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Chanceler olavista pode destruir a diplomacia brasileira

Transcrição de entrevista com diplomata sobre a indicação de Ernesto Araújo

para Ministro de Relações Exteriores

Confira o vídeo sobre isto em

https://www.youtube.com/watch?v=NNXZXn5HZVM

O chanceler está na constituição. Ele é o chefe do Itamaraty e tem a função de

auxiliar o presidente da república na formulação da política externa do país e executar esta

política externa. E tem a função de desenhar todo o quadro burocrático, administrativo do

ministério. Geralmente é uma pessoa com poder de barganha junto à administração central,

para barganhar orçamento, entre outras coisas. Além da Secretaria Geral, ele tem a função

de nomear os chefes das subsecretarias gerais do Itamarary. E toda esta estrutura

hierárquica é nomeada por ele. Para fora, ele vai executar a política externa ditada pelo

presidente e, para dentro, ele vai nomear todas estas figuras que ocuparão postos de chefia

do ponto de vista administrativo do ministério. E importante perceber isso, que é por aí que

se pode aparelhar ou não o Itamaraty. Ele vai colocar somente as pessoas com quem ele

tenha afinidade. Ele vai colocar na Secretaria Geral, na subsecretaria, alguém com quem

tenha afinidade ideológica, claro que a gente sabe que, embora ele tenha o cinismo de dizer

que a principio ele e anti-ideológico, aideológico, enfim, a gente sabe que ele vai aparelhar

do jeito que ele quiser, de acordo com a ideologia dele.

Uma observação: no Brasil, a figura do chanceler, quando a gente fala que ele

auxilia o presidente, dá ideia que tem um papel secundário, mas na verdade não, no Brasil,

os chanceleres sempre tiveram um papel preponderante na formulação da política externa,


de modo que ele não está abaixo do presidente nesta formulação. Sempre foi assim, desde

o Barão do Rio Branco, passando pelos chanceleres até do governo militar, que tinham uma

certa independência, uma prerrogativa, independência mesmo de formular a política

externa, e aí depois, na redemocratização, com os ministros do Fernando Henrique. Os

chanceleres no Brasil sempre tiveram realmente um papel mais do que auxiliar o presidente

na formulação da política externa. É uma figura que vai ditar, não somente auxiliar, a

condição da política externa brasileira.

Houve 3 reações à indicação deste novo chanceler: 1 – do corpo diplomático

brasileiro, 2 – da comunidade diplomática internacional, e 3 – da imprensa especializada

internacional.

A reação do corpo diplomático brasileiro foi muito ruim. Nunca houve um

chanceler tão radical. Nem durante a ditadura militar o Itamaraty foi ocupado por uma

ideologia tão radical quanto a do Ernesto. Há muito receio. O Ernesto afirma que o

Itamaraty está aparelhado pelo PT. O que não é verdade, pois tem diplomatas progressistas,

de centro, os oportunistas, os direitistas liberais (PSDB), e mesmos estes estão preocupados

com as ideias do novo chanceler. Poucos se alinham 100% com a radicalidade do Ernesto.

Um ponto fora da curva. Discurso irracional, fundamentalista religioso.

Crítica do Celso Amorim ao Ernesto: “que o Ernesto representa a Idade Média”.

E o Ernesto respondeu dizendo que não sabia se isto era um elogio. E aí você

percebe o olavismo em sua forma mais pura.

Reação do corpo diplomático internacional: negativa. Negação do

multilateralismo. Preocupação sobre o futuro das instituições. Participação do Brasil na

ONU. Felipe Martins (representante internacional do PSL) afirmou que o Brasil tem atuado
mais como um agente da ONU no Brasil do que como um agente do Brasil na ONU. Isto é

um absurdo!

Reação da imprensa internacional: ruim também. The Economist afirmou que o

Bolsonaro era uma ameaça à democracia. Reação geral negativa e apreensiva da imprensa

internacional.

O Itamaraty sempre se manteve independente. Inclusive, mesmo durante a

ditadura militar havia uma forte tendência de esquerda no Itamaraty. Eram chanceleres de

carreira, manteve-se blindado em relação à ideologia da época.

Mas parece que agora isto não vai acontecer. Pela primeira vez na História terá

uma influência deste modo. Está vulnerável, fragilizado e ninguém sabe o que pode

acontecer.

A influência do Olavo de Carvalho é total no Ernesto. 100% olavista.

Isto afeta a política externa de várias maneiras. Afeta o multilateralismo. Direitos

humanos. Diplomacia cultural (pode ser extinta na UNESCO em Paris), eventual extinção. O

protagonismo do Brasil nos fóruns de resolução pacífica deixado em segundo plano ou

extinto. Abalar o soft power do Brasil. O país é um ator importante na diplomacia

internacional. A participação importante nestes fóruns e promoção ativa deles para

resolução de controvérsias e de meio ambiente, do qual o Brasil é protagonista, está

ameaçada.

Hard power, poder bélico. Poderio militar. Os EUA podem fazer isto.

Soft power, poder diplomático. É onde reside o respeito dos países para o Brasil.

Não é à toa que o Brasil é o país que abre a Assembleia Geral da ONU, é uma concessão
feita ao Brasil por ter ajudado até na formação da Liga das Nações, depois da primeira

guerra. Jogando no lixo uma tradição multilateralista muita respeitada internacionalmente.

A mudança da embaixada do Brasil para Jerusalém. Ocorre algo muito raro na

diplomacia internacional, que o Brasil tem sido desejado por ambas as partes no conflito

entre Israel e a Palestina, para mediar as soluções de paz. Este é um atestado de isenção, é

uma evidência do papel do Brasil na solução pacífica de controvérsias. A mudança da

embaixada vai acabar com isto. Vai perder o prestígio e a credibilidade naquela região. E

isto se reflete em outras áreas, pois a diplomacia é um conjunto. Se o país é respeitado num

cenário tão complicado como este, ele passa a ser respeitado em outras áreas também. É a

destruição de práticas e tradições diplomáticas por conta de ideologia. E tudo isto por conta

da religião e, neste caso, por pressão da ala evangélica.

Grande cinismo do novo chanceler e do Bolsonaro afirmarem que vão fazer o

Itamaraty agir de maneira não ideológica. Na verdade, estão tirando uma ideologia, a

petista, e colocando outra muito mais radical. Sem comparação, e não tem nada a ver com

partido. É ideologia de quinta categoria que querem fazer no Itamaraty. Eles dizem que

farão uma política externa para romper com as práticas do PT, mas o que o novo chanceler

e o Olavo de Carvalho estão dizendo será uma ruptura com as tradições e melhores práticas

de sempre, incluindo na época militar. Os militares não desprezavam o multilateralismo, a

própria UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, foi

fundada e teve participação importante do Brasil durante o governo militar. Nem os

governos militares falavam isso. A ruptura não será apenas com o governo PT, mas com as

tradições do Itamaraty, mas com o multilateralismo, protagonismo no meio ambiente,

política externa independente sem alinhamento com os EUA, com o pragmatismo que o
Itamaraty sempre teve, com a preferência para soluções pacíficas de controvérsia. É algo

extraordinário na História do Ministério.

4 – Já há de sinalização de mudança nas parcerias brasileiras. Os dois assuntos

mais polêmicos são: a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém, o que seria um

desastre completo (apenas os EUA e a Guatemala fizeram isto). Um desastre tanto do ponto

de vista político quanto diplomático. E também econômico, porque já houve o boicote dos

países árabes em relação à exportação brasileira. O Brasil tem um superávit de 7 bilhões

com a região. Isto poderia causar um prejuízo enorme. Outra polêmica que está se

delineando é com a China, segundo as novas diretrizes, o Brasil teria de se afastar da China,

e se alinhar totalmente ou quase totalmente aos EUA. Na verdade, o Bolsonaro, o novo

chanceler, o Olavo de Carvalho, o Felipe Martins, eles estão apresentando esta ideia de

alinhamento quase 100% com os EUA como se fosse uma ideia nova, mas não é nova. Já

existe, na teoria e inclusive nos livros, e se chama realismo periférico. É unir-se ao mais

poderoso em sua região, na esperança que o desenvolvimento e a prosperidade desta

nação respingue e renda frutos ao seu próprio. Isto já existe, já existiu e deu muito errado.

Deu errado para o Brasil no próprio governo Collor e na Argentina com o governo Menen,

com uma política que eles chamavam de relaciones carnales con los Estados Unidos. E

fracassou completamente. É uma ingenuidade enorme pensar que os EUA vão dar alguma

coisa além de migalhas para o Brasil. O Olavo de Carvalho falou, elogiando o novo

chanceler, dizendo que os EUA já estavam preparando 267 bilhões de dólares, quase 1

trilhão de reais, para investir no Brasil. Mentira. Primeiro, porque não é os EUA que investe

no Brasil, são as empresas americanas. O governo americano não está nem aí para o Brasil.

Eles só querem aproveitar a onda conservadora no Brasil para controlar o que sempre foi o
quintal dos EUA. Vamos voltar a ser quintal dos EUA. Um eventual afastamento da China

traria um prejuízo enorme. O Brasil tem 67 bilhões de superávit na balança comercial como

um todo, e só com a China são 20 bilhões. Abandonar um parceiro comercial como a China

para se aproximar quase cegamente dos EUA seria uma burrice tremenda. Não tem sentido

algum.

Outras políticas que seriam prejudicadas são do Mercosul, ainda não sabemos

qual será a posição do novo chanceler para o Mercosul. Ele chegou a trabalhar na

elaboração do Mercosul. É uma incógnita. Mas acordos com a Europa, acordos em bloco

serão prejudicados. Parece que o Brasil adotará a via de acordos bilaterais, que é o que o

Chile faz.

Queria fazer uma observação sobre isto: é engraçado como o pessoal defende o

alinhamento total com os EUA, mas se o Brasil fosse praticar aquilo que os EUA praticam,

eles nunca fariam isto. Os EUA jamais se alinhariam cegamente a outro país. É uma

contradição na própria política, do tipo: nós somos trumpistas, vamos defender a civilização

ocidental contra o marxismo cultural, vamos nos aliar aos EUA, vamos deixar de lado os

parceiros comerciais como a China. Os EUA nunca fariam isto. Outro aspecto totalmente

ideológico e consequentemente irracional, que pode trazer muito prejuízo, inclusive

econômico, para o nosso país. A diplomacia, em vez de ser usada para alavancar o

desenvolvimento do país, será usada para praticar ideologia de quinta categoria.

A questão da imigração também é importante, pois toca diretamente em

Direitos Humanos, na faceta humana mesmo da política externa. Às vezes, a política externa

fica muito longe da realidade dos cidadãos, daquilo que eles imaginam ou esperam dela,

mas a questão dos imigrantes, dos refugiados e dos migrantes, é mais perto dos cidadãos. E

neste sentido, o novo chanceler também é um retrocesso. Ele já disse várias vezes que a
imigração não pode ser ilimitada. Ele fala muito em Deus, em fé, em ser humano, em amor,

em amor ao Bolsonaro, ao Brasil, esta ideia megalomaníaca de nacionalismo extremado.

Mas na verdade ele esquece completamente a faceta humana da política externa, e uma

delas que é a migração internacional, incluindo dos refugiados. Ele é muito crítico em

relação a isto, ele afirma que a cultura ocidental está sendo atacada, o cristianismo está

sendo prejudicado pelas migrações. É triste e é um retrocesso deste novo ministro.

A outra coisa é isto de globalismo. Não sei nem o que isto quer dizer. Ele acha

que a ONU é marxista, que a esquerda é toda gramsciana, que as instituições internacionais

são todas gramscianas, que o Brasil precisa se unir aos EUA para salvar o ocidente, é um

discurso totalmente antidiplomacia, isolacionanista, de cruzada, discurso medieval. Isto está

causando contradições internas no próprio governo Bolsonaro. Quando você é

antiglobalista, seja lá o que isto quer dizer, você começa a criar contradições internas. Por

exemplo, a bancada ruralista está muito preocupada com a nova política externa, pois eles

querem liberalismo total, pois o agronegócio brasileiro tem vantagens comparativas, ele é

competitivo. A bancada ruralista está preocupada com este discurso. Os ambientalistas

também estão preocupados, pois o chanceler nega o aquecimento global. As únicas

bancadas que se beneficiariam desta nova política seriam a da Bíblia e a da bala, esta última

por causa do alinhamento total com os EUA, onde tem mais arma do que gente, e a bancada

da Bíblia por razões óbvias, pois o novo chanceler é um fundamentalista religioso. Ele não

escreve um texto sem usar a palavra “sagrado”, “fé”, “Deus”, “cristão”, “cristianismo”,

então a bancada da Bíblia está bastante feliz. Ruralistas e ambientalistas preocupados, e a

bancada da Bíblia e da bala felizes. É uma contradição não apenas no sentido externo, mas

também interno. Por isto, talvez o novo chanceler não se legitime e não consiga se

sustentar por muito tempo no cargo por causa destas contradições.


A repercussão a curto prazo: a saída de organismos multilaterais, a

desvalorização da diplomacia cultural, a perda do prestígio brasileiro em várias frentes, no

Oriente Média, a perda do protagonismo nos fóruns ambientais, a perda do nosso soft

power. O que está em risco é a perda do nosso soft power. O Brasil passar a ser tudo aquilo

que nunca foi em sua História, isolacionista, negar o multilateralismo. Os EUA podem fazer

isto, pois são a maior economia do mundo, mas nós não podemos fazer isto. Nós não temos

esta gordura para queimar, as consequências para o Brasil podem ser muito mais nefastas

que para os EUA. O Brasil vai perder muito mais, não temos bala na agulha, nem economia

nem poder de barganha para isto.

O risco é da perda do soft power do Brasil, perda do nosso prestígio

internacional, talvez tornar-se um pária internacional. O próprio Celso Amorim chegou a

dizer isto. Mas isto é o que vai acontecer se as ideias tresloucadas do novo chanceler forem

implementadas.