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CARACTERIZAÇÃO DAS MUDANÇAS PSICOLÓGICAS OCASIONADAS EM


INDIVÍDUOS SUBMETIDOS À CIRURGIA BARIÁTRICA

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7 authors, including:

Juliana Francisca Cecato Daniel Bartholomeu


Faculdade de Medicina de Jundiaí Centro Universitário Salesiano de São Paulo
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José Maria Montiel


Centro Universitário Fieo
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Encontro CARACTERIZAÇÃO DAS MUDANÇAS
Revista de Psicologia
PSICOLÓGICAS OCASIONADAS EM INDIVÍDUOS
Vol. 14, Nº. 20, Ano 2011
SUBMETIDOS À CIRURGIA BARIÁTRICA

RESUMO
Cilene Aparecida Saez Moreno
Insight Academia de Desenvolvimento Este estudo teve como objetivo investigar os resultados obtidos por
Pessoal - Coach pacientes submetidos à cirurgia bariátrica (gastroplastia) no que diz
cilenemoreno@hotmail.com respeito a sua imagem corporal e as possíveis mudanças psicológicas e
comportamentais. Os resultados mostraram uma melhora na questão
profissional em relação à disposição e autoconfiança; a auto-estima
Adenauer Morellato Silva melhorou a auto-imagem e favoreceu a qualidade de vida e melhora
Insight Academia de Desenvolvimento nos relacionamentos; no âmbito social a maioria declarou melhora,
Pessoal - Coach notadamente nos relacionamentos com outras pessoas, sentiram-se
sac@portaldasgrifes.com mais incluídos e, consequentemente, melhoraram a sua comunicação;
com relação à sexualidade a maior fração dos entrevistados relatou
melhora refletindo uma melhor qualidade de vida, propiciou uma
melhor disposição física, aumento da libido, houve uma diminuição da
Juliana F. Cecato
vergonha do próprio corpo e melhora nos relacionamentos afetivos.
Faculdade de Medicina de Jundiaí Pode-se concluir que o eixo obesidade – cirurgia – comportamento –
cecatojuliana@hotmail.com psicologia e suas nuances, trouxeram mudanças importantes na vida
dos indivíduos que se submeteram a cirurgia bariátrica (gastroplastia).

Daniel Bartholomeu Palavras-Chave: obesidade; gastroplastia; aspectos psicológicos e


Centro Universitário Salesiano de comportamentais.
São Paulo - UNISAL Campinas
d_bartholomeu@yahoo.com.br
ABSTRACT

José M. Montiel This study aimed to investigate the results obtained by patients
Faculdade Anhanguera de Jundiaí undergoing bariatric surgery (gastroplasty) in relation to their body
montieljm@hotmail.com image and the possible psychological and behavioral changes. The
results showed an improvement in professional matter regarding the
disposition and self-confidence, self-esteem, improved self-image and
promoted the quality of life and improvement in relationships, in the
majority said the social improvement, especially in relationships with
others, felt more included and, consequently, improved their
communication, in relation to sexuality the largest fraction of
respondents reported improvement reflecting a better quality of life,
provided a better physical layout, increased libido, a reduction of
ashamed of their bodies and improvement in relationships. It can be
concluded that the axis Obesity - Surgery - behavior - psychology and
its nuances, brought important changes in the lives of individuals who
underwent bariatric surgery (gastroplasty).
Anhanguera Educacional Ltda.
Correspondência/Contato
Keywords: obesity; gastroplasty; psychological and behavioral aspects.
Alameda Maria Tereza, 4266
Valinhos, São Paulo
CEP 13.278-181
rc.ipade@aesapar.com
Coordenação
Instituto de Pesquisas Aplicadas e
Desenvolvimento Educacional - IPADE
Artigo Original
Recebido em: 25/01/2012
Avaliado em: 30/04/2012
Publicação: 04 de maio de 2012 99
100 Caracterização das mudanças psicológicas ocasionadas em indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica

1. INTRODUÇÃO

A palavra obesidade é originada do latim obesu e significa gordura. Segundo Domene,


Puzzo e Volpe (2005) a obesidade é uma doença crônica com causas múltiplas e
complexas e não é simplesmente um problema de excesso de alimentação. Santos (2005)
aponta que é uma síndrome multifatorial que consiste em alterações fisiológicas,
bioquímicas, metabólicas, anatômicas, além de alterações psicológicas e sociais. Além
destes fatores são considerados também os fatores genéticos, ambientais e culturais.
Domene, Volpe e Puzzo (2005) ressaltaram que as causas da obesidade grave são
desconhecidas, mas seja qual for o motivo o fator determinante é a ingestão da
quantidade de alimento maior do que aquela que o organismo pode metabolizar e
utilizar, levando ao armazenamento do excedente em forma de gordura de reserva. Estar
obeso é encontrar-se acima do peso “ideal”. Porém, para se caracterizar um paciente é
necessário fazer uma avaliação individual, mesmo que do ponto de vista científico o peso
“ideal” ainda não estar definido.

A maneira utilizada atualmente para definir o nível de obesidade é o índice de


massa corpórea (IMC), que é calculada dividindo-se o peso em quilogramas pela altura
em metros ao quadrado (IMC = kg / m2). O peso corpóreo representa a soma de
músculos, ossos, água corpórea e gordura de reserva.

Segundo Halpern (1994), mais importante do que a quantidade de gordura


apresentada por um indivíduo é a distribuição desta no organismo. Ele descreve que “o
índice de massa corpórea (IMC) serve para sinalizar que indivíduos com valor acima de 30 kg/m2
correm sérios riscos de doenças”. Esta distribuição diz respeito à forma corpórea, forma esta
pela qual a gordura é distribuída no organismo. Concentrada de maneira centralizada, no
tórax, no tronco e abdômen, com braços e pernas com tendência a serem menos
volumosos, dá ao indivíduo uma forma semelhante a de uma maça, predominante nos
homens e também conhecida como obesidade andróide.

Na mulher predomina o tipo pêra ou também chamada ginóide onde a


distribuição da gordura é mais periférica, com muito maior quantidade de gordura nas
nádegas e nas coxas podendo haver também bastante adiposidade no abdômen, na
parede abdominal ao contrário da obesidade central que é fundamentalmente intra
abdominal, isto é, entre as vísceras e que, portanto, tem maior risco de afetar os órgãos
vitais. Em síntese, apesar da obesidade ser uma doença multifatorial e complexa é de
extrema importância que o prognóstico seja realizado de forma individual para que seja
direcionado o melhor e mais eficaz tratamento para a doença.

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Em relação aos tipos de obesidade esses podem também variar em suas causas e
formas. Há um consenso da comunidade médico-científica que existe uma predisposição
genética para a obesidade. Há dados que sugerem que filhos de pai e mãe obesos têm 70%
de chance de se tornarem obesos enquanto filhos de pais magros têm cerca de 15% de
chance. Segundo Halpern (1994) os hábitos da casa, ou seja, do ambiente familiar do
indivíduo, podem levar ao excesso de peso, como, por exemplo, a tendência de comer
mais alimentos calóricos e uma vida mais ociosa, sedentária. Ele ainda diz que a
capacidade de engordar varia de pessoa para pessoa e acredita que há uma
preponderância dos genes sobre o ambiente. Halpern (1994) acrescenta que há vários
tipos de obesidade, sendo que parte delas com agregação familiar e com componente
genético bastante provável. À influência genética são acrescidos fatores ambientais que
exacerbam a tendência para o ganho de peso.

O autor acima descreve esta divisão em fatores e/ou tipos sendo obesos de
nascença, ou seja, indivíduos que sempre foram gordinhos. Mais associado ao gens e
representa cerca de 30% dos casos; a Obesidade pubertária, mais prevalente em meninas e
está associado a alterações hormonais e emocionais, notadamente ao aparecimento dos
hormônios sexuais; obesidade após casamento, que está ligada mais aos homens e deve-se
ao sedentarismo e a maior quantidade de alimentos ofertados a este pela mulher;
obesidade após gravidez, comum e está associado a causas psíquicas, hormonais e
genéticas; a obesidade após cessação de atividade física, comum em homens ou ex-atletas
que tinham acostumado o corpo e o estômago a um ritmo alto de gasto energético, ou
seja, depois de cessada a atividade, por lesão ou preguiça deixa de gastar calorias e passa
a acumulá-las; a obesidade após deixar de fumar, em que o indivíduo passa a comer mais,
pois os alimentos ficam mais saborosos e gastam menos calorias; a obesidade causada por
drogas, devido ao uso de medicações como a cortisona, pílulas anticoncepcionais (em
certas mulheres) e alguns antidepressivos; a obesidade da menopausa, que pode ser
observável o nítido ganho de peso na menopausa onde as mulheres tendem a aumentar o
seu peso; e por ultimo a obesidade decorrente de outras causas, onde pode-se incluir, por
exemplo, a retirada do útero, a laqueadura das trompas, dentre outras alterações
hormonais.

Halpern (1994) enfatizou que entre todos estes eventos são destacáveis as causas
endócrinas e psíquicas. A primeira como mau funcionamento da tireóide, das
suprarrenais, dos ovários, da hipófise ou do pâncreas, o qual considera, e acredita, que
corresponde a 5% da real causa da obesidade. A segunda ele associa o ganho de peso a
eventos como a morte ou separação de pais ou cônjuge, nascimento de um irmão,

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divórcio, a mudança para um ambiente hostil, ansiedade, depressão, carência afetiva,


dentre outras.

Em geral os comprometimentos ocasionados pelo ganho de peso em excesso é


considerado Obesidade Mórbida. Segundo Domene, Volpe e Puzzo (2005) a obesidade
mórbida é geralmente definida quando o IMC (Índice de massa corpórea) encontra-se
maior que 40 ou o indivíduo tem aproximadamente 45 kg acima do “peso ideal”. A
obesidade é denominada mórbida porque se associa à várias doenças graves,
progressivas, debilitantes e que são desencadeadas ou agravadas pelo excesso de peso,
tais como, Diabetes tipo 2, alterações hormonais – endócrinas; elevação de pressão
arterial; elevação de colesterol e triglicérides – hiperlipidemia; problemas cardio-
respiratórios; acúmulo de gordura no fígado e pâncreas (esteatose hepática e pancreática)
entre outras causas (Franques, 2006). Além de doenças associadas, os referidos autores
mencionam outras conseqüências relacionadas à obesidade: sociais: problemas de
relacionamento afetivo com a família, amigos ou ambiente de trabalho, inclusive com
dificuldade para o obeso arrumar ou se manter em empregos; higiene, aparência e
cuidados pessoais: problemas para se vestir ou encontrar roupa adequada ao tamanho,
além do alto custo das vestimentas com numeração fora do padrão; psicológicas:
depressão, distúrbios emocionais, baixa auto-estima, problemas nos relacionamentos
afetivos e na auto-imagem, aparecimento de compulsões, fobias sociais e agressividade;
econômicas: alto custo no tratamento das doenças associadas, dificuldades com o
convênio médico, dificuldades em adquirir emprego; entre outros comprometimentos
(Franques, 2006).

Tratamentos da obesidade
Os tratamentos para a obesidade podem variar de acordo com a gravidade desta, do
método mais adequado, da disposição do indivíduo, seja ele indicado por um profissional
médico ou de áreas afins, como: nutricionistas, professores de educação física, dentre
outros. Veremos, a seguir, os tipos de tratamentos utilizados e seus desdobramentos. Um
dos tratamentos que auxiliam na perda de peso pode incluir uma combinação de dietas,
exercícios físicos, mudanças de comportamento e até medicações. Segundo Halpern (1994,
p.50) “se engordamos é porque comemos mais calorias do que gastamos graças ao que chamamos
balanço de energia positiva - predomínio da energia que entra no organismo em relação a que sai”.

O tratamento físico consiste na realização de dietas que adentram na área da


endocrinologia, da nutrição e da orientação nutricional, bem como a atividade física que
busca tanto quanto a primeira, “deslocar o balanço entre o ganho e perda calórica...”, conforme
Halpern (1994, p.61), o que faz, consequentemente, aumentar o gasto energético e a perda

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de peso. As dietas ou orientações alimentares são prescritas por médicos, nutricionistas e


até mesmo são postuladas pela cultura e crendices populares. A característica comum das
dietas é a diminuição de alimentos, que sejam pobres caloricamente e que seja feito um
balanço da ingestão do alimento e seu tipo. Por exemplo: a dieta dos carboidratos, que
preconiza que se emagrece alimentando-se somente com este tipo de alimento ou dietas
que preconizam a combinação de determinados alimentos.

As atividades físicas são definidas como qualquer movimento corporal


produzidos pelos músculos esqueléticos, que resulte em gasto energético maior que os
níveis de repouso, podendo também acrescentar que seja qualquer esforço muscular pré-
determinado a executar uma tarefa. Além de ser uma busca de perda de peso, diminui o
colesterol ruim, aumenta o colesterol bom, proporcionando um bem estar psíquico,
explicado pela produção, pelo próprio corpo, da serotonina que é, segundo o artigo
eletrônico “Dicionário de Neurociências”, “um produto químico atuando sobre o cérebro e capaz
de produzir grande sensação de alegria, ou seja, proporciona um estado emocional através de uma
alteração química”.1 A mudança de comportamento também é importante no tocante à
obesidade, pois, segundo Halpern (1994, p.65) “baseiam em modificações dos hábitos de vida e
atuam eficazmente não só no combate a obesidade, como na manutenção do peso alcançado”. Existe
uma série de programas comportamentais que se fundamentam no chamado
comportamentalismo e se configuram como métodos psicoterápicos.

No Tratamento químico o uso de medicamentos no tratamento da obesidade é


justificado, muitas vezes, quando as técnicas citadas falharam e podem comprometer a
qualidade ou a duração da vida do indivíduo obeso ou, conforme Santos (2005, p. 56), que
faz uma leitura mais psicológica argumenta: “o consumo destes procedimentos pode levar os
indivíduos a uma conseqüência mais séria, a substituição da vontade pelo procedimento, que é o que
ocorre com o remédio”, ou seja, não consegue dar conta de emagrecer pela vontade e abdica
desta pelo medicamento com a ilusão de um efeito rápido ou, como veremos adiante, pela
cirurgia.

Segundo Halpern (1994, p. 80) “[...] a obesidade é frequentemente uma doença crônica
e que alguns casos só podem se manter sob controle medicamentoso para toda vida”. Os
medicamentos utilizados no tratamento da obesidade são formulados com o objetivo de
reduzir a energia ingerida que acontece através da diminuição do apetite ou elevando o
metabolismo do organismo e/ou diminuindo a absorção de gordura pelo organismo. Em
resumo, as drogas fazem os indivíduos comerem menos, diminuem a fome ou aumentam
a saciedade. Uma questão importante é que se deve pesar os riscos dos medicamentos

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contra seus benefícios, tendo em vista que por tratar-se de uma droga há os efeitos
colaterais, como a diminuição da libido, alterações de humor e sono e a dependência, bem
como outros efeitos singulares a cada fármaco.

Já no tratamento cirúrgico atualmente utilizado, para as pessoas que já tentaram


todo tipo de tratamento para emagrecer e obtiveram pouco ou nenhum resultado, a
medicina oferece o recurso cirúrgico. A cirurgia visa provocar a menor ingestão e/ou
absorção de alimentos, levando à conseqüente diminuição de peso. Segundo Santos (2005)
a cirurgia é apenas uma técnica para diminuição de peso e não a cura das causas
primeiras da obesidade mórbida. A cirurgia bariátrica surge como uma alternativa para
combater essa doença, aliviando e/ou eliminando suas conseqüências físicas, que levam o
indivíduo muitas vezes à morte. Existem três maneiras pelas quais a cirurgia pode
controlar a obesidade, são elas: restritivas, disabsortivas e combinadas.

2. A OBESIDADE E SUAS CONSEQÜÊNCIAS PSICOLÓGICAS E


COMPORTAMENTAIS

2.1. A obesidade no contexto social atual

A conotação moral referente à obesidade se expandiu e se intensificou com o tempo e as


pessoas passaram a se preocupar com o peso e com a alimentação. Os estímulos em
direção à redução de peso intensificaram um processo já internalizado pela sociedade
(Stenzel, 2002). Atualmente existe uma linha divisória entre magros e gordos, sendo que
este último sofre e tem como conseqüências a vergonha, a culpa, o isolamento daqueles
que não correspondem aos padrões, ou seja, quem não se encaixa nas medidas significa
ser diferente e/ou deficiente (Stenzel, 2002).

Nasser (1997, apud Stenzel, 2002) ressalta que ser magro nos dias de hoje é
sinônimo de ser belo, ser sensual, despertar desejo, estar na moda, ser saudável, ter
sucesso e ter autocontrole. Já ser obeso é ser preguiçoso, feio, predisposto às doenças, e
revelam um indivíduo desprovido de disciplina. Os rótulos e estereótipos atribuídos ao
obeso influenciam fortemente o surgimento de transtornos alimentares (Nasser, 1997 apud
Stenzel, 2002).

Assim, a obesidade acaba por ser um fator discriminatório e traz conseqüências


negativas sobre a saúde física e psicológica do indivíduo, bem como provocam
sentimentos de rejeição. Stenzel (2002) descreve que a sociedade vive um conflito entre o

1 Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/gloss/dics.htm>.

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desejo e o controle, onde o último deve vencer o primeiro. Relata ainda que há um conflito
entre corresponder à natureza e suas reais necessidades corporais e alimentares, ou à
artificialidade imposta por um sistema que visa o controle e a necessidade de atingir uma
imagem corporal estabelecida social e culturalmente.

Obesidade, sociedade, cultura e mídia


A obesidade e o corpo são mediados também pela cultura e pela mídia, pois estes trazem
subsídios para entendimento e identificação de valores e significados dados pela cultura
no que se refere ao tema. Seria difícil falar deste fenômeno social sem levar em conta o
papel dos meios de comunicação na formação e reprodução da informação. A mídia
contribui fortemente para a compreensão de fenômenos sociais e psicológicos
relacionados à obesidade porque aquilo que é publicado diz algo sobre as pessoas, sobre
os seus valores, sobre sua cultura e sua ideologia. Nesta última, Thompson (1995, apud
Stenzel, 2002) assinala como sendo o “uso de formas simbólicas para criar ou reproduzir
relações de dominação”. A mídia quando aborda o tema obesidade/magreza é bastante
ambivalente: ao mesmo tempo em que reforça o ideal de magreza parece estimular a
obesidade através do apelo ao consumo oral (Stenzel, 2002).

Stenzel (2000) analisou 25 artigos do jornal Zero Hora e verificou que


a palavra obesidade e a imagem do obeso, estão associados ao fracasso, ao insucesso, à
preguiça, à falta de esforço; enquanto que os temas relacionados ao emagrecimento e
magreza são associados à felicidade, ao sucesso, ao renascimento, entre outros.

Já para Kilbourne (1994, apud Stenzel, 2002) preconiza que a imagem feminina
trazida como ideal tem um impacto muito grande sobre a vida psicológica e social das
mulheres, ou seja, a mídia ensina as mulheres a “odiarem” seus corpos e sentirem-se
inferiores.

Assim como a mídia escrita, a televisão também é palco para o tema da


obesidade e a maioria das propagandas que são direcionadas ao público feminino
reforçam estereótipos e fazem com que as mulheres acreditem alcançar o corpo divulgado
como ideal, significa sucesso, poder e liberdade. Em relação à imagem feminina, Stenzel
(2002) diz que mídia divulga a mulher “sarada”, “malhada”, musculosa, e que estas
mesmas “mulheres são as mais apontadas como sendo suscetíveis à pressão social pelo padrão de
beleza estético, assim como demonstram ser as mais atingidas pelos transtornos alimentares” –
fazendo referência a transtornos como obesidade, bulimia e anorexia.

Em suma, a sociedade respaldada pelos meios de comunicação, está repleta de


receitas, dietas, cosméticos, pílulas milagrosas; todos os ingredientes de uma receita que
tem como resultado garantido a perfeição corporal associada à magreza e não há dúvidas

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que os fatores sócio-culturais e a mídia contribuem efetivamente para a determinação do


modelo corporal trazida pela imagem escrita e televisiva, determinando normas e padrões
de comportamento. Esta preocupação alarmante de transtornos de causas múltiplas e
complexas têm feito com que mulheres e homens procurem e realizem cirurgias plásticas
de todos os tipos.

2.2. A obesidade no âmbito profissional

A forma do corpo, atualmente, ganhou uma conotação de produtividade, ou seja, serve


como julgamento para a capacidade produtiva do indivíduo, bem como parâmetro para o
sucesso profissional. A competição pela luta no mercado de trabalho valoriza
extremamente os atributos físicos, sendo que a obesidade se tornou mais um fator de
influência na seleção de indivíduos.

Em um artigo eletrônico do jornal Gazeta do Povo on-line de 12 de dezembro de


2005, a psicóloga Lígia Guerra relata que a obesidade tem sido uma grande vilã na hora
da contratação de um profissional em concorrência ao tabagismo que também tem sido
apontado como problema na hora de admitir2. A contratação de um obeso representa um
problema de ordem econômica para o empregador uma vez que o quadro da obesidade
traz um aumento de custo com assistência médica e aumento de faltas no trabalho, as
quais se justificam devido à obesidade vir acompanhada de complicações como doenças
cardiovasculares, diabetes, colesterol, dentre outras citadas neste trabalho Há indivíduos
obesos profissionais ou pretendentes de ingresso ou recolocação no mercado de trabalho
que até se questionam se a cirurgia de redução de estômago seria um bom investimento
para suas carreiras e acabam, por este motivo, colocando o aspecto profissional em
detrimento à saúde.

2.3. A obesidade e a sexualidade

Mulheres e homens com sobrepeso estão enfrentando uma crise sexual e pessoal de
grandes proporções. Acreditam que assim que ganharem até mesmo uma quantia
pequena de peso, seus corpos ficariam indesejáveis, sem atrativo sexual algum, até
mesmo repulsivo e absurdo. Segundo Kaufman “o obeso tem uma imagem corporal distorcida,
e esta distorção é tanto mais intensa quanto mais antiga for a sua obesidade”3. O autor relata que
os obesos, muitas vezes, são incapazes de perceber as próprias necessidades corporais e se
referem ao corpo como algo externo a si mesmos, sendo que esta relação com o próprio

2 Disponível em: <http://canais.ondarpc.com.br/familia/profissao/conteudo.phtml?id=520391>.


3 Disponível em: <http://www.hcnet.usp.br/ipq/prato/biblioteca/arthur2.htm>.

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corpo é um espelho de sua relação com a própria vida, pois este corpo é um retrato de sua
impotência, vazio, culpa e medo da destruição: o corpo é rejeitado e o vazio interior é
preenchido com comida. Observa-se que os obesos estão freqüentemente envergonhados
ao expor seus corpos e, por conseguinte, sentem-se quase que impotentes sexualmente,
não reconhecendo aproximações sexuais, porque eles não podem acreditar que qualquer
um poderia ser atraído por eles. Portanto, durante a intimidade sexual, são críticos demais
com relação a eles próprios escondendo seus corpos de seus parceiros.

Ainda segundo Kaufman, no mesmo artigo, existe relação entre comer


exageradamente e sentir frustração sexual. Nem todas as pessoas sexualmente frustradas
comem exageradamente, mas o inverso é verdadeiro: as que comem compulsivamente
não se sentem sexualmente gratificadas. A pessoa sexualmente realizada tem um contato
satisfatório com seu corpo, percebe as suas necessidades e procura racionalmente atendê-
las. Assim, percebe-se que a gordura pode ser um mecanismo utilizado pelo indivíduo
obeso para negar a sua sexualidade, evitar os perigos a esta associados e protegê-los do
sexo oposto. É como se o seu objetivo fosse construir um “muro de carne” entre ele próprio
e os outros, sendo assim, sua fome de vida, fome sexual e fome espiritual convergem num
único desejo, o alimento proibido, pois o satisfaz imediatamente por ser algo palpável.

Para Kaufman o deslocamento dos impulsos sexuais para a comida


frequentemente começam já na puberdade. Mais tarde, as fantasias sexuais
“impensáveis”, não aceitas, também são deslocadas para a comida. O autor refere ainda
que o obeso nega a sexualidade e o amor, evita ser desejado, mesmo que seja renunciando
à sua feminilidade/masculinidade, à possibilidade de ser belo, e até à própria liberdade
(pela diminuição da mobilidade): tende a tornar-se um vegetal, sem noção de corpo e de
ego. Sua figura pode ser agradável (“gordinho simpático”, “bonachão”), mas como vimos
não é competitiva. Mas é inconsciente de seu papel no mundo, é inconsciente de seu
relacionamento consigo próprio e com sua feminilidade/masculinidade; o caminho
trilhado é o de preencher o vazio através do comer ou do “beliscar” o tempo todo. E isto
leva à depressão e aos pensamentos ou tendências suicidas, pois existe um profundo grau
de negação da vida.

2.4. A obesidade e a auto-estima

Todo ser humano tem o desejo de ser aceito e apreciado. O indivíduo obeso muitas vezes
– senão na maioria delas – é abatido pela baixa auto-estima. Zago (2006) define a auto-
estima como “opinião e sentimento que cada pessoa tem por si mesma”. “É ser capaz de respeitar,

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confiar e gostar de si”4. Assim, como resultado de questões dos capítulos anteriores
relativos ao social, profissional, sexualidade e observada por esta psicóloga clínica acima,
são características da baixa auto-estima: insegurança, inadequação, perfeccionismo,
dúvidas constantes, estar incerto do que se é, sentimento vago de não ser capaz de
realizar nada (depressão), não se permite errar, ter necessidade de agradar, de ser
aprovado e de ser reconhecido.

Ainda, os fatores que diminuem a auto-estima: críticas e autocríticas, culpa,


abandono, rejeição, carência, frustração, vergonha, inveja, timidez, insegurança, medo,
humilhação, raiva e, principalmente perdas e dependências de ordem financeira e
emocional. De acordo com Zago (2006), Cairo (2002) e Hollis (1994), quando discorrem
sobre a obesidade e auto-estima, freqüentemente encontra-se que estas questões se
formam na infância, seja pelo modo como as pessoas nos tratam e/ou devido às crenças
de que necessitamos de aprovação de nossos pais. Deste modo, acredita-se que esta é uma
fase na qual se pode alimentar ou destruir um componente básico da auto-estima: a
autoconfiança. Neste sentido, este estudo teve como objetivo investigar mudanças nos
aspectos profissionais, auto-estima, sociais, sexuais e outros aspectos relevantes referentes
a mudanças no individuo após serem submetidos à cirurgia bariátrica.

3. METODOLOGIA

Foi realizada uma pesquisada bibliográfica paralela a uma pesquisa de campo, onde 24
sujeitos, de ambos os sexos, com idades entre 22 e 59 anos, que foram passaram por
cirurgia bariátrica (gastroplastia), foram submetidos a um questionário previamente
elaborado, e suas respostas avaliadas de forma qualitativa e quantitativa, sendo estas,
posteriormente, articuladas com a primeira. A pesquisa foi realizada mediante assinatura
do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi utilizado um questionário
previamente elaborado pelos pesquisadores, composto de cinco perguntas fechadas para
identificação da população e cinco perguntas abertas pertinentes à referida pesquisa. Os
dados coletados foram categorizados e analisados em termos de freqüência absoluta (FA)
e freqüência percentual (F%).

4 Disponível em: <http://www1.uol.com.br/cyberdiet/colunas/autoestima.html>.

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4. RESULTADOS

Os resultados apontam para a maioria (79%) dos pesquisados que se submeteram a


cirurgia é do sexo feminino. Os dados sugerem que a procura pela cirurgia é maior entre
as mulheres pelo fato de serem mais suscetíveis à pressão social pelo padrão de beleza
estético cobrado pela sociedade através da mídia e tendo, portanto, maior impacto na vida
psicológica e social destas; enquanto que no homem esta pressão é menor, ou seja, os
obesos do sexo masculino podem ser “perdoados” e aceitos por terem uma boa posição
sócio-econômica ou profissional. A maioria dos pesquisados são casados (54%), seguida
dos solteiros (33,5%) e 37% da amostra corresponde a pós-graduados.

Tabela 1. Distribuição de freqüência absoluta e percentual quanto à faixa etária.

Faixa etária FA F%

20-30 5 21

31-40 10 42

41-50 7 29

51-60 2 8

A maior concentração dos pesquisados encontram-se na faixa de 31 a 40 anos


com 42%. Em uma avaliação mais detalhada a idade mínima foi de 22 anos e a máxima de
59 anos. Entende-se, assim, que as pessoas desta faixa etária, que compreende a chamada
meia-idade, têm uma preocupação e buscam melhor saúde, qualidade de vida e auto-
estima, colaborando para uma maior longevidade, como veremos adiante. A média de
tempo em que os indivíduos entrevistados tinham realizado a cirurgia é de 1 ano, 6 meses
e 29 dias, tendo sido feita entre 20 dias (o menor tempo) e 4 anos (maior tempo), com
destaque para cirurgia realizada em até um ano, com 42%.

Tabela 2. Distribuição de freqüência absoluta e percentual quanto ao peso eliminado.


Peso eliminado (kg) FA F%
5-30 13 57
31-55 8 35
56-80 2 8

A Tabela 2 evidencia a maior quantidade de peso eliminada entre os


entrevistados é de 78 kg e a menor perda é de 7,5 kg. A média de quilos perdida entre os
mesmos é de 33 kg, com destaque para a perda entre 5 e 30 kg (57%). Ou seja, avaliando o
item tempo de cirurgia e peso eliminado, observa-se que a média de perda é de cerca de
30 kg em um ano, sendo este resultado bastante significativo, uma vez que em outros
tipos de tratamentos (não cirúrgicos) esta perda é, muitas vezes, oscilante e/ou

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temporário, enquanto que em tratamentos cirúrgicos a perda é mais duradoura e


constante.

A Tabela 3 comprova que a cirurgia propiciou para a maioria dos entrevistados


(50%) uma melhor disposição/vontade para o trabalho, seguido de autoconfiança (29%),
busca de novos desafios, sentimento de menos discriminação e segurança com 17%.

Tabela 3. Distribuição de freqüência absoluta e percentual quanto às principais


mudanças na vida profissional.
Categorias FA F%
Disposição/vontade 12 50
Autoconfiança 7 29
Sem alterações 4 17
Busca de novos desafios 4 17
Sentimento de menos discriminação 4 17
Segurança 4 17
Auto-estima 2 8
Melhoria no relacionamento Interpessoal 2 8
Flexibilidade 1 4
Atitude 1 4
Agilidade 1 4
Determinação 1 4
Dedicação 1 4
Criatividade 1 4
Produtividade 1 4
Entusiasmo 1 4

Conforme descrito no capítulo 4, item 2 - A obesidade no âmbito profissional - os


empregadores têm uma preocupação com a forma física do indivíduo na hora da
contratação e com o mito do gordinho preguiçoso e menos produtivo. Pode-se constatar
que a empresa usa a lógica de que com o colaborador obeso o custo com assistência
médica é mais elevado devido às doenças que acompanham a obesidade e o absenteísmo
decorrente. Em função desta realidade o indivíduo obeso sente-se discriminado levando-o
à insegurança e falta de perspectivas profissionais, conforme podemos constatar, de forma
implícita, nos seguintes relatos:

- E. M. R. (30 anos, 28 kg eliminados) – “Me senti mais disposta e confiante; e


menos discriminada”.

- A. R. (34 anos, 75 kg eliminados) – “Enquanto estava gorda não conseguia nada,


agora é diferente... começo a trabalhar a semana que vem”.

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- A. A. L. (41 anos, 48 kg eliminados) – “No aspecto profissional mudou muito,


tenho mais vontade de trabalhar, de correr atrás dos meus sonhos”.

- D. R. N. (50 anos, 20 kg eliminados) – “Aumento da auto-estima, diminuição


das dores musculares o que leva a uma maior disposição para realizar tarefas”.

- R. I. P. (41 anos, 26 kg eliminados) – “Determinação em buscar novos


empreendimentos, mudanças de emprego, alcançando promoções”. “Troquei um
emprego de 11 anos por mudança de cargo e salário vencendo o medo da estagnação que
me encontrava”.

- C. A. A. F. (50 anos, 50 kg eliminados) – “Mais disposta para trabalhar, isso se


resulta em mais produção, com animação”.

Estes relatos vêm confirmar que, de alguma forma, a cirurgia e a perda de peso
foram um bom investimento para suas carreiras e sucesso pessoal e profissional.

Na Tabela 4 pode-se observar que a maioria dos entrevistados alegaram ter sua
auto-estima aumentada (96%). Os aspectos relevantes para esta melhora foram a auto-
imagem (58%), a melhora na qualidade de vida (21%), nos relacionamentos sociais (17%),
humor (12,5%), dentre outros.

Tabela 4. Distribuição de freqüência absoluta e percentual quanto às principais mudanças na auto-estima.


Categorias FA F%
Aumentou 23 96
Altos e baixos 1 4
Diminuiu 0 0
Auto-imagem 14 58
Qualidade de Vida 5 21
Relacionamentos sociais 4 17
Humor 3 12,5
Atividades Físicas 2 8
Profissional 2 8
Sensualidade 1 4
Relações Afetivas 1 4
Vontade de Viver 1 4
Estado de espírito 1 4

Na Tabela 5 observa-se que 79% dos pesquisados obtiveram melhoria em suas


relações sociais, 8% não percebeu nenhuma mudança e 8% relataram ser indiferente.
Dentre os que obtiveram melhoria em suas relações sociais, estas referem-se à convivência

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e participação (37,5%), ao sentimento de inclusão (12,5%) e ao processo de comunicação


(12,5%).

Tabela 5. Distribuição de freqüência absoluta e percentual quanto às principais


mudanças e melhoras nas relações sociais.
Categorias FA F%
Melhorou 19 79
Não Mudou 2 8
Indiferente 2 8
Sem resposta 1 4
Melhora nas relações sociais convivência/participação 9 37,5
Sentimento de inclusão 3 12,5
Melhora na comunicação 3 12,5
Gostar de si e dos outros 1 4
Busca de novas relações 1 4

Com relação a sexualidade os somente 17 responderam este item, e do número


de respostas somente 58% (14) disseram que melhorou, 8% (2) não mudou nada e 4% (1)
foi indiferente. Dentre os aspectos relevantes dessa melhoria tivemos a qualidade de vida
com 37,5%, disposição física com 33%, aumento da libido com 25%, diminuição da
vergonha do corpo e melhoria no relacionamento com 17% (Tabela 6).

Tabela 6. Distribuição de freqüência absoluta e percentual quanto às principais


mudanças e melhora da atividade sexual.
Categorias FA F%
Melhorou 14 58
Não mudou 2 8
Indiferente 1 4
Qualidade de vida 9 37,5
Disposição Física 8 33
Aumento da libido 6 25
Diminuição da vergonha do corpo 4 17
Melhora no relacionamento 4 17
Segurança 3 12,5
Aumento da freqüência 3 12,5
Sensualidade 2 8
Busca de novos relacionamentos 2 8
Gravidez 1 4
Maturidade 1 4

Pode-se refletir nessa dificuldade do obeso em relação à sua sexualidade, quando


Kaufman refere que eles acreditam que seus corpos disformes são indesejáveis, sem

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atrativo sexual algum, até mesmo repulsivo e absurdo, são incapazes de perceber as
próprias necessidades corporais e se referem ao corpo como algo externo a si mesmos,
sendo que esta relação com o próprio corpo é um espelho de sua relação com a própria
vida, pois este corpo é um retrato de sua impotência, vazio, culpa e medo da destruição: o
corpo é rejeitado e o vazio interior é preenchido com comida.

5. DISCUSSÃO

A obesidade atualmente é considerada pela Organização Mundial da Saúde como um


problema de saúde pública, pois afeta o indivíduo em sua totalidade, crescendo a cada dia
superando outras doenças como a desnutrição que no passado era a grande preocupação
dos profissionais da saúde seguida pelo tabagismo e alcoolismo. A cirurgia é uma
alternativa que a medicina desenvolveu para amenizar o risco de morte para os
indivíduos obesos considerados mórbidos (IMC > 40), pois tratando-se a obesidade trata-
se consequentemente as suas comorbidades.

Por meio deste estudo pode-se observar que a maioria (79%) dos pesquisados
que se submeteram a cirurgia é do sexo feminino. Acredita-se que a procura pela cirurgia
é maior entre as mulheres pelo fato de serem mais suscetíveis à pressão social pelo padrão
de beleza estético cobrado pela sociedade através da mídia e tendo, portanto, maior
impacto na vida psicológica e social destas; enquanto que no homem esta pressão é
menor, ou seja, os obesos do sexo masculino podem ser “perdoados” e aceitos por terem
uma boa posição sócio-econômica ou profissional. A maior concentração dos pesquisados
encontra-se na faixa de 31 a 40 anos. Uma hipótese para este fato seria que as pessoas
desta faixa etária, que compreende a chamada meia-idade, têm uma preocupação e
buscam melhor saúde, qualidade de vida e auto-estima, colaborando para uma maior
longevidade.

Avaliando o item tempo de cirurgia e peso eliminado, a média de perda é de


cerca de 30 kg em um ano, sendo este resultado bastante significativo, uma vez que em
outros tipos de tratamentos (não cirúrgicos) esta perda é, muitas vezes, oscilante e/ou
temporário, enquanto que em tratamentos cirúrgicos a perda é mais duradoura e
constante. Em relação ao estado civil dos indivíduos, a maioria dos pesquisados são
casados e segundo Kaufman que descreve excesso de alimentação e casamento pode ter
uma relação importante. Engordar após o casamento é um fato extremamente comum.
Sentindo-se mais segura por considerar-se “garantida”, a mulher pode achar que é tempo
de abandonar os sacrifícios do regime e “premiar-se” com as guloseimas que aprecia, mas
era obrigada a privar-se. Com o tempo a frustração toma conta de seu íntimo até o ponto

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114 Caracterização das mudanças psicológicas ocasionadas em indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica

de procurar a alternativa cirúrgica, onde em alguns relatos dos pesquisados casados que
com o processo de emagrecimento a relação no casamento melhorou consideravelmente,
tendo uma pesquisada que engravidou após 6 meses de cirurgia.

Além dos dados demográficos, avaliou-se os pesquisados em suas possíveis


mudanças nos aspectos profissionais, auto-estima, sociais, sexuais e outros aspectos
relevantes de mudança. No aspecto profissional observa-se que o obeso encontra uma
grande barreira onde à exclusão se faz presente através da avaliação da forma do corpo
como julgamento para a sua capacidade produtiva, bem como parâmetro para o sucesso
profissional, tornando-se assim um fator de influência na seleção dos candidatos. Por
meio dos relatos os indivíduos percebem essa discriminação, tornando-se um processo
vicioso, ou seja, o obeso não se aceita gerando insegurança e cada vez mais insatisfação
que eleva ainda mais o seu peso, trazendo-lhes outras doenças associadas, deixando-o
indisposto, com limitações físicas consideráveis que o torna improdutivo.

A cirurgia e a conseqüente eliminação de peso duradoura e permanente opera o


processo inverso, ou seja, com a perda de peso esse indivíduo recupera a saúde com a
eliminação e/ou diminuição das doenças associadas, trazendo maior disposição física,
recuperando a confiança que o torna mais produtivo e com mais vontade de buscar novos
desafios como vimos nos relatos dessa pesquisa. À medida que o indivíduo perde peso,
vai sentindo novas sensações em função da sua nova imagem, a qual se traduz à medida
que vai conseguindo entrar em roupas que antes não conseguia, romper relacionamentos
que antes não conseguia, receber elogios, mudar cabelo, maquiagem, enfim, mudar o seu
“retrato mental”, o indivíduo passa a se sentir mais seguro, ter um melhor humor e
começar a sentir-se parte de um contexto afetivo, emocional e social do qual antes não se
sentia incluso, recuperando um componente básico da auto-estima: a autoconfiança. A
cirurgia foi um instrumento que possibilitou a diminuição de sua necessidade de
aprovação, sentimentos de ansiedade e insegurança, elevando sua autoconfiança e auto-
estima, sentindo-se mais à vontade de oferecer e receber elogios ou expressões de afeto
tendo o seu amor próprio aumentado e permitindo que ele possa conviver e lutar pela
resolução de seus problemas sem o peso da exclusão.

Em relação a sexualidade, os obesos estão freqüentemente envergonhados ao


exporem seus corpos e, por conseguinte, sentem-se quase que impotentes sexualmente,
não reconhecendo aproximações sexuais, porque eles não podem acreditar que qualquer
um poderia ser atraído por eles. Portanto, durante a intimidade sexual, são críticos demais
com relação a eles próprios escondendo seus corpos de seus parceiros. Dessa forma,
percebe-se que a gordura pode ser um mecanismo utilizado pelo indivíduo obeso para

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negar a sua sexualidade, evitar os perigos a este associado e protegê-los do sexo oposto. É
como se o seu objetivo fosse construir uma parede entre ele próprio e os outros, sendo
assim, sua fome de vida, fome sexual e fome espiritual convergem num único desejo, o
alimento proibido, pois o satisfaz imediatamente por ser algo palpável. Com a cirurgia,
essa parede desaparece, ressurgindo uma nova imagem, agradável e satisfatória, com isso
ele passa a se sentir mais seguro, desejável e feliz, obtendo assim maior disposição física
que melhora sua qualidade de vida. Com essa nova identidade, e essa disposição a
vontade de se mostrar para o mundo aumenta, e com ela a sua libido, como conseqüência
ele sente-se seguro em buscar novos parceiros ou mesmo criar novas maneiras de
melhorar seus relacionamentos atuais.

Entre outras mudanças relevantes citadas se destacaram a saúde que certamente


com a eliminação do peso excessivo naturalmente é recuperada, a auto-estima como
conseqüência da nova imagem adquirida e a aceitação desse novo corpo, começa a surgir
um amor próprio e com ele uma imensa vontade de cuidar de si através de novas roupas,
novo corte de cabelo, maquiagem, enfim um novo visual que traduza toda essa mudança
positiva. Conseqüentemente sua qualidade de vida em seu amplo aspecto também é
alterado, pois sua mobilidade e disposição melhoram levando-o ao encontro de outras
pessoas e novos desafios profissionais e pessoais. Pode-se inferir que a cirurgia surgiu
para combater a obesidade aliviando e/ou eliminando suas conseqüências físicas, mas
como vimos no relato de alguns pesquisados é necessário um trabalho multidisciplinar
onde a reeducação alimentar e emocional se faz necessária, pois as transformações físicas
são praticamente certas, mas as psíquicas e sociais não; aspectos estes que não são
solucionados apenas através de um bisturi.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao tecer conclusões sobre o eixo obesidade – cirurgia – comportamento – psicologia e suas


nuances, percebe-se que os aspectos sociais, profissionais, sexuais e auto-estima possuem
uma relação importante: apresentam-se como processos interligados; processos esses que
propiciam alterações significativas para a vida de cada indivíduo, seus comportamentos e
bem estar psíquico, que acabam, muitas vezes, revelando um outro “eu” depois da
cirurgia e o conseqüente emagrecimento; um “eu” mais verdadeiro que se enquadra ou
deixa de ser refém dos ditames sociais, culturais e de dependência emocional e/ou
psicológica, propiciando uma melhor qualidade de vida. Neste sentido novos estudos
devem ser realizados de modo a identificar com maior precisão as características
apontadas neste estudo, bem como outras peculiaridades importantes nesta população.

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Obesidade e não sabe como perguntar (1ª edição). São Paulo: Nutro – Núcleo unificado de
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problemas pessoais provoquem distúrbios alimentares (1ª edição). São Paulo: Ed. Mandarim.
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www.uol.com.br/cyberdiet/colunas/autoestima.html.

Cilene Aparecida Saez Moreno


Graduação em Psicologia. Especialista em
Coaching.

Adenauer Morellato Silva


Graduação em Psicologia pela Universidade
Camilo Castelo Branco.

Juliana F. Cecato
Bióloga e Mestranda do Programa de Pós
Graduação Stricto Sensu da Faculdade de
Medicina de Jundiaí.

Daniel Bartholomeu
Psicólogo, Mestre e Doutor em Avaliação
Psicológica.

José M. Montiel
Psicólogo, Especialista em Diagnóstico e Triagem,
Mestre e Doutor em Avaliação Psicológica.

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