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N e l s o n Ro d r i gue s

O c u lto d a
i m a t u ri d a d e
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Está sendo representada, em São Paulo, a minha
“farsa irresponsável”, Viúva, porém honesta. O autor é velho,
a peça é velha e há personagens bem idosos, e, eu diria
mesmo, gagás. Um desses personagens, clínico famoso, chega
a dizer: — “Estou na idade em que os médicos começam a
vender amostras”. O leitor pode imaginar uma velhice
unânime, a tropeçar nas cadeiras do cenário.
Nem tanto, nem tanto. Alguém se salva da esclerose
abjeta, quase unânime. Refiro-me ao “jovem diretor” Líbero
Ripoli Filho. Foi com maliciosa intenção que eu coloquei
aspas na sua juventude. Em nossa época, ser ou não ser
jovem, eis a questão. Na minha infância, o jovem tinha
vergonha de o ser. Todo mundo queria ser velhíssimo. E
havia casos, como o do Conselheiro Rui Barbosa, de
septuagenários natos.
Em nossos dias acontece exatamente o inverso. Diz-se
“o jovem” como se diria “o engenheiro”, “o arquiteto”, “o
médico”, “o advogado”, “o magistrado”, etc. etc. Há também,
por toda parte, o “Poder Jovem”. E conheço um rapaz,
dentista, que mandou fazer assim o seu cartão de visitas:
— “Zezinho dos Anzóis Carapuça”, e, por baixo, em tipo
maior, estava escrito: — JOVEM.
Para o nosso tira-dentes era mais funcional ser jovem
do que dentista.
Por aí se vê que o culto da personalidade foi

1
Crônica publicada originalmente em 16.05.68 e extraída do livro O óbvio ululante.
substituído, em boa hora, pelo culto da idade. Minto. Não é
bem assim. O que há, em todos os idiomas, é “o culto da
imaturidade”. O nosso tempo exige das pessoas plena
imaturidade.
Não pensem que exagero. Neste final de século, a
Imaturidade é a musa perfeita, sereníssima, universal. E
aqueles que, por azar, atingiram a maturidade, trataram de
assumir atitudes de ginasiano em gazeta. Se o dr. Alceu2 for
visto jogando bola de gude com os moleques, ou brincando de
amarelinha, não me admirarei nada, nada. Seria uma
maneira de parecer jovem ou, na pior das hipóteses,
espiritualmente jovem. Do mesmo modo, D. Hélder3. Se o
querido arcebispo pular muros para roubar goiabas —
ficaremos encantadíssimos com a sua imaturidade.
Bem. Fiz toda a reflexão acima para voltar ao Líbero
Ripoli Filho. O fato de ser ele um “jovem diretor” já
desencadeou em mim um processo de pânico.
Desgraçadamente, não tenho, como vários sacerdotes meus
conhecidos, o “culto da imaturidade”. Claro que o jovem
Líbero podia ser um Rimbaud. Aos dezessete anos, Rimbaud
já era Rimbaud.
Eu não o conhecia pessoalmente, senão de informação.
Tremi quando soube que seguia a mesma linha, exatamente,
do José Celso4. Sou amigo e admirador deste último. Mas a

2
Alceu Amoroso Lima, também conhecido como Tristão de Ataíde.
3
Dom Hélder Câmara.
4
José Celso Martinez Corrêa.
sua direção nada tem a ver com o autor, nem com o teatro.
Como o Vianinha5, o nosso Zé Celso acha que só a platéia
existe. Em suma: — para ele e o Líbero o mistério teatral
reduz-se a duzentas senhoras gordas comendo pipocas.
Dirá o leitor: — “É uma idéia”. E eu concordo. “É uma
idéia”. Mas aí começa o cavo e afetuoso abismo entre mim e o
Zé Celso, entre mim e o Ripoli. Assim como o Zé Celso acha
que o espetáculo nada tem a ver com o autor, eu entendo que
o teatro nada tem a ver com a platéia. Só reconheço na
platéia uma função estritamente pagante. Não devia ter nem
o direito do aplauso. O aplauso já me parece uma
exorbitância.
Vou um pouco mais longe: — também acho que, por
causa da platéia, o teatro é a mais incriada das artes. Mesmo
os maiores poetas dramáticos escrevem para a platéia. A
rigor, não existe o autor dramático absoluto, já que todos
aceitam a co-autoria das duzentas senhoras gordas. Elas não
sabem de nada, não entendem de nada, não pensam nada.
Mas o espetáculo é feito para elas e, repito, feito à sua
imagem e semelhança. E, porque existe uma co-autoria
bastarda, o teatro ainda não conseguiu ser arte.
Até que estreou, em São Paulo, Viúva, porém honesta.
As primeiras notícias pareciam justificar os meus terrores. A
primeira informação foi a de Osmar Pimentel, admirável
espírito, homem de lucidez prodigiosa. Em carta a um amigo,

5
Oduvaldo Vianna Filho.
Dr. Thalino, fala o nosso Osmar dos “jovens diretores” que,
“misturando Brecht com Chacrinha, confundem
comunicação, em arte, com a participação física do auditório
no cricri da encenação”. Entre parênteses, nada tenho a
objetar contra o Chacrinha. Digo mais: — Chacrinha, como
tal, é um artista maravilhoso. Ao mesmo tempo, tenho que
reconhecer o óbvio, isto é, que José Celso ou Ripoli não
podem fazer Chacrinha com Shakespeare, ou Ibsen, ou
Sófocles.
Em seguida, leio a crítica do Sábato Magaldi. Ora, nem
a cambaxirra tem uma estrutura tão doce quanto o Sábato.
Até sua restrição é um arrulho. E ele tem o medo, o remorso,
a vergonha, a pena de não gostar. Apesar de todo o seu
escrúpulo crítico e de toda a doçura de sensibilidade, sente-
se que o Sábato achou abominável o espetáculo. Não chega a
tanto, mas a insinuação é límpida.
No próprio Jornal da Tarde, onde o Sábato escreve, está
dito tudo. Antes de ser mostrada ao público, Viúva, porém
honesta teve quarenta representações para estudantes. E,
durante o espetáculo, em plena ação, os personagens
desciam para a platéia e corriam bandejas com sanduíches,
salgadinhos, Coca-Colas, guaranás, guardanapos de papel.
Os estudantes não queriam outra vida. No Rio, fechava-se o
Calabouço; em São Paulo, abria-se outro Calabouço. Em
suma: — eu sou o novo Calabouço, eu!
Eu falara nas duzentas senhoras comendo pipocas. Era
uma metáfora. Mas vem o Líbero e transforma a metáfora em
realidade concreta, sim, em realidade de comer. Comia-se a
realidade com direito a Coca-Cola e guaraná. Só que as
pipocas foram substituídas por sanduíches. E os estudantes,
nas primeiras representações, tomaram o lugar das
gorduchas.
Pelo amor de Deus, ninguém pense que eu esteja aqui
fazendo uma restrição intelectual ao Zé Celso e ao Líbero. De
modo algum. São inteligentes, modernos, revolucionários.
Mas o mal reside, precisamente, em tais méritos, em tais
virtudes. A inteligência está liquidando o teatro brasileiro.
Daqui por diante, só darei uma peça minha ao diretor que
provar a sua imbecilidade profunda.