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Nelson Rodrigues

OS ABNEGADOS
Há uma página de Os Maias que não consigo esquecer.
Imaginem um ministro de Educação que não tinha cara, só tinha
testa. Nem um mísero e escasso fio de cabelo.
Tamanha testa foi o seu destino e sua glória. Ele não precisava
ciciar uma palavra, ou desdenhar um gesto, ou piscar um olho. A testa
bastava e repito: – a testa era a evidência mesma do gênio.
Uma noite, está o nosso ministro numa recepção.
Cercado de damas e cavalheiros por todos os lados. E, súbito,
alguém fala na Inglaterra. S. exª achou bonito o nome, o som. Inglaterra.
E vira-se, então, para o Ega, que estava a dois passos. Pergunta-lhe: –
“Sabe se, na Inglaterra, há folhetinistas de pulso, como aqui? Talentos
como os nossos?”.
Primeiro, o Ega tem uma vertigem diante da testa inaudita.
Em seguida, informa: – “Lá não há literatura”. Diz então o
ministro: – “Logo vi. Povo prático, essencialmente prático”.
Eis o que eu queria dizer: – sou um pouco essa admirável testa
de Os Maias. Em criança, só li folhetim. E ainda hoje, tanto tempo
depois, ainda preservo a nostalgia dos Sue, dos Perez Scrich, dos Dumas
pai, dos Ponson du Terrail. Outro dia, vou a uma festinha em casa de
um amigo.
E, de repente, vem a dona de casa, com um pratinho.
Pergunta: – “Aceita rocambole?”. Esse nome arremessou-me
no passado profundo. “Rocambole” era o nome de um herói de Ponson
du Terrail e título também do próprio folhetim.
Disse, radiante: – “Pois não, pois não”. E os dois ficaram
justapostos na minha memória: – o personagem e o doce, o folhetim e
o prato.
Essa mesma experiência proustiana tenho eu quando me chega

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uma carta anônima. E aí está uma marca de leituras pasmas. Como se
sabe, a carta anônima é um dos artifícios mais felizes do velho folhetim.
O marido a recebia (e o marido era sempre sórdido e obeso). Lá vinha
escrito: – “Considere-se miseravelmente enganado”. E se disparava a
intriga romanesca. Na altura dos meus oito, nove, dez anos, daria tudo
para receber uma torpe carta anônima.
Fiz a introdução acima para contar o que me sucedeu ontem.
Vou ler a minha correspondência e já no primeiro envelope
tenho o impacto. É que a carta não trazia assinatura. Ah, o homem diz,
na carta anônima, o que não ousaria dizer ao padre, ao psicanalista e ao
médium, depois de morto. O menino do folhetim veio à tona. Comecei
a ler.
Começava assim: – “Nelson, você é um traidor”. Minha
curiosidade assumiu proporções inéditas. Traidor, eu? Da pátria, talvez.
Entre parênteses, assim como há uma rua Voluntários da Pátria, podia
haver uma outra que se chamasse, inversamente, rua Traidores da
Pátria. Em seguida, a carta anônima informa que sou traidor da própria
classe. Qual delas? Tenho duas: – por um lado, faço jornalismo; por
outro lado, faço teatro. Segundo a carta, era traidor da classe teatral.
Quando cheguei à última linha, voltei à primeira e reli tudo. Só então
fui-me olhar no espelho.
E vi, na minha cara, o esgar hediondo da traição.
Fica de pé a pergunta: – e por que traidor? Vejamos os fatos.
O Estado de S. Paulo fez um editorial, ou dois editoriais, que
desagradaram a classe. E que faz a classe?
Reúne-se e, por unanimidade, resolve devolver os Sacis que o
velho órgão distribui entre os melhores de cada ano, no cinema e no
teatro. E, não satisfeita, a assembléia decidiu, e por outra unanimidade,

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uma passeata-monstro. Mas, vejamos. A classe ia marchar contra quem?
Aqui começa o doloroso, o comprometedor, o humilhante: – contra um
jornal. Se os meus colegas saíssem pelas ruas paulistas decapitando
marias antonietas e derrubando bastilhas, eu estaria admirando a
ferocidade teatral. Mas a nossa vítima é uma redação, vejam vocês, uma
redação. Por outro lado, tenho algumas dúvidas perturbadoras.
O Saci é uma pequena estatueta. E se fosse um prêmio em
dinheiro? Repito: – se o Saci fosse um cheque de 5 milhões de
cruzeiros? E nem precisa tanto. Imaginemos um cheque mais modesto
de 1 milhão ou menos do que isso: – de 500 mil cruzeiros antigos.
Pergunto se os manifestantes devolveriam o dinheiro vivo. Duvido, isto
é, afirmo que ninguém devolveria um centavo. Portanto, vamos
desconfiar de um desprendimento que não desembolsa um tostão.
Nem considero a unanimidade um argumento decente.
Quanto ao meu caso pessoal, estou farto de repudiar
unanimidades. Além disso, como eu sou um premiado, e não vou
devolver Saci nenhum, não existe tal unanimidade. Mas, vamos admitir
que todos, absolutamente todos, estejam contra O Estado de S. Paulo.
Eu estaria a favor. Não me solidarizo com os erros, os equívocos, de
minha classe. Diz a carta anônima: – “Uma classe não erra. Uma classe
sempre tem razão”.
Nada mais falso. Homens; classes, povos são suscetíveis dos mais
sinistros enganos ou das mais hediondas torpezas. O motivo e a origem
de tudo foram dois editoriais. Que fossem duzentos. Qualquer jornal
tem o direito de escrever como quiser e o que quiser, sem dar
satisfações a ninguém. Falo por experiência própria. Ao longo de vinte
anos, fui o único autor obsceno do Brasil. E, durante esse período, fui
chamado de “tarado” em manchete. Os críticos me xingavam de

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“cérebro doentio”, de “caso de polícia”, de “louco varrido”. O dr. Alceu
Amoroso Lima disse horrores de mim. Em momento nenhum, neguei-
lhe o direito de me dizer tais horrores. Sempre quis a imprensa livre.
Diz a carta que a classe quer a liberdade. Ah, os nossos
libertários! Bem os conheço, bem os conheço. Querem a própria
liberdade. Dos outros, não. Que se dane a liberdade alheia. Berram
contra todos os regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua
ditadura. A passeata que se fez é, precisamente, contra a liberdade de
imprensa. Queremos um teatro livre. E, ao mesmo tempo, pretendemos
exercer uma censura, vejam vocês. Os censores da imprensa somos nós,
atores, atrizes, autores. Em nome da liberdade, agredimos a liberdade.
Ainda bem que o nosso heroísmo começou e acabou na devolução dos
Sacis. E assim o pessoal de teatro desceu do palco e foi às ruas,
representar de libertário.

[O GLOBO, 22/6/1968]