Sunteți pe pagina 1din 180

A Cruz e o Ministério Cristão

Traduzido do original em inglês


The Cross and Christian Ministry
por D. A. Carson Copyright © 1993 by D. A. Carson

Publicado originalmente em inglês por Baker Books,


uma divisão de Baker Publishing Group
Grand Rapids, Michigan 49516, U.S.A

Copyright © 2009 Editora Fiel


1a Edição em Português: 2009
1a Reimpressão: 2011

A versão bíblica utilizada neste livro é a Almeida Revista e Atualizada (ARA -


SBB)

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


Editora Fiel da Missão Evangélica Literária

PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO


ESCRITA DOS EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Presidente: James Richard Denham III


Presidente Emérito: James Richard Denham Jr.
Editor: Tiago J. Santos Filho
Tradução: Francisco Wellington Ferreira
Revisão: Franklin Ferreira e Tiago J. Santos Filho
eBook: Heraldo Almeida
Capa: Edvânio Silva

ISBN: 978-85-8132-333-6
Caixa Postal, 1601
CEP 12230-971
São José dos Campos-SP
PABX.: (12) 3919-9999
www.editorafiel.com.br
Este livro é dedicado com gratidão a
Perry e Sandy,
não porque necessitem dele,
mas sim por serem um modelo
deste livro.
SU MÁ RIO

Capa

Folha de Rosto
Créditos
Dedicatória
Prefácio à edição em português
Prefácio
Capítulo 1: A Cruz e a Pregação (1 Coríntios 1.18-2.5)
Capítulo 2: A Cruz e o Espírito Santo (1 Coríntios 2.6-16)
Capítulo 3: A Cruz e o Sectarismo (1 Coríntios 3)
Capítulo 4: A Cruz e a Liderança Cristã (1 Coríntios 4)

Capítulo 5: A Cruz e o Cristão Transcultural (1 Coríntios 9.19-27)


Editora Fiel
PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS

m dos temas mais discutidos atualmente no ministério cristão


é questão da liderança. Centenas de títulos têm sido escritos
sobre assunto em todo o mundo evangélico. É fato consumado
que o crescimento das igrejas evangélicas aliado ao apelo do enfoque
gerencial e gestorial tem produzido uma efervescência sem preceden-
tes sobre o assunto. Com toda a certeza, a palavra liderança está na or-
dem do dia.
Apesar do grande interesse no assunto, poucos estudos bíblicos
fundamentados numa exegese segura das Escrituras têm sido disponi-
bilizados nos últimos tempos. Parece que a Bíblia tornou-se uma refe-
rência secundária para muitos. Em minha perspectiva, vivemos uma
situação dramática: autores de perfil prático falam de liderança sem
qualquer fundamentação exegética, enquanto que autores de perfil te-
ológico e técnico pouco escrevem sobre questões práticas do cotidiano
ministerial.
Foi nesse incômodo vazio literário que surgiu este opúsculo ela-
borado pelo conhecido estudioso do Novo Testamento D A Carson. O
renomado erudito canadense é hoje um dos autores mais prolíficos e
premiados da área bíblica no mundo de fala inglesa. Sem dúvida algu-
ma, trata-se de um nome de peso que em muito tem contribuído para
os estudos teológicos e exegéticos nas últimas décadas.
A partir de uma exposição de trechos escolhidos da epístola de
Paulo de 1 Coríntios, Carson aborda exegética e expositivamente ele-
mentos fundamentais do texto que são úteis para a condução do mi-
nistério cristão. Deve ser destacado aqui que esta carta paulina tem
muito a nos ensinar, visto que o apóstolo dos gentios discute questões
essenciais para a prática da liderança e a condução do ministério cris-
tão no contexto confuso de Corinto.
Como se pode facilmente perceber na leitura da obra, a ênfase do
opúsculo de Carson é a cruz, marca do cristianismo bíblico. Em dias
quando o mero pragmatismo tem sugerido que um bom líder cristão é
apenas um gestor operacional eficiente que conhece elementos básicos
de psicologia, Carson recupera o tom ético, marcado pela valiosa alte-
ridade que permeia a espiritualidade neotestamentária. Em resumo,
veremos que não é possível ser um líder sem desafiar o egoísmo e o
pecado que está em nós e que prejudica o ministério cristão.
Está de parabéns a Editora Fiel pela escolha de uma obra tão su-
cinta, prática, objetiva e séria. Absolutamente relevante e útil para a
igreja evangélica brasileira.

Luiz Sayão,
Pastor da Igreja Batista Nações Unidas, em São Paulo — SP
PREFÁCIO

or muito tempo, inúmeros evangélicos têm visto a cruz


exclusivamente como o meio pelo qual Deus realizou,
em Cristo Jesus, a nossa redenção. É claro que nenhum
verdadeiro cristão deseja minimizar a centralidade da cruz no propó-
sito redentor de Deus. Contudo, se vemos a cruz apenas como o meio
de nossa salvação, e nada mais do que isso, ignoraremos muitas de
suas funções no Novo Testamento. Em particular, no que diz respeito
a este estudo, deixaremos de vê-la como o teste e o padrão de todo mi-
nistério cristão autêntico. A cruz estabelece não somente o que deve-
mos pregar, mas também a maneira como pregamos. Ela prescreve o
que os líderes cristãos têm de ser e como devem ser vistos pelos mem-
bros das igrejas. A cruz nos diz como servir e nos atrai a prosseguir no
discipulado, até que entendamos o que significa ser cristãos transcul-
turais.
O conteúdo dos cinco capítulos deste livro foi preparado inicial-
mente como uma série de quatro palestras (os capítulos 3 e 4 foram
desenvolvidos de uma das palestras), para o International Council of
Accrediting Agencies (ICAA), filiada à World Evangelical Fellowship. O
ICAA coordena várias agências credenciadoras regionais cujo propó-
sito é a promoção de educação teológica de alta qualidade em institui-
ções evangélicas ao redor do mundo.
A série de palestras foi revisada e apresentada novamente no con-
gresso mundial da International Fellowship of Evangelical Students
(IFES), que ocorre de quatro em quatro anos. Os representantes vie-
ram de 108 ou 109 países. Foi um grande privilégio tentar expor a Pa-
lavra de Deus para eles. Em muitas conversas pessoais, aprendi desses
irmãos e irmãs em Cristo. Sou grato a Deus por sua firmeza, zelo e li-
derança modesta.
O texto que você tem em mãos foi revisado mais uma vez, para
acomodar-se à página impressa. Embora estes capítulos sejam uma ex-
posição de parte de 1 Coríntios, meu interesse vai muito além do cui-
dado por coisas antigas. Cada nova geração de cristãos precisa apren-
der a mensagem destas seções de 1 Coríntios, pois, do contrário, o
evangelho será deixado de lado por diferentes tendências.
É comum pessoas afirmarem que o evangelicalismo está se frag-
mentando. Visto que isso é, até certo ponto, verdadeiro, temos de fo-
calizar-nos conscientemente no que é central — o evangelho de Jesus
Cristo. Isso significa que temos de decidir “nada saber... senão a Jesus
Cristo e este crucificado” (1Co 2.2), da maneira como o fez Paulo. Isso
moldará a nossa visão de ministério e a nossa compreensão da centra-
lidade do evangelho.
Eu seria negligente se não expressasse minha gratidão à publica-
dora Baker Book House, por manter seu interesse nesta série de expo-
sições bíblicas. Há alguma coisa mais importante do que aprender a
pensar os pensamentos de Deus à sua maneira?

Soli Deo Gloria


D A Carson
CA PÍ TU LO 1
A CRUZ E A PREGAÇÃO
1 CORÍNTIOS 1.18-2.5

18Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que
somos salvos, poder de Deus. 19Pois está escrito:

Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos.

20Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura,
não tornou Deus louca a sabedoria do mundo? 21Visto como, na sabedoria de Deus, o
mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem
pela loucura da pregação. 22Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos bus-
cam sabedoria; 23mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, lou-
cura para os gentios; 24mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pre-
gamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. 25Porque a loucura de Deus é mais
sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.

26Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sá-
bios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; 27pelo
contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e esco-
lheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; 28e Deus escolheu as coisas
humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que
são; 29a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. 30Mas vós sois dele, em
Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e
redenção, 31para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.

[1]Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não
o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. 2Porque decidi nada saber entre vós,
senão a Jesus Cristo e este crucificado. 3E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu
estive entre vós. 4A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem
persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, 5para que a vossa
fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.
O que você pensaria se uma mulher chegasse ao trabalho usando
brincos que estampavam uma imagem da nuvem, em forma de cogu-
melo, da bomba atômica lançada sobre Hiroshima?
O que você pensaria de uma igreja adornada com um afresco das
inúmeras sepulturas em Auschwitz?
Ambas as visões são grotescas. Não são intrinsecamente detestá-
veis, mas são chocantes por causa de suas poderosas associações cul-
turais.
O mesmo tipo de horror chocante estava associado com a cruz e a
crucificação no século I. Sem a sanção explícita do próprio imperador,
nenhum cidadão romano seria morto por crucificação. Ela estava re-
servada para os escravos, estrangeiros, bárbaros. Muitos achavam que
esse não era um assunto que devia ser conversado entre pessoas edu-
cadas. À parte da tortura perversa infligida àqueles que eram executa-
dos por crucificação, as associações culturais traziam à mente imagens
de maldade, corrupção e rejeição profunda.
No entanto, hoje, cruzes adornam nossos prédios e timbres de
cartas, embelezam bispos, resplandecem em lapelas, oscilam em brin-
cos — e ninguém se escandaliza. Essa distância cultural do século I
nos impede de sentir apropriadamente a ironia de 1 Coríntios 1.18: “A
palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que
somos salvos, poder de Deus”.
Essa distância cultural precisa ser encurtada. Precisamos retornar
sempre à cruz de Jesus Cristo, se temos de determinar a medida de
nosso viver, serviço e ministério cristão.
Começando no começo, desejo delinear o lugar da cruz na prega-
ção e na proclamação cristã. Será proveitoso desenvolvermos o assun-
to em três partes, correspondentes aos três parágrafos de nosso texto
bíblico.

A MENSAGEM DA CRUZ (1.18-25)

Paulo já havia censurado os cristãos de Corinto por seu espírito


de divisão. Um grupo dizia: “Eu sou de Paulo”; outro: “Eu sou de
Apolo”; outro: “Eu sou de Cefas”; e outro, talvez o mais santarrão de-
les, dizia: “Eu sou de Cristo” (1.11-12). Ambas as cartas de Paulo àque-
les cristãos mostram que eles eram constantemente tentados a se ape-
garem a líderes fortes e a menosprezarem os outros. Fascinados pela
retórica dos eruditos de seus dias, os coríntios eram, às vezes, mais
impressionados pela forma e aparência do que pelo conteúdo e a ver-
dade. Eles amavam a sabedoria humana — ou seja, a “sabedoria de
palavra” (1.17), a perspicácia e a eloquência que caracterizavam mais
do que uma escola de pensamento na Grécia do século I.
Ora, enquanto muitas vozes estridentes diziam às pessoas o que
elas deviam crer e como deviam viver, apelando eloquentemente à
“sabedoria de palavra”, Paulo resolveu proclamar o evangelho (1.17),
a “palavra da cruz” (1.18). Toda a sua ênfase estava no conteúdo da
mensagem. Deus se agradava em salvar aqueles que criam por meio
da “loucura da pregação” (1Co 1.21). Nestas palavras, Paulo enfatizou
o conteúdo da mensagem, e não o ato de pregar, como podem sugerir
algumas versões da Bíblia.
Paulo descreveu duas características essenciais na mensagem da
cruz:

Por determinação de Deus, a mensagem da cruz divide a raça humana


(1.18-21)
O mundo antigo empregava várias polaridades para descrever a
humanidade: romanos e bárbaros, judeus e gentios, escravos e livres.
Todavia, nesta passagem, Paulo apresentou a única polaridade que
tem importância crucial; ele distinguiu os que perecem e os que são
salvos. A linha divisória entre os dois grupos é a mensagem da cruz:
“A palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós,
que somos salvos, poder de Deus” (1Co 1.18).
De fato, Paulo ressaltou que essa distinção fundamental surge do
propósito de Deus, que já havia sido afirmado. No versículo 19, ele
disse: “Está escrito” e, em seguida, citou as Escrituras. Deus já havia
declarado seu pensamento sobre essa questão. Portanto, para Paulo a
questão estava resolvida.
A passagem da Escritura que ele citou foi Isaías 29.14: “Destruirei
a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos”. Em
outras palavras, a mensagem da cruz não é nada mais do que o meio
de Deus fazer o que Ele disse que faria: por meio da cruz, Ele rejeita e
descarta todas as pretensões humanas quanto à sabedoria e o poder.
Isso é central ao tema das Escrituras. Deus nos atraiu em direção
a Si, nos fez reconhecer, com gozo e obediência, que Ele é o centro de
tudo e o único Deus. O âmago de nossa rebelião ímpia é o fato de que
cada um de nós deseja ser o número um. Fazemos de nós mesmos o
foco de todos os nossos pensamentos, esperanças e visualizações. Essa
ambição de ser o primeiro se expressa não somente em ódio, guerra,
cobiça, imoralidade, malícia, amargura e outras coisas, mas também
em justiça própria, autopromoção, religiões inventadas e deuses do-
mesticados.
Reconhecemos como somos egocêntricos ao considerarmos a ati-
tude que demonstramos depois de uma argumentação com alguém.
Costumeiramente, reprisamos em nossa mente a argumentação, consi-
derando todas as coisas que podíamos e devíamos ter dito. E, nessas
reprises, sempre pecamos. Depois de uma argumentação com alguém,
você já imaginou uma reprise em que perdeu?
Nosso egocentrismo é profundo. É tão brutalmente idolatrado,
que tenta dominar o próprio Deus. Em nossa insensatez desesperada,
agimos como se pudéssemos ser mais espertos do que Deus, como se
Ele nos devesse explicações, como se fôssemos sábios e determinantes
quanto a nós mesmos, e Deus existisse apenas para satisfazer nossas
necessidades.
No entanto, Deus afirma: “Destruirei a sabedoria dos sábios e ani-
quilarei a inteligência dos instruídos”. De fato, essa verdade já fora
deixada implícita no versículo 18. Alguém poderia esperar que Paulo
dissesse: “A palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas
para nós, que somos salvos, é sabedoria de Deus”. Mas ele insistiu que
a palavra da cruz é o “poder de Deus”. É claro que depois Paulo diria
que o evangelho é também a sabedoria de Deus (1.24), mas ele come-
çou em um tom diferente. Isso não é um lapso da parte de Paulo. O
ensino dos versículos é crucial. Paulo não desejava que os cristãos de
Corinto pensassem que o evangelho é apenas um sistema filosófico,
um sistema altamente sábio que supera a tolice dos outros sistemas.
Ele queria dizer muito mais: onde a sabedoria humana falha comple-
tamente em lidar com as necessidades dos homens, Deus mesmo entra
em ação. Somos incapazes no que diz respeito a lidar com nosso peca-
do e sermos reconciliados com Deus; mas, onde somos incapazes,
Deus é poderoso. A insensatez e a sabedoria humana são igualmente
incapazes de alcançar o que Deus realizou na cruz. O evangelho não é
apenas um conjunto de bons conselhos; também não é boas notícias a
respeito do poder de Deus. O evangelho é o poder de Deus para aque-
les que creem. A cruz é o lugar em que Deus destruiu completamente
toda a arrogância e pretensão dos homens.
Paulo enfatiza esse ensino com três perguntas retóricas:
“Onde está o sábio?” (1.20). Na Corinto do século I, a “sabedoria”
não era entendida como a habilidade prática de viver sob o temor do
Senhor (conforme vemos frequentemente no livro de Provérbios).
Também não era vista como alguma combinação de intuição, discerni-
mento e esperteza pessoal (como a sabedoria é vista hoje no Ocidente).
Pelo contrário, a sabedoria era a filosofia pública, uma cosmovisão
bem articulada do mundo que tornava a vida compreensível e ordena-
va as escolhas, valores e prioridades dos que a adotavam. “O sábio”
era alguém que adotava e defendia uma das diversas e competitivas
cosmovisões populares. Nesse sentido, o “sábio” podia ser um epicu-
rista, ou um estóico, ou um sofista, ou um platônico; mas os sábios ti-
nham isto em comum: afirmavam ser capazes de dar sentido à vida, à
morte e ao universo.
Um sistema organizador e uma cosmovisão coerente instilam um
senso de poder. Se você pode explicar a vida, permanece no controle
dela. Os gregos eram famosos por sua busca de sistemas coerentes que
colocasse em ordem o mundo. Em resumo, eles buscavam “sabedo-
ria”.
No entanto, a pergunta retórica de Paulo visava indagar realmen-
te qual desses sistemas públicos de pensamento revelou o evangelho.
Que “sábio” discerniu o maravilhoso plano de redenção de Deus?
Em relação à cruz, como permanecem os apelos roucos das filoso-
fias públicas competitivas? Que lugar tem a cruz no comunismo? Ou
no capitalismo? O hedonismo sistemático leva à cruz? E o que pode-
mos dizer sobre o pluralismo dogmático? O humanismo secular leva
alguém ao ato mais extraordinário da auto-revelação divina que já
ocorreu — a cruz de Cristo?
A elevação das virtudes da democracia leva os homens à cruz?
Na América, os pais fundadores concebiam a democracia como uma
maneira de estabelecer responsabilidade pela restrição do poder. Se a
população como um todo não gostasse dos poderes executivo, legisla-
tivo e judiciário do governo, a urna de eleição proporcionava o meio
de removê-los. Estranhamente, os políticos modernos falam sobre “a
sabedoria do povo americano”, como se um discernimento especial re-
sidisse na população. Essa não era a percepção dos pais fundadores e,
com certeza, não é uma avaliação cristã. Certamente a democracia é a
melhor forma de governo nos lugares em que a população é razoavel-
mente instruída e compartilha de muitos valores comuns, mas, até
nessas condições, o voto da maioria nem sempre revela grande discer-
nimento. É a melhor maneira de limitar o poder e de tornar o governo
mais ou menos responsável; porém não é a melhor maneira de deter-
minar o certo e o errado, a verdade e a mentira, o bom e o mau. A de-
mocracia por si mesma leva alguém à cruz? Não é sempre errado
equiparar o evangelho com a “maneira americana” ou, mais ampla-
mente, qualquer sistema democrático com o evangelho?
O argumento de Paulo é que nenhuma filosofia popular, nenhu-
ma “sabedoria” aceita por todos, pode ter importância duradoura, se
o seu âmago não é a cruz. Não importa quais sejam os méritos ou os
deméritos desses vários sistemas, eles exaurem seus recursos em ní-
veis superficiais. Não reconciliam os homens e mulheres com o Deus
vivo. E nada é mais importante do que isso. Esses sistemas não podem
desvendar a sabedoria de Deus na cruz. E, se a cruz está oculta, todas
as outras sabedorias são tolice. Onde está o sábio?
“Onde, o escriba?” (1.20). A palavra grega grammateus, usada nesta
pergunta, não era usada na cultura grega para denotar qualquer tipo
de avanço escolar. O que Paulo tinha em mente era o uso dessa pala-
vra entre os judeus que falavam grego; o grammateus era o “escriba”, o
perito na lei de Deus, a pessoa que tinha conhecimento do legado bí-
blico e de toda tradição que fluía desse legado. Paulo antecipa tanto os
gregos que buscavam sabedoria como os judeus que buscavam sinais
miraculosos (1.22).
Logo, o ensino de Paulo nesta passagem é que teólogos, eruditos
bíblicos, moralistas e o equivalente antigo dos clérigos não se sairiam
melhores do que o “sábio”. Nenhum deles havia desenvolvido um sis-
tema em que a cruz permanecia no âmago; nenhum deles antecipara
as boas-novas de Deus, que enalteceria a morte do Messias há muito
esperado. Com menos desculpas, a nossa geração multiplica os senti-
mentos religiosos de “auto-realização” e “necessidade pessoal”, mini-
mizando a análise inteligente do que custou ao Deus todo-poderoso
para buscar seres humanos rebeldes e conquistá-los para Si mesmo.
“Onde, o inquiridor deste século?” (1.20). A palavra inquiridor pode-
ria ser traduzida mais literalmente por “debatedor” ou “orador”. Mas,
na cultura grega, a retórica era altamente valorizada, e os melhores fi-
lósofos públicos eram quase sempre retóricos talentosos e treinados.
Para eles, a forma era tão importante quanto o conteúdo.
Mas, onde estavam esses filósofos e oradores quando Jesus mor-
reu na cruz? Até que ponto a sua paixão por forma os preparou para
seguir Alguém que nunca acompanhou as tendências mais recentes?
Não importa quão celebrados eram, enquanto dominavam os meios
de comunicação daqueles dias e recebiam folhas de louro por seu bri-
lhante desempenho; eles eram cegos e perdidos no que diz respeito
àquilo que tinha importância transcendental.
Este é o fato mais evidente: na cruz, Deus tornou “louca a sabedo-
ria do mundo” (1Co 1.20). Paulo não estava dizendo apenas que Deus
fez a sabedoria do mundo parecer tolice. As suas palavras têm um sig-
nificado mais forte: Deus tornou louca a sabedoria do mundo. Ele re-
duziu à loucura a sabedoria do mundo. Deus removeu as pretensões
dessa sabedoria e estabeleceu as suas tolices. Como Ele fez isso?
Em primeiro lugar, Paulo disse, o desígnio sábio de Deus incluía
a ruína de todos os esforços humanos para conhecê-Lo. Foi “na sabe-
doria de Deus” que o “mundo não o conheceu” (1.21). Os sábios, os
instruídos e os filósofos fracassaram em entender; Deus em sua provi-
dência onisciente realizou as coisas dessa maneira. O fracasso deles é
completamente digno de culpa; a sua ignorância quanto a Deus e sua
preocupação infindável e egoísta eram dignas de culpa. No entanto,
nenhum mal, incluindo o deles, pode escapar dos limites da soberana
providência de Deus — é Ele mesmo quem garante que o mundo, em
sua sabedoria, não O conhece. Não é difícil saber por quê: nesta ordem
caída, a sabedoria humana (no sentido que já descrevemos) é profun-
damente idólatra. Como podem as tentativas idólatras de domesticar
a Deus ser recompensadas com um conhecimento profundo do Altís-
simo? Isso jamais acontecerá! Deus mesmo garantiu que não acontece-
rá. Assim, o próprio Deus estabeleceu a completa loucura da sabedo-
ria deste mundo.
Há uma segunda maneira pela qual Deus tornou “louca a sabedo-
ria do mundo”. Visto que, por meio da sábia providência de Deus, o
mundo não O conheceu, Ele determinou que alguns homens e mulhe-
res cheguem a conhecê-Lo — por um meio completamente inesperado
e imprevisto pelas pessoas sábias do mundo. “Aprouve a Deus salvar
os que creem pela loucura da pregação” (1 Co 1.21).
Precisamos considerar atentamente essa afirmação. A Nova Ver-
são Internacional, em inglês, expressa-a de modo correto: Deus deter-
minou salvar aqueles que creem “pela loucura do que é pregado”, e
não “pela loucura da pregação”, como se houvesse algo inerentemente
transformador no ato de pregar. Conforme vimos, a ênfase é o conteú-
do e não a forma da pregação.[2] Paulo estipulou o conteúdo do que
foi pregado no versículo 23, ainda a ser explorado. Em palavras sim-
ples, “Cristo crucificado”. Esse conceito é algo que o mundo, apesar
de vangloriar-se de sua sabedoria, jamais teria imaginado. Mas Deus
humilha ainda mais as pretensões do mundo. Ele determina que a
mensagem da cruz, o conteúdo do que é pregado, salve “os que cre-
em”.
Isso é admirável. Deus não dispôs as coisas de modo que a loucu-
ra do evangelho salve aqueles cujo QI está acima de 130. Onde estaria
o restante? Tampouco a loucura do que é pregado transforma o jo-
vem, o belo, o extrovertido, o educado, o rico, o sadio, o correto. Onde
ficaria o velho, o feio, o introvertido, o inculto, o pobre, o doente, o
perverso?
Os deuses dos ricos não são gentis para com aqueles que os ricos
desprezam como pobres. Os deuses dos sábios não são amáveis para
com aqueles que os sábios rejeitam como estultos. Os deuses da elite
social não são pacientes para com os excluídos.
Visto que este mundo é caído e rebelde, os deuses que são “desco-
bertos” (não seria melhor dizer inventados?) pela sabedoria humana
são meras projeções de nossa arrogância. Todavia, o Deus verdadeiro,
o Deus que está lá (como Francis Schaeffer costumava dizer), rejeita
todos esses deuses. Ele tornou “louca a sabedoria do mundo” (1.20).
Essas pessoas são salvas por Deus, não porque Ele ama pessoas que se
vangloriam de alguma qualidade ou discernimento superior, nem
porque ama as pessoas que se julgam sábias, e sim porque determinou
salvar aqueles que creem nEle. Pela graça de Deus, estes confiam nEle,
descansam nEle e entregam-se a Ele. Deus é o centro dessas pessoas, a
sua rocha, a sua âncora, a sua confiança. Assim, Deus repele, silencio-
sa e eficientemente, a sabedoria de nossa cultura como loucura absolu-
ta.
Portanto, a mensagem da cruz divide a raça humana; essa mensa-
gem é “loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos sal-
vos, poder de Deus” (1Co 1.18). De um lado, estão aqueles cuja religi-
ão, ou cuja falta de religião, procura um Deus popular e acessível aos
informados, aos iniciados, aos sábios; do outro lado, estão aqueles que
receberam a loucura do evangelho, pela fé, e são salvos.
Paulo enfatizou um segundo elemento na mensagem da cruz:

A mensagem da cruz prova que a loucura de Deus é mais sábia do que a


sabedoria humana; a fraqueza de Deus é mais forte do que a força humana
(1.22-25)

Em seguida, Paulo dividiu aqueles que perecem em dois grupos.


Esses dois grupos representam as idolatrias fundamentais de sua épo-
ca e de cada época.
“Os judeus pedem sinais” (1.22). No aspecto histórico, é claro que
isso aconteceu com Jesus mais do que uma vez. Quando “alguns escri-
bas e fariseus” lhe disseram: “Mestre, queremos ver de tua parte al-
gum sinal”, Ele respondeu: “Uma geração má e adúltera pede um si-
nal” (Mt 12.38-39). Eles estavam provando a Jesus publicamente, exi-
gindo um sinal (Mt 16.1). Até aqueles que, motivados por desespero,
pediram-Lhe uma ajuda miraculosa foram censurados gentilmente
com palavras como estas: “Se, porventura, não virdes sinais e prodígi-
os, de modo nenhum crereis” (Jo 4.48). Em alguns casos, como na ali-
mentação dos cinco mil, o poder miraculoso de Jesus foi atraente à
multidão somente por causa do que Ele lhes deu (Jo 6.26).
Alguém poderia perguntar por que Jesus rejeitaria esses pedidos.
Afinal de contas, Ele realizou muitos milagres. Por que Ele devia se
opor quando alguém Lhe pedia um milagre? Tais pedidos não Lhe da-
vam oportunidade de manifestar uma obra ainda mais poderosa?
Essas perguntas não compreendem o ensino de Paulo. Há um
tipo de anelo pela manifestação do poder de Jesus que é totalmente
santo, submisso e, às vezes, desesperado. Há outro tipo que coloca a
pessoa na posição de senhor. Alguns querem ver Jesus realizando mi-
lagres para que possam avaliá-Lo, analisar suas reivindicações, testar
suas credenciais. Em um nível, Jesus se acomoda à nossa incredulida-
de, realizando milagres que dão origem à fé (Jo 10.38). Mas, em outro
nível, Ele não pode se reduzir a um gênio poderoso que realiza tru-
ques espetaculares à ordem de alguém. Quando as pessoas avaliam a
Jesus, elas estão na posição de superioridade, na posição de juiz. Visto
que estão pondo à prova as credenciais de Jesus, esquecem que Deus é
Aquele que os avalia. E, enquanto exigem sinais, se Jesus assente cons-
tantemente, Ele não é nada mais do que um milagreiro exímio.
Assim, a exigência por sinais se torna o protótipo de toda condi-
ção que os seres humanos levantam como impedimento de se abrirem
para Deus. Eu me dedicarei a este Deus, se Ele curar meu filho. Segui-
rei este Jesus, se eu puder manter minha independência. Eu me torna-
rei alegremente um cristão, se Deus provar-se a Si mesmo para mim.
Abandonarei meu pecado e lerei a Bíblia, se meu casamento entrar em
ordem, para a minha satisfação. Reconhecerei a Jesus como Senhor, se
Ele realizar, sob exigência, o tipo de milagre que remova toda a minha
dúvida. Em todos os casos, estou avaliando a Jesus, e não Ele a mim.
Não estou me achegando a Ele de acordo com as suas determinações;
estou estipulando os termos que Jesus tem de aceitar, se deseja ter o
privilégio de minha companhia. “Os judeus pedem sinais.”
“Os gregos [ou seja, os gentios] buscam sabedoria” (1.22). Já vimos o
que isso significa. Essas pessoas talvez não suscitem condições que
Deus tem de satisfazer, mas fazem algo igualmente péssimo. Criam
estruturas de pensamento que mantêm a ilusão de que podem expli-
car tudo. Acham que são científicas, estão no controle e são poderosas.
Se Deus existe, Ele tem de satisfazer os padrões elevados da habilida-
de acadêmica e filosófica de tais pessoas e, de algum modo, se encai-
xar no sistema delas, para que receba algum tipo respeitável de audi-
ência.
Em ambos os grupos, “judeus” e “gregos”, há egocentrismo pro-
fundo. Deus não é aceito de boa fé. A exigência por sinais e a busca
por sabedoria, bem como os inúmeros descendentes que elas têm ge-
rado, tratam a Deus como se nós tivéssemos o direito de aprová-Lo e
de examinar suas credenciais. Essa é a impiedade mais reprovável, a
insolência mais aterrorizante e a característica mais horrível de nossa
profunda rebelião e perdição.
Por contraste, o apóstolo Paulo disse: “Nós pregamos a Cristo
crucificado” (1.23). Esse é o nosso conteúdo. E para aqueles que não
conhecem a Cristo essa é uma mensagem sobremodo esquisita. No sé-
culo I, talvez ela tenha parecido uma contradição de termos — como
vapor congelado, amor odioso, declínio para cima ou sequestrador
santo — porém, uma expressão muito mais chocante. Para muitos ju-
deus, o Messias que eles tanto esperavam[3] tinha de vir em esplendor
e glória. Tinha de começar seu reino com poder incontestável. “Messi-
as Crucificado” — esta justaposição de palavras era bem próxima de
blasfêmia, visto que todo judeu sabia que Deus mesmo havia declara-
do que todo indivíduo pendurado vergonhosamente em um madeiro
estava sob sua maldição (Dt 21.23). Como poderia o Messias de Deus
ficar sob essa maldição? Como poderia o Messias de Deus ser crucifi-
cado? Para o judeu, essa ideia era um “escândalo” (1.23), o maior dos
escândalos. Paulo pensava assim antes de ser convertido. Ele se sentia
ultrajado pelo fato de que seus compatriotas honravam como Messias,
e como Deus mesmo, um homem que Deus havia amaldiçoado (ver Gl
1.13-14; 3.13).
No entanto, os “gregos” não tinham maior consideração pelo
“Cristo crucificado”. Eles exaltavam a razão e a filosofia pública, e não
a fé e os criminosos notórios. Não se passariam muitos anos até que o
imperador Trajano rejeitasse o cristianismo como uma “superstição
perniciosa” — e estava apenas expressando uma opinião sustentada
pela maioria. No aspecto mais amplo, os romanos mais interessados
em poder do que em filosofia rejeitariam como loucura a expressão
“herói crucificado” (1.23). Talvez essa foi a razão por que Paulo dei-
xou de usar o termo “gregos” e mencionou os “gentios” (v. 22). Ele
queria deixar claro que a cruz era loucura não somente para os gregos,
mas também para os gentios; ninguém era excluído; a cruz era um
escândalo e loucura para todos. A própria palavra que Paulo usou
para expressar a ideia de “loucura” não foi acidental. Pode ser enten-
dida com o sentido de “obsessão” ou “loucura”. Os gentios descrevi-
am a mensagem da cruz não como uma tolice ingênua e excêntrica,
mas como uma estupidez perigosa e quase insana.
A cruz é desprezada e rejeitada por todos. Contudo, Paulo insis-
tiu: “Nós pregamos a Cristo crucificado” (1.23). A mensagem da cruz
pode ser insensatez para os que estão perecendo, “escândalo para os
judeus, loucura para os gentios” (1.23), “mas para os que foram cha-
mados, tanto judeus como gregos... poder de Deus e sabedoria de
Deus” (1.24).
Essa é uma afirmação admirável!
Sentiremos melhor o seu poder se observarmos duas coisas. Pri-
meira, aqueles que não pertencem a este mundo condenado são “os
que foram chamados”. A razão fundamental por que eles são diferen-
tes é que Deus os chamou — e isso, conforme o pensamento de Paulo
significa que Deus os alcançou e os salvou. A chamada de Deus, con-
forme Paulo se refere a ela, é eficaz — aqueles que são chamados por
Deus inevitavelmente são convertidos (cf. Rm 8.30). Essas mesmas
pessoas podem ser descritas como “os que creem” (1.21). Do ponto de
vista humano, a fé se apropria dos benefícios ímpares da cruz de Cris-
to. Mas temos de fazer a pergunta inevitável: se a sabedoria de Deus
assegurou que o mundo não O conheceria por meio de sua sabedoria,
como essas pessoas creram? Se pessoas achavam a cruz repulsiva e in-
sensata, como chegaram a se deleitar nela? Eis a resposta de Paulo: fo-
ram chamadas pelo próprio Deus (1.24) — um fato que ele reiterou
nos versículos posteriores.
Segunda, esse povo chamado por Deus, “tanto judeus como gre-
gos” (isto é, chamados por Deus sem distinção racial), chegou a desco-
brir que Cristo, o Cristo crucificado, é o “poder de Deus e sabedoria
de Deus” (1.24). A linguagem foi cuidadosamente escolhida. Os ju-
deus exigiam sinais miraculosos e esperavam um Messias poderoso.
Eles ficaram ofendidos com a inadmissibilidade ridícula e a fraqueza
inerente de qualquer noção de um “Messias crucificado”. Mas, em iro-
nia profunda, este é o momento da sublime fraqueza, a cruz de Jesus
Cristo, que manifesta mais intensamente o poder de Deus — e os cris-
tãos reconhecem isso. Por sua parte, os gentios amavam o que chama-
vam de sabedoria. Rejeitavam como insensatez grosseira qualquer no-
ção de um herói que foi crucificado. Contudo, em profunda ironia,
este é o momento da loucura transparente, a cruz de Jesus Cristo, que
manifesta mais intensamente a admirável sabedoria de Deus. Essa foi
a razão por que Paulo disse: “Para os que foram chamados”, indepen-
dentemente de sua formação cultural, Cristo é “poder de Deus e sabe-
doria de Deus” (1.24).
Isso é prazerosamente irônico e totalmente apropriado. É irônico
porque aquilo que o mundo rejeita com estremecimento não é nada
menos que o caminho de Deus para a bênção que, de outra maneira, o
mundo não pode obter. É apropriado porque todo o egocentrismo re-
belde do mundo é exatamente aquilo que assegura que ele não pode
entender a cruz, enquanto o sábio plano de redenção de Deus depen-
de de que o próprio Deus se auto-renuncie para realizar a consumação
de sua autoridade.
Paulo não chegou facilmente a esse discernimento. Para ele, tudo
começou na estrada de Damasco. Quando Paulo esteve face a face
com Jesus ressuscitado e glorificado, a quem ele havia rejeitado como
um usurpador descarado que merecia a maldição de Deus derramada
sobre Ele, teve de revisar muitas de suas estruturas de pensamento. Se
Jesus estava vivo, os cristãos, que continuavam a insistir que eram tes-
temunhas da ressurreição, tinham de ser ouvidos com novo respeito.
Se Jesus estava vivo e glorificado, Deus não podia ter lançado sobre
Ele uma maldição irrevogável. Mas, se a cruz não significava que Je-
sus fora condenado sob a maldição de Deus, então, o que ela significa-
va? Se a ressurreição provava que Jesus fora vindicado pelo próprio
Deus, embora tivesse morrido, sob vergonha, na cruz odiosa, o que
significava aquela morte?
Somente o que os cristãos afirmavam fazia sentido. Jesus era o
Messias prometido, mas também era o Servo sofredor. Certamente,
Ele era o supremo Rei que reivindicava possuir toda a autoridade,
mas ele também era o cumprimento de inúmeros séculos de sacrifícios
sangrentos, que apontavam para o único e supremo sacrifício que po-
dia lidar eficazmente com o pecado. Jesus morreu sob a maldição de
Deus, não por causa de seu próprio pecado, e sim por causa de meu
pecado. E o valor do seu sacrifício é comprovado mais espetacular-
mente por meio do fato mais notável da História: Deus O ressuscitou
dentre os mortos.
Chamados por Deus, os cristãos têm sempre firmado sua confian-
ça na cruz de Jesus Cristo. Essa é a razão por que ainda cantamos este
hino da Idade Média:

Oh, fronte ensanguentada,


em tanto opróbrio e dor,
de espinhos coroada
com ódio e com furor!
Tão gloriosa outrora,
tão bela e tão viril!
Tão abatida agora
de afronta e escárnio vil!
Quão humilhada pende
a face do Senhor!
Não vive, não resplende
já não tem luz nem cor.
Oh, crime inominável
fazer anuviar
o brilho inigualável
de um tão piedoso olhar!

Estás tão carregado,


mas todo o fardo é meu.
Eu só, me fiz culpado,
e o sofrimento é teu.
Eu venho a ti, tremente;
mereço a punição,
mas olhas-me, clemente,
com santa compaixão.

Sê meu refúgio forte,


meu guia, vida e luz.
Que eu sinta, vendo a morte,
conforto em tua cruz!
Na cruz com fé me abrigo:
ao ver que ao lado estás,
eu me unirei contigo
e vou dormir em paz.
Bernard de Clairvaux (1090-1153)

O que o mundo rejeita como loucura, a loucura de Deus, compro-


va-se mais sábia do que a sabedoria dos homens (1.25). Isso é muito
mais radical do que dizer: Deus tem mais sabedoria do que os seres
humanos; ou: Ele é mais poderoso do que os seres humanos — como
se estivéssemos lidando com meros graus de sabedoria e poder. Esta-
mos lidando com pólos opostos. A “sabedoria” e o “poder” humanos
são, do ponto de vista de Deus, insensatez rebelde e fraqueza moral. E
o momento em que Deus revelou mais dramaticamente sua própria
sabedoria e poder, o momento em que seu querido Filho foi crucifica-
do — embora isso seja menosprezado como indigno de atenção pela
espalhafatosa sabedoria deste mundo rebelde, pela patética “força”
dos auto-iludidos —, aquele foi o momento da sabedoria e do poder
de Deus. “Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e
a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1.25).
Essa lição tem de ser constantemente reassimilada por aqueles de
nós que estamos em algum tipo de ministério cristão. O evangelicalis-
mo ocidental tende a mover-se em ciclos de tendências. No momento,
as editoras estão transbordando de livros que nos ensinam como fazer
planos para o sucesso, como a “visão” se torna “alvos de ministério”
bem articulados, como o conhecimento do perfil detalhado de nossa
comunidade é uma chave para o alcance evangelístico bem-sucedido.
Não estou sugerindo, nem por um momento, que não há nada a ser
aprendido nesses estudos. Contudo, talvez alguém possa se desculpar
por admirar-se de quantas igrejas foram plantadas Paulo, Whitefield,
Wesley, Stanway e Judson sem desfrutarem dessas vantagens. É claro
que todos precisamos entender as pessoas a quem ministramos, e to-
dos podemos nos beneficiar de pequenas doses desses livros. Mas
grandes doses, mais cedo ou mais tarde, diluirão o evangelho. Sutil-
mente, começamos a pensar que o sucesso depende mais da prudente
análise sociológica do que do evangelho. Barna se torna mais impor-
tante do que a Bíblia. Dependemos de planos, programas, afirmações
de visão — mas, em algum ponto ao longo do caminho, sucumbimos
à tentação de substituir a loucura da cruz pela sabedoria do planeja-
mento estratégico. Insisto novamente que minha posição não é um
apelo dissimulado em favor do obscurantismo e de ministérios basea-
dos em intuição e experiência, que não planejam nada. Pelo contrário,
temo que a cruz esteja em perigo constante de ser removida do lugar
central que deve ocupar por meio de percepções relativamente perifé-
ricas que são valorizadas em demasia. Sempre que os assuntos perifé-
ricos estão em risco de ocupar o centro, não estamos distantes da ido-
latria.

O ALCANCE DA CRUZ (1.26-31)

Embora Paulo tenha sido breve em falar sobre a maneira como a


mensagem da cruz divide a raça humana, ele se focalizou em grande
parte naqueles que rejeitavam essa mensagem. Agora, ele se volta ex-
clusivamente para aqueles que a aceitam — e conclui que aquilo que
essas pessoas são, apóia sua percepção quanto ao conteúdo da mensa-
gem da cruz. Ele insiste que, em sua maioria, aqueles que aceitaram
essa mensagem não são os sábios, os glamorosos, os dotados, os religi-
osos. Não, eles são os ninguéns.
Paulo apresenta o seu argumento, oferece uma justificativa teoló-
gica para o ensino e termina com uma visão cristã do gloriar-se.
O argumento de Paulo (1.26)

Paulo se dirigiu aos seus irmãos em Cristo: “Irmãos, reparai, pois,


na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segun-
do a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento”.
Neste ponto, Paulo estava tratando no nível empírico: esses são os fa-
tos observáveis. E desejava que aqueles irmãos reconhecessem tais fa-
tos. Ao exortar-lhes a considerar o que eram quando “foram chama-
dos”, Paulo desejava que lembrassem seu estado de vida quando fo-
ram convertidos.
E o que eles eram? Muitos deles não eram “sábios”, nem “podero-
sos”, nem de “nobre nascimento” (1.26). Certamente, Paulo adaptou a
linguagem de Jeremias 9.23-24. Nesta passagem, o profeta cita a Deus,
como se Ele dissesse:

Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas
riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SE-
NHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o

SENHOR [ênfase acrescentada].

Paulo falou sobre o sábio da mesma maneira como o fez Jeremias.


O homem “forte” de Jeremias se torna o “poderoso” em Paulo — ou
seja, a força em consideração não é a força de levantar peso, e sim a
força do formador de opinião, o homem de influência. O “rico” se tor-
na a pessoa de “nobre nascimento”, visto que naquela era pré-indus-
trial a maioria dos ricos provinha das classes mais altas.
É claro que Paulo reconheceu que essas categorias não tinham
qualquer importância eterna. Ele falava sobre aqueles que eram sábios
segundo os padrões humanos — e, implicitamente, sobre aqueles que
eram influentes ou de nobre nascimento conforme os padrões huma-
nos. A expressão que ele usou sugere[4] que ele estava eliminando es-
ses padrões, que são deste mundo, deste mundo caído, em oposição
aos padrões de Deus. Contudo, os padrões humanos são os que a mai-
oria da sociedade estima grandemente. Paulo recordou aos cristãos de
Corinto que “não muitos” deles satisfaziam esses padrões.
Antes de avançarmos na consideração do argumento de Paulo, é
importante lembrar que alguns dos oponentes dos cristãos procura-
ram usar as palavras de Paulo contra o evangelho. Eles diziam que so-
mente os tolos e os ignorantes se tornavam cristãos. Por exemplo, no
século II, o crítico Celsus zombou do cristianismo nestes termos:

As suas prescrições têm este sentido: “Não se aproxime nem o instruído, nem o sá-
bio, nem o sensível, pois consideramos más estas capacidades. Mas, quanto aos ignoran-
tes, aos estúpidos, aos iletrados, e aos infantis, que se acheguem com ousadia”. Pelo fato
de que eles mesmos admitem que tais pessoas são dignas de seu Deus, mostram que de-
sejam e são capazes de convencer somente os tolos, estúpidos e indignos de honra, so-
mente escravos, mulheres e crianças [Contra Celsum 3.44].

Seguindo pensamentos semelhantes, muitos dos intelectuais con-


temporâneos trabalham arduamente para transmitir a impressão de
que todos os cristãos são tolos, embusteiros ou ambas as coisas. E,
numa leitura superficial, Paulo talvez seja entendido como que favore-
cendo essas críticas.
Uma leitura mais cuidadosa demonstra que o ensino de Paulo é
bem diferente. Em primeiro lugar, ele disse repetidas vezes “não mui-
tos de”. Nos dias do grande evangelista George Whitefield, a condessa
de Huntingdon costumava dizer que fora salva por um “m”. A Pala-
vra de Deus afirma “nem muitos de nobre nascimento”, e não “ne-
nhum de nobre nascimento”. Além disso, tem sido comprovado que o
cristianismo do século I era espantosamente heterogêneo. Era a única
sociedade que, em todo o império, colocava juntos escravos e livres,
judeus e gentios, ricos e pobres, homens e mulheres. Se havia muitos
pobres, iletrados, escravos e analfabetos, havia também pessoas como
Crispo, Gaio, Filemom, Erasto — sem mencionar homens como o pró-
prio Paulo.
Então, o que Paulo estava dizendo neste versículo? Sem dúvida, o
seu principal ensino é este: ser influente ou de nascimento nobre não é
um critério de ser um cristão ou de ser espiritual. Se muitos na igreja
de Corinto foram atraídos de segmentos da sociedade que não eram
muito estimados, conforme os padrões humanos, ninguém podia ar-
gumentar que a igreja era basicamente uma organização de classe ele-
vada, com algumas exceções, a fim de provar quão receptiva era a
igreja. Antes, a igreja era uma congregação de pessoas de classe baixa,
que tinham pouca sofisticação, para provar que os “sábios”, os “pode-
rosos” e os “de nobre nascimento” não eram necessariamente excluí-
dos.
A graça de Deus pode alcançar qualquer pessoa. Contudo, ser
bem reputado na sociedade pagã não é, de modo algum, uma vanta-
gem. Se alguém se achega a Deus com base em alguma suposta sabe-
doria, riqueza ou poder, tal pessoa é necessariamente rejeitada. Se
Deus aceitasse os homens com base nesses critérios, Ele compromete-
ria a Si mesmo. Seria o pior tipo de esnobe, o tipo de pessoa que é im-
pressionada por vantagens completamente superficiais —como um in-
divíduo de classe social inferior vestindo um paletó de luxo, desespe-
rado por ser aprovado e ansioso por bajular todo aquele que fala com
linguagem polida. Paulo insistiu que essa percepção de Deus é com-
pletamente ilógica. Deus não se deixa impressionar pelas filosofias po-
pulares, poder político e riqueza extravagante, que o mundo tanto ad-
mira. E os crentes de Corinto devem ter reconhecido esse ensino de
Paulo e rejeitado por si mesmos essas devoções pagãs. Afinal de con-
tas, a simplicidade do seu contexto de origem deve tê-los alertado
quanto ao tipo de pessoa que Deus busca frequentemente.
Essa é uma verdade que nossa geração não pode ignorar. Por que
gostamos de exibir constantemente atletas cristãos, personalidades
dos meios de comunicação e cantores populares? Por que devemos
imaginar que as suas opiniões ou experiências de graça são mais signi-
ficativas do que as de qualquer outro crente? Quando conversamos
com os incrédulos sobre as pessoas de nossa igreja, pensamos imedia-
tamente nos desprezados e humildes que se tornaram cristãos ou gos-
tamos de impressionar os outros com a importância dos homens e das
mulheres que se tornaram cristãos? A maioria do evangelicalismo mo-
derno está infectada pelo vírus do triunfalismo, e a doença resultante
destrói a humildade, minimiza a graça e tributa muita honra ao di-
nheiro, à influência e à “sabedoria” de nossa época.

A justificativa teológica de Paulo (1.27-30)

A evidência empírica é que a igreja de Corinto era constituída de


pessoas vindas de diferentes contextos; porém a maioria deles não po-
dia se orgulhar de qualquer grande superioridade cultural. Há uma
razão para isso?
Paulo insistiu que há. Deus mesmo “escolheu as coisas loucas do
mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do
mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humil-
des do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a
nada as que são” (1.27-28). Paulo pressupôs que as pessoas não vêm a
Cristo, se Ele não as escolhe. Portanto, se há muitos “ninguéns” que
vêm a Cristo, isso significa que Cristo os escolheu. A razão fundamen-
tal por que não há muitas “pessoas importantes” na igreja cristã (“im-
portantes” conforme os padrões humanos) é que Deus escolheu prefe-
rencialmente os ninguéns.
Deus escolheu as coisas loucas, insistiu Paulo, “para envergonhar
os sábios”. Isso não significa que Ele faz com que sintam-se envergo-
nhados, e sim que os envergonha, despreza-os. De modo semelhante,
Deus escolheu os ninguéns para “reduzir a nada” os que são alguém
(1.28). Em outras palavras, Deus se deleita em anular todas as pre-
tensões deste mundo rebelde. Onde os orgulhosos exibem seus pode-
rosos intelectos, Deus escolhe o simples; onde os ricos avaliam uns aos
outros com base em seus respectivos patrimônios, Deus escolhe o po-
bre; onde os líderes egoístas lutam por poder, Deus escolhe os nin-
guéns. Todas “as coisas que são” — isto é, as coisas que parecem ter
substância e são altamente promovidas neste mundo caído — são re-
duzidas a nada. São identificadas como coisas que não têm qualquer
importância eterna, visto que Deus não vincula a salvação a qualquer
dessas coisas. De fato, Ele age para destruir a presunção de tais pesso-
as: Deus escolhe os ninguéns.
A principal razão da escolha de Deus é sobremodo importante:
Ele os escolhe “a fim de que ninguém se vanglorie na presença de
Deus” (1.29). Ele não somente envergonhou e nulificou o mundo, por
escolher muitas pessoas que o mundo não estima, mas também fez
isso para anular a vanglória humana. Deus age para redimir homens e
mulheres caídos porque Ele é gracioso, e por nenhuma outra razão.
Deus não deve a ninguém o perdão e a vida eterna. Se Ele outorgasse
esses dons maravilhosos com base em um critério desenvolvido pelo
departamento de imigração de muitos países — quanto mais educado,
habilidoso, sofisticado e rico você fosse, tanto mais fácil lhe seria en-
trar no reino de Deus —, aqueles que viessem a conhecer a Deus, por
meio da fé em Jesus Cristo, teriam um motivo legítimo para gloria-
rem-se. No entanto, Deus age à sua maneira “a fim de que ninguém se
vanglorie na presença de Deus” (1.29). “A minha glória, pois, não a
darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura” (Is 42.8).
“Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como se-
ria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem” (Is
48.11). Repetidas vezes, Paulo teve de advertir aos crentes de Corinto
quanto aos perigos de sua vanglória (cf. 1Co 3.21; 2Co 10-13). Se al-
guém possui uma compreensão profunda do evangelho, terá de dizer,
com Paulo: “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída” (Rm 3.27).
Em resumo, os próprios coríntios são uma prova incontestável de
que a sabedoria e o poder de Deus são radicalmente diferentes da sa-
bedoria e do poder do mundo. O alcance da cruz medido pelo perfil
da igreja de Corinto confirma a mensagem da cruz: a salvação é o dom
gratuito de Deus, garantida pela morte ignominiosa de seu próprio Fi-
lho. Essa morte abominável é um ato triunfante de Deus, sua obra
mais admirável e poderosa, a ação por meio da qual Ele degrada e re-
pudia todas as pretensões humanas. A salvação de Deus provém da
graça de Deus, sendo recebida por aqueles que creem nEle — não por
“pessoas bonitas”, pelos ricos ou pelos poderosos. Os crentes de Co-
rinto deviam entender isso somente por considerarem o que eram
quando Deus os salvou.
Entretanto, há um tipo de gloriar-se permitido aos cristãos. De
fato, isso lhes é ordenado.
Uma visão cristã do gloriar-se (1.30-31)

Paulo não estava dizendo que os cristãos não tinham do que se


orgulharem. Pelo contrário, disse-lhes que, ao gloriarem-se das coisas
que eram motivo de orgulho para o mundo, estavam se gloriando das
coisas erradas.
Isso é verdade até na passagem de Jeremias à qual Paulo se repor-
tara. Naquela passagem, Deus não somente proíbe o sábio, o rico e o
forte de gloriarem-se de suas conquistas, mas também acrescenta: “O
que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SE-
NHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas

me agrado” (Jr 9.24). É claro que isso não é uma aprovação aos fanáti-
cos religiosos e egoístas que vivem por aí e reivindicam que todas as
suas opiniões a respeito de tudo são corretas, porque conhecem o Se-
nhor. O principal ensino desta afirmação solene é que o gloriar-se hu-
mano é maligno, pois eleva o ego ao pináculo da importância. Infeliz-
mente, é possível isso acontecer tanto no campo religioso como em
qualquer outro. Esse tipo de gloriar é realizado com o propósito de
enaltecer-nos. E indica que estamos nos focalizando no que é efêmero
e não tem qualquer importância eterna.
A única coisa de importância transcendente para o ser humano é
o conhecimento de Deus. Esse conhecimento não pertence àqueles que
se focalizam incessantemente em si mesmos. Aqueles que chegam a
conhecer verdadeiramente a Deus deleitam-se apenas em conhecê-Lo.
Ele se torna o centro de suas vidas. Tais pessoas se deleitam, se glori-
am e meditam nEle. Querem saber mais e mais como Ele é. Quando
aprendem que Ele é o Deus que exercita “misericórdia, juízo e justiça
na terra”, desejam naturalmente que essas mesmas virtudes prevale-
çam — não porque seus egos estão presos a certas ideias arbitrárias de
“justiça”, e sim porque o seu foco é Deus e Ele é a fonte de suas virtu-
des e caráter. Eles se gloriam em Deus.
Ora, o ato mais dramático de “misericórdia, juízo e justiça” da
parte de Deus já aconteceu — a morte de seu Filho. Por meio desse
ato, Deus assegurou que inúmeros homens e mulheres O conhecerão
verdadeiramente e saberão como Ele é. “Mas vós sois dele, em Cristo
Jesus” (1.30), disse Paulo aos coríntios. Ou seja, visto que Deus os es-
colheu, como o versículo anterior esclarece, eles se tornaram cristãos e,
agora, estão “em Cristo Jesus”. Foram reconciliados com Deus; sabem
que Ele é eterno; provaram o bendito alívio do perdão de seus peca-
dos. Assim, Cristo Jesus, crucificado e ressuscitado, é Ele mesmo o
plano e a sabedoria de Deus. Ele “se nos tornou, da parte de Deus, sa-
bedoria” (1.30). Essa não é a sabedoria do mundo, que não tem lugar
para a cruz. Essa “sabedoria”, que não é fútil, nem ostentosa e possui
importância eterna, realiza mudanças eternas e traz homens e mulhe-
res a um profundo relacionamento com o Deus vivo.
Em poucas palavras, esta “sabedoria”, este plano, significa nada
menos que nossa “justiça, e santificação, e redenção”.[5] Para que nin-
guém seja tentado a pensar que a sabedoria de Deus é nada mais do
que uma versão incrementada da sabedoria do mundo, Paulo desen-
volveu-a imediatamente em termos bíblicos tradicionais. Essa sabedo-
ria nos assegura “justiça” (um termo que reflete nossa posição legal
diante de Deus), nossa “santificação” (um termo apropriadamente re-
ligioso que reflete a esfera exclusiva à qual agora pertencemos) e nossa
“redenção” (um termo extraído do comércio de escravos visando ex-
pressar nossa recém-obtida liberdade do pecado, da corrupção e da
morte).
Não devemos nos admirar de que Paulo terminou citando Jeremi-
as: “Como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”
(1.31). Somos tão insensatos quanto os coríntios, quando valorizamos
aquilo que não permanece, quando promovemos os valores, os planos
e os programas de um mundo que está desaparecendo, como se essas
coisas tivessem significado profundo. Esse curso de vida tão mal dire-
cionado revela eloquentemente quão pouco conhecemos a Deus. Pois,
quanto mais conhecermos a Deus, tanto mais desejaremos que toda a
nossa existência gire em torno dEle, e tanto mais perceberemos que os
objetivos e os planos realmente importantes são aqueles que estão vin-
culados a Deus e à nossa eternidade com Ele. Jesus não ensinou a seus
discípulos que acumulassem tesouros no céu (Mt 6.19-21)?
Portanto, a mensagem da cruz deve moldar nosso ministério
(1.18-25). O alcance da cruz confirma essa mensagem e nos traz de
volta ao que é fundamental (1.26-31). Contudo, há mais um elemento
que devemos considerar.

O PREGADOR DA CRUZ (2.1-5)

O próprio exemplo de Paulo deve ter dito aos cristãos de Corinto


que eles estavam seguindo um caminho perigoso, pois, em sua prega-
ção, ele mesmo se havia afastado conscientemente da pompa retórica
de seus dias. Paulo escreveu: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco,
anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de
linguagem ou de sabedoria [tanto a ostentação de linguagem como a
de sabedoria talvez se refiram, neste versículo, à forma e não ao conte-
údo]” (2.1).
Já se argumentou persuasivamente que Paulo aludia aos sofistas
de seus dias. Muitos movimentos intelectuais valorizavam demais a
retórica. Os filósofos eram amplamente louvados por sua oratória e
seu conteúdo. Mas os sofistas levavam esses ideais a novos ápices. Se-
guindo convenções rígidas e, de algum modo artificiais, esses orado-
res públicos eram louvados e seguidos (e tinham alunos que lhes pa-
gavam) em proporção à sua habilidade de declamar em assembleia
pública, de escolher um assunto e desenvolvê-lo com persuasão e de
falar efusiva e convincentemente em contextos jurídicos, religiosos, co-
merciais e políticos. Eles gozavam de tanta influência no mundo me-
diterrâneo, e não menos em Corinto, que os oradores públicos que não
satisfaziam seus padrões, ou por alguma razão decidiam não satisfa-
zê-los, eram vistos como terrivelmente inferiores.
É difícil avaliarmos em nossos dias quão influente era essa devo-
ção à retórica. Há pelo menos uma sugestão no fato de que Paulo
achou necessário lidar novamente com o assunto em 2 Coríntios (ver
10.9-10; 11.5-6). Devemos lembrar que a retórica foi uma matéria cen-
tral em muitas das universidades do Ocidente até o começo do século
XX. O surgimento da imprensa, do rádio e, especialmente, da televi-
são elevou tanto a comunicação “fria”, que a oratória “fervorosa” ago-
ra parece estranha — ou bizarra, ou perigosa. Os jornalistas televisivos
mantêm uma postura tranquila e uma voz calma quando descrevem a
fome no Sahel, reportam um terremoto que matou duas mil pessoas
na China central ou anunciam quem ganhou uma partida de basquete.
A retórica traz consigo muitos perigos. Aqueles que seguem a elo-
quência e percepções bombásticas que têm pouca consistência valiosa
estão fomentando seu orgulho próprio. Esse tipo de oratória deixou
Paulo inquieto. Apresenta muitas tentações que levam ao orgulho,
sendo perigosa para qualquer pessoa interessada em pregar o evange-
lho do Messias crucificado.
Por isso, Paulo fez uma escolha. Ele “decidiu” (2.2) adotar um ca-
minho mais restrito, embora remasse contra a correnteza das expecta-
tivas culturais. Quando a pressão por “contextualizar” o evangelho
põe em risco a mensagem da cruz, ao inflar o ego humano, as pressões
culturais têm de ser ignoradas.
Dois entendimentos errôneos sobre o compromisso de Paulo têm
de ser evitados com determinação. Primeiro, seria impróprio inferir
que Paulo era um orador incompetente ou um péssimo comunicador.
Quando Paulo e Barnabé estiveram em Listra, onde os padrões sofis-
tas de retórica exerciam pouca influência, os pagãos identificaram
Paulo com Hermes, o deus grego da comunicação (o deus que os ro-
manos chamavam de Mercúrio), porque Paulo era o principal dos ora-
dores (At 14.12). Sem dúvida, Paulo demonstrava muitas habilidades
de discurso e se esforçava para melhorar a clareza e o impacto de sua
apresentação. Em Tessalônica, ele “arrazoou”, expôs e demonstrou
que o Messias tinha de padecer e ressurgir dentre os mortos (At 17.2-
3). Paulo evitou a comunicação artificial que rendia aplausos ao ora-
dor, mas distraía da mensagem. Pregadores indolentes não têm o di-
reito de apelar a 2 Coríntios 2.1-5 para justificarem a negligência no es-
tudo e a pregação desleixada no púlpito. Esses versículos não proíbem
a preparação diligente, a paixão, a articulação clara e a apresentação
persuasiva. Pelo contrário, eles advertem contra qualquer método que
leva as pessoas a dizerem: “Que pregador maravilhoso!”, em vez de:
“Que Salvador maravilhoso!”
Segundo, estaríamos completamente errados se concluíssemos,
com base nesta passagem, que Paulo era insensível às peculiaridades
culturais entre os diferentes grupos que evangelizava. Por isso, não
precisamos nos importar com essas minúcias. De fato, Paulo era admi-
ravelmente flexível. Isso pode ser demonstrado com clareza ao recor-
rermos ao livro de Atos e compararmos o sermão de Paulo em Antio-
quia da Psídia, em uma sinagoga judaica (At 13.13-41), com o seu ser-
mão no Areópago, em Atenas, em um ambiente completamente pagão
(At 17.16-31). E pode ser determinado com mais segurança se apelar-
mos aos escritos de Paulo em 1 Coríntios. Retornaremos a essa admi-
rável flexibilidade no último capítulo deste livro, no qual considerare-
mos mais atentamente algumas partes de 1 Coríntios 9. No momento,
basta insistirmos que, apesar da grande flexibilidade e da sensibilida-
de cultural de Paulo, elas não eram ilimitadas. Paulo traçava o limite
quando achava que o evangelho poderia estar em perigo. E pensava
claramente que o evangelho era colocado em perigo por qualquer tipo
de eloquência ou retórica que não reforçava a mensagem do Messias
crucificado. O discurso inteligente, habilidoso, divertido e brilhante
pode receber aplausos calorosos dos literatos, mas não se harmoniza
facilmente com o ódio da cruz. Paulo não o utilizaria de modo algum.
Nem tampouco os primeiros puritanos ingleses. Em uma época
em que os eruditos usavam o púlpito para expor seu grande conheci-
mento, os puritanos resolveram falar com simplicidade e ênfase que
visavam produzir o maior bem aos ouvintes. Seus sermões eram ela-
borados para beneficiar seus ouvintes com o evangelho eterno, e não
para ganhar o aplauso de outros pregadores eruditos. Quando Tho-
mas Goodwin foi à Universidade de Cambridge, em 1613, ele desejava
rivalizar com os melhores pregadores “espirituosos”, tais como o Dr.
Senhouse, do Saint John’s College. Mas, depois de sua conversão, Go-
odwin adotou o princípio puritano:

Cheguei a adotar o princípio de que eu pregaria de forma totalmente íntegra e sã,


com palavras sóbrias, sem qualquer ar de espirituosidade ou vaidade ou eloquência... e
tenho prosseguido nesse propósito e nessa prática por todos esses sessenta anos [Go-
odwin escrevia já no fim de sua vida]. Tenho pregado o que tenho julgado ser verdadei-
ramente edificante, visando levar meus ouvintes à conversão e à vida eterna.[6]

Creio que entendo isso com maior clareza quando ouço um cris-
tão egípcio com extraordinária habilidade de comunicação. O árabe é
uma língua que se transmite em dois níveis. Há um tipo de árabe po-
pular — ou, mais precisamente, há vários tipos de árabe popular, de-
pendendo da região — e um árabe “literário” e “culto”. Este pode ser
achado não somente em boa literatura árabe, mas também, sendo a
pessoa habilidosa, pode ser achado em suas mensagens orais. O cris-
tão egípcio ao qual me referi era um jornalista, lido amplamente tanto
por causa do tom de sua prosa como da qualidade de seu conteúdo.
Ele se sentiu chamado por Deus para o ministério cristão, abandonou
jornalismo e logo estabeleceu uma igreja enorme. Muitos dos que fre-
quentavam sua igreja faziam-no somente porque gostavam muito de
ouvir suas preleções.
Esse pregador se viu em dificuldades. Percebeu que as pessoas es-
tavam mais interessadas em sua maneira de falar do que em seu Sal-
vador. Depois de muito auto-exame, passou a usar um árabe mais co-
loquial. Seu raciocínio foi bem simples: seu propósito era transmitir a
mensagem da cruz, e chegou à conclusão de que sua retórica estava
sendo um impedimento. Esse homem entendeu o apóstolo Paulo.
O que nos impede?
Talvez eu fosse injurioso se tentasse elaborar uma lista de coisas
que podem ser impedimentos em nossa cultura, não porque ela difere
de uma região para outra, e sim porque está sempre mudando. Em
vez disso, considerar de modo breve os valores que Paulo (o prega-
dor) expôs seria uma atitude mais sábia e tolerante.
Anuncie o testemunho de Deus. Foi isso que Paulo fez. “Eu, irmãos,
quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho[7] de Deus,
não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria” (2.1). Já vi-
mos que Deus se agradou em salvar aqueles que creem “pela loucura
da pregação” (1.21), cujo foco é o conteúdo. Entretanto, Paulo escre-
veu sobre a “loucura da pregação”, e não sobre a “loucura do que era
discutido, comentado ou compartilhado”. Por isso, o conteúdo da
mensagem de Paulo, nesta passagem, é “o testemunho de Deus” (ou
seja, o que Deus fez em Cristo Jesus). Mas o que Paulo fez com essa
mensagem foi proclamá-la. Ele a anunciou.
Visto que “pregar” ou “anunciar” não está restrito a algo feito
atrás de um púlpito de madeira entre onze e doze horas da manhã nos
domingos, é difícil evitarmos a força desta ênfase sobre a proclamação
no Novo Testamento. A razão da ênfase está na própria mensagem.
Deus toma a iniciativa, e as boas-novas são anunciadas, são proclama-
das. Ele não está negociando, e sim anunciando e confrontando. Reali-
zada de modo correto, a pregação é a reapresentação do evangelho de
Deus, as boas-novas de Deus, pelas quais homens e mulheres chegam
a conhecê-Lo. Logo, a pregação é mediador do próprio Deus. Muitos
pregadores, temerosos de serem arrogantes, evitam falar sobre prega-
ção. Preferem pensar no que fazem chamando-o de “compartilhar”.
Em alguns contextos restritos, não há nada errado no “compartilhar”.
Todavia, algo importante se perde quando nunca falamos ou pensa-
mos em pregar ou anunciar. Essa é a nossa tarefa, nossa vocação. Não
é arrogante reapresentar tão vigorosamente quanto pudermos o evan-
gelho de Deus; ao fazermos isso, estamos apenas cumprindo fielmente
nosso dever. Além disso, se nos focalizarmos na proclamação podero-
sa do evangelho, seremos menos seduzidos, pelos gritos das sereias, a
abrandarmos a inegociabilidade inerente à pregação.
Focalize-se no Cristo crucificado. Foi isso que Paulo fez. “Porque de-
cidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado” (2.2).
Estas palavras não significam um novo desvio da parte de Paulo e,
menos ainda, que ele se dedicava a ignorar com prazer qualquer coisa
além da cruz. Não, estas palavras significam que o seu ensino e o seu
ministério estavam presos à cruz. Ele não podia falar sobre alegria
cristã, ética cristã, comunhão cristã, doutrina cristã ou qualquer outra
coisa sem vinculá-la à cruz. Paulo se focalizava no evangelho; sua vida
centralizava-se na cruz.
Isso é mais do que um compromisso com uma confissão de fé. Re-
vela as prioridades de Paulo, seu estilo de vida e, nesse contexto, seu
estilo de ministério. Se Paulo sustentava que Deus se revelara de
modo supremo na cruz e que seguir o Salvador crucificado e ressusci-
tado implicava morrer diariamente, então, adotar um estilo de minis-
tério triunfalista, planejado para impressionar e receber aplausos, é
uma atitude ridícula. Pelo fato de que Paulo decidira “nada saber... se-
não a Jesus Cristo e este crucificado”, ele podia formular seu procedi-
mento na retórica.
O que significa hoje decidir “nada saber... senão a Jesus Cristo e
este crucificado”? Em sentido mais restrito, que elementos de nosso
ministério precisam de revisão quando julgados por esse padrão? Este
compromisso deve moldar não somente a nossa mensagem, mas tam-
bém o nosso estilo.
Temos nos tornado tão direcionados por performance, que dificil-
mente percebemos como comprometemos o evangelho. Considere um
pequeno exemplo. Em muitas de nossas igrejas, as orações nos cultos
matinais servem, em grande medida, para mudar o ambiente no san-
tuário. As pessoas da congregação abaixam a cabeça, fecham os olhos
e, quando olham alguns minutos depois, veem os cantores nos seus
lugares ou o grupo de teatro pronto para a apresentação. Tudo aconte-
ce tão calmamente. Mas também é tão profano. Nominalmente, esta-
mos juntos em oração, dirigindo-nos ao Rei do céu, o soberano Se-
nhor. Na realidade, alguns de nós estamos fazendo isso, enquanto ou-
tros estão andando apressadamente na ponta dos dedos ao redor da
plataforma; e outros, com seus olhos fechados, estão ocupados se per-
guntando que novo e agradável cenário os confrontará, quando che-
gar o momento de uma olhada furtiva.
Uma performance agradável se tornou mais importante do que o
temor do Senhor? A excelência, um dos equivalentes modernos para a
retórica antiga, tomou o lugar do conteúdo? A competência profissio-
nal e a exibição primorosa se tornou mais importante do que a consi-
deração sóbria a respeito do que significa focalizar-se no Cristo cruci-
ficado?
Não tema a incapacidade, a fraqueza ou um senso de derrota. A verda-
de quanto a esse assunto é que tais experiências são frequentemente as
ocasiões em que Deus demonstra em grande medida o seu poder. En-
quanto as pessoas forem impressionadas por personalidade e dons ad-
miráveis, há poucas possibilidades de você impressioná-las com o Sal-
vador crucificado. Paulo confessou: “E foi em fraqueza, temor e gran-
de tremor que eu estive entre vós” (2.3). E isso foi tão verdadeiro que
ele necessitou de um encorajamento especial da parte de Deus (At
18.9-10). Paulo sabia que o poder de Deus é demonstrado mais gran-
demente em nossa fraqueza (2Co 12.1-10). Embora ele tenha sofrido
temores, doenças, fraquezas e um tremendo senso de ser vencido pela
enormidade da obra, ele não temeu o medo. A sua fraqueza não era
formada por focalizar-se na própria fraqueza. De modo algum! Ele
pôde escrever: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas
necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo.
Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10). Esse é o
testemunho de um homem que aprendeu a ministrar sob a cruz.
Evite resolutamente manipular as pessoas. Paulo escreveu: “A minha
palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva
de sabedoria” (2.4). Ele não estava dizendo que nunca tentara ser per-
suasivo. Em outra passagem, Paulo testemunhou: “Assim, conhecen-
do o temor do Senhor, persuadimos os homens” (2Co 5.11). Mas evita-
va a persuasão manipulativa; esquivava-se da pregação que induzia
ou comovia as pessoas por sua eloquência e não apresentava fielmente
o evangelho. É a verdade e o poder do evangelho que têm de mudar a
vida das pessoas, e não o glamour de nossa oratória ou o poder emoci-
onal de nossas histórias.
Anos atrás, falei em uma grande convenção de jovens na Austrá-
lia. Fiquei bastante impressionado quando o líder e organizador da-
quelas reuniões dirigiu-se às 300 ou 400 pessoas e aos líderes de gru-
pos e lhes disse que evitassem a manipulação. Assegurem-se de que
os jovens durmam bem, ele afirmou. Não queremos decisões apenas
porque eles estão tão cansados, que sua resistência está baixíssima.
Não coloquem essas pessoas em encruzilhadas emocionais que impe-
lem a decisões; tais decisões raramente são dignas de alguma coisa.
Não envergonhem essas pessoas nem as embaracem diante dos ou-
tros. Preguem o evangelho corretamente com sinceridade.
Esse líder estava apenas seguindo o conselho de Paulo. Estava
mais interessado na integridade da apresentação, que não podia ser
divorciada da integridade do evangelho, do que na pressão por esta-
tísticas impressionantes.
Reconheça que um ministério centrado na cruz se caracteriza pelo poder
do Espírito e se comprova em vidas transformadas. A mensagem de Paulo
era acompanhada de “demonstração do Espírito e de poder, para que
a vossa fé [a fé dos convertidos] não se apoiasse em sabedoria huma-
na, e sim no poder de Deus” (2.4-5).
Isso é o que precisamos: unção, a unção do Espírito, a demonstra-
ção do poder do Espírito. Onde esse poder está presente, as pessoas
não podem deixar de conhecê-lo, e a fé dos que se convertem a Cristo
está ancorada seguramente em Deus mesmo. Onde esse poder está au-
sente, nada pode compensar a perda, e a fé dos novos convertidos, em
certa medida, está presa a coisas erradas.
Mas Paulo disse mais a respeito do Espírito nos versículos seguin-
tes.

REFLEXÕES CONCLUSIVAS

A mensagem da cruz esmaga as grandes idolatrias do mundo


eclesiástico: nossa autopromoção interminável, nosso amor ao mero
profissionalismo e nosso vício por métodos bem definidos. Sem dúvi-
da, em algumas circunstâncias pode ser errado criticar qualquer des-
sas tendências. No entanto, consideradas juntas, elas formulam um
padrão de ministério que está tão distante da mensagem da cruz, do
demonstrável alcance da cruz e desta descrição neotestamentária do
pregador da cruz, que temos de confessar, com vergonha, que nos vol-
tamos aos ídolos e por isso arrepender-nos de nosso pecado.
A pregação bíblica enfatiza o evangelho e eleva constantemente
ao Cristo crucificado. Mas também reconhece que a cruz não é apenas
o nosso credo; é o padrão de nosso ministério.

PERGUNTAS PARA REVISÃO E MEDITAÇÃO

1. Por que os seres humanos acham a cruz de Jesus Cristo tão intragá-
vel?

2. Explique o que Paulo quis dizer quando usou a expressão “a loucu-


ra de Deus”?

3. Por que Deus salva frequentemente os ninguéns? Que significado a


sua resposta tem para você mesmo?

4. O que significa “gloriar-se no Senhor”? Você se gloria dessa manei-


ra?

5. Descreva em resumo o ponto de vista de Paulo sobre o que a prega-


ção deveria ser, de acordo com esta passagem.

[1] É claro que a própria NVI, em inglês, fala sobre a “loucura do que é pregado”, e não sobre
“a loucura do que é discutido ou compartilhado” ou algo semelhante. A importância da escolha
da linguagem, por parte de Paulo, será abordada adiante, neste capítulo, quando considerar-
mos 1 Coríntios 2.1-5.
[2] Messias e Cristo são equivalentes. Aquele procede de um contexto hebraico, e este, de um
contexto grego.
[3] “Oh, Fronte ensanguentada!”, Antigo hino latino, século XIV, HCC 130 (Rio de Janeiro: JU-
ERP, 1992).
[4] No grego, kata sarka, que significa, literalmente, “de acordo com a carne”.
[5] Algumas versões seguem a King James, que diz: “...Cristo Jesus, que se tornou para nós,
da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção” —, sugerindo haver quatro coisas
que, conforme esta passagem, Cristo se torna para nós. Mas tanto o grego como a lógica tor-
nam mais coerente a tradução da NVI — Cristo “se tornou sabedoria de Deus para nós”; em
seguida, a sabedoria é expandida em categorias bíblicas que distinguem-na da sabedoria do
mundo. Esta sabedoria significa nossa justiça, nossa santificação, nossa redenção.
[6] Thomas Goodwin, Works, ed. J. Miller (Londres: James Nichol, 1861), 2:l xivf. Citado em: J.
I. Packer, Entre os gigantes de Deus: uma visão puritana da vida cristã (São José dos Campos:
Editora Fiel, 1996), p. 80.
[7] Alguns manuscritos trazem a expressão “o mistério de Deus”, em vez da expressão (lite-
ral) “o testemunho a respeito de Deus”. A distinção é bem sutil no grego e faz pouca diferença
ao meu argumento nesta altura.
CA PÍ TU LO 2
A CRUZ E O ESPÍRITO SANTO
1 CORÍNTIOS 2.6-16

6Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria


deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; 7mas falamos a
sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternida-
de para a nossa glória; 8sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conhe-
ceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória; 9mas,
como está escrito:

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano
o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.

10Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscru-
ta, até mesmo as profundezas de Deus. 11Porque qual dos homens sabe as coisas do ho-
mem, senão o seu próprio espírito, que nele está? Assim, também as coisas de Deus, nin-
guém as conhece, senão o Espírito de Deus. 12Ora, nós não temos recebido o espírito do
mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi
dado gratuitamente. 13Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria
humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais.
14Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura;
e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 15Porém o homem es-
piritual julga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém.

16Pois quem conheceu a mente do Senhor, que o possa instruir? Nós, porém, temos a
mente de Cristo.

É irônico que uma passagem que deveria ensinar-nos a ser humil-


des tem sido usada por alguns para justificar uma incrível medida de
arrogância. Essas pessoas ecoam suas opiniões acerca de quem Deus é
e o que Ele está fazendo. E, se as desafiamos em qualquer ponto, elas
podem responder com as palavras de Paulo no versículo 12: “Não te-
mos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus,
para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”.
Várias vezes já me disseram que, por contraste, sou um daqueles que
Paulo descreve no versículo 14: “O homem natural não aceita as coisas
do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las,
porque elas se discernem espiritualmente”. Em outras palavras, se
você concorda com tais pessoas, é espiritual; se discorda, não é espiri-
tual. Pressione-os mais um pouco e lhes pergunte como sabem que
sua interpretação é a correta e que testes aceitam sobre a sua própria
autoridade; a resposta talvez seja dada, com suprema confiança, nas
palavras do versículo 15: “O homem espiritual julga todas as coisas,
mas ele mesmo não é julgado por ninguém”. Nos piores casos, isso
leva a autoritarismo flagrante — líderes egocêntricos que não prestam
contas a ninguém, exceto a si mesmos.
Quase que por reação, outros têm argumentado que esta passa-
gem não diz nada sobre a obra do Espírito em ajudar as pessoas a en-
tenderem a verdade, mas somente acerca do Espírito ajudando as pes-
soas a aplicarem a verdade a si mesmas. Se a interpretação bíblica é
mantida refém de algum tipo de experiência mística, eles dizem, e ex-
cluída do âmbito das palavras, da história, da gramática e da exegese,
não há um ponto de parada lógico. E, no final do dia, estamos presos
ao subjetivismo, cada um reivindicando que sua opinião foi ensinada
pelo Espírito Santo. A interpretação bíblica tem de estar por aí, no
mercado das ideias; e os intérpretes bíblicos ateístas também podem
estar corretos, da mesma forma que, frequentemente, os fiéis, os intér-
pretes crentes. O que acontece é que, sem o Espírito, eles são incapazes
de aplicar a si mesmos o texto que interpretam corretamente. É claro
que isso parece uma maravilhosa defesa da objetividade da verdade.
Mas alguém poderia achar que esse não é o entendimento óbvio dos
versículos 12 a 16.
De fato, desde a Reforma, esses versículos têm sido usados para
justificar primariamente uma proposição bem diferente. Neste caso, o
ensino tem sido o de que “o homem natural” (2.14) se refere àqueles
que estão profundamente mortos, e, por isso, é tolice pensar que cer-
tos argumentos podem trazê-los à fé. As “coisas do Espírito” são “lou-
cura” para essas pessoas, que não podem “entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente”. Em outras palavras, o Espírito Santo tem
de realizar uma obra antecedente no coração e mente dessas pessoas,
para que elas creiam. Sem essa obra, as verdades do evangelho sem-
pre parecerão estranhas para nós.
Essa interpretação é a mais próxima do assunto desta passagem,
porém é importante colocarmos o capítulo em seu contexto. Se deve-
mos entender com lógica esta passagem e descobrir como a cruz de
Cristo é um tema dominante, temos de fazer duas coisas.
Em primeiro lugar, temos de assimilar com determinação o fato
de que esta passagem é uma continuação do argumento iniciado em
1.18. Conforme vimos, a última metade do capítulo 1 exalta “a palavra
da cruz” (1.18) em contraste com a “sabedoria” do mundo. Quando
Paulo falou a respeito de suas próprias prioridades como pregador
(2.1-5), ele ainda pensava na mensagem da cruz. O conteúdo de sua
“mensagem” e sua “pregação” não eram “linguagem persuasiva de
sabedoria”, e sim “Jesus Cristo e este crucificado” (2.2). Portanto,
quando Paulo prossegue e insiste que sua mensagem era uma mensa-
gem de “sabedoria” (2.6), não devemos pensar que ele havia mudado
para uma nova mensagem. Não, ele ainda falava sobre o que significa-
va a afirmação “os poderosos deste século” crucificaram “o Senhor da
glória” (2.8). Em outras palavras, Paulo não estava introduzindo outro
assunto, um novo discurso de sabedoria esotérica. Ele ainda estava fo-
calizado na mensagem da cruz — e não entenderemos este capítulo, se
não tivermos isso em mente.
Segundo, temos de observar que o argumento nestes versículos é
estabelecido amplamente em termos de três contrastes predominan-
tes. Esses contrastes se sobrepõem um pouco e precisam ser entendi-
dos corretamente.

Primeiro contraste: aqueles que recebem a sabedoria de Deus e aqueles


que não a recebem (2.6-10a)

Paulo já havia mostrado (1.18-25) que a mensagem do Messias


crucificado, que o mundo julgava loucura, é realmente a mais sublime
demonstração da sabedoria de Deus. Para alguns, a cruz é uma men-
sagem de fraqueza e loucura, mas para os que creem em Cristo essa
mensagem é “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1.24). Nesta altu-
ra, Paulo queria desenvolver um pouco mais aquilo que, nesta sabedo-
ria, torna-a impossível de ser reconhecida pelas pessoas, em especial
quando elas mesmas têm buscado ostensivamente a sabedoria de
Deus.
Paulo começa estabelecendo o contraste. Ele acabara de explicar
sua própria resolução de evitar a retórica manipuladora, a eloquência,
mas não quis aventurar-se a dar a impressão de que a mensagem da
cruz é “loucura” em todos os sentidos: “Entretanto, expomos sabedo-
ria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século,
nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada” (2.6). A
única palavra neste versículo que tem desencadeado discussão inter-
minável é a palavra experimentados, às vezes traduzida como “perfei-
tos”. Com muita frequência, essa palavra está conectada a um subcon-
junto de todos os verdadeiros crentes, ou seja, os crentes “experimen-
tados”. Em outras palavras, entendida dessa maneira, ela nos apresen-
ta implicitamente uma distinção na comunidade de cristãos: há cren-
tes experimentados; há crentes não experimentados — um ensino que
Paulo apresenta no início do capítulo 3, conforme veremos.
Mas essa interpretação não se enquadra nesta passagem. O vocá-
bulo “experimentados”, neste contexto, deve se referir a todos os cris-
tãos, que amam a mensagem da cruz, em contraste com o mundo, que
a rejeita. Por que Paulo escolheu esta palavra — experimentados — para
descrever todos os cristãos neste contexto? Ele não podia ter imagina-
do que ela conduziria a todos os tipos de interpretação errônea?
É quase certo que Paulo a escolheu por que os coríntios amavam-
na — e amavam aplicá-la a si mesmos. Pensavam de si mesmos como
“experimentados” e, sem sugerirem que Paulo não era um verdadeiro
cristão, pensavam que ele e sua mensagem eram inexperientes. No ca-
pítulo seguinte, Paulo achou necessário dizer-lhes que, na igreja cristã,
eles eram os não-experimentados (3.1-4). Mas, antes de chegar lá, Pau-
lo tinha de desafiar a classificação fundamental deles. Todos os cris-
tãos são “experimentados” no sentido de que estão em harmonia com
a mensagem da cruz, enquanto todos os outros, por definição, não es-
tão. A mensagem de Cristo crucificado é única linha divisora na raça
humana.
O argumento de Paulo é claro. Assim como a nossa “mensagem
de sabedoria” não é “a sabedoria deste século” (2.6), assim também
aqueles que aceitam a mensagem da sabedoria de Deus não perten-
cem a este século. De fato, “a sabedoria deste século”, embora seja ex-
posta pelos poderosos desta época, permanece sem valor eterno. Os
poderosos “se reduzem a nada” (2.6). Por que os cristãos deveriam se
apaixonar pelos heróis que ganham os aplausos efêmeros de um mun-
do decadente e, sob uma perspectiva eterna, não têm qualquer impor-
tância? Isso recorda aos leitores aquilo que o salmista descreve: não
somente o perverso desaparecerá, mas também “o caminho dos ímpi-
os perecerá” (Sl 1.6).
A expressão “os poderosos desta época” não é uma referência aos
demônios ou mesmo aos líderes políticos, e sim àqueles que regem a
aparência e os valores de qualquer época — o “sábio”, o “escriba” e o
“inquiridor”, citados em 1.20, e os “sábios”, os “poderosos” e os “de
nobre nascimento”, citados em 1.26. Eles são os melhores que o mun-
do pode apresentar, mas se opõem à mensagem da cruz. Por que, en-
tão, deveríamos nos colocar ao lado deles no que diz respeito ao que é
importante?
A sabedoria deles não tem valor decisivo. Não é o que nós procla-
mamos. “Não”, escreveu Paulo, enfatizando a diferença entre os “po-
derosos” e aquilo que o cristão valoriza, “mas falamos a sabedoria de
Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a
eternidade para a nossa glória” (2.7). Essa “sabedoria”, a sabedoria da
cruz, é caracterizada por três coisas:
Primeira, a sabedoria é, literalmente, a sabedoria “em mistério”. É
a sabedoria que esteve oculta por muito tempo, mas agora foi revela-
da. Esse é o significado predominante do vocábulo mistério no Novo
Testamento. Isso mostra que Paulo considerava a mensagem da cruz
como algo que estivera oculto no passado, mas fora revelada em sua
época.
Precisamos considerar mais atentamente isso. Os escritores do
Novo Testamento disseram constantemente que a vinda de Jesus Cris-
to e das boas-novas que Ele trouxe haviam sido profetizadas nas Escri-
turas antigas. Nesta e noutras passagens, Paulo (e outros escritores do
Novo Testamento) argumentou que a vinda de Jesus Cristo e de suas
boas-novas estava oculta no passado, mas foi revelada. Como se pode
dizer que, por um lado, o evangelho havia sido profetizado e agora
cumprido; e, por outro lado, estivera oculto e fora revelado agora?
Essa é uma pergunta difícil, e alguns dos assuntos mais debatidos
na história da igreja estão vinculados a ela. Não posso explicar essas
coisas aqui. Mas observo que, em uma passagem notável, Paulo ousou
apresentar esses dois temas juntos. E, no final de Romanos, ele escre-
veu:

Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a prega-
ção de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos,
e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segun-
do o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações, ao
Deus único e sábio seja dada glória, por meio de Jesus Cristo, pelos séculos dos séculos.
Amém! [Rm 16.25-27 — ênfase acrescentada].

Isso é admirável. De uma só vez e ao mesmo tempo, Paulo disse


que o evangelho esteve “guardado em silêncio nos tempos eternos”,
mas agora se tornou manifesto e conhecido por meio da revelação das
Escrituras proféticas! Então, o evangelho está oculto ou não?[8] Se ele
esteve oculto, como se tornou conhecido por meio das Escrituras? Se o
evangelho é revelado por meio das Escrituras, como podemos dizer
que esteve oculto, visto que o Antigo Testamento sempre existiu entre
os judeus, por muito tempo?
Creio que o argumento de Paulo é este: apenas crer no Antigo
Testamento não é suficiente. Afinal de contas, até que se tornasse um
cristão, ele mesmo cria fervorosamente no que hoje chamamos de An-
tigo Testamento — mas isso não lhe garantiu achar ali a mensagem do
Messias crucificado. Foi somente quando ele se encontrou com o Jesus
ressuscitado, na estrada para Damasco, que foi compelido a reexami-
nar toda a estrutura de suas crenças. E passou a entender o Antigo
Testamento com nova percepção. Descrevi brevemente um pouco des-
se entendimento de Paulo no primeiro capítulo deste livro.
A verdade é que muito do Antigo Testamento aponta para Jesus,
tanto em profecia como em termos ocultos — em tipos, sombras e es-
truturas de pensamento. O sistema de sacrifícios prepara o caminho
para o supremo sacrifício. O ofício do sumo sacerdote antecipa o su-
premo intermediário entre Deus e os homens pecadores, o homem Je-
sus Cristo. A Páscoa revela a ira de Deus e provê uma figura do últi-
mo Cordeiro pascal cujo sangue desvia aquela ira. O anúncio da nova
aliança (Jr 31) e de um novo sacerdócio (Sl 110) pronuncia, em princí-
pio, a obsolescência da aliança e do sacerdócio antigos.
Hipoteticamente, se houvesse pessoas perfeitas capazes de obser-
var o que estava acontecendo, pessoas que tivessem um coração ima-
culado para Deus, elas poderiam ter cumprido muito bem os padrões
e entendido o plano. Todavia, o mundo tem sido habitado por peca-
dores, desde a Queda, e as Escrituras do Antigo Testamento, outorga-
das por Deus, foram constantemente, em certa medida, mal com-
preendidas. E o fato de que essa má compreensão era um erro huma-
no foi pressuposto por Jesus mesmo, quando Ele repreendeu seus se-
guidores, dizendo: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o
que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo pa-
decesse e entrasse na sua glória?” (Lc 24.25-26).
No entanto, ao mesmo tempo, essas coisas tinham de ser oculta-
das. Se todas as profecias a respeito de Jesus fossem bastante claras,
absolutamente específicas e inequívocas, alguém não poderia imagi-
nar como o Sinédrio, Pôncio Pilatos e Herodes erraram tão radical-
mente no que fizeram. De fato, eles mesmos teriam entendido. Contu-
do, Paulo diz empiricamente que nenhum deles entendeu: “Sabedoria
essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a
tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória”
(2.8). Assim, o plano sábio de Deus era usar seres humanos ímpios
para cumprir seus propósitos de redenção. Foi a sua graça e sabedoria
inigualáveis que proveram revelação suficientemente clara para que
os acontecimentos para os quais ela apontava fossem entendidos de-
pois de consumados; bem como revelação suficientemente ocultada
para que pecadores rebeldes interpretassem-na de modo errado e es-
truturassem-na de maneiras incorretas.
Portanto, a mensagem de “sabedoria”, a mensagem da cruz que
proclamamos é “a sabedoria de Deus em mistério”, uma sabedoria
que esteve oculta, em grande medida, por muito tempo, até que o
Messias fosse crucificado.
Segunda, essa sabedoria sempre foi o plano de Deus, que a desti-
nou “desde a eternidade para a nossa glória” (2.7). Paulo não desejava
que algum de seus leitores pensasse que a manifestação presente des-
sa sabedoria, oculta no passado, identificava-a como uma nova ideia,
uma mudança recente nos pensamentos de Deus. Não, de maneira al-
guma. Na mente de Deus, essa sabedoria se estendia à “eternidade”.
Foi Deus mesmo quem decidiu trazê-la agora à plena revelação; em
poucas palavras, Ele a “preordenou desde a eternidade para a nossa
glória”.
Esse é um pensamento maravilhoso, abordado pelos outros auto-
res do Novo Testamento. Pedro disse que foi revelado aos escritores
do Antigo Testamento “que, não para si mesmos, mas para vós outros,
ministravam as coisas que, agora, vos foram anunciadas por aqueles
que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram o evangelho”
(1Pe 1.12). Jesus Cristo foi “conhecido, com efeito, antes da fundação
do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós”
(1Pe 1.20). Em um nível, até algumas das lições morais obtidas dos
tristes relatos do fracasso e defeitos humanos, na antiga aliança, con-
tribuem para o nosso bem — “Estas coisas lhes sobrevieram como
exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre
quem os fins dos séculos têm chegado” (1Co 10.11). Os grandes heróis
da fé, na antiga aliança, não receberam eles mesmos o que fora prome-
tido, “por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para
que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb 11.40).
Implicitamente, é claro que isso significa que os cristãos de Corin-
to estavam cometendo a mais admirável tolice por adotarem as posi-
ções expostas pelas autoridades mais apreciadas de uma cultura que
não conhecia a Deus. Deus determinou propositadamente trazer seu
plano de redenção à consumação na vida de todos os que creem e per-
manecem ao lado da cruz. Então, por que eles deveriam menosprezar
essa herança incomparável do Deus todo-poderoso, por se tornarem
apaixonados pelas ilusões efêmeras daqueles que negam a cruz e são
formadores de opinião, os quais pertencem a uma época que está de-
saparecendo? Isso é tão irônico e trágico.
De fato, a ironia começa com a morte brutal de Jesus. As autorida-
des que crucificaram Jesus estavam, de certo modo inconscientemente,
realizando os propósitos de Deus. Como o disseram os primeiros cris-
tãos, em sua oração: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta ci-
dade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio
Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua
mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27-28). As autoridades
achavam que estavam destruindo um pretenso messias. De fato, esta-
vam executando ilegal e imoralmente “o Senhor da glória”. Achavam
que eram tão sábios, tão politicamente astutos; na verdade, por meio
de sua tolice realizaram, conforme a perfeita providência divina, o
plano sábio de Deus — aquele plano que eles rejeitaram como loucu-
ra. Graça admirável: nos sábios propósitos de Deus, eles mataram o
Senhor da vida.
Paulo conclui seu argumento citando as Escrituras, num aparente
amálgama de Isaías 64.4 e 65.17, conforme o texto grego do Antigo
Testamento que ele usou — “Nem olhos viram, nem ouvidos ouvi-
ram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem prepa-
rado para aqueles que o amam” (2.9). É claro que não, pois naquele
tempo o plano sábio de Deus ainda estava “oculto”, ainda era um
“mistério” — estava amplamente escondido. “Mas”,[9] agora, “Deus
no-lo revelou” (2.10).
Embora essas palavras sejam frequentemente citadas em funerais
para referirem-se à glória que espera o crente depois da morte (o que
é, com certeza, um bom pensamento), Paulo usou essas palavras para
se referir ao que estava oculto no passado, mas fora revelado aos cren-
tes.
Descobrimos mais uma vez quão impiamente medíocre é a atitu-
de de honrar com nossa lealdade os cativantes formadores de opinião
de nossos dias, se não têm qualquer entendimento da cruz. Recebe-
mos o formidável privilégio de beneficiar-nos do infinitamente sábio
plano divino de redenção. Venderemos essa herança maravilhosa por
algo ilusório e sem valor?
Não há espiritualidade profunda e estável que não reconheça que
conhecer a Deus e estar reconciliado com Ele, por meio do Messias
crucificado, é um privilégio sobremodo profundo.
No entanto, há um terceiro elemento que caracteriza a sabedoria
de Deus. Paulo se referiu muito pouco a esse elemento, que se avulta
em sua apresentação e se torna o foco do segundo contraste. É este:
embora Deus tenha trazido o seu plano extremamente sábio à fruição
no evangelho do Messias crucificado, as pessoas ainda não creem.
Ainda não percebem que o plano de Deus é sábio. Se nós os “experi-
mentados” chegamos a assimilar o evangelho, isso acontece porque
“Deus no-lo revelou pelo Espírito” (2.10).
Em outras palavras, houve um ato público de auto-revelação de
Deus na crucificação de seu próprio Filho, mas tem de haver uma obra
particular de Deus, por meio de seu Espírito, na mente e coração do
homem. Isso é o que distingue o crente do não-crente, os “experimen-
tados” das pessoas deste século e dos poderosos desta época. Se ve-
mos a verdade do evangelho, isso não se deve à nossa percepção, nem
ao nosso brilhantismo. Isso é obra do Espírito Santo. Se devemos ex-
pressar gratidão incondicional a Deus pelo dom de seu Filho, também
devemos expressá-la pelo dom do Espírito, que nos capacita a com-
preender o evangelho de seu filho.
E isso nos traz ao segundo contraste.

Segundo contraste: o Espírito de Deus e o


espírito do mundo (2.10b-13)

Já aprendemos que aqueles que recebem a sabedoria de Deus, a


mensagem da cruz, são distinguidos “deste século” pelo Espírito de
Deus, que lhes revela essa sabedoria. Mas, por que essa ajuda de fora
seria necessária? “Conhecimento é conhecimento”, alguém poderia
afirmar. “Se Deus se revelou em acontecimentos genuínos na história,
por que Ele deveria ainda ser tão inacessível para algumas pessoas?
Apesar de tudo que dizem, os cristãos não estão fazendo um apelo a
um tipo de conhecimento esotérico e instável que ninguém pode des-
frutar?”
Observe, porém, como a pergunta foi apresentada. Foi expressa
tão-somente em termos de conhecimento empírico — como o tipo de
conhecimento que se baseia nos experimentos respeitáveis de labora-
tório de química. Mas todos somos intuitivamente cônscios de outras
dimensões de “conhecimento”. Por exemplo, nossa observação de um
acontecimento histórico concreto, no qual estávamos presentes, ou
nosso conhecimento de pessoas ou de um indivíduo em particular
está vinculado a um tipo de experiência pessoal que não é estritamen-
te repetível. Quão mais difícil é entendermos exatamente o que signifi-
ca conhecer a Deus, um Ser de ordem diferente dos relacionamentos
horizontais que nos ocupam costumeiramente!
Acrescente mais um fator: o problema é não somente que Deus é
muito maior do que nós, mas também que somos tão rebeldes, que
distorcemos a maior parte da informação que Ele nos proveu graciosa-
mente a respeito de Si mesmo. Se estamos profundamente infectados
com o “espírito do mundo” (v. 12), se a “sabedoria humana” (v. 13) é
aquilo de que dependemos regularmente, temos de reconhecer, com
vergonha, que em 1 Coríntios 1-2 Paulo não nos dá uma estimativa
elevada dessas vantagens.
O ensino de Paulo é que a possibilidade de conhecer a Deus e de
entender seus caminhos não pertence a qualquer ser humano como
um componente essencial de seu ser. A distância é muito grande; nos-
so egocentrismo é muito profundo. E nada na “sabedoria deste sécu-
lo” (v. 6) pode ajudar-nos.

A sabedoria própria desta época é... aquela que surge e está caracterizada por rebeli-
ão contra Deus; representa (embora pareça esplêndida e espiritual — ou científica) a cria-
tura tentando garantir sua posição contra o Criador; em resumo, essa sabedoria (no que
diz respeito ao homem) é antropocêntrica.[10]

A revelação se torna necessária. O agente que a produz em nós é


o Espírito Santo.
Entre os seres capazes de conhecimento — humanos, anjos, Deus
—, há barreiras elevadas que impedem um ser de entender completa-
mente o que o outro está pensando. Não importa se eu conheço bem a
você, nunca saberei quais são todos os seus pensamentos. Não impor-
ta quão bem você me conhece, nunca saberá tudo a meu respeito.
Quanto menos entenderemos os pensamentos do anjo Gabriel, quan-
do, por assim dizer, ele falou a Maria (Lc 1.26-38). Contudo, o único
ser conhecível que sabe todos os pensamentos, até os pensamentos de
Deus, é o próprio Deus. Ou, afirmando-o de outra maneira: “O Espíri-
to a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus”
(2.10b).
É claro que a palavra espírito é flexível na Bíblia. Ela pode ser usa-
da para se referir ao interior de um ser humano, ao “homem interior”,
sendo quase idêntica à palavra mente. Assim, quando Paulo pergun-
tou: “Qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o seu próprio
espírito, que nele está?” (2.11), ele pretendia dizer que os pensamentos
de cada ser humano estão, em grande medida, velados para os demais
seres humanos. Somente a própria pessoa sabe o que ela mesma está
pensando. De fato, esta é uma limitação humana: “Qual dos homens
sabe” os pensamentos de outrem? Deus não conhece qualquer limita-
ção quando examina os nossos pensamentos. Nós enfrentamos essa li-
mitação, quando tentamos discernir os pensamentos de outra pessoa,
exceto os nossos próprios. Usando a mesma linguagem de “espírito”
Paulo reforça o seu argumento: “Assim, também as coisas de Deus,
ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (2.11). Isso significa
que, se temos de entender a Deus, pensar os seus pensamentos, à sua
maneira, e conhecê-lo verdadeiramente, temos de receber o Espírito
de Deus. Não podemos achá-Lo por nós mesmos.
No entanto, nós já recebemos o Espírito de Deus; isso é que nos
torna cristãos. “Nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o
Espírito que vem de Deus” (2.12), e o propósito desse dom é “que co-
nheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”. Agora vemos,
com clareza, as duas dimensões primárias da revelação. A primeira
ocorre no cenário público. As palavras “o que por Deus nos foi dado
gratuitamente” referem-se à cruz do Messias e tudo que Ele realizou
por nós. Recebemos essas coisas da incomparável graça de Deus. Ele
deu “gratuitamente” essas coisas a seu povo. A cruz realiza a reden-
ção do povo de Deus; também manifesta a sua insondável sabedoria,
mostrando publicamente um plano que esteve misericordiosamente
oculto nas eras passadas.
O fato triste, porém, é que, apesar dessa revelação, não queríamos
entender o que Deus nos outorgou gratuitamente. Esse entendimento
depende de uma segunda dimensão de revelação, uma dimensão que
acontece na pessoa. Sem essa dimensão, ninguém jamais teria entendi-
do o que Deus revelou a respeito de Si mesmo e de sua sabedoria no
cenário público. Nossa ignorância, nosso egocentrismo profundo, nos-
so amor à ostentação, ao poder e ao prestígio não nos permitiam en-
tender a cruz ou o quanto necessitávamos dela. Em poucas palavras,
nossa condição de criaturas perdidas exigia a obra do Espírito de
Deus, a fim de que entendêssemos “o que por Deus nos foi dado gra-
tuitamente” (2.12).
Que grande Deus nós temos! Ele não somente nos redimiu por
meio da ignominiosa crucificação de seu Filho amado, mas também
nos enviou seu Espírito para nos capacitar a entender o que Ele fez.
Éramos tão insensatos e cegos, que nem mesmo queríamos começar a
compreender “o que por Deus nos foi dado gratuitamente”, se Deus
não tivesse dado esse passo adicional.
Mas foi o mesmo Espírito que impulsionou Paulo a pregar a men-
sagem da maneira como ele o fez. Paulo escreveu sobre essa mensa-
gem: “Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedo-
ria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais
com espirituais” (2.13). O texto grego desta última sentença é difícil,
[11] mas a tradução “expressando verdades espirituais em palavras es-

pirituais” provavelmente é a correta. O que isso significa? Certamente


significa algo assim: em seu ministério, Paulo, impulsionado pelo Es-
pírito, explicava as coisas espirituais (a mensagem da cruz, incutida
pelo Espírito nas pessoas, v. 12) em palavras espirituais — ou seja, em
palavras apropriadas à natureza da mensagem. Em outras palavras,
Paulo insistiu que foi o próprio Espírito Santo quem o ensinou a evitar
a “sabedoria de palavra”, que esvazia a cruz de seu poder (1.17), e
quem o levou a abster-se do tipo de pregação retórica e imaginativa
caracterizada por “linguagem persuasiva de sabedoria” (2.1-5).
Acima de tudo, Paulo se focalizava na mensagem da cruz. O espí-
rito do mundo não pode achar sentido para a cruz; o Espírito de Deus
capacita aqueles que O têm a entender a cruz. Esse mesmo Espírito
impulsiona os homens espirituais, como Paulo, a pregá-la e a ensiná-la
de modo apropriado. Eles evitarão resolutamente toda exibição osten-
tosa, abandonarão toda manipulação barata e se sentirão felizes em
sustentar o escândalo da cruz, pois a cruz foi o instrumento de sua re-
denção. Eles ficarão atentos quanto a uma pregação evangélica que
fala muito sobre Deus satisfazendo nossas necessidades e capacitan-
do-nos a sentir-nos satisfeitos, se tal pregação não estiver apoiada na
mensagem da cruz. Desejarão usar uma linguagem clara, transparen-
te, poderosa, verdadeira, sincera, compassiva, cativante, centrada na
cruz — uma linguagem “espiritual” apropriada à mensagem espiritu-
al que estão transmitindo. Eles reconhecem que o Espírito de Deus,
que abriu os seus olhos para aceitar a cruz, também os ensina a procla-
mar a “Cristo crucificado” de um modo que se conforma com a humi-
lhante imensidão da mensagem.

Terceiro contraste: o homem natural e o


homem espiritual (2.14-16)

Alguém talvez ache que Paulo falou demais ao abordar esses con-
trastes fundamentais. Ele contrastou aqueles que recebem a sabedoria
de Deus com aqueles que não a recebem (2.6-10a), ele contrastou o Es-
pírito de Deus com o Espírito do mundo (2.10b-13). Por que esse passo
adicional? Não seria redundante?
Paulo queria ter certeza de que seus leitores assimilariam a sua
completa dependência do Espírito Santo, pois nenhuma outra coisa
humilharia tanto as suas intermináveis pretensões de grandeza, todo o
espírito de divisão, o egocentrismo e a falta de amor que acompanha
de perto a bajulação. Essa foi a razão por que o apóstolo deu esse pas-
so adicional.
Paulo contrastou o “homem natural” (v. 14) com o “homem espi-
ritual” (v. 15). Ao terminarmos de considerar esse contraste exposto
por Paulo, perceberemos com clareza por que devemos ter o Espírito
Santo, se buscamos achar sentido no evangelho. Paulo disse duas coi-
sas a respeito daqueles que não têm o Espírito, as pessoas naturais.
Primeiramente, ele insistiu que tais pessoas não aceitam “as coi-
sas do Espírito de Deus” por uma única razão: tais coisas lhes “são
loucura”. Neste ponto, Paulo não estava enfatizando que todos os se-
res humanos que não têm o Espírito são incapazes de receber as coisas
espirituais (embora isso seja exatamente o que ele diria em seguida), e
sim que empiricamente eles fazem isso. E como eles podem fazer tal
coisa? Ninguém deseja aceitar aquilo que julga ser loucura. O que eles
consideram loucura, no contexto de 1 Coríntios 1 e 2, é a mensagem de
Cristo crucificado, a “loucura da pregação” que salva os que creem
(1.21). Essas verdades maravilhosas, redentoras e transformadoras de
vidas, procedentes do Espírito Santo, são rejeitadas como tolice, pois
estão relacionadas com um Messias que não se enquadra facilmente
nas inclinações triunfalistas de seres humanos autônomos. Essa é a
conclusão de 1 Coríntios 1.18-25 e 2.10b-13.
Em segundo, Paulo insistiu que os seres humanos não podem
“entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (2.14, ênfase
acrescentada). Essa é a verdade que complementa o versículo 12. Ali,
aprendemos que o Espírito nos foi dado (isto é, dado aos crentes),
“para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente”.
Neste versículo, Paulo excluiu a possibilidade de que alguém possa
entender as coisas espirituais sem a ajuda do Espírito. O foco é a nossa
completa incapacidade.
Lembro-me de haver dado uma cópia do livro Cristianismo Básico,
de John Stott, a uma brilhante aluna de graduação na Universidade de
Cambridge, vinte anos atrás. Alguns meses depois entrei em contato
com ela, para saber o que fizera com o livro. Ela disse que lera todo o
livro e se mostrara tão desconfiada, que examinou realmente muitas
das referências bíblicas, para assegurar-se que o autor não estava ten-
tando incutir-lhe algo sorrateiramente. Ela chegara a uma conclusão: o
cristianismo era ótimo para pessoas boas, mas não para ela.
Isso não é admirável? Como uma brilhante aluna de graduação
compreendia tão erroneamente o que Stott estava falando? De algum
modo, nada do que ele dissera se harmonizava para ela. As coisas de
Deus permaneciam como loucura para ela, porque são discernidas es-
piritualmente.
É claro que muitas vezes Deus usa meios diferentes e demorados
para produzir entendimento. Eu e outros conversamos com ela pro-
fundamente sobre o evangelho, e, no devido tempo, ela se tornou cris-
tã. Todavia, já conversei com muitos que não se tornaram cristãos.
Qual é o fator de distinção entre aqueles com os quais conversei e se
tornaram cristãos, como essa moça, e aqueles com os quais conversei,
mas permaneceram incrédulos? A distinção crucial é o dom do Espíri-
to Santo. Vários obreiros cristãos podem fazer o seu melhor, porém,
usando a analogia que Paulo emprega no capítulo seguinte, Paulo
planta a semente, e Apolo rega-a, mas somente Deus pode fazer a
planta crescer e produzir fruto (3.7).
O que temos de lembrar sempre é que essa incapacidade humana
de entender as coisas espirituais é uma incapacidade digna de culpa.
Deus não nos criou com uma constituição incapaz de entendê-Lo, nem
brinca conosco para obter divertimento. Pelo contrário, Ele nos fez
para Si mesmo, mas fugimos dEle. O âmago de nosso estado de perdi-
ção é a profunda focalização em nós mesmos. Não queremos conhecer
a Deus, se esse conhecimento tem de ocorrer nos termos dEle. Ficamos
felizes em ter uma divindade que podemos manipular. Não queremos
um Deus perante o qual temos de admitir que somos rebeldes de cora-
ção e mente, que não merecemos o seu favor e que nossa única espe-
rança é a sua graça perdoadora e transformadora. Certamente, não po-
demos sondar um Criador poderoso que toma o lugar de um crimino-
so detestável, para salvar-nos do julgamento que merecemos.
Ou, mais precisamente, não podemos sondar essas coisas, a me-
nos que tenhamos o Espírito de Deus. Isso é o que significa, neste con-
texto, ser um “homem espiritual” (v. 15). O homem espiritual é o ho-
mem que tem o Espírito de Deus. O Espírito descortina percepções de
entendimento que, de outro modo, permaneceriam opacas para nós.
“O homem espiritual [isto é, a pessoa que tem o Espírito] julga todas
as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (2.15).
Infelizmente, esse versículo tem sido removido de seu contexto
para justificar a mais terrível arrogância. Algumas pessoas acham-se
especialmente espirituais e cheias de discernimento; pensam que esse
versículo as autoriza, a elite dos eleitos, a fazer julgamentos infalíveis
em um grande espectro de assuntos. Além disso, elas insistem que são
tão espirituais, que os outros não têm o direito de julgá-las. Afinal de
contas, o apóstolo não disse que o “homem espiritual... não é julgado
por ninguém”?
Isso não corresponde à verdade. No contexto, o “homem espiritu-
al” é a pessoa que tem o Espírito Santo, em contraste com o homem
que não tem o Espírito. Em poucas palavras, o “homem espiritual” é o
cristão, e não o membro de uma elite de cristãos. Quando Paulo disse
que “o homem espiritual julga todas as coisas”, neste contexto, ele não
estava significando todas as coisas em sentido pleno — como se a pes-
soa espiritual, o cristão, seja especificamente equipado para julgar as
evidências científicas em favor de um quark específico ou maravilho-
samente preparado para avaliar a mais recente técnica do uso de corti-
sona para aliviar a bursite.
As distinções do contexto têm de prevalecer. Como alguém disse:
“A pessoa profana não pode entender a santidade; mas a pessoa santa
pode entender as profundezas do mal”. Aqueles que são habitados
pelo Espírito de Deus podem discernir todas as coisas, incluindo as
pessoas que não têm o Espírito; mas o inverso não é possível”.[12] Em
poucas palavras, quando Paulo disse: “O homem espiritual julga todas
as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém” (2.15, ênfase
acrescentada), “todas as coisas” inclui o âmbito da experiência moral e
espiritual, desde o paganismo mais rude até ao que significa ser um
verdadeiro cristão. O cristão vive em ambos os mundos e pode falar
sobre ambos, com base na experiência, na observação e numa com-
preensão genuína da Palavra de Deus. Mas a pessoa que não tem o Es-
pírito de Deus não pode julgar as coisas do âmbito espiritual — assim
como um daltônico não pode fazer distinções precisas sobre os tons
maravilhosos das cores de um pôr-do-sol ou de um arco-íris, ou como
um surdo não tem capacidade de comentar a harmonia da Quinta Sin-
fonia, de Beethoven, ou a voz e a técnica de Pavarotti.
É importante pensar sobre as implicações deste versículo. Na so-
ciedade ocidental contemporânea, os cristãos estão constantemente
sendo chamados de ignorantes e incapazes de entender o mundo real.
Paulo disse o contrário: os cristãos são capazes, como os outros peca-
dores, de entender a complexa e emaranhada natureza do pecado, de
compreender as maneiras como raciocinam os “pretensiosos” seres
humanos autônomos e de explicar o que é o mundo para os pagãos
modernos em nossa era pós-moderna. Mas, devido ao fato de que re-
ceberam o Espírito de Deus, também são capazes de dizer algo pru-
dente e verdadeiro a respeito de como é o mundo aos olhos de Deus.
Podem falar sobre a beleza da santidade, o plano divino de redenção e
reconciliação, o julgamento por vir e a natureza da nossa condição de-
sesperadora. Em resumo, eles podem falar sobre o Cristo crucificado.
Podem falar com ardor e compromisso, com base na experiência puri-
ficadora de haverem sido perdoados por meio da morte de Outrem,
que em amor se ofereceu em benefício de um rebelde. Eles podem ex-
plicar quão grande diferença isso faz quando pensam sobre o futuro e
planejam suas prioridades. Podem examinar juntos (embora não con-
cordem sempre) como deveria ser uma sociedade cristã. E, capacita-
dos pelo Espírito, podem mostrar, por suas vidas, como uma socieda-
de deveria ser, à medida que homens e mulheres redimidos estão
“sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22). E
tudo isso os torna mais abrangentes em sua perspectiva do que os
seus contemporâneos pagãos. A perspectiva restrita é mantida pelo
pecador que nunca provou a graça, pelo ser humano caído que nunca
desfrutou de discernimento transformador, proporcionado pelo Espí-
rito, quanto aos propósitos sábios de Deus.
Com base nessa perspectiva, é insensatez — essa não é uma pala-
vra forte demais — exaltar a perspectiva do mundo e cobiçar secreta-
mente sua visão limitada. Isso era aparentemente o que os crentes de
Corinto estavam fazendo; isso é o que estamos em perigo de fazer
toda vez que adotamos os distintivos de nosso mundo, amamos os
seus ídolos e buscamos seus aplausos.
Paulo concluiu seu argumento com uma citação bíblica extraída
de Isaías 40.13: “Pois quem conheceu a mente[13] do Senhor, que o
possa instruir?” (1Co 2.16). No contexto de Paulo, a citação se aplica
de duas maneiras. Por um lado, ela é um importante lembrete de que
ninguém pode sondar as profundezas dos pensamentos de Deus e
muito menos confrontar seu juízo com o de Deus. Em nossa finitude e
pecado, não conhecemos por nós mesmos a mente do Senhor. Consi-
deraremos loucura a sua sabedoria. Não daremos ao Messias crucifi-
cado o seu devido lugar. A menos que o Espírito nos ilumine, os pen-
samentos de Deus permanecerão profundamente estranhos para nós.
Mas, por outro lado, Paulo disse: “Nós, porém, temos a mente de
Cristo” (2.16). Essa é outra maneira de dizer que recebemos o Espírito
de Deus (vv. 11-12) e, por isso, entendemos um pouco da sabedoria de
Deus, a sabedoria da cruz. Isso nos separa do mundo. E, implicita-
mente, o mundo também não nos entenderá. Portanto, Paulo usou a ci-
tação de Isaías 40 para apoiar sua afirmação no versículo anterior: “O
homem espiritual... não é julgado por ninguém”. Ele não quis dizer
que os cristãos não têm nada a aprender dos não-cristãos ou que sem-
pre estão isentos de correção e repreensão (até da parte dos não-cris-
tãos). Antes, Paulo queria dizer que a mente de Cristo é estranha para
o incrédulo; e, visto que temos a mente de Cristo, também seremos es-
tranhos para os incrédulos.
Esta passagem nos recorda as palavras de Jesus:

Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se
vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo,
pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que
eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também
perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.
Tudo isto, porém, vos farão por causa do meu nome, porquanto não conhecem aquele
que me enviou (Jo 15.18-21).

Em poucas palavras, o abismo que existe entre o homem espiritu-


al e o homem natural é imenso. O precipício que há entre o mundo e o
povo de Deus é intransponível, sem a obra do Espírito de Deus. Por-
tanto, algo terrivelmente trágico acontece quando os crentes começam
a desejar os aplausos deste mundo perdido.

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o
amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a
concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mun-
do. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vonta-
de de Deus permanece eternamente (1Jo 2.15-17).

REFLEXÕES CONCLUSIVAS

Há várias lições praticas importantes que a igreja precisa apren-


der desta passagem. Duas dessas lições são particularmente relevantes
para a igreja contemporânea.
O que significa ser “espiritual” está profundamente ligado à cruz,
e a nada mais. Ou, em termos mais exatos, ser espiritual, nesta passa-
gem, implica ter o dom do Espírito Santo — e isso significa entendi-
mento e apropriação da mensagem da cruz, “a sabedoria de Deus em
mistério”. Para o apóstolo Paulo, ser espiritual não conduz à atitude
de parecer superior aos outros, a círculos íntimos de santos especial-
mente dotados, a elitismo espiritual. Nesta passagem, há somente
uma divisão fundamental na raça humana. De um lado estão aqueles
que não têm o Espírito de Deus, os quais por consequência ignoram,
de maneira culposa, a mensagem do Messias crucificado. Do outro
lado, estão aqueles que têm o Espírito, que, por consequência, assimi-
lam a mensagem da cruz.
Isso não é uma negação do fato de que existe gradação de maturi-
dade entre os espirituais. De fato, Paulo introduzirá algo sobre isso no
próximo capítulo. Mas aqueles que são mais maduros na jornada cris-
tã não podem afirmar que são “mais espirituais”, no sentido de que
pertencem a uma classe separada de crentes. Eles não têm o direito de
reivindicar percepção especial que vai além da capacidade de assimi-
lação dos cristãos normais. A pessoa espiritual é apenas um crente que
se apegou à mensagem da cruz. Na verdade, aqueles que são mais
maduros são agradecidos pela cruz e recorrem continuamente a ela
como a medida do amor de Deus por eles e como o supremo padrão
de abnegação pessoal.
A coerência exige que o homem espiritual rejeite a sabedoria do
mundo e abrace a “sabedoria de Deus em mistério”, sem reservas.
Quando a sabedoria, tal como acontece nestes dois capítulos de 1 Co-
ríntios, é concebida como uma filosofia popular de vida e não somente
como os dons saudáveis do bom senso ou coisas semelhantes, há ape-
nas duas alternativas: em última análise, ou a sabedoria é do mundo e
se opõe a Deus, ou é outorgada por Deus e está vinculada à cruz. Não
há meio termo. Aqueles que tentam criar um meio termo, imitando os
coríntios — que confessavam o Jesus da cruz e cujos corações eram
constantemente atraídos para uma ou outra das filosofias populares e
aos valores do momento —, esses não ganharão nada, exceto a repro-
vação das Escrituras.
Essa lição é especialmente importante quando tantos cristãos de
nossa época se identificam com um “tema singular” (um conceito ex-
traído da política), e não com a cruz, e não com o evangelho. Se forem
pressionados, eles apoiarão enfaticamente o evangelho. Mas seu ponto
de auto-identidade, o foco de sua mente e coração, o que ocupa suas
energias e interesses, é algo mais: um estilo de adoração, a questão do
aborto, educação no lar, o dom de profecia, psicologia popular, certo
tipo de aconselhamento, ou seja lá o que for. É claro que todos esses
assuntos têm sua importância. Sem dúvida precisamos de cristãos que
trabalhem neles de tempo integral. Mas aqueles que têm ministérios
engajados nesses assuntos devem cumpri-lo como uma extensão do
evangelho, uma extensão da mensagem da cruz. Eles devem se esfor-
çar de modo especial para não transmitir a impressão de que ser real-
mente espiritual, ou sábio, ou criterioso implica uma resposta apropri-
ada à questão na qual estão engajados.
Ouvi um líder menonita avaliar seu próprio movimento dessa
maneira. Uma geração de menonitas apreciava o evangelho e acredita-
va que o evangelho subentendia certos compromissos sociais e políti-
cos. A próxima geração dissimulou o evangelho e enfatizou os com-
promissos sociais e políticos. A geração atual se identifica com tais
compromissos, enquanto o evangelho é confessado de modo diferente
ou mesmo negado. O evangelho não está mais no centro do sistema de
crenças de alguns que se chamam menonitas.
Quer queiramos, quer não, essa é uma interpretação correta sobre
os menonitas e, com certeza, uma advertência saudável para muitos
evangélicos. Já estamos naquele estágio em que muitos líderes evan-
gélicos dissimulam a mensagem da cruz e não lhe atribuem muita ên-
fase. O seu foco está em outras coisas. E alguns, conforme penso, estão
em perigo de se distanciarem dos principais componentes da mensa-
gem da cruz, embora ainda ministrem no contexto do evangelicalis-
mo. Talvez sejamos a geração de crentes que destruirá muito do cristi-
anismo histórico no evangelicalismo — não, em primeira instância,
por meio de incredulidade, e sim por trazermos questões relativamen-
te periféricas ao ponto em que, de modo funcional, substituam aquilo
que é essencial. E qual será o fim dessa tendência?
Temos de retornar à cruz e ao plano redentor de Deus que se cen-
traliza na cruz, tornando isso o âmago de nossa auto-identificação. Te-
mos de resistir, conscientemente, a todas as bajulações de movimen-
tos, filosofias e sistemas de valores que toleram a cruz, promovem-na
nominalmente, mas, na realidade, substituem-na. Temos de reconhe-
cer que ser sábio, ser espiritual, significa apegar-nos, com a ajuda do
Espírito de Deus, à mensagem do Messias crucificado.
Além disso, temos de insistir, com o mesmo vigor de Paulo, que essa per-
cepção quanto à mensagem da cruz não pode ser obtida sem a obra do Espíri-
to. Como reagiremos, então, em relação àqueles que nos dizem que
isso parece uma maneira esotérica de lidar com o conhecimento? Al-
guém pode com segurança deixar de lado a exegese árdua, as palavras
e contextos dos livros bíblicos, o difícil encargo de estudar e pensar,
trocando-os por alguma forma de afirmação subjetiva de que está sen-
do guiado pelo Espírito? Podemos nos livrar deste encargo, colocan-
do-nos ao lado daqueles que dizem que o Espírito Santo não nos capa-
cita a entender o texto, mas somente a aplicá-lo a nós mesmos?
Essa reação extrema não é menos problemática do que o subjeti-
vismo que ela procura evitar. Contra o mal de uma abordagem vaga e
mística da exegese bíblica, ela restringe o papel do Espírito Santo a
mera aplicação — embora, levando em conta esse papel, 1 Coríntios
2.14 exija algo mais consistente do que essa reação.
O que pode ajudá-lo a pensar claramente a respeito dessa questão
é reconhecer que 1 Coríntios 2 não está preocupado com a mecânica
de como em geral as pessoas entendem a sua Bíblia ou com a qualida-
de de uma escola específica de exegese de um texto hebraico. De qual-
quer maneira, é evidente para qualquer cristão que tenha lido ampla-
mente sobre essa área de conhecimento que um incrédulo confesso
pode produzir, com frequência, uma excelente exegese de uma ou ou-
tra passagem bíblica — uma exegese melhor do que a produzida por
aqueles que têm menos experiência, mas, pela graça de Deus, possu-
em o Espírito de Deus. Contudo, Paulo não estava abordando ques-
tões gerais de epistemologia. Não estava nem mesmo esclarecendo
como uma pessoa chega ao conhecimento do que significam algumas
passagens específicas das Escrituras. O foco de Paulo era a mensagem
fundamental do Messias crucificado. E isso, Paulo insistiu, é funda-
mentalmente incompreensível à mente humana sem o Espírito.
Mas (alguém poderia dizer) certamente existem pessoas que po-
dem articular a mensagem da cruz e não crer nessa mensagem. Nesse
sentido, eles a entendem, mas não creem nela. Tudo de que necessi-
tam é aplicá-la a si mesmos. Nesse caso, não é o papel do Espírito re-
duzi-la a mera aplicação?
Suspeito que isso produz uma falsa dicotomia entre o entendi-
mento e a aplicação. Paulo não estava dizendo que ninguém, entre ju-
deus e gentios, não entendia, em alguma medida, a mensagem da cruz
em seus dias. Alguns deles, incluindo Paulo (Saulo) antes de sua con-
versão, sabiam bem o que os cristãos acreditavam sobre a cruz e podi-
am resumi-lo com exatidão. Nesse sentido, eles entendiam a mensa-
gem da cruz. No entanto, alguém entendia verdadeiramente essa
mensagem à parte do quebrantamento, contrição, arrependimento e
fé? Repetir mecanicamente a natureza da transação que os cristãos jul-
gam ter acontecido no Gólgota é uma coisa; olhar para Deus e sua san-
tidade, para as pessoas e seus pecados sob a perspectiva da cruz trans-
forma a vida. Então, o que Paulo disse é que nosso egocentrismo, nos-
so pecado é tão profundo que não podemos ver realmente a cruz sem
a obra do Espírito. O que o Espírito realiza em nós é mais do que mera
aplicação da verdade já assimilada. O ensino de Paulo é que assimilar
genuinamente a verdade da cruz e ser transformado não pode ser se-
parado — ambos dependem por completo da obra do Espírito.
Percebemos isso com clareza quando perguntamos por que al-
guns que podem articular formalmente a mensagem da cruz, mas não
se tornam cristãos. Em última análise, isso acontece porque eles não
pensam que a mensagem é verdadeira. E por que não? Bem, talvez
porque acham que a mensagem seja um tanto primitiva. Ou talvez jul-
guem difícil acreditar que Jesus ressuscitou dos mortos. Ou talvez
construam um tipo de cristianismo cheio de altruísmo e amabilidade,
mas concluem que o ensino do Novo Testamento sobre o Messias cru-
cificado é um supérfluo opcional, um componente não essencial do
“cristianismo”. Todavia, em qualquer dos casos, só podem dar esse passo se
introduzem algum conteúdo filosófico ou teológico que os capacite a remover
a centralidade da mensagem da cruz. Em outras palavras, eles introduzem
consciente ou inconscientemente uma das sabedorias deste mundo e,
por isso, não compreendem a mensagem da cruz. No nível mais pro-
fundo, eles não a entendem. A razão desse fracasso não está no âmbito
da epistemologia aparentemente neutra. Está, sim, em nossa profunda
teimosia, nosso auto-interesse condenável, nossa alienação de Deus,
nossa correspondente recusa de reconhecer quão perdidos estamos.
Para sairmos desse estado de perdição, necessitamos do poder do Es-
pírito de Deus. Essa é a razão por que, ao tratarmos da assimilação da
mensagem do Cristo crucificado, isso nunca é uma questão de avaliar
com neutralidade as evidências.
Assimilar verdadeiramente que o Deus eterno, nosso Criador e
Juiz, enviou, motivado por sua graça indizível, o seu Filho para sofrer
a horrível morte de um criminoso detestado, para que fôssemos per-
doados e reconciliados com Ele; que esse plano sábio foi levado à con-
clusão por meio de líderes pecaminosos que pensavam estar contro-
lando os acontecimentos e agiam impulsionados por interesses egoís-
tas, enquanto, de fato, Deus estava realizando os seus propósitos re-
dentores; que nossa única esperança de vida na presença deste Deus
santo e amoroso está em nos entregarmos sem reservas à sua miseri-
córdia, recebendo com fé o dom do perdão comprado por preço eleva-
do — tudo isso é impossível sem a obra do Espírito.
Os cristãos dizem, com incessante temor e gratidão: “Deus no-lo
revelou pelo Espírito” (1Co 2.10a).

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO

1. Como esta passagem é, às vezes, abusada por pessoas que usam-na


para justificar sua própria autoridade espiritual? Como você res-
ponderia a essas pessoas?

2. Quem são os “experimentados” neste capítulo? Quem são os “espi-


rituais”?

3. Por que Paulo chama o evangelho de “sabedoria de Deus em misté-


rio”? O que isso significa?

4. Por que devemos ter o Espírito de Deus, para compreendermos o


evangelho?

5. Por que Paulo achava que os cristãos tinham uma perspectiva mais
ampla e maior conhecimento do que os incrédulos? Que diferença
isso deve fazer em nossa perspectiva quanto à vida?

[8] É possível traduzir o versículo de maneira um pouco diferente, mas a força da tensão que
descrevi não é amenizada.
[9] Alguns manuscritos trazem “por” em lugar de “mas”, no começo do versículo 10. Nesse
caso, o fluxo do pensamento seria um pouco diferente. A primeira parte do versículo seria o
fundamento da verdade de que Deus preparou essas coisas para aqueles que o amam — pois
Deus nos revelou essas coisas pelo seu Espírito. Todavia, o pensamento geral não é alterado:
as coisas que não foram percebidas pela mente, ouvido e coração humano, essas coisas nos
são agora reveladas. Talvez eu devesse acrescentar que a sintaxe do versículo 9 é um tanto di-
fícil. Traduzido de maneira um tanto pedante, o versículo talvez diria: “O que nenhum olho
viu, o que nenhum ouvido ouviu, o que nenhuma mente imaginou, isso é o que Deus tem
preparado para aqueles que o amam”.
[10] C. K. BARRET, A commentary on the First Epistle to the Corinthians (New York: Harper &
Row, 1968), p. 70.
[11] No grego, all en didaktois pneumatos, pneumatikois pneumatika sugkrinontes. As três princi-
pais opiniões são: (1) NVI, em inglês: “expressando verdades espirituais em palavras espiritu-
ais”; (2) NVI, em inglês, margem: “interpretando verdades espirituais para homens espiritu-
ais”; (3) King James Version, em inglês: “comparando coisas espirituais com espirituais”. Os
fatores interpretativos determinantes são dois: (a) o significado de sugkrinontes. Esse verbo
ocorre somente três vezes em todo o Novo Testamento. As outras ocorrências também se
acham noutra epístola de Paulo (2Co 10.12, onde ocorre duas vezes), cujo contexto sugere que
o verbo significa “comparar”. Muitos intérpretes julgam isso razão suficiente para se alinha-
rem com a King James Version, a terceira opinião. Insistem que o verbo nunca tem o sentido
de “explicar” ou “interpretar”, quer no grego clássico, quer nas outras duas ocorrências do
verbo no Novo Testamento. Isso é correto. Contudo, duas entre três não é uma vantagem es-
tatística convincente. E, mais importante ainda, esse verbo significa regularmente “explicar”
ou “interpretar” na Septuaginta, que representa o tipo de tradução grega do Antigo Testa-
mento da qual Paulo extraiu muito de seu vocabulário religioso. E, sendo as outras coisas
iguais, esse é o significado mais lógico para esta passagem. (b) O significado de pneumatikois
na última sentença. Esse termo se refere a “palavras ensinadas pelo Espírito” (entendendo-a
no gênero neutro) ou a “pessoas espirituais” (entendendo-a no masculino)? Se a interpretar-
mos no segundo sentido, talvez antecipando o argumento do versículo 14, a segunda opinião
(NVI, em inglês, margem) é correta. De fato, a sintaxe favorece muito o primeiro significado;
pneumatikois se refere a didaktois pneumatos e justifica a primeira opinião (NVI, em inglês). Se
pneumatikois se referisse à pessoa, deveríamos esperar a ocorrência de um artigo.
[12] Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 118.
[13] Embora a Septuaginta, o Antigo Testamento grego, se refira neste versículo à mente do
Senhor, esta é a sua tradução da expressão hebraica “o espírito do Senhor” — em um uso bem
semelhante ao de 1 Coríntios 2.11.
CA PÍ TU LO 3
A C R U Z E O S E C TA R I S M O
(1 CORÍNTIOS 3)

1Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais,
como a crianças em Cristo. 2Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque
ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois carnais. 3Por-
quanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais se-
gundo o homem? 4Quando, pois, alguém diz: Eu sou de Paulo, e outro: Eu, de Apolo,
não é evidente que andais segundo os homens?

5Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme
o Senhor concedeu a cada um. 6Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de
Deus. 7De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá
o crescimento. 8Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galar-
dão, segundo o seu próprio trabalho. 9Porque de Deus somos cooperadores; lavoura de
Deus, edifício de Deus sois vós.

10Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente
construtor; e outro edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica. 11Porque nin-
guém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo. 12Con-
tudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madei-
ra, feno, palha, 13manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, por-
que está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o prova-
rá. 14Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá ga-
lardão; 15se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo,
todavia, como que através do fogo.

16Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?
17Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus,
que sois vós, é sagrado.

18Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem por sábio neste sécu-
lo, faça-se estulto para se tornar sábio. 19Porque a sabedoria deste mundo é loucura dian-
te de Deus; porquanto está escrito: Ele apanha os sábios na própria astúcia deles. 20E ou-
tra vez: O Senhor conhece os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos. 21Por-
tanto, ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso: 22seja Paulo, seja Apolo, seja
Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras,
tudo é vosso, 23e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus.

Poucas passagens do Novo Testamento têm sido abusadas, por


escritores e pregadores, mais do que esta.
Em primeiro lugar, grandes segmentos do cristianismo têm apela-
do a esta passagem para apoiar a doutrina do purgatório. Ensina-se
que, diferentemente do inferno, o purgatório é uma experiência tem-
porária. Os cristãos que têm pecados não confessados vão ao purgató-
rio e sofrem ali por um tempo, até Deus julgar que estão prontos para
o céu. Essa pessoa será salva “como que através do fogo” (1Co 3.15).
Esta é a única passagem do Novo Testamento que tem uma chance re-
mota de apoiar a doutrina do purgatório; portanto, é importante que
entendamos o que a passagem significa. Falando de um modo geral,
aqueles que aceitam a doutrina do purgatório fundamentam muito da
força de seu argumento não no Novo Testamento, nem no Antigo,
mas nos livros apócrifos e na tradição da igreja.
Em segundo (e mais comumente no evangelicalismo, em especial
o evangelicalismo americano), alguns recorrem a esta passagem para
estabelecer uma divisão tríplice da raça humana. De um lado, está o
“homem natural” (2.14), a pessoa que não tem o Espírito de Deus, o
não-regenerado. Do outro lado, está o “homem espiritual” (2.15), o
cristão que anda com o Senhor, em obediência alegre e frutificação.
Entre os dois, está o homem “carnal” (3.1-4), aquele que é um cristão,
tem certeza do céu, mas não vive de maneira distinta do mundo. So-
mos ensinados que “esse mesmo será salvo, todavia, como que através
do fogo”. As obras que ele ou ela tiver feito serão “queimadas”; essa
pessoa “sofrerá... dano” (3.15).
Em um nível superficial, essa interpretação parece bastante plau-
sível, até que alguém observa (conforme veremos) que o versículo 15,
o qual se refere a sofrer o dano e ser salvo como que através do fogo,
não aplica essa linguagem ao crente mundano ou carnal. Certamente,
há algo que é chamado de crente carnal ou mundano, mas a teoria do
“crente carnal” assumiu, em anos recentes, extremos bizarros que têm
pouca relação com o ensino deste capítulo de 1 Coríntios. Quando
lembramos que esta é a única passagem do Novo Testamento que usa
essa linguagem, somos forçados a reconhecer: é importante que tenha-
mos a interpretação correta da passagem.
Duas observações preliminares nos impelirão ao rumo certo.
1. Este capítulo, 1 Coríntios 3, é parte de um argumento extenso
que se desenvolve de 1.10 até 4.21. Basicamente, Paulo estava abor-
dando o espírito de divisão, o sectarismo ímpio, que impregnava a
igreja de Corinto. Alguns da família de Cloe o haviam informado de
que alguns membros da igreja diziam: “Eu sou de Paulo”; ou: “Eu, de
Apolo”, ou de alguém mais. Esse tema ainda está presente no capítulo
3 (vv. 5-6, 21-23) e se estende até ao capítulo 4 (ver 4.6). O problema
do sectarismo estava profundamente arraigado na igreja de Corinto, e
isso talvez possa ser comprovado pelo fato de que Paulo sentiu a ne-
cessidade de falar amplamente sobre a natureza e a centralidade do
amor (1Co 13), mostrando-o como o caminho que o cristão deve se-
guir, o “caminho mais excelente” (1Co 12.31). Portanto, a nossa manei-
ra de interpretar 1 Coríntios 3 tem de se enquadrar no argumento que
o apóstolo desenvolve desde 1.10 ate 4.21.
2. Embora nestes capítulos Paulo tenha abordado diretamente o
sectarismo pernicioso dos crentes de Corinto, ele não fez isso por ata-
car os dois problemas que estavam por trás do sectarismo e o fortaleci-
am. O primeiro desses problemas era a má compressão do evangelho
e, em particular, da centralidade da cruz. Em termos pragmáticos, o
amor deles pela ostentação, o prestígio, a retórica, a aprovação social e
a “sabedoria” louvada publicamente — em resumo, o seu triunfalismo
rude — demonstrava que não refletiam de maneira profunda as impli-
cações do evangelho do Messias crucificado. Essa foi a razão por que
Paulo gastou tanto tempo falando sobre tais assuntos nos dois primei-
ros capítulos da epístola. Contudo, a segunda má compreensão de-
monstrada por esses crentes barulhentos se referia à natureza da lide-
rança cristã. Visto que alguns cristãos diziam: “Eu sou de Paulo [ou de
Apolo, ou Cefas, ou de Wesley, ou de Calvino]”, atribuindo a alguns
líderes cristãos o ponto primordial de sua identificação, eles não en-
tendiam verdadeiramente a natureza da liderança cristã. Corrigir es-
sas compreensões errôneas foi o que ocupou o apóstolo em 1 Coríntios
3 e 4.
Paulo elabora três argumentos no primeiro destes dois capítulos.

O SECTARISMO REVELA UMA ESPIRITUALIDADE IMATU-


RA, PERVERSA E INACEITÁVEL (3.1-4)

Embora Paulo estivesse para repreender os coríntios de maneira


severa, nem por um momento ele pensou que eles não eram cristãos.
Afinal de contas, eles tinham o Espírito de Cristo, como ele acabara de
explicar no capítulo 2. Para Paulo este era o fato determinante: “Se al-
guém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). No
coração, eles tinham aceitado realmente a mensagem do Cristo crucifi-
cado, ainda que sua vida não estivesse conformada a essa mensagem.
Além disso, Paulo desejava que aqueles cristãos reconhecessem que os
reputava como irmãos. Essa foi a razão por que neste capítulo dirigiu-
se a eles chamando-os de “irmãos” (3.1).
Contudo, mesmo não dizendo aos seus leitores que eles não ti-
nham o Espírito de Deus, o que Paulo disse é chocante: “Eu, porém, ir-
mãos, não vos pude falar como a espirituais [isto é, aqueles que têm o
Espírito]” (3.1, ênfase acrescentada). Em vez disso, Paulo se dirigiu a
eles “como a carnais”. A palavra grega aqui traduzida é sarkinos (A pa-
lavra que Paulo usava costumeiramente para significar “carne” era
sarx). A palavra latina equivalente é “carnal”. É por isso que chegamos
a usar a expressão “crente carnal”. Não há dúvida de que existe tal
coisa. Mas o que é um “crente carnal”, um “crente mundano”? Enten-
deremos o que Paulo disse se seguirmos quatro passos.
Primeiro, a expressão crente carnal é potencialmente enganosa. A
palavra carnal tornou-se associada com o pecado sexual (entendemos
com clareza o sentido da expressão “desejo carnal”). E nessa conjuntu-
ra Paulo não estava acusando os crentes de Corinto de lascívia ou con-
duta sexual imprópria. Essa talvez seja a razão por que algumas
versões da Bíblia usam a palavra “mundano” para traduzir sarkinos,
pois sugere um erro mais amplo do que apenas o pecado sexual.
Segundo, a palavra sarkinos, em si mesma, significa simplesmente
algo como “feito de carne” — ou seja, meramente humano. A mesma
palavra se acha em 2 Coríntios 3.3, onde Paulo diz que na nova aliança
a lei de Cristo está escrita “não em tábuas de pedra, mas em tábuas de
carne, isto é, nos corações” — literalmente, “corações de carne”. Nesta
passagem, não há necessariamente qualquer conotação de coisas más.
Então, o que Paulo estava dizendo em 1 Coríntios 3.1 era que desco-
brira que não podia falar àqueles crentes como a “espirituais” (ou seja,
pessoas que tinham o Espírito), mas tinha de dirigir-se a eles como a
“carnais” (ou seja, pessoas que não tinham o Espírito).
Portanto, embora, por um lado, Paulo acreditasse que seus leito-
res possuíam o Espírito de Deus e os chamou de “irmãos”, por outro
lado, sentiu que não podia dirigir-se a eles como pessoas que tinham o
Espírito. Essa foi a razão por que ele teve de reapresentar-lhes os ele-
mentos básicos do evangelho nos dois primeiros capítulos da epístola.
O que eles eram? Eles tinham ou não o Espírito? Eram cristãos ou
não? Paulo explicou nesta linguagem paradoxal: eles eram “crianças
em Cristo” (3.1). Sim, eles eram cristãos. Sim, tinham o Espírito. Mas,
em certas particularidades, ainda a serem delineadas, não agiam como
pessoas que tinham o Espírito. Paulo os julgou espiritualmente imatu-
ros — horrivelmente, inaceitavelmente, espiritualmente imaturos. E
acrescentou: “Leite vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; por-
que ainda não podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis” (3.2).
Quando minha filha nasceu, minha esposa se viu incapaz de ali-
mentar nosso bebê. Isso me proporcionou o privilégio de servir-lhe a
alimentação da meia-noite. Tiffany era um sonho: eu podia preparar o
alimento, trocá-la, dar-lhe toda a mamadeira e colocá-la de volta no
berço em 20 minutos.
Depois, nasceu o nosso filho. A alimentação da meia-noite era
horrível no caso dele. Embora tivesse um grande apetite, ele sugava e
bebia em apenas três velocidades: devagar, quase parado e parado. E
o pior: ele tinha de arrotar em pequenos intervalos de tempo durante
a alimentação — isso tornava o processo dolorosamente lento; pois, do
contrário, ele manifestaria seu admirável dom de lançar vômito. Sem
aviso prévio, ele poderia expelir o que havia engolido e enviá-lo a cin-
co metros de distância através da sala. Se houvesse uma competição
olímpica de regurgitar, ele ganharia uma das medalhas. Nunca o colo-
quei de volta no berço antes de uma hora; o mais comum era uma
hora e meia.
Pelo menos, ele tinha uma desculpa. Era bebê, e seu aparelho di-
gestivo não era tão bem desenvolvido como o de sua irmã na mesma
idade. O melhor de tudo — ele superou essa etapa rapidamente. Há
cristãos que, falando em referência à vida espiritual, são regorgitado-
res de categoria internacional, mesmo depois de anos e anos de vida.
Não podem digerir o que Paulo chamou de “alimento sólido”. Temos
de dar-lhes leite, pois não estão prontos para mais nada. E, se tentar-
mos dar-lhes outra coisa que não seja leite, eles vomitam e fazem uma
bagunça com tudo e todos ao seu redor. Em alguma medida, o núme-
ro de anos que têm como cristãos leva-nos a esperar deles um compor-
tamento maduro, mas nos desapontam. Ainda são bebês e manifestam
sua imaturidade na maneira como reclamam, se lhes damos mais leite.
O conhecimento sólido das Escrituras não é para eles, nem a reflexão
teológica, nem o pensamento cristão crescente e perspicaz. Não que-
rem nada mais do que outra sessão de cânticos ou uma “mensagem
simples” — algo que não os desafie a pensar, a examinar sua vida, a
fazer escolhas e a crescer no conhecimento e adoração do Deus vivo.
Os crentes de Corinto eram terrivelmente imaturos.
Terceiro, essa imaturidade era algo pelo que eles teriam de pres-
tar contas. Diferentemente de meu filho, que não podia evitar sua con-
dição, Paulo considerou essas pessoas de Corinto responsáveis por
seu “mundanismo”. Ele deixou isso claro numa pequena mudança de
vocabulário nos versículos 1 a 3. A palavra traduzida “carnais”, no
versículo 1, é sarkinos, como já falamos. Nas duas ocorrências de “car-
nais” nos versículos 2 e 3, a palavra traduzida é sarkikos. Se existe uma
diferença de significado entre as duas palavras, é esta: enquanto sarki-
nos significa “feito de carne” ou “constituído de carne” (e isso se refere
àqueles que agem como se não tivessem o Espírito, mas são apenas
humanos, “carnais”), sarkikos significa algo como “característico da
carne humana”. Em outras palavras, essa palavra assume imediata-
mente conotações morais. A vida humana, sem o Espírito de Deus,
não é neutra; tem certas características que são totalmente repreensí-
veis. Esse significado de sarkikos se torna claro de seu uso em 2 Corín-
tios 1.12. Nesta passagem, Paulo testifica: “Com santidade e sincerida-
de de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos
vivido no mundo e mais especialmente para convosco” (ênfase acres-
centada). Em outras palavras, Paulo se comportou não em harmonia
com a “sabedoria” que reflete o ponto de vista da natureza humana
pecaminosa, e sim em harmonia com a graça de Deus. De modo seme-
lhante, em 1 Coríntios 3.3 Paulo disse aos coríntios que eles estavam
agindo da maneiras que eram características das pessoas que não têm
o Espírito — de pessoas que, por não terem o Espírito, não possuem
nada em que possam se amparar, exceto a sua própria natureza peca-
minosa, sua natureza “carnal”. Estavam agindo como pagãos.
Quarto, Paulo deu consistência a essa acusação. É muito impor-
tante assimilar que evidência ele citou para apoiar sua conclusão de
que os crentes coríntios eram carnais. Já vimos uma dessas evidências:
Paulo os achou presos no estágio do “leite”. Não estavam crescendo
em seu entendimento e aplicação da Palavra de Deus, em sentido ge-
ral, e do evangelho, em sentido específico. Mas Paulo acrescentou
mais duas evidências, relacionadas entre si: (1) os crentes de Corinto
manifestavam “ciúmes e contendas” (3.3). Visto que manifestavam es-
ses pecados, eram carnais (sarkikos), exibindo o que era característico
da natureza humana caída. Eles agiam “segundo o homem” (3.3), ou
seja, como se não tivessem o Espírito. (2) Os crentes de Corinto havi-
am sucumbido ao sectarismo: um grupo afirmava seguir a Paulo, ou-
tro se associava com o nome de Barnabé, outro, com o de Pedro, e as-
sim por diante (1.11-12; 3.4). O sectarismo e todas as animosidades tri-
viais que ele produz são características do “homem” — não de ho-
mens e mulheres que possuem o Espírito do Deus vivo.
Isso é o que Paulo quis dizer com a expressão cristão “carnal” ou
cristão “mundano” (adotando a expressão mais comum). Paulo não ti-
nha em mente alguém que fizera uma profissão de fé, seguiu na jorna-
da cristã por algum tempo e retornou a um estilo de vida indistinguí-
vel, em todos os aspectos, do estilo de vida do mundo. Afinal de con-
tas, os crentes de Corinto estavam se congregando para adoração (1Co
14), invocavam o nome do Senhor Jesus Cristo (1.2), tinham dons espi-
rituais extraordinários (1.5, 7; 12-14), lutavam com questões teológicas
e éticas (1Co 8-10) e estavam em contato com o apóstolo cujo ministé-
rio os trouxera ao Senhor. Em vez de se entregarem à carne, ao mundo
e ao diabo, eles buscavam a experiência espiritual, embora às vezes
imprudentemente.
É claro que, se cristãos professos se afastam por muito tempo, al-
guma classificação adicional tem de ser achada para eles. Paulo tinha
uma dessas classificações. Em 2 Coríntios, depois de haver descoberto
que a igreja de Corinto, apesar da restauração temporária, havia su-
cumbido novamente aos falsos apóstolos (2Co 11.13) e a um estilo de
vida que não se gloriava na cruz (2Co 10-13), Paulo se sentiu forçado a
transmitir essa exortação severa: “Examinai-vos a vós mesmos se real-
mente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que
Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados” (2Co 13.5).
Em outras palavras, se o seu afastamento do evangelho se tornara bas-
tante sério, Paulo questionou se eram realmente crentes. E isso aconte-
ceu em um momento em que a igreja de Corinto ainda se mantinha
unida como um corpo de cristãos professos.
Isso significa que não devemos aplicar a expressão “cristão car-
nal” ou “cristão mundano” a qualquer pessoa que fez uma profissão
de fé, talvez anos atrás, e que, durante muitos anos, tem vivido sem
qualquer evidência de possuir a fé, a vida, o arrependimento, os valo-
res ou interesses cristãos. Nesses casos, é mais provável que estejamos
lidando com conversões espúrias.
Uma vez que isso seja claro, o ensino de Paulo se torna vigoroso.
Aqueles que têm o Espírito e, portanto, se harmonizam com a mensa-
gem da cruz (1Co 2), espera-se que amadureçam rapidamente. Esse
amadurecimento se revelará em uma capacidade crescente de receber
mais e mais verdades cristãs (3.2). Também se manifestará em uma
atitude de coração sensível que evitará contendas e ciúmes, recusan-
do-se a mergulhar no sectarismo. Se alguns que têm o Espírito são len-
tos em mostrar essa maturidade crescente, a interpretação mais gentil
é que eles são “carnais”. Nessas questões, eles estão agindo como “ho-
mens”, e não como cristãos capacitados pelo Espírito Santo. Eles são
vergonhosa, inaceitável e espiritualmente imaturos.

O SECTARISMO IGNORA DUAS VERDADES IMPORTAN-


TES SOBRE OS LÍDERES CRISTÃOS (3.5-17)

Essas verdades podem ser delineadas facilmente:


1. Os líderes cristãos são apenas servos de Cristo e não devem re-
ceber aquela submissão reservada unicamente para Deus.
2. Deus cuida de sua igreja e tem os seus líderes como responsá-
veis pela maneira como a edificam.
Não menos importante do que essas duas verdades era a maneira
como Paulo as estabeleceu. Ele formulou seu argumento retratando
duas analogias, uma da agricultura (3.5-9) e a outra da arquitetura
(3.9b-15), acompanhando-as de uma pergunta retórica poderosa e
uma conclusão alarmante (3.16-17).

A analogia extraída da agricultura (3.5-9a)

Depois de repreender os cristãos de Corinto por sua imaturidade


espiritual, atestada por suas contenções e apego faccioso a líderes hu-
manos específicos, Paulo julgou necessário dizer algo a respeito de
como esses líderes deveriam ser vistos. “Quem é Apolo? E quem é
Paulo?” A resposta é devastadoramente simples: “Servos por meio de
quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um” (1Co
3.5). Os líderes cristãos são, em primeiro lugar, “servos”. Neste con-
texto, Paulo não quis dizer “servos da igreja”, e sim “servos de Jesus
Cristo”, pois o servir se realiza “conforme o Senhor concedeu a cada
um”. Além disso, eles são chamados especificamente de “servos de
Cristo” em 1 Coríntios 4.1. Se o Senhor Jesus mesmo designou a cada
um a sua tarefa, é insensato classificá-los de acordo com o seu traba-
lho. Esses servos não obtiveram seu status por ambição e “dons natu-
rais” (como se no mundo de Deus houvesse qualquer dons que Ele
não tenha dado!), mas por designação específica do Senhor. Cumprin-
do as responsabilidades que lhes foram confiadas, eles se tornaram os
agentes que trouxeram os coríntios à fé — “Servos [de Cristo] por
meio de quem crestes” (3.5).
Agora Paulo apresenta a analogia extraída da agricultura. Em
uma grande fazenda, talvez uma pessoa plante a semente, e outra a
regue, mas somente Deus pode fazê-la crescer. Cumular o semeador
de louvores impróprios e exclusivos significa ter uma percepção mui-
to limitada; elogiar somente aqueles que fazem a irrigação e esquecer
aqueles que semeiam significa ser míope. Em todos os casos, é Deus
quem faz as coisas crescerem. Ele não deve ser louvado?
Embora os trabalhadores sejam encarregados de diferentes tare-
fas, eles “são um” (ou seja, “têm um só propósito”, 3.8, NVI). Nenhum
dos deveres dos trabalhadores tem importância independente. É na
agregação das tarefas, coroadas pelo próprio Deus, que faz as coisas
crescerem, que por fim chega-se à colheita. Sem dúvida, cada servo
“receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho”. Paulo não
queria negar a importância da fidelidade e do empenho individual.
Mas, no que diz respeito à grande tarefa às mãos — fazer as coisas
crescerem e trazê-las à colheita —, é importante levar em conta todo o
quadro. “Somos cooperadores... de Deus” (3.9), Paulo afirmou. O
apóstolo não estava dizendo que ele, Apolo, outros cooperadores e
Deus estavam no mesmo nível. Pelo contrário, Paulo estava afirmando
que ele, Apolo e qualquer outro cooperador eram apenas colegas de
trabalho, serviam na mesma obra, possuídos e usados por Deus. A ex-
pressão de Deus neste versículo é possessiva. Somos cooperadores, dis-
se Paulo, e somos de Deus. É claro que, no caso de Paulo, ser servo de
Jesus Cristo e um dos cooperadores de Deus significa a mesma coisa.
Todo o âmbito da analogia se torna claro. O campo representa os
coríntios e pertence a Deus (“lavoura de Deus... sois vós”, 3.9). Os que
trabalham no campo são pessoas como Paulo e Apolo e pertencem a
Deus (“de Deus somos cooperadores”, 3.9). Deus é o dono do campo e
dos trabalhadores. Ele atribui aos trabalhadores as suas tarefas, e so-
mente Ele pode fazer a semente crescer.
Antes de prosseguirmos à próxima analogia, temos de assegurar-
nos de que dois fatos na analogia da agricultura ficaram claros. O pri-
meiro é que a analogia como um todo enfatiza fortemente uma verda-
de que os crentes de Corinto ignoravam: os líderes cristãos são apenas
servos de Cristo e não devem receber a lealdade reservada tão-somen-
te a Deus. Não estamos dizendo que a gratidão a Paulo, Apolo ou
qualquer outro cooperador cristão era inapropriada. Pelo contrário, o
que Paulo julgou inescusável foi o tipo de apego bajulador e defensor
a um líder específico que resultava em contendas, ciúmes e senso de
superioridade.
Implicitamente, esse tipo de lealdade atribui muita importância a
determinada pessoa. Conduz a uma atitude de dar ao líder uma posi-
ção quase semelhante a uma divindade. De fato, um pouco de reflexão
sóbria nos lembra que muitos líderes cristãos contribuem apropriada-
mente ao nosso crescimento e frutificação espiritual, mas, em todos os
casos, somente Deus pode dar vida e frutos, embora Ele use instru-
mentos. Nenhum líder cristão deve ser venerado, ou atendido, ou
adulado com o tipo de lealdade e devoção reservadas somente para
Deus. Isso é insensatez; denuncia a profunda ignorância quanto à na-
tureza da verdadeira liderança cristã e às maneiras corporativa e mu-
tuamente sustentadoras pelas quais os líderes cristãos complementam
a obra uns dos outros, sob a designação de Deus. Subentendemos dis-
so (embora não fosse parte do argumento de Paulo) que os líderes
cristãos não devem apresentar-se como se tivessem o monopólio da
verdade, ou todos os dons, ou autoridade e percepção exclusivas. So-
mos apenas “servos”. Somos “cooperadores” e pertencemos a Deus.
O segundo detalhe que temos de observar nesta analogia é que
toda a força do argumento depende de uma distinção entre os cristãos
de Corinto e os obreiros cristãos, como Paulo e Apolo. Isso se torna
claro não somente do contexto (segundo o qual grupos de crentes da-
quela igreja estavam tentando alinhar-se com líderes específicos), mas
também da estrutura da analogia: “De Deus [nós, que ele, Paulo, Apo-
lo, e, em princípio, os outros cooperadores] somos cooperadores; la-
voura de Deus, edifício de Deus sois vós” (3.9) [ênfase acrescentada]. É
claro que noutros contextos Paulo identificou todos os cristãos como
pessoas que servem a Cristo, como servos de Cristo. Mas, neste con-
texto, era essencial ao argumento de Paulo que ele mantivesse a dis-
tinção. Essa distinção, conforme veremos, recai sobre a próxima analo-
gia — e esse é um fator crucial na interpretação correta da passagem.

A analogia extraída da arquitetura (3.9b-15)

O final do versículo 9 é transicional. “Lavoura de Deus... sois


vós”, escreveu Paulo, findando a analogia da agricultura. E acrescen-
tou: “Edifício de Deus sois vós”. Assim, saímos da fazenda e chega-
mos ao local de construção. Uma vez mais, é mantida a distinção entre
os crentes e os líderes. Neste ponto, os crentes são “edifício de Deus”,
os líderes são os construtores.
O ensino geral desta analogia, especialmente em sua primeira
parte, é o mesmo da analogia anterior. Nós a entenderemos melhor se
lembrarmos que processo lento era a construção de um prédio antes
de surgirem os equipamentos de força. As catedrais na Europa leva-
vam geralmente quatro ou cinco séculos para serem terminadas; às ve-
zes, até mais. Nos dias de Paulo, um templo, que é uma construção
mais modesta do que uma catedral da Idade Média, precisava, às ve-
zes, de décadas para ser concluído. Portanto, um construtor lançava o
alicerce; outros completariam as várias fases do edifício e se mudari-
am, aposentariam ou morreriam; e o seu lugar seria assumido por ou-
tros. A lição é clara: Paulo lançou o fundamento, outros edificaram so-
bre esse fundamento. O importante é o projeto como um todo. Implici-
tamente, é tolice focalizar todo o louvor em apenas um dos edificado-
res que contribuíram para o projeto. Afinal de contas, os próprios edi-
ficadores compartilharam da mesma visão e do mesmo propósito.
No entanto, há dois elementos na analogia que a diferenciam da
anterior. E estão relacionados. O primeiro é que Deus cumpre um pa-
pel diferente nas duas “parábolas”. Na analogia da agricultura, Deus é
representado como o dono do campo que emprega trabalhadores;
além disso, Ele é louvado como Aquele que dá vida: Deus faz os cere-
ais crescerem. Nesta analogia, extraída da construção civil, não há
nada orgânico, não há nada crescendo. Por isso, Deus cumpre um pa-
pel diferente. Jesus Cristo mesmo se torna o fundamento que Paulo
lança (3.11). Deus não é mencionado de maneira específica desde o
versículo 11 até ao 15, mas está por trás do julgamento implícito em “o
Dia” e “o fogo” que revelará a qualidade da obra de cada construtor.
Em outras palavras, Deus é o dono do edifício e julga a qualidade da
obra de cada construtor. Conforme veremos, isso se torna explícito em
3.16-17.
O segundo elemento que distingue essa analogia da anterior é a
forte ênfase colocada sobre a responsabilidade dos edificadores. Paulo
logo advertiu: “Cada um veja como edifica” (3.10b). Ele mesmo lança-
ra “o fundamento como prudente construtor”, e “ninguém pode lan-
çar outro fundamento, além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo”
(3.10-11). Se o que está sendo construído é a igreja de Deus, então, o
único fundamento possível é Jesus Cristo, ou, mais plenamente, “Jesus
Cristo e este crucificado”, usando a expressão de 1 Coríntios 2.2. Paulo
ainda estava pensando no exclusivo poder, sabedoria e autoridade
vinculadas ao evangelho. Se alguém tenta lançar outro fundamento,
deve ser para outra construção. A igreja não será edificada sobre qual-
quer alicerce rival.
Mas onde o alicerce é “Jesus Cristo e este crucificado”, há o peri-
go de serem usados acabamento e materiais inferiores. Os construto-
res podem usar “ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha”
(3.12). Essa escala de valores era importante para Paulo. Ele fez distin-
ção entre apenas dois tipos de materiais de construção: o que não po-
dia resistir ao fogo que provará “qual seja a obra de cada”, naquele
“Dia” em que a obra de cada construtor se manifestará como realmen-
te é (3.13); e o que resiste. “O Dia” é o dia do Senhor, o tempo do pe-
neiramento final. “O fogo” distingue o bom do mau. Como vemos fre-
quentemente no Antigo Testamento, o fogo consome a escória, deixan-
do o metal precioso. À primeira vista, podemos pensar que “ouro,
prata, pedras preciosas” são materiais estranhos. Talvez Paulo os te-
nha escolhido não porque passarão intocáveis pelo fogo (o ouro, por
exemplo, pode derreter, mas ainda continua sendo ouro), mas porque
ouro, prata e pedras preciosas figuraram proeminentes na construção
do templo de Salomão. Então, quando Paulo desenvolveu sua analo-
gia neste versículo, o edifício que será construído é nada menos que o
“santuário de Deus” (3.16).
Esse fogo não é o purgatório. Nada é dito a respeito de atormen-
tar os edificadores ou purificá-los pelas chamas. Pelo contrário, é a
qualidade de sua obra que é revelada pelo fogo. Se a obra de um cons-
trutor é queimada, “sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, to-
davia, como que através do fogo”. A imagem é a de alguém fugindo
de um prédio tomado por grande incêndio. A pessoa escapa. Mas,
quanto do edifício em que estivera trabalhando sobrevive às chamas?
Duas coisas têm de ser ditas para esclarecer a figura que Paulo re-
tratou e aplicar seu ensino à nossa vida. Primeira, aquele que sofre
“dano”, mas é salvo “como que através do fogo”, não são os cristãos
carnais ou mundanos citados em 3.1-4, e sim os líderes cristãos que
edificam a igreja com materiais que não resistirão à conflagração final.
Os cristãos mundanos citados em 3.1-4 constituíam toda ou parte da
igreja em Corinto; e a igreja é representada, na primeira analogia, pelo
campo e, na segunda, pelo edifício. Aqueles que poderíamos chamar
de “edificadores da igreja”, como Paulo, Apolo e outros evangelistas,
pregadores e ensinadores, são tanto os que trabalham no campo como
os que constroem o edifício. É a obra deles que será provada pelo
fogo.
Isso significa que a sofisticada apresentação da teoria do “crente
carnal”, a qual propõe que algumas pessoas fazem uma profissão de
fé e logo depois retornam a um estilo de vida indistinguível da vida
de um incrédulo, mas finalmente vão ao céu, sendo salvas por um triz
(“como que através do fogo”), não acha qualquer base nesta passa-
gem.
Este pensamento deve ser bastante solene para aqueles que estão
engajados no ministério vocacional. É possível edificar a igreja com
materiais tão inferiores, que no Último Dia você não terá nada a exibir
como sua obra. Pessoas podem vir, sentir-se ajudadas, unir-se à adora-
ção coletiva, servir nas comissões, dar aulas na Escola Dominical, go-
zar de comunhão, levantar fundos, participar de sessões de aconselha-
mento e de grupos de auto-ajuda, mas, apesar disso, não conhecer o
Senhor. Se a igreja está sendo edificada com grande medida de char-
me, personalidade, oratória agradável, pensamento positivo, habilida-
des administrativas, experiências emocionais e espertezas, mas sem a
proclamação de “Jesus Cristo e este crucificado”, repetida, fervorosa e
ungida pelo Espírito, podemos estar ganhando mais adeptos do que
convertidos. Nem por um momento estou sugerindo que habilidades
administrativas são desnecessárias ou que as capacidades fundamen-
tais de uma pessoa são opcionais. Mas o elemento fundamental e ine-
gociável, sem o qual a igreja deixa de ser igreja, é o evangelho, a “lou-
cura” de Deus, Jesus Cristo e este crucificado.
Se percebermos isso com clareza, muitas outras coisas se encaixa-
rão. Reconheceremos que a revelação de Deus em seu Filho é de su-
prema importância. Admitir a necessidade do Espírito de Deus para
iluminar a mente de homens e mulheres que, de outro modo, não en-
tenderiam o evangelho ressaltará a importância da oração. Viveremos
e serviremos à luz do julgamento final, pois teremos de prestar contas
de nosso ministério. Não recusaremos a ajuda prática daqueles que
têm algo a dizer sobre técnicas ou perfis sociológicos; antes, permane-
ceremos totalmente comprometidos com a centralidade da cruz, não
em níveis vagos e teóricos, e sim em toda a nossa estratégia e decisões
práticas. Temeremos adotar abordagens que removam da cruz de
Cristo o seu poder (1.17). E a única aprovação que buscaremos será a
do Senhor, que provará a qualidade da obra de cada construtor no Úl-
timo Dia.
Segunda, os prospectos diante dos edificadores da igreja não são
meramente negativos. Há uma alternativa: “Se permanecer a obra de
alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão” (3.14,
ênfase acrescentada). Alguns cristãos sentem-se temerosos de que a
simples menção de recompensa colocará em risco a liberdade da gra-
ça. Ignoram não somente que Jesus prometeu recompensas aos seus
seguidores (cf. Mt 6.4, 6, 18), mas também que esta passagem de 1 Co-
ríntios prepara a base para essa ideia. Na analogia extraída da agricul-
tura, fomos informados de que cada trabalhador “receberá o seu ga-
lardão, segundo o seu próprio trabalho” (3.8). Na analogia extraída da
construção civil, Deus é Aquele que julga a qualidade do labor de
cada construtor — e, em princípio, isso revela a possibilidade do dano
e da recompensa.
É importante reconhecer que Paulo achou necessário combater os
dois extremos. Por um lado, várias formas de religião helenista produ-
ziram uma dicotomia enorme entre “espiritualidade” e conduta. Os
indivíduos podiam ser tão “piedosos”, tão “religiosos”, tão “espiritu-
ais”, sem permitir que isso causasse a menor diferença em sua ética,
em sua conduta diária. Por contraste, os crentes retratados na Bíblia,
quer na antiga aliança, quer na nova, não podiam pensar dessa manei-
ra. Na Bíblia, espiritualidade e ética andam lado a lado. A piedade e a
conduta não podem ser divorciadas. Há consequências em nossa cren-
ça e compromissos espirituais, e tais consequências envolvem não so-
mente esta vida, mas também a vida por vir. Por isso, a ênfase de Pau-
lo sobre a recompensa era uma proteção importante contra muitos dos
ensinos das religiões helenistas do século I.
Por outro lado, algumas formas de judaísmo tendiam a unir estri-
tamente as recompensas à qualidade da obediência de uma pessoa.
Mais cedo ou mais tarde, se tornava difícil evitar algum tipo de “teolo-
gia do mérito”. Contudo, para Paulo as recompensas não eram credi-
tadas como dívida; eram resultado da graça. Se Paulo trabalhava ar-
duamente, isso acontecia por causa da graça de Deus em sua vida:
“Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi
concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos
eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15.10). O fato
de que a graça de Deus capacita toda a nossa obra destrói toda a
mecânica da teologia de méritos: muito trabalho, muita recompensa.
No final do dia, trabalhamos e ministramos tendo em vista e lembran-
do constantemente que, se houve frutos, isso aconteceu porque a gra-
ça de Deus agiu em nós. Desenvolvemos a nossa salvação, mas temos
de lembrar que isso resulta da obra de Deus em nós, capacitando-nos
a querer e a agir de acordo com o seu beneplácito (Fp 2.12-13). Essa
postura condicionou Paulo a evitar o legalismo.
A esta altura deve ser claro que essa segunda analogia, baseada
na construção civil, estabelece não somente a primeira verdade proe-
minente que os coríntios ignoravam (os líderes cristãos são apenas ser-
vos de Cristo e não podem receber a fidelidade reservada somente
para Deus), mas também a segunda grande verdade: Deus cuida de
sua igreja e tem seus líderes como responsáveis. Essa é uma lição terri-
velmente importante. Se os líderes são elevados demais na mente das
pessoas, eles não podem fazer quase nada; e grande número de seus
seguidores os acompanharão inquestionavelmente. Admiramo-nos de
como alemães eruditos seguiram Adolf Hitler sem protestarem; admi-
ramo-nos de quantas pessoas religiosas seguiram Jim Jones até a mor-
te. Mas exemplos que não sejam tão extremos podem ser difíceis de
detectarmos. É possível exaltarmos tanto algum líder cristão, que co-
meçamos a achar desculpas para as suas faltas graves e, talvez, catas-
tróficas. Temos de lembrar que os líderes não são mais do que servos.
Enquanto isso, Deus ama a sua igreja e pedirá contas daqueles que
procuram edificá-la.
Esses fatos são ressaltados poderosamente nos versículos seguin-
tes.

A pergunta retórica de Paulo e sua


conclusão alarmante (3.16-17)

“Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus


habita em vós?” (3.16), indagou Paulo. O edifício agora se torna o
“santuário de Deus”. É crucial entendermos que neste contexto o
“santuário de Deus” não se refere ao corpo humano, e sim à igreja. Em
outra passagem, essa metáfora é usada para fomentar a pureza sexual
no ser humano individual (1Co 6.19). Se o “o vosso corpo é santuário
do Espírito Santo”, é importante manter o santuário puro. Mas aqui,
em 1 Coríntios 3, esse não é o assunto. Paulo não estava dizendo:
“Olhem! Se Deus, o Espírito, toma residência no corpo do cristão, é
importante não contaminar esse corpo com pecado sexual, indolência,
maus hábitos ou qualquer coisa semelhante”. Pelo contrário, ele esta-
va dizendo algo assim: “Vocês não compreenderam que é o Espírito
quem dá vida ao corpo de Cristo na terra, a igreja, a comunidade dos
redimidos? Ela é o ‘edifício’, o ‘santuário’ em que os trabalhadores têm
laborado. E vocês têm de entender que Deus ama a igreja e guarda-a
com zelo como a habitação do seu próprio Espírito”. Mas existe uma
implicação: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destrui-
rá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (3.17).
À luz dos versículos imediatamente anteriores, essa advertência
é, com certeza, direcionada, em primeira instância, aos construtores
que têm utilizado materiais inflamáveis (madeira, feno e palha), que
não poderão resistir ao fogo no Último Dia. Contudo, é muito prová-
vel que a linguagem generosa de Paulo aplique a advertência a outras
pessoas além dos líderes. Afinal de contas, ele não disse: “Se algum
construtor destruir o santuário de Deus”, e sim: “Se alguém destruir o
santuário de Deus” (ênfase acrescentada). Por meio dessa linguagem
inclusiva, ele podia estar pensando no tipo de dano causado ao santu-
ário de Deus, a igreja, pelos próprios cristãos de Corinto. Ao tirarem
sua atenção do evangelho, enquanto se focalizavam nos aplausos,
aprovação e sabedoria do mundo, aqueles cristãos estavam em risco
de destruir a mensagem que trouxera a igreja à existência.
As maneiras de destruir a igreja são muitas e variadas. O sectaris-
mo a destruirá. A heresia a destruirá. Tirar os olhos da cruz e permitir
que outros assuntos, secundários, dominem a agenda da igreja há de
destruí-la — sem dúvida, talvez de maneira mais lenta do que a here-
sia, mas a longo prazo tão eficaz quanto esta. Edificar a igreja com
conversões superficiais e programas maravilhosos que raramente tra-
zem as pessoas a um conhecimento profundo do Deus vivo também
destruirá a igreja. Entreter as pessoas e nunca estimular a beleza da
santidade ou a centralidade do amor auto-sacrificial edificará uma as-
sembleia de pessoas religiosas, mas destruirá a igreja do Deus vivo.
Fofocas, falta de oração, amargura, permanente falta de conhecimento
das Escrituras, autopromoção, materialismo — todas essas coisas e
muitas mais podem destruir uma igreja. E fazer isso é perigoso: “Se al-
guém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santu-
ário de Deus, que sois vós, é sagrado” (3.17). Cair nas mãos do Deus
vivo é algo terrível.
Os facciosos da igreja de Corinto ignoravam essas verdades, que
muito frequentemente são ignoradas pelos seus correlatos contem-
porâneos. Isso exige auto-exame atencioso e arrependimento íntimo.
O sectarismo ignora a riqueza da herança que nós, cristãos,
por direito desfrutamos (3.18-23)

A primeira parte deste parágrafo de 1 Coríntios 3 (18-21a) é uma


pausa para revisão. Paulo retorna ao contraste entre a sabedoria do
mundo e a de Deus, entre a insensatez do mundo e a loucura de Deus.
Contudo, embora Paulo estivesse, em parte, revendo um dos temas
centrais destes capítulos, também nos levou a um pensamento novo.
Ele começou com uma advertência. À luz do fato de que Deus cuida
de seu santuário e tem como responsáveis aqueles que o destroem,
Paulo escreveu severamente: “Ninguém se engane a si mesmo” (3.18).
Não pense que você pode adotar as filosofias e valores do mundo,
como se não tivessem um impacto profundamente prejudicial à igreja.
Não pense que isso não lhe trará maus resultados. Não se iluda pen-
sando que você, um cristão de grau avançado, tem o evangelho, quan-
do, na realidade, o abandonou e está causando danos à igreja de Deus.
O caminho da verdadeira sabedoria, como Paulo já havia explica-
do em detalhes nos dois primeiros capítulos desta epístola, é ficar ao
lado de Deus. Nesta posição descobrimos que o Todo-Poderoso rever-
te completamente muitos dos valores apreciados pelo mundo. O que o
mundo julga sábio, Deus rejeita como loucura; o que o mundo despre-
za como loucura é nada menos que a sabedoria de Deus. O mundo
ama poder e prestígio; Deus se revela mais poderosamente na cruz,
em sublime e débil fraqueza — todavia, essa “fraqueza” afeta o seu
plano totalmente admirável de redenção, comprovando-se assim mais
forte do que toda a “força” do mundo.
O mundo anela por líderes fortes, mas os líderes da igreja têm de
ser, antes de tudo, servos do Senhor Jesus Cristo. O mundo exibe seus
heróis e gurus; os cristãos lembram-se de que Deus ama escolher os
fracos, humildes e desprezados — os ninguéns — para que nenhuma
pessoa se glorie diante dEle. O mundo tenta impressionar com sua re-
tórica e sofisticação, apreciando mais a forma do que o conteúdo. Os
apóstolos de Jesus Cristo valorizavam a verdade acima do estilo e re-
jeitavam discretamente apoiar-se em qualquer forma que se mostrasse
atraente, diversiva e que colocasse em risco a verdade do evangelho.
Esse é o tipo de inversão que tem de ser confrontada por todos os
que entendem a cruz. “Se alguém dentre vós se tem por sábio neste sé-
culo, faça-se estulto para se tornar sábio. Porque a sabedoria deste
mundo é loucura diante de Deus” (3.18b-19a). Paulo nos leva de volta
aos temas do capítulo 1 e, à luz de seus comentários intervenientes, re-
veste-os de nova e poderosa ênfase. Não se engane, Paulo disse, ser
um cristão envolve harmonizar-se com os valores de Deus em face
dessa grande inversão. E tenha certeza de que Deus conhece o seu co-
ração e nunca se engana. Tampouco Ele é vencido pela sagacidade dos
artifícios e pretensões humanos. “Está escrito: Ele apanha os sábios na
própria astúcia deles [citando Jó 5.3]. E outra vez: “O Senhor conhece
os pensamentos dos sábios, que são pensamentos vãos [citando Sl
94.11]” (1Co 3.19b-20).
A aplicação imediata desta exortação é a proibição franca do sec-
tarismo: “Portanto, ninguém se glorie nos homens” (3.21a). Gloriar-se
a respeito de algum herói ou guru é errado por duas razões. Primeira,
o foco está errado; a focalização se concentra em uma pessoa e não no
Senhor Deus. A analogia extraída da agricultura nos lembra que so-
mente Deus determina a tarefa e pode dar vida. Por isso, somente Ele
deve ser louvado. A analogia extraída da construção civil nos recorda
que Deus é o Juiz e se interessa profundamente com o tipo de edifício,
o tipo de “templo” que estamos edificando. Ele considera os edifica-
dores como responsáveis por sua obra — e, em princípio, ameaça des-
truir aquele que destrói o seu templo. Então, por que devemos gloriar-
nos a respeito de nosso apego a um edificador específico? Paulo já ha-
via defendido a prioridade mais simples e mais fundamental: “Aquele
que se gloria, glorie-se no Senhor” (1.31). Agora, Paulo apresenta a im-
plicação negativa: “Portanto, ninguém se glorie nos homens” (3.21a).
A segunda razão por que é errado gloriar-se a respeito de algum
líder humano é que isso nos afasta da herança mais ampla que temos
por direito. Talvez você esteja se gloriando porque julga ter a melhor
parte; de fato, está roubando a si mesmo, porque está se restringindo a
apenas uma parte da herança que lhe pertence em Cristo Jesus.
Esse é o argumento de Paulo nas palavras finais deste parágrafo:
“Tudo é vosso: seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a
vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras, tudo é
vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus” (3.21b-23). Parte do signifi-
cado desta declaração é bastante clara. Paulo, Apolo, Cefas (e, em
princípio, qualquer outro excelente líder da igreja), todos contribuem
à igreja. Eles pertencem à igreja, da mesma maneira que os lavradores
pertencem ao campo e à sua colheita, e os construtores e os pedreiros
pertencem todos ao projeto de construção do edifício. Focalizar uma
parte do projeto como se ela fosse tudo é o mesmo que excluir-se do
projeto como um todo. Nutrir afeição e lealdade indevida e exclusiva
para com um líder significa depreciar o que deve ser recebido dos de-
mais líderes. Em outras palavras, o sectarismo ignora a riqueza da he-
rança que possuímos como cristãos.
Mas Paulo apresentou essa verdade de uma maneira que vai além
das pessoas. “Tudo é vosso”, ele disse. E, na lista dada em seguida,
embora comece consigo mesmo, Apolo e Cefas, ele acrescentou: “Seja
o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as
futuras, tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus”. O que ele
queria dizer?
As cinco coisas que acompanham os nomes “Paulo, Apolo e Ce-
fas” representam as tiranias fundamentais da vida humana, as coisas
que nos escravizam, que nos mantém cativos. (1) O mundo nos espre-
me em seu molde (cf. Rm 12.1-2). Exige tanto de nossa atenção e leal-
dade que raramente dedicamos pensamentos e afeições ao mundo por
vir. Este mundo nos prende; não nos encoraja a erguer-nos às inexplo-
ráveis dimensões do novo céu e da nova terra. (2) De modo semelhan-
te, a vida presente reivindica ser tratada como se fosse digna de respei-
to primordial. Apegamo-nos à vida como se a Bíblia jamais dissesse
que nossa vida é como um vapor que desaparece rapidamente, quan-
do passam os primeiros sopros da brisa. Esquecemos que Jesus nos
instruiu a não temermos aqueles que podem tirar esta vida, e sim te-
mermos a Ele, que “pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o
corpo” (Mt 10.28). Então, há sabedoria em atendermos incessantemen-
te às fortes pressões desta vida, se não pensamos na vida por vir? No
término desta vida, há somente (3) morte, que paira sobre nós, o espec-
tro final. A morte é uma tirania da qual ninguém escapa. Seu poder se
estende muito além da mera experiência. Ela se manifesta no horizon-
te, lança suas grandes sombras e nos constrange durante toda a nossa
existência. A própria tentativa de vivermos suprimindo o pensamento
da morte é uma reação abismal que atesta silenciosamente o poder de
sua tirania. Isso também é feito pelo nosso hábito de estabelecer “al-
vos de vida”, com base na mórbida suposição de que teremos mais ou
menos uns setenta anos de existência. Como mudariam os nossos al-
vos de vida se planejássemos não somente para os setenta anos de
existência neste mundo, mas também para a eternidade? Isso não esta-
va incluído no que Jesus quis dizer quando exortou-nos a acumular te-
souros no céu (Mt 6.19-21)? Mas achamos muito difícil atender a essa
admoestação, porque a morte nos tiraniza. (4) A urgência contínua do
presente e (5) as vagas promessas e ameaças do futuro se combinam
para afastar a nossa atenção de Deus, que nos sustenta em suas mãos,
tanto no presente como no futuro.
Esse era o alvo do ensino de Paulo. Se pertencemos verdadeira-
mente a Cristo, e Cristo pertence a Deus, consequentemente pertence-
mos a Deus. E que Deus! Ele é soberano sobre essas tiranias insignifi-
cantes. Tem mostrado seu grande amor ao seu povo. Pagou por eles o
preço da redenção, a morte de seu Filho amado. Todas essas cinco rea-
lidades parecem diferentes, se as examinarmos com base na posição
segura de pertencermos a Jesus. (1) Este mundo se torna a passagem
para o próximo. Deus nos colocou aqui; e, reconhecendo seu domínio
soberano, nos deleitamos nos excelentes dons que Ele nos dá aqui, en-
quanto reconhecemos que a lealdade a Cristo significa que não “so-
mos” mais dessa ordem caída que está em rebelião contra o seu Se-
nhor. Não, não pertencemos mais a ela. Contudo, num sentido mais
importante, este mundo é nosso. Tudo pertence ao nosso Pai celestial,
e somos seus filhos. Portanto, tudo é nosso. É claro que o mundo não é
“nosso”, para que o exploremos de modo egoísta e insensível. Ele nos
pertence somente em conexão com nosso relacionamento com Deus, o
Pai. Mas isso significa que pertencemos Àquele que um dia criará no-
vos céus e nova terra e nos capacitará a nos deleitarmos neles. Somos
herdeiros de Deus; somos co-herdeiros com Cristo (Rm 8.17). Se sofre-
mos neste mundo, como Jesus sofreu, isso é algo relativamente banal,
levando em conta o fato de que Deus, em sua graça, nos uniu no “lado
vencedor”. Não podemos mais ser tiranizados por este mundo, pois
seu domínio não é absoluto. Nossa fidelidade pertence a Outro, e nos-
sa visão está lançada para além deste mundo, para o mundo por vir.
Coisas semelhantes podem ser ditas a respeito das outras tiranias.
(2) A vida presente não é mais aquilo ao que devemos nos apegar. É a
esfera em que podemos servir a nosso Deus e Redentor, em antecipa-
ção à vida por vir. (3) A morte, aquele terrível “ultimo inimigo” (1Co
15.26), não pode ter a palavra final, pois nosso Senhor venceu a morte.
A sua ressurreição pressagia a nossa. Em um nível, a morte pode ser
saudada, pois, como Paulo, reconhecemos que estar ausente do corpo
significa habitar com o Senhor (2Co 5.8). E entendemos o que Paulo
quis dizer, quando afirmou: “Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é
lucro” (Fp 1.21). (4) O presente é o ambiente em que eu vivo e sirvo a
Deus, mas não pode devorar-me. Deus é tão soberano sobre o presen-
te como sobre o passado e o futuro. (5) E, se Ele exerce domínio sobre
o futuro, este se torna algo que não preciso temer, e sim aceitar — por-
que pertenço a Cristo, e Cristo, a Deus, que controla o futuro.
Essas tiranias — “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as
coisas presentes, sejam as futuras” — não mais nos dominam. Foram
vencidas decisivamente. Estão sob o domínio do Redentor soberano;
e, visto que pertencemos à companhia dos redimidos, elas são nossas.
Neste fato, há uma abrangência de visão que é tragicamente per-
dida quando todo o nosso cristianismo significa apenas “achar realiza-
ção”, ou buscar paz pessoal, ou, pior ainda, identificar-nos com o gru-
po “certo” ou com um guru cristão. Somos de Deus, e isso transforma
tudo. Se entendemos verdadeiramente isso, não há mais tiranias. Que-
remos tudo que Deus tem para nós, tanto nesta como na vida por vir.
Isso significa que nunca reduziremos as dimensões do cristianismo bí-
blico determinadas por Deus a tudo que pode ser aceito por um único
ensinador ou obreiro cristão, não importando quão capaz ou sábio ele
seja. O sectarismo é completamente insensato. Ele causa danos à igre-
ja, empobrece aqueles que o adotam, porque os afasta da riqueza da
herança que pertence a todos os filhos de Deus.
O que isso pode significar para nós hoje, em termos práticos? Cer-
tamente não significa que todo líder cristão e toda herança cristã pos-
suem o mesmo valor. Em outras passagens, Paulo aborda a importân-
cia do discernimento e da avaliação das coisas para seguir o que é me-
lhor (cf. Fp 1.9-11). Também não significa que tudo que se identifica
como “cristão” é necessariamente cristão. Mas significa que se você é,
por exemplo, um luterano, você não deve fugir daquilo que é certo e
bom nos wesleyanos, reformados, carismáticos, anabatistas e outros
segmentos (É claro que eu poderia ter reescrito essa sentença em qual-
quer outra combinação).
Na igreja local, isso significa que ela não celebrizará um líder es-
pecífico (preferivelmente, um líder aposentado ou falecido!), em detri-
mento de todos os outros. Em última análise, fazer isso é o mesmo que
atribuir-lhe poderes tirânicos. Isso fomenta o sectarismo e ignora a
ampla e rica herança que possuímos porque somos cristãos e pertence-
mos a Deus. E, no sentido já expresso, o que pertence a Deus também
pertence a nós. Devemos ter conflitos em nossas igrejas por causa de
música? Devemos ter a melhor música, a mais centralizada em Deus, a
mais fiel e a mais edificante. No entanto, a música tem de ser uma
questão de estilo? Não há nada a ganharmos da exposição à compa-
nhia dos santos, em muitas partes do mundo, que expressam sua ado-
ração ao Salvador com uma riqueza de hinos que não podemos esgo-
tar, mas que ignoramos em detrimento de nós mesmos?
“Tudo é vosso, e vós, de Cristo, e Cristo, de Deus.”

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO

1. De acordo com Paulo, quem são os cristãos “carnais” ou “munda-


nos”?

2. Como se manifesta a espiritualidade deles?

3. Quais são as principais verdades sobre os líderes cristãos que os


versículos 5-17 nos ensinam?

4. De quem são as obras que serão queimadas conforme o versículo


15? Formule a advertência em suas próprias palavras.

5. Explique em suas palavras os últimos versículos do capítulo.


CA PÍ TU LO 4
A CRUZ E A LIDERANÇA CRISTÃ
(1 CORÍNTIOS 4)

1Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e
despenseiros dos mistérios de Deus. 2Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é
que cada um deles seja encontrado fiel. 3Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser jul-
gado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a mim mesmo. 4Porque
de nada me argúi a consciência; contudo, nem por isso me dou por justificado, pois quem
me julga é o Senhor. 5Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o
qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará
os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá o seu louvor da parte de Deus.

6Estas coisas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa
causa, para que por nosso exemplo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito; a
fim de que ninguém se ensoberbeça a favor de um em detrimento de outro. 7Pois quem é
que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te
vanglorias, como se o não tiveras recebido?

8Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis
para que também nós viéssemos a reinar convosco. 9Porque a mim me parece que Deus
nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; por-
que nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens. 10Nós somos lou-
cos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo; nós, fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e
nós, desprezíveis. 11Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofe-
teados, e não temos morada certa, 12e nos afadigamos, trabalhando com as nossas pró-
prias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos;
13quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considera-
dos lixo do mundo, escória de todos.

14Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admo-
estar como a filhos meus amados. 15Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores
em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo
Jesus. 16Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores. 17Por esta causa, vos
mandei Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus
caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja.

18Alguns se ensoberbeceram, como se eu não tivesse de ir ter convosco; 19mas, em


breve, irei visitar-vos, se o Senhor quiser, e, então, conhecerei não a palavra, mas o poder
dos ensoberbecidos. 20Porque o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder.
21Que preferis? Irei a vós outros com vara ou com amor e espírito de mansidão?

Muitas pessoas, em um momento ou outro, sonham consigo mes-


mas tornando-se grandes líderes. O que a sua mente imagina?
É claro que isso depende, em parte, do campo em que ela se ocu-
pa. Ser um líder, por exemplo, no basquete, não exige os mesmos dons
exigidos de ser um líder na Associação Americana de Bordado. Ape-
sar disso, há qualidades em comum. Aquele que devaneia a respeito
de ser líder em qualquer campo imagina que isso implica ser o melhor
ou, pelo menos, melhor do que muitos outros — ser bem-sucedido
onde outros fracassam, ser firme onde outros tropeçam, criar onde ou-
tros apenas fazem a sua parte, ganhar elogio e aplauso, talvez depois
de alguma rejeição e dificuldade inicial. Ser líder pode significar fama,
dinheiro e algumas isenções de responsabilidades e da existência enfa-
donha de mortais ordinários. Ser um líder significa ganhar respeito.
Raramente aqueles que sonham com liderança, mas nunca a experi-
mentaram, pensam nas responsabilidades, nas pressões e nas tenta-
ções que os líderes enfrentam. Quase nunca eles se focalizam na res-
ponsabilidade, no serviço e no sofrimento.
Os primeiros capítulos de 1 Coríntios nos apresentam alguns ele-
mentos da liderança cristã, embora este não seja o tema primário da
epístola. Em 1 Coríntios 1 a 4, Paulo estava lidando primariamente
com o assunto do sectarismo que dividia a igreja por meio de conten-
das, ciúmes e exaltação pessoal. Contudo, visto que grande parte dos
conflitos surgia do hábito de grupos diferentes da igreja se associarem
a vários líderes cristãos bem conhecidos (“Eu sou de Paulo, e eu, de
Apolo, e eu, de Cefas”, e assim por diante, 1.11-12), Paulo achou ne-
cessário corrigir vários entendimentos errados a respeito da natureza
da liderança cristã genuína. Aqueles crentes estavam adotando muitos
modelos do mundo ao seu redor. Estavam apaixonados pelos mestres
sofistas, muitos dos quais valorizavam a forma acima do conteúdo, o
prestígio acima da humildade, o estoicismo acima do amor, uma filo-
sofia estruturada (“sabedoria”) acima das confissões sinceras de ig-
norância e limitação do conhecimento humano, a retórica acima da
verdade, o dinheiro acima das pessoas e a reputação acima da integri-
dade.
Nesse tipo de contexto, Paulo, conforme descobrimos, retornou
aos ensinos básicos e explicou o que significa confessar a Cristo cruci-
ficado. Mas ele também precisou livrar os seus leitores da tendência
perniciosa de celebrizar certos líderes cristãos e ignorar outros. Assim,
em 1 Coríntios 3, Paulo insistiu, entre outras coisas, que os líderes cris-
tãos são servos de Cristo e não devem receber a lealdade reservada ex-
clusivamente para Deus. De fato, como servos, eles são responsáveis
diante de Deus pelo tipo de ministério que exercem. Visto que Deus
cuida de sua igreja, esses terão de prestar contas a Ele. De fato, Deus
até ameaça punir todo aquele que destrói sua igreja.
Em 1 coríntios 4, Paulo ainda confrontava o sectarismo dos cren-
tes de Corinto. Por isso, quando falou sobre a natureza da liderança
cristã, ele a relacionou ao assunto que tinha à mão: “Estas coisas, ir-
mãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por vossa
causa” (4.6). O fato é que, ao confrontar a tendência dos coríntios para
contendas e sectarismo, Paulo nos deu uma grande percepção quanto
ao que significa ser um líder cristão. E faz isso com base na perspecti-
va que veremos neste capítulo. Certamente isso não é tudo que a Bí-
blia diz sobre a natureza da liderança que agrada a Deus. Todavia, os
princípios articulados em 1 Coríntios 4 têm importância capital. Estão
todos vinculados à cruz.

A LIDERANÇA CRISTÃ ESTÁ ENCARREGADA DOS


“MISTÉRIOS” DE DEUS (4.1-7)

Paulo começou dizendo aos coríntios o que eles deviam pensar


dos líderes cristãos: “Assim, pois, importa que os homens nos consi-
derem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de
Deus” (4.1). Dois elementos se destacam, e ambos estão vinculados ao
que Paulo já explicara. (1) Os líderes cristãos são “ministros de Cris-
to”. A linguagem é reminiscente da analogia da agricultura apresenta-
da no capítulo 3 (embora a palavra “ministro” seja diferente). Os líde-
res cristãos não tentam ser gurus independentes e mestres que sabem
tudo. Eles se veem apenas como servos e querem que os outros cris-
tãos os vejam dessa maneira. Mas eles são servos de um Senhor espe-
cífico: servem a Jesus Cristo. (2) No âmago da comissão que recebe-
ram do seu Senhor está uma tarefa particular. Eles são “despenseiros
dos mistérios de Deus”. Você recordará que em 1 Coríntios 2 Paulo ex-
plicou a natureza desse mistério. Ele não estava dizendo que o evan-
gelho é “misterioso”, e sim que, em algumas maneiras, ele esteve ocul-
to antes da vinda de Jesus Cristo e foi agora revelado. O evangelho é,
em si mesmo, o conteúdo desse mistério, a sabedoria de Deus resumi-
da na ênfase da pregação de Paulo: Jesus Cristo e este crucificado.
Evidentemente, há um sentido em que todos os cristãos são “mi-
nistros [servos] de Cristo” e todos são despenseiros do evangelho, “os
mistérios de Deus”. Contudo, Paulo deixou claro que estava se diri-
gindo primariamente aos líderes. Ele escreveu em seguida: “Estas coi-
sas, irmãos, apliquei-as figuradamente a mim mesmo e a Apolo [am-
bos líderes], por vossa causa” (4.6, ênfase acrescentada), mostrando as-
sim que ainda mantinha a distinção entre os líderes e os outros que
predominavam no texto de 1 Coríntios 3. Paulo não estava dizendo
que ele, Apolo e outros líderes eram servos de Cristo, enquanto os ou-
tros cristãos não eram, e que eles tinham o encargo dos mistérios de
Deus e os outros crentes não sabiam nada a respeito desses mistérios.
Os líderes não constituem uma classe sacerdotal singular. Pelo contrá-
rio, o que, em certo sentido, é exigido de todos os crentes é requerido
especialmente dos líderes das igrejas. Há uma diferença quanto ao
grau. Essa foi a razão por que Paulo disse: “Admoesto-vos... a que se-
jais meus imitadores” (4.16).
Aqueles de nós que desejam ser líderes nas igrejas hoje têm de co-
meçar pelo reconhecimento de que não há nenhuma qualificação espe-
cial, elitista. Essa observação está em completa harmonia com as listas
de qualificações para a liderança apresentadas em outras passagens
do Novo Testamento. Por exemplo, quando Paulo delineou em 1 Ti-
móteo 3.1-7 as qualificações para um presbítero (“bispo”), a caracterís-
tica mais admirável daquela lista é que ela não contém nada extraordi-
nário. Não contém nada a respeito de inteligência, decisão, iniciativa,
riqueza, poder. Quase tudo na lista se encontra também em outras
passagens do Novo Testamento que expõem qualidades requeridas de
todos os cristãos. Por exemplo, o presbítero não deve ser “dado ao vi-
nho” (1Tm 3.3) — e isso não significa que os demais crentes têm per-
missão de embriagarem-se (Ef 5.18). O presbítero deve ser hospitaleiro
(1Tm 3.2), mas todos os cristãos também devem ter essa qualidade
(Hb 13.2). Os únicos elementos da lista de qualificações dos presbíte-
ros que não se aplicam, em qualquer outra passagem, a todos os cris-
tãos são duas: (1) não ser um “neófito” (1Tm 3.6), qualidade essa que
certamente não pode ser aplicada aos novos cristãos, e (2) ser “apto
para ensinar” (1 Tm 3.2), qualidade essa conectada às responsabilida-
des peculiares do ministério de pastor/presbítero/bispo.
Portanto, temos de reconhecer, com base em 1 Timóteo 3 e 1 Co-
ríntios 4, que as exigências da liderança cristã não separa um cristão
introduzindo-o em categorias especiais e elitistas em que novas regras
e privilégios são estabelecidos. Pelo contrário, a liderança cristã exige
uma focalização nas qualidades e virtudes que devem estar presentes
em todos os cristãos, em todos os lugares. Isso é o que torna possível
os líderes cristãos servirem como modelos e ensinadores na igreja de
Deus.
Neste contexto de 1 Coríntios, os dois elementos da liderança cris-
tã que Paulo destaca são bem claros. Os líderes cristãos são servos de
Cristo e foram encarregados do evangelho, os mistérios de Deus. Se
todos os cristãos devem servir a Cristo, quanto mais os seus líderes
devem fazê-lo inequivocamente? Se todos os cristãos desfrutam da sa-
bedoria de Deus transmitida pelo Espírito Santo, quanto mais os seus
líderes, que foram encarregados dessa grande herança, devem admi-
nistrá-la sabiamente?
É importante pensar no que esses elementos significam. De fato,
quando entendidos de modo apropriado, eles se tornam um só. A ex-
pressão “despenseiros dos mistérios de Deus” poderia ser traduzida
mais literalmente por “mordomos dos mistérios de Deus”. É verdade
que os mordomos desfrutavam uma posição de confiança, mas, em
uma sociedade mais hierárquica do que a nossa, essa posição era co-
mumente ocupada por criados ou até por escravos. E confiança lhes
era dada em sua função como criados, como escravos. Quando os líde-
res cristãos são chamados “ministros de Cristo”, a obrigação específica
colocada sobre eles como servos de Cristo é a obrigação de promover
o evangelho. Isso é tudo que está implícito em ser “despenseiro dos
mistérios de Deus”. O que significa ser um ministro de Cristo é estar
obrigado a promover, por palavras e exemplo, o evangelho do Messi-
as crucificado.
Isso é absolutamente fundamental. Não há uma liderança cristã
válida que não pulse com esse mandato. No Ocidente, temos de nos
arrepender de nossa eterna fascinação por liderança que tem mais sa-
bor de modelos hierárquicos (eu sou o chefe e, para todos os que estão
sob minha autoridade, o que eu disser deve ser feito) ou de modelos
democráticos (dê às pessoas o que elas querem; faça outra consulta,
realize outra pesquisa popular e esfregue onde elas sentem coceiras).
Toda liderança cristã válida, por mais variado que seja o seu estilo,
por mais sábio que seja o seu uso das descobertas sociológicas, por
mais diversificadas que sejam as suas funções, tem de começar com
este reconhecimento fundamental: os líderes cristãos estão encarrega-
dos do evangelho, os mistérios de Deus que estiveram ocultos em épo-
cas passadas e que agora estão sendo proclamados, por meio do mi-
nistério deles, a homens e mulheres em todos os lugares. Além disso,
eles devem acautelar-se de assumir essa posição, se o seu interesse
verdadeiro está em outras coisas. Os servos de Cristo têm um encargo
fundamental colocado sobre eles: o evangelho lhes foi confiado, e todo
o ministério deles gira em torno de torná-lo conhecido e de encorajar,
por palavra, exemplo e disciplina, o povo de Deus a vivenciá-lo.
Com base nessa percepção fundamental quanto à natureza da li-
derança cristã, Paulo poderia ter descrito muitas consequências possí-
veis. De fato, ele resolveu descrever apenas duas.
Os líderes cristãos têm de se mostrar fiéis Àquele que lhes designou sua
tarefa essencial (4.1-4). A lógica de Paulo é fácil de ser deduzida. Ele in-
sistira que os líderes cristãos são aqueles aos quais foram confiados
“os mistérios de Deus” (4.1). Qualquer leitor atento podia imaginar a
consequência: “Ora... o que se requer dos despenseiros é que cada um
deles seja encontrado fiel” (4.2). Mas, para com quem? Não para com a
igreja. Aqueles que são ministros de Cristo, aos quais foram confiados
os mistérios de Deus, não se veem como vencedores de confrontações
populares — nem mesmo no âmbito da igreja. Isso era o que Paulo ti-
nha em mente quando disse: “Todavia, a mim mui pouco se me dá de
ser julgado por vós ou por tribunal humano; nem eu tampouco julgo a
mim mesmo” (4.3). Há somente uma pessoa cujo “Bem feito!”, no Últi-
mo Dia, será realmente importante. Em comparação, a aprovação ou
desaprovação da igreja não significa nada.
O importante também não é a sua própria estimativa de seu mi-
nistério. Sentir-se bem quanto a seu ministério pode ter alguma utili-
dade em determinadas ocasiões, mas com certeza não tem significado
final. Você pode pensar no seu ministério acima do que Deus pensa
sobre ele. Mas, se você está constantemente tentando agradar a si mes-
mo, a fazer da auto-estima o seu alvo final, então está esquecendo-se
de quem você é servo, a quem deve esforçar-se para agradar. Por isso,
Paulo escreveu com franqueza: “Eu tampouco julgo a mim mesmo”
(4.3). Ele não estava dizendo que não havia lugar na sua vida para
auto-exame ou autodisciplina; seus próprios escritos contradizem esse
entendimento (cf. 1Co 9.24-27; 2Co 13.5). Paulo queria dizer que seu
próprio julgamento de si mesmo podia não ter importância decisiva.
Ele declarou: “Porque de nada me argúi a consciência” (4.4). Ou seja,
quando ele escreveu essas palavras, não estava consciente de qualquer
pecado ou erro escondido furtivamente em sua vida. Mas ele não sa-
bia tudo a respeito de si mesmo. Embora a sua consciência não o ar-
guisse, ele podia estar enganado quanto a si mesmo. Ainda que tives-
se uma consciência limpa, Paulo disse, “nem por isso me dou por jus-
tificado”. No final do dia, havia uma só opinião sobre o seu ministério
que era realmente importante: “Quem me julga é o Senhor” (4.4).
A primeira consequência deste ensino de Paulo é bem simples. Os
líderes cristãos dignos desse nome estarão sempre conscientes de que
devem lealdade dedicada e comprometida somente a uma Pessoa: o
Senhor que os comprou. Por inferência, é importante que os servos do
Senhor mantenham a paz entre o povo do Senhor e ganhem a confian-
ça e o respeito deles. Pode haver lugar para uma carta de recomenda-
ção (cf. Fp 2.19). Contudo, a lealdade crucial de uma líder não se ma-
nifesta à igreja, ou a qualquer líder individual, ou a qualquer tradição.
A sua lealdade é devida somente ao Senhor e aos “mistérios de Deus”,
que o designou. E, se isso às vezes significa que haverá um choque de
vontades entre esse líder e a igreja, que assim seja. A loucura do Cristo
crucificado tem de prevalecer, mesmo quando toda a igreja toma um
caminho que a afasta da centralidade do evangelho. O que é mais trá-
gico é o triste espetáculo de supostos líderes cristãos que buscam ar-
duamente a aprovação de colegas e dos membros da igreja e, por isso,
desviam seu foco do evangelho e do “Bem feito!” do Messias crucifica-
do.
Aqueles que seguem os líderes cristãos têm de reconhecer que estes são
chamados para agradar a Cristo — e, portanto, devem se refrear de julgá-los
(4.5-7). Em outras palavras, se é importante para os líderes cristãos ve-
rem a si mesmos como servos de Cristo encarregados de uma comis-
são magnífica, também é importante que o restante da igreja os veja
como responsáveis perante o Senhor e evitem julgá-los, como se a
igreja fosse o árbitro final do sucesso ministerial.
É fácil explorar esta passagem para que diga mais do que ela real-
mente diz. Nenhum leitor atento pode imaginar que Paulo estava abo-
lindo todas as funções de julgamento na igreja. Afinal de contas, no
próximo capítulo desta epístola, ele repreende severamente a igreja
por deixar de agir disciplinarmente em um caso de imoralidade (1Co
5). A autoridade disciplinar da igreja estende-se até sobre os líderes.
Conforme o último capítulo de 2 Coríntios, Paulo esperava que os
crentes exercessem disciplina sobre os falsos apóstolos, antes que ele
chegasse à cidade e se sentisse constrangido a tomar ações drásticas.
As fofocas casuais a respeito dos presbíteros da igreja devem ser igno-
radas, mas, se forem provadas como verdadeiras, há uma ocasião para
disciplinar os líderes (1Tm 5.19-20). Além disso, certamente ninguém
pode imaginar que Paulo insistia nesta passagem que os cristãos não
têm qualquer obrigação de julgarem a si mesmos, a fim de provarem a
realidade e a consistência de sua fidelidade a Cristo. Embora nenhu-
ma opinião do cristão acerca de si mesmo tenha importância final, isso
não impediu Paulo de dizer, nas circunstâncias apropriadas: “Exami-
nai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mes-
mos” (2Co 13.5).
Se considerarmos mais amplamente as Escrituras, acharemos fa-
cilmente passagens que proíbem o “julgar” e outras passagens que o
ordenam. Por exemplo, acharemos, por um lado, Jesus dizendo: “Não
julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que jul-
gardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido,
vos medirão também” (Mt 7.1-2). Por outro lado, ele disse: “Não jul-
gueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça” (Jo 7.24). Essa ten-
são contínua é bem forte em todo o Novo Testamento. Há muitas pas-
sagens que condenam o que podemos chamar de “julgamentalismo”.
Ao mesmo tempo, um capítulo após outro exorta os cristãos a serem
discernidores, a distinguirem o certo do errado, a buscarem o que é
melhor, a exercerem disciplina na igreja, e assim por diante — funções
que exigem o uso correto do julgamento.
Atingir o equilíbrio nesta área nunca foi fácil. Talvez tenha se tor-
nado ainda mais difícil em nossos dias, por conta do ataque violento
do pluralismo. O tipo de pluralismo ao qual me refiro ensina que to-
das as opiniões são iguais, de modo que a única opinião necessaria-
mente errada é aquela que diz que a outra opinião está errada. Aplica-
da à religião, nenhuma fé tem o direito de afirmar que outra fé é erra-
da; isso é visto como intolerante, fanático, ignorante. Nessa atmosfera,
as passagens bíblicas que condenam o julgamentalismo são regular-
mente mostradas como se fossem tudo o que a Bíblia diz sobre o as-
sunto. Em muitos círculos hoje, “não julgueis, para que não sejais jul-
gados” (Mt 7.1) tornou-se o versículo mais conhecido de toda a Bíblia,
substituindo facilmente João 3.16. Todavia, eles esquecem comumente
que, em seguida, Jesus falou a seus discípulos: “Não deis aos cães o
que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas” (Mt 7.6); e
isso pressupõe que alguém tem de julgar quem são os porcos e os
cães. Em outras palavras, o pluralismo tem enviesado e investido
grande quantidade de energia em apenas um lado do que a Bíblia
apresenta.
Podemos ganhar estabilidade e equilíbrio se lembrarmos o tipo
de pessoas que os dois lados abordam. Proibições dirigidas contra a
atitude de julgar têm em vista a justiça própria das pessoas que dese-
jam proteger o seu território. Essas pessoas são, com frequência, muito
legalistas, têm todas as respostas certas, querem desesperadamente
elevar seu grupo acima dos outros e estão em perigo constante de
usurparem o lugar de Deus. Em contraste, as exortações bíblicas no
sentido de sermos discernidores ou julgarmos bem, em algumas cir-
cunstâncias, são dirigidas contra aqueles que são negligentes e indisci-
plinados quanto às coisas santas, em especial à Palavra de Deus. Essas
pessoas costumam acompanhar a maioria, em vez de pensarem no
que está envolvido na lealdade a Deus e à sua verdade, em determina-
do contexto cultural. É totalmente desastroso apelar ao julgamento quando
a situação exige tolerância ou proibir todo julgamento quando isso é exata-
mente o que é necessário. Ambos os erros causam danos sérios à igreja e
refletem uma mente indisposta a avaliar seu procedimento por meio
do equilíbrio e sensatez da Palavra de Deus.
O que estava acontecendo na igreja de Corinto? Parece que al-
guns crentes estavam prontos a rejeitar certos líderes cristãos, porque
preferiam seguir outro líder como guru. Elevar um líder e oferecer-lhe
a lealdade que deve ser dada somente a Deus é muito mau. Rejeitar
toda a autoridade de um líder cristão revela uma terrível falta de cor-
tesia e coloca em lugar de Deus um juiz designado pela própria pes-
soa.
Duas outras considerações devem controlar nossa tendência de
julgar os outros. (1) Não sabemos o fim da história. Alguns que come-
çam bem terminam mal. Outros que começam devagar, hesitando, ter-
minam com um triunfo próspero. “Portanto, nada julgueis antes do
tempo, até que venha o Senhor” (4.5a). Não conhecemos os motivos
das pessoas que estamos julgando. Isso é uma prerrogativa reservada
somente para Deus, “o qual não somente trará à plena luz as coisas
ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos cora-
ções” (4.5b). Há alguns líderes que ministram de modo competente e
podem agradar grandes multidões, mas seus corações são pântanos de
lascívia, arrogância e ambição. Há outros, talvez menos dotados, que
lutam silenciosa e fielmente contra os grandes desapontamentos e
pressões, mas seu coração clama: “Eis-me aqui. Envia-me. Torna-me
tão santo, amável e útil quanto um pecador perdoado pode ser”. As
motivações íntimas não devem ser levadas em conta? E quem pode fa-
zer isso, senão Deus?
Talvez a característica mais notável deste parágrafo de 1 Coríntios
seja a maneira como ele termina. Visto que Paulo pensava no dia do
Juízo Final, ele deveria ter dito: “Naquele dia, cada um receberá a sua
recompensa de Deus”. Mas, em vez disso, ele falou: “Então, cada um
receberá o seu louvor da parte de Deus” (4.5c). Como isso é maravi-
lhoso! O Rei do universo, o Soberano que suportou nossa rebeldia in-
cessante e buscou-nos ao preço da morte de seu Filho, consumou nos-
sa redenção por amar-nos! Ele é um Pai sábio que conhece os meios de
encorajar os mais frágeis esforços de seus filhos. O que essa maneira
de concluir o parágrafo nos mostra é que, neste caso, pelo menos,
Deus julga menos severamente do que os juízos designados pelas pró-
prias pessoas na igreja. Paulo pressupõe que os líderes em questão
não devem ser disciplinados, evitados ou ignorados; eles são líderes
cristãos verdadeiros (bona fide) e, no Último Dia, o próprio Deus os
elogiará.
É claro que isso não significa que todo líder cristão exerce seu mi-
nistério isento de qualquer repreensão. Barnabé e Pedro se mostraram
incoerentes em Antioquia (Gl 2.11-14). Paulo foi impaciente com João
Marcos (At 15.37-40); Apolo necessitava de mais instrução para corri-
gir sua pregação (At 18.24-28). Em todos os casos, algum discernimen-
to, algum julgamento por parte dos cristãos era necessário. O princí-
pio em favor do qual Paulo argumentava nesta passagem não levava à
conclusão de que os cristãos devem ser tão medíocres que não façam
qualquer distinção. Só porque os calvinistas têm coisas a aprender de
Wesley, e os wesleyanos, de Calvino, isso não significa que ambos es-
ses homens estavam certos em tudo que diziam e ensinavam. Paulo
não estava isentando os cristãos de sua responsabilidade de discernir
e provar todos os ensinos por meio das Escrituras, a fim de seguir o
melhor. Pelo contrário, ele estava condenando aquele tipo de julga-
mento que rejeita um líder cristão somente porque ele não se enqua-
dra perfeitamente em meu partido, ou porque parece competir com
meu guru preferido, ou porque não está sob minha influência.
Sem dúvida, os líderes cristãos cometem todos os tipos de erros e
dizem todos os tipos de coisas insensatas. Todavia, eles não são mario-
netes que a igreja deve contratar ou despedir como se fossem nada
mais do que seus empregados. A igreja não é o patrão e o pastor, o
empregado. Tanto o líder cristão como a igreja têm um supremo pa-
trão — o próprio Jesus Cristo. O ideal é que a igreja e o líder traba-
lhem em harmonia sob a direção de um único Cabeça. Na prática,
quando a igreja se afasta do evangelho, talvez seja necessário o líder
tomar ações drásticas (como em 2 Coríntios 13). Quando o líder se
afasta, é necessário que a igreja aja. Mas ambos os lados têm de reco-
nhecer que há apenas um Cabeça. Na situação dos cristãos de Corinto,
Paulo julgou importante que eles reconhecessem que os líderes cris-
tãos são chamados primariamente a servir ao Senhor Jesus Cristo. Por-
tanto, a igreja não tem o direito de permanecer em juízo a respeito de-
les.
Embora Paulo tenha formulado seu argumento de maneira um
tanto abstrata, aparentemente ele pensava no sectarismo explícito na
igreja de Corinto. “Estas coisas, irmãos, apliquei-as[14] figuradamente
a mim mesmo e a Apolo, por vossa causa, para que por nosso exem-
plo aprendais isto: não ultrapasseis o que está escrito” (4.6a). Essa cita-
ção de Paulo não se encontra nas Escrituras. Talvez fosse um slogan
comum na igreja primitiva, semelhante a “prenda-se ao texto”. Por
elevarmos o critério do gosto pessoal ao nível que condicionou os co-
ríntios a rejeitarem alguns líderes, os crentes de Corinto não se pren-
deram à revelação bíblica; antes, estavam indo além dessa revelação.
Uma pessoa pode distorcer facilmente a verdade e o equilíbrio da Es-
critura, indo além do que ela afirma, e negar algumas partes dela. Se
nesses pontos aqueles crentes se apegassem à orientação bíblica, ne-
nhum deles se ensoberbeceria “a favor de um em detrimento de ou-
tro” (4.6).[15]Como poderiam? Teriam mais interesse em “gloriar-se”
no Cristo crucificado: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”
(1.31). Exaltar uma pessoa entre as outras redimidas pelo Messias cru-
cificado é abominável.
Em qualquer caso, Paulo argumentou, se você recebeu alguma
ajuda, discernimento ou fortalecimento especial sob o ministério de
um líder específico, isso não é um dos melhores dons de Deus para
você, em vez de um motivo de orgulho? Ainda que trabalhemos ardu-
amente, a habilidade de trabalhar em grande medida não é o fruto de
boa saúde e de um treinamento que produziu disciplina e responsabi-
lidade? “Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não te-
nhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não
tiveras recebido?” (4.7).
Assim Paulo identifica o âmago do problema. Esse tipo de julga-
mento é motivado por orgulho. A ironia é que essa arrogância repug-
nante estava sendo direcionada contra aqueles a quem haviam sido
confiados “os mistérios de Deus”, o evangelho do Messias crucificado,
as boas-novas pelas quais essas pessoas dadas a julgamentos haviam
sido salvas. Como alguém sensato podia ser arrogante junto à cruz?

LIDERANÇA CRISTÃ SIGNIFICA VIVER À LUZ DA CRUZ


(4.8-13)

A linguagem de Paulo agora é embebida em ironia pungente. Os


crentes de Corinto haviam se tornado presunçosos, satisfeitos consigo
mesmos, sossegados, orgulhosos. “Já estais fartos” — resultando em
que não sentiam necessidade do que ainda não tinham. “Já estais ri-
cos” — por isso, não buscavam a riqueza espiritual ou não atentavam
à ordem de Jesus para acumularem tesouros nos céus. “Chegastes a
reinar” — ou melhor, “começastes o vosso reino”. Paulo não estava fa-
lando a respeito do status daqueles cristãos (“vos tornastes reis”), e
sim da percepção deles quanto às suas próprias funções (“começastes
o vosso reino”).
Isso necessita de esclarecimento. Desde o início, os cristãos havi-
am sido ensinados a olhar adiante, para o final desta era, quando Cris-
to mesmo retornará. O Novo Testamento termina com o Espírito e a
noiva (a igreja) se dirigindo ao Senhor Jesus exaltado e clamando:
“Vem!” (Ap 22.17). Esperamos a consumação da salvação que foi
“preparada para revelar-se no último tempo” (1Pe 1.5); aguardamos
“novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2Pe 3.13). No en-
tanto, os cristãos se regozijam no fato de que Jesus Cristo ressuscitou
dos mortos e já começou a reinar. Ele possui toda a autoridade no céu
e na terra (Mt 28.18). Já fomos introduzidos em seu reino. Deus nos
“libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Fi-
lho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”
(Cl 1.13-14). Paulo descreveu o Espírito da graça de Deus como o “pe-
nhor” e a garantia de toda a herança por vir.
Portanto, em um sentido, os cristãos são direcionados ao futuro e
estão aguardando o reino. Podemos chamar essa posição de escatologia
futurista. Em outro sentido, os cristãos já foram transferidos do reino
das trevas para o reino do Filho de Deus. Já estamos no reino. Essa po-
sição é, às vezes, chamada de escatologia realizada ou inaugurada. É mui-
to importante manter o equilíbrio entre essas duas posições. Se dedi-
carmos todas as nossas energias em relação ao futuro, todos os tipos
de distorções aparecem. Por exemplo, você pode imitar os crentes de
Tessalônica, os quais pensavam que a volta de Jesus e o fim desta era
seriam tão iminentes, e que eles podiam abandonar seus empregos e
parasitar os outros que ainda trabalhavam; e, com muito entusiasmo,
começaram a agir de modo irresponsável. Ou, por outro lado, você
pode se focalizar tanto no futuro, que minimiza inconscientemente os
grandes privilégios que já possui em Cristo. Nesta percepção, tudo
neste mundo é obscuro, sombrio, monótono, quando, porém, o fim
chegar...
Ou talvez você erre de outra maneira: enfatiza em demasia as
bênçãos que o cristão já desfruta, a ponto de desprezar o fato de que
algumas dessas bênçãos estão reservadas para o futuro. Você começa
a aplicar ao presente passagens e temas que giram em torno do que
será a vida depois que o Messias retornar. Tanto os judeus que aguar-
davam a vinda do Messias como os cristãos que esperam o seu retorno
têm insistido que o seu povo reinará com Ele. Os crentes de Corinto,
interpretando isso desde o passado até ao seu tempo, acharam que já
haviam começado a reinar — “sem nós”, disse Paulo de maneira áspe-
ra. “Sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a reinar
convosco” (4.8). Isso significaria que Cristo já havia retornado, o reino
consumado de Cristo tinha começado, e todos os cristãos estavam par-
ticipando desse reino. Mas ele ainda não tinha começado, e os corínti-
os estavam profundamente enganados.
Historicamente, os cristãos têm muitas vezes confundido o equilí-
brio bíblico nesta área, por serem muito apegados ao seu tempo e, por
isso, deixarem de ouvir, com cuidado e reflexão, as Escrituras. Em
tempos de guerra, fome e grandes distúrbios sociais, é comum os cris-
tãos não instruídos clamarem: “É o fim!” Eles põem suas roupa de as-
censão e esquecem que Jesus nos disse que ninguém sabe o tempo, o
dia, a hora ou a época de seu retorno. Por outro lado, quando as coisas
vão razoavelmente bem, quando a sociedade parece estável, quando
não há guerras no horizonte, quando a maioria das pessoas em nossa
cultura tem bastante para comer, e o estado de espírito é hedonista e
orientado para o sucesso, cristãos não instruídos adotam sua própria
forma de triunfalismo. Ressaltam que Deus é seu Pai, é o grande Rei,
e, por isso, devem viver como príncipes e princesas.
É claro que os crentes de Corinto adotaram essa forma de escato-
logia. Isso estava vinculada ao orgulho e à contínua auto-exaltação de-
les. Paulo destruiu as grandes pretensões deles ao avaliar o status dos
líderes reconhecidos da igreja, os apóstolos. “Porque a mim me parece
que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôsse-
mos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo”
(4.9a). Provavelmente, a figura aqui exposta foi extraída dos desfiles
triunfais de retorno das legiões romanas. Os oficiais militares mais im-
portantes vinham primeiro; depois, os menos graduados. Atrás deles,
os prisioneiros eram conduzidos em ordem decrescente de categoria.
Entre os inimigos derrotados, as classes mais baixas e os escravos
constituíam a retaguarda, comendo a poeira dos outros e sabendo que
estavam destinados ao espetáculo. Morreriam nas mãos dos gladiado-
res ou seriam lançados às feras selvagens, para divertir a população.
De fato, Paulo disse: uma vez que a arena em que as lutas da igreja es-
tão sendo travadas inclui tanto a esfera espiritual como a física, os
apóstolos se tornaram “espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a
homens” (4.9b).
Com ironia pungente, Paulo ampliou o contraste. Referindo-se
aos assuntos do capítulo 1, ele escreveu: “Nós somos loucos por causa
de Cristo, e vós, sábios em Cristo” (4.10). De fato, se os cristãos de Co-
rinto seguissem o argumento de Paulo, perceberiam que os verdadei-
ros loucos eram eles mesmos — precisamente porque não era assim
que eles se viam. Paulo e outros líderes espirituais eram “loucos” so-
mente porque permaneciam ao lado da loucura da cruz. “Nós somos...
fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e nós, desprezíveis” (4.10b). A ironia
ainda é total. Se Paulo e seus colegas apóstolos eram “fracos”, isso
acontecia porque se mantinham ao lado da “fraqueza” de Deus que,
na verdade, é mais forte do que todo poder humano. Se eram despre-
zados, isso era feito por um mundo que via a cruz como loucura, en-
quanto a única honra que os coríntios tinham recebido era a honra de
si mesmos e, talvez, os aplausos duvidosos de um mundo que eles ha-
viam repudiado por se tornarem cristãos.
Os cristãos de Corinto precisavam obter um vislumbre melhor do
que está envolvido na verdadeira liderança cristã? Sim, Paulo disse,
eis o quadro: “Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e
somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, tra-
balhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados,
bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados,
procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados
lixo do mundo, escória de todos” (4.11-13).
Não é necessário que expliquemos em detalhes esses versículos,
mas alguns comentários sobre eles acentuarão o seu impacto. As ex-
pressões “até à presente hora” e “até agora” são provavelmente a ma-
neira de Paulo atrair a atenção para a situação escatológica. Paulo e
seus colegas apóstolos ainda estavam sofrendo, até aquele momento,
embora o reino escatológico tivesse sido inaugurado pelo triunfo de
Cristo. Em outras palavras, os cristãos de Corinto estavam distorcen-
do a sua teologia, enquanto ignoravam a evidência bastante óbvia. As
privações do ministério itinerante (“fome”, “nudez” e “esbofetea-
dos”), a própria natureza da vida apostólica, culminam em “não te-
mos morada” — exatamente porque a “morada” deles não estava nes-
te mundo.
À primeira vista, a expressão “trabalhando com as nossas própri-
as mãos” parece estar fora de lugar. Na verdade, pelo fato de que os
mestres no mundo helenista consideravam o trabalho manual como
inferior a eles, enquanto Paulo sustentava frequentemente a si mesmo
e a sua equipe (e, às vezes, insistiu em fazer isso) por meio de sua ha-
bilidade em lidar com couro, foi fácil para os coríntios rejeitá-lo como
uma espécie inferior na profissão de ensino. Mas aquilo que eles des-
prezavam, Paulo o julgava exemplar. E, quanto à maneira de respon-
der aos escárnios e insultos de um mundo cético, Paulo nos oferece
seu testemunho como modelo: “Quando somos injuriados, bendize-
mos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procura-
mos conciliação” (4.12-13) — ecoando em sua própria prática o ensino
(Lc 6.28) e o exemplo (Lc 23.24) do Senhor Jesus. Resumindo tudo,
Paulo disse que ele e seus colegas tinham “chegado a ser considerados
lixo do mundo, escória de todos” (4.13), refugo de todos, sujeira de to-
dos, lixo de todos — tudo que é desprezível em uma sociedade de
pessoas belas e prósperas.
Não podemos ignorar o modelo de Paulo — não o modelo que ele
era para os outros, e sim o modelo que ele escolhera para si mesmo.
Somos relembrados novamente da cruz. O profeta escreveu sobre o
Servo sofredor: “Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas
nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais re-
jeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer;
e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e
dele não fizemos caso” (Is 53.2b-3). Paulo testemunhou aos cristãos de
Filipos que ele desejava experimentar não somente o poder da ressur-
reição de Cristo, mas também a comunhão dos seus sofrimentos (Fp
3.10). De fato, ele escreveu aos cristãos de Roma e lhes falou que eram
“herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos,
também com ele seremos glorificados” (Rm 8.17). Se Paulo insistiu
que era um modelo para os outros, aconselhando-os a que o imitas-
sem (4.16), ele fez isso porque seguia o exemplo de Cristo (11.1).
Paulo não era tão ingênuo a ponto de pensar que todos os cristãos
devem sofrer idealmente na mesma medida. Na verdade, em uma de
suas cartas ele testemunha a sua disposição de suportar medida des-
proporcional de sofrimento, para que outros tivessem alívio. Mas, o
que estava em risco, para Paulo, era uma postura fundamental, uma
maneira de ver as coisas. Podemos resumi-la em três pontos.
Seguimos um Messias crucificado. Todas as promessas escatológicas
referentes ao novo céu e à nova terra, todas as bênçãos de pecados
perdoados e do bendito Espírito de Deus não negam o fato de que as
boas-novas que apresentamos se focalizam na loucura do Cristo cruci-
ficado. E essa mensagem não pode ser eficazmente transmitida se nos
fundamentarmos na arrogante posição de condescendência triunfalis-
ta. Até ao fim desta era, tomaremos nossa cruz — ou seja, morreremos
diariamente para o interesse próprio — e seguiremos a Jesus. Quanto
menos uma sociedade conhece esse caminho, tanto mais loucos pare-
ceremos e tanto mais sofrimento suportaremos. Que assim seja! Não
há outra maneira de seguir a Jesus.
Os líderes da igreja sofrem mais. Eles não são como generais do exér-
cito que ficam atrás das tropas. Eles são as tropas de assalto, a linha de
frente, aqueles que lideram pelo exemplo e pela palavra. Louvar uma
forma de liderança que despreza o sofrimento significa negar a fé.
De certo modo, todos os cristãos são chamados a esta visão da vida e do
discipulado. Paulo também disse: “Admoesto-vos, portanto, a que se-
jais meus imitadores. Por esta causa, vos mandei Timóteo, que é meu
filho amado e fiel no Senhor, o qual vos lembrará os meus caminhos em
Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja” (4.16, 17, ên-
fase acrescentada).
Temos de reconhecer sinceramente que essa postura é estranha a
muito de nossa experiência no mundo ocidental. Até recentemente,
até os não-convertidos no mundo ocidental aderiam aos valores judai-
co-cristãos. Contudo, esse consenso está erodindo rapidamente; e, à
medida que isso acontece, há mais e mais oposição a qualquer forma
de cristianismo que tente manter fidelidade às Escrituras.
No entanto, parte do motivo por que essa postura de Paulo pare-
ce estranha para muitos de nós é o fato de que temos nos tornado in-
conscientemente mais semelhantes aos cristãos de Corinto do que a
Paulo (ou seja, mais bíblicos!). Muitos de nós somos prósperos e aco-
modados, tendo pouco incentivo para vivenciarmos uma vibrante an-
tecipação da vinda de Cristo. Nosso desejo pela aprovação do mundo
sobrepuja frequentemente nosso anseio pelo “Bem feito!” de Jesus. O
lugar próprio para começarmos a mudar essa traição profunda do
evangelho é na cruz — em arrependimento, contrição e uma nova pai-
xão não somente por colocar o evangelho do Messias crucificado no
centro de nossa pregação, mas também em nossa vida e na vida de
nossos líderes.

A LIDERANÇA CRISTÃ SIGNIFICA ENCORAJAR —


E, SE NECESSÁRIO, IMPOR — O CAMINHO DA CRUZ
ENTRE O POVO DE DEUS (4.14-21)

Não basta o líder cristão ter muitos seguidores. Afinal de contas,


esse líder pode estar construindo com material perecível, de qualidade
inferior (3.12-15). O líder cristão não deve somente pregar a mensa-
gem da cruz e viver à luz da cruz, mas também fomentar o viver cris-
tão autêntico. A ortodoxia não é o suficiente. Os cristãos têm de viven-
ciar o que creem. O evangelho do Messias crucificado precisa transfor-
mar nossas crenças e nosso comportamento. E, onde o afastamento do
caminho da cruz for notório, o líder talvez precise recorrer a alguma
forma de disciplina.
Encorajando os crentes (4.4-17)

Paulo começa com uma alternativa mais gentil. Apesar da ironia


pungente que apresentou nos versículos anteriores, ele insistiu: “Não
vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para
vos admoestar como a filhos meus amados” (4.14). Em um nível, é cla-
ro que os havia envergonhado. Contudo, essa não era a razão por que
escrevera daquela maneira. Antes, escrevera para “admoestá-los” —
corrigi-los, encorajá-los no caminho certo. Em alguns assuntos que in-
troduziria depois, Paulo mostrou que o comportamento cristão era tão
chocante, que tentou envergonhá-los francamente (6.1-6; 15.34), mas
não neste assunto.
Ainda usando um tom gentil, Paulo recordou-lhes que os havia
levado a Cristo. Expôs seu apelo em termos de uma família próspera
do século I. Usando uma hipérbole compreensível, Paulo disse aos
cristãos de Corinto que, embora tivessem “milhares de preceptores em
Cristo”, tinham somente um pai. O “preceptor” nas famílias gregas do
século I eram comumente um servo de confiança encarregado de cui-
dar de um filho. Ele levava o filho (geralmente, um menino) à escola,
buscava-o e supervisionava a sua conduta. Esses preceptores exerciam
certa autoridade sobre o filho, mas essa autoridade nunca era idêntica
à do pai.
Paulo fora o primeiro que trouxera o evangelho aos coríntios; nes-
se sentido, ele se tornara o único “pai” deles, um fato que não poderia
ser mudado. Paulo foi cuidadoso em não dar a impressão de que ele
mesmo realizara a conversão dos coríntios, como se tivesse poderes
mágicos. Pelo contrário, ele se tornara o pai deles por meio do “evan-
gelho” (4.15). Paulo lhes pregara o evangelho. Pela graça de Deus, o
evangelho transformou aqueles coríntios, porque “é o poder de Deus
para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). O seu relaciona-
mento com aqueles irmãos não podia ser duplicado ou substituído.
Paulo lançou a semente; outros a regaram. Lançou o fundamento; ou-
tros edificaram sobre ele. Paulo os “gerou” pelo evangelho; outros ser-
viram como preceptores.
“Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores” (1Co
4.16) — escreveu Paulo. A lógica implícita na palavra “portanto” talvez
escape ao leitor moderno, visto que em nossas famílias não há pressão
para que o filho imite o pai. De fato, muitos de nós somos tão indivi-
dualistas, que frequentemente exibimos nossa independência como
um distintivo de honra. Mas, no século I — de fato, quase em toda cul-
tura pré-industrial —, esperava-se que os filhos imitassem os pais. Em
termos de profissão, se um pai era um padeiro, o filho provavelmente
seria um padeiro; se um pai era um criador de ovelhas, essa seria qua-
se certamente a vocação do filho. Este deveria levar adiante os valores,
a herança e o nome da família. Com essa expectativa cultural contro-
lando sua analogia, Paulo argumentou que, se ele se tornara o “pai”
dos cristãos de Corinto, eles deveriam imitá-lo.
No contexto destes capítulos, Paulo desejava que eles imitassem
sua paixão por viver à luz da cruz. Não esperava que sofressem exata-
mente da mesma maneira que ele sofrera. Não exigiu que se tornas-
sem apóstolos ou plantassem igrejas em terras distantes. O que ele re-
almente esperava era que os cristãos de Corinto imitassem seus valo-
res, sua postura quanto ao mundo, suas prioridades e sua apreciação
da centralidade do evangelho do Messias crucificado.
Paulo não podia dizer tudo em uma carta. Por isso, resolveu envi-
ar Timóteo, “filho amado e fiel no Senhor”. Sem dúvida, Paulo reco-
mendou Timóteo com tanta amabilidade porque desejava que os co-
ríntios o recebessem e o tratassem afetuosamente. Explicou-lhes por
que enviava Timóteo, seu jovem colega: ele “vos lembrará os meus ca-
minhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja”
(4.17).
Há dois elementos admiráveis nesta comissão. Primeiro, Paulo
não estava enviando Timóteo apenas para expor doutrina, mas tam-
bém para recordar àqueles crentes os “caminhos dele em Cristo Je-
sus”. O cristianismo bíblico inclui tanto o credo como a conduta, tanto
a crença como o comportamento. Às vezes, as verdades elementares
das Escrituras não são entendidas ou cridas, e torna-se necessário con-
siderar novamente os ensinos básicos. Nesta passagem, Paulo deu a
impressão de que o maior problema dos cristãos de Corinto era o fato
de que eles não viviam de acordo com o que sabiam. Discernindo com
base nestes quatro primeiros capítulos da epístola, muitos daqueles
cristãos não estavam nem mesmo fazendo a conexão entre o que eles
criam e a maneira como deveriam viver. Queriam insistir que Jesus
havia sido morto e ressuscitara em favor de seus pecados, mas não po-
diam assimilar como essa realidade histórica, esse supremo momento
dos propósitos redentores de Deus não somente realizara a salvação
deles, mas também devia moldar a sua maneira de viver. Por isso,
Paulo enviou Timóteo para que lhes recordasse seus “caminhos em
Cristo” — que significava uma maneira de viver que se harmonizava
com o que ele ensinava.
Isso sugere que o líder cristão de nossos dias deve não somente
ensinar o evangelho, mas também ensinar como o evangelho se ex-
pressa na vida e conduta diária. Devemos explicar e ser modelo dessa
união.
Precisamos resgatar urgentemente essa visão acerca do que os lí-
deres cristãos precisam tentar fazer. A necessidade é evidente mesmo
em seminários denominacionais, como o seminário em que ensino.
Sempre temos alunos que vêm de contextos seculares totalmente pa-
gãos, que se converteram em sua adolescência ou juventude e ingres-
sam no seminário em seus trinta anos de idade. Comumente, vêm de
famílias disfuncionais e trazem certa medida de bagagem familiar. E
isto é ainda mais dramático: um número surpreendente deles não con-
segue fazer com facilidade a conexão entre as verdades do evangelho
e a maneira de viver.
Alguns anos atrás, um aluno que estava quase se graduando foi
chamado para aconselhamento por um dos professores. Este ouvira
dizer que o rapaz planejava retornar à ciência da computação e aban-
donar os planos de entrar no ministério pastoral. O rapaz era amável e
tinha a média B+. Mas, quando o professor o sondou, tornou-se óbvio
que ele não tinha compreendido bem as coisas. Podia definir a expia-
ção, mas não sabia como sentir-se perdoado. Podia defender a priori-
dade da graça na salvação, mas ainda achava que nunca poderia ser
suficientemente bom para tornar-se um ministro do evangelho. Podia
definir a santidade, mas se via praticando autodisciplina rígida, em
vez de buscar a santificação. Sua vida e sua compreensão teológica
não se harmonizavam.
Pela graça de Deus, aquele professor era espiritualmente percepti-
vo. Levou o aluno de volta à cruz e desenvolveu a conversa a partir
daquele ponto. O rapaz começou a chorar e chorar, à medida que vis-
lumbrava o amor de Deus por ele. Hoje ele é um ministro do evange-
lho.
Líderes cristãos fiéis têm de fazer a conexão entre o credo e a con-
duta, entre a cruz e a maneira de viver. E têm de ser exemplos dessa
união em sua própria vida.
No segundo elemento de sua comissão a Timóteo, Paulo disse
que Timóteo transmitiria coisas que estariam de acordo com o que ele,
Paulo, ensinava “em cada igreja” (4.17). Em 1 Coríntios, Paulo enfati-
zou repetidas vezes a mesma verdade: ele era coerente em sua vida e
doutrina e esperava que isso fosse vivenciado em cada igreja (cf. 7.17,
11.16, 14.33). Isso sugere que a igreja de Corinto estava tentando cons-
tantemente provar quão independente era. Paulo lhes disse que existe
um tipo de criatividade que nos tira do âmbito da fé cristã.

Advertindo os crentes (4.18-21)

Paulo foi o primeiro a reconhecer que nem todos os problemas se-


riam resolvidos por uma carta. Neste caso, o triste estado da igreja de
Corinto tinha sua fonte em um grupo de pessoas que Paulo chamou
de “ensoberbecidos”. Em muitas instituições, um pequeno número de
pessoas molda amplamente a opinião de quase todo o corpo. No caso
da igreja de Corinto, esses ensoberbecidos, formadores de opinião,
não somente haviam influenciado a congregação, mas também esta-
vam confiantes de que Paulo não apareceria lá — “Alguns se ensober-
beceram, como se eu não tivesse de ir ter convosco” (4.18). Ele não po-
dia determinar um tempo em que apareceria lá, mas prometeu: “Em
breve, irei visitar-vos, se o Senhor quiser” (4.19). E reconheceu, assim
como Tiago, que os planos quanto ao futuro devem sempre estar sujei-
tos ao “se o Senhor quiser” (Tg 4.15-16). Quando ele fosse, conheceria
“não a palavra, mas o poder dos ensoberbecidos. Porque o reino de
Deus consiste não em palavra, mas em poder” (4.19-20).
Para entender essa ameaça, é necessário lembrar o fluxo do argu-
mento. Imediatamente, somos lembrados da discussão em 1 Coríntios
1. Os coríntios haviam sido intoxicados pela “sabedoria do mundo” e,
por causa disso, estavam removendo da cruz de Cristo o seu poder
(1.17). Estavam tão apaixonados pela forma e pela retórica, que exibir-
se com eloquência se tornara mais importante do que o evangelho,
que se revela em seu grande poder quando não está competindo com
pessoas mais interessadas em promover a si mesmas do que no poder
de Deus (2.1-5). Quando Paulo viesse a Corinto, não se deixaria im-
pressionar pela “palavra” deles; nem mesmo se importaria com o que
os ensoberbecidos estavam falando, embora tivessem grande eloquên-
cia e retórica. Não, ele se interessaria somente por uma coisa: que po-
der eles tinham? À luz de 1 Coríntios 1.18-25, isto se refere ao poder
do evangelho, o poder de perdoar, transformar, chamar homens e mu-
lheres ao reino do amado Filho de Deus. Meras conversas não mudam
as pessoas; o evangelho, sim, muda. Paulo procuraria as credenciais
deles: que pessoas a eloquência de vocês transformou verdadeiramen-
te, por trazê-las ao conhecimento pessoal do Messias crucificado? Ele
os exporia, mostrando que eram religiosos tagarelas e vazios.
É possível que a ameaça de Paulo seja ainda mais profunda. No
começo do capítulo seguinte, ele abordou diretamente um homem
cujo pecado sexual exigia ser confrontado pela disciplina da igreja.
Paulo esperava que a igreja entregasse esse homem a Satanás (5.5).
Contudo, há evidência de que, se a igreja mostrasse indisposição para
exercer essa disciplina, Paulo agiria por si mesmo. Em Éfeso, por
exemplo, havia dois homens, Himeneu e Alexandre, que “vieram a
naufragar na fé”, os quais, disse Paulo, “entreguei a Satanás, para se-
rem castigados, a fim de não mais blasfemarem” (1Tm 1.20). Em uma
carta posterior dirigida aos coríntios, Paulo adverte que talvez teria de
ser severo no uso de sua autoridade apostólica, se eles não colocassem
a casa em ordem (2Co 13.10).
Em outras palavras, trazer o povo de Deus ao viver cristão coe-
rente, à luz do evangelho do Messias crucificado, era tão importante
para Paulo, que ele não se desviaria do seu alvo. Se motivasse as pes-
soas nessa direção, por meio do encorajamento e da admoestação, isso
seria vantagem para elas; mas, se fosse necessário usar a disciplina,
Paulo não a evitaria. Então, ofereceu aos coríntios uma escolha: “Que
preferis? Irei a vós outros com vara ou com amor e espírito de mansi-
dão?” (4.21). É claro que ele não estava dizendo que, se fosse com a
vara (uma vara de correção, continuando a metáfora do relacionamen-
to pai e filho), não os amaria. O contraste se refere à maneira ou à for-
ma de sua ida, e não aos seus motivos. Contudo, a disciplina física
machuca, mesmo realizada por um pai que insiste estar batendo em
seu filho porque o ama. Para o filho é melhor mudar seu comporta-
mento, para que a maneira como seu pai venha não seja com “vara”, e
sim com um espírito de mansidão.
Em resumo, os líderes cristãos não ousam negligenciar sua res-
ponsabilidade de liderar o povo de Deus a viver de conformidade o
evangelho. Essa foi a razão por que Paulo instou os cristãos a viverem
de modo digno da vocação que haviam recebido (Ef 4.1). Foi a razão
por que orou em favor de que tivessem uma maneira de viver digna
do Senhor, o Messias crucificado, e O agradassem em tudo (Cl 1.10). E,
se o povo de Deus resistir teimosamente, em desobediência, essa pode
ser a ocasião para que os líderes cristãos admoestem, repreendam e
disciplinem com firmeza aqueles que confessam o nome de Cristo e
não O seguem. Os passos mais severos nunca devem ser tomados
apressada ou levianamente. Mas, às vezes, eles têm de ser tomados.
Isso faz parte da responsabilidade da liderança cristã.

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO

1. O que significa ser “despenseiros dos mistérios de Deus”?

2. Quando os cristãos devem “julgar” uns aos outros? Quando devem


parar de fazer isso?

3. Que exemplos de ser “espetáculo” por amor a Cristo você já viven-


ciou ou sobre os quais ouviu falar?

4. De que maneira Paulo tencionou incutir simultaneamente em seus


convertidos o evangelho como um credo e o viver cristão autêntico?

5. Como os líderes cristãos devem ser diferentes da maioria dos líde-


res do mundo?

[14] Acho que o verbo grego, embora esteja no aoristo, se refere ao tempo presente (Compare
com a tradução da NVI, em inglês: “Tenho aplicado”).
[15] 1 Coríntios 4.6-7 contém um texto grego difícil que poderia ser entendido de diversas ma-
neiras. Com alguma hesitação, sigo a NVI.
CA PÍ TU LO 5
A CRUZ E O CRISTÃO
T R A N S C U LT U R A L
(1 CORÍNTIOS 9.19-27)

19Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior nú-
mero possível. 20Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus;
para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os
que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. 21Aos sem lei, como se eu
mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para
ganhar os que vivem fora do regime da lei. 22Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim
de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, sal-
var alguns. 23Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador
com ele.

24Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um
só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. 25Todo atleta em tudo se domi-
na; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. 26Assim
corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. 27Mas es-
murro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha
eu mesmo a ser desqualificado.

É melhor começarmos explicando o que significa a expressão


“cristão transcultural”.
A expressão cristão transcultural possui um sentido especializado
entre os missionários, devido, em parte, à crescente globalização (ou-
tra palavra recém-cunhada!) da igreja. Globalização é um termo que in-
clui muitos fenômenos relacionados. Os missionários não estão mais
tomando a mesma direção, saindo do chamado Primeiro Mundo para
o Terceiro Mundo. Agora, eles estão saindo de muitas partes do mun-
do para muitas outras partes. As facilidades de comunicação capaci-
tam os cristãos de todo o mundo a trabalharem juntos em projetos
concretos e formas de alcançar os perdidos. Cada vez mais, a igreja em
uma parte do mundo é informada do que acontece em muitas outras
partes do mundo. Reflexões teológicas e modelos de treinamento bí-
blico e teológico não estão mais presos exclusivamente a modelos cria-
dos no Ocidente e exportados para as outras partes do globo. Movi-
mentos globais de dinheiro e de pessoas mudam diversas prioridades
— tanto na igreja como fora dela.
Quase em reação à globalização, muitas pessoas estão agindo com
nacionalismo crescente, às vezes com etnocentrismo quase ameaçador.
Os cristãos não estão imunes a essas poderosas correntes de pensa-
mento. Eles também podem ser envolvidos em nacionalismo fanático
que coloca os interesses de minha nação, classe, raça, tribo e herança
acima das exigências do reino de Deus. Em vez de sentirem que sua
cidadania mais importante está no céu e que estão apenas de passa-
gem neste mundo, a caminho de seu lar na Jerusalém celestial (Hb
12.22-23), eles se enredam com prioridades insignificantes que consti-
tuem uma negação implícita do senhorio de Cristo.
Então, o que precisamos é de cristãos transculturais — não ape-
nas cristãos americanos, ou britânicos, brasileiros ou quenianos e sim
cristãos transculturais. Neste caso, a expressão significa cristãos autên-
ticos no Senhor Jesus Cristo, a respeito dos quais as seguintes afirma-
ções são verdadeiras:

A fidelidade deles a Jesus Cristo e a seu reino é colocada conscientemente acima de


toda fidelidade à nação, língua, raça e cultura;
O compromisso deles com a igreja, a comunidade messiânica de Jesus, é o compro-
misso com a igreja em todos os lugares, onde quer que a igreja seja verdadeiramente ma-
nifesta, e não somente com a manifestação da igreja em sua terra natal;
Eles se veem antes e acima de tudo como cidadãos do reino celestial e, por isso, con-
sideram todas as outras cidadanias como uma questão secundária.
Como resultado, eles são resolutos e sacrificiais no que diz respeito ao mandato su-
premo de evangelizar e fazer discípulos.

A igreja é a única instituição que possui relevância eterna. Se al-


guém deve transcender as limitações das lealdades meramente tempo-
rais, os que constituem a igreja são os que devem fazer isso.
Na passagem que consideraremos, Paulo, o mais autêntico cristão
transcultural, delineia uma série de convicções e prioridades que de-
vemos adotar, se temos de ser nós mesmos esse tipo de cristão.

TEMOS DE CONHECER AS LIBERDADES E AS RESTRIÇÕES


QUE TEMOS EM JESUS CRISTO

Paulo iniciou esta passagem com o que, à primeira vista, parece


ser uma contradição. Ele estava falando a respeito de como mudava
aquilo que hoje chamamos estilo de vida, quando tentava evangelizar
diferentes grupos de pessoas: “Procedi, para com os judeus, como ju-
deu, a fim de ganhar os judeus” (9.20a). Em seguida, explicou que ca-
racterísticas dos judeus exigiam flexibilidade autêntica de sua parte:
“Para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vi-
vesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu de-
baixo da lei” (9.20b, ênfase acrescentada). Por outro lado, Paulo se com-
portava de maneira diferente entre os gentios: “Aos sem lei, como se
eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei
de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei” (9.21, ênfase
acrescentada). Então, Paulo estava ou não sob a lei?
O significado da passagem é alvo de muitos debates. Tentarei de-
fini-lo seguindo vários passos.
1. É claro que Paulo via a si mesmo no que poderíamos chamar de
uma terceira posição. Ele não se via como um judeu cristão, alguém
que obedecia normalmente a lei de Moisés e tinha de mudar o com-
portamento para ganhar os gentios.[16] Ele também não se via como
um gentio que adotara o fardo da lei para ganhar os judeus. Paulo se
via em uma terceira posição, da qual ele tinha de curvar-se para ga-
nhar judeus e gentios. “Para os que vivem sob o regime da lei, como se
eu mesmo assim vivesse... Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse” (ênfase
acrescentada). Paulo ocupava uma terceira posição.
2. Quando Paulo disse que se tornava como judeu ou como gen-
tio, ele introduziu imediatamente uma observação parentética que es-
tabeleceu as limitações de sua flexibilidade. Essas observações paren-
téticas são muito difíceis. Por um lado, para os que estavam sob a lei,
Paulo se tornou como se também estivesse sob a lei; isso provavel-
mente significa que ele observava escrupulosamente leis relacionadas
a alimentos e outros preceitos que o capacitavam a mover-se livre-
mente nas comunidades judaicas e ganhar audiência — embora, con-
forme ele insistiu na afirmação parentética, não estivesse sob a lei.
Por outro lado, para os que não tinham a lei ele se tornava como
se não tivesse a lei — e isso provavelmente significa que ignorava as
restrições legais que separava os judeus dos gentios, vivendo livre-
mente entre os gentios com se fosse um deles, embora, conforme insis-
tiu na afirmação parentética, não estivesse livre para fazer o que dese-
jasse. Ele não estava “sem lei para com Deus”, mas “debaixo da lei de
Cristo”. A menos que Paulo estivesse se contradizendo, ele não tencio-
nava que “lei para com Deus”, no segundo caso, significasse exata-
mente o mesmo que a expressão “a lei”, no primeiro caso.
Além disso, não importando o que ele pretendesse dizer ao afir-
mar que não estava sem lei para com Deus, há algo intuitivamente ób-
vio quanto a isso. Podemos com facilidade ouvir Paulo dizendo: “Para
os judeus, eu me tornei um judeu. E, para os gentios, um gentio”. Não
podemos imaginá-lo dizendo: “Para o fofoqueiro, tornei-me um fofo-
queiro”; “para o adúltero, tornei-me um adúltero”. Em outras pala-
vras, ao mesmo tempo em que disse não estar sob a lei como o esta-
vam os demais judeus, Paulo não estava sugerindo que era antinomia-
no (alguém que se sente completamente livre de todas as exigências e
mandamentos de Deus).
3. Há outras passagens, mesmo em 1 Coríntios, em que a lei de
“Deus” ou os mandamentos de “Deus” não podem ser reduzidos ao
código de Moisés. A passagem mais discutida é, creio eu, 1 Coríntios
7.19: “A circuncisão, em si, não é nada; a incircuncisão também nada
é, mas o que vale é guardar as ordenanças de Deus”. Alguns cristãos
que dão muita importância à lei gostam de citar a segunda parte deste
versículo: “O que vale é guardar as ordenanças de Deus”. O que deve-
mos lembrar é que o judeu do século I diria: “Espere um momento! A
circuncisão é uma das ordenanças de Deus. Como você pode dizer
que a circuncisão não é nada e, imediatamente, comentar que o impor-
tante é guardar as ordenanças de Deus?” A única resposta é que, para
Paulo, os mandamentos de Deus, normativos para o cristão, não podi-
am ser equiparados ao código de Moisés.
4. Se entendemos de modo correto 1 Coríntios 9.19-23, Paulo disse
que não estava sob a aliança da lei (mosaica). Não era mais a aliança
da lei que o prendia ao Deus de seus pais. A fim de ganhar seus com-
patriotas judeus, ele se contentava em viver sob as estipulações daque-
la aliança da lei e não ser desnecessariamente ofensivo aos judeus,
mas insistia que a aliança da lei não mais o prendia. E não podia. Ele
estava sob a nova aliança (cf. 1Co 11.25). Por outro lado, para ganhar
aqueles que não tinham a lei de Deus expressada na velha aliança —
ou seja, os gentios —, Paulo se preparava para viver sem quaisquer
restrições da lei-aliança sobre eles; mas há restrições que não podemos
ultrapassar. Paulo não era infinitamente flexível. Ele não vivia “sem
lei para com Deus”. Isso não significa que Paulo não era livre da alian-
ça da lei (mosaica), pois ele acabara de dizer isso. Pelo contrário, acho
que Paulo disse que não era livre das exigências, dos requerimentos
de Deus. Em seguida, ele estipula onde estão esses requerimentos:
“Não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo” (ên-
fase acrescentada). Essa expressão é peculiar, mas o cerne da ideia é
bastante claro. Todas as exigências de Deus sobre ele são mediadas
por Cristo. Aquilo que Deus exigia dele como um crente da nova ali-
ança, um cristão, isso o limitava. Ele não podia ir além dessas restri-
ções. Havia um limite rígido para a sua flexibilidade, enquanto procu-
rava ganhar os perdidos de diferentes grupos religiosos e culturais.
Paulo não podia fazer o que é proibido ao cristão e podia fazer tudo
que é ordenado ao cristão. Ele não era livre da lei de Deus; estava sob
a lei de Cristo.
Assim, embora esta passagem seja, às vezes, interpretada com o
sentido de que devemos nos sentir livres para reformular o evangelho,
quando nos movemos de uma cultura a outra, isso era exatamente o
que Paulo não estava dizendo. Paulo estava pronto para ser extraordi-
nariamente flexível nas situações em que a lei de Deus, mediada por
Cristo, não o impedisse. Contudo, ele mesmo estava sob “a lei de Cris-
to”, que, nesta epístola, está claramente vinculada ao próprio evange-
lho, o evangelho do Messias crucificado.
5. Nesta altura, a questão óbvia é como a lei de Cristo, que Paulo
diz que lhe impunha limitações, estava relacionada à aliança da lei
mosaica, que Paulo afirmou que não o impedia. Uma coisa era Paulo
dizer que não estava sob uma aliança A, mas sob uma aliança B. Toda-
via, outra coisa bem diferente era Paulo dizer que os mandamentos e
as proibições de ambas as alianças são totalmente disjuntivos, de
modo que nada têm em comum. As alianças não podem ser idênticas
em seus mandamentos, pois, do contrário, seria difícil alguém falar
em duas alianças. Contudo, por causa do Deus da Bíblia, é inimaginá-
vel que as duas alianças sejam totalmente disjuntivas em seus respec-
tivos mandamentos. Então, surge a pergunta legítima: como os man-
damentos, as “leis”, no sentido moderno da palavra, da nova aliança
se relacionam como os mandamentos, as “leis”, da antiga aliança?
Embora essa pergunta seja importante e tenha uma longa e confu-
sa história de interpretação, não a abordarei aqui, pois isso nos afasta-
ria do ponto que desejo atingir. Naquele ponto, Paulo não mudará de
atitude.
6. O propósito desta discussão complexa se torna claro agora. Em-
bora Paulo fosse um apóstolo e evangelista extraordinariamente flexí-
vel, ele distinguia os elementos do cristianismo de maneira tão pro-
funda e saliente, que sabia quando ser flexível e quando podia ser fir-
me. Em outras palavras, sua compreensão da teologia capacitou-o a
saber quem ele era, o que se esperava dele, o que tinha liberdade de
fazer e o que deveria não fazer em qualquer circunstância.
Em resumo, também devemos saber quais são as nossas liberda-
des e restrições em Cristo. A única maneira de chegarmos a essa matu-
ridade é meditarmos frequentemente nas Escrituras, tentando assimi-
lar o seu sistema de pensamento — como as partes se combinam para
serem coerentes.
Evidentemente, esta não é a única passagem que é muito impor-
tante em ajudar os cristãos a lidarem com a questão a respeito de
quem eles são. Os cristãos são aqueles que foram justificados pela fé
em Cristo Jesus e, por consequência, têm paz com Deus (Rm 5.1). Os
cristãos são aqueles que invocam o nome do Senhor Jesus Cristo (1.2).
Os cristãos são aqueles que suplicam a Deus que o seu poder esteja
neles, para que Cristo habite neles pela fé, enquanto reconhecem cada
vez mais as infinitas dimensões do amor de Deus por eles, em Cristo
Jesus (Ef 3.14-21). É imensamente importante que os cristãos saibam
quem eles são como filhos do Deus vivo, o que se espera deles, em que
áreas podem ser flexíveis e em que situações têm de ser tão rígidos
como o aço.
Somente as pessoas que obtêm esse conhecimento podem se a
unir a Paulo e dizer, sem comprometerem-se: “Fiz-me tudo para com
todos” (9.22). Hoje a expressão “tudo para com todos” é frequente-
mente usada como uma forma de menosprezo. Se ele (ou ela) não tem
determinação, dizemos: tem duas caras; é “tudo para com todos”. Mas
Paulo usou-a como um testemunho de seu compromisso evangelísti-
co. Ele não poderia ter feito isso se não soubesse o que ele mesmo era
como cristão. A pessoa que vive por regras intermináveis e forma sua
própria identidade por conformar-se a tais regras não pode ser flexível
de maneira alguma. Em contraste, aquele que não tem fundamentos,
herança, identidade própria e valores inegociáveis não é realmente fle-
xível; está apenas sendo levado de um lado para outro pelos caprichos
de toda opinião excêntrica que aparece por aí. Essas pessoas podem se
“adaptar”, mas não podem ganhar ninguém. Não estão presas a nada
firme e sólido; por isso, não podem ganhar outros para aquilo a que
estão presas. Portanto, o propósito da afirmação de Paulo no versículo
22 é crucial: “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os mo-
dos, salvar alguns” (ênfase acrescentada). Essa perspectiva é tão impor-
tante, que retornarei a ela.
No século XIX, quando Hudson Taylor, o fundador da China In-
land Mission (hoje, Overseas Missionary Fellowship), começou a usar ca-
belos longos e trançados, como os homens chineses da época, a vestir-
se como eles e a comer os mesmos alimentos que eles comiam, foi
zombado por muitos de seus colegas missionários. Mas Hudson Tay-
lor havia meditado sobre o que era essencial ao evangelho (e, portan-
to, inegociável) e o que era uma expressão cultural que poderia ser um
obstáculo desnecessário à proclamação eficaz do evangelho.
Para ser um cristão transcultural é importante que cresçamos em
nossa compreensão das Escrituras e em nossa exposição a outras cul-
turas, de modo que não vinculemos ao evangelho as nossas preferên-
cias culturais e as invistamos com a autoridade do evangelho. Não es-
tamos dizendo que todos os elementos culturais são moralmente neu-
tros. De maneira nenhuma. Toda cultura tem em si boas e más caracte-
rísticas. Pessoas ímpias podem manipular o apelo à cultura para per-
seguir os cristãos (como ocorreu, por exemplo, em Atos 16.20-21).
Contudo, é importante que o evangelista, plantador de igreja e teste-
munha de Cristo seja tão flexível quanto possível em cada cultura,
para que o evangelho não pareça desnecessariamente esquisito no ní-
vel meramente cultural. Mas também é importante reconhecer os ele-
mentos pecaminosos na cultura, quando estes se manifestam, e enten-
der como as normas bíblicas podem avaliá-los. Haverá ocasiões em
que será necessário confrontar a cultura. Afinal de contas, apelar sim-
plesmente às normas culturais, enquanto exigimos mais flexibilidade
da parte dos cristãos, é apenas uma maneira de dizermos que o evan-
gelho não tem o direito de julgar a cultura — e isso não produzirá
bons resultados.
Para começarmos a julgar essas questões corretamente, precisa-
mos saber que liberdades e restrições possuímos em Cristo Jesus. Te-
mos de desenvolver uma compreensão firme da teologia bíblica.

NÃO DEVEMOS INSISTIR EM NOSSOS “DIREITOS”

Esta parte do argumento de Paulo se torna bem clara se acompa-


nharmos o seu pensamento desde 1 Coríntios 8.1 a 11.1, uma passa-
gem que se mantém como uma unidade controlada por dois ou três
temas. Não podemos parar agora e considerar os cinco pontos do ar-
gumento de Paulo, mas há alguns elementos desse argumento que po-
dem ser sumariados e o estabelecem claramente: não devemos insistir
em nossos “direitos”.
1 Coríntios 8 discute amplamente se o cristão deve ou não comer
carne oferecida aos ídolos. Parece que a maior parte da carne era aba-
tida em conexão com uma associação de comerciantes de um templo e
vendida bem à porta deste. Os cristãos que se haviam convertidos re-
centemente do paganismo tendiam a achar que comprar e comer
aquela carne era um compromisso perigoso. Essa atitude sinalizava
um interesse nas velhas divindades pagãs e, por isso, envolvia o cris-
tão na idolatria. Outros cristãos, mais maduros, achavam que cortar
um pedaço de carne em frente de um ídolo de pedra não afetava a car-
ne; ela ainda era alimento e nada mais. Por isso, podia ser comprada e
comida com sã consciência. Só porque os pagãos achavam que o ídolo
representava uma divindade, isso não significava que os cristãos ti-
nham de satisfazer essa superstição. E, assim, a igreja de Corinto esta-
va dividida.
É instrutiva a maneira como Paulo tratou desse problema. Em 1
Coríntios 10, ele proibiu completamente qualquer envolvimento na
adoração realizada nos templos pagãos. Por trás dos ídolos estão for-
ças demoníacas perigosas demais para brincarmos com elas. Além dis-
so, não podemos participar de rituais de culto sem que tenhamos co-
munhão com os adoradores do ídolo. Fique longe da idolatria!
Mas, no capítulo 8, a linha de pensamento de Paulo era mais sutil.
Por um lado, ele concordou que comprar carne abatida em frente de
um ídolo não compromete o cristão. A carne não era afetada. Por ou-
tro lado, aqueles que achavam que isso era comprometedor e cuja
consciência Paulo definiu como “fraca” (porque achavam que algo era
mau quando realmente não era) não deveriam comprar e comer aque-
la carne. Estariam ferindo sua própria consciência. Paulo achou que
isso envolvia o risco de corromper a consciência dos cristãos, porque,
se eles se habituassem a ignorar a voz da consciência, poderiam ignorar essa
voz quando a consciência estivesse bem informada e os avisasse de algo positi-
vamente mau. Sem dúvida, a longo prazo, Paulo desejava que esses
cristãos crescessem em seu conhecimento das Escrituras e do evange-
lho, para que não julgassem ser mau aquilo que não o era (como o co-
mer carne que havia sido oferecida aos ídolos). Mas, até que eles al-
cançassem essa maturidade, não deviam corromper sua própria cons-
ciência.
Enquanto isso, Paulo disse aos que tinham consciência “forte”
(forte porque eram suficientemente informados de que, nessa questão,
pelo menos, eles não qualificavam como mau algo que não era real-
mente mau) que estavam certos no assunto de carne oferecida aos ído-
los e que a discussão não devia acabar nesse ponto. Ele deviam tam-
bém sentir obrigação para com seus irmãos e irmãs mais “fracos”. Se
aquele que tinha consciência fraca visse outro cristão, mais velho na
fé, supostamente mais sábio, comendo carne oferecida a ídolos, pode-
ria sentir-se estimulado a fazer o mesmo — em desafio à sua própria
consciência e detrimento de sua vida espiritual. Os cristãos mais fortes
se mostrariam insensíveis se insistissem em seus próprios direitos. “E
deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência
fraca, é contra Cristo que pecais. E, por isso, se a comida serve de
escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não ve-
nha a escandalizá-lo” (8.12-13).
Nesse conselho espiritual, há dois elementos que precisam ser en-
tendidos.
Primeiro, o tipo de situação que Paulo enfrentou neste caso não
deve ser confundido com outra situação diferente. Suponha que você
é um cristão que, devido a sua formação cultural, sempre se envolveu
em beber socialmente. Agora, você muda para um ambiente que é so-
cialmente mais conservador. Algum cristão mais velho pode encontrá-
lo e dizer-lhe: “Estou ofendido pela sua atitude de beber. Paulo disse
que, se alguém é ofendido pelo que fazemos, temos de parar com isso.
Estou ofendido. Portanto, você deve parar de beber socialmente”.
Como você reagiria?
Esse cristão mais velho está apenas manipulando-o. Ele não é
uma pessoa que tem uma consciência fraca e está em risco de mudar
de comportamento por causa de seu exemplo e, assim, ferir sua cons-
ciência. De modo nenhum. Se esse irmão o vir bebendo novamente,
ele o repreenderá nos termos mais severos. Ele pensa que é o mais for-
te e não o mais fraco. Em outras palavras, este caso não se assemelha à
situação com a qual o apóstolo teve de lidar. De fato, seria mais sábio
dizer a esse irmão: “Sinto muito por perceber que você tem uma cons-
ciência tão fraca”. Ele provavelmente se sentirá tão incerto quanto à
sua resposta, que o deixará por algumas semanas.
Para desenvolvermos um exemplo moderno parecido com a situ-
ação que Paulo enfrentou, teríamos de mudar um pouco a história.
Você se tornou um dos responsáveis pela mocidade de uma igreja. Al-
guns dos jovens que vêm de lares socialmente conservadores encon-
tram-no bebendo e, contra a consciência que desenvolveram sobre es-
ses assuntos, acompanham-no. Com o passar do tempo, eles se tornam
indiferentes quanto a todas as questões morais sérias. Assim, você se
tornou cúmplice da destruição moral deles.
No caso abordado por Paulo, devemos observar que a consciência
do cristão forte não é manipulada pela ameaça de um cristão mais an-
tigo que deseja que todos obedeçam às mesmas regras. Antes, o cris-
tão forte é exortado a desistir de seus direitos em favor dos outros. Fi-
nalmente, o apelo diz respeito ao amor pelos irmãos e irmãs em Cris-
to. Os cristãos fortes podem estar certos em uma questão técnica, mas,
a menos que abandonem voluntariamente o que é, de fato, o seu direi-
to, eles causarão dano à igreja e, assim, pecarão “contra Cristo” (8.12).
Afinal de contas, insistir em seus direitos pode envolvê-lo em pecado
— não o pecado relacionado aos seus direitos (aliás, nisso você está
certo!), e sim o de falta de amor, o de mostrar-se indisposto a renunci-
ar seus direitos em benefício do proveito eterno e espiritual de outros.
Como podem os cristãos manter-se ao lado da cruz e insistir em seus
próprios direitos?
Segundo, Paulo não pode ser subestimado como um teólogo in-
sensível e meramente acadêmico. Ele ousou se oferecer como um
exemplo do que os cristãos deveriam imitar: “Por isso, se a comida
serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que
não venha a escandalizá-lo” (8.13).
Esse versículo serve de transição para 1 Coríntios 9, no qual Paulo
se dedica a explicar seus motivos e sua autodisciplina. Por um lado,
ele estava simplesmente mostrando em quantas áreas diferentes prati-
cava o que pregava. E, entre outras coisas, ele desiste alegremente de
seus direitos em favor do bem espiritual de outros. Ao mesmo tempo,
parece claro que pelo menos alguns da igreja de Corinto não o tinham
em alta estima, porque, na opinião deles, Paulo não preservava os
seus direitos. Ele não impunha a sua autoridade, nem fazia as pessoas
respeitarem-no. Eles estavam tão acostumados com as formas de lide-
rança na Corinto pagã do século I, especialmente a liderança dos sofis-
tas e de outros mestres itinerantes, que não entendiam um pregador
como Paulo. Por isso, o apóstolo apresentou uma defesa de suas prio-
ridades: “A minha defesa perante os que me interpelam é esta” (9.3).
O que Paulo nos oferece é uma profunda explicação cristã de sua ínte-
gra auto-renúncia.
Paulo começou sua defesa insistindo que era um apóstolo. Tinha
visto o Senhor ressuscitado e recebido sua comissão diretamente dEle.
Num sarcasmo cortês, Paulo sugeriu que, se outros tinham motivos
para duvidar de seu apostolado, os próprios coríntios tinham pouca
desculpa. Eles existiam como cristãos porque eram fruto do ministério
apostólico de Paulo (9.1-2)!
O ponto importante da acusação contra Paulo, conforme parece,
era o fato de que ele recusava o apoio (“o direito de comer e beber”,
9.4) dos coríntios e não viajava, em seu ministério itinerante, com os
confortos e amparo que os líderes mais antigos deviam ter — tal como
ser acompanhado da esposa em uma viagem de despesas pagas. A
princípio, talvez seja difícil entendermos por que isso era considerado
uma acusação grave. Mas, na maior parte do mundo helenístico do sé-
culo I, os mestres itinerantes eram julgados, em parte, pela quantidade
de dinheiro que conseguiam obter. As pessoas queriam gloriar-se de
quanto haviam pago a determinado mestre por uma série de palestras
— assim como há pessoas hoje que se gloriam, de maneira um tanto
queixosa, de quanto lhes custa enviar um filho a uma grande universi-
dade.
Se Paulo não aceitasse dinheiro dos irmãos de Corinto, que dese-
javam dar-lhe bastante, para sentirem-se bem, por pensarem quão im-
portante era seu mestre, alguns achavam que Paulo realmente não en-
tendia as regras do jogo; por isso, ele não valia muito. Sob o ponto de
vista daquela igreja, Paulo estava se rebaixando ao trabalhar para
manter-se — isso era algo que nenhum mestre grego sonharia em fa-
zer! O problema da atitude dos coríntios em relação ao dinheiro e ao
ensino se destaca de modo mais pungente em 2 Coríntios 11.7, ss.[17]
Paulo começou a abordar o problema por insistir que tinha o di-
reito de receber aquele apoio. Era tolice imaginar que somente ele e
Barnabé tinham de trabalhar para sustentarem-se (9.6). Os soldados
servem e são pagos por aqueles a quem servem; os viticultores e os
pastores são sustentados pelas rendas obtidas de seu labor. Não deve-
mos esperar que os ensinadores da Palavra fossem sustentados pelos
frutos de seu trabalho — os convertidos que eles ganham (9.7)? A pró-
pria Escritura apresenta muitos precedentes ao princípio de que os
trabalhadores — animais ou pessoas — devem ser sustentados pelo
seu labor (9.8-10). Se Paulo havia plantado “as coisas espirituais” entre
os coríntios, certamente não era demais esperar que colhesse deles
“bens materiais” (9.11)! Afinal de contas, eles haviam sustentado ou-
tros líderes cristãos. Paulo não tinha o direito de esperar o mesmo
(9.12a)?
Então, o clímax: “Entretanto, não usamos desse direito; antes, su-
portamos tudo, para não criarmos qualquer obstáculo ao evangelho
de Cristo” (9.12b). Do ponto de vista de Paulo, aceitar dinheiro dessas
pessoas, enquanto implantava uma igreja entre elas, poderia ser preju-
dicial à integridade de seu testemunho e à credibilidade do evangelho.
Por isso, ele desistiu espontaneamente de seu direito de ser sustentado
por eles. Isso não significa que Paulo achava que todos os líderes cris-
tãos ou todos os plantadores de igreja deveriam adotar esse mesmo
comportamento. De modo nenhum. Ele insistiu que, de acordo com a
normalidade das coisas, aqueles que trabalham na esfera espiritual de-
vem ser sustentados pelo fruto de seu trabalho. “Assim ordenou tam-
bém o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho”
(9.13-14). Em seguida, Paulo expressou a sua postura: “Eu, porém, não
me tenho servido de nenhuma destas coisas” (9.15). Ele também não
condescendeu com uma prática muito empregada em algumas cartas
de oração de missionários, nas quais, por argumentarem que não pe-
dem nada, eles já estão, de fato, pedindo! Isso não aconteceu com Pau-
lo, pois ele acrescenta: “Não escrevo isto para que assim se faça comi-
go; porque melhor me fora morrer, antes que alguém me anule esta
glória [ou seja, ele havia renunciado o seu direito de ser sustentado
por aqueles aos quais ministrara]” (9.15).
A princípio, isso parece refletir uma linguagem muito exagerada
ou chocante. Mas, em algumas sentenças que são frequentemente mal
entendidas, Paulo explicou por que adotara essa postura. Em seu caso,
disse Paulo, ele não tinha outra escolha no que diz respeito a pregar o
evangelho. Os outros apóstolos eram em algum sentido voluntários.
Pelo menos, dois ou três deles procuraram Jesus, enquanto ainda eram
discípulos de João Batista (Jo 1.35-41). Todos eles foram convidados
por Jesus a unirem-se ao seu grupo e crescerem no entendimento e na
fé durante todo o seu ministério, coroando as incertezas com a convic-
ção que obtiveram como resultado da ressurreição e do Pentecostes.
Não foi assim com Paulo. O Jesus ressuscitado apareceu a Paulo na es-
trada de Damasco, em uma luz brilhante, realizando a sua salvação e a
sua chamada para o ministério, por meio de uma revelação impactan-
te. Paulo não podia abandonar a sua pregação sem abandonar a sua
salvação. Para ele, ambas são idênticas. Paulo nunca se ofereceu como
voluntário. Fora cativado por Cristo para a salvação e o ministério
apostólico em um ato de revelação impressionante da parte do Cristo
glorificado. Outros podem ter sido voluntários. “Se anuncio o evange-
lho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação;
porque ai de mim se não pregar o evangelho! Se o faço de livre vonta-
de, tenho galardão; mas, se constrangido, é, então, a responsabilidade
de despenseiro que me está confiada” (9.16-17). Em outras palavras,
embora muitos pregadores sintam algum tipo de compulsão divina, o
senso de Paulo quanto à compulsão divina era singular. Estava preso
à singularidade de sua conversão.
“Nesse caso, qual é o meu galardão?” (9.18), indagou Paulo. Se a
sua pregação não fosse um comprometimento sincero e espontâneo
com a tarefa (visto que ele não tinha realmente outra escolha quanto a
esse assunto, senão o tentar afastar-se completamente do evangelho),
como ele poderia demonstrar que seu coração e alma estavam no mi-
nistério? Que elemento de seu ministério provava que a graça de Deus
havia capturado seu coração e sua vontade e que suas ações trariam
consigo a recompensa de Deus? Somente este: “É que, evangelizando,
proponha, de graça, o evangelho, para não me valer do direito que ele
me dá” (9.18).
Isso é admirável. Paulo se mostrou tão preocupado em provar seu
próprio compromisso — sincero, espontâneo e voluntário — com a ta-
refa da pregação apostólica à qual havia sido chamado, que decidiu
abandonar um de seus direitos. Ele renunciou o direito de ser susten-
tado, sabendo que essa decisão lhe custaria grande quantidade de
tempo, esforço, labor e mal-entendidos adicionais. Mas ela o capacitou
a pregar o evangelho “de graça” e ser um exemplo da liberdade da
graça na maneira como servia. Essa renúncia também o capacitou a
mostrar que servia não meramente por obrigação, mas também por
conta de uma mente e vontade transformadas, de modo que, pela gra-
ça de Deus, ele estava, de fato, acumulando tesouros no céu.
Que atitude estimulante! Que perspectiva cristã profunda! Muitos
ministros do evangelho estão hoje muito preocupados com os níveis
de salário e os pacotes de benefícios. Certamente, essas questões têm
de ser consideradas. Todavia, Paulo estava mais preocupado em de-
monstrar que ministrava compelido por uma vontade transformada
— por uma paixão de salvar, e não por uma coerção relutante. E, se a
única maneira de demonstrar esse compromisso era por abandonar al-
guns de seus direitos, então, que assim fosse. Paulo os abandonaria
alegremente.
Foi com esta atitude que Paulo começou o primeiro parágrafo que
citei no início deste capítulo: “Porque, sendo livre de todos, fiz-me es-
cravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível” (9.19). En-
quanto os coríntios desprezavam Paulo por não haver exigido um
bom pagamento, ele se deleitava em sua renúncia íntegra. De fato, ele
disse, esta maneira de abordar o ministério afetava mais do que ape-
nas a vida financeira. Afetava todas as suas decisões. Paulo sabia o
que ele era como cristão: era livre e não pertencia a ninguém. Ao mes-
mo tempo, resolveu voluntariamente tornar-se servo de todos.
Assim, o exemplo pessoal de Paulo exerce um impacto enorme
sobre toda a questão relativamente menor suscitada em 1 Coríntios 8,
a respeito de o cristão poder ou não comer carne sacrificada a ídolos.
Essa é provavelmente a razão por que, neste parágrafo, Paulo não dis-
se somente coisas como: “Procedi, para com os judeus, como judeu, a
fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como
se eu mesmo assim vivesse”, mas também: “Fiz-me fraco para com os
fracos, com o fim de ganhar os fracos” (9.20-22). Ele retornou à sua
discussão anterior sobre os cristãos fracos. Mas o fato é que o exemplo
de Paulo vai muito além da questão de comer carne oferecida a ídolos.
Tornou-se seu estilo de vida; era o desenvolvimento, em uma maneira
de viver extraordinária, do que significa tomar a cruz e seguir a Jesus.
Era uma demonstração do que significa ser um cristão transcultural.
Não devemos insistir em nossos direitos. Enquanto o defender os
nossos direitos for o princípio que norteia nossas prioridades, não po-
deremos seguir o caminho da cruz.
Esse tipo de auto-renúncia é muito fácil de ser admirada nos ou-
tros cristãos. Uma pessoa pode formar todos os tipos de lições interes-
santes derivadas desta abordagem de Paulo a respeito do que fazer
em relação a comer carne oferecida a ídolos. Contudo, o poder desta
posição se torna óbvio somente quando apelam a abandonarmos os
nossos direitos.
Mesmo no lar, muitas discussões são fomentadas porque nenhum
dos lados quer abandonar sua posição. Lutamos para proteger nossos
direitos. Mas suspeito que alguns dos testes mais confirmadores da
prontidão para desistir de nossos direitos ocorrem quando somos lan-
çados em circunstâncias multiculturais por um tempo. Pequenas coi-
sas podem ser muito irritantes. Quando eu moderava seminários que
incluíam pensadores cristãos de diferentes lugares do mundo, dedica-
va grande parte de minhas energias observando os diferentes traços
culturais. Desde os primeiros momentos em que os participantes en-
travam na sala, as diferenças culturais se manifestavam. Os latinos
chegavam, e havia beijos por todos os lados. Aparecia um alemão, e ti-
nha de apertar as mãos de cada um. Os hispânicos queriam ficar a uns
quarenta centímetros de distância quando conversavam com você. Os
anglo-saxões preferiam ficar a quase um metro. Para os anglo-saxões,
os hispânicos pareciam insistentes e rudes; para estes, os anglo-saxões
estavam constantemente se esquivando, eram distantes, não gostavam
de amizade e apresentavam-se com ar de superioridade. Os japoneses
entravam e curvavam a cabeça. O americano entrava e dizia em voz
alta: “Olá, pessoal. Desculpem o atraso”. Ele estava atrasado — uns
dez minutos. Mas só sabia o que significa realmente “estar atrasado”
quando o africano chegava.
Em algum ponto da discussão, o erudito japonês expressava o
que julgava ser um argumento poderoso e convincente: “Irmãos, vo-
cês acham que seria possível pensarmos em considerar este assunto
desta outra maneira?” Depois de terminar sua sugestão despretensio-
sa, proferida calmamente, o norueguês o rejeitava nestes termos: “Isso
não pode ser! Não é isso o que a passagem significa”. O japonês sen-
tia-se intimidado e ficava em silêncio, durante as próximas duas ho-
ras, admirando-se do tipo de bárbaros que encontrara. A metade do
restante dos membros achava que o erudito japonês era tímido.
Era muito bom que o seminário durava somente alguns dias. Me-
ses e meses de uma nova cultura pode ser desgastante. Na verdade,
isso é o que está acontecendo agora na América ou em qualquer outro
país industrializado do Ocidente. O ritmo das mudanças é tão rápido
que gerações diferentes estão colidindo umas com as outras quase à
semelhança de culturas conflitantes. Por exemplo, os gostos radical-
mente diferentes quanto à música que atualmente dividem muitas
igrejas são, em parte, choques culturais. E não é fácil ser sábio. Uma
pessoa disse certa vez que as palavras decisivas de uma igreja são es-
tas: “Sempre o fizemos desta maneira”. Por outro lado, tenho simpatia
pela posição de C. S. Lewis, que afirmava poder suportar qualquer
modelo de adoração coletiva, contanto que ela não mudasse frequen-
temente. Ele argumentava que qualquer novidade é um elemento de
distração. A mais profunda e melhor adoração coletiva acontece quan-
do as formas são tão familiares, que você nunca as vê e elas podem pe-
netrar a realidade. Mas tente explicar isso na próxima reunião de sua
igreja.
Em última análise, nunca pode haver paz e progresso nesta e em
muitas outras questões enquanto todos os lados envolvidos não ouvi-
rem atentamente uns aos outros e resolverem com humildade, à medi-
da que expõem o caso, nunca insistir em seus próprios direitos. Esse é
o caminho da cruz. É a própria vida daqueles que estão envolvidos em
promover o alcance intercultural da cruz — e isso significa: todos nós.

TEMOS DE ADOTAR COMO NOSSO ALVO A SALVAÇÃO


DE HOMENS E MULHERES

Paulo salientou isso repetidas vezes. “Fiz-me escravo de todos, a


fim de ganhar o maior número possível” (9.19). “Procedi, para com os
judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus... Fiz-me fraco para com
os fracos, com o fim de ganhar os fracos. (9.20, 22, ênfase acrescentada).
E mais: “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos,
salvar alguns” (9.22, ênfase acrescentada). No final de toda seção, o
mesmo pensamento ainda estava na mente de Paulo: “Portanto, quer
comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus,
nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como
também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o
meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos. Sede
meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (10.31-11.1, ênfase
acrescentada).
Esse alvo, repetido pelo apóstolo a fim de ressaltar sua importân-
cia, teve o efeito de focalizar e limitar alguns dos outros princípios que
ele formulou. Falarei brevemente sobre duas áreas em que isso é ver-
dade.
Primeira, embora, ao abordar o último assunto eu tenha resumido
grande parte do pensamento de Paulo nestes capítulos, usando o títu-
lo “não devemos insistir em nossos direitos”, esse título precisa de es-
clarecimento. Achei melhor dispor as palavras de modo impactante.
Permanece o fato de que a sentença é um pouco enganosa. Se o alvo
do exercício fosse meramente não insistirmos em nossos direitos, en-
tão, sempre nos seria exigido que não fizéssemos isso. E nos tornaría-
mos o mais admirável conglomerado de covardes. Mas, de fato, Paulo
mesmo, que falou tanto a respeito de auto-renúncia e de não insistir
em seus direitos, às vezes os julgou importantes. Por exemplo, em
mais do que uma ocasião ele apelou à sua cidadania romana para es-
capar de espancamento. Ele não estava preservando os seus direitos?
No entanto, Paulo não estava interessado em defender seus direi-
tos como um fim em si mesmo. “Fiz-me escravo de todos”, Paulo res-
saltou, “a fim de ganhar o maior número possível” (9.19, ênfase acrescen-
tada). Se o bem-estar espiritual de ninguém era ameaçado quando ele
comesse carne, sem dúvida ele a comeria. Paulo sofreu espancamentos
da parte de sinagogas judaicas; mas, quando, em algumas ocasiões, es-
tava para ser açoitado pelos romanos, ele apresentou às autoridades a
questão concernente à sua posição legal como cidadão romano. Paulo
fez isso porque estava interessado em estabelecer precedentes legais
que protegeriam a igreja. Certamente esse é o entendimento de Lucas
quanto aos acontecimentos do livro de Atos. Lucas relatou cuidadosa-
mente uma decisão após outra tomada em favor do movimento cris-
tão recém-nascido. Ele pretendia que esse acúmulo de precedentes le-
gais ajudassem a proteger a igreja. Em outras palavras, Paulo ainda
estava agindo com base em um princípio: queria ganhar o maior nú-
mero possível. Em algumas ocasiões, um cristão insistir em seus pró-
prios direitos pode ser necessário. Contudo, ele deve estar pronto a
abandonar o apelo aos seus direitos. O melhor curso de ação a ser to-
mado em uma crise específica pode ser determinado por esta indaga-
ção a respeito do alvo e do efeito das opções: como este curso de ação
contribui para ou obstrui a obra do evangelho?
Em segundo lugar, com base na perspectiva do tema amplo do
capítulo, é importante reconhecer que tornar-se um cristão transcultu-
ral não pode ser um fim em si mesmo. O alvo não é que o cristão se
torne tão internacional e culturalmente flexível, que não se encaixe em
lugar nenhum; antes, o alvo é que ele se torne tão compreensível e fle-
xível que possa se encaixar e promover o evangelho em qualquer lu-
gar.
Essa é uma lição que tenho aprendido de maneira desagradável.
Quando voltei para casa, no Canadá, depois de um período de três
anos no exterior, fui para uma região metropolitana na qual antes ha-
via servido como pastor. Trouxe minha esposa comigo, uma jovem
britânica que nunca vivera fora da Inglaterra. Achamos o cenário da
igreja bastante desanimador. Para que ela conhecesse a região, levei-a
a diferentes igrejas nas primeiras poucas semanas em que estávamos
no país, e cada exposição era pior do que as anteriores. Achei as pes-
soas e as igrejas muito paroquianas, restritas e coisas semelhantes.
Não proporcionei à minha esposa nenhum apoio emocional em sua
tentativa de se adaptar a uma nova cultura.
Num domingo à tarde, depois de seis semanas ou dois meses, dis-
se à minha esposa: “Hoje sairemos da cidade; iremos a uma zona ru-
ral, a uma igreja que tem um pastor sério em relação à Palavra de
Deus. Vamos lá hoje à noite”. Mas aconteceu que o pastor titular não
estava pregando lá naquela noite. Houve um pregador convidado, de
Nova Iorque, que vociferou contra os males do comunismo. A sua fra-
se-chave, retumbada em um sotaque nasal e agudo, típico de nova-ior-
quinos, era: “A luta contra o comunismo é uma luta por Deus”. Minha
esposa e eu fomos embora.
Precisei de mais seis meses para que pudesse fitar-me no espelho
e dar-me uma boa reprimenda. “Carson, seu idiota hipócrita. Se o Se-
nhor o chamasse à Jamaica, ou ao Japão, ou às ilhas Maurício, ou a
Mombasa, você lidaria com isso. Você se disciplinaria para entender a
cultura e as pessoas e aprenderia a ministrar naquele ambiente. Você é
tão arrogante que não pode fazer os mesmos ajustes, quando retorna a
seu próprio povo? Não pode ver que não foram eles que mudaram, e
sim você? Despreza-os porque não desfrutaram da exposição cultural
em diferentes países como você experimentou?” Então, pela miseri-
córdia de Deus, finalmente sosseguei.
Desde então aprendi que o choque da reversão cultural é o pior
choque cultural. Muitas pessoas que ficam no exterior por vários anos
preparam-se para lidar com a nova cultura, mas quase nunca se pre-
param para lidar com o impacto de reintegrarem-se à cultura que dei-
xaram para trás. No seminário em que ensino, advertimos constante-
mente alunos de outros países quanto aos choques de reversão cultu-
ral que devem esperar enfrentar quando retornarem.
Esse tipo de desorientação também explica, em parte, a frequên-
cia e a intensidade das críticas que muitos líderes do “Terceiro Mun-
do” proferem contra as instituições e as igrejas do Ocidente. Deus sabe
que há muito a criticar no Ocidente. Contudo, em minha experiência,
poucos líderes do “Terceiro Mundo” gastam muito tempo criticando o
Ocidente e enfatizando a necessidade de teologia contextualizada
apropriadamente, depois que eles passam alguns anos estudando no Oci-
dente. Muitos deles não mais se encaixam bem em seu país. Onde eles
aprenderam as suas críticas a respeito do Ocidente? É claro que no
próprio Ocidente! Criticar o Ocidente é algo tipicamente ocidental. De
fato, criticar o lugar em que vivemos é tipicamente ocidental. Poucos
desses líderes estrangeiros, por alguma razão, se envolvem realmente
em teologia contextualizada. Em vez disso, criam a sua reputação por
criticarem o Ocidente.
Sem dúvida, tenho encontrado muitas exceções a essas generali-
dades. Mas elas se mostram verdadeiras para muitos dos que têm via-
jado pelos círculos evangélicos em muitas partes do mundo.
Todas essas críticas mudariam sua face se o nosso alvo sempre
fosse “ganhar o maior número possível”. Muito dessa esquisitice de
não se encaixar bem em qualquer lugar desapareceria, se apenas resol-
vêssemos agir de uma maneira que atingisse esse alvo.
Quanto maior for o abismo entre a cultura da igreja e a cultura da
sociedade circunvizinha da igreja, tanto mais importante será saber-
mos como transpor esse abismo. Contudo, a preocupação tem de ser
nunca provarmos quão cosmopolitas ou quão flexíveis somos. O alvo
sempre deve ser “ganhar o maior número possível”.
É fácil recordarmos ocasiões em que esse não era o nosso alvo.
Um amigo meu, pastor de uma igreja na Inglaterra, foi convidado a ir
à Escócia e dar palestras a uma missão sustentada por um grupo cris-
tão numa universidade da Escócia. Admiravelmente, embora eles es-
perassem a presença de 75 pessoas na primeira noite, apareceram 150
— metade delas era de muçulmanos que haviam decidido ir à reunião
para descobrirem por si mesmos o que os cristãos pensavam. Os cris-
tãos da universidade acharam que precisavam “aquecer” a audiência
e formaram um grupo de cantores que entoou certo número de can-
ções populares escocesas. Em seguida, o grupo musical, cheio de ener-
gia e entusiasmo, anunciou que gostaria de cantar algumas músicas
cristãs. E começaram (você pode acreditar?) com “Desperta, desperta,
ó Sião, e te reveste de vigor...” — 75 muçulmanos foram embora na-
quele momento.
Não precisamos ser muito severos em relação a esses irmãos esco-
ceses. Eles apenas não pensaram. Mas isso é, em si mesmo, a tragédia.
Eles nunca perguntaram atentamente: “O que devemos fazer para ga-
nhar o maior número possível”? Pelo menos, eles não deram à sua mis-
são o nome de cruzada! Essa palavra não tem boa aceitação entre os
muçulmanos.
As barreiras têm de ser vencidas. Grupos diferentes têm lingua-
gem, características, tolerâncias, história e memórias diferentes. Al-
guns grupos empregam um senso de humor quase individual. Precisei
de três ou quatro dias, na primeira ocasião em que preguei na Austrá-
lia, para entender que as apresentações mais calorosas eram as mais
sarcásticas, visto que os australianos frequentemente se engajam no
seu passatempo nacional de “menosprezar pessoas bem-sucedidas”.
As diferentes camadas sociais têm de ser atravessadas. Em alguns
países, como na Inglaterra, o evangelho mudou-se quase totalmente
para a classe média e média alta da sociedade. Estudar as razões histó-
ricas por que isso aconteceu não serve, por si mesmo, para resolver o
fato de que o evangelho quase não tem alcançado os assalariados da-
quele país.
Temos de adotar como nosso alvo a salvação de homens e mulhe-
res. Essa visão nos capacita a evitar um cristianismo enclausurado.
Precisamos meditar em Salmos 96 e 98, Isaías 49.1-3, Jeremias 12.12-13,
Miqueias 4, Colossenses 1.15-29 a Apocalipse 4-5. Temos de possuir
uma conscientização e uma compaixão de alcance global. A sensibili-
dade cultural e a flexibilidade têm de se tornar ferramentas que nos
capacitam a enfrentar com sabedoria e coragem os desafios da evange-
lização que alcança diferentes culturas, e não um fim em si mesmo
para criar uma elite míope de pessoas amáveis e flexíveis.

TEMOS DE RECONHECER QUE ESTA POSTURA ESTÁ


UNIDA À NOSSA PRÓPRIA SALVAÇÃO

Essa é a conclusão a que Paulo chega no versículo 23. “Tudo faço


por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele”.
Talvez devêssemos esperar que ele escrevesse: “A fim de que eles com-
partilhem das bênçãos do evangelho”. Contudo, não foi isso que ele
disse. Paulo deu todos os passos delineados no capítulo e se sujeitou a
uma auto-renúncia rigorosa por amor ao evangelho, para que se tor-
nasse “cooperador com ele”. O que ele quis dizer?
Se o entendemos corretamente, Paulo estava dizendo que não po-
dia imaginar qualquer outra maneira de ser um cristão. Ele agia desta
maneira para promover o evangelho e, com certeza, pretendia que
suas ações contribuíssem para o bem de seus ouvintes. Todavia, se-
guir o Messias crucificado implicava que Paulo tinha de tomar a sua
própria cruz todos os dias, morrer para o interesse pessoal e servir
Aquele que o comprara. Você não pode promover o evangelho de ou-
tra maneira. Promovê-lo desta maneira — morrendo para o interesse
pessoal, desistindo de toda insistência sobre a santidade de seus direi-
tos e se esforçando para ganhar o maior número possível — significa
seguir o Cristo crucificado, que morreu, literalmente, para o seu inte-
resse pessoal, abandonou toda insistência na santidade de seus direitos
reais e se entregou para comprar homens e mulheres de todos os po-
vos, línguas, tribos e nações. Não há outra maneira de seguir a Cristo;
não há outra maneira de cooperar com o evangelho.
Esse é o principal ensino do último parágrafo de 1 Coríntios 9.
Usando metáforas de esportes, corrida e boxe, Paulo exortou os ir-
mãos de Corinto a correrem a carreira cristã e a lutarem o combate
cristão de tal modo que alcançassem o prêmio. Isso significa, como
significava para os atletas olímpicos, autodisciplina, auto-renúncia e
treinamento rígido. Esse foi o tipo de disciplina que Paulo impusera
sobre si mesmo e esperava que todos os cristãos adotassem. Boxear
um oponente imaginário ou passear de modo agradável e perambu-
lante através da campina, enquanto pessoas sérias lutam e correm ar-
duamente, não leva ninguém a ganhar o prêmio. Paulo mesmo seria
desqualificado se deixasse a corrida para apanhar flores. Por defini-
ção, o verdadeiro cristão é alguém que persevera (cf. Jo 8.31, Cl 1.21-
23, Hb 3.14, 2Jo 9). Para o apóstolo Paulo, essa perseverança estava
presa ao seu ministério. Em outras palavras, ele fazia tudo por amor ao
evangelho, de modo que cooperasse com o evangelho.
Evidentemente, ninguém sugerirá que todo cristão tem servir ao
Senhor Jesus Cristo exatamente como Paulo o fez. Mas Paulo queria
que os cristãos de Corinto tivessem a mesma atitude de auto-renúncia
que ele demonstrava. Para ele, essa atitude não é opcional, está implí-
cita no que significa ser um cristão. O cristão forte que insiste em seus
próprios direitos está pecando contra Cristo (8.12). Em princípio, isso
também é verdade quanto àquele que não está crescendo no compro-
misso de “ganhar o maior número possível”, por seguir o caminho da
cruz.
Isso significa, ao final do dia, que todo cristão deve ser um cristão
transcultural. Minha introdução neste capítulo foi levemente engana-
dora. Talvez desse a entender que existem dois tipos de cristãos: os
cristãos globais e todos os demais. Mas Paulo via como abaixo do nor-
mal qualquer coisa menos do que um cristão global, no sentido defini-
do neste capítulo. Onde houver um fracasso no discipulado, onde
houver pecado contra Cristo, onde houver recusa persistente de seguir
a Paulo, como ele seguia a Cristo no caminho da cruz, ali também
achamos uma perambulação sem alvo. E, se você está vagueando sem
alvo, quando deveria estar correndo em busca do prêmio, será des-
qualificado.

Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só
leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina;
aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível (9.24-25).

PERGUNTAS PARA REVISÃO E REFLEXÃO

1. O que é um “cristão transcultural”?

2. Por que é importante saber o que você é como cristão?

3. Que “direitos” você renunciou por amor ao evangelho? Que direitos


você está pronto para renunciar?

4. Como o interesse de “ganhar o maior número possível” molda a sua


vida? Seja específico. O que você pode fazer para melhorar nesta
área?

5. Em suas palavras, explique como a mensagem do Messias crucifica-


do está unida ao que significa ser um cristão transcultural?

[16] Em alguns contextos, isso é exatamente o que Paulo pensa a respeito de si mesmo: um ju-
deu cristão. É essa auto-identificação que torna a sua dor tão pungente em Romanos 9.1-5. Em
outra de suas epístolas, ele lembra aos leitores que descendia da tribo de Benjamim (Fp 3.5).
Passagens como essa servem para tornar 1 Coríntios 9 mais impressionante. Neste contexto,
em que Paulo fala sobre a sua relação para com a lei, ele não se identifica como um judeu cris-
tão ou como um gentio cristão, e sim como alguém diferente.
[17] 2. A abordagem de Paulo quanto ao sustento da parte das igrejas é complexa e não pode
ser explorada plenamente nesta altura. É certo que ele aceitou, em algumas ocasiões, dinheiro
das igrejas que fundou, especialmente da igreja em Filipos. Todavia, parece que ele nunca
aceitou dinheiro das igrejas como pagamento pelo serviço prestado. Em outras palavras, Pau-
lo não foi “pago” para ministrar em Filipos, mas aceitou dinheiro daqueles irmãos quando
serviu em Corinto. Havia outros princípios que governavam as decisões financeiras de Paulo.
A Editora Fiel tem como propósito servir a Deus através do servi-
ço ao povo de Deus, a Igreja.
Em nosso site, na internet, disponibilizamos centenas de recursos
gratuitos, como vídeos de pregações e conferências, artigos, e-books,
livros em áudio, blog e muito mais.
Oferecemos ao nosso leitor materiais que, cremos, serão de gran-
de proveito para sua edificação, instrução e crescimento espiritual.
Assine também nosso informativo e faça parte da comunidade
Fiel. Através do informativo, você terá acesso a vários materiais gra-
tuitos e promoções especiais exclusivos para quem faz parte de nossa
comunidade.

Visite nosso website


www.ministeriofiel.com.br
e faça parte da comunidade Fiel