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Por que o brasileiro ama falar no

diminutivo
22/01/2019 Publicado às 14h30
IAN WALKER

Eu estava no Brasil havia menos de 24 horas quando me revelaram um segredinho.


Em um barzinho, quando o sol se punha, um novo amiguinho brasileiro que conheci
no meu hostel no Rio de Janeiro tinha uma garrafa gelada de cerveja Antarctica na
mão.
Conversando sobre a noite que teríamos pela frente, ele nos serviu a bebida e me
disse: "Se você quiser falar com uma garota hoje à noite, não a chame para tomar
uma cerveja; pergunte se ela gostaria de uma cervejinha. Ela vai adorar se você
usar essa palavra".
E foi assim que fui apresentado à fofa, porém complicada conversinha brasileira.
Não falo daqueles papinhos gentis sobre o tempo, mas do hábito que os brasileiros
têm de usar diminutivos para dar um charme às suas frases, adicionando o sufixo
inho/inha ou zinho/zinha.
Para muitos brasileiros, é como se uma montanha de diminutivos mudasse o sabor
de suas palavras nesse processo.
LEMBRANÇA DA INFÂNCIA
A meteorologista Carine Malagolini, de São Paulo, diz que os diminutivos são uma
forma de conversa infantil que os brasileiros nunca deixaram para trás.
"Usamos muitos diminutivos e muitas vezes sem perceber. Eu acho que o uso deles
veio da infância, porque nós ouvíamos e conversávamos assim com nossos pais.
Por exemplo, eles perguntavam 'Você quer uma bananinha?'", diz.
Literalmente, os inhos e inhas fazem as coisas serem menores, efetivamente
suavizando uma palavra, tornando-a fofa e gentil. E enquanto em inglês diminutivos
são vistos como algo infantil (gatinho, cãozinho, mamãezinha), todo mundo no
Brasil, de políticos a médicos, utiliza-os sem qualquer indício de ironia.
Para um país tão famoso por suas grandes coisas - a Amazônia, o Cristo Redentor
e o Carnaval - o Brasil pode, de uma forma engraçada, ser considerado a terra dos
diminutivos.
Praticamente nenhuma palavra está imune à diminuição.

CONTEXTO É IMPORTANTE
Mas logo descobri que os diminutivos podem acrescentar todo tipo de significado
oculto que pode fugir à percepção de um estrangeiro.
Contexto é tudo nessa dança linguística. Como meu novo amigo brasileiro depois
me explicou, usar "cervejinha" em vez de "cerveja" implicava um convite inocente e
amistoso, sem nenhuma intenção de se embebedar até tarde da noite e tudo o que
isso envolve. "Genial", pensei. "Um sufixo pode dizer tudo isso?"
O linguista da Universidade de Brasília Marcos Bagno explica: "O diminutivo em
'inho' e 'inha', além de indicar o tamanho pequeno de algo, traz uma sensação de
bondade e afeição - muito característicos do espírito brasileiro".
A advogada Suzana Vaz, do Rio de Janeiro, é uma das muitas brasileiras que
adoram usar diminutivos. Antes de falarmos deste hábito linguístico, ela admitiu que
nunca tinha realmente notado o quanto ela os usava. E explicou que "pessoas
doces geralmente falam assim".
"Então, quer dizer que você é doce ou que os brasileiros são em geral?", perguntei.
"Os brasileiros são mais calorosos, amorosos. Eles gostam de contato, do corpo a
corpo. Eles são vivazes. Falar no diminutivo é uma forma de carinho na maior parte
do tempo, é a suavidade na fala ", disse ela.

ESPERAR UM MINUTINHO É UMA ETERNIDADE


O engraçado dos diminutivos no Brasil é que eles muitas vezes suavizam tanto o
significado das palavras que acabam dando a elas um sentido oposto.
Como quando minha namorada brasileira me pediu para "esperar só um minutinho"
enquanto ela se arrumava. Depois de esperar mais 15 desses alegados pequenos
minutos, perguntei como ela poderia dizer um "minuto" como "um minutinho" com a
consciência tranquila.
"Mas isso faz com que esses minutos passem mais rápido", ela me assegurou com
um sorriso amoroso, o diminutivo saindo de sua língua como se pudesse dobrar o
tecido do espaço e do próprio tempo.
Da mesma forma, uma vez fui convidado para uma festa em uma "casinha". Algum
tempo depois, meu Uber estacionava em frente a uma mansão de quatro andares
com uma piscina.
"Bela 'casinha'", eu disse ao dono. "Ah, sim", ele riu. "Isso não significa que a casa é
pequena, significa que é um lugar aconchegante onde você deve se sentir
confortável e bem-vindo."
E no verdadeiro estilo brasileiro, em meio a uma noite de risadas e dança com um
bando de estranhos, me senti em casa.
E apesar do que eu disse anteriormente, a chamada "cervejinha" normalmente se
transforma em uma mesa cheia de garrafas vazias no fim da noite.
Com exemplos como esses se acumulando, comecei a entender o fato de que usar
diminutivos no Brasil pode ser tanto uma maneira divertida de falar quanto literal.
O professor de português Jean Fonseca, da escola de idiomas Caminhos, nota que
há casos de diminutivos que se transformaram em outras palavras.
Camisa é a palavra para a peça de roupa em português, então, camisinha
naturalmente levaria você a acreditar que é uma camisa menor. Errado. No Brasil,
camisinha é, na verdade, o nome popular do preservativo para o sexo. "[O nome
camisinha] foi usado como uma estratégia para popularizar o preservativo entre as
pessoas", fala Fonseca.
"O nome original de 'preservativo' foi apelidado de 'camisa de Vênus' por causa da
deusa romana do amor. E aí se tornou 'camisinha'."

PODER DE MUDAR AS COISAS


Mas os diminutivos no Brasil também têm seu lado subversivo. Tal é o seu poder
que eles podem fazer algo ruim soar como algo bom, algo rude soar como algo
agradável e algo chato soar como algo divertido.
Em nenhum lugar eu notei brasileiros tirarem mais proveito disso do que com
apelidos.
Descobri isso quando visitei a pequena cidade costeira de Rio das Ostras, a
algumas horas de carro do Rio. É um lugar onde gringos loiros como eu não são tão
comuns, me transformando um pouco em uma novidade.
Enquanto conversava com uma moradora local sob as árvores frondosas de um
quiosque à beira-mar devorando pastéis de carne deliciosamente crocantes, ela
disse que sempre quis conhecer seu próprio Gasparzinho. "Um o quê?", perguntei,
incapaz de decifrar prontamente esse diminutivo.
Ela pegou o celular, foi até as imagens do Google e tirou uma foto de Gasparznho, o
fantasma do desenho infantil. Eu comecei a rir.
Ser chamado de branco fantasmagórico pode não ser o maior elogio para um
australiano, mas era mais fácil aceitar isso quando falado dessa maneira.
Diminutivos também podem ser pejorativos, dependendo do nível de maldade na
língua.
Como o linguista Bagno me disse: "Também pode ser uma maneira de menosprezar
uma pessoa", observando que os alunos se referem a um professor de quem não
gostam como "professorzinho".
Os brasileiros também usam diminutivos para se safar, como uma maneira indireta
de dizer algo não totalmente lisonjeiro.
O exemplo mais famoso disso é o bonitinho/a. No começo, imaginei que isso era um
elogio e, dependendo da situação, pode mesmo ser. Mas no léxico brasileiro
também é transformado para se referir a alguém que talvez não seja o mais bonito
da sala, mas que tenha seu próprio charme.
Pode ser o jeito que uma mulher diz "ele é um cara legal, mas eu não estou
interessada", ou "bonitinho, mas mais como irmão".
Um dos escritores contemporâneos mais famosos do Brasil, Luís Fernando
Veríssimo, resumiu toda essa situação confusa em seu ensaio "Diminutivos",
quando escreveu sobre a "obsessão de seu país de reduzir tudo à menor dimensão,
seja café, cinema ou vida".
"O diminutivo é uma maneira afetuosa e cautelosa de usar a linguagem. Carinhoso
porque costumamos usá-lo para designar o que é agradável, aquelas coisas tão
afáveis que se deixam diminuir sem perder o sentido. E cauteloso porque também o
usamos para desarmar certas palavras que, em sua forma original, são muito
ameaçadoras", escreveu.
O que eu aprendi durante o meu tempo no Brasil é que você não pode levar esses
diminutivos ao pé da letra, literalmente, mas deve usá-los à vontade.
Quando faz isso, está realmente no caminho certo para falar como um brasileiro.
E se você estiver no Brasil procurando praticar esse tipo de conversinha fofa, mas
complicada, lembre-se do primeiro passo: peça a eles para fazerem isso com uma
cervejinha. Praticamente ninguém no Brasil dirá não a isso.

Lost in Translation​ é uma série da BBC Travel que explora encontros com idiomas e
como eles são refletidos em um lugar, em pessoas e na cultura.
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https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2019/01/por-que-o-brasileiro-ama-falar-no-diminutivo.sht
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