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Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Ciências Exatas e da Natureza


Departamento de Matemática

Cálculo 4

Felipe Wergete Cruz


Sérgio Santa Cruz

Recife
2018
Conteúdo

1 O que é uma EDO? 1

2 EDOs de primeira ordem 3


2.1 Interpretação geométrica da equação y 0 = f (t, y) . . . . . . . . . . . . . 3

2.2 Resolução de algumas EDOs especiais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5

2.2.1 Caso 1: f (t, y) independente de y . . . . . . . . . . . . . . . . . 5

2.2.2 Caso 2: f (t, y) independente de t (equação autônoma) . . . . . 5

2.3 Problemas de valor inicial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

2.4 Equações separáveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

2.5 Equações lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

2.5.1 Aplicação: resfriamento de um corpo . . . . . . . . . . . . . . . 11

2.6 Teorema de existência e unicidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13

2.7 Equações exatas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16

2.7.1 Fatores integrantes para equações não-exatas . . . . . . . . . . . 19

2.8 Equações homogêneas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21

2.9 Equações de Bernoulli . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2.10 Aplicações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

2.10.1 Trajetórias ortogonais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25

2.10.2 Decaimento radioativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26

2.10.3 Crescimento populacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

2.10.3.1 Modelo malthusiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

2.10.3.2 Modelo logístico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28

i
3 EDOs de segunda ordem 31
3.1 Preliminares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

3.2 Casos especiais de equações de segunda ordem . . . . . . . . . . . . . . 32

3.2.1 Caso 1: f (t, y, y 0 ) independente de y . . . . . . . . . . . . . . . 32

3.2.2 Caso 2: f (t, y, y 0 ) independente de t e de y0 . . . . . . . . . . . . 33

3.2.3 Caso 3: f (t, y, y 0 ) independente de t (equação autônoma) . . . . 34

3.3 Equações lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

3.3.1 Equações lineares homogêneas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

3.3.1.1 Equações lineares homogêneas com coecientes cons-

tantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36

3.3.1.2 Equações de Euler-Cauchy . . . . . . . . . . . . . 41

3.3.2 O Wronskiano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

3.3.3 Redução de ordem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44

3.3.4 Equações lineares não-homogêneas . . . . . . . . . . . . . . . . 46

3.3.5 Método dos coecientes a determinar . . . . . . . . . . . . . . . 47

3.3.6 Aplicações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56

3.3.6.1 O pêndulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56

3.3.6.2 Sistema massa-mola . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57

3.3.6.3 Circuito RLC . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58

3.3.6.4 Uma abordagem unicada . . . . . . . . . . . . . . . . 59

3.3.7 Método da variação dos parâmetros . . . . . . . . . . . . . . . . 65

4 Transformada de Laplace 68
4.1 Resumo sobre integrais impróprias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68

4.2 Denição da transformada de Laplace . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69

4.3 Propriedades e exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72

4.4 Aplicação à resolução de PVIs (parte 1) . . . . . . . . . . . . . . . . . 80

4.5 Função delta de Dirac . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83

4.5.1 Impulso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83

ii
4.5.2 A função delta de Dirac . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83

4.6 Aplicação à resolução de PVIs (parte 2) . . . . . . . . . . . . . . . . . 85

4.7 Convolução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

5 O que é uma EDP? 91

6 Séries de Fourier e EDPs clássicas 93


6.1 Equação do calor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

6.1.1 Condução do calor em uma barra . . . . . . . . . . . . . . . . . 93

6.1.2 Condições inicial e de fronteira . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94

6.1.3 Barra com extremidades mantidas à temperatura nula . . . . . 95

6.2 Introdução às séries de Fourier . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99

6.3 De volta ao problema da condução do calor . . . . . . . . . . . . . . . . 108

6.3.1 Extremidades com temperatura nula: continuação . . . . . . . . 108

6.3.2 Problemas não-homogêneos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109

6.3.3 Extremidades da barra isoladas termicamente . . . . . . . . . . 111

6.4 Equação da onda . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113

6.4.1 Corda vibrante . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113

6.4.2 PVIF para a corda vibrante com extremidades xas . . . . . . . 115

6.4.3 Corda com extremidades livres . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119

6.4.4 Corda innita: a solução de d'Alembert . . . . . . . . . . . . . . 122

6.4.5 Método de d'Alembert aplicado à corda nita . . . . . . . . . . 123

6.4.6 Comparação dos métodos de Fourier e de d'Alembert . . . . . . 124

6.4.7 Conservação de energia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125

6.5 Equação de Laplace . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127

6.5.1 Motivação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127

6.5.2 Problema de Dirichlet em um disco . . . . . . . . . . . . . . . . 128

iii
Capítulo 1

O que é uma EDO?

Neste texto, denotaremos a n-ésima derivada de uma função f (t) por f (n) (t).

Denição 1.1. Seja n um número inteiro positivo. Uma equação diferencial ordinária
(EDO) de ordem n é uma equação da forma

F t, y, y 0 , y 00 , · · · , y (n) = 0,

(1.1)

onde F:U →R é uma aplicação contínua denida em um conjunto aberto U ⊆ Rn+2 .

Observação 1.1 . Se a função F não depende de t, a equação (1.1) é dita autônoma.

Exemplo 1.1. A equação ty + y 0 + yy 00 = 0 é uma EDO de ordem 2. A equação


000 0
y + yy = 1 é uma EDO autônoma de ordem 3.

Denição 1.2. Uma solução da EDO (1.1) é uma função ϕ:I→R denida em um

intervalo aberto I ⊆ R, tal que ϕ é n vezes diferenciável e as seguintes condições são

satisfeitas:

t, ϕ(t), ϕ0 (t), ϕ00 (t), · · · , ϕ(n) (t) ∈ U, ∀ t ∈ I .



1.

F t, ϕ(t), ϕ0 (t), ϕ00 (t), · · · , ϕ(n) (t) = 0, ∀ t ∈ I .



2.

Exemplo 1.2. Vejamos alguns exemplos:

1. A função y(t) = sen(t) é uma solução da EDO y 00 + y = 0 denida em I =


(−∞, +∞) = R.

2. A função y(t) = t é uma solução da EDO 2yy 0 = 1 denida em I = (0, +∞).
2
3. A função y(t) = et é uma solução da EDO y 0 = 2ty denida em I = (−∞, +∞).

1
4. As funções

1
y1 (t) = , t ∈ I1 = (0, +∞),
t
1
y2 (t) = , t ∈ I2 = (−∞, 0),
t
y3 (t) ≡ 0, t ∈ I3 = (−∞, +∞),

são soluções da EDO y 0 = −y 2 .

5. A EDO (y 0 )2 + y 2 + 1 = 0 não tem solução.

Observação 1.2 . O intervalo de denição I de uma EDO sempre será tomado o maior

possível.

Por resolver uma EDO entendemos escrever todas as soluções desta EDO.
Exemplo 1.3. Considere a EDO y 0 = y . A função y(t) = et é uma solução (denida
t
para todo t ∈ R). Em geral, se C ∈ R é uma constante, y(t) = Ce é solução. Vamos

mostrar que todas as soluções são desta forma. Seja y(t) uma solução qualquer de

y 0 = y , isto é, y 0 (t) = y(t) ∀ t. Então temos:


0
e−t y(t) = −e−t y(t) + e−t y 0 (t) = e−t (−y(t) + y 0 (t)) = e−t (−y(t) + y(t)) = 0.

Logo, e−t y(t) ≡ C (constante), isto é, y(t) = Cet .

Muitas vezes, ao longo do texto, iremos supor que a EDO está escrita na forma
normal. Isto signica que a EDO é da forma

y (n) = f t, y, y 0 , y 00 , · · · , y (n−1) .


2
Capítulo 2

EDOs de primeira ordem

Neste capítulo, vamos considerar EDOs de primeira ordem da forma y 0 = f (t, y).

2.1 Interpretação geométrica da equação y0 = f (t, y)


Denição 2.1. Uma curva integral de uma EDO de primeira ordem y 0 = f (t, y) é o

gráco de uma solução desta EDO.

Exemplo 2.1. Na gura abaixo, apresentamos três curvas integrais da EDO y 0 = −y 2


(veja o Exemplo 1.2 do capítulo anterior).

Figura 2.1: Três curvas integrais para y 0 = −y 2

3
Note que, em um dado ponto (t, y) da curva integral, a inclinação da reta tangente

à curva é dada por f (t, y). Assim, se desenharmos um pequeno segmento de reta em

cada ponto (t, y) com inclinação f (t, y), visualizaremos (aproximadamente) as curvas

integrais da EDO. A associação que faz corresponder a cada ponto (t, y) tal reta é

denominada campo de direções da EDO.

Temos, portanto, a seguinte propriedade para uma curva integral de uma EDO: em

cada ponto (t, y) da curva integral, a reta tangente coincide com a reta do campo de

direções correspondente ao ponto (t, y).

Exemplo 2.2. Considere a EDO y0 = y. A inclinação da reta do campo de direções

no ponto (t, y) é dado por f (t, y) = y :

(t, y) f (t, y) = y

(t, 0) 0
(t, 1) 1
(t, 2) 2
(t, −1) −1
(t, −2) −2

Na gura abaixo apresentamos, além do campo de direções para a EDO y0 = y,


duas curvas integrais desta EDO, a saber, os grácos y = et e y = −2et .

Figura 2.2: Campo de direções para y0 = y e duas curvas integrais

4
2.2 Resolução de algumas EDOs especiais

2.2.1 Caso 1: f (t, y) independente de y


As soluções da equação y 0 = f (t)Z, onde f é uma função contínua, são dadas pela

primitiva geral de f, isto é, y(t) = f (t) dt.

Exemplo 2.3. Vejamos alguns exemplos:

1. y 0 = cos t =⇒ y(t) = sen t + C .


t2
2. y0 = t =⇒ y(t) = + C.
2
Z t
2 2
3. y 0 = e−t =⇒ y(t) = e−s ds + C .
0

2.2.2 Caso 2: f (t, y) independente de t (equação autônoma)


Estudamos agora equações do tipo y 0 = f (y). Para determinar as soluções constantes

(também chamadas soluções estacionárias), basta achar as raízes de f (y). Se y0 é raiz

de f (y), a função y(t) ≡ y0 é solução constante da EDO. De fato:

y 0 (t) = 0 = f (y0 ) = f (y(t)).

Notamos que a curva integral correspondente a esta solução é a reta horizontal y = y0 .

Exemplo 2.4. As soluções constantes de y 0 = sen y são dadas por y(t) = kπ , k ∈ Z.

Vejamos agora como determinar as soluções não-constantes da EDO autônoma


0
y = f (y).

Exemplo 2.5. Considere a EDO y 0 = y 2 . Note que y ≡ 0 é a única solução constante.


Vamos procurar soluções com y 6≡ 0. Se y(t) é tal solução, então
0
y 0 (t)

1 1 1
= 1 =⇒ − = 1 =⇒ − = t + C =⇒ y(t) = − , C ∈ R.
y 2 (t) y(t) y(t) t+C
Observe que, xado C ∈ R,
1
y1 (t) = − , t ∈ (−C, +∞),
t+C
1
y2 (t) = − , t ∈ (−∞, −C),
t+C
são duas soluções não-constantes (e distintas) de y0 = y2.

5
Figura 2.3: Três curvas integrais da EDO y 0 = y 2 (C = 2)

Em geral, para encontrarmos soluções não-constantes de y 0 = f (y), procederemos

simbolicamente do seguinte modo:


Z
0 dy dy dy
y = f (y) =⇒ = f (y) =⇒ = dt =⇒ = t + C.
dt f (y) f (y)

Justicativa: Se y(t) é solução não-constante de y 0 = f (y), então


y 0 (t) y 0 (t)
Z
y 0 (t) = f (y(t)) =⇒ =1 =⇒ dt = t + C.
f (y(t)) f (y(t))
Fazendo a mudança de variável s = y(t), concluímos que vale a equação
Z
ds
= t + C.
f (s)
Observação 2.1 . O método desenvolvido acima é um caso particular da técnica usada

para resolver as equações separáveis, conforme veremos na próxima seção.

Exemplo 2.6. Resolva a EDO y 0 = cos y .

Solução. As soluções constantes são dadas por


 
π 1
y = (2K + 1) = K+ π, K ∈ Z.
2 2
Analisemos, agora, as soluções não-constantes:
Z
dy dy
= cos y ⇒ = dt ⇒ sec y dy = t + C ⇒ ln | sec y + tg y| = t + C
dt cos y
⇒ | sec y + tg y| = et+C = et eC
⇒ sec y + tg y = Ket , K ∈ R. (2.1)

6
Ou seja, cada solução não-constante da EDO y 0 = cos y satisfaz a equação (2.1) (para
algum valor de K ). Dizemos que as soluções y(t) são dadas implicitamente por esta

equação. No caso deste exemplo, é possível escrever as soluções na forma explícita

y = y(t), mas as fórmulas são complicadas.

2.3 Problemas de valor inicial


Denição 2.2. Um problema de valor inicial (PVI) para uma EDO de primeira ordem
y 0 = f (t, y) consiste em procurar uma solução y(t) da EDO que satisfaz uma condição
inicial y(t0 ) = y0 , onde t0 e y0 são dados.

Usaremos a seguinte notação quando nos referirmos a um PVI para uma EDO de

primeira ordem: 
 y 0 = f (t, y),
 y(t ) = y .
0 0

Do ponto de vista geométrico, resolver o PVI acima consiste em determinar uma curva

integral que passe pelo ponto (t0 , y0 ) com inclinação f (t0 , y0 ).

Exemplo 2.7. Resolva o PVI



 y0 = y2,
 y(0) = 1.

Solução. Vimos no exemplo 2.5 que a solução geral da EDO y0 = y2 é da forma

1
y(t) = −
t+C
(denida em um intervalo apropriado). Substituindo t por 0 e y por 1, obtemos

1
1=− =⇒ C = −1.
0+C
Portanto, a solução do PVI em questão é

1 1
y(t) = − = , t ∈ (−∞, 1).
t−1 1−t
Devemos tomar o intervalo de denição como (−∞, 1) pois trata-se do maior intervalo

contendo t0 = 0 em que a expressão para y(t) está denida.

7
2.4 Equações separáveis
Uma EDO de primeira ordem y 0 = f (t, y) é dita separável quando podemos escrever

f (t, y) na forma

f (t, y) = g(t)h(y),
onde g(t) e h(y) são funções contínuas de uma variável.

Note que as soluções constantes são dadas por y ≡ y0 , onde y0 é raiz da função

h(y), isto é, h(y0 ) = 0. Para determinar as soluções não-constantes procedemos da

seguinte forma:
Z Z
dy dy dy
= g(t)h(y) =⇒ = g(t)dt =⇒ = g(t) dt.
dt h(y) h(y)
A justicativa para este procedimento é similar àquela dada para a resolução de equa-

ções autônomas na seção 2.2.

Exemplo 2.8. Obtenha equações para as curvas integrais da EDO y 0 = t/y .


Solução. Separando as variáveis, obtemos

dy t y2 t2
= =⇒ ydy = tdt =⇒ = +C =⇒ y 2 − t2 = 2C = K.
dt y 2 2
Note que para K = 0, obtemos como curvas integrais quatro semi-retas, a saber as

semi-retas com equação y =t ou y = −t para t>0 ou t < 0. SeK 6= 0, as curvas


integrais estão contidas em ramos de hipérboles. Note que se K > 0 cada ramo da
hipérbole é uma curva integral, e se K<0 cada ramo contém duas curvas integrais.

Figura 2.4: Curvas integrais de y 0 = t/y

Considere agora o PVI



 y 0 = g(t)h(y),
 y(t ) = y ,
0 0 com h(y0 ) 6= 0.

8
A solução y(t) satisfaz y 0 (t) = g(t)h(y(t)) e y(t0 ) = y0 . Assim,
Z t 0 Z t
y 0 (t) y (u)
= g(t) =⇒ du = g(u) du.
h(y(t)) t0 h(y(u)) t0

Fazendo a mudança de variável s = y(u), obtemos

Z y(t) Z t
ds
= g(u) du.
y0 h(s) t0

Também podemos resolver um PVI determinando a solução geral e então impondo a

condição inicial, como no exemplo a seguir.

Exemplo 2.9. Resolva o PVI


 t
 y0 = − ,
y
y(0) = 2.

Solução. Primeiramente vamos resolver a EDO y 0 = −t/y :


dy t y2 t2
=− =⇒ ydy = −tdt =⇒ =− +C =⇒ y 2 + t2 = 2C = K.
dt y 2 2
Impomos agora a condição inicial:

K = 22 + 02 = 4.

Assim, y(t) satisfaz a relação y 2 + t2 = 4 e portanto a solução do PVI é dada por


y(t) = 4 − t2 , −2 < t < 2.

Note que y(t) > 0 devido à condição inicial. A curva integral é uma semicircunferência

(veja a gura 2.5).

2.5 Equações lineares


a
Dizemos que a EDO de 1 y 0 = f (t, y) é linear se f (t, y) = a(t)y + b(t), onde a(t)
ordem

e b(t) são funções contínuas denidas em um intervalo I ⊆ R. Se b(t) ≡ 0, a EDO é

dita linear homogênea. Neste caso, a EDO y = a(t)y pode ser resolvida por separação
0

de variáveis. De fato, inicialmente note que y ≡ 0 é solução constante. Agora, se y 6≡ 0,

temos
Z Z
dy dy
= a(t)dt =⇒ = a(t) dt =⇒ ln |y| = A(t) + K,
y y
onde A(t) é uma primitiva para a(t). Portanto, y(t) = CeA(t) , C ∈ R.

9
Figura 2.5: Curva integral do Exemplo 2.9

Exemplo 2.10. Resolva a EDO y 0 = 2ty .

Solução. Separando as variáveis, obtemos


Z Z
dy dy 2 +K 2
= 2t dt ⇒ = 2t dt ⇒ ln |y| = t2 + K ⇒ |y| = et = eK et .
y y
2
Portanto, a solução geral de y 0 = 2ty é y = Cet , C ∈ R.

Caso Geral
Considere a EDO y 0 = a(t)y + b(t). Será útil reescrever esta equação sob a forma

y 0 + p(t)y = q(t), (2.2)

onde p(t) = −a(t) e q(t) = b(t). Seja µ uma função positiva, isto é, µ(t) > 0 para todo

t ∈ I. Multiplicando a EDO (2.2) por µ, obtemos a seguinte EDO equivalente:

µ(t)y 0 + µ(t)p(t)y = µ(t)q(t).

Queremos determinar µ de modo que o lado esquerdo da equação acima se escreva

como a derivada de µy :
(µy)0 = µy 0 + µpy,
ou seja

µy 0 + µ0 y = µy 0 + µpy.
Devemos então escolher µ de modo que

µ0 = pµ.

Neste caso, a EDO se reescreve da seguinte forma:

(µy)0 = µq.

Agora, basta integrarmos para resolver o problema.

10
Observação .
R
2.2 Note que µ(t) = e p(t)dt (xada uma constante de integração, digamos
separável µ = µp. Esta função é denominada fator integrante
0
C = 0) satisfaz a EDO

da EDO linear (2.2).

Observação 2.3 . O método de resolução descrito acima nos mostra que, se os coecien-

tesp(t), q(t) estão denidos no intervalo I , as soluções de (2.2) também estão denidas
em I .

Exemplo 2.11. Resolva a EDO ty 0 = t2 − 3y, t > 0, desenvolvendo o método de

resolução descrito nesta seção.

Solução. Reescrevemos a EDO na forma (2.2):

3
y 0 + y = t, t > 0.
t
Multiplicando por µ, obtemos
3
µy 0 + µ y = µt.
t
Para reescrever a equação na forma

(µy)0 = µt,

devemos impor
3 3
(µy)0 = µy 0 + µ y, ou seja µ0 = µ.
t t
Assim, um fator integrante é dado por

3 3
R
dt
µ(t) = e t = e3 ln t = eln t = t3

e a equação (µy)0 = µt se reescreve como

(t3 y)0 = t3 t = t4 .

Integrando, obtemos
t5
t3 y = + C.
5
Portanto, as soluções procuradas são da forma

t2 C
y(t) = + 3 , t > 0.
5 t

2.5.1 Aplicação: resfriamento de um corpo


Suponha que um corpo com temperatura inicial T0 é deixado em um ambiente com

temperatura constante TA . A lei de resfriamento de Newton diz que a taxa de

decrescimento da temperatura do corpo é proporcional à diferença entre temperatura

11
do corpo e a temperatura ambiente. Assim, se T (t) denota a temperatura do corpo no

instante t, então T (t) satisfaz a EDO

dT
= −k(T − TA ), (2.3)
dt
onde k>0 é uma constante que depende do material de que é feito o corpo. Note que

a EDO (2.3) é linear.

Para resolvermos a EDO (2.3) a reescrevemos sob a forma

T 0 + kT = kTA . (2.4)

R
kdt
Um fator integrante para esta EDO é da forma µ(t) = e , logo podemos tomar
kt
µ(t) = e . Assim, reecrevemos (2.4) como

(ekt T )0 = ekt kTA .

Integrando, obtemos que as soluções satisfazem

ekt T (t) = TA ekt + C, ou seja, T (t) = TA + C e−kt .

Se a temperatura inicial do corpo é T0 = T (0), então T0 = TA + C . Assim, a solução

do PVI 
 T 0 + kT = kT ,
A
 T (0) = T0 ,
é

T (t) = TA + (T0 − TA )e−kt .


Esta solução está de acordo com os seguintes fatos experimentais:

ˆ se T0 = TA , a temperatura do corpo se mantém constante;

ˆ se T0 < TA , a temperatura do corpo é crescente, isto é, o corpo se aquecerá;

ˆ se T0 > TA , a temperatura do corpo é decrescente, isto é, o corpo se resfriará;

ˆ lim T (t) = TA , ou seja, a longo prazo, a temperatura do corpo se aproxima da


t→+∞
temperatura do ambiente.

Veja a gura 2.6.

12
Figura 2.6: Resfriamento de um corpo com TA = 1

2.6 Teorema de existência e unicidade


Apresentaremos a seguir um teorema de importância fundamental, mas cuja demons-

tração foge do escopo destas notas.

Teorema 2.1 (Teorema de existência e unicidade). Seja f : U → R uma função


contínua denida em um subconjunto aberto U do plano ty , tal que a derivada parcial
∂f
de f com relação à segunda variável, = fy : U → R, também seja contínua. Então,
∂y
para todo ponto (t0 , y0 ) ∈ U , existe uma única solução do PVI

 y 0 = f (t, y),
 y(t ) = y .
0 0

Mais precisamente, existe um intervalo máximo I tal que existe solução y:I→R
deste PVI e qualquer outra solução do PVI é obtida a partir desta por restrição do

domínio.

Observação 2.4 (Interpretação geométrica) . Sob as hipóteses do teorema acima, por

cada ponto (t0 , y0 ) em U passa uma e uma única curva integral. Assim, as curvas

integrais preenchem todo o conjunto U e curvas integrais distintas não se intersectam.


Exemplo 2.12. O PVI 
 y0 = 2 3
sen (t y ),

 y(0) = 0,

13
tem solução única y ≡ 0. De fato, por um lado vemos diretamente que y≡0 é solu-

ção. Por outro lado, as condições do teorema de existência e unicidade são satisfeitas:

f (t, y) = sen (t2 y 3 ) é uma função contínua em R2 e fy (t, y) = 3t2 y 2 cos(t2 y 3 ) também é

contínua. Assim, a solução do PVI é única.

Observação 2.5 . Vale ressaltar que, se alguma hipótese do teorema deixar de ser satis-

feita, então nada pode ser armado sobre a solução de um determinado PVI. De fato,

o PVI pode não ter solução, ter uma única solução ou até mesmo apresentar innitas

soluções.

Exemplo 2.13. Considere o PVI



 y 0 = 3y 2/3 ,
(2.5)
 y(0) = 0.

Note que y1 ≡ 0 e y2 (t) = t3 são soluções distintas deste PVI. Porém, isto não contradiz
2/3
o teorema de existência e unicidade. De fato, embora a função f (t, y) = 3y seja

contínua em todo o plano ty , a derivada parcial fy existe e é contínua apenas para

y 6= 0 (neste caso, temos fy (t, y) = 2y −1/3 ). Portanto, o teorema de existência e


unicidade não pode ser aplicado. Por outro lado, observe que o teorema é válido na

região aberta y 6= 0.

Figura 2.7: Duas soluções do PVI 2.6

Exemplo 2.14. O PVI 


 yy 0 + t = 0,
(2.6)
 y(1) = 0,

não admite solução. De fato, se y(t) fosse solução, teríamos

y(t)y 0 (t) + t = 0

14
para todo t no domínio da solução; em particular, pondo t = 1, obtemos

y(1)y 0 (1) + 1 = 0,

e como y(1) = 0 1 = 0, o que é absurdo. Observe que a equação não


concluímos que
0
está na formal normal y = f (t, y), assim o teorema de existência e unicidade não pode
0
ser aplicado. (Note que para reescrevermos a equação como y = −t/y , precisamos

supor que a solução não se anule, o que não é o caso para o PVI aqui considerado.)

Exemplo 2.15. Mostre que a solução do PVI



 y 0 = y 4 − 1,
 y(0) = 0,

satisfaz −1 < y(t) < 1 para todo t.

Solução. Note que y ≡ 1 e y ≡ −1 são soluções constantes da EDO y 0 = y 4 − 1.


Pelo teorema de existência e unicidade, sabemos que curvas integrais distintas não se

intersectam. Como as retas horizontais y = −1 e y = −1 são curvas integrais, qualquer


outra curva integral não intersecta essas retas. Se y(t) é a solução da EDO com y(0) = 0

então, uma vez que o ponto (0, 0) se situa entre estas retas horizontais, a curva integral

que passa por (0, 0) está connada entre estas retas, isto é, −1 < y(t) < 1 para todo

t.
Deixamos a cargo do leitor esboçar a curva integral do exemplo acima. Vale ressaltar

que y(t) é uma função decrescente (já que, para −1 < y < 1, temos y 0 < 0). Além

disto, a solução se aproxima das soluções constantes y = ±1 para t → ∓∞; isto é,

lim y(t) = 1 e lim y(t) = −1.


t→−∞ t→+∞

É interessante que o leitor também desenhe a família de curvas integrais da EDO y 0 =


y 4 −1. y(0) > 1, a curva integral correspondente
Por exemplo, se uma solução satiszer

se situa sempre acima da reta horizontal y = 1; usamos aqui novamente o fato que
0
curvas integrais distintas não se intersectam. Além disso, como y(t) > 1, temos y (t) >

0, logo a solução é uma função crescente. Etc.


Podemos generalizar este procedimento para desenhar a família de curvas integrais

de uma EDO autônoma


y 0 = f (y);
supomos aqui que as hipóteses do teorema de existência e unicidade são satisfeitas, isto

é, f (y) e f 0 (y) sào funções contínuas. Procedemos da seguinte forma:

ˆ Desenhamos as retas horizontais correspondentes às soluções constantes. Estas

retas são curvas integrais particulares;

15
ˆ As demais curvas integrais estão delimitadas pelas retas horizontais do item

acima. O sinal de y0 não muda para uma dada solução, podendo ser obtido

pelo sinal de f (y), que determina se a solução é crescente ou decrescente;

ˆ Se y = y(t) é uma curva integral, suas translações horizontais também são curvas
integrais.

Justiquemos a última armação. Se y(t) é solução de y 0 = f (y), temos

y 0 (t) = f (y(t)),

para todo t no domínio da solução. Trocando t por t + C, obtemos

y 0 (t + C) = f (y(t + C)).

Se C é uma constante temos, pela regra da cadeia, (y(t + C))0 = y 0 (t + C), logo

(y(t + C))0 = f (y(t + C)),

isto é,y(t + C) é solução da EDO y 0 = f (y). Notamos nalmente que os grácos

da forma y = y(t + C) são justamente as curvas obtidas por translação horizontal de

y = y(t).

2.7 Equações exatas


Nesta seção, M (x, y) N (x, y) denotam funções diferenciáveis
e denidas em um sub-

conjunto aberto do plano xy , com derivadas parciais contínuas. Uma EDO da forma

M (x, y) + N (x, y) y 0 = 0, (2.7)

que escrevemos simbolicamente como

M dx + N dy = 0,

é dita exata se existir uma função ψ(x, y) tal que

M = ψx e N = ψy .

Em outras palavras, a EDO (2.7) é exata se o campo vetorial (M (x, y), N (x, y)) for
conservativo, isto é, se existir uma função ψ tal que (M, N ) = ∇ψ . Neste caso, ψ é
denominada função potencial do campo (M, N ).
Uma EDO exata pode ser escrita na forma

ψx (x, y) + ψy (x, y) y 0 = 0.

16
Assim, cada solução y(x) satisfaz

ψx (x, y(x)) + ψy (x, y(x)) y 0 (x) = 0,

isto é,
d
(ψ(x, y(x))) = 0.
dx
Equivalentemente, existe uma constante C tal que

ψ(x, y(x)) = C. (2.8)

Portanto, cada solução de uma EDO exata com função potencial ψ é descrita implici-

tamente pela equação

ψ(x, y) = C,
para alguma constante C . Em outras palavras, as curvas integrais da EDO são dadas
pelas curvas de nível de ψ (mais precisamente, cada curva integral está contida em uma

tal curva de nível; lembre que uma curva integral é um gráco, logo a cada valor de x

pode corresponder apenas um valor de y ).

Proposição 2.1. Seja (M (x, y), N (x, y)) um campo vetorial denido em todo o plano
ou em um retângulo. Então a EDO M dx + N dy = 0 é exata se e somente se vale a
relação My = Nx .

Demonstração. Se a EDO (2.7) é exata, então existe uma função ψ tal que M = ψx
e N = ψy . Assim,

My = (ψx )y = ψxy = ψyx = (ψy )x = Nx .


A recíproca segue de um resultado de Cálculo Vetorial que já deve ter sido estudado

pelo leitor: se (M, N ) é um campo vetorial denido em uma região aberta simplesmente
conexa do plano, tal que My = Nx , então (M, N ) é um campo conservativo. 

Exemplo 2.16. Considere a EDO

x2 − y 2
y0 = .
2xy
Podemos reescrevê-la sob a forma

(x2 − y 2 )dx − 2xy dy = 0.

Neste caso, temos

M = x2 − y 2 , N = −2xy
e assim

My = −2y = Nx ,

17
portanto a EDO é exata. Determinemos uma função potencial para o campo (M, N ),
isto é, uma função ψ tal que

ψ x = x2 − y 2 e ψy = −2xy.

Integrando

ψy = −2xy
com relação a y, obtemos

ψ(x, y) = −xy 2 + ϕ(x).


Agora, derivando em relação a x, obtemos

ψx = −y 2 + ϕ0 (x);

segue de

ψx = x2 − y 2
a equação

ϕ0 (x) = x2
e portanto podemos tomar
x3
ϕ(x) = .
3
Assim,
x3
ψ(x, y) = − xy 2
3
é uma função potencial para a EDO exata, portanto as soluções y = y(x) são dadas

implicitamente pela equação

x3 − 3xy 2 = C.

Observação 2.6 . Também poderíamos calcular a função potencial da seguinte forma.

Integrando ψx = x2 − y 2 em relação a x, obtemos

x3
ψ(x, y) = − xy 2 + g(y).
3
Integrando ψy = −2xy em relação a y, obtemos

ψ(x, y) = −xy 2 + h(x).

Impondo que ambas as fórmulas sejam satisfeitas para ψ(x, y), devemos ter ψ(x, y) =
x3 x3
− xy 2 + K para alguma constante K ; tomamos ψ(x, y) = − xy 2 . Assim, as curvas
3 3
integrais têm equação da forma x3 − 3xy 2 = C (onde C é uma constante).

18
2.7.1 Fatores integrantes para equações não-exatas
Considere uma EDO da forma

M (x, y)dx + N (x, y)dy = 0,

onde

My 6= Nx .
Vamos procurar uma função µ(x, y) > 0 tal que a EDO equivalente

µM dx + µN dy = 0

seja exata. Neste caso, dizemos que µ é um fator integrante para a EDO não-exata

M dx + N dy = 0. Se conseguirmos determinar µ, poderemos resolver a EDO pelo

método das equações exatas descrito na seção anterior.

Assim, procuramos µ tal que

(µM )y = (µN )x ,

isto é,

µy M + µMy = µx N + µNx . (2.9)

A equação 2.9 é uma equação diferencial parcial para µ que, em geral, não saberemos

resolver explicitamente. Assim, consideraremos apenas alguns casos particulares, a

saber, os casos em que µ pode ser escrita como função apenas de x ou função apenas

de y.
Se µ = µ(x), a equação (2.9) se reescreve como

µMy = µ0 N + µNx ,

ou seja
µ0 (x) My − Nx
= .
µ(x) N
My − Nx
Portanto, caso independa de y, poderemos determinar fator integrante µ(x).
N
Similarmente podemos procurar por fator integrante da forma µ = µ(y). A equação

(2.9) se reescreve como

µ0 M + µMy = µNx ,
ou seja
µ0 (y) Nx − My
= .
µ(y) M
Nx − My
Assim, se só depender de y, podemos determinar fator integrante da forma
M
µ(y).

19
Exemplo 2.17. Vamos resolver a EDO

y
y0 = . (2.10)
x − x2 y
Esta EDO não é separável ou linear; podemos reescrevê-la como

y dx + (x2 y − x) dy = 0.

Esta equação não está escrita na forma exata, pois sendo M = y N = (x2 y − x),
e

temos My 6= Nx . Vamos então procurar um fator integrante da forma µ = µ(x), ou

seja, de modo que a equação

µ(x)y dx + µ(x)(x2 y − x) dy = 0 (2.11)

seja exata. Devemos ter

(µy)y = (µ(x2 y − x))x ,


ou seja

µ = µx (x2 y − x) + µ(2xy − 1),


isto é

µ(−2xy + 2) = µx (x2 y − x).


Assim, temos
µx −2xy + 2 −2(xy − 1) 2
= 2 = .=− ,
µ x y−x x(xy − 1) x
que é uma função independente de y. Integrando, podemos tomar

1
ln µ = −2 ln |x| = ln( ),
x2
ou seja
1
µ(x) = .
x2
Assim a EDO 2.11, que se escreve como

y 1
dx + (y − ) dy = 0,
x2 x
é exata. Uma função potencial ψ(x, y) deve satisfazer

y 1
ψx = 2
, ψy = y − .
x x
Integrando a primeira equação em relação a x obtemos

y
ψ(x, y) = − + g(y);
x
derivando em relação a y obtemos

1 1
ψy = − + g 0 (y) = y − ,
x x
20
y2
ou g 0 (y) = y . Podemos tomar g(y) = e assim
2
y y2
ψ(x, y) = − +
x 2
é uma função potencial para a EDO 2.11. Assim, cada solução y = y(x) desta EDO,

ou equivalentemente da EDO 2.10, satisfaz uma equação do tipo

y y2
− + = C,
x 2
onde C é uma constante. Note que, resolvendo a equação quadrática

y2 y
− − C = 0,
2 x
podemos escrever a soluções sob a forma explícita

r
1 1
y(x) = + +K
x x2
e r
1 1
y(x) = − +K
x x2
(onde K é uma constante).

Sugerimos ao leitor vericar que não existe fator integrante para a EDO ydx +
2
(x y − x)dy = 0 da forma µ = µ(y).
Observação 2.7 . Enfatizamos que tipicamente não conseguimos fator integrante na

forma µ(x) ou µ(y) para a EDO M dx + N dy = 0; há técnicas de resolução para outros

tipos de fator integrante (que omitiremos aqui), mas em casos muito particulares. Não

há método prático geral para obtenção do fator integrante, ou seja, das soluções da

EDP 2.9.

2.8 Equações homogêneas


Uma EDO de primeira ordem é dita homogênea se pode ser escrita sob a forma

y 0 = f (y/x),

para alguma função de uma variável f.


Note que g(x, y) = f (y/x) é uma função homogênea de grau zero, isto é, g(λx, λy) =
g(x, y) para todo λ ∈ R.

21
Observação .
p ∈ N, uma função ϕ : R2 → R
2.8 Se é dita homogênea de grau p
se ϕ(λx, λy) = λp ϕ(x, y) para todo λ ∈ R. Note que o quociente de duas funções

homogêneas de mesmo grau é uma função homogênea de grau zero.

Exemplo 2.18. Vejamos alguns exemplos de EDOs homogêneas:

1. y 0 = sen(y/x);
x+y 1 + y/x
2. y0 = ; esta EDO pode ser reescrita como y0 =
x−y 1 − y/x
x 3 − x2 y
3. y0 = ; dividindo o numerador e o denominador por x3 , podemos
x2 y + xy 2 + 3y 3
1 − y/x
reescrevê-la como y0 = .
y/x + (y/x)2 + 3 (y/x)3

Vejamos agora um método para resolver EDOs homogêneas por meio de uma EDO

separável associada.

Suponha que y(x) é solução de y 0 = f (y/x). Dena

y(x)
v(x) = .
x
Assim, temos y(x) = x v(x) e portanto y 0 (x) = v(x) + x v 0 (x). Logo, v(x) + x v 0 (x) =
f (v(x)), isto é, v(x) satisfaz

v + xv 0 = f (v),
que podemos reescrever como uma EDO separável. Reciprocamente, se v(x) é solução
0
da EDO acima, então y(x) = x v(x) é solução da equação homogênea y = f (y/x).
Vamos reescrever o argumento simbolicamente: efetuamos a mudança de variável

v = y/x, ou seja y = xv;

derivando, obtemos

y 0 = v + xv 0
e assim a EDO y 0 = f (y/x) se reescreve como

v + xv 0 = f (v)

ou
dv dx
= ,
f (v) − v x
que é separável. As soluções de y 0 = f (y/x) são obtidas a partir das soluções v(x) da

EDO acima escrevendo y(x) = xv(x).

22
x2 − y 2
Exemplo 2.19. Resolva a EDO y0 = , x > 0.
2xy
Solução. Já resolvemos esta equação na seção 2.7, tratando-a como uma EDO exata.
Vamos resolvê-la novamente por meio do método descrito para acima para EDOs ho-

mogêneas. Note que a equação pode ser reescrita da seguinte forma:

1 − (y/x)2
y0 = .
2 y/x
Fazendo a substituição v = y/x, obtemos

1 − v2 1 − 3v 2 2v dx
v + xv 0 = y 0 = =⇒ xv 0 = =⇒ 2
dv = .
2v 2v 1 − 3v x
Integramos:
1
ln |1 − 3v 2 | + ln x = K, ln |1 − 3v 2 |1/3 x = K.
 
ou
3
Daí, obtemos

|1 − 3v 2 |1/3 x = eK , isto é, (1 − 3v 2 ) x3 = c.
Pondo v = y/x, temos

(1 − 3 (y/x)2 ) x3 = c.
x2 − y 2
Portanto, as soluções da EDO homogênea y0 = são dadas implicitamente pela
2xy
equação

x3 − 3xy 2 = C,
onde C é constante.

2.9 Equações de Bernoulli


Uma equação de Bernoulli é uma EDO da forma
y 0 + p(t)y = q(t)y n , (2.12)

onde p(t) e q(t) são funções contínuas e n é um número real diferente de 0 e 1. Note

que se n é 0 ou 1, a equação (2.12) é linear.

Para resolver uma equação de Bernoulli, procedemos do seguintes modo. Dividimos

a EDO (2.12) por yn:


y −n y 0 + p(t)y 1−n = q(t).
Agora, fazendo a substituição

v = y 1−n
e observando que v 0 = (1 − n)y −n y 0 , obtemos

v0
+ p(t)v = q(t),
1−n

23
ou seja,

v 0 + (1 − n)p(t) v = (1 − n)q(t).
Assim, a EDO para v é linear. Após resolvê-la, obtemos as soluções de (2.12) pondo

1
y(x) = v(x) 1−n .

Exemplo 2.20. Resolva a equação


y 0 + y = t y.

Determine uma parábola y = p(t) que seja assíntota de todas as curvas integrais, isto

é, tal que lim (y(t) − p(t)) = 0 para toda solução y(t).


t→+∞

Solução. Dividindo a EDO por y, obtemos

y −1/2 y 0 + y 1/2 = t.

Tomando v = y 1/2 , temos:

v t
2v 0 + v = t, ou seja v0 + = .
2 2
Resolvemos esta EDO linear pelo método do fator integrante:

µ tµ
µv 0 + v=
2 2
pode ser escrita na forma

(µv)0 = ,
2
onde µ>0 deve satisfazer µ0 = µ/2. Tomamos µ = et/2 e assim a EDO para v pode

ser reescrita como


tet/2
(et/2 v)0 = .
2
Integrando, obtemos

et/2 v = tet/2 − 2et/2 + C,


isto é,

v = t − 2 + Ce−t/2 .

Como v= y, temos
2
y(t) = t − 2 + Ce−t/2 .
Assim, temos

y(t) = (t − 2)2 + 2C(t − 2)e−t/2 + C 2 e−t .


| {z }
tende a 0 quando t→+∞

Logo, y = (t − 2)2 é a parábola assíntota procurada.

24
2.10 Aplicações

2.10.1 Trajetórias ortogonais


Por uma família de curvas F1 em uma região U do plano xy entendemos uma coleção

de curvas que não se intersectam e que preenchem toda a região. Por uma trajetória
ortogonal desta família entendemos uma curva que intercepta toda curva da família

F1 ortogonalmente. Lembramos que duas curvas se intersectam ortogonalmente se, no

ponto de interseção, as retas tangentes às curvas são perpendiculares entre si; se suas

inclinações são m e m0 , devemos ter m0 − 1/m.

Figura 2.8: Trajetórias ortogonais

Problema proposto
Considere uma família de curvas F1 no plano xy dependendo de um parâmetro. De-

termine as trajetórias ortogonais desta família, isto é, encontre uma segunda família

de curvas F2 de tal forma que as curvas de F2 sejam ortogonais às curvas da família

dada F1 .

Estratégia de resolução
(1) Em primeiro lugar, procuramos uma EDO y 0 = f (x, y) cujas curvas integrais sejam
as curvas da primeira família. Por exemplo, se F1 é dada como a família das curvas de

nível de uma função ψ(x, y), então estas curvas são as curvas integrais de ψx dx+ψy dy =
ψx
0, ou seja da EDO y 0 = − .
ψy
(2) Consideramos agora as curvas da família F2 . Seja y = ỹ(x) uma curva da segunda

família. Se ela intersecta ortogonalmente uma curva y = y(x) da primeira família no

ponto (x0 , y0 ), então

1 1 1
ỹ 0 (x0 ) = − 0 =− =− .
y (x0 ) f (x0 , y0 ) f (x0 , ỹ(x0 ))
Note que a primeira igualdade acima deve-se ao fato de que as retas tangentes às curvas

y(x) e ỹ(x) são perpendiculares. Agora, uma vez que aquela relação vale para todo x0 ,

25
temos que
1
ỹ 0 (x) = − .
f (x, ỹ(x))
Portanto, as curvas da segunda família satisfazem a EDO

1
ỹ 0 = − .
f (x, ỹ)

Exemplo 2.21. Encontre a família de trajetórias ortogonais à família de hipérboles

xy = K .
K
Solução. Inicialmente, determinamos a EDO cujas curvas integrais são y= :
x
K xy y
y0 = − 2
=− 2 =− .
x x x
(Alternativamente, podemos derivar xy = K , obtendo y + xy 0 = 0.) Logo,

y
y0 = − = f (x, y)
x
a
é a EDO correspondente à 1 família. De acordo com o que discutimos anteriormente,
a
a EDO para a 2 família é
1 x
y0 = − = .
f (x, y) y
Assim,

dy x y2 x2
= =⇒ y dy = x dx =⇒ = +C
e =⇒ x2 − y 2 = C .
dx y 2 2
Note que, para C = 0, temos um par de retas: y=x e y = −x. Para os valores de

C 6= 0, temos uma família de hipérboles que têm como assíntotas estes par de retas

(veja a Figura 2.9).

2.10.2 Decaimento radioativo


O decaimento de uma substância radioativa satisfaz a seguinte lei: a quantidade de

material radioativo decai a uma taxa proporcional à própria quantidade de material

em cada instante. Assim, se Q(t) denota a quantidade de material radioativo em um

instante t, então
dQ
= −kQ,
dt
onde k>0 é uma constante que depende do material. Logo, se denotarmos a quanti-

dade inicial por Q0 = Q(0), teremos que

Q(t) = Q0 e−kt .

26
Figura 2.9: As duas famílias de curvas do exemplo 2.21

A meia-vida T de uma substância radioativa é o tempo necessário para que a

quantidade inicial Q0 seja reduzida à metade. Para calcular T , observe que Q(T ) =
Q0 1
Q0 /2, logo = Q0 e−kT e assim e−kT = ou −kT = − ln 2. Portanto,
2 2

ln 2
T = .
k

Em particular, vemos que a meia-vida independe da quantidade inicial Q0 .

2.10.3 Crescimento populacional

2.10.3.1 Modelo malthusiano

Em 1798, T. Malthus apresentou um modelo que descreveria a população, em função

do tempo, em um determinado ambiente. Esta é a Lei de Malthus:

27
A população cresce a uma taxa proporcional ao número

de indivíduos a cada instante.

Assim, se P (t) denota o número de indivíduos no instante t, então

dP
= kP,
dt
onde k>0 é uma constante que depende das taxas de natalidade e mortalidade, que

assumimos constantes (a saber, k = a − b, onde a denota a taxa de natalidade e b a

taxa de mortalidade). Se P0 = P (0) representa a população inicial, então

P (t) = P0 ekt .

2.10.3.2 Modelo logístico

O modelo de Malthus é insustentável a longo prazo, uma vez que o crescimento de uma

população é limitado por inúmeros fatores. Em 1838, P. Verhulst propôs o seguinte

modelo para o crescimento populacional:

P 0 = a − k1 P P,


onde a, k1 são constantes positivas. Esta EDO é denominada equação logística . Será

útil reescrevê-la da seguinte forma:

 
0 1 a
P =a 1− P P, E= > 0,
E k1

onde a denota a taxa de natalidade e E a capacidade do ambiente (esta termilogia será


justicada em breve). Observe que P ≡ 0 e P ≡ E são soluções constantes da equação

logística. Agora, escrevendo a equação logística sob a forma

a
P 0 − aP = − P 2 ,
E

28
vemos que ela é do tipo Bernoulli. Um cálculo direto nos mostra que as soluções

não-constantes desta EDO são dadas por

1
P (t) = 1 , C 6= 0.
E
+ Ce−at

Denotando a população inicial por P0 , isto é, P (0) = P0 6= E , obtemos

1 1 1
P0 = 1 =⇒ C= − .
E
+C P0 E

Logo, a solução da equação logística com população inicial P0 é

EP0
P (t) = .
P0 + (E − P0 )e−at

Em particular, vemos que lim P (t) = E = capacidade do ambiente. Em várias


t→+∞
situações, este modelo é mais plausível do que o modelo de Malthus.

A seguir, faremos uma análise qualitativa da equação logística. Pelo teorema de

existência e unicidade, sabemos que curvas integrais não se intersectam. Como as retas

horizontais P = 0 e P = E são curvas integrais, qualquer outra curva integral não

intersecta essas retas. Assim, se P (t) é solução com P (0) = P0 tal que 0 < P0 < E ,
então P (t) ∈ (0, E) para todo t ∈ R. Por outro lado, se P0 > E , então P (t) > E para
todo t no domínio de P (t). Assim:

0 < P0 < E =⇒ P 0 (t) > 0 =⇒ P (t) é crescente,

P0 > E =⇒ P 0 (t) < 0 =⇒ P (t) é decrescente.

Figura 2.10: Três curvas integrais; caso E=1

Note que se C > 0, isto é, 0 < P0 < E , então P (t) está denida para todo t. Por

outro lado, se C < 0, ou seja, P0 > E , então P (t) não está denida para t = T tal que

29
 
−aT 1 P0
P0 + (E − P0 )e = 0, ou seja , T = − ln ; note que T < 0, uma vez que
a P0 − E
P0
> 1. Portanto, se P0 > E , P (t) está denida em (T, +∞). De toda forma,
P0 − E
para efeito de interpretação, devemos considerar t ≥ 0, tomando t = 0 como o instante
inicial.

30
Capítulo 3

EDOs de segunda ordem

3.1 Preliminares
Neste capítulo vamos considerar EDOs de segunda ordem:

y 00 = f (t, y, y 0 ).

Exemplo 3.1. Se uma partícula de massa m desloca-se em linha reta sujeita a uma

força F (t, x, v) que depende do tempo t, da posição x = x(t) e da velocidade v = x0 (t),


a segunda lei de Newton arma que a posição x(t) satisfaz a EDO

mx00 = F (t, x, x0 ).

Observação 3.1 . Lembremos que, pela Denição 1.2, uma solução da EDO

y 00 = f (t, y, y 0 )

é uma função ϕ : I → R (cujo domínio I é um intervalo), duas vezes diferenciável, tal

que ϕ (t) = f (t, ϕ(t), ϕ0 (t)) , para todo t ∈ I .


00

Exemplo 3.2. A função y(t) = cos t é uma solução da EDO y 00 + y = 0 denida em

I = (−∞, +∞).
Denição 3.1. Um PVI para uma EDO de segunda ordem y 00 = f (t, y, y 0 ) consiste
em procurar uma solução y(t) da EDO que satisfaça as condições iniciais y(t0 ) = y0 e
0
y (t0 ) = v0 , onde t0 , y0 e v0 são dados do problema.

Usaremos a seguinte notação quando nos referirmos a um PVI para uma EDO de

segunda ordem: 
 y 00 = f (t, y, y 0 ),
 y(t ) = y , y 0 (t ) = v .
0 0 0 0

31
Teorema 3.1 (Teorema de existência e unicidade para EDOs de segunda ordem) .
Seja f (t, y, v) uma função contínua denida em um aberto U do espaço tyv , tal que as
derivadas parciais fy e fv existam e sejam contínuas em U . Então, dado (t0 , y0 , v0 ) ∈ U ,
existe uma única solução do PVI

 y 00 = f (t, y, y 0 ),
 y(t ) = y , y 0 (t ) = v .
0 0 0 0

3.2 Casos especiais de equações de segunda ordem

3.2.1 Caso 1: f (t, y, y0) independente de y


Considere a EDO

y 00 = f (t, y 0 ).
dy
Fazendo a mudança v = y0 = , obtemos
dt
v 0 = f (t, v).

Temos, portanto, uma EDO de primeira ordem para v = v(t). Se conseguirmos resolvê-
0
la, determinamos y integrando y (t) = v(t). Note que se f = f (v), a EDO para v é

separável.

Exemplo 3.3. Determine a solução geral da EDO y 00 + y 0 = et .


Solução. Fazendo a mudança v = y0, obtemos

v 0 + v = et .

A solução geral desta EDO linear de primeira ordem é

1
v(t) = et + Ce−t .
2
Como y0 = v, segue que

Z  
1 t −t 1
y= e + Ce dt + K = et − Ce−t + K.
2 2

Portanto, a solução geral da EDO y 00 + y 0 = et é

1
y = et + C1 e−t + C2 ,
2
onde C1 e C2 são constantes.

32
3.2.2 Caso 2: f (t, y, y0) independente de t e de y0
Neste caso, f só depende de y:
y 00 = f (y).
Temos então um sistema conservativo. Esta terminologia será justicada em breve.

Suponha que podemos considerar (em um certo intervalo de tempo) a velocidade v = y0


como função da posição y : v = v(y). Então, pela regra da cadeia

dv dv dy dv
y 00 = = =v .
dt dy dt dy
Daí,
dv
y 00 = f (y) =⇒ v = f (y) =⇒ vdv = f (y)dy.
dy
Obtemos desta forma uma EDO de primeira ordem separável para v = v(y). Denindo

a energia potencial U (y) como uma primitiva particular de −f (y), temos


Z
f (y) dy = −U (y) + c,

e assim, resolvedo a equação separável concluímos

v2
+ U (y) = E,
2
onde a energia E é constante. Interpretamos esta relação como a lei de conservação
2
v
de energia. Aqui, K= é a energia cinética da partícula (de massa 1). Obtemos
2

v = ± [2E − 2U (y)]1/2 .

Uma vez que v = y0, segue que y = y(t) é solução da equação autônoma

dy
= ± [2E − 2 U (y)]1/2 .
dt
ou ainda Z Z
dy
= ± dt = ± t + C.
[2E − 2 U (y)]1/2
Exemplo 3.4. Resolva a EDO y 00 + y = 0.
dv
Solução. Tomando v = y0 e considerando v como uma função de y, temos y 00 = v .
dy
Obtemos, então, a EDO separável

vdv = −ydy,

que fornece a relação

v2 = c − y2.

33
p
Logo, y satisfazy0 = ± c − y2. Resolvendo esta EDO, obtemos

√ √
Z Z
dy
p = ± dt =⇒ arcsen(y/ c) = ± t + k =⇒ y = c sen(k ± t),
c − y2

isto é, y = c (sen k cos t ± cos k sen t). Portanto, a solução geral da EDO y 00 + y = 0 é

y(t) = C1 cos t + C2 sen t

(C1 , C2 constantes).

3.2.3 Caso 3: f (t, y, y0) independente de t (equação autônoma)


Consideramos aqui a EDO

y 00 = f (y, y 0 ).
Como no caso 2, tomamos
dy
v = y0 = .
dt
Considerando v como função de y, obtemos a EDO de primeira ordem para v = v(y)

dv
v = f (y, v).
dy

Finalmente, tendo encontrado a solução geral v(y) desta última equação, resolvemos a

EDO autônoma
dy
= v(y)
dt
.

3.3 Equações lineares


Denição 3.2. Dizemos que a EDO de segunda ordem y 00 = f (t, y, y 0 ) é linear se

f (t, y, y 0 ) = a(t)y 0 + b(t)y + c(t),

onde a(t), b(t) e c(t) são funções contínuas denidas em um intervalo I ⊆ R.

Note que as EDOs lineares de segunda ordem podem ser reescritas sob a forma

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = g(t).

Se g(t) ≡ 0, a EDO é dita linear homogênea.

34
Observação 3.2 . Uma vez que p(t), q(t) e g(t) são funções contínuas denidas em um

intervalo I , o Teorema 3.1 (teorema de existência e unicidade) arma que, se t0 ∈ I ,


y0 ∈ R e v0 ∈ R estão xados, então o PVI

 y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = g(t),
 y(t ) = y , y 0 (t ) = v ,
0 0 0 0

tem uma única solução. Pode ser mostrado que é possível denir a solução em todo o

intervalo I.

3.3.1 Equações lineares homogêneas


Considere uma EDO linear homogênea

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0, t ∈ I. (3.1)

Note que:

(i) a função y(t) ≡ 0 é solução da equação (3.1), que denominamos solução trivial
desta EDO;

(ii) se y(t) é uma solução da EDO (3.1) e c é um escalar, então cy(t) também é solução
da equação (3.1). De fato,

(cy)00 (t) + p(t)(cy)0 (t) + q(t)(cy(t)) = c (y 00 (t) + p(t)y 0 (t) + q(t)y(t)) = c . 0 = 0;

(iii) se y1 (t) e y2 (t) são soluções da EDO (3.1), então y1 (t) + y2 (t) também é solução.
Com efeito,

(y1 (t) + y2 (t))00 + p(t) (y1 (t) + y2 (t))0 + q(t) (y1 (t) + y2 (t))
= (y100 (t) + p(t)y10 (t) + q(t)y1 (t)) + (y200 (t) + p(t)y20 (t) + q(t)y2 (t))
= 0 + 0 = 0.

Portanto, concluímos que o conjunto S das soluções da EDO (3.1) é um espaço vetorial
(um subespaço do espaço das funções ϕ : I → R).

Proposição 3.1. O espaço vetorial S é bidimensional.

Demonstração. Sejam y1 (t) a solução do PVI



 y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0,
 y(t ) = 1, y 0 (t ) = 0,
0 0

35
e y2 (t) a solução do PVI

 y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0,
 y(t ) = 0, y 0 (t ) = 1.
0 0

Vamos mostrar que {y1 , y2 } é uma base de S.


Armação 1. O conjunto {y1 , y2 } é LI.

Sejam a, b ay1 + by2 = 0. Isto é uma igualdade de funções, logo


constantes tais que

esta relação signica que ay1 (t)+by2 (t) = 0 para todo t ∈ I . Derivando, temos também

ay10 (t) + by20 (t) = 0. Substituindo t = t0 nestas relações, obtemos a = 0 e b = 0, como


queríamos mostrar.

Armação 2. O conjunto {y1 , y2 } gera S.

Seja φ(t) uma solução da EDO (3.1). Se φ(t0 ) = C1 , φ0 (t0 ) = C2 , então φ(t) é

solução do PVI 
 y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0,
(3.2)
 y(t ) = C , y 0 (t ) = C .
0 1 0 2

Observe agora que a função C1 y1 (t)+C2 y2 (t) também é solução deste PVI. Pelo teorema
de existência e unicidade, φ(t) = C1 y1 (t)+C2 y2 (t). Portanto, todas as soluções da EDO

(3.1) são da forma C1 y1 + C2 y2 , com C1 , C2 ∈ R.

Concluímos das armações acima que {y1 , y2 } é uma base para S e, portanto, que

dim(S )= 2. 
Observação 3.3 . Comcluímos que, se z1 e y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0 e
z2 são soluções de

{z1 , z2 } é LI, então {z1 , z2 } é uma base de S . Assim, toda solução é da forma α1 z1 +α2 z2 ,
com α1 e α2 constantes.

Observação 3.4 . Uma base do espaço S de soluções da EDO (3.1) também é chamada

um conjunto fundamental de soluções da equação (3.1).

3.3.1.1 Equações lineares homogêneas com coecientes constantes

Agora, vamos considerar uma EDO linear homogênea com coecientes constantes:

ay 00 + by 0 + cy = 0 (a, b, c ∈ R, a 6= 0). (3.3)

Exemplo 3.5. y1 (t) = cos t e y2 (t) = sen t são soluções da EDO y 00 + y = 0


As funções

e {y1 , y2 } é LI (pois a função cos t não é um múltiplo constante de sen t e vice-versa).


00
Assim, a solução geral da EDO y + y = 0 é da forma C1 cos t + C2 sen t, C1 , C2 ∈ R.

Veja como obtivemos esta mesma solução no Exemplo 3.4.

Exemplo 3.6. As funções y1 (t) = et e y2 (t) = e−t são soluções da EDO y 00 − y = 0


e{y1 , y2 } é um conjunto LI. Logo, a solução geral da EDO y 00 − y = 0 é da forma

C1 et + C2 e−t , C1 , C2 ∈ R.

36
Para resolver a EDO (3.3), procuraremos soluções particulares da forma eλt . Note
λt
que e satisfaz a equação (3.3) se, e somente se,

aλ2 eλt + bλeλt + ceλt = 0 ⇐⇒ (aλ2 + bλ + c)eλt = 0 ⇐⇒ aλ2 + bλ + c = 0.


o
A equação do 2 grau

aλ2 + bλ + c = 0 (3.4)

é denominada equação característica da EDO (3.3).

Agora, vamos analisar a solução geral da EDO (3.3) de acordo com o sinal do

discriminante da equação característica (3.4).

Caso 1: ∆ > 0
Neste caso, teremos duas raízes reais e distintas λ1 e λ2 da equação característica.
λ1 t
Logo, {e , e } é uma base de S . De fato, se C1 e + C2 eλ2 t = 0 para todo t, obtemos
λ2 t λ1 t

λ t λ t
derivando que C1 λ1 e 1 + C2 λ2 e 2 = 0 para todo t. Substituindo t = 0, obtemos

0 = C1 λ1 + C2 λ2 = C1 λ1 − C1 λ2 = C1 (λ1 − λ2 ).

Como λ1 6= λ2 , segue que C1 = 0 e, consequentemente, que C2 = 0. Assim, {eλ1 t , eλ2 t }


é LI. Portanto, para ∆ > 0, a solução geral da EDO (3.3) é

y(t) = C1 eλ1 t + C2 eλ2 t , C1 , C2 ∈ R .

Exemplo 3.7. Resolva o PVI



 y 00 + 5y 0 + 6y = 0,
 y(0) = 2, y 0 (0) = 3.

Solução. A equação característica associada à EDO y 00 + 5y 0 + 6y = 0 é

λ2 + 5λ + 6 = 0,

cujas soluções são λ1 = −2 e λ2 = −3. Logo, a solução geral da EDO é

y(t) = C1 e−2t + C2 e−3t .

Note que y 0 = −2C1 e−2t − 3C2 e−3t . Uma vez que

2 = y(0) = C1 + C2 ,
3 = y 0 (0) = −2C1 − 3C2 ,

segue que C1 = 9 e C2 = −7. Portanto, a solução do PVI é

y(t) = 9e−2t − 7e−3t .

37
Figura 3.1: Gráco da função y(t) = 9e−2t − 7e−3t

Caso 2: ∆ = 0
Uma vez que ∆ = 0, temos apenas uma raiz de multiplicidade 2 λ1 = λ2 da

equação característica. Logo, o método descrito anteriormente nos fornece apenas a


λ1 t
solução y1 (t) = e . Como devemos proceder de modo a completar y1 para uma base
λ1 t λ1 t
do espaço de soluções? Resposta: {e , te } é uma base de S (o espaço das soluções

de (3.3)).

Motivação
Suponha que as raízes da equação característica λ1 e λ2 sejam distintas mas que
λ1 t λ2 t
λ1 ≈ λ2 . Então, {e ,e } é uma base de S . Assim,

eλ2 t − eλ1 t
 
λ1 t
e ,
λ2 − λ1

também é uma base de S. Como λ1 ≈ λ2 , temos, pela denição de derivada, que

eλ2 t − eλ1 t
≈ teλ1 t .
λ2 − λ1

Portanto, para o caso em que λ1 = λ2 , o nosso palpite é que teλ1 t é uma solução da
λ t λ t
EDO (3.3) e, consequentemente, que {e 1 , te 1 } é uma base de S .

Vericação do palpite
Uma vez λ1 é raiz dupla da equação característica aλ2 + bλ + c = 0, podemos

reescrever esta equação da seguinte forma:

a(λ − λ1 )2 = 0,

38
ou ainda

aλ2 − 2aλ1 λ + aλ21 = 0.


Esta é a equação característica para a EDO

ay 00 − 2aλ1 y 0 + aλ21 y = 0. (3.5)

Um cálculo direto nos mostra que y2 (t) = teλ1 t é uma solução desta EDO. De fato, se
λ1 t
y2 (t) = te , então

y20 (t) = eλ1 t + λ1 teλ1 t ,


y200 (t) = 2λ1 eλ1 t + λ21 t eλ1 t .

Substituindo y2 , y20 e y200 na equação (3.5), concluímos que

a 2λ1 eλ1 t + λ21 t eλ1 t − 2aλ1 eλ1 t + λ1 teλ1 t + aλ21 teλ1 t =


  

2aλ1 eλ1 t + aλ21 t eλ1 t − 2aλ1 eλ1 t − 2aλ21 teλ1 t + aλ21 teλ1 t = 0,

como queríamos. Portanto, a solução geral da EDO (3.3) é, no caso ∆ = 0,

y(t) = C1 eλ1 t + C2 teλ1 t .

Exemplo 3.8. Ache a solução geral de y 00 + 2y 0 + y = 0.


Solução. A equação característica associada a EDO y 00 + 2y 0 + y = 0 é

λ2 + 2λ + 1 = 0

cuja solução é λ1 = −1. Logo, a solução geral da EDO é

y(t) = C1 e−t + C2 te−t .

Caso 3: ∆ < 0
Neste caso, temos duas raízes complexas conjugadas λ1 e λ2 da equação caracterís-

tica:

λ1 = α + iω, λ2 = α − iω, α, ω ∈ R (ω 6= 0).


A ideia é considerar, provisoriamente, as soluções complexas u1 (t) = eλ1 t e u2 (t) = eλ2 t
e procurar obter soluções reais para a EDO (3.3). Usando a fórmula de Euler

eiθ = cos θ + i sen θ, θ ∈ R,

obtemos

u1 (t) = eλ1 t = e(α+iω)t = eαt eiωt = eαt cos(ωt) + ieαt sen(ωt).


Similarmente,

u2 (t) = eαt cos(ωt) − ieαt sen(ωt).

39
Portanto,

u1 (t) + u2 (t) u1 (t) − u2 (t)


y1 (t) := = eαt cos(ωt) e y2 (t) := = eαt sen(ωt)
2 2i
são soluções (reais) da EDO (3.3), uma vez que y1 e y2 são combinações lineares de u1 (t)
e u2 (t). Como ω 6= 0, as soluções y1 (t) e y2 (t) são LI (veja o exemplo 3.12 abaixo).
Assim, {y1 , y2 } é uma base do espaço de soluções reais da EDO (3.3). Portanto, a

solução geral da EDO (3.3), para ∆ < 0, é

y(t) = C1 eαt cos(ωt) + C2 eαt sen(ωt) .

Observação 3.5 . Note que y1 (t) = Re(eλ1 t ) e y2 (t) = Im(eλ1 t ).

Exemplo 3.9. Resolva a EDO y 00 − 2y 0 + 4y = 0.


Solução. A equação característica associada à EDO y 00 − 2y 0 + 4y = 0 é

λ2 − 2λ + 4 = 0
√ √
cujas soluções são λ1 = 1 + i 3 e λ2 = 1 − i 3. Logo, a solução geral da EDO é

√ √
y(t) = C1 et cos( 3 t) + C2 et sen( 3 t).

Exemplo 3.10. Resolva a EDO y00 +ω2 y = 0, onde ω é uma constante positiva. Se y(t)
0
é a solução que satisfaz y(0) = y0 > 0, y (0) = v0 < 0, determine o primeiro instante

t>0 tal que y(t) = 0.

Solução. A equação característica é

λ2 + ω 2 = 0,

cujas soluções são λ = ±iω . Uma base para S é formada pelas funções cos(ωt) e

sen (ωt), assim a solução geral é

y(t) = C1 cos(ωt) + C2 sen(ωt).

Se y(0) = y0 , y 0 (0) = v0 , segue que y0 = C1 , v0 = C2 ω, e assim

v0
y(t) = y0 cos(ωt) + sen(ωt).
ω
ωy0
Assim, se y(t) = 0, temos tg(ωt) =− , de modo que o instante desejado é
v0
 
1 −ωy0
t = arctg .
ω v0

40
3.3.1.2 Equações de Euler-Cauchy

A equação

t2 y 00 + αty 0 + βy = 0 (t > 0),


onde α e β são constantes, é conhecida como equação de Euler-Cauchy .

A ideia para resolver esta EDO é procurar soluções da forma y(t) = tm , onde m é

uma constante a determinar. Neste caso,

y 0 (t) = mtm−1 e y 00 (t) = m(m − 1)tm−2 .

Substituindo na EDO, obtemos:

t2 m(m − 1)tm−2 + αtmtm−1 + βtm = 0,

de modo que m deve satisfazer

m(m − 1) + αm + β = 0,

que é uma equação quadrática para m. Se o discriminante desta equação for positivo,
m m
obteremos duas raízes reais distintas m1 e m2 . Assim, t 1 e t 2 formarão um conjunto

fundamental de soluções para a EDO, de modo que a solução geral será dada por

y(t) = C1 tm1 + C2 tm2 , C1 , C2 ∈ R .

Exemplo 3.11. Resolva a EDO t2 y 00 + 3ty 0 − 8y = 0 (t > 0).

Solução. Vamos procurar soluções da forma y1 (t) = tm . Substituindo na EDO,

obtemos

t2 m(m − 1)tm−2 + 3tmtm−1 − 8tm = 0,


ou seja (m2 − m) + 3m − 8 = 0. Devemos então resolver a equação quadrática

m2 + 2m − 8 = 0,

cujas soluções são 2 e −4. Assim {t2 , t−4 } é um conjunto fundamental de soluções para
a EDO. Portanto a solução geral é dada por

y(t) = C1 t2 + C2 t−4 , C1 , C2 ∈ R.

Após estudarmos o método de redução de ordem na seção 3.3.3, analisaremos a

resolução da equação de Euler-Cauchy no caso em que a equação quadrática para m


tem raiz repetida.

41
3.3.2 O Wronskiano
Denição 3.3. Sejam y1 (t) e y2 (t) duas funções reais diferenciáveis, denidas em um

intervalo I ⊆ R. O Wronskiano das funções y1 e y2 no ponto t0 ∈ I é denido por




y1 (t0 ) y2 (t0 )
= y1 (t0 )y20 (t0 ) − y10 (t0 )y2 (t0 ).

W [y1 , y2 ](t0 ) =
y10 (t0 ) y20 (t0 )

Proposição 3.2. Sejam y1 , y2 : I → R funções diferenciáveis, onde I é um intervalo


da reta. Se {y1 , y2 } é um conjunto LD, então W [y1 , y2 ](t) = 0 para todo t ∈ I .

Demonstração. Se {y1 , y2 } é um conjunto LD, existem constantes a1 e a2 , não simul-


taneamente nulas, de modo que

a1 y1 (t) + a2 y2 (t) = 0, ∀ t ∈ I.

Derivando a identidade acima, segue que

a1 y10 (t) + a2 y20 (t) = 0, ∀ t ∈ I.

Isto signica que o sistema


    
y1 (t) y2 (t) x1 0
  = 
y10 (t) y20 (t) x2 0

admite solução não-trivial (a1 , a2 ). Portanto, a matriz dos coecientes tem determi-

nante nulo, isto é,

W [y1 , y2 ](t) = 0, ∀ t ∈ I.

Observação 3.6 . A proposição acima nos diz que se W (t0 ) 6= 0 para algum t0 ∈ I , então
{y1 , y2 } é um conjunto LI.

Exemplo 3.12. ay 00 + by 0 + cy = 0, a 6= 0, com ∆ = b2 − 4ac < 0.


Considere uma EDO

Vimos que se λ1 = α + iω e λ2 = α − iω forem as raízes da equação característica,


αt αt
então y1 (t) = e cos(ωt) e y2 (t) = e sen(ωt) são soluções desta EDO. Para ver que

{y1 , y2 } é LI, basta mostrar que W (t0 ) 6= 0 para algum t0 . Uma vez que

y10 (t) = αeαt cos(ωt) − ωeαt sen(ωt) e y20 (t) = αeαt sen(ωt) + ωeαt cos(ωt),

segue que

1 0
W (0) = = ω 6= 0.

α ω
Portanto, {y1 , y2 } é LI.

42
Proposição 3.3. Se {y1 , y2 } é um conjunto fundamental de soluções da EDO (3.1),
então W [y1 , y2 ](t) 6= 0 para todo t ∈ I .

Demonstração. Suponha que W (t0 ) = 0 t0 ∈ I .


para algum Então o sistema
   
y (t ) y2 (t0 ) x 0
 1 0  1  =  
y10 (t0 ) y20 (t0 ) x2 0
tem solução não trivial (a1 , a2 ). Dena y(t) = a1 y1 (t) + a2 y2 (t). Como, por hipótese,

{y1 , y2 } é uma base do espaço de soluções da EDO (3.1), segue que y é solução do PVI

 y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0,
 y(t ) = 0, y 0 (t ) = 0.
0 0

Uma vez que a função nula também satisfaz este PVI, segue do teorema de existência e

unicidade que y ≡ 0. Assim, a1 y1 (t) + a2 y2 (t) ≡ 0 com (a1 , a2 ) 6= (0, 0), contradizendo

que {y1 , y2 } é LI. Portanto, W ≡ 0. 


Observação 3.7 . Sejam y1 e y2 duas soluções da EDO (3.1). Pelas Proposições 3.2 e

3.3 concluímos que

{y1 , y2 } LD =⇒ W ≡ 0,
{y1 , y2 } LI =⇒ W (t) 6= 0 ∀ t.

Teorema 3.2 (Fórmula de Abel-Liouville) . Se y1 e y2 são soluções Zda equação (3.1)

denidas em um intervalo I então, uma vez xada uma primitiva p(t)dt de p(t),
temos  Z 
W (t) = C exp − p(t)dt , ∀ t ∈ I,

onde C é uma constante.

Demonstração. Sejam y1 e y2 duas soluções da EDO (3.1). Como

W (t) = y1 (t)y20 (t) − y10 (t)y2 (t),

temos que

W 0 (t) = y10 y20 + y1 y200 − y100 y2 − y10 y20 = y1 y200 − y100 y2 .


Tendo em vista que

y100 = −p(t)y10 − q(t)y1 e y200 = −p(t)y20 − q(t)y2 ,

obtemos

W 0 (t) = y1 [−p(t)y20 − q(t)y2 ] − [−p(t)y10 − q(t)y1 ] y2


= −p(t)y1 y20 − q(t)y1 y2 + p(t)y10 y2 + q(t)y1 y2
= −p(t) [y1 y20 − y10 y2 ]
= −p(t)W (t).

43
Portanto, o wronskiano W (t) satisfaz a seguinte EDO linear homogênea

W 0 = −p(t)W, (3.6)

que sabemos resolver: suas soluções são dadas por


R
W (t) = Ce− p(t)dt
, com C ∈ R.

3.3.3 Redução de ordem


Considere uma EDO linear homogênea de segunda ordem

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0, t ∈ I,

e suponha que uma solução não-trivial y1 (t) desta EDO é conhecida. Queremos encon-
trar outra solução y2 (t) de forma que {y1 , y2 } forme uma base do espaço de soluções
S. O procedimento descrito a seguir é chamado método de redução de ordem.
Ideia: Procurar solução da forma y2 (t) = v(t)y1 (t), onde v é uma função não-constante
a determinar.

Substituindo na EDO y2 = vy1 , y20 = v 0 y1 + vy10 e y200 = v 00 y1 + 2v 0 y10 + vy100 , obtemos

(v 00 y1 + 2v 0 y10 + vy100 ) + p(t) (v 0 y1 + vy10 ) + q(t) (vy1 ) = 0.

Reorganizando os termos na identidade acima, chegamos a

y1 v 00 + (py1 + 2y10 ) v 0 + (y100 + py10 + qy1 )v = 0.

Uma vez que y1 é solução da EDO y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0, segue que v deve satisfazer

a seguinte equação:

y1 v 00 + (py1 + 2y10 ) v 0 = 0.
Agora, a m de resolver a EDO acima, fazemos z = v0, para obter a seguinte EDO

linear homogênea de primeira ordem para z:

y1 z 0 + (py1 + 2y10 ) z = 0.

Resolvemos esta EDO separável, xamos uma solução não-nula z(t) e integramos

v 0 = z(t)

para determinar a função não-constante procurada v(t).


Finalmente,{y1 (t), v(t)y1 (t)} é um conjunto LI, tendo em vista que v(t)y1 (t) não é
um múltiplo constante de y1 (t). Assim, {y1 (t), v(t)y1 (t)} é um conjunto fundamental
00 0
de soluções para a EDO y + p(t)y + q(t)y = 0, portanto a solução geral é dada por

y(t) = C1 y1 (t) + C2 v(t)y1 (t).

44
Exemplo 3.13. Resolva a EDO t2 y 00 + 3ty 0 + y = 0 (t > 0).

Solução. Procuramos inicialmente por soluções da forma y(t) = tm , onde m é uma

constante a determinar. Temos então

t2 m(m − 1)tm−2 + 3tmtm−1 + tm = 0,

ou seja(m2 −m)+3m+1 = 0. Devemos então resolver a equação quadrática m2 +2m+


1 = 0, ou seja (m + 1)2 = 0, que tem uma única raiz: m = −1. Assim, encontramos
m −1
uma única solução da EDO da forma t , a saber y1 (t) = t . Usaremos o método de
−1
redução de ordem para obter uma segunda solução da forma y2 (t) = t v(t) com v(t)

não constante, de forma que {y1 (t), y2 (t)} será um conjunto fundamental de soluções

da EDO. Escrevendo y = y2 (t), temos

y = t−1 v(t), y 0 = −t−2 v + t−1 v 0 , y 00 = 2t−3 v − 2t−2 v 0 + t−1 v 00 .

Substituindo y = t−1 v(t) na EDO e usando estas identidades, obtemos

tv 00 + v 0 = 0.

Fazendo z = v0, chegamos à seguinte EDO de primeira ordem para z:


dz dt
tz 0 + z = 0, ou seja =− .
z t
Integrando, obtemos

ln z = − ln t + C.
Por exemplo, temos a solução z = t−1 , e assim devemos resolver v 0 = t−1 , podendo

tomar

v(t) = ln t.
Assim, concluímos que

y2 (t) = t−1 ln t
e

{t−1 , t−1 ln t}
é um conjunto fundamental de soluções da EDO do enunciado. Finalmente, a solução

geral da EDO é

y(t) = C1 t−1 + C2 t−1 ln t,


onde C1 e C2 são constantes arbitrárias.

45
3.3.4 Equações lineares não-homogêneas
Considere a EDO linear não-homogênea

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = f (t), (3.7)

onde p(t), q(t) e f (t) são funções contínuas denidas em um intervalo I. A equação
linear homogênea associada à equação (3.7) é, por denição, a EDO

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0. (3.8)

Seja {y1 , y2 } um conjunto fundamental de soluções da EDO linear homogênea (3.8).


A solução geral desta EDO é

z(t) = Ay1 (t) + By2 (t) (A, B ∈ R).

Seja y0 (t) uma solução particular da EDO linear não-homogênea (3.7). Se φ(t) é uma

solução arbitrária da EDO (3.7), então

φ00 + p(t)φ0 + q(t)φ = f (t),


y000 + p(t)y00 + q(t)y0 = f (t),

logo,

(φ − y0 )00 + p(t)(φ − y0 )0 + q(t)(φ − y0 ) = 0.


Assim, φ − y0 é solução da EDO linear homogênea (3.8). Portanto,

φ(t) − y0 (t) = Ay1 (t) + By2 (t),

para certas constantes A, B ∈ R, isto é,

φ(t) = y0 (t) + Ay1 (t) + By2 (t), A, B ∈ R . (3.9)

Reciprocamente, toda função da forma (3.9) é solução da EDO (3.7). Assim, mostra-

mos:

Teorema 3.3. A solução geral da equação linear não-homogênea é obtida so- (3.7)

mando, a uma solução particular da EDO (3.7), a solução geral da equação linear
homogênea associada (3.8).

Exemplo 3.14. Determine a solução geral da EDO y 00 − 9y 0 + 20y = 3.

Solução. A equação homogênea associada a esta EDO é y 00 − 9y 0 + 20y = 0. A

equação característica desta EDO é

λ2 − 9λ + 20 = 0,

46
cujas soluções são λ1 = 4 e λ2 = 5. Logo, {e4t , e5t } é um conjunto fundamental de

soluções da EDO linear homogênea associada. Por outro lado, note que y0 (t) = 3/20
é solução particular da equação linear não-homogênea dada. Portanto, pelo Teorema

3.3, a solução geral da EDO linear não-homogênea dada é

3
y(t) = + Ae4t + Be5t , A, B ∈ R .
20

Temos também o princípio da superposição :

Proposição 3.4. Se y0 e ye0 são soluções particulares das equações y00 +p(t)y0 +q(t)y =
f1 (t) e y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = f2 (t), respectivamente, então

yp = y0 + ye0

é uma solução particular da EDO

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = f1 (t) + f2 (t).

Demonstração. De fato, temos

yp00 + p(t)yp0 + q(t)yp = (y0 + ye0 )00 + p(t)(y0 + ye0 )0 + q(t)(y0 + ye0 )
= (y000 + p(t)y00 + q(t)y0 ) + (ye0 00 + p(t)ye0 0 + q(t)ye0 )
= f1 (t) + f2 (t).

. 

3.3.5 Método dos coecientes a determinar


Considere a EDO linear não-homogênea

ay 00 + by 0 + cy = f (t), (3.10)

onde a, b e c são constantes e f (t) é uma das seguintes funções:

ˆ um polinômio de grau n: Pn (t);

ˆ Pn (t)eαt ;

ˆ Pn (t)eαt cos(ωt) ou Pn (t)eαt sen(ωt);

onde α, ω ∈ R.
O método dos coecientes a determinar consiste em procurar uma solução particular

da EDO (3.10) no caso em que a função f (t) é uma das funções acima.

47
Considere a equação característica da EDO linear homogênea ay 00 + by 0 + cy = 0
associada à equação (3.10),

aλ2 + bλ + c = 0. (3.11)

Se λ0 é raiz da equação característica (3.11), dizemos que λ0 tem multiplicidade s=1


se é raiz simples; ou seja, neste caso há duas raízes distintas de (3.11), uma das quais

é λ0 . Dizemos que λ0 tem multiplicidade s=2 se é raiz dupla de (3.11). Se λ0 não é


raiz de (3.11), escrevemos s = 0. Assim, denotamos por s a multiplicidade de λ0 como
raiz da equação característica (3.11).

Caso 1: f (t) = k (onde k é uma constante).


A ideia inicial é procurar solução particular y0 que também seja constante. Porém,

nem sempre enontraremos uma tal solução. O exemplo a seguir visa discutir três

situações distintas.

Exemplo 3.15. Dê exemplo de solução particular para as seguintes EDOs:


(a) y00 + y0 + 2y = 5;
(b) y00 + y0 = 7;
(c) y00 = 8.

Solução.
(a) Procuremos uma solução constante, y0 = C . Substituindo na equação, obtemos

2C = 5, logo y0 (t) = 5/2 é solução particular da EDO.

(b) Se procurarmos solução constante y0 = C teremos um absurdo: 0 = 7. Tentemos,

então, y0 = Ct. Obtemos C = 7, y0 (t) = 7t é solução particular.


logo

(c) Se tentarmos achar solução da forma y0 (t) = C ou y0 (t) = Ct, chegaremos a um


2 2
absurdo (0 = 8). Tentando y0 = Ct , obtemos 2C = 8 e assim y0 (t) = 4t é solução

particular.

No caso (a), a EDO é da forma ay 00 + by 0 + cy = k, com c 6= 0, e portanto a


equação característica (3.11) admite solução constante y0 (t) = C : tomamos y0 (t) =

k/c. Notamos que a condição c 6= 0 se traduz no fato que λ = 0 não é raiz da equação
2
característica aλ + bλ + c = 0.

No caso (b), temos uma EDO do tipo ay 00 + by 0 = k com b 6= 0. Esta condição é


2
equivalente a dizer que a equação característica aλ + bλ = 0 tem λ = 0 como raiz

simples. Há solução particular da forma y0 (t) = Ct; de fato, tomamos C = k/b.

Já no caso da EDO (c), temos uma EDO do tipo ay 00 = k . A equação característica


2
é aλ = 0, que tem λ = 0 como raiz dupla. Neste caso, obtemos solução particular da
2
forma y0 (t) = Ct ; aqui, tomamos C = k/(2a).

Podemos resumir o que encontramos no caso da EDO

ay 00 + by 0 + cy = k

48
(onde k é uma constante) da seguinte forma: existe solução particular da forma

y(t) = Cts ,

onde s (= 0, 1 ou 2) é a multiplicidade de λ=0 como raiz de aλ2 + bλ + c = 0.


Caso 2: f (t) = Pn (t).
A princípio, procuramos uma solução particular da forma y0 (t) = Qn (t), onde Qn (t)
é um polinômio de grau n:

Qn (t) = A0 + A1 t + A2 t2 + · · · + An tn .

Os coecientes Aj , j = 1, · · · , n, são os coecientes a determinar.

Exemplo 3.16. Obtenha uma solução particular da EDO y 00 + y 0 + y = t2 .

Solução. Tentando y0 (t) = A0 + A1 t + A2 t2 , obtemos

2A2 + A1 + 2A2 t + A0 + A1 t + A2 t2 = t2 ,

ou

2A2 + A1 + A0 + (2A2 + A1 )t + A2 t2 = t2 ;
segue que A2 = 1, A1 = −2, A0 = 0, Assim, y0 (t) = t2 − 2t é uma solução da EDO.

Como no caso 1, devemos car atentos à multiplicidade s = 0, 1 ou 2 de λ = 0 como


2
raiz da equação característica aλ + bλ + c = 0. Obtemos uma solução particular de

ay 00 + by 0 + cy = Pn (t)

sob a forma

y0 (t) = ts Qn (t),
onde Qn (t) = A0 +A1 t+. . .+An tn é um polinômio de grau n. Os coecientes A0 , . . . , An
s
são determinados ao substituirmos t Qn (t) na EDO.

Note que, no exemplo anterior, temos s = 0, pois λ = 0 não é raiz da equação


2
característica λ + λ + 1 = 0.

Exemplo 3.17. Ache uma solução particular de y 00 + y 0 = t2 .

Solução. λ = 0 é raiz de λ2 + λ = 0, com multiplicidade s = 1. Como f (t) = t2 é um


polinômio quadrático, devemos procurar solução particular da forma y0 (t) = tQ2 (t),
isto é,

y0 (t) = t(A0 + A1 t + A2 t2 ) = A0 t + A1 t2 + A2 t3 .
t3
Substituindo na EDO, obtemos A0 = 2, A1 = −1, A2 = 1/3, e assim y0 (t) = 2t − t2 +
3
é uma solução da EDO.

49
Exemplo 3.18. Resolva o PVI y 00 + y 0 + y = t2 , y(0) = 0, y 0 (0) = 0.

Solução. Vimos anteriormente que y0 (t) = t2 − 2t é uma solução particular da EDO


y 00 + y 0 + y = t2 . Por outro
00 0
lado, a EDO y + y + y = 0 tem equação característica

−1 ± 3 i
λ2 + λ + 1 = 0 , cujas raízes são . Assim, a solução geral da equação linear
2
homogênea associada é

1 √ 1 √
z(t) = c1 e− 2 t cos ( 3 t/2) + c1 e− 2 t sen ( 3 t/2),

e portanto a solução geral da EDO y 00 + y 0 + y = t2 é


1 √ 1 √
y(t) = t2 − 2t + c1 e− 2 t cos ( 3 t/2) + c1 e− 2 t sen ( 3 t/2).

0 1 3
Temos y(0) = c1 e y (0) = − c1 + c2 − 1; impondo as condições iniciais y(0) =
2 2
2
0, y 0 (0) = 0, camos com c1 = 0, c2 = √ . Assim, a solução do PVI dado é
3
2 1 √
y(t) = t2 − 2t + √ e− 2 t sen ( 3 t/2).
3

Caso 3: f (t) = keαt , onde k, α são constantes reais não-nulas.

Neste caso, há solução particular da forma

y0 (t) = Cts eαt ,

onde s é a multiplicidade de α como raiz da equação característica aλ2 + bλ + c = 0.


A justicativa será dada após o exemplo a seguir.

Exemplo 3.19. Encontre uma solução particular para as seguintes EDOs:


(a) y00 − y = 4e3t ;
(b) y00 − y = 2et ;
(c) y00 + 2y0 + y = e−t .

Solução.
(a) Como α = 3 não é raiz da equação característica λ2 − 1 = 0, temos s = 0 e há solu-
ção particular da forma y0 (t) = Ce3t .
Substituindo na equação, obtemos 9C − C = 4.
1 3t
Logo, y0 (t) = e é uma solução particular.
2
(b) Agora, α = 1 é raiz simples da equação característica λ2 − 1 = 0, logo s = 1. As-
t
sim, há solução particular da forma y0 (t) = Cte . Substituindo na EDO dada, obtemos

C = 1, e assim y0 (t) = tet .


(c) Neste caso, a equação característica é λ2 + 2λ + 1 = 0, que tem λ = −1 como raiz
dupla. Temos neste exemplo α = −1, s = 2, e assim há solução particular da forma
1 1
y0 (t) = Ct2 e−t . Encontramos facilmente C = , portanto obtemos y0 (t) = t2 e−t .
2 2
50
Vamos esclarecer o método os coecientes a determinar no caso em que a EDO é

da forma ay 00 + by 0 + cy = keαt . Suponha que α não seja raiz da equação característica


aλ2 + bλ + c = 0. Procuramos solução particular da forma y0 (t) = Ceαt . Substituindo
na EDO, obtemos

aCα2 + bCα + cC = k;
como aα2 + bα + c 6= 0, obtemos C = k/(aα2 + bα + c) e assim

k
y0 (t) = eαt
aα2 + bα + c
é a solução particular desejada.

Suponha agora que α é raiz simples da equação característica p(λ) = 0. Isto signica
0
que p(α) = 0 e p (α) 6= 0, isto é,

aα2 + bα + c = 0, 2aα + b 6= 0. (3.12)

Procuramos C de tal forma que y0 (t) = Cteαt seja solução da EDO ay 00 +by 0 +cy = keαt .
Substituindo na EDO, chegamos a

C[t(aα2 + bα + c) + (2aα + b)] = k.

Usando 3.12, obtemos C = k/(2aα + b), portanto a solução particular desejada é

k
y0 (t) = teαt .
2aα + b

No caso em que α é raiz dupla da equação característica p(λ) = 0, temos p(α) =


0
0, p (α) = 0 e procedemos de forma similar para mostrar que existe solução particular

da EDO da forma y0 (t) = Ct2 eαt .


Caso 4: f (t) = Pn (t)eαt .
Neste caso, obtemos solução particular da forma

y0 (t) = ts Qn (t)eαt ,

onde s é a multiplicidade de α como raiz da equação aλ2 + bλ + c = 0 e Qn (t) é um

polinômio de grau n.

Exemplo 3.20. Considere a EDO y 00 − y = (t3 + 1)e−t . Temos que α = −1 é raiz


2
simples da equação característica λ − 1 = 0, logo s = 1 devemos procurar solução

particular da forma y0 (t) = tQ3 (t)e−t , ou seja

y0 (t) = t(A0 + A1 t + A2 t2 + A3 t3 )e−t = (A0 t + A1 t2 + A2 t3 + A3 t4 )e−t .

Deixamos a cargo do leitor escrever e resolver o sistema de quatro equações lineares e

quatro incógnitas para A0 , A1 , A2 , A3 , de modo a obter a solução particular y0 (t).

51
Caso 5: f (t) = Pn (t)eαt cos(ωt) ou f (t) = Pn (t)eαt sen(ωt), com ω 6= 0.
Neste último caso, temos uma solução particular da forma

y0 (t) = ts (Qn (t)eαt cos(ωt) + Rn (t)eαt sen(ωt)),


onde s é a multiplicidade de α+iω como raiz da equação aλ2 +bλ+c = 0 e Qn (t), Rn (t)
são polinômios de grau n. Note que, neste caso, só poderemos ter s = 0 ou s = 1, já

que uma raiz não-real de uma equação quadrática a coecientes reais é necessariamente

uma raiz simples (seu conjugado sendo outra raiz da equação).

Não daremos a justicativa detalhada para o método dos coecientes a determinar

no caso geral, porém os comentários feitos após o exemplo a seguir serão úteis para

efeito de esclarecimento deste método.

Exemplo 3.21. Para cada EDO abaixo, encontre uma solução particular.
(a) y00 + y0 + y = cos(3t);
(b) y00 + y0 + y = 5et sen(3t);
(c) y00 + 2y0 + 2y = 2e−t cos t.

Solução.
(a) Trata-se do caso 5, com α = 0, ω = 3. Como 0 + 3i = 3i não é raiz da equação
2
característica λ + λ + 1 = 0, temos s = 0. Devemos então procurar solução da forma

y0 (t) = A cos(3t) + B sen(3t), com A, B constantes. Assim,


(−9A cos(3t)−9B sen(3t))+(−3A sen(3t)+3B cos(3t))+(A cos(3t)+B sen(3t)) = cos(3t).
Daí, obtemos o sistema de duas equações lineares e duas incógnitas

 −8A + 3B = 1
 −8B − 3A = 0

8 3
cuja solução é A=− ,B= . Assim,
73 73
8 3
y0 (t) = − cos(3t) + sen(3t)
73 73
é uma solução particular da EDO.

(b) Temos que α+iω = 1+3i não é raiz da equação característica λ2 +λ+1 = 0, logo s =
0. Assim, a EDO admite solução particular da forma y0 (t) = Aet cos(3t) + Bet sen(3t).
Um cálculo direto nos mostra que

5 t 10
y0 (t) = − e cos(3t) − et sen(3t).
13 39
(c) A equação característica λ2 +2λ+2 = 0 tem raízes −1±i. A EDO dada corresponde
ao caso 5 com α + iω = −1 + i, logo temos s = 1. Devemos, então, buscar solução

particular da forma

y0 (t) = t(Q0 (t)e−t cos t + R0 (t)e−t sen t) = Ate−t cos t + Bte−t sen t,

52
onde A e B são constantes. Fica a cargo do leitor vericar que A = 0 e B = 1, portanto
y0 (t) = te−t sen t é uma solução particular da EDO.

Comentários.
(a) Vejamos a razão de procurarmos, no item (a) do Exemplo 3.21, uma solução

particular da EDO do tipo y0 (t) = A cos(3t) + B sen(3t). Uma outra maneira de


3it
abordar este problema é a seguinte: como cos(3t) = Re(e ), vamos considerar a
00 0 3it
EDO complexa z + z + z = e . Se acharmos uma solução complexa z0 (t), então

y0 (t) = Re(z0 )(t) será solução particular (real) da EDO original. Como 3i não é raiz de
λ2 + λ + 1 = 0, há solução da forma z0 (t) = Ce3it , com C = α + iβ ∈ C. Assim, temos
z0 (t) = (α + iβ)[cos(3t) + i sen(3t)] = [α cos(3t) − β sen(3t)] + i[β cos(3t) + α sen(3t)],
Daí, obtemos a solução particular (real) y0 (t) = α cos(3t) − β sen(3t).

(b) Seguimos a mesma linha de raciocínio para o item (b) do Exemplo 3.21. Uma vez

que 5et sen(3t) = Im(5e


(1+3i)t
), consideremos a EDO complexa z 00 + z 0 + z = 5e(1+3i)t .
Depois de encontrarmos uma solução complexa z0 (t), tomaremos y0 (t) = Im(z0 )(t),

que será solução particular (real) da EDO original. Uma vez que 1 + 3i não é raiz
2 (1+3i)t
de λ + λ + 1 = 0, existe solução da forma z0 (t) = Ce , onde C = α + iβ ∈ C.
t t t
Como z0 (t) = (α + iβ) e [cos(3t) + i sen(3t)] = e [α cos(3t) − β sen(3t)] + ie [β cos(3t) +

α sen(3t)], temos y0 (t) = Im(z0 ) = et [β cos(3t)+α sen(3t)]. Assim, encontramos solução


t t
da forma y0 (t) = Ae cos(3t) + Be sen(3t).

(c) Temos 2e−t cos t = Re(2e(−1+i)t ); consideramos a EDO complexa z 00 + 2z 0 + 2z =


2e(−1+i)t . Como −1 + i é raiz da equação característica λ2 + 2λ + 2 = 0, temos s = 1 e
(−1+i)t
há solução da EDO complexa da forma z0 (t) = Cte , com C ∈ C. Considerando
−t
a parte real de z(t), obtemos solução da forma y0 (t) = Ate cos t + Bte−t sen t, para
certos coecientes reais A, B .

Exemplo 3.22. Para cada EDO abaixo, encontre a forma de uma solução particular

em termos de certas constantes A, B, . . . (sem calculá-las).

(a) y + y + y = (t + 1)e
00 0 2 −2t
sen (5t);

(b) y00 + y = (t2 + 1) cos t.

Solução.
(a) Note que −2 + 5i não é raiz da equação característica λ2 + λ + 1 = 0 , logo a

multiplicidade é s = 0. Há solução particular da forma

y0 (t) = Q2 (t)e−2t cos (5t) + R2 (t)e−2t sen (5t),

isto é,

y0 (t) = (At2 + Bt + C)e−2t cos (5t) + (Dt2 + Et + F )e−2t sen (5t),


para certas constantes A, B, C, D, E, F.
(b) Note que 0 + 1i = i é raiz simples da equação característica λ2 + 1 = 0 , logo a

53
multiplicidade é s = 1. Há solução particular da forma

y0 (t) = t[Q2 (t) cos t + R2 (t) sen t],

isto é,

y0 (t) = t[(At2 + Bt + C)cos t + (Dt2 + Et + F )sen t],


ou

y0 (t) = (At3 + Bt2 + Ct)cos t + (Dt3 + Et2 + F t)sen t,


para certas constantes A, B, C, D, E, F.

Podemos sumarizar o método dos coecientes a determinar no resultado a seguir.

Teorema 3.4. Considere a EDO


ay 00 + by 0 + cy = f (t),

onde a, b, c são constantes (a 6= 0) e o lado direito é da forma

f (t) = Pn (t)eαt cos(ωt) + Pen (t)eαt sen(ωt).

Então há solução particular da forma

y0 (t) = ts Qn (t)eαt cos(ωt) + ts Rn (t)eαt sen(ωt),

onde s é a multiplicidade de α + iω como raiz da equação característica.

Claramente, no enunciado acima Pn , Pen , Qn , Rn denotam polinômios de grau n e


α, ω são constantes (reais). Note também que, se ω = 0, a multiplicidade s de α pode
assumir os valores 0, 1 ou 2. Por outro lado, se ω 6= 0, há duas possibilidades para a

multiplicidade s de α + iω , a saber 0 e 1.

Suponha agora que a EDO

ay 00 + by 0 + cy = f (t)

é tal que f (t) se escreve na forma

f (t) = f1 (t) + . . . + fn (t),

onde cada uma das funções fi (t) é do tipo que ocorre no enunciado do teorema 3.4. Para
obter uma solução particular y0 (t) da EDO, utilizamos o princípio da superposição:

para i = 1, . . . , n, calculamos uma solução particular yi (t) de

ay 00 + by 0 + cy = fi (t)

(pelo método dos coecientes a determinar) e pomos

y0 (t) = y1 (t) + . . . + yn (t).

54
Exemplo 3.23. Encontre uma solução particular de y 00 + y 0 + y = sen2 t

Solução. Note que f (t) = sen


2
t não está no formato descrito no método dos coeci-

entes a determinar. Porém, podemos reescrever a EDO da seguinte forma:

1 − cos(2t) 1 1
y 00 + y 0 + y = = − cos(2t).
2 2 2
Usando o princípio da superposição, procuramos uma solução da forma

y0 (t) = A + B cos(2t) + C sen(2t).


1 3 1
Fazendo os cálculos, obteremos y0 (t) = + cos(2t) − sen(2t).
2 26 13

Exemplo 3.24. Encontre a solução geral da EDO y 00 + y = t(1 + sen t).

Solução. Temos f (t) = t(1+ sen t) = t+t sen t. Se y1 (t), y2 (t) são soluções particulares
00
de y +y = t e y 00 + y = t sen t respectivamente, teremos que y0 (t) = y1 (t) + y2 (t) é
solução particular da EDO do enunciado.

Obteremos y1 (t) e y2 (t) pelo método dos coecientes a determinar. Procuramos


y1 (t) sob a forma y1 (t) = A0 + A1 t e encontramos y1 (t) = t. Para determinarmos y2 (t),
2
observamos que 0 + 1i = i é raiz (simples) da equação característica λ + 1 = 0 e assim

a multiplicidade é s = 1. Devemos portanto determinar y2 (t) sob a forma

y2 (t) = t[(At + B) cos t + (Ct + D) sen t] = (At2 + Bt) cos t + (Ct2 + Dt) sen t.

Fica a cargo do leitor vericar que, ao substituirmos y2 (t) na EDO y 00 + y = t sen t,


encontramos A = −1/4, B = 0, C = 0, D = 1/4, e assim

1 1
y2 (t) = − t2 cos t + t sen t.
4 4
Logo, obtemos uma solução particular y0 = y1 + y2 de y 00 + y = t + t sen t por

1 1
y0 (t) = t − t2 cos t + t sen t.
4 4
Finalmente, note que a solução geral da equação linear homogênea associada y 00 +y = 0
é

z(t) = c1 cos t + c2 sen t,


e assim a solução geral da EDO linear não-homogênea y 00 + y = t + t sen t é

1 1
y(t) = t − t2 cos t + t sen t + c1 cos t + c2 sen t.
4 4

55
3.3.6 Aplicações

3.3.6.1 O pêndulo

Considere um pêndulo de comprimento L, que tem em sua extremidade uma massa m


(veja a Figura 3.2). Seja θ(t) a inclinação do o com a vertical. A relação entre o arco

Figura 3.2: Pêndulo simples

s e o ângulo θ é

s(t) = Lθ(t).
Assim, a velocidade (linear) da esfera é

v(t) = s0 (t) = Lθ0 (t).


Note que a fórmula acima nos fornece a relação entre as velocidades linear e angular

da massa.

Pêndulo simples

Suponha que não há forças de amortecimento nem forças externas atuando sobre a

massa. Assim, há duas forças agindo sobre a massa: a força de tensão T, que está

na direção do o, e a força gravitacional, com intensidade mg , onde g é a aceleração

da gravidade. Considerando a componente na direção tangente à trajetória circular,

obtemos pela segunda lei de Newton:

dv
m = −mg sen θ,
dt
a
. Usando a relação v = Lθ0 , obtemos a seguinte EDO não-linear de 2 ordem para θ:
g
θ00 +
sen θ = 0.
L
Para pequenas oscilações do pêndulo (sen θ ≈ θ ), obtemos a EDO linear para o pêndulo

simples:
g
θ00 + θ=0 .
L

56
Pêndulo amortecido

Levando em conta a força de resistência do ar (que supomos proporcional à velocidade

e oposta ao movimento) agindo sobre a massa, mas não há forças externas atuando

sobre o sistema, obtemos

dv
m = −γv − mg sen θ (γ > 0),
dt
isto é,
γ 0 g
θ00 + θ + sen θ = 0.
m L
Quando os deslocamentos são pequenos (sen θ ≈ θ ), obtemos a EDO linear para o

pêndulo amortecido
γ 0 g
θ00 + θ + θ=0 .
m L

Pêndulo amortecido e forçado

Da mesma forma, se há força externa F(t) agindo sobre a massa, na direção tangencial
ao movimento, obtemos uma equação do tipo

γ 0 g
θ00 + θ + θ = f (t) .
m L

3.3.6.2 Sistema massa-mola

Considere uma massa m presa na extremidade direita de uma mola cuja extremidade

esquerda está xa (INSERIR FIGURA).

Para este sistema, faremos uso da lei de Hooke que nos diz que a mola exerce

uma força restauradora oposta à direção do alongamento e proporcional à distensão da

mola. Supomos também que não há atrito entre a massa e a superfície sobre a qual

ela desliza.

Movimento harmônico simples


Supomos inicialmente que a resistência do ar seja desprezível e que a massa vibre

sem a ação de forças externas. Seja x = x(t) a deslocamento da massa, no instante t,


com respeito à posição de equilíbrio x = 0. Usando a lei de Hooke, obtemos

d2 x
m = −kx.
dt2

57
Aqui, k > 0 é a uma constante, que chamamos constante da mola. Assim, temos a
a
EDO linear de 2 ordem

x00 + ω02 x = 0 , (3.13)

onde ω02 = k/m. A equação (3.13) descreve um movimento harmônico simples,


ou MHS .

Movimento harmônico amortecido


Consideramos agora a força de resistência do ar (força de amortecimento) que atua

sobre o corpo de massa m. Pela segunda lei de Newton, temos

mx00 = −kx − γx0 ,

onde γ >0 é a constante de amortecimento e k >0 é a constante da mola. Temos,


a
portanto, a seguinte EDO linear de 2 ordem:

γ 0 k
x00 + x + x=0 .
m m

Movimento harmônico amortecido e forçado


Por m, consideremos que há também uma força externa F (t) agindo sobre a massa,
na direção horizontal. Obtemos agora a equação

mx00 = −kx − γx0 + F (t),

ou seja, uma equação da forma

γ 0 k
x00 + x + x = f (t) ,
m m

onde m > 0, k > 0, γ ≥ 0 são constantes. No caso γ = 0, temos um movimento

harmônico (não-amortecido) forçado.

3.3.6.3 Circuito RLC

Considere um circuito elétrico em série RLC (ver Figura 3.3), o qual contém uma fonte

de tensão V (t), um capacitor com capacitância C, um indutor com indutância L e um

resistor com resistência R. Sejam I(t) a intensidade da corrente que percorre o circuito
e Q(t) a carga no capacitor no instante t.

A segunda lei de Kirchho nos diz que a tensão aplicada V (t) em um circuito

fechado é igual à soma das quedas de tensão no circuito, isto é,

VL + VR + VC = V (t),

58
Figura 3.3: Circuito RLC em série

onde VL = LI 0 (t) é a queda de tensão através do indutor, VR = RI é a queda de tensão


através do resistor e VC = Q/C é a queda de tensão através do capacitor. Logo,

Q
LI 0 + RI + = V (t).
C
Derivando a equação acima obtemos, uma vez que a intensidade de corrente I e a carga
0
Q estão relacionadas por Q (t) = I(t), a equação

R 0 1
I 00 + I + I = f (t) ,
L LC

1 0
onde f (t) = V (t).
L

3.3.6.4 Uma abordagem unicada

Observe que todas as equações nas aplicações consideradas acima são do tipo

y 00 + ay 0 + ω02 y = f (t),

onde a ≥ 0, ω0 > 0 são constantes e f (t) corresponde a uma força externa.

Caso 1: a = 0, f (t) = 0 (oscilador harmônico simples).


Neste caso, a EDO torna-se

y 00 + ω02 y = 0,
cujas soluções são

y(t) = A cos(ω0 t) + B sen(ω0 t), A, B ∈ R.

Estas soluções descrevem um MHS com frequência angular ω0 , a qual é independente


da solução; ω0 é chamada frequência natural do sistema. O período das oscilações é

59

portanto T = . Note que temos os seguintes casos particulares:
ω0
r
g
pêndulo: ω0 = ,
L
r
k
sistema massa-mola: ω0 = ,
m
1
circuito RLC: ω0 = √ .
LC

É conveniente reescrever as soluções y(t) = A cos(ω0 t) + B sen(ω0 t) sob a forma

y(t) = R cos(ω0 t − δ),

onde R é a amplitude δ é chamado ângulo de fase ; veja a gura 3.4.


da vibração e

Desta forma, temos que A = R cos δ , B = R sen δ , ou seja R = A2 + B 2 e tg δ = B/A.

Figura 3.4: MHS

Caso 2: a > 0, f (t) = 0 (oscilador harmônico amortecido, não-forçado).


Neste caso, temos a equação

y 00 + ay 0 + ω02 y = 0,

onde a > 0. A equação característica associada a esta EDO é λ2 + aλ + ω02 = 0, cujas

soluções são

−a ± ∆
λ= (∆ = a2 − 4ω02 ).
2

ˆ Se ∆ > 0, isto é, a > 2ω0 (super-amortecimento), então λ1 e λ2 são raízes reais

negativas distintas e as soluções são dadas por

y(t) = Aeλ1 t + Beλ2 t , A, B ∈ R.

ˆ Se ∆ = 0, isto é, a = 2ω0 (amortecimento crítico), então λ1 = λ2 = −a/2 = −ω0


e

y(t) = (A + Bt)e−ω0 t , A, B ∈ R.

60

a i −∆
ˆ Se ∆ < 0, isto é, a < 2ω0 (pequeno amortecimento), então λ1 , λ2 = − ±
2 2
e √  √ 
a −∆ a −∆
y(t) = Ae− 2 t cos t + Be− 2 t sen t , A, B ∈ R.
2 2

Observemos que, em todos os casos acima, temos lim y(t) = 0.


t→∞

No último caso (∆ < 0), podemos escrever

a
y(t) = R e− 2 t cos(µt − δ),

−∆ √
onde µ = , R = A2 + B 2 e tg δ = B/A. Veja o gráco na gura 3.5. A
2
constante µ é chamada de quasi-frequência e T = 2π/µ é o quasi-período das oscilações.

Neste caso, o sistema executa oscilações de amplitude decrescente em torno da posição

de equilíbrio, se aproximando desta posição. Por exemplo, um pêndulo com pequeno

amortecimento é tal que a massa oscila em torno do ponto mais baixo, se aproximando

deste ponto à medida que o tempo aumenta.

Figura 3.5: Amortecimento, caso ∆<0

Considere o caso ∆>0 (super-amortecimento); temos y(t) = Aeλ1 t + Beλ2 t , com

λ1 , λ2 < 0. Examinemos a condição y(t) = 0. Isto é equivalente a

e(λ2 −λ1 )t = −A/B.

Assim, se A e B tiverem o mesmo sinal, não existirá instante t y(t) = 0. Se A


tal que

e B tiverem sinais opostos, haverá um único instante t tal que y(t) = 0. Além disso,

temos lim y(t) = 0. Veja a gura 3.6 abaixo, que mostra possíveis grácos para y(t).
t→∞
Isto signica que o sistema não executa oscilações, passando pela posição de equilíbrio

y=0 no máximo uma vez. Por exemplo, para um pêndulo super-amortecido, há duas

possibilidades: a massa se aproxima da posição de equilíbrio sem passar por ela, ou

passa uma vez por esta posição e retorna, para então tender à posição de equilíbrio.

No caso do amortecimento crítico (∆ = 0), o comportamento é similar.

61
Figura 3.6: Super-amortecimento

Caso 3: a 6= 0 e força externa senoidal (um oscilador amortecido forçado).


A seguir, consideraremos que a força externa é dada por f (t) = F0 cos(ωt), onde F0
e ω são constantes.

Neste caso, temos a EDO

y 00 + ay 0 + ω02 y = F0 cos(ωt). (3.14)

Procuramos, então, solução particular da forma

y0 (t) = A cos(ωt) + B sen(ωt).

Isto é possível, porque iω não é raiz da equação característica λ2 + aλ + ω02 = 0. Assim,

a solução geral da EDO (3.14) é da forma

y(t) = y0 (t) + yH (t),

onde yH (t) é a solução geral da equação homogênea associada à equação (3.14). Como

vimos antes,

lim yH (t) = 0.
t→∞

A função yH (t) é chamada de parte transiente da solução. Por outro lado, y0 (t) é

chamada de estado estacionário do sistema. Assim,

lim y(t) = y0 (t),


t→∞

isto é, quaisquer que sejam as condições iniciais, a solução se aproxima do estado

estacionário, que representa um MHS com frequência ω (a frequência da força externa).


Veja a gura 3.7.

Caso 4: a = 0 (oscilador harmônico não-amortecido, forçado) com força externa

senoidal cuja frequência ω é diferente da frequência natural ω0 do sistema.

62
Figura 3.7: Sistema amortecido com força externa senoidal

Consideramos aqui a EDO

y 00 + ω02 y = F0 cos(ωt).

A solução geral da EDO homogênea associada é

yH (t) = C1 cos(ω0 t) + C2 sen(ω0 t),

com C1 , C2 ∈ R. Se ω 6= ω0 , procuramos solução particular da forma

y0 (t) = A cos(ωt) + B sen(ωt),

onde A e B são coecientes a determinar. Substituindo y0 (t) na equação, obtemos

−ω 2 (A cos(ωt) + B sen(ωt)) + ω02 (A cos(ωt) + B sen(ωt)) = F0 cos(ωt),


A(ω02 − ω 2 ) cos(ωt) + B(ω02 − ω 2 ) sen(ωt) = F0 cos(ωt).

Concluímos que A(ω02 − ω 2 ) = F0 e B(ω02 − ω 2 ) = 0, ou seja,

F0
A= e B = 0, uma vez que ω 6= ω0 .
ω02 − ω2

Logo,
F0
y0 (t) = cos(ωt),
ω02 − ω2
e, portanto,
F0
y(t) = cos(ωt) + C1 cos(ω0 t) + C2 sen(ω0 t) .
ω02 − ω2
Assim, cada solução é obtida por superposição de dois movimentos harmônicos simples

de frequências diferentes, de tal modo que um deles (com frequência ω) independe da

solução e o outro (com frequência ω0 ) depende das condições iniciais.

Caso 5: a = 0 (oscilador harmônico não-amortecido, forçado) com força externa

senoidal cuja frequência ω é igual à frequência natural ω0 do sistema.

63
Se ω = ω0 , há solução particular da EDO

y 00 + ω02 y = F0 cos(ω0 t)

da forma

y0 (t) = t[A cos(ω0 t) + B sen(ω0 t)].


Daí,

y00 (t) = t[−Aω0 sen(ω0 t) + Bω0 cos(ω0 t)] + A cos(ω0 t) + B sen(ω0 t),
y000 (t) = t[−Aω02 cos(ω0 t) − Bω02 sen(ω0 t)] − 2Aω0 sen(ω0 t) + 2Bω0 cos(ω0 t).

Substituindo y0 e y000 na EDO, obtemos

2ω0 B cos(ω0 t) − 2ω0 A sen(ω0 t) = F0 cos(ω0 t).

Concluímos, então, que 2ω0 B = F0 e −2ω0 A = 0,. Logo,

F0
B= e A=0
2ω0
e assim
F0
y0 (t) = t sen(ω0 t)
2ω0
, portanto, as soluções são dadas por

F0
y(t) = t sen(ω0 t) + C1 cos(ω0 t) + C2 sen(ω0 t) .
2ω0

Note que as soluções são ilimitadas. Veja o gráco de y0 (t) na gura 3.8.

Figura 3.8: Ressonância

À medida em que o tempo passa, o sistema vibra com amplitudes cada vez mai-

ores (isto ocorre mesmo que a intensidade da força externa aplicada seja pequena!).

Este fenômeno é conhecido como ressonância. Assim, ressonância ocorre quando a

frequência da força externa coincide com a frequência natural do sistema.

64
3.3.7 Método da variação dos parâmetros
Considere a EDO linear não-homogênea

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = f (t), (3.15)

onde p(t), q(t) e f (t) são funções contínuas denidas em um intervalo I. Suponha

que saibamos calcular um conjunto fundamental de soluções {y1 , y2 } da EDO linear

homogênea associada

y 00 + p(t)y 0 + q(t)y = 0, (3.16)

Assim, a solução geral de (3.16) é

y(t) = c1 y1 (t) + c2 y2 (t),

onde c1 e c2 são constantes.

Ideia: Expressar as soluções de EDO (3.15) sob a forma

y(t) = u(t)y1 (t) + v(t)y2 (t),

onde u(t) e v(t) são funções a determinar, satisfazendo a condição

u0 (t)y1 (t) + v 0 (t)y2 (t) = 0. (3.17)

Neste caso, temos

y = uy1 + vy2 ,
y 0 = u0 y1 + uy10 + v 0 y2 + vy20 = uy10 + vy20 ,
y 00 = u0 y10 + uy100 + v 0 y20 + vy200 .

Assim,

y 00 + py 0 + qy = u(y100 + py10 + qy1 ) + v(y200 + py20 + qy2 ) + u0 y10 + v 0 y20


= u0 y10 + v 0 y20 ,

uma vez que y1 e y2 são soluções da equação (3.16). Logo, uma função

y(t) = u(t)y1 (t) + v(t)y2 (t) (3.18)

satisfazendo a condição (3.17) é solução da EDO (3.15) se, e somente se,

u0 (t)y10 (t) + v 0 (t)y20 (t) = f (t).

Portanto, u0 e v0 devem satisfazer o sistema



 u0 (t)y (t) + v 0 (t)y (t) = 0,
1 2
 u0 (t)y 0 (t) + v 0 (t)y 0 (t) = f (t).
1 2

65
Usando matrizes, podemos reescrever o sistema como

   
u0 (t) 0
MW  = , (3.19)
0
v (t) f (t)

onde  
y1 (t) y2 (t)
MW =  
y10 (t) y20 (t)
é a matriz Wronskiana de {y1 , y2 }.
Uma vez que o conjunto {y1 , y2 } é LI, o Wronskiano W [y1 , y2 ](t) = det MW é não-
nulo para todo t ∈ I, logo a matriz MW é inversível para todo t ∈ I . Lembremos que

a inversa de uma matriz  


a b
A= 
c d
com det A = ad − bc 6= 0 é dada por

 
1 d −b
A−1 =  .
ad − bc −c a

Assim, a solução de (3.19) é dada por

      
u0 (t) 1  y20 (t) −y2 (t) 0 1  −y2 (t)f (t)
 =  = ,
0
v (t) W (t) −y 0 (t) y1 (t) f (t) W (t) y1 (t)f (t)
1

ou seja,
f (t)y2 (t) f (t)y1 (t)
u0 (t) = − , v 0 (t) = .
W (t) W (t)
Integrando, obtemos u(t), v(t) e escrevemos a solução geral sob a forma (3.18). Note

que, se xamos as constantes de integração para u(t) e v(t), então y(t) = u(t)y1 (t) +
v(t)y2 (t) é uma solução particular para (3.15) e a solução geral é dada por

y(t) = u(t)y1 (t) + v(t)y2 + c1 y1 (t) + c2 y2 (t) ,

onde c1 e c2 são constantes arbitrárias.

et
Exemplo 3.25. Determine a solução geral da EDO y 00 − 2y 0 + y = .
t2 + 1

Solução. Considere a EDO linear homogênea associada:

y 00 − 2y 0 + y = 0. (3.20)

66
Uma vez que λ = 1 é raiz dupla da equação característica λ2 − 2λ + 1 = 0, concluímos
t t
que {y1 (t), y2 (t)} = {e , te } é um conjunto fundamental de soluções para (3.20). Neste

caso, a matriz Wronskiana é dada por

   
t t
y1 (t) y2 (t) e te
MW =  = 
y10 (t) y20 (t) et t
e + te t

e o Wronskiano é

W (t) = det MW = e2t .


A solução de  
 
0 0 
u (t)
MW  =
 et 
v 0 (t)
t2 + 1
é dada por

 −t
    

u0 (t) et + tet −tet  0   2
= 1  t +1 
et  =  1  .
 
v 0 (t) e2t −et et
t2 + 1 t2 + 1
Integrando, obtemos

−t
Z
1
u(t) = dt = − ln(t2 + 1) + c1 ,
t2 +1 2
Z
1
v(t) = dt = arctg(t) + c2 .
t2 +1
00 et 0
Assim, a solução geral de y − 2y + y = 2 é dada por
t +1
1
y(t) = (− ln(t2 + 1) + c1 ) et + (arctg(t) + c2 ) tet ,
2
ou seja
1
y(t) = − et ln(t2 + 1) + tet arctg(t) + c1 et + c2 tet ,
2
onde c1 e c2 são constantes.

67
Capítulo 4

Transformada de Laplace

4.1 Resumo sobre integrais impróprias


Seja g(t) uma função denida em um intervalo I ⊆ R. Dizemos que g(t) é secci-
onalmente contínua se em todo intervalo fechado [a, b] ⊂ I , g(t) é contínua, exceto

possivelmente em um número nito de descontinuidades de primeira espécie. Lembra-

mos que t0 é um ponto de descontinuidade de primeira espécie se os limites laterais de

g(t) em t0 existem.

Figura 4.1: Uma função seccionalmente contínua

Z A
Se g : [a, ∞) → R é seccionalmente contínua, a integral g(t)dt está bem denida
a
para todo número real A > a. Denimos

Z ∞ Z A
g(t)dt = lim g(t)dt.
a A→∞ a
Z ∞
Caso este limite exista, dizemos que a integral imprópria g(t)dt é convergente.
a
Caso contrário, dizemos que a integral imprópria é divergente .

68
Z ∞
1
Exemplo 4.1. A integral imprópria dt é convergente. Temos
1 t2
Z ∞ Z A  
1 1 1
dt = lim dt = lim 1 − = 1.
1 t2 A→∞ 1 t2 A→∞ A
Z ∞
1
Por outro lado, a integral imprópria dt é divergente. Com efeito,
1 t
Z ∞ Z A
1 1
dt = lim dt = lim ln A = ∞.
1 t A→∞ 1 t A→∞

Propriedades.
1. Teste da comparação. Se f (t)g(t)Z são funções seccionalmenteZ contínuas tais que
e
∞ ∞
0 ≤ f (t) ≤ g(t) para todo t ≥ a e g(t)dt converge, então f (t)dt também
a a
converge.
Z ∞
2. Se g(t) é uma função seccionalmente contínua tal que |g(t)|dt converge, então
a
Z ∞ Z ∞
g(t)dt também converge. Neste caso, dizemos que g(t)dt converge absoluta-
a a
mente.
As demonstrações serão omitidas, mas note que há resultados análogos para séries

numéricas, os quais o leitor deve ter estudado anteriormente.

4.2 Denição da transformada de Laplace


Denição 4.1. Seja f (t) uma função seccionalmente contínua denida para t ≥ 0. A

transformada de Laplace de f (t) é a função L{f (t)}(s) = F (s) dada por


Z ∞
F (s) = e−st f (t)dt
0

(denida para os valores de s para os quais a integral imprópria à direita é convergente).

Veremos em breve que, impondo certas condições à função de entrada f (t) denida
em [0, ∞), L transforma f (t) em uma função F (s) denida em um domínio da forma
(a, ∞):

f (t) → L → F (s).

Exemplo 4.2. Calcule a transformada de Laplace das seguintes funções, denidas

para t ≥ 0:
(a) f (t) = 1;

69
(b) f (t) = eαt , onde α é uma constante;
(c) f (t) = sen t;
(d) f (t) = et .
2

Solução.
(a) Temos Z ∞ Z A
−st
L{1}(s) = e dt = lim e−st dt.
0 A→∞ 0

Se s ≤ 0, a integral imprópria à direita diverge pois, neste caso e−st ≥ 1. Se s > 0,


então
A
e−st t=A 1 e−sA
Z
−st
e dt = = − ,
−s t=0 s s

0
logo
Z A
1
lim e−st dt = .
A→∞ 0 s
Assim,
1
L{1}(s) = , s > 0.
s
(b) Temos, para s > α,
∞ A
e(α−s)t t=A
Z Z
αt −st αt (α−s)t
L{e }(s) = e e dt = lim e dt = lim
A→∞ α − s t=0

0 A→∞ 0
 (α−s)A 
e 1 1 1
= lim − =0− = .
A→∞ α−s α−s α−s s−α

Se s ≤ α, a integral imprópria acima diverge. Logo,

1
L{eαt }(s) = , s > α.
s−α

(c) Precisamos calcular


Z ∞
L{sen t}(s) = e−st sen t dt.
0

O leitor deve vericar que, integrando por partes duas vezes, obtemos

Z A
1
e−st sen t dt = (1 − e−sA cos A − se−sA sen A),
0 s2 +1
logo
Z A
1
lim e−st sen t dt = , se s > 0.
A→∞ 0 s2 +1
Portanto,
1
L{sen t}(s) = , s > 0.
s2 +1

70
(d) A integral Z ∞ Z ∞
−st t2 2 −st
e e dt = et dt
0 0
2 −st
é divergente, qualquer que seja s ∈ R. Isto segue do fato que. para t ≥ s, et ≥ 1.
t2
Logo, a transformada de Laplace de f (t) = e não está denida.

Investigaremos, a seguir, uma classe importante de funções para as quais a trans-

formada de Laplace está denida.

Denição 4.2. Uma função f : [0, ∞) → R é dita de de ordem exponencial se existem


constantes K, a tais que |f (t)| ≤ Keat para todo t ≥ 0.

Denição 4.3. Dizemos que uma função f : [0, ∞) → R é admissível se f é seccional-

mente contínua e de ordem exponencial.

Note que, se f (t) é uma função seccionalmente contínua denida para t ≥ 0, então
f (t) é admissível se e somente se vale uma desigualdade do tipo |f (t)| ≤ M eat para
todo t sucientemente grande (ondeM , a são constantes). De fato, suponha que esta
desigualdade vale para t ≥ t0 ; para t ∈ [0, t0 ] temos que f (t) é limitada, isto é, existe

N tal que |f (t)| ≤ N para todo t ∈ [0, t0 ]. Assim, se K é o maior dos números M e N ,
at
temos |f (t)| ≤ Ke para todo t ≥ 0.

Exemplo 4.3. Nos exemplos abaixo, considere como domínio das funções o intervalo

[0, ∞).

1. Toda função seccionalmente contínua e limitada f : [0, ∞) → R é admissível. De

fato, podemos tomar a = 0 na denição 4.2. Em particular, as funções cos(αt) e sen(αt)


são admissíveis.

2. A função f (t) = eat claramente é admissível.

3. A função
n
f (t) = tn (onde n é uma constante) é admissível. Isto segue do fato que
t
lim = 0; aqui, podemos tomar qualquer a > 0. Em particular, para t suciente-
t→∞ eat
n at
mente grande, t ≤e .

4.
2
A função f (t) = et não é de ordem exponencial. De fato,

2
lim e−at et = lim et(t−a) = ∞, para qualquer a ∈ R,
t→∞ t→∞

2
logo não existe constante K tal que e−at et ≤ K .

Proposição 4.1. Se f (t) é uma função admissível denida para t ≥ 0, então existe a
tal que L{f (t)}(s) está denida para s > a.

71
Demonstração. Por hipótese, existem constantes K, a tais que

|f (t)| ≤ Keat para todo t ≥ 0.

Logo,
Z ∞ Z ∞ Z ∞
−st −st K
|e f (t)|dt = e |f (t)|dt ≤ K e(a−s)t dt = , quando s > a.
0 0 0 s−a
Z ∞
Uma vez que a integral e−st f (t)dt converge absolutamente, segue que L{f (t)}(s)
0
está denida para s > a. 
Exemplo 4.4. Se uma função seccionalmente contínua f : [0, ∞) → R é limitada, isto
é,|f (t)| ≤ M para alguma constante M e para todo t ≥ 0, então L{f (t)}(s) está
denida para s > 0.

Proposição 4.2. Seja f (t) uma função admissível. Se F (s) = L{f (t)}, então s→∞
lim F (s) =
0.

Demonstração. Se |f (t)| ≤ Keat para todo t ≥ 0 então, para s > a, temos


Z ∞ Z ∞
−st
|e−st f (t)|dt.

|F (s)| = e f (t)dt ≤
0 0

Assim, de acordo com a demonstração da proposição 4.1,

K
|F (s)| ≤ .
s−a
K
Como lim = 0, obtemos o resultado desejado. 
s→∞ s − a

4.3 Propriedades e exemplos


Proposição 4.3 (Linearidade da transformada de Laplace) . Sejam f1 e f2 funções
admissíveis tais que
|f1 (t)| ≤ K1 ea1 t e |f2 (t)| ≤ K2 ea2 t , ∀ t ≥ 0.

Se c1 e c2 são constantes, então f = c1 f1 + c2 f2 é admissível e


L{f (t)}(s) = c1 L{f1 (t)}(s) + c2 L{f2 (t)}(s), para s > máx{a1 , a2 }.

Demonstração. Temos que L{f1 (t)}(s) está denida para s > a1 e que L{f2 (t)}(s)
está denida para s > a2 . Temos
Z ∞ Z ∞
−st
L{f (t)}(s) = e e−st (c1 f1 (t) + c2 f2 (t))dt
f (t)dt =
0 0
Z ∞ Z ∞
−st
= c1 e f1 (t)dt + c2 e−st f2 (t)dt = c1 L{f1 (t)}(s) + c2 L{f2 (t)}(s),
0 0

72
se s > a1 e s > a2 . Logo,

L{f (t)}(s) = c1 L{f1 (t)}(s) + c2 L{f2 (t)}(s),

desde que tenhamos s > máx{a1 , a2 }. 

Exemplo 4.5. Calcule a transformada de Laplace da função f (t) = 3 + 7e2t .


Solução. Usando a linearidade de L, temos

3 7
L{3 + 7e2t }(s) = 3L{1}(s) + 7L{e2t }(s) = + , se s > 2.
s s−2
Exemplo 4.6. Calcule L{cosh(αt)}.
eαt + e−αt
Solução. Como cosh(αt) = , temos
2
 
1 1 1 1 1 s
L{cosh(αt)} = L{eαt } + L{e−αt } = + = ,
2 2 2 s−α s+α s2 − α2

para s > |α|.

Podemos denir a transformada de Laplace de uma função complexa f : [0, ∞) → C.


Se f (t) = f1 (t)+if2 (t), onde f1 (t), f2 (t) são funções reais denidas para t ≥ 0, denimos

L{f (t)} = L{f1 (t)} + iL{f2 (t)}.

Se α ∈ C, a fórmula do exemplo 4.2

1
L{eαt } =
s−α
continua válida (para s > Re(α)); deixamos a vericação a cargo do leitor, adaptando

a demonstração ali apresentada. Em particular, pondo α = iω , temos

1 s ω
L{eiωt } = = 2 2
+i 2 para s>0
s − iω s +ω s + ω2
Por outro lado, temos

L{eiωt } = L{cos(ωt)} + iL{sen(ωt)}.

Assim, para s > 0,


s
L{cos(ωt)} = ,
+ ω2 s2
ω
L{sen(ωt)} = 2 .
s + ω2

73
Proposição 4.4 (Transformada da derivada) . Seja f (t) uma função admissível dife-
renciável. Se f (t) é contínua e |f (t)| ≤ Ke , ∀ t ≥ 0, então
0 at

L{f 0 (t)}(s) = sL{f (t)}(s) − f (0), para s > a.

Demonstração. Devemos calcular

Z ∞ Z A
0 −st 0
L{f (t)}(s) = e f (t)dt = lim e−st f 0 (t)dt.
0 A→∞ 0

Integrando por partes, obtemos

Z A t=A Z A
−st 0 −st
e f (t)dt = e se−st f (t)dt
f (t) +

0 0 t=0
Z A
−sA
= e f (A) − f (0) + s e−st f (t)dt. (4.1)
0

Temos
A→∞
|e−sA f (A)| ≤ Ke−sA eaA = Ke(a−s)A −→ 0, se s > a,
logo

lim e−sA f (A) = 0.


A→∞

Fazendo A→∞ em (4.1), obtemos

L{f 0 (t)}(s) = sL{f (t)}(s) − f (0), se s > a.


De fato, se f : [0, ∞) → R é uma função contínua admissível tal que f 0 (t) é
0
seccionalmente contínua, então a fórmula L{f (t)}(s) = sL{f (t)}(s) − f (0) continua

válida. Omitiremos a demonstração.

Teorema 4.1 (Transformada da segunda derivada). Sejam f, f 0 : [0, ∞) → R funções


contínuas admissíveis. Se f 00 é seccionalmente contínua, então

L{f 00 (t)} = s2 L{f (t)} − sf (0) − f 0 (0).

Demonstração. Temos

L{f 00 (t)} = sL{f 0 (t)} − f 0 (0)


= s sL{f (t)} − f (0) − f 0 (0)


= s2 L{f (t)} − sf (0) − f 0 (0).

74
Exemplo 4.7. Seja f (t) = tn , para t ≥ 0. Como f (0) = 0 e f 0 (t) = ntn−1 , segue que

L{ntn−1 } = sL{tn },

isto é,
n
L{tn } = L{tn−1 }.
s
Desta forma,

1 1
L{t} = L{1} = 2 ,
s s
2 2
L{t2 } = L{t} = 3 ,
s s
3 3·2
L{t3 } = L{t2 } = 4 ,
s s

e em geral, se n ∈ N,
n!
L{tn } = (s > 0).
sn+1
Teorema 4.2. Se f (t) (denida para t ≥ 0) é uma função contínua admissível e
L{f (t)}(s) = 0 para todo s, então f ≡ 0.

Corolário 4.1. Se f1 (t), f2 (t) (denidas para t ≥ 0) são funções contínuas tais que
L{f1 (t)}(s) = L{f2 (t)}(s) para todo s, então f1 ≡ f2 .

Omitiremos a (difícil) demonstração do teorema acima.

Em suma, a transformada de Laplace L é injetiva (quando restrita às funções con-

tínuas admissíveis). Se L{f (t)} = F (s), escrevemos

f (t) = L−1 {F (s)}

e dizemos que f (t) é a transformada de Laplace inversa de F (s).

F (s) → L−1 → f (t).

Exemplo 4.8. Uma vez que L{1} = 1/s, temos L−1 {1/s} = 1. Da mesma forma,
1 1
como L{e−3t } = , temos L−1 = e−3t .
s+3 s+3

Sef, g : [0, ∞) → R são funções admissíveis, então existem F (s) = L{f (t)}(s) e

G(s) = L{g(t)}(s) e, pela linearidade de L, temos

L{af (t) + bg(t)} = aL{f (t)} + bL{g(t)} = aF (s) + bG(s),

75
onde a, b ∈ R. Portanto,

L−1 {aF (s) + bG(s)} = af (t) + bg(t) = aL−1 {F (s)} + bL−1 {G(s)}.

Referimo-nos a esta propriedade dizendo que a transformada inversa de Laplace, L−1 ,


é linear.

s3 − 2s2 + 1
 
Exemplo 4.9. Calcule L−1
.
s2 (s2 + 1)
Solução. Decompondo em frações parciais, temos

s3 − 2s2 + 1 As + B Cs + D
2 2
= + 2 ;
s (s + 1) s2 s +1

resolvendo o sistema de equações lineares para A, B, C, D, obtemos

s3 − 2s2 + 1 1 s 3
2 2
= 2+ 2 − 2 .
s (s + 1) s s +1 s +1

Logo, pela linearidade de L−1 ,


 3
s − 2s2 + 1
      
−1 −1 1 −1 s −1 1
L = L +L − 3L ,
s2 (s2 + 1) s2 s2 + 1 s2 + 1
portanto
s3 − 2s2 + 1
 
−1
L = t + cos t − 3 sen t.
s2 (s2 + 1)
Proposição 4.5 (Derivada da transformada) . Sejam f : [0, ∞) → R uma função
admissível e F (s) = L{f (t)}. Então

F 0 (s) = −L{tf (t)}.

Aplicando este resultado sucessivas vezes temos, para n ∈ N,

L{tn f (t)} = (−1)n F (n) (s),

dn F
onde F (n)
(s) = (s).
dsn

Demonstração. Temos
Z ∞ Z ∞
−st ∂  −st 
L{tf (t)} = e tf (t)dt = − e f (t) dt
0 0 ∂s
Z ∞
d
=− e−st f (t)dt = −F 0 (s).
ds 0

A justicativa da penúltima igualdade (derivação sob o sinal da integral) é técnica e

será omitida. 

76
Exemplo 4.10. Calcule L{te−t }.
1
Solução. Como L{e−t } = , temos
s+1
 0
−t 1 1
L{te } = − = .
s+1 (s + 1)2
Exemplo 4.11. Similarmente, vale a fórmula

n!
L{tn eαt } = ,
(s − α)n+1
para n ∈ N. A vericação é deixada para o leitor.

Proposição 4.6. Suponha que L{f (t)}(s) exista para s > a. Se c é uma constante
positiva, então
1
L{f (ct)}(s) = L{f (t)}(s/c), para s > ac.
c

Demonstração. Temos
Z ∞
L{f (ct)}(s) = e−st f (ct)dt.
0

Fazendo a mudança de variável v = ct, obtemos


Z ∞ Z ∞ Z ∞
−st 1 −s vc 1 s 1
e f (ct)dt = e f (v)dv = e− c v f (v)dv = L{f (t)}(s/c).
0 c 0 c 0 c


Proposição 4.7. Se F (s) = L{f (t)}(s) para s > a, então


L{ect f (t)}(s) = F (s − c), para s > a + c.

Demonstração. Basta observar que


Z ∞ Z ∞
−(s−c)t
F (s − c) = e f (t)dt = e−st ect f (t)dt = L{ect f (t)}(s).
0 0

Exemplo 4.12. Calcule L{eαt cos(ωt)}L{eαt sen(ωt)}.


e

s
Solução. Sabemos que L{cos(ωt)} = 2 = F (s). Logo, pela proposição 4.7,
s + ω2
s−α
L{eαt cos(ωt)} = F (s − α) = .
(s − α)2 + ω 2
ω
Analogamente, como L{sen(ωt)} = = G(s), temos
s2 + ω 2
ω
L{eαt sen(ωt)} = G(s − α) = .
(s − α)2 + ω 2

77
Denição 4.4. Seja c ∈ R. A função de Heaviside uc (t) (também chamada função
degrau unitário) é denida por

 0, se t<c
uc (t) = .
 1, se t≥c

Figura 4.2: Função degrau unitário

Se c ≥ 0, então a transformada de Laplace da função de Heaviside é dada por

e−cs
L{uc (t)} = , s > 0.
s
Fica a cargo do leitor vericar esta fórmula pela denição de transformada de Laplace.

Note que, para c ≥ 0, temos



 0, se 0≤t<c
uc (t)f (t − c) = .
 f (t − c), se t≥c

A função uc (t)f (t − c) representa, portanto, a translação horizontal para a direita


de uma função f (t) denida para t ≥ 0. Note que é útil pensar que estendemos f para

toda a reta, pondo f (t) = 0 para t < 0.

Figura 4.3: Translação horizontal de f

Proposição 4.8 (Transformada da translação) . Seja c ≥ 0. Se F (s) = L{f (t)},


então:
L{uc (t)f (t − c)} = e−cs F (s).

78
Demonstração. Temos
Z ∞ Z ∞
−st
L{uc (t)f (t − c)} = e uc (t)f (t − c)dt = e−st f (t − c)dt.
0 c

Fazendo a mudança de variável v = t − c, obtemos


Z ∞ Z ∞
−s(v+c)
L{uc (t)f (t − c)} = e f (v)dv = e−cs e−sv f (v)dv
0 0
Z ∞
= e−cs e−sv f (v)dv = e−cs L{f (t)}.
0


Exemplo 4.13. Encontre a transformada de Laplace de



 0, se 0 ≤ t < π/2,
f (t) =
 cos t, se t ≥ π/2.

Solução. Inicialmente, note que podemos escrever a função f (t) da seguinte forma:

f (t) = uπ/2 (t) cos t.

Procuramos uma função g(t) tal que g(t − π/2) = cos t, ou seja,

g(t) = cos(t + π/2) = −sen t.

Assim,

f (t) = uπ/2 (t)g(t − π/2),


logo
π π
L{f (t)} = e− 2 s L{g(t)} = e− 2 s L{−sen t},
ou seja
π
e− 2 s
L{f (t)} = − 2 .
s +1
(s − 1)e−2s
Exemplo 4.14. Calcule f (t) = L−1 {F (s)}, onde .F (s) =
s2 − 2s + 2
s−1
Solução. Temos F (s) = e−2s G(s), onde G(s) = 2 . Se g(t) = L−1 {G(s)},
s − 2s + 2
temos (pela proposição 4.8) f (t) = u2 (t)g(t − 2). Por outro lado,

s−1
G(s) = = L{et cos t},
(s − 1)2 + 1

logo g(t) = et cos t e assim f (t) = u2 (t)et−2 cos(t − 2), isto é,



 0, se 0 ≤ t < 2,
f (t) =
 et−2 cos(t − 2), se t ≥ 2.

79
4.4 Aplicação à resolução de PVIs (parte 1)
Nesta seção, aplicaremos a transformada de Laplace para resolver PVIs para EDOs do

tipo ay 00 + by 0 + cy = f (t), onde a 6= 0, b, c são constantes. O método é particularmente

útil quando f (t) é uma função descontínua.

A ideia é calcular a transformada de Laplace de ambos os lados da EDO para obter

Y (s) = L{y(t)} e então calcular y(t) como a transformada de Laplace inversa de Y (s).

Exemplo 4.15. Use a transformada de Laplace para resolver o PVI



 y 00 − y = 1,
 y(0) = 0, y 0 (0) = 0.

Solução. SejaY (s) = L{y(t)}. Aplicando a transformada de Laplace aos dois lados
00
da equação y − y = 1, obtemos

L{y 00 (t)} − L{y(t)} = L{1},

ou seja
1
s2 L{y(t)} − sy(0) − y 0 (0) − L{y(t)} = .
s
0
Como y(0) = y (0) = 0, obtemos
1
(s2 − 1)Y (s) = .
s
Logo,
1 1
Y (s) = = .
s(s2 − 1) s(s + 1)(s − 1)
Queremos determinar

y(t) = L−1 {Y (s)}.


Expandindo em frações parciais, podemos escrever

1 1 1 1 1
Y (s) = − + + .
s 2 s+1 2 s−1
Assim,      
−1 1 1 −1 1 1 −1 1
y(t) = −L + L + L ,
s 2 s+1 2 s−1
portanto a solução do PVI é

1 1
y(t) = −1 + e−t + et .
2 2

80
Figura 4.4: Gráco do f(t)

Exemplo 4.16. Resolva o PVI



 
 1, se 0≤t<1
 y 00 + y 0 + y = f (t) 

, onde f (t) = 4, se 1≤t<3 .
 y(0) = y 0 (0) = 0 

t≥3

 0, se

Solução.
Seja Y (s) = L{y(t)}. Aplicando a transformada de Laplace aos dois lados da equação,

obtemos

s2 Y (s) − sy(0) − y 0 (0) + sY (s) − y(0) + Y (s) = L{f (t)},


ou seja

(s2 + s + 1)Y (s) = L{f (t)}. (4.2)

Por outro lado, note que f (t) pode ser escrita como combinação linear das funções de

Heaviside u0 (t), u1 (t) e u3 (t). De fato, obtemos os coecientes a, b, c de

f (t) = au0 (t) + bu1 (t) + cu3 (t)

como segue:

se t ∈ [0, 1), 1 = f (t) = a · 1 + b · 0 + c · 0 = a ∴ a = 1;


se t ∈ [1, 3), 4 = f (t) = 1 · 1 + b · 1 + c · 0 = 1 + b ∴ b = 3;
se t ∈ [3, ∞), 0 = f (t) = 1 · 1 + 3 · 1 + c · 1 = 1 + 3 + c ∴ c = −4.

Assim,

f (t) = u0 (t) + 3u1 (t) − 4u3 (t)

81
e portanto
1 3e−s 4e−3s
L{f (t)} = + − .
s s s
Logo, pela identidade (4.2), temos

1
Y (s) = (1 + 3e−s − 4e−3s ),
s(s2 + s + 1)
ou seja,

Y (s) = H(s) + 3e−s H(s) − 4e−3s H(s),


onde
1
H(s) = .
s(s2 + s + 1)
Seja h(t) = L−1 {H(s)}. Pela proposição 4.8, temos

uc (t)h(t − c) = L−1 {e−cs H(s)},

logo

y(t) = L−1 {Y (s)} = h(t) + 3u1 (t)h(t − 1) − 4u3 (t)h(t − 3). (4.3)

Basta, portanto, determinar

 
−1 1
h(t) = L 2
.
s(s + s + 1)

Expandindo em frações parciais, obtemos

1 1 s+1
= − 2
s(s2 + s + 1) s s +s+1
e assim
     
−1 1 −1 s+1 −1 s+1
h(t) = L −L =1−L .
s s2 + s + 1 s2 + s + 1

Agora, completando quadrados, temos

 
−1 s+1
L
s2 + s + 1
 
−1 s+1
=L
(s + 1/2)2 + 3/4
 
−1 s + 1/2 1/2
=L +
(s + 1/2)2 + 3/4 (s + 1/2)2 + 3/4
  √ ( √ )
s + 1/2 3 3/2
= L−1 √ + L−1 √
2
(s + 1/2) + ( 3/2) 2 3 (s + 1/2)2 + ( 3/2)2

√ 3 −t/2 √
= e−t/2 cos( 3 t/2) + e sen( 3 t/2).
3

82
Portanto,

−t/2
√ 3 −t/2 √
h(t) = 1 − e cos( 3 t/2) − e sen( 3 t/2). (4.4)
3
Pela identidade (4.3), concluímos que a solução do PVI é dada por



 h(t), se t ∈ [0, 1),

y(t) = h(t) + 3 h(t − 1), se t ∈ [1, 3),


 h(t) + 3 h(t − 1) − 4 h(t − 3),

se t ≥ 3,

onde h é a função dada em (4.4).

4.5 Função delta de Dirac

4.5.1 Impulso
Suponha que uma partícula se desloque em linha reta, sob a ação da força resultante

F (t). O impulso de F (t) entre os instantes t1 e t2 é

Z t2
F (t) dt.
t1

dv
A segunda lei de Newton nos diz que F (t) = m , portanto
dt

Z t2 Z t2
dv
F (t) dt = m dt = mv(t2 ) − mv(t1 ).
t1 t1 dt
Assim, o impulso da força F (t) no intervalo [t1 , t2 ] é igual à variação da quantidade de

movimento entre os instantes t1 e t2 .

4.5.2 A função delta de Dirac


Fixe ε > 0. Considere a função fε : R → R denida por

 1,

1 t ∈ [0, ε),
fε (t) = [u0 (t) − uε (t)] = ε
ε  0, caso contrário.

83
O impulso total de fε (t) é unitário:
Z ∞
fε (t) dt = 1.
−∞

Consideremos a transformada de Laplace de fε (t):


1 
L{fε (t)} = L{u0 (t)} − L{uε (t)}
ε
1 1 e−εs 1 − e−εs

= − = ,
ε s s εs
Usando a regra de l'Hôpital, temos

1 − e−εs se−εs
lim L{fε (t)}(s) = lim = lim = 1.
ε→0 ε→0 εs ε→0 s
Se pudéssemos passar o limite para dentro do sinal da transformada então, pondo

δ(t) = lim fε (t), teríamos


ε→0
L{δ(t)} = 1,
onde 
 ∞, t = 0 Z ∞
δ(t) = , com δ(t) dt = 1.
6 0
 0, t = −∞

Claramente, trata-se aqui de uma denição informal: δ(t) não é uma função no

sentido usual. Porém, para efeitos práticos, podemos substituir, para  pequeno, fε (t)
por δ(t), por exemplo se consideramos o movimento de um pêndulo sob a ação de

uma força externa que age em um intervalo de tempo muito pequeno, tendo impulso

unitário. É possível dar um tratamento rigoroso de funções generalizadas como a

função delta de Dirac, no contexto da teoria das distribuições de Laurent Schwartz,

que foge do escopo destas notas.

Podemos considerar também uma translação da função δ de Dirac: se c > 0,



 ∞, t = c Z ∞
δ(t − c) = , com δ(t − c) dt = 1.
6 c
 0, t = −∞

84
Assim, temos informalmente

1 1
δ(t − c) = lim fε (t − c) = lim [u0 (t − c) − uε (t − c)] = lim [uc (t) − uc+ε (t)].
ε→0 ε→0 ε ε→0 ε

Denimos

L{δ(t − c)}(s) = lim L{fε (t − c)}(s).


ε→0

Como

1 
L{fε (t − c)}(s) = L{uc (t)}(s) − L{uc+ε (t)}(s)
ε
1 e−cs e−(c+ε)s −εs

−cs 1 − e
= − =e ,
ε s s εs

segue, pela regra de l'Hôspital, que

lim L{fε (t − c)}(s) = e−cs .


ε→0

Portanto, temos a fórmula

L{δ(t − c)}(s) = e−cs .

4.6 Aplicação à resolução de PVIs (parte 2)


Exemplo 4.17. Resolva o PVI

 y 00 − y = δ(t − 1),
 y(0) = y 0 (0) = 0.

Solução. Seja Y (s) = L{y(t)}. Aplicando L a ambos os lados da EDO, obtemos

s2 Y (s) − sy(0) − y 0 (0) − Y (s) = L{δ(t − 1)}.

Logo,

2 −s e−s
(s − 1)Y (s) = e , isto é, Y (s) = .
s2 − 1
Expandindo em frações parciais, temos

1 e−s 1 e−s
 
−s 1 1 1 1 1
Y (s) = e 2
= e−s − = − .
s −1 2 s−1 2 s+1 2 s−1 2 s+1
1 1
Uma vez que L{et } = e L{e−t } = , temos
s−1 s+1
e−s e−s
L{u1 (t)et−1 }(s) = e L{u1 (t)e−(t−1) } = ,.
s−1 s+1

85
Assim,

1 −1 e−s 1 −1 e−s
   
y(t) = L (t) − L (t)
2 s−1 2 s+1
1 1
= u1 (t)et−1 − u1 (t)e−(t−1)
2  t−1 2−(t−1) 
e −e
= u1 (t) = u1 (t) senh(t − 1).
2
Portanto, a solução do PVI é dada por

 0, 0 ≤ t < 1,
y(t) =
 senh(t − 1), t ≥ 1.
Exemplo 4.18. Um pêndulo não-amortecido tem massa m = 1, comprimento L=1
e frequência natural ω0 = 1. Seja y o ângulo que o pêndulo faz com a vertical. No

instante t = 0, o pêndulo se encontra na posição mais baixa (y(0) = 0) e tem a


0
velocidade inicial y (0) = 2. Ao voltar à posição mais baixa (isto é, após meio ciclo),

a massa do pêndulo recebe um golpe instantâneo com impulso de k unidades, no

sentido oposto ao do movimento, que a faz car parada a partir daquele momento.

Modele o movimento do pêndulo por uma equação diferencial e a use para determinar

o valor de k.
Solução. A EDO é da forma

y 00 + ω02 y = kδ(t − c).


Como ω0 = 1 e c=π (pois o período é 2π/1 = 2π ), obtemos a EDO

y 00 + y = kδ(t − π) (k > 0).


Temos y(0) = 0 e y 0 (0) = 2, logo

s2 Y (s) − 2 + Y (s) = ke−πs ,


ou seja,
2 e−πs
Y (s) = + k .
s2 + 1 s2 + 1
Assim,

y(t) = 2 sen t + k sen(t − π)uπ (t).


Como sen(t − π) = − sen t, temos

y(t) = 2 sen t − kuπ (t) sen t,


ou ainda: 
 2 sen t, se 0 ≤ t < π,
y(t) =
 (2 − k) sen t, se t ≥ π.
Para que o pêndulo que parado a partir do instante t = π, devemos ter, portanto,

k = 2.

86
Figura 4.5: Gráco da solução do exemplo 4.18

4.7 Convolução
Sejam f (t) e g(t) t ≥ 0. Estendemos
funções seccionalmente contínuas denidas para

estas funções para o intervalo (−∞, ∞) pondo, para t < 0, f (t) = 0 e g(t) = 0. A

convolução de f e g é a função f ∗ g denida para t ≥ 0 por


Z ∞
(f ∗ g)(t) = f (t − τ )g(τ )dτ.
0

Note que, se τ > t, temos f (t − τ ) = 0, e se τ <0 temos g(τ ) = 0. Portanto,

Z t
(f ∗ g)(t) = f (t − τ )g(τ )dτ .
0

Exemplo 4.19. Calcule f ∗ g, onde f (t) = t e g(t) = t2 , para t ≥ 0.


Solução. Usando a denição da convolução, temos

t  τ =t
tτ 3 τ 4 t4 t4 t4
Z 
(f ∗ g)(t) = (t − τ )τ 2 dτ = − = − = .

3 4 3 4 12

0
τ =0

Teorema 4.3. Sejam f, g : [0, ∞) → R funções admissíveis. Se F (s) = L{f (t)} e


G(s) = L{g(t)}, então
L{(f ∗ g)(t)} = F (s)G(s).

87
Demonstração. Temos

Z ∞ Z ∞ Z t
−st −st
L{(f ∗ g)(t)}(s) = e (f ∗ g)(t) dt = e f (t − τ )g(τ ) dτ dt
0 0 0
Z ∞ Z t
= e−st f (t − τ )g(τ ) dτ dt
0 0
Z ∞ Z ∞
= e−st f (t − τ )g(τ ) dt dτ.
0 τ

Aqui, usamos o teorema de Fubini em um versão para integrais impróprias; a justi-

cativa para a validade deste resultado (para f, g admissíveis) é técnica e será omitida.

Fazendo a mudança de variável u = t − τ, obtemos


Z ∞Z ∞
L{(f ∗ g)(t)}(s) = e−s(u+τ ) f (u)g(τ ) du dτ
0 0
Z ∞ Z ∞
= e−su e−sτ f (u)g(τ ) du dτ
0 0
Z ∞ Z ∞ 
−sτ −su
= e g(τ ) e f (u)du dτ
0 0
Z ∞ Z ∞
−su
= e f (u)du e−sτ g(τ )dτ.
0 0

Portanto, L{(f ∗ g)(t)} = F (s)G(s). 

Exemplo 4.20. Calculemos novamente f ∗ g, onde f (t) = t e g(t) = t2 , para t ≥ 0,


fazendo uso da transformada de Laplace.

Solução. Temos, pelo Teorema 4.3,

1 2 2
L{(f ∗ g)(t)} = L{t} · L{t2 } = 2
· 3 = 5.
s s s
Por outro lado, temos
4!
L{t4 } = ,
s5
logo  
−1 2 2 4
(f ∗ g)(t) = L = ·t ,
s5 4!
isto é,
t4
L{(f ∗ g)(t)} = ,
12
conrmando o cálculo do exemplo 4.19.

Proposição 4.9. Sejam f , g e h funções seccionalmente contínuas denidas em [0, ∞).


Então:

(i) f ∗ g = g ∗ f ;

88
(ii) (f ∗ g) ∗ h = f ∗ (g ∗ h);
(iii) f ∗ (g + h) = f ∗ g + f ∗ h;

Estes resultados podem ser mostrados pela denição de convolução. Alternativa-

mente, podemos demonstrá-los por meio da propriedade expressa no teorema 4.3, no

caso em que f e g são funções contínuas admissíveis. Mostremos, por exemplo, a

segunda propriedade (associatividade da convolução). Temos

L{(f ∗ g) ∗ h} = L{f ∗ g}L{h} = L{f }L{g}L{h} = L{f }L{g ∗ h} = L{f ∗ (g ∗ h)},

provando (ii).

Por m, vejamos que a função delta de Dirac é o elemento neutro da convolução.

(iv) Se ϕ : [0, ∞) → R é uma função contínua, então ϕ ∗ δ = δ ∗ ϕ = ϕ.

Isto signica que lim(fε ∗ ϕ) = ϕ, onde


ε→0

 1,

t ∈ [0, ε),
fε (t) = ε
 0, caso contrário.

Para mostrar este limite, note que (fε ∗ ϕ)(t) é dado por
Z t Z t−ε Z t
fε (t − τ )ϕ(τ ) dτ = fε (t − τ )ϕ(τ ) dτ + fε (t − τ )ϕ(τ ) dτ
0 0 t−ε
1 t
Z
= 0+ ϕ(τ ) dτ = ϕ(cε ), para algum cε ∈ [t − ε, t].
ε t−ε
Na última igualdade, usamos o teorema do valor médio para integrais. Daí, como

lim ϕ(cε ) = ϕ(t), concluímos que lim(fε ∗ ϕ)(t) = ϕ(t), que escrevemos como δ ∗ ϕ = ϕ.
ε→0 ε→0

Aplicação às EDOs
Considere o PVI 
 ay 00 + by 0 + cy = f (t),
 y(0) = y 0 (0) = 0,

onde a, b, c ∈ R, a 6= 0. Sejam Y (s) = L{y(t)} e F (s) = L{f (t)}. Aplicando a

transformada de Laplace aos dois lados da EDO, obtemos

(as2 + bs + c)Y (s) = F (s),

ou seja

Y (s) = G(s)F (s),

89
onde
1
G(s) = .
as2 + bs + c
A função G(s) é chamada função de transferência. Seja

g(t) = L−1 {G(s)}.

Pelo Teorema 4.3, obtemos

y(t) = L−1 {G(s)F (s)} = (g ∗ f )(t).

Em particular, para f = δ , obtemos y(t) = (g ∗δ)(t) = g(t), uma vez que δ é o elemento
neutro da convolução. Isto é, temos: (i) g(t) é a solução do PVI no caso em que a

força externa é a função delta de Dirac; (ii) se a força externa é f (t), a solução é

obtida pela convolução de f e g .

90
Capítulo 5

O que é uma EDP?

Seja u (x1 , x2 ) uma função real de duas variáveis. Denotaremos a derivada parcial de

u em relação à variável xi por


∂u
u xi = .
∂xi
Similarmente, as derivadas parciais de segunda ordem de u são denotadas por

∂ 2u
u xi xj = .
∂xj ∂xi

Notação análoga é utilizada para derivadas de ordem superior.

Denição 5.1. Sejam k≥1 um inteiro e U ⊆ R2 um conjunto aberto. Uma equação


diferencial parcial (EDP) de segunda ordem em duas variáveis é uma equação da forma

F (x1 , x2 , u, ux1 , ux2 , ux1 x1 , ux1 x2 , ux2 x2 ) = 0, (5.1)

onde (x1 , , x2 ) ∈ U e F : U × R6 → R é uma função contínua dada.

Podemos denir de forma similar a noção de EDP de ordem k em n variáveis.

Exemplo 5.1. A equação

x2 uux1 + ux2 x2 = 0
é uma EDP de segunda ordem.

Denição 5.2. Uma solução clássica da EDP (5.1) é uma função u(x1 , x2 ) denida

em um subconjunto aberto de U, tal que u(x1 , x2 ) tenha derivadas parciais contínuas

até segunda ordem e satisfaça a equação em todos os pontos de seu domínio.

Exemplo 5.2. Se c é uma constante, a função u(x, t) = sen(x − ct) é uma solução da
2
equação utt = c uxx .

91
A EDP (5.1) é dita linear se F for de primeiro grau em relação a u e às derivadas

parciais de u, com coecientes dependendo de (x1 , x2 ). Caso contrário, dizemos que a

EDP é não-linear .

Exemplo 5.3. Pondo x = (x1 , x2 ), Uma EDP linear de primeira ordem em duas

variáveis e escreve da seguinte forma:

2
X ∂u
aj (x) (x) + b(x)u(x) + c(x) = 0,
j=1
∂xj

onde aj 6≡ 0 para algum j = 1, 2. Já a forma geral de uma EDP linear de segunda

ordem é

2 2
X ∂ 2u X ∂u
aij (x) (x) + bj (x) (x) + c(x)u(x) + d(x) = 0, (5.2)
i,j=1
∂xi ∂xj j=1
∂x j

onde algum dos coecientes aij não é identicamente nulo.

Uma EDP linear é dita homogênea se o termo independente de u for identicamente


nulo. Assim, a EDP (5.2) é linear homogênea se d ≡ 0.
Nestas notas, que são de caráter introdutório, estaremos especialmente interessa-

dos em estudar certas EDPs lineares homogêneas de segunda ordem com coecientes

constantes, a saber, a equação do calor, a equação da onda e a equação de Laplace.

92
Capítulo 6

Séries de Fourier e EDPs clássicas

6.1 Equação do calor

6.1.1 Condução do calor em uma barra


Consideremos uma barra uniforme de comprimento L, feita de um material homogê-

neo condutor de calor, cuja seção transversal tem área A. Ademais, vamos supor que

a superfície lateral da barra está isolada termicamente, de modo a não permitir trans-

ferências de calor através dela com o ambiente. Todavia, podem ocorrer transferências

de calor através das extremidades da barra. Queremos estudar a propagação do calor

ao longo da barra para investigar como a temperatura u = u(x, t) no interior da barra

varia com o tempo. Para isso, supomos que o calor se propaga na direção longitudinal

da barra.

Figura 6.1: Barra de comprimento L

Lei do resfriamento de Fourier1 : o uxo de calor é proporcional ao gradiente da

temperatura.

Isto signica que a taxa com que o calor é transferido na seção da barra na posição

1
Teoria Analítica do Calor, Academia de Ciências de Paris (21/12/1807).

93
x, por unidade de tempo, é dada por

κAux ,

onde κ>0 é a condutividade térmica do material da barra. Considere uma seção da

barra entre as posições x e x + ∆x. A taxa com que o calor entra nesta porção, por

unidade de tempo, é

κAux (x + ∆x, t) − κAux (x, t).


Assim, em um pequeno intervalo de tempo ∆t, a quantidade de calor que entra nesta

porção da barra é

κA[ux (x + ∆x, t) − ux (x, t)]∆t.


Por outro lado, supondo ∆x pequeno, a quantidade de calor fornecida à mesma porção
da barra é responsável por uma variação de temperatura ∆u de tal forma que equivale

cρA∆x∆u,
onde ρ e c são a densidade e o calor especíco do material da barra, respectivamente.

Assim,

κA[ux (x + ∆x, t) − ux (x, t)]∆t ∼


= cρA∆x∆u.
∆u
Como, para ∆t ≈ 0, ≈ ut , segue que
∆t
ux (x + ∆x, t) − ux (x, t) ∼ cρ
= ut (x, t).
∆x κ
Fazendo ∆x → 0, obtemos

uxx (x, t) = ut (x, t),
κ
ou seja

ut = Kuxx , (6.1)

κ
onde K= >0 é uma constante chamada de difusividade térmica. A equação (6.1)

é conhecida como equação do calor ou equação da difusão .
Observação 6.1 . Resolver a equação do calor na barra de comprimento L signica

encontrar soluções u(x, t) da equação (6.1) com x ∈ [0, L] e t ≥ 0.

6.1.2 Condições inicial e de fronteira


Primeiramente, notamos que a distribuição de temperatura na barra ao longo do tempo

depende da distribuição inicial de temperatura (temperatura inicial), chamada de con-


dição inicial do problema:

u(x, 0) = f (x), x ∈ [0, L].

94
Ademais, o valor de u(x, t) depende do que se passa nas extremidades da barra. Cha-

mamos de condições de fronteira (ou de contorno) as condições nas extremidades

da barra. Há vários tipos:

Condição de Dirichlet: as extremidades da barra são mantidas a temperaturas

conhecidas. Por exemplo:

(i) extremidades mantidas a temperaturas constantes:

u(0, t) = T1 , u(L, t) = T2 , t ≥ 0.

(ii) as temperaturas nas extremidades da barra variam com o tempo de acordo com

funções conhecidas:

u(0, t) = g(t), u(L, t) = h(t), t ≥ 0.

Condição de Neumann: o uxo de calor através das extremidades da barra é co-

nhecido:

ux (0, t) = ϕ(t), ux (L, t) = φ(t), t ≥ 0.


Por exemplo, se as extremidades da barra estão isoladas termicamente (isto é, o uxo

de calor através das extremidades é nulo), as condições de fronteira são

ux (0, t) = 0, ux (L, t) = 0, t ≥ 0.

Podemos ter também condições mistas; por exemplo, se a extremidade esquerda da

barra é mantida à temperatura nula e a extremidade direita está isolada termicamente,

temos

u(0, t) = 0, ux (L, t) = 0, t ≥ 0.

Investigaremos a seguir problemas de valor inicial e de fronteira (PVIF) para a

equação do calor. Um tal problema consiste em determinar solução desta equação com

condição inicial dada e condições de fronteira prescritas.

6.1.3 Barra com extremidades mantidas à temperatura nula


Considere o seguinte PVIF:



 ut = Kuxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0, (6.2)


 u(x, 0) = f (x), x ∈ (0, L).

95
Método de separação de variáveis

Encontraremos inicialmente uma família de soluções simples para (6.2)1 e (6.2)2 :



 ut = Kuxx , x ∈ (0, L), t > 0,
(6.3)
 u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0.

Usaremos então o princípio da superposição para construir uma solução satisfazendo a

condição inicial (6.2)3 .

A ideia é procurar soluções não-nulas da forma

u(x, t) = X(x)T (t).

Substituindo esta expressão na equação do calor, obtemos

X(x)T 0 (t) = KX 00 (x)T (t),

de onde concluímos que


1 T 0 (t) X 00 (x)
= .
K T (t) X(x)
Como o lado esquerdo da identidade acima depende apenas de t e o lado direito depende
apenas de x, podemos concluir que ambos independem de x e de t, já que são iguais.
Isto signica que
X 00 (x) 1 T 0 (t)
=σ= ,
X(x) K T (t)
onde σ é uma constante real. Ou seja, X(x) e T (t) devem satisfazer, respectivamente,

as EDOs

X 00 (x) − σX(x) = 0 e T 0 (t) = σKT (t).


Por outro lado, pelas condições de fronteira (6.2)2 , temos

0 = u(0, t) = X(0)T (t), 0 = u(L, t) = X(L)T (t),

isto é,

X(0) = X(L) = 0
(caso contrário, teríamos T (t) ≡ 0, o que implicaria u ≡ 0).

Separação de variáveis: (a) determinação de X(x)

Observe que X deve satisfazer o seguinte problema de valor de fronteira:



 X 00 (x) − σX(x) = 0, x ∈ [0, L],
(6.4)
 X(0) = X(L) = 0.

96
A seguir, discutiremos as três possibilidades para σ.
Caso 1: σ = 0
Neste caso, X X 00 = 0. Assim, X(x) = ax + b, onde a, b ∈ R.
deve satisfazer a EDO

Para que X satisfaça as condições X(0) = 0 = X(L), devemos ter b = 0 e aL + b = 0.

Como L > 0, segue que a = b = 0. Portanto, X ≡ 0, e consequentemente, u ≡ 0.

Caso 2: σ > 0
Neste caso, a solução geral da EDO X 00 (x) − σX(x) = 0 é

√ √
X(x) = ae σx
+ be− σx
, a, b ∈ R.

As condições de fronteira para X nos dizem que

0 = X(0) = a + b,
√ √
0 = X(L) = ae σL
+ be− σL
.

A primeira condição nos dá b = −a. Quando substituímos na segunda, obtemos



2a senh( σL) = 0. Uma vez que σ > 0 e L > 0, obtemos a = b = 0, donde concluímos

que X ≡ 0, isto é, u ≡ 0.

Caso 3: σ < 0
Neste último caso, a solução geral da EDO para X é

√ √
X(x) = a cos( −σx) + b sen( −σx).

Pelas condições de fronteira, obtemos


0 = X(0) = a e 0 = X(L) = b sen( −σL).

Note que se b = 0, X ≡ 0, o que não


então nos interessa. Logo, devemos ter

√ √ √ nπ
sen( −σL) = 0 =⇒ −σL = nπ, n∈N =⇒ −σ = , n ∈ N.
L
Assim, obtemos as seguintes soluções de (6.4):
 nπx 
Xn (x) = Bn sen , n ∈ N.
L
Os valores de −σ = −σn , a saber

n2 π 2
−σn =
L2
são chamados de autovalores do problema (6.4). Por sua vez, as soluções
 nπx 
sen
L
são denominadas de autofunções do problema (6.4).

97
Separação de variáveis: (b) determinação de T (t)

A EDO para T (t) é

T 0 (t) = σn KT (t),
cuja solução geral é

T (t) = aeσn Kt , a ∈ R.
Assim, para cada n ∈ N, obtemos

nπ 2
Tn (t) = An e−( L ) Kt
.

Separação de variáveis: (c) obtenção das soluções especiais un (x, t)

Escrevendo un (x, t) = Xn (x)Tn (t), temos enm as funções obtidas pelo método de

separação de variáveis:

n2 π 2
 nπx 
un (x, t) = bn e− L2
Kt
sen , n = 1, 2, 3, · · · ,
L
onde bn é constante. Note que un satisfaz a equação (6.2)1 e as condições de fronteira

(6.2)2 .

Superposição

Dados escalares αi e soluções ui (x, t) da equação do calor, para i = 1, 2, · · · , m, então

m
X
αi ui (x, t)
i=1

também é solução da equação do calor, uma vez que a equação é linear homogênea.

Além disso, se as condições de fronteira (6.2)2 valem para cada ui , então esta combi-

nação linear também satisfaz tais condições, tendo em vista que elas são homogêneas.

Estendendo ente procedimento, podemos considerar combinações innitas das so-

luções especiais un encontradas anteriormente, para obter soluções formais da forma


X∞
u(x, t) = un (x, t), isto é
n=1

∞  nπx 
X n2 π 2 Kt
u(x, t) = bn e− L2 sen .
n=1
L

Usamos a expressão solução formal para indicar que momentaneamente não estamos

tratando questões de convergência, e assumimos válida a derivação termo a termo que

é necessária para concluirmos que tal fórmula dene de fato uma solução da equação

do calor.

98
Imposição da condição inicial

Impomos agora que a condição inicial (6.2)3 seja satisfeita. Desta forma, os coecientes

bn devem satisfazer

X  nπx 
f (x) = u(x, 0) = bn sen .
n=1
L

Pergunta: Dada uma função f (x) no intervalo [0, L], é possível expandir f (x) em uma

X  nπx 
série bn sen , com coecientes bn a determinar? Sob certas condições para a
n=1
L
função f (x), esta pergunta será respondida armativamente na seção 6.2.

6.2 Introdução às séries de Fourier


Denição 6.1. Uma função f:R→R é dita periódica se existe um número p > 0 tal
que

f (x + p) = f (x), ∀ x ∈ R.
Dizemos que pperíodo para f .
é um Se p é o menor período possível, dizemos que p é

o período fundamental de f .

Observação 6.2 . Se p é um período de f, então 2p também é um período, pois

f (x + 2p) = f ((x + p) + p) = f (x + p) = f (x).

Em geral, se p é um período de f, então 2p, 3p, 4p, . . . , também são períodos de f.

Exemplo 6.1. A função f (x) = cos x é periódica com período fundamental 2π . Ade-

mais, a função g(x) = cos(ωx) tem período p= :
ω
g(x + p) = cos[ω(x + 2π/ω)] = cos(ωx + 2π) = cos(ωx) = g(x).

De fato, é o período fundamental de g(x).
ω

Fixado p > 0, o conjunto das funções p -periódicas f : R → R forma um espaço


vetorial. Com efeito, sejam C uma constante real e f, g funções p -periódicas, i.e.,

f (x + p) = f (x), g(x + p) = g(x), ∀ x ∈ R.

Então:

(f + g)(x + p) = f (x + p) + g(x + p) = f (x) + g(x) = (f + g)(x),


(Cf )(x + p) = Cf (x + p) = Cf (x) = (Cf )(x).

99
Por conveniência, escreveremos p = 2L e chamaremos L de semi-período. Note que

as funções  nπx   nπx 


1, cos , sen (6.5)
L L
são 2L -periódicas. Segue que


a0 X h  nπx   nπx i
+ an cos + bn sen (an , bn constantes)
2 n=1
L L

é 2L -periódica, supondo que a série seja convergente para todo x ∈ R.


Considere o seguinte produto interno no espaço das funções contínuas por partes

2L -periódicas: Z L
hf, gi = f (x)g(x)dx.
−L

As funções dadas em (6.5) são duas a duas ortogonais com respeito a este produto

interno. De fato, temos as seguintes relações:

h1, 1i = 2L,
D  nπx E
1, cos = 0, ∀ n ∈ N,
L
D  nπx E
1, sen = 0, ∀ n ∈ N,
L
D  nπx   mπx E
cos , sen = 0, ∀ n, m ∈ N,
L L

D  nπx   mπx E  0, se n 6= m
cos , cos = ,
L L  L, se n = m

D  nπx   mπx E  0, se n 6= m
sen , sen = .
L L  L, se n = m

D  nπx   mπx E
Por exemplo, veriquemos a igualdade cos = 0 se n 6= m.
, cos Te-
L L
mos
D  nπx   mπx E Z L  nπx   mπx 
cos , cos = cos cos dx.
L L −L L L
Considere as identidades trigonométricas
 
(n + m)πx  nπx   mπx   nπx   mπx 
cos = cos cos − sen sen ,
L L L L L
 
(n − m)πx  nπx   mπx   nπx   mπx 
cos = cos cos + sen sen .
L L L L L
Somando-as e integrando, obtemos

L L     
(n − m)πx (n − m)πx
Z  nπx   mπx  Z
cos cos dx = cos + cos dx
−L L L −L L L

100
e a integral à direita e nula se m e n são números naturais distintos.

Suponha que


a0 X h  nπx   nπx i
f (x) = + an cos + bn sen .
2 n=1
L L

Então, assumindo que possamos integrar termo a termo, temos (usando as relações de

ortogonalidade)
Z L
f (x)dx = hf (x), 1i = ha0 /2, 1i = a0 L,
−L
donde concluímos que
Z L
1
a0 = f (x)dx. (6.6)
L −L
Por outro lado,
Z L  mπx  D  mπx E D  mπx   mπx E
f (x) cos dx = f (x), cos = am cos , cos = am L.
−L L L L L
Daí,
Z L
1  mπx 
am = f (x) cos dx. (6.7)
L −L L
Similarmente,
Z L
1  mπx 
bm = f (x) sen dx. (6.8)
L −L L
Isto motiva a seguinte denição.

Denição 6.2. Seja f uma função contínua por partes e 2L -periódica. A série de
Fourier de f é denida por


a0 X h  nπx   nπx i
S[f ](x) = + an cos + bn sen ,
2 n=1
L L

onde os coecientes de Fourier an e bn


f são dados por de

1 L
Z  nπx 
an = f (x) cos dx, n ∈ N ∪ {0},
L −L L
1 L
Z  nπx 
bn = f (x) sen dx, n ∈ N.
L −L L

Teorema de Fourier

Enunciamos aqui o teorema fundamental da teoria de Fourier. Dada uma função

periódica f (x), é verdade que sua série de Fourier converge para f (x)? A resposta

é armativa, nos pontos de continuidade de f, assumindo que f seja seccionalmente


0
diferenciável; isto signifca que f e f são seccionalmente contínuas. A demonstração

foge do escope destas notas.

101
Teorema 6.1. Seja f : R → R uma função 2L -periódica, seccionalmente diferenciável.
Então, se f é contínua em x, vale

S[f ](x) = f (x).

Para x arbitrário, vale


f (x+ ) + f (x− )
S[f ](x) = ,
2
onde f (x+ ) = lim+ f (t) e f (x− ) = lim− f (t).
t→x t→x

Exemplo 6.2. Vamos determinar a série de Fourier da função 4 -periódica f denida

para f (x) = x + 1 se x ∈ (−2, 2]; veja o gráco abaixo. Aqui, o semiperíodo é L = 2.

Calculemos os coecientes de Fourier da função f. Temos

Z 2 Z 2 Z 2 Z 2
1 1 1
a0 = (x + 1) dx = x dx + (1) dx = dx = 2.
2 −2 2 |{z}
−2 ímpar 2 −2 |{z} 0
par

Se n ∈ N, temos

Z 2 Z 2 Z 2
1  nπx  1  nπx  1  nπx 
an = (x + 1) cos dx = x cos dx + cos dx
2 −2 2 2 −2 | {z 2 } 2 −2 | {z 2 }
ímpar par
 nπx  2

Z 2  nπx  2 2
= cos dx = sen = sen(nπ) = 0,

0 2 nπ 2 nπ
0
Z 2 Z 2
1 2
Z
1  nπx  1  nπx   nπx 
bn = (x + 1) sen dx = x sen dx + sen dx
2 −2 2 2 −2 | {z 2 } 2 −2 | {z 2 }
par ímpar
 nπx  2

Z 2  nπx  Z 2
2x 2  nπx 
= x sen dx = − cos + cos dx

0 2 nπ 2 nπ 0 2
0
2
4 4  nπx  4 (−1)n 4 (−1)n+1
= − cos(nπ) + 2 2 sen =− = .

nπ nπ 2 nπ nπ
0

102
Portanto, obtemos que a série de Fourier de f é


4 X (−1)n+1  nπx 
S[f ](x) = 1 + sen .
π n=1 n 2

Note que o teorema de Fourier arma que, nos pontos de descontinuidade, o valor
3 + (−1)
da série é = 1. Isto pode ser vericado diretamente: os pontos de desconti-
2
nuidade são da forma x̄ = 2 + 4k, k ∈ Z, e substituindo na série obtemos S[f ](x̄) = 1.

Nos pontos x em que f é contínua, o teorema de Fourier arma a igualdade


4 X (−1)n+1  nπx 
f (x) = 1 + sen
π n=1 n 2

. Em particular, para x = 1, temos


4 X (−1)n+1  nπ 
2=1+ sen .
π n=1 n 2

Os termos desta série são nulos para n par, logo temos


4 X 1  nπ  4 X (−1)k
1= sen = .
π n 2 π k=0 2k + 1
n ímpar

e assim

π X (−1)k 1 1 1
= = 1 − + − + ··· .
4 k=0
2k + 1 3 5 7

Esta identidade foi descoberta por Leibniz em 1674.

Série de Fourier de funções pares e ímpares

Lembremos que uma função f:R→R é dita par se

f (−x) = f (x), ∀ x ∈ R.

O gráco de uma função par é simétrico em relação ao eixo vertical. Por outro lado,

se f:R→R é tal que

f (−x) = −f (x), ∀ x ∈ R,
a função f é dita ímpar. Neste caso, o gráco de f é simétrico em relação à origem. O

produto de duas funções pares ou duas funções ímpares é uma função par; o produto

de uma função ímpar com uma função par é uma função ímpar. É fácil ver que, se f
é uma função par e seccionalmente contínua no intervalo [−a, a] então
Z a Z a
f (x) dx = 2 f (x) dx.
−a 0

103
Por outro lado, se f é uma função ímpar e seccionalmente contínua no intervalo [−a, a]
então Z a
f (x) dx = 0.
−a

Se f é uma função ímpar, 2L−periódica, a fórmula

1 L
Z  nπx 
an = f (x) cos dx
L −L L

nos mostra que an = 0 para todo n ≥ 0, pois o integrando é uma função ímpar e o

intervalo de integração é simétrico em relação à origem. Assim, a série de Fourier da

função ímpar, 2L-periódica f é da forma


X  nπx 
S[f ](x) = bn sen .
n=1
L

Note também que os coecientes bn são dados por

2 L
Z  nπx 
bn = f (x) sen dx.
L 0 L

Similarmente, a série de Fourier de uma função par, 2L−periódica f é da forma


a0 X  nπx 
S[f ](x) = + an cos ,
2 n=1
L

onde para n≥0 Z L


2  nπx 
an = f (x) cos dx.
L 0 L

Série de senos e série de cossenos de uma função denida em um intervalo

Suponha que f (x) é uma função denida no intervalo (0, L). Estenda f para uma
função ímpar, 2L−periódica f˜. Por exemplo, se f (x) = x2 para x ∈ (0, L), o gráco
de f˜ está desenhado abaixo.

A série de Fourier de f˜ é da forma


X  nπx 
S[f˜](x) = bn sen ,
n=1
L

onde os coecientes bn são dados por

2 L ˜ 2 L
Z  nπx  Z  nπx 
bn = f (x) sen dx = f (x) sen dx.
L 0 L L 0 L

104
Aqui, usamos que f˜(x) = f (x) para 0 < x < L. Pelo teorema de Fourier, no pontos de

continuidade x de f˜ temos

X  nπx 
f˜(x) = bn sen ;
n=1
L
em particular se 0 < x < L,

X  nπx 
f (x) = bn sen .
n=1
L

Nos referimos à série à direita como a série de senos da função f (x).


Similarmente, se desejamos expandir uma função f (x) denida em (0, L) em uma
série de cossenos, estendemos f a uma função par, 2L−periódica f˜ e tomamos a série
de Fourier desta última. Se x ∈ (0, L) é um ponto de continuidade de f , temos


a0 X  nπx 
f (x) = + an cos ,
2 n=1
L
onde para n≥0 Z L
2  nπx 
an = f (x) cos dx.
L 0 L

Exemplo 6.3. Vamos obter a série de senos da função f (x) = x para 0 < x < π.
Estendendo f a uma função ímpar, 2π -periódica f˜, a série de Fourier de ˜
f é da forma

X
S[f˜](x) = bn sen(nx),
n=1

onde π
2 π
Z Z
2
bn = f (x) sen (nx) dx = x sen (nx) dx.
π 0 π 0
2(−1)n+1
Integrando por partes, calculamos bn = e portanto obtemos a série Fourier
n

˜
X (−1)n+1
S[f ](x) = 2 sen(nx).
n=1
n

105
Assim, a expansão em série de senos para f é


X (−1)n+1
x=2 sen(nx) (0 < x < π).
n=1
n

Note que, em particular, pondo x = π/2, reobtemos a identidade


π X (−1)k
= .
4 k=0
2k + 1

Unicidade da expansão trigonométrica

Suponha que uma função 2L -periódica f (x) admita uma certa expansão trigonométrica

c0 X h  nπx   nπx i
f (x) = + cn cos + dn sen .
2 n=1
L L

Então esta série trigonométrica é necessariamente a série de Fourier de f, isto é, cn e

dn são respectivamente os coecientes de Fourier an e bn de f.

Exemplo 6.4. Calcule a série de Fourier da função 2π -periódica f (x) = cos2 x.

Solução. Não é necessário calcular integrais para obter os coecientes de Fourier.

Tendo em vista a identidade trigonométrica

1 + cos 2x
cos2 x = ,
2
1 1
segue que a série de Fourier de cos2 x é + cos 2x.
2 2

Identidade de Parseval

Fixe k∈N e considere a soma trigonométrica nita

k
a0 X h  nπx   nπx i
f (x) = + an cos + bn sen .
2 n=1
L L
 nπx   nπx 
Uma vez que as funções 1, cos e sen são duas a duas ortogonais com
L L
respeito ao produto interno h·, ·i dado por

Z L
hf, gi = f (x)g(x)dx,
−L

e, além disso,

 nπx  2  nπx  2
2
k1k = h1, 1i = 2L, cos = L, sen = L,

L L
106
concluímos que

a 2 Xk   nπx  2  nπx  2 
2 0
kf k = + an cos + bn sen

2 L L

n=1
k k
a20 X
2 2
 a20 X
a2n + b2n L.

= 2L + an L + b n L = L +
4 n=1
2 n=1

Z L
2
Como kf k = [f (x)]2 dx, obtemos
−L

L k
a2 X 2
Z
1
[f (x)] dx = 0 +
2
an + b2n .

L −L 2 n=1

Em geral, vale o análogo deste resultado para séries trigonométricas innitas; a de-

monstração é bem mais difícil.

Teorema 6.2 (Identidade de Parseval) . Seja f uma função 2L -periódica seccional-


mente contínua. Se an , bn são os coecientes de Fourier de f , então
L ∞
a2 X 2
Z
1
[f (x)] dx = 0 +
2
an + b2n .

L −L 2 n=1

Exemplo 6.5. Seja g a função ímpar, 2π -periódica tal que g(x) = x para 0 < x < π.
Como vimos no exemplo 6.3, a série de Fourier de g é dada por


X (−1)n+1
S[g](x) = 2 sen(nx).
n=1
n

Usando a identidade de Parseval, obtemos

Z π ∞
1 X 4
g(x)2 dx = 2
.
π −π n=1
n

Temos
π π
2π 2
Z Z
1 2
2
g(x) dx = x2 dx = ,
π −π π 0 3
logo

X 1 π2
= .
n=1
n2 6

A identidade acima foi descoberta por Euler em 1735.

107
6.3 De volta ao problema da condução do calor

6.3.1 Extremidades com temperatura nula: continuação


Vamos concluir a resolução do PVIF



 ut = Kuxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0,


 u(x, 0) = f (x), x ∈ (0, L).

Conforme vimos na Seção 6.1, procuramos expressar a solução sob a forma

∞  nπx 
X n2 π 2 Kt
u(x, t) = bn e− L2 sen .
n=1
L

A m de encontrar os coecientes bn , devemos impor a condição inicial


X  nπx 
u(x, 0) = bn sen = f (x) (0 < x < L).
n=1
L

Assim, os coecientes bn dever ser aqueles da série de senos de f (x) em (0, L), isto é, os
coecientes de Fourier da extensão ímpar, 2L−periódica de f . Como vimos na seção
anterior, tais coecientes são determinados por
Z L
2  nπx 
bn = f (x) sen dx .
L 0 L

Chamamos de método de Fourier o procedimento descrito anteriormente para obter


a solução do PVIF. Assim, este método consiste das seguintes etapas: (i) separação de

variáveis; (ii) superposição; (iii) imposição da condição inicial para obter os coecientes

da expansão em série da solução.

Pode ser provado que, se f é seccionalmente diferenciável, a expressão dada para

u(x, t) de fato dene a solução do PVIF acima.

Exemplo 6.6. Considere o PVIF





 ut = uxx , x ∈ (0, π), t > 0,

u(0, t) = u(π, t) = 0, t > 0,


 u(x, 0) = x, x ∈ (0, π).

Vimos no exemplo 6.3 que a série de senos de f (x) = x em (0, π) é


X (−1)n+1
x=2 sen(nx) (0 < x < π).
n=1
n

108
Assim, a solução do PVIF é


X (−1)n+1 2t
u(x, t) = 2 e−n sen(nx).
n=1
n

6.3.2 Problemas não-homogêneos


Considere uma barra com extremidades mantidas às temperaturas T1 e T2 . Vejamos

como resolver o o PVIF correspondente:





 ut = Kuxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = T1 , u(L, t) = T2 , t > 0, (6.9)


 u(x, 0) = f (x), x ∈ (0, L).

Será útil obtermos a temperatura estacionária v(x). Por denição, v(x) é a solução

independente do tempo de

 ut = Kuxx , x ∈ (0, L), t > 0,
 u(0, t) = T , u(L, t) = T2 , t > 0.
1

Assim, v(x) satisfaz v 00 (x) = 0, logo devemos determinar a função linear v(x) = ax + b
(T2 − T1 )x
que satisfaz v(0) = T1 , v(L) = T2 . Obtemos v(x) = + T1 . Observamos
L
agora que, se u(x, t) é solução do problema (6.9), então a função

w(x, t) = u(x, t) − v(x)

satisfaz o PVIF 


 wt = Kwxx , x ∈ (0, L), t > 0,

w(0, t) = w(L, t) = 0, t > 0,


 w(x, 0) = f (x) − v(x), x ∈ (0, L).

A solução deste problema é

∞  nπx 
X n2 π 2
w(x, t) = bn sen e− L2
Kt
,
n=1
L

com Z L
2  nπx 
bn = [f (x) − v(x)] sen dx.
L 0 L
Como u(x, t) = v(x) + w(x, t), segue a solução do PVIF (6.9) é


(T2 − T1 )x X  nπx  n2 π2
u(x, t) = + T1 + bn sen e− L2 Kt .
L n=1
L

109
A função w(x, t) satisfaz lim w(x, t) = 0, logo
t→∞

lim u(x, t) = v(x).


t→∞

Assim, a função v(x) também é chamada temperatura de equilíbrio da barra.


Exemplo 6.7. Resolva



 ut = uxx , x ∈ (0, π), t > 0,

u(0, t) = 0, u(π, t) = π, t > 0,


 u(x, 0) = 5x, x ∈ (0, π).

Solução. A temperatura de equilíbrio satisfaz v 00 (x) = 0, v(0) = 0, v(π) = π . Obtemos


v(x) = x. Se u(x, t) é solução do PVIF acima, a função w(x, t) = u(x, t) − v(x) =

u(x, t) − x satisfaz



 wt = wxx , x ∈ (0, π), t > 0,

w(0, t) = 0, w(π, t) = 0, t > 0,


 w(x, 0) = 4x, x ∈ (0, π).


X (−1)n+1 −n2 t
Obtemos w(x, t) = 8 sen(nx) e e assim
n=1
n

X (−1)n+1 −n2 t
u(x, t) = x + 8 sen(nx) e
n=1
n

é solução do PVIF do enunciado.

No exemplo a seguir, usamos a temperatura de equilíbrio para obter a solução

do PVIF para uma EDP linear não-homogênea da forma ut = Kuxx + h(x). Isto

corresponde à situação em que existe uma fonte externa de calor para a barra.

Exemplo 6.8. Resolva





 ut = uxx − 6x, x ∈ (0, 1), t > 0,

u(0, t) = 1, u(1, t) = 2, t > 0,


 u(x, 0) = sen(πx) + sen(2πx) + x3 + 1,

x ∈ (0, 1).

Solução. A temperatura de equilíbrio da barra v(x) satisfaz v 00 (x) = 6x, isto é,


v(x) = x3 + Cx + D, com v(0) = 1, v(1) = 2, logo v(x) = x3 + 1. A função w(x, t) =
u(x, t) − v(x) satisfaz o PVIF



 wt = wxx , x ∈ (0, 1), t > 0,

w(0, t) = 0, w(1, t) = 0, t > 0,


 w(x, 0) = sen(πx) + sen(2πx), x ∈ (0, 1),

110
2 2
e assim w(x, t) = e−π t sen(πx) + e−4π t sen(2πx). Concluímos que a solução do PVIF

do enunciado é u(x, t) = v(x) + w(x, t), ou seja

2t 2t
u(x, t) = x3 + 1 + e−π sen(πx) + e−4π sen(2πx).

6.3.3 Extremidades da barra isoladas termicamente


Consideremos agora a condução do calor em uma barra com extremidades termicamente

isoladas (assim como as laterais da barra, que sempre supomos insuladas). Como não

há uxo de calor através as extremidades da barra, devemos considerar o PVIF





 ut = Kuxx , x ∈ (0, L), t > 0,

ux (0, t) = ux (L, t) = 0, t > 0, (6.10)


 u(x, 0) = f (x), x ∈ (0, L).

Usaremos mais uma vez o método de Fourier.

Separação de variáveis

Buscaremos soluções não-triviais da forma

u(x, t) = X(x)T (t).

Substituindo esta expressão na equação do calor, obtemos

1 T 0 (t) X 00 (x)
= =σ= constante.
K T (t) X(x)
Ou seja, X(x) e T (t) devem satisfazer, respectivamente, as EDOs

X 00 (x) − σX(x) = 0 e T 0 (t) = σKT (t).

Impondo as condições de fronteira, obtemos

0 = ux (0, t) = X 0 (0)T (t), 0 = ux (L, t) = X 0 (L)T (t),

ou seja

X 0 (0) = X 0 (L) = 0.

Determinação de X(x)

A função X(x) satisfaz o seguinte problema de valor de fronteira:



 X 00 (x) − σX(x) = 0, x ∈ [0, L],
 X 0 (0) = X 0 (L) = 0.

111
(i) σ = 0
A solução geral da EDO X 00 (x) = 0 é X(x) = ax + b, com a, b ∈ R. As condições de

fronteira X 0 (0) = 0, X 0 (L) = 0 nos fornecem a = 0. Portanto, obtemos


X(x) = b.

(ii) σ > 0
Neste caso, temos
√ √
X(x) = ae σx
+ be− σx
, a, b ∈ R.
As condições de fronteira para X nos dizem que

0 = X 0 (0) =
σ(a − b),
√ √ √
0 = X (L) = σ(ae σL − be− σL ).
0

Como σ>0 e L > 0, obtemos a = b = 0. Portanto, não há soluções não-triviais no

caso σ > 0.
(iii) σ < 0
Escrevamos σ = −λ2 . A solução geral da EDO para X é

X(x) = a cos(λx) + b sen(λx).


Devido às condições de fronteira, temos

0 = X 0 (0) = bλ e 0 = X 0 (L) = −aλ sen(λL) + bλ cos(λL).


Logo, obtemos solução não-trivial quando b=0 e sen(λL) = 0. Portanto, obtemos

λ= , n∈N
L
e  nπx 
Xn (x) = bn cos , n ∈ N.
L

Determinação de T (t)

Só precisamos considerar os casos σ = 0 e σ < 0, uma vez que o caso σ > 0 nos dá
apenas a solução u = 0. No caso σ = 0, a EDO para T (t) é T 0 = 0 e a solução geral
desta equação é

T (t) = B.
n2 π 2
Por outro lado, se σ < 0, a EDO para T com σn = − , n ∈ N, é
L2
n2 π 2 K
T 0 (t) = − T (t),
L2
cuja solução geral é
n2 π 2 K
Tn (t) = cn e− L2
t
, n ∈ N.

112
Obtenção de un (x, t) = Xn (x)Tn (t)

O caso σ=0 fornece soluções constantes, que escrevemos como

a0
u0 (x, t) = .
2
No caso σ < 0, obtemos

n2 π 2 Kt
 nπx 
un (x, t) = an e− L2 cos , n∈N
L
.

Superposição

A expressão

X
u(x, t) = u0 (x, t) + un (x, t)
n=1
é a solução geral formal da equação (6.10)1 satisfazendo as condições de fronteira

(6.10)2 . Isto é,

a0 X 2 2
− n π 2Kt
 nπx 
u(x, t) = + an e L cos .
2 n=1
L

Imposição da condição inicial

Para determinar os coecientes an , devemos impor que u(x, t) satisfaça a condição

inicial (6.10)3 :

a0 X  nπx 
f (x) = u(x, 0) = + an cos .
2 n=1
L
Portanto devemos expandir f (x) em série de cossenos, tomando a série de Fourier da
extensão par, 2L -periódica f de f . Como vimos anteriormente, os coecientes an são
e
dados por
Z L
2  nπx 
an = f (x) cos dx, n = 0, 1, 2, · · · .
L 0 L

6.4 Equação da onda

6.4.1 Corda vibrante


Considere uma corda exível de comprimento L e densidade linear constante ρ, vi-

brando no plano xy , como na gura 6.2.

113
Figura 6.2: Corda vibrante

Ox e denotamos por u(x, t) o


Supomos que as vibrações são perpendiculares ao eixo

deslocamento vertical da corda na posição x, no instante t. Consideremos um pequeno

trecho da corda, entre as posições x e x + ∆x. Sejam T1 a força de tensão exercida

na extremidade direita e T2 a força de tensão exercida sobre a extremidade esquerda.

(veja a gura 6.3). Supomos que o peso da corda é desprezível em relação às forças de

Figura 6.3: Trecho da corda

tensão. Se θ1 e θ2 são os ângulos que a corda faz com a horizontal nas posições x e

x + ∆x, respectivamente, então

T1 cos θ1 = T2 cos θ2 = τ,

tendo em vista que não há deslocamento no sentido horizontal. Supomos que τ (a

componente horizontal da tensão), que independe de x, também é independente do

tempo.

Consideremos agora a segunda lei de Newton para a força resultante vertical. Seja

x̄ a posição do centro de massa do trecho considerado. A massa deste trecho é ρ∆s,

114
onde ∆s é o comprimento do arco entre os pontos x e x + ∆x. Consideraremos que a
corda executa pequenas vibrações e aproximaremos ∆s por ∆x, de modo que a massa

do trecho é aproximada por ρ∆x. Assim, temos

ρ ∆x utt (x̄, t) = T1 sen θ1 − T2 sen θ2 = τ (tg θ1 − tg θ2 ) .

Notamos agora que

tg θ1 = ux (x + ∆x, t), tg θ2 = ux (x, t).


Assim,
τ [ux (x + ∆x, t) − ux (x, t)]
ρ utt (x̄, t) = .
∆x
Fazendo ∆x → 0, obtemos

ρ utt (x, t) = T uxx (x, t).


τ
Escrevendo = c2 , obtemos que u(x, t) satisfaz a equação da corda vibrante
ρ

utt = c2 uxx . (6.11)

A constante c > 0 é chamada velocidade de propagação da onda e nos referimos à EDP

(6.11) como a equação da onda ; o motivo desta terminologia sera explicado posterior-

mente.

Consideraremos a seguir PVIFs para a equação da onda. Como a equação da onda

é de segunda ordem em t, devemos considerar duas condições iniciais: a posição inicial

da corda e a velocidade inicial da corda. Além disso, as condições de fronteira devem

indicar o comportamento da corda nas extremidades x=0 e x = L.

6.4.2 PVIF para a corda vibrante com extremidades xas


Vamos usar o método de Fourier para resolver o problema da corda vibrante com

extremidades xas (e com altura 0 nestes pontos), com posição inicial f (x) e velocidade
inicial g(x): 


 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0, (6.12)


x ∈ (0, L).

 u(x, 0) = f (x), u (x, 0) = g(x),
t

Separação de variáveis

Procuramos soluções da EDP (6.12)1 e das condições de fronteira (6.12)2 que sejam da

forma

u(x, t) = X(x)T (t).

115
Obtemos
1 T 00 (t) X 00 (x)
= =σ= constante.
c2 T (t) X(x)
Daí, chegamos as seguintes EDOs para X e T :

X 00 (x) − σX(x) = 0 e T 00 (t) − σc2 T (t) = 0.


Pelas condições de fronteira (6.12)2 , temos que

X(0) = X(L) = 0.

Determinação de X(x)

Quando estudamos o problema de Dirichlet homogêneo para a equação do calor, vimos

que os autovalores do problema



 X 00 (x) − σX(x) = 0, x ∈ [0, L],
 X(0) = X(L) = 0,

n2 π 2
são σ = σn = − e as respectivas soluções são
L2
 nπx 
Xn (x) = Bn sen , n ∈ N∗ .
L

Determinação de T (t)

Com relação à EDO para T, isto é,

T 00 (t) − σc2 T (t) = 0,


temos que a solução geral é
   
nπct nπct
Tn (t) = αn cos + βn sen , n ∈ N∗ .
L L

Obtenção de un (x, t)

Temos, para cada n ∈ N, que


 nπx   
nπct
 
nπct

un (x, t) = sen an cos + bn sen
L L L
satisfaz a equação (6.12)1 e as condições de fronteira (6.12)2 . Esta solução pode ser

escrita como  
 nπx  nπct
un (x, t) = sen Rn cos − φn ,
L L
p
onde Rn = a2n + b2n e tg φn = bn /an . Note que:

116
 nπx 
ˆ Fixado t, un é da forma un (x, t) = µ sen . Em particular, un (x, t) = 0 para
L
kL
todo t≥0 nos pontos (chamados nós) x = , com k = 0, 1, 2, · · · , n.
n
nπc
ˆ Fixado x, un (x, t) representa um MHS com frequência angular ωn = , inde-
 nπx  L
pendente de x. A amplitude da oscilação no ponto x é Rn sen .
L

Superposição

Fazendo superposição dos u0n s, procuramos escrever as soluções de (6.12)1 e (6.12)2 sob
X∞
a forma u(x, t) = un (x, t), isto é,
n=1

∞  nπx      
X nπct nπct
u(x, t) = sen an cos + bn sen ,
n=1
L L L

com an , bn constantes.

A função un é chamada n-ésimo harmônico de u. Note que un é periódica com

respeito ao tempo, com período 2L/nc e frequência

nc
νn = = nν1 .
2L
Assim, o período e a frequência de u(x, t), como função de t, coincidem com o período
e a frequência do harmônico fundamental u1 . Chamamos ν1 a frequência fundamental.

Temos s
c 1 T
ν1 = =
2L 2L ρ
fórmula de Mersenne ).
(

Imposição das condições iniciais

Agora, vamos determinar os coecientes an e bn de forma que as condições iniciais

(6.12)3 sejam satisfeitas:


X  nπx 
f (x) = u(x, 0) = an sen ,
n=1
L

X nπc  nπx 
g(x) = ut (x, 0) = bn sen .
n=1
L L

117
Para obter estas expressões para f e g, devemos estender f e g à funções ímpares,

2L -periódicas, fe e ge, respectivamente. Assim,

∞  nπx  ∞
X X nπc  nπx 
fe(x) = an sen , ge(x) = bn sen ,
n=1
L n=1
L L

onde Z L Z L
1  nπx  2  nπx 
an = fe(x) sen dx = f (x) sen dx
L −L L L 0 L
e Z L Z L
nπc 1  nπx  2  nπx 
bn = ge(x) sen dx = g(x) sen dx.
L L −L L L 0 L
Portanto,

Z L Z L
2  nπx  2  nπx 
an = f (x) sen dx e bn = g(x) sen dx .
L 0 L nπc 0 L

Exemplo 6.9 (Corda dedilhada) . Suponha que a corda seja levantada a uma altura

h em x=a e, logo em seguida, seja solta. Neste caso, as condições iniciais são

hx


 , se x ∈ [0, a],
f (x) = a e g(x) = 0.
 h(L − x) ,

se x ∈ [a, L],
L−a
Temos então o PVIF

Figura 6.4: Corda dedilhada




 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0,


x ∈ (0, L).

 u(x, 0) = f (x), u (x, 0) = 0,
t

118
Se

X  nπx 
f (x) = an sen ,
n=1
L
a solução é da forma

∞  nπx   
X nπct
u(x, t) = an sen cos .
n=1
L L

Os coecientes são calculados por

Z L
2  nπx 
an = f (x) sen dx =
L 0 L
Z a Z L
2 h  nπx  2 h  nπx 
= x sen dx + (L − x) sen dx.
L 0 a L L a L−a L
Ambas as integrais acima podem ser calculadas por integração por partes. Fica a cargo

do leitor obter a formula

2hL2  nπa 
an = sen .
a(L − a)π 2 n2 L

Assim, a solução do problema da corda dedilhada é


2hL2
 
X 1  nπa   nπx  nπct
u(x, t) = sen sen cos .
a(L − a)π 2 n=1 n2 L L L

Note que, se dedilharmos a corda no ponto médio a = L/2, os harmônicos pares serão

nulos. De fato, neste caso temos



 nπa   nπ   0, se n for par,
sen = sen =
L 2  ±1, se n for ímpar.

6.4.3 Corda com extremidades livres


Supomos agora que as extremidades da corda estão livres para se mover ao longo de

trilhos perpendiculares à corda. Neste caso, devemos considerar o PVIF





 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

ux (0, t) = ux (L, t) = 0, t > 0,


x ∈ (0, L).

 u(x, 0) = f (x), u (x, 0) = g(x),
t

Mais uma vez, usaremos o método de Fourier.

119
Separação de variáveis

Suponha que

u(x, t) = X(x)T (t)


satisfaça a EDP e as condições de fronteira. Obtemos

1 T 00 (t) X 00 (x)
= = σ = constante.
c2 T (t) X(x)
Daí, chegamos às seguintes EDOs para as funções X(x) e T (t):

X 00 (x) − σX(x) = 0 e T 00 (t) − σc2 T (t) = 0.

Pelas condições de fronteira, temos também

X 0 (0) = X 0 (L) = 0.

Determinação de X(x)

Quando estudamos a equação do calor em uma barra com extremidades isoladas ter-

micamente, vimos que o problema de valor de fronteira



 X 00 (x) − σX(x) = 0, x ∈ [0, L],
 X 0 (0) = X 0 (L) = 0,

admite apenas a solução nula quando σ > 0. O caso σ = 0 fornece as soluções


2 2

constantes X0 (x) = b. Para σ < 0, os autovalores deste problema são σn = − e
 nπx  L2
as respectivas soluções são Xn (x) = bn cos , com n ∈ N.
L

Determinação de T (t)

Com relação à EDO para T (t), ou seja

T 00 (t) − σc2 T (t) = 0,

o caso σ=0 fornece a solução

T0 (t) = Ct + D.
Já para o caso σ < 0, a solução geral é
   
nπct nπct
Tn (t) = αn cos + βn sen , n ∈ N,
L L

n2 π 2
uma vez que σ = σn = − 2 .
L
120
Obtenção de un (x, t)

Temos
c0 t k 0
u0 (x, t) = X0 (x)T0 (t) = +
2 2
e, para cada n ∈ N,
 nπx   
nπct
 
nπct

un (x, t) = Xn (x)Tn (t) = cos kn cos + cn sen .
L L L

Superposição

Fazendo superposição das soluções fundamentais un , procuramos expressar as soluções


da EDP e da condição de fronteira sob a forma

∞  nπx      
c0 t k0 X nπct nπct
u(x, t) = + + cos kn cos + cn sen ,
2 2 n=1
L L L

com kn , cn constantes. Agora, vamos impor que u satisfaça as condições iniciais:


k0 X  nπx 
f (x) = u(x, 0) = + kn cos ,
2 n=1
L

c0 X nπc  nπx 
g(x) = ut (x, 0) = + cn cos .
2 n=1
L L

Para obter tais expansões, devemos considerar as séries de Fourier das extensões pares,

2L -periódicas, fe e ge de f e g:

k0 X  nπx 
fe(x) = + kn cos ,
2 n=1
L

c0 X nπc  nπx 
ge(x) = + cn cos .
2 n=1
L L

Temos então

L
2 L
Z Z
1  nπx   nπx 
kn = f (x) cos
e dx = f (x) cos dx, n = 0, 1, 2, · · · ,
L −L L L 0 L

1 L 2 L
Z Z
nπc  nπx   nπx 
cn = ge(x) cos dx = g(x) cos dx, n = 1, 2, 3, · · · ,
L L −L L L 0 L
e
1 L 2 L
Z Z
c0 = ge(x) dx = g(x) dx.
L −L L 0
Portanto,
Z L Z L
2 2
k0 = f (x) dx , c0 = g(x) dx
L 0 L 0

121
e, para n = 1, 2, 3, · · · ,
Z L Z L
2  nπx  2  nπx 
kn = f (x) cos dx e cn = g(x) cos dx .
L 0 L nπc 0 L

6.4.4 Corda innita: a solução de d'Alembert


Considere agora uma corda vibante innita. Se a posição inicial da corda é f (x) e a

velocidade inicial é g(x), procurarmos resolver o problema de Cauchy





 utt = c2 uxx , x ∈ (−∞, ∞), t > 0,

u(x, 0) = f (x), x ∈ (−∞, ∞),


 u (x, 0) = g(x), x ∈ (−∞, ∞).

t

Note que, no problema de Cauchy, não há condições de fronteira.

Se F (x) e G(x) funções quaisquer (duas vezes diferenciáveis), notamos que

u(x, t) = F (x + ct) + G(x − ct)

é solução da equação da onda. De fato:

utt (x, t) = c2 F 00 (x + ct) + c2 G00 (x − ct) = c2 [F 00 (x + ct) + G00 (x − ct)] = c2 uxx (x, t).

Podemos interpretar tal solução u(x, t) como a superposição de duas ondas, sendo

F (x + ct) a onda que se desloca com velocidade c para a esquerda, mantendo a forma
de F (x), e G(x − ct) a onda que se desloca para a direita com velocidade c, mantendo

a forma de G(x). Por isto, dizemos que u(x, t) é superposição de uma onda regressiva

com velocidade c e uma onda progressiva com velocidade c. Isto explica a terminologia
velocidade de propagação da onda para a constante c que ocorre na equação da onda.
Reciprocamente, pode ser mostrado que toda solução da equação da onda utt =
2
c uxx é da forma u(x, t) = F (x + ct) + G(x − ct), para certas funções F (x), G(x).

Exemplo 6.10. Pondo F (x) = sen x e G(x) = xex , vemos que

u(x, t) = sen(x + 2t) + (x − 2t)ex−2t

satisfaz a equação da onda utt = 4uxx .

Tratemos agora do problema de Cauchy. Vamos procurar F (x) e G(x) de modo

que as condições iniciais sejam satisfeitas. Temos



 f (x) = u(x, 0) = F (x) + G(x),
 g(x) = u (x, 0) = c F 0 (x) − c G0 (x).
t

122
Da segunda identidade acima, concluímos que
Z x
1
F (x) − G(x) = g(s)ds + K.
c 0

Disto resulta que

1 x 1 x
 Z   Z 
1 1
F (x) = f (x) + g(s)ds + K e G(x) = f (x) − g(s)ds − K .
2 c 0 2 c 0
Portanto, obtemos a fórmula de d'Alembert :
Z x+ct
1 1
u(x, t) = [f (x + ct) + f (x − ct)] + g(s)ds .
2 2c x−ct

Exemplo 6.11. O problema de Cauchy





 utt = c2 uxx , x ∈ (−∞, ∞), t > 0,

u(x, 0) = cos x, x ∈ (−∞, ∞),


 u (x, 0) = x, x ∈ (−∞, ∞).

t

tem solução u(x, t) = cos(x) cos(ct) + xt. Deixamos a cargo do leitor utilizar a fórmula

de d'Alembert e fazer as simplicações necessárias.

6.4.5 Método de d'Alembert aplicado à corda nita


Considere o PVFI



 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0, (6.13)


 u(x, 0) = f (x), u (x, 0) = g(x) x ∈ (0, L).

t

Vamos mostrar como adaptar o método de d'Alembert para resolver o problema da

corda nita. Estenda f e g para funções ímpares 2L -periódicas fe e ge, respectivamente.


Considere a solução de d'Alembert para o problema da corda innita:

 utt = c2 uxx , x ∈ (−∞, ∞), t > 0,
(6.14)
 u(x, 0) = fe(x), ut (x, 0) = ge(x) x ∈ (−∞, ∞).

Armação: Se restringirmos a solução u(x, t) do PVI (6.14) para x ∈ [0, L], então u
será solução do PVFI (6.13).

Justicativa: Considere a solução do problema de Cauchy (6.14), isto é,

1 x+ct
Z
1 he i
u(x, t) = f (x + ct) + f (x − ct) +
e ge(s)ds.
2 2c x−ct

123
Como u(x, t) satisfaz a equação da onda para −∞ < x < ∞, em particular isto é

verdade para 0 < x < L.


Como fe e ge são ímpares 2L -periódicas, segue que

1 ct
Z
1 he i
u(0, t) = f (ct) + f (−ct) +
e ge(s)ds = 0,
2 2c −ct
1 L+ct
Z
1 he i
u(L, t) = f (L + ct) + f (L − ct) +
e ge(s)ds = 0.
2 2c L−ct

Por exemplo, observe que

fe(L + ct) + fe(L − ct) = fe(L + ct) + fe(L − ct − 2L)

(pela periodicidade de fe) e isto é igual a

fe(L + ct) + fe(−L − ct) = 0

(usando que fe é ímpar).

Por m, para x ∈ (0, L), temos

u(x, 0) = fe(x) = f (x),


ut (x, 0) = ge(x) = g(x).

Portanto, u(x, t) satisfaz o problema (6.13).

6.4.6 Comparação dos métodos de Fourier e de d'Alembert


Usando o método de Fourier, vimos anteriormente que a solução do PVFI (6.13) é

∞  nπx      
X nπct nπct
u(x, t) = sen an cos + bn sen ,
n=1
L L L

onde
Z L Z L
2  nπx  2  nπx 
an = f (x) sen dx e bn = g(x) sen dx.
L 0 L nπc 0 L
Usando as identidades
      
 nπx  nπct 1 nπ(x + ct) nπ(x − ct)
sen cos = sen + sen
L L 2 L L
e       
 nπx  nπct 1 nπ(x − ct) nπ(x + ct)
sen sen = cos − cos ,
L L 2 L L

124
obtemos

∞     
X an nπ(x + ct) nπ(x − ct)
u(x, t) = sen + sen
n=1
2 L L
∞     
X bn nπ(x − ct) nπ(x + ct)
+ cos − cos ,
n=1
2 L L

ou ainda

∞     
1X nπ(x + ct) nπ(x + ct)
u(x, t) = an sen − bn cos
2 n=1 L L
∞     
1X nπ(x − ct) nπ(x − ct)
+ an sen + bn cos .
2 n=1 L L

Denindo


1 Xh  nπx   nπx i
F (x) = an sen − bn cos (6.15)
2 n=1 L L


1 Xh  nπx   nπx i
G(x) = an sen + bn cos , (6.16)
2 n=1 L L

concluímos que

u(x, t) = F (x + ct) + G(x − ct).

6.4.7 Conservação de energia


Considere o problema da corda vibrante com extremidades xas:



 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = u(L, t) = 0, t > 0,


x ∈ (0, L).

 u(x, 0) = f (x), u (x, 0) = g(x),
t

A energia da corda vibrante é denida por

Z L
1
ρu2t + τ u2x dx,

E(t) = t ≥ 0.
2 0
p
Lembre-se que c= τ /ρ.

Armação: A energia é conservada, isto é,

Z L
1
ρ[g(x)]2 + τ [f 0 (x)]2 dx,

E(t) = E(0) = ∀ t ≥ 0.
2 0

125
dE(t)
Vamos provar que ≡ 0:
dt
Z L
dE 1 d
ρu2t + τ u2x dx

(t) =
dt 2 0 dt
Z L
1
= (2ρut utt + 2τ ux uxt ) dx
2 0
 
Z L
=  ρc2 ut uxx + τ ux uxt  dx
0
|{z}
τ
Z L
= τ (ut uxx + ux uxt ) dx.
0

Por outro lado, integrando por partes, obtemos


Z L L Z L
ut uxx dx = ut ux − ux uxt dx.

0 0 0

Logo,
dE L
= τ ut ux = τ [ut (L, t)ux (L, t) − ut (0, t)ux (0, t)] .

dt 0
0
Como u(0, t) = 0 = u(L, t), segue que ut (0, t) = ut (L, t) = 0. Portanto, E (t) ≡ 0.

Assim, temos que E(t) é constante, ou seja, E(t) = E(0), como havíamos armado.

Como aplicação, vamos mostrar a unicidade do PVIF para a corda vibrante com

extremidades xas. Isto é, existe no máximo uma solução u (como derivadas parciais

contínuas até segunda ordem) para o PVIF





 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = 0, u(L, t) = 0, t > 0,


 u(x, 0) = f (x), u (x, 0) = g(x), x ∈ (0, L).

t

De fato, suponha que u1 (x, t) e u2 (x, t) sejam soluções deste PVIF. Então u = u1 − u2
satisfaz 


 utt = c2 uxx , x ∈ (0, L), t > 0,

u(0, t) = 0, u(L, t) = 0, t > 0,


x ∈ (0, L).

 u(x, 0) = 0 u (x, 0) = 0,
t

Segue que u tem energia nula, já que as condições iniciais são nulas e E(t) = E(0).
Como
1 L
Z
ρu2t + τ u2x dx,

E(t) =
2 0
segue que ut ≡ 0 e ux ≡ 0, logo u é constante. Mas u(x, 0) = 0, logo u ≡ 0, isto é,

u1 = u2 , como queríamos mostrar.

Observação 6.3 . Note que isto mostra novamente que as soluções para o problema da

corda nita obtidas pelos métodos de Fourier e d'Alembert têm de coincidir.

126
6.5 Equação de Laplace

6.5.1 Motivação
A equação do calor bidimensional é dada por

ut = K(uxx + uyy ), onde u = u(x, y, t).

Esta equação é usada para estudar a distribuição de temperatura em uma placa. Por

sua vez, a equação da onda em duas dimensões espaciais é

utt = c2 (uxx + uyy ), onde u = u(x, y, t).

Esta equação é usada, por exemplo, no estudo de vibrações de uma membrana elástica.

Consideremos o problema de determinar as soluções de equilíbrio u = u(x, y), isto é,


soluções independentes do tempo. Para ambas as equações acima, obtemos que u(x, y)
satisfaz a equação

uxx + uyy = 0,
chamada equação de Laplace. O Laplaciano de u(x, y) é a função ∇2 u = uxx + uyy , e

assim a equação de Laplace se escreve como

∇2 u = 0.

Esta equação também surge, por exemplo, no estudo de potenciais eletrostáticos. Por

isso, a equação de Laplace também é conhecida como a equação do potencial.


Denição 6.3. Seja R uma região aberta de R2 . Uma função u : R → R de classe C 2
(isto é, com derivadas parciais contínuas até segunda ordem) é dita harmônica em R

se u satisfaz a equação de Laplace em R.

Exemplo 6.12. A função u(x, y) = x2 − y 2 é harmônica em R2 .

O problema de Dirichlet na região R consiste em solucionar o problema de valor de


fronteira 
 u + u = 0 para (x, y) ∈ R,
xx yy
 u(x, y) = f (x, y) para (x, y) ∈ ∂R.

Aqui, ∂R denota a fronteira de R e f é uma função dada. Impomos que u seja uma

função contínua em R = R ∪ ∂R. Note que esta região é fechada e limitada, portanto a

solução u do problema de Dirichlet é, em particular, uma função limitada em D : r ≤ a.

Por exemplo, se quisermos determinar a função temperatura de equilíbrio no interior

de uma placa, tal que a distribuição de temperatura no bordo esteja xada, devemos

resolver um problema de Dirichlet.

127
6.5.2 Problema de Dirichlet em um disco
SejaD o disco aberto de raio a centrado na origem. Assim, D é descrito pela inequação
x + y 2 < a2 e a fronteira de D é o círculo com equação x2 + y 2 = a2 . Queremos resolver
2

o problema de Dirichlet

 u + u = 0,
xx yy para (x, y) ∈ D,
(6.17)
 u(x, y) = ϕ(x, y) para (x, y) ∈ ∂D,

onde ϕ : ∂D → R é uma função dada. É natural que usemos coordenadas polares


(r, θ), pondo x = r cos θ, y = r sen θ, com (r, θ) ∈ [0, a] × [0, 2π]. Se u(x, y) é solução do
problema 6.17, denimos

v(r, θ) = u(r cos θ, r sen θ).


Usando a regra da cadeia, podemos calculas as derivadas parciais de primeira e segunda

ordem de v em relação a θ e r; por exemplo,

vr = (cos θ)ux (r cos θ, r sen θ) + (sen θ)uy (r cos θ, r sen θ).

Procedendo desta forma e usando a equação de Laplace para u(x, y), obtemos que

v(r, θ) satisfaz a equação de Laplace em coordenadas polares


1 1
vrr + vr + 2 vθθ = 0.
r r
o cálculo é elementar mas longo, e será omitido. A seguir, denotaremos v por u.
Devemos assim considerar o problema de Dirichlet

 urr + 1 ur + 1 uθθ = 0 em

(0, a) × (0, 2π),
r r2 (6.18)
 u(a, θ) = f (θ), θ ∈ [0, 2π].

Aqui, f (θ) = ϕ(a cos θ, a sen θ). Note que f (θ) é uma função 2π -periódica.
A seguir, vamos usar o método de Fourier para resolver o problema de Dirichlet

6.18.

Separação de variáveis

Inicialmente, procuramos soluções u(r, θ) da equação de Laplace em coordenadas po-

lares da forma

u(r, θ) = R(r)Θ(θ). (6.19)

Aqui, Θ é uma função periódica com período 2π .

Substituindo na equação de Laplace, obtemos

R00 (r) R0 (r) Θ00 (θ)


r2 +r =− = σ = constante.
R(r) R(r) Θ(θ)

128
Figura 6.5: Equação de Laplace num disco

Logo, as EDOs para as funções Θ e R são, respectivamente,

Θ00 (θ) + σΘ(θ) = 0,


r2 R00 (r) + rR0 (r) − σR(r) = 0.

Note que a EDO para R(r) é do tipo Euler-Cauchy.

Determinação de Θ(θ) e de R(r)

(i) σ = 0
Neste caso, Θ(θ) = aθ + b. Impondo que Θ(θ) seja periódica, obtemos

Θ0 (θ) = b .

Considerando a EDO para R(r), temos

R00 (r) 1
r2 R00 (r) + rR0 (r) = 0 ⇒ = − ⇒ ln |R0 (r)| = − ln r + c ⇒ R0 (r) = k1 r−1 .
R0 (r) r

Assim,

R(r) = k1 ln r + k2 , k1 , k2 ∈ R.
Como u é limitada, R(r) deve ser limitada quando r → 0. Logo, k1 = 0 (já que

ln r → −∞ quando r → 0+ ). Portanto, obtemos

R0 (r) = k2 .

(ii) σ < 0

129
A solução geral para a EDO

Θ00 (θ) + σΘ(θ) = 0


é
√ √
−σθ
Θ(θ) = c1 e + c2 e − −σθ
.
Mas Θ(θ) é periódica, logo devemos ter c1 = c2 = 0. Logo, o caso σ<0 só produz a

solução trivial.

(iii) σ > 0
Neste caso, a solução geral da EDO para Θ é

√ √
Θ(θ) = c1 cos( σθ) + c2 sen( σθ).

Como Θ é 2π−periódica, devemos ter


σ = n, n ∈ N.

Assim, obtemos

Θn (θ) = An cos(nθ) + Bn sen(nθ), n∈N .


Vejamos, por m, a EDO para R(r):

r2 R00 (r) + rR0 (r) − n2 R(r) = 0.

Por se tratar de uma equação de Euler-Cauchy, buscamos soluções particulares da

forma rm , e obtemos m = ±n. Logo,

Rn (r) = an rn + bn r−n , n = 1, 2, 3, · · · .

Como u é limitada, Rn (r) deve ser limitada quando r → 0. Logo, bn = 0 (pois


−n
r → +∞ quando r → 0+ ). Portanto,

Rn (r) = an rn , n∈N .

Obtenção de un (r, θ)

Vimos acima que o caso ω = 0 produz soluções constantes. De fato, u0 (r, θ) =


R0 (r)Θ0 (θ) = bk2 . Por conveniência, escrevemos

c0
u0 (r, θ) = .
2

Por outro lado, para cada n ∈ N, o caso σ>0 fornece as soluções

un (r, θ) = an rn (An cos(nθ) + Bn sen(nθ)) .

130
Superposição

Aplicando superposição das soluções un , procuramos escrever as soluções da equação

de Laplace (em coordenadas polares) sob a forma


X
u(r, θ) = u0 (r, θ) + un (r, θ),
n=1

ou seja,

c0 X n 
u(r, θ) = + r αn cos(nθ) + γn sen(nθ) .
2 n=1

Imposição da condição de fronteira

Impondo a condição de fronteira, devemos ter


c0 X n 
f (θ) = u(a, θ) = + a αn cos(nθ) + γn sen(nθ) .
2 n=1

Como obtemos os coecientes? A função f (θ) é 2π−periódica; considere sua série de

Fourier:

c0 X 
f (θ) = + cn cos(nθ) + dn sen(nθ) .
2 n=1

Devemos ter cn = an αn e dn = an γn . Notamos que os coecientes de Fourier de f (x)


são dados por Z π
1
cn = f (θ) cos(nθ) dθ, n = 0, 1, 2, · · ·
π −π
e Z π
1
dn = f (θ) sen(nθ) dθ, n = 1, 2, 3, · · · .
π −π
Como f é 2π -periódica, valem tembém as fórmulas

Z 2π
1
cn = f (θ) cos(nθ) dθ, n = 0, 1, 2, · · · ,
π 0

e
Z 2π
1
dn = f (θ) sen(nθ) dθ, n = 1, 2, 3, · · · .
π 0

Portanto,

c0 X h  r  n  r n i
u(r, θ) = + cn cos(nθ) + dn sen(nθ) .
2 n=1
a a

Exemplo 6.13. Note que o valor de u no centro do disco é igual a média de f sobre

o intervalo [0, 2π]. De fato,


c0
u(0, θ) = ,
2
131
Z 2π
1
onde c0 = f (θ) dθ. Portanto:
π 0

Z 2π
1
u(0, θ) = f (θ) dθ .
2π 0

Exemplo 6.14. Encontre a solução da equação de Laplace no disco D : x2 + y 2 < 9,


sabendo que u(x, y) = x2 sobre ∂D : x2 + y 2 = 9.
Solução. Seja v(r, θ) = u(r cos θ, r sen θ). Note que, a condição de fronteira, em coor-

denadas polares, torna-se

v(3, θ) = f (θ) = 9 cos2 θ.


Usando a identidade trigonométrica 2 cos2 θ = 1+cos 2θ, obtemos que a série de Fourier
de f é
9 9
f (θ) = + cos 2θ.
2 2
Portanto,
9 9  r 2 9 r2 cos 2θ
v(r, θ) = + cos 2θ = + .
2 2 3 2 2
Como

r2 cos 2θ = r2 cos2 θ − 2
θ = x2 − y 2 ,

sen

concluímos que

9 + x2 − y 2
u(x, y) = .
2
Exemplo 6.15. Encontre a temperatura de equilíbrio em uma chapa circular de raio

a, sabendo que, na fronteira, a temperatura no semicírculo superior está xada em 1


unidade e a temperatura no semicírculo inferior está xada em 0. Ou seja, encontre a
2 2 2
solução u(r, θ) da equação de Laplace no disco D: x + y < a , satisfazendo u(a, θ) =
f (θ), onde

 1, se θ ∈ (0, π),
f (θ) =
 0, se θ ∈ (π, 2π).
1
Calcule a temperatura no ponto x = 0, y = a/2, isto é, u(a/2, π/2) com erro < .
100
Solução. Primeiramente, vamos calcular os coecientes de Fourier de f:
Z 2π Z π
1 1
c0 = f (θ) dθ = dθ = 1,
π 0 π 0
Z 2π Z π
1 1 1 π
cn = f (θ) cos(nθ) dθ = cos(nθ) dθ = sen(nθ) = 0,

π 0 π 0 nπ 0
Z 2π Z π π 1 − cos(nπ)
1 1 1
dn = f (θ) sen(nθ) dθ = sen(nθ) dθ =− cos(nθ) = .

π 0 π 0 nπ 0 nπ

132
Ou seja, c0 = 1, cn = 0 paran = 1, 2, 3, · · · , e

 0, para n par,
dn =
 2 , para n ímpar.

Assim,

1 X 2  r 2k+1
u(r, θ) = + sen [(2k + 1)θ] .
2 k=0 (2k + 1)π a
Em particular,


1 2X
u(a/2, π/2) = + (2k + 1)−1 2−(2k+1) sen [(2k + 1)π/2]
2 π k=0
 
1 2 1 1 1
= + − + − ··· .
2 π 2 3 · 23 5 · 25

Logo,
1 1 1
u(a/2, π/2) ≈ + − ≈ 0, 79.
2 π 12π
Como a série entre parênteses satisfaz as hipóteses do teste de Leibniz para séries

alternadas, segue que o erro da aproximação da série pelos dois primeiros termos é
2 1 1
menor que
5
< .
π 5.2 100

133