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2018­12­16 ConJur ­ CDC prevalece sobre Convenção de Montreal em furto de bagagem aérea

REPARAÇÃO INTEGRAL

CDC prevalece sobre Convenção de Montreal se


há furto em bagagem aérea
16 de dezembro de 2018, 18h05

Por Jomar Martins

As regras das convenções de Montreal e de Varsóvia não podem ser aplicadas para
reparar danos materiais decorrentes de violação e furto do conteúdo de bagagens
em voos internacionais. Por se tratar de crime doloso, o furto não está elencado nas
limitações de responsabilidade destes pactos. Logo, a reparação dos bens subtraídos
tem de ser integral, como prevê o artigo 6º, inciso VI, do Código de Defesa do
Consumidor (Lei 8.078/1990).

O entendimento, inédito na Justiça gaúcha, foi firmado pela 11ª. Câmara Cível do
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul para reformar sentença que condenou a
companhia aérea American Airlines a indenizar uma consumidora de Porto Alegre
em módica quantia, além de negar dano moral.

No retorno ao Brasil, ela teve uma das malas extraviadas, devolvida ao balcão da
companhia aérea dois dias depois, totalmente violada. Não havia mais nada em seu
interior, a não ser alguns travesseiros simulando volume. O prejuízo: R$ 17 mil.

A Convenção de Montreal unifica certas regras relativas ao transporte aéreo


internacional, tendo sido internalizada pelo Decreto 5.910/2006, compilando, assim,
normas da Convenção de Varsóvia (internalizada pelo Decreto 20.704/1931) e de
instrumentos conexos. Nos termos desta convenção, ocorre transporte aéreo
internacional quando o ponto de partida, o ponto de destino ou a escala é feita em
território de outro estado.

Indenização justa
Inconformada com o reembolso parcial dos prejuízos, a autora ajuizou ação
indenizatória contra a companhia norte-americana na 2ª Vara Cível de Porto Alegre.
O juiz Sílvio Tadeu de Ávila negou o pedido de danos morais por entender que a
empresa área não se negou a indenizá-la, oferecendo R$ 6,2 mil – valor de pronto
rechaçado.

Ávila deferiu apenas os danos materiais, arbitrados em consonância com o artigo 22


da Convenção de Varsóvia, estipulados em 1.131 Direitos Especiais de Saque (DES).

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Isso equivale ao teto máximo a ser desembolsado pelas companhias aéreas


internacionais nestes casos, de US$ 1.583,40; ou seja, R$ 6.001,65 na data da
conversão. A decisão do juiz seguiu entendimento consolidado pelo Supremo
Tribunal Federal (Recurso Extraordinário 636.331 e no Agravo em Recurso
Extraordinário 766.618).

Reparação integral
A autora, representada pelo advogado Marcos Brossard Iolovitch, do escritório
Brossard, Iolovitch Advogados, apelou da sentença ao TJ-RS. Ela questionou o
indeferimento do pedido de danos morais e pediu o aumento do valor dos danos
materiais, sustentando que, no caso concreto, não incidem as regras da Convenção
de Montreal, mas do Código de Defesa do Consumidor. Afinal, a consumidora não foi
vítima de extravio de bagagem, conduta culposa, mas de furto, que envolve dolo e
não é prevista nas regras da Convenção de Montreal.

Os desembargadores da 11ª Câmara Cível acolheram integralmente os pedidos. Eles


concordaram que a limitação da responsabilidade prevista na Convenção de
Montreal restringe-se às hipóteses taxativamente previstas naquele pacto, de
“destruição, perda, avaria ou atraso” de bagagem. Assim, o furto de itens do seu
interior não se enquadra em nenhuma destas hipóteses, razão pela qual inaplicável
a convenção. Em face da decisão, os danos materiais foram aumentados para R$
17.097,96, que correspondem ao valor total dos itens furtados da bagagem.

O desembargador-relator Bayard de Freitas Barcellos disse que o extravio de uma


das bagagens, independentemente do conteúdo das malas, justifica a indenização
por danos morais, arbitrada em R$ 10 mil. ‘‘É inegável que a frustração e a
ansiedade pelas quais passam os passageiros que não encontram sua bagagem no
momento do desembarque não podem ser consideradas mero aborrecimento, uma
vez que trazem sempre transtornos a qualquer tipo de viagem’’, apontou.

Já o desembargador Pedro Luiz Pozza lembrou que a companhia aérea não


disponibilizou aos seus passageiros formulários com a declaração especial de
conteúdo de bagagem, prevista no artigo 22, item 2, da Convenção de Montreal. O
documento condiciona o pagamento de uma indenização superior à tarifada – hoje,
arbitrada em US$ 1.583,40 – em caso de extravio. ‘‘Portanto, mesmo que a
recorrente quisesse, não teria logrado êxito no preenchimento da malfadada
declaração, mais uma razão para afastar a aplicação da Convenção de Montreal’’,
encerrou.

Clique aqui para ler a íntegra da decisão.

Processo 001/1.16.0017836-8

Jomar Martins é correspondente da revista Consultor Jurídico no Rio Grande do Sul.

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Revista Consultor Jurídico, 16 de dezembro de 2018, 18h05

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