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N e l s o n Ro d ri gu e s

A M IS S A
CÔMICA
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Uma das figuras obrigatórias desta coluna é a minha úlcera.


Com o tempo, porém, criou-se entre mim e a ferida uma
acomodação recíproca e total. Trato-a a pires de leite, como uma
gata. Outras vezes, dou-lhe mingaus hediondos. E não raro, quando
ela está bem, pacificada, sinto a falta de sua dor. Ah, se eu fosse
um são Francisco de Assis, diria: — “Nossa irmã, a úlcera”. Ontem,
alta madrugada, ela me despertou. Está ardendo em minhas
entranhas. Como queima, meu Deus! Saio da cama e, no escuro,
persigo os chinelos. Achei, achei. Venho para a cozinha. Teria de
vencer uma última dúvida: — “Mingau ou copo de leite?”. A minha
opção foi o mingau. A dor vai passando. Acabo a papinha, venho
para a janela. Acendo um cigarro, embora o fumo seja um veneno
para minha úlcera (Lúcia vive dizendo: — “Você só deve fumar seis
cigarros por dia”. Eu, com o maior descaro, prometo, juro, dou-lhe a
minha palavra de honra).
Na janela da madrugada, penso: — “D. Hélder está quieto.
Vou passar um mês sem falar em d. Hélder”. E não me ocorre que
esse mês de silêncio será uma desfeita para o arcebispo. Sua
figura, sua batina e sua alma exigem promoção. Ter o nome
impresso, a cara impressa, a palavra impressa — eis a sua gloriosa
fome. Seja como for, achei que, durante trinta dias, podia dar-lhe o
abominável silêncio. Volto para cama e durmo.
De manhã acordo e peço os jornais. Leio um, leio outro e
não vejo o nome, o retrato de d. Hélder. Começo a não entender.
Eis o que me pergunto: — “Por que não fala? Por que não faz
declarações?”. Tão irreal, tão absurdo d. Hélder calado. E, súbito,
estremeço. Na última página de um suplemento, vou ler “As frases
que ficaram” e encontro uma que me lança na mais dolorosa
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perplexidade.
Era de d. Hélder. Lá explicava o arcebispo de Olinda que não
é nada demais rezar missa ao som da música popular. “Por que
apenas os órgãos, os violinos, apenas os címbalos podem louvar a
Deus, e não o reco-reco, a cuíca e o tamborim?”
Li aquilo e reli. Por um momento, imaginei uma catedral.
Passo a outro tópico porque o assunto justifica. Estamos na
catedral. Já começou a missa. Mas não uma missa como há muitas,
como há milhares, como há milhões. Não e absolutamente. Desta
feita, a missa, a santa missa tem, por fundo, “Mamãe, eu quero
mamar”. Lá estão os padres, os coroinhas. E, ao mesmo tempo que
cumprem o cerimonial, os padres e os coroinhas fazem toda uma
ginga de ventre e quadris e sambam com uma impressionante
variedade rítmica.
Se vocês visualizaram a coisa, hão de imaginar o infalível
efeito visual e auditivo. Os reacionários poderão objetar que uma
catedral nunca foi uma gafieira. Aí está um desprimoroso sofisma.
Acaso a gafieira não será também filha de Deus? E, além disso, se
bem entendi o arcebispo de Olinda, também a missa tem de ser
atualizada.
E existe o tempo que, como se sabe, não perdoa. Há um
desgaste das horas, dias, meses e anos. Na década de vinte a
trinta, Benjamim Costallat era o Proust. Dançava-se o charleston. O
tango ainda não era um defunto. Do mesmo modo, a Igreja não
pode sentir, pensar, agir como na Idade Média. O dr. Alceu escreve
sobre o “progressismo”. E, seguindo a mesma linha que o d. Hélder,
propõe a “missa cômica”. O sobrenatural na gafieira.
Convoco um leitor a um terreno baldio. Não há ninguém por
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perto ou por outra: — há uma cabra vadia e, felizmente, uma cabra


de bem, digna de toda a confiança. E, aqui, neste capinzal
paradisíaco, eu e o leitor podemos dizer as últimas um ao outro.
Não sejamos injustos com d. Hélder. Se não, vejamos: —
cada época tem a sua fé. Só os bovinos, os pascácios podem
imaginar uma fé perfeita, irretocável, imutável. É preciso dançar de
acordo com a música ou, melhor dizendo, de acordo com a moda.
Depois de assim falar ao leitor, no terreno baldio, eu passo a
comunicar-lhe as minhas fantasias. Já que d. Hélder colocou a fé
em termos de gafieira, eu, de bom grado, vou enriquecer a sua
missa cômica. Eis a cena: — os padres e coroinhas estão
sambando. E, súbito, os santos entram no brinquedo. Por sua vez,
as velhinhas beatas se sacodem como patas no tanque. Há
números espetaculares. São Benedito revela-se um passista
emérito. Com um dedo roda o pandeiro. Outro santo equilibra
laranjas no focinho, como uma foca amestrada. Ainda outro planta
bananeira e põe labaredas pelas ventas etc. etc. etc.
E notem como d. Hélder enxerga longe. A gafieira estava
fazendo concorrência à fé. Portanto, vamos trazer para as catedrais
o reco-reco, a cuíca e o tamborim. (Eis que me dá, de repente, um
tédio mortal dos tamborins, cuícas e reco-recos de d. Hélder.)
Mas tenho ainda outro assunto paralelo. É o seguinte: — eu
era garotinho quando uma tia leu para mim os Dez Mandamentos.
Súbito ouço, pela primeira vez o “Não matarás”. Ninguém imagina o
espanto, o medo e o deslumbramento que senti. Foi o Mandamento
que mais doeu e mais fascinou a minha infância. E, muitos anos
depois, já adulto, e até hoje, continuo ouvindo o “Não matarás”,
eternamente. (Em 1929, meu irmão Roberto foi assassinado. E
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como me feriu, na carne e na alma, o “Não matarás”.)


Quero saber se vocês leram o que disse o dr. Alceu sobre
guerrilhas. Se não leram, vamos lá. Eis o que declara o eminente
pensador católico: — só não é favorável às guerrilhas no Brasil
porque os nossos camponeses não são politizados. Por uma
dedução obrigatória verificamos que, em caso de tal politização,
nosso Tristão nada teria a opor às guerrilhas brasileiras. No resto
do mundo, ótimo que elas continuem bebendo sangue.
Eis o que eu desejaria perguntar ao piedoso Tristão de
Athayde. Que idéia faz ele de guerrilha? Pensa talvez que é algum
piquenique? Não sabe que guerrilha mata? Mata, dr. Alceu, mata. E
como é que o senhor enxota o “Não matarás” como quem afasta,
com o lado do sapato, uma barata seca?
[O GLOBO, 17/3/1968]