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IX CURSO DE MESTRADO EM DIREITO E SEGURANÇA

CRIMINALIDADE ORGANIZADA TRANSNACIONAL E


ESTADOS FALHADOS:
AMEAÇAS À SEGURANÇA INTERNA E EXTERNA DOS ESTADOS

João Miguel P. Almeida Costa


Lisboa, Julho de 2012

Trabalho desenvolvido no âmbito de avaliação curricular no Mestrado em Direito


e Segurança na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa
Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados:


Ameaças à Segurança Interna e Externa dos Estados

1- Introdução
2- Momentos Evolutivos no Séc. XX
3- Estados Falhados
a. Conceptualização
b. Índice de Estados Falhados (relatório de 2012)
c. Razões do falhanço de um Estado
d. Consequências do falhanço de um Estado
4- Crime organizado
a. Definição e variantes conceptuais
b. Relação com Estados Falhados
5- Europa e a relação entre Criminalidade Organizada e Estados Falhados
a. Estratégia Europeia de Segurança
b. Estratégia conjunta UE-África
c. Peacebuilding; Statebuilding; Nationbuilding;
6- Conclusão

João Miguel Almeida Costa


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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

“The rise and fall of nation-states is not new, but in a modern era when
national states constitute the building blocks of world order, the violent
disintegration and palpable weakness of selected African, Asian,
Oceanic, and Latin American states threaten the very foundation of
that system.”

Robert I. Rotberg,
The Failure and Collapse of Nation-States.

João Miguel Almeida Costa


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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

1- Introdução

Um fenómeno globalizante que quebrou fronteiras tanto físicas como administrativas,


fomentou e alimentou outros, como a crescente influência de entidades não-estatais,
tanto coletiva como individualmente, nas relações internacionais hodiernas. Torna-se
especialmente ilustrativo dessa realidade o exemplo da UE com a sua dependência
infraestrutural a nível de transportes e energia, infraestruturas essas controladas, não por
Estados soberanos, mas por empresas multinacionais – com capacidade para pôr em
cheque a independência de um Estado.1 2

Observando a generalidade do mundo classificado como “em desenvolvimento”


podemos identificar a pobreza e a falta de cuidados de saúde que intensificam um
cenário de doenças e epidemias mortíferas a larguíssima escala, como naturais
promotores de preocupações de segurança. Estima-se que 3 mil milhões de seres
humanos vivem com menos de 2€ por dia. De fome ou subnutrição, morrem 45 milhões
de pessoas por ano. A SIDA consolidou o seu lugar na História da Humanidade como
uma das mais devastadoras pandemias de que há memória, contribuindo para a ruína de
sociedades.

Certas áreas do continente Africano continuam a empobrecer continuamente ilustrando,


em muitos casos, como a hecatombe económica e social de uma região está intimamente
ligada a problemas políticos e conflitos que interminavelmente vilipendiam as suas
próprias populações com atrocidades indescritíveis.3

Partindo dessa realidade empírica, observada através dos interesses de Segurança dos
Estados que compõe a União Europeia, propõe-se que este artigo consiga demonstrar
que os Estados Falhados estão intimamente ligados à proliferação de fenómenos de
criminalidade organizada transfronteiriça.

1
Pense-se nos cíclicos conflitos diplomáticos sobre o fornecimento de gás natural à UE por grandes empresas do
Leste Europeu – predominantemente Russas – em alturas críticas de vagas de frio capazes de pôr termo à vida de uma
significativa multiplicidade de pessoas.
2
“(…) interdependence forms the underlying principle of this relationship and creates both sensitivity and
vulnerability for the interdependent parties, thus carrying the sperms of both conflict and cooperation.” Hazakis,
Konstantinos e Proedrou, Filippos, EU-Russia Energy Diplomacy: the need for an active strategic partnership,
Collège d’Europe, Abril de 2012.
3
“Somalia seems wracked by a religiously themed civil conflict between the internationally backed but feckless
transitional government and the Islamist militia al-Shabab. Yet the fighting is being nourished by the same old
Somali problem that has dogged this desperately poor country since 1991: warlordism. Many of the men who
command or fund militias in Somalia today are the same ones who tore the place apart over the past 20 years in a
scramble for the few resources left -- the port, airport, telephone poles, and grazing pastures.” – Gentleman, Jeffrey,
Africas Forever Wars, Foreign Policy em Fevereiro de 2010.
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2- Momentos evolutivos

A II Guerra Mundial, teve como uma das principais características a participação, mais
ou menos direta ou voluntária, de países de todos os pontos do globo, tanto mais que os
diversos teatros de guerra tiveram lugar Europa, Norte de África, Médio Oriente,
Pacífico Sul (Sudeste Asiático), sendo seguro afirmar que se conseguem verificar as
principais mutações geopolíticas a nível global, com a confirmação da perda de
hegemonia, até então Europeia, para uma realidade bipolarizada, consagrada
historicamente como Guerra Fria.

Aquando da Guerra Fria, verificava-se uma claríssima bipolaridade de poder entre dois
blocos políticos: o Ocidental, liderado pelos Estados Unidos da América (EUA), e o
Bloco de Leste, encabeçado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Embora estes dois blocos nunca tenham entrado em conflito armado de forma direta,
muito por dissuasão nuclear4, desde o final da II Guerra Mundial até ao ano de 19915
registam-se teatros de guerra por todo o planeta, num conceito de proxy wafare6 em que
as doutrinas ocidentais e de leste combatiam pelo controlo de uma nação, região ou
continente.

Com essa regionalização de conflitos vemos como efeitos diretos o armamento de


populações em países subdesenvolvidos, a criação e fomentação de conflitos internos e
intensificação de fações7, alguns dos quais escalaram muito além das suas fronteiras
iniciais, como tornou evidente a relação de Osama bin-Laden com as forças norte-
americanas no Afeganistão aquando da invasão pela URSS.

O Afeganistão é hoje considerado um Estado falhado, sem qualquer margem de dúvida


sobre o assunto, com uma profunda e quase irresolúvel questão sobre produção e tráfico

4
Nuclear deterrence ou Mutual Assurence Destruction (MAD);
5
A queda do Muro de Berlim (09/11/1989) é celebrada como o momento final da Guerra Fria, mas apenas a
dissolução da URSS em 25/12/1991 poderá servir como data formal para o final desse período (1947-1991) –
Gaddis, John Lewis, The Cold War: A New History, 2005;
6
Proxy wars poderá traduzir-se como “Guerra de subsituição” – Guedes, Marques Armando, aula de Mestrado em
Direito e Segurança, 26 de Outubro de 2011;
7
Afeganistão (1979-1989), Líbano (1975-1990), Angola (1975-1991), Hughes, Gerraint, My Enemy’s Enemy: Proxy
Warfare in International Politics, 2012;
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de droga8, tanto que hoje está no centro do debate sobre a descriminalização de


estupefacientes9.

Desde o final da Guerra Fria que se vive um fenómeno de abertura de fronteiras e


barreiras à circulação tanto de pessoas como de bens da mais variada espécie,
provocando uma necessária evolução na forma como se encara o conceito de Segurança
que, à semelhança de tantas outras realidades neste mundo profundamente interligado e
globalizado, deixou de ter uma perspetiva dualista em função de uma inegável dinâmica
integrada, em que as anteriores margens dualistas se diluem e complementam.

Hoje especialmente para os povos da Europa comunitária, há uma ligação inegável entre
segurança interna e segurança externa, que impede que sejam analisadas como
realidades distintas e estanques.

Os fluxos de trocas comerciais e de investimento, o desenvolvimento tecnológico e


disseminação de regimes democráticos trouxeram paz e liberdade a muitos povos, ao
passo que para outros, este fenómeno de globalização que caracterizou o final do século
XX, não trouxe muito mais do que injustiças e frustração de expectativas.

8
“quase metade do PIB resulta da produção da papoila do ópio, matéria prima, designadamente, de muita da
heroína que se consome nos países ao seu redor e na Europa”, Canas, Vitalino, Segurança e Droga no Afeganistão:
Chegou a altura de novas alternativas,
9
Inkster, Nigel; Comolli, Virginia – Drugs, Insecurity and Failed States: The Problems of Prohibition, 2012.
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3- Estados Falhados
a. Conceptualização

Embora seja deveras complicado compartimentalizar num segmento espácio-temporal a


problemática dos Estados Falhados, seguramente se poderá afirmar que surge
historicamente desde o momento da criação do Estado Moderno, tendo sido, no entanto,
especialmente exacerbada em três momentos concretos no século XX: o fim da 2ª
Guerra Mundial em 1945, o fim do colonialismo europeu ao longo das décadas de 1950
e 1960 e mais próximo da realidade presente, o fim da Guerra Fria.10

Utilizando, desde já, os ensinamentos de Marcello Caetano sobre o assunto basilar, “a


noção de Estado é a de um povo fixado num território, de que é senhor, e que dentro
das fronteiras desse território institui, por autoridade própria, órgãos que elaborem as
leis necessárias à vida coletiva e assegurem a respetiva execução.”11

No entendimento deste autor, sendo algo que se aceita sem grandes querelas
doutrinárias, os fins do Estado apresentam-se como sendo: Segurança, Justiça e Bem-
Estar Social. É a finalidade desta conceptualização social – assegurar estes predicados
de modo a que os membros dessa mesma sociedade consigam desenvolver-se e
prosperar.

A principal responsabilidade do Estado é o fornecimento de determinados bens e


serviços à população, sendo o mesmo avaliado em função dessa sua capacidade de
fornecimento e garantia, sendo a sua função primordial a Segurança – a manutenção do
monopólio do uso exclusivo da força – edificando-a face a ameaças internas ou
externas, assegurando a manutenção da ordem interna.

b. Índice de Estados Falhados (relatório de 2012)

A avaliação dessas capacidades é possível pela quantificação de diversos fatores,


através de metodologias de parametrização interdisciplinar de pesquisa qualitativa bem
como quantitativa de modo a apurar valores indicativos e descritivos da realidade da

10
“Since the end of the Cold War, weak and failling states have arguabily become the single most important problem
for international order”, Fukuyama, Francis, State-building: Governance and World Order in the 21 st Century”,
2004.
11
Caetano, Marcello, Curso de Ciência Política e Direito Constitucional, volume I, 1959.
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amostra predefinida. A metodologia utilizada pela organização Fund for Peace é


denominada por CAST (Conflitct Assessment System Tool)12.

Através de um extenso estudo de milhares de documentos, com uma triangulação de


fontes de modo a permitir independência e isenção, o sistema CAST consegue apurar o
perfil de um país analisando-o por doze indicadores diferentes cujos resultados são
quantificados numa escala de 0 a 10 pontos, sendo que zero é indicativo de menor
pressão (negativa) naquela determinada área e quanto mais próximo do valor 10, tanto
piores serão as condições daquele Estado nessa determinada área.

Esses indicadores podem ser de ordem Social e Económica (manifestações


demográficas, situações de refugiados, desenvolvimento económico desnivelado, tensão
e violência sectária, migração, níveis de empobrecimento), tanto como Política e Militar
(legitimidade do Estado, serviços públicos fornecidos, respeito pelos Direitos Humanos,
garantia de segurança interna, clivagem de classes sociais, intervenção externa).

São esses13 os critérios que nos indicam como estão os Estados a cumprir com as suas
responsabilidades mais gerais (segurança, legitimidade política, oportunidades
económicas e bem-estar social14), e que se traduzem numa representação gráfica de
quatro níveis e respetivos subníveis:

1) Alert:
 Very High Alert;
 High Alert;
 Alert;
2) Warning:
 Very High Warning;
 High Warning;
 Warning;
3) Stable:
 Less Stable;

12
“CAST is a flexible model that has the capability to employ a four-step trend-line analysis, consisting of (1) rating
12 social, economic, and political/military indicators; (2) assessing the capabilities of five core state institutions
considered essential for sustaining security; (3) identifying idiosyncratic factors and surprises; and (4) placing
countries on a conflict map that shows the risk history of countries being analyzed.”, Foreign Policy, The Failed
States Index 2007: Methodology, Junho de 2007.
13
Analysis of Failed State Index 2012, p. 12, Fund for Peace.
14
Patrick, Stewart, Weak States and Global Threats: Assessing Evidence of “Spillovers”, 2006.
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 Stable;
 Very Stable;
4) Sustainable:
 Sustainable;
 Very Sustainable;

Como definição, não se poderá avançar com algo que seja oficialmente aceite, mas
tomaremos como ponto de partida a definição oferecida pelo Department for
International Development15 do Governo Britânico: serão Estados Falhados aqueles
cujos Governos não podem ou não conseguem prosseguir e cumprir com as suas
principais funções para com a maioria do seu povo, incluindo os mais pobres –
“Governments that cannot or will not deliver core functions to the majority of its
people, including the poor.”, acrecentando: “The most important functions of the state
for poverty reduction are territorial control, safety and security, capacity to manage
public resources, delivery of basic services, and the ability to protect and support the
ways in which the poorest people sustain themselves.”

No relatório dessa organização, referente ao ano de 2012, verifica-se a repetição no


melhor como no pior de 2011, o que está longe de significar que se mantiveram todas as
posições, até porque foi o ano com algumas das mais dramáticas alterações neste índice.
A Finlândia foi considerada pelo segundo ano consecutivo como a melhor representação
possível daquilo a que o conceito de Estado Moderno se propõe ser – no fundo, um
Estado operante e que cumpra com as suas finalidades e funções.

Por outro lado, consolidam-se as piores posições neste índice, sendo que nove dos dez
piores Estados nesta tabela, ocupam posições idênticas às do ano imediatamente
anterior, sendo ainda mais grave no caso da Somália – ocupa pelo quinto ano
consecutivo a última posição do Índice de Estados Falhados da Fund for Peace.

Uma das situações que dificulta a correta definição do conceito de Estado Falhado é
haver situações como a da Somália, que obrigam a criar uma exceção agravada para
melhor descrever uma descrição objetivamente pior do que Estado Falhado – o conceito
de Estado Colapsado.

15
www.dfid.gov.uk
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“A Somália encaixa na perfeição na descrição anterior – o colapso do Estado (ou a sua


inexistência), a falta de perspectivas económicas, a inexistência de uma verdadeira
nação (o território “nacional” é, de facto, controlado em grande parte pelos grupos
tribais), a herança histórica, as tradições culturais (que, como já constatámos,
consideram desprestigiante que os homens pratiquem determinado tipo de actividades),
tudo isto concorre para que as actividades produtivas sejam abandonadas por outras
(muito) mais lucrativas, como a pirataria.”16

c. Razões do falhanço de um Estado

“State failure is man-made, not merely accidental nor fundamentally – caused


geographically, environmentally, or externally. Leadership decisions and leadership
failures have destroyed states and continue to weaken the fragile policies that operate
the cusp of failure.”17

Não se poderão apontar as mesmas razões a cada situação de falhanço de Estado, até
porque não existe um único caminho para atingir o patamar de State Failure, devendo,
por isso mesmo, ser retratado como uma realidade complexa.

No entanto, algumas poderão ser apontadas como sendo as causas mais comuns:

a) Processo de descolonização seguido de guerra de autodeterminação;


b) Incapacidade de construção de uma identidade estatal sólida;
c) Ingerência externas por outros agentes internacionais;
d) Conflito interno de grandes proporções – incapacidade de manutenção de
ordem pública interna e de conduta regida por quadros legais legitimamente
aplicados.

Assim, um Estado pode falhar tanto por força de invasão de uma força externa18, como
por divisões internas, tanto na luta pelo poder do Estado como separatistas19, mas
também por situações de emergência humanitária ou colapso económico.

16
Valentim, Carlos Manuel; Barros, Miguel Monteiro de; Cunha, Pedro Barge, Somália: um quebra-cabeças para a
construção de uma nova ordem mundial no século XXI, Jornal de Defesa e Relações Internacionais, Novembro de
2010;
17
Rotberg, Robert, When States Fail: Causes and Consequences, Princeton University Press;
18
Geórgia, 2008;
19
Guerra Civil na Costa do Marfim na sequência das eleições presidenciais em 2010 (Alassane Ouattara e Laurent
Gbagbo), e a Guerrilha dos Tigres pela Libertação da Pátria Tâmil, no Sri Lanka;
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Independentemente das bandeiras que se brandam, dos contornos de cada situação, das
agravantes ou atenuantes, tratar-se-á sempre de um persistente e gradual percurso de
decadência institucional, política e económica.

“Nation-States fail when they are consumed by internal violence and cease delivering
positive political goods to their inhabitants. Their governments lose credibility, and the
continuing nature of the particular nation-state itself becomes questionable and
illegitimate in the hearts and minds of its citizens.”20

d. Consequências de um Estado Falhado

Constatar-se-á ao observar os dados sobre um Estado Falhado que as razões pelas quais
certo Estado falhou, e as consequências desse mesmo falhanço, podem ser muito
facilmente confundidas. Quando o Estado falha em cumprir as suas principais funções,
nomeadamente de garantir a Segurança do seu povo no seu próprio território uma
situação de emergência humanitária, a título de exemplo, poderá encontrar-se tanto na
origem como no resultado dessa mesma situação. Uma situação de guerra civil não
explode sem haver descontentamento popular para aderir a determinado movimento
paramilitar – caso contrário, estaríamos perante uma situação de banditismo21 ou
warlords22.

Um Estado Falhado caracterizar-se-á como sendo uma região de elevada tensão social,
profundamente afetada por conflituosidade entre fações que se guerreiam, ou por via de
insurreições populares, agressivas manifestações de descontentamento popular e um
contínuo fluxo de incredulidade face aos seus Governos ou à identidade de Estado no
seu todo.

Em todo o caso, provoca uma profunda ferida do tecido social desse mesmo Estado, que
poderá advir não tanto da intensidade do conflito ou da calamidade, mas sim pela sua
duração no tempo23, dado que não haverá qualquer exemplo de Estado Falhado que não

20
Rotberg, Robert, op. cit.
21
Observe-se a este efeito a situação no Uganda com as forças rebeldes comandadas por Joseph Kony, que
espalharam terror pelas populações no norte do Uganda como nas populações dos países vizinhos – República
Democrática do Congo e no Sul do Sudão.
22
Comandantes militares ou paramilitares que, pelo uso de força ou intimidação não autorizada, impõem as suas
regras à população civil, face à impotência de um Estado em manter a ordem pública interna.
23
Guerra Civil em Angola, que durou entre 1975 e 2002;
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demonstre discórdia entre a sua população, seja por motivos étnicos, religiosos, ou
qualquer outro vetor de heterogeneidade, pois nenhum Estado falha por compreender
uma determinada panóplia de diversidade social (étnica, religiosa, cultural). No entanto,
é seguro afirmar que o falhanço de um Estado advém da incapacidade de construir uma
nação com essa mesma coleção de diversidades socioculturais.

Uma consequência direta do Estado Falhado é a sua caracterização como um conjunto


de instituições falhadas: incapazes de servir o fim para que foram edificadas – à
semelhança do próprio Estado.

Nestas instituições poderemos algumas das mais óbvias e que estão ligadas à Saúde,
Segurança e Educação. Se um sistema de educação de um Estado não funcionar, não
haverá forma de suportar as infraestruturas necessárias ao seu desenvolvimento, ou até
mesmo a sua autossuficiência – "illiteracy is a condition that denies people
opportunity."24 – denotando uma má gestão dos seus recursos naturais. A iliteracia é um
problema grave, cuja responsabilidade é inteiramente do Estado e se atingem hoje
números alarmantes.25

Quando se trata de temáticas relativas ao falhanço das instituições de Saúde, apontam-se


como consequência do falhanço de um Estado o aumento da mortalidade infantil, a
insuficiência de instituições de cuidados de saúde para lidar com situações de
pandemias26, e uma natural queda na esperança média de vida da população.

Recentrando-nos na temática que se quer abordar neste texto, haverá que referir que um
Estado Falhado representa uma oportunidade económica sem igual – mas apenas para os
privilegiados. Pela falta de regulação, fruto do falhanço das instituições de Estado, as
classes mais privilegiadas do próprio Estado, bem como elementos externos ao mesmo,
podem aproveitar-se da situação, seja através de mecanismos financeiros ou espoliação
patrimonial.

24
UNESCO. Education for All Global Monitoring Report 2010: Reaching the marginalized. UNESCO, Fevereiro de
2010.
25
Na região Sub-Sahariana, mais de 1/3 da população adulta não sabe ler - UNESCO Institute for Statistics. “Adult
and Youth Literacy: Global Trends in Gender Parity.” UIS Fact Sheet, Setembro de 2010, n.º 2.
26
“Sub-Saharan Africa remains the region most heavily affected by HIV worldwide, accounting for over two thirds
(67%) of all people living with
HIV and for nearly three quarters (72%) of AIDS-related deaths in 2008” – UNAIDS – relatório de 2009.
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A corrupção torna-se o efeito mais evidente e, possivelmente, mais humano de todos os


efeitos decorrentes da qualidade de governance27 praticada, pois revela a verdadeira
fragilidade de uma população e a fraqueza das instituições do Estado em
providenciarem e cumprirem com as suas funções atribuídas.

"Corruption is the enemy of development, and of good governance. It must be got rid of.
Both the Government and the people at large must come together to achieve this
national objective”28

Com um sistema judicial permeável e corrompível, com as forças de segurança


subornáveis, um Estado – mais ou menos próximo do conceito de Estado Falhado –
permite que possam ser circundadas as regras que pautam a vida naquela determinada
sociedade, sendo mais um dos fatores que conduzem ao persistente processo de
decadência institucional e política de uma nação.

“Bad governance – corruption, abuse of power, weak institutions and lack of


accountability – and civil conflict corrode States from within. In some cases, this has
brought about the collapse of State institutions. (…) Collapse of State can be associated
with obvious threats, such as organized crime or terrorism. State failure is an alarming
phenomenon, that undermines global governance, and adds to regional instability.”29

27
O conceito de governance encontra-se ligado ao processo de tomada de decisões e sua respetiva implementação.
Good governance exige que um processo de tomada de decisão respeite: 1) participação, 2) estado de direito, 3)
transparência, 4) capacidade de resposta, 5) consensos orientados, 6) equidade e inclusão, 7) Eficácia e eficiência, 8)
responsabilidade. – adaptado de UNESCAP – What is Good Governance.
28
Patribha Patil, discursando ao abandonar o cargo de Chefe de Estado da República da Índia em 25 de Julho de
2012.
29
Solana, Javier, A secure Europe in a better world – the European Security Strategy, “Civilian Perspective or
Security Strategy?”, Bruxelas, Dezembro de 2003;
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4- Crime Organizado

A Europa é um dos principais alvos da criminalidade organizada. É uma ameaça


predominantemente de natureza interna, mas com uma inegável dimensão externa:
narcotráfico, tráfico de seres humanos, imigração ilegal, tráfico de armas, tudo em
circuito transnacional, representa grande parte das actividades criminais de certas
organizações.

Tais atividades estão muitas vezes ligadas a Estados Falhados ou próximos desse
conceito. O lucro conseguido pelo tráfico de estupefacientes vai promovendo a erosão
das estruturas e instituições de Estado nos países produtores de droga30, e é no vazio de
poder legitimado, na ausência de controlo do território, que o Estado Falhado surge
como terreno fértil para a proliferação de atividades de criminalidade, especialmente de
criminalidade organizada.

Refere-se o que diz Stewart Patrick em obra já citada, “Weak state are said to provide
ideal bases for transnational criminal enterprises involved in the production, transit or
trafficking of drugs, weapons, people and other illicit commodities, and in the
laundering of the profits from such activities.”

a. Definição e variantes conceptuais

““Organized criminal group” (…) a structured group of three or more persons, existing
for a period of time and acting in concert with the aim of committing one or more
serious crimes or offences established in accordance with this Convention, in order to
obtain, directly or indirectly, a financial or other material benefit.”

Esta é a definição consagrada pela Convenção de Palermo das Nações Unidas31, no


documento que se propunha a promover o combate mais eficaz ao fenómeno de
criminalidade organizada transnacional.

No enquadramento jurídico nacional, transmutou-se a Convenção de Palermo pela


seguinte forma:

30
Caso paradigmático dos cartéis colombianos que afastaram e substituíram o Estado na construção e manutenção de
escolas, hospitais e vias de comunicação.
31
Alínea (a) do artigo 2.º da Convenção das Nações Unidades contra a Criminalidade Organizada Transnacional –
Palermo, 2000.
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 Resolução da Assembleia da República n.º 32/2004, de 2 de Abril: Aprova,


para ratificação, a Convenção das Nações Unidas contra a Criminalidade
Organizada Transnacional, o Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, à
Repressão e à Punição do Tráfico de Pessoas, em especial de Mulheres e
Crianças, e o Protocolo Adicional contra o Tráfico Ilícito de Migrantes por
Via Terrestre, Marítima e Aérea, adotados pela Assembleia Geral das
Nações Unidas em 15 de Novembro de 2000.
 Resolução da Assembleia da República n.º 1/2008: Aprova a
Convenção do Conselho da Europa Relativa à Luta contra o Tráfico
de Seres Humanos, aberta à assinatura em Varsóvia em 16 de Maio
de 2005.
 Lei n.º 5/2002, de 11 de Janeiro: Estabelece medidas de combate à
criminalidade organizada e económico-financeira e procede à
segunda alteração à Lei n.º 36/94, de 29 de Setembro, alterada pela
Lei n.º 90/99, de 10 de Julho, e quarta alteração ao Decreto-Lei n.º
325/95, de 2 de Dezembro, alterado pela Lei n.º 65/98, de 2 de
Setembro, pelo Decreto-Lei n.º 275-A/2000, de 9 de Novembro, e
pela Lei n.º 104/2001, de 25 de Agosto, retificada pela Declaração de
Retificação n.º 5/2002, de 6 de Fevereiro.
 Lei n.º 19/2008, de 21 de Abril: Aprova medidas de combate à
corrupção e procede à primeira alteração à Lei n.º 5/2002, de 11 de
Janeiro.

O Crime Organizado apresenta-se como uma realidade que atravessa fronteiras


terrestres e marítimas, que se desloca pelo mundo fixando-se nas diferentes áreas
geográficas do globo, mas de forma tão dissimulada que apenas é detetado quando se
encontra a atuar numa região há um lapso de tempo considerável.32

Tal expressão surge na linha do que é defendido por José Manuel Anes: “os políticos
dos diversos países, na sua maioria, só dão atenção às suas manifestações visíveis e
esquecem ou ignoram as suas dimensões invisíveis, subterrâneas, e permanentes que
vão corroendo sociedades”.33

32
http://www.sis.pt/ccorganizada.html
33
Anes, José Manuel – Organizações criminosas: Uma introdução ao Crime Organizado, 2010.
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A nível conceptual revela-se profundamente complicado apontar uma definição mais


consensual de organização criminosa, sendo uma questão já com décadas de discussão,
mas por complicado que seja, como refere Howard Abadinsky34, há traços comuns que
podem identificar uma organização criminosa (em ambiente nacional, não
transnacional), a saber:

1. Não tem objetivos políticos;


a. Apenas o lucro e o poder;
2. Tem uma estrutura hierarquizada;
a. Tem uma estrutura de poder verticalizada, com, pelo menos, três
diferentes níveis de autoridade;
3. Limitada a membros selecionados;
a. Por ligações familiares, étnicas, culturais ou subculturais por
semelhanças no registo criminal de cada um dos seus membros;
4. Fenómeno de subcultura;
a. Por vezes, refere-se igualmente como “submundo do crime”,
membros destas organizações criminosas olham para si mesmos
como sendo diferentes da das pessoas que vivem na sociedade
convencional – logo, julgam-se impuníveis pelas regras dessa mesma
sociedade convencional;
5. Procura perpetuar-se;
a. De modo a manter a subcultura, para que, redundantemente, a
subcultura mantenha a estrutura e a organização.35
6. Demonstra propensão para utilização de violência física;
a. No seio de um grupo criminal organizado, fenómenos de violência
são deveras comuns sendo mesmo considerado como um dos
primeiros recursos para resolução de questões.36
7. Monopolística;
a. Procura não apenas a sobrevivência, mas a hegemonia sobre todos os
rivais numa particular área geográfica ou num sector de atividade
criminal ou eventualmente legítima, ou mesmo em ambas
simultaneamente.

34
Abadinsky, Howard – Introduction to Organized Crime, p. 3, 9ª Edição, 2010
35
Cressey, Donald, Theft of the Nation: The Structure and Operations of Organized Crime in America, 1969.
36
Abadinsky, Howard, p. 4, op.cit.
João Miguel Almeida Costa
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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

8. Ópera sob regras e regimes explícitos e próprios.


a. Um grupo criminoso, tal como qualquer outra organização, tem o seu
próprio conjunto de regras e mandamentos, cujo cumprimento é
esperado dos seus membros, sob pena da tão disponível violência.

Contudo, a definição apontada pela UE sobre o conceito de criminalidade organizada é:


“a structure association, established over a period of time, of two or more persons,
acting in a concerted manner with a view to committing offences which are punishable
by deprivation of liberty or a detention order (...) whether such offences are an end in
themselves or a means of obtaining material benefits and, where appropriate, of
improperly influencing the operation of public activities”37.

José Manuel Anes fornece onze critérios para definir este fenómeno:

1. Colaboração de mais de duas pessoas;


2. Tarefas específicas atribuídas a cada uma delas;
3. Num período de tempo suficiente, longo ou indeterminado;
4. Com uma forma de disciplina e controlo;
5. (com pessoas) suspeitas de terem cometido infrações penais graves;
6. Atuando a um nível internacional;
7. Recorrendo à violência ou a outros meios de intimidação;
8. Utilizando estruturas comerciais ou do tipo comercial;
9. Dedicando-se ao branqueamento de capitais;
10. Exercendo influência sobre meios políticos, meios de comunicação,
Administração Pública, Poder Judicial ou a economia através de alguns
agentes de mercado;
11. Atuando pelo lucro ou pelo poder;

Como episódio marcante para a criminalidade transnacional é comummente apontado o


final da Guerra Fria e a abertura de fronteiras a nível global, conjugado com o boom do
fenómeno da Globalização, contudo será profundamente enganador referenciar
criminalidade organizada transnacional apenas a esses fatores.

Os grupos criminais mais conhecidos a nível mundial são: Yakusa, provenientes do


Japão, Máfia Siciliana, de Itália, os cartéis de droga colombianos de Medellin e Cali, a

37
Joint Action 98/733/JAI, de 21 de Dezembro de 1998.
João Miguel Almeida Costa
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Máfia Russa, as Tríades, da China e os grupos criminosos (milícias armadas) da


Nigéria. É a estes grupos que remontam as origens mais conhecidas de criminalidade
organizada.

É um fenómeno que granjeia que uma verdadeira universalidade, sendo capaz de


influenciar diretamente estruturas políticas e económicas fortes, como Japão, Rússia,
Itália e China, bem como de outros Estados, não necessariamente falhados, mas
profundamente permeáveis e corrompíveis: México, Panamá, Colômbia, Tailândia,
Moçambique e Angola.

b. Relação entre Crime Organizado e Estados

Não será correto apontar o fenómeno de criminalidade organizada como algo de recente
na História, mesmo após o surgimento de Estados modernos, pois semelhante
denominação poderia ser utilizada para grupos dedicados ao banditismo ao longo dos
tempos, mas será inegável que tem vindo a proliferar um fenómeno de criminalidade
organizada transnacional, especialmente exacerbado pela final da Guerra Fria, abertura
de fronteiras, desenvolvimento tecnológico e Globalização, tanto na vertente
económica, como social – decorrente de movimentos migratórios.

A criminalidade organizada no seio de um Estado é, como se expôs infra, uma realidade


não recente, mas que merece o reconhecimento como fenómeno moderno pela sua
mutação, pelo seu crescimento e expansão, nomeadamente pelo seu carácter
transfronteiriço, transnacional ou mesmo intercontinental.

Um Estado poderá igualmente ser cúmplice deste fenómeno crescente, e não bastará
pensar muito além do caso de Guiné-Bissau como Narco-Estado38 pelas suas
características geoestratégicas – costa ocidental do continente africano surge como o
ideal entreposto de distribuição para o tráfico, nomeadamente de estupefacientes
provindos da América do Sul com destino à Europa.

38
UNODOC – Guine-Bissau: A New Hub for Cocaine Traficking, Viena
João Miguel Almeida Costa
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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

39

Tomando posição sobre o que escreve Phil Williams40 a corrupção é a principal


ferramenta de uma organização criminal, dado que com isso consegue adulterar e
modificar o normal e expectável funcionamento de uma instituição, dos seus agentes de
Estado, de modo a poderem atuar livremente e em conluio com o Estado ou seus
agentes (de estruturas económicas, administrativas, policiais ou até mesmo militares),
numa relação que revela ser de mútuo interesse, evitando o recurso à violência – não
deixando esta, em momento algum, de estar subjacente.

Sugere o autor norte-americano que se formule um quadro de quatro categorias41 para o


papel de um Estado perante a criminalidade organizada:

 Home States
 Host/Market States
 Transshipment States
 Service States

Como Home State identifica-se o Estado que é considerado como sendo a base da
operação, onde existe um elevado grau de impunidade para a prática destas atividades,
circulando livremente após se terem neutralizado os mecanismos de controlo por
corrupção sistemática que vai enfraquecendo o próprio Estado, as suas estruturas

39
“Major Narco Trafficking Routes and Crop Areas” GPO item 751981AI (R00350) 1-00, Central Intelligence
Agency (CIA)
40
Williams, Phil – Crime and Corruption: The Role of State Collusion, 2000;
41
Estado originário ou de base; Estado destinatário; Estado de entreposto logístico; Estados de Serviços;
João Miguel Almeida Costa
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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

económicas e políticas – a título de exemplo, a atividade de produção e exportação de


cocaína na Colômbia.

Host ou Market State, será o Estado a que se destinam os bens, representando, portanto,
um mercado. São por norma Estado que possuem mercados lucrativos para as
organizações criminosas. Raro será o Estado que não seja entendido como destino para
algum bem ou serviço ilícito, pelo que apenas se poderá apontar diferenças por um grau
de facilidade e permeabilidade. Quanto mais evoluído e seguro for um Estado, maior
será a atenção que presta ao combate da criminalidade, logo a corrupção existirá nos
agentes das instituições de controlo fronteiriço e alfandegárias.

Transshipment States, Estados cuja relevância geoestratégica aliada à fraqueza das suas
instituições permite que sejam utilizados como pontos de passagem e distribuição dos
serviços e produtos ilícitos com destino aos Host ou Market States. Por terem
instituições e agentes mais permeáveis e corrompíveis, os Estados em vias de
desenvolvimento são o alvo preferencial destas organizações, por aí conseguirem uma
maior liberdade de circulação e impunidade.

Service States é a categoria de Estado destinada a classificar aqueles que são utilizados
para perpetrar crimes de natureza económica ou financeira, caracterizando-se por
deterem um sistema financeiro evoluído, capaz de movimentar e esconder capitais. São
conhecidos como paraísos fiscais pela facilidade em realizar transferências bancárias de
grandes quantias de dinheiro, cuja origem e destino nunca é justificada, nem os seus
intervenientes identificados diretamente. Constituem uma verdadeira problemática no
branqueamento de capitais, por lançarem uma nuvem sobre o rasto do dinheiro ao
permitirem a utilização de shaddow companies que, por relações fiduciárias, escondem
a verdadeira origem dos capitais.

João Miguel Almeida Costa


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5- Europa e a relação entre Criminalidade Organizada e Estados Falhados

a. Estratégia Europeia de Segurança

Pode ler-se na primeira parte do n.º 1 do artigo 83.º do Tratado de Funcionamento da


União Europeia, alterado pelo Tratado de Lisboa:

“O Parlamento Europeu e o Conselho, por meio de diretivas adotadas de acordo com o


processo legislativo ordinário, podem estabelecer regras mínimas relativas à definição
das infrações penais e das sanções em domínio de criminalidade particularmente grave
com dimensão transfronteiriça que resulte da natureza ou das incidências dessas
infrações, ou ainda da especial necessidade de as combater, assentes em bases
comuns.”

Daqui se poderá retirar que a criminalidade organizada constitui uma ameaça à


economia e a sociedade europeia reconhecida pelas instituições União Europeia e que as
mesmas se propõem combater.

A resposta da União Europeia na luta contra o crime organizado adapta-se à


complexidade do fenómeno, visando:

. tráfico de seres humanos;


. tráfico de armas;
. tráfico de droga;
. criminalidade económica e financeira;
. corrupção;
. branqueamento de capitais;
. cibercrime;
. criminalidade ambiental;

A abordagem integrada que norteia a ação da União inclui tanto a prevenção como a
repressão. Esta última assenta sobretudo numa cooperação eficaz entre os serviços dos
Estados-Membros, especialmente os serviços policiais, incluindo a troca de informações
e a entreajuda em matéria de apreensões e confiscos. A luta contra a criminalidade
organizada é global, tocando inúmeros domínios de ação e políticas da União.42

42
http://europa.eu/legislation_summaries/justice_freedom_security/fight_against_organised_crime/index_pt.htm
João Miguel Almeida Costa
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b. Parceria UE-África

De igual modo, o falhanço de Estados e das suas instituições está identificado como um
fenómeno preocupante e correlacionado com a proliferação de criminalidade
organizada.43

No âmbito da Estratégia de Segurança Europeia, Javier Solana identificava o falhanço


dos Estados vizinhos à UE como um problema que poderia afetar os Estados Membros
de forma mais direta do que indireta: “Neighbours who are engaged in violent conflict,
weak states where organised crime flourishes, dysfunctional societies or exploding
population growth on its borders all pose problems for Europe.”

Haverá, no entanto, que ver além das fronteiras imediatas dos Estados Membros da UE.
Embora não se possa dizer que se aplique à generalidade dos Estados, serão
relativamente notórias as relações, geralmente, privilegiadas que se detêm com alguns
Estados Africanos por decorrência da colonização.

Com o exemplo Português da CPLP ou a Commonwealth Britânica, há países que têm


facilidade na ligação com Estados que, em caso de falhanço, podem constituir ameaças
para a segurança da UE. Vários destes Estados começaram como falidos, tendo muitos
terminado como falhados.

Em Abril de 2000, realizou-se no na cidade do Cairo a primeira Cimeira UE-África, na


qual foi aprovado um plano de ação que realça seis grandes domínios globais:

 As questões económicas (designadamente a cooperação e a integração


económica regional em África).
 A integração de África na economia mundial.
 O reforço da relação entre comércio e desenvolvimento a nível internacional,
que constitui um dos objetivos da parceria, a fim de assegurar que a liberalização
económica contribua para reduzir a pobreza.
 O respeito e a proteção dos direitos humanos, os princípios e as instituições
democráticas, o Estado de Direito, assim como a boa governação.

43
Solana, Javier, A secure Europe in a better world – the European Security Strategy, “Civilian Perspective or
Security Strategy?”, Bruxelas, Dezembro de 2003;
João Miguel Almeida Costa
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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

 A consolidação da paz, a prevenção, a gestão e a resolução de conflitos em


África.
 As ações no domínio do desenvolvimento para atenuarem a pobreza (nos
sectores da educação, da saúde e da segurança alimentar, por exemplo)

Esta estratégia propõe uma parceria estratégica para a segurança e o desenvolvimento


entre a UE e a África. Articula-se em torno de elementos-chave para assegurar o
desenvolvimento sustentável, tais como a paz e a segurança, uma governação judiciosa
e eficaz, o comércio, a interconexão, a coesão social e a viabilidade ecológica. Foram
lançadas novas iniciativas, nomeadamente uma iniciativa em matéria de governação e
uma parceria euro-africana em matéria de infraestruturas, que foi lançada em Julho de
2006.

Trata-se, portanto, de uma cooperação que vise o fortalecimento do Estado de Direito,


de modo a consolidar e a tornar mais eficientes as instituições desses Estados, evitando
o seu colapso. Assim, poderão contribuir de forma mais ativa na prevenção de
fenómenos de criminalidade organizada, o que, numa visão europeia, é do interesse da
UE e dos seus povos.

c. Fortalecimento dos Estados

Concluindo-se sem particulares dúvidas que o caminho contrário ao falhanço de um


Estado é a promoção do fortalecimento tanto das instituições do Estado como do
próprio Estado em si, algumas fórmulas podem ser avançadas, embora a sua
concretização se reserve em níveis de elevada complexidade e individualidade – tão
simplesmente, cada é um caso.44

O caminho para o fortalecimento dos Estados é composto de três fases essenciais:

(1) Peacebuilding;
(2) State-building;
(3) Nation-building.

44
A realidade Africana não é a realidade do Pacífico Sul: arecuperação e fortalecimento do Sudão, especialmente do
Sudão do Sul, ou de Timor-Leste teve contornos absolutamente distintos, desde logo por questões securitárias e
volatilidade social.
João Miguel Almeida Costa
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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

“Peacebuilding involves a range of measures targeted to reduce the risk of lapsing or


relapsing into conflict by strengthening national capacities at all levels for conflict
management, and to lay the foundations for sustainable peace and development”45

Terá como finalidade a resolução de conflitos armados, recorrendo a atores externos


(Nações Unidas), tomando forma em projetos de DDR (Desarmamento, Desmobilização
e Reintegração) – destinados a antigos combatentes, reduzindo o número de efetivos
militares, redução ou eliminação de armas de pequeno porte e minas antipessoais.

Tem a coordenação pela Comissão de Consolidação de Paz das Nações Unidas (UN
Peacebuilding Comission),46 criada em 200547 pela Assembleia Geral do Conselho de
Segurança e pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

É, essencialmente, no decurso de uma missão de peacebuilding que se consegue tomar o


pulso à situação de uma região e, contextualizando o clima histórico, social, cultural, e
económico passar para o passo seguinte, de Statebuilding.

Sobre o conceito de State-building, antes de se avançar para a própria definição,


chamar-se-á atenção para Francis Fukuyama: “While we know much about state-
building, there is much that we do not know, particularly about transferring strong
institutions to developing countries. We know how to transfer resources, people, and
technology, but well-functioning public institutions require habits of mind and operate
in complex ways that resist being moved.”48

Utilizando a definição avançada pela Organização para a Cooperação e


Desenvolvimento Económico (OCDE), “State-building is an endogenous process to
enhance capacity, institutions and legitimacy of the state driven by state-society
relations. Positive state-building processes involve reciprocal relations between a State
that delivers services for its people and social and political groups who constructively
engage with their State”49

45
Conceptual basis for peacebuilding for the UN system adopted by the Secretary General’s Policy Committee in
May 2007;
46
http://www.un.org/en/peacebuilding/
47
Resoluções A/60/180 e CS-1645
48
Fukuyama, Francis – ‘The Imperative of State-building’, Journal of Democracy 15/2 (2004) pp.17–31
49
Relatório OCDE-DAC 2008;
João Miguel Almeida Costa
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A promoção deste processo de construção ou reconstrução de Estados – que deveria ser


um processo endógeno, procurado, promovido e conseguido pela própria população de
um Estado por via das suas instituições – pode ser fomentada por agentes externos num
momento posterior à obtenção de paz, sendo este o instrumento que, verdadeiramente,
consolida a paz numa nação.

Terá como objetivos diretos a garantia de funções básicas e fundamentais por parte do
Estado (Segurança, Saúde, Educação) e uma governação democrática e legítima,
respeitando os Direitos Humanos e procurando a construção de uma identidade
nacional.

Trata-se, portanto, do reforço das capacidades dos Estado na prossecução das suas
funções de modo a que se mantenha independente e seguro, permitindo um ambiente de
desenvolvimento económico e bem-estar social.

Ao contrário do processo de State-building, com uma multiplicidade de visões e


intervenções em microescala, o processo de Nationbuilding procura unificar cidadãos de
várias identidades, etnias, religiões e culturas, em torno de uma identidade nacional,
reforçando o Estado viável, legítimo e estável, evitando conflitos sociais e tensões.

No International Dialogue on Peacebuilding and Statebuinding, a OCDE identifica50


dez desafios que geralmente se colocam a tais processos:

1) Inexistência de uma visão comum sobre a mudança entre os detentores do


poder desconectada sociedade civil. Deficiente análise do contexto social e
do conflito em causa;
2) Falta de confiança entre países em desenvolvimento e os parceiros para o
desenvolvimento;
3) Sobreposição desarticulada de planos que impedem a criação e a visão de
uma identidade nacional unificada, e má gestão de prioridades de curto,
médio e longo prazo;
4) Excesso de centralização na resolução de problemas, deixando regiões por
intervencionar, excluindo-as dos processos de desenvolvimento;

50
Dili Declaration: A New Vision for Peacebuilding and Statebuilding, OCDE, Abril de 2010 –
http://www.oecd.org/document/5/0,3746,en_21571361_43407692_45717509_1_1_1_1,00.html
João Miguel Almeida Costa
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5) Desconsideração pela proteção de mulheres e crianças em conflitos armados,


bem como pela participação de mulheres no processo de peacebuilding;
6) Não se presta atenção suficiente ao crescimento económico e criação de
empregos, especialmente para as camadas mais jovens da população;
7) Estipulação de prazos irreais para as reformas, débil capacidade em
implementar os planos e ineficácia no desenvolvimento das capacidades;
8) Necessidade de fortalecer as ligações no desenvolvimento dos sectores chave
da sociedade (crescimento económico, segurança, justiça e boas práticas
governativas – good governance);
9) Incapacidade de produzir dados e estatísticas que retratem e reportem de
forma fidedigna sobre a implementação dos processos e planos de
desenvolvimento;
10) Dificuldades de financiamento por falta de instrumentos financeiros que
permitam previsões de retorno financeiro a parceiros internacionais ou
mesmo nacionais;

João Miguel Almeida Costa


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6- Notas Finais

O Estado Falhado surge hoje como um sério desafio na Nova Ordem Mundial, uma
inegável ameaça transnacional. O carácter transfronteiriço dessa ameaça surge de duas
formas possíveis: instabilidade regional decorrente desse desequilíbrio de segurança –
seja na sua forma mais visível, dos fluxos migratórios massivos ou mesmo crises de
refugiados – ou da possível utilização desses mesmos Estados como plataformas
logísticas ou de produção pelos novos agentes internacionais (grandes grupos
económicos e financeiros – branqueamento de capitais e delitos financeiros –
organizações criminosas, grupos terroristas).

Quer se pense em Narco-Estados (Colômbia, enquanto produtor e exportador, ou Guiné-


Bissau, como entreposto de distribuição), ou em tráfico de armas, ou tráfico de seres
humanos – imigração ilegal, lenocínio, escravatura sexual – ou mesmo em paraísos
fiscais, todos estes exemplos constituem uma profunda ameaça à Segurança de um
Estado Moderno

A fórmula que as instituições internacionais propõem51 para evitar ou resolver essa


problemática é interessante, a vários níveis. Tanto na óptica de prevenção de
calamidades no plano securitário, seja tanto a nível de práticas criminosas como
terroristas, como naquilo a que se propunha que fosse a Nova Ordem Mundial – de
prosperidade e de paz.

No entanto, haverá (1) que reconhecer os erros do passado, quer decorram de


deficientes processos de descolonização, de crises humanitárias, de catástrofes naturais
e ineficácia da resposta das autoridades, (2) procurar conhecer a realidade do local, da
zona, do país, da região, os seus problemas e potenciais, (3) cooperar no
desenvolvimento continuado desse mesmo Estado ou conjunto de Estados, com fito ao
fortalecimento de Estados, promoção de Paz e respeito pelos Direitos Humanos.

A vertente que este trabalho foi dedicou à criminalidade organizada pretende


demonstrar que é um fenómeno capaz de promover uma erosão profunda nas
instituições de um Estado (pense-se como as práticas de produção e venda de ópio estão
enraizadas no povo Afegão52), com uma tremenda capacidade de afetar todos os

51
Peacebuilding, Statebuilding e Nationbuilding;
52
Vide Canas, Vitalino; Inkster, Nigel, ambos op cit.
João Miguel Almeida Costa
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Criminalidade Organizada Transnacional e Estados Falhados

domínios de um Estado, especialmente por via da corrupção dos seus agentes, ou


sociedade civil em geral, resultando num abalo à ordem interna e enfraquecendo o
Estado de Direito.

Quanto à correlação entre os fenómenos de Estados Falhados e atividades ligadas a


criminalidade organizada, será inegável pela recoleção de dados empíricos recolhidos,
pelos esforços que se constatam e pelo reconhecimento que tem merecido da parte de
agentes internacionais de grande relevo (Organização das Nações Unidas, Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, União Europeia, etc).

Face ao que se procurou expor neste texto, será apropriado referir que a comunidade
internacional tem o dever de fazer frente a fenómenos desta natureza, procurando
combater de forma eficaz a criminalidade organizada (pelo efeito destrutivo que tem a
nível interno nos Estados, mesmo que fortes e estáveis), procurando igualmente
cooperar no desenvolvimento e ajudar no fortalecimento dos países em
desenvolvimento, Estados Falhados, Fracos ou em vias de falhar, pois será uma
contribuição no interesse de todos.

João Miguel Almeida Costa


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