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Deus precisa dos homens

por Luigi Giussani

Vocês fazem bem em bater palmas, porque eu acredito naquilo que digo. “O maior
perigo a que possa temer a humanidade – disse Teilhard de Chardin – não é uma
catástrofe que venha de fora, não é nem a fome nem a peste, é, pelo contrário,
esta doença espiritual, a mais terrível porque é o mais diretamente humano dos
flagelos, que é a perda do gosto de viver”.
Quando eu disse essa frase, me veio imediatamente ao coração e à memória
como deve ter nascido historicamente o interesse por Cristo. As pessoas poderiam
ir escutá-Lo se perguntando: “O que é isso que ele diz? Fala da Trindade, de Deus
Pai, fala do inferno da alma, da responsabilidade do homem”. Porém, poderiam
também se fazer uma outra pergunta, que encontrava resposta no próprio coração,
sem que fossem conscientes: “Esta pessoa, por que diz essas coisas?”. E
imediatamente, quem tivesse formulado esta pergunta, teria escutado em si
mesmo essa resposta: “Porque ama o homem”. Pegou uma criança, aproximou-a
de si e disse: “Maldito aquele que torce um único fio de cabelo do menor dos meus
filhos” e não falava de torcer fisicamente um fio de cabelo, porque nisso todos têm
um pouco de recato; falava de fazer mal a uma criança em termos morais, lá onde
ninguém presta atenção ou tem precaução; falava de um respeito absoluto por
este serzinho indefeso. Ou então, para no caminho, passa um funeral, uma mulher
soluça atrás de um féretro e Ele pergunta: “O que aconteceu?”, “É uma viúva.
Morreu-lhe o filho único”. Dá um passo a frente e diz: “Mulher, não chores”. Ou
ainda: “O que importa se tu tens tudo aquilo que queres e depois perdes a ti
mesmo?”. O que um homem dará em troca de si? Assim, surgiu no mundo o
sentido do respeito, da veneração, do apego, do amor, da confiança, da
responsabilidade com relação à pessoa.
A pessoa: o amor ao homem. De outra forma não é possível compreender o
Cristianismo. Mas, talvez, nós mesmos não o compreendamos, mesmo tentando
vivê-lo, porque não participamos desta sua origem. O Cristianismo não nasceu
para fundar uma religião, nasceu como paixão pelo homem. Então, se compreende
que, se Cristo falava do Pai, se falava da criança, se olhava com especial atenção
para o doente, para o pobre, era porque pobre, criança ou doente eram, entre
todos, os mais indefesos, aqueles que menos poderiam ter conseguido se impor
por si mesmos; exatamente por isso Ele sublinhava a presença desses, porque o
valor deles era independente da sua capacidade de poder ou de servir ao poder. O
homem, o filho de mulher, o homem concreto, como sempre insiste João Paulo II,
não o homem à la Feuerbach ou à la Marx, eu, tu, o homem filho de sua mãe e de
seu pai: e o amor ao homem, a veneração pelo homem, a ternura pelo homem, a
paixão pelo homem, a estima absoluta pelo homem.
A frase de Teilhard de Chardin me fez lembrar do Evangelho: “Eu vos disse essas
coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.
Alegria: a voz do cristão é a única que pode usar a palavra alegria sem ser
obrigada a esquecer ou renegar qualquer coisa. Jesus o disse em termos bíblicos:
“O anjo delas (o anjo das crianças) vê a face do meu Pai”. O homem é grande
porque é relação com o Infinito, mas uma relação tal que se pode definir com um
paradoxo: Deus precisa dos homens. Deus. Mas, quem não tem medo de usar
estas palavras, quaisquer que sejam as imagens que tenha? Eu tenho muito e, de
fato, as uso muito raramente.
Este “insondável mistério”, como dizia Einstein, três dias antes de morrer, ao
grande matemática Francesco Severi, “que subjaz toda pesquisa”, esta “sombra
que não se pode destacar de nós”, dizia Whithead, esta implicação última da
razão, entendida como consciência da realidade segundo a totalidade dos seus
fatores. “Toda a lei da existência humana está tão somente nisto: que o homem
possa se inclinar diante do infinitamente grande”, dizia Dostoievski. Exatamente
por isso, de todos os modos que se conceba, este infinitamente grande está ligado
à nossa existência. Com um termo dramático, a Bíblia fala de “aliança”, um
contrato substancial, essencial e existencial: a aliança da criação. Este
infinitamente grande é ligado à nossa existência por aquele maravilhamento que
assegura a emoção da novidade, sem a qual a vida seria tédio mortal, pelo qual
Deus se impõe a nós como atração imperativa do real, do ser; por aquela emoção
da razão pela qual Deus aparece como a consistência que nos mantém sobre o
abismo do nada; por aquela dependência inevitável dos acontecimentos, pela qual
Deus nos determina como Destino.
Mas então, se Deus é ligado a nós, podemos falar disso? Deve-se falar disso, no
sentido de que não é possível não falar disso, de qualquer modo como se o
conceba. Só existe uma maneira de não falar disso: não pensar. “Fechado entre
coisas mortais mesmo o céu estrelado acabará. Porque grito a Deus?”. É a
pergunta apaixonada de Ungaretti. Pergunta que Rainer Maria Rilke explicitou
assim: “Apaga-me os olhos, ainda posso ver-te. Tranca-me os ouvidos, ainda
posso ouvir-te, e sem pés posso ainda ir para ti, e sem boca posso ainda invocar-
te. Quebra-me os ossos, e posso apertar-te com o coração como com a mão, tapa-
me o coração, e o cérebro baterá, e se me deitares fogo ao cérebro, hei-de
continuar a trazer-te no sangue”. Por isto, por esta implicação fisiológica, com
temor e tremor, repito: Deus precisa dos homens. Assim nos foi revelado.
O belo título do esquecido filme de Delannoy é certamente um paradoxo, mas é
verdadeiro: Deus se fez necessitado do homem pelo modo como agiu. Só
podemos nos exprimir com estas fórmulas: ter necessidade sem que fosse preciso
ter necessidade é amor. O amor na sua pureza, para todos vivido como nostalgia
sobretudo quando não é vivido como experiência, o amor na sua gratuidade
absoluta. Deus se fez necessitado do homem porque o criou livre, fez o homem
participar desta Sua suprema capacidade de posse de si, e, em segundo lugar,
porque se fez homem, se fez história! Péguy, no Mistério dos Santos Inocentes,
escreveu: “Perguntem a um pai se o melhor momento não é quando os seus filhos
começam a amá-lo como homens, ele mesmo, como um homem, livremente,
gratuitamente. Perguntem isso a um pai cujos filhos estejam crescendo.
Perguntem a um pai se não existe uma hora secreta, um momento secreto, e se
não é quando os seus filhos começam a se tornar homens, livres, e ele mesmo
tratado como um homem, livre! Amam-no como um homem, livre, perguntem isso
a um pai cujos filhos estão crescendo. Perguntem àquele pai se não existe uma
eleição entre todas, e se não é quando a submissão precisamente acaba, e
quando os seus filhos, tornados homens, o amam, o tratam por assim dizer como
conhecidos, de homem para homem, livremente, gratuitamente, o estima assim.
Perguntem àquele pai se não se ele não sabe que nada vale mais do o olhar de
um homem que encontra um olhar de homem. Ora, eu sou o pai dos homens,
disse Deus, e conheço a condição do homem, fui eu quem a fez, não peço muito a
eles, só lhes peço o coração, quando tenho o coração acho que já é suficiente,
não sou difícil. Todas as submissões de escravos do mundo não valem um belo
olhar de um homem livre, ou mais: todas as submissões de escravos do mundo
me repugnam e eu daria tudo por um belo olhar de homem livre, por uma bela
obediência e ternura e devoção de homem livre, por um olhar de São Luiz IX e
também por um olhar de Joinville, porque Joinville é menos santos, mas não é
menos livre, e não é menos cristão e não é menos gratuito, e meu filho morreu
também por Joinville. Por esta liberdade, por esta gratuidade sacrifiquei tudo, disse
Deus, pelo gosto que tenho de ser amado por homens livres, livremente,
gratuitamente, por verdadeiros homens, viris, adultos, firmes, nobres, ternos mas
de uma ternura firme. Para obter esta liberdade, esta gratuidade, sacrifiquei tudo,
para criar esta liberdade, esta gratuidade, para fazer agir esta liberdade, esta
gratuidade, para ensinar ao homem a liberdade...”.
Mas, esta capacidade enérgica de aderir ao ser, na qual está a liberdade, tem em
si um mecanismo tremendo, como um mistério, Péguy diz “mistério dos mistérios”.
A liberdade se realiza como escolha, como opção. Diria Althusser, naquele seu
terrível juízo: “A diferença entre o crer na existência de Deus e o marxismo não
está em uma razão, é uma pura opção”. Escolha do quê? Aceitar o não aceitar o
Ser. Esta é uma escolha que se repropõe a cada dia, porque nós, a cada manhã,
nos levantamos e nos colocamos diante da realidade com o olhar escancarado,
aberto, ingênuo de uma criança, pronto para dizer pão ao pão, vinho ao vinho.
“Seja o vosso dizer sim, não; toda outra palavra vem da mentira”. Ou então, nos
levantamos com os cotovelos cobrindo o rosto, cautelosos, para nos defendermos
da realidade (aceitar ou não o Ser, a própria mãe ou Deus é o mesmo, a posição é
idêntica), ajuntando pretextos também contra a evidência, naturalmente. E se se
ajuntam pretextos, então não é apenas negação, mas é mentira. As razões, os
pretextos fundamentais, são a dor, em todos os sentidos, mesmo a dor do se sentir
por baixo, ou a pretensão, a vontade de afirmação do homem, não de si, atenção,
não do próprio eu, mas do homem, atenção outra vez, do homem à la Feuerbach.
Talvez o exemplo mais impressionante da primeira razão, a dor do homem, é uma
famosa poesia de Montale que me permito citar: “Talvez, uma manhã, andando
sob o ar árido, virando-me, verei acontecer o milagre; o nada atrás de mim, o vazio
às minhas costas com um terror de bêbado. Depois, como que sobre uma tela, se
encherá de árvores, casas, colinas, para o engano habitual, mas será muito tarde.
E eu irei embora calado, entre as pessoas que não olham para trás, com o meu
segredo”. Quando li esta poesia de Montale, de repente, entendi; porque esta é a
posição na qual se acende a intuição e a experiência mística, esta percepção
imediata do nada das coisas, da inconsistência de tudo, do efêmero, é também o
início da experiência do Ser que dá consistência e sustenta tudo. “Rerum Deus
tenax vigor”, “Ó, Senhor, consistência tenaz de todas as coisas”: aqui, pelo
contrário, da mesma idêntica experiência, tem-se o nihilismo: é uma pura opção.
Justamente Péguy fala do “mistério dos mistérios”, da liberdade.
Sem dúvida, de um ponto de vista abstrato, Montale não explica uma coisa (o erro
é sempre constrangido a esquecer ou a renegar algo): porque as coisas são,
efêmeras (o ilusório é já uma avaliação) mas são. Enquanto que um belo exemplo
da afirmação de si (mas na afirmaçaõ de si é afirmação da liberdade do homem) é
um conhecido trecho de Nietzsche: “Um dia, o viandante fechou a porta atrás de si
e chorou. Depois, disse: ‘Este ardente desejo do verdadeiro, do real, do não
aparente, do certo... como o odeio!’”. Toda a imponência do mistério do real, se o
homem não o reconhece, é como nada. O vazio atrás de mim. É como um nada,
não porque não exista, mas porque não é reconhecido. E, nesse sentido, Tischner,
comentando as poesias do Papa Wojtyla, disse que “para o Papa Wojtyla, o
homem permite a Deus ser um Deus”.
Deus, para ser reconhecido como Deus, deve, de certa maneira, esperar esta
escolha, mas a negação só pode corresponder a uma última postura de ira, sutil e
clamorosa; a uma afirmação irada, surda, ou potente. Nesta ira o acento não está
sobre a afirmação de si, da própria humanidade pessoal, mas sobre a recusa de
algo que é dado. É a recusa ao ato de um Outro, recusa da própria condição
humana enquanto dada, recusa da própria natureza, recusa de uma gratuidade
originária. Estranhamente, o acento não é sobre o orgulho, sobre a vontade de
afirmaçaõ de si, porque o homem, na concretude da sua pessoa, se dissolve.
“Quem não crê mais em Deus – dizia Claudel nas suas grandes Odes –, não crê
mais no ser, e quem odeia o ser odeia a própria existência”.
Como eu gostei de ter lido em Um homem, de Oriana Fallaci, esta observação: “A
amarga descoberta de que Deus não existe, matou a palavra destino”. Mas, negar
o destino é arrogância; afirmar que nós somos os únicos artífices da nossa
existência é loucura, a loucura com a qual Sartre dizia: “As minhas mãos?! O que
são as minhas mãos? A distância incomensurável que me divide do mundo dos
objetos e me separa dele para sempre”. Quanto mais você aperta e segura, mais
você é condenado a perceber, a experimentar uma distância: nenhum nexo é
possível. É o eu que se dissolve, centro de relações e de abraço, de afirmação e
de colaboração.
Por isso, a dissolução chega até o ponto em que Moravia, em O tédio, fala da
“absurdidade de uma realidade insuficiente, ou seja incapaz de me persuadir da
própria efetiva existência”. Que terrível morte da razão medida de todas as coisas,
que não aceitou ser consciência admirada e maravilhada de uma realidade não
sua, que se torna sua na medida da sua obediência, do seu olhar que grita, deseja,
escancarado em uma aceitação contínua. Existe, porém, uma alternativa à
negação de Deus, existe uma alternativa à recusa de uma responsabilidade diante
do pedido, da necessidade expressa por Deus de nós.
No mistério da liberdade, a alternativa ao esquecimento e à negação de Deus, diz
o profeta Jeremias, “é prostrar-se diante do trabalho das próprias mãos”. Mas, na
sociedade atual, por causa do mecanismo potente no qual tudo é articulado e
organizado, é inevitável que este prostrar-se diante do trabalho das próprias mãos
se torne prostrar-se diante do poder: quanto menos somos conscientes disso,
tanto mais somos assujeitados. “Conseguiu-se fazer como que os homens
entendessem – disse Milosz, o grande Nobel pela poesia 1984 – que se vive
apenas pela graça dos poderosos. Pense, portanto, em beber café e caçar
borboletas. Quem ama a res publica terá a mão cortada”. O mal, que a filosofia e a
literatura definem e descrevem, se reflete em nós, nas mil ações de cada dia.
Totalmente ou em parte, nossas ações são arrancadas do desígnio do mistério, da
ordem de tudo, por causa da recusa da gratuidade.
Esta negatividade, esta incapacidade de perfeição é o acontecimento existencial
mais trágico para o homem consciente de si. Sempre recordo aos meus amigos
mais jovens a expressão literalmente mais trágica desta consciência, o final
do Brand, de Ibsen, quando aquele que por toda a vida procurou o instante
perfeito, o ato inteiramente humano, de pé diante de sua cabana, enquanto o
estrondo da avalanche que o atropelará está se aproximando, grita: “Responde-
me, ó Deus, no momento em que a morte me atropela: pode toda a vontade de um
homem obter um só ato perfeito?”. Um só ato humano? Por isso, eu lembro com
emoção, e também com uma paradoxal gratidão, as palavras de uma pessoa que
estimo profundamente, a propósito do pecado: “O pecado talvez seja eu”. A
afirmação parece se transformar completamente: o homem tem, portanto,
necessidade de Deus para ser homem? Como resposta Deus se faz homem, se
envolve. Certo, quem tem muito senso dramático da vida, é muito próximo do
Cristianismo, para ele é muito mais fácil entender o Cristianismo. Como resposta
Deus se faz homem, se envolve com o homem como companheiro real de
caminho, totalmente familiar, inicia um diálogo imediato sem longos, solitários e
ambíguos espaços interpretativos. Assim, Deus se faz necessitado dos homens,
exatamente como homem. E é neste ponto que a opção se joga de modo mais
drástico e se torna drama histórico e tragédia do pensamento.
Em nome da autonomia da verdade humana, em nome do seu modo de conceber
o último, aquilo a que damos o nome de Deus, porque é inevitável a implicação do
último no dinamismo da razão, o homem afasta com violência, até ao tédio, esta
presença amorosa que tem necessidade do homem, mas lhe pede de amá-lo com
toda a mente, com todo o coração, com todas as forças, como diz o Evangelho.
Assim, da honestidade dos fariseus, à recusa do jovem rico, ao escândalo de
Judas, a abolição de Cristo da memória que decide e guia a vida individual e
social, se torna pecado social. Uma obviedade da cultura dominante: Cristo é um
grande homem, desde que seja abolido, como Cristo, da memória. Tal abolição se
torna renúncia à categoria suprema da razão, a categoria da possibilidade. É
absurdo, é inconcebível, é impossível.
Lembro-me, em O fim de caso, de Graham Greene, que o protagonista, livre
pensador, vai à noite na casa de seu amigo cuja mulher havia morrido e encontra o
confessor da mulher, um padrezinho magrelo, pequeno, frágil, que ele tenta
confundir através de uma série de invectivas contra a imagem religiosa cristã da
vida e do homem. E aquele pobre padrezinho, aproveitando uma pausa do artista,
“livre pensador”, exclama timidamente: “Mas, me parece que eu sou mais livre
pensador do que o senhor; porque é pensamento mais livre admitir todas as
possibilidades do que excluir alguma”. É da abolição da memória de Cristo como
Deus-homem que se torna possível a lucidez histérica com a qual tanta cultura
moderna renega Deus; mas Nietzsche dizia: “Se arrancamos Cristo, devemos
arrancar Deus”. Mas, Cristo é um empenho do mistério, irreversível, com o tempo
humano; a Bíblia o chama “Aliança Eterna”. Deus é fiel a si mesmo, Cristo é o
revelar-se da natureza do mistério para o homem. O que é o mistério para o
homem? Misericórdia. A gratuidade inicial, original, pela qual o homem é, se revela
de forma realizada no seu coração, na sua profundidade afetiva. É misericórdia.
A resposta negativa do homem não resolve a grande questão de amor: Cristo se
implica na totalidade da existencialidade mesma do homem, na totalidade da
minha existência. A ideia de que, para o Cristianismo, a salvação, isto é o sentido
positivo do mundo, é ligado a um ponto infinitesimal que é o “sim” de uma garota
de 15, 16 ou 17 anos no máximo, que vive em um vilarejo perdido da Palestina,
bastaria para me fazer entender o divino. Assim, do outro lado, um homem é
beijado, naquela noite, e exclama: “Amigo, por que veio? Judas, com um beijo trais
o Filho do Homem”. Envolvido com a existencialidade humana, com o jogo da sua
liberdade, segundo os movimentos normais, cotidianos dela, implicado na
totalidade da existência como homem, Cristo se faz necessitado das concretas,
visíveis coisas que o homem usa: a água do Batismo, o óleo da Crisma, o vinho e
o pão da Eucaristia, a palavra da Confissão; o gesto, onde quer que seja. Mas a
realidade histórica total da qual Cristo tem necessidade para cumprir a sua
presença no caminho do homem em direção ao destino é a unidade entre todos
aqueles que o Pai lhe deu.
O capítulo 17 de São João diz: “A unidade de todos aqueles a quem foi dado
conhecê-Lo”. Início da unidade total da humanidade, é a unidade entre aqueles
que o Pai lhe deu, a Comunidade Eclesial, “este ambiente da existência redimida
do homem”, como nos disse João Paulo II, no dia 29 de setembro, a Comunidade
Eclesial, existência redimida portanto não perfeita... ambiente fascinante, onde
cada homem encontra a resposta à pergunta sobre o significado para a sua vida,
isto é Cristo centro do cosmos e da história. Porque não existe nenhum fascínio na
vida maior do que o esplendor claro do significado. Porque o fascínio é a atração
do verdadeiro, “pulchrum splendor veri”, dizia São Tomás.
Assim, em um certo sentido, o início cristão não é o início de uma religião e nem
mesmo de uma ética, mas de uma estética. A ética acontecerá, como
consequência, a partir de um amor despertado, e o amor é despertado pela
beleza, que é a atração própria da verdade. Comunidade Eclesial: onde todos os
temperamentos, todas as histórias, todos os movimentos, as associações, brotam
do único pedido por aquele significado e junto, sem nenhuma possibilidade de
domínio, completando-se e ajudando-se um ao outro como grande e apaixonada
companhia, fluem em direção à única foz; o testemunho a todo o mundo humano
de Cristo morto e ressuscitado. Mas esta Comunidade Eclesial é um povo, ou,
como dizia Paulo VI (no dia 25 de julho de 1975), “uma entidade étnica sui
generis”, um povo de homens: Deus não precisa de santos, precisa de homens.
Assim Eliot descreve o caminho desta povo, no VII Coro da Rocha: “A partir
daquele momento pareceu como se os homens devessem proceder da luz à luz,
na luz do Verbo através da paixão, do sacrifício, salvos a despeito do seu ser
negativo, bestiais como sempre, carnais, egoístas como sempre, interessados,
obtusos como sempre foram, e no entanto sempre em luta, sempre reafirmando,
sempre retomando a sua marcha na vida iluminada pela luz, muitas vezes
parando, perdendo tempo, desviando-se, atrasando-se, voltando atrás, porém
nunca segundo um outro caminho”. Este Cristo introduziu na nossa vida, fazendo-
se companheiro nosso, a dignidade, a liberdade como tensão ao infinito; se o
homem é relação com o infinito, a única dinâmica digna é a tensão ao infinito.
Como uma criança que, nascida, deve aprender a caminhar, e cai mil vezes, e
recomeça mil vezes, mas tudo nela é tensão ao caminho e à vida.
Eliot prossegue: “Mas, parece que algo aconteceu, que não tinha acontecido
antes, apesar de não se saber quando, ou por que, ou como, ou onde. Os homens
abandonaram a Deus não po outros deuses, dizem, mas por Deus algum, e isto
nunca tinha acontecido antes; que os homens negassem os deuses e adorassem
como deuses a razão ou o dinheiro, o poder ou o que chamam vida, raça, dialética.
A Igreja repudiada, a torre abatida, os sinos revirados, o que podemos fazer?
Deserto e vazio, deserto e vazio, porque deserto e vazio é o mundo lá onde não há
busca de um significado, e trevas sobre a face do abismo. É a Igreja que
abandonou a humanidade, ou a humanidade que abandonou a Igreja? Todos os
dois. Quando a Igreja não é mais considerada, e nem mesmo combatida, e os
homens esqueceram todos os deuses, menos a Usúra, a Luxúria e o Poder”.
O Deus do homem é o que o homem é; o que o homem é, é o seu Deus. Mas o
homem não é luxúria, dinheiro e poder. Estes dinamismos pretendem
continuamente definir o homem e o homem pode se tornar algo como esses
dinamismos, sobretudo teoricamente, escravo, prisioneiro; mas o homem é
definido por algo mais, onde o cálculo é transformado. Não obstante tudo, não
obstante o homem seja atravessado continuamente pela fome e pela sede de
luxúria, de dinheiro e de poder, afirmar este mais, tender em direção a este mais,
viver esta luta e, na própria fragilidade, mendigar como pobres no meio da rua, é o
modo humano de viver a gratuidade, de viver a própria verdadeira natureza,
imagem de Deus, de viver aquele relacionamento com o infinito, criador por graça.
Tal capacidade de gratuidade, este salto para além do cálculo, em direção ao
infinitamente grande, é o teste da vida. “Vim para que tenham vida e a tenham em
abundância”, uma vida que não seja forçada a esquecer ou renegar nada.
Permitam-me citar este trecho do Diário, de Kierkegaard: “O relacionamento de
negatividade polêmica que o paganismo colocava entre a ideia de uma vida futura
e a existência presente, se vê também na obrigação que as almas tinham de,
chegadas aos Campos Elíseos, beber a água do rio Lete”. Para entrar no paraíso
deles, os pagãos acreditavam que as almas devessem antes beber a água do rio
Lete, que na raiz grega quer dizer “esquecer”: para ser feliz no além, era preciso
esquecer tudo. Mas esta é a norma para toda a ideologia, teorizada ou implicada
no modo de viver. O Cristianismo, pelo contrário, ensina que devemos prestar
conta, que há um valor eterno até mesmo uma palavra dita por brincadeira. Isto
significa, entre outras coisas, a presença total do nosso passado, mesmo que um
outro Lete, a misericórdia, nos tira a dor lancinante: é a transformação profunda, a
conversão profunda do meu mal mesmo.
O Evangelho diz: “Mesmo os cabelos da tua cabeça são numerados”. Uma vida
que se torna si mesma, isto é sempre mais vida, como dizia Santo Agostinho: “A
vida não deve passar, literalmente, da juventude à velhice, mas é a juventude que
deve crescer sempre mais”. Isto que Santo Agostinho afirmava por experiência
pessoal é testemunhado por uma belíssima poesia de uma grande poetisa, mesmo
que esquecida, de 70 anos, Ada Negri – Juventude: “Não te perdi, permaneceste
no fundo do ser, és tu, mas uma outra és, sem folhas e flores, sem o riso que
tinhas no tempo que não volta, sem aquele canto; uma outra és, mais bela. Amas,
e não exiges seres amada, a cada flor que desabrocha ou fruto que amadurece ou
criança que nasce, ao Deus dos campos e das estirpes dás graças de coração;
não amas a flor porque a colhes e cheiras, mas porque é; não mas o fruto porque
o mordes, mas porque é; não amas a criança porque é tua, mas porque é”.
Esta é a gratuidade tornada vida cotidiana, que reverberação no olhar de quem
vive próximo!, que reverberação no pensamento e no trabalho para as pessoas
desconhecidas que vivam distante!, que reverberação de missão! No fundo, o
Cristianismo realiza a imagem queVictor Hugo, num belíssimo trecho do seu A
Contemplação, com o título O Eremita, descreve. Ele imagina este eremita que se
levanta de manhã cedo, no alvorecer, e tenta, à luz da vela, começar a ler e
meditar o seu texto. Na medida em que lê, o sol se levanta e cresce e, assim, ao
mesmo tempo, na sua alma se faz a luz, não da juventude à velhice; é a juventude
que deve crescer sempre. “Não confiem no amor”, é a última recordação de Paul
Valery aos seus amigos. “Não cremos no amor”, é a mensagem de João. “Sei bem
que Deus não me ama, como poderia me amar? E todavia, no fundo de mim, algo,
um ponto de mim, não pode me impedir de pensar, tremendo de medo, que talvez,
apesar de tudo, me ama”, do primeiro caderno de Simone Weil.
Isto é aquilo sobre o que não se pode atestar a nossa humanidade, pelo pouco de
pureza que mantenha. Há um único verdadeiro delito, o esquecimento de Deus
que precisou de nós, que precisa de nós. “Sinto que o meu navio – disse um bom
poeta espanhol, Juan Ramón Jiménez – bateu, lá no fundo, em algo grande”. O
nosso navio que está navegando pelo Oceano da vida bateu, lá no fundo, em algo
grande: Deus presente. E nada acontece. Nada, paz, ondas. Tudo como antes,
tudo já aconteceu e estamos já tranquilos no diferente, já nos resignamos? Eu
desejo, para mim e para vocês, que nunca estejamos tranquilos, nunca mais
tranquilos.

* Extraído do site Il Sussidiario.net. É transcrição da colocação de dom Luigi Giussani no


Meeting de Rímini, do ano de 1985. Traduzido por Paulo R. A. Pacheco.
Ler mais: http://prapacheco.blogspot.com/2009/08/deus-precisa-dos-
homens.html#ixzz5MMiHT8wy
Este texto foi extraído do blog Mosaico, mantido por Paulo R. A. Pacheco.
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