er, 1997,p p. 1 90ess.; Po ca r, 20 01 ,pp . 103ess .;
Ra is er , 1999.p p. 2 2 9 e ss .; Santo s,20 00 .pp . 2 6 4 es s.; Sc ur oN et o, 20 00 ,
Í 2 9 ^ s 'lSorÍáH0> !9S? ,pjÜ !8B 6 #,» Í P 7 C5§,, 3 # S » « ê á i t ç s&wte;
1997 , pp. 181 c s s .; We be r, 19 9 í e 199 9; Wol klt ier , 19*^5; £§?•>
Lição 7
r
CO NTRO LE SOCIAL E DI REI TO

SUM ÁR IO: 1. Carac terís ticas do control e social através tio direito: 1.1
Ameaça de coerção: l.l.l Diferenças com as sanções sociais; 1.1.2
Formas e graus de coerção no sistema juríd ico - 1.2 Tipos de
sanç ões jurídicas - 2. A ótica füncionalista do controle socia l através
do direito - 3. Abord agem crít ica do controle sodial através do dire ito:
3.1 Funções declaradas e funções latentes; 3.2 Negaçíio da idcolojin
funcinnalista com iclnçüo ao controle social: 3,2.1 Ilegitimidade do
pode r punitivo; 3.2.2 Inexistência da di st in çã o entre Bem e Mal (“ no r
malidade do crime”); 3.2.3 Inexistência da ciilpabjilidade pessoal
(pluralismo cultural); 3.2.4 Impossibilidade de ressocialização; 3.2.5
Desigualdade na aplicação.

O direito é a forma espe cífica de contro le social nas sociedades


comple xas. Trata-se de um c ontrol e f orm al, deter mina do por normas d e
conduta, que apresentam três características. Estas normas são:
a) explícitas, indicando à população de forma exata e clara aquilo
que não deve fazer;

b) protegidas pelo uso de sanções; i


c) interpretadas e aplicadas por agentes oficiais.

1. CARAC TERÍSTI CAS DO CO NTRO LE SOC IAL ATRAVÉS DO


DIREITO

1.1 Ameaça de coerção

to fato
Um elêiViêttto êspeílico das iim-mas jy* (dicas sênm
associadas à aplicação de sanções em caso de não cumprimento. Em
comparação com outros sistemas de normas sociais, os sistemas jurídi-

I
MANIIAI. OI- SOCIOLOGIA SOCIÓLOGA

i Os caracleriza m-se pela form alização da am eaç a de coerção, at ravés do


rMabclecimento de sanções concretas, de procedimentos e instituições
C|uí são competentes para a sua aplicação.

/ / / Diferenças com as sanções so ciais

Ourin ignora o aniversário de um irmão, pode sofrer sanções de


cai. ilH social. 1 ’orcm , estas de pe nd em de uma d ecisão da pessoa “o fen
dida ’, ou seja, não são preestabelecidas. O irmão pode ficar magoado
opiai pela ruptura da relação, mas pode, também, aceitar as nossas
di culpas ou simplesmente não reagir.
As sanções informais são, em todo caso, diferentes daquelas jurí-
di< as () sistema jurídic o estab elece u ma sa nção determ inada, um órgão
i oinpolcnte, um procedimento de aplicação. Neste âmbito é também
previs ta u m a série de garantias para o possível in frato r da norma, que
objetiva protegê-lo da arbitrariedade. Tais garantias são inexistentes no
i aso das sanções informais. Em geral, a “juridificação” ou “juridiciza-
1, 11o " 1da coerção estatal é ause nte em outros sistemas de controle so cial
ip< nse no caso de quem não paga os impostos e de quem não dá uma
■onh ihmçâo à Igrej a) ou encontr a-se com uma intensidade muito menor
(exemplo: o estatuto de um clube esportivo).

/ / ’ fh rm a s e gra us dc co erç ão no sistema ju ríd ic o

N orm as de o rg a n iza ç ão não asso ciadas a sanções. Trata-se de


normas que organizam a aplicação de outras (normas processuais).
1 x« mplo: o con junto dc nor mas que regu la a orga niza ção de um tri bunal

que aplicará as leis penais.


N o rm as que estab e le c em um a obrig ação sem im por um a sanção.
I xcmplos: o ab oíto na Ale m anh a que, se gundo a jurispru dênc ia do
i iibunal Constitucional Federal, não é permitido pelo direito, mas, se
pia li i id o cm dete rm in a d a s condições, não é punido p en a lm e nte (Arzt
i Webe r, 199^, pp. 116-1 17). As dívidas de jo go q ue s ão considerad as
■uniu ‘ obrigaçõe s natura is” . Não se po de p rocessar uma pessoa para
(V>i«,-;u o p aga me nto , po ré m se o dev ed or pa ga r esp on tan ea me nte a

()•; in m o s sif inil icmn “tornar algo jurí dico ”, submet er um setor da vi da
m i c í j J n tininiíis juiídipis, regulamentando determinadas atividades através

do iliirilo
CONTROLE SOCIAL E DIRIMTO 145

dívida, este não poderá posteriormente pleitear a dévolução da quantia


paga (art. 814 do novo C ódigo Civil ).
- Normas de caráter promocional. São n ormas q ue prevêem um
incentivo no caso de seu cumprimento, mas não existe a obrigação de
obedecê-las e, muito menos a possibilidade de coerção. Exemplo: uma
lei pode prev er que empresas que contratam em pregad os com deficiên
cias físicas em porcentagem superior a 5% dos funcionários, usufruam
descontos ii q imposto de renda.
- Normas de direi to const ituci onal, que não prevêem a possi bilida
de de coação no caso de não cumprimento, sendo as sanções de caráter
político . Exem plo: o art. 3.°, in c. III, da C onstituição Federal, prevê,
como um dos obj etivos fundamentais da Repúb lica Federati va do Bra
sil, a erradicação da po breza e da m arginalizaçã o. Se os governan tes não
se empenham por fazer cumprir a norma constitücional, não serão
submetidos a uma sançã o formal. Poré m, pod em sofrer críticas por par te
da oposição e correrem o risco de não serem reeleitos.
- Norm as de dir eito internacional que, em geral, não são associ adas
à coação porque não existe um poder público internacional que possa
aplicar sanções. O cumprimento de tais normas está sujeito à discrição
dos Estados e depende também das medidas de pressão política, que
pode exercer a c om u n idad e internacional sobre um determ inado Esta do.
Exemplos: ruptura das relações diplomáticas, embargo econômico. As
notinns coercitivas dc direito internacional são excepcionais c muito
raramente aplicadas. Exemplos: sançõés militares por parte do Conse
lh o de Segurança da Organização das Nações Unidas, com o no caso do '
Iraq ue em 1990;
internacionais, cond
como enaç da
no caso õesguerra
p or crimes de guerra
da Bósnia. por tri bunais penai s

1. 2 Tipos de san ções jurídi cas

O eleme nto principal de exercício do contro le soci al atra vés do


dire ito é a sanção. A san ção juríd ica deftne-se co m o u ma conseqüênc ia,
positiva ou negativa, que decorre do c u m p rim e n to ou não cum prim ento
de uma norma jurídica.
A definição da sanção indica que a distinção principal refere-se ao
caráter p o sitivo ou negativo da mesma. As sanções positivas (ou
prom ocionais) oferecem um a vantagem ou um prêm io a quem cum pre
a norma. Exemplo: os universitários com o melhor desempenho no
MANUAI. DE SOCIOLOGIA SOCIOLOGA

I io v í Io " ganha m uma bolsa de estudos de pós-graduação. Obje tiVo da


norma é Frrecnlívar os estudantes a melhorarem seu desempenho.
As sanções negativas (ou repressivas) impõem uma conseqüência
dcsfirvoiávcl (pena), 110 caso de descu mp rim ento de uma norma. Consi s-
irni na pirvação ou restrição de um direilo do infrator (liberdade de
locomoção, liberdade dc profissão, sanção pecuniária).
V, sanções negativas dividem-se em duas ealegorias: preven tiva s
I ii'i’tii,ih>nti.s As sauço es picv enliva s olt jclivam evit ar a violação de
1101 mas, aplicando a determinados indivíduos formas de controle rela-
■ninadas com cons eqüên cias negati vas. O Estado de dir eito não ac eita,
cm geral, as sanções preventivas. Várias medidas de fiscalização po
dem. porém, ser consideradas como preventivas, em vista do efeito
prático das m e sm as (m edo , incô m odo). Exem plo: a blitz da polícia
que submete os motoristas 011 os pedestres a controles de identidade,
revistas etc.
As sanções reparatórias aplicam-se contra o autor de um dano,
piovocado pel a violação dc norm as jurídicas. O bjetivam res ta urar , na
medida do possível, a situação anterior ou, pelo menos, restabelecer a
oídem lesada e a confiança dos indivíduos no sistema jurídico. As
sanções reparatórias decorrem do princípio de que um a pessoa pode se r
punida som ente após a com p rov açã o (via processo) da com issão de um
alo contrário ao direit o. As sanções reparató rias pode m ;er divididas em
II rs categorias:
Constrangimento para forçar o cumprimento de uma obrigação.
Exemplo: pagar uma dívida através da execução de uma sentença tran
sitada em julgado.
- Condenação ao ressar cimento de um dano atra vés d o pag amento
cm dinheiro. Exemplo: indenização dos parentes da vítima de um aci
dente automobilístico.
- Imposição de u m a obrigação que ob jetiva ca stigar e resso cial izar
o desviante e mostrar à comunidade a eficácia do sistema de controle
social. Este 6 o caso dns penas pecuniárias que beneficiam o Estado e
das condenações penais à prisão ou à prestação de serviços não remu-
m 'i('j>los à co m un id ad e. As sançõ eç r epa rató jias p enai s são as mg js
Hftijfc:i. A 'íiia itpünrçOíi tteve Ffspffllarl,f’ jif-iftèípms <jtic dccsrrcm d?.
consiiyiiçno e da legislação penal dos Estados modcMios.
1) I eanlitlfu lc \ s autorida des d o Est ado pode m aplicar somente as
IIh penais pn vistas em lei ant eri or ao fato delitivo. Ao mesm o
CONTROLE SOCIAL
DIREITO E 147
I
tempo, devem aplicar as sanções em questão a todos os atos de trans
gressão da norma penal, sem nenhuma discriminação de pessoas.
b) Proporcionalidade. A gravidade da sanção deve corresponder à
gravidade da infração. O problema da proporcionalidade das sanções
estíí na fixação dc um quantum dc sanção: q uão intensa deve ser a sanção
pa ra cada violação do direito? D eve tratar-se dc pena privativa de
liberdade? Qual a sua duração? É suficiente uma multa? Qual quantia
deve ser pni,’,a?
A intensidade da sanção e estabelecida em lunção de muitos cr ité
rios (natureza do ato, circunstâncias, idade e situação social do infrator)
e muda em função dos valores sociais e da política de üm determinado,
perío do e paí s (exemplo: nas últim as déc ada s deu-se u m aum ento das
penas dos delitos am bientais e ec onôm ic os e foram descriminalizadoS
alguns delitos contra os costumes). O problema dbmplica-se devido i)
dificuldade de comparar comportamentos desviantes com sanções de
priv ação de liberdade ou pecuniárias (exem plo: quantos meses de pr ik ão
ou quanto dinheiro é proporcional a uma difamação?).
c) Im parcialidade. Para garantir a imparcialidade, as vítimas não
podem decidir acerca da aplicação de sanções penais. Os sistemas
modernos não ad mite m a vingança priv ada (faz er justiç a pelas pr ópria s
mãos). A competência sancionatória pertence aos órgãos do Estado e
principalmente aos trib unais. M uitas norm as do C ódigo de Processo
Penal estabelecem garantias da imparcialidade do juízo. Um exemplo
é o art. 98 que regulamenta a suspeição (caso em que a parte pode
recusar o juiz).

2 . A ÓTI CA FUNCIONALISTA DO CON TRO LE SOCIAL ATRA


VÉS DO DIREITO

Os juristas-sociólogos de formação funcionalista consideram que o


sistema jurídico realiza o controle social em base às seguintes caracte
rísticas (cfr. Soriano, 1997, pp. 339 c ss.).
a) Certeza. O direito possui um alto grau de certeza na fixação dos
modelos de conspprtamenig. Expressa se através de uma linguagem
UWllfctiíJa PS!.f Iodos c 5( Igyad o n<-) c;>ühC£Í!TH!H!h (!!! popuhiçíio.- A
certeza do direito 6 obtida «travds da suil diirezM e da sua publicidade.
b) Exigibilidade. O direito é “exigível”, porque existem órgãos dc
po der , regimes sancionatórios e instituições que velam pel o se u res-
| |K M AN IIAI. DP. S o n O l.O ílIA SOCIOI .OOA

u
I
|x ito, empregando, se necessário, coação e violência física contra os
infratores.

r
c) Generalidade. 0 dire ito cr ia modelos gera is de comportamento,
já que n norm a ju rídic a afe ta questões importantes que originam co n-
llilos na sociedade. Os comporlamentos regulados pelas normas obri

gam a todos os que ntem


se incluem
en te deemsuasituações-tipo (quem rouba será sexo etc.).

r
punido inde pende condição soc ial, profissão,
A generalidade do direito é típica do Estado liberal.

u
d) Garantia do bem comum.O direito constitui um sistema de
controle social que exprime os valores de uma sociedade. A sua fina

u
lidade é garantir tais valores, aplicando sanções contra aque'es que
lesionam os direitos dos indivíduos ou os bens coletivos.
e) Expansão. As esferas do comportamento humano que não são

m
reguladas pelo direito são cada vez mais restritas. Trata-se do referido
fenômeno da ju rid ific a ç ã o ou ju ridic iza ção , Hoje é difícil imaginar
uma atividad e hu ma na não regulada pelo di rei to. Nascimento, casam en
to, estudo, trabalho, morte e tantas outras situações são reguladas por

m
noi mas jurídicas, falar em público é um direito garantido pela Consti

rr
tuição (livre manifestação do pensamento). Comprar uma caixinha de
fósforos é um ato jurídico (contrato), baseado em acordo recíproco e
implicando obrigações das duas partes, como a responsabilidade do
vendedor e/ou do produtor por um acidente causado por defeitos de

v
fabricação e a obrigação do cliente de pagar o preço acordado.
Esta onipresença do direito não é percebida facilmente na vida
cotidiana. Na maior parte dos casos, as relações se desenvolvem sem
conflitos, não sendo necessário recorrer ao sistema judicial. Mesmo
quando surgem sérias divergências de interesse, os envolvidos optam
freqüentemente por vias de solução extrajurídicas (negociação direta,
mediação de terceiro, e até uso de violência).

m
Ist o não significa, porém , q ue o sistem a jurídico não esteja pr esen te.

m
Em primeiro lugar, suas normas orientam o comportamento dos indi
víduos, mesmo quando estes não invocam o direito. Em segundo lugar,
há sempre a possibilidade de recorrer às instituições jurídicas em caso
de co nflit o. Por estas razões, a onipre sen ça do direito nas nossas socie
dades é um fato real.
Assim mesmo, a expansão do direito não segue uma linha contínua
de apropriação da realidade social. O direito também deixa de regular
algiins campos que antes estavam submetidos ao seu controle. Exem-
CONTROLE SOCIAL I: DIRI-ITO 1 4 9

plo: em div ersos países foi abolida a n orm a que incrim inava a prosti
tui ção . Existem tamb ém âmbito s pou co “nor ma tiza dos ” , com o a esfera i
privada da vida humana. U m ex e m plo recente de desregulam entação da
esfera econômica constitui a política neoliberal adotada em muitos
pa ís es: as regras juríd icas rela tivas ao m ercado de trabalho c à con c o r
rência são sensivelmente reduzidas, permitindo que os agentes econô
micos mais for tes imponha m sua vontade, sem limitações jurídicas.
Esta última tendência c. porém, secundária sc a compararmos com
o processo de expansão do direito. Exemplos: a legislação sobre a
informática (proteção de dados pessoais e da propriedade intelectual);
a legislação de proteção dos direitos e interesses difusos.
" f) Uniformidade. Como já indicamos anteriorniente, o direito mo
derno funciona como instrumento de controle sociál em base a regias
uniformes, constituindo um sistema que objetiva submeter todos os
membros da sociedade às mesm as regra s. A tendência de uniformidade
não se detecta somente no âmbito de um Estado, mas também em nível
mundial. Trata- se do fenôm eno de ac ulturaç ão jurídic a (Liçã o 4, 3.4. 2).
Após a Segunda Guerra Mundial, a forma mais comunl dc aculturação
tem sido a transferência dos ordenamentos jurídicos dos países mais
desenvolvidos para os países em desenvolvimento.
Rehbinder (2000, pp. 94 e ss.) situa a tendência de uniformização
do direito nos planos espacial, objetivo e subjetivo. Soriano (1997, pp.
341-342) cons idera que deve ser acrescido a est a list a o plano temporal.
- Na or dem espacial, o direito uniformiza-se através do processo
políti co de unificação de um territóHo. Em outras palavras, é a partir do
surgimento dos primeiros Estados nacionais, já no século XVIII, que
desponta uma preocupação por unificar as regras em vigor em cada
nação. O “pluralismo jurídico”, que vigorava nos Séculos passados, é
substituído por um único direito estatal (ver Lição 5, 5). Um recente
fator de uniformização do direito é a multiplicação dos Acordos inter
nacionais, decorrentes da intensificação das relações comerciais inter
nacionais. Finalmente, várias organizações trabalham hoje com o intui
to de uniformiza r os direit os nacionais, sobre tudo c om relaçãp ao d ireit o
civil, comercial e trabalhista.
- Na ord em objetiva, as constituições dos Estados estabelecem
princípio s sim ilares e as diferenças situam -se na legislação e na ju ris
prudência. Constata-se tam bém a tendência de criar instituto s jurídi
cos uniformizados. Este é o caso dos “contratos de massa” ou “con-
iso manuai. nr: sonoi.ociA soctoi.ociA

tratos de adesão", que não permitem negociações pessoais. O consu


midor simplesmente assina um contraio já preparado para a prestação
de serviços como eletricidade, telecomunicações, empréstimos, segu
ros e transportes.

Na ordem subjetiva, os ordenam entos jurídicos mod ernos procla


mam o princípio da igu aldad e jurídica. Ass im são abolidas as difer enças
do status e hierarquias conhecidas em outras épocas, onde o direito
estabelecia privilégios dc grupos dc pessoas. Sem dúvida, não existe
liojr uma igualdade material, porém todo.s possuem os mesmos direitos
c as mesmas obrigações.
- Na ord em temporal, o fenôm eno da aculturação jurídica apresenta
uma particulari dade: os países e in desenvolvimento adotam rapidamen 
te o direito ocidental, sem passar por etapas seculares de desenvolvi
mento, ta l com o acon teceu no direito europ eu (ver Lição 1). Esta t rans
formação repentina causa grandes conflitos entre a cultura tradicional
c o novo sistema jurídico. Tais conflitos são exprimidos na recente
discussão sobre a universalidade dos direi tos humanos: devem todos os
países garantir os m e sm o s dir eito s hum anos, que são um a in venção da
cultura ocidental (universalismo)? Ou cada país possui o direito de
preservar as suas tradições, m e sm o q u an do esta s se cho cam com os
direitos humanos (particularismo)?
F.xemplo recente de aculturação jurídica rápida: após a derrocada
dns regimes comunistas, o direito inspirado nos princípios socialistas
loi abandonado; os novos dirigentes dos países da Europa do Leste
convidaram juristas da Europa Ocidental e, em poucos anos, foram
ciiados sistemas jurídic os com pletos, confo rme as necessidade s de um
sistema capitalista baseado na livre concorrência.

ABORDAGEM CRÍTICA DO CONTROLE SOCIAL ATRA-


VI*:S DO DIREITO

Os juristas-sociólogos que adotam a aborda gem do confl ito so cial


concordam parcialmente com a descrição funcionalista do papel do
•liicito no sorjjjj P o re x fi ^ ij o , no cjyg tange apg jtenôme nng^l e
ex pa il .s fl o c dc ilíilió hn iza çãd do direito tílo cílslêrrí dívoífê.íéfas dê
opiniões enlrr o s estudiosos dc am bas as abor dagens.

( >s teó i icos do conflit o dis cord am , po rém , de for ma radical, no que
si rcfisco fts Im.ilidades do co ntrole. Co ns ide ram que o contro le realiza
roNTRoi h soc i ai . f . di r it vo 151

do atr avés do direito exerce funçõ es látent es, diferenle s das suas funções
declarada s e cri ticam 0 fun cionalism o p or adotar idéi as provenientes do
“senso comum”. Estas idéias são expressas pela maioria das pessoas,

porém não que


de opiniões correspondem aos dados
possuem'um caráter de umea que
ideológico análise ci entífi
servem para ca. Tra ta-s e
legitimar o controle social através tio direito, ocultando assim a sua
verdadeira função social.

3.1 Kunçõcs declaradas e funções latentes

Para entender a abordagem dos teóricos do conflito devemos levar


em consideração a distinção entre funções declaradas (ou manifestas)
e funções latentes (ou reais) de um a iiistituíção social. Esta dist inção foi
feita por Merton, que desenvolveu uma visão duali.úa das funções que
cumprem
pp. 12.0 easss.).
várias instituições no ílmbito dc um sistema social (1970,
Segundo este autor, a função decla ra da de um a instituição consi ste
nos efeitos que causa o seu fu nci ona men to para o si stema feocial, sempre
que tai s efei tos sejam des ejados e admitid os por aqueles que partici pam
do sistema.
Exemplo: cria-se em u ma cidade, que apresenta graves problemas de
poluição do ar, um hospit al especializado em doenças do sistema respi
ratório. A função manifesta do hospital consiste em curar as referidas
doenças de m odo eficiente e melhorar a qua lidad e de vida dos pacien tes .
A população é conscien te desta finalidade e deseja que o hospita l possa
cumpri-la. Se o funcionamento do hospitai repercutir na melhoria da
saúde pública, diremos que cumpriu a sua função rtianifesta.
Muitas vezes as instituições sociais cumprem funções diferentes
daquelas declaradas. Trata-se das fu nçõ es la te nte s , que ihfluem sobre o
sistema social, sem corresponder à vontade das pessoas que, muitas
vezes, nem sequer as percebem.
Exemplo: a criaç3o deste hospital com a manifesta função de me
lhorar a saúde da pn «ulação pode também cumprir duas funções laten
tes. Eijj primeiro In^ar, o atendimento ndgquado diminuirá o impacto da
patótfe â s s ú à e j Á l m m Si nM ? ã a ú i m
, oluindo a cidade, sem muitas críticas. Talvez sc. o hospital não fosse
criado, a população poderia protestar e conseguir a proibição dc ativi
dades poluidoras resolvendo o pro blem a na sua raiz ! E m segundo luga r,
a criação deste hospital pode estar inserida em uma estratégia política.
MANUAL DE SOCIOLOGIA SOCIÓLOGA

perm itindo (|u e os políticos da cidade prom ovam sua im agem , ganhan
do não só o agradecimento, mas também os votos da população. Em
outras palavras, a criação do hospital pode ser um meio para alcançar
diversas finalidades econômicas e políticas.2
( )s soció logos do conf lito sust enta m que esla distinção vale no cas o
do controle social efetuado através do sistema penal. Este sistema não
. ufflprc as suas funções manifestas, ou seja, não corresponde às finali-
d.idcs oficinis e desejadas. Ao mesmo tempo, desenvolve oulms efeitos
iliic a sociedade, lim outras palavras, a sua função oficial 6 diferente
cIh lunção (]ue cumpre na realidade. Assim sc.ndo, os funcionalistas
comele m um grave erro cient ífico, porque crêem no discurso of icia l do
sistema penal, pensando que as suas funções declaradas (proteger os
bens jurídic os de to dos, respeitar os princípios da certeza, da generali
dade etc.) são aquelas realmente desenvolvidas na prática.

3.2 Negação da ideologia funcion alista com relação ao controle


social

A visão da teoria do conflito pode ser exprimida através de cinco


críticas, que indicam quais são as funções reais do controle social
atravé s do direito e inva lidam a perspectiva funcionalist a, m ostrando o
seu caráter ideológico (Baratta, 1997, pp. 41 e ss.).

1.2.1 Ilegitimidade do poder punitivo

() controle socia l através do direito apresenta-se como expressão de


um poder legítimo, que protege todos os indivíduos, reprovando e
reprimindo comportamentos desviantes e reafirmando os valores so
ciais exprim idqs pe lo direito. Es ta opiniã o é criticada por vários autor es.
Apresentamos aqui a visão da corrente psicanalítica e dos sociólogos
ligados ao movimento da criminologia crítica.
.Segundo uma visão baseada na psicanálise freudiana, o controle
social exprime mecanismos irracionais de expiação do crime. A socie
dade tem a necessidade de p unir uma pe ssoa para “lim par-se” da sua m á-
■onsdjn ftja e para exor cizar os instintos de d estruição. Assim sendo , os
h | t h ju ntos desta corrente entendem que a repressão está en ra izada
i i i

Jt/í ivnc ,õ(‘ s (In Pr of es so r G es sé M ar qu es Junior.


CONTROLE SOCIAL F. DIREI TO, 1 5 3

no inconsciente coletivo e não constitui uma legítima reação contra o


desvio individual, tal como sustentam os funcionalistas.
Vários estudos sociológicos indicam que o controle social é ca
rente de legitimidade porque está a serviço dos grupos de poder que,
através da criação e da aplicação das normas de controle, asseguram
seus interesses: a repressão do furto protege a propriedade dos ricos,
a legislação sobre os crimes políticos objetiva a proteção Ho regime
polí tico etc.
listes grupos apresentam a proteção ,de seus interesses particulares
como um a reação legítima de “toda a socied ade” contra o “m al” , encar
nado na figura do criminoso. Em outras palavras, os referidos grupos
possuem o p oder de definição dos comportamentos desviantes e con
seguem, também, controlar a aplicação das normds jurídícas. Assim
sendo, o direito penal protege os interesses dos mais fortes, que são

apresentados, ideologicamente, como interesses getais.


Esta visão é fund ame ntada em extensas análises filos óficas, e studos
sociológicos e pesquisas empíricas sobre os sistemas de con trole soci al.
Cri ou-s e, as sim, uma abordagem deno min ada criminolog ia críti ca, que
analisa o controle social como uma construção de determinadas relai
ções de pode r. M uitos sociólogos do direito e crim inólo gos adotam hoje
esta perspectiva de leitura do controle penal.3
I
3.2.2 Inexistência da distinção entre Bem e Mal ("normalidade do
crime") I
I
O desvio é considerado, por muitos funcionalistas e pela maioria
dos juristas, como um dano e o desviante é visto como um elemento
negativo, que lesa a ordem, a tranqüilidade e a justiça social. Uma
posiç ão contrária é adotada pelos sociólogos do conflito que indicam 1
- ao l ado de alguns au tore s funcionalist as que se ocupa m da anbmia -
que o desvio é um fenômeno normal em qualquer sociedade.
Como já destacava Durkheim, o crime permite à sociedade defi ni r
melhor a sua ordem moral (a “consciência coletiva”) e, ao mesmo
tempo, fortalecê-la através da reação à violação da lei. Esta reação
fortalece a solidariedade social e confirma os valores coletivos. Desta

Para uma apresentação da criminologia crítica cfr. Baratta, 1997; Swaaningen,


1997.
MANCAI, DE SOCIOLOGIA SOCIOLOGA

ICfmn, n crime revela-se como um fenômeno social normal em três


ciiiidos: em pi'imeiro lugar, o crime encontra-se em todas as socie
dades hum anas; em segu ndo lugar, o crime ajuda a sociedade a afi rmar
ii i própria identi dade em torno a dete rm inad os valores; em ter ceiro
liif.ar, h,1 crimes que apresentam um carííter progiessista, ajudando a
M>d(',dade a mudar regras e crenças superadas. Neste último caso, o
iTimi antecipa a consciência coletiva do futuro (Durkheim, 1999-a,
pp 7 1 c ss.).
<) desvio pode, por exemplo, ser uma antecipação de mudanças
mk iais, tentando introduzir uma “inovação” ou constituindo uma “re
I» liíio" (ver Lição 4, 2.3). Pense-se no caso da ciência racionalista e da
Rlosoffl iluminista que a Igreja perseguiu, na Idade Moderna, como
jtéi a ou herética. O m e s m o aconteceu co m a R evolução Francesa de
1789, cujas idéias e ações constituíam, na ótica jurflica do Antigo
Rfigime, crimes de lesa majestade, passíveis de pena de morte.
Assim sendo, o criminoso desenvolve um papel útil para a socie-
d,u li’ seja qua ndo co ntribu i para o progre sso social, criando impulsos
paia a m udança de alg um as regras so ciais, se ja quando os seus atos
oleicccm a ocasião de afirmar a validade destas regras, mobilizando a
orirdade cm torno a valores coletivos.
Nest a ót ica, o co ntro le ju rídic o e social de alguns com portam entos
desviantes não expr im e o comb ate do B em contra o Mal. Assim se ndo ,
nem o criminoso é um elemento anormal, nem o crime destrdi a so-
( iedade.
Além disso, o con trol e soci al é caracteriz ado pelas fortes mudanças
históricas n a avalia ção juríd ica de alguns com portam entos. Isto nos
impede de distinguir o Bem do Mal de forma definitiva. Se a homos
sexualidade. era considerada crime até alguns anos atrás em muitos
países c hoje constitui um a legítim a expressão do dir eito de li be rda de
sexual onde está o “m al” ? C om o pode o direito reivind icar p ara si o
monopólio da ver dade moral , quand o ele mesm o se a ltera com o tempo ?

? 2. t In existênc ia da culp abilid ade pessoal (p h tm lim o cu ltu ral)

A responsabilidade pessoal do indivíduo que transgride normas


cCinstjLui o fundamento do direito penal. A sanção é considerada legí
tima quando um determinado comportamento pode ser imputado a um
indivíduo, quando ele é considerado como autor de uma violação de
CONTROLE! SOCIAL E DIREITO 1 5 5

regras. Em outras palavras, a transgressão de normas é considerada


como expressão de uma atitude individual que é reprovável porque
contraria normas e valores sociais. O legislador protege estes valores e
apliça sanções negativas contra indivíduos que não Os respeitam, por
molivos que a sociedade desaprova (satisfação de instintos e paixões,
abuso dc poder, lesão dc direitos).
Os críticos do controle social sustentam que o princípio da culpa
bilidade pessoal não corresponde à realidade socia l. Na sociedade nã o
existe unanimidade sobre conceitos como “o [tem c o Mal”. Para estes
autores, também não é possível considerar que uma conduta possa ser
imputada a um indivíduo, que decide violar os valores morais de toda
a sociedade.
A concepção do que é justo ou correto pode diferir não só de
pessoa para pessoa, mas tam bém em função do grupo so cial onde está
inserido o indivíduo. Assim, um menino de rua, um morador da favela,
um jovem desempregado de uma grande cidade, um trabalhador rurdl,
uma dona de casa, um político e um grande empresário podem ter
idéias completamente diferentes sobre o que é justiça. Ademais, estas
idéias podem não estar em consonância com as regras estabelecidas
pe lo ordenam ento jurídico.
Is to s e deve ao fato de existirem, n uma me sm a sociedade, cultura s
e sistemas de valores diversos (pluralismo cultural). No que tange ao
direito, cabe observar que a proibição de determinadas condutas ape
nas exprime os valores e os interesses das classe# dominantes. Para
um jovem desempregado o fato de roubar um carro, de agredir fi
sicamente um companheiro ou de evadir de um presídio, pode ser
vivido como um ato de coragem, que aumenta seu prestígio dentro da
“gangue”, onde ninguém considera tais atividades como moralmente
reprováveis. Neste caso, o indivíduo não teria a mesma “consciência
do mal” que um membro da classe alta, que estudou em boas escolas
e nunca passou por uma situação de privação. Em outras palavras, o
comportamento do indivíduo é, salvo raras exceções, o produto da su!a
socialização.
Em todos estes casos, encontramos o fenômeno das denominadas
‘subculturas ", que se desenvolvem em grupos sociais politicamente
ou socialmente marginalizados. No âmbito da subcultura, a avaliação
de muitos atos é contrária ao juízo de valores dominante. Cria-se assim
um c onf lit o: o ambiente s ocia l o rden a que se pratiq ue um d eterm ina
w 156 MA NU AL DE SOCIOLO GIA SOCIOLOGA

u
I
do alo, por molivos tio “honra” ou de “coragem”, enquanto o direito

u
0 reprova.
Sem tomar posição sobre o que é justo, o estúdio; o deve legistrar
esta situação conflitiva, gerada pelo pluralismo cultural, e rejeitar o
princípio da culp ab ilid ad e pessoal com o justif icaçã o da reação do Es-
(ado. As pessoas p roven ientes de su beultu ras são, muitas vezes, pu nida s

u
porque fazem o exig ido pel a respectiva com unidade.
Além disso, o direito enconira-sc freqüentemente cm “ ciefasagem ”
com os valores dominantes na sociedade: algumas vezes antecipa de
terminados valores na tentativa de modernizar a sociedade e, outras
vezes, exprime valores socialmente superados.
Uma antecipação encontra-se na criação dos crimes contra o meio
ambiente, sen do q ue a maioria das pess oas não consid era o autor de uma
ajvcssíío contra o meio ambiente como um criminoso, mesmo que as
penas previstas p aia ta is delitos sejam mais al ta s do que as pr ev ist as
para alguns crim es clássicos.
Fxemplo da legislação brasileira: quem causa grave poluição que
pode criar perigo à saú de h um ana e dificulta ou im pede o uso pú bl ic o
de praias é punid o co m reclusão de até cinco anos e multa até 50 milhõe s
de reais (a rt. 54 da Lei 9.6 05, de 12.02 .1998 , e art. 41 d o Decr eto 3.179,
de 21.09.1999). Q uem prati ca estelionato é punido com reclusã o de a té
cinco anos e quem pratica furto comum , co m reclus ão de até qua tro an os
(arts. 171 e 155 do Código Penal).
Assim sendo, o legislador considera que crimes ambientais lesi onam
a comunidade de forma mais grave do que furtos ou fraudes. Apesar
desta situação, a maioria das pessoas considera o poluidor como uma
“pessoa descuidada” e não como um criminoso. O “estelionatário” e o

“ladrão” s ão, ao
sos". Ninguém contrário,
negaria socialmente
emprego estigmatizados
a um capitão com por omiso “cri mino
de navio que,
são, provocou um vazamento de petróleo que destruiu uma praia; ao
contrár io, oferecer emp rego a um “ex-ladrão ” é considerado com o uma
aliludc, no mínimo, arrisenda.
( ) contrário o bser va-s e no caso do contro le soci al através de norma s
legais, que exprimem idéias superadas. Exem plos no direito bras ile iro :
prts ;cf sexual m edian te frau de” , pu nid a q uand o se tr at a de “ mulh er
hon c-fla” (art 215 d o C ód igo P enal); puniç ão do adultério (a rt. 240 do
1 ÔdigO IVn al) . Aqui o direito penal cont inua arraigado em v alores que
nfto i orrcspOfldem ao comportamento social atual.
CONTROLE SOCIAL E DIREITO 1 5 7

3.2.4 impossibilidade de ressocialização

As sanções mais graves são em grande parte justificadas por serem


medidas de ressocialização dos desviantes. Todos sabem que ninguém
pod e se r “ recuperado ” nas prisões, onde se convive com a violênci;(
mais exasperada, em uma situação de miséria, corrupção e desrespeito
à dignidade humana. Uma série de estudos sobre os índices de reinci
dência demonstra que a prisão só estimula as assim denominada?; “car
reiras criminais”.
As condenações penais confirmam a validade dâs leis e ameaçam
os possíveis infratores. O criminoso é apresentado como exemplo ne
gativo (encarnação do Mal), ele é justamente o contrário do homerín
honest o e bom. Esta imagem é insistentemen te apresentada pelos meios
dc comunicaçflo, através dc reportagens sobre casos criminais “espeta
culares'’, transmissões televisivas onde se acompanha a atuação de
po liciais, e outras que se o cu p am de apresentar ao vivo julg am en to s ou
reproduz i-los em forma de minissé ries. O crime constitui um importan 
te “objeto” dc consumo, r por tal motivo, passou a ser explorado de
for ma exacerbada (Bar ata , 2000). N este processo, o futuro do crimino 
so não possui nenhuma importância, sendo que a ressocialização não
passa de m era ilu são .

3.2.5 Desigualdade na aplicação

A maior parte das normas legais de controle social é formulada de


modo impessoal: protegem todas as pessoas e punem qualquer pessoa
que apresenta um com po rtam ento contrário à le i.'’ As norma s de contro 
le são “iguais”, ou, como dizem os autores funcionalistas, apresèntam
a característica da generalidade. As pesquisas sociológicas indicam,
porém, um a forte seletividade na aplicação de tais normas. Estudos
sobre o comportamento da polícia, do Ministério Pdblico e dos juizes
demonstram que eles muito freqüentemente atuam segundo preconcei
tos e estereótipos sobre a criminalidade c o criminoso, apresentando
[

w Existem poucas exce çõe s. O es tupro pode se r cometi do, no B ras ii, somente
contra mulheres (art. 213 do Código Penal). Há também delitos que podem
ser perpetrados somente por determinadas categorias de pessoas. Exemplo:
autor do delito de peculato pode ser som ent e um funcio nário públi co (a rt. 3 12
do Código Penal).
MA NIIAI. h l: . SOCIOLOG IA SOCIOLOGA

uma tendência a controlar e reprimir, com maior intensidade, os grupos


mk ialrtuvrtle dcsfavorccidos.5
<) "bo m ci dadã o” consegu e um tratamento prefer encia l graças à sua
ipariMicia (vestidos, gestos), o modo de falar e outros elementos de
i iillma c hábitos que cie compartilha com os órgãos dc controlc. Aléin
disso, uma pessoa poderosa tem maiores possibilidades de ser defendi
do de forma adequada, conhecer melhor os seus direitos, receber apoio
ili- pessoas influentes ele.
() principal alvo do controle policial são as pessoas pobres, de
minorias e com escassa educação, porque correspondem à imagem
social que se construiu do “bandido” e possuem menos recursos para
sc defender. Ind icamos que nos EU A, em 2000, 46% dos detentos e ram
homens negros. Comparando o número total da população branca,
latino-americana c negra nos EUA com o número dc detentos das
respectivas categorias, constatamos que se encontram encarcerados
três vezes mais latino-americanos do que brancos e nove vezes mais
negros do que brancos.fi
Estat ísti cas realizadas na Europa nos anos 90 também demonstram
a seletividade do sistema de controle penal. Analisando os dados refe
rentes à criminalidade feminina, observoü-se que a porcentagem de
mulheres pre sas é muito pe quena (ent re 2% e 6%).70 contrário o cor re
com os estrangeir os e os toxicômanos, que constituem apro ximad amen 
te 50% da população carcerária.H

''' Cfr. ;i aprcarn taçiío dc pesquis as empíric as cm Smau s, 1998, pp . 2 r 3-286.


If'’ Fonte: i]ltp://www.ojp.usdoj.gov/bjs/pub/ascii/pOO.txt.
m A única exce çã o encon tra -se na Espanha e em Portugal, onde as m ulheres
representam 10% da população prisional (dados de 1997; fonte: http://
stars.coe.fr/doc/doc00/edoc8762.htm). Nos EUA, a população carcerária
feminin a er a 6, 6% em 2 00 0 ( http://www.ojp.usdoj.gov/bjs/pub/ascii/pOO.txt ).
Wacquant 2001-a, pp. 107-117. Dois exemplos do ano 2000: a) Na Grécia
enire os R. 150 encarce rado s 3 .83 2 e ram estrangeiros (47 %); 3 .07 8 eram
condenados por delitos relacionados às drogas (38%) e o número total de
mulheres encarceradas era de 382 (4,7%). Fonte: Ta Nea , 06.11.2000, p. 16.
li) N;\ Itália entre os 57.507 presos, 14.000 eram estrangeiros (26%); 15.097
. cmdrnndos por delitos relacionados às drogas (28%) e o número total de
iiiullinesnunieerad.- is er a de 2.345 (4,3% ). Fonte s: Im Repubblica, 07.07.2000,
|t / liit| // w w w f-V^MStizi a. it /m is c/ St at is ti ch ed ap .h tm .
CONTROLE SOCIAL E DIREITO 159

Em todos estes casos, há uma evidente desproporção entre a parti


cipação do grupo na população carcerária e na popülação Jotal. Além
disso, as estatísticas indicam que as pessoas sancionadas com penas
mais graves pertencem aos grupos sociais mais pobres (Baratta, 2000,
p. 42 ; Wacquant 2 0 0 1 -a, pp. 97-107).
Finalmente, as autoridades encarregadas tia repressão perseguem
principalm ente crim es contra a propriedade, tais co m o o fur to e o ro ubo .
Fxemplo: na Alemanha, em 1993. 77,9% dos latos perseguidos pela
po lí cia correspondiam ao s delilos dc furto, dano c cslclionalo . 'l ai s
delitos são cometidos quase exclusivamente pelas camadas pobres tia
população, indicando que o sistema penal protege, na prática, os ben s
dos “privilegiados” (Smaus, 1998, p. 219).
A seletividade de classe é particularmente gritante no Brastl onde,
segundo o censo penitenciário de 1993, dois terçoá dos detentos são
negros ou mulatos, 76% analfabetos ou semi-analfabetos e 95% cncon-
tram-se na faixa da pobreza absoluta (Minhoto, 2000, p. 180). Além
disso, existe também uma forte seletividade de gênero nas prisões
brasi leiras, já que se constata a presença de um a porceniagem de m u 
lheres de cerca de 5 % ,9 conf irm ando a tese de que o sistema de justiça
penal é quase exclusivam ente masculino.
Para estes fenômenos podem ser dadas duas interpretações: as
autoridades controlam e sancionam de forma mais densa e rígida as
pe ssoas socialm ente desfavorecidas e de sexo m asculino, ou es te grupo
apresen ta o maior núme ro dc desviantes. Som ente uma pesquisa empírica
pode dizer qual é a e xplicação mais ad equada para um determ inado país.
Fm todo caso, eStas duas possíveis interpretações indicam que o

controle
pr in cí piosocial
da efetuado através
igualdade. O do direito,alvo
público não respeita,
do sistemna prálicá,
a penalo é definido
através de um processo de seleção social: trata-se principalmente de

(9' Em 2000 a porcentagem era d e 4,5% (fonte: htip://www.mj.gov.br/depen/


sipen/presosXsexo.htm). Sobre a situação das mulheres na prisão e as razões
que explicam a baixa taxa de encarceramento, cfr. Lemgruber, 2001;
Rostaing, 1997. Uma pesquisa realizada nas penitenciárias femininas de
São Paulo demonstrou a seletividade de classe: 84% das detentas tinham,
no máximo, concluído o primeiro grau; 80% exerciarri trabalhos precários;
40% tinham sido condenadas por tráfico dc cntorpeccntes, sendo elas mesmas
dependentes de drogas “pesadas”; 1R% eram infectadas pelo vírus HIV
(Teixeira, 2001).
i
i

IhO MANUAL DR SOCIOLOGIA SOCIOLOGA

homens, jovens, de baixo nív el de e ducação e desprovidos de recurs os


n econômicos. O sistema penal determina a reclusão, para eliminar pro
i blemas concretos e para intim idar as dem ais pessoas.
Onde está a igualdad e pro metida pelo Estado de direito? Onde es tá
i
;i proporcionalidade entre o crime e a puniçfio? Onde está a imparcia
u lidade dos órgãos estatais encarregados do controle social? A frase
irônica d o escritor francês Anatole France “é igualmente proibido aos
u lieos e aos pobres dormir sob as pontes” possui atí hoje validade.

i Para ir mais longe


i
Andrade, 1997; Baratta, 1997 e 2000; Bergalli e Bodelón, 1992;
i
Blankenburg, 1995, pp. 9 e ss.; Dimoulis, 2000; Ferrari, 1999, pp. 173
i e ss., 193 e ss.; Kunz, 1998; Minhoto, 2000; Pavarini, 1983; Santos,
i 1984; Smaus, 1998; Soriano, 1997, pp. 339 e ss.; Souto e Falcão, 2001,
pp. 311 e ss .; S w a an in ge n, 1997; Vag o, 19 97, pp. 190 e ss.; Vold,
i
Bernard, Snipes, 2002; Wacquant, 2001 e 2001-a.
u
i
i
i
i
i
i

H
i
i
i
i
i
i
i
l
i
• I

Lição 8

PROBLEMAS E MÉTODOS
DE PESQUISA NA SOCIOLOGIA .JURÍDICA

SUM ÁRI O: I. Int rodu ção - 2. Cara cterísti cas dos métodos de pesqu isa
na sociologia jurídica: 2.1 Formulação de hipóteses de trabalho; 2.2
Indu ção; 2.3 Objetividade - 3. Principais métod os de pesquis a: 3. 1
Observação; 3.2 Questionário; 3.3 Entrevista; 3.4 Trabalho com docu
mentos; 3.5 Estudos de caso; 3.6 Métodos expérimentais.

1. INTRODUÇÃO

Co mo trabalha o jurista- soció logo ? Co m o ele cheg a a d ete rmin ada ls


conclus ões sobre o funciona mento do sistema jurídico? Para pesqui sar
de forma adequada, ele deverá possuir uma boa formação jurídica,
mesmo se não for jurista de profissão.
Como já foi indicado, o jurista-sociólogo não faz interpretação do
direito e não emite juízos de valor sobre o direito em vigor. Ele adota
uma perspectiva de observador, examinando a aplicação e os efeitos
soci ais do sistema jurídico. Por conseqü ência , os m étodos da sociol ogia
jurídica sã o de cunho sociológico, voltados à observação das re la ções
entre este sistema e a sociedade.
O fat o de a sociologia juríd ica utili zar méto dos e técni cas das ciên
cias sociais indica que o conhecimento de certos temas sociológicos é
imprescindível a todo o jurista q ue se dedi ca ao estudo desta discipl ina.
Através do uso de técnicas e métodos adequados, o jurista-soció-
log o resguarda o caráter científico de seu trabalho. Assim, por e xemplo,
quando um estudioso indica que um a dete rmin ada lei carece de efi cáci a,
tal conclusão deverá estar fundamentada em trabalhos de pesquisa, nos
quais foram aplicados métodos e técnicas que garantem a validade
(ainda que restrita a um determinado lapso de tempo) da conclusão.
ifi’ MANiiAi, m: sonoi.ooiA j u r í d ic a

I’o i outro lado, é lie m verda de que até hoje persistem no mei o ,
acn dÍM iiu o discus isõc s acerca do c aráte r científico da s ociolo gia (o mesmo
i imhém oco rre com o dire ito). Diante desta s ituação, po dem os dizer que
ser científico significa, ao menos, fazer afirmações que possam ser
comprov adas (o u desm entidas) por outros observadores , o não so men te

manilcslai
I ')« )(). p. 2 sentimentos,
I ). opiniões ou experiências pessoa s ((loldtnorpe, 1

1 < AILU TI KÍS TK A S DOS MI IO DO S DK PI ÍSQIUSA N A


SOCIOLOGIA JURÍDICA

A palavra método provém do grego métodos que significa escolher


uma via (subentendendo: via para chegar a um resultado). Escolher o
caminho não significa que a viagçm terminou. Existe sempre a possi
I bilidade de er ros, de aventuras, de pro blem as não previs tos, que causam
1 "desvios”, e podem, inclusive, não permitir chegar ao fim desejado.
Porém, o pesquisador que se esquiva da tarefa de buscar o melhor
1
L
camin ho c planejar detalha dam ente a sua viagem, nunca obterá suce sso .
Pesquisar a realidade do direito, na tentativa dc compreender e
I
interpretá-la, pressupõe o uso de métodos aptos para o conhecimento
da realidade social. Estes métodos apresentam as seguintes caracterís
1
ticas gerais.
1
1 2.1 For mu lação de hipóteses de trab alh o
1
Pesquisar significa, primeiramente, definir um objeto de pesquisa
1 concreto. Por exemplo, pode ser escolhido o tema da “cifra obscura” de
furtos. Este termo indica o número de delitos que nunca foram desco
I
bertos pelas au to rid ad es.1
I
I ,l) Os estudo s empí rico s indicam que a cifra obscura é particularme nte al ta, já
l que a maioria das vítimas considera que a denúncia não terá efeitos. Uma
pesquisa reali zada na Grande São Paulo em 1988 demonstrou que 61,72% das
l vítimas dc Turto ou assalto e 55,67% das vítimas dc agressões físicas nfio
A denunciou os latos ocotridos !í polícia (Caldeira, 2000, p. 103). Na Alemanha,
o valor d as mercado rias dadas por "perdidas” pelas lojas 6 dez vezes maior
l que o valor dos fartos denunciados pelas mesmas, Mesmo nos delitos contra
I a vida a cifra obscura c alta. Na Alemanha, o mlmcro dc homicídios c dc
icnlativas dc h om icí dio s <* dc trís a cin co vez es maior do < ]ue o número d e
i denúncias relacionadas i\ pratica pestes delitos, que foram levadas ao conhe
i cimento das autorida des (Arz t, Weber, 200 0, pp . 302, 29). '
A

á
PROfiLF.MAX E MÉTODOS DE PESQU ISA NA SOCIOLOG IA JURÍD ICA |

Para examin ar o tema , o pesqui sador p oderá o ptar pela aplicação de


um questionário a divers as pessoas, p ergu ntan do se estas já comete ram
fur tos , D e ta l forma, o pesquisad or poderá c om para r o núme ro de fur tos
cometidos em determinado período corh o número de bdletins de ocor-
rPncias, lavrados neste mesmo período.5
O pesquisador, refletindo longamente sobre o tema e estudando a
bibliogra fi a disponível (pesquisas já realizadas, te orias gerais sobre o
assunto'), deve. em segundo lugar, estabelecer hipátvscs de trahtilho.
Isto significa formular pmposiçórs que vão guiar a sua pesquisa ("que
coisa vou perguntar?") e ao final serão ou não confirmadas pelos resul
tados obtidos com a pesquisa. As hipóteses de trabalho são definidas
pelos sociólogos com o “conjuntos de pressu po stos que orientam a
pes quisa, sem que se ja obrigatória a sua d em o n straç ão ” (Vila Nova,
1999, p. 142).
Na pesquisa sobre o furt o poderíam os, para dar um exem plo, fo r
mular três hipóteses de trabalho:
Primeiro, o número de furtos cometidos c muito maior do que os
furtos efetivamente punidos.
Segundo, os jovens, os homens e as pessoas de baixo nível educa
ciona l com etem mais furt os do que os idosos, as m ulheres e as pessoa s
com nível de educação superior. Isto significa que a idade, gênero e o
nível de educação são as variáveis que influem sobre a cifra de furtos.
A variável é definida como uma categoria sociológica que contém
dois ou mais valores e que influi sobre o tema pesquisado (exemplo: o
nível educacional que possui uma série de variações, indo do analfabe
tismo até a escolaridade de nível superior).
Terceiro, o grande número dos furtos impunes indica umh situação
de anomia parcial e a impossibilidade do Estado de controlar efetiva
mente seu território.

2.2 Indução
_ I
Como indicava Ehrlich (1986, pp. 361-362), os métodos da socio
logia jurídica são em geral indutivos. Vão do particular ao geral e não
o contr ário. O pesqu isador busca dado s particulares (informaçõ es sobre

121 Sobre os mét odos e problemas das pes quis as da cifra obscura, cfr. Kunz ,
19*?, pp. 290-311.
n

164 MANUAL DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

u
;i realidade do direito) e clepois os eluhoru para tirar conclusões gerais.’
No nosso exem plo, se rá necessário recolher dados sobre o com porta
mento delituoso de um grupo de pessoas e fazer uma elaboração destes
m
dados,
ormentepara depois confrontá-los com as hipóteses de trabalho anteri
formuladas.
Exemplo: se da pesquisa resultar qu e as mulheres cometem o mes
u mo nú mero d e furto s que os ho men s, será falsa a hipótese de que o fu rto
depende do gênero da pessoa.
Esta verificação permitirá ao pesquisador formular proposições
m gerais (o u “le is”) sobre o funci ona men to do sistem a jurídico. Exemplo:
após se terem efetuado, por dez anos seguidos, pesquisas sobre o tema
em toda a América Latina, poderá ser formulada uma “lei geral” sobre
as situações e as variáveis sociais relacionadas com o furto.
m

A utilização do méto do indutivo indica que a sociologia jurídica é


i

uma disciplina que se relaciona com a realidade social e objetiva fazer


uma descrição e interpretação. Os pesquisadores trabalham de modo
empírico para construir o seu co nhecimen to (“empírico” é uma palav ra
proveniente d o grego empeiria, que significa experiência). Sem a
m
“ empeiria", sem pesquisar a realidade social nas suas relações com o
direito (exemplo: analisar os efeitos da lei de respo nsabilida de fi scal n o
1
orçamento das prefeituras), e sem experimentar diferentes caminhos de
1
explicação, n ão é possível constru ir um saber teórico válido. Em outr as
1
palavras, não é possível confirm ar ou invalidar os conceitos e as te orias
1
aplicadas (verificação ou falsificação).
Um exe mplo: todos sabem q ue no Bras il persiste o grav e probl ema

da violência
forma policial;
arbitrária há policiais
e agredindo que não corporal
a integridade respeitame aoslei, atuando
bens de
da popu
m
laç ão, inclusive a plicand o tortura . O sociólo go do direito conhece est es
problem as através de sua experiência cotidiana. No m om ento em qu e
1
este decide estud ar a realidade jurídic a, n ão é, porém, suficiente afirma r
que “todo o mundo sabe”. Sua função é pesquisar a realidade com
1

métodos adequados e sustentar uma determinada tese, somente após


i

\
sua verificação.
v
m Induç ão significa estabelecer uma proposição g era l (ou lei) em base a dados
\ concretos ou proposições particulares. Trata-se de um método científico que
i
objetiva tir ar co nc lus õe s gerais e não sig nifica “sugerir ” ou “per suad ir”, como

na linguagem comum.
n
PRO BLE MA S li M ÉTO DO S Dl; PLSQI H.SA NA SOCIO I.lH.i lA JURÍDICA |,

2.3 01>jctivi<l;ulc

Cada pessoa tem as suas opiniões políticas, religiosas e sociais, Ia/


opções ideológicas e, muitas vezes, pensa e alua com preconceitos. (>
sociólogo do di reit o, com o qu alque r outro pesquisado r, deve, porém, lei
uma postura de neutralidade e objetividade. Muitos dizem que esia
neutr alidad e é i mpossível , porq ue o indivíduo não cons egue “dominar"
as suas idéias, preferências e paixões.
Além di sso, o s m étodos das ciência s h um anas caracterizam-se por
uma geral insegurança e as suas “leis” indicam tendências, e não uma
relação absoluta entre causa e efeito. As ciências humanas irabalham
com probabilidades e, muitas vezes, as suas leis revelam-se falsas.
Quand o dizemo s qu e, em gera l, nas prisões enco ntram -se pessoas oriu n
das das classes mais pobres, isto não significa que não são punidas
pessoas ri ca s. T am po u co estam os afirm an do q ue "todo pobre vai para
a cadeia". A afirmação do pesq uisado r de qu e o sistema penal é s elet ivo
indica somente uma tendência, que pode mudar com o tempo e que,
em todo caso, não oferece garantias absolutas de verdade e segurança
na previsão.
Contudo, o jurista-sociólogo deverá tentar ser objetivo e os seus
colegas deverão criticar seu trabalho quando assim não o for. Através
da discussão e da crítica, buscil-se atingir o maior grau possível dr
objetividade,
quados usando
para esta os métodos
finalidade. de pesquisa
A objetividade e de
é um controle
ideal da mais ade
comunidade
científica. Em outras palavras, a objetividade é uma das metas perse
guidas pelo conjunto dos cientistas que trabalham em uma área, exis
tindo entre eles relações de comunicação científica (encontros, con
gressos, publicações em revistas especializadas, livros e, mar.
modernamente, internet). A finalidade de tais atividades e a de di\ul
gar a s idéi as e os result ados dos trabalhos, su bm etend o-os à apreciação
crítica dos colegas.'1
Podemos agora afirmar que objetividade significa duas eoisas;
imparcialidade e adequação metodológica.

w Algumas vezes, a comunidade científica funciona em base a relações de


favorecimento pessoal, e os pesquisadores mostram desinteresse pelo traba
lho dos outros. Trata-se de fenômenos patológicos, que prejudicam a c|ii.ili-
dade da pesquisa e impedem a produção e o controle do conheeiniftiuB
manu A i . d h s o c i o i .o gi a j u r í d i c a

a) Im parcia lidade. O cientista deve tentar controlar as suas opini ões


pessoais , não p erm itin d o interferências no seu trab alh o. C o m o ci da dã
posso expressar u m a opinião, positiva ou negativa, sobre a polí cia
militar; como pesquisadora que se ocupa do tema da violência policial

nã ominhas
iIo poderia,coemnvicçõ
nen eshumpessoais.
mom ento,
Exis direcionar
tem aquia minha pesquisa
mé todos de scontroleegun-
da
subjetividade como, por exemplo, fazer com que outros pesquisadores
irpiiam o mesmo Irahalho, comparando os resultados c investigando a
( ausa dc even tuai s div erg ên cias ,
h) Adequação meto doló gic a. Os mé todos utilizados deve m perm itir
a objetividade dos resultados. Se aplicasse um questionário somente
enlre os meus amig os, n ão po deria fazer uma p esquisa objetiva e vá lida.
Aqui está o problema da validade de uma pesquisa empírica, que gera
grandes controvérsias. Existem três regra.'; de objetividade que podem
ser referidas aqui:

Representa
iij bjeb la) violência tivid ade.
policial, n ãoQuand
pod emo os
pesq uisamos aa todos,
entrevistar opiniãodado
dbs j ouiz es
alto
custo de uma tal pesquisa. Então devemos seleciona'", de moJo repre
sentativo, alguns juizes entre toda a magistratura. O número total de
ju iz es constitui o q ue se d eno m ina universo de pesquisa, enquanto que
0 grupo sel ecionado consti tui a amostra. A idade, o gênero, a classe
social, o grau de formação, os anos de serviço, o tipo de tribunal, as
características da comarca na qual trabalham, devem ser levados em
consideração, para garantir a representatividade dos resultados. Exem
pl o: se entre todos os juizes brasileiros, a porcen tagem de mulheres é
de 25%, a nossa amostra deve incluir 25% de mulheres para representar
a fcstmttira de gênero da magistratura.
Tais critérios permitem selecionar uma parte do grupo, conside
rando-a representativa, porque suas características são semelhantes as
do univ erso da pesquisa. Os resultados da pesq uisa com o gru po res tri to
da amostra podem ser considerados como reflexo da opinião do uni
verso da pesquisa. Existe uma regra: quanto mais critérios de repre-
•(‘Mlatividade são utilizados para escolher a amostra, mais fidedigna
será a pesquisa.
o uso dos recur sos da estatística e da informática e a ajuda de
especialistas são necessários para construir uma amostra verdadeira
mente representativa (amostragem representativa). Isto constitui uma
tafSTil difícil, porque é preciso conhecer todas as características do
PROBLEMAS E MÉTODOS DE PESQUISA N A SOCI OÍ.OGI A JURfDICA | f, 7 f
]•
(
universo de pesquisa e fazer uma èscolha alenta do grupo a ser anali
sad o. Muitas pesquiàas são feit as, por falt a de recufsos, com uma am os
tragem não controlada (amostrúgem aleatória ou “randômica”5).
Exemplos: um pesquisador entrevistou aleatoriamente os primei
ros 200 pedestres que enfcontrou, sobre furtos, achando que o número
é bastante significativo. Ninguém'garantirá, porém, que esta amostra
é representati va de toda a popu lação da cidade. Mais confiável , e aind a
insuficiente, seria escolhcr um bairro, onde moram pessoas dc várias
classes sociais, entrevistando moradores dc casas c prédios com nú
mero ímpar. Tais pesquisas são interessantes, mas o valor dos resul
tados é limitado.
b2) Grupo de comparação e de controle. Quando pesquisamos a
atuação ou a opinião de um determinado grupo db pessoas (exemplo:
opinião dos policiais sobre as causas do crime) devemos fazer a mesma
pesquisa com um grupo profissional diferente ou co m um a amostra
representativa da população em geral, para poder comparar os resul
tados. Efetivamente, dizer que os policiais acreditam que a causa
pri ncipal do crim e é a parca escolarid ade dos cidadãos, significa muito
pouco. N ão sab em o s se se trata de um a o p in ião característica deste
grupo (“ideologia profissional”) ou de uma opinião geral, mesmo de
que m não é policial. j !
Se constatarmos que um outro grupo profissional (exemplo: os1
advogados), ou a população em geral, exprime opiniões diferentes
sobre as causas da criminalidade, então poderíamos concluir que os
policiais , devido ao se u trabalho e a sua form ação, ex prim em opiniões

específicas.
O mesm o acontece com uma pesquisa realizada em cidadd s do
interior: as opiniões expressas são próprias da mentalidade do interior
ou correspondem a idéias difundidas entre tocla a população? Podemos
responder esta questão somente se compararmos os resultados obtidos
no interior com aqueles obtidos junto a pessoas que moram nas ca
pitais. E m outras palavras, não po d em o s co n h e ce r as características de
um grupo se não o comparamos com outros, para estabelecer seme
lhanças e diferenças.
b3) Uso de todas as variáveis relevantes. Se pesquisarmos a eVo-
1ução dos divórcios em relação ao des em preg o, p oder ia ser e stabelecida
uma relação de proporcionalidade entre os dois (aumentam ao mesmo
t5) D o te rmo in gl ês ra n d o m que significa “aleatório”.
MANltAJ. DF. SOCIOLOGIA JURlDICA

Irnipo). Isto não significa que se trate de uma verdadeira relação entre
cmisa e efei to. Para identificar as verdade iras causa s deve mos pes quis ar,
íio mesmo tempo, todas as variáveis que poderiam influenciar o fenô
meno. Além disso, a relação estabelecida deveria ser estudada através
dc outros métodos, levando-se, também, em consideração outras pes-
ffiiisas O falo de que dois
nill.í a obrigatoriamente que índices
um delescresçam ao mesmo tempo,d onilo
seja a causa sig-
outro. O tema é
com plicado c exipe muito cuidado.
Ilasta a< 111í dar um exemplo: se cada ve/ (|tie eu saio de casa há sol.
iss o não signifi ca qu e a minha saída p rovoca o apar ecim ento do so l! 0
mais provável é que as duas situações sejam independentes, apesar de
Urrem uma evolução comum por um determinado período.

i. PRI NCIP AIS M ÉTO DO S DE PESQUISA

A escolha do método de cada pesquisa depende de dois fatores:


Dos recursos disponíveis (tempo, dinheiro, número de pesquisa
dores). Um pesquisador isolado ou um aluno que prepara um trabalho
dc seminário pod em produzir meno s do que um grupo de pesquisa com
rpoiO institucional, que teria condições de empregar métodos mais
desenvolvidos e mais confiáveis. Como em qualquer outra atividade
social, os recursos materiais influem sobre a qualidade do “produto”.
Do objeto de pesquisa. Quando pesquisamos a opinião das pes
soas sob re um assunto jurídico (exemplo: a legit imidade de uma norma
niiídica) é necessário aplicar métodos de contato pessoal, como a en
trevista. Quando pesquisamos fenômenos objetivos (exemplo: a com
posição da p o p ulaçã o carcerária), deve m o s em pregar m étodos de tr aba
lho quantitativo e impessoal (atas, estatísticas).

Podem os agora exa minar os métod os de pesquisa empíric a, uti liz a


dos pelos jutistas-sociólogos.

í I O bser vaç ão

O cient ista observ a o com porta me nto dc um grupo (ex empl o: as


práti cas dc solução de conflitos em u m a favel a, os m odos d e decis ão do
júri). Bxiste m duas possibilidades:
Obsrrvaçf lo /> urticipnntr Aqui o p esq uisad or faz parte do gr upo,
por exemplo, m ora provisoriam ente ou fre qüenta com assiduidade uma
fa ve la , com partind o as ati vidades da com unidad e e sendo “ aceito” como
PROBLEM AS E MÉTO DOS DE PESQUISA NA SOCIOL OGIA JURfDICA 1^)

\ :! I
morador ou amigo. Isto lhe permite ter acesso k muitas informáçõe,
atr avés da participação intensa na vida soc ial e das rela ções de amizad e
com os membros do grupo. O pesquisador que se limita a entrevistar
alguns moradores da favela, nunca terá acesso à mesma quantidade dè
informações.
Uma recente c interessante pesquisa de observação participante foi
realizada por Zaitch (2001) sobre o tráfico de cocaína na Holanda. O
pesquisador freqüentou o ambiente cios traficantes colombianos na
I lolamla (lo i ais de p tnslilu ição , bare s, cl ist oU va s, re sid em ia s ele .) paia
poder estudar o mundo “fechado'' det comércio ilegal da cocaína/'
Ap esar de seu grande valor informativo, a p esq uisa participante cri a
problem as de objetividade. Q u e m se envolve em o cio n a lm en te co m uijStj
grupo de pessoa s, nem sempre consegue m anter uma dis tânci a que lhi
permita avali ar o co m p o rtam e n to do grupo, isto é[ dificilmente p ode sár
um observador neutro.
- Observação não participante. O pesquisador atua como pfcssoà
“externa” e "silenciosa”. Isto é o caso de um cientista que observa b
funcionamento de um tri bunal do júri sem e nvolv imento co m o processo
decisór io e sem contato pess oal com os me mb ros do trib una l. O mesmo
acontece com o pesquisador que entra em uma prisão por poucas hdraís
ao d ia, para observar a situação e entrevistar os reclusos, sem co mpartf- ,
lhar a vida cotidiana, sem tomar conhecimento direto dos problemas e
conflitos, ou seja, sem experimentar pessoalmente a vida na prisão.
As vantagens e as limitações deste método de pesquisa são as
inversas da observação participantel garante uma maior objetividade,
sem, porém, oferecer um amplo acesso à situação pesquisada.

3.2 Qu estio nário i

O cientista prepara as folhas de pergu ntas sobre o assunto e àá


entrega ao grupo escolhido (amostra), pedindo o seu preenchimento
sincero e cuidadoso. Os questionários são, em £eral, anônimos, para
assegu rar a confi abili dade, send o que muitas pesso as evitam responder
a perguntas pessoais quando devem indicar o próprio nome.
Muitas vezes os formulários são respondidos em presença do pes
quisador, que motiva o perguntado a responder com seriedade. Em

1(M Para uma pesqui sa participante no Brasil, cu jo obj eto foi a es tru tur a e atuaçã o
cia polícia civil em São Paulo, cfr. Mingardi, 1992.
MA NIIA l DE SOCIOI.OGI A JURÍDICA

i.lnüns casos o pesquisador formula as perguntas preestabelecidas e


iiimin ns lespôiius, sem discutir livremente com o entrevistado.
( )s que stioná rios de vem ser prepara dos seg undo regras e strit as para
C.ai mi.ii a confia bil ida de e a riqu eza inf orm ativ a das resp ostas. Alé m das
|HMj',tmias sobre o assunto pesquisado, devem pedir informações sobre
.11:1cliMÍstu as pessoais daquele que responde o questionário (gênero,
11Iidi renda profissão, lugar de moradi a etc .), permi tindo assim uma
i I 1 líít ação das respostas secundo critérios dc srcem social. Exem-
l*l(i 1' inieiessanlc saber c|iie 65% dos pesquisados cometeram, pelo
m&ios, uni furto nos últimos cinco anos. Os resultados são, porém,
muitO mais “ricos” se podemos saber que as mulheres furtam muito
m< nos do que os homens.
()s questionários devidamente preenchidos fornecem uma série de
informações sobre os comportamentos e as opiniões das pessoas. Isto
perniue ao pes quisa dor te r acesso (indireto) <1 realidade do direito,
bxistem tr ês principais categorias de questionários:
Perguntas abertas. O respondente deve escrever uma resposta
pesso al. Tai s perguntas são form uladas em pesquisas sobre 0 conheci
mento do direito pela população. Exemplos: “O que é o delito de
lat rocíni o c como é pu nid o?” “E m que condiçõe s deve ser per mitido a o
pieso trabalhar fora da prisão?”
Per gun tasfec ha da s (“sim ou não”). A pessoa consultada escolhe
11111,1 respo sta. As respostas podem ser facilmente quantific adas, segun
do as categorias dos respondentes. O método é utilizado em pesquisas
iclativas à opinião sobre o direito. Exemplos: “Você concorda com a
a Íirm aç ão de que o ab orto deve ser pun ido ?” “Você acha que os trib unais
protegem igualm ente os ric os e os p ob res? ”
Perguntas "escaladas”. Trata-se de perguntas de múltipla esco
lha, onde 0 respondente indica aquela que melhor corresponde à sua
opinião. A técnica é utilizada em pesquisas sobre o impacto de leis e de
decisões judiciais na população. Exemplos:
“Como você julga a lei sobre os crimes hediondos? Mui'o boa?
Iloa? Regular? Problemática? Ruim? Sem opinião?”
“Você acha que a iniinputabilidade penal dos jovens deve ser:
Ampliada? Restringida? Ficar como está? Indeciso?”
O questionário é um método de fác il aplicação e de baixo cu
iilnecrndo bons resultados, se bem preparado. Isto não é tão simples
aanui poderia parecer à primeira vista. Existe o perigo de formular
perguntas muito abstratas, que não ofere cem inform ações concreta s
PRORLE MAS E MÉTODO S DE PESQUISA NA SOCIOLOGIA JURÍD ICA 17|
I 1 !

(exemplo: “Você gosta do Ministro da Fazenda?”); difíceis no enten


dimento (exemplo: usar termos com o “reclu são” ou “re ceptação” ); mui tó
pe sso ais, on d e a resposta dificilm ente será sindera (exemplo : “V oc ê
já com eteu estu pro?”); ou perguntas que sugerem um a determ inada
resposta (exemplo: “Você tem alguma dúvida que os povos dèvetfl

buscar a p az ?”).
1 Anot amos fi nal men te que exi st em méto dos p ar a cont rol ar a
credibilidade das respostas. O mais simples consiste cm repetir algumas
pergunta s duas ve zes com form ulação dií ervnln . Exemplos: “A falta de
educação é causa da criminalidade?” “O alto nível de educação permite
limitar a criminalidade?” Se a resposta for cada vez diferente, isto
significa que o entrevistado não resp ond eu com; a devid a aten ção e a <|'
folha de respostas deve ser descartada.
;
3.3 Entrevista
i
Este método implica em um contato pessoal do pesquisador com o
grupo de amostra. As pergun tas são prep arad as co m antece dência C
devem possibilitar a interação entre entrevistador e entrevistado. Estê
procedim ento perm ite coletar um núm ero m a io r de inform ações, con s
tit uindo , assim, a p rinci pal vantage m em com parâ ção c om o questionái
rio. Contudo, apresentam-se problemas de objetividade. Na entrevista, .
o pesq uisad or não recolhe som en te dados: o contato pessoal influi S obre
as respostas do entrevistado e sobre a avaliação da entrevista por partfe
do pesquisador. A entrevista é uma técnica de alto custo, que pressupõe
treinament o e grande ex periência do entrevistador , para poder dirigir ã
sessão com neutralidade e proveito informativo.

3.4 Trabalho com documentos


} l
Trata-se da pesquisa e avaliação de docu men tos, q ue oferece info r
mações sobr e a prática do sistema jurídic o: ofícioè , contratos, testa men
tos, decisões arbitrais etc. Exemplo: trabalhar com boletins de ocorrên
d a para constatar,o grau, as características sociais e as causas da vio
lência familiar. É um método de baixo custo e facilmente manejáve).
Aqu i se apresentam dois perigos: i
( ,

- Não-repre sentatividade. Não há garantia de que todos os casos


relevantes cheguem até as instâncias oficiais, nem que os casos regis
trados sejam representativos do fenômeno. Exemplo: um estudo sobrè
a aplicação da legislação trabalhista em base a decisões da Justiça do
11? MANIIAI. !)[•■ SOCtOl-OOIA JlFRfHICTA

Trabalho (lipos de violação, características dos patrões e dos eftiprega-


ilos) , não ofcrecc tuna ima gem fiel da realidade. Nem todas as infra ções
chegam ao conhecimento dos tribunais, e aquelas que chegam não são
representativas da totalidade. É muito mais provável que pessoas de
melhores condições econômicas procurem a Justiça do Trabalho com
maioi íreqilÊncia, do que pessoas com menos escolaridade e menos
recur sos. Porem, estas ultimas ap resentam uma maior probabil idade d e
serem vítimas de exploração ilegal.
Disto rç ão <hi re alidade. H muito comum que os redatores de um
docum ento ofi ci al ap resente m uma versão subjet iva d a situaç ão (exem
plo: quando d escrev em o co mp ortam ento de um suspeit o), que sej am i n
fluencia dos p or ideolo gias profissionais (exemplo: estereótipos sob re o
crimin oso) ou, incl usive, registrem inform açõ es inexatas (exemp lo: a pre
sentar com o “es pon tâne a” acon fissã o do suspe ito que, na verdade, fo i fruto
dc uma pressão ilegal praticada pela polícia). Mesmo os dados “objeti
vo' .” que enc on tram os em um con trato de vend a (d ata, pre ço, condições ),
nem sempre correspondem à verdade. E m todo caso, o pe squis ador de ve
i (Tolher um g rande núm ero de ata s provenientes de um p eríodo rel ati va
mente longo (exemplo: boletins de ocorrência de várias regiões, redigi
dos em período de de z anos) para garantir uma cert a confi abili dade.

3.5 Estu dos de caso

0 estud o de caso é um método pouco utili zado na soci ologi a jurí


dica Aqui o pesq uisad or estuda detalhadam ente um caso in div idu al,
que apresenta um interesse part icula r, seja porque é considerado exem
plar (is to é, representativo de muitos outros casos parecidos), ou porque

ó considerado extremo (isto é, indicativo de uma situação “limite”).


Um sociólogo do direito pode, por exemplo, dedicar-s e ao estudo de
um processo de corrupção . E le deverá anal isar , m inuciosamente, tod a a
evolução do caso, es tudan do o processo, entrevistando as pessoas en vol 
vidas , realizando um a co mp leta análise sobre a srcem soci al e a atua ção
dos protagonistas etc . N a França, por exemplo, realizou- se um estudo d e
Sfiso sobre a influência do direito de heranç a nas relações pessoais ent re
os mem bros de uma família (c fr. Papac hristou, 198 6, pp. 33-34) .

V(> M ltn do s exp eri me nta is

1 malme
i .Mtnlos nte é possível
dc relevância a utilOização
jurídica. de métodos
e xpe rime experimentais
nto consiste e
na reprodução m
PR OB LEMA S P. MÊ,TODOS DE PES QU ISA NA .SOCIOI.OGIA JU RÍD ICA | 73

de um fenômeno sob condições controladas pelo pesquisador. A orga


nização de experimentos é particularmente difícil e arriscada e por isso
0 método nüo é freqüentemente empregado pela sociologia jurídica
(Atias, 1994).
O método experimental mais comum é o do psicodrama. Pode-se,
po r exemplo, montar um trib unal do júri sim u lado , par a estudar
reações de todos o s participantes d iante do acusa do, as suas idéias sobre
a justiça e o sistema jurídico etc., considerando que as reações dqs
mesmos são‘representativas da atitude da população cm geral.
Muitas vezes os pesquisadores organizam experimentos em parale
lo, alterando, em cada um deles, um determinado fator para verificar a
sua influência no resultado final. No caso do júri simulado, o pesqui
sador pode colocar, suce ssivam ente, no papel d o réu, pesso as de gê nef r),
cor ou idade diferente, para verificar a influên cia debtas variáveis sobre
o comportamento dos participantes.
Um caso particular é o experimento legislativo, que pode ser arti
ficial ou real. Um experimento legislativo artificial pode ser realizado
manipulando as regras em vigor. Exemplo: alterar a sinalização do
trânsito e observar o comportamento dos motoristas. No âmbito da
psicologia jurídica são r ealizados e xperim ento s ar ti fi cia is , que o bjetivam
medir a “consciência jurídica” da pop ulação, criando um confli to entr e
0 sentimento de justiça e a regra em vigor. Podem ser colocadas, por
exemplo, em uma agência dos correios placas qué separam a fila de
espera dos homens da fila das mulheres; os pesquiéadores observam o
comportamento das pessoas diante desta regra claramente discrimina
tória: Cumprimento? Violação? Protesto?
1
O experim ento legi slat ivo pode tamb ém ser real (Papachris tou,
1984, pp. 156-158; Rehbinder, 2000, p. 64). Isto acontece quando o
legislador altera determinada norma por um período probatório, reser
vando-se o poder de decidir definitivamente após ávaliação dos resul
tados. Exemplo: a lei que aboliu provisoriamente a pena de morte no
Rei no Unido entre 1965 e 1970 . Após o termo do p er ío di experimental
a medida foi adotada definitivamente, sendo que não se observou um
aumento do índice de criminalidade nos delitos anteriormente punidos
com esta pe na. O legisl ador considero u q ue a ameaça da pen a de morte
não inti midava os potenci ais delinqüente s m ais do qu e a pena de reclu
são, entendendo não ser necessário restabelecer a primeira.
Um outro exem plo oferece a l ei francesa de 197 5 que permitiu o abort o
em casos de agudos problemas sociais da gestante. A lei foi introduzida
MANUAI. DP. SOCIOLOGIA JURÍDICA

pm jjin paríodo exp erim en tal dc cinco anos. Diante da aceitação so cia l
dc li- lOMilíimnilo, unia lei de 1979 o ad oto u defin itiv am en te. 7
I m geral, após unja mu dan ça legislativa é possível realizar um
exprimiento real comparando o impacto da velha e da nova norma
(t li ito s sociais, eficácia, ad equ açã o interna - Lição 3, 2 ).
Os experimentos legislativos não são plenamente confiáveis. Os
Inliircs (|iic influem sobre a eficácia de uma lei são tão numerosos que
i i po de m os saber com certcza sc a mu dança no coin por lam cnto das
|u ci;i>; loi devid a à al te ia çã o do con te úd o da norm a ou a outras causas .
bxemplo: no referido caso de abolição da pena de mor*c não prde-
11Hi il n mau co m cc rtc /a sc a estab ilidad e do índice d a crim inalid ade no
pei iodo expei imental foi devida à mudança da norma ou a outros fatores
ii tar. (policiamento mais intensivo; mudança da situação econômica
|m>111ii i, pJnTIi ea d e p r e v e n ç ã o ) . 11

Dirri ir m a is lo nge

Brandão, 1981; Carbonnier, 1979, pp. 261 e ss.; Ehrlich, 1986, pp.
Uil e ss.; Ferrari, 1983, pp. 59 e ss.; Herkenhoff, 1993; Lévy-Bruhl,
1‘iKX, pp. 97 e ss.; Macionis e Plummer, 1997,.pp. 34 e ss.; Rehbinder,
.>000 pp. ss.; Rosa, 19 81 , pp. 213 e ss .; Soriano, 19 97, pp. 18 e ss.;
.Souto t l;alcão, 2001, pp. 35 e ss., 267 e ss.; Souto e Souto, 1997, pp.
I') e ss , Tre ves , 1977, pp. 140 e ss.; Tre ves , 1996, pp. 20 2 e ss.; Vago,
I‘><1 /, p p 71 e ss.

Kxniiplo dc experimento legislativo no Brasil constitui o “Regimento interno


padr ão dos es ta be lec ime nt os prisionais do Es ta do de São Paul o" , publicado
pela Secr et ar ia da Ad minis tr aç ão Penite nc iá ri a em 1999. O art. 143 p revê que
o ic-pm icnt o terá validade pelo prazo de seis mes es “em caráter exp erimen tal” .
A t]iinnto sc sabe nada foi deci dido sobre um a eventual prorrogaç ão (agradeço
a informação do Professor Eduardo Fanganiello).
I’aia i arantir a confiabilidade dos experimentos legislativos seria necessário
■ riar um erupo dc controle. Isto pode acontecer se a l ei experimental fo r
iniiodti/.ida cm uma região do país e seus resultados comparados com os
nbti dos em outras regiões, onde continua em vigor a a ntiga norma (Pap achristou
|ÇK4 pp I£6 -ISR; Rehbi nder, 2000, pp. 64-65).
Lição 9
i
ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL E DIREITO

SUM ÁRIO : I. Introdu ção - 2. Perspectivas soc iol óg ic as dc análi se das


classes sociais: 2.1 Abordagem qualitativa e quantitativa: 2.2 Aborda
gem objetiva c subjetiva; 2.3 Mementos de definição da classe social
desigualdade, mobilida de, legit imação - 3. As classes sociais na pers
pect iva d a soc iol ogi a jurídic a: 3.1 Direito mo der no o ''neutralida de de
i lasse" ; V2 In lei rss es <lr cla sse c f otma çil o do J.is lein:i juiít lico; 3.3
Classes sociais c aplicnçüo do direito.

i
' ' I , 1 ‘
1. INTRODUÇÃO

No âm bito da sociologia o problem a das classes sòcia is nã o £


analisado do ponto de vista político das doutrinas sociais, mas do ponto
de vista objetivo-descritivo. Isto significa que os sociólogos analisam
o fenfl meno evitando tom ar uma posiç ão em relação it o tema da “justiça
social”. Todos os sociólogos constatam a existência de classes sociais
nas sociedades modernas e analisam esta questão sob o prisma da

estratijlcação socinl. ,
O termo “estratificação” é utilizado na geologia para indicar a
estrutura das rochas que são compostas por diversas òamàdas ou estra
tos. As ciências sociais utilizam o termo metaforicamente, para indicar
que a sociedade é dividida em vários gru pos sociais, constatando-se um
fenômeno de superposição ou hierarquização dos mesmos.
O tema é de alta importância para a sociologia jurídica, que se
encontra em uma situação paradoxal. Por um lado a sociologia mostrá
que, nas sociedades atuais, existem classes sociais e indica as grandes
diferenças entre elas. Por outro lado, o direito ign nra as classes soci ais .
Não encontrarem os um a norma penal que puna som e nte os desem pre
gados, nem uma norma de direito civil que permita somente à classe
I I( t MAN II AI. n r SOCIOI .OGIA JURÍ DICA

I
nUícjia al ia casa r-se O direilo é, com pou cas ex ceções , “n eut ro” . Con-
Mil( t!i Iodos os indivíduos livres e iguais. Assim sendo, a sociologia
nnídh i deve abordar as seguintes questões:
•i) Por que o direito moderno não leva em consideração as classes
soe iais existentes?
b) C o m o incidem os in teresses de cada classe para a formação
•iislftma jurídico?
i ) Uual a inllu cn cia da cla sse s ocia l paia a ap lica ção do dircilo?
Antes dc respon der a e stas questões devemos aprese ntar, brevem en-
le. a problemática sociológica da estratificação social.

2. PERSPECTIVAS SOC IOLÓ GIC AS DE ANÁ LISE DAS CLAS


SES SOCIAIS
I
2.1 Abordagem qualitativa e quantitativa

O primeiro problema da análise sociológica das classes sociais


rclere-sc ao número de classes existentes ou, mais precisamente, ao
crité rio que será adota do p ara identif icá-la s. Aqui existem duas tendên
cias principais: a ma rxi sta e a web erian a. ■
Quem segue a análise marxista considera que as classes resultam
das car acter ísti cas do modo de produção predominante em cada soci e
dade. O modo de produção define-se como um sistema social que
organiza a atividade econômica, segundo um determinado modo de
distribuição dos meios e das posições de produção. O marxismo afirma
que em cada modo de produção encontram-se duas classes principais:
os proprietários dos m eios de pro dução e os demais, ou seja , os por eles
explorados.
Os capitalistas são proprietários dos meios de produção e do pro
duto final. Os operários detêm somente sua força de trabalho, sendo,
porém, do ponto d e vista jurídico, p lenam ente livre s e possuindo os
mesmos direitos que os detentores dos meios de produção.
No feudalism o os cam po neses possuíam a terra, os instrumentos de
produção e inclusive o produto. D eviam entregar um a parte deste últ im o
ao proprietário da terra, com o qual era m ligados por múltiplos laç os e
obrigações dc obediência pessoal. Na sociedade escravocrata conside-

rava-sc
força deotrabalho
escravoecomo uma objeto,
mesmo privado
sua prole de qualquír
pertencia direito.
ao senhor, A sua
que tinha a
RSTRATIFICAÇAO SOCIAI. E DIREITO 177

obrigação legal de sustentar o escravo, satisfazendo as sitas necessida


des vitais.
Assim sendo, cada modo de produção caracteriza-se por relações
diferentes entre os membros da sociedade e influi sobre a formação e
a atuação das classes sociais. Um capitalista atua de forma diferente^le
um senhor feudal ou de um escravocrata; um trabalhador assalariado
possui um stalus social e juríd ico radica lme nte diferente do servo
medieval ou do escravo.
Para os marxistas existem nas sociedades atuais duas classes prin
cipais: os capitalistas e os proletários. Estas classes resultam da estru
tu ra fundamental do m odo de p roduç ão capitalist a. C ritério de definição
é a relação de cada uma com os meios de produção. Aqueles que
possuem m eios de produção (o s capitalistas) não só co m p ra m a forç a
de trabalho dos demais e os exploram, mas também influenciam o
exercíci o do poder pol íti co. Aqu eles que não possuem meios de produ
ção (o s proletários ) são subme tidos à exploração e à dom inação. Outra s
classes (como a pequena burguesia) p o dem existir, d ep e n d en d o da
forma histórica concreta do capitalismo em cada país; estas classes não
são, porém, fundamentais para a evolução social, que é considerada
como produto da luta entre as classes principais. As classes intermédias
seguem, dependendo da situação, a orientação e os interesses de uma
das classes principais.'
Os sociólogos que seguem a linha de Max Weber admitem, ao
contrário, a existência de uma multidão de “estam ento s” o u “grupos de
status". Nesta perspectiva é impórtante especificar a localização do
indivíduo na estratificação social, segu ndo critérios mú ltiplos. Assim se
diferenci am os grupos sociais em função de caractèrísticas como: gra u
de educação, nível de renda, tipo de profissão, religião, espaço de
moradia (rural ou urbano), comportamento, prestígio e mentalidade.
Criam-se assim, variadas classificações, que podem compreender
até mais de vinte camadas sociais. Os dois principais critérios de defi
nição dos diferentes grupos de status são, segundo Weber, as oportu
nidades de vida (acesso a bens e serviços, isto é, ás possibilidades de
consumo) e o es til o de vida (com portam ento, valore s sociais e rel igio
sos, aspirações) (Weber, 1991, pp. 199 e ss.; 1999, pp. 176 e ss.).

111 Para uma apr esentação d apers pectiv a marxista, veja: Poutantzas, 1974; Balibar,
1985; Wright (org.), 1998; Milios, 2000 ; Dim oul is et a i., 2002, pp. 4-12.
A perspectiva weberiana utiliza múltiplos critérios para definir a
lasse social. Bin última análise prevalece, porém, o critério da renda
tios indivíduos, já que critérios como a profissão, o nível educacional
c o prestígio social são estreitamente relacionados com a renda (Smaus,
pp. 2 0 0 - 2 1 3 ) .
A diferença está no fato de que os marxistas utilizam o critério
econômico de forma qualitativa (posse ou não de meios de produção),
sendo 1111c os web erian os realizam um uso quantitativo (o ní vel da rend a
iitfde a dilerença de classe). Pot isso, podemos dizer que existem duas
pim i ip ais linha s de definição das classes socia is na sociologia: a pers
pecti va qualitativa (marxista) e a perspectiva quantitativa (weberiana).
Da perspectiva marxista resultam locuções da vida cotidiana corno
“classe operária” ou “trabalhadores”; da perspectiva weberiana, termos
com o “elasse.,média alta” c . “classe m édia b aixa” .
f
2.2 Abordagem objetiva e subjetiva

Um ulterior problema refère-se ao aspecto objetivo e subjetivo das


classes sociais. Devemos adotar um critério objetivo para definir a
posição do indivíduo na sociedade, ou concentrarm o-nos na su a “c ons
ciência de classe” (critério subjetivo)? Em outras palavras, devemos
considerar como “proletário” todo aquele que vive vendendo a sua
íoiça de trabalho (exemplo: um pedreiro), ou somente os membros da
classe operária que são conscientes de sua posição de classe e lutam
contra a exploração (exemplo: o metalúrgico que participa no movi
mento sindicalista)?
Os parti dário s da primeira abordagem consideram com o decisi va a
posição do indivíduo na estrutura de produção, independentem ente do
que ele pensa e de co m o ele age. Resulta assim, uma definição objetiva-
econômica de classe.
A segunda abordagem constata que pessoas com posição econômi
ca semelhante apresentam grandes diferenças de estilo de vida e de
comportame nto. Um proletári o consciente que atua em sindi catos é , p or
exemplo, totalmente diferente de um colega “alienado”, que adota os
valores e a s opiniões da classe dom inante. A classe socia l deveria, entã o,
sei definida levando em con side ração as escolha s do indivíduo, o u seja ,
a sua “consciência de classe”, que se exprime no comportamento coti
diano. Privilegia-se assim uma definição subjetiva-política da classe.
RSTRATIFICAÇÃO SOCIAL F. ntRP.lTO I7<)

Em geral, os sociólogos adotâm a perspectiva objetiva, conside


rando que a definição subjetiva é relevante para à análise do compor
tamento político dos vári os grup os soci ais, tema de interesse da ciência
polít ic a.
i
2.3 Elementos de definição da classe social: desigualdade, mobili
dade, legitimação

Todos os sociólogos concordam que, na maior parte das sociedades


humanas, inclusive nas atuais, constata-se uma evidente desigualdade
social. Os indivíduos são distribuídos em diferentes grupos (camadas
ou e strat os soci ais), que apresen tam um a relati va estabilidad e e ocupam
uma posição diferente na hierarquia social. Esta hierarquia influi sobre
o modo de vida, as escolhas políticas, a men talid ade, o trabalho e a renda
dos indivíduos.
Os sociólogos também concordam que existem sociedades com
estratificação fechada e outras com estratificação aberta. No caso da
estratificaçõo fechada , o indivíduo não pode mudar a sua posição,
porque há li mit es socia is e legais praticam en te insuperáveis. Est e é o
caso das sociedades divididas em castas ou estamentos, legalmente
prote gidos. A índia consti tui, até hoje , um ex em p lo dc sociedade de
cas tas . A org anização soci al em vigor na Europ a du rante a Idade Média
era fundamentada na divisão em estamentos legalmente protegidos.
A estratificação aberta encontra-se nas sociedades capitalistas.
Estas sociedades são denominadas de “sociedades de classe abertas”,
porque se constata o fenôm eno da mobilidade social , ou seja, a freqüen
te mudança de status social dos indivíduos (Rehbinder, 2000, p. 43).
Estes podem alterar sua posição dentro de uma classe. Um trabalhador
de fábrica que migra do Nordeste para São Paulo pode encontrar um
trabalho mais bem remunerado e melhorar suas condições de moradia,
de lazer, de educação dos filhos no contexto urbano, ascendendo na
escala social. Esta é a mobilidade horizontal.
Um indivíduo pode também mudar de classe social. Neste caso
temos uma mobilidade vertical. Tais mudanças podem ocorrer no ca
pit ali smo m esm o de um dia para o outro (ganhando na Mega Sena
milhões de reais) e são mais freqüentes entre gerações. Os meios mais
procurados de m obilidade so cial são a ed ucação e o casam ento com uma
pessoa de classe su perior, que perm ite m elhorar o nív el de renda e o
I#
t I HO MA NUA L DE SOCIOLOGIA JURÍDIC A
i
i stOtus social. A importância da educação no processo de mobilidade
i social permite, ao menos em parte, explicar o boom do ensino univer
sitário no Brasil nos últimos anos: os filhos de pessoas que executam
i trabal hos m anuais, mal rem unerad os, esperam m udar se u destino s oci al
a um diploma universitário, que permitirá à pessoa mudar de
ii i lassc social em relação aos pais.
A m obilidade soc ial vertical e horizon tal é estatisticam ente limit ada
i nu si stema cap itali sta. ( >s soc iólogos o bserv am uma relati va estab ili da
u de ou inércia dc classe: a sorte da loteria e do casamento d rara; a
educação muitas vezes não permite a ascensão desejada, porque as
u possib ilid ades de en c o n tr a r um tr ab alh o de alta rem u n e ra çã o são restr i
tas e constatam-se obstáculos socioculturais, que impedem as pessoas
A de proveniência humilde ter acesso (e sucesso) profissional em traba
lhos de tipo “executivo”.
Resum indo, a p osição de classe não é, no sist em a capit ali sta, neces
ii sariamente hereditária, como acontecia em outras épojas. As estatísti
cas indicam, porem, que a localização do indivíduo na estrutura social
u <<, na m aioria do s ca so s, de term ina da pela p osiçã o so cial da família.
A relativa abertura das classes no capitalismo cria uma dificuldade
i em d etermina r a class e de cada indiví duo. Ou farem os um a cl assi fi cação
i muno “grosseira” (proletários, pequenos burgueses, capitalistas) no
sentido m arxista, ou u nia classificação ma is “su til ” no sentido weberiano,
u mas que não d eixa ria dc ser arbitr ária: p or que estabe lecer o li mite e ntre
duas classes em função do número de salários mínimos? Por que con
siderar (ou não considerar) a religião, as preferências no tempo de lazer
etc., como fatores de filiação do indivíduo a uma determinada classe?
m Ch egam os assim ao últ imo tema. Cad a sociedade legiti m a o t ip o de
i desigualdade social próprio a ela. Na Grécia Antiga se dizia que os
i escravos eram seres inferiores, que pertenciam “naturalmente” a esta
categoria. A divisão de classe no capitalismo, com toda a injustiça,
i exclusão c . negaçã o do s direit os e n ecessidades h um anas mais el emen 
i tares, justifica-se pela "abertura” de classe, pelo “sonho” de ascensão.
i Os políticos, jornalistas e outros ideólogos do poder dizem que as
classes são abertas e q ue cada pe sso a sobe ou desce na hierarqu ia s ocia l,
i segundo seu valor e dedicação ao trabalho, ou seja, segundo o mérito
pessoal. Para ju stific a r a d esig u ald ad e socia l, os desfavo recid o s são
estigmatizados como “preguiçosos”.

i
ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL E DIREITO 181

Vemos assim, que a abertura das classes sociais no capitalismo


apresenta um duplo aspecto: é limitadamente reâl, enquanto possibili
dade estatisticamente rara; é plenarrlente ideológica, enquanto argu
mento de justificação da desigualdade.

Resumindo: podemos definir a classe social nas sociedades moder


nas como um grande grupo de pessoas que ocupam uma semelhante
posição no âm bito da estratificação so cia l c om um a rel ativa estabilida
de. Os membros de cada classe apresentam comportamentos de vida
comuns e Icm uni scmelhanlc acesso aos recursos disponíveis. As clas
ses sociais exprimem a desigualdade nas sociedades modernas, que é
forte apesar de existir uma possibilidade de ascensão social.

3. AS CLA SSES SOCIAIS NA PERSPEC TIVA D A SOCIOLO GIA


JURÍDICA

Estudando a estrutura e o funcionamento prático dos sistemas^u-


rídicos , o jurista-sociólo go relaciona a prob lem ática d as classes s ociai s
com o direito, respondendo às três questões formuladas no início desta
Lição (9, 1).

3.1 Direito moderno e “neutralidade de classe”

Uma das diferenças entre o direito das sociedades capitalistas e


outras formas de direito historicamerite conhecidas é que o primeiro
não impõe a divisão de classes. Isto exprime o caráter formalmente1
aberto das classes sociais no capitalismo. Na Idade Média existia, por
exemplo, um direito diferente para cada estamento. Os nobres tinham
os seus privilégios, tribunais particulares, ofícios e profissões reserva
das. Os integrantes dos estamentos inferiores não podiam aceder aos
superiores, a não ser através da decisão de um “senhor”, óu seja,
através de um ato jurídico.
Hoje o direito proclama que todos são livres e iguais. Não garante
a divisão em classes e a decorrente desigualdade social, inexistindo
obstáculos legais à ascensão social. E não são raras as sanções para
quem discrim ina uma pesso a em função de classe social, cor, profiss ão,

gênero etc.o Por


utilizarem exemplo,
“elevador quemcomete
social”, proíbe uma
os empregados domésticos
infração à lei de
e pode ser
submetido a uma sanção.
í
t |H2 MAN DAI. DF. SOCIO LOGIA JUR ÍDIC A
l
l I’or (juc o direito faz islo? A resposta é que o direito “segue” a
cslmtura do mbdo de produção capitalistà. No capitalismo é predomi
t nante o intercâmbio de mercadorias e serviços através do livre acordo
(Ir pessoas. A atividade econômica baseia-se na livre concorrência e o
iiaballm assalariado pressupõe o acordo de vontades entre empregado
li r empreg ador. Se existissem atividades reservadas a let erminadas ca 
u madas da população ou obrigações de fazer um determinado tipo de
liabalho, cnlão os princípios da atividade econômica no capitalismo
u perd eriam o sentido.
Assim sendo, o direito nada mais faz do que garantir as condições
i ju ríd ic as para o d esen v o lv im en to do sis te m a capitali sta . Um dir eito de
tipo feudal careceria hoje de legitimidade e de eficácia. Por esta razão,
u os sociólogos do direito afirmam que, na nossa sociedade, o direito é
um demento externo em relação às classes. O sistema jurídico não
def ine as classes, nem impõe a reprodução da estralificação social. Esta
última é reproduzida através de regras e estruturas sociais não sancio
i
u nadas pelo direito (Soriano, 1997, p. 282).

i 3.2 Interesses de classe e formação do sistema jurídico


m Apesar de o direito não impor e nem tutelar a imobilidade social,
não seria correto afirmar que este é totalmente neutro com relação às
classes.
u Em primeiro lugar, encontramos no direito desenvolvido nos sécu
los XIX e XX uma série de disposições que discriminavam os mais
pobres, cria ndo o b stá cu lo s ju ríd ic o s à sua ascensão. U m conhecid o
exemplo é a privação dos direitos políticos dos analfabetos, que perma
ii neceu no Brasil até os anos 80.
I'ais normas exprimiam a força política das classes dominantes que
conseguiam, indiretamente, controlar o legislativo. A pressão das clas
i
t ses populares levou à abolição progressiva de normas discriminatórias.
I loje praticam ente não existe discrim inação explícita em detrimento da s
n classes inferiores.
Uma segunda forma dc discriminação das classes inferiores dava-
i se através da aplicação do “princípio de negligência”. Os legisladores
que estabeleciam cm nível constitucional os princípios dc liberdade e
dc igual dade, não mostravam, nenhum a preocupação em garant ir a sa
tisfação das necessidades da população desfavorecida.
ii
i
ESTR AT1PICAÇÃO SOC IAI, EDIREITO ] 8 3

N ão podem os, por exem plo , afir m ar que exis te liberdade e ig uald a
de 110 acesso aos bens educacionais e culturais, pelo fato de existir uma
norma que permite o acesso de todos a tais bens. Se os preços destes
bens sã o in acessív eis para a m aio ria da popula ção, eiitã o a liberdade e

a igualdade
que perdem
um sist ema todo significado.
j urídico Assim sendo,
"neu tro" correspond [iodemos
e sem pre aosafirmar
inter esses do s
mais fortes, porque trata de forma igual pessoas desiguais. Esta opção
favorece, na prática, a desigualdade social.
A ‘'negligê ncia ’’ das necessidades' das ca m ada s d esfavorecidas d i
minuiu em vári os países, desd e o fi nal d o sécu lo X IX e, em forma muito
mais rápida, após a Segunda Guerra Mundial. As normâs jurídicas
reconheceram, nesses casos, as necessidades específicas das classes
popula re s, cria ndo in stituiç ões para su a p ro te ção através de um trata
mento diferencial.
Já havía m os salient ado qu e a Co nstit uição Federal esta belece, como
objetivo político-jurídico, a erradicação da pobreza e da marginalizarão
(art. 3.", inciso III). A maior parte dos direitos sociais proclamados na
Constituição visa a proteção de pessoas que ocupam posições inferiores
na escala social.
A criação pau lati na do direito traba lhista no séc ulo XX é indicat iva
desta situação. As suas normas não cobrem um espaço vazio. Já
existiam no direito civil todos os regulamentos que poderiam abranger
uma rel ação em pregat íci a. O direit o do trabalho cria-se como um ra mo
especial, introduzindo exceções aos regulamentos do direito civil. O
legislador reconhece a fraqueza social dos trabalhadores assalariados
(a diferença de classe com os empregadores) e tenta protegê-los,
introduzindo disposições em seu favor. Basta lembrar as previsões
legislativas sobre a limitação do tempo de trabalho e a instauração de
um salário mínimo. Tais dispositivos estabelecem garantias a favor das
classes inferiores, mesmo se as vantagens são mínimas (como no caso
brasil eir o).
No caso das norm as em favor dos m ais fr acos consta ta-se a influ en
cia das classes populares sobre a legislação que, porém, não chega até
o ponto de abolir a desigualdade de classes. Os legisladores continuam
exprimindo, de forma preferencial, interesses das classes dominantes.
A influência preponderante das classes dominantes sobre a legisla
ção sc exprime dc duas formas. A primeira está relacionada com a
configuração da ordem social e econômica, descrita 110 ordenamento
ju ríd ic o. As cla sses dom in ante s conti nuam im pondo, em parte, 0 prin-
|ft 4 m an u al de soc ioi. ogia JUR ÍDICA
í
cípio da negligência das necessidades dos mais fracos, não permitindo
a criação de um direito que garantiria o princípio socialista “cada um
deve con tribuir segu nd o as suas capacidades, e receber segund o as s uas
necessidades”.
Em seg undo lugar , o di reit o m oderno protege os i nteresses dos mai s
fort es através da p roteção da prop riedade privada. Este dir eito signif ica
que, mesmo se qualquer pessoa pode aceder a qualquer recurso social,
os já “possuinles” go/.am da garantia jurídica da sua posiç ão. Para dar
u m exem plo, a gara ntia da prop riedade privada dè um grand e indus trial
significa que ele está em situação socialmente privilegiada, podendo
estabe lecer sal ários que lhe perm itam um lucro bem supe rior à r enda dos
seus empregados. Assim sendo, a proteção jurídica da propriedade
p riv ada g arante a p erp e tu aç ão da desig u a ld ad e socia l.
(
.V.l Classes sociais e aplicnçflo do direito

IJrn úllimo tem a refe re-se ao m odo de ap licação do direito “igual” ,


íem os aqui um cam po privi legi ado de estudo da sociologi a jurí dica. Os
p esquis adores util iza m com o variá vel prin cip al a posiç ão dos in div í
duos na estrutura social, especificada através de critérios como renda
mensal, profissão, nível educacional etc. O objetivo de tais pesquisas é
controlar como se apli cam normas j urídicas fundam entadas na i gualda
de de tratamento. Neste âmbito podem ser pesquisadas duas situações
diferentes:
a) Acesso ao sis te m a ju ríd ico. O problem a apresent a um a part ic
impo rt ância no B rasi l, onde vastas camadas da po pulação não têm um

acesso
da efeli vo
população dosà Estados
proteçãodejudiciária
São Paulo e(Lição 10, Janeiro
do Rio de 3) . Ca lcula-se
não tem que 70%
acesso à justiça civil , ou seja , não pode defen der seus interesses por fa lta
de recu rsos m ateriais e de assistên cia gratuita (Lo pes, 19Ç 7, p. 134 ). Por
outro lado, a população carente constitui a principal “clientela” do
sistema de justiça penal. Neste sentido, o censo penitenciário de 1993
indicou que 98% dos presos não têm condições econômicas para con
tratar um advogado (Minhoto 2000, p. 180). Isto permite supor que
durante o processo, tam pou co receberam uma assist ência jurídica ade
quada.
Esta situação, condicionada pela forte desigualdade social, é fre
qüentemente analisada como negação da cidadania. Muitas pesquisas
aiiiilisíim a utilização dos recursos judiciários por pessoas pertencentes
ESTRATIIMCAÇÃO SOCIAL H DIREITO 18 5

às varias classes sociais (“acesso à Justiça”). O principal resultado de


tais pesquisas é que as pessoas carentes de educação e de recursos
materiais não podem gozar de proteção efetiva, mesmo quando os
recursos lhes são teoricamente oferecidos (falta de informação, de apoio
de um “bom advogado”, indiferença da justiça oficial etc.).
b) Trat amento pelo sis tema jurídico. Um outro objeto de análise é
o modo de trabalho das autoridades do Estado, encarregadas da tutela
dc int eresses e do controle social . Vários estudo s indicam que a atuação
dos órgãos do Estado favorece, em geral, membros das camadas supe
riores, por razões que podem ir da corrupção passiva até fatores incons
cientes, como os preconceitos (exemplo: uma pessoa “de bem” é con
si derada pela polícia mais honesta que um m orado r de favel a). O resul
tado é uma dupla seletividade. O controle Social é principalmente ori
entado para as camadas mais pobres, consideradas cohio “perigosa;!” e
"c liminosas”, c, cm caso dc conditos, as autoridades do Estado tentam
prote ger a parte socia lm en te m ais fo rte.

Para ir mais longe

Balibar, 1985; Baratta, 1997, pp. 171 e ss.; Bottomore, 1987, pp.
177 e ss.; Castro, 1996, pp. 108 e ss.; Dimoulis, 2000; Ferrari, 1983, pp.
391 e ss ., 410 e ss. , 4 3 1 e ss. ; Go ldthorp e, 1990, pp. 173 e ss. ; M acionis
e Plumm er, 1997, p p. 240 e ss., 266 e ss.; Po ulantz as, 1974; Rehbinder,
2000, pp. 32 e ss.; Rex, 1968, pp. 168 e ss.; Soriano, 1997, pp. 267 e
ss.; Stern, 1982; Vila Nova, 1999, pp. 128 e ss.; Wright (org.), 1998.
Lição 10

SOC IOLOG IA DA APLI CAÇÃO DO DIR EI TO

SPMÁRIO: I. Introdução - 2. O perad ores do direilo: 2 .1 M agist ratura :


2.1.1 Posição c ons titucion al da mag istratura ; 2.1.2 Perfil social da
magistrat ura; 2.1.3 So ciologia da at ividade judicial - 2 .2 Advocacia; 2.3
Polícia - 3. Acc sso à Jus tiça: 3.1 B arreir as de acesso à Justiça; 3. 2
Tentativas dc reform a; 3.3 Iniciativas de reforma no Brasil - 4 . Opiniã o
pública c direito .

I. INTROD UÇ ÃO

“Sub trair , para si ou para outrem , coisa alheia móvel: Pena - reclu
são de 1 (um) a 4 ( quatro) anos”.
Isto prevê o Código Penal em seu art. 155. Sabe-se, porém, que
algumas pessoas são punidas por furto apesar de nunca ter em cometi do
esle delito (denunciação caluniosa, erro judiciário, preconceito contra
0 t dif). Ainda ma is conh ecido é que a m aior parte daqu eles qu e cometem
furio nunca são penalmente perseguidos e/ou punidos. As pesquisas
1riminológicas indicam que a esm agado ra m aiori a dos crimes contr a o
patri m ônio nunca le va a um a co nd enação.
A grande d istânc ia entre a realidad e do furto e a realidade da sa nção
pen al po r tal d elito é devida ao fato de que a lei n un ca se auto -a plica.
O modo de aplicação da lei depende das pessoas que possuem a com
petência de ap lic â-la . Isto é de in cum bência do po der executiv o e ju d i
ciá rio. Tam bém partici pam da aplicação do dir eito pessoas com conhe
cimentos jurídicos, que auxiliam na administração da justiça (advoga
dos, tabel iães) . T odo s estes são cham ados, co m o já sabemo s, de “ op e-
ladmes”, “atores" ou “agentes” jurídicos.
As pessoas encarregadas de aplicar a lei nunca seguem, de forma
•ilv;oluta, as previs õe s legais. Q uem ap lica a le i, dá ao texto um “sentido ”
SOCIOLOGIA DA APLICAÇÃO DO DIRLITO 187

que nem sempre corresponde à vontade do legislador Ou coincide com


a interpretação feita por outro jurista . Isto ocorre não ob stante fexistirem
regras de interpretação que impõem limites ao trabalho do intérprete e
variam de acordo com as diversas áreas do direito. E que apesar da
existência de tais regras sempre há um espaço para o exercício do livre
arbítrio do responsável pela aplicação de normas. Além disso, a aplica
ção da l ei nã o pode ex cluir os erros o u m esmo as tent ativas - conscientes
ou não - de “ad aptá -la” ás visões e int eresses p essoais.
Finalmente, a postura da população perante o sistema jurídico é de
suma im portância para a apli cação do direi to. Im agine-se lima socieda
de na qual nenhum cidadão procuraria a Justiça para resolver seus
conflitos, preferindo sistemas de resolução informal ou, simplesmente,
a vi ngança privada. O sist em a juríd ico entrari a em um a cri se de efitácia
irreversível, levando à deslegitimação do Estado e do direito como
forma de orientação da sociedade e de solução dos conflitos.'
Voltando ao exemplo do furto, se a maior parte da população con
sider a que denu nciar quem o prati ca não tem sentido, põrque este nunca
será punido ou porque há outros meios de ação mais eficientes (exem
plo: serviç os de segurança priv ada), etitã o a dis tâ ncia entr e furto e
sanção oficial será ainda maior.
Um exemplo real: na Alemanha o legislador proíbe e pune com
sanções cri m inais m uit as forma s de porn ografia. A s estat íst icas indic am
que em 1996 foram investigados pela polícia cerca de 4.000 casos de
pornogra fi a (A rzt, W eber, 19 99 , p. 261). N ão é credív el que em um a
popula ção de q u ase 82 m il hões de h abita ntes, so m en te 4 mil vio la ra m
as diversas leis sobre pornografia! Isto indica que a população e os
órgãos de repressão discordam da avaliação do legislador e não consi
deram que todas as formas de pornografia merecem punição. Assim
Sendo, a quota de eficácia das normas penais em questão é muito baixa.
Por est as razões a sociologia juríd ica m ostra um interes se particul ar
pelo m odo de atu ação dos op era do res do dir eito e pelas opin iõ es da p o 

01 A fal ia de con fiança na Jus tiça ou a imp ossib ilidade de acess o à mesma é
uma realidade brasileira. Segundo pesquisa de 1990, 67% das pessoas en
volvidas cm conflitos tnibaihislas, cívcis nu criminais nflo procuraram a
Justiçn (Minhoto, 2000, p. 185; Junqueira, 2001, pp. 233-234; cfr. Caldeira,
2001, p. 102). A forma mais violenta e ilegal de solução extrajurídica de
conflitos é o linchamento (cfr. Sinhoretto, 2002, pp. 79-102, 123-198).
B l^g MANUAL DE SOCIOLOGI A JURÍDICA

T pula ção sobre o d ir eito , te n ta n do m e lh o r c o n h ecer a v id a ju ríd ica re al, ou


T seja, os m ecan ismo s e os prob lem as de aplicação do direito na prát ica.
I 2 . OPERA DOR ES DO DIREI TO

l As pesquisas das últimas décadas sobre o perfil social dos opera


dores jurídicos são muito sofisticadas e apresentam resultados, muitas
U vc/c s. conlradiiórios. Porém, concordam plenamente °m um ponto: na
( icsfenk- paiticipnção feminina nas profissões jurídicas. Até o iní cio do
U século XX as mulhe res eram p roibidas de exerce r profi ssões liberai s em
diversos países. Existiam também outras restrições, tais como a proibi

U
ção de votar em eleições e adqu iri r em seu própri o no me uma proprie
dade. A pesar dos m ecanismos d e exclusão ainda existentes, n ão é pos
sível negar que houv e um grand e avanç o no que se r efere à pa rti cipação
das m ulheres na sociedade. E ist o se r eflete no mercado de t rabal ho. Em
muitas profissões tradicionalmente masculinas, o contingente de mu
lheres já supera o masculino.

u
No caso do B ra sil, no s últ im os anos fo rm am -s e cm dir eito mais
mulheres do que homens. Entre 1970 e 1991 constatou-se um contínuo
u aumento ha porcentagem de m ulheres nas profissões
da advocacia de 9%
jurídi cas: no â mbit o
para 20% ; nas prom otori as e procuradorias de 10 %
u p ara 36% ; na m ag istratu ra de 5% p ara 2 0 % .2
N o ano 2 000 a po rcen ta g em de ju íz as ch eg o u a 32% do to tal da
n magistratura, sendo que nos tribunais de primeira instância a cifra era
de 37% .1 M esmo assim , a presença de m ulheres nos tri bunais de segun

n da instância e nos tribunais superiores é ainda irrisório. Em 2000 á


p orcen ta g em de ju íz a s nos T rib u n ais d e A lç ad a era de 6% e a porc en

^
tagem de desem bargadoras nos Tribunais de Justiça de 11 %, res sal tan
do-se que apenas em 2000 assistiu-se à primeira nomeação de uma
mulher ao Supremo Tribunal Federal.4
Aqui existem duas hipóteses que merecem ser estudadas. Em pri
w meiro lugar, a sub-representação das mulheres nos tribunais superiores

m Junqu eira, 2001, pp. 215-216. Na Alem anha a porc entag em de juízas pa ssou

w
dc 6% em 1969 para 26% em 1998 e a porcentagem de advogadas de 4,4%
para 22 % (fonle: http://www.brak.de ; Raiser, 1999, p. 366).
111 Fonte: lisiatísticas no site http://www.stf.gov.br .
Fonte: Estatísticas nó site- http://www.stf.gov.ljr .

u
n
SOCIOLOGIA DA APLICAÇÃO DO DIREITO 189

pode ser atribuída à recente entrad a das m esm as ho m undo jurídico.


Assim sendo, o núm ero de m ulheres aptas a exercerem tai s cargos seria
inferior ao de homens. Uma outra hipótese seria considerar que apesar
da feminização das profissões jurídicas, persistem elemen tos da cultura
patr ia rcal, que im põem unia se letivid ade de gênero, im pedin do o acesso
das mulheres aos tribunais superiores.
De modo geral, as pesquisas indicam qtie a crescente fcmini/ação
não causou lima alterarão significativa no exercício das profissões
juríd ic as. P arece que as m ulh eres conqu jsta ra m o m undo ju rídic o, se m
mudá-lo, isto é, sendo obrigadas a adotar padrões de comportamento
masculinos (Junqueira, 2001-a).

2.1 Magistratura

2.7./ Posição constitucional da magistratura


Os juizes não somente são encarregados da aplicação do direito,
mas também possuem a competência de dizer a “última palavra” sobre
um conflito jurídico, através de uma decisão transitada em julgado.
Por tal razão são investidos de uma série de garantias pessdais e
funcionais, tendo uma posição especial dentro do Estado. Não é por
acas o que a C onstituição F ederal prevê um sistem a de alt a rem uneração
para os m agis trados, dev endo o subsídio dos M in istr os do Suprem o
Tribunal Federal ser o mais alto entre tpdos os servidores públicos e
detentores de mandato eletivo (arts. 37, inciso XI; 93, inciso V).
A posição dos juizes no sistema constitucional brasileiro (e prati
cam ente em todos os paí ses do mu nd o) pode ser resum ida nos seguint es
termos:
a) indepe ndê ncia pe ssoal e funciona l para eVi tar pressões e garanti r
a neutralidade da decisão (vitaliciedade, inam ovibilidade, alta rem une
ração);
b) dependência absolu ta da C o n stitu ição e das norm as in ferio res
conformes à Constituição, no intuito de garantir a aplicação fiel do
direito;
c) princípio da indeclinabilidade da funçüo de julgar, que proíbe a
denegação de justiça; o juiz tem a obrigação de dar uma resposta ao
pedid o das parte s, pe rm iti nd o a reso luç ão d efin itiv a de to dos os co n fli
tos jurídicos, mesmo guando g |ei silençi.a nu é vaga.
190 MANUAL DE SOCIOI.OGIA JURÍDICA

Significam estas garantias específicas que os juizes nada mais são


do que “autOmntos” e “vozes v ivas do legislado r”? Esta era uma reivin
dicação do iluminismo jurídico, que não se realizou na prática das
instituições. Apesar de sua dependência da lei, o juiz nunca foi, somen
te, o fiel ex ecu tor da “letra da lei”. ,

Os intérpretes e os filósofos do direito tomam várias posições ante


o fenômeno do poder de decisão dos juizes. Alguns tentam limitá-lo,
com argumentos tirados da teoria da democracia e da necessidade de
segurança jurídica; outros reconhecem a necessidade de conceder aos
ju iz es am plo s espaços d e d is cricio nariedade, recorrendo, para este pro
pósit o, a arg u m en to s tirados da escola m orali sta ou do realism o juríd ic o
(ver Lição 1).
. •. « ^
A sociologia jurídica, fiel ao seu interesse cognitivo “realista”!
exposto nos capítulos precedentes, interessa-se por duas questões. Pri
meiro, analisa a freqüência e a intensidade do poder discricionário e 0
modo com o os juizes realmente o exercem. E m segundo lugar , e xamina
as causas da “liberdade” que os juizes tomam diante da lei.

2.1.2 Perfil social da magistratura

Várias pesquisas foram realizadas sobre as características sociais e


as posições políticas e ideológicas do c orpo da m agistratura nas úl timas
décadas. As mais conhecidas são aquelas de Glendon Schubert, noS
EUA, desde os anos 40 e de Renato Treves, na Itália, nos anos 60 e 70.
Estes trabalhos examinaram o comportamento profissional e a menta
lidade dos juizes.5
Exist em tam bém muitos est udos sobre a or igem social da magi st ra
tura. Em 1907, o líder do movimento revolucionário alemãó Kart
Liebkn echt afirmo u, na sua defesa con tra a acusação d e alta tra ição, que
os tri bunais do seu país apenas faziam “Justiça dé classe ” ( Klassenjustiz)
Desta forma, procurava colocar em evidência que os juizes pei^encianf
a uma classe social privilegiada, de opinião conservadora e perseguiam
n movimento socialista, aplicando a legislação do período contra os
“subversivos” de forma particularmente dura e, às vezes, claramente,
ilegal, na tentativa de combater o inimigo político (Haass, 1990).
li
Sclnibert: 1959; 1964; I965;TYeves: 1972; 1977, pp. 196 e ss.; 1996, pp. 252-
c ss.; para uma pesquisa mais recente, cfr. Morisi, 1999.
SOCIOLO GIA DA APLICA ÇÃO DO DIREITO ] 9]
I
I
Esta acusação - que objet ivava com bater o mito da neutrali dade do
ju iz - foi co nfir m ad a, em g rand e parte, por p esq u isas em píric as reali 
zadas na Alemanha a partir dos anos 60 (Ralf Dahrendorf, Walther
Richter, Johannes Feest, Niklas Luhmann). Por méio do exame dos
arqui vos da m agistratura constatou-se que os juizes provinham , em sua
maioria, da classe média, sendo filhos de servidores públicos. Estes
estudos minuciosos indicavam inclusive que os juizes alemães tinham
sido submetidos a lima educação autoritária r que, na vida adulta,
adota vam o piniões polí ticas conserv adoras íR ehbin der, 2000, pp . 162 
163; Raiser, 1999, pp. 371-373).
Pesquisas análogas confirm am em outros países que a c orrl posi ção
da mag ist ratura diverge fortem ente daqu ela de outras profi ssões, se ndo
p ercep tív el a p re d o m in ân cia d e m em b ro s d e g ru p o s p riv ile g iad o s
(Soriano, 1997, pp. 421 e ss.).
Um a recente pesquisa do perfil da m agistratura brasil eira, que ado^
tou o método do questionário, confirmou a seletividade social na com
posi ção da m esm a. E ntr e os seus m em bros co n stata-se um a rep resen
tação particularmente forte de homens, membros dás classes alta e
média, filhos de funcionários públicos e descendentes de magistrados.
Apesar da tendência de “abertura” e “democratização” do acesso à
m agist ratur a nas últi m as décadas, o pode r judic iário brasileir o continua
sendo seletivo na sua composição (Vianna e outros, 1997).
Obviamente, isto não significa que as sentenças dos magistrados
sejam obrigatoriamente “de classe”. Porém, indica que não pode ser
excl uída a eventuali dade de um a atuação pouco conform e com a ima
gem do juiz neutro diante dos conflitos sociais.

Aqui se da
a sociologia encontra
Justiça.a mais
Quemimportante
comprovacrítica
que osfeita às pesquisas
juizes sobre
são membros
das classes altas, politicamente reacionários ou autoritários, realiza
uma pesquisa sociológica sobre uma profissão, mas não pode preten
der que sua pesq uisa c onstitua um a contribuição efetiva à sociol ogia I
juríd ica. O s dado s sobre o perfil social de um grupo profissio nal não
indicam como atuam os seus membros no exercício de suas funções,
ou seja, não indicam qual é o impacto desta realidade na aplicação
cotidiana do direito.
É, por exemplo, plausível supor que um juiz bem remunerado e
polit icam ente co n serv ad o r te nte d ec id ir em favor de um fazendeiro que
move uma ação de reintegração de posse contra um grupo de “sem
MA NU AI. DF- SOC IOLOGIA JURÍD ICA

Ic.ira” . Ist o não pode, p orém , ser com provad o atr avés da simp les an álise
do perfil social e político dos membros da tribunal. m.

N este caso, o “p la u sív e l” p o d e se r, no m áxim o, aceit o enquantò


hipótese
social dodemagistrado
trabalho,tem
a reflexos
se r verificada pelodecisões?6
nas suas p esquisad or: se rá que o pè ífíi

Tam pouco ajuda no conh ecim ento da realidade do sist em a jud ici á-
rir> a aplicação de questionários através dos quais os magistrados são
i onvitlndos a indicar suas características socioculturais c suas opiniões
sobre o sistema d e ju stiç a , o papel da m agis tr atu ra, ev entu ais re fo rm as
41c. Tai s pesquisas oferecem impo rtantes inform ações sobre as opin iões
subjetivas dos juizes (Herkenhoff, 1993; Vianna et ai., 1997; Morisi,
l‘>09), mas não podem indicar como eles atuam na prática.
<!
?. I 1 Soc iologia da a tividad e jud icia l

Alguns pesquisadores na Alemanha levaram em consideração esta'


i rítica. Passou-se assim da sociologia do perfil da magistratura à soci«
olopia da atividade judicial. Deste modo, iniciou-se um trabalho de
nwilise de processos, sobretudo na área penal. As pesquisas empíricas
confirmaram que as decisões judiciais são inf luenci adas por preconcek
tos dos integra ntes da m agistrat ura, que favo recem sist em ati cam ente o s
m em bros das classes superiores (Do rothee Peters, Erh ard Blankenbur g):
()utnis pesquisas alemãs (Karl-Dieter Opp, Rüdiger Peuckert, Rolf
H m der) chegaram a conclusões parcialmen te opost as, indi cando que o s
iiií/.es nem sempre decidem de forma parcial e que a realidade da
aplicação do direito não pode ser deduzida do perfil social dos rtiagis-
ii ndos, sendo que integrantes das c am adas mais favorecidas mostr am-
se, f is vezes, ma is imp arciais do qu e coleg as d e srcem social m ais baixa
(Krhbindcr, 2000, pp. 163 e ss.).
A pesquisa empírica indica, em todo caso, que a atividade profis-i
liniutl da m ag istratura é influ enc iada po r um a sé rie de variáveis. T ratai-,
Ne d< fato res qu e são suscetí v eis a alt eraçõ es d ep en den do do país, da
n Iiu k ç Ho política, da formação e da posição na hierarquia social e pro-,
I ín n ío iiii I iwi qual s e sit ua cad a grup o de juizes. A s variávei s mai s
Im portan tes são: ■>

f!!
!)! ""> « [)llfl!
isc rtjí pfialU
ífiFdl* iH8i!5!
f9lJM feHgjlSlri ç anfljfíf
njftiln,cfr.S.ilWdt’11,2<K>< i
SOCIOLOGIA DA APLICAÇÃO DO DIREITO 193

a) a posição de classe (em geral superior);


b) a o pin iã o p o lít ic a (e m geral co nservad ora ou liberal- conserva-
dora);
c) a socialização especificamente jurídica, proveniente da formaçãoi
ju ríd ic a, do m odo de sele ção e da latuaç ão profis sio n al, que dão ao ju iz ,
em geral, uma visão legalista e autoritária da realidade social, influen
cia ndo assi m, sua posição diante dos confli tos socia is. A m aio fa dos
ju iz es m ostr a p arti cu la r 7.clo pela o rdem ; consid era que a lei oferece
soluções aos problemas sociais e exerce suas competências de modo
formal e solene, optando por manter distância das partes.
Os estudos sobre as variáveis subjetivas da atuaçâb da magistraturd
realizados em vários países constatam a relativa homogeneidade jios
ju iz es (“c o rpo da m agistr atu ra” ). Isto não pode d eix af de in flu en cia r o
pro cesso d ecis ório . A in te n sid ad e do in flu xo d as v ariá veis subje tivas
sobre as decisõe s difere de caso a caso, sem ser possível estabelec er uma
lei sociológica.
Supõe-se, porém, que a atividade judiciária caracteriza-se por uma
dupla seletividade. Primeiro, seletividade na aplicarão da lei: maior
probabil id ade em pu n ir os m ais fracos e fav o recer os m em bros da s
classes superiores. Segundo, seletividad e na interpretaç ão da le i: o juiz
tende a utilizar as margens de discricionariedade segundo suas òpções
políticas e id eoló gic as.
Em língua portuguesa, destacam -se os trabalhos sobre a sociol ogia
da magistratura, realizados por Boavbntura de Sousa Santos. Com re
lação à seletividade do poder judiciário, o autor enunciou a seguinte lei
sociológica: “quanto mais caracterizadamente uma lei protege oS inte
res ses populares e em ergentes m aior é a probab ili dade que ela nâo sej a
aplicada” (1986, p. 29), A causa seria a srcem e a mentalidade dos
ju iz es, que te n ta m “frear” as m u d a n ças socia is .
O exem plo m ais conh ecido desta “le i sociológ icá" encontra-se na
ju ris prud ência do S uprem o T ri b un al dos E U A que, rios anos 30, co n 
siderou contrária à Constituição a legislação sociál do Prèsidente
Franklin D. Roosevelt. Os juizes da Supreme Court èonsideraram que
a maior part e da legislação que tentava p rotege r os trabálhadores, vi olava
os princípios da liberdade contratual e o direito de propriedade. O
Presidepíg consegyjy romper jj resistênçja polítlrij fomente ggós ter
alíéràdo ã £0íí]{xjsíç§O ÚQ Trlbtiílãl ê eXêf€!(!(j pfê$tâê$ sobífi Os
104 manuai . d e S oc iol o gi a j u r I dica

magistr ados. Aqui m ostrou-se que, pelo m enos nos casos impo rt antes ,
o jui z decide segundo a sua opinião p olít ica, ap resentando-a como
ju rid ic am ente correta .

^ão os juizes sempre conservadores, posicionando-se em favor da


reprodução do statu s qu ol N ão fal tam as análises do potencial críti co da
magistratura e da possibilidade de uma política progressista através da
apli cação do d ir ei to, com o co nstatam os na apresentação da problem áti 
ca do direito alternativo (Lição 4, 3.4.1). E alguns estudiosos reivindi
cam a democratização da justiça e o seu distanciamento do poder e do
Pistado (“m agistrat ura c ulturalm ente es clarec ida” - Santos, ’986, p. S2) .
A or ientação social e polít ica da m agistrat ura é um problema empíric o
c as respostas variam segu ndo o período, o país e o enfoq ue da pesquisa.
N enhum soció lo go do d ireito coloca, porém , em dd vid a que os ju iz es,
ânrmanto gmpo soçial, não se limitam à aplicação fiel da lei. As senten-1
i^as são influenciadas por fatores extrajurídicos, que entram no direitd
jtra v é s da d iscricio n aried a d e do ju iz . A s cau sas da dis tância entre a léi
c a decisão judiciária devem então ser buscadas nas referidas variáveis
subjetivas, de natureza eminentemente social.
Por último, cabe dizer que não se encontram muitas pesquisas
dedicad as à obse rvação soc iológica do M inistéri o Público. Por i sso, não
é possível ter uma imagem completa sobre a srcem social, as menta-
lidades e o modo de atuação dos integrantes desta instituição.

Sabe-se, porém, que os membros do Ministério Pdblico desenvol
vem com portamen tos m uitas vezes critit ad os co m ò autori tár ios e arr o
gantes (mentalidade de “justiceiro”). Por outro lado, o Ministério Pú
blico assum iu no B rasil, ap ós a entra da em v ig or da C on stit uição Fe*
deial de 198 8, u m pape l particularm ente ativo de fis calização do pódef
polític o e de tute la dos d ireito s fu nd am en tais, so bretu do em rela ção
crianças, aos consumidores e à preservação ambiental (Màzzilli, 2001):
• ;t e papel ati vo, exe rcido principa lm ente po r jov en s pro m otores, d iá1
lanc iou o M ini sté ri o P úblico dos d em ais integrant es do poder judiciá
rio, causando conflitos e acusações recíprocas (Silva, 2001). >'
V
2.2 Advocncia

Pesquisas empíri cas sem elhantes àquelas condu zidas com a mag is-
ii Mura ÍOr aiíi efetu ad as co m relaç ão a ou tros pro fission ais do direito1*
•nmn nr: advogados c Os tabeliães. O material empírico disponível é
SOCIOLOGIA DA APUCAÇÂO DO DIREITO 19 5

mais reduzido, send o qu e o papel decisivo na a plicação do direit o recai


sobre os juizes, que detêm o poder da “última palavra”!7
Porém, isto não significa que a seleção dos processos e a transmis
são de opiniões e de comportamentos perante o direito não seja feita

atrou
te avés de out ros operadores
culturalmente inacessível àsjurídi cos. desfavorecidas
camadas Ujna ad vocacia econom
indica uma icam en
seleção da clientela, que influi sobre as chances de acesso à Justiça
muito mais do que os obstáculos na comunicação com o tribunal.
O caso da advo cacia apresenta muitas especificidades. Trata-se de
uma atividade de interesse público e, ao mesmo tempo, de uma profis
são liberal, voltada ao lucro. Além de ser particularmentè exigente, a
advo cacia distingu e-se de outras profissões liberai s de “elite” (médicos,
engenheiros) pelo fato de que o advogado encontra-se em contínuo
conflito com pessoas e grupos, inclusive com seus colegas. Este deve
atuai em sit uações de co ntínua tensão, nec essit ando conv encer terce iros
sobre a licitude dos interesses que defende.
A advocacia é uma profissão particularmente permeável aos inte
resses econômicos e às estruturas da vida pública constituindo, assim,
um indicador das mudanças sociais. Advogado competitivo ou
corporativista? Advogado especializado e associado ou generalista e
autônomo? Advogado “comercializado” ou voltado à defesa dos “fra
cos” e do “inter esse público” ? A dvogad o assalari ado ou “livre”? Advo
gado de experiência prática ou “científico”7 Todos estes modelos co
existem. Dependendo do momento histórico, temos mudanças quanti
tativas no perfil da advocacia que indicam alterações no funcionamento
do sistema jurídico. Em geral, prevalece a figura do advogado liberal
que trabal ha indivi dualm ente ou com o sócio de um escri tóri o e especi 
aliza-se em determinado ramo do direito.
Em todo caso, as pesquisas indicam que o advogado, na prática,
corr esponde pou co à im agem do liti gante e do grande oradór no tribuna l
do júri. A m aior parte do traba lho da adv ocacia é repetit ivo, mais
volt ado à arbit ragem, à conciliação e à gestão de interesses econômicos
do que à defesa contraditória de “grandes causas”.
Isto é evident e nos E UA, onde atua um número ele vado de advoga
dos (300 por cada 100.000 habitantes), sendo a maioria deles encarre-
I
(7) Os estudos mais com pletos sobre a m entalidade, as atividades, a renda e a
função social dos advogados foram realizados nos EUA. Ver as análises e a
bibliog rafia em Abel, 1989e 1997; Vago, 1997, pp. 329 e ss.; Halliday, 1998.
MANUAI. DF. SOCIOLOGIA JURÍDICA

gados di i gestão de interesses econ ôm icos (contratos de com pra e venda


tl< mirtvcis (• hens, concessão de créditos) (Blankenburg, 1995, p. 99;
A b ri , l ‘)8Q, p. 181).
() mi mero de adv og ado s ap resenta gran des v ariações entre os di fe-
11 nit-s país es: por cada 100 .00 0 hab itantes encon travam -se, nos anos 90,
(46 advogados na Espanha, 103 na Alemanha, 101 no Brasil, 58 na
IVanç a, 46 na Holand a, 37 na Á ustria e som en te 9 no Jap ão .8 Est as
varÇTdVs i ndicam a tendên cia da p opu lação de cada país a resolver s eus
ciJnTfilos de forma amigável ou recorrendo aos profissionais do direito
(Mlnnkcnburg, 1995, p. 98).
Os advogad os desenvo lvem um a i m portante f unção no pr ocesso de
aplicação do direito. Não somente auxiliam seus clientes nos tribunais,
mas freqüentemente atuam de forma direta e preventiva, evitando a
abertura de processos. Uma pesquisa realizada na Alemanha em 1985
indicou que 70% dos conflitos cfveis foram resolvidos por advogados
dc forma extrajudicial (Radeti, Strempel, 1991, p. 192).
A srcem social e a renda destes profissionais são extremamente
variadas (Soriano, 1997, pp. 425 e ss.). Uma parte dos advogados
perte nce à classe m édia alta . E n con tram -se, ta m bém , advo g ad o s pobre s,
Freqüentemente formados em faculdades menos prestigiadas, que assis-
lein a população mais carente, trabalhando em causas cujo valor não
perm ite um a alta rem u n eração . A situ ação deste grup o reflete a lim ita-
çflo de acesso à Justiça das classes desfavorecidas. Um exemplo cons-
litui , nos EU A, a "clínica legal” que ofere ce serviços jurídic os de bai xo
custo (e de qualidade duvidosa) a quem não pode pagar um advogado
“normal” (Abel, 1989, pp. 138-139).
Uma categoria intermediária formam os advogados que trabalham
cm posições inferi ores em grandes escrit órios de adv ocacia, real iza ndo
um trabalho burocrático e subordinado, com remuneração comparável
hquela de um funtionário do setor privado. Semelhante é a situação
social de advogados que trabalham em departamentos jurídicos de
empresas ou .em serviços jurídicos estatais.
No Brasil, o niltnero de advogados cresce continuam ente. Isto 6
devido h ampliação do ensino jurídico, sendo que o ntímero de alfnos

" Dmlos de 1°°1 para o Brnsil (Junq ueira, 2001, p . 205), de 1992 para Alem a
nha Holanda, /yjgtrin e (Bla nke nljiirg,’ 1995- p. 98) c dç 1999 para
p sp u n iid e PcaH fa {h »p :/ /«* iyW :Sli )álsJ f5/ «s(>cc íâ]s§/2< Jô i/ j! ij. çí iel a/
i ntÜOKrnfin.ljjTn).
SOCIOLOGIA DA APLICAÇÃO DO DIREITO 197

matriculados nas faculdades de direito triplicou entre 1970 e 1996. O


aumento do número de operadores jurídicos facilita o acésfco à Justiça,
mas tem como conseqüência a “proletarizaçãò” dos advogados. A fcate-
goria perdeu o caráter de elit e bem rem unerad a e prest igiada, que m an
tinha até algumas décadas atrás, e a maioria de seus integrántes almeja
a aprovação em um concurso público e aceita empregos relativamente
mal remunerados em grandes escritórios.9

2.3 Polícia
i
A polícia participa da aplicação do direito, enquanto corpo organi
zado que se encarrega do co ntrole social nos seus as pectos m ais “fort es”
(repr essi vos). Ela efetua a primeira filt ragem dos futuros “clientes” do
sist em a jurí dico. D e sua atuação depe nde o m odo e a direção da “con
cretização” e da eficácia do direito, sobretudo na área petlal.
Exem plo: as estatí sticas indi cam que a p olíci a dos país es da E uropa
Ocidental apreendeu 27 vezes ma is heroína e 7 vezes m ais cannabis em
199 5 do que em 197 5.10 Na A lem anha , o núm ero dos ind iciados por
delitos relacionados às drogas aumentou 220 vezes em 30 anos." A
mesma tendência de aumento constata-se no Rio de Janeiro, onde o
indiciamento por condutas relacionadas ao porte e tráfico de drogas
passou de 8% do to ta l dos d eli to s em 1968 a 16 % em 1988, chegando
a quase 70% em 2000 (Batista, 2001, p. 11).
N ão se ria co rreto con c lu ir que este s d ado s apenas re fle tem um
aum ento si gnifi cati vo do c onsum o de d rogas ilega is. A explicação mais
convincente é de qu e a p olícia f oi orientada pa ra atuar mais ativamente
na perseguição destes delit os (“guerra con tra as drogas” ), descobrindo
muito mais infratores do que no passado. Nada exclui que, no futuro,

uma diferent
tacular e orientação
queda nos referidos po lí tica
índices e social le ve a um a igualm ente espe
de “eficácia”.
Excetuando a parcela de integrantes da polícia com foimação jurí
dica (delegados de polícia), os policiais não apresentam semelhanças

(,) Junqueira, 2001, pp. 211-215. U ma sit uaçSo sem elhan te ocorre na Venezuel a,
onde o número de advogados dobrou entre 1981 e 1995 (http://
www.geocities.com/CapitolHill/5508/carceles.html ),
,l01 JJespectivarjjgnte 283 kg {j( heroína g ^Q.SS? kg cjg cannabis e m 1975; 7,194
k g de M w tm $ de Sdhnabis sm 1 995 (ü fii ü sr ,. 199 ?. pp. 3 8 ,4 o>.
<"> 80C m 19(56; 1975; 17 7. 00 0e m 1998 (A rzí £ Wèbef-, i$ > 9,p . 143).
198 MA NUA L DE SOCI OLO GIA J URÍDI CA

com os outr os g rupos de o perado res jurídico s sup raci tados. O ní vel de
educaçã o, a or igem' social e a r em une ração eq uiparam a m aiori a dos
po lic iais aos fu n cio n ário s pú b lic o s d o esca lã o m édio -baixo.
As condições de trabalho são difíceis e, muitas vezes, incluem
grandes peri gos. O s com portam entos dos polici ais , encon tr am -se, às
veze s, em confli to com as obrigações éti cas e m esmo lega is da corporação
(corrupção, violência ilegal).
D ecorrênc ia destes fatos é a extrem a variação do perfi l dos polici ais
segundo o país e a situação social e política. Isto não permite falar em
uma “elite” transnacional e homogênea, detentora de prestígio e poder,
com o é o caso da m agistratura e, em parte, da adv oca cia.1 2
Em países economicamente desenvolvidos, o policial adquire nas
últimas décadas o perfil de üm técnico de segurança, com treinamento
específico e capac idades de atuação nos c onflit os socia is . As denúnci tis
sobre a violência, as i lega lidade s e a com lpçBo de integran tes da polí cia
são, porém, freqüentes em todos os países do mundo.
Em países do terceiro m üna ò o po licial at ua de forma repress iva e
freqüentemente violenta, tendo, até hoje, a incumbência de tratar os
pro blem as socia is co m o “ casos de p o lícia” . Isto é in d ic ad o p or pesqui
sas representativas e participantes e também por depoimentos sobre a
atuação das p olíci as b ras ileiras .13
Um outro elemento apontado em pesquisas empíricas sobre os
aparelhos p oli ciai s em todo o m undo é o precon ceito que os operad ore s
da políci a nutrem em face da pop ulação de baixa rend a e das minor ia s
élnicas. Disto resulta a forte seletividade social do trabalho policial,
largamente fundamentado nos estereótipos das classes perigosas e dos
“habituais suspeitos”.
M uit os autores estudam a questão da subcu lt ura que se dese nvol ve
no íl mbit o da co rporação polici al. Trata-se de um a espécie de ideol ogia

Um elemento em comum é a crescente feminização desta profissSo. Entre


1 e 1994 o n úmero de mul her es pol ici ai s a ument ou de d uas a se is v ez es ,
dcprndrndo do pnís (I^cmgruber, 2001, p. 378).
" " M injfl rdi, 1992; L ima, 1 995; C aldeira, 20 00 , pp. 157-195; C arvalho , 19 99,
p p . 116 3 2 0 ; c o n s u ltá r ta m b é m o s r e la tó r io s d a O N U e m : h ttp ://
www.mj.gov.hr/sedh . Em um a pesquisa que envolveu m ai s de 2.000 pes soas
no Distr it o F rderal, 14% destas declararam terem si do v ít imas de v iolí ncia

p o lic ia l e 5 1 % d iss e ra m q u e c o n h e c ia m a lg u é m q u e fo i v ítim a d e v io lên cia


|inli< inl ou linhnm ou vid o relato s a este r esp eito (S oa res, 200 0, p. 170 ).
SOCIOLOG IA DA APLICAÇÃO DO DIREI TO 19 9

I
profissio nal, desen vo lv ida com o fo rm a de reação às dif ic uld ades do
tra balho. A sua carac terística principal é a solidariedad e entre policiais ,
ou seja, o chamado “espírito de corpo”, que leva à limitação dos con
tatos sociais dentro do círculo policial. Algumas pesquisás indicam,
como características particulares da profissão policial, a astúcia, o
conservadorismo, o extremo moralismo e a proximidade cultural com
a marginal idade. A im agem negativa da opinião pública com rel ação aos
' policiais é, ao mesmo tempo, causa e efeito da subcultura policial.
Por úl timo, as pesq uisas em píricas apo ntam qu e a políci a possui , na
prá tica, um a g ran d e m argem de dis cri cio ria ri edad e na apli cação do
dir eit o. Ist o lhe oferece um poder particularme nte grande. D ependendo
da situação, este poder pode ser exercido de forma discriminante e
violenta ou, ao contrário, pode servir para adaptar as previsões legais
às s ituações concretas (por exemplo, d eixando d e registrar uma queixa
e soluci onando o con fli to entre vizi nhos de forma am igável), mesm o se
isto impli ca no des cum primen to de formalidades legalmente e xigidas .14

onar Uma
conflittentativa
os soc de
iaisutilizar
encon a tra-se
discricionariedade policial para
no "po liciamento soluci
comurii tári o" (Dias
N eto , 2000). E ste te rm o in dic a os proje to s de p arceria entr e as auto ri 
dades policiai s e os represen tantes de com unida des locais. Tais projetos
for am desenv olvidos nos EU A a partir dos anos 70 e são hoje implem en
tados em vários países. O objetivo é solucionar conflitos através de
int ervenções principalmen te preventivas. A polícia adap ta suas estraté
gias às necessidades da população e aplica políticas de segurança que
oferecem respostas a problemas locais, não limitando seu trabalho ao
“combate ao crime”.
A parceria entre os ap arelhos da polícia e a pop ulação o bjeti va limi

tar
perm o autoritari
itin do umsmcoo netro
redule zir os aspe
confo rm e ctos n egativos
os prin cíp io sdd em
a sub cultura polici
o cráticos al, a
(“ os cid
dãos fisc ali zam a polícia”) . Espera-se tam bém que este s projetos propi
ciem aos pol ici ais um a visão mais abrang ente e adequad a dos proble m as
que tradicional m ente são solucionados através da repressão penal .
As experi ências de policiamen to com unitário n3o derám resul tados
parti cula rm ente po sit iv o s. H á auto re s que, m esm o recònhecendo os
ri scos e os problemas, con sideram estas experiências com o um a “alt er

(l4) Uma apresentação de pesquisas sobre a polícia é oferecida cm: Cotterrell,


1991, pp. 230 e ss.; Soriano, 1997, pp. 432 d ss.
200 MA NUA L DE SOCIOLOG IA J URfDICA

nati va p rom issor a aos m étodos tradi cionais de polici am ento” i(Di as
N eto , 2000, p. 120; S cu ro N eto , 2 0 00 , pp. 155 e ss.).
O utros autor es consideram que estes projetos consti tuem verdadei 
ros álibis para o desenvolvimento de uma política extremamente
repressora, que abdica do trabalho social. Nos EUA observa-se, nas
últimas décadas, uma impressionante expansão do encarceramento,
com endurecimento das penas e intensificação da violência policial
(“tolerância zero”). As autoridades estão construindo um “Estado
p ris io n a l” que, ao in vés de aju d ar as p esso as ca ren tes, rep rim e e confin a
os desfavorecidos nas prisões (Minhoto, 2000, pp. 128-159; Lehne,
1998; Wacquant, 2001 e 2001-a).
Indicamos que o númeró total de detentos nos EUA passòü dè
300 .000 em 1960 para 750 .000 em 198 5 e 1.500.000 em 19^4, áting ridó
a cifra dè 2.800.000 em 2001, ou seja, corresp ond e a 1,3% da população
adulta. No total, 6.500.000 pessoas estavam, de alguma forma, sob o
controle do sist em a de justiç a pen al (prisão, custódia cau telar , li berdade
condicional). A pena de morte foi aplicada em 2001 a 66 pessoas e
outras 3.600 agua rdavam a sua ex ecu ção .15
Estes dados espelham um en orm e cresci m ento da repressão e i ndi 
cam que o policiamento comunitário não consegue solucionar os pro
b le m as de fo rm a p ac ífica , nem im p e d e a e x p a n sã o da V io lê ncia , cria ndo
um círculo vicioso.
Além disso, o policiamento comunitário revela-se altamente sele
tivo. Seu principal objetivo é combater a criminalidade “de rua” e
oferecer segurança à classe média.
N in gu ém nega q u e o assalt o ou a lesflo co rp o ral são conduta s
nocivas ao convívio social, podendo inclusive custar muitas vidas.
Tampouco podemos negar o grande aumento dos índices de crimes
violentos em muitos centros urbanos. Porém, colocam-se aqui duas

Fonte: htt p:/ / w w w . soci. nlu.edu /~crit crl m /prl son s/pri s96 . txt ; httji://
www.ojp.usdoj.gov/bjs/correct.htm . No Brasil em 2002 o núm ero de det ent os
foi de 240.107 e a taxa de encarceramento de 0,14% da população adulta
(fonte: http://www.mj.gov.br/depen/slstema_brasil.htm ). Assim a porcenta
gem d c encarceram ento no Brasi l é quase d ez vezes m enor do qu e nos EUA!
N i A m írica I n*ji»a a taxa d g en ca rcer» nifn to oscili j gntre 0,4 e (], 07% e, n a
efeíl, 5R!iÊ 0.7 e 0:04% , s eHá í* q US Há UhISS Sü W p â? i T idiá t & % \t
(dados de 1999; fonte: http://www.homeoffice.gov.ulc/rds/pdfs/rl Í6.pdlj.
SOCIOLO GIA DA APLI CAÇ ÃO DO DIREITO 2 01

quest ões. Prim eiram ente, porqu e outros tipos de crim inalidade, como a
econômica, a ambiental e a genética, em geral praticadas por pessoas
p roveniente s das classes p rivileg iad as, d esp ertam m uit o m enos o in te
resse do Estado? Qualquer análise racional demonstra, por exemplo,
que des vios de dinh eiro público têm um custo social mu ito elevado, mas
as políticas de segurança pública desenvolvidas pelo Estado estão vol
tadas à crim inalid ade de rua. Isto indica que o Estado op ta por realizar
intervenções seletivas, alimentando o mito de que o único verdadeiro
crime é o de “rua”. Desta forma, livra do rótulo de “criminoso” ps
delinqüentes provenientes das classes sociais privilegiadas.
Em segundo lugar, pergunta-se por que as políticas do Estado e
quase todas as discussões sobre a segurança pública são centradas nas
respostas repressivas, sejam estas violentas (encarceraihento), sejam
mais brandas (policiamento comunitário)? Se, ao contrário, fossem
desenvolvidas políticas sociais visando a melhoria das condições de
vida das pess oas de baixa renda, aum entariam as chan ces de dim inuição
da “criminalidade de rua” e o Estado cum priria seu dever consti tucional
de efetivar os direitos sociais.
i '
3. ACESSO À JUSTIÇA

3.1 Barreiras de acesso à Justiça

Um o utro objeto de estudo da soc iologia da aplicação do direit o são


os obstáculos de acesso à Justiça que enfrenta uma grànde parte da
população. O s estu d io so s d istin g uem d ois co nceito s (C appelle tti , G arth ,
1988, pp. 9-11; Azevedo, 2000, pp. 184-188):
a) Acess o fo rm a l à Justiça, que consiste na possibilidade legal de
acionar o judic iário em caso de con flit o (existência de lei s que tutela m
direi tos e de órg3os que efetivam esta tutela). O acesso form al à Just iça
é garantido na Constituição (art. 5.°, incisos XXXV, LIV, LV). Exem
plo : a le gisla ção g aran te às em p reg adas d o m ésticas o dir eito de recorrer
à Just iça do Trabalho em caso de violação de se uS direi tos trabalhi stas .
b) Acesso efetivo à Justiça, que consiste na possibilidade real de
ped ir prote ç3o ju d iciá ria . E xem plo: a em p reg ad a M aria de Lourdes,
apesar de ter sofrido violações de seus direitos trabalhistas, nunca
acionou a Justiça por mçdo e falta de Informação.
P § ía É sti a p i c -Ki cí â! . M sstífô mo í j uí 2ê § f osse m i »p rei âi & e 2
a< ni 'stração d a jus tiça perfeita, o sistem a jud iciár io co ntinu aria a
II? M AN UA L DF . SOCIOLO GIA JURÍDI CA

n|>1(Cni o dire ito de form a pa rcia l e sele tiva , d ev ido à s barre iras d é acesso
rlnivo í! Justiça. Estas barreiras dividem-se em quatro categorias
(Pchbinder, 7000, pp. 176-178; Raiser, 1999, pp. 385-389'-
n) Húrrçiras econôm ic as. Os altos custos do processo intimidam as
pnrtJs, <|iir m uit as vezes d esistem de so licitar a proteção ju d ic iária,
|ii)n|iir nflo podem pagar as despesas ou porque não é satisfatória a
icIfiçflo entre o custo do processo e o benefício esperado.
10 línrrcinis sociais. Por desconfiarem do sistema de Justiça,
r utugni s lit igantes desistem do processo. A falta de confian ça é devida
i < <pí(iências anteriores do s interessado s ou a relatos de outras pessoas.
I Jma Out ra barreira social c on siste no m edo de rom per relaçõ es sociais
c sofrer represálias, quando se inicia um processo contra amigos, vizi
nhos, empregadores ou pessoas poderosas.
c) Harreiras pessoais. A falta de inform açõ es sobre direitos de p ro-
(Cçflo jitdicicirin e, p rin cip alm e n te , so b re p o ssib ilid a d e s d e assistên cia
C.i niüiln impe dem pesso as o riun da s d e classes desfav orecida s de exerce-
ic.m seus direit os. A lém disso, a inferioridad e cultural d ifi culta a comu-
ni( açí lo com os adv ogad os e os juize s, criand o u lteri ores desvan tagens.
d) Barreiras ju rídicas. Trata-se de obstáculos relacionad os com as
ragr as de organização dô proce sso e de fun cionam ento do s tri bunais : ex -
<essi va d uração d o pro cesso e incerteza er íi relaçã o ao resultado ; di stãn-
i Iíi geográfica do tribunal ; núm ero li m itado de juizes, prom otores e pr o
curadores; incom petência profi ssional e psicológ ica de advogad os. Uma
ulirrior b arrei ra jurídic a c on sti tui a fal ta de m eios proce ssuais ade qua ^

<losv para
dc determ
iylênci a dominado
ésticas tipos
não d deeseja,
conflito. Exem riaplo:
na maio dosacasos,
m ulhea punição
r qu e é vft
d imáo
i om panliei ro, m as si m solucion ar o prob lem a das agressões. O si st ema
ltu'ídi co oferece, porém, só a “soluçã o” da pu nição (Saba dell, 2002).
As pesquisas empíricas constatam a presença destas barreiras èni
todos os países. O resultado é o acesso desigual ao sistèmá judiciário
r i desigualdade de fa to entre as partes.
Um exemplo. Foi dem onstrado que quando um con sum idor ptuccs:
sa uma grande empresa existe uma avassaladora diferença na atuação
dc ambas as partes. A empresa, em géral, possui cópias de todos ò£
<ln( iinn-ntos emitidos, elabora contratos cujas cláusulas favorecem séuè
■nirirssr-; èm caso de lití gio com o consum idor, possui um a equipe d é
ml\ ignclns (-onipotentes com vasta experiência em recolhi r provas e
<l( .ilnii rjat as es traté g ias a sere m a do tad as no pro ces so. I sto
SOCIOLOG IA DA APLICAÇÃO DO DIREI TO 203

favore ce as grandes em presas qu e são “ lit igantes de rotina” e prejudi ca


as pessoas oca sionalm ente envolvidas em prbce ssos (C appellett i, Gart h,
1988, pp. 21-26; Rehbinder, 2000, pp. 164, 188-189).

3.2 Tentativas de reforma


l
Para solucionar o problema do acesso áesigual aos serviços jurídi
cos, muitos países realizaram reformas. Buscou-se melhorar o acesso
efetivo, considerando a proteção judicial como um direito social, que
deveria ser garantido através de m udanças no funcionam ento da Just iç a.
Podem os indicar quatro tentativas de solu ção .16
a) O método mais tradicional é a assist ência jud iciáriá aos neces
sit ados. Co nsiste em coloca r à disposição, das pesso as tí arent es um
advogado, que pod e ser um d efensor dedicad o à assistência judiciária
ou um profissional liberal, cujos honorários serSo pagos pelo Estado.
Tal assistência é a regra em caso de processos criminais e tem sido
expandida aos processos cíveis (Abel, 1989, pp. 128-135).
Calculou-se, nos EU A, que a assistência judiciária aos n ecessit ados
custou 400 milhões de dólares em 1977 para os processos criminais e
superou a cifra de 300 milhões de dólares em 1981 para os processos
cíveis (Abel, 1989, pp. 131,133). Na Alemanha, o gasto totàl foi de 200
milhões de dólares em 1983, sendo que nos últimos anos A assistência
jud ic iári a absorv eu en tre 16% e 2 0% do o rçam ento da Justi ça (R ehbin der,
2000, pp. 167-168).
Um a forma organizada de assis tênci a j udiciária constit uem os escri 
tóri os de advocacia “po pulares” , financiados po r associações profissio
nais . Tai s escri tórios foram Organi zados na Alem anha, desde o começo
do sécul o XX (Hoffm ann-Riem , 2001, p. 7 7). Mais recentem ente for am

cri
lar adas
es li em m auit
gadas os p aíses, incl
organizaç ões pusive no Be sindicais,
olít icas rasil , assessorias
que jurídicas pserviços
prestam opu 
legai s alternativos. O objeti vo é apoiar juridicam en te as populações ca
rent es e ao m esmo tem po fazer um trabalho de conscientização polí tica
(Wolkmer, 1997, p. 270; Junqueira, 2001, pp. 141 e ss.).
b) U m a segun da te nta ti va de am p li ação do acesso efetivo à Justiça
consiste na criação de procedim ento s alternativos para a solu ção de

,IS> Sobre b s tentati vas de soluçã o aqui ex po stas, cf r. C ap pelletti, G arth, 1988, pp.
31-49, 76-156 ; Re hbinde r, 2000, pp. 166-182; Az eved o, 2000, pp. 103 -! 12,
184-200.
204 M ANUAL DE SOCIOLOGI A JURÍDI CA

conflitos (alternati ve dispu te resolut ion). O o bjeti vo é re solver conflit os


de form a si mples, rápida e econôm ica. Em muitos países foram cri ados
p ro ce d im en to s de co n cil ia ç ão p ara alca n ça r um aco rdo en tre as parte s
e també m fu ncionam tri bun ais especializados em de termina dos ti pos de
litígio, que decidem sem formalidades, buscando manter o equilíbrio
entre as partes. Podemos citar as seguintes experiências:
- Tribunai s de peque nas causas, criados na Europ a e nos EUA desde
os unos 70 para decidir em causas cíveis de pequeno valor ou em caso
de delilos de menor potencial ofensivo ( Small Cloims Courts).
- “Tri bunais v ici nais”, que oferecem ser viços de mediação em
casos de pequenos litígios. Estas instituições (Neighborhood Justice
Centers) foram criadas nos EUA nos anos 70, adotando o modelo dos
“Tribunais sociai s” ou ‘Tribu na is de cam aradas”, implantados déca das
atrás em países do bloco socialista.
- Com is sões est atai s ou O NO s que recebem quei xas de consumi 
dores e buscam uma solução amigável ou encaminham o processo à
Justiça, assumindo seus custos. Tais entidades funcionam desde o final
dos anos 60 cm vários países.
- Criação de “au toridades ind epe nde ntes” e de “ defen sores do povo” .
Trata-se de órgãos que adotam o m odelo do Ombudsman sueco, criado
cm 180 9. Estes r eceb em q ueixas dos cidad ãos so bre omissões ou ilega
lidades com eti das pela adm ini str ação p úbli ca, estudam m inuciosamen
te os casos e pressionam as autoridades para que sejam tomadas as
medidas adequadas. Estes órgãos publicam relatórios que objetivam
informar a população acerca de suas atividades e propiciar mudanças
nas relações entre a administração pública e os cidadãoá.
- Criação de “agências reguladoras” encarregadas da ins peção de
serviços públicos delegados a empresas (saneamento)básico, eletricida
de, tel ecom unicações, rodovias, com bustívei s) e tamb ém da soluçã o de
con ditos com os cir isum idores. A pesar dos bons pronósitos, t ais agên
cia s m ostr am -se freqüentemen te impotentes diant e do p oder das gr an
des ( m presas e são criticadas por co m plac ênc ia.17

IínIii <iftlcn6 co nh fcid ac om o “teoria da captura". A maioria do s especi alistas


üjl lnir gin ns «>'ênciní, reçjilad ora s jrt trabalhou f.m emp resa * do ramo,
I UnIÍ'"1" ''" "W r j; " ,," ', 'íll;!iuf(- •'*“gufi valÈ ÍP « tHhulitóF •»* niíi H iè i Aisifji
hi inld, noMlste wr. interesse p6SStiHÍ em rilef EfiiHif etti íliííêís cotitílíSS èoíri
i rmpffsiiM (CoiUwiVll, 19Q1, pp. 218 e ss.; Tomasic, 1986, pp. 111 e ss.).
SOCIOLOGIA DA APLICAÇÃ O DO DIREI TO 205

c) Em tercei ro luga r, t enta-se am pliar o acesso à Justiça aum entando o


núm ero de juize s e tri buna is.18 M as apèsa r do reforço pessoal, os tr ibunai s
de t odo o m undo acusam um a sobrecarga de tr abal ho. O núm ero de nov os
pro cessos é superio r aos casos resolv id os, ocorrendo um acúm ulo de
pro cess os que causa gra ves dis funções na adm in is tração da Justiça.19

Umadooutra
reforma medida
direito para agilizar
processual, com o aintuito
administração da Justiça
de diminuir foi aa
os custos,
duração e a complexidade dos processos (Bettini, 2002, pp. 59 e ss.).
d) Em quarto' lugar, surgem os denominados “seguros jurídicos" ou
“planos de convênio de proteção jurídica”, que são oferecidos por se
guradoras particulares, sindicatos, grandes fempresas e associações de
consumidores. Os interessados pagam um determinado prêmio e a se
guradora lhes proporciona serviços jurídicos, através de advogados
conveniados ou de sistemas de “livre escolha”. Nas últimas décadas
houve uma expansão deste tipo de serviço, apesar dos protestos das
associações profissionais que consideram esta forma de assistência
ju ríd ic a co n trária à étic a da ad v o cacia.20

3.3 Iniciativas de reforma no Brasil

No caso do B rasil, a ex p an são d o ensin o fu n d am en tal e m édio e o


aumento do núm ero de o perado res jurídicos, favoreceram o aces so à

<l8) O núm ero de m agistrados varia fortem ente en tre diversos p aíses. A cada
100.000 habitantes correspondiam, em 1995, 28 juizes na Alemanha, 20 na
Á ustri a, 12 na Itál ia, 10, 2 na Fran ça, 8,5 na Espa nha , 16 na Co lôm bia, 12 em
C osta Rica, 5 na Ven ezuela e 4,5 na In glaterra ( http://www.elpais.es/especiales/
2001/justicia/radiografia.htm; http://www.geocities.com/CapitolHill/5508/
carceles.html; Be tti ni, 2002, p, 52). I nd icati vo d a carência dos serviços ju d i
ciá ri os no B rasi l é que no ano de 2001 est avam em serviço 5 m agist rados para
cada 100.000 habitantes ( http://www.stf.gov.br ).
(l,) Em 1998, o juiz b rasi lei ro julgava , na m édia, 704 p rocessos por ano. A m édia
subia para 1.724 processos no Estado de S8o Paulo (Sadek, Lima, Araújo,
2001, p. 36). N os países da U niâo E uropéia a duração m édia de um processo
que passa pelos 3 g raus de jurisdiçüo é de 6 anos, sendo que na It áli a este
p ra z o se e s te n d e n 10 a n o s ( B e ttin i, 2 0 0 2 , p, 5 1 ).
,30) Esses planos s3o oferecidos desde os anos 50 na Alemanha, onde quase a
m etade das fam íli as é assegurada, p agan do prêm ios no valor tot al de 2 bi lhões
dc dólnj^ s (Rehb lnçjgf. 20 00 , p. ! ’78). N os EU A ha via, e ii> 1987, 17 m ilhf tes
<!f *fpffrt{nBlfetfra UStifHJto dP ‘^ se rv iç o s !gg «i s (’fereçi(jj.)<i p e lo s

^iiidícátos,(Abel,
cializadas Sléíli de oiiifâS
1989, pp. fòrmais'
136-137).iiê segUtes VÊfklíílds pôf Éiüfííésãs S$J}f
M AN II AI. nr. SOCIOLOGIA J URÍDI CA

msiiçn dc amplas camadas da população. Isto se refletiu nas estatísticas


<|tie indicam o contínuo aumento do número de processos em todas as
|iuís(liç(5cs e instâncias.
Para citar um dado expressivo, o número de novos processos anu-
nlmcntc recebidos pelos tribunais de primeira instância passou de 5

<milhncs cmsendo
l< 110 %, l‘W()que,
parano
12mmilhões
esm ocmperíodo,
2001. Houve, assim,
a po pu laçãoum aumentode 16%.21
cresceu
I•m paralelo, cresceu significativamente o número de funcionários da
Çisliça e as despesas da União com o Poder Judiciário aumentaram
<iuase seis vezes entre 1987 e 1997 (Junqueira, 2001, p. 204).
Mesmo assim, constata-se um agudo problema de acesso efetivo,
pois a m aio ria da p o p u laçã o continua a não procurar a Justiça em caso
dc conflitos (Lição 9, 3.3).
Para facilitar o acesso à Justiça buscam-se soluções na ampliação
dos serviços de defenso ria pública que são, hoje, disfunciona is e enfren
tam uma carga excessiva de trabalho (Cunha, 2001-a). Uma outra so
lução está na multiplicação dos escritórios experimentais de advocacia
e dos centr os de atendim ento jurídico, qu e são m anti dos po r Universi 
dades ou orga nizações profissionais e oferec em assistência jurídica
gratuita a pessoas de baixa renda.
Fruto das mesmas preocupações é a criação de procedimentos es
pecia is , rápid os e de b aix o custo para peq uen as causas. A im pla nta ção
dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais com base na Lei 9.099, de
26.09.1995, constitui uma importante etapa na expans3o dos serviços
ju ríd ic os. E m 1999 fun cio n av am m ais d e 2 .5 0 0 Juiz ados, te n do resol
vido, através de conciliação ou de decisão judiciária, mais de 2,5 mi-

Ihfics dc conflitos d c fo rm a eficien te e rá pid a.22


Uma outra iniciativa de aproximação dos operadores do direito à
p opula ção carente c o n stitui o Juizado it inerante, q ue atua em bairros de
p eriferia (C unha, 2 001, pp. 52-55).
Finalidades análogas persegue a arbitragem extrajudicial, através
da qual pessoas de confian ça das partes resolvem c onflitos patr imoniais
dc form a rápida, sem intervenção d os tribunais (Lei 9.307, de 23.09.1996).

” l) Fnn lc: htt p:/ /ww w .s tf .gov. br/ bndpj/movim ento/ M ovimen to6B.a. sp ; cfr. os d a
dos cm Junq ueira, 20 01 , pp. 194-202; Sadek , Lima, Arnüjo, 2001 , pp. 13 -34 .
Fonte: http://www.stf.gov.br/bndpj/justicacomum/JComum7I.asp ; cfr. Cu
nha, 2001.
SOCIOLO OIA DA APLICAÇ ÃO DO DIRF. IT O 207

Na m esm a d ireção atuam as co m issõ eá d e co n ciliaç ão prévia em caso


de conflitos trabalhistas] procurando encontrar uma solução amigável
antes da intervenção do tribunal (Lei 9.958; de 13.01.2000).
As tentativas de informatizar a Justiça objetivam resolver confl itos
c pr oteger os direi tos fundam entais de forma m ais efi ciente e econ ôm i
ca. Desta forma, acred ita-se que a Justiça seria acessível a todos. Porém,
as experiências práticas indicam que a maioria dos conflitos ainda é
tratada pela Justiça tradicional e muitas pessoas continuam sem acesso
efetivo à Justiça.
Igualmente encontramos no Brasil agências reguladoras que fisca
lizam as concessionárias de serviços públicos , po dendo exam inar r ecla
mações dos consumidores e aplicar sanções às empresas (Agência
N acio nal de E n erg ia E lé tr ic a, criad a pela Lei 9.4 2 7 , de 26.1 2.1 996;
Agência Nacional de Telecomunicações criada pela Lei 9.472, de
16. 07. 1997) . U m a função fi scalizadora também desem penha o Conse
lh o A dm ini str ati vo de D efes a E conôm ica, com com petência par a punir
p ráticas c o n trá ria s às reg ras d a liv re c o n c o rrê n c ia (L ei 8.8 84, de
11.06.1994).
Um papel importante na solução alternativa de conflitos exercem,
final mente, as Fund ações de Proteção e Defesa do Co nsum idor (Pr ocon)
e os dem ais ór gãos, que orient am e apóiam j uridicam ente os consum i
dores em caso de abusos praticados por empresas.

4. OPINIÃO PÚBL ICA E DIREITO

Con hece a população as normas j urídica s em vigor? Qual é a opiniãp


das pessoas sobre o funcionamento do sistema jurídico e sobre os con
teúdos do direit o? A prim eira pergunta refere-se ao conhecim ento do di

re
ta ito porapart
requer come dos de stinatári
paração do direitos odas
em norm as jurídicas.
vigor com A segunda
as idéias das pergu
pessoas sobre n
o justo, is to é , refere-se à consc iência jurídica da p opulação.
Estas perguntas simples e interessantes encontram-se na base de
uma cor rente em píri ca da sociologia jurí dica, que estuda o “Con heci
mento e O pinião sob re o Direito” . Estes estudos sâo denom inados,
desde o final dos anos 60, de pesquisas KOL, iniciais do termo inglês
Knowledge and Opinion about Law.
Na vid a co tid iana, p o dem o s p rescin d ir do con h ecim en to da m aio r
parte das ciên cia s e das d isc ip lin as técnic as. N ão é assim com o dir eito.

I
208 MAN UAL DE SOCIOLOGIA J URÍDI CA

A falta de conhecimento não somente pode prejudicar os nossos inte


resses, mas também é um indicador da falta de eficácia das normas
ju ríd ic as, já que o co n h ecim en to d a n orm a é requ is ito m ín im o para o se u

cump ri m ent
automóvel nãoo. D esconhecer
prejudica o m ododo
n segurança de funcionamento do m
motorista; desconhecer otor de um
as
normas do direito tributário expõe ao perigo de multas exorbitantes e
indi ca que a pop ulação não fo i ad equ adam ente inform ada sobre di reit os
o deveres, ou seja, que o direito não atingiu os seus destinatários.
Igualmente importante ií a opinião da população sobre o sistema iu-
rídico . A d esco nsideraç ão dos sistemas d e solução de conflit os e a rejei
ção da legisl ação em vigor i ndicam um a cri se de legiti m idade do dire ito
e também do po der público que o cri a e adm inist ra (Lição 5, 3- 4) .
Estas colocações demonstram a importância da pesquisa empírica
dr tipo KOL. Indicam também que o principal interessado em obter
iniorm açõe s confiáv eis sobre es te t em a é o pod er público, que as uti liza
como instrumentos de autocontrole e de ajuste das estratégias de “co
m unicação soc ial”. U m a pesq uisa que indica que as m edidas legisl ati vas
sobre determinado tema são desconhecidas ou rejeitadas pela popula
ção, possui para o governo a mesma importância política que uma
pesquis a sobre o “ ib o pe” d o s seus m em bros.
D esde os anos 50, a sociolog ia jurídica util iza sist em ati cam ente o s
recursos estatísticos das sondagens de opinião pública, para pesquisar
o conhecimento e o sentimento da população com relação ao sistema
ju ríd ic o. O s m éto dos p rin cip alm e n te util iz ado s p ara ta is pesquisas são
0 qu estionário ou a entrevista, aplicados em u m a am ostra representativa
da população (Lição 8, 2.3.b).
Três são os principais temas de tais pesquisas:
a) conhecimento da legislação e das sanções;
b) postu ra da opinião p ú b lic a d ia n te d e determ in adas le is e do
direito em geral;
c) opinião sobre os operadores do direito e o funcionamento do
*•is t<mu ju di ciá rio .
A m aior part e das pesq uisas realizadas chega às seguint es concl usões:
1pupliK-no não poss ui um bom conh ecim ento do sist ema jurídico, nã o
i i>n11n mi mesmo r trm umn imagem muito negativa dc seus atores.
<i |miinr iio p iip o de pesquisas K O L ref ere-se ao conhecimento do
• In, i i , • 11>>i | >iir- iln p o p u la çã o A m ai or p ar te de sta s pes qu is as ver sa
SOC IOLOG IA DA APLICAÇÃ O DO DIREI TO 209

sobre o siste ma de jus tiça penal. A a tit ude do p úblico diante do d irei to
pen al é cr ucia l para o se u cum prim ento , tr ata nd o-se de um a cate gori a
de normas cuja eficácia depende da postura psicológica dos spus des
tinatários, e também, da disponibilidade de colaborar com os mecanis
mos de controle repressivo para a apuração de infrações.
N o to c an te ao c o n h e c im e n to d as leis, as p e sq iiisa s in d ic a m q u e a
opinião pública é bem informad a sob re a legis lação penal. Ist o se ex
p lic a p e lo fa to d c q u e as m a is i m p o r t a n t e s leis p e n a i s e as re s p e c tiv a s
sanções s ão ensinadas com o reg ras m orai s aos jovens 110 âmbito do
p ro c e s s o d e s o c ia liz a ç ã o e la r g a m e n te v e ic ü la d a s p e la m íd ia.
As pesquisas mais detalhadas mostram que a populaÇão desconhe
ce, e m geral, as novas leis e tarda a tom ar con hecim ento da ab-rog ação
de lei s. O desconh ecim ento au m enta de form a inesperada no c&m po do
direito civil e trabalhista. Um exemplo indicativo é que, segundo uma
pesquis a realizad a na A le m anha em 1983, 60% da popula ção desco n he
cia os requisitos essenciais para a redação de um testamento particular
válido (Rehbinder, 2000, p. 143). E isto, apesar do fato de que estes
requisitos são poucos e extremamente simples (ser maior de idade,
escrever e assinar com a própria mão).
O descon hecim ento é quase tota l em ram os do direito re ferentes a o
funci onam ento do E stado ou da econom ia (dir eit o constituci onal, admi
nistrativo, tributário, eleitoral, comercial), nos quais a pessoa comum
não tem envolvimento imediato e, em caso de necessidade, procura a
orientação de especialistas. Uma pesquisa realizada na Dinamarca, nos
anos 70, demonstrou que somente 3% da população adulta respondeu
corretamente a perg un ta “Quem estabe lece as lei s no país” ; um a respos
ta parcialmente correta foi dada por 57% dos homens e por 22% das
mulheres (Cotterrell, 1991, p. 125).
Tal como neste último exemplo, muitas pesquisas empíricas de
monstram que o nível de conhecimento sobre o direito varia segutido
o gênero, a idade, o grau de educação, o ambiente metropolitano ou
provin cia no e a p osiç ão do in div íd uo na hie rarquia socia l.
A conclusão comum é que existe uma enorme distância entre a
popula ção e o sis te m a j u ríd ic o . A pesa r da obrig ação de to dos conhece
rem a lei, a maioria das pessoas tem uma idéia extremamente confusa
c par cia l sobre o siste m a jurídico . O direit o m oderno 6 extremamente
com plicado e especializado. Se é necessário um estudo u niversitári o de
cinco anos para graduar-se em Direito, e o recém-formado necessita de
■.•>10 m a n u a i . nr. s o c io l o g ia j u r íd ic *

mu itos anos de práti ca e de cursos de atualização p ara adqu iri r domínio


do sistema jurídico, como poderíamos esperar que todos os cidadãos
tivessem um conhecimento satisfatório?
De tal forma, as pesqu isas sobre o conh ecim ento do d irei to por pa rte
da população confírmmn a previsão feitn por Max Weber no início do
século XX. O autor apontou como “destino inevitável” do direito mo
derno o de ser cada v ez mais com plexo e repleto de conteú dos técnic os,
de forma que seu conhecim ento perm aneça um apanágio da “cl asse dos
ju rista s” (W eber, 19 99, p. 153; L uhm a nn, 198 5, pp. 55-56). A ssim
sendo, os operadores do direito “expropriam” o sistema jurídico obri
gand o os seus de stinatários naturais, ou sej a, os ci dad ãos, a recorr erem
aos especialistas para solucionar os conflitos mais simples.
O segundo grupo de pesquisas K O L versa sobre a aceitação d
direito por parte da população. Uma técnica freqüentemente utilizada
é de p edir a os participantes para classificar determ inados delit os segun
do a gravidad e e prop or a pena que con sideram adequada . Os resul tados
deste ti po de pesqu isa tendem a ser sem elhantes às avaliações do legi s
lador, indicando que exisle um largo consenso sobre as normas do
direito penal em vigor.
Em alguns casos, estas pesquisas de opinião pública objetivam
p reparar re form as. S o lic ita-se à po p ulação um a avaliação do dir eito em
vigor e de possíveis alternativas com a finalidade de criar normas que
atendam a vontade popular, aumentando, assim, as chances de eficácia
do direito. Esta é a técnica da sondagem legislativa (Rouland, 1998,
pp. 225 e ss.).
O tercei ro grupo de pesq uisas K OL refere-se à opinião da popul
ção sobre o fu ncionam ento do sistem a jurídico. As pesquisas demons
tra m que o conhe cimen to dos cidadãos sobre o funcionam ento da J us
tiça é m uit o lim itado. A m aiori a desc onh ece as regras proce ssuais e os
efeitos das decisões dos tribunais. Acredita-se que a Justiça trabalha
de forma seletiva em detrimento das classes inferiores, há grandes
dúvidas sobre a probidade e a imparcialidade dos magistrados e sobre
a capacidade da Justiça para combater a criminalidade e para ate ider
às necessidades da população.
Exemplos: em 1997 foi realizada na França, através de questioná
rios aplicados a mais de mil adultos, uma pesquisa de opinião sobre a
Justiça. A pesquisa revelou que somente 38% dos entrevistados confia
vam na Justiça, sendo que a desconfiança era maior entre aqueles que
SOCIOLOGIA DA APLICAÇ ÃO DO DIRP.ITO 21 I
I
já havia m tido co ntato com os tr ib u nais . Um to ta l de 66% dos p arti ci
pante s afi rm ou q ue a Justiç a fu n cio n a “rela ti v am en te m al” ou “m uito
mal” e somente 21% considerou que a magistratura é independente do
poder polí ti co. A m aio ria se q u eix o u da lentid ão dois processos, da
dificuldade de comunicação com os juizes, da falta de orientação e dos
altos custos processuais.H
Urna pesquisa brasileira realizada em 1975 no Espírito Santo, onde
foi empregada a técnica do questionário, demonstrou que a população
do interior do Estado respeitava a figura do juiz e confiava nele, apesar
de manter uma relativa desconfiança em relação à eficiência, acessibi
lidade e imparcialidade do sistema judiciário. Já as respostas da popu
lação de Vitória indicavam uma maior desconfiança diante dos juizes
e do si stema jud iciário (H erkenho ff, 1993 ). Pesquisas m ais re cente s
indicam que a maioria dos brasileiros desconfia dos advogados e dos
ju íz ts , c on siderand o a Justi ça in eficaz, le nta e d is cri m in adora (Junqueira,
2001, pp. 232 -237 ). i
A real ização de pesquisas de ti po KO L srcinou debates acadêm icos ,
sendo que esta forma de estudo empírico do direito foi criticada por vá
rios cientistas sociai s. A s críticas m ais fortes são voltadas para as pesq ui
sas do segundo tipo (aceitação do direito). Deixando de lado as críticas
sobre a finalidade política de tai s pesq uisas, que m uitas vezes tentam le
git imar o direi to do Estado (Sma us, 198 0; To m asic, 198 6, pp. 11 6e ss.)
apontaremos aqui dois problemas rev elados p ela análi se da m etodol ogia
e dos result ados de ta is pesquisas em vários países do m undo.
Em primeiro lugar, constata-se a grande instabilidade da opinião
pública sobre o dir eito . A pós um crim e ou um escân d alo político,
muitos s e sentem indignados com o sistema de Justiça e m ulti plicam os
apel os por uma p olíti ca repressiva. Pa ssada a com oção, m uda a opini ão.
Se e sta s m esmas p essoas fossem conv idadas a legis lar, não agir iam com
tant a versat il idade. N ão é raro con statar em tai s pesqu isas que a m etade
da população, na Europ a e na Am érica Latina, está a favor da intr odução
da pena de mo rte.2 4 No B rasil essa po rcen tage m cheg a a 70% .25 Nada

<” > Pesq uisa do Inst itut o CS A ( http://www.gip-recherche-justice.fr/pubIications/


sondage.htm). So bre resultados seme lhan tes na Alem anh a, c fr. Ra ise r, 19 99 ,
pp. 352-357.
(24) M osc on i e Toll er, 1998, p . 174; R ou la nd , 1998, p. 227.
(J5) Resu ltado de p esqu isas re alizad as no s anos 80 e 90 (C aldeira , 2000, pp,
352, 357).


I' MANUAI. DP. SOCIOLOGIA JURÍDICA

Indica, portím, que todos estes cidadãos votariam em um partido que


«pregou o estabelecimento desta pena.
Ao problem a de credibilidade d as respo stas junta -se um segu ndo.
A miiior parle da população possui uma imagem parcial e incompleta
sobre 0 sistema jurídico e, dessa forma, as respostas não refletem um
. onhccimento ou uma realidade do direito, mas somente uma opinião
. onfiisa i' ideológica. A pessoa comum não possui conhecimento sufi-
■irnic para analisar, por exemplo, se a Justiça combate eficientemente
,i i rmiiimlidudi' ou se os juizes são imparciais. Se for perguntado, o
■ f(Jild i>> Im la iá g en era liza r em bas e às po uc as e xp eriê nc ias p esso ais e ,
(JbictifflO, repetind o a o pin ião ve icula da p ela m ídia, qu e dá p arti cular
destaque aos problemas e escândalos (exemplo: “corrupção de juizes”)
c nunca noticiam o cotidiano norm al do sistema jurídico.
Assim sendo, os question ários relativo s à opiniãoisob re o direito ém
f.niil reproduzem o “senso comum”, difundido pela mídia, ou seja,
n llcicm estereótipos e visões sensacionalistas; não descobrem a opi-
niflo pessoal de cada interrogado e segu ram ente não perm item constatar
,i ical idade do direito. P or tais razõ es, o so ciólo go francê s P ierre Bourdieu,
istentou que “a opin ião p ública n ão existe ” .26
Masl íiind icar t rês exem plos (M osco nieT oller, 199 8, pp. 16 2-1 63 ,175
176) Segundo pesqu isa condu zida na Esp anha , 77% doá é iit revis tados
a Iii i nam que estão pessoalmen te emp enhados na luta contr a a cri minali dade,
>.iindO que 65% dos mesmos consideram que os outros cidadãos não
ItfjJijftm o suficiente par a co ntro lar a crim inalid ade , ou seja, a pesq uisa nos
indica somente que cada um “joga” a culpa sobre os outros.
I m uma pesquisa realizada na Itál ia, 60% dos entrevist ados consi
derou necessário o aumento das penas criminais para combater a
i liminalidade, sendo que som ente 13% dos m esmo s afir m ou que a pena
d<- prisão 6 o melhor método para lutar contra o crime. Os demais
cnlicvis tados consideraram adequado o uso de medidas de tipo econô
mico c educativo.
Finalmente, pesquisas realizadas em todo o continente europeu
indicam que o medo da criminalidade e a postura repressiva tendem a
acentuar se entr e os idosos, apesa r destes apresen tarem, estatis ticam en-
ifi m enores chan ces de serem vítimas de crim es do que os mais jovens!

i"'1 a Duviira, Opiniao(ctes), in Arna ud, 1999, p. 552; cfr. a crítica em Zimmerling,
SOCIOLOG IA DA APLI CAÇÃ O DO D IREI TO 213

Uma outra crítica refere-se à contribuição das pesquisas sobre o


conhecimento do direito. Em geral, estas confirmam um resultado fa
cilmente previsível: o cidadão tem um conhecimento elementar do
direito penal e, em menor grau, do direito civil e trabalhista. Em caso
de conflito jurídico, este quase nunca confia em seu próprio conheci
mento, procurando a orientação de especialistas (advogados, polícia,
sindicatos etc.).
Isto i ndica a li m itada utili dad e das pesq uisas sobre o conhe cimen to
do direito. Se as normas jurídicas são aplicadas, na maioria dos casos,
por órgãos do E stado e pelos o p erad ores ju ríd ic o s e “p a ra jurídico s” (por
exemplo, os contadores responsáveis pela contabili dade de em pres as) ,
o maior ou menor grau de conhecimento das normas por parte da
popula ção não m an tém um a rela çã o cau sai com a efic ác ia d o direito.
Exemplo: é importante que as mulheres saibam que têm direito a
uma pensão alimentícia em caso de separação. Porém, conhecer em
profundid ade as le is que regula m esta m atéria é d esn ec essá rio , já que
a mulher que aciona o poder judiciário sempre será assistida por um
especiali sta. Po rtanto, o essencial i para a ap licação dâs norm as nas
relações sociais não é o conhecimento técnico do direito por parte da
popula ção, e sim o acesso efe tiv o à Justiça.
Em conc lusão, est es problemas indicam que as pesquisas KOL não
responder am às fort es expectati vas em conhe cer a “realidade do direi 
to”, que acom panharam a sua expan são ini cia l no âm bit o da soci ologi a
jurídica de c un ho em pír ico. Is to exp lica a d im in u içã o dos tr abalh os
deste tipo que se registrou nos últimos ^nos.
Uma única exceção refere-se às pesquisas sobre o sentimento de
medo da criminalidade por parte da população e às soluções que esta
preconiz a. A seg urança púb li ca co n stitu i um te m a de grande rele vância
nas campanhas políticas (“tolerância zero”, “cidades següras”, “polícia
com unitár ia”) . Assim sendo, organism os públicos e autoridades gover
namentais fi nanciam mu it as pesq uisas sobre o assunto, que são princi
palm ente con du zida s por soc ió lo gos do dir eito .27
N este caso, as p esquis as não são co n d u zid as para con statar j| o p i
nião da população sobre o sistema jurídico, nem para conhecer a rea
lidade da aplicação do direito. A finalidade principal é de organizar

<37) Cfr. a vasta bibliog rafia ref erid a em : M os co ni e Tol ler, 1998; Pro ge tto “Città
sicure”, 1998 e 1999; Sabadell, 2000.
M AN UAL DF. SOCIOLO GIA JURlDICA

intervenções políticas sobre o tema da criminalidade. E tais interven


ções objetivam, muitas vezes, instrumentalizar o medo do crime que
sente a popu lação, p ara im por p olíticas autoritárias de controle social. 28

Para ir mais longe

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1998; Pocar, 1974; Podgórecki, 1973; Raiser, 1999, pp. 346 e ss.;
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1981, pp. 153 e ss.; Rouland, 1998, pp. 212 e ss.; Schur, 1970, pp. 218
e ss.; Smaus, 1980 e 1985.

,’ 1" Os grupo s sociais que sen tem ma ior m edo d a crim inalid ade nf lo si to os que
j n a is f r e q ü e n t e m e n te t o r n a m - s e v í ti m a s d e d e li to s . A l é m d iss o , a i n te n s id a d e
do medo não depende unicamente do real aumento da criminalidade. Depen
de lnmbi‘m da imngem que as auloiidndes e a mídia difundem sobre este
fenômeno e da situação social das pessoas, sendo que a insegurança indica
uma crise social (Kunz, 1998, pp. 311-313; Sabadell, 2000, pp. 58-59).
Conclusão

DEFI NIÇÕES SOCIOL ÓG ICAS DO DIREI TO

SU M Á RIO : 1. Deli u içã o mon ista amp liada - 2. Definição plurali sta -
3. Definição constrativista-coniunicativa.

Immanuel Kant observou, em 1781, que os juristas ainda estavam


buscando um a d efin iç ão adequada d o dir eit o (K ant, 1998, p. 625), ou s eja,

não sabiam qu confirmada,


foi plenamente al era exatam
m enteais
o objeto deséculos
de dois seus estudos.
depois,Eem sta cons tatação
uma coletâ
nea de “contrové rsias” de conh ecidos j uristas sobre a definição do d irei 
to (Am selek e Grzego rczyk , 1989, p. 5) e, aind a ma is recentem ente, em
um man ual de direito alem ão (Paw low ski, 2000 , p. 133 ).
Sabem os sociólogos do direito qual é o seu objeto de estudo? A
resposta deve ser também negativa. Nos dois casos, o problema é que
os especialistas não podem chegar a um acordo sobre a definição do
fenômeno estudado. Isto acontece em geral nas ciências humanas, que
não são epistemologicamente fechadas: o posicionamento político e as
escolhas teóricas de cada autor são diferentes e influem sobre os resul
tados do seu trabalho.
N o caso d a soc io lo gia ju ríd ic a , os pro ble m as co m plic àm -se ain da
mais pelo fato de existirem hoje duas grandes famílias de sistemas
ju ríd ic os. O s sis te m as fundam entados da su prem acia do le gis la dor e
aqueles fundamentados na supremacia da jurisprudência. No primeiro
caso, a principal fonte do direito é o conjunto das normas escritas, que
corresponde à vontade das autoridades políticas. Este modelo tem a sua
srcem nos países da Europa continental, sendo adotado, hoje, em
grande parte do mundo, inclusive na América Latina ( legicentrismo ).
No segundo caso, o elem ento m ais im porta n te do sis te m a ju rídic o 6 a
tradição estabelecida na vida política e nos tribunais com relação a
determinados problemas. Este é o sistema que se formou na Inglaterra
216 MANUAL. DE SOCIOLOG IA JURÍDI CA

c qge continua válido em quase todas as ex-colônias da Co roa Brit ânica


f dir ei to com um ”, commort law).
Dependendo do sist em a jurídico de cada país, os soci ólogos do
direito possuem uma visão sobre o que é o direito e orientam a sua
p esquis a de Ibrm a d if eren te. A ssim sendo, a so cio lo gia ju ríd ic a no s

píoimação
jíse s loegic cntr
pela is ta s in
eficácia daste ressa -setradição
leis; na parti cu
dalapesquisa
rm ente anglo-saxã
pelo s m ecan is m o s de
p ie vnle cc, ao co n trário , o in te resse p elos o p erad ores do direito.
lista diferença é tão forte que a autora dc um recente manual dc
sociologia jurídica optou pela divisão em duas partes, estudando sepa-
ladamen te a “fo rç a da l ei”, nos países de direito legicêntrico e a ‘ fo rça
da decisão jud iciá ria ”, nos países do commort law (Serverin, 2000). A
.mtora concluiu que os sociólogos do direito não podem alcançar um
consen so sob re o objeto d e sua disciplina, exist indo grandes d if erenças
entre os vários países. Devemos acrescentar que as diferenças sobre a
definição do direito aumentam se levarmos em consideração outras

culturas
indígenas)jurídicas, que se fun religiosos
e nos mandamentos dam entam nos costume
(direito s (direi to dos povos
islâmico).1
Após ter estudad o n este livro conc eit os, as pectos e teor ias da soci
ologia jurídica, podemos apresentar as principais definições do direito
na perspectiva sociológica, retomando elementos das precedentes aná
lises. Três são as definições mais importantes para aqueles que consi
deram o direito como fenômeno social.

I. D EFINI ÇÃ O M ON ISTA AM PLI ADA

A perspe ctiva m onista considera q ue o si stema jurídico é composto


por n o rm as le gais q u e p o ssu e m v ali d ade em d ete rm in ad o te rr itório ,
sendo estabe lecidas e aplicada s pelos órgãos do Estado. Esta defi nição,
dc srcem positivifcta, sofre uma importante ampliação no âmbito da
sociologia jurídica. O j urista-soció logo que adota a per specti va
p o sit iv is ta , não c o n sid era co m o d ir eit o so m en te o que d eterm in a a lei,
mas também o que acontece na prática jurídica (“direito em ação”).
Assim sendo, o termo “legis lar” não poss ui o s ignificado es trit o de “ ser
con stit ucion alm ente h abilit ado para estabe lecer norm as jurí dicas”. Na

Ver os verbeles dedicad os às principais cult uras jurídicas do mun do em


Arnaud, 1999, pp. 201-229, 545-551, 804-809; cfr. Rouland, 1998, pp. 38-82.
DEFINI ÇÕES SOCIOLÓ GICAS D O DIREITO 217

p ersp ectiv a so c io ló g ic a, c ria r n o rm as ju ríd ic a s sig n ific a tam b ém ter o


poder de d eterm in ar o sentido d estas norm as na p ráti ca. A ssim sendo, os
ju ristas-so ció lo g os que ad otam a d efin ição m o n ista am pliada, estud am o
direit o estatal privilegiand o os seus aspectos p ráticos, ou sej a, as form as
de s ua aplic ação: “o direit o pod e ser em piricam ente o bservado atr avés do
com portam ento dos operadores juríd ico s” (Rehbind er, 2000, p . 48) .

2. DEFINIÇÃO PLURALISTA

A definição pluralista amplia ainda m?iis o conceito sociológico do


dire ito. Con sidera como direito qualq uer sistema de n orm as sociai s que
regule efetivamente a vida social. Um sistema de normas que adquire
validade e efi cácia na prática social é considerad o co m o parte do campo
jurídic o, m esm o quan do é co ntrário ao d ireito estatal (p o r exem plo, a
máfia siciliana).
Um a definição pluralist a do direit o é dada por So usa Santos: “o di
rei to é um corpo de proced ime ntos reg ularizado s e de padrões norm ati
vos , considerados j ustificáveis num dado grupo social , que contribui para
a cr iação e prevenção de lit ígios , e para sua reso lução através de um dis
curso argum entativo, art iculado com a am eaça de força ” (2000, p . 290) .
As definições plural ist as enfren tam um p roblem a. Q ual é o crit éri o
que permite saber se u m sistem a de norm as é recon hecid o no âmbito de
um grupo social? Foram propostos três critérios.
O p rimeiro é o critéri o do constrangimento (ou da coação), adotado,
entre outros, por Max Weber: existe um ordenamento jurídico quando
um aparel ho de pod er pode aplicar vi olência físi ca em caso de descum 
prim ento das norm as em vigor (L ição 5, 1). C ritério d e ju rid icid ad e é
a capacidade de exercer coação organizada em caso de violação de
normas. Nesta perspectiva, são definidos com o jurídico s os siste m as de
normas garantidos po r um a agência q ue possui p restí gio e força, sendo
e^a capaz de impor suas decisões em caso de conflito (Junqueira e
Rodrigues, 1988, p. 128).
O segund o é o critério da eficácia social de um sist em a de normas.
É considerado como "direito” o conjunto de norm as que cria e confirma
expectati vas sobre o com portam ento dos dem ais. Se um indivíduo sa be
que os outros se comportam conforme as normas, então ele também
tenderá a respeitar as leis em vigor. Neste caso, critério de juridicidade
é a capacidade de um sistema n orm ativo de influenciar o com portam en
to das pessoas (Krawietz, 1988).
M AN II AI. »É SOC IOt .OG IA JURÍ DICA

li xrm plo: um co m erciante que vend e a pra zo sabe que a maioria de


c iim Mentes paga a!s pre staç õe s reg ularm ente . Isto lhe perm ite preve r seus
liil iuos ren dimen tos, orga nizar sua atividade econ ôm ica e , por exemplo,
contrair em préstimos para a m pliação do estoque e abertura de novas l o-
ías. Aqui oro m po rtam en to dos cl ientes e do com erciante é devido àexis-
t&ni ia dr normas que criam exp ectativas de com portam ento, sendo que
( sias rxpec tati vas geralm ente são confirm adas (a maioria dos cli entes pa ga
na dívidas e n com erciante pode honrar s eus com prom issos).
<) terceiro critério é o individual-psicológico. Seus partidários se-
imu iii a tradição do direito natural racional (Lição 1, 1.3), que entende
que a defi nição do direito depe nde do sentimento de justiça dos indi
víduos. Uma das primeiras definições individuais-psicológicas do di-
into na sociologia jurídica encontra-se em Ehrlich. Em sua opinião “os
diversos tipos de normas provocam diversos sentimentos”. Cada um
deites sentimentos corresponde a um tipo eje normas sociais. A violação
de noimas morais provoca indignação, o descaso em relação às regras
dr cortesia causa raiva e a inobservância das regras de boas maneiras

expor
peita onos
transgressor
m em brosao ridículo. A dviolação
da so c ie das tim
ad e o sen normas
en tojurídicas
de “rev des
o lt a” (Ehrlich,
ijlKO, p 12 9) .2
As definições que fazem depender o direito de sua aceitação pelo
iMiipo social constituem o ponto de partida do pluralismo jurídico (Li-
çSO 5, 5) e são aceitas por muitos juristas-sociólogos. Esta preferência
i facil me nte explicável. Sendo estes interèssados p ela reali dade soci al
do direito, consideram importante a eficácia das normas, isto é, sua
capac idade de reg ular a vida social, graças ao fat o de sere.n reconh eci
das pelo grupo social.

«. DKFINI ÇÃO CO NST RU TIVISTA-COM UN ICÀTIVA


Uma terceira possibilidade de definição sociológica do direito é
aijuela que adota a perspectiva dn constmtivismo c da teoria sistêmica.
Sc£imd<i esta visão, o direito é um sistema social criado através de
atos de comunicação social sobre a “juridicidade”. O sistema jurídico
povsiií um có dig o de fu n cio n am en to : le gal/ ilegal ( Recht/Unre cht ). O
■ oii ipoi tamento do v izi nho qu e não cum primenta é i le gal o u somente
l
1,1 <'fr.asdcf iniçõ espsic ológ icasap resen tadas em Sou toeS outo , 1997,p p.207-21 8.
DEFI NIÇÕES SOCIOLÓG ICAS DO DIREI TO 219

< I .
■mal-educado? A postura de um cientista que falsifica os experimentos
fingindo ter feito uma descoberta viola somente o dever científico da
verdade o u consti tui também fraude? As relações sexuais extraconjugais
são um ato moralmente reprovável ou um ilícito penal (adultério)?
A resposta depende do que pensa determinada sociedade. Se esta

caracteriza,
gal”!), entãopor
esteexemplo, o adultério, através
é um comportamento do código
juridicamente jurídicoenqua
relevante, (“ile
dra- se no sist em a jurídico. Se a sociedade o caracteriza seg undo códigos
morais (imoral), religiosos (pecado) ou sentimentais (tristeza), então sc
trata de comportamento que não possui relevância jurídica.
Assim sendo, os atri butos “ jurid icida de ” e “leg al/ilegal” dependem
de uma série de fatores sociais. Está fora de dúvida que, nas nossas
sociedades, as normas produzidas pelo Estado póssuem as maiores
chances de serem consideradas jurídicas. Também, a atuação dos ope
radore s jurídico s é primordial p ara a aplicação do có dig o “ legal/ ilegal"
e para a caracterização de uma norma como jurídica. O Estado e ps
operadores jurídicos produzem o direito. Toda a sociedade participa,
porém , do processo que se d en o m in a “ atualização da referência ‘direi
to’” (Fõgen, 1997, p. 81).
Seg uir esta linha de definição significa estar atento ao que a socie
dade pensa. O jurista-sociólogo examina assim a realidade do direito,
que é historicamente mutável, colocando a seguinte questão: podemos
considerar hic et nunc (aqui e agor a) um a no rma co m o jurídica? Se , por
exemplo, a quota de eficácia da norma penal que pune o adultério é
“zero”, este preceito não é considerado jurídico pela sociedade, apesar
de possuir validade formal.

O sociólogo do direi to deve e xam inar as causas desta tot al ineficá


cia. Não pode, porém, considerar tal norma como parte do sistema
juríd ic o, já q ue se tr ata de um a le tr a m orta . N este caso, a socie dade
atual izou a sua referência jurídica. Excluiu e sta no rm a do sistema ju rí
dico em vigor, julgando a relação sexual extraconjugal em base a có
digos dc outros sistemas sociais (moral, religião, sentimentos).
O exem plo mais claro de prob lem as de validade do direi to é ofere
cido, nas últimas décadas, pelo direito internacional. Há um direito
universal independentemente da vontade e da atuação dos Estados. A
observação sociológica e política nos ensina que não é suficiente fazer
umq “Declaração Universal de Direitos” para alcançar a validade jurí
dica. Tampouco pode ser sustentado que o direito internacional “não
220 M ANU AL DE SOCI OLOGIA J URÍ DI CA

existe” e que as Declarações e Convenções sobre direitos humanos são


somente um texto polftico ou uma pura “ideologia”. As sociedades
atuais ainda não decidiram se os textos normativos de direito interna
ciona l po ssuem validade jurídi ca, ou seja, permitem um a comunicação
social fundamentada no código legal/ilegal.
A criação de tribun ais internacionais, na segunda m etade do séc ulo
XX, e as iniciat ivas de pro teção d os direit os h um anos através de sanções
internacionais (por exemplo, no caso Pinochet), anunciam uma trans-
lomiação na comunicação social sobre o direito internacional. Este é
considerad o, cada vez m ais, um tem a jurídico. Esta evolução não exc lui
que muitas decisões das organizações e dos tribunais internacionais
continuem protegendo os interesses das grandes potências, não se co
locando a serviço dos direitos humanos. Aqui interessa, porém, o fato
de que os governos e a opinião pública começamí a reconhecer uma
legalidade internacional.
Hm poucas palavras, a perspectiva construtivista-comunicativa
cSnsidera que a sociedade constrói, em cada momento histórico, uma
“provínci a de senti do” ch am ada D ir eit o, através de ato s de com unica
ção social. O meio principal da comunicação social é a linguagem, que
dá um determinado sentido aos comportamentos e às instituições so
cia is . O código jurídico é est ável. As norm as e os com portamentos que ,
em cada momento histórico, pertencem a esta “província de sentido”
são extremamente mutáveis.3
0 comp ort amento que ontem era cri m e conver te- se hoj e em exer 
cíc io legít imo d e um direito - e vice-ver sa. Red uzir um a pess oa à
( ond ição de esc ravo é hoje crime, sendo que o m esmo ato era consi de
rado, até
dade em muitos
o séculopaíses,
X IX.como exercício
A hom ossex legítimo
ualidadedo direito de hoje
constitui proprie
manifest ação
da liberdade sexual de uma pessoa adulta, sendo que algüns séculos
atrás era um “delito nefando”, passível de pena de morte, existindo
ainda países que punem a homossexualidade como delito.
A qualificação de uma norma como “jurídica” depende da comu-
nir nçfl o que estabelece cad a sociedad e com relação ao direit o (Luhm ann,

Hcrgei cl uckm ann, 1985. Veja, com referên cia específica ao direito, Luhmann,
| ()Q7, pp 13 e ss., 54 e ss., 66 es s., 49 6 e ss.; Nev es, 1994, pp. 113 e ss.; Faria,
1 <>()(), pp 18 í c ss.; He spu nh a, 1998, pp. 261 e ss . Cfr. a de finiç So de B aratta: "o
Onlrj nnnBit o jurídico poderia ser defi nido com o o co njunt o dos fat os s eda is
pcnsnclos co mo normas em um a determ in ad a so ciedade” (1 963 , p
DEFINIÇÕES SOCIOLÓGICAS DO DIREITO 22 1

1997, p. 496). Por esta razão, o jurista-sociólogo deve pesquisar á


reali dade social , para encon trar aquil o qu e determ inada sociedade con- l
sider a com o realidade jurídica, através dos seus atos de com unicação.
M uit os autores criti cam a visão co nstrutivist a do direi to, afi rmando
que é muito abstrata ou que nãp consegue liberar-se do idealismo e do
dogm ati smo que caracteri zam outras concepç ões. E m todo cas o, a pers
pectiva con str u tiv is ta é ap licada, de form a b em su ced id a, em estu dos
sobre a “rea lidade do dir eito ” .4 I
Esta abordagem permite também tratar alguns problemas que sur
gem nas recentes pesquisas de s ociologia jurídica. A questão, por exem 
plo, de se o d ir eito deix ou de se r ríg id o e p o sit iv o é passou a ser pós-
m odem o, flexí vel, pl ural e f lutuante, nâo pode ser respo ndida an ali san
do a vontade dos legisladores e a opinião da doutrina. A resposta
depende da comunicação social que se estabelece em torno ao direito:
a sociedade continua Considerando como direito o sistema jurídico do
Estado ou reconhece como direito as regras mutantes do capitalismo
internacional e das comunidades locais? Podemos dar uma resposta
fundamentada somente através da ánálise da “realidade do direito”,
construída nas comunicações sociais sobre o sistema jurídico.
N in gu ém po d e d iz er q ual defin iç ão do d ir eit o p rev ale cerá nas p es
quisas da sociologia jurídica d o futuro, já que a discipli na passa por uma
crise de orientação e desenvolvem-se acirradas polêmicas sobre a sua
finalidade e identidade (C otterrell, 1996; Tam anahfl, 1999) . O cam inho
certo é refletir sobre os três modelos de definição hoje concorrentes e
testar a adequação de cada um às necessidades e aos resultados da
pesquis a ju ríd ic o -so cio ló g ic a.
Ist o perm it irá à sociologia do direit o a firmar-se com o com ponente
da sociologia e como elemento imprescindível para a formação dos
operadores jurídicos, com espírito (auto)crítico e em estrita conexão
com os desenvolvimentos em outras áreas do saber. Bòa viagem.

Um bom exemplo oferece a pesquisa de uma historiadora do direito sobre a


pu nição da mag ia na ép oc a rom an a e bizan tina (FOgen, 1997, pp. 79 e ss.,
223 e ss.).
I
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REVISTAS DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

Para aprofundar o conhecimento e elaborar trabalhos de pesquisa na área da


sociologi a jurídica é necessário consultar revistas especializadas. Nestas encon-
tram-sc artigos teóricos, apresentações dc pesquisas cmpfricns, resenhas dc li
vras, informações sobre congressos, debates e controvérsias entre estudiosos.
Indicamos o título, o país de pu blicação e a ed jtora das principais revistas que se
dedicam, total ou parcialmente, à sociologia jurídica:
Anuário de fil osofia dei der echo (Espanha; Boletín oficial dei Estado).
Archiv f iir Rechts - und Sozialphilos ophie (Alemanha; Felix Steiner).
Canadian Journal of Law and Society/Revue Canadienne Droil et Société
(Canadá; Univcrsité du Québec).
Current Legal Sociology (Espanha; Instituto Internacional de Sociologia
Jurídica Onati).

Dei delitti e drlle pen e (Itália; Ediz.ioni Scientificlie Italianc).


Déviance et so ciété (Suíça; Médicine et Hygiène).
Doxa (Espanha; Universidad de Alicante).
Droit et so ciété (França; Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence).
El otro derecho (Colômbia; Instituto Latinoamericano de Servicios Alterna
tivos).
Internationa l Jour nal o f the So ciology o fL a w (Inglaterra; Academic Press).
Jo ur na l o f Law and So ciety (Inglaterra; Basil Blackwell).
Jo ur na l o f Legal Pluralism and Unofficial Law (EUA; W. S. Hein).
Kritninologisches Journal (Alemanha; Juventa Verlag).
Law & Policy (Inglaterra; Basil Blackwell).
Law an d So cial Inquiry (EUA; University of Chicago Press).
Ixiw an d Society Re view (EUA; American Law and Society Association).
Revista Brasileira dc Ciências Criminais (Brasil; Revista dos Tribunais).
Rev ista de So ciologia dei Der echo (Argentina; Sociedad Argentina de
sociologia dei derecho).
Social and Ilegal Studies (Inglaterra; Sage).
Sociologia dei diritto (Itália; Franco Angeli).
V\

/iVi hlslhrorii' (Alemanha; Duncker & Humblot)-


In if l j ü r R e c h t s s o z i o l o g i e (Alemanha; Lucius A Lucius
Vi 11tlf HIVS f Il.s t li IlH)■
I
< >inteiessado de ve t ambé m pesq uis ar r evistas de soc iol ogi a ge ral. I ndicamos
iu|iii iliins revistas em idioma português:
Revista Hiasilcira de Ciência.'! Socia is (Brasil; AssociaçSo Nacional de Prts-
wndiifii^ilo c Pesquisa em Ciências Sociais).
Re vista Crítica de Ciência.'; Socia is (Portugal; Centro de Estudos Sociais).
A SOCIOLOGIA JURÍDICA NA INTERNET

atuaisNos
Sobresegu intes siles
a sociologia da internei
jurídica em váriosencontram-se informações
países (instituições importantes
de ensino, cursos, e
congressos, projetos de pesquisa, debates, bibliografia, revistas especializadas,
textos publicados em forma eletrônica).
http://www.acds-clsa.org/
http://www.aIternex.com.br/-ides
http://www.bbk.ac.uk/localorgs/slsa
http://www.cirfid ,unibo.it /ciilt
http://www.csls.org.zn
http://www.departments.bucknell.edu/soc_anthro/soclaw
http://www.ed.ac.uk/cls

http://www.gu.edii.au/school/law/slrc/
http://www.iisj.es
http://www.ilsa.org.co
http://www.jur.kun.nl/cflp
http://www.law.nyu.edu/ils
http://www.lawandsociety.org
http://www.lr7.-muenchen.de/~wIm/soclaw.htiri
http://www.reds.msh-paris.fr/portugais/accueil.htm
http://www.soc.lu.se/rsoc.litml
http://www.uni-bielefeld.de/iwi/bora/rechtsso7.iologic

O interessado pode ampliar suas pesquisas visitando os sites de sociologia


geral. Pontos de partida são os seguintes endereços:
http://www.asanet.org
iittp://w ww.socioweb.com/~markbl/socioweb
lilt p:// w ww.socsclresearcli.com
http://www.trinity.edu/-mkearl/index.ium!
Iittp://w ww .ucm.cs/info/isa
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