Sunteți pe pagina 1din 11

A cristandade e os combates iniciais ao diabolismo no Novo Mundo

ibérico

Walter Bulhões Pinheiro Júnior1

Resumo

Os contatos dos europeus com as populações da América, a partir de 1492 com


a chegada de Colombo às primeiras ilhas do continente, foram bastante profundos e
influenciaram em larga medida o imaginário e a organização social das populações tanto da
América quanto da Europa. A seguir, irei explanar como essas atuações combativas às
tradições gentílicas surgem, se desenvolvem e interagem com outras culturas durante os
estágios iniciais de contato, da chegada às Américas até meados do século XVI. Tais contatos
geraram não só uma forma sui generis de vivência do catolicismo, que reverbera até hoje na
formação religiosa da América Latina, como também promove a expansão da empresa
repressora da heterodoxia, que já adquiria força e tornava-se cada vez mais intensa em
território europeu. Por meio da análise de fontes primárias, entre bulas papais e cartas, e da
produção historiográfica feita acerca do tema, busco, também, desfazer o comum equívoco
entre a ação oficial da Igreja, que se revela bem menos intolerante quanto se tem sido
atribuído, e conferir a responsabilidade de tais comportamentos aos seus reais propagadores,
sejam eles membros do clero divergentes da doutrina oficial da Igreja ou sejam os próprios
fiéis leigos.

Palavras-chave: Cristianismo; Demonologia; História da América; Cultura indígena.

Introdução

As religiões por muito tempo compuseram a base fundamental para a estruturação de


diversas civilizações e por isso são reconhecidas por sua imensa contribuição na história,
1
Graduando em História pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Participa do: Gradalis – Grupo de
Estudos Medievais. E-mail: jr.bulhoes@hotmail.com
como afirma Yuval Noah Harari (2017) em diversos momentos de sua obra “Sapiens”. No
mundo ocidental contemporâneo, cada vez mais desligado das tradições religiosas e apegado
ao pensamento laico, a compreensão desse tipo de raciocínio, que imperou sobre o imaginário
dos homens do passado com muito mais intensidade, torna-se ofuscada e isso reflete
diretamente nas produções que visam à compreensão desse passado humano. Muitas vezes
embasada na visão materialista e ignorando as realidades intersubjetivas da época, a
historiografia tem exposto alguns resultados turvos quanto à realidade da vivência religiosa à
época. Por isso, busco aqui elucidar o pensamento religioso do Ocidente em fins da Idade
Média e início da modernidade, e como esse pensamento age com relação a si próprio e ao
outro, reformulando-se internamente e combatendo as oposições externas, ao deparar-se com
as expressões religiosas das Américas, até então desconhecidas da cristandade. Despindo-me
das interpretações exclusivamente materialistas, conspirativas e por vezes até anacrônicas que
foram criadas sobre esse período e sobre o processo em questão, analiso o trato com esse
diabolismo americano.

1. Antecedentes

Um dos principais elementos que motivara a forma de ação dos europeus contra os
indígenas, ferozmente combativa e colonizadora, pode ser localizado na situação que estes já
se encontravam imersos desde antes de conhecerem o Novo Mundo. A península Ibérica há
muito se encontrava dominada sob o julgo islâmico, e desde fins da Idade Média, durante o
século XIII, os reinos cristãos que combatiam os mouros no processo denominado
“Reconquista”, a fim de reaver a península para a cristandade, já haviam reconquistado quase
todo o território ibérico. Esse movimento compartilhava de ideais da cruzada, onde é bastante
central o elemento de guerra ao infiel e retomada de domínios cristãos, mas alguns elementos
diferenciam a Reconquista da cruzada. Nesta, apenas os exércitos cristãos eram participantes,
tendo em vista que buscavam combater o inimigo muçulmano a fim de libertar Jerusalém,
Terra Santa da cristandade, enquanto naquela revelam-se elementos ímpares que caracterizam
também a singularidade da formação ibérica, havia soldados mouros e até judeus auxiliando
as tropas cristãs.2

2
Sobre a situação da Europa ibérica antes da chegada às Américas ver Bethell (1997) pp. 136-148. Para as
singularidades da formação das sociedades da Península Ibérica ver Novinsky (1985) pp. 21-34.
A coroa portuguesa, detentora de uma posição real periférica, também já se
movimentava e buscava aproximar-se do papado, à época fragilizado, a fim de obter apoio em
suas empreitadas. O empreendimento revela-se exitoso, os portugueses recebem autorização
para combater populações islâmicas na África sob aval papal e ainda recebem a garantia
oficial de que seriam auxiliados, concedida através da bula Rex Regnum, de 1436, onde o
papa Eugênio IV pede que outros reis europeus auxiliem o rei português D. João I em sua
investida cruzadística. Desta forma, a coroa portuguesa, cada vez mais próxima do papado,
ganha importância e torna-se bem vista aos olhos deste, o que será fundamental em suas
posteriores disputas com Castela. Também é na Ibéria, inicialmente permeada pela
diversidade de populações, que, devido a essa postura de intolerância contra o mouro, não
cristão, isso também se estenderá contra os próprios grupos que os auxiliaram, que já
contavam com certa insatisfação sobre si, como é o caso dos judeus, que compunham grande
parte a burguesia mercantil e que serão combatidos fervorosamente, como também os mouros,
chegando inclusive a proibir sua descendência até a 6º ou 7º geração de ocupar cargos
públicos, através dos estatutos de pureza de sangue.3

2. Primeiros contatos

A visão que tinham os europeus logo que chegaram às terras americanas, em 1492, era
de uma terra edênica, permeados pelo imaginário da época. Interpretação precipitada de uma
terra que inicialmente se mostrava ausente de violência, exceto por alguns outros povos
periféricos que por vezes atormentavam aqueles que os europeus tiveram seus primeiros
contatos. Cristóvão Colombo relata esses primeiros contatos de forma bastante ilustrativa
acerca desse pensamento, de que seria uma espécie de jardim do Éden, com seus habitantes
em um estado de pureza e inocência, descrito na sua carta de 1493 ao escrivão do tesouro de
Castela, Luis de Santángel, ao dizer que os habitantes daquelas terras andavam nus, não
tinham armas exceto as de cana, eram muito temerosos e que, apesar de medrosos, depois de
se familiarizarem eram capazes de serem bastante amigáveis.

O navegador genovês também salienta a disposição dos nativos à conversão, o que


denota a importância genuína da pertença à fé católica para aquelas sociedades na época e
especificamente em Colombo. Tal ato é reafirmado pelo papa Alexandre VI, através da bula
Inter Caetera, de 1493, que dá total direito de administração e jurisdição das novas ilhas
3
Novinsky (1985).
recém-descobertas aos reis católicos. Sendo assim para que, através do uso de seus poderes
temporais, promovam a conversão dos indígenas e os eduquem nas boas práticas através do
envio de homens sábios e tementes a Deus, proibindo a ida daqueles interessados apenas em
mercadorias ou em alguma outra causa que não possua a licença dos reis ou alguém que
possua esse poder, também conferido pela realeza. Aqueles que desacatassem tais instruções
sofreriam pena de excomunhão latae sententiae, uma espécie de excomunhão automática sem
a necessidade de um pronunciamento oficial das autoridades eclesiásticas, como está
explicitado no próprio texto do documento.

O choque cultural inicial é apaziguado pela certeza da pertença edênica daqueles


nativos. Contudo, com estreitamento das relações e maior frequência de contatos as dúvidas
começam a surgir. Quem seriam aqueles povos, exatamente? Seriam, de fato, os habitantes do
jardim do Éden? Seriam judeus fugidos da época do imperador romano Vespasiano? Ou são
realmente os povos da Índia?

Depois do reconhecimento das novas terras pela Coroa, a escravidão tornou-se prática
corrente naqueles espaços pertencentes ao poder real, costume já introduzido por Colombo, o
que levou às cortes europeias e ao papado o questionamento acerca da legitimidade desta
prática, tendo em vista o caráter ainda não explicitado daquelas populações. Isabela, rainha de
Castela, é aconselhada por Jiménez Cisneros, seu confessor, e proíbe a escravidão dos índios
em 1500, tornando-a possível, a partir daí, apenas através da guerra justa, porque os nativos
não eram infiéis por sua vida de gentio, mas sim pagãos que desconheciam a verdadeira fé,
segundo Elliot (1997, p.149). Lógica similar já havia sido aplicada, como salientado acima,
durante a conquista europeia aos territórios africanos e também se tinha tentado submetê-los à
escravidão, permitida através da bula Romanus Pontifex (1455), do papa Nicolau V, que
permitia a escravidão, uma espécie de “seqüela (sic) que “pelo menos” ajudava a salvar a
alma dos negros” (ALENCASTRO, 2000, p.54).

Numa sociedade de tradições religiosas tão profundamente arraigadas, e, por


consequência, a ainda existente soberania do poder religioso sobre o temporal, tornava-se
válido o uso de métodos “menos nobres”, pois, se fosse para a real salvação das almas, fim
último da existência do homem sobre a terra, era legítima “a ideia de que os fins religiosos
justificariam os quaisquer meios temporais” (BORGES; COSTA; MENEZES, 2015, p. 57).
3. Choque intercultural

Claro, levando em consideração civilizações de ideais religiosos tão divergentes


haveria algum conflito ou conflitos, e a impressão do domínio diabólico sobre os indígenas
seria fundamental para acentuar tais comportamentos. As línguas indígenas, até então
desconhecidas, contribuíram para reafirmar a ideia de possessão, pela falta de compreensão
inicial dos espanhóis acerca daqueles idiomas. Um bom exemplo disso é do encontro de
alguns espanhóis com populações maias na península de Yucatán e perguntando a um dos
índios o nome daquele local. O indivíduo questionado teria respondido “Yucatán”, que quer
dizer algo como “não compreendemos”, e o espanhol anotou o nome em seu mapa.4

Diversos outros conflitos de natureza religiosa permearam esses contatos. Inclusive,


por isso, durante o processo de conquista, em diversos momentos aparições de entidades
cristãs teriam supostamente surgido em auxílio das tropas espanholas em apuros. Desde
aparições da Virgem Maria, que supostamente jogava terra nos olhos dos inimigos dos
cristãos, e até Santiago, que teria vindo auxiliar fisicamente na batalha, montado em seu
cavalo loiro e marcado, que despedaçava os índios, enquanto o santo os cortava com sua
espada. Tais aparições de Santiago já eram conhecidas pelos espanhóis, teriam ocorrido
também durante a Reconquista e haviam-no rendido o título de Santiago “matamoros”, ou
seja, Mata-mouros. Sua primeira aparição em solo americano teria sido durante a batalha de
Cintla, em 1519, contra grupos de índios maias, mas os próprios presentes questionam se teria
sido o próprio Santiago ou São Pedro. Ainda assim, na América suas supostas aparições iriam
lhe render outro título infame, de Santiago “mataindios”, isto é, que mata os índios.5

Desta forma, as batalhas contra os ameríndios eram incontestavelmente legítimas, com


o próprio apoio dos santos de Deus e de Sua mãe. Porém, nem todas as batalhas contra o
paganismo indígena ou seus praticantes recebiam auxílio celeste. Algumas apenas os
conquistadores esforçavam-se para combater esse tipo de culto. Destaco apenas dois: Um
deles ocorrido no México, enquanto Cortés se encontrava na ilha de Cozumel, tendo ouvido o
sermão pagão dito pelo oficiante indígena, ele mandou destruir o santuário com ídolos e
instalar uma imagem de Nossa Senhora. O outro ocorreu no Peru, em 1532, quando os
cristãos se encontraram com o nobre inca em disputa pela liderança do império incaico,
Atahualpa, que foi preso após lançar ao chão a Bíblia que havia recebido do frade dominicano

4
Del Roio (1997, p.132).
5
Souza, G. (2008) analisa de forma magistral as aparições de Santiago durante a conquista mexicana.
Vicente Valverde.6 O próprio grito “Santiago!” na estratégia de Pizarro para o início do
ataque na captura de Atahualpa talvez aluda a um pedido pela presença do santo que venha
em auxílio dos cristãos, servos de Deus, assim como havia feito no México e como também
havia feito na Europa.

No Brasil, o choque também se dá de forma bastante forte com as populações locais.


Os portugueses tiveram as mesmas impressões acerca dos índios, que andavam nus, assim
como os descritos por Colombo em sua já mencionada carta a Luis de Santángel. Passada a
primeira fase de contato e o início, de fato, da empresa colonizadora, os portugueses puderam
conhecer mais de perto os costumes indígenas, que os chocaram ao ver a poligamia
naturalizada, as práticas antropofágicas e os pajés feiticeiros que competiam com a influência
religiosa dos jesuítas. O mais próximo de um elogio que os índios do atual território brasileiro
receberia de um europeu foi o de São José de Anchieta, que destaca o fato deles não serem
cruéis, mas as características negativas ainda são bem mais acentuadas, ao classificá-los como
beberrões, polígamos, vingativos e de natureza descansada.7

A incompreensão tanto de portugueses quanto de espanhóis não deve se relacionar a


uma hipocrisia da parte dos europeus ou más intenções, ao menos não só. Também deve ser
considerada a realidade da época de pouco fluxo de informações. Por exemplo, depois da
chegada de Vasco da Gama à Índia e estabelecer o contato português com aquelas populações,
o próprio rei, Dom Manuel, iria confundir as populações da Índia com povos cristãos e por
isso se revelará desejoso de estreitar laços com estes, como revelado em um regimento de
1500, enviado a Pedro Álvares Cabral, ao dizer

[...] como sempre nos tempos passados, desejando nós muito de saber das
coisas daquela terra da Índia e gentes dela, principalmente por serviço de
Nosso Senhor, por termos informação que ele (o Samorim de Calicute) e
seus súditos e moradores de seu reino são cristãos e de nossa fé, e com que
devemos folgar de ter todo trato, amizade e prestança, nos dispusemos a
enviar algumas vezes nossos navios a buscar a via da Índia, por sabermos
que os indianos são assim cristãos, e homens de tal fé, e verdade e trato, que
devem ser buscados, para mais inteiramente haverem praticar de nossa fé, e
serem nas coisas dela doutrinados e ensinados, como cumpre a serviço de
Deus e salvação de suas almas; e depois, para nós prestarmos e tratarmos
com eles, conosco, levando das mercadorias de nossos reinos a eles
6
Bernand et Gruzinski (1997) fazem uma descrição detalhada dos dois episódios. O primeiro nas páginas 334-
336 e o segundo algumas páginas depois, 508-514.
7
Barros (1995, p. 481-502).
necessárias e assim trazendo das suas...[...] (REGO, 1947, p.12-13, apud
BORGES; COSTA; MENEZES, 2015, p.57)

4. Convergências e divergências

Passada a primeira fase de choque com aquelas populações desconhecidas e de


costumes tão diferentes, os ibéricos, já melhor localizados e tendo iniciado seu processo de
colonização, começam a, além de influenciar a cultura das populações americanas, sofrerem
influências das tradições indígenas na sua própria. A América que já foi paraíso (Éden) e
inferno (paganismo ameríndio), agora se torna purgatório, um meio-termo. Os colonos
desenvolvem uma religiosidade bastante diferente daquela existente na Europa, o que era sem
dúvida mal-visto pela Igreja, ainda mais depois do concílio de Trento, zeloso pela oficialidade
e manutenção da ordem de seus fiéis.8

A própria concepção do diabo que se alterava é motivo ainda maior de preocupação do


alto clero católico, porque o demônio passava de um ser não tão poderoso, que podia até
mesmo ser até mesmo escravizado para cumprir as ordens de seu mestre, para uma criatura
poderosíssima. Uma nova interpretação do papel de satanás se solidificava no imaginário da
sociedade cristã em expansão, como príncipe (Jo 12,31; Jo 16,11; 1Jo 15,19) e até deus deste
mundo (2Cor 4,4), o que o conferia um patamar de rival quase equiparável a Deus, numa
definição maniqueísta que faz ressurgir os embates da Igreja acerca desta concepção 9. Com
efeito, o diabo e os demônios eram lidos agora como criaturas poderosas, o que justificava o
combate firme empreendido pela Igreja. Inclusive, tal interpretação ainda é mantida pelo
catolicismo até hoje, como atesta o próprio Catecismo em diversos parágrafos (Igreja
Católica, 395; 407; 409; 2851-2853.).

Os colonos europeus, através de seus comportamentos desobedientes com a


continuidade da prática da escravidão indígena farão com que o papado, na figura de Paulo
III, se manifeste de forma mais direta e decisiva em 1537, através da bula Sublimis Deus,
afirmando a humanidade dos índios e de sua capacidade para a fé cristã. Também afirma,
através da mesma bula, que não se deve privá-los da liberdade e do domínio de suas coisas,
mas que a conversão destes se dê através do bom exemplo e da pregação.

8
Souza, L. (1986).
9
Ibid.
A ciência moderna que dá seus primeiros passos depois de engatinhar também começa
a surgir nesse cenário místico e religioso, que também irá exercer sua influência religiosa
sobre o pensamento científico. A demonologia é filha dessa união. Área pretensamente
científica, utilizada para combater a igreja diabólica e seus fiéis devotos do demônio, oposta à
Igreja católica, do Cristo. Percebe-se a força do ideal militar que permeia o mundo religioso
como também o contrário, com uma ideia de guerra permanente entre o bem e o mal. E era
bastante forte o pensamento de que o diabo de fato estava presente na América após sua
expulsão do Velho Mundo, com a cristianização das populações deste porque, se os indígenas
utilizavam de práticas mágicas sem ter contato com os bruxos deste Velho Mundo, onde mais
o teriam aprendido senão com o próprio contato do diabo?

Um dos principais expoentes da vertente extremista no combate à feitiçaria ameríndia


foi Diego de Landa, eclesiástico espanhol, apesar de uma inicial empreitada piedosa no trato
com os ameríndios, ao ser nomeado provincial dos franciscanos de Yucatán, em 1561,
responsável por queimar diversos códices maias e promover a tortura e morte de vários índios,
fazendo-o ser enviado de volta à Europa e, após julgado, condenado pelo Conselho das Índias.
Tristemente foi absolvido após uma investigação da Coroa, nomeado bispo e por fim retornou
ao seu cargo de provincial.10 De qualquer forma, ele representa o maior interesse da Espanha
em torno desse debate demonológico, capaz de chegar a níveis tão radicais, enquanto em
Portugal a configuração do conflito demonológico será menos gritante. Exceto em algumas
situações de destaque, como a mudança de nome da “Terra de Santa Cruz” para “Brasil”,
retirando a designação que homenageava o lenho de Cristo para fazer homenagem a uma
madeira qualquer, a teologia portuguesa será menos feroz que a espanhola.

Dentre os poucos que tentarão combater esses cultos demoníacos em consonância com
a prática da piedade para com os indígenas, permanecendo então de acordo com a doutrina
oficial definida pelo alto clero, estarão os dominicanos Antônio de Montesinos e Bartolomeu
de Las Casas, mas, em geral, o tratamento com os indígenas será bastante violento por parte
dos leigos, em concordância com o pensamento de alguns religiosos divergentes da norma
oficial. Por fim, o combate se desenrolará durante toda a época colonial, mais forte durante o
séculos XVI e, sobretudo, XVII, dando seus últimos suspiros no século XVIII e

10
Uma curta e informativa biografia de Diego de Landa pode ser encontrada no link da
Enciclopédia Britânica: https://www.britannica.com/biography/Diego-de-Landa
Acesso em: 21/11/2018.
desaparecendo, ao menos de modo oficial, durante o século XIX, com a extinção das
inquisições espanhola e portuguesa.11

Conclusão

Através do exposto, é possível perceber a grande discrepância, em determinados


momentos, da ação dos fiéis leigos e até de alguns eclesiásticos em relação ao posicionamento
oficial da Igreja. As bulas papais, destacadamente a Inter Caetera (1493) de Alexandre VI e a
Sublimis Deus (1537) de Paulo III, revelam um comportamento bem mais compassivo e de
acordo com a doutrina cristã que o apresentado em figuras como Diego de Landa. Mais que
isso, o conteúdo das bulas ainda rompe com a interpretação exclusivamente materialista das
ações papais, na medida em que proíbem a escravidão dos indígenas, que auxiliaria nas
atividades econômicas, e a privação deles de seus bens, como dito acima. Também a já citada
ação de Cortés na ilha de Cozumel faz cair por terra à visão conspirativa, visto que a ação do
conquistador espanhol de destruir os ídolos pagãos e colocar em substituição a imagem da
Virgem Maria poderia romper irremediavelmente a ação diplomática para com aqueles povos.

Desta forma, vêem-se claramente as diferenças comportamentais dos diversos grupos


que compunham a sociedade cristã. Não por coincidência, a Igreja combatia há muito tempo,
desde a Antiguidade, as heresias que surgiam opondo-se à ortodoxia católica, e seguiu
combatendo-as até a contemporaneidade, que não são mais que ideais divergentes do oficial,
proposto pela Igreja. E é desta forma, repleta de conflitos internos e externos, que a
cristandade combate o diabolismo no Novo Mundo ibérico e que, posteriormente, com o
avanço da empresa colonizadora, adapta-se ainda mais profundamente e até chega a abrir-se
para a recepção oficial de certas tradições e a recusa de outras, vistas como superstição, mas
que sobrevivem até hoje e contagiam as práticas religiosas latino-americanas.

Referências

Fontes Primárias:

11
Souza, L. (1993).
COLOMBO, Cristóvão. Carta a Luís de Santángel. IN: Textos y documentos completos,
Edición de Consuelo Varela; Nuevas cartas, Edición de Juan Gil. 2º Ed. Madrid: Alianza,
1997. [Em espanhol].

Documentos eclesiásticos

SUESS, Paulo (org.) La Conquista Espiritual de la América Española: 200 Documentos-


Siglos XVI. 2002. Disponível em: https://digitalrepository.unm.edu/cgi/viewcontent.cgi?
referer=https://www.google.com.br/&httpsredir=1&article=1127&context=abya_yala Acesso
em: 26/09/2018. [Em espanhol].

Bibliografia:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: Formação do Brasil no Atlântico Sul,
séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

BARROS, Ruston Lemos de. Carne, Moral e Pecado no Século XVI: o Ocidente e a
repressão aos “deleites” da volúpia e aos “delitos” da por cópula “ilícita”. João Pessoa:
Almeida Gráfica e Editora Ltda., 1995.

BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. História do Novo Mundo: Da Descoberta à


Conquista, uma Experiência Europeia (1492-1550).

BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina: A América Latina Colonial I. São
Paulo: EDUSP, 1997. Vol. 1.

Bíblia. Português. A Bíblia. Tradução de ZAMAGNA, Domingos et al. 22º Ed. Petrópolis:
Vozes; Aparecida: Santuário, 1993.

BORGES, Felipe Augusto Fernandes; COSTA, Célio Juvenal; MENEZES, Sezinando Luiz.
Política, cultura, economia e religião na expansão comercial portuguesa nos século XV e
XVI. História e Culturas: Revista Eletrônica do Mestrado Acadêmico da UECE, v. 3, n. 5,
p.41-69, junho, 2015.

Igreja Católica. Catecismo da Igreja Católica. 9º Ed. Embu: Ave-Maria; Petrópolis: Vozes;
São Paulo: Loyola, Paulus, Paulinas, 2011.

DEL ROIO, José Luiz. Igreja Medieval: A cristandade latina. São Paulo: Ática, 1997.
HARARI, Yuval Noah. Sapiens: Uma breve história da humanidade. 24º Ed. Porto Alegre:
L&PM, 2017.

NOVINSKY, Anita Waingort. A inquisição. 3º Ed. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SOUZA, Guilherme Queiroz de. O maravilhoso cristão na conquista de México-Tenochtitlán


(1519-1521). Mirabilia: Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval, n. 8, p. 351-368,
dezembro, 2008.

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade


popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico: Demonologia e colonização: séculos XVI-


XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

The Editors of Encyclopaedia Britannica. Diego de Landa. 2017. Disponível em:


https://www.britannica.com/biography/Diego-de-Landa Acesso em: 21/11/2018. [Em inglês]