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tomam as ruas semanas e mesmo meses antes dafesta, pedindo contribuições dos fiéis.

Um dia típico de coleta termina com umjantarespecial para o grupo, na casa de um vizi-
nho, onde cada prato é acompanhado por uma canção. Nessas circunstâncias, o grupo
dafolia pode extravasar em dissipação profana. Essas folias são completamente diferentes
das procissões cívicas e religiosas que são organizadas por autoridades municipais e ecle-
.siásticas, se originam em lugares oficiais como praças e igrejas, representam a hierarquia
das autoridades segundo a sua ordem e exigem uma audiência. Em contraste, afolia é
uma festa de confraternização popular, organizada pelos moradores de um bairro, no es-
paço de sua própria comunidade, dependendo apenas de contribuições voluntárias. Como
em muitos outros exemplos de religiosidade popular, afolia em geral representa uma pa-
ródia tanto quanto qualquer outra coisa. Suas festas e inversões ridicularizam as ordens
sociais, políticas e eclesiásticas, embora, como paródia, ao cabo reafirmem a norma. Debret
sugere esta intenção em sua ilustração. Como todos sabem que o Espiríto Santo não tem
imperador nenhum, a suposta eleição deste pelo voto popular enfatiza a sublimidade do
primeiro. A lém disso, ao estilo carnavalesco, comumente o imperador faz o papel de bo-
bo, uma caricatura do governante. Na ilustração de Debret, ainda aparece como uma crian-
ça (talvez em uma referência a d. PedroII), carregado pelas ruas por foliões adultos que
constituem uma corte com pajem, porta-estandarte, músicos, coletor e cavaleiros - uma
imagem paródica da Corte real que sefe; popular. Assim, a ilustração revela um aspecto
importante da vida nas ruas brasileira. Identifica o contexto em que a vox populi, com
sua complexa orquestração de obediência e de paródia, é ouvida com mais freqüência:
na rua do bairro.

Figura 4.12: Funcionário a passeio com sua familia. Até aqui, discutimos a rua como um
âmbito da vida pública extradomiciliar tanto para a cidade quanto para o bairro - um âm-
bito em que as restrições, convenções e costumes do lar são relaxados, quando não abo-
lidos. Mas às vezes a rua do bairro é também uma extensão da ordem doméstica das ca-
sas que foram sua moldura física. A fachada da rua providencia a interpenetração dos
••••. cenas de rua em bairros
espaços público e privado em pontos escolhidos (portas, janelas, sacadas etc.) e seu es-
~1Cl'or.fn- cipal de várias ma-
paço é concebido como o de uma sala, a exemplo da sala de estar de uma casa. Assim
1m.môe5não estão baseadas
como a parede dafrente confina - de modo literal e, sobretudo, simbólico - as rela-
b.c'U1"<_:oderefrescos no bar
ções domésticas, impedindo-as de interromper as liberdades da rua, pois a proximidade
mo na procissão do
de seu contato com a calçadafacilita a sua continuação no espaço público.
mesmo nas brinca-
Afigura 4.12 ilustra a extensão da ordem e da autoridade domésticas no espaço pú-
m nas conversas entre blico do bairro. Também retrata o espaço da rua (assim como suafachada) como um lu-
Il'!-.imr a ser diferentes: en-
gar para a exibição da fortuna familiar. Tais extensões do domicilio para a rua aconte-
como um todo e mais
cem em momentos especificos: depois do trabalho, nosferiados e, especialmente, nos do-
.Ir}m'ncia ao bairro como
mingos. Aqui vemos um funcionário de "fortuna média" deixando sua casa com afa-
~nS!X'tl!S"que o distinguem,
müia para passear pelo bairro. Opasseio é uma atividade que segue uma ordem estrita .
• ,car.o. onte de identidade
Sua disposição espacial se baseia, reiterando-a publicamente, na hierarquia doméstica dos
seus membros. Evidentemente, o tamanho e a elegância da comitiva são extremamente
.1r§E'c»"?::,anizacionalda pri- importantes para oprestigio dafamilia. "Segundo o antigo hábito observado nessa classe';
a Folia do Divino, Debret (1978: 182) conta que o chefe da familia "abre a marcha". É seguido por seus fi-
I-RS/fosbairros brasileiros. lhos, em ordem de idade (os mais novos primeiros) epor sua mulher. Depois da familia
,,~rio,r ao Pentecostes, o senhorial vêm os serviçais da casa, colocados segundo suas próprias relações de autori-
Santo aos apóstolos. dade: a mulher dofuncionário é acompanhada por sua empregada (uma escrava de pele
t-:;,U2m;. queformam uma mais clara, de maior prestígio), que é seguida pela pajem das crianças, pela escrava da
t.• llllicis"· do Espírito Santo.
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lidos. Mas às vezes a r:
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Figura 4.11: Folia do Divino. Asfiguras 4.11 e 4.12 apresentam cenas de rua em bairros espaços público e priv
residenciais. As atividades dessas ruas correspondem às da praça principal de várias ma- paço é concebido co
neiras, mas seus referentes são outros. Como na praça, suas reuniões não estão baseadas como a parede da firc>r.:r •••
em interesses comerciais, embora tenham com freqüência o concurso de refrescos no bar ções domésticas, im'f}f!I-'"
e restaurante local. Podem ser de natureza formal e organizada, como na procissão do de seu contato com
santo padroeiro do bairro, em reuniões poltticas dos moradores, ou mesmo nas brinca- Afigura 4.12 ilus»•••
deiras de rua das crianças. São também informais e espontãneas, como nas conversas entre blico do bairro. Tamb •••.•••
vizinhos nas calçadas. Seus pontos de referência, contudo, tendem a ser diferentes: en- gar para a exibição
volvem seus atores menos na condição de cidadão do municipio como um todo e mais cem em momentose5f.WlIIIIII
na condição de moradores da comunidade e vizinhos. Fazem referência ao bairro como mingos. Aqui vemos
um espaço dentro da cidade que tem um conjunto de caracteristicas que o distinguem, milia para passear pe
e ao domicilio familiar como unidade de residência e também como fonte de identidade Sua disposição espac••.•'"".•••
para os moradores. seus membros. Evid
importantes para opré~~.
As figuras 4.11 e 4.12 ilustram dois tipos de procissão. A base organizacional da pri-
Debret (1978: 182) co
meira é a comunidade e a segunda é o domicüio. A figura 4.11 retrata a Folia do Divino, lhos, em ordem de ifÚll.iMI.
um dos vários tipos defestas religiosas que peregrinam pelas ruas dos bairros brasileiros.
senhorial vêm os ser.
Debret pinta uma folia no Rio de Janeiro durante a semana anterior ao Pentecostes, o
dade: a mulher do fui
sétimo domingo depois da Páscoa, celebrando a visita do Espirito Santo aos apóstolos.
~ais clara; de maior
Tradicionalmente, umafolia é um grupo de homens, em geral vizinhos, queformam uma
associação ou confraria para levantar dinheiro para asfestas anuais do Espírito Santo.
Carregando simbolos religiosos e cantando músicas populares adaptadas para a ocasião,
retrata o uso misto, comercial e residencial, do andar térreo, típico de suas ruas laterais.
No centro da cidade, muitas pessoas ganham a vida na calçada: mascates, músicos, afia-
dores de faca, engraxates, mendigos e assim por diante. À distância, literalmente de um
passo, desta economia da calçada estão os vendeiros, categoria que pode também incluir
os barbeiros da ilustração. Uma venda épouco mais do que uma porta na parede, e suas
atividades inevitavelmente extravasam para a calçada. Mesmo hoje, as vendas raramen-
te estão separadas da calçada por alguma barreira, como uma vidraça por exemplo. Em
vez disso, as atividades da ruafluem para dentro e para fora delas através de umafacha-
da permeável, que cria um espaço liminal nem exatamente público nem privado.
A barbearia da ilustração é uma venda típica, oferecendo vários serviços. Sua pla-
ca diz "Barbeiro, Cabeleireiro, Sangrador, Dentista, e Deitão de Bixas". Vêem-se os bar-
beiros preparando-se para o dia de trabalho. São escravos forros. Um afia as navalhas
com seu ajudante, outro remenda as meias de seus clientes. Ele está sentado em um ban-
co que cruza o limiar da porta, onde os clientes esperam por sua vez de sentar-se na ca-
deira de barbeiro dentro da venda. No fim do dia, os barbeiros levarão para dentro a mo-
büia da calçada, abaixarão a cortina sobre a entrada, e dormirão em colchões de palha
dentro da loja. Assim, a ilustração retrata um traço essencial da rua central brasileira: é
um âmbito de uso misturado e confuso, abrangendo comércio, residência e trabalho.

4.10 Debret, Loja de barbeiro, Rio de Janeiro (1816-31).


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retrata o uso misto,
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dentro da loja. Assim.
um âmbito de uso

4.9 Debret, Os refrescos do largo do Palácio, Rio de Janeiro (18/6-3/).

uma vez por semana; são suficientes para assegurar o ócio dos donos. As tardes de lazer
são gastas na praça. Depois da sesta, esses "pequenos capitalistas" habitualmente se reú-
nem na praça, das quatro da tarde até a ave-maria, às sete. Por volta das quatro e meia,
não há mais lugar ao longo da parede do cais (a mobilia da rua). Debret (1978: 202-3) conta
que as conversas dessa classe ociosa são pontuadas pelo pequeno ritual de comprar um
doce e um trago de água fresca de vendedores ambulantes. A graça está em ser ampla-
mente reconhecido como um grande comprador de doces, um cliente favorito e galan-
teador, e assim ser festejado por todos os vendedores da praça. Assim como os "peque-
nos capitalistas" têm seu canto na praça, outros grupos delimitaram, por acordo infor-
mal e hábito, outras áreas de congregação. Assim, o fundo da gravura mostra negocian-
tes, donos de loja, vendedores ambulantes, capitães de navio, agentes marítimos, mari-
nheiros estrangeiros, funcionários da Corte, estivadores, e um policial cuja responsa-
bilidades é manter a ordem na praça.

Figura 4.10: Loja de barbeiro. A área em volta da praça principal nas cidades brasilei-
ras, o centro, é o âmbito comercial da cidade. É uma teia de ruas dedicadas ao comércio,
compras e serviços, e sua vida de rua gira em torno do econômico. No tempo de Debret,
tanto quanto hoje, uma ilustração de uma das ruas principais do centro carioca, como
a rua do Ouvidor, mostrará estabelecimentos comerciais uns ao lado dos outros no nível
da rua, e depósitos, manufaturas, hotéis e residências nos andares de cima. Afigura 4.10
tidão urbana, sob patrocínio oficial. A multidão se reúne ao mesmo tempo como espec-
tador e ator nos rituais da Igreja e do Estado, durante os quais essas instituições recor-
rem a exibições públicas para reiterar sua autoridade. É a exibição da ordem, tanto das
instituições associadas quanto da Coroa, que é ritualmente importante. A multidão se
organiza conforme as mais importantes divisões da sociedade civil (por menos numero-
sas que estas sejam no caso brasileiro), e funciona como um corpo público para repre-
sentar essas divisões e sua articulação em cerimônias que enfatizam a ordem e a legitimi-
dade da estrutura hierárquica da sociedade. A ordem especial dessas divisões reproduz
sua ordem social, e assim a participação em tais cerimônias ensina aos dominados as or-
dens da dominação e os envolve em um ato de veneração.
Assim, afigura 4.8 mostra a seguinte organização espacial dos participantes, a qual
é em si mesma uma representação de suas relações políticas e sociais. O jovem impera-
dor ocupa o lado esquerdo da janela central, ficando acima e à direita de seus irmãos,
atrás dos quais estão os membros do Conselho da Regência. Defrente à Coroa, e cerca-
dos por sua força militar, estão os representantes oficialmente designados da multidão:
uma delegação de juizes de paz a cavalo, cada um representando um bairro diferente e
segurando suas cores e emblemas. Atrás de uma companhia de artilharia, que separa a
multidão tanto de Coroa como de seus próprios representantes nomeados, vemos a po-
pulação acenando com ramos verdes e amarelos de café, sendo estas as cores Imperiais.
Face aface com a autoridade imperial, esta multidão brasileira de abril de 1831 não é ob-
viamente a multidão da Revoluçãofrancesa. Não está à beira de uma insurreição, nem
mesmo faz pensar nesta possibilidade. Sua ausência de organização política na praça pú-
blica da cidade - o fato de que as pessoas não estão organizadas em grupos populares
representativos é uma indicação de que tradicionalmente a praça brasileira é menos um
fórum para os protestos da sociedade civil do que um lugar para a reiteração colonial da
autoridade legítima. Seu monólogo político entre Estado e sociedade sugere a natureza
ela que se trata da estrutura política brasileira.
-o o local das
- na' tanto reli- Figura 4.9: Os refrescos do largo do Palácio. Tanto quanto um palco para cerimôniasfor-
- especial entre mais e reuniões políticas, a praça é também a sala de visitas da cidade. É um espaço de
i/eiras (e em encontro e de congregação, um lugar para a socialização do tempo livre, um ambiente
notar que em para cada pessoa ver e ser vista. Nesta aspecto, as atividades da praça são cotidianas e
lIlililJlli9ôeS' são nor- essencialmente não comerciais. As pessoas se reúnem para a socialização fora dos limi-
em uma praça tes domésticos. Suas atividades consistem sobretudo nos diversos gêneros de conversa-
praça para ção: discussões, trocas de opinião, novidades, informações, anedotas eflertes. As primeiras
- da Igreja, do são, evidentemente, indispensáveis à vida política dos cidadãos, e a praça oferece o cená-
bana durante rio para formação e o exercício da opinião pública. Essas atividades informais ocorrem
sendo a cidade- entre todas as classes de pessoas, já que todos têm livre acesso à praça. É a heterogenei-
~DP%l7rIStenaAmé- dade e o caráter voluntário dos encontros nas praça que distingue a atividade social na
a natureza de sua "sala de visitas" das que se produzem dentro de casa.
Como ilustra afigura 4.9, as conversações na praça são normalmente incentivadas
por alguma forma de refrigério e entretenimento, serviços que fazem o tempo social da
tipos de ativi- praça passar agradavelmente mas que não constituem negócios. A praça não é o âmbito
não comer- do econômico: é o âmbito da sociabilidade informal e extradomiciliar, da conversa e do
"UL> de modos
•.•••
passatempo. Nesta ilustração, Debret retrata os hábitos de um dos grupos que freqüen-
em 7deabril tam a praça diariamente, a classe média de "pequenos capitalistas'; como ele os chama
futuro impe- (1978: 202), aqueles que possuem um ou dois escravos cujos ganhos diários, coletados
livre da mul- .':
tidão urbana, sobpazmaiIJ
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4.8 Debret, A aclamação de d. Pedro lI, largo do Palácio, Rio de Janeiro, 1831. representativos é IU'» i.1
jórum para os protes •••
autoridade legíti
o inventário dos edifícios em volta da principal praça da cidade revela que se trata da estrutura poluica ,r-••
do âmbito das suas mais importantes instituições coletivas, e por esta razão o local das
empresas que dependem de seu patrocínio. É o âmbito do poder institucional, tanto reli- Figura 4.9: Osreji'f:5[SiI.
gioso quanto político - sendo significativa a ausência de uma distinção especiál entre mais e reuniõespoiiIl~.
ambos. A Igreja e o Estado compartilham apraça principal nas cidades brasileiras (e em encontro e de con.21_'ftI ••••
toda a América Latina). Para indicar a importância deste padrão, podemos notar que em para cada pessoa ,..,.'r1l_
muitas cidades européias (com exceção de Espanha e Portugal), essas instituições são nor- essencialmente -
malmente localizadas em praças diferentes. Estão espacialmente segregadas em uma praça tes domésticos. S'''''< ---
principal para as instituições governamentais, uma praça com igreja, e uma praça para ção: discussões, rroc:lZ5I".
as transações e associações do mercado. A separação física das instituições da Igreja, do são, evidentemente;
Estado e do mercado tornou-se um padrão predominante na organização urbana durante rio parajormação
a Alta Idade Média, no tipo de cidade que Weber (1978) descreveu como sendo a cidade- entre todas as cl.
comuna, a cidade da democracia entre burgueses. Nesse padrão e em seu contraste na Amé- dade e o caráter}
rica Latina, temos exemplos de como afisionomia de uma cidade sugere a natureza de sua "sala de visitas
sua organização política. Como ilustra
por algumajorm
Figura 4.8: A aclamação de d. PedroIl. Asjiguras 4.8 e 4.9 ilustram dois tipos de ativi- praça passar agra
dade que caracterizam a multidão da praça principal. Ambos são atividades não comer- do econômico: é o -
ciais e se relacionam com a concentração de poder institucional na praça, mas de modos passatempo. Nesta
diferenfes. Afigura 4.8 comemora a "aclamação" do monarca de cinco anos em 7 de abril tam a praça diari·aT'l1ell1l
de 1831.Marca a abdicação de seu pai e sua apresentação ao público comojuturo impe- (1978: 202), aqueles
rador. Esta celebração é um exemplo de uma congregação cerimonial ao ar livre da mul-
meçou a desfru-
- da Corte portu-
nial de 60 mil ha-
de um império.
esença da Corte
•• ' 1lIY1'I::I encontrar em

soas de todas as 4.7 Debret, Vista do largo do Palácio do Rio de Janeiro (l816-3l).
~ 'AVU<U. Quando De-
da família real,
Figura-í.Z; Vista do largo do Palácio do Rio de Janeiro. Um inventário dos edifícios nor-
_ mil portugueses
malmente construí dos em volta da praça central de uma cidade dá um primeiro retrato
capital. A Coroa
de sua vida social. As figuras 4.7, 4.8 e 4.9 mostram diferentes vistas do largo do Palácio
Idiver'<;OS institutos de
do Rio (também conhecido como largo do Carmo e, atualmente, como praça Quinze de
~~nh;aria, medicina Novembro). A vista em perspectiva, nafigura 4. 7, mostra os seguintes edifícios. O palá-
e repartições go- cio imperial, quefoi residência do vice-rei depois de ter sido a Casa da Moeda, ocupa to-
ecisavam de no- do o lado esquerdo da praça. Era usado sobretudo para recepções e outras atividades da
",~li'ti'vo às áreas CÍ- Corte. Sua longafachada servia como um lugar costumeiro de comunicação entre a Corte
- nobiliárquicos e os súditos: a familia real e seus funcionários usavam as suas janelas e sacadas para fa-
ricas para a ca- zer pronunciamentos importantes ao público (representado pelas pessoas reunidas na pra-
tcm.iJ~;ã-o de um mo- ça) epara receber, em dias festivos, asprocissões que faziam a volta da praça antes de en-
trar na capela imperial. Assim como um dos lados da praça está ocupado pela Corte, o
servindo como
outro é tomado pela Igreja. Todo o lado de trás da praça abriga a igreja, a capela e o con-
es, suas modas,
vento do Carmo, com passagens especiais construí das para fazer a comunicação direta
e africana. 6
entre os edifícios da Igreja e o Estado. Convencionalmente, uma "parede" da praça bra-
rua do centro sileira - neste caso a do lado direito - é entregue aos estabelecimentos da sociedade ci-
. vemos que um vil. Aqui, encontramos as casas dos comerciantes portugueses, lojas de artigos de luxo,
tre os volumes e uma série de unidades alugadas por negociantes franceses, que as converteram em ca-
- característico de fés, salões elegantes de bilhar, e hotéis caros. Num recesso da praça ao longo deste lado
oldura arquite- de frente para o mar está a Alfândega e um depósito de cargas. Por fim, um cais e uma
_o mais signifi- fonte monumental formam o lado do mar da praça.
frente ou do lado de uma igreja) alargado, por exemplo, para acomodar
uma feira permanente; na intersecção de ruas que dela partem em diver-
sas direções, surge um tipo regularmente identificado pelo nome de "pra-
ça", que por sua vez deriva do termo grego para rua, plateia; ou, como
um terreno externo que a cidade afinal absorve e molda na forma de uma
praça, conhecido pela denominação atualmente arcaica de "rocio".
Para ver de que modo tais traços constituem o contexto arquitetôni-
co da vida nas ruas nas cidades pré-industriais, podemos examinar as gra-
vuras de Debret retratando o Rio do século XIX (figs. 4.7-4.8). Exceto
pelas óbvias modificações em coisas como vestimenta e meios de trans-
porte, essa cenas de ruas e de praças ilustram uma visão notavelmente
contemporânea da vida nas ruas do Rio e nas cidades menores do Brasil.
Com grande precisão etnográfica, descrevem a vida pública, ao ar livre,
do Rio - as atividades cotidianas e cerimoniais, os hábitos dos passan-
tes, vendedores, lojistas e mendigos.>
As ilustrações de Debret retratam o Rio quando começou a desfru-
tar de primazia política e cultural, depois de a instalação da Corte portu-
guesa em 1808 ter transformado a sonolenta cidade colonial de 60 mil ha-
bitantes na mais influente cidade brasileira e na capital de um império.
Importante para nossos propósitos é o fato de que a presença da Corte
engendrou uma multidão urbana diferente da que se podia encontrar em
outras cidades brasileiras - um vasto organismo de pessoas de todas as
classes residindo e trabalhando permanentemente na capital. Quando De-
bret chegou ao Rio, cerca de dez anos depois da vinda da família real, Figura_4.7: V/SZIOal.7 __
a população da cidade tinha duplicado. O afluxo de 24 mil portugueses malmente constn
e de muitos outros europeus metamorfoseou a vida da capital. A Coroa de sua vida SOClJ''b- ~- •••
engajou-se em um projeto de obras públicas. Criou diversos institutos de do Rio (também
educação superior (incluindo os de ensino militar, engenharia, medicina Novembro). A ,-i"Sal"
e belas-artes), uma biblioteca nacional e uma miríade de repartições go- cio imperial, que.r.
vernamentais, todas novas no Brasil. Essas instituições precisavam de no- do o lado esqueroo ••••
vos edifícios, e as obras públicas deram um caráter definitivo às áreas cí- Corte. Sua lon!ga~:iiId"
e os súditos: a fi:zI'IW-.
vica, comercial e residencial da cidade. Como os títulos nobiliárquicos
zer pronunc'ianW'l!-.
e os órgãos administrativos da Corte atraíam as famílias ricas para a ca-
ça) epara recebe;
pital, o Rio tornou-se um foco de condensação e disseminação de um mo- trar na capela inrrpe".
delo idealizado de vida urbana, com sua aparência física servindo como outro é tomado
um cenário reconhecível para suas multidões, seus costumes, suas modas, vento do Carma
e como uma síntese peculiar das sensibilidades européia e africana.s entre os edifícios
Se comparamos a principal área cívica do Rio, uma rua do centro sileira - neste cmo.1IIIIII
e uma rua em um bairro residencial (figs. 4.7, 4.10-4.11), vemos que um vil. Aqui, enco/1II.-"
número limitado de fatores define e medeia o contraste entre os volumes e uma série de U1Jl_.
sólidos e os vazios da cidade. Estabelecem um padrão característico de fés, salões eleganJl!S~1
formas e de volumes por toda a cidade. A aparência da moldura arquite- defrente para o
fonte monumemaiJ"
tural do espaço público é a mesma em cada caso. Seu traço mais signifi-

116
Fig. 4.6 Vista do largo do Pelourinho, Salvador, 1980 (ver figo 4.1).

uma "moldura" física que a contém e a enforma, ou seja, as fachadas


dos edifícios e um chão. Este é em geral pavimentado e diferenciado em
dois ou mais níveis: o nível onde está a base dos edifícios e o caminho
para o tráfego propriamente dito em um nível mais baixo, sendo os dois
mediados pelo terceiro nível da calçada, da guia e dos degraus, que dife-
rencia a rua em zonas de atividade distintas mas interpenetráveis. O jogo
entre a largura desse chão e a altura e o caráter dos prédios à sua volta
dá a impressão de que o céu tem uma altura definida. O sistema de espa-
ços públicos estabelecido pelas ruas compreende todos os elementos des-
sa configuração arquitetônica.
A praça é um caso especial da rua definida nestes termos." Embora
os sinônimos para a palavra "praça", que enumero a seguir, não mais
registrem sua diversidade no uso que delas se faz cotidianamente, tendo
se tornado equivalentes em uma noção a-histórica e genérica de "praça",
eles designam morfologias arquitetônicas distintas. Mostram que a praça
desenvolveu-se em relação com a rua segundo diversas maneiras, como
um alargamento ou expansão lateral de vias de passagem, em geral cha-
madas "largo", e com freqüência surgindo como um "parvis" (a área em

115
mas arquitetônicas já construídas. Se analisarmos essas convenções no
Rio pré-industrial e em Ouro Preto, o significado da morte das ruas em
Brasília ficará evidente.

o CONTEXTO ARQUITETÔNICO DA VIDA NAS RUAS

Um dos impactos mais profundos experimentados por quem vai mo-


rar em Brasília é a descoberta de que se trata de uma cidade' onde não
se vê gente nas ruas. Os migrantes não reclamam da ausência de aglome-
rações em si, mas sim da ausência da vida social que esperam encontrar
nos espaços públicos de uma cidade. Em entrevistas, ao serem solicitados
a comparar Brasília com suas cidades de origem, os brasilienses invaria-
velmente comentam, qualquer que seja o tamanho destas últimas, uma
diferença básica: "Não tem gente na rua", "falta gente", "não tem mo-
vimento na rua" . A ausência de uma multidão urbana conferiu a Brasília
a reputação de ser uma cidade em que "falta calor humano".
Os brasilienses atribuem, com razão, essa falta de vida nas ruas a
diversos fatores, como as enormes distâncias que separam um prédio do
outro, e a segregação das atividades em setores urbanos isolados. Mas
a explicação mais comum é ao mesmo tempo a mais profunda. Brasília
"não tem esquinas". Esta observação aponta para a inexistência, em Bra-
sília, de todo o sistema de espaços públicos que as ruas tradicionalmente
instituem nas outras cidades brasileiras; para a ausência não só de esqui-
nas mas também de calçadas, onde se possa passar pelas fachadas de ca-
sas e lojas; para a inexistência de praças e das próprias ruas. É uma expli-
cação que usa a esquina como metonímia para o sistema de intercâmbio,
existente nas ruas, entre pessoas, casas, comércio e tráfego. Ele estabele-
ce explicitamente uma conexão entre os espaços públicos de uma cidade
e a vida pública existente nas ruas.
O caráter dessa conexão é sugerido por uma típica comparação entre
a cidade de origem e Brasília, dada por um funcionário da companhia
de desenvolvimento da nova capital (Novacap). Trata-se de um engenhei-
ro civil, nascido em uma pequena cidade do interior do Ceará. Ele fez
faculdade em Fortaleza e lá permaneceu por muitos anos depois de for-
mado. Encontrou um emprego melhor em Brasília, em meados dos anos
60. Descrevendo o primeiro ano na capital como um período de "brasili-
te", de "estranhamento", ele atribuiu sua "alergia a Brasília", como a
chamou, à falta dos "lugares normais de encontro" a que estava acostu-
mado, sobretudo as esquinas perto de casa. Definiu a importância social
das esquinas caracterizando-as como "pontos de convivência social" . Estes
eram os lugares mais importantes de encontro (geralmente entre os ho-
mens) e de atividade pública na vizinhança. Em seu bairro em Fortaleza,

113
por exemplo, ele descreveu "a esquina do Zé", chamada assim a partir
de um bar e armazém que ocupava um prédio na esquina, como o lugar
para onde se ia quando se queria ver um amigo, passar o tempo, encon-
trar um vizinho ou saber das novidades. Essa esquina era o nexo de in-
formações da vizinhança, sua sala de visitas ao ar livre, por assim dizer.
Em Brasília, contudo, ele descobriu que a falta de esquinas (isto é,
do sistema de espaços públicos estabelecido pelas ruas) tinha um efeito
de interiorização; forçava as pessoas a ficar em seus apartamentos e subs-
tituía a espontaneidade dos encontros na rua pela formalidade das visitas
à casa de alguém. "Para encontrar um amigo eu praticamente tenho de
ir à casa dele ou ele vir à minha." Como as pessoas em geral relutam mais
em receber os amigos em suas casas do que em encontrá-Ias em um lugar
público, essa interiorização da vida social teve o efeito de restringir e, por
fim, de circunscrever o universo social. Para alguém acostumado ao es-
paço livre público, à socialidade da esquina, sua eliminação levou não
apenas à interiorização dos encontros sociais mas também a uma profun-
da sensação de isolamento. Na Brasília planejada, não há multidões ur-
banas, sociedades formadas na esquina, sociabilidade nas calçadas, ~
grande medida porque não há praças, nem ruas, nem esquinas.
Os brasileiros têm a expectativa de vivenciar o dia-a-dia das aglome-
rações nas ruas porque prevêem a existência de maior população nas ci-
dades do que no campo, mas também, e mais ainda, porque esperam en-
contrar ruas em uma cidade e porque a rua é o lugar costumeiro do "mo-
vimento" - da exposição pública e das transações entre as pessoas.
Esse tipo de lugar tem uma forma física específica que assinala uma
diferença fundamental entre a arquitetura rural e a urbana. Essa diferen-
ça pode ser percebida com mais clareza no Brasil pré-industrial, mas tam-
bém se aplica às bases físicas de comunidades industrializadas, ainda que
não modernizadas. Nos povoamentos rurais, o padrão básico do uso do
solo é o de edifícios isolados, separados uns dos outros, como ilhas no
espaço aberto onde se circula. Em contraste, a cidade pré-industrial é,
de uma perspectiva arquitetônica, uma massa sólida e compacta de edifí-
cios contíguos, no interior da qual se sulcam os espaços para a circula-
ção. Os edifícios não se destacam individualmente (com exceções signifi-
cativas que discutiremos a seguir), e os espaços limitados são ruas usadas
sobretudo para circulação (fig. 4.6). Mais ainda, a cidade pré-industrial
geralmente se expande ao cercar o espaço aberto das zonas rurais a seu
redor com edificações. Mesmo se o espaço da cidade é preenchido aos
poucos, os novos edifícios em geral mantêm esse senso espacial de cerca-
mento que define a rua.
A rua não é, entretanto, apenas uma passagem para o tráfego. Seu
espaço é um dentre vários elementos de uma forma complexa. Como uma
configuração arquitetural, a rua compreende um espaço a céu aberto e

114
Preto e o Rio como objetos de estudo porque, nesses séculos, as duas ci-
dades foram capitais. Durante esse período, as grandes cidades brasileiras
emergiram como importantes centros irradiadores de influência na cultu-
ra, na vida social e no comportamento, estabelecendo padrões regionais
(no caso de Ouro Preto) e nacionais (no caso do Rio) de forma urbanísti-
ca e de sociedade urbana.? À medida que a vida urbana se cristalizou e
expandiu em Ouro Preto em torno das minas de ouro, e no Rio em torno
da chegada da corte portuguesa, ambas as cidades tornaram-se centros
exemplares para seus respectivos âmbitos de influência. Serviram como
veículos de mudança no interior e projetaram seus padrões de organiza-
ção urbana para outras cidades. Assim, nos períodos a que me refiro, Ouro
Preto e o Rio expressaram padrões dominantes do urbanismo pré-indus-
trial no Brasil. Tais padrões são o resultado final de três séculos de esfor-
ços coloniais. Revelam-se como uma síntese dos traços mais importantes
e característicos do urbanismo pré-industrial, algo que não mais depen-
dia social ou culturalmente da sociedade patrimonial rural e, ao mesmo
tempo, algo ainda não transformado pela industrialização.
Se a industrialização certamente modificou tal síntese, esta continua
a representar um padrão básico de vida social e de organização do espaço
em muitas, se não na maioria, das cidades brasileiras. Esse padrão conti-
nua a ter importância já que, embora se diga com freqüência que a urba-
nização é produto da industrialização, inexiste, na verdade, uma correla-
ção entre os dois processos no Brasil.! Desde 1940, as cidades em regiões
não industriais têm crescido quase no mesmo ritmo das localizadas em
regiões industriais. Essencialmente, essas cidades continuam a ser pré ou
não industriais, expandindo-se a partir das bases do padrão urbano esta-
belecido no começo do século XIX. Assim, o contraste que traçaremos en-
tre o urbanismo modernista e o pré-industrial não é apenas um exercício
de análise histórica mas tem pertinência para as questões da urbanização
no Brasil contemporâneo.
A rua-corredor é um dado básico nestas questões: constitui o con-
texto arquitetônico da vida pública, fora do âmbito doméstico, nas cida-
des brasileiras. Em sua forma pré-industrial, esse contexto se define pelo
contraste entre o sistema de espaços públicos oferecido pelas ruas e o sis-
tema residencial dos prédios particulares. É esta relação entre o público
e o privado, com suas conseqüências para a vida social, que Brasília
subverte.
Para entender como a rua ordena os domínios do público e do priva-
do e como sua eliminação em Brasília afeta essa ordem, é necessário iden-
tificar, inicialmente, de que modo uma rua pode, em si, significar algu-
ma coisa. Um modo de fazer isso é identificar as convenções arquitetôni-
cas que os urbanistas usam ao conceber espaços urbanos - dos quais a
rua é o principal tipo - e que são vivenciados no dia-a-dia enquanto for-

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Entretanto, o urbanismo modernista deriva só em parte de tais preo-
cupações sanitárias e de inovações tecnológicas. De modo mais profun-
do, a arquitetura moderna ataca a rua porque, como veremos neste capí-
tulo:e.sJéL-constitui uma organização ãrqüitetônica dos âmbitos privado
e p}ÍliligLda vida SOQal ue o modernismo busca superar. No gênero de
cidade que o modernismo condena, a rua é ao mesmo tempo um tipo es-
pecífico de lugar e um âmbito da vida pública. A organização arquitetô-
nica desse âmbito estrutura toda a paisagem urbana por meio de um con-
traste entre o espaço público e o edifício privado. Dando forma a esse
contraste, a rua incorpora o conceito do público, definido em contraste
com o privado. Assim, a rua não é apenas um lugar onde ocorrem vários
tipos de atividade. Também corporifica um princípio de ordem ar quite-
tônica mediante o qual a esfera pública da vida civil é ao mesmo tempo
representada e constituída.
Percebe-se com clareza de que modo a rua corporifica tal discurso
entre o público e o privado quando se examina sua estrutura na cidade
pré-industrial e sua eliminação na cidade tal como concebida pela arqui-
tetura moderna. Assim, este capítulo estudará a rua (e aquilo que a subs-
tituiu) em dois tipos contrastantes de urbanismo: o do Rio de Janeiro
pré-industrial e o de Ouro Preto, de um lado, e o de Brasília, do outro.
Indagaremos o que a forma e o planejamento das ruas nesses exemplos
podem revelar a respeito da estrutura da organização urbana em diferen-
tes tipos de cidade. Indagaremos, ademais, o que essa organização indica
a respeito dos regimes políticos em vigor e de suas relações com a socie-
dade, pois irei sugerir que comparar a estrutura do espaço público em
cidades pré-industriais de um império colonial com a de uma capital ad-
ministrativa de um estado burocrático moderno é revelar tipos diferentes
de ordem urbana enquanto concretizações de regimes políticos contras-
tantes. Mais ainda, é expor concepções muito diferentes a respeito daqui-
lo que constitui o público e o privado nas relações entre a autoridade po-
lítica e a sociedade civil.
Contrasto o urbanismo pré-industrial e o modernista porque Brasí-
lia foi planejada com o objetivo de transformar, arquitetõnica e social-
mente, um modo de vida urbano que se cristalizou nas cidades pré-indus-
triais. Assim, o modernismo europeu investe contra a cidade do século
XIX em larga medida porque suas bases físicas pré-industriais, domina-
das pela "ordem implacável" da propriedade privada, não se coadunam
com as exigências e os resultados da industrialização. Tanto no que se
refere ao Brasil quanto à Europa, deve-se assim avaliar a estrutura do
urbanismo pré-industrial para compreender a significação das transfor-
mações modernistas.
O urbanismo pré-industrial no Brasil cristalizou-se em um padrão vá-
'do para todo o país no final do século XVIII e início do XIX; tomo Ouro

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Fig. 4.1 Largo do Pelourinho, com vista do mu- Fig. 4.2 Praça dos TrêsPoderes, com vista do P.
seu da cidade e do antigo mercado de escravos, ldcio do Planalto e do museu municipal, Brasil
Salvador, 1980. 1980.

Fig. 4.3 Praça Tiradenies, com vista do antigo Pa-


lácio Municipal, da cadeia e do monumento a Ti-
radentes, Ouro Preto, 1980.

Fig. 4.5 Vista aérea da Praça dos Três Poderes e


da Esplanada dos Ministérios, Brasilia, 1981.
4
A MOKrE DA RUA

A descoberta de que Brasília é uma cidade sem esquinas leva a uma


profunda desorientação. No mínimo, a percepção de que aquela utopia
carece de intersecções viárias significa que tanto pedestres quanto auto-
mobilistas precisam reaprender os códigos da locomoção urbana. Em um
sentido mais amplo, o fato pode sinalizar que "o homem multiplicado
pelo motor" - para lembrar uma das pedras angulares do futurismo -
por fim passou da utopia para a realidade. Em outras cidades brasileiras,
o pedestre anda até a esquina de qualquer rua, espera o farol, e com algu-
ma segurança se aventura até o outro lado. Em Brasília, onde o balão
ou o trevo substituem a esquina - não havendo, portanto, cruzamentos
que distribuem os direitos de passagem entre o pedestre e o carro -, o
perigo é nitidamente maior. O balanço de forças que daí resulta tende
simplesmente a eliminar o pedestre: quem pode, usa o automóvel. A au-
sência do rito de passagem das esquinas só vem indicar aqui um dos tra-
ços mais distintivos e radicais da modernidade de Brasília: a ausência das
ruas. Brasília substitui a rua por vias expressas e becos residenciais; o pe-
destre, pelo automóvel; e o sistema de espaços públicos que as ruas tradi-
cionalmente estabelecem é substituído pela visão de um urbanismo mo-
derno e messiânico (figs. 4.1-4.5).
Na escala de uma cidade inteira, assim, realiza-se um dos mais fun-
damentais objetivos urbanísticos da arquitetura moderna: o de redefinir
a função urbana do trânsito, eliminando o que ela chama de "rua-
corredor", a rua delineada por fachadas contínuas de prédios. Ao criti-
car as cidades e a sociedade que o capitalismo Criou, a arquitetura mo-
derna considera a eliminação da rua um pré-requisito para a organização
urbana moderna.' Condena a rua por várias razões. De um lado, encara
a rua-corredor como um foco de doenças. De outro, considera a rua um
impedimento para o progresso, pois não é capaz de acomodar as necessi-
dades da era da máquina.

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