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E N T R E V I S T A

Jamil Snege
Entre o Jardim
e a Tempestade

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Jamil Sneg
conv
Jussara Salazar – Você poderia falar um pouco sobre o objeto livro, como produção criativa mas
também como produção industrial.
Jamil Snege - Existe uma forma-objeto chamada livro que vem nos acompanhando há séculos. Com
a época da reprodutibilidade técnica, o livro abandonou a singularidade (ou as cópias penosamente
elaboradas a mão) e disseminou-se. Tornou-se um produto da indústria cultural, sujeito a regras de
mercado, mas conservou um certo valor de fetiche – que alimenta o comércio paralelo dos bibliófilos
e caçadores de obras raras. As pessoas ainda vêem o livro como uma espécie de objeto mítico, capaz
de reter e entesourar o que o engenho e a arte produzem de mais significativo. Essa fetichização do
livro produz um efeito perverso: qualquer cidadão pode escrever um livro ou pagar para que alguém
o escreva e publicá-lo impunemente, pois do ponto de vista industrial esse objeto é um livro tão bom
quanto um “ Ulisses” ou uma “Divina Comédia.”

Jussara Salazar – De que maneira você vê a crítica hoje no Brasil?


Jamil Snege - Necessária, como em qualquer lugar do mundo letrado. Você já imaginou se não
existissem esses abnegados, dispostos a separar o joio do trigo, que imensa quantidade de besteiras
correríamos o risco de ler?

Carlos Alberto Pessôa – Você não estaria defendendo uma volta à aura para o livro, por exemplo
esse livro fora do mercado, que mais ou menos é o que você faz...você não acha que está defendendo
um outro tipo de classificação, onde o livro teria de ficar numa espécie de redoma, onde ela não se
joga, não se lança no mercado?
Jamil Snege - A despeito das soluções tipo e-books e outras que virão, o livro ainda é o veículo por
excelência da leitura. O cheiro da tinta, a gramatura do papel, os aspectos táteis e visuais fazem do
livro um objeto agradabilíssimo. Quanto ao aspecto quantitativo, ao número de exemplares lançados
no mercado – e na parte que me toca –, eu nunca pretendi concorrer com as sandálias Havaianas.
Devo ter quatrocentos ou quinhentos leitores fiéis – e eles fazem mais barulho que os milhões de

nege
leitores do Paulo Coelho.

conversa e Et Ce
eersa e Et Cetera
Carlos Alberto Pessôa – Por que você escreve e o que é que você publica?
Jamil Snege - Eu tenho uma dificuldade intrínseca de existir no mundo. Gosto de algo que li há
tempos e que defende que a obra de arte é uma espécie de prótese da qual você se socorre para suprir
uma certa deficiência ontológica. Assim como existem pernas mecânicas, os dentes postiços, os olhos
de vidro, as obras que os artistas produzem têm o mesmo objetivo – torná-los menos incompletos
perante o mundo.

Carlos Alberto Pessôa – Então você acha que a partir dos primeiros textos teus e dos de agora,
você evoluiu, melhorou, que acha um termo de comparação, por exemplo, com aquele primeiro
romance e esse último ?
Jamil Snege - “Tempo sujo” foi um livro que escrevi durante as madrugadas de um mês de julho e que
publiquei apressadamente no mesmo ano, 1967. Como estava muito comprometido com a realidade
política da época (véspera do AI 5, ditadura, prisões & torturas), acabou se transformando numa
crônica-reportagem do período. Hoje reconheço que publiquei o esboço do que seria um pequeno
romance sobre minha geração – os desajustados e confusos órfãos da democracia. Mas tínhamos
pressa em ocupar espaços, em produzir uma voz dissonante. Algo que se opusesse ao adesismo e
ao oportunismo de alguns “fazedores” de arte, sequiosos de vender seu peixe aos novos donos do
poder. Você sabe, os regimes de exceção estimulam essas manifestações estéticas burras e reacionárias,
pois vêem nelas um agente legitimador de suas ideologias perversas. Alguém, portanto, precisava
gritar, e eu gritei. O crítico André Seffrin, analisando em mais de uma oportunidade aspectos de meu
trabalho, afirmou que “Como eu se fiz por si mesmo” é finalmente o romance que eu havia prometido
em “Tempo Sujo”.

Carlos Alberto Pessôa – Você acha que ainda vai escrever “o grande texto”, ou já escreveu?

Jamil Sn
Jamil Snege - Não, eu já comecei “o grande texto” e parei.

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Carlos Alberto Pessôa – Como já começou e parou?
Jamil Snege - Eu já tenho um romance iniciado (dois terços já pronto) que, se um dia for concluído,
será um grande texto. É um romance de fundo histórico, chamado “Grande mar redondo”. Alguns
trechos dele constam na antologia “Encontro das águas”, editada pelo Fábio Campana para a Gazeta
do Povo.

Carlos Alberto Pessôa – Você acha que já descobriu sua própria voz, e veja, eu não li tudo, mas li
quase tudo, e vejo que você muda muito, é um escritor ou pessoas muito diferentes de um livro
para o outro. Eu gosto muito daquelas coisas mais pessoais tuas. Por exemplo, quando você conta
aquele teu encontro com Aroldo Murá, acho aquela uma peça antológica, que cabe em qualquer
antologia de humor do Brasil. Aquela crônica da sogra, que é um negócio meio doente, mas é super
bem escrita, e eu acho invejável. Mas são todas coisas de escritores diferentes, não tem nada a ver
uma coisa com a outra. Entre “Como eu se fiz por si mesmo” e essa “sogra” abominável que te
enche o saco, como é, ou melhor, qual é a tua voz, ou você não tem ?
Jamil Snege - Veja, eu realmente não consigo ter uma voz única, estilisticamente identificável. Às
vezes me surge uma idéia, uma imagem visual, algo como um sonho ou, melhor dizendo, um resíduo
onírico. O que faço a seguir é tentar capturar através da linguagem aquela impressão. Se estou
escrevendo prosa ou poesia, pouco importa; se estou repetindo uma experiência de texto ou usando
uma nova dicção, também. É uma característica (ou uma deficiência) minha. Meus livros são muito
diferentes entre si. “Senhor”, por exemplo, um pequenino livro com 22 poemas de teor religioso, já
superou a marca dos 50 mil exemplares e acabou virando CD. Mas eu não creio que escreverei um
segundo “Senhor”.

Fábio Campana – A escolha da forma, é isso que você disse, o mais importante é o texto, e há o
conteúdo, há um tema. Isso não condicionou uma obra tua, em que o que você mais produziu foram
textos curtos, bem elaborados etc.. Mas você diz agora que tem dois romances iniciados, e um, eu

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até tenho a idéia do que seja, mas você sempre teve certas dificuldades para avançar no texto, nesse

conversa e Et Ce
texto longo em que se constrói um milhão de personagens. No romance, digamos, aquele romance
clássico...Como é isso, essa tentativa, onde é que isso esbarra, é no texto, é na forma? Você não é
um fã de grandes painéis, gente, pessoas, emoções?
Jamil Snege - Realmente eu tenho uma dificuldade enorme de produzir textos longos. Não consigo
ser prolixo. A propósito, eu gostaria de fazer uma colocação. Para mim, o escritor deve passar por
uma série de experiências de texto antes de se lançar no mercado. Deve passar pelo jornalismo, pela
publicidade, escrever relatórios, bulas de remédio, manuais de instrução. Só assim ele conhecerá
o leitor – seus limites, sua capacidade de tolerância e sua paciência em relação ao texto que lhe é
proposto. Alguns romancistas de grande talento e que não passaram por essas experiências extra-
literárias conseguem enunciar em 40 páginas o que poderiam dizer em 5 e acabam soterrando o leitor
numa tediosa avalanche de palavras desnecessárias. O próprio Homero alonga intoleravelmente o que
seria o final de sua “Odisséia”, enchendo intermináveis metros de lingüiça, até que Ulisses perpetre
finalmente sua vingança contra os pretendentes de Penélope. Em favor de Homero podemos alegar
que ele não teve a oportunidade histórica de praticar jornalismo ou a publicidade, mas o que dizer
dos modernos? Simplesmente copiaram os clássicos, que também não tiveram essa oportunidade,
e olharam com arrogância e desprezo as formas plebéias de texto que circulavam nos veículos de
comunicação de sua época. Conclusão: o respeito ao “saco” do leitor deve estar acima de nossa
empáfias vaidades.

Fábio Campana - Jamil, eu fiz uma observação, “Como eu se fiz por si mesmo” também não é um
texto longo, não é um texto como a estrutura dos romances aí pede. É um livro, um conjunto de textos
menores, produzidos como contos, crônicas, e também não é esse o teu livro, o teu longo texto...
Jamil Snege - De um certo ponto de vista, “Como eu se fiz...” não é um romance. Não possui a
estrutura tradicional de um romance. Mas ao mesmo tempo não é uma coleção de textos aleatórios,
pois todos eles – sejam contos, crônicas, etc. – obedecem a um propósito de captar tempos e nuanças

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da memória. Eu o escrevi de maneira contínua, intercalando o tempo presente, o ato de escrever um
livro de memórias à matéria residual das recordações do vivido. Ao mesmo tempo, faço em certos
capítulos uma paródia dos diversos modos de narrar – seja estilisticamente ou através dos vários
usos da linguagem.

Carlos Alberto Pessôa – E quando é que você vai fazer as tuas memórias, o que é que você está
esperando para dar o mergulho?
Jamil Snege - Acho que hoje, dada a fragmentação com que vivemos nossas vidas, somos todos
pequenos atores de pequenas aventuras absolutamente irrelevantes. Já não existem grandes revoluções,
grandes aventureiros, grandes estadistas. Nossa vida se inscreve hoje nesse gigantesco bric-à-brac
do cotidiano. A grande autobiografia, hoje, seria aquela que desse conta da crescente mediocrização
a que estamos sujeitos, seja através do embotamento do espírito crítico, da razão ou dos próprios
sentimentos.

Carlos Alberto Pessôa – Não é a memória da grande vida, é botar no papel tudo aquilo que as
pessoas nunca puseram. É ser absolutamente fiel, real, fazer aquela análise contundente, fazer um
escalpo das tuas amizades, dos teus amores, da tua relação com pai e mãe, com irmãos, com filhos.
Aquela bem real, aquela da frente do espelho, aquele negócio que ninguém ainda escreveu, contar,
tirar para fora toda miséria, aquela bicharada toda. Fazer seiscentos mil inimigos e, post-mortem
publicar, obviamente. E isso certamente será daqui a oitenta anos, que você vai vencer esse câncer
de merda, pois você é muito mais forte. Essa obra, que o Camus queria escrever no último livro
dele, que foi muito subestimado, mas que talvez seja “o” livro dele, não a proposta do primeiro
livro, aquilo que Sartre elogiou, da escrita branca, “O estrangeiro” não, mas aquele último livro,
que é o livro do “diabo” dele. Vejo que você tem texto e vivência, tem humor e mau-humor, tem
observação para escrever algo igual ou melhor que “La chute” de Camus...
Jamil Snege - Eu estou ficando cada vez mais benevolente em relação às pessoas do nosso mundozinho
– pais, mães, amigos, desconhecidos. Somos todos de alguma forma sobredeterminados pelo uso

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cretino e obtuso do poder por aqueles que o detêm em escala mundial. Outro dia me perguntaram
sobre os fatores não orgânicos que podem causar o câncer. Eu respondi de cara: George W. Bush
provoca o câncer; a estupidez e a ignorância provocam o câncer. Não vejo como exigir das pessoas
comuns aquilo que não podemos cobrar, por incompetência ou impotência, dos grandes vilões da
cena mundial. Papai e mamãe são anjinhos, nossos amigos são querubins de asas douradas diante
da grande vileza com que operam os donos do poder. Não se trata de uma visão conspiratória do
mundo, absolutamente. Hoje qualquer caixa de banco, qualquer vendedor de cachorro-quente,
qualquer empregado doméstico têm de ter, para desempenhar suas funções, uma dose de escrúpulos
e uma postura ética infinitamente superiores às que se exigem dos que governam as grandes potências
mundiais.

Fábio Campana – A ensaística, você abandonou?


Jamil Snege - Eu nunca me atrevi a ser um ensaísta. Falta-me capacidade para construir grandes
blocos teóricos e fazê-los colidir com o dados e percepções da realidade. Prefiro a arte, essa vaca louca,
para quem a realidade é produto de um delírio, de uma transgressão do real.

Fábio Campana – Voltando a um ponto lá atrás, você diz que fez uma escolha. Tua escolha é o
texto, é a forma, e literatura se faz com texto, com palavras, com referências literárias, e inclusive,
eu acredito nisso, e não numa reprodução exaustiva ou coisa devida. É o contar histórias e criar
personagens. Mas essa não é uma forma do escritor que escolhe essa família, essa maneira de
escrever, de esconder-se de si mesmo no ótimo texto, no texto maravilhoso, e esconder essas coisas
todas que você diz, que não tem para contar em tuas memórias, em tuas confissões, confissões à
moda de Santo Agostinho, à moda de São João da Cruz ou do Fitzgerald...Será que quando a gente
se esconde atrás do texto, da elaboração da coisa, e, principalmente, trabalha o texto sobre os outros,
não estamos escondendo exatamente aquilo que nós teríamos para contar sobre nós mesmos?
Jamil Snege - Você tem razão. A escritura é um jogo de ocultamentos. Lacan percebeu e metodizou

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isso. Parece que o termo usado é o rebaixamento da barra do significante. Sugere que determinadas
palavras usadas no texto - metáforas, eufemismos – usurpam o lugar de outras, mais reveladoras.
Algumas prosas, realmente, assemelham-se a fantasias, o sujeito se esconde atrás de lantejoulas e
paetês para não ter de exibir sua cuequinha Zorba puída. Agora, vejamos outro aspecto. Nem sempre
o texto preciosista, o texto esteticamente trabalhado, oculta o autor. “Lavoura arcaica”, por exemplo.
Raduan Nassar trata de temas ditos pesados – zoofilia, incesto – com uma finura e uma riqueza de
linguagem e imagem invejáveis. E saliente-se que o livro é escrito na primeira pessoa e o cenário
reproduz ambientes e caracteres familiares da própria biografia do autor - a família árabe patriarcal,
os rígidos códigos de conduta, os ritos de hierarquia e obediência.

Fábio Campana – E o que é essa literatura, e nós a temos hoje?


Jamil Snege - Hoje há muitos senhores engravatados, muitas senhoras colecionadoras de cartões de
crédito fazendo literatura. Uma literatura cheia de pudores e ademanes, na qual o narrador se alça às
alturas de um ente superior que a tudo contempla. Não mencionam suas hemorróidas, suas fixações
homoeróticas, suas pequenas e grandes vilezas. Ao contrário de outros autores, como a nossa querida
Hilda Hist, que desce ao rés dos sentidos, mas com um qualidade de texto realmente exemplar. Eu,
particularmente, prefiro os avessos, os desajustados, aqueles que estão sempre indagando de Deus
se o homem foi a melhor coisa que Ele conseguiu fazer.

Carlos Alberto Pessôa – Então, dá a impressão que é preciso ter gênio para fazer isso...
Jamil Snege - Expor as próprias vísceras requer antes de tudo uma grande dose de coragem. Fazê-lo
com uma certa ironia, com um certo humor, sem contudo elidir do ser humano sua dimensão sagrada,
exige uma imensa dose de amor pela humanidade. Creio que a genialidade seja mais ou menos isso.
Grandes moralistas se esconderam sob a pele do pornógrafo.
Fábio Campana- Cumprir o papel de ficções ordenadoras...

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Jamil Snege - Você lembrou bem. A literatura tem essa função ordenadora. O Bildungsroman, que
esteve muito em moda no passado, teve essa função: balizar a formação dos jovens dentro de um
mundo previsível. Hoje esse tipo de literatura é praticamente inviável. O mundo não é mais previsível
nem redutível a qualquer ideal utópico. A cultura desordenou a natureza, deslocou o homem do
centro da criação e agora empurra o homem para a periferia da própria cultura. O homem ocupa um
não-lugar em todos os lugares, como uma partícula indeterminada de Heisenberg. É simultaneamente
onda e corpúsculo, ou seja, uma não-coisa. Se resta ainda alguma função ordenadora à literatura, é
esta: juntar os cacos estilhaçados do espelho em que o homem se mirava e compor um belo vitral.

Fábio Campana – O romance e a literatura ajudavam, de certa maneira, a soldar esses fragmentos,
e dar às pessoas que viviam nessa época, a idéia exatamente de um mundo, construído mais pela
literatura, do que propriamente sobre a realidade. Você não conhece Paris sem Balzac, ele consegue
construir uma idéia, uma imagem, uma coisa da cidade e de seus habitantes, seus movimentos, e
consegue inclusive impor às pessoas em Paris, a partir de então, uma concepção sobre elas mesmas;
nós somos assim, nós falamos assim, e nos comportamos dessa maneira. E esse tipo de romance é
que não tem mais lugar no mundo, e que não se consegue mais fazer, pois não há mais um mundo
em que caiba uma só voz, uma visão, e portanto, a capacidade de criar uma ficção ordenadora, e
você não vai conseguir fazer isso, numa cidade como a nossa.
Jamil Snege - Este é um tema muito interessante. A literatura como ethos, exercendo uma função
ordenadora sobre a vida social. Não lembro que teórico marxista (Engels?) afirmou que toda estética é
a ética do futuro. Nesse caso, a estética teria uma função antecipadora: lançaria as bases para a instauração
de uma moral social. Você observou uma coisa importante sobre Balzac. Sua literatura ofereceu aos
parisienses uma oportunidade de autopercepção, de reconhecimento de suas próprias identidades através
da trama das relações sociais. Concordo que essa visão unívoca já não é possível. Seria o mesmo que pedir
que todos os curitibanos se identificassem como personagens de Dalton Trevisan.

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Carlos Alberto Pessôa – Você não acha que tudo que vem do pós-moderno é o lixo total, que
tudo está no modernismo, que isso que você propõe, que você fala, já está em Joyce, aquela visão
estilhaçada do mundo está em Proust, e que aliás, são contemporâneos. Isso do romance que não quer
ser mais romance, mas que quer ser mais que romance, para justamente tentar captar isso que está
acontecendo, essa nova realidade. Eu acho também, que a vida moderna não é tão ruim assim, e os
modernistas, de uma maneira geral, a partir já de Flaubert, se colocam contra a modernidade, todo
aquele racionalismo em filosofia e na obra, e Flaubert é um babaca nesse sentido... o anti-burguês,
Baudelaire, enfim...toda essa gente. A vida moderna é um lixo por quê? Houve uma melhora na
vida do ser humano, que não é captada aí, na arte, como vinha Marinetti, com o futurismo, que era
um hino à modernidade. Por que é que não existe mais? O que é que você acha?
Jamil Snege - Eu acho que o mundo ainda é dominado pela idéia das utopias regressivas. Veja o
que ocorre na política: ela promete a regressão a uma mítica idade de ouro, aos rios de leite e mel –
felicidade e bem-estar para todos. Aí que reside a contradição: todo apelo a um futuro promissor,
mesmo que faça apologia das novas conquistas cientificas e tecnológicas, nos remete a uma natureza
preservada, ao uso de energias renováveis, ao prolongamento da vida – o próprio paraíso terreal. Não
creio que conseguiremos isso sem o ônus correspondente, que é exatamente a progressiva deterioração
da qualidade de vida. Esse impasse, a meu ver, deve-se à lentidão do processo evolutivo do próprio
homem, que demora a responder às mudanças do mundo atual. Estresse, neurose, etc, - tudo isso se
deve à falta de respostas adaptativas rápidas. O homem demorou milhões de anos para se hominizar.
E há muito tempo já foi ultrapassado pelo mundo tecnificado que criou.

Jamil Snege, Curitiba, PR, é escritor e publicitário.

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