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ALBERTO
GUERREIRO RAMOS

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UMA
RECONCEITUAÇÃO
DA RIQUEZA
DAS
1 l NAÇÕES

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FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS A


ORGANIZAÇÃO E M ÉTODOS

Harry Miller

A lei do menor esforço, do ponto de


vista individual , e a necessidade crescente
de bens, no âmbito social , levam o ho -
mem a economizar suas energias e a socie
dade a intensificar cada vez mais sua pro-
-
dutividade .
A conjunçfo desses dois fatores exige a
adoç go de mé todos operacionais capazes
de concili á-los de maneira que o atendi
mento dc um deles n áo termine por one -
-
rar o outro.
Harry Millet confessa que , desde crian
ça , observa tqufo mais fácil e mais rápido
4
-
seria cortar o gramado do jardim , se eu o
fizesse de certo modo e náo de outro” .
Aos seus vinte e tantos anos de experiê n -
cia como consultor té cnico de empresas
comerciais, industriais e repartições do
governo, alia -se uma convivê ncia íntima
com o assunto que lhe permite trazer seus
connhecimentos técnicos at é o leitor sob
forma clara e despojada. Os temas mais
dif íceis tornam -se assim familiares do
leitor.

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ALBERTO GUERREIRO RAMOS

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A NOVA CI Ê NCIA
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DAS ORGANIZAÇÕES
Uma reconceituaçào da
riqueza das nações

Tradução de
M A R Y CARDOSO

-
2 edição

PUCRS / BÇ E

0 - 320.469 - 2

FGV
Instituto de Documentação
Editora da Fundação Getulio Vargas
Rio de Janeiro, RJ - 1989
PRESERVE SUA FONTE
DE CONHECIMENTO
Título do original em inglês:
!
The New science of organizations

Direitos reservados desta edição à Fundação Getulio Vargas


Praia de Botafogo, 190 - 22.253
CP 9.052 - 20.000
Rio dc Janeiro, RJ - Brasil

\1 vedada a reprodução total ou parcial desta obra

Copyright © Fundação Getulio Vargas

1 - edição 1981 À minha esposa Clelia , a meus filhos Eliana e Alberto


e aos
2 - edição - 1989 meus netos Tatiana , Chara , Leah , Allison , Andrew Victor e Henrique
Alberto.
FGV - Instituto de Documentação
Diretor: Benedicto Silva
Editora da Fundação Getulio Vargas
Chefia: Marilena Leite Paes
Coordenação editorial: Francisco de Castro Azevedo
Supervisão de editoração: Ercflia Lopes de Souza
Supervisão grá fica: Hé lio Lourenço Netto
Capa: Marcos Tupper

-
Ramos, Guerreiro, 1915 1982 .
A nova ciência das organizações / Alberto Guerreiro Ra -
.- -
mos; tradução de Mary Cardoso 2. ed. Rio de Janeiro:
Editora da Fundação Getulio Vargas, 1989 .
XXIV , 210 p .
Tradução de: The new science of organizations.
Inclui bibliografia e índice .
. .. ..
1 Sistemas sociais 2 Sociedade de consumo I Fundação
. .
Getulio Vargas II Título .
-
CDD 301
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I -
VV- “ Nada é mais censurável do que deduzir as leis que determi
nam aquilo que deveria ser feito daquilo que é feitoy ou impor a tais
leis os limites a que se circunscreve aquilo que é feito. ”
Kant , Critica da razão pura

“ Muitos, dentre nós, conhecem adolescentes dominados pela


compulsão da comida . O comedor compulsivo , que se empanturra
com tanta pressa e com tanta desatenção que mal repara naquilo que
devora, aplica a si mesmo duas sé rias penalidades. Embora seu corpo
esteja sendo abarrotado de enormes quantidades de coisas realmente
boas , o comedor vai-se tornando, ao mesmo tempo, cada vez menos
— —
capaz , fisicamente. E que pena ! nem est á apreciando aquilo que
come ; mal se lembra de procurar sentir o sabor da comida .
Como adultos do século XX, n ós nos tornamos usu á rios com-
pulsivos - chegando aproximadamente aos mesmos resultados. ”
Walter Kerr, The Decline of pleasure

VI 1
AGRADECIMENTOS

v Quero manifestar a minha gratid ão à Escola de Administração


Pú blica, da Universidade do Sul da Calif ó rnia, onde encontrei amiza-
V
i
de , est í mulo intelectual e apoio material para empreender a pesquisa
da qual nasceu este livro. São tantas as pessoas às quais me considero
* A . \ i
devedor que acho impossível relacionar todos os nomes. Devo mencio-
nar , primeiro, Frank P. Sherwood , sem cuja assist ê ncia dificilmente te -
ria eu podido vencer os obstáculos da minha passagem do Brasil à vida
• acad ê mica rios EUA. Ele tem sido um amigo, um cr í tico, severo mas
honesto, dos meus escritos e, algumas vezes, um patrocinador das mi
nhas empresas acadê micas. Tenho uma d ívida especial em relação a
-
Henry Reining, David Mars e E . K. Nelson , os quais em sua qualidade
de diretores da Escola de Administração Pú blica da USC, em per íodos
sucessivos, desempenharam importante papel na consecução do tipo
de encorajamento de que precisei , em diferentes vicissitudes da minha
carreira neste pa ís. Quero també m manifestar meu apreço a William K .
Leffland , que enquanto foi diretor-adjunto da escola encontrou varia-
das maneiras para facilitar meu trabalho de pesquisa . Valiosa contri-
buição para maior clareza e para o aperfeiçoamento das minhas idé ias
resultou das cr í ticas e sugestões que me ofereceram meus colegas e ou
tras pessoas que leram partes ou todo o rascunho deste livro e entre
-
essas pessoas tenho satisfação em mencionar Peter von Sievers, Ross
Clayton , Wesley Bjur, Robert Berkov , Alex McEachern , Karl Scheibe,
David L. Schaefer, Daniel Guerriè re , Ellis Sandoz, William Dunn ,
-
Louis Gawthrop, estudantes de cursos de pós graduação da USC, de
um modo geral e, particularmente, Francis Cooper, Tom Heeney ,
George Najjar e Levi Reeve Zangai, colaboradores amigos e criteriosos,
dos quais me vali , em maté ria de conte ú do e estilo. Um agradecimento
especial é devido a Charles M. Dennis e B. Terence Harwick , cuja revi-
são e apuro do texto completo tanto contribu íram para sua força e
clareza.
Agradeço, també m , a Constance Rodgers, Mary Priem , Artimese
Porter e a outros membros da equipe da minha escola , que conscien -
ciosa e eficientemente me deram o apoio de secretariado necessário pa -
IX
I
ra dar ao rascunho deste livro sua forma presente. Beverly Harwick da-
tilografou este texto e sou reconhecido à sua alerta diligência. Gostaria
també m de registrar aqui o meu carinho por duas adorá veis criaturas,
meus cachorros, Tupi , que se foi para sempre, e Cochese, alegres e fié is
guardiões do meu espaço pessoal e companheiros das minhas solit á rias
horas de trabalho.
Finalmente , minha permanê ncia na Wesleyan University e na
Yale University , como professor visitante e confrade visitante, respec-
tivamente , por ocasi ão da licen ça especial para estudos que me foi
concedida pela USC no ano acad ê mico de 1972/ 73, representou uma PREFACIO
auspiciosa oportunidade para que eu clarificasse a forma deste livro. O
processo de revisão da Editora da Universidade de Toronto, sob a dire-
ção de R . f. K . Davidson , foi de inestim ável valor para a articulação de Neste livro , apresento o arcabouço conceituai de uma nova
meu trabalho. As cr í ticas ao esboço original , que recebi dos leitores da ciê ncia das organizações. Meu objetivo é contrapor um modelo de an á-
Editofa da Universidade de Toronto, contribu íram decisiva e generosa
mente para a configuração e a subst â ncia finais do livro.
- lise de sistemas sociais e de delineamento organizacional de m últiplos
centros ao modelo atual centralizado no mercado, que tem dominado
A responsabilidade pelo que no livro se conté m , é claro, cabe as empresas privadas e a administração p ú blica nos ú ltimos 80 anos.
a mim. Sustento, em termos gerais, que uma teoria da organização centraliza-
da no mercado n ão é aplicável a todos, mas apenas a um tipo especial
de atividade. A aplicação de seus princ ípios a todas as formas de ati-
vidade est á dificultando a atualização de possíveis novos sistemas so-
ciais, necessá rios à superação de dilemas básicos de nossa sociedade.
Argumento, ainda , que o modelo de alocação de mão-de-obra e de re-
cursos, impl ícito na teoria dominante de organização, n ão leva em
conta as exigê ncias ecológicas e não se vincula , portanto, ao est ágio
contempor â neo das capacidades de produ ção. Afirmo, finalmente ,
que a maneira pela qual é ensinado o modelo dominante é ilusó ria e
desastrosa , porque n ão admite explicitamente sua limitada utilidade
funcional.
Estou usando a expressão nova ciência das organizações em sen-
tido amplo, e a mesma inclui assuntos n ão apenas pertinentes a setores
presentemente rotulados como administra ção pú blica e administração
de empresas privadas, mas també m temas especificamente pertencen -
tes ao campo da economia , da ciê ncia pol í tica , da ciê ncia da formula
ção de pol í ticas e da ci ê ncia social em geral . Assim sendo, da maneira
-
como est á concebida neste livro, a nova ciê ncia das organizações é diri-
gida a problemas de ordenação dos negócios sociais e pessoais numa
microperspectiva, tanto quanto numa perspectiva macro.
De um modo geral , o ensino e o treinamento oferecidos aos
estudantes, n ão apenas nas escolas de administração p ú blica e de admi-
nistração de empresas, mas igualmente nos departamentos de ciê ncia
social , ainda são baseados nos pressupostos da sociedade centrada no
mercado. Hoje é necessá rio um modelo alternativo de pensamento,
ainda n ão articulado em termos sistem á ticos , porque a sociedade cen -
trada em mercado, mais de 200 anos depois de seu aparecimento, est á
X
XI
r
mostrando agora suas limitações e sua influ ê ncia desfiguradora da vida ponentes n ão tê m a percepçã o de semelhante dimensão. A teoria da
humana como um todo. E é apenas tal forma de pensamento que este
livro procura articular.
-
organização dominante é pré anal í tica , no sentido de que aceita o esta
do dos negócios humanos na sociedade centrada no mercado como
-
No cap í tulo 1 , trato do conceito básico de toda ciê ncia social - uma premissa , sem se aperceber da extensão das possibilidades objeti -
a razão. A moderna ciê ncia social n ão pode ser completamente expli
cada , sen ão à luz da compreensão peculiar da razão que nela est á im -
- -
vas. O cap í tulo trata , com min ú cia , de três pressupostos n ão articula
dos da presente teoria da organização, isto é, a identificação da nature -
pl ícita . Neste século, a cr í tica da raz ão moderna foi iniciada por Max za humana com a s índrome comportamentalista inerente à sociedade
Weber e Karl Mannheim , que falharam , n ão obstante , quanto a encarar
consistentemente a complexidade dessa razão. Mais recentemente ,
centrada no mercado, a definição da pessoa como um detentor de em
prego, e a identificação da comunicação humana com a comunicação
-
Eric Voegelin tentou avaliar a razão moderna do ponto de vista do le- instrumental .
gado cl ássico do pensamento e, por mais significativa que sua grande O cap í tulo 6 expõe os pontos cegos epistemológicos da teoria
contribuição possa ser considerada , pressupõe ela, contudo, um car á - organizacional existente e conclui com a identificação da necessidade
ter restaurador que n ão est á suficientemente qualificado. Mais ainda , de uma nova ciê ncia das organizações, baseada no conceito da delimi -
deixa de prover a nova ciê ncia das organizações e da sociedade da per í - ta ção dos sistemas sociais. Meus principais argumentos crí ticos, nesse
cia operacional e anal í tica exigida pelas condições hist ó ricas de nosso
-
cap í tulo, elucidam que a presente teoria organizacional : deixa , siste -
tempo. Outra significativa linha de cr í tica é representada pela chama maticamente , de distinguir entre a racionalidade substantiva e a instru -
da Escola de Frankfurt que , mostrarei , ainda est á carregada de moder- mental , tanto quanto entre o significado substantivo e o significado
nas ilusões de cunho historicista. formal da organização; é desprovida de clara compreensão do papel
O cap í tulo 2 é uma cr í tica do modelo contemporâ neo de ci ê ncia desempenhado pela interação simb ólica nas relações interpessoais em
social , do ponto de vista de um modelo alternativo que chamo de -
geral ; e apóia se numa visão mecanomórfica da atividade produtiva do
teoria substantiva da vida humana associada , e que é calcado na distin - homem.
ção feita por Max Weber entre Wertrationalitàt ( valor ou racionalidade Os cap í tulos 4, 5 e 6 reelaboram assuntos tratados em artigos
substantiva) e Zweckrationalitat ( racionalidade funcional ) e na an álise , que apareceram nas revistas Public Administration Review e Adminis-
de Karl Polanyi, da sociedade centrada no mercado. tration and Society , bem como no livro Organization teory and the
O cap í tulo 3 conceitualiza a s índrome psicol ógica inerente à so- new public administration (Carl Bellone, org. Allyn & Bacon , 1980).
ciedade centrada no mercado e especifica seus tra ços principais, a sa- Agradeço a permissão que me deram os editores dessas publicações
ber : a fluidez da individualidade , o perspectivismo, o formalismo e o para usar os referidos artigos.
operacionalismo. Esclarece que enquanto os cidad ãos, em geral , con
tinuarem sucumbindo à persuasão organizada , à s pressões e à s influ ê n -
- No capítulo 7, apresento um modelo multicê ntrico de an álise
cias que mantê m tal sí ndrome em operação, haverá , na melhor das dos sistemas sociais e do desenho organizacional , que denomino deli -
hipó teses, pouca oportunidade para uma transformação social revita- mitação dos sistemas sociais. Tal modelo considera o mercado como
lizadora. um necessá rio poré m limitado enclave da sociedade. Conceitua outros
sistemas sociais, como, por exemplo, a isonomia e a fenonomia, e des-
No cap ítulo 4, sustento que a teoria da organização, como cam
po disciplinar , est á perdendo o senso de seus objetivos espec íficos,
- creve os m ú ltiplos enclaves constitutivos da tessitura global da socie -
dade. O cap í tulo 7 constitui uma apresentação preliminar daquilo que
pela tentativa de assimilar modelos e conceitos estranhos a seu dom í- chamo de paradigma paraecon ômico.
nio pró prio. Em apoio desse argumento, examino exemplos de “ colo- A lei dos requisitos adequados é apresentada no capí tulo 8 co-
cação desapropriada '’ — misplacement
— de conceitos demonstrados
por tó picos em voga no campo da teoria da organização. Concluo o
mo um tó pico fundamental da nova ci ê ncia das organizações. De
acordo com essa lei , a variedade de sistemas sociais constitui qualifica-
capítulo 4 fazendo a articulação de alguns tó picos básicos permanen -
tes do estudo cient ífico de organizações formais.
ção essencial de qualquer sociedade , que deve ter respostas para as ne -
cessidades bá sicas de atualização de seus membros. Alé m disso, nesse
O cap í tulo 5 apresenta o conceito da pol í tica cognitiva , e de
monstra que a mesma constitui a mais importante dimensão oculta da
- cap ítulo sustento que cada um desses sistemas sociais determina os
pró prios requisitos de seu desenho. A lei dos requisitos adequados é
psicologia da sociedade centrada no mercado. A teoria da organização ilustrada por uma an álise da tecnologia , do tamanho, da percepção, do
,

nunca atingiu o status de uma disciplina cient ífica porque seus pro- espaço e do tempo dos sistemas sociais.
XII XIII
-
No cap ítulo 9, tento mostrar as implicações pol í ticas do para
digma paraeconômico. A essa altura , afirmo que a delimitaçã o dos
sistemas sociais n ão é apenas uma teoria circunscrita ao n ível micro -
organizacional , mas é igualmente aplicável ao n ível macro da socieda
de. Esclareço tal ponto discutindo os processos de alocação de mão-
-
de-obra e de recursos, vistos de uma perspectiva delimitativa.
Termino o livro com um sumá rio dos princ í pios fundamentais
da nova ciê ncia das organizações e indicando o rumo geral de sua
agenda de pesquisa . PREFACIO DA EDI ÇÃ O BRASILEIRA
Os 10 cap ítulos deste livro constituem uma unidade orgânica e
devem ser lidos na sequ ê ncia em que est ão apresentados; de outra ma-
neira , o leitor perderá aspectos fundamentais de seu desenvolvimento O leitor brasileiro deste livro deve sempre levar em conta que ele
teórico. Isso é particularmente verdadeiro em relação ao ú ltimo foi originalmente pensado e escrito em ingl ês. Especificamente, ao es-
capí tulo, em que se tornam evidentes as minhas diretrizes pol íticas e crevê-lo, tive em mira expressar o meu desconforto com a moderna
filosóficas. O capítulo n ão pode ser compreendido, se for lido como ciê ncia social e administrativa , particularmente na feição que assume
uma peça autónoma. nos EUA. O livro proclama que tal ciê ncia nada mais é do que uma
A procura da nova ciê ncia das organizações vem ocorrendo des- ideologia legitimadora da sociedade centrada no mercado, e propõe a
de algum tempo, constituindo um esforço gradativo, empreendido por sua substituição por uma nova ciência, entendida essencialmente como
grande n ú mero de estudiosos. Este livro aproveita muito da atividade teoria da delimitação dos sistemas sociais. O leitor verificar á que essa
criadora de tais especialistas, mas começa a mold á-la num corpo abran - nova ciê ncia tem existido milenarmente , e só é nova porque a sua tra-
gente de conhecimentos. dição é ignorada nos meios acad ê micos tipicamente modernos.
O ser humano resiste a ser despojado do seu atributo essen -

cial a razão. No entanto, para viver de acordo com as prescrições da
sociedade centrada no mercado, é coagido a reprimir a função norma -
tiva da razão no desenho de sua existê ncia social . À sociedade centra-
da no mercado é inerente a ast ú cia de induzir o ser humano a intema -
lizar aquela coação como condição normal de sua existê ncia , e esta
circunst ância é verdadeiramente legitimada pela psicologia motivacio-
nal impl í tica na psican álise e nas ciê ncias sociais de nossos dias. Uma
das manifestações dessa ast ú cia é o fato mesmo de que tal sociedade,
em vez de frontalmente declarar a sua incompatibilidade com as pres-
crições da razão, conservou a palavra em sua linguagem , mas deu -lhe
um sentido consonante com a síndrome psicológica constitutiva do seu
cará ter. Assim, o que se chama hoje de razão, na sociedade centrada
no mercado, bem como nas ciê ncias sociais em geral , é uma corruptela
do termo tal como ele mesmo e seus equivalentes sempre foram uni-
versalmente entendidos at é o limiar dos tempos modernos. A cr í tica
dessa transvalorização do termo permeia toda a tessitura deste livro.
No mundo contemporâ neo, os EUA são a mais desenvolvida
sociedade centrada no mercado. Por conseguinte é a í que o ser huma -
no vai-se tomando mais consciente do efeito deculturativo do merca -
do. Eventos que n ão vem ao caso relatar aqui levaram - me a residir nos
EUA desde 1966. Nos ú ltimos três lustros, a problemá tica norte-ame -
ricana , tanto nos seus aspectos acad é micos como naqueles pertinentes
XV
XIV
ao dom í nio dos afazeres cotidianos, tem sido parte central de minha -
Este livro é resultado de minhas pesquisas sobre a redu ção socio
vida. Este livro destila essa intensa experiência . Em vá rias de suas pas- lógica no terceiro sentido. O tema já tinha sido esboçado em meu estu -
sagens, é evidente que minhas elaborações conceituais são largamente do de 1958, Situação atual da sociologia , que constitui o apê ndice I de
afetadas por incidentes t ípicos da vida norte-americana. Mas o modelo
f A Redução sociológica ( 2. ed. 1965), assim como em Modernization :
de sociedade que A nova ciência prescreve já constitui o desenho towards a possibility model, capítulo de Developing nations: quest for
existencial de crescente n ú mero de indiv íduos em todo o mundo. Nos a model ( org. por W. A. Beling & G. O. Totten , 1970), no qual focalizo
-
o pensamento de Talcott Parsons e de outros escritores norte america -
EUA , milhares de pessoas est ão sistematicamente vivendo como se o
mercado fosse apenas um lugar delimitado em seu espaço vital. Esta é nos. Finalmente , em meu livro Administração e estratégia do desenvol
vimento ( 1966 ) minhas an álises do conceito de racionalidade e de ou
--
uma revolu ção silenciosa que, embora n ão faça manchetes na impren - tros t ó picos da ciê ncia social dominante já antecipavam muito do que
sa , constitui, na pcrspectiva deste livro, a hist ória do futuro, isto é, a
práxis de emergente modelo de relações entre os indivíduos, e entre o leitor encontrará neste livro.
estes e a natureza. Em outras palavras, este modelo restaura o que a A Nova ciência das organizações é , assim, produto de cerca de
socièdade centrada no mercado deformou ou , em parte, destruiu : os 30 anos de pesquisa e reflex ão. Mas ele n ão articula tudo aquilo em
elementos permanentes da vida humana. que a nova ciência consiste . Apenas começa uma nova fase da explica -
ção da proposta de trabalho te ó rico e operacional , que espero consu -
A categoriza ção desse modelo emergente na práxis de minorias mar durante o resto de minha vida.
em tòdo o mundo tem importância universal, pois constitui a referê n -
cia magna da cr í tica da sociedade moderna , e de sua ideologia que, sob Alberto Guerreiro Ramos
o disfarce de ciê ncia , de v á rios modos comanda o processo configurati - Los Angeles, 1980
vo da vida dos povos, tanto nos países chamados capitalistas como nos
chamados socialistas.
Nos estudos que realizei no Brasil antes de radicar-me nos EUA
já eram percept íveis as linhas mestras do pensamento sistematicamen -
te articulado neste livro. Ao leitor interessado em verificar a progres-
são desse pensamento dirijo as considerações finais a seguir.
Nos meus estudos publicados no Brasil desde 1951 encontram-se
-
an álises da ciê ncia social europé ia e da norte americana, bem como do
marxismo e do paramarxismo [ veja Introdução critica à sociologia bra -
sileira ( 1957), O Problema nacional do Brasil ( 1960), A Crise do poder
no Brasil ( 1961 ), Mito e verdade da revolução brasileira ( 1963) ]. Par -
ticularmente significante na minha trajetó ria intelectual é A Redução
sociológica, cuja primeira edição é datada de 1958. No pref ácio da se-
gunda edição deste livro ( 1965) sublinhei o tr í plice sentido da redução
sociológica, a saber: a ) atitude imprescind ível à assimilação cr ítica da
ciê ncia e da cultura importadas; b ) adestramento cultural sistemá tico
necessá rio para habilitar o indiv íduo a resistir à massificaçáo de sua
conduta e às pressões sociais organizadas ; c) superação da ciê ncia so -
cial nos moldes institucionais e universitários em que se encontra.
Na edição de 1958, A Redução sociológica tratou principalmen -
te da mesma em seu primeiro sentido. Posteriormente, a fim de ressal -
tar o segundo sentido da redução sociológica, sugeri a categoria de
homem parentético, em Homem organização e homem- parenté tico, ca-
-
pítulo de Mito e verdade da revolução brasileira, e em Models of man
and administrative theory , artigo publicado no n ú mero de maio/ junho
de 1972 da Public Administration Review.
XVII
XVI
4 *
« fKir •

PREFÁCIO DA 22 EDIÇÃO AMERICANA

Alberto Guerreiro Ramos abordou os problemas mais im


portantes deste século. Nascido na Bahia, em 1915, orgulhoso
-
\ de sua ancestralidade africana, ele trabalhou intensamente no
V. desenvolvimento brasileiro, proferiu aulas e conferências na Eu
ropa e na Ásia e alcançou o auge de sua capacidade intelectual
-
durante os dezesseis anos que passou nos Estados Unidos, onde
.
morreu em 1982 Trabalhou com energia e persistê ncia no senti -
do de transformar conhecimentos humanos tradicionais e moder-
nos numa força criativa do processo de desenvolvimento.
Guerreiro Ramos entendeu a homogeneização e a falta de
incentivos das sociedades socialistas e a heterogeneidade e
anomia das sociedades de mercado. Em sua obra
— A Nova
Ciê ncia das Organizações: Uma revisão de “ A Riqueza das
Nações*’ - ele desenvolveu um modelo de delimitação social ,
-
com o paradigma para econômico voltado para a identificação
das distinções entre as estruturas organizacionais nessas socie
dades. Concentrando sua teoria na racionalidade substantiva,
-
tomando em conta todo o escopo dos valores humanos, ao invés
de deter-se apenas nos valores económicos e instrumentais,
vft

.
Guerreiro Ramos amplia a obra de Max Weber Ao propor o uso
apropriado de mecanismos de mercado em setores específicos e
bem delimitados, Guerreiro Ramos cria uma alternativa funda -
mentalmente distinta daquela postulada por Adam Smith .
Empenhado em entender e analisar as complexidades das
experiê ncias do Sul e do Norte, Guerreiro Ramos acha um meio
de fundir o que de melhor cada uma delas pode oferecer Essa .
análise tem óbvias e profundas implicações no processo de de
senvolvimento do Terceiro Mundo e das sociedades pós-indus
-
-
triais.
Como professor, Guerreiro Ramos conjugou a construção
teórica com a constante atenção para a prática da tarefa do de
.
senvolvimento Ele inspirou toda uma geração de estudantes
-
como professor da Escola de Administração da Universidade do
XIX
Sul da Califórnia. “ Introdução Crítica à Sociologia Brasileira ”
( 1957 ), “ O Problema Brasileiro” ( 1960) , “ Redução Sociológi-
ca” ( 1955), “ Administração e Estratégia do Desenvolvimento”
( 1966) e as centenas de artigos, ensaios e livros constituem uma
obra duradoura. Guerreiro Ramos trabalhou também na “ Escola
Brasileira de Administração Pública” , na Universidade Rural do
Rio de Janeiro e foi chefe do Departamento de Sociologia do
Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Foi professor visitante
nas universidades de Yale, Wesleyan, Paris, Universidade Fede- SUMARIO
ral de Santa Catarina, bem como nas Academias de Ciências da
União Soviética, Iugoslávia e da República Popular da China. Agradecimentos IX
Prefácio XI
Como um homem de ação , Guerreiro Ramos trabalhou , du-
Prefácio da edição brasileira XV
rante toda -.uma geração, no Departamento Administrativo do
Serviço Público, foi membro da Delegação do Brasil à Assem- Prefácio da 2- edi ção americana XIX
bléia Geral das Nações Unidas em 1961 , Deputado Federal , Di-
retor de Pesquisas do Ministério do Trabalho e Assessor dos 1 . Cr í tica da razão moderna e sua influ ê ncia sobre a teoria da
Presidentes Vargas, Kubitschek e Goulart. organização /
Como ser humano, Alberto Guerreiro Ramos integralizou 1.1 A raz ão como c á lculo utilit á rio de consequê ncias 2
todas essas facetas numa vida dinâmica e multidimensional ca-- 1.2 A resignação e os pontos de vista de Max Weber sobre a
racionalidade 4
tedrático, conselheiro , poeta, teórico, mestre , amigo - um gênio
da vida. Sério com os colegas; fervoroso, provocante e zeloso 1.3 A visão limitada de racionalidade de Karl Mannheim 6
com seus estudantes, Alberto encarnou plenamente seu pensa- 1.4 A teoria cr í tica da escola de Frankfurt 8
mento de que a vida é um processo ativo e deliberado a ser ex- 1.5 O trabalho de restauração de Eric Voegelin 15
perimentado integralmente. Guerreiro Ramos está vivo na contí- 1.6 Alguns coment á rios cr í ticos 19
nua expansão e impacto de sua obra. Ele é um desses seres ím- 1.7 Conclusão 22
pares que soube combinar sua própria vivência com as lições de Bibliografia 23
seus antepassados e forjar desse conflito e diversidade a pro-
messa de um futuro melhor. Cidadão do mundo, Guerreiro Ra- 2. No rumo de uma teoria substantiva da vida humana
mos, nessa sua luta por um futuro mais humano, foi também um associada 25
cidadão muito especial daqueles países aos quais tanto deu de si 2.1 A moderna transavaliação do social 28
- Brasil e Estados Unidos. 2.2 Ordenamento pol í tico e sociedade 33
2.3 A dicotomia entre valores e fatos 37
Robert P. Biller 2.4 A ciê ncia social como uma ideologia serialista 39
Professor de Administração Pública e 2.5 Da ciê ncia social cient ística 42
Vice-Reitor da Universidade do Sul da Califórnia 2.6 Conclusão 45
Bibliografia 46

3. A s índrome comportamentalista 50
3.1 A fluidez da individualidade 53
3.2 Perspectivismo 57
3.3 Formalismo 59
3.4 Operacionalismo 62
3.5 Conclusão 6 7
Bibliografia 6 7

XX XXI
4. Colocação desapropriada de conceitos e teoria da organização 69 8. A lei dos requisitos adequados e o desenho de sistemas
4.1 Traços fundamentais da formulação teó rica 69 sociais 155
4.2 A deslocação transforma -se em colocação inapropriada 71 Bibliografia 173
4.3 A ilusão da autenticidade corporativa 72
4.4 A alienação mal compreendida 72 9. Paraeconomia : paradigma e modelo multicê ntrico de
4.5 Sanidade organizacional , uma denominação incorreta 76 alocação 177
4.6 Pessoas e modelos de sistemas 79 Bibliografia 191
4.7 Conclusão 82
Bibliografia 83 10. Visão geral e perspectivas da nova ciê ncia 194
10.1 A ciê ncia social convencional 194


5. Pol ítica cognitiva a psicologia da sociedade centrada no
mercado 56
10.2 A organização resistente 198
Bibliografia 201
5.1 Pol í tica cognitiva , uma digressão hist órica 87 fndice anal ítico 203
5.2 A pol í tica cognitiva e a sociedade centrada no mercado 90
5.3 Uma visão paroquial da natureza humana 93
5.4 O alegre detentor de emprego, v ítima patol ógica da
sociedade centrada no mercado 98
5.5 A psicologia da comunicação instrumental 108
5.6 Conclusão 114
Bibliografia 115

6. Uma abordagem substantiva da organização 118


6.1 Tarefa 1 - a organização como sistema epistemol ógico 118

6.2 Tarefa 2 pontos cegos da teoria organizacional
corrente 120
6.3 Reexame da noção de racionalidade 121
6.4 Peculiaridade histó rica das organizações econ ómicas 123
6.5 Interação simbólica e humanidade / 26
6.6 Trabalho e ocupação 129
6.7 Conceptualização de uma abordagem substantiva da
organização 134
6.8 Conclusão 136
Bibliografia 138

7. Teoria da delimitação dos sistemas sociais: apresentação de um


paradigma 140
7.1 Orientação individual e comunit á ria 140
7.2 Prescrição contra ausê ncia de normas 143
73 Conceituação das categorias delimitadoras 146
Bibliografia 153 i
XXII xxm
1. CRITICA DA RAZ ÃO MODERNA
E SUA INFLUÊNCIA SOBRE A
TEORIA DA ORGANIZAÇÃO

> A teoria da organização, ta] como tem prevalecido, é ingé nua.


* Assume esse cará ter porque se baseia na racionalidade instrumental
inerente à ciência social dominante no Ocidente. Na realidade, até ago-
V
V.
ra essa ingenuidade tem sido o fator fundamental de seu sucesso pr á ti
co. Todavia , cumpre reconhecer agora que esse sucesso tem sido unidi
-
-
mensional e , como será mostrado, exerce um impacto desfigurador so
bre a vida humana associada. N ão é esta a primeira vez em que, em ra-
-
zão de considerações te óricas, se é levado a condenar aquilo que fun
ciona na vida social prá tica. De fato, 40 anos atrás Lorde Keynes
-
observou que o desenvolvimento econ ó mico decorreu da avareza, da

usura , da precaução tudo isso coisas que ele desprezava. Concluiu
ele , todavia , que “ por mais algum tempo” precisavam elas continuar
“ a ser os nossos deuses” , porque “ somente elas nos podem fazer sair
do t ú nel da necessidade económica ” . No contexto das precá rias con -
dições que se esperava fossem ainda perdurar por algum tempo,
Keynes recomendou que se “ fizesse de conta, para n ós mesmos e para
todo mundo , que o certo é errado e o errado é certo ; porque o errado
é ú til e o certo n ão é ” ( Keynes, 1932, p. 372 ).
Tal como Keynes, hoje haverá algumas pessoas que prefiram sus
pender a cr í tica à teoria organizacional corrente , porque , embora
-
sendo pobre em sofisticação, ela funciona . Contudo, para fazer isso, é
preciso que se finja que a ingenuidade é o certo, enquanto a sofistica -
ção teó rica é o errado. Mas num tempo como o nosso, em que a ener
gia psicológica que um indiv íduo tem que despender, para poder en
-
-
-
frentar as tensões resultantes dessa forma de fraude auto imposta, é de
tal magnitude que ele se recusa a ser convencionalmente bem-sucedido
-
e deixa de aquiescer às normas pelas quais a sociedade legitima se. Nes-
sas circunstâncias, a teoria da organização, tal como é hoje conhecida ,
é menos convincente do que o foi no passado e, mais ainda, torna-se
pouco prá tica e inoperante , na medida em que continua a se apoiar em
pressupostos ingé nuos.
A palavra ingenuidade é usada aqui no sentido em que a empre-
gou Husserl, que reconheceu que a essê ncia do sucesso tecnológico e

I
assim , a ordenar sua vida pessoa] e social. Mais ainda , a vida da razão
económico das sociedades industriais desenvolvidas tem sido uma con - na psique humana era encarada como uma realidade que resistia à sua
sequê ncia da intensiva aplicação das ciê ncias naturais. No entanto, a pró pria redução a um fen ômeno hist órico ou social.
capacidade manipuladora de tais ciê ncias n ão constitui, necessariamen - Nos trabalhos de Hobbes, a “ razão moderna ” é, pela primeira
te , uma indicação de sua sofisticação te ó rica. Assim , de acordo com vez, clara e sistematicamente articulada, e até hoje sua influê ncia n ã o
Husserl , na medida em que essas ciê ncias admitem como evidente por desapareceu . Definindo a razão como uma capacidade que o indiv íduo
si mesmo o tipo pré - refletivo da vida cotidiana , ficam elas “ no mesmo adquire “ pelo esforço” ( Hobbes, 1974, p. 45) e que o habilita a nada
n ível de racionalidade das pir âmides do Egito ” ( Husserl , 1965, p. 186 ). mais do que fazer o “ cálculo utilitá rio de consequê ncias” ( Hobbes,
Em outras palavras, as ciê ncias naturais do Ocidente n ão se fun - 1974 , p. 41 ), Hobbes pretendeu despojar a razão de qualquer papel
damentam numa forma anal í tica de pensamento, já que se viram apa - normativo no dom ínio da constru ção teórica e da vida humana asso -
nhadas numa trama de interesses prá ticos imediatos. É isso, talvez, o ciada . Numa obra em que tenta levar a cabo o seu propósito, diz ele :
que Husserl quis dizer com a afirmação: “ Toda ciê ncia natural é ingé- “ A filosofia civil ” é “ n ão mais velha. . . do que meu livro De Gve"
nua , relativamente a seu ponto de partida. A natureza, que irá investi- (Hobbes, 1839, p. IX ).
gar, est á simplesmente à disposição dela para isso” ( Husserl , 1965 , De acordo com Hobbes, parece que o termo racionalidade é ago-
p. 85). No fim de contas, as ciê ncias naturais podem ser perdoadas por ra geralmente empregado por leigos, tanto quanto pelos cientistas so -
sua ingê nua objetividade , em razão de sua produtividade. Mas essa to- ciais, segundo uma feição enganadora , que, todavia , n ão mais reflete o
lerâ ncia n ão pode ter vez no dom í nio social , onde premissas epistemo- tipo de indagação consciente empreendido por Hobbes, e sim profun -

l ógicas erróneas passam a ser um fen ômeno cripto- pol í tico quer di
zer , uma dimensão normativa disfarçada imposta pela configuração de
- da desorientação. As enganosas implicações de que ora se reveste o ter
mo precisam ser identificadas pelo que realmente são. J á que , em nos-
-
poder estabelecida. sos dias, a racionalidade assume com frequê ncia conotações antit é ticas
O presente cap ítulo é uma tentativa de identifica ção da episte- relativamente aos propósitos fundamentais da exist ê ncia humana , a
mologia inerente na ci ê ncia social estabelecida , de que a atual teoria - -
anti racionalidade sem qualificação transformou se numa das teses de
organizacional é um derivativo. Meu principal argumento é que a ciê n - alguns que se encaram , a si pró prios, como humanistas. No entanto,
cia social estabelecida també m se fundamenta numa racionalidade ins- -
quando se examinam suas intenções, percebe se que a deles é uma
trumental , particularmente caracter ística do sistema de mercado. Con - causa errada. Suas intenções podem ser boas, mas seu objetivo est á en -
cluirei o cap ítulo indicando o assunto principal do cap í tulo 2: um ganosamente mal colocado. A racionalidade por que se batem é, na
conceito de racionalidade mais teoricamente sadio, quer dizer , uma ra - -
realidade , a distorção de um conceito chave da vida individual e
cionalidade substantiva, que ofereça a base para uma ciê ncia social al - associada .
ternativa , em geral , e para uma nova ciê ncia das organizações, em
particular. —
A transavaliação da razão levando à conversão do concreto no
abstrato , do bom no funcional , e mesmo do é tico no n ão-é tico - ca-
racteriza o perfil intelectual de escritores que têm tentado legitimar a
1.1 A razão como cálculo utilitário de consequências sociedade moderna exclusivamcnte em bases utilit á rias. Uma das teses
principais deste livro consistir á em assinalar que, quando comparada
No per íodo moderno da hist ó ria intelectual do Ocidente , que com outras sociedades, a sociedade moderna tem demonstrado uma
começou no século XVII e continua até os nossos dias, o significado alta capacidade de absorver, distorcendo-os, palavras e conceitos cujo
previamente estabelecido daquelas palavras que constituem uma lin - significado original se chocaria com o processo de auto-sustentação
guagem teó rica fundamental mudou drasticamente, numa direção de- dessa sociedade . Uma vez que a palavra razão dificilmente poderia ser
terminada . Nos trabalhos de homens como Bacon e Hobbes, escreven - posta de lado, por força de seu car á ter central na vida humana , a socie-
do no clima cultural do século XVII , é evidente que o significado do
termo razão ( assim como de outros termos tais que ciência e natureza )
-
dade moderna tomou a compat ível com sua estrutura normativa.
Assim , na moderna sociedade centrada no mercado, a linguagem dis-
já era peculiar , enquanto refletia um universo sem â ntico sem prece- torcida tomou -se normal , e uma das formas de criticar essa sociedade
dente. consiste na descrição de sua ast ú cia na utilização inapropriada do vo-
cabul á rio teórico que prevalecia antes de seu aparecimento.
No sentido antigo, como será mostrado, a razão era entendida Com o intento de preparar o caminho que levará a uma nova
como forç a ativa na psique humana que habilita o indiv íduo a distin - ciê ncia das organizações e da sociedade como um todo, livre de desfi-
guir entre o bem e o mal , entre o conhecimento falso e o verdadeiro e,
3
2
1
o psicologicamente existente com o eticamente v álido” ( Weber , 1969,
gurada linguagem teórica , examino rapidamente , nos par ágrafos se- p. 44 ). Nessa disposição e tendo em mente os economistas liberais,
guintes, a avaliação cr í tica da razão moderna , empreendida por
alguns observa:
dos mais eminentes estudiosos contempor âneos .
“ Os defensores extremados do livre -com é rcio... concebiam ( a eco-
1.2 A resignação e os pontos de vista de Max Weber sobre a nomia pura) como um retrato adequado da realidade ‘natural’, isto
racionalidade —
é , da realidade n ão perturbada pela estupidez humana e prosseguiam
visando a estabelecê-la como um imperativo moral , como um válido
Quando Max Weber iniciou seu trabalho acad é mico, a velha no-
ção de raz ão já tinha perdido a conotação normativa , que sempre tive -
.

ideal normativo enquanto que ela é apenas um tipo conveniente, a
ser usado na an álise emp írica ” ( Weber , 1969, p. 44 ).
ra , como referê ncia para a ordenação dos negócios pessoais e sociais
Por um lado, de Hobbes a Adam Smith e aos modernos cientistas so- O julgamento que Max Weber fez do capitalismo e da moderna
ciais em geral , instintos, paix ões , interesses e a
simples motivação subs - sociedade de massa foi essencialmente cr í tico, apesar de parecer lauda-
titu íram a raz ão, como refer ê ncia para a compreens ão e a ordena ção t ó rio. Chocava-se ante a maneira pela qual tal sociedade fazia a reava -
da vida humana associada . Por outro lado , sob a influ ê ncia do Ilumi- liação do significado tradicional da racionalidade, processo que infima -
a ó ria substituiu o homem , como porta-
nismo , de Ttfrgot a Marx , hist mente lamentava , embora tenha deixado de diretamente confront á-lo.
dor da razão. Contra tal situação, Max Weber permanece como uma Muito embora Weber se tenha recusado a basear sua an álise sobre a in-
figura solit á ria . Rejeitou tanto o rude empirismo brit â nico e o natura - dignação moral , como fizeram outros teó ricos, de forma not ável , é um
lismo dos cientistas sociais , quanto o determinismo hist ó rico, principal erro atribuir-lhe qualquer compromisso dogmá tico com a racionalida-
caracter ística de influentes pensadores alem ães. Uma clara indicação de gerada pelo sistema capitalista. A distin ção que fez, entre Zweckra-
da conotação polê mica da obra acadê mica de Weber está em sua tenta - tionalitat e Wertrationalitat - e que, é verdade, algumas vezes minimi -
tiva de qualificar a noção de racionalidade. za - constitui, possivelmente , uma manifestação do conflito moral em
Max Weber é descrito, freqiientemente, como verdadeiro crente que se sentia com as tendências dominantes da moderna sociedade de
na insuficientemente qualificada excelê ncia da l ógica inerente à so- massa. Como é amplamente sabido, ele salientou que a racionalidade
ciedade centrada no mercado. No entanto, uma leitura cuidadosa de formal e instrumental ( Zweckrationalitat ) é determinada por uma ex -
sua obra justifica diferente avaliação de seu pensamento, a propósito pectativa de resultados, ou “ fins calculados” (Weber, 1968, p. 24 ). A
do assunto. Ele escreveu muito sobre o mercado como a mais eficiente racionalidade substantiva, ou de valor ( Wertrationalitat ), é determina -
configuração para o fomento da capacidade produtiva de uma nação e da “ independentemente de suas expectativas de sucesso” e n ão carac-
para a escalada de seu processo de formação de capital . Mas , ao teriza nenhuma ação humana interessada na “ consecu ção de um resul -
voltar se para o mercado e para sua l ógica espec ífica , é evidente que
- tado ulterior a ela" ( Weber , 1968, p. 24-5 ). Nessa conformidade , We -
nenhum fundamentalismo mancha sua investigação . Em outras pa - ber descreve a burocracia como empenhada em funções racionais, no
lavras , n ão era um fundamentalista , no sentido de que explicava o contexto peculiar de uma sociedade capitalista centrada no mercado, e
mercado e sua l ógica espec ífica como constituindo a s índrome de uma cuja racionalidade é funcional e n ão substantiva, esta ú ltima consti-
é poca singular: a hist ó ria , segundo ele, n ão iria encerrar seu curso com tuindo um componente intr ínseco do ator humano.
o advento dessa é poca . Focaliza esses assuntos do ponto de vista da Sob fundamento algum é poss ível considerar-se Max Weber
an álise funcional e , na realidade , merece ser considerado o fundador como um representante da racionalidade burguesa , uma vez que ele
da an á lise funcional. Autores modernos, como, por exemplo, Adam
encarava esse tipo de racionalidade com evidente desinteresse pessoal .
Smith , negligenciam o car á ter prec á rio da l ógica de mercado, enquan - Aqueles que afirmam o contrá rio identificam inadvertidamente suas
to Max Weber a interpreta como um requisito funcional de um deter -
observações ad hoc com sua posição pessoal , em termos gerais, da
minado sistema social episódico. Adam Smith procedeu como um fun- mesma forma que deixam de perceber a tensão espiritual que subli-
damentalista , visto como exaltou a l ógica do mercado como um ethos nhou seus esforços para investigar , sine ira ac studio, a tem á tica de sua
da exist ê ncia humana em geral . Max Weber, poré m , descreve essa l ógi- é poca. Na verdade, ele foi incapaz de resolver essa tensão empreenden-
ca (da qual a burocracia é uma das manifestações) como um complexo do uma an álise social do ponto de vista da racionalidade substantiva.
heur ístico em afinidade com uma forma peculiar de sociedade o ca- -
pitalismo, ou a moderna sociedade de massa. Condena explicitamente De fato, a Wertrationalif ât é apenas, por assim dizer, uma nota de
qualquer tipo fundamentalista de análise económica , que “ identifica 5
4
rodapé em sua obra ; n ão desempenha papel sistem á tico em seus estu - de cr í tica do indiv íduo, na proporção do desenvolvimento da indus-
dos. Se o fizesse , a pesquisa de Weber teria tomado um rumo comple- .
trialização Sugere, també m, que embora a racionalidade funcional
tamente diferente . Escolheu ele a resignação ( isto é, a neutralidade em tenha existido em sociedades anteriores, estava nelas restrita a esferas
face dos valores, n ão a confrontação) como posição metodológica, em
seu estudo da vida social . Contudo, essa resignação nunca o desorien -
limitadas. Na sociedade moderna , poré m, tende a abranger a totalida
de da vida humana, n ão deixando ao indiv íduo mé dio outra escolha
-
tou , transformando-o em um historicista radical. De modo significa- alé m da desist ê ncia da pró pria autonomia e “ de sua pró pria interpreta-
tivo, considerava “ auto-enganadora ” qualquer posição que “ afirme ção dos eventos, em favor daquilo que os outros lhe d ão” ( Mannheim ,
que através da sí ntese de vá rios pontos de vista partid á rios, ou seguin- 1940, p . 59). Seu livro Man and society in an age of reconstruction é
do uma linha intermedi á ria aos mesmos, seja possível chegar-se a nor- uma indagação sobre a maneira de proteger a vida humana contra a
mas prá ticas de validade cientifica" (o grifo é do original ) (Weber, crescente expansão da racionalidade funcional. Mannheim alega que
1969, p. 58). Seu historicismo foi mantido em equil íbrio pelo forte sen - todo aquele que deseje ser coerente com a distin ção entre os dois tipos
timento pessoal de finitude dos conceitos cient íficos, em comparação
com a “ corrente infinitamente multiforme” (Weber, 1968, p. 92) da
de racionalidade precisa compreender que um alto grau de desenvolvi -
realidade.
mento t é cnico e econ ómico pode corresponder a um baixo desenvolvi
mento é tico. Vale a pena salientar esse ponto , porque há autores de
-
O funcionalismo qualificado de Max Weber tem sido mal com- orientação positivista que parecem admitir a validade da distin ção,
preendido por alguns de seus inté rpretes, e mesmo pelos que se auto- sem se aperceberem , aparentemente, das consequê ncias é ticas dessa
proclamam seus seguidores. Um caso a assinalar é Talcott Parsons, cuja distin ção.
obra , ao que parece, sofreu a influ ê ncia de Max Weber. Parsons mostra
pouca ou nenhuma ambiguidade moral em relação à racionalidade A distin ção que Mannheim faz n ão sugere que a racionalidade
imanente ao sistema de mercado. À luz de seu modelo dogm á tico de funcional deva ser abolida do dom ínio social. Estipula , antes, que uma
an álise estrutural e funcional , do qual extrai sua noção de “ vari á veis- ordem social verdadeira e sadia n ão pode ser obtida quando o homem
médio perde a forç a psicol ógica que lhe permite suportar a tensão
padr ão” e “ universais-evolutivos” ,1 os requisitos espec íficos da socie-
entre a racionalidade funcional e a substancial e por completo se rende
dade capitalista avan ç ada tornam -se padrões dogm á ticos para a ciê ncia
social comparativa, e mesmo para a pró pria hist ó ria. às exigê ncias da primeira. Tal situação é agravada quando aqueles que
estudam o processo formativo de decisões descuram da tensão existente
1.3 A visão limitada de racionalidade de Karl Mannheim entre as duas racionalidades. Atrav és da abordagem do processo for -
mativo de decisões de um ponto de vista puramente técnico e pragm á
tico, aceitam a racionalidade funcional como o padrão fundamental
-
É ó bvio que Karl Mannheim se apó ia em Max Weber para estabe -
da vida humana .
lecer uma distinção entre racionalidade substancial e funcionai . Define
racionalidade substancial como “ um ato de pensamento que revela Aparentemente , a an á lise empreendida por Karl Mannheim ado-
percepções inteligentes das inter- relações de acontecimentos, numa tou uma posição confrontativa , no sentido de que reflete a â nsia liber
tá ria do autor para encontrar meios de modificar o estado atual das
-
situação determinada ” ( Mannheim , 1940, p. 53 ) e sugere que atos
dessa natureza tomam possível uma vida pessoal orientada por “ julga - sociedades industriais. Na realidade, ele n ão tirou , inteiramente, as
mentos independentes” ( Mannheim, 1940, p. 58). Essa racionalidade consequê ncias da distinção que fez. Seu ecletismo relacionalista, pelo
constitui a base da vida humana é tica, responsá vel. A racionalidade qual pretendeu integrar todas as principais correntes da ciê ncia social
funcional diz respeito a qualquer conduta , acontecimento ou objeto, contemporâ nea, acabou por deix á -lo desnorteado. Nem a preocupação
na medida em que este é reconhecido como sendo apenas um meio de de Mannheim com a liberdade humana o salvou da perplexidade inte-
atingir uma determinada meta. A influ ê ncia ilimitada da racionalidade lectual . O esforço classificat ório que desenvolveu , na avaliação e
funcional sobre a vida humana solapa suas qualifica ções é ticas. comentá rio de descobertas feitas no campo da ci ê ncia social conven -
Tal distin ção, portanto, é estabelecida para propósitos é ticos e, cional , nunca lhe permitiu , realmente, chegar a um conjunto coerente
na verdade, Mannheim sublinha o fato de que a racionalidade funcio- de diretrizes teóricas. Por exemplo, no livro Man and society in an age
nal “ tende a despojar o indiv íduo médio ” ( Mannheim, 1940, p. 58) de of reconstruction, são apresentadas uma an álise aguda e observações
sua capacidade de sadio julgamento. Ele vê um decl ínio das faculdades precisas, mas no fim de contas ele não conseguiu desenvolver um
conceito de ciê ncia social em conson ância com sua noção de raciona -
1 Veja Parsons, falcott (1962/1964 ). lidade substancial .
6 7
3
1.4 A teoria crítica da Escola de Frankfurt mer , 1947, p. 97). Na perspectiva do Iluminismo, o mundo é escrito
em fó rmulas matemá ticas, e o desconhecido perde seu transcendente
significado cl ássico, tomando-se alguma coisa relativa às capacidades
de c á lculo dispon íveis. Assim , Horkheimer e Adorno escrevem :
A racionalidade tem sido uma das preocupações centrais da cha-
mada Escola de Frankfurt. Seus principais representantes, essencial
2 -
mente, afirmam que , na sociedade moderna, a racionalidade se trans- “ A redução do pensamento a um aparelho matem á tico esconde a
formou num instrumento disfarç ado de perpetuação da repressão san ção do mundo como seu pr óprio instrumento de mensuração. 0
social , em vez de ser sin ónimo de razão verdadeira. Esses autores pre- que parece ser o triunfo da ... racionalidade, a sujeição da realidade
tendem restabelecer o papel da raz ão como uma categoria é tica e, toda ao formalismo l ógico, é pago pela obediente submissão da razã o
portanto, como elemento de refer ê ncia para uma teoria crítica da ao que é dado diretamente . O que é abandonado é a total reivindica-
sociedade. Recusam , ao que parece, o pressuposto de Marx de que a ção e abordagem do conhecimento : a compreensão do que é dado
racionalidade é inerente à hist ória, e que o processo da sociedade mo- como tal .. . A factibilidade ganha o dia ...” ( Horkheimer e Adorno,
derna, através da cr í tica dialé tica de si mesma , conduzir á à Idade da 1972, p. 26-7).
razão. Salientam que Marx não percebeu que, na sociedade moderna,
as forças pròdutoras haviam conquistado seu pró prio impulso institu -
cional independente, assim subordinando toda a vida humana a metas Apesar das proclamações “ dialé ticas” de Karl Marx , que preten -
que nada t ê m a ver com a emancipação humana. deu ter despojado o racionalismo do século XVIII de seus traç os meca-
nicistas, seu conceito de raz ão est á profundamente enraizado na tradi-
O questionamento a que Horkheimer e Adorno submetem o
ção do Iluminismo, na medida em que ele acreditava que o processo
conceito de razão de Marx é uma consequê ncia l ógica de sua an álise da hist ó rico das forç as de produ ção é racional em si mesmo e , portanto,
tradição iluminista . Encaram eles o Iluminismo como o momento em emancipat ó rio. Isso é uma ilusão, afirma a Escola de Frankfurt , e
que o conhecimento da razão foi separado de sua heran ça clássica. De Habermas, em especial , ocupa-se sistematicamente dessa quest ão.
acordo com Horkheimer , h á uma teoria de raz ão objetiva , oriunda de A “ liquidação” da razão “ como um fator de compreensão é tica ,
Plat ão e Arist ó teles e passando através dos escol ásticos e mesmo atra- moral e religiosa ” ( Horkheimer, 1947, p. 18) n ão teria sido consuma-
vés do Idealismo alem ão ( Horkheimer, 1947, p. 41), que enfatiza os da no decurso dos ú ltimos séculos, sem a concomitante desnaturação
fins de preferê ncia aos meios e as implicações é ticas da vida de raz
ão
da linguagem filosófica e da linguagem usada nos negócios humanos
para a exist ê ncia humana. Essa teoria comuns. Divorciando palavras e conceitos de seu respectivo conte ú do
3 Horkheimer cscrcvc :
não focaliza a coordenação de comportamento e propósito, mas “ Gradualmente , -
o homem tornou sc menos dependente de padrões absolutos de
conceitos n ão importa o quanto nos pareç am hoje mitológicos
- conduta , de idé ias vinculadoras em termos universais. Considera-se t ão completa-
— sobre a id é ia do bem maior, sobre o problema do destino humano
-
mente livre que n ão precisa de nenhum padr ão , exceto o seu pró prio. No entan -
-
e sobre a maneira de serem atingidos os objetivos últimos” ( Horkhei to , paradoxalmentc, esse aumento de independê ncia conduziu a um aumento pa
ralelo de passividade. Sagazes como se tornaram as estimativas individuais no
mer , 1946 , p. 5). que se refere aos meios ao alcance do homem , a escolha que ele fez de seus fins ,
que anteriormente se correlacionavam à cren ça numa verdade objetiva , passou a
-
ser desprovida de arg ú cia : o indiv íduo, expurgado de todos os resqu ícios de mi
Horkheimer considera implícitos nesse entendimento da raz ão
os pre - tologias, incluindo a mitologia da razão objetiva , reage automaticamente , de
acordo com os padr ões gerais de adapta ção. For ças econ ó micas e sociais tomam
ceitos de ordenação da vida do homem . -
No entanto, o Iluminismo transforma pensamento em matem á
verdade em
- o cará ter dos cegos poderes naturais que o homem , para a preservação de si mes
-
mo, precisa dominar, ajustando sc a elas. Como resultado final do processo , te -
tica , qualidades em fun ções, conceitos em fó rmulas, e a mos de um lado a pessoa , o ego abstrato despojado de toda a subst â ncia , exceto
frequê ncias estat ísticas de m é dias. Em outras palavras, com o Ilumi - de sua tentativa de transformar tudo que existe no cé u e na terra em meios dc
msrno, “ o pensamento se transforma em mera tautologia ” ( Horkhei - autopreserva ção e , dc outro lado , uma natureza vazia , degradada à condição de
-
mero material , mera mat éria prima a ser dominada , sem outro propósito que o
*

da sua pura dominaçã o pelo ser humano” ( Horkheimer , 1947 , p. 97 ).


Sobre a história da Escola de Frankfurt , veja Jay , M. ( 1973 .
J )

9
8 BIBLIOTE CA CENTRAI
PUCRS i
intr í nseco, o lluminismo desencadeou um processo de corrupção da 1. A restauração do conceito de um interesse racional, que embora
fala,4 que conduziu à decadê ncia cultural. Horkheimer escreve: impl ícito no pensamento pol í tico grego, passou a ser tema central dos
sistemas filosóficos dos idealistas alemães.
“ A linguagem foi reduzida a mais um instrumento no gigantesco apa- 2. Reexame das opiniões hist óricas de Marx e, especialmente , de sua
relho de produ ção, na sociedade moderna. Toda senten ça que n ão premissa de que uma sociedade racional iria resultar , necessariamente ,
equivale a uma operação parece ao leigo t ão desprovida de significado do desenvolvimento das forças de produção.
quanto é assim considerada pelos semâ nticos contemporâ neos, que 3. Investigação das consequê ncias pol í ticas e psicol ógicas do dom í nio
entendem que aquilo que é puramente simbólico e operacional , quer da racionalidade instrumental sobre as sociedades modernas.
dizer , a sentenç a puramente sem sentido, faz sentido ... Na medida em 4. A padronização da comunicação como ponto central de uma teoria
que as palavras n ão são usadas com o propósito evidente de calcular social integrativa cr í tica. Inclina-se ele por uma espécie de cr í tica
tecnicamente probabilidades importantes, ou para outros objetivos integrativa.
prá ticos, entre os quais se inclui o relaxamento, correm elas o risco de Habermas mergulha na corrente principal do Idealismo alem ão,
se tornarem suspeitas . .. porque a verdade n ão constitui um fim em si para examinar a racionalidade de um ponto de vista crítico. Salienta
meSma ” ( Horkheimer, 1947, p. 22). que na filosofia transcendental de Kant “ já aparece o conceito de um
fcS %
interesse da raz ão” ( Habermas, 1968, p. 198). A razão pura, na obra
Horkheimer vé o processo de desnaturação da linguagem como de Kant, tem o interesse prá tico de vir a encamar-se na vida social.
um resultado da profunda socialização do indiv íduo no sistema indus- A razão foi concebida por Kant como sendo dotada de causalidade e,
triai moderno. Em algumas páginas de Eclipse da razão, antecipa ele o de sua natureza , pode-se induzir a noção de um bem a ser procurado,
essencial daquilo que Riesmann e seus associados teriam a dizer em no dom ínio da vida pessoal , tanto quanto no da vida social. “ A razão
}
The Lonely crowd Horkheimer descreve o homem moderno como preceitua um dever exclusivamente aos seres racionais” ,6 disse Kant ,
um “ ego contra ído, prisioneiro de um presente efé mero, esquecendo- e esse pensamento constitui o tema inteiro de sua Crítica da razão
se de usar as fun ções intelectuais pelas quais foi capaz, um dia , de prática , que conté m, acredita Habermas, os rudimentos de uma teoria
transcender sua efetiva posição na realidade ” ( Horkheimer , 1947, cr í tica da sociedade. Al é m disso, Kant é a raiz do pensamento socioló-
p. 22). O indiv íduo moderno perdeu a capacidade de usar a linguagem gico alem ão, de uma forma ou de outra. Habermas apóia -se na heran ç a
para transmitir significações. É capaz , preferentemente , de exprimir kantiana para desenvolver uma teoria social consonante com o signifi-
propósitos. Em consequê ncia , recusa -se Horkheimer a aceitar o usual cado esquecido de racionalidade. Em um de seus resumos do pensa -
“ comportamento das pessoas” ( Horkheimer , 1947, p. 47), na sociedade mento de Kant, diz ele que “ na razão existe um impulso intr í nseco
moderna , como base para decidir o significado de racionalidade . Sem -
para tomar se uma realidade ” ( Habermas, 1968, p. 201 ). Em outras
dissimular sua indignação moral diante da modernização, ele termina palavras, a razão tem um interesse prá tico, que se deveria tomar efeti -
o livro Eclipse da razão com a seguinte afirmativa : “ A den ú ncia daqui- vo numa sociedade de seres racionais. O problema consiste em como
lo que é hoje chamado de raz ão é o maior serviç o que a razão pode tomar prá tica a razão pura , no mundo social , e as respostas a essa per-
prestar ” ( Horkheimer , 1947, p. 187). gunta t ê m variado. Hegel e Marx acreditavam que a razão pura se har-
monizaria com a razão prá tica da vida de cada dia , numa Idade da
A noção de racionalidade é igualmente soberana nos trabalhos razão, que entendiam como a consequê ncia necessá ria da evolu ção
de Habermas. Seu interesse primordial é a construção de uma teoria histó rica . Habermas questiona fundamentalmente tal entendimento.
cr í tica da sociedade, como instrumento para estabelecer o primado da Depois de enfatizar o conceito de um interesse da razão, na obra
conduta racional na vida social. Ao contr á rio de Weber , Habermas n ão de Kant , Habermas observa , contudo, que Fichte deu à quest ão um
suspende os padrões é ticos quando se volta para o tema da racionalida - tratamento que se ajusta , particularmente , a uma teoria social cr í tica.
de nas sociedades modernas. No contexto deste cap ítulo, parece que o Desenvolveu Fichte o “ conceito do interesse emancipat ó rio inerente à
trabalho de Habermas se toma importante na medida em que trata dos raz ão ativa ” ( Habermas, 1968, p. 198), que inspirou Habermas na ela-
temas seguintes: boração de uma tipologia de interesses cognitivos, como crité rios
para a diferenciação de v á rias linhas de pesquisa , no dom í nio da
4 Veja Jay ( 1973 , p . 262 ) . ciê ncia. A teoria de Fichte é especialmente significativa porque identi -
5 Veja especialmente , Horkheimer ( 1947 , p . 141 -2 ) . 6 Apud Habermas .
( 1968 p. 200 ).

10 11
fica a racionalidade como o atributo essencial da consciê ncia humana humana em geral. Mesmo a subjetividade privada do indiv íduo caiu
esclarecida, isto é , de uma consciê ncia liberada do dogmatismo que de prisioneira da racionalidade instrumental . O desenvolvimento capita-
ordin á rio infecciona todas as formas conhecidas de vida cotidiana. lista impõe limites à livre e genu ína comunicação entre os seres
A noção de interesse cognitivo transforma -se num instrumento humanos.
central para a distin ção entre v á rios tipos de ciê ncia. Habermas os dife- A premissa de Marx provou ser insustentá vel , pelo simples fato
rencia de acordo com os interesses orientadores de suas pesquisas, a de que , na “ sociedade industrial de larga escala, a pesquisa, a ciência, a
saber: a ) “ ciê ncias (ciê ncias naturais) cujo interesse cognitivo é o tecnologia e a utilização industrial fundiram-se num sistema ” ( Haber -
controle técnico sobre processos objetificados” ; b) ciê ncias cujo inte- mas, 1969, p. 104 ), levando assim a uma forma repressiva de estrutura
resse cognitivo é uma “ preservação e expansão da intersubjetividade institucional , em que as normas de m ú tuo entendimento dos indiv í-
da poss ível compreensão m ú tua orientada para a ação” ; c) ciê ncias duos est ão absorvidas , num “ sistema comportamental de a ção racional
subordinadas ao interesse cognitivo emancipató rio, isto é , que devem de propósito determinado” ( Habermas, 1969, p. 106). Em outras pala -
ser consideradas como instrumentais na estimulação da capacidade vras, num ambiente desse tipo a diferença entre a racionalidade subs-
humana para a auto- reflex ão e a autonomia é tica ( Habermas, 1968, tantiva e a pragm á tica toma-se irrelevante e chega a desaparecer. De
p. 309-10). fato, a sociedade tecno-industrial legitima -se através da escamoteação
O interesse orientador da pesquisa de uma teoria cr í tica da objetiva dessa diferen ç a .
sociedade é a emancipação do homem , através do desenvolvimento de Idê ntico a esta posição diante de Marx é o enfoque reformula-
suas 'potencialidades de auto- reflex ão. No entanto, no modelo da ciê n - tivo que Habermas adota quanto a Max Weber. Ele explica o conceito
cia social estabelecida , o controle técnico da realidade constitui o inte- weberiano de racionalização como se segue :
resse básico, como orientador da pesquisa . Isso equivale a dizer que a
ciê ncia social estabelecida tomou -se cient ística , mediante a assimila - “ A superioridade da forma capitalista de produ ção sobre as que a
ção do mé todo das ciê ncias naturais ( a este respeito, h á mais no capí- precederam tem estas duas ra ízes: o estabelecimento de um mecanis-
-
tulo seguinte ). Alé m disso, transformou se ela num meio de legitima - mo econ ómico que toma permanente a expansão dos subsistemas de
ação racional de propósito determinado, e a criação de uma legitima -
ção do controle institucionalizado sobre o mundo natural e a conduta
humana. A eficiê ncia no controle da realidade torna -se o crité rio ção econ ómica , através da qual o sistema pol í tico pode ser adaptado
comum de validade, tanto nas ciê ncias naturais, quanto nas sociais, e aos novos requisitos de racionalidade trazidos à luz pelo desenvolvi-
Habermas preconiza uma ciê ncia social conceituada em bases diferen- mento desses subsistemas. É esse processo de adaptação que Weber
tes. Salienta que a “ ciê ncia do homem ... estende, de modo met ódico, entende como “ racionalização ” ( Habermas, 1970, p. 97-8 ).
o conhecimento refletivo ” e “ reivindica ser um auto- reflexo do objeto
inteligente ” e “ da hist ó ria da espé cie ” em si mesma ( Habermas, 1968, Todavia , Habermas considera necessá rio desenvolver mais a an á -
lise da racionalidade , uma vez que a sociedade industrial , em seu atual
p. 61-3).
Habermas vê -se como um continuador da teoria marxista e est ágio, é muito diferente daquela que Weber conheceu. Weber podia
admite a possibilidade de uma teoria social cr ítica incorporadora de -
voltar se para o tema como um funcionalista , mas hoje a quest ão
acarreta impressionantes conotações é ticas, que o esforço te ó rico de
contribuição de Marx e liberada dos seus erros. Na realidade , a teoria
marxista é inspirada pelo interesse emancipató rio, partilhado pelo Habermas realça consideravelmente .
conceito da teoria social cr í tica de Habermas; no entanto, é preciso Num comentá rio sobre Marcuse, Habermas assinala que , na fase
que seja introduzida uma correção fundamental na opinião de Marx presente , “ aquilo que Weber chamou de ‘racionalização’ realiza n ão a
sobre racionalidade e liberdade. Marx presumia que a liberdade e a racionalidade como tal , mas antes, em nome da racionalidade , uma
racionalidade seriam resultados inevit áveis do desenvolvimento das forma espec ífica de associação pol í tica n ão reconhecida ” ( Habermas,
forç as de produ ção. Habermas observa que tal pressuposto n ão foi 1969, p. 82 ). Mais ainda , tal “ racionalização” equivale a um “ padrão
validado pela hist ó ria e diz : “ o crescimento das forças de produ ção apologé tico” ( Habermas, 1969, p. 83), no qual as normas de relações
n ão significa o mesmo que a intenção da boa vida ” ( Habermas, 1969, interpessoais na esfera privada e as regras sistem á ticas de ação racional
p . 119). O fato é que, nas sociedades industriais, a l ógica da racionali- -
de propósito determinado tornam se id ê nticas, ou perdem sua diferen -
dade instrumental , que amplia o controle da natureza , ou seja , o ciação e, em consequê ncia , conduzem a um estado de comunicação
desenvolvimento das forças produtoras, se tornou a lógica da vida sistematicamente distorcida , entre os seres humanos.

13
O fen ômeno da comunicação distorcida tornou -se uma preo-
considerado excê ntrico. Habermas salienta que “ à base da compet ên -
cia comunicativa n ão podemos, de maneira alguma , produzir a situa-
cupação fundamental de Habermas. Propõe ele uma distin ção entre a ção ideal de discurso independentemente das estruturas emp í ricas do
ação racional com propósito, ou ação instrumental , e a ação de comu - sistema social a que pertencemos; podemos apenas antecipar essa
nicação, ou de interação simbólica . A primeira , subordinada a regras .
situação” ( Habermas, 1970, p 144 ). A situação ideal de discurso n ão
t écnicas, pode ser demonstrada como sendo correta ou incorreta. A se pode materializar sen ão dentro de adequado contexto social.
segunda , isto é, a intera ção simbólica , ou ação de comunicação, define
relações interpessoais como sendo livres de compulsão externa e tendo
suas normas legitimadas “ apenas através da intersubjetividade da 1.5 O trabalho de restauração de Eric Voegelin
m ú tua compreensão das inten ções ” ( Habermas, 1969, p. 92). Uma
tese central de Habermas é a de que , na moderna sociedade industrial , Do ponto de vista dos padrões contemporâneos da ciê ncia pol í -
as antigas bases de interação simbólica foram solapadas pelos sistemas tica e social , a obra de Eric Voegelin parece heterodoxa, obscura e
de conduta de ação racional com propósito. Nessas sociedades, a inte- mesmo perturbadora. Em sua opini ão, a ciê ncia pol í tica, na forma
raçãQ simbólica só é poss ível em enclaves extremamente residuais ou como a conceberam Platão e Aristóteles, nunca perdeu sua validez. Ele
marginais. ^ fala como um especialista em hermen ê utica , n ão como um cronista de
O que manté m uma sociedade em funcionamento como impor - id éias. Do ângulo hermen ê utico, o que essencialmente importa nos
tante ordem coesiva é a aceitação, pelos seus membros, dos sí mbolos textos clássicos são as experi ê ncias que os mesmos articulam . A menos
através dos quais ela faz sua pró pria interpretação. A interaçã o simbó- que o leitor empreenda um esforço para reproduzir em sua psique
lica é a essê ncia da vida social significativa e, portanto, para usar uma aquelas experiê ncias clássicas, n ão lhes poderá apreender o significado.
7
expressão de Kenneth Burke, a “ simbolicidade ” constitui um atribu - O esquecimento do conte ú do desses textos, que se reflete sobre a vida
humana, constitui mais do que um exemplo de m á informação: é um
to essencial da ação humana. Significado, na vida humana e social , é
obtido através da prá tica da interação simbólica. Mas, na sociedade sintoma da deformação da psique humana e representa aquilo que
industrial , o significado foi subordinado ao imperativo do controle Voegelin denomina descarrilamento. Ele considera os ú ltimos cinco
té cnico da natureza e da acumulação de capital. séculos da histó ria ocidental como um per íodo de descarrilamento e
Uma consequê ncia do dom í nio exercido pela racionalidade de deculturação da espécie humana , ao ponto de a exporem a um
instrumental sobre as sociedades modernas é que a comunicação siste - processo de “ sistem á tica confusão da razão ” ( Voegelin , 1961 , p. 284 ).
maticamente distorcida prevalece entre as pessoas. Esse tipo de comu- Pode-se falar corretamente da razão como uma realidade inde-
nicação toma-se normal , de outra maneira ficaria evidente o car á ter pendente de nossa palavra . Qualquer tentativa de abordar a raz ão
repressivo das rela ções sociais. Habermas sublinha o efeito dos fatores como se ela fosse apenas um produto convencional da linguagem refle-
pol í ticos e económicos sobre os padrões de comunicação, e o estudo te um estado deformado da psique. A razão foi descoberta pelos fil ó-
do cará ter repressivo desses padrões, que prevalecem nas sociedades sofos m ísticos da Gré cia , mas esse episódio hist ó rico é mais do que um
modernas, requer uma teoria da compet ê ncia comunicativa. É poss ível incidente bastante interessante para ser registrado na cró nica das id é ias;
antes, d á ele in ício a um per íodo de formação da alma humana . Com
- -
admitir se que “ cada palavra dita, mesmo aquela de engano intencio-
nal , orienta se no sentido da idé ia de verdade ” . Se é assim , quais são
essa descoberta , a alma do homem teve acesso a um n ível de auto-
os padrões adequados a semelhante linguagem? Essa especulação
compreensão no qual rompeu os limites da visão compacta da realida -
de articulada no mito. Na verdade, o evento n ão mudou a estrutura da
conduz ao conceito da “ situação ideal de discurso” e à id é ia do orador
alma humana : representa, antes, um momento culminante , em que a
competente. De fato, a “ competência na comunicação significa o
consciê ncia do homem quanto à pró pria alma ganha em luminosidade
dom í nio de uma situação ideal de discurso” .8 Nas situações em que os
e diferencia ção.
relacionamentos intersubjetivos são concretizados em razão do choque
Comparadas com a interpretação que Voegelin d á aos textos
de compulsões sociais agindo sobre eles, é muito dif ícil conseguir-se
clássicos, as afirmações de Weber e de Mannheim sobre a razão trans-
competê ncia comunicativa. Num tal ambiente, o orador competente mitem tê nues ind ícios quanto à sua natureza e , em consequ ê ncia , os
expõe-se a malentendidos, para n ão mencionar també m que pode ser trabalhos desses autores exemplificam uma contida avaliação da socie-
7 .
Veja Burke , K . (1963/ 1964 )
dade moderna. Sem uma inflex ível fidelidade à razão, como a expli -
cam Plat ão e Arist ó teles, Voegelin mostra que n ão há possibilidade de
R
-
Veja Habermas (1970, p . 116 46 ).
15
14
uma teoria pol í tica de base cient ífica. Sua visão do processo de cura dade, ele pr óprio constituindo a precondição da liberdade . Qualquer
de nossos males atuais pressupõe a validade perene do paradigma clás- solu ção sociom órfica desse dualismo acarretaria , portanto, uma defor -
sico da boa sociedade » e rejeita qualquer tipo de ciê ncia social sem mação da exist ê ncia humana.
conceito de valor e “ relacionalista ” . Segundo, resulta do que foi dito que uma boa sociedade é fun -
Uma sociedade racional , afirma Voegelin , n ão pode ser sen ão dada na hierarquia . Embora como seres racionais os homens sejam
aquilo que , classicamente , tem merecido o conceito de uma “ boa potencialmente iguais, por circunst â ncias que n ão podemos explicar
sociedade ” . Em seu esforç o ‘‘restaurador ” , Voegelin alega que a noção eles n ão são identicamente capazes de viver a tensão que a vida da
platónica e aristot élica da boa sociedade n ão é, de modo algum , uma razão prescreve . Os mais capazes de suportar essa tensão constituem
curiosidade histórica , mas um modelo essencialmente correto para
minoria , e a sociedade é boa na medida em que essa minoria desem -
avaliação da sociedade existente. Isso n ão envolve uma r ígida fidelida- penha as funções pol í ticas mais importantes. Voegelin n ão hesita em
de a Plat ão e Aristóteles, como se em seus trabalhos o modelo devesse
se pronunciar contra aquilo que considera os errados sentimentos
ser erigido em dogma. Trata-se, mais propriamente, de que a compre- democrá ticos da idade contempor â nea . O igualitarismo absoluto é
ensão que têm do assunto é, em teoria , válida, embora os problemas contr á rio à vida da razão , cujos requisitos intr í nsecos , por si sós, pro-
opú racionais da concreta formação de uma boa sociedade sejam sem - duzem a boa sociedade. Na boa sociedade, a diferenciação social entre
pre pertihtentes a contextos espec íficos. O pró prio Platão era muito as pessoas tem que ser reconhecida e legitimada como consequê ncia da
sensível a contextos, e n ão admitia um ú nico paradigma da boa socie - diversidade na capacidade objetiva dos seres humanos para suportarem
.
dade Achava que se devia ser flex ível bastante para considerar “ segun - a vida da razão. Em outras palavras, status, riqueza , raç a e sexo n ão
dos, terceiros e quartos melhores paradigmas” (Voegelin , 1963, p. 38)
deveriam ter vez , como crit é rios para alocação de autoridade e poder .
— cada um deles legí timo, nos limites de determinadas circunstâ ncias.
Os seguintes elementos podem ser atribu ídos à noção cl ássica de Uma terceira observação a ser feita quanto ao tema em exame é
boa sociedade, tal como foi ela restaurada por Voegelin ( 1960). a de que , de acordo com o ponto de vista clássico, a qualidade de uma
Primeiro, uma boa sociedade é aquela em que a vida da razão se sociedade é condicionada pelas circunst â ncias emp í ricas, tais como os
toma a soberana força criadora. De fato, muito embora esse ponto de recursos e o tamanho da população, estando já impl ícito na tradição
vista fulgure nas concepções dos filósofos franceses do século XVIII , clássica que o estado das forças produtoras está ligado à possibilidade
da mesma forma que em Fichte, Hegel e Marx , a í aparece em termos de igualdade pol í tica , como mesmo um marxista reconheceria . Al é m
degradados, isto é , todos esses pensadores concordam em que a quali- disso , as considerações de Plat ão e Arist óteles, sobre como o tamanho
ficação de uma sociedade como racional corresponde a afirmar que da população pode afetar a qualidade de uma comunidade organizada,
ela é boa, mas do ponto de vista em que se colocam , é a história, n ão provaram ser pertinentes, e fatos da vida social contempor â nea, como,
a psique humana, a sede da razão. È precisamente essa defeituosa por exemplo , aqueles que Robert Dahl assinala no livro After the revo -
colocação de razão que leva esses pensadores a obliterar o tema da boa lution? , d ão apoio à opinião de Arist óteles de que, alé m de um deter-
sociedade. minado tamanho, uma sociedade passa a inclinar-se para diferentes
Em Platão e Arist ó teles, uma expressão fundamental da vida de tipos de irracionalidade.
razão é a contínua tensão inerente à existê ncia humana , enquanto Cabe , finalmente , uma quarta observação, que evidencia o realis -
aberta à incidê ncia de esferas da realidade n ão inclu ídas na hist ó ria . mo da noçã o cl ássica de uma boa sociedade . Tal sociedade n ão pode
-
Admitir se que a explicação final dessa tensã o possa jamais ser encon
trada num sistema teórico, ou que possa ser eliminada com o advento
- ser implementada jamais em termos definitivos. Sua corrupção entra
em processo no exato momento em que começ a a existir , já que ela
histó rico de uma boa sociedade , constitui essencialmente aquilo que est á sujeita à “ lei c íclica da decad ê ncia e da queda " ( Voegelin , 1963,
Voegelin consideraria a ilusão gnóstica e imanentista , que impregna a p. 39). N ã o é concebida como um para íso na terra , o fim escatol ógico
mentalidade moderna. A racionalidade, no sentido substantivo, nunca da alienação e das contradições entre o homem e o mundo. A esperan -
poderá ser um atributo definitivo da sociedade , pois é diretamente
apreendida pela consciê ncia humana, n ão pela mediação social. Ela
ç a de um est á gio social definitivo, perfeito e harmonioso, é v ã. Na con -
cepção cl á ssica da boa sociedade , n ão existe a promessa de um “ reino
impele o indiv íduo na direção de um esforço cont ínuo, responsável e da liberdade” , tal como foi imaginado por Hegel e Marx . Tal promes-
penoso para dominar suas paix ões e suas inclinações inferiores. Em sa é a caracter ística essencial daquilo que Voegelin chama de doutri -
Platão e Aristó teles h á um indissol ú vel dualismo entre razão e socie - nas gn ósticas.
16 17
bilidade e a experiê ncia substituem a verdade como o crité rio de
Voegelin atribui grande valor à opini ão de Thomas Reid , de que linguagem dominante, h á pouca, se é que h á alguma , oportunidade
no senso comum já existe um certo grau de racionalidade. Afirma ele para a persuasão das pessoas através do debate racional . A racionalida -
que “ o senso comum constitui um tipo compacto de racionalidade” 9
e que, portanto, são poss íveis transações sociais baseadas numa per-
de desaparece, num mundo em que o cálculo utilit á rio de consequ ê n -
cias passa a ser a ú nica referê ncia para as ações humanas.
cepção não distorcida da realidade. Se a razão é uma parte da estru-
tura da existê ncia humana, então o entendimento e a conversação
entre os homens são poss íveis na base de sua participação comum na 1.6 AIguns comentários cr í ticos
realidade . Contudo, o debate verdadeiro e racional está-se tomando
uma possibilidade muito pouco prová vel de efetivar-se nas sociedades Todos esses estudiosos parecem concordar em que, na sociedade
moderna , a racionalidade se transformou numa categoria sociomó rfica ,
modernas. Nessas sociedades, a psique do indiv íduo mé dio foi assimi - isto é , é interpretada como um atributo dos processos hist ó ricos e
lada no modelo de uma personalidade fechada, inteiramente inclu ída
em limites mundanos. Hoje em dia, as capacidades humanas de debate sociais, e n ão como forç a ativa na psique humana . Todos eles reconhe-
racional est ão danificadas pelos padrões de linguagem predominantes cem que o conceito de racionalidade é determinativo da abordagem
e juntamente pela assimila ção do homem no contexto da estrutura dos assuntos pertinentes ao desenho social . No entanto, todos eles são
social existente, em que a racionalidade instrumental se transformou menos do que suficientemente sistem á ticos na apresentação de suas
em racionalidade em geral. Nas sociedades modernas, o debate racio- opiniões sobre tais assuntos. Em sua cr í tica da razão moderna , tomam
nal só é poss ível em muito poucos e restritos enclaves. Mesmo os diversas posições: resignação ( Max Weber ), “ relacionalismo” ( Man -
chamados meios intelectuais são, em geral, incapazes de manter uma nheim ), indignação moral ( Horkheimer ), cr ítica integrativa ( Haber-
conversação racional . Voegelin afirma que o decl ínio do debate mas) e restauração ( Voegelin ).
racional é fen ômeno recente na hist ória ocidental , e vê no passado um Uma vez que foi anteriormente apresentada uma avaliação de
“ per íodo em que o universo da discussão racional ainda estava intacto, Max Weber e de Karl Mannheim , cabe agora fazer um r á pido julga -
porque a primeira realidade da exist ê ncia permanecia n ão questionada ” mento da Escola de Frankfurt e de Voegelin.
(Voegelin , 1967, p. 144). Há mé rito tanto nos trabalhos de Horkheimer , quanto nos de
É significativo que ao tempo de Santo Tom ás de Aquino o Habermas, na medida em que se esforç am por demonstrar o erro
“ debate racional com o oponente ainda fosse poss ível ” (Voegelin, b ásico do ponto de vista de Marx sobre a razão como um atributo do
1967, p . 144 ). Com base nessa presunção , Santo Tomás acreditava-se processo hist órico. Ambos questionariam o pressuposto de que o
capaz de convencer pagãos, e especialmente mu ç ulmanos, da validez desdobramento das forças produtoras, por si só, conduziria ao advento
da verdade crist ã, apenas com argumentos racionais. Assim é que, na de uma sociedade racional. Horkheimer parece demonstrar que, desde
Summa Contra Gentiles, Santo Tom ás afirma : o momento em que a razão é deslocada da psique humana , onde deve
estar , e é transformada num atributo da sociedade, fica perdida a
possibilidade da ciê ncia social . Habermas enfatiza a circunstâ ncia de
“ . contra os judeus, podemos argumentar usando o Velho Testa - que, nas sociedades industriais avan çadas, as pr ó prias forças produto-
mento, enquanto contra os hereges podemos argumentar usando o
ras, em ú ltima an álise , são compulsões pol í ticas modeladoras de toda a
Novo Testamento. Mas os mu ç ulmanos e os pagãos n ão aceitam nem vida humana . Para superar tal condição, sugere ele que se abra espaç o
um, nem o outro. Temos, portanto, que recorrer à razão natural , com para a pol í tica e o debate racional , em sua função de orientadores do
a qual todos os homens são forç ados a concordar.” 10
processo social. Esses pontos constituem traços positivos das an álises
de Horkheimer e de Habermas.
É poss ível que hoje tenhamos dificuldade em compreender
Por outro lado , a obra de Horkheimer n ão é muito mais do que
Santo Tom ás. N ão apenas a razão, mas igualmente palavras-chaves uma acusação da sociedade moderna que, conquanto iluminadora,
sofreram a obliteração de sentido salientada nesta an álise. A pr ó pria deixa de dizer como e em que direção caminhar, para que se encon -
linguagem foi capturada por padr ões operacionais de eficiê ncia, fato
trem alternativas para os males atuais, teó ricos e sociais. Parece que
que influi sobre todo o dom í nio da exist ê ncia humana. Quando a via-
Habermas se preocupa com tais alternativas, mas apresenta -as em
9 Apud Sandoz , Ellis ( 1971 , p. 59 ). termos incipientes, ecl é ticos e bastante sociomó rficos. Realmente , a
. noção dos “ interesses do conhecimento” , por ele exposta ( que é me-
10 Apud Voegelin ( 1967 , p. 151 )
19
18
nos original do que parece, quando se lê cuidadosamente Plat ão e nao est á explicada nesses insights de uma vez por todas, mas a expe-
Arist óteles, assim como Kant), pode servir para identificar a índole riê ncia da realidade que os gerou é paradigm á tica. Nenhum esforço pa-
reducionista do cientismo. Contudo, mesmo essa noção n ão está ra compreender a realidade tem o direito de eliminar os requisitos cr í-
inteiramente isenta de cientismo, na medida em que , para Habermas, ticos de tal tipo de experi ê ncia. N ão é por acidente que nenhuma defi-
a filosofia é absorvida nos tipos tr íplices de ciê ncia que propõe. niçã o de raz ão jamais é apresentada na obra de Voegelin. De modo
Aquilo que chama de “ intersubjetividade" e de “ m ú tua compreensão" significativo, o trabalho em que mais sistematicamente ele trata desse
-
relaciona se com esferas da realidade que escapam, necessariamente, assunto intitula-se Razão: a experiência clássica, 11 e nele Voegelin in -
ao alcance de uma abordagem meramente cient ífica . terpreta textos, explora e amplia insights e identifica alguns traços da
experi ê ncia deformada da realidade, através da hist ó ria. Todo o seu tra-
Sua “ teoria cr í tica", entendida como uma integração daquilo
que considera v álidos insights encontrados nos trabalhos de Kant,
balho constitui uma tentativa de avaliar idé ias e acontecimentos do pon -
to de vista da experi ê ncia cl ássica e precisamente nesse sentido, e n ão
Hegel , Fichte, Marx e Freud , parece demasiado eclé tica , e apresenta-se
ainda impregnada de erros de natureza sociomó rfica . Aparentemente,
-
no sentido de Erik Erikson , representa um estudo em psico hist ória.
Pelo fato de que Voegelin parece impor a si mesmo o papel de
Habermas aceita o pressuposto, comum a Fichte, Hegel e Marx , de que inté rprete de textos e de analista de idé ias e acontecimentos, o conte ú -
a emancipação humana pode acontecer como um evento social coleti - do prescritivo de seu trabalho é, na realidade, muito amplo. Mesmo
vo, e para criar a possibilidade de tal evento vai ao ponto de propor “ a seu discurso sobre a “ nova ciê ncia da pol í tica" é desprovido de
organização de processos de esclarecimento" ( Habermas, 1973, p. 32)
preocupações pragm á ticas imediatas. Tem apoio na interpretação e na
e ressuscita a id é ia marxista de uma esclarecida pr á tica de massa . H á, expansão de insights clássicos e no julgamento cr í tico da moderna his-
assim , um sobretom sociom órfico no projeto de Habermas, de “ uma
teoria destinada ao esclarecimento" ( Habermas, 1973, p. 37 ), que pro - -
tó ria intelectual e pol í tica do Ocidente . Parece, poré m , dif ícil de acei
tar a noção de que a ciê ncia pol í tica pode ser exclusivamente formula-
mete o esclarecimento existencial como uma qualidade coletiva do
da apenas em termos assim amplos. Afinal de contas, Platão e Aristò-
comportamento da massa , quando o esclarecimento tem sido sempre
teles, fontes básicas da busca empreendida por Voegelin , inclu í ram no
poss ível apenas ao n ível da psique individual . N ão é por acidente que campo da ciê ncia pol í tica aspectos da vida cotidiana que escapam
ele vê a doutrina de Freud como um elemento subsidi á rio dessa “ teo- completamente à sua atenção. Nos textos daqueles autores, os crit é-
ria delineada para o esclarecimento". Isso representa uma indicaçã o de
rios de ação para a articulação e o aperfeiçoamento das formas de go-
que Habermas apóia um tipo de psicologia motivacional que exclui o verno existentes são oferecidos de forma tal que mesmo hoje , com ba -
papel da razão na psique humana , e essas falhas em seu esforço teó rico se em seus ensinamentos, seria poss ível deduzir como se conduziriam
são até certo ponto curiosas, sen ão desconcertantes, porque ele parece para encontrar os meios institucionais de superar os problemas dos go-
ter adequada compreensão da teoria pol í tica cl ássica ( Habermas, vernos contempor âneos. Contudo, as assertivas de Voegelin sobre ciê n -
-
1973, p. 41 81 ). cia pol í tica deixam o leitor muito bem esclarecido sobre seus funda-
Embora todos os autores até aqui analisados mereçam ser consi - mentos cl ássicos; n ão oferecem nenhuma pista para um tratamento
derados cr í ticos da razão moderna , somente Eric Voegelin sustenta operacional de problemas da sociedade contemporâ nea.
que a razão moderna exprime uma experiê ncia deformada da realida - Al é m disso, a an álise voegeliana da ciê ncia moderna carece de
de. Conseq úentemente, considera ele sem propósito tentar apenas a suficiente qualifica ção. Por exemplo, nem todas as investigações cien-
conciliação ou a integração de id é ias e doutrinas fundamentais na ra- t íficas de hoje são “ cient ísticas", isto é , despercebidas do campo parti-
zão moderna. A quest ão est á em que tais id é ias e doutrinas tornam cular limitado a que pertence a ciê ncia natural . Parece que o tipo de
obscuros os pólos da tensão existencial humana , expressando uma ten - ciê ncia contido nas investigações de A . N . Whitehead , Werner Heisen-
tativa e mesmo um sonho de encontrar , no contexto da hist ória , da so- berg, Arthur Eddington , Michael Polanyi e outros est á extremamente
ciedade ou da natureza , a solu ção da tensão ( metaxy ) constitutiva da harmonizado com a razão no sentido cl ássico, como ser á explicado no
condição humana. Uma vez que a razão implica a consciê ncia dessa
tensã o, razão, no sentido moderno, é um termo erróneo.
cap í tulo 2, e talvez mesmo exemplifique um novo grau de diferencia -
ção da consciê ncia da realidade, que ocorre atualmente. Com justiça
Num sentido peculiar , Voegelin é um psico- historiador. Afirma deverá ser dito que , em conversações e conferê ncias ocasionais, Voege-
que os textos cl ássicos n ão são rel íquias, a serem apreciadas de um lin demonstrou ter consciê ncia desse fato.
ponto de vista evolucion á rio; antes, considera os conhecimentos arti-
culados nesses textos como perenemente vá lidos. A condição humana 11 Veja Voegelin ( 1974 ).

20 21
Deve 9er enfatizado, també m, o desprezo de Voegelin pela defi- autodefinição das sociedades industriais avan çadas do Ocidente como
nição sistemá tica do significado de alguns termos básicos de seu voca - portadoras da raz ão est á sendo diariamente solapada e é , na realidade ,
bulá rio, tais como descarrilamento, kinesis, gnosticismo, texto, teoria , t ã o largamente desacreditada que se fica a imaginar se a legitimação de
orientação e psicologia motivacional , compacidade e diferenciação. tais sociedades, exclusivamente à base da racionalidade funcional , con -
Até aqui, termos como estes est ão insuficientemente elaborados nos tinuará , dentro em pouco, encontrando neste mundo quem acredite
escritos de Voegelin . nela . Esse clima de perplexidade pode viabilizar uma reformula ção
te ó rica de enorme magnitude .
Finalmente , os pontos de vista de Voegelin quanto à ciê ncia po- A presente cr í tica da razão moderna n ão é empreendida como
l í tica precisam de maior clarificação do que as que ele em geral se
um exerc ício acadê mico sem consequê ncias. Seu propósito é preparar
preocupa em oferecer, uma vez que, da maneira como até aqui está ar - o caminho para o desenvolvimento de uma nova ciê ncia das organiza -
ticulada a mat é ria , algumas vezes aparece prejudicada por um cará ter
excessivamente restaurador. Nenhum retomo a qualquer forma hist ó- ções. A razão é o conceito básico de qualquer ciê ncia da sociedade e
das organizações. Ela prescreve como os seres humanos deveriam
rica de vida humana pode estar contido na idéia de uma restauração
ordenar sua vida pessoal e social . No decurso dos ú ltimos 300 anos, a
verdadeiramente criadora dos ensinamentos clássicos. Tal restauração
racionalidade funcional tem escorado o esforço das populações do
consiste em transformar os pensadores clássicos, através da apropria - Ocidente central para dominar a natureza , e aumentar a pró pria capa-
ção daquilo cjUe puderam compreender, em parceiros ativos dos estu
diosos contemporâneos, em sua busca de conhecimento. A restauração
- cidade de produ ção. É certo que essa é uma grande realização. Mas
da herança conceptual cl ássica , nesse caso, visa apeqas superar o esque- agora há ind ícios de que semelhante sucesso está a ponto de se trans -
formar numa vit ó ria de Pirro. A percepção dessa situação est á abrindo
cimento dela. Os pensadores clássicos n ão devem ser considerados au - novos caminhos de busca intelectual .
toridades canónicas infal íveis. Afinal de contas, n ão se tem muito a
A teoria corrente da organização d á um cunho normativo geral
aprender do Aristóteles que justificava a escravid ão, mas do Aristóte -
ao desenho impl ícito na racionalidade funcional . Admitindo como
les compat ível com a definição do ser humano como o zoon politikon.
leg í tima a ilimitada intrusã o do sistema de mercado na vida humana , a
teoria de organização atual é , portanto, teoricamente incapaz de ofere-
1. 7 Conclusão cer diretrizes para a criação de espaços sociais em que os indiv íduos
possam participar de rela ções interpessoais verdadeiramente autograti-
Deve ser dito que, a fim de salvar o que na moderna ciê ncia so-
ficantes. A racionalidade substantiva sustenta que o lugar adequado à
cial é correto, é necessá rio compreender o cará ter precá rio de seus
razão é a psique humana. Nessa conformidade, a psique humana deve
principais pressupostos, a saber, que o ser humano n ão é sen ão uma ser considerada o ponto de referê ncia para a ordenação da vida social ,
criatura capaz do cálculo utilitá rio de consequê ncias e o mercado o
tanto quanto para a conceituação da ciê ncia social em geral , da qual o
modelo de acordo com o qual sua vida associada deveria organizar-se . estudo sistem á tico da organização constitui dom í nio particular . O
Na verdade, a ciê ncia social moderna foi articulada com o propósito papel da racionalidade substantiva na estruturação da vida humana
de liberar o mercado das peias que, através da história da humanidade
associada é o assunto do cap í tulo seguinte.
e até o advento da revolu ção comercial e industrial , o mantiveram den
tro de limites definidos. O que agora debilita a validade teó rica da mo-
-
derna ciê ncia social é sua falta de compreensão sistemá tica da natureza BIBLIOGRAFIA
específica de sua missão. Por mais de dois sé culos, o restrito alcance
te ó rico da moderna ciê ncia social tem sido a causa de seu not ável Burke , K . Definition of man . Hudson Review . Winter , 1963/ 1964 .
sucesso operacional e pr á tico. No entanto, hoje em dia a expansã o do Toward a rational society , student protest , science and politics.
mercado atingiu um ponto de rendimentos decrescentes, em termos de Boston , Massachusetts, Beacon Press , 1970 .
-
bem estar humano. A moderna ciê ncia social deveria , portanto, ser re - . Toward a theory of communicative competence. In : Drietzel ,
conhecida pelo que é : um credo, e n ão verdadeira ciê ncia . H . P., ed . Recent sociology nQ 2, New York , Macmillan , 1970.
Os resultados atuais da modernização, tais como a inseguran ça . Knowledge and human interests. Boston , Massachusetts , Bea -
psicológica , a degradação da qualidade da vida , a poluição, o desper - con Press, 1971 .
d ício à exaust ão dos limitados recursos do planeta , e assim por diante, . Theory and practice. Boston , Massachusetts, Beacon Press,
mal disfarçam o cará ter enganador das sociedades contempor âneas. A 1973.

22 23
Hobbes, Thomas. The English works. London , John Bohn , 1839. v . l ,
Ed . Molesworth .
. In : Oakshott , Michael , publ . Leviathan, introd. Peters, RS.
London , Macmillan , 1974. h
Horkheimer, Max . Eclipse of reason. New York , Oxford University
Press , 1947.
& Adorno, Theodor W . Dialectic of Enlightenment. New York ,
Herder and Herder , 1972.
Husserl , E. Phenomenology and the crisis of philosophy . New York ,
2. NO RUMO DE UMA TEORIA SUBSTANTIVA
Harper & Row , 1965. DA VIDA HUMANA ASSOCIADA
. The Thesis of the natural standpoint and its suspension . In : Ko-
ckelmans, J ., publ. Phenomenology. Garden City, New York , Double -
day , 1967. Embora a ciê ncia social moderna em geral e a teoria da organiza -
Jay , Martin . The Dialectical imagination, a history of the Frankfurt ção em particular deixem de distinguir suficientemente entre a racio-
nalidade funcional e a substantiva , ambas constituem , n ão obstante ,
School and the institute of Social Research. Boston , Massachusetts ,
categorias fundamentais de duas concepções distintas da vida humana
Little , Brown , 1973.
associada. É propósito deste cap í tulo diferen çar , analiticamente, essas
Keynes , J .M. Economic possibilities for our children. In : Essays in
duas concepções, e tal exploração toma-se agora imperativa , porque as
persuasion . New York , Harcourt , Brace & World , 1932.
teorias da organização e do desenho de sistemas sociais, exclusiva-
Mannheim , Karl. Ideology and utopy. New York , Harcourt , Brace &. mente baseadas na concepção moderna de razão, são desprovidas de
World , 1939. real validade cient í fica . Tal como na cr í tica da razão moderna , ofere -
. Men and society in an age of reconstruction. New York , Har - cida no cap í tulo 1 , é també m necessá rio começar esta an á lise com
court , Brace & World , 1940. Max Weber.
Parsons, Talcott & Shills, E. A., ed . Toward a general theory of action . Poder-se -á afirmar que quando Max Weber decidiu caracterizar a
New York , Harper & Row , 1962. razão moderna estava agindo como um historiador. Em lugar de ado-
. Evolutionary universais in society . American Sociological Re- tar uma posição substitutiva em rela ção à raz ão cl á ssica , como fez
view , June , 1964. Hobbes, Max Weber implicitamente advertiu que , nos tempos moder-
Sandoz , Ellis. The Foundations of Voegelin s political theory . The Po - nos, um novo significado estava sendo atribu ído à palavra raz ão. N ã o
litical Science Reviewer , 1 , Autumn 1971 . afastou , como um anacronismo , o significado anterior de raz ão. Na
Voegelin , Eric. The New science of politics . Chicago, Illinois , Universi- realidade, Weber, como Hobbes, desejava um tipo de ciê ncia social
ty of Chicago Press, 1952. inteiramente comprometido com uma tarefa peculiar a uma determi-
. El Concepto de la ‘buena sociedad ’. Cuadernos del Congreso nada é poca . Mas , ao fazer a distin ção entre ZweckrationalitQt ( raciona-
por la Libertad , 1960. Suplemento do n 9 40. lidade formal) e Wertrationalitat ( racionalidade substantiva ) sugeria ele
. On readiness to rational debate . In : Hynold , A., publ . Freedom que ou uma, ou a outra , poderia servir de referê ncia para a elabora ção
and serfdom , Dordrecht , Holanda . D. Reidel , 1961 . teórica. No entanto , escolheu desenvolver um tipo de teoria baseado,
. Industrial society in search of reason . In : Aron , R. , publ . World sobretudo, na noção de racionalidade funcional . Embora o respaldo
technology and human destiny. Ann Arbor , Michigan , University of
Chicago Press, 1963.
biogr á fico e hist ó rico da escolha de Weber pudesse constituir interes
sante e importante mat é ria para investigação, isso estaria al é m do pro-
-
. On debate and existence. The Intercollegiate Reviewer, Mar ./ pósito deste cap í tulo. N ão obstante, ofereço à especulação a id é ia de
Apr . 1967 . que uma teoria substantiva poderia ser formulada com base naquilo
. Reason : the classic experience . The Southern Review, Spring, que Weber n ão disse , mas que provavelmente diria se tivesse vivido
1974. nas presentes circunst âncias históricas.
Weber , Max . Economy and society . New York , Bedminster Press, Argumenta Max Weber que , embora a ciê ncia social seja neutra ,
1968. v . 1 . do ponto de vista de valor , os valores adotados por uma sociedade são,
. Methodology of social sciences. New York, The Free Press, eles pró prios, crité rios indicadores daqueles pontos que são importan -
1969 .
24 25
r
principal categoria de an álise. Na medida em que a razão substantiva é
tes para aqUela forma particular de vida humana associada, durante
entendida como uma categoria ordenativa, a teoria substantiva passa a
certo per íodo hist órico. Admitiria ele , ent ão, que quando as premissas
de valor de um certo tipo de vida associada se transformam , elas pró-
ser uma teoria normativa de tipo específico. Na medida em que a
razão funcional é apenas uma definição, ou uma elaboração l ógica, a
prias, em fatores de um mal coletivo, o cientista social n ão pode , legi-
timamente , desprezar tais premissas como estranhas à sua disciplina .
teoria formal é uma teoria nominalista de tipo específico. Os concei
tos da teoria substantiva são conhecimentos derivados do e no proces-
-
Ao contrá rio, do ponto de vista de Weber, o cientista social deve
focalizar esses valores, embora apenas para mostrar as consequê ncias
so de realidade , enquanto os conceitos da teoria formal são apenas
prá ticas que acarretam . O cientista social , como tal , n ão deveria emitir instrumentos convencionais de linguagem , que descrevem procedimen -
julgamentos de valor, uma vez que valores são subjetivos ou t ê m
alicerces demon íacos.
— tos operacionais. A pergunta : Que é a racionalidade? que requer aten-
ção direta no dom ínio da teoria substantiva , n ão tem papel a desem-
penhar no dom ínio da teoria formal . Aqui a pergunta é, de preferê n -
A posição de Weber n ão deixa de ser contraditó ria . Se os valores
cia : Que é que chamaremos de racionalidade? A pergunta seria respon-
sã o simplesmente demon íacos e n ão t ê m fundamentos objetivos,
dida, no ú ltimo caso , por uma afirmação em que uma combinação de
ent ã o a an álise das consequê ncias de sua adoção pelos indiv íduos n ão
é mais do que um f ú til exerc ício de abstração. Tal an álise só teria
palavras 2 constitui, essencialmente , a referê ncia para os objetivos da
sentido se fosse empreendida na esperança de que o indiv íduo pudesse an álise .
ser persuadido a fazer um julgamento de valor objetivo, racional.1 Segundo, uma teoria substantiva da vida humana associada é
Essa contradição na posição de Weber reflete-se em sua obra e em sua algo que existe h á muito tempo e seus elementos sistem á ticos podem
vida. Pretendeu ele ter estudado, sine ira ac studio , a sí ndrome da ser encontrados nos trabalhos dos pensadores de todos os tempos, pas-
sados e presentes, harmonizados ao significado que o senso comum
racionalidade formal , mas apesar disso manifestou seu pesar ante a
atribui à razão, embora nenhum deles tenha jamais empregado a

culminação de tal s í ndrome um mundo de “ especialistas sem esp í-
rito, de sensualistas sem cora ção” (Weber , 1958, p. 182).
expressão razão substantiva. Na verdade, é graças às peculiaridades da
é poca moderna, através das quais o conceito de razão foi escamoteado
Max Weber viveu num contexto hist ó rico em que a racionalida-
de formal, ou funcional, substitu ía amplamente a racionalidade subs- pelos funcionalistas de vá rias convicções, que temos presentemente
tantiva , como o principal crit é rio para a ordenação dos negócios pol í-
que qualificar o conceito como substantivo. Uma descoberta funda -
mental , resultante da heran ça de ensinamentos dos pensadores clássi-
ticos e sociais. Tomou como certa essa substitui ção e recusou-se a
erigir a ciê ncia social sobre a noção da racionalidade substantiva. Hoje ,
cos, é a de que é o debate racional , no sentido substantivo, que consti-
tui a essê ncia da forma pol í tica de vida , e també m o requisito essencial
poré m, é mais dif ícil do que nos tempos de Hobbes e de Weber pô r de
lado a viabilidade de uma teoria substantiva da associa ção humana , para o suporte de qualquer bem regulada vida humana associada , em
porque agora é evidente que o relativismo no tocante a valores condu - seu conjunto.
ziu a vida associada a um beco sem sa ída , intelectual e espiritual. Em A propósito, aquilo que o campo da economia e , mais especifi
camente , o campo da antropologia econ ómica referem presentemente
-
consequê ncia, a questão de que tratará este cap í tulo consiste em saber
se a razão substantiva deveria ser a categoria essencial para a cogitaçã o como sendo teoria substantiva , 3 é apenas subsidiário a esta an álise. O
dos assuntos pol í ticos e sociais e , sendo esse o caso, que tipo de teoria atual debate entre economistas que professam de um lado a teoria
iria corresponder a essa ordem de pensamento. Constituir á propósito formal , de outro a teoria substantiva, diz respeito à natureza do fen ô-
dos cap í tulos subsequentes a discussão das estruturas sociais emergen - meno económico, ao mercado e a suas implicações teóricas. Karl
tes e das implicações de pol í tica que da í resultam. Polanyi, fundador da teoria econ ómica substantiva, assinala que os
Há três qualificações gerais, que realçam as distin ções entre a conceitos formais, extra ídos da dinâ mica específica do mercado, na
teoria substantiva e a teoria formal da vida humana associada . melhor das hipó teses são v álidos como instrumentos gerais de análise
Primeiro, uma teoria da vida humana associada é substantiva
e formulação dos sistemas sociais apenas numa sociedade capitalista ,
durante um per íodo em que o mercado esteja relativamente livre da
( quando a raz ão, no sentido substantivo, é sua principal categoria de
an álise . Tal teoria é formal quando a razão, no sentido funcional , é sua 2 Sobre o cará ter essencialista e nominalista dos conceitos, veja Popper ( 1971,
p . 32 ; 1965 , p. 134 ).
1 Eric Voegelin c Leo Strauss també m frisaram as contradições da noção de
3 Sobre a complexa contrové rsia em
neutralidade de valor na ciê ncia social , de Weber. Veja obras de Voegelin , E. tomo da teoria econ ó mica substantiva
. - -
( 1952 p . 13 22 ) c Strauss, L. ( 1953, p. 35 80 ). versus a teoria econ ómica formal , veja Kaplan ( 1968 ) e Cook ( 1966 ).

26 27
regulação pol í tica. Os adeptos da teoria econ ómica formais alegam
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que aqueles conceitos formais são universalmente vá lidos. Polanyi
corretamente afuma que, uma vez que a economia sempre esteve
“ engastada na sociedade",4 a sociedade capitalista tem que ser enten
dida como um caso excepcional e n ão como um padr ão para avaliar a
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história social e econ ómica. O fato de que essa observação serve para
elucidar um tipo de abordagem é, ele pró prio, indicador de peculiar
condição hist ó rica . Os teóricos pol í ticos da fase pré- moderna n ão n %
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semelhante condição. Contudo, queriam dizer a mesma coisa que
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4 O encaixe da economia na sociedade c uma das ideias mais abrangentes dc
Karl Polanyi. Veja Dalton ( 1971 ).
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5 Sobre o processo histó rico da sublimação do elemento pol ítico , veja Wolin
( 1960)
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Sobre a transavaliação da socialidade e o pensamento pol ítico cl á ssico, veja
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Arcndt ( 1958 ). >


28 29
homem como um “ animal polí tico” ( zoon politikon ) só é compreen - Fable of the bees; de Bernard Mandeville ( 1714), publicada primeiro
s ível à luz desse entendimento. sob a denominação de The Grumbling hive ( 1705 ). Em 1723, ele
Aristóteles e os pensadores clássicos, em geral / concebiam
a publicou A Search into the nature of society , um ensaio que é uma
social idade como uma qualidade do bando, indigna do homem pol í- justificação teórica de sua f á bula . Mandeville comparou a sociedade -
tico. No dom ínio pol í tico, o homem é destinado a agir por si mesmo , —
em particular a sociedade brit ânica de seu tempo com uma colmeia.
como um portador da razão no sentido substantivo . No dom í nio Pode-se resumir o argumento bá sico de seu trabalho da maneira
social , ao contrário , a preocupação “ apenas com a vida ” prevalece
,e seguinte ; se o social se transforma no crité rio que abrange tudo na
ele age como uma criatura “ que calcula ” , isto é , como um agente eco - ordenação da exist ê ncia humana , ent ão os v ícios, o orgulho, o ego ís-
n ómico. A razão, no sentido de uma habilidade “ calculadora ” , mo, a corrupção, a fraude, a ganância, a hipocrisia e a injustiça passam
també m é inferida por Arist ó teles na Pol í tica e na Ética a Nic ô maco . a ser virtudes. Embora sugira que a virtude est á alé m da capacidade
É exigida para a administração do lar (oikos), onde o bem -estar ' con ô-
' humana, Mandeville pode ser considerado um moralista malgré luiy se
o curso de a çõ es que devem ou n ão sua f á bula for interpretada como retratando as consequê ncias, para a
mico do grupo determina qual pr ó- existê ncia humana em seu conjunto, da isen ção da sociedade da regu-
devem ser tomados. Esse tipo de conduta social é limitado a seu
prio enclave. N ão faz parte do dom í nio pol í tico , em que o indiv í duo lação pol í tica. A ambiguidade do pensamento de Mandeville em gran -
de parte explica por que , por vias sutis e contradit ó rias, exerceu ele
possa manifestar seu interesse pela expansão do bom car á ter do -
influê ncia sobre eminentes escritores e filósofos de seu tempo, incluin
conjunto, e n ão simplesmente pela sobrevivê ncia. 7
’ É claro que Arist ó teles tinha a percepção de que
o modelo da do Adam Smith , que , poré m, repudiou a influ ê ncia de Mandeville.
N ão é por acaso que a id éia de uma ciência social obcecou os
melhor forma pol í tica de vida , aberto ao comando integral da raz
ão
substantiva , só poderia ser conseguido historicame nte , por acaso . fil ósofos escoceses na Inglaterra , durante o século XVIII . A noção de
Sabia que nenhuma comunidade pol í tica est á , etemament e , a salvo ciência social permeia as especulações sobre a natureza humana e o
fen ômeno institucional , empreendidas por Adam Ferguson , David
da influ ê ncia solapadora dos interesses sociais. Mas, onde quer que
esses interesses prá ticos constituam o ú nico crité rio para as ações Hume, Francis Hutcheson , Lorde Karnes ( Henry Home8 ), Lorde
Monboddo ( James Burnet ), Adam Smith e Dugald Stewart . Por mais
humanas, n ão existe nenhuma vida pol í tica.
Para muitos, a ciê ncia social é, no moderno per íodo histó rico, que esses homens fossem diferentes em idéias e talento, apesar disso
resultado de crescente sofisticação da racionalidade e de sua aplicaçã
o eram leais a uma certa comunh ão de premissas e uma delas era a de
a fen ômenos cada vez mais diversos. O preconceito hist ó rico desse que a ciê ncia social poderia ser poss ível como o estudo da raz ão da
modo de ver será examinado mais extensamente no item 2.4 deste sociedade. Para a maior parte deles, a razão era uma caracter ística da
cap í tulo. Por ora , é suficiente assinalar que a pró pria idé ia de uma sociedade, mais do que do indiv íduo. Consumaram a sublima ção da
ciência social afirmada com base na presunção de que o indiv íduo
é razão, no sentido de que esta já n ão mais precisava ser concebida
fundamentalmente um ser social , e que suas virtudes devem ser avalia - através da mediação do indiv íduo, mas como algo cognato à sociedade
das segundo crité rios socialmente estabelecid os , era inconceb ível para e à natureza. Todos eles concebiam leis racionais governando a sòcie -
mo- dade e a natureza , apesar do fato de concordarem em que as paix ões, e
Arist ó teles e para os te ó ricos clássicos em geral . A ciê ncia social
derna pressupõe que a sociedade , ao desdobrar - se como uma associa - -
n ão a razão, é que conduziam o ser humano à ação. Atribui se, geral-
ção puramente natural , gera os padr õ es da exist ê ncia humana em seu mente , a id é ia da mão invisí vel a Adam Smith , mas na verdade foi ela
conjunto. Essa transavaliaçã o do social , de que a moderna ciê
ncia sugerida nos trabalhos desses homens. A atividade dessa “ mão” mani-
social é resultado, ocorreu nos tr ê s ú ltimos s é culos da hist ó ria do festa -se na sociedade e na natureza e o papel da ciê ncia é descobrir e
Ocidente . É Hobbes quem , sistematicam ente , prepara o caminho para ordenar a maneira como isso acontece. Por exemplo, Hutcheson,
essa transavaliação, ao atacar o conceito de razão em termos de senso amigo e professor de Adam Smith , escreveu em 1728 sobre uma “ m ão
comum e ao propor alternativas para esse conceito. No momento em superior ” , como uma forç a providencial , que afeta9 tanto os seres
que o ser humano é reduzido a uma criatura que calcula , é para ele humanos quanto os animais, atrav és de seus instintos.
imposs ível distinguir entre v ício e virtude. A sociedade torna-
se,
, padecimen to é
7Sobre a influencia dc Mandeville sobre Adam Smith , veja Marx ( 1974 , p.
então, o seu ú nico mentor e, n ão surpreendentemente 355 ) , Colletti ( 1972 ) e Macfie ( 1967 ).
equiparado ao mal , e o prazer ao bem. 8 Veja Bryson (1945 ) e Stephen ( 1927 ).
Uma das mais notáveis documentações da confusão do homem 9 Veja Bryson ( 1945 , p. 118 ).
ocidental , no momento culminante da transavalia ção do social , é The
31
30
I
produ ção e consumo, e educação marxista igualit á ria como meio
Para crédito de Mandeville, n ão h á ambiguidade em David Hume organizado de esclarecimento das massas.
e Adam Smith , quando ambos justificam a abrangé ncia integral da Uma vez que, para ambas as correntes de pensamento, a natu-
sociedade. Para Hume e Smith , a socialidade substitui a razão, ao reza humana não tem padrões adequados a si própria, o instrumento
determinar como deve viver o homem. Hume considerava o ser huma - de medida para avaliação e desenho dos sistemas sociais, no fim de
no como uma criatura completamente inclu ída na sociedade. O “ mé ri - contas, é ele mesmo social . Em consequê ncia, a ciê ncia social formal
to” de suas ações “ n ão decorre ... de uma conformidade à razão, nem nunca poderá ser uma teoria cr í tica, tal como hoje alegam alguns
-
sua culpa do fato de contrari á la ” ( Hume , 1973, p. 458). É o senti - escritores, a menos que o teórico critico acredite, discretamente , que
mento que o homem tem de pertencer à sociedade que constitui o só ele é capaz de se esquivar ao processo de socialização e enunciar
fundamento de sua conduta moral . A simpatia - a sensitividade do julgamentos sobre o estágio atual da natureza humana. A decepção
indiv íduo em relação à aprovação e à censura dos outros - desempe- pessoal do teó rico crítico com o estado de coisas que ora prevalece
nha um papel fundamental no desenvolvimento de seu senso moral.
Padrões de ordenação da vida humana são, eles pró prios, sociais e, em
- -
pode induzi lo a entregar se a um tipo de ação oracular e demi ú rgica.
Afinal, não há pontos importantes de disputa entre os cientistas
ú ltima an álise , compõem-se de “ interesses da sociedade” , que Hume
afirma serem as referê ncias principais para distinguir entre a virtude e
sociais ocidentais estabelecidos e os teóricos críticos marxistas e neo
marxistas, porque ambos os grupos exemplificam a moderna transava -
-
o v ício ( Hufne, 1973, p. 579). Para Hume , a ordem na vida humana liação do social e , nessa conformidade, est ão de acordo em que um
associada é um resultado de processos an ónimos, envolvendo forças e discurso teó rico est á inerentemente incorporado à práxis da sociedade :
atividades independentes das deliberações racionais do indiv íduo, no à pr áxis atual da sociedade industrial desenvolvida , ou à práxis futura
sentido substantivo. Mais propriamente , aquilo que é social é , forç osa- das massas esclarecidas. Da í que é in ú til e autodecepcionante a tenta -
mente , moral. Como ocorre com outros fil ósofos escoceses, Hume tiva de superar as ilusões ideológicas da ciência social do Ocidente e ,
pretende elaborar o alicerce filosófico da ciê ncia social formal do ao mesmo tempo , preservar seu cará ter formal.
Ocidente.
As correntes de pensamento que hoje prevalecem em mat é ria de 2.2 Ordenamento político e sociedade
ci ncia social formal , seja em seus termos estabelecidos usuais, seja sob
ê
os disfarces marxistas e neomarxistas, apóiam -se numa visão sociomó r - O paradigma completamente desenvolvido da visão escocesa de
fica do homem, visão que reduz o ser humano a nada mais que um ser ciê ncia social surgiu , primeiro, como economia política , nos trabalhos
social. Da í que a plena atualização do indiv íduo seja entendida como a de Adam Smith . Proposta como uma ciê ncia social verdadeiramente
sua total socialização, quer sob as condições presentemente oferecidas, geral , a economia pol í tica concebe a ordem na vida humana associada
quer num futuro est ágio social esclarecido. Por exemplo, a motivaçã o como um resultado da livre interação dos interesses de seus membros.
econ ómica é considerada o traço supremo da natureza humana e a Desse modo, o enclave delimitado que Arist ó teles descreve como a
teoria econ ómica formal afirma que o mercado é a categoria funda- -
ordem dos negócios domésticos toma se explicitamente equiparado à
mental , para a comparação , a avaliação e o desenho dos sistemas vida humana associada em seu conjunto, graças aos fundadores brit âni -
sociais. Assim , n ão é por acidente que os cientistas sociais estabeleci- cos da ciê ncia social. A economia pol í tica e a ciê ncia social formal
dos recomendam aos pa íses do Terceiro Mundo a prá tica maciç a de legitimam , conceptualmente , a isen ção da economia doméstica de
certo tipo de esclarecimento organizado, que se destina a ensinar “ a -
regulação pol í tica . 10 Por essa razão, o comé rcio torna se a essê ncia da
motivação do sucesso” , ou seu equivalente , aos povos que vivem nessa sociedade e a natureza humana é definida na conformidade das quali-
á rea. Essa perspectiva conceptual sugere que os pa íses do Terceiro ficações que um homem tem como comerciante.
Mundo só poder ão resolver seus problemas se se transformarem em Paradoxalmente , poré m, h á um traç o comum entre os teó ricos
sociedades centradas no mercado. Os teoristas marxistas e neomarxis- substantivos e os teó ricos formais do Ocidente: ambos inferem que
tas percebem a ingenuidade desse ponto de vista particular . Salientam , reduzir o indiv íduo a um ser puramente social equivale a afirmar que
em vez disso, o imperativo da mudan ça da natureza humana de acordo
com o modelo da sociedade socialista, coisa que , aliá s, nunca concei - 10 Sobre este ponto , veja Myrdal ( 1954 ) . Declara ele que “ a ideia de econo
mia como um tipo social de administração doméstica inspira não apenas a teo -
-
tuam a não ser em termos vagos. Conseq úentemente, as peças essen - ria do livre comércio , mas també m todas as outras doutrinas de economia po-
ciais de seu projeto universal são a socialização dos meios de produ ção l ítica" ( Myrdal , 1954 , p. 140).
e do excedente econ ómico , planejamento socialista da estrutura de
33
32
sua principal preocupação na sociedade é meramente com sua autopre- que , necessariamente, dominasse a natureza. Na Gré cia, por exemplo,
servação. Ambos os grupos alegariam que a sociedade é um tipo espe - invenções atribu ídas a Hero e a Arquimedes d ão prova de um avanç a-
do est ágio de tecnologia. Mas a aplicação da tecnologia à produ ção era
cífico de coletividade humana em que os interesses imediatos, prá ti-
cos, constituem os pontos de referê ncia básicos do indiv íduo para se limitada por razões pol í ticas e é ticas. Tecnologia, para os gregos, nem
deveria constituir preocupação de um homem livre , nem deveria violar
relacionar com as outras pessoas. Os te ó ricos formais atribuem uma . 13
Era como se os gregos, e
os processos autogerados da natureza
din â mica pró pria a esse tipo de coletividade ; din â mica que orienta a ser a economia parte
interação dos interesses individuais no sentido de uma ordem de con - outros povos antigos , tivessem
.
a percep ção de
junto, da qual ningu é m est á individualmente consciente. Desse modo, integrante do sistema biof ísico
para os teóricos formais, a pol ítica é mera articulação e a agregação de O consumo dentro dos limites de necessidades humanas finitas,
interesses ( liberalismo), ou a expressão da sociedade agindo como um a produção limitada, constitu íam a meta da economia institu ída nas
conjunto, de acordo com suas leis (socialismo). Poder-se- ia dizer, sociedades pré-modernas. No século XIII , Santo Tom ás de Aquino
é m uma contradição de reiterava essa opinião. Seguindo Aristó teles, advertia contra a prolifera-
assim , que a expressão economia polí tica cont12
termos. Situa
11 mal um atributo ( o pol í tico), que só o ser humano ção das necessidades socialmente induzidas, estabelecendo uma distin-
considerar a economia como um agente corporativo ção entre riqueza natural e artificial. A primeira “ serve para afastar do
pode exercer
pol ítico em
,
$ i
ao
, isto é , como um todo animado de um propósito seu, homem suas naturais deficiê ncias, tais como comida e bebida, vestu á -
rio, ve ículos, abrigo e coisas que tais” . A “ riqueza artificial ” , como,
propósito que, afinal , coincide com o bem de todos os homens. Por-
por exemplo, dinheiro, tinha sido inventada por “ arte do homem •••
tanto, a idé ia de ciência social envolve uma redução, por baixo, da . 14
tarde, no século
vida humana associada , visto como a socialidade , per se , é uma dimen - para servir de medida de coisas permutá
o
XVII , essa orientaçã ainda ecoa nos
veis”
trabalhos
Mais
de Puffendorf .15 Este
são imperfeita da existência humana.
partilha, com os pensadores pré- modernos, o ponto de vista de que o
Poder-se-ia indagar das circunst â ncias hist ó ricas que constituem
valor em uso deveria determinar as atividades da economia. Mas é o
o background de tal transformação. Desde o século XVI que uma sé rie valor de troca , n ão o valor em uso, que constitui a meta de uma
de acontecimentos, tais como a descoberta de novas partes do globo e

a expansão da á rea de transporte mar í timo graças à iniciativa dos
economia moderna . Assim , pela legitima ção da riqueza artificial por si
mesma, essa inversão envolve, necessariamente , a emancipação da
navegadores europeus — assim como a multiplicação das iniciativas
comerciais e industriais, precipitou o aparecimento de uma nova atitu -
economia da regulação pol ítica e é tica.
Os cientistas pol í ticos substantivos perceberam que um bom sis-
de em relação à prosperidade material da Europa. Comerciando com
tema organizado de governo n ão poderia existir abaixo de certo n ível
outras partes do mundo, alguns pa íses europeus acharam um meio de
de meios de subsist ê ncia . Consideravam a cria ção de tais meios como
aumentar as suas riquezas numa proporção sem paralelo. Em ú ltima uma condição necessária , em vez de constituir a meta do sistema pol í-
an álise , aquilo que se chama de revolu ção comercial e industrial foi tico. No entanto, desde o momento em que a prosperidade material
uma sé rie de acontecimentos levando à conclusão de que a prosperi - foi presumida como alguma coisa poss ível para todos ( isto é , um pres -
dade material e a riqueza poderiam ser criadas ou estimuladas por uma suposto caracter ístico da chamada revolu ção industrial ), a riqueza
deliberação sistem á tica do homem. Nos séculos pr é- modernos, a pros- transformou-se na meta fundamental do sistema . Através dos séculos
peridade material e a riqueza eram resultados de feitos humanos, mas de desenvolvimento comercial e industrial , a teoria pol í tica foi redefi-
tais feitos representavam transações inteligentes com a natureza como nida de acordo com esse pressuposto. Sua principal preocupação pas-
ela era dada. As necessidades do homem eram consideradas limitadas e sou a ser a prosperidade material , de preferê ncia ao bom ordenamento
a produção de bens deveria ser obtida atrav és da colaboração do da associação humana. O padrão é tico inerente à teoria pol ítica subs-
homem com os processos que a pr ó pria natureza gerava , e n ão pela tantiva foi substitu ído pela justificação moral do interesse imediato do
escalada sistem á tica desses processos, mediante implementos tecnol ó- indiv íduo. A ciência social contemporânea representa a culminação
gicos e sem consideração dos imperativos termodin â micos da natureza. desse processo.
Uma posição exploradora em face da natureza seria eticamente
viciosa , para a mentalidade pré- moderna e n ão- moderna. A tecnologia -
» 3 Veja Dijksterhuis ( 1969, p. 72 5 ).
cient í fica existiu muito antes da chamada revolu ção industrial , sem 14 Apud Flynn , F.E. (1942, p. 23). A tradução que Flynn fez de Santo Tomás
11 Veja Barker , Ernest ( 1959, p. 357 ). foi ligeiramente modificada pelo autor .
12 Sobre o conceito do pol ítico , veja a Polí tica, de Aristó teles. 15 .
Veja Sewall H . R . ( 1901 , p . 3843 ).
35
34
i
Mas sua posição n ão foi partilhada por todos os pensadores alemães
Houve um momento em que a novidade da “ sociedade ” , na de seu tempo, e um deles, Heinrich von Treitschke , cuja participação
Europa, fpi sentida e vividamente discutida . Que nos seja permitido, nos negócios p ú blicos da Alemanha pode ser justamente criticada, ape-
nos poucos par ágrafos que se seguem , escrever “ sociedade ” , entre
aspas, de modo a podermos sublinhar seu significado peculiarmente
sar disso poderá ser invocado para ilustrar a tensão entre a nova ciên -
cia e a teoria pol í tica. Na opinião de von Treitschke, as comunidades
moderno. Hegel, admirador e leitor cuidadoso de Adam Smith , focali- humanas só podem subsistir quando disponham de alguma forma de
zou a “ sociedade ” como um acontecimento hist ó rico. 16 Ele sa ú da o organização estatal . Em outras palavras, uma vez que a “ sociedade ” é
acontecimento como uma progressão da liberdade, uma vez que, em
sua opini ão, a “ sociedade” é a arena em que o universal ter á , final-
incapaz de espontaneamente dar forma a si mesma , essa tarefa ordena
dora pertence ao Estado. Assim, lamentava Treitschke, “ tudo aquilo
-
mente , que se consumar a si mesmo. que nosso século chama de liberalismo tende para a visão social do Es-
Embora influenciado por Hegel , Lorenz von Stein encara a tado” (von Treitschke , 1963, p. 29). Desse ponto de vista, a culmina -
“ sociedade ” , mais propriamente , como um historiador. Seu livro, ção de tais tendê ncias conduziria à desintegração e ao colapso da vida
publicado em 1850, Geschichte der Sozialen Bewegung in Frankreich associada. Aquilo que ele denomina ifcvisão social ” , as “ atitudes exclu -
von 1789 bis auf unsere Tage ( traduzido para o ingl ês sob o t ítulo sivamente sociais da mente ” , a “ perspectiva puramente social ” ( von
A História do movimento social na França, 1789/ 1850), começa , sig - Treitschke, 1963, p. 29-30) envolve uma referê ncia à tese de uma
nificativamefite , com um cap í tulo sobre o conceito de sociedade e ciência social independente da ciê ncia pol ítica . Adotando uma posi -
suas leis din â micas, e nele o autor frisa que, em sua geração, a “ socie- ção até certo ponto polê mica em relação a essa tese , afirma ele que
dade” evidencia uma ordem de “ fenômenos que , anteriormente,
1

“ quando o nosso século alega que o estudo das condições sociais é


haviam permanecido sem registro na vida de cada dia. tanto quanto na uma coisa nova .. . exibe um estranho conceito de si mesmo” ( von
ciê ncia ” (von Stein , 1964, p. 43). Lorenz von Stein lan ç a -se à sua Treitschke, 1963, p. 32). Nega ele , explicitamente, a possibilidade da
an á lise hist órica para legitimar a nova ciência, ou seja , a ciência social . ciência social, visto como a teoria pol í tica (em sentido substantivo)
Na concretização desse esforço, manifesta a percepção daquilo que a tem sempre tratado, com propriedade, da ordem de fen ômenos que a
nova ciência fundamentalmente envolve, e assim escreve : nova disciplina pretende definir como de seu dom í nio exclusivo.
Hoje em dia , mal se tem a percepção do problema fundamental
“ Há alguma coisa no interior do Estado trabalhando contra ele. Essa envolvido no surgimento do social e da ciência social . Em seus mode-
alguma coisa é a sociedade ( os grifos são do original ). Será que a so- los liberal e socialista , a ci ê ncia social formal tem a concepção da vida
ciedade se conforma a um princ ípio de exist ê ncia diferente do Esta - humana associada como sendo ordenada pelo interesse, o que é o mes-
mo que admitir que o princ ípio da “ sociedade ” é o padrão normativo
do? Se é assim , qual é o princípio?
Durante séculos, muitos e grandes homens tentaram formular o princ í - essencial da exist ê ncia humana em seu conjunto. Em outras palavras,
ao tomar difuso o elemento pol í tico na vida humana associada , a ciê n -
pio que rege o Estado, mas ningu é m pensou na possibilidade de que
pudesse existir també m um princ í pio para a sociedade . E , no entanto, cia social formal deixa de considerar qualquer espécie de regulação
existe. . . O interesse, que é o centro. . . de toda a a ção social , é o prin - substantiva influindo sobre o processo econ ó mico.
cipio da sociedade ” ( os grifos são do original ) ( von Stein , 1964, p.
45-55). 2.3 A dicotomia entre valores e fatos
Tal como Adam Smith no caso da economia , Lorenz von Stein Ao pô r em foco a dicotomia entre valores e fatos, quero aqui
d á bom acolhimento à isen ção da “ sociedade ” da regulação pol í tica. examinar as circunst âncias hist óricas que a originaram, mais do que os
alicerces filosóficos em que se fundamenta .
16 “ Quando os homens são assim dependentes uns dos outros e reciprocamcntc Quando o indiv íduo é definido como um ser puramente social , a
inter-relacionados em seu trabalho e na satisfação de suas necessidades , a au - suposição é de que a ordem de sua vida lhe seja concedida como algo
to -rcalização subjetiva transforma -se numa contribuição para a satisfa ção das ne - extr ínseco. O mundo, de onde prové m essa ordem , é uma arena , em
cessidades de todos. Quer isto dizer , numa antecipação dialé tica , que a auto-rca-
lização subjetiva passa a ser mediação do particular para o universal , com o resul - que ele se esforça para elevar ao máximo os seus ganhos. A ordem da
tado de que cada homem , ao ganhar , produzir e desfrutar , por si mesmo , está eo sociedade é poss ível na medida em que seus membros, com base num
ipso , produzindo c ganhando para que disso desfrutem todos os demais" ( Hegel , cálculo utilit á rio de consequê ncias, regulam e limitam as pró prias pai -
1973 , p. 129 -30 ) .
37
36
I deseja, sem qualquer consideraçã o ao que seus desejos possam ser ”
xões, de modo a não ameaçarem seus interesses prá ticos. A sociedade (Wicksteed , 1913, p. 258). Para neutralizar essa consequê ncia , imagi-
é o próprio mercado amplificado. Os valores humanos tornam se - nou ele um tipo de economia subordinada a “ considerações é ticas”
valores económicos, no sentido moderno, e todos os fins tê m a mesma
categoria . Em ú ltima an álise , como veremos, a dicotomia entre valores
(Wicksteed , 1913, p. 260), porque “ a sanidade dos desejos dos ho -
mens é mais importante do que a abundâ ncia de seus meios de con -
e fatos só é v álida quando a total inclusão do homem na sociedade é -
cretizá los ” ( Wicksteed , 1913, p. 260). É opinião dele , també m , que
tida como coisa natural .
Al é m disso, numa sociedade de mercado, a preocupação com a
“ o mercado n ão nos diz , de nenhuma forma fecunda, quais são as ne
cessidades nacionais, sociais ou coletivas, ou os meios de satisfação de
-
maté ria como o estofo de que são feitas as coisas tem preval ê ncia , ou uma comunidade, porque ele só nos pode dar somas” ( Wicksteed ,
chega mesmo a excluir o interesse pela natureza delas, ou pelos seus 1913, p. 260). Em consequê ncia, afirma ele que “ as leis econ ómicas
fins intr í nsecos. O mercado é cego para os fins intr í nsecos das coisas e
as considera , tanto quanto os pró prios indiv íduos, convertidos em for-
n ão devem ser procuradas e não podem ser encontradas no campo pro
priamente econ ómico” ( Wicksteed , 1913, p. 260). O lament á vel é que
-
ça do trabalho, como “ dados” , ou seja , como fatores de produ ção. Em uma compreensão t ão criteriosa da natureza do mercado n ão tenha ,
^
consequê ncia as disciplinas contemporâ neas, como a economia, que
aceitam como indiscut ível a sociedade centrada no mercado, t ê m que
ser isentas d è conceitos de valor e exclusivamente interessadas em fa-
até agora , se constitu ído num conjunto conceptual coerente , bastante
convincente para substituir o modelo formal de pensamento ainda do-
minante no milieu convencional da profissão econ ómica em particular,
tos. Nessas disciplinas est á inferida a asserção de que valores são, sim - e da ciê ncia social em geral .
plesm è nte , aspectos da subjetividade humana . Devem ser considera -
dos, na melhor das hipó teses, como qualidades ex ógenas ou secund á - 2.4 A ciência social como uma ideologia serialista
rias das coisas , n ão como propriedades delas. Assim sendo, n ão podem
ser objeto de avaliação cognitiva . Do ponto de vista anal ítico, afirma - A noção de que a hist ó ria revela seu significado através de uma
ções cognitivas e normativas tomam-se ent ão mutuamente excluden -
tes. É interessante notar que tal dicotomização se reflete nos interesses sé rie de est ágios emp írico-temporais é comum ao acad ê mico liberal
da pesquisa , mesmo no contexto dos principais departamentos de de tipo padrão, tanto quanto aos te óricos marxistas e neomarxistas.
ciê ncia social neste pa ís, em nossos dias. Contido nessa noção comum , está um conceito de tempo peculiar ao
Iluminismo, e que continua a prevalecer nas formas ocidentais con -
O poder de previsão da ciê ncia social formal isenta de conceitos tempor â neas de pensamento. Nos escritos dos ep ígonos do Iluminis-
de valor precisa , realmente , ser reconhecido, mas devemos compreen - mo, o tempo em que supostamente a natureza humana se atualiza é es-
der que esse poder só existe na medida em que o c í rculo de causali- sencialmente serializado. Através de distintos graus qualitativos de
dade , ligando o mercado e a conformidade de comportamento do atualização que correspondem a diferentes degraus existentes numa es-
indiv íduo a esse mercado, permanece sem perturbação. No entanto, pé cie ascendente e seriada de tempo, a natureza humana muda sua
no momento em que tal conformidade , por motivos que escapam ao estrutura . Alé m disso, nessa perspcctiva iluminista , existe um momen -
â mbito desta análise , é pass ível de questionamento, como acontece em to hist órico culminante , em que a natureza humana alcan ça seu est á -
nossos dias, surge uma resistê ncia psicol ógica , dirigida contra a din â mi- gio final e perfeito.
ca desordenada de uma sociedade centrada no mercado. Essa resist ê n - Sem d ú vida , a visão serialista da existê ncia humana na hist ó ria
cia enfraquece o poder de previsão da ciê ncia social formal isenta de tem implicações comparativas diacrònicas e sincr ônicas. Quando ava-
conceitos de valor, porque a pessoa tende a se transformar num ser liada em comparação com a estrutura que supostamente deve alcan -
mais do que totalmente socializado. Tal resist ê ncia desencadeia uma ç ar em sua fase culminante , a exist ê ncia humana , em per íodos hist ó ri-
tendê ncia normativa de pensamento, do qual a teoria substantiva de cos anteriores, é considerada imperfeita. E , na medida em que nem to-
vida humana associada é por assim dizer uma articula ção inicial . das as sociedades contemporâneas tenham atingido simultaneamente o
Deixado à sua pró pria din â mica , o sistema de mercado trabalha mesmo grau de progresso, a exist ê ncia humana nessas sociedades me-
contra a constituição da vida humana associada , entendida como uma nos desenvolvidas, que caminham atrás das mais avan çadas ou mesmo
comunidade de homens e mulheres. Esse fato tem mesmo sido admiti- historicamente em fase terminal , é també m , necessariamente , imper -
do pelos pró prios economistas. Por exemplo, em 1913, Phillip H .
Wicksteed des - reveu o “ mundo industrial ” como uma “ organização
feita. Por exemplo, a noção de Terceiro Mundo reflete a visão serialis
ta da hist ó ria de hoje , já que pressupõe o segundo e o primeiro.
-
destinada a ti insmudar aquilo que cada homem tem naquilo que ele
39
38
liana , marxismo e neomarxismo, e como as diferentes combinações
Sob a influ ê ncia do crité rio serialista do Iluminismo, vá rios auto- — —
dessas tendê ncias com fenomenologia e ou existencialismo.
res imaginaram ter compreendido os padrões de acordo com os quais a Do ponto de vista dos crité rios comparativos dessas tendências
hist ó ria se desenrola. Por exemplo, Condorcet , Turgot e Saint Simon - ó .
de pensamento, tais como, por exemplo, vari á veis de padrão e está -
sentiram se compelidos a desvendar os est ágios necessá rios da hist ria
- gios de desenvolvimento, as diferentes sociedades do mundo contem -
A ciê ncia social contempor â nea é um rebento do clima intelectua l de porâ neo est ão classificadas em fila indiana , apontando na direção da
que esses autores são representantes. Na Riqueza das na çõ es , por chamada sociedade avan ç ada , ou esclarecida. Na realidade , tais crit é-
exemplo , onde é apresentado o corpo conceptua l da economia pol í ti- rios são armadilhas epistemol ógicas e ideologias disfarç adas, que fo-
ca , Adam Smith reinterpreta a hist ó ria , descreven do a sociedade co - mentam uma errada compreensã o dessas sociedades e que as desviam
mercial como sua fase culminante . Auguste Comte e Karl Marx empre - de seu imperativo cr í tico de auto- reconstrução. As pol íticas emanadas
enderam esforços semelhantes . V ê em em suas pr ó prias
,
é pocas
como a
a imi
idade
- desses crité rios funcionam , na prá tica , no sentido da escalada da oci -
nente culminação da hist ó ria , definida , respectiva mente dentalização do mundo todo. Um dos resultados desse processo, em
positiva e a sociedade socialista . que estão presas as chamadas nações do Terceiro Mundo, é a degrada-
Hoje , a disposição serialista continua a ser caracter ística da ção de suas estruturas internas. O sentimento de privação relativa , que
cien - contamina de modo especial os setores intermediá rios dessas nações, é
ciê ncia spcial , e toma -se evidente na maneira segundo a qual os
tistas sociais focalizam temas como mudan ça social , est á gios sociais , um dos fatores primordiais a lhes dificultar a auto- reconstru ção. A so-
modernização , desenvolvimento , pó s -
industrial ismo , sociedade indus - lu ção do problema criado por tal sentimento é conceituada por via da
trial desenvolvida e socialismo. categoria serializada do desenvolvimentismo, em sua interpretação pa-
contem- dronizada , ou na interpretação marxista . Essa mentalidade adventista ,
Esses termos têm sido solapados pelos acontecimentos mais do que a escassez de recursos, constitui o obst á culo fundamental
o industrial ismo , o mal social
porâ neos, tais como o desencanto com recursos limi - à auto-articulação cultural , pol ítica e econ ómica dessas nações. Para
e a exaust ã o de
caracter ístico das sociedades avan ç adas poderem superar essa cilada , toma se imperativa a ruptura com a ideo-
-
,
tados e poluição do meio -
ambiente . Em consequ ê ncia , tornaram -se logia social do Ocidente.
revisionis ta . Por exemplo , reagindo a es-
objeto de crescente literatura es-
sas circunstâncias, alguns teó ricos empreenderam um
desajeitad o Pode-se concluir que tal ruptura é imperativa , se devem as cha -
desenvolv imento de madas nações subdesenvolvidas encontrar uma sa ída do processo a que
forço para libertar as noções de modernização e
seu engaste hist ó rico. Na verdade , a noção de modernizaçã o d á origem foram conduzidas. Mas o ponto que desejo salientar aqui é que os ter-
a tantas perguntas desconcertantes, que está a ponto de ser abolida ão
da mos dessa ruptura n ão podem ser encontrados através de nenhuma re-
linguagem dos cientistas sociais formais. Numeroso s escritores est modelação da ideologia serialista do Ocidente. E esse rompimento pro-
agora tentando reconceituar desenvolvimento, não como significan
do vavelmente n ão ocorrerá a menos que os povos sejam ativados para
o aumento irrestrito do PNB mas, essencialm ente , como uma indica - construir imediatamente , partindo daquilo que já t ê m , uma sociedade
humano e , sobretudo , como racional , entendida em termos substantivos e despojada das atuais
r ão da melhoria qualitativa do ambiente
o fa- conotações serialistas e futuristas. O começ o e o fim da histó ria n ão se
processo de equalização social e económica. Impressionados com
to de que sucessivos programa s de moderniz a çã o e desenvol vimento , constituem de categorias serialistas. Em vez disso, seu significado é
implementados no Terceiro Mundo, n ão lhe alteraram a
situação de apreendido através de compactas experiê ncias de tempo. Antes do mo-
dependê ncia, no arcabou ç o atual da divis ã o internacio nal de trabalho, derno per íodo ocidental , foram elas experimentadas como imediata -
alguns neomarxistas alegam post hoc que tais programas foram
sempre mente presentes a qualquer sociedade , mediante a pró pria autocom -
arquitetados para servir a propósitos imperialistas. —
preensão como um microcosmo e ordenaram com frequê ncia a vida
das pessoas. No passado, como presentemente , poré m , apenas sob do-
Por significativas que essas opiniões certamente sejam , como si - minação hegemónica sucumbem , afinal , as sociedades à disposição se-
nais do colapso da modernidade e do desenvolvimento, contudo n ão rialista constitutiva da privação relativa , e essa condição episódica da
apreendem a quest ão, quer dizer, os representantes dessa corrente natureza humana n ão deve ser entendida como a pr ó pria natureza hu -
n ão encararam, com agudeza, a atitude serialista da mentalidade mana. (Outras considerações sobre o conceito de tempo e suas impli-
adventista e os alicerces pseudote ó ricos do tipo padrão de teoria social ca ções relativamente aos sistemas sociais serão apresentadas no cap í-
formal. Contir uam ainda enredados na metaideologia desse tipo,
de
tulo 8.)
mentalidade d sfarç ada como funcionalismo estrutural , dial é tica hege-
41
40
Rompimentos foram empreendidos, no passado, por povos afli - declaração é significativamente citada por W. Heisenberg, num ensaio
tos e subjugados, como , por exemplo, quando Abrahão deixou Ur e em que tenta conciliar Copé rnico, Galileu , Newton e a ci ê ncia f ísica
Moisés deixou o Egito. 17 Nesses casos, a arrancada foi precedida de em geral com a tradição cl ássica. Ele vê a trajetória hist órica da f ísi -
um movimento horizontal no espaço histórico (ou ocorreu simulta- ca n ão como algo radicalmente descont í nuo em rela ção à tradição
neamente a ele ). Mas no arcabou ço planetá rio institucional de nossos cl ássica, mas como uma “ hist ória de conceitos” ( Heisenberg, 1975,
dias, n ão há mais perspectiva para um êxodo no sentido horizontal . Se p. 56 ), como crescente diferenciação do conhecimento das estruturas
uma ruptura hist órica tiver que acontecer em nosso tempo, terá que est á veis da realidade. Equipara as constru ções matem á ticas aos arqu é-
assumir o cará ter sem precedente de um puro ê xodo em compacto tipos de Platão (Heisenberg , 1975, p. 55). Uma tonalidade platónica
tempo vertical , isto é , através de uma mudan ç a no í ntimo das pessoas, ainda mais forte é caracter ística da vis ão de Eddington sobre os fen ô-
em sua orientação relativamente à realidade e nos crité rios de percep- menos f ísicos. Para ele , a solidez que o olho “ n ão educado” vê na
çâo e definição de suas necessidades e desejos. A imagem retórica das natureza exterior é ilusó ria ou “ obscura ” , e a pr ó pria ciê ncia nada
cortinas, associada com os experimentos sovié tico e chinês, pode ser mais é que um tipo simbólico de conhecimento da realidade ( Edding -
um ind ício de que , no presente , as pessoas ainda podem ser mobiliza- ton , 1974 , p. XV- XVI1 e 318).
das para tentar um rompimento, embora essas experiê ncias comunistas A ciê ncia social formal , particularmente em sua convic ção beha-
possam por certo ser consideradas malogradas, uma vez que n ão v ão viorista , é cient ística no sentido já elaborado. Seu conte ú do tenden -
al é m da disposição serialista da ideologia do Ocidente. Se é hoje viá vel cioso tem sido objeto de v á rios estudos cr í ticos recentes, todos eles
um êxodo genu íno do Ocidente , é assunto para um tipo de discussão sugerindo que a funcionalização de sua linguagem e sua orientação
que ultrapassa o alcance desta an álise. centrada em m é todo acabam por converter a ciê ncia social em uma
forma disfarçada de ideologia e tecnologia. A ilustração desse julga-
2.5 Da ciê ncia social cient ística mento será apresentada aqui atrav és de breve apreciação da noção
behaviorista da ordem pol í tica e dos crité rios nacionais de comparação.
A teoria social formal é cient ística , isto é , parte da premissa de A ciê ncia pol í tica formal é apolí tica, no sentido de que perde
que a correta compreensão da realidade só pode ser articulada segundo completamente de vista a distin ção qualitativa entre a vida pol í tica e a
o modelo da linguagem técnica da ciê ncia natural . Sob esse enfoque, a vida social . Na realidade , equipara gregariedade social à ordem pol í ti -
realidade é reduzida apenas àquilo que pode ser operacionalmente veri- ca , e o resultado dessa confusão é a abolição do elemento pol í tico da
ficado. A pró pria ciência social cient ística é produto de uma posição vida humana associada. Por exemplo, é alega ção de David Easton que
serialista em relação à realidade. a sociedade “ é a unidade social mais abrangente que conhecemos” .19
Um bom argumento contra a ciê ncia cient ística n ã o subestima a
- Ele desenvolve ainda mais essa opinião, como se segue:
import ância das quest ões operacionais. Alega , simplesmente, que mé
todo e t écnica n ão s ão padrões de verdade e de adequado conhecimen-
to cient ífico. As conclusões da ciê ncia cient ística podem , eventual - “ A atividade pol ítica é vital numa sociedade. Mas também o são a
atividade econ ó mica, a estrutura social e coisas que tais. Uma socie -
m é nte , ser validadas , embora devesse ser frisado que as mesmas se res- dade tem numerosos aspectos e é improvável que os homens consigam
tringem a um n ível de realidade cujos limites precisam ser reconheci- -
realizar seus propósitos sem providenciarem para que haja bens e servi
dos. Considerar essa forma de conhecimento como o paradigma do sa- ços, por exemplo, assim como a competente alocação das coisas valori-
ber em todos os dom ínios da realidade é precisamente aquilo que zadas. Marx , ao que parece , defendeu o primado da economia, alguns
Whitehead chamou de “ fal ácia da concretidade mal locada ” . cientistas sociais insistiram no dom í nio da cultura, ou da personalida-
É certo que os cientistas naturais n ão partilham , necessariamen -
de e motivação. O fato é que, no n ível geral da vida societá ria, cada
te , da premissa da ciê ncia cient ística . Einstein , por exemplo, parece
uma das grandes á reas da atividade humana contribui com a sua paite,
que evita se permitir o puro cientismo. N ã o é por acaso que afirmou num processo totalmente interativo. A pol ítica penetra a totalidade da
que “ é ... teoria * que decide aquilo que pode ser observado” . Essa
18
vida , mas o mesmo fazem a economia , a cultura , a motivação e o res-
to. Uma interpretação multicausal , interativa da sociedade, parece
Sobre importantes avan ços histó ricos, veja Vocgelin (1968 .
)
*7
* N . do A . E n ão um metodo . 19 Apud Miller, Eugene F. David Easton’s political theory . The Political Scien -
is Veja Heisenberg ( 1975 , p. 56 ).
ce Reviewer , Autumn , 1971 .
42 43
mais ú til à compreensão da maneira segundo a qual ela opera do que quanto esta persistir em ser uma faceta da ideologia adventista se-
uma que insista em algum tipo de primazia , imediata, de um ou outro rialista .
aspecto social. Podemos admitir que , empiricamente, em determinadas Aparentemente, a ciê ncia pol í tica formal descartou a noção de

horas e lugares, um ou outro aspecto da sociedade o pol ítico, o eco- um bom sistema de governo como uma legítima preocupação teórica.

n ómico, o cultural , o psicol ógico ou o estrutural pode , realmente ,
adquirir um significado seletivo, por motivos especiais. Mas é dif ícil
Todavia , e precisamente quando são considerados seus crité rios
comparativos, a teoria formal envolve , disfarçadamente , a idé ia de que
imaginar um tipo de sociedade em que cada um dos aspectos mencio- o bom e o melhor são representados por s ímbolos como progresso,
nados n ão pudesse ser encarado como ‘formativo', em algum sentido bem-estar, industrialização e pelo aparelhamento institucional que ha-
importante ” ( Easton , 1973, p. 294 ). bilita as sociedades a alcan çarem essas metas. Por exemplo, na lingua
gem cibern é tica atualmente em voga, o sistema de governo é definido
-
A afirmação de Easton é representativa da confusão reinante en - como um sistema mecanom ó rfico, e o estadista como seu operador
tre os teóricos pol íticos formais. Partilhando de sua idéia de que o ele
mento pol í tico pertence ao mesmo n ível do econ ómico e do social , es-
- ( Deutsch , 1966, p. 182-5). Sob esse aspecto, é-se levado a admitir que
a exatid ão do conhecimento pol í tico depende, sobretudo, da qualida -
ses te ó ricos equiparam a ordem pol í tica ao controle da vida gregá ria, de e da quantidade da informação dispon ível. E se , como foi estima -
independentemente da natureza de seus princ ípios normativos. Para do , o montante de informação atualmente necessá rio para o acurado
eles, a ordem pol ítica existe numa sociedade enquanto a mesma tem a conhecimento pol í tico iria requerer milhões de cart ões padronizados
capacidade institucional de induzir os cidad ãos a acatarem os respecti - da IBM ,21 falando em termos prá ticos , temos que aos computadores,
vos padrões, ou de articular e agregar interesses rivais , e assim persistir e n ão a seres humanos, deveria ser atribu ído o papel decisivo de diri -
numa condição est á vel . Coerente com essa visão puramente operacio- gir os governos contemporâneos.
nal da ordem pol ítica, um autor sente-se seguro para dizer que n ão Pode ser bastante verdadeiro que a direção dos governos indus-
“ considera . . . regimes autorit á rios que come çaram a caminhar na dire- triais desenvolvidos possa de fato repousar em crité rios quantitativos
ção do progresso e do bem -estar. . . normativamente inferiores aos de- ( Deutsch , 1966 ), de preferê ncia a crit é rios normativos é ticos. No en -
mocrá ticos e desenvolvidos” ( Almond , 1973, p. 268). Assim , os s ím - tanto , atribuir um car á ter paradigm á tico à condição desses sistemas de
bolos representativos de um precá rio per íodo histórico, tais como governo equivale a legitimar a marcha cega da hist ória da humanidade.
“ progresso” , “ desenvolvimento” , “ bem-estar ” e entidades institucio- Semelhante abordagem em termos de informa ção ( Deutsch , 1966,
nais episódicas, são eles pr ó prios transformados em crit é rios de avalia
ção da realidade pol í tica em seu conjunto. 20 Nessa disposição, uma
- p. 145-62) congela grosseiramente o atual poder de configuração do
mundo e, finalmente , interpreta a dicotomia entre desenvolvido e
nova á rea de estudo, a formação de instituições ( institution building ), subdesenvolvido como um julgamento é tico, hist órico, quando na ver-
destinada ao Terceiro Mundo pelo quartel-general dos acadê micos oci - dade a mesma existe no sentimento que as pessoas t ê m de relativa sa -
dentais, foi recentemente concebida , no pressuposto de que ( al esfor
ç o requer apenas per ícia operacional .
- tisfação e de privação relativas , mais do que nas possibilidades concre-
tas de seus contextos.
N ão constitui surpresa perceber que a teoria pol í tica formal se
vê minada pelos acontecimentos contemporâ neos, que revelam a pre-
cariedade hist ó rica de seus crité rios. Seus conceitos de ordem pol í ti- 2.6 Conclusão
ca e de desenvolvimento pol í tico, despojados de dimensões expl íci
tas, substantivas e é ticas, provaram ser t ão teoricamente inconsistentes
- Toda teoria da organização existente pressupõe uma ciê ncia so-
que o cará ter ideol ógico dessa disciplina mal pode escapar à aten ção. cial da mesma natureza epistemológica . A contrapartida da atual teo-
Essa situação cr í tica n ão é , de forma alguma , peculiar apenas à ciê ncia ria da organiza ção é a ciê ncia social formal . A contrapartida da nova
pol í tica. É caracter ística de todo o campo da ciê ncia social formal , en - ciê ncia da organização é a ciê ncia social substantiva. Neste cap í tulo foi
apresentada uma breve caracterização desses dois tipos de ciê ncia so-
20 Sob o predom ínio de tal orientação , n ão é surpreendente encontraras seguin -
tes afirma ções num importante tratado de teoria pol ítica : “ ‘O que é bom para a 21 Esta afirmação foi extra ída de Sartori ( 1970 ). Escreve ele :
General Motors é bom para o pa ís* conté m , pelo menos , uma verdade parcial . * 0 .
“ Há alguns anos atrá s Kail Deutsch predisse que por volta dc 1975 as exigê ncias
que é bom para a presidê ncia é bom para o pa ís ’ conté m , no entanto, uma verda - de informação da ciência pol ítica seriam atendidas pelo ‘equivalente a uns 50
de maior . . . O poder da presid ência é identificado com o bem da comunidade po- milhões [de cartões IBM ] . . .e a um crescimento anual bruto de talvez uns 5 mi-
l í tica ** ( Huntington , 1968 , p . 26 ) . lhões . * Considero a estimativa assustadora . . .’ * (Sartori , 1970 , p . 1.035 -6 ) .

44 (3
cial . Eu deveria salientar , poré m , que embora em diferentes passagens Barker , Ernest . The Political thought of Plato and Aristotle. New
do cap í tulo a teoria cl ássica tenha sido utilizada para ilustrar a distin-
York , Dover Publications, 1959.
ção, os pressupostos fundamentais de uma teoria substantiva da vida
Bryson , Gladys. Man and society. The Scottish inquiry of the eigh -
teenth century . Princeton , New York , Princeton University Press,
humana associada são derivados do exerc ício de um senso da realidade 1945.
comum a todos os indiv íduos, em todos os tempos e em todos os luga- Clark, J .M . Alternative to serfdom . New York , Vintage Books, 1960.
res. Há uma heran ça de pensamento humano que transcende a teoria
cl á ssica em seu mais estrito senso, e que est á ativa e operante nas men -
Colletti, Lucio. From Rousseau to Lenin , studies in ideology and so -
ciety . New York , Monthly Review Press, 1972.
tes de v á rios estudiosos contempor â neos, sensíveis ao car á ter precá rio Cook , Scott . The Obsolete anti - market mentality : a critique of the
da idade moderna. Tal sensitividade , poré m , falta , ou é latente , nos
representantes das ci ê ncias sociais formais. A disposição caracter ística
substantive approach to economic anthropology . American Anthropo -
logist , (58 ) 1966.
da idade moderna reflete uma premissa não articulada sobre a nature- Cropsey , Joseph . Polity and economy , an interpretation of the princi -
za humana , a de que a pró pria natureza humana é um dado hist ó rico. .
ples of Adam Smith Haia , Martinus Nijhoff , 1957.
É evidente , portanto , que a ciê ncia social formal nunca poderá alcan -
Dalton , George , cd . Primitive , archaic and modern economies. Boston ,
çar o n ível de uma teoria verdadeiramente cr í tica. Na realidade, nem a Massachusetts, Essays of Karl Polanyi . Beacon Press, 1971.
hist ó ria; nem a sociedade, pode criticar a si mesma , porque o instru -
*

Daly , Herman E., ed . Toward a steady-state economy . San Francisco,


mento de medida para essa cr ítica n ão se conté m em nenhuma de suas W . H . Freeman , 1973.
episódicas configura ções. Ao contrá rio, o instrumento de medida é um Deutsch , K . W . The Nerves of government . New York , The Free Press,
componente das estruturas b ásicas da natureza humana , que se atuali - 1960.
za diferentemente em diferentes culturas e per íodos. A história é um Dijksterhuis , E .J . The Mechanization of the world picture . Oxford ,
simpósio permanente , intelig ível , no qual todas as gera ções se com - Oxford University Press , 1909.
preendem umas às outras. Mas n ão é a pró pria hist ória que nos permi- Easton , David . Systems analysis and the classical critics. The Political
te sermos intelig íveis e inteligentes. Antes, é a razão, em sentido subs- Science Reviewer , Autumn 1973.
tantivo, que capacita os seres humanos a compreenderem as variedades Flynn , Frederick E . Wealth and money in the economic philosophy of
hist ó ricas da condição humana .
St. Thomas . Notre Dame , Indiana , University of Notre Dame Press,
Há um c í rculo vicioso ligando a ciê ncia social formal à disposi - 1942.
ção moderna , cuja sedu ção continua a ser t ão eficaz que a maioria das
pessoas toma, de fato, decisões sobre si mesmas e sobre os problemas Galbraith , J . K . Economics as a system of belief . American Economic
Review , May , 1970.
sociais de acordo, acima de tudo, com os pressupostos caracter ísticos
dessa disposição. A ofuscação do senso comum pela disposição mo- Georgescu - Roegen , Nicholas ( 1975 ). The Entropy law and the econo-
derna constitui a essê ncia daquilo que me proponho chamar de síndro- mic problem . In . Daly , 1973.
me comportamentalista , cuja discussão anal í tica será empreendida no Eddington , Arthur . The Nature of the physical world . Ann Arbor ,
éapí tulò 3. A identificação dessa síndrome como uma deformação, Michigan , The University of Michigan Press , 1974.
mais do que como s ú mula da natureza humana , é essencial para que Hegel , G .W.F. Philosophy of right , trad , com anot. T.M . Knox. New
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48
49
na racionalidade funcional ou na estimativa utilitá ria das consequê n-
cias, uma capacidade - como assinalou corretamente Hobbes - que
o ser humano tem em comum com os outros animais. Sua categoria
mais importante é a conveniê ncia. Em consequê ncia, o comportamen -
to é desprovido de conte ú do é tico de validade geral . É um tipo de con -
duta mecanomó rfica , ditada por imperativos exteriores. Pode ser ava-
liado como funcional ou efetivo e inclui-se , completamente, num
mundo determinado apenas por causas eficientes.
Em contraposição, a ação é pró pria de um agente que delibera
3. A S Í NDROME COMPORTAMENTALISTA sobre coisas porque est á consciente de suas finalidades intr í nsecas. Pe- 1
r

lo reconhecimento dessas finalidades, a ação constitui uma forma é ti -


ca de conduta . A eficiê ncia social e organizacional é uma dimensão in -
A teoria organizacional em voga n ão consegue proporcionar uma cidental e n ão fundamental da ação humana. Os seres humanos são le-
cõmpreensão exata da complexidade da an á lise e desenho dos sistemas vados a agir , a tomar decisões e a fazer escolhas, porque causas finais
sociais e essa falha resulta , em grande parte , de seus alicerces psicol ógi - - e não apenas causas eficientes - influem no mundo em geral. Assim ,
^
cos. Portanto, o desenvolvimento de uma nova ciê ncia das organiza - a ação baseia -se na estimativa utilit á ria das consequê ncias, quando
muito, apenas por acidente.
ções exige uma explicação anal í tica dessa base psicol ógica . Antes de
dar in ício a essa tarefa , diversas considerações preliminares fazem se - Antes de passar à identificação e ao exame dos alicerces psicol ó-
oportunas. gicos da teoria de organização existente , são oportunas mais algumas
Primeiro, as organizações são sistemas cognitivos; os membros considerações preliminares. O ponto seguinte a ser esclarecido é a ori-
de uma organização em geral assimilam , interiormente , tais sistemas e gem lingu ística do termo comportamento e sua rela ção com a tend ê n -
assim , sem saberem , tornam-se pensadores inconscientes. Mas o pensa- cia penetrante da síndrome comportamentalista. Em seguida , será sa-
mento organizacional pode mesmo passar a ser consciente e sistem á ti- lientado que a s í ndrome comportamentalista surgiu como consequê n -
co , quando articulado de maneira fundamentalista . Esse tipo de pensa- cia de um esforço hist ó rico sem precedentes para modelar uma ordem
mento é caracter ístico de teóricos, que articulam o sistema cognitivo social de acordo com crit é rios de economicidade. Finalmente , será
inerente a um tipo particular de organização como sendo um sistema dada certa consideração aos conceitos de bom homem e de boa socie-
normativo e cognitivo geral . dade, na medida em que ambos influem na compreensão do conceito
A maior parte daquilo que é usualmente denominado teoria da da s í ndrome comportamentalista .
organização é desprovida de rigor cient ífico e é , antes, tautologia dis- N ão é por acidente que , no mundo ocidental , comportamento
farç ada ou , quando muito, disfar çado pensamento organizacional , pen - só recentemente passou a ser voc á bulo de uma língua franca , indicado-
samento que aceita , por seu valor aparente, os crit é rios inerentes à or- ra dos padrões de relacionamentos adultos interpessoais. A palavra
ganização, e é , ele mesmo, subproduto do pró prio processo organiza- nunca foi usada na linguagem ( inglesa ) erudita antes do sé culo XV. De
cional . Considera como normais e naturais os requisitos organizacio- acordo com os dicionaristas, começ ou a ter aceitação lingu ística por
nais tal como, por acaso, são encontrados sobrepondo-se à conduta volta de 1490 e significava conformidade a ordens e costumes ditados
humana como um todo. Em contraposição, uma teoria da organiza ção pelas conveniê ncias exteriores. Mesmo em nossos dias, a palavra n ão
verdadeira e cient ífica tem seus pró prios crit é rios, isto é , crit é rios que perdeu seu significado original. Comportamento continua sendo uma
n ão são, necessariamente, id ê nticos aos da efici ê ncia social e organiza- categoria de reconhecimento da conformidade, fato que é geralmente
cional . Uma teoria cient ífica da organização n ão se baseia em sistemas negligenciado, porque a conformidade a crit é rios de gregarismo social-
cognitivos inerentes a qualquer tipo de organização existente, mas an - mente estabelecidos foi transformada em padrões de moralidade hu -
tes faz a avaliação das organizações em termos da compreensão da
conduta geralmente adequada a seres humanos, levando em considera-
mana em geral. Homens e mulheres já não vivem mais em comunida -
des onde um senso comum substantivo determina o curso de suas
ção tanto requisitos substantivos como funcionais. ações. Pertencem, em vez disso, a sociedades em que fazem pouco
Segundo , propõe-se aqui uma distin ção entre comportamento e
ação. para esclarecer o reducionismo psicológico da atual teoria de or-
mais alé m de responder a persuasões organizadas. O indiv íduo tor -
nou -se uma criatura que se comporta .
ganização. O comportamento é uma forma de conduta que se baseia
51
50 ABLIOTBCA CENTRAL
PUCRS
i
A sí ndrome comportamentalista é uma disposição socialmente Concluindo estas considerações preliminares, volto-me agora pa-
condicionada , que afeta a vida das pessoas quando estas confundem as ra uma discussão anal í tica de quatro traços principais da sí ndrome
regras e normas de operação peculiares a sistemas sociais episódicos comportamentalista : a ) a fluidez da individualidade ; b ) o perspectivis-
com regras e normas de sua conduta como um todo. mo; c ) o formalismo; d ) o operacionalismo. Serão indicadas as cone-
A síndrome comportamentalista , isto é , a ofuscação do senso x ões entre esses traços e a mentalidade imposta pelo mercado.

^ pessoal de crit é rios adequados de modo geral à conduta humana , tor-


nou -se uma caracter ística b ásica das sociedades industriais contempo-
râ neas.
Essas sociedades constituem a culminação de uma experiê ncia
3.1 A fluidez da individualidade

A “ individualidade fluida'’ é uma expressão usada por Arnold


hist ó rica , a esta altura já velha de três séculos , que tenta criar um tipo Hauser em seu estudo do maneirismo, est á gio inicial da arte moderna .
nunca visto de vida humana associada , ordenada e sancionada pelos
, Assinala Hauser que a individualidade fluida e outras caracter ísticas
-
processos auto reguladores do mercado. A experiê ncia foi bem -sucedi-
da, certamente que bem demais. N ão apenas o mercado e seu car á ter
dos artistas maneiristas anteciparam a tend ê ncia que , séculos mais tar -
de , se transformou numa s í ndrome psicol ógica das sociedades capita -
utilit á rio tornaram-se forças hist ó ricas e sociais inteiramente abrangen - listas. Hauser destaca Montaigne como um escritor tipicamente manei -
tes; em suas formas institucionalizadas em larga escala , mas també m
demonstraram ser altamente convenientes para a escalada e a explo-
rista e como um dos melhores exemplos da individualidade fluida . In
terpreta o fil ósofo francês como afirmando que a avaliação das coisas
-
ração dos processos da natureza e para a maximização da inventiva e não tem base permanente e que “ nada é bom ou mau em si mesmo"
das capacidades humanas de produ ção. No entanto, através de todo ( Hauser, 1965, p. 49). Criados pelo homem , os valores n ão são “ per-
esse experimento, o indiv íduo ilusoriamente ganhou melhora material pé tuos, imutá veis e inequ ívocos .. . a natureza humana é fraca e in -
em sua vida e pagou por ela com a perda do senso pessoal de
auto-orientação. A isen ção do mercado da regulação pol í tica deu ori-
constante , num estado de eterno fluxo, suspensa entre diferentes esta -
dos, inclinações, disposi ções , porque est á em cont í nua transição .. . e
gem a um tipo de vida humana associada ordenada apenas pela intera- sua verdadeira natureza n ão est á na perman ê ncia , mas na mudan ç a "
ção dos interesses individuais ( para a autopreservação), ou seja , uma ( Hauser, 1965 , p . 49). Assim escreve Montaigne , significativamente ,
sociedade em que o puro cálculo das consequê ncias substitui o senso em seu Ensaios:
comum do ser humano.
Como expliquei no cap í tulo 2, é impró prio considerar como “ N ão retrato o ser ; retrato aquilo que passa . .. Se minha mente pudes-
ciê ncia social formal aquela que se baseia na noção comportamental se encontrar uma base firme , eu n ão escreveria ensaios, tomaria de -
do ser humano. Essa chamada ciência equipara a natureza humana às
caracter ísticas de um certo tipo de sociedade que é , ela pr ó pria , um
cisões, mas ela est á sempre aprendendo e experimentando" ( Mon
taigne , 1975, p . 611 ).
-
mero acidente na hist ó ria . Essa ciê ncia trata de socialização, de acul -
turação e de motivação como se os padrões do bem fossem inerentes Sustento que a fluidez da individualidade n ão pode ser inteira -
a uma tal sociedade.1 Em vez disso, deve ser compreendido que todas mente explicada sem que se vincule esse fen ô meno à forma de repre-
as sociedades são menos do que boas; apenas o ser humano, eventual
mente , merece ser caracterizado como bom. 0 bom homem , por sua
- sentação através da qual as sociedades capitalistas legitimam -se a si
mesmas. Impl ícito nas variadas formas de representação caracter ísti-
\ vez, nunca é um ser inteiramente socializado; é, antes, um ator sob cas de sociedades medievais , bem como de antigas sociedades e de nu -
tensão, cedendo ou resistindo aos est í mulos sociais, com base em seu merosas sociedades contempor âneas n ão-ocidentais, est á o pressuposto
senso é tico. Na verdade, os processos n ão regulados do mercado jamais de que o universo, em seu conjunto, constitui uma ordem coerente e
podem gerar uma boa sociedade. Tal sociedade só pode resultar das que a pró pria comunidade humana é parte dessa ordem . Cada uma
deliberações de seus membros em busca da configuração é tica, subs- dessas sociedades se imagina como cont ínua, porém precá ria , represen -
tantiva , de sua vida associada. tação da ordem cósmica , num mundo de hist ória e de mudança. Aqui-
lo que o problema da representação acarreta para tais sociedades é o
i Assim , como diz Reichenbach , a é tica serviria apenas para “ informar nos
- que h á de verdade na exist ê ncia delas. A fonte de sua auto- interpreta -
sobre maté ria de fato. Esse c o tipo de uma é tica descritiva , que nos informa
sobre os h á bitos morais de vários povos e classes sociais; essa é tica é uma parte ção é o paradigma meta- hist órico que oferece adequado ponto de re -
-
da sociologia , mas n ão é de natureza normativa ” ( Reichenbach , 1959 , p. 276 7 ). ferê ncia , como uma estrutura normativa para a conduta humana em

52 53

/
geral . 2 Como a hist ó ria do mundo e as mudan ças circunstanciais sola-
pam, continuamente , a consciê ncia que o indiv íduo tem desse para- vá cuo meta - hist ó rico , n ão dispõe o indiv í duo do piso firme necessá rio
digma , essas sociedades promovem , de vez em quando, cerim ónias de para que sua identidade se desenvolva. Ele é , antes , compelido a en -
autopurificação e de restauração do senso comum dos fundamentos frentar processos e mudan ç as que constituem derivativos de um movi -
meta- hist ó ricos. Em tais sociedades, os indiv íduos encontram base fir- mento auto-induzido e indefinido do agregado social . O homem mo-
me para o desenvolvimento de suas identidades, e h á padrões para derno é o tolo enganado por uma fé mal colocada . Como declara a
muitos papé is e para muitas vocações, mas esses padrões proporcio- B í blia , para os crentes a f é é a esperan ç a das coisas que, embora n ã o
nam os meios para a expressão da identidade individual. vistas , est ã o continuamente afetando o universo e dando significado
Nas sociedades modernas, a representação é um processo pura- ao curso dos acontecimentos. Mas, sem dispor de ra ízes meta-hist ó ri -
mente sociom ó rfico; já n ão é mais uma legitimação da verdade da exis - cas e metassociais, a mente leiga moderna transpôs, mais do que eli -
tê ncia comuna] sobre fundamentos meta - hist ó ricos. É, antes, uma minou , seus artigos de fé : agora ela acredita na m ão invis ível da
exigê ncia para a pacificação negociada entre os indiv íduos, para habi - sociedade.
Pode ser deduzida uma certa epistemologia dessa condi ção, de
lif á -los a acomodar seus interesses pessoais . 3 A sociedade moderna n ão
se reconhece como miniatura de um cosmos maior, mas como um con - acordo com a qual os processos e as mudan ças tê m que ser explicados
trato amplo entre seres humanos.4 Assim , a conduta humana se con - como ativados exclusivamente por causas eficientes. Essa , ali ás, é a
-
forma a crit é rios utilit á rios que, a seu turno, estimulam a fluidez da in - epistemologia em que se apó ia a ci ê ncia social convencional . Na lin
guagem que prevalece nessa ciê ncia , expressões como orientação para
dividualidade . Na verdade, o homem moderno é uma fluida criatura
calculista , que se comporta , esscncialmente , de acordo com regras o processo e orientação para a mudança determinam a fé errónea na
objetivas de conveniê ncia. absoluta transitoriedade das coisas. Tal compreensão de processos e
Não é por acidente que Hobbes, que é a fonte de maior autori- mudan ças é defeituosa e unilateral , por raz ões l ógicas que indicarei ,
dade em relação ao moderno conceito de representação, concebe o in - deduzidas das investigações filosóficas de Alfred North Whitehead .
div íduo como um seguidor de regras. Para ele , bom e mau são simples Um dos muitos m é ritos da filosofia de organismo de Whitehead
denominações, cujos significados estabelecem -se convencionalmente. é a elucidaçã o do conceito de processo. Reconhece ele como v álida a
No conceito de representa ção consistente com esse ponto de vista , a intuiçã o de Herá clito de que todas as coisas fluem. Mas considera mais
imparcialidade substitui a verdade. A sociedade é um sistema de re - adequado falar do Jluxo das coisas, uma vez que todo fluxo é fluxo de
alguma coisa ( Whitehead , 1969 , p. 240 ). O fluxo das coisas é a concre -
gras de uma determinada espé cie. Se o indiv íduo acede em tomar par -
te nele , reconhece que sua conduta est á limitada à ó rbita de um con - tização de seus padrões imanentes e , portanto, resulta inteiramente de
causas eficientes e finais. O fluxo das coisas é objetivamente condicio-
trato. O bom cidad ão obedece a prescrições extemamente derivadas.
A verdadeira ação é estranha a suas transações com as outras pessoas. nado pelos dados constitutivos do mundo determinado e també m pela
Ele só é capaz de ter comportamento. experiê ncia particular de suas finalidades. N ão existe fluxo indefinido
O fen ômeno caracterizado por Hauser como a fluidez da indivi - do nada para o nada . Para ser exato, as coisas tornam-se algo seletiva -
dualidade é peculiar á sociedade moderna e constitui uma das princi - mente , finitamente . Um tornar -se algo n ão-seletivo, indefinido, é in
conceb ível . As coisas são processos finitos e “ epocais” . Perecem como
-
pais facetas da síndrome comportamentalista. Na sociedade moderna ,
n ão se supõe que o estado dos negócios cotidianos do mundo seja ve - processos, embora sejam perpé tuas como padr ões. Numa s íntese ,
rificado segundo um paradigma de ordem cósmica. Em tal situação de Whitehead apresenta sua id é ia de fluxo, como se segue :
2 Sobre representação e seus fundamentos meta -histó ricos , veja Voegelin ” Há dois princ í pios inerentes à própria natureza das coisas, que apa-
( 1952 ) eEliadc ( 1959 ) .
recem sempre em algumas corporificações particulares, seja qual for
3 Hirschman ( 1977 ) trata da quest ão dos interesses , na forma pela qual se
relacionam com o surgimento do capitalismo .
o campo que explorarmos — o esp írito de mudanç a e o esp írito de
conservação . Nada pode ser real sem ambos. A mera mudança sem con -
4 L . von Stein assinala , corretamente , que a sociedade moderna é constitu ída servação é uma passagem do nada para o nada . A mera conserva ção
quando a “ organização da vida econó mica se transforma na ordem da comuni - sem mudan ç a n ão pode conservar . Porque, afinal de contas, h á um flu -
dade humana * ( von Stein , 1964 , p . 47 ) . Consequentemente , “ a pcrcepção dos
1
xo de circunst â ncia e a frescura de ser se evapora sob a mera repetição.
[ interesses] regula todas as atividades extr ínsecas . . . está sempre presente e viva O car á ter da realidade existente é composto de organismos perduran -
em cada indiv íduo , determinando sua posição social ” ( von Stein , 1964 , p . 55 ) . do através do fluxo das coisas” ( Whitehead , 1967, p. 201 ).
54
55
Whitehead esclarece, em essência , que dissociada da categoria ser 3.2 Perspèçírvismo
é imposs ível conceber a categoria de passar ou mudarx
-
Pode se perguntar o que foi que, na hist ó ria moderna , gerou o Em cortseq úê ncia , numa visão flu ídica , com a interpretação da |
sentimento generalizado da permanente transitoriedade de todas as sociedade como um sistema de regras contratadas, o indiv íduo é leva -
coisas, t ão bem articulado por Montaigne. Uma parte da resposta é da - do a compreender que tanto a sua conduta quanto a conduta dos ou -
da pelo conceito de natureza caracter ístico da ciê ncia moderna, a par - -
tros é afetada por uma perspectiva. Toma se um perspectivista . É cer-
tir do século XVII . Em ú ltima an álise , a ciê ncia moderna vê a natureza to que a perspectiva é sempre um ingrediente da conduta humana, em
como part ículas de mat é ria em movimento, e representa os valores co - qualquer sociedade. Mas somente na sociedade moderna é que o indi -
mo advent ícios, em rela ção à natureza . No dom í nio da vida cotidiana , v íduo adquire a consciê ncia desse fato. Essa sociedade gera um tipo
essa visã o filtra-se como um sentimento de uma permanente e sem peculiar de conduta , que merece ser referida como comportamento , e
propósito transitoriedade das coisas. Reduzidas a part ículas de mat é ria para comportar-se bem , ent ão, o homem só tem que levar em conta as
em movimento, são elas concebidas como providas de uma tolerâ ncia conveni ê ncias exteriores, os pontos de vista alheios e os propósitos em
infinita para a mudança . Se valores e propósitos n ão podem ser consi - jogo.
derados como inerentes às pr ó prias coisas, estas est ão fadadas a se en
cadearem num mundo em infinita progressão. Nesse mundo n ão há
- Ao discutir o crescente destaque do perspectivismo como um as -
um tomar -se algo , visto como o processo das coisas n ão pode ser ava - pecto fundamental do alicerce psicol ógico da teoria de organização
liado independentemente do pressuposto de que as mesmas são dota - que ora prevalece , será ú til fornecer alguns antecedentes hist óricos do
das de experiê ncias privadas de realidade, ou de finalidades pr ó prias. termo. A perspectiva , como dimensão da expressão humana , transfor-
A quest ão admite, també m, outra resposta parcial. O sentimento -
mou se num termo t écnico , primeiro no dom í nio da pintura . Na reali -
dc transitoriedade das coisas, permanente e sem propósito, é uma con - dade , todos os estilos de pintura se caracterizaram por uma certa pers-
- -
sequê ncia da interioriza ção acr í tica , pelo indiv íduo , da auto represen pectiva . Mas somente na fase final da Idade M é dia come ç ou a perspec -
A ta ção da sociedade moderna , que se define como um prec á rio contrato -
tiva a constituir objeto da aten ção do pintor. Giotto ( I 2767 1337? ) já
admite que aquilo que o artista oferece numa tela n ã o é uma có pia da
entre indiv íduos que maximizam a utilidade, na busca da felicidade
pessoal , entendida como uma busca de satisfação de uma intermin á vel natureza , mas a natureza de acordo com os olhos do pintor. Mais tarde
sucessão de desejos. Para al é m das fronteiras sociais, n ão há significa - Petrarca ( 1304 -74 ) repetiria Giotto em sua m á xima : “ Cada um de -
ção para esse esforço. Uma vez que , em consequê ncia de seu cará ter veria escrever seu próprio ertilo.” Foi , poré m , Leon Battista Alberti
competitivo, o mundo social como um todo se torna estranho ao ho- ( 1404 - 72 ) quem teve a percepção das leis da perspectiva como um
- objeto de investiga ção cient í fica formal . Subseq ú entemente, na estei-
mem , este tenta superar sua alienação, seja anulando se através da pas -
siva conformidade a papé is que prevalecem aqui e ali , ou recolhen - -
ra da revolu ção comercial e industrial , a perspectiva deveria tornar se.
- cada vez mais , uma categoria sistem á tica de trabalho art ístico, assim
do se dentro de si mesmo, afirmando assim uma identidade demasia - como uma caracter ística da conduta humana em geral .
damente consciente de si mesma . Mas já que o centro ordenador de
sua vida n ão est á em parte alguma , sua identidade é de sua pr ópria
No século XVI , florescia na It á lia um mercado de arte . O que as
criação. Essa forma de cultivo da individualidade acaba em narcisis -
mo. 5 A psicologia , ela pró pria esquecida de tudo que possa transcen - pessoas de gosto compram , num tal mercado, é , preferentemente , a vi
são pessoal dos artistas. O elemento pessoal torna -se a marca registrada
-
der as persuasões sociais que agem sobre a psique humana , vem em au - das obras de arte e a apreciação dessas obras requer uma certa inicia -
x ílio do indiv í duo. A nossa é uma era de remendagem psicol ógica. Nas
cl í nicas psicol ógicas , o indiv íduo que se isolou da realidade é encora - ção nas maneiras peculiares aos artistas. Os historiadores destacam ,
convincentemente , o maneirismo como a caracter ística básica da arte
-
jado a lan çar se à procura da própria individualidade, mas é discut ível
naquele século , quando o connoisseur encontra , pela primeira vez, a
que essa procura possa jamais ter sucesso, num mundo ordenado de
oportunidade de ganhar sua vida nos centros art ísticos da It á lia. É ele
acordo com regras contratuais de agregação social de interesses com - um comerciante e um corretor , entre os artistas e seus afei ç oados, e os
petitivos. Quando a condição humana é presumida como apenas so - artistas já percebem que trabalhaip para um mercado. O conceito da
cial , a fluidez da individualidade é inevit ável .
propriedade intelectual , desconhecido na Idade M é dia , é agora reco-
5 Sobre este ponto , veja Hauscr ( 1965 ) e Lowenthal ( 1968). nhecido. O artista é um empresá rio , habilitado a reclamar direitos de

56 57
nados como expressões leg í timas da conduta humana. Dessa forma,
propriedade sobre seus trabalhos, que pode ou n ã o vender ao p ú blico, louva atos deploráveis para o senso comum. O pr íncipe n ão deveria
de acordo com o preço do mercado.6 considerar seu dever a pr á tica de qualidades “ consideradas boas” , por -
No entanto, nessa é poca , o perspectivismo n ã o est á confinado que elas podem resultar na sua “ destruição” . H á qualidades “ que pa -
aos meios art ísticos. Constitui uma feição da vida di á ria de um n ú me - recem v ícios mas que, se ele as pratica , lhe poder ão trazer segurança
ro crescente de pessoas, envolvidas em atividades propiciadas pelo e bem-estar ” ( Maquiavel, 1965, p. 59). É certo que “ todo mundo” ,
emergente sistema de mercado. Na realidade, o mercado é a força diz ele , “ admitir á que seria muito louvá vel que um pr íncipe exibisse
subjacente , geradora da visão perspectivista da vida humana associa- [ as ] qualidades... consideradas boas. .. Mas nenhum governante po-
- -
da. Poder se ia dizer que Maquiavel encontra nas condições que preva - de possu í-las, ou praticá-las inteiramente , por causa de condições hu -
lecem em seu tempo a inspiração para elaborar sua teoria pol í tica. 7 manas que tal n ão permitem ” ( Maquiavel , 1965, p. 58). Os ensina -
O perspectivismo permeia o pensamento de Maquiavel e um mentos de Maquiavel significam que n ão apenas os pr í ncipes, mas
exemplo disso é a analogia usada por ele na dedicat ória d'0 Príncipe a igualmente os homens comuns, têm o direito de pô r de lado os pa-
Lquren ço de Mediei . A dedicat ó ria em si é um recurso de conveniê n - drões morais das boas ações, na perseguição dos interesses pessoais.
Ele é , na verdade , um dos primeiros pensadores modernos que com -
cia, servindo à sua inten çã o de obter vantagens pessoais com sua adula -
ção do prí ncipe. Mas o que deve ser salientado é a caracterização, que preenderam os padr ões motivadores imanentes a uma sociedade cen
trada no mercado. Tais padr ões em geral e o perspectivismo em par -
-
Maquiaveí faz , da forma correta de estudar a arte de governar. Ele
compara os estudiosos da pol í tica com “ aqueles que desenham os ma - ticular tornaram -se os padrões normativos da conduta humana.
pas dos pa íses” . E explica: eles “ se colocam bem embaixo, na plan ície,
'

para observar a natureza das montanhas e dos lugares elevados, e para


-
observar a dos lugares baixos colocam se bem no alto das montanhas. 3.3 Formalismo
Da mesma forma , para poder discernir claramente a natureza do povo,
o observador precisa ser um pr í ncipe e para discernir a dos pr í ncipes, O formalismo é um terceiro aspecto dos fundamentos psicol ógi -
tem que fazer parte da populaça ” ( Maquiavel , 1965, p. 10- 1 ). Ma - cos que inspiram a atual teoria de organização. É uma caracter ística da
quiavel recorre a essa met áfora perspectivista a fim de declarar que o conduta humana que se tomou externamente orientada . O termo é ge-
estudo da pol í tica requer uma integra ção dos pontos de vista tanto do ralmente empregado pelos historiadores da arte , incluindo Arnold
pr í ncipe quanto do povo. Para usar a terminologia de Mannheim , Ma - Hauser, para descrever uma caracter ística psicol ógica particular da so-
quiavel já é um “ relacionalista ” completo e acabado. Seu relacionalis - ciedade ocidental , no in ício de seu per íodo capitalista. O formalismo
mo, poré m , n ão se preocupa com a verdade , mesmo em sentido relati - ainda é ú til , hoje em dia , como uma categoria explicativa da conduta
humana . Na realidade, tomou -se um traço normal da vida cotidiana ,
-
vo. Preocupa se , essencialmente, com a conveni ê ncia. O pr í ncipe preci - nas sociedades centradas no mercado, onde a observâ ncia das regras
sa ser instru ído sobre a perspectiva do governante para preservar e
aumentar os seus bens. Precisa compreender a perspectiva do cidadão substitui a preocupação pelos padrões é ticos substantivos. Exposto a
um mundo infiltrado de relativismo moral , o indiv íduo egocê ntrico
comum para engan á - lo. O pr í ncipe precisa ter sensibilidade para os im - sente-se alienado da realidade e, para superar essa aliena ção, entrega -se
perativos cê nicos, isto é , ser virtuoso por fingimento e capaz de indu - a tipos formalistas de comportamento, isto é, sujeita -se aos imperati -
zir os cidad ãos a serens bons atrav és do sá bio exerc ício da crueldade.
Maquiavel distorce sistematicamente a linguagem teó rica por vos externos segundo os quais é produzida a vida social . Torna -se um
maneirista . De fato, o maneirismo é a disposição psicol ógica exigida
-
despojá la de qualquer subst ância é tica , prá tica em que Hobbes mais
por um tipo de pol í tica divorciada do interesse pelo bem comum , por
tarde seria soberbo. Por exemplo , com Maquiavel a prudê ncia ganha
um tipo de economia unicamente interessada em valores de troca , e
uma conotaçã o desconhecida . Sua id é ia de prud ê ncia é vazia de con - por uma ci ê ncia , em geral , essencialmente definida por m é todo e por
te ú do é tico. A prud ê ncia é mero c álculo de consequê ncias , uma habi -
praxes operacionais.
lidade a serviç o dos interesses. É ele o fundador de uma “ teoria pol í -
tica de interesse” ( Wolin , 1960, p. 233), na qual “ crueldade ” , “ em - * O comportamento é uma manifestação do maneirismo e é intei -
buste ” , “ logro” , “ usura ” , “ guerra ” , “ assassí nio em massa ” são sancio- ramente capturado pelos crité rios incidentais da arena p ú blica. Seu
* Sobre o mercado art ístico na It á lia c o surgimento da arte moderna , veja von -
significado exaure se em sua aparê ncia perante os outros. Sua recom -
Martin ( 1944 ). pensa est á no pró prio reconhecimento como adequado, correto, justo.
.
7 Sobre o “ momento maquiavé lico" veja Pocock ( 1975 ).
59
58
rença como uma caracter ística de conduta recomend ável , um persona-
Seu sujeito n áo é uma individualidade consistente, mas uma criatura gem do O Cortesão declara que:
fluida, pronta a desempenhar papéis convenientes.
Uma criteriosa visão da natureza da s índrome comportamenta-
lista pode ser extra ída da cuidadosa leitura de dois documentos manei-
“ independentemente de ser uma fonte real de graciosidade, [ a indi-
ferença ] traz consigo outra vantagem. É que , seja qual for a ação
ristas , O cortesão, de autoria de Baldesar Castiglione, publicado em que acompanhe , não importa qu ão trivial , ela n ão só demonstra a
1528, e Teoria dos sentimentos morais , de Adam Smith, publicado em habilidade da pessoa que a pratica, mas també m , muitas vezes, faz
1756. Uma vez que tais documentos são especialmente reveladores, com que a mesma seja considerada bem mais importante do que real -
n ão apenas quanto à s í ndrome do comportamento em geral mas em mente é. E isso porque leva os observadores a crer que um homem que
rela ção ao formalismo em particular , serão eles analisados nas páginas age bem com tanta facilidade deve ser possuidor de uma habilidade
seguintes.
ainda maior do que a que de fato tem , e que se quisesse se dar a maio-
As cortes sempre existiram sob uma forma qualquer , atrav és da res trabalhos e esforços, poderia fazer as coisas melhor ainda ” ( Casti-
hist ria. Mas a corte, tal como apareceu na It ália, na Espanha, na
ó glione , 1976 , p. 70).
França e em outros pa íses europeus, nas fases iniciais do capitalismo,
foi um fenômeno hist ó rico especial. Mais do que nunca anteriormente, Através do livro todo, Castiglione sugere que a ú nica recom -
a corte era ent ão o centro da vida associada que tudo abrangia. Era a pensa da boa conduta é o louvor p ú blico. Para ele, n ão h á a boa con -
arena em que regularmente se encontravam os atores importantes da duta por si só e, em consequê ncia, um dos tipos que criou aconselha o
vida pú blica. Nada , nos dom ínios da religi ão, da pol í tica , da econo - cortesã o a “ prestar atenção ao lugar e à pessoa em cuja presen ç a
mia , do militar , do art ístico, ou em outros dom í nios da vida p ú blica , estiver ” e a “ regalar os olhos daqueles que o estiverem olhando” (Cas-
conquistava car á ter normativo, gerJ , sem ser primeiro filtrado pela tiglione, 1976 , p. 116 ). Num per íodo posterior da sociedade ocidental ,
corte. Uma vez que a corte influ ía decisivamente sobre os negócios a arena p ú blica transcender á a corte e transformar-se-á na pr ópria
-
humanos do dia - a dia , as maneiras predominantes entre os que eram sociedade. As regras predominantes de comportamento social transfor-
-
admitidos em seu c í rculo transformavam se em normas de boa condu - mar-se-ão em regras de boa conduta em geral.
ta em geral . Pela pró pria identificação com tais maneiras, sem atitude A este ponto da an álise , a explicação da natureza do formalismo
cr í tica, Castiglione transforma historicamente crité rios precá rios em pode ser extra ída da afirmação de Arist óteles, de que “ um homem é
crit é rios de boa conduta humana . É exatamente essa identifica ção que destinado à associação pol í tica , num n ível superior à quele em que as
constitui o tra ço essencial do behaviorismo . abelhas ou outros animais gregários jamais poder ão estar associados”
-
É de assinalar se que Castiglione se coloca , a si pró prio, na com- ( Arist ó teles, Política /, 1.253a , § 10). Em conson â ncia com essa afir-
panhia de Cícero, que també m é um autor de vá rios panfletos sobre mação, salientou ele també m que um bom homem n ão é , necessaria-
normas de conduta humana . Mas se algué m ler cuidadosamente o De mente , um bom cidadão. O que é enfatizado por Arist ó teles é o fato
Officiis de Cícero, por exemplo, perceber á que o escritor romano de que o bom homem é, sobretudo, guiado pelo que se qualifica aqui
nunca se rendeu à atração episódica do puramente palaciano. Cícero como razão substantiva , comum a todos os homens, em qualquer mo-
-
preocupa se basicamente com aquilo que é bom de modo geral , alé m mento e em qualquer lugar, e que n ão deve ser considerada coinciden -
de quaisquer circunst â ncias episódicas. Assim é que escreve: “ Muito te com padrões particulares de qualquer sociedade determinada. Em
embora [ a ] excelê ncia moral [ de uma conduta humana ] n ão seja de seu Teoria dos sentimentos morais, poré m , Adam Smith torce o antigo
modo geral enaltecida , ainda assim é digna de respeito ; e, por sua pró - significado de razão, com o objetivo de harmonizar o termo com crit é-
pria natureza, merece louvor , muito embora n ão seja louvada por nin - rios de economicidade , e a substitui pelo sentimento individual de
gué m” (C ícero, 1975, p. 17). gregarismo. Escreve ele:
Em contraposição, Castiglione está basicamente interessado na
aprovação social. Assim sendo, descreve o comportamento palaciano "... embora a razão seja , indubitavelmente , a fonte das regras gerais
como um padrão geral de conduta humana. Seu livro n ão é um tratado de moralidade , e de todos os julgamentos morais que formamos atra-
sobre educação, como a Repú blica, de Platão, e o De Officiis, de Cíce- vés delas, é de todo absurdo e incompreens ível supor que as per
cepções iniciais do certo e do errado possam ser derivadas da raz ão. ..
-
ro, autores que Castiglione apregoa estar imitando, mas apresenta uma
metodologia requerida para a conquista da boa reputação, um tratado Essas primeiras percepções, da mesma forma que todos os outros
sobre a gerência das impressões. Por exemplo, falando sobre a indife - experimentos em que se fundamentam quaisquer regras gerais, n ão

60 61
podem ser objeto da raz ão, mas de imediato senso e sentimento... A cimento. Esta ú ltima resposta constitui a essê ncia daquilo que aqui é
razão, apenas, não pode tornar qualquer objeto particular , por si rotulado de operacionalismo.
mesmo, agrad á vel ou desagrad á vel à mente ” (Smith , 1976, p. 506). Parece prudente , no entanto, qualificar o operacionalismo
entendido dessa forma como operacionalismo positivista, para que
Na opini ão de Adam Smith, assim como na de todos aqueles que ningu é m interprete este item como insinuando que os crité rios de rigo-
afirmam que a moralidade é compat ível com a pró pria socialidade, o roso racioc í nio são irrelevantes em todos os campos de estudo, exceto
indiv í duo é deixado sem um piso firme, metassocial , para a responsá- a f ísica. Ao contrá rio, onde quer que a articulação do pensamento n ão
vel determinação do car á ter é tico de sua conduta. O homem n ão age , encontre crité rios de exatid ão, não existe sabedoria. É por isso que
propriamente, mas comporta-se , isto é, é inclinado a conformar-se
com as regras eventuais da aprovação social. Em consequê ncia, a edu -
-
n ão é f á cil para uma pessoa empenhar se numa conversação no terreno
da metaf ísica , da é tica , da est é tica , sem dominar os respectivos padrões
cação n ão visa desenvolver o potencial do indiv íduo para tornar- se um espec íficos de pensamento e de esclarecimento das maté rias. Por
bom homem, no sentido aristot é lico. “ O grande segredo da educação ” , exemplo, aquilo que é conceituado como forma na metaf ísica , como
declara Smith , “ é dirigir a vaidade a objetos adequados” (Smith , 1976, virtude na moral , como beleza na est é tica , n ão é dado à percepção
p. *417). A correção da conduta humana est á em sua mera forma , n ão humana da mesma forma que tamanho, forma , extensão e n ú mero de
em seu conte ú do intr í nseco. O indiv íduo deveria colocar-se diante de
um “ espelho, atravé s do qual [ele ] possa . .. com os olhos das outras
-
objetos. N ão obstante, pode se argumentar , legitimamente, que imagi -
nar as coisas como formas objetivas é um requisito para a apreensão de
pessoas, examinar a propriedade da [ sua ] pró pria conduta ” (Smith, sua natureza concreta . Justamente por isso, os julgamentos que dizem
1976 , p. 206 ). Nã o há , assim , discord ância essencial entre Castiglione que um indiv íduo é bom e que uma obra de arte é bela significam que
e Adam Smith , no que se refere ao m é todo adequado à determinação virtude e beleza são objetos reais de uma espécie determinada , n ão
de normas de conduta humana em geral. A ú nica diferen ç a entre eles é apreendida diretamente pela percepção sensorial imediata .
de natureza episódica. Para Castiglione , o espelho do homem é a corte.
Para Adam Smith , é a “ sociedade ” . Portanto, Teoria dos sentimentos Poder-se- ia considerar como representativo do operacionalismo
morais de Adam Smith , é equivalente ao livro de Castiglione, enquan
to ambos sucumbem ao fasc í nio do episódico , cujo modelo é transfor-
- positivista o argumento de P. W. Bridgman de que “ um conceito nada
mais é que um conjunto de opera ções” .8 G . Lundberg exprime sua
mado em um padr ão de conduta humana em geral. idé ia de operacionalismo afirmando que a “ receita de um bolo define
A legitimação de formas episódicas de conduta humana , de acor
do com seus precá rios princípios imanentes continua , até hoje , a ser
- o bolo” . 9 É poss ível que nem todos os operacionalistas positivistas
concordem literalmente com Bridgman e Lundberg , mas em geral
um postulado básico da ciê ncia do comportamento, “ objetiva” , “ livre todos eles partilham da doutrina esposada por ambos, de que apenas
de valores” . Ê, pois, compreens ível que os que contemporaneamente aquilo que pode ser fisicamente medido ou avaliado merece ser consi -
praticam a ciê ncia do comportamento se vejam, a si pró prios, como derado como conhecimento. Esta é uma das razões pelas quais, nos
estudiosos de processos, cuja forma , e n ão a subst ância, é o que impor- meios operacionalistas, a palavra metaf ísica é carregada de conotações
ta . Para essas pessoas, a s í ndrome comportamentalista é uma premissa, pejorativas. Dizer que uma afirmação é metaf ísica equivale a descart á- la
e question á- la n ão tem sentido. por n ão ter sentido.
O operacionalismo positivista pode ser considerado um traço da
s í ndrome comportamentalista . Em outras palavras, quem quer que
3.4 Operacionalismo adira ao operacionalismo positivista, fica preso aos limites de uma
peculiar tend ê ncia psicol ógica . Na an álise da psicologia do operaciona-

O operacionalismo, como é entendido atualmente, tenta respon -


í der à seguinte pergunta : Como avaliar o car á ter cognitivo de uma afir - lismo, é forçoso enfatizar duas de suas caracter ísticas principais.

<V .
mação? H á duas respostas básicas para esta pergunta , e uma delas admi
te a existê ncia de diversos tipos de conhecimento ( tal como o metaf í
sico , o é tico, o f ísico), cada um dos quais requerendo normas espec í
ficas de verificação. Todavia, há aqueles que alegam que apenas as nor
-
-
-
-
Primeiro, o operacionalismo positivista é permeado de uma
orientação controladora do mundo e , desse modo, induz o pesquisa-
dor a enfocar seus aspectos suscet íveis de controle. Tal caracter ística
decorre de pontos de referê ncia filosóficos e psicológicos.
mas inerentes ao mé todo de uma ciê ncia natural de caracter ísticas 8 Apud Sjoberg ( 1959 , p. 605 ).
matem á ticas são adequadas para a validação e a verificação do conhe - 9 Apud Sjoberg ( 1959 , p. 606 ).

62 63
Filosoficamente e , na realidade , metafisicamente, o operaciona- f ísica, a formulação te ó rica , na f ísica de hoje , é antes uma arte e
lismo positivista reflete a visão do universo inerente à f ísica clássica. obedece a regras esté ticas. 10
Por exemplo, Galileu insinou que aquilo que é real no mundo só pode Psicologicamente , a orientação controladora do mundo tem sido
ser considerado como extensão, espaço, massa , movimento e solidez. inerente ao operacionalismo positivista desde seu in ício hist ó rico, no
século XVII. Na f ísica , seus fundadores foram personalidades, como
Conseq úentemente , o aparelho conceptual para abordar a realidade Galilcu , que reagiam contra a orientação contemplativa, dominante e
tem que ser derivado, por força , da matem á tica. Na realidade, a mate - dogmá tica , dos pensadores medievais. Os pensadores modernos deseja -
má tica moderna leva em conta, na natureza, apenas aqueles aspectos vam que o mundo prá tico fosse o objeto mesmo da indagação cient í-
que podem ter expressão quantitativa. Em geral , os f ísicos clássicos fica. A refutação que Galileu fez da doutrina de Aristó teles sobre a
consideram esses aspectos como as ú nicas qualidades e declaram secun - queda dos corpos, mediante a experiê ncia a que procedeu na Torre de
dá rias ( isto é , invenções da imaginação) quaisquer outras qualidades Pisa, é exemplo de um caso em que a validação do conhecimento exige
que a mente conceba . Dessa forma , conceitos de alta ordem como mais do que racioc í nio silogístico.
aqueles que constituem a matem á tica moderna , determinam quais as
coisas do mundo que devem ser entendidas como reais ou irreais. Essa Na raiz do operacionalismo está o interesse em lidar com pro-
substituição do abstrato pelo concreto é precisamente aquilo que blemas prá ticos do mundo e esse interesse foi tomado expl ícito por
Whiteheà d identifica, com exatid ão, como a “ falácia da concretidade Francis Bacon em seu Novo órgão, onde afirma que “ conhecimento é
mal colocada” ( Whitehead , 1967, p. 51 ). poder ” . Coerente com essa orientação é a assertiva de Bacon , de que
“ aquilo que é o mais ú til na operação, é o mais verdadeiro no conhe
Hobbes aceitou a doutrina de Galileu e , de acordo com ela, cimento” ( Bacon , 1968, p. 122). É nesse sentido que o que deturpa o
-
desenvolveu sua noção de “ filosofia civil ” , expressão que abrange operacionalismo é sua identificação do útil com o verdadeiro. Utili
aquilo que é hoje conhecido como ciê ncia pol í tica e social . Assim é dade é uma noção cheia de ambiguidade é tica . Em si mesmo , aquilo -
que afirma ele que sentimentos como amor , benevol ê ncia , esperan ç a, que é ú til pode servir para ser tanto eticamente sadio quanto etica
aversão (simples movimentos da mente, induzidos por influê ncias mente errado no dom ínio social e, desse modo, o papel do operaciona
-
externas ), da mesma forma que a conduta humana em geral , “ devem lismo em ciê ncia social deveria ser eticamente qualificado. Isso é preci-
-
ser considerados do ponto de vista da f ísica” ( Hobbes, 1859, p. 72). samente o que Hobbes e os cientistas sociais convencionais, de modo
geral, deixam de fazer. Despojaram a utilidade de seu cará ter etica-
Hobbes afirmaria que a ciê ncia social é , necessariamente , f ísica social
mente amb íguo, legitimando como normas gerais aquilo que é ú til ao
de determinado tipo, e que o problema da ordem nos negócios huma-
sistema social para o controle dos seres humanos que dele participam.
nos só admite uma solu ção mecâ nica. Uma vez que as noções de bem e Ainda uma vez, é evidente a afinidade entre o operacionalismo e a sín
de mal , e todas as virtudes e sentimentos pertencentes ao dom í nio da
drome comportamentalista.
-
é tica, assumem o car á ter de qualidades secund á rias, o planejamento de
uma boa sociedade equivale ao planejamento de um sistema mecânico, Outra característica do operacionalismo positivista influi na sín-
em que os indiv íduos são engrenados, por instigações exteriores, para drome do comportamento: a recusa em reconhecer às causas finais
suportar as regras de conduta necessá rias para manutenção da estabi- qualquer papel na explicação do mundo f ísico e social. Sua inferê ncia
lidade desse sistema. é a de que as coisas são, simplesmente, resultados de causas eficientes,
sendo o mundo inteiro um encadeamento mecâ nico de antecedentes e
A ciê ncia do homem e da sociedade, de Hobbes, modelada consequentes. Essa conjectura é um componente sistem á tico da dou -
segundo a f ísica cl ássica, embora sob formas atenuadas, ainda tem
trina de Galileu , Newton , Laplace, e de todos aqueles que concebem a
influ ê ncia , hoje em dia, entre estudiosos e praticantes da ciê ncia do ciê ncia social como uma extensão da ciê ncia f ísica cl ássica. Uma vez
comportamento , da pesquisa operacional e de determinados tipos de que causa final é uma expressão que raramente aparece na linguagem
an álise de sistemas e planejamento. Na realidade , tais correntes est ão técnica atual, ningu ém , no contexto da presente an álise, pode servir
sobrevivendo ao decl í nio do tipo de ciê ncia f ísica de que são deriva- como exemplo melhor do que Hobbes, para sensibilizar o leitor
das. De fato, a f ísica de hoje tende a trabalhar com conceitos sem quanto às quest ões aqui em jogo.
representação vis ível , que n ão podem ser articulados como receitas, já
que ela nega à percepção sensorial um papel importante na formula ção 10 Mais amplo desenvolvimento
da teoria . Tendo reinstaurado o conceito do vir a ser como realidade
deste ponto ultrapassa os limites deste cap ítu
lo. Veja , n ào obstante, Capek ( 1961 ) e Leclerc ( 1972 ). -
64 65
Hobbes exprime a id éia de causalidade inferida pelo operaciona - mas n ão pode correr atravessado, porque as margens são impedimen
lismo positivista como se segue : tos’ ( Hobbes, 1840, p. 273-4 ). Portanto , o homem nunca age , pro-
!j< * ff ‘
; f; I I? .. 4 priamente , mas cede sempre às instigações exteriores, porque
sua
-
“ Uma causa final n ão tem lugar sen ão naquelas coisas que tê m senso .
“ vontade . . e cada uma das inclinações do homem ,
enquanto este
e vontade e isso també m provarei .. . ser causa eficiente ” ( Hobbes, delibera , são igualmente necessá rias, e dependem de uma causa sufi
1839, p. 132). ciente ( o que, em Hobbes, é o mesmo que causa eficiente ] , tanto-
quanto qualquer outra coisa , seja ela qual for ” ( Hobbes, 1840. p. 247)
Mesmo Deus n ão escapa ao peso da necessidade mecâ nica . “ Deus” , diz
.
N ão é de admirar que , para ser coerente com tal doutrina ,
Hobbes tenha sido levado a definir a raz ão como nada mais do que ele , “ n ão faz todas as coisas que pode fazer, se quiser ; mas que possa
cálculo de consequê ncias, no sentido mecâ nico. A qualificaçã o no querer aquilo que n ão tenha querido por toda a eternidade, isso eu
sentido mecânico é necessá ria aqui porque, no processo de atualiza - nego” ( Hobbes, 1841, p. 246 ). Na terminologia da presente an á lise,
ção, as coisas ficam , realmente , se acham sob a influ ê ncia de algum isso equivale a dizer que Deus e os seres humanos não agem. Podem
tipo de antecedentes e consequentes. Em seu processo de atualiza ção,
as coisas encontram dados que são suas causas eficientes, mas tais
-
apenas comportar -se . O mundo vai se desdobrando de acordo com um
esboço já estabelecido c para toda a eternidade. N ão existe criativida-
dados nâò constituem o ú nico agente determinante do processo das de no universo mecanom órfico de Hobbes.
coisas,.como alegam Hobbes e os operacionalistas positivistas em geral .
Por exemplo, Hobbes afirma , corajosamente , que “ nada começ a por 3.5 Conclunão
impulso pró prio, mas por forç a da ação de algum outro agente
exterior ” ( Hobbes, 1840, p. 274 ). Ele concebe o universo como uma
ordem mecânica , cuja compreensão requer um racioc í nio de natureza
Por impressionantes que se afigurem os traços básicos da síndro
me do comportamento, deve-se compreender que os mesmos n ão
-
matem á tica , um cálculo que consiste, essencialmente, em soma ou est ão afetando remotamente a vida das pessoas. Na realidade , consti
-
subtração. As descobertas da ciê ncia contemporâ nea mostram que essa tuem o credo n ão enunciado de instituições e organizações que funcio-
concepção de causalidade é insustent á vel. Por exemplo, a certeza na nam na sociedade centrada no mercado.
predição do processo das coisas é admitida como teoricamente poss í -
vel na idé ia mecanicista de causalidade , enquanto o princ í pio da incer-
Para ter condições de enfrentar os desafios de uma tal sociedade,
a maioria de seus membros interioriza a sí ndrome comportamentalista
teza , de Heisenberg, empiricamente provado, significa que as coisas e seus padrões cognitivos. Essa interioriza ção ocorre, geralmente , sem
têm seus fins próprios, que as dotam de certa capacidade de autodeter- ser notada pelo indiv í duo, e assim a síndrome comportamentalista
minação. Sã o, realmente , afetadas por antecedentes no sentido de que, transforma-se numa segunda natureza. A disciplina administrativa
n ão existindo abstratamente , t ê m que se apropriar dos dados forneci- padr ão , ela pró pria admitindo que os seres humanos são individualida
dos pelo mundo, mas tal apropriação n ão deve ser explicada como des fluidas, e capturada pelos pressupostos do perspectivismo, do
-
uma acomodação passiva a circunst â ncias externas; é um processo sele - formalismo e do operacionalismo, n ão pode ajudar o indiv íduo a supe
tivo , de exclusão e inclusão de dados, de acordo com os objetivos par - rar essa situação. Os cap í tulos 4 e 5 localizar ão duas consequê ncias -
ticulares das coisas. Na linguagem de Whitehead , as coisas est ão conti- decorrentes dessa servid ão da disciplina administrativa dominante, ou
nuamente fazendo a preensão de dados, na concretização de seus seja , a locação inapropriada de conceitos e a pol í tica cognitiva.
padrões intr í nsecos. Assim , a ciê ncia contemporâ nea restabelece a
causa final no dom ínio f ísico e social.
Hobbes compreendeu , corretamente , que n ã o se podia aceitar o BIBLIOGRAFIA
operacionalismo positivista sem reduzir o homem a uma espécie meca -
nom ó rfica de entidade. Assim , conscientemente , ele equipara a liber- Arist ó teles. Polí tica, trad ., publ. Ernest Barker. Oxford , Inglaterra ,
dade à necessidade. Em consequê ncia, aquela n ão deveria ser apenas Oxford University Press, 1972 .
atribu ída aos humanos, mas a todos os corpos. “ A liberdade” , diz ele,
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California, Pacific Books, 1968. missão espec ífica. Embora um relacionamento cruzado entre as disci
MachiaveUi , N . O Principe. In . Machiavelli , the chief works and others. .
plinas seja de modo geral , positivo e mesmo necessá rio à criatividade ,
-
trad . Allan Gilbert . North Carolina , Duke University Press , Durham , é hora de uma sé ria avaliação da condição desse campo, para que ele
1965. v. 1 não se transforme numa mera confusão de divagações abstratas,
Montaigne , Michel Eyquem de. The Complete essays of Montaigne . desprovidas de forç a e de direção. Toda disciplina deve ter um m í nimo
trad . D. M. Frame. Stanford , California , Stanford University Press, de intolerâ ncia em suas transa ções com as outras, ou perderá sua razão
1975. de ser. Ter identidade e car á ter é , num certo sentido, ser intolerante.
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Reichenbach , Hans. The Rise of scientific philosophy . Berkeley , Cali-
- -
chamo de colocação inapropriada misplacement de conceitos, está
descaracterizando a teoria da organização, e esta acabará mutilada, se
fornia , University of California Press , 1959. continuar se permitindo a prá tica de tomar emprestados a outras disci-
Sjoberg, G. Operationalism and social research . In : Gross, L., publ . plinas, incompetentemente , teorias, modelos e conceitos estranhos à
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Von Martin , Alfred. Sociology of the Renaissance. New York, Oxford b) do acaso de uma feliz descoberta ( serendipity); c ) da colocação
University Press, 1944. apropriada de conceitos.
Von Stein , Lorenz. The History of the social movement in France, N ão é minha inten ção investigar as complexidades da criativida-
-
1789 1850. Totowa , New Jersey , The Bedminster Press , 1964 . de conceptual . Basta dizer que um conceito resulta de um ato direto
. Process and reality . New York , The Free Press, 1969. de criação, quando nenhum antecedente dele é aparente , quando n ão
Whitehead , A . N . Science and the modern world . New York , The Free foi derivado sen ão da transação pessoal c direta entre a mente do pen
Press, 1967. sador e os traços peculiares do tó pico ou problema objeto de aten ção. -
Wolin , Sheldon S. Politics and vision. Boston , Massachusetts, Little , Assim , a acreditarmos em Cassirer, Montesquieu “ é o primeiro pensa
Brown , 1960. dor a apreender e a exprimir , claramente , o conceito dos tipos ideais”
-
(Cassirer , 1951 , p. 210). Com as caracter ísticas sistem á ticas que mais
tarde lhe foram atribu ídas por Max Weber , esse conceito trouxe uma
compreensão sem precedentes da natureza e do significado da pró pria

68 69
Em ciê ncia pol ítica , outra ilustração de deslocação de conceitos
formulação teó rica. A formação do conceito, poré m , resulta geralmen - é representada pela obra The Nerves of government , de Karl Deutsch.
te de uma feliz descoberta casual e da colocação apropriada de concei- A forç a principal desse livro est á na conceituação de t ó picos pol í ticos
do “ ponto de vista de comunicações ’ ( Deutsch , 1966, p. XXVIII ) -
1

tos, sendo a verdadeira e original criação conceptual mais rara do que


isto é , pelo recurso aos modelos cibern é ticos. No campo da teoria da
é ordinariamente admitido.
organização, o equivalente ao trabalho de Deutsch é , certamente,
Como explicou Robert Merton , ocorre serendipity quando “ um
achado inesperado e an ómalo estimula a curiosidade do investigador e
Social psychology of organizations, de Daniel Katz e Robert L. Kalin ,
no qual os principais temas e problemas de administração se entrela -
o [ conduz ] através de um atalho não premeditado, que [ leva ] a uma
hipótese nova ” ( Merton , 1967, p. 108). A feliz descoberta casual no
çam numa trama cibern é tica.
campo da organização é bem exemplificada pelos chamados Estudos
Hawthorne. O propósito original dessa pesquisa era a avaliação do -
4.2 A deslocação transforma se em colocação inapropriada
efeito da claridade na produção do trabalhador. Numa primeira tenta-
tiva , nenhuma relação importante foi encontrada entre as duas variá- Embora a deslocação de conceitos possa constituir um meio va-
veis. Esse resultado inesperado levou os pesquisadores a procederem a lioso , prof ícuo e leg í timo de formulação teó rica , pode muito facil-
uma coippleta investigação dos fatores da efici ê ncia , e o resultado mente degenerar numa colocação inapropriada de conceitos. A coloca-
disso foi a descoberta de que os sentimentos e as rela ções informais ção inapropriada de conceitos contamina , presentemente, o campo da
entre os empregados , da mesma forma que suas necessidades pessoais teoria organizacional , e ocorre quando a extensão de um modelo de
e condiçõ es sociais externas à organiza ção , t ê m influ ê ncia sistem á tica teoria ou conceito do fen ômeno a ao fen ómeno b n ão se justifica ,
-
sobre a produtividade. É poss ível dizer se que os esforç os despendidos
na avaliação e na discussão dos passos e dos resultados dos Estudos
após minuciosa an á lise , porque o fen ô meno b pertence a um contexto
peculiar, cujas caracter ísticas espec íficas só limitadamente correspon -
Hawthorne conduziram Fritz Roethlisberger e William J . Dickson a dem ao contexto do fen ômeno a. A pessoa expõe-se , com frequê ncia ,
uma incipiente formulação daquilo que é hoje conhecido como a an á- a colocar inapropriadamente conceitos, quando empreende o esforço
lise de sistemas. ( Essa raiz da an á lise de sistemas tem sido negligencia - da formulação te ó rica , e a raz ã o pela qual muitas vezes sucedem essas
da pelos que fazem a crónica desse campo.) “ injustificadas extensões de conceitos” é dada por Kaplan :
A colocação apropriada de conceitos pode proporcionar um “ Não h á duas coisas no mundo completamente iguais, de modo que
meio fecundo de obten ção de insight e pode mesmo levar à formula -
ção de uma lógica da descoberta. Por isso se esforç a Donald Schon, em
toda analogia , por mais estreita que seja , pode ser levada a um ex -
seu livro Displacement of concepts. * “ A emergê ncia de conceitos” ,
tremo exagerado ; por outro lado, n ão h á duas coisas que sejam com -
pletamente dessemelhantes, de modo que sempre é poss ível estabele-
afirma Schon , pode “ decorrer da deslocação de velhos conceitos para
novas situações” (Schon , 1963, p. 53). Ao deslocar um conceito,
cer uma analogia , se nos decidirmos a fazer isso. A quest ão a ser consi -
tenta -se compreender o inusitado em termos do familiar , ou o desco-
derada, em todos os casos, é se há ou n ão alguma coisa mais a apren -
der nessa analogia , se nos decidirmos a estabelecê - la ” ( Kaplan , 1964,
nhecido em termos do conhecido. V á rios exemplos podem ser citados, p. 266 ).
no estudo da pol í tica e da administração . Um exemplo de deslocação
de conceitos é encontrado no livro The Principles of organization, de Assim , na tentativa de deslocar um conceito, pode se estar en - -
James D. Mooney e Alan C. Reiley , autores que fizeram , explicita- trando “ numa possível cilada intelectual ” (Nagel , 1961 , p. 115 ),2 em
mente, o que outros, como Henri Fayo) , Frederick Taylor, Luther que a tentativa resulta na colocação inapropriada de um conceito.3
Gulick , fizeram implicitamente : deduziram dos modelos hist ó ricos 2 Veja Nagel , Emcst ( 1961 , p . 108 ). Nagel escreve : “ O que existe de similar en -
existentes diretrizes sistem á ticas para organização. Mooney e Reiley , tre o novo c o velho é , muitas vezes , apenas vagamente apreendido , sem ser cui -
apoiando-se sistematicamente numa l ógica de desloca ção, formularam dadosamente articulado . Alé m disso , pouca - se é que alguma - atenção é dada ,
princ í pios como o princ í pio escalar , o princ í pio funcional , o princ í pio cm geral , aos limites entre os quais é válida essa similitude . Sendo assim , quando
coordenativo e o princípio da equipe, tomando como paradigma de noções familiares são estendidas a assuntos novos , à base de similaridades n ão
analisadas , graves erros podem ser facilmente cometidos” ( Nagel , 1965 , p . 108 ) .
eficiência organizada ( Mooney e Reiley, 1939, p. 47 ) a Igreja e o
Exé rcito . 3 Sobre os enganos que Giovanni Sartori chama de ‘‘estiramento conceptual ” ,
veja Sartori ( 1970 ) .
i Veja Donald \ . Schon ( 1963 ) . Sobre desloca ção de conceitos como instru-
mento de inova ç ó tecnológica , veja Gordon , W . J . J . ( 1973 K 71
70
4.3 A ilusão da autenticidade corporativa
propósitos das organizações” .5 Essa observação é de particular perti-
Muitas tentativas para deslocar conceitos de outros campos para
nê ncia em relação àqueles que afirmam que é possível minimizar e
o campo da teoria organizacional produziram resultados diferentes dos mesmo eliminar a alienação, no contexto das organizações formais.
A literatura contempor ânea sobre alienação representa , em gran -
pretendidos. De modo geral , os conceitos são inapropriadamente colo-
cados na teoria da organização porque aqueles que praticam essa co-
de parte , um exemplo de colocação conceptual inapropriado, ou “ esti
ramento conceptual ” , para usar a linguagem de Sartori. Antes de
-
locação inapropriada n ão percebem que as organizações formais são
afetadas por v á rios tipos de socialidade, que possuem , por sua vez, di- Hegel e Marx , o assunto da alienação tinha um cará ter meta-hist ó rico
e religioso fundamental. Para superar seu infortú nio histórico, ou sua
ferentes graus de intensidade. Por exemplo, tomando o grau de inten - proscrição no mundo, esperava-se dos humanos que enfrentassem as
sidade do contato entre os indiv íduos como um ponto de referê ncia,
Gurvitch ( 1958, p. 176) estabelece a diferen ça entre massa , comunida - dimensões de sua condição, que eram essencialmente meta histó ricas
e metassociais. 6 Hegel e Marx reduziram essa proscrição, conceituada
-
de e comunh ão, como formas de socialidade. Muitos autores são leva -
dos a extrapolações injustificadas, exatamente na medida em que n ão como alienação, a uma condição puramente social , de forma a conce-
tomam conhecimento do fato de que o terceiro tipo de socialidade
comunh ão - tem a menor das fun ções estruturais no contexto das or
—- berem a desalienaçã o, a redenção ou emancipação do homem não co-
mo um acontecimento na vida individual, independentemente de
determinadas circunst âncias do mundo, mas como o resultado de um
ganizações formais. Exemplo t í pico desse erro é aquilo que tem sido
chamado de organizações autênticas. 4 certo est ágio do processo hist órico-social . Hegel e Marx colocaram ina -
No entanto, autenticidade corporativa é, em seus pr ó prios ter-
mos, uma contradição, já que a autenticidade é um atributo intr í nseco
propriadamente, eles pró prios, o velho tema e idé ia de alienação e

ou de proscrição.

do indiv í duo: n ão pode , jamais, ser conquistada definitivamente. A Todavia , pelo menos ambos tinham familiaridade com a milenar
existê ncia social corporativa constitui, normalmente , o alvo contra o herança de pensamento e de insights sobre alienação. Sabiam que, de
qual se lan ç a a autenticidade. Os momentos autê nticos da vida indivi- acordo com essa heran ça , a proscrição ou a aliena ção deveria ser con -
dual são precisamente aqueles em que os comportamentos corporati - siderada como uma quest ão essencialmente metaf ísica e religiosa. 7 O
intuito deles era deliberadamente polê mico: mostrar que a proscrição
vos est ão em suspenso. É por essa razão que a autenticidade é perigo-
sa . Viesse ela a se transformar num estado social corporativo firme , ou a alienação do homem poderia ser superada nos limites do dom í
nio da hist ória secular. Queriam dizer que, antes deles, os pensadores
-
como querem alguns, ent ão n ão haveria m é rito para os indiv íduos em
serem aut ê nticos, e o ser humano perderia o car á ter de um verdadeiro encaravam a alienação num n ível em que ela n ão se situava. Assim , su-
geriam que esses pensadores do passado eram culpados de colocação
eu , responsá vel por suas pró prias ações. De fato, essa posição deixa de
errada do conceito de alienação.
tomar em considera ção a inextricá vel tensão entre as dimensões subs-
É dif ícil , poré m , encontrar desculpas para a atual literatura
tantivas das pessoas e os requisitos funcionais da sociedade . Pressupõe
que a atualização pessoal pode ser equivalente à execu ção de ativida - behaviorista sobre alienação. De modo geral , a maioria de seus repre
sentantes parece esquecer os antecedentes hist óricos da quest ão. Mais
-
des funcionais. É verdade que , onde prevalece a comunh ão, existe uma
ainda , embora alguns desses representantes contemporâ neos se refiram
expressiva toler â ncia para a autenticidade , mas a comunh ão dificil -
a Marx (e raramente a Hegel) como fonte , seus estritos est ão realmen -
mente é poss í vel , dentro dos limites das organizações formais. Em ra -
te carregados de erradas interpretações do pensamento de Marx , para
zão de sua natureza , uma organização formal tem , normalmente , bai-
n ão mencionar seus antecedentes. Ao que parece, a intenção deles é a
xo grau de tolerâ ncia em relação à autenticidade individual , para aque-
les tipos de relacionamentos definidos por Martin Buber como Eu Tu. - operacionalização do pensamento de Marx , mas ao prosseguirem em
seus esforços n ão tomam conhecimento do arcabou ço macrossocial
5 Apud Means , Richard ( 1970 , p . 173 ) .
4.4 A alienação mal compreendida
6 O conceito dc distanciamento (ou alienação ) , como afirma Paul Tillich , cor-
A id ílica vibração que prevalece em muitas das atuais teorias no responde “ à quilo que no simbolismo religioso é denominado queda * *. Veja
campo da organização confirma a asserção de Saul Alinsky de que “ os Tillich ( 1968 , p. 419 ).
cientistas soc ú is muitas vezes parecem simpló rios, quanto aos usos e 7 Marx , por exemplo , diz : “ a teologia explica a origem
do mal através da queda
do homem ; quer dizer , afirma como fato hist órico aquilo que deveria explicar”
4 Veja , por exc iplo , Beatrice & Rome , Sydney ( 1967 , p . 181 ) . ( Marx , 1964 , p . 121 ).

72
73
em que apenas o conceito de alienação de Marx faz sentido. Por exem - sistema industrial , de acordo com Marx , é a propriedade privada dos
plo, num artigo amplamente citado, Melvin Seeman procura tornar o meios de produção , aspecto sistematicamente negligenciado por
significado de alienação “ mais pesquisável ” e “ acessível a uma precisa Blauner. Da perspectiva de Marx não faz sentido dizer que “ o impres -
enunciação empí rica ” (Seeman , 1972, p. 46). Descreve a alienação co- sor é quase o protótipo do trabalhador não alienado, na ind ústria
mo provida de traços behavioristas, tais como fraqueza, falta de signi- -
moderna ” ( Blauner , 1964, p. 56 7), ou que “ o sistema industrial (con -
-
ficado, falta de normas, isolamento, auto-alheamento e justifica sua temporâneo) distribui desigualmente a alienação entre a força de tra
an álise mediante uma interpretação fora de contexto de autores como balho do operariado, da mesma forma que nosso sistema económico
Marx , Max Weber , Durkheim, Mannheim (cavalheiros que , certamente, distribui desigualmente a renda ” ( Blauner, 1964, p. 5). Para Marx ,
hurlent de se trouver ensemble), nenhum deles aceitando jamais uma diante das caracter ísticas intr í nsecas das sociedades industriais con -
discussão behaviorista do tema. Seeman diz, por exemplo, que rebelião temporâneas, a alienação é um traço inevitável da vida de cada dia, um
muito se aproxima de isolamento . Se , na verdade , esse fosse o caso, fenômeno social total , que resiste a qualquer solu ção compartimenta -
Marx seria uma pessoa alienada , o que equivale a interpretar Marx con- -
lizada. A pesquisa de Blauner estriba se numa colocação errada da
tra o pró prio Marx . Uma personalidade tão visivelmente voltada para teoria de Marx sobre alienação, e representa , na realidade , a colocação
seu próprio ego, como por certo era Marx , repeliria com indignação inapropriada de um conceito, isto é , primeiro despoja a questão da
esse tipo de sugest ão. Ele achava que sua rebelião contra a sociedade -
alienação de seu cará ter meta hist órico ; segundo, admite que ela possa
burguesa e seu isolamento dentro dela eram sinais de que antecipava, ser resolvida por meios microrganizacionais.
no decurso de sua vida , a fase hist órica futura definida pelo desapare- Quando esse tipo de literatura , representativo da convicção
cimento da alienação. Afinal de contas, Marx era de algum modo hege- behaviorista , é aceito por autores e especialistas em administração e
liano e, tal como Hegel , estava convencido de que havia decifrado o organização por seu valor aparente, estimula uma distorcida e até
enigma da hist ória . É sabido també m que Marx tinha problemas com mesmo bizarra compreensão das relações entre as organizações formais
seus inté rpretes e que disse , uma vez: “ mo /, je ne suis pas marxiste." e os seus membros. Por exemplo, refletindo os pontos de vista de
Na realidade, Seeman tem consciê ncia de que sua id é ia de aliena- Seeman e de Blauner sobre alienação, Richard E. Walton sustenta que
ção “ diverge da tradição marxista ” , mas considera que tal “ divergê ncia “ as ra ízes da alienação do trabalhador ” podem ser “ extirpadas” atra -
não é radical ” . Reconhece que Marx produziu um “ julgamento sobre vés da “ remodelação do local de trabalho” ( Walton , 1972, p. 70). Para
um estado de coisas” . “ A minha versão” , declara , “ diz respeito à con- corroborar essa afirmação, informa ele os resultados de uma modifica -
trapartida desse estado de coisas, nas expectativas do indiv íduo” ção implementada numa f á brica de alimentos para animais de estima -
(Seeman , 1972, p. 47). A quest ão é que essa divergê ncia conduz a ção. Alguns desses resultados são assim enumerados:
consequê ncias rid ículas, e isso é particularmente evidente no livro
Alienation and freedom , de Robert Blauner. “ Depois de 18 meses, a taxa de despesas gerais estimadas foi infe-
rior em 33%, na nova fá brica, ao que era na antiga. As redu ções
Blauner alega basear-se na teoria da alienação, de Marx. Contu- em custos vari á veis de fabrica ção ( por exemplo, 92% a menos nas
do, apesar de suas interessantes conclusões empíricas sobre ambientes rejeições por quest ão de qualidade e uma taxa de absente ísmo 9%
de trabalho em vá rios setores da ind ú stria americana , a pesquisa dele é abaixo da norma da ind ú stria ) resultaram numa economia anual de
precá ria , do ponto de vista conceptual , mesmo em bases marxistas, US$ 600 mil. O í ndice de segurança era um dos melhores da compa -
porque o contexto em que se dispõe a avaliar a alienação não se ajusta nhia e a rotatividade ficou muito abaixo da mé dia. Novos equipamen -
ao contexto global de sociedade que Marx tinha em mira. Blauner tos são responsá veis por alguns desses resultados, mas acredito que
parece considerar alienação como equivalente a descontentamento
mais da metade deles deriva da inovação operada na organização
com as condições do trabalho e essa equival ê ncia corresponde à detur - humana ” (Walton , 1972, p. 77).
pação do conceito marxista de alienação. Como assinalou corretamen -
te Richard Schacht, Marx não “ hesitaria em falar sobre ' trabalho alie - Constitui tarefa dos especialistas em administração pú blica e
nado’, mesmo com relação a indiv íduos que não estivessem desconten
tes com seu trabalho” (Schacht , 1970, p. 164). Para Marx , nunca se
- privada a remodelação dos ambientes de trabalho, e o artigo de Walton
poderia eliminar a alienação nos limites da microrganização. A desalie- é , certamente , uma interessante pesquisa para esse fim. Mas a identifica-
nação, para ele, exige a total transformação do pró prio sistema social ção do processo de desalienaçío com a satisfação no trabalho, e a ten -
tativa de avali á-lo em termos de resultados tais como taxas de despesas
do mundo inteiro. O que toma a alienação inevit ável no presente
,

74 75
imaginar se não significará uma recorrê ncia de ilusões antropom ”
órficas
gerais,custos operacionais, economia anual e índices de segurança são grupai de
exemplos de completa ingenuidade. Alé m disso, os manuais contri- como a “ alma coletiva ,” de Gustave LeBon , e a “ mente
buem para difundir essa ingenuidade entre os estudantes e num desses McDougall .
manuais geralmente utilizados est á dito, por exemplo, que “ certos 2. A hipó tese de autores clássicos, de Taylor a Chester 1
. Barnard,
tipos de tecnologia podem reduzir a alienação” ( Luthans, 1977, de organiza çã o sem padr ões objetivos pa-
de que n ão existe teoria
p. 91).8 Em outras palavras, a alienação pode ser tratada como se ra avaliação de atividades espec íficas da organiza çã o formal , con -
vez que a
tinua válida , em nossos dias. Em outras palavras uma
fosse uma quest ão mecanom órfica. Este é um tipo de conhecimento ,
organização formal é essencialmente definida por um tipo espec
superficial , que deveria ser considerado indesculpável nas escolas de ífico
graduação de administração pú blica e de empresas. de racionalidade —racionalidade instrumental ou funcional —
a
que se
metas
relaciona à otimização dos meios, para que se possa chegar
4.5 Sanidade organizacional, uma denominação incorreta especificadas, os crité rios de avalia ção da eficácia organizacional cons-
tituem um sé rio t ópico teórico. Podemos hoje rejeitar , como
prim ária
Outro exemplo de conceito erróneo é a noção de sanidade orga - e inadequada , a abordagem da capacidade organizacional proposta por
nizacional. Warren Bennis afirma que é necessá rio um conceito de Taylor e pelos administradores cient í ficos . No entanto , em qualquer
fcanidade organizacional para superar as inadequações da noção de tentativa para lidar com esse problema , suas especulações e as conclu -
capacidade da organização. Podemos aceitar a observação de Bennis de sões a que chegaram merecem cuidadosa consideração. A eficácia da
antigos
que “ as formas tradicionais” ( Bennis , 1966 , p. 44 ) de avalia ção da efi- organização tem aspectos que Taylor e outros autores mais
cácia da organização parecem muito prim árias, uma vez que deixam de negligenciaram , mas a tarefa dos te ó ricos e dos que praticam a ciê ncia
lado diversos traços da quest ão que agora se mostram salientes. Real- da organização n ão está em evitar o problema, nem em recomendar
-
mente, os autores tradicionais preocuparam se sobremaneira com O paliativos. Consiste , em vez disso, na direta confrontação do problema
da eficácia , em toda a sua atual complexidade. Em minha opiniã
desempenho, medido de acordo com padrões mais ou menos r ígidos e o, o
com limitadas “ caracter ísticas de produção” ( Bennis, 1966, p. 41 ). É conceito da sanidade organizacional falseia o assunto .
Na tentativa de substanciar a noção de sanidade organizacional
,
certo que Bennis levanta um importante problema na teoria organiza-
cional contemporâ nea: o conceito tradicional da capacidade da orga- Bennis identifica a organiza çã o com um quem ( “ é preciso que se saiba
nização reflete uma vis ão muito estreita das “ determinantes” ( Bennis,
*
quem ela é ” ), que se constitui de diversas “ pessoas” , sendo a tarefa do
1966, p. 44) dessa organização. No entanto, o pressuposto de que o executivo “ esforçar-se para conseguir coerê ncia ” ou “ harmonia ” entre
conceito da sanidade organizacional pode trazer algum esclarecimento essas “ pessoas” , “ na medida em que isso seja possível ” ( Bennis, 1966,
ou ampliar os limites da teoria organizacional é algo question á vel. p. 52-4 ). 9 As pessoas organizacionais, como as sugere Bennis, repre-
Além de ser estranha ao estudo cient ífico de organizações formais sentam uma reclassificação, em termos behavioristas, das diferentes
( por motivos que ser ão explicados posteriormente ), a noção de sanida- estruturas que Wilfred Brown vê em qualquer organização complexa :
de organizacional não só deixa de solucionar os problemas te óricos e a estrutura manifesta , que tem sua expressão num gráfico organizacio-
operacionais gerados pelo antigo conceito de eficá cia organizacional nal ; a estrutura presumida, como se apresenta às percepções fenome-
como cria outros. nológicas dos indiv íduos; a estrutura existente, que é aquela objetiva-
A esse respeito, meus argumentos principais podem ser resumi - mente percebida pelo analista de organização; e a estrutura necessária
dos como se segue: nos termos ótimos que conviriam à organização, dentro de suas limita-
das circunst âncias. A classificação de Brown é v álida e tem força escla -
1 . A sanidade organizacional , como a conceitua Bennis, é estranha recedora, mas ao aplicar a tais estruturas crit é rios psicol ógicos e ao
ao campo da teoria organizacional , sendo uma extrapolação mecâ - considerá las correspondentes a pessoas, Bennis coloca mal o conceito
-
nica de um atributo que pode ser pertinente à vida individual, mas n ão de pessoa e traz confusão aos termos da an álise organizacional . Pode -
à natureza da organização formal . O conceito de sanidade organizacio- se , realmente , avaliar e descrever tais estruturas, mas perde se a precisa-
nal de Bennis pressupõe a existê ncia concreta de uma mente coletiva perspectiva na compreensão das complexidades organizacionais, se se
ou organizacional, cujas implicações organicistas dificilmente se har - recorre a uma categorização de pessoa, tal como propõe Bennis. É jus-
monizam com a estrutura da ciê ncia social contemporânea. Fica-se a 9 Repetindo Bennis, H M F. Rush escreve : “ Supõe -se que a organização tenha
...
8
.
Veja Shepard (1972), Kirsch A Lcngermann ( 1972 ) e Miller (1975 ) todas as qualidades de um indiv íduo” ( Rush , 1969 , p. 8) .
76 77
tamente a esse tipo de errada abordagem que Katz e Kahn fazem obje - integrar o indiv íduo e a organização. Isso constitui , na verdade , um
ção, quando observam que “ alguns enfoques psicológicos recentes exa- esforço sinistro, que só pode ser levado a cabo às expensas da dimen -
minam minuciosamente as pessoas e esquecem -se de sua estruturada sã o substantiva das pessoas. O tipo de psicologia que fundamenta a
interdependê ncia no contexto organizacional ” ( Katz e Kahn , 1966 , prá tica de tais consultores integracionistas é apoiado numa errada
p. 336 ). Embora sejam psicólogos, Katz e Kahn mostram se muito - compreensão da natureza da socialização e do próprio fenômeno orga-
alertas quanto às ciladas em que podem cair os psicólogos, quando se nizacional. É um tipo de psicologia motivacional , que pressupõe que a
sí ndrome behaviorista, inerente à sociedade centrada no mercado, é
11
entregam a extrapolações de conceitos para problemas organizacionais
e é assim que afirmam: equivalente à natureza humana em seu conjunto. A motivação enten -
dida dessa maneira toma-se equivalente ao controle e à repressão da
a abordagem adotada quando se lida com problemas de orga- energia ps íquica do indiv íduo. Todavia , essa espé cie de psicologia
nização tem sido excessivamente simplificada e demasiado global. forma o arcabou ço conceptual de alguns especialistas, educados em
As pessoas ou partiram do pressuposto de que a organização era a nossas escolas de administração p ú blica e de empresas, os quais afir-
mesma coisa que um indiv íduo, isoladamente, ou que existia um ú nico mam possuir habilidades para administrar a tensão humana. Somente
problema de motivação para a organização inteira, comportando uma o fato de que sã o v í timas de uma formação falsa e simplória pode
ú nica reísposta , ou que as estruturas e processos organizacionais pode
riam ser ignorados, ao se lidar com a psicologia individual ” ( Katz e
- livrá-los da acusação de agirem como peculatários de seus crédulos
clientes. . -

Kahn , 1966, p. 336). Uma psicologia cient ífica n ão concorda, necessariamente, com
significados que derivam de definições institucionalizadas da realidade .
-
É bem vinda a participação dos psicólogos no campo da teoria e Reconhece uma dimensão profunda de realidade psíquica individual
da prá tica da ciê ncia da organização. Na verdade, precisamos muito que resiste ao fato de ser totalmente capturada por definições sociais e
deles, mas para que possam ser ú teis, é necessá rio que compreendam organizacionais. 12 As relações entre os indiv íduos e as organizações
as especificidades do fenómeno organizacional , que jamais poder ão ser implicam sempre em tensão e nunca podem ser integradas sem custos
inteiramente percebidos através de categorias pertinentes à psicologia psíquicos deformantes. As organizações formais n ão são senão instru -
mentos. Os indiv íduos são seus senhores. Se a psicologia deve ser um
individual. Uma demonstração clássica de que os psicólogos podem
contribuir notavelmente para o desenvolvimento da teoria da organi
zação é dada pela obra The Social psychology of organizations, de
Katz e Kahn .
- componente da estrutura conceptual de especialistas e consultores

como precisa ser é necessá rio que haja maior sofisticação em seu
ensino em nossas escolas de administração pú blica e de empresas. É

Alé m disso, pode-se afirmar que todas as imprecisões do concei - encorajador que tal reorienta ção já esteja sendo sugerida13em trabalhos
to de sanidade organizacional derivam de uma raiz comum : a coloca - recentes, que est ão aparecendo nas publicações técnicas.
ção inapropriada do conceito de sanidade mental. Realmente, se a
sa ú de mental é um conceito válido (e há quem questione que o seja ), 4.6 Pessoas e modelos de sistemas
seus padrões só são aplicáveis a indiv íduos, jamais podendo ser aplica -
dos a organizações, ou deduzidos das situações organizacionais. Lamentavelmente, e sem uma admissão expl ícita desse fato, a
-
O conceito de sanidade organizacional relaciona se diretamente ideologia integracionista infiltra-se numa grande proporção daquilo
com a psicologia do ajustamento e não reconhece a autonomia indivi - que os planejadores e analistas de sistemas fazem , como consultores e
dual. N ão é uma categoria cient ífica, mas um instrumento ideológico especialistas. É muito comum que percam de vista a necessá ria tensão
disfarçado: é um recurso pseudocient ífico, dirigido à total inclusão 10 -
entre pessoas e os sistemas projetados, apoiando se numa concepção
do indiv íduo no contexto da organização. de sistema demasiado hol ística . De modo geral, reificam o sistema
Quando usado por praticantes e consultores como uma referê n - organizacional , isto é , d ão ê nfase à dependê ncia das partes sobre o
cia para intervir nas organizações, o pseudoconceito de sanidade orga- 11 Veja o cap ítulo 3 deste livro .
nizacional pode levar à sufocação da energia psicológica do indiv íduo. i » 2 Veja Glass ( 1972- 1974 ) e Laing ( 1967 - 1969 ).
Em suas intervenções, esses especialistas pretendem, confessadamente ,
13 Veja , por exemplo , Gross , Bertram ( 1973 ) ; Scott , William G . ( 1974 ); Glass ,
Sobre as noções de inclusão parcial e inclusão total , veja Allport , F.H . James ( 1975 ); Perrow , C. ( 1972 ) ; Singer , E . & Wooton , M . ( 1976 ); Dunn , W. N .
( 1933 ) . - v . . Js- & Fozouni , B . ( 1976 ).
78 79
todo, em vez de tratar, com precisão, da interdependê ncia das partes holon, como um instrumento para a an álise de sistemas que vai “ alé m
internas e externas que constituem o todo. Robert Boguslaw refere se do atomismo e do holismo” (Koestler, 1969, 1977). Ele vê os organis-
a esse ponto , em seu livro The New Utopians. Os planejadores de siste
-
- mos e as organizações n ão como totalidades absolutas, mas como
mas de orienta ção mecanicista e organ ísmica não questionam as sendo constitu ídos de subconjuntos de organelas, de ó rgãos, de siste- ^
regras operativas inerentes aos sistemas institucionalizados e “ à luz do mas de órgãos - cada um deles provido de notável grau de autonomia
status quo . .. tratam de explicar como os grupos humanos se podem e autogoverno. Cada um desses subconjuntos é um holon, “ que tem
adaptar, ou de fato sê adaptam ao mundo em que se encontram ”
( Boguslaw , 1965, p. 3 ). Na prá tica , isso equivale a permitir
que as
duas faces, olhando para direções opostas —
a face voltada para os
n íveis inferiores é a de uma totalidade autónoma , a que se volta para
regras operativas das organizações formais condicionem as necessida cima é a de uma parte dependente ” ( Koestler, 1969, p. 197). No
des dos cidad ãos quanto a alimentação, proteção, vestu á rio, transpor - entanto, pode -se argumentar que a incorporação do conceito de holon
te , educação e lazer. Esse preconceito 6 agravado quando se combina
- VN
à an álise de sistemas n ão parece eliminar a tend ê ncia da mesma no
com o mau emprego da ciberné tica , que como explica Sheldon Wolin sentido reducionista e hol ístico. Pode-se dizer que esse conceito pres-
^consiste em equiparar a natureza do pensamento humano a da ação supõe uma avaliação funcional da consciê ncia pessoal , seja como uma
intencional à operação de um sistema de comunicações, ou seja ‘o das “ partes que se relacionam com superestruturas” , seja como totali- ^
problema do valor equivale’ a um ‘problema de painel de ligações’ dade “ relacionada a subestruturas” , e que essa ó tica n ão exprime, é
, ou
a '‘consciê ncia’ é an áloga ao processo da realimentação” ( Wolin , evidente , aquilo que , tradicionalmente , se supõe que uma pessoa seja .
1969,
p, 1.076). Mesmo um especialista em cibern é tica alerta para as fal á cias Em essê ncia , uma pessoa n ão é uma parte funcional constitutiva de
contidas nas analogias mecanicistase organ ísmicas, como, por exemplo, um sistema. Acredito que a definição de Kant para pessoa , em ú ltima
Karl Deutsch , pode ser apanhado na prá tica da colocação inapropriada análise , ainda é verdadeira : “ Uma pessoa não est á sujeita a nenhuma
de conceitos. Assim é que ele emprega uma imagem mecanom órfica , outra lei sen ão àquelas que ( isoladamente , ou pelo menos em conjunto
ao definir a comunidade organizada como um “ sistema de direção e com outras pessoas ) estabelece para si pró pria ” ( Kant , 1965, p. 24 ). 15

a habilidade do estadista como sendo a “ arte de dirigir um autom óvel Dessa forma , pode acontecer que uma pessoa se encontre num sistem -VN
numa estrada coberta de gelo ” ( Deutsch , 1966 , p. 182- 5). Da mesma
forma , o analista de sistemas est á apenas interessado na capacidade
sem ser, necessariamente , parte funcional dele . Uma pessoa , num siste
ma planejado, pode bem ser um cavalo de Tróia , isto é , um agente ,
^-
que a comunidade tem de atingir suas metas; a dimensão é tica de tais deliberadamente disfarçado, de destruição de superestruturas, tanto
metas n ão é de seu interesse . Os ameaçadores resultados de semelhante quanto de su best ruturas.
posição cibern é tica t ê m sido apontados por Giovanni Sartori ( As tentativas de integração do indiv íduo e da organização
Sartori ,
-
1970, p. 1.035 6), e preocupações idê nticas às de Wolin e Sartori
inspiram a discussão da an álise de sistemas feita por Habermas ( Haber
baseiam-se numa compreensão erró nea da natureza da pessoa. Meu
- ponto de vista é o de que somente uma visão delimitativa do plano
mas, 1970, p. 106 7).14 -
Minha inten ção aqui n ão é rejeitar os modelos de sistemas, mas
organizacional pode contrapor-se à inadequada prá tica da análise de
sistemas.
sim argumentar contra sua inadequada utiliza ção para an álise e plane A colocação inapropriada de conceitos impregna a literatura
-
jamento administrativos. Em princ ípio , os modelos de sistemas t
utilidade , no campo administrativo, principalmente quando as fun ções
êm contemporâ nea sobre t ó picos e problemas organizacionais, e , em resul -
tado, a cidadela do conhecimento organizacional de nossos dias é
de manuten ção estrutural dos sistemas devem ser, de forma legí tima ,
controladas e estimuladas. Mas quando se det ê m sobre as funções de
semelhante a uma torre de Babel. A confusão de l ínguas é quase ensur -
decedora. A fonte de boa parte dessa confusão é a linguagem deforma-
articula ção e modificação estrutural dos sistemas, os analistas deve
riam estar preparados para lidar com a verdadeira natureza da din â -
dora que surgiu como uma consequ ê ncia do predom í nio dos crit é rios
ca dos sistemas, da qual é parte constitutiva a tensão entre as pessoas e-
mi económicos na tessitura social em seu conjunto, e a diluição do pol í -
tico no contexto social . O impacto dessas manifestações sobre a
as estruturas sociais. linguagem será considerado mais longamente no cap ítulo 5. O dilema
Importante tentativa de aperfeiçoamento da análise dos sistemas organizacional não pode ser superado senão recusando-se a teoria
tem sido feita por autores contemporâ neos e Arthur Koestler, por
exemplo, propõe esse refinamento quando apresenta o conceito de
administrativa que supõe serem crité rios inerentes às organizações for -
14 .
Veja Voegelin , Eric (1956 )
1S Veja excelente discussão deste assunto em Esposito, J . L. .
( 1976 ) Veja tam -
bém Weizenbaum , J . ( 1976 ).
80 81
mais os crit é rios dominantes de toda a existê ncia humana. Contraria
- trabalhadores. Em outras palavras, o treinamento técnico n ão elimina
mente , a teoria organizacional deveria transformar-se numa investiga
ção sobre m ú ltiplos tipos de sistemas sociais, dos quais o contexto
- nem sufoca, necessariamente , as diferen ças individuais, mas antes as
económico formal é um caso particular. acentua.
Estes são alguns dos t ó picos permanentes da teoria da organiza-
4. 7 Conclusão ção formal. A abordagem desses t ó picos pelos classicistas pode ser criti
cada, em termos legí timos, por ser teoricamente superficial . Mas, pelo
-
Paradoxalmente , o campo de estudo da teoria da organização menos, perceberam eles que as organizações formais não constituem o
tinha um senso muito mais claro de seu objetivo antes do surgimento, cen á rio apropriado para a desalienação e para a auto-atualização das
na década de 30, da chamada Escola de Relações Humanas. David pessoas. Tinham mais consciê ncia de suas limitações do que os integra-
Riesman e W. H. Whyte deveriam ser lidos de novo, porque explicam, cionistas e humanistas de hoje , que afirmam saber como planejar orga-
de maneira convincente , como a Escola de Relações Humanas foi -
nizações autê nticas, pró ativas e sadias . Como precursores da “ indú s-
desencadeada pelos imperativos de uma estrutura económica que tria da ciência ” , os classicistas assumiram uma missão hist órica, qual a
exigia a ênfase no consumo e n ão na poupan ç a. 16 De Taylor a Luther de prover a economia e a sociedade americanas, de modo geral , de
Gulick os administradores profissionais preocuparam-se muito com a sofisticadas, capitalizantes, produtivas capacidades. Desincumbiram se,-
^ daquilo que
descoberta deveria constituir o estudo sistem á tico do com elegâ ncia , dessa missão. Sua capacidade inventiva e sua engenhosi
dade contribu í ram , numa importante medida, para tornar os EUA a
-
trabalho e da produtividade , e graças a eles foram identificados alguns
pontos b ásicos permanentes da ciê ncia administrativa, que podem ser
articulados como se segue:
primeira economia terci á ria e de serviç o, na hist ó ria da humanidade
uma economia em que as organizações formais, por assim dizer,

1 . O trabalho e a produtividade constituem objetos sistem á ticos de podem cuidar de si mesmas com ajuda comparativamente limitada das
estudo cient ífico. Peter Drucker corretamente considera Frederick pessoas. Hoje em dia , a missão fundamental dos especialistas em teoria
Taylor um pioneiro da ‘economia do conhecimento” de hoje, de da organização n ão consiste em legitimar a total inclusão das pessoas
acordo com o qual “ a chave para a produtividade [ é ] o conhecimento , nos limites das organiza ções econ ómicas formais, mas sim em definir o
n ão o suor ” ( Drucker, 1969, p. 71 ). E isso pode ser dito de toda a escopo de tais organizações na existê ncia humana em geral . A hora é
chamada escola clássica. azada para a pr á tica de um tipo sem precedentes de ciê ncia organiza -
2. N ão existe ciência da organização formal sem normas técnicas para cional , sens ível aos diversos aspectos da vida humana, e que seja capaz
mensuração e avaliação dos produtos do trabalho. de lidar com esses aspectos nos contextos a que adequadamente per-
3. As funções ou tarefas deveriam ser tecnicamente planejadas e seus tencem. Este cap í tulo , da mesma forma que o seguinte , sobre a pol í-
planejadores deveriam levar em consideração a condição fisiológica tica cognitiva , um fen ômeno relacionado com a colocação inapropria-
e psicológica do homem. N ão é verdade que Taylor e a escola clássi
-
da de conceitos e de t ó picos, prepara o caminho para a discussão ana
l í tica dos alicerces epistemol ógicos da nova ciê ncia das organizações.
-
ca tenham negligenciado o fator humano nas organizações. O que
deve ser acentuado é que a concepção que tinham do homem era redu -
cionista e demasiado limitada. 17
4. As potencialidades humanas n ão são “ intuitivamente ó bvias, BIBLIOGRAFIA
se-
ja para o trabalhador, seja para aquele que o observa ” ;18
devem ser Allport , F. H. Institutional behavior . Chapel Hill, Carolina do Norte ,
té cnica e experimentalmente detectadas.
5. O desempenho, na execu ção da tarefa, não pode ser melhorado University of North Carolina Press, 1933.
e eficientemente organizado sem um treinamento sistem á tico dos Bennis, W. Changing organizations. New York , McGraw- Hill , 1966.
Blauner, R . Alienation & freedom . Chicago, University of Chicago
16 Sobre a “ ilusão da participação
mal colocada ” , caracter ística da Escola de Press , 1964.
Relações Humanas, veja Riesman ( 1971, p. 270-1 ). Veja Whyte (1957, p. 3842),
para a cr ítica da experiê ncia Hawthorne. Boguslaw , R . The New Utopians. New Jersey, Prentice-Hall, 1965.
Caplow , Th . Principles of organization . Nt / York , Harcourt , Brace
17 Veja Ramos ( 1972 ). & World , 1964.
18 Veja Caplow ( 1964 , p. 234 ). O item que se segue é, em grande parte, deriva
- Cassirer, E. The Philosophy of enlightenment . Princeton , Princeton ,
do do livro de Caplow , mesma pá^gina aqui indicada . University Press, 1951 .
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84 85
-
dendo se agora à sociedade como um todo. Mesmo no presente mo -
mento, uma apreciação sistem á tica da pol í tica como uma dimensão
cognitiva ainda é ignorada pelos teoristas da organização. A id éia de
pol í tica cognitiva continua situada fora do interesse mesmo daqueles
que , já h á muito tempo, abandonaram a velha dicotomia entre admi
nistra ção e pol í tica.
-
Pol í tica cognitiva, para oferecer uma definição preliminar, con
siste no uso consciente ou inconsciente de uma linguagem distorcida,
-
5. POL ÍTICA COGNITIVA - A PSICOLOGIA
DA SOCIEDADE CENTRADA NO MERCADO cuja finalidade é levar as pessoas a interpretarem a realidade em
termos adequados aos interesses dos agentes diretos e / ou indiretos de
tal distorção.
A chamada ciê ncia da organização, como hoje a conhecemos,
está enredada numa trama de pressupostos não questionados, que 5.1 Polí tica cognitiva, uma digressão histórica
derivam da sociedade centrada no mercado e dela são reflexos.
Enquanto permanecer alheia à cr í tica de si mesma, a colocação inapro- A pol í tica cognitiva é um fen ômeno hist ó rico perene. É uma
priada de conceitos e a polí tica cognitiva afetar ão de modo adverso a quest ã o exposta por Plat ão, em muitos de seus di álogos sobre a
prá tica e o ensino da disciplina administrativa , por sufocarem qualquer natureza e o uso da ret órica . É bem sabido que Plat ão manifestou
esforço no sentido de uma verdadeira articulação teórica nesse terreno. aversão pela ret órica , tal como a praticavam os sofistas, pela simples
J á expliquei a noção de colocação inapropriada de conceitos. Meu pro- razão de que ela visava produzir apenas cren ças, n ão conhecimentos.
pósito, neste cap í tulo, é estabelecer a natureza da pol ítica cognitiva. Contudo, tentou ele salvar o fenômeno da ret órica ou da persuasão
Conviria assinalar-se que pouca — se é que alguma
— atenção
tem sido dada , pelos teóricos da organização, à dimensão pol í tica da
cognição. Pol í tica e conhecimento , tradicionalmente, vê m sendo trata-
pol í tica reclamando , em diversos diálogos, mais especificamente
poré m no Fedro , uma ret órica dialé tica , uma ret órica a serviço da
filosofia . E no Gôrgias, um dos seus primeiros di álogos, Plat ão mostra,
dos como á reas separadas e distintas de estudo, situação que traz à através de Sócrates , que o ret ó rico t í pico “ n ã o tem necessidade de
memó ria um per íodo hist órico anterior, em que os teóricos da organi- conhecer a verdade das coisas, mas de descobrir uma t écnica de
zação reivindicavam uma n ítida separação entre a pol ítica e a adminis- persuasão” ( p. 459c). Esse tipo de retórica, diz Sócrates em sua famo-
tração. Naquela é poca , os teóricos e os praticantes n ão dispunham dos sa comparação, “ est á para a justiç a como a culin á ria para a medicina"
instrumentos conceptuais de identificação de processos pol í ticos no ( p. 456c, isto é , a ret ó rica constitui uma técnica para adular a multi-
contexto da organização. Essa condição do conhecimento administra- d ão e a ser usada perante aqueles que n ão t ê m o h á bito de pensar, uma
tivo modificou -se , quando novas circunst âncias sociais tornaram into- vez que o ret órico sof ístico n ão pode ser convincente entre os que
lerá vel tal deficiê ncia . Posteriormente a esse est ágio, quando a pol í tica possuem sabedoria . Num ponto de seu diálogo, Sócrates refere se à -
veio a ser reconhecida como uma dimensão inerente às atividades ret ó rica como “ a semelhança de uma parte da pol í tica" ( p. 463d ) ,
desenvolvidas nas organizações, a atividade pol ítica foi incorporada à relação sobre a qual Arist óteles elabora em sua Retórica . Admite,
elabora ção da teoria organizacional , mas mesmo nesse caso a pol ítica contudo, a possibilidade de uma ret órica emanada do conhecimento,
era entendida apenas como uma luta pelo poder, através de processos que se preocupe em “ tornar os cidad ãos os melhores possíveis"
de alocação de recompensas. ( p. 513c), ou seja , formar uma cidadania esclarecida , n ão constitu ída
Entendo que, em nossos dias, os desenvolvimentos atingidos de indiv íduos que , politicamente , ou são simpl órios ou impostores.
tomam indesculpável o estudo separado e distinto da cognição e da Desse modo, o pró prio uso que Sócrates faz da ret órica , nos di álogos,
pol í tica, e isso porque a influê ncia da pol í tica cognitiva, que esteve é demonstração de que ela pode estar a serviç o do verdadeiro ator
um dia restrita a enclaves marginais no contexto mais amplo da tessi- pol í tico, isto é , da arte da pol í tica. Como foi já mencionado, Plat ão
tura social , agora passou a permear tudo. Os padrões cognitivos, exigi- també m sugere que a maneira de salvar a retórica est á em torná- la
dos pelos requisitos das transa ções t ípicas do mercado, limitado no parte da dial é tica, tal como ele a entendia .
espaço, trasformaram -se em pol í tica de cognição, induzida do modo Conviria salientar que Plat ão, no fim de contas, n ão trai a pró -
particular das estruturas e estrat égias das organizações formais, esten - pria condenação do ret órico sof ístico, porque nas Leis sugere ele que
86 87
uma teologia civil deveria acompanhar a legislação, protegendo o sadio aguda percepção da relação entre o poder da palavra e as muitas
sistema pol í tico dos agentes e das ações de destruição. Platão çoncebe máscaras usadas em nome da legitimação pol í tica. O assunto da
esse credo como uma destilação das normas m í nimas comuns a todas retó rica é compat ível com o projeto de Platão de purificar a ret ó rica
%
as religi ões, normas cuja validade se toma evidente através do debate da distorção sof ística , assinalando que o que distingue o retórico do
racional. Uma palavra sobre a natureza da teologia civil pode ajudar a sofista é o propósito moral do indiv íduo no uso da retó rica.
esclarecer o funcionamento da pol í tica cognitiva. O ret órico é um orador treinado na prá tica da arte da persuasão .
Atravé s de toda a hist ória , as teologias civis t é m sido instrumen- A moralidade substantiva é uma qualidade das pessoas e reside no
tos leg í timos para aumentar a resistê ncia de sistemas pol íticos. Com orador. Ao violar essa orientação o indiv íduo incorre numa espécie de
escrú pulos racionais menos exigentes que Platão, por exemplo, encon - conduta que se desvia da tensão constitutiva da razão substantiva e
tramos Pol í bio ( 1972) louvando o estadista romano por introduzir na que reduz as considerações é ticas a crit é rios instrumentais de avaliação.
mente das pessoas, em nome da coesão do Estado, “ noções relativas Da í que apenas imperativos de expediê ncia ( o que, afinal, equivale a
aos deuses e crenças no terror do inferno” , expediente que n ão seria dizer nenhum imperativo) são os ú nicos freios capazes de controlar a
necessário se o “ Estado [ fosse ) composto de homens sá bios” ( Pol íbio, habilidade dos oradores para usarem seu poder de enganar , de induzir
1972; VI , 56 , 6-11 ). Hoje em dia, a democracia constitucional , embora os outros a emitirem julgamentos errados, ou de se permitirem com-
contendo um elemento racional insignificante , aproxima-se mais de portamentos imorais. O reconhecimento do cará ter amb íguo da lin -
-
uma variedade da teologia civil na maior parte dos pa íses anglo- guagem é , pelo menos, t ão antigo quanto os gregos. O orador respon
saxões. 1 N ão obstante , teologia civil não deveria ser erroneamente sável pode esforçar-se por usar a habilidade que adquiriu de superar
identificada como pol í tica cognitiva. Uma teologia civil é expressa- ambiguidades de motivo ou propósito. Embora Aristóteles cedesse , de
mente formulada n ão para enganar as pessoas, mas antes para legitimar vez em quando, à tentação sof ística de compilar receitas lingu ísticas, o
um tipo de ordem social em termos e imagens acessíveis à compre- intuito geral de sua Retórica é subordinar a arte da persuasão a
ensão e ao n ível educacional do conjunto de cidadãos. A distinção padrões éticos, e explicar seus numerosos usos polí ticos legí timos.
importante gira em torno da noção de debate racional. Algu é m pode, -
Plat ão e Arist ó teles n ão foram os ú nicos sá bios gregos conscien
legitimamente , se envolver num debate racional com a finalidade de tes do fen ômeno da pol í tica cognitiva. Mas na Gré cia o alcance e o
validar as teologias civis, mas a doutrinação, ou a inculcação sublimi - impacto sociais dessa pol í tica puderam ser mantidos sob o controle
nar de definições distorcidas da realidade, estimulada pela pol í tica dos usos e costumes predominantes, e do processo educativo ocorrido
cognitiva , n ão constitui jamais objeto de debate entre suas v í timas. nos grupos formais e informais, em que os gregos aprendiam os deve-
res da cidadania. A filosofia e a educação sistem á tica també m serviram
Em seus di álogos, Plat ão empreende a tarefa de desenvolver uma como forças de compensação, contra a proliferação da pol í tica cogni-
arte de debate racional , que é mais al é m refinada e codificada por tiva. Em outras sociedades antigas, em que n ão existiu propriamente
Aristóteles, em sua Retórica. Aristóteles considera a ret órica , em rela - filosofia , a pol í tica cognitiva nunca se transformou em ponto de deba-
ção a outras disciplinas, como um “ ramo de estudos dialé ticos e tam - te , uma vez que o indiv íduo estava evidentemente prevenido contra
bé m é ticos” . Elabora ele, ainda , sobre essa rela ção quando adverte o tal armadilha por sua compacta e m í tica experi ê ncia da realidade.
leitor de que “ estudos é ticos podem bem ser chamados de pol í ticos” No contexto de suas bases culturais específicas, os indiv íduos
e , por essa razão, a retó rica às vezes “ disfarça-se como ciê ncia pol í - puderam desenvolver um sentido de vida comunitá ria livre da influên -
tica ” ( Arist ó teles , 1954 ; I, 1.356a , 2/ 25 ). Portanto, Aristóteles tem cia da pol í tica cognitiva. No reposit ório de tradições da maioria das
* Veja Voegelin ( 1963 , p. 36 ). A noção de teologia civil tem uma longa tradição sociedades da era pré-industrial , podemos encontrar exposta na termi-
no campo da teoria pol ítica . Para uma excelente visão de conjunto desta noção , nologia dos prové rbios a percepção comum do mercado como o local
veja Sandoz , Ellis ( 1972 ). Veja também Germino , Dante ( 1967 , p . 29 ) . Uma de prá tica da pol ítica cognitiva e da linguagem enganadora. Em muitas
tentativa de formulação de uma teologia civil para a sociedade industrial desen -
volvida é representada pelos trabalhos de Rawls , I . ( 1971 ). Apesar do sabor
sociedades arcaicas e antigas, o mercado tinha uma fun ção determina-
compassivo da noção que Rawls tem da equidade social , coisa que est á ficando da dentro de rigorosos limites geográ ficos, longe da corrente maior da
influente entre alguns teoristas da administração , sua teoria da justiça , cm última vida social , para que n ão solapasse as bases da comunidade e distor-
análise , reflete uma avaliação m íope do estado atual da sociedade industrial de - cesse a natureza da comunicação. Esse ordenamento histórico foi
senvolvida , na medida em que a racionalidade inerente ao sistema de preço de conscientemente elevado à condi ção de um princ ípio diferenciado de
mercado é explicitamente aceita por Rawls como premissa básica de sua filosofia
moral . planejamento social pelos pensadores pol í ticos clássicos, tais como

88 89
Platão, Aristóteles e Santo Tomás, os quais concordaram todos em
que, para preservar o bom cará ter da comunidade , ao mercado e a seus do povo. Se eles admitissem a intencionalidade das atividades que
peculiares padrões cognitivos e lingu ísticos nunca deveria ser permiti- desenvolvem, n ão apenas se enfraqueceria a eficácia de seus atos como
da a expansão para além do local que lhes fosse circunscrito. pol íticos cognitivos, mas també m graves quest ões é ticas poderiam ser
levantadas quanto a seus objetivos.
5.2 A política cognitiva e a sociedade centrada no mercado O fenômeno da pol í tica cognitiva requer expl ícita investigação
acadê mica se se pretende que a elaboração teórica nas ciências de pla -
A pol í tica cognitiva é a moeda corrente psicológica da sociedade nejamento de sistemas sociais e da administração organizacional se
centrada no mercado. N ão constitui mero incidente o fato de que, em liberte da deformação decorrente da aceitação ingé nua dos pressupos -
toda sociedade em que o mercado se transformou em agê ncia cê ntrica tos da sociedade centrada no mercado. O estudo desse fenômeno deve
da influê ncia social , os la ços comunit á rios e os traç os culturais espec í- -
valer se dos recursos existentes na sociologia do conhecimento, na
ficos são solapados ou mesmo destru ídos. Diante do consistente lingu ística, na psicologia cognitiva, na antropologia cognitiva e na
padrão de consequê ncias que acompanhou a difusão da mentalidade teoria da comunicação. Maté ria ponto central desse tipo de estudo, é o
de mercado através de todo o mundo contemporâneo, é dif ícil com- conjunto de regras epistemol ógicas inerentes à estrutura pol í tica pre -
preender como esse fen ômeno escapou a uma investigação sistemá tica. dominante nas sociedades industriais desenvolvidas, regras que são
Aqui estou eu simplesmente chamando a atenção para o ó bvio, mas é absorvidas sem nenhuma cr í tica pelo cidadão comum , através da socia -
precisamente o ó bvio que constitui propósito da pol ítica cognitiva lização e / ou mediante a exposição desse cidad ão, homem ou mulher,
a influ ê ncias planejadas sistematicamente.
obscurecer . Esse evento praticamente universal , resultante do expan
sionismo pol í tico das sociedades hegem ónicas centradas no mercado, é
- Os agentes da pol í tica cognitiva se diferenciam , no grau de per -
legitimado como princ í pio básico da ciê ncia social contemporâ nea. -
cepção de seus papéis. Os mais conscientes deles encontram se , geral - A
Dessa forma, o fim da sociedade tradicional ( Lemer , 1958), a homoge - mente , nas atividades de comunicação e publicidade. A imprensa , o
neização do comportamento humano em escala mundial (Alex Inkeles, r á dio e a televisão est ão , conjuntamente , engajados num processo con -
I 960; Deutsch , 1953), a identificação de modernização com a difusão t ínuo de deliberada definição da realidade. Os instrumentos da m ídia
dos requisitos institucionais e psicol ógicos do mercado ( Parsons, 1964; são utilizados como armas na competição para influenciar a interpre -
McClelland, 1961)2 - tudo isso é interpretado com sentido normativo tação que o povo d á à realidade. Tanto o cen á rio em que a informação
pelos cientistas sociais convencionais. Tal circunst ância mostra o é dada , quanto seu padrão lingu ístico, é elaborado antes para enganar l
paroquialismo dessa espécie de ciê ncia e sua servid ão, nos limites do do que para esclarecer o pú blico. Uma hora de televisão é suficiente
arcabouço de padrões cognitivos inerentes à sociedade centrada no para que qualquer um perceba que a pol ítica de cogni ção é um fato
mercado. -
preponderante da vida contempor â nea. A bem sucedida venda de um
Consequentemente, é l ícito indagar as razões pelas quais o estu - produto é, hoje em dia , n ão tanto o resultado da exata compreensão
do da cognição como uma força impulsionadora da pol ítica
melhor , a pol í tica como uma dimensão da cognição - n ão se transfor
mou em assunto acad ê mico. Pode-se compreender facilmente o signi-
— ou ,
-
de suas verdadeiras propriedades, por parte dos consumidores, mas de
preferê ncia o desfecho de uma batalha pol ítica velada contra o bom
senso. De fato, a presente estrutura de consumo neste pa ís, onde
ficado de expressões como política do petróleo, política de transporte massas enormes de pessoas são induzidas a acreditar que desejam (e,
e política da poluição, sem uma longa an á lise. Mas o significado de portanto, devem comprar ) aquilo de que n ão precisam , tomou se -
uma expressão como “ pol í tica cognitiva ” n ão se toma evidente sem vi ável - graças à prá tica da pol í tica cognitiva . O processo de educação
maior clarificação. Talvez uma razão que, logo de in ício, faça a expres- formal, igualmente, est á grandemente condicionado por esse tipo de
são soar como desconcertante, seja a de que est á na pró pria natureza -
pol í tica . Às vezes, indiv íduos e grupos dão se conta da pol í tica de
da pol í tica cognitiva a condição de ser obscura. N ão h á razões de cognição e é assim, por exemplo, que as mulheres, os negros e os
conveniê ncia , para aqueles que estão envolvidos na pol ítica do petr ó- chicanos, neste pa ís, já n ão est ão mais dispostos a aceitar as pró prias
leo, do transporte e assim por diante, em negarem o fato, mas essa imagens tal como t ê m sido tipicamente representadas.
hipó tese n ão vale para aqueles que, consciente ou inconscientemente, A pol í tica cognitiva é uma parte fundamental das estruturas
est ão envolvidos na pol ítica cognitiva , cujo objetivo é afetar a mente organizacionais formais, de todas as categorias e de todos os tamanhos.
Cada organização formal tem seu jargão específico, que constitui
2 Veja també m McClelland & Winter ( 1969).
importante dispositivo de prote ção e estabilização, e que cont é m um
90 91
certo conjunto de regras t ácitas de cognição, ou definições da realida - ciedade centrada no mercado; b) a definição do homem como um de -
de transmitidas a seus membros no processo de socialização. tentor de emprego; c) a identificação da comunicação humana com a
Alé m disso, as atuais organizações t ípicas da sociedade de mer- comunicação instrumental.
cado são, necessariamente, falsas e mentirosas. Est ão fadadas a enga-
nar ao mesmo tempo seus membros e seus clientes, induzindo-os, no 5.3 Uma visão paroquial da natureza humana
n ível micro, n ão apenas a aceitar como desejá vel aquilo que produ -
zem , mas també m , no n ível macro, a acreditar que existem e funcio-
nam por um interesse vital da sociedade como um todo. Hoje em dia
Os teóricos e os praticantes da organização foram, inconsciente - oV
mente , capturados no dom ínio da pol í tica cognitiva , por se permiti-
\nr
\
as organizações desempenham um papel ativo e sem precedentes no rem a formulação de conceitos e mé todos, bem como a implementa-
processo de socialização do indiv íduo, tentam transformar-se na
sociedade. E, ao que parece , tê m a capacidade de fazer isso, porque
ção de estratégias e planos gerenciais que aceitam, sem maiores expli -
cações, o mundo organizacional imediato.
são, elas pró prias, poderosos sistemas epistemol ógicos e , presentemen
te , n ão sofrem restrição alguma quanto à influ ê ncia que exercem sobre
- Esse tipo de orientação pré-anal í tica é particularmente evidente
no est ágio hist órico inicial da ciê ncia da organização. Frederick W.
os cidad ãos, através do exerc ício da pol í tica cognitiva. Taylor, o fundador da administração cient ífica , aceita o conjunto de
\ Nas sociedades pré -industriais, as organizações formais tinham exigê ncias psicol ógicas do sistema de mercado como algo equivalente
pouca participáção no processo de socialização do indiv íduo. Na reali- à natureza humana. As normas que prescreve para a motivação das
dade, nessas sociedades os costumes e as tradições, sob cuja influ ê ncia pessoas no ambiente de trabalho baseiam-se na presunção de que
o homem adquiria uma visão particular do mundo e os padrões do competição, c álculo, interesse pelo ganho e caracter ísticas puramente
correto comportamento, estavam , de modo geral , livres do planejado económicas desse tipo resumem a essê ncia da natureza humana. O
condicionamento de sistemas formais artificiais. A pessoa aprendia a car á ter fict ício dessa noção de natureza humana é, por si mesmo,
tomar-se membro da sociedade através da participação numa porção demasiado evidente para merecer uma longa discussão. Dados hist ó ri -
de grupos que em geral não tinham o cará ter instrumental das organi- cos e antropol ógicos, agora facilmente dispon íveis, demonstram que
zações formais, como hoje as conhecemos. Mais ainda , em nenhuma somente na sociedade industrial moderna , graças a imperativos institu -
sociedade anterior à sociedade industrial , as organizações de cará ter cionais, foi o indiv íduo induzido a comportar -se como um ser econ ó-
económico jamais assumiram papel central e deliberado no processo mico. De modo geral , nas sociedades pré-industriais, os determinantes
de socialização. Essa circunst â ncia é caracter ística da sociedade centra- económicos da conduta humana nunca tiveram a primazia institucio-
da no mercado, sobretudo em seu est ágio industrial mais recente. 3 nal que assumiram na sociedade centrada no mercado. Al é m disso,
Nos dias de hoje, o mercado tende a transformar-se na força Taylor considerava a administração cient ífica e seus correlativos de
modeladora da sociedade como um todo, e o tipo peculiar de organi- motivação como um dado de referê ncia para o planejamento n ão
zação que corresponde às suas exigê ncias assumiu o car á ter de um apenas de ambientes de trabalho, mas també m da fam ília , das escolas
paradigma , para a organização de toda a existê ncia humana. Nessas cir - e de toda a vida social . Em outras palavras, via a tessitura global da
cunst âncias, os padrões do mercado, para pensamento e linguagem , sociedade como uma ampliação do dom í nio do mercado.
tendem a tomar-se equivalentes aos padr ões gerais de pensamento e O tailorismo é hoje apresentado na literatura como um est ágio
linguagem ; esse é o ambiente da pol í tica cognitiva. A disciplina orga- hist órico encerrado, da ciê ncia da organização. Mas a definição do
nizacional ensinada nas escolas e universidades n ão é um saber cr í tico homem como um ser económico, atenuada e disfarçada como frequen-
consciente dessas circunst âncias. É assim ela pró pria uma manifestação temente o é, continua a determinar as ações dos planejadores organiza-
do sucesso da pol í tica cognitiva. cionais e dos formuladores de pol í ticas. O arcabou ço macroinstitu -
Nos parágrafos seguintes tentarei fundamentar este argumento, cional da sociedade centrada no mercado é controlado por diretrizes
examinando três pressupostos, n ão articulados até agora da disciplina baseadas nessa definição do homem . A ciê ncia económica estabelecida
organizacional dominante, que são: a ) a identificação da natureza constitui ainda a fonte principal de onde emanam as pol í ticas estrat é-
humana , em geral , com a síndrome de comportamento inerente à so- gicas dos governos. Para ter sucesso nesse tipo de sociedade, de acordo
3 Na Inglaterra dos Tudors e Stuarts - diz Peter Laslett - “ os adultos n ão 4 Dados de apoio a esta afirmação são encontrados , por exemplo , nos trabalhos
sa íam de casa para trabalhar ” e “ a vida institucional era quase desconhecida ”
( Laslett , 1965 , p. 11 ). (1971 ) c Sahlins, Marshall ( 1972 ).
-
de Thumwald , Malinowski , Firth , Lowie , Radcliffc Brown . Veja Polanyi , Karl

92 93
com suas regras de recompensa e castigo, e seus crité rios gerais de alo- dimentos, mas a sociedade assegurava a trabalhadores e a outras
-
caçã o de mão-de obra e recursos, o indiv íduo tem que se programar
como um ser económico. —
pessoas mulheres, gente jovem abaixo da idade de trabalhar, assim
-
como alguns poucos cidad ãos que n ão queriam ser empregados,
As pol í ticas dos governos tornam-se agora inoperantes, já que muitos campos em que os mesmos podiam perseguir objetivos existen-
são cada vez mais obstru ídas por dificuldades biof ísicas de produção e ciais independentes das pressões organizacionais. Por assim dizer, uma
de alocação de recursos, que a economia t ípica sistematicamente negli- fronteira imaginá ria e, contudo, existencialmente real , separava clara-
gencia, ou alega levar em conta no contexto de sua estrutura conven - mente a arena das organizações económicas formais de outros sítios,
cional como variá veis exógenas. Por exemplo, fenômenos como a em que variados tipos de esforço humano podiam seguir livremente
inflação e o desemprego já n ão reagem às diretrizes convencionais dos seu curso lógico de desenvolvimento. Significativamente, no decorrer
governos, principalmente porque o cen ário econ ómico normativo que desse per íodo, a poupança foi acentuada de modo enf á tico na vida
essas diretrizes pressupõem n ão combina com as circunst â ncias concre-
tas do mundo. Não é de admirar que os economistas tradicionais rea-
americana. Por si só, essa circunstâ ncia impeliu os cidadãos a se ocupa -
rem de atividades autogratificantes que envolviam a aplicação de seu
> jam a tal situação com espanto.5 Infelizmente , embora um modelo de potencial como seres humanos, sem o desenfreado consumo de merca -
formulação de diretrizes, sens ível às limitações biof ísicas de produ ção dorias e, por conseguinte , o gasto irrefreado. Quando se queria econo-
e de alocação de recursos, tenha recentemente atingido alto grau de mizar, ficava-se em casa e cuidava-se de exercer atividades dentro de
coerê ncia teórica e viabilidade pr á tica , ainda é a economia convencio- casa e ao ar livre, e descobria-se a alegria de fazer direta e livremente as
nal que constitui o ensinamento ministrado nas instituições acadê mi- coisas. As organizações formais eram discretas e conscientes de seus
cas e que fornece as principais diretrizes para a modelagem das socie- limites, mantendo-se dentro de um contexto delimitado do conjunto
dades ocidentais. do espaç o vital dos cidad ãos. Poder-se- ia dizer que, durante esse per ío-
Desde o advento da chamada escola de relações humanas, nos do, o consumidor neste pa ís ainda gozava de alto grau de soberania no
ú ltimos anos da d écada de 20, e mesmo em nossos dias, um n ú mero sistema de mercado. Existia na fam ília importante reservat ório de
cada vez maior de te ó ricos e praticantes da ciê ncia da organização “ competência artesanaT ( Leiss, 1976), que habilitava o cidadão a
afirma adotar enfoques humanistas no planejamento organizacional. produzir consider ável quantidade de bens que ele n ão encontrava
No entanto, quando se examina cuidadosamente esse humanismo, dispon íveis ou vantajosos para comprar. Sendo assim, o mercado
descobre-se que é falso, visto como seus representantes, de modo precisava ter sensibilidade, relativamente à capacidade artesanal substi-
geral , são desprovidos de uma compreensão sistem á tica do espectro de tutiva do cidad ão, de maneira a poder planejar sua linha de produ ção.
requisitos contextuais que a prá tica do humanismo deveria levar em O surgimento da chamada escola de relações humanas, nos últi-
conta. Em outras palavras e generalizando, esses chamados humanistas mos anos da d écada de 20 e sua r á pida expansão nas décadas seguintes,
permitem-se a prá tica da colocação inapropriada de conceitos, t ópico reflete uma transição na economia americana. Em proporção exponen -
que foi discutido analiticamente no cap í tulo 4 deste livro. cial , as atividades das organizações económicas formais aumentaram e
É significativo e , afirmo eu , n ão é acidental que a difundida voga se foram diferenciando, passando dessa maneira , cada vez mais, a
das abordagens humanistas da administra ção tenha coincidido com a ocupar todo o campo do espaço vital dos cidad ãos. A ê nfase da econo-
fase em que este pa ís se transformou numa sociedade organizacional. mia americana de hoje já não se faz sobre poupar , mas sim sobre
Vamos fazer uma pausa para entender esta expressão. È certo dizer gastar. 1 A m ídia, dirigida cada dia mais pelas organizações econ ómicas
que , nas décadas em que foi aclamada a administração cient ífica, este
pa ís não constitu ía ainda uma sociedade organizacional.6 As pessoas
7 Projetos de pesquisa de motiva ção foram largamentc encorajados, nesse per ío
do. Whyte cita um “ pesquisador de motiva ção ” dessa é poca , Ernest Dichter:
-
procuravam as organizações formais, para trabalhar e receber seus ren - “ Estamos agora diante do problema de permitir que o americano médio se sinta
virtuoso quando está namorando, mesmo quando está gastando, mesmo quando
5 “ Nós, economistas * * - diz Linton Friedman , em 1972 , “ temos
- reclamado n áo está economizando , mesmo quando tira fé rias duas vezes por ano e quando
mais do que podemos dar .’* Na realidade , ele estava repetindo Arthur F. Bums, compra um segundo ou terceiro carro. Um dos problemas fundamentais dessa
antigo presidente do Conselho da Reserva Federal ( Federal Reserve Board ), que prosperidade , portanto, consiste em dar às pessoas a san ção e a justifica ção para
disse, em 1971: “ As regras da economia náo estáo funcionando exatamente co - -
gozá la e para demonstrar que a abordagem hedonista de suas vidas é moral, e
. -
mo costumavam funcionar ” Apud Henderson ( 1978, p . 63 4 ). n ão imoral ** ( Whyte , 1954 , p. 19 ). O Triumph of mass idols, de Leo Lowcnthal ,
6 Veja , por exemplo , o capítulo 3, No rumo da sociedade organizacional, em
oferece interessante estudo sobre a maneira pela qual a transição de uma econo -
mia de produ ção para uma economia de consumo sc refletiu na cultura popular
Presthus (1965 ). americana ( 1968 ).
94 95
formais, introinete-se no espaço vital particular dos cidadãos e os
induz a diversificarem suas necessidades e a exprimi -las em termos t ão serviços que apenas servem para destruir gradativamente o senso que
espec íficos que, somente através da aquisição de mercadorias espec í- tê m os cidadãos de suas necessidades genu ínas, pessoais. N ão questio -
ficas, podem as mesmas ser satisfeitas. Através desse processo, o nam eles, explicitamente , o car á ter geral desumanizador e enganoso
cidad ão est á fadado a perder sua competê ncia artesanal , a força de que da estrutura de emprego da sociedade centrada no mercado, que em si
dispunha para afetar as linhas de produção do mercado. A nação trans- mesma não permite uma coerente prá tica do verdadeiro humanismo.
formou-se numa sociedade organizacional e a pessoa humana num Os esforços que fazem tendem a ser fragmentários, e proporcionadores
homem de organização. O produtor tornou -se soberano no mercado e de “ remendos” e , assim , n ão vêem a floresta porque se preocupam
-
o ator principal no processo de alocação de m ão-de obra e de recursos.8 apenas com as á rvores. Há ind ícios de que nem todos os intervencio-
O registro dessa transformação tem sido feito por v á rios analis- nistas são totalmente insensíveis à sí ndrome psicol ógica inerente à
tas e há notá vel concord â ncia quanto ao fato de que o enredamento sociedade organizacional. Por exemplo, num livro de sucesso, significa-
existencial do cidad ão americano processa-se através de um ambiente tivamente intitulado Up the organization , how to stop the corporation
social excessivamente projetado, no qual quase nenhum segmento de from stiffling people and strangling profits, Robert Townsend propõe
seu eapaç o vital é deixado livre para objetivos pessoais aut ónomos. uma estratégia administrativa “ tipo guerra de guerrilha n ão-violenta ” ,
Naturalmente é absurdo afirmar que os estudiosos pertinentes ao visando “ desmantelar nossas organizações na parte em que nós esta -
campo da disciplina administrativa ignoram ou negligenciam as contri- mos servindo a elas, e deixando apenas as partes em que elas estão ser-
buições desses analistas, mas a verdade é que esses estudiosos n ão vindo a n ós” (Townsend , 1970, p. XII ). Considera ele os 80 milhões
parecem ter uma compreensão teoricamente refinada e sistemá tica das de cidad ãos que est ão realmente exercendo empregos como “ casos
implicações organizacionais do ambiente social contempor â neo, todo psiqui á tricos” (Townsend , 1970, p. 121 ), e explica.
ele demasiadamente projetado. Os teó ricos e os praticantes de nossos
dias tendem, na realidade, a legitimar a expansão das organizações de ‘Tomamo-nos uma nação de office boys. Corporações gigantescas . ..
-
car á ter econ ómico para al é m de seus limites contextuais específicos, e agê ncias gigantescas . . . cresceram como câncer, até ocuparem qua-
pondo em prá tica um humanismo erróneo e mal colocado. Através de se todo o espaço vivo de trabalho. Como os clé rigos do tempo de
estrat é gias integracionistas , isto é , mediante estratégias que visam a Anthony Trollope , n ão somos sen ão mortais treinados para servir a
integra ção de metas individuais e organizacionais, esforç am-se eles instituições imortais ... Esse n ão é o nosso estado natural (Townsend ,
para transformar as organizações econ ómicas em sistemas sociais de 1970, p . XII ).
tipo doméstico.9 Dessa maneira , entregam-se à prá tica da pol í tica
cognitiva , pela qual temas como o amor , a auto-atualização, a con - O fato de que o livro de Townsend se transformou no best -
fian ça básica , a franqueza , a desalienação e a autenticidade são trazi- seller n ú mero um , quando foi publicado em 1970, e permaneceu sete
dos para o â mbito da organização convencional , ao qual tais temas só meses na lista de livros mais vendidos do New York Times, mostra que
incidentalmente pertencem . Pontos fundamentais da vida intersubje- milhões de cidad ãos t ê m consciê ncia da armadilha existencial em que
tiva são, em consequê ncia , conceptualizados erradamente e a tentativa se encontram na sociedade industrial contemporâ nea e est ão abertos a
de situ á- los no terreno das organizações econ ómicas é , teoricamente, alternativas. Sua inclinação psicol ógica a achar alternativas para a pró-
indefensável. pria situação pode significar que o momento agora é oportuno para o
Somente uma visão acr í tica das metas organizacionais e da moti
va ção humana pode explicar porque os intervencionistas humanistas
- surgimento de um novo paradigma de ciê ncia organizacional. Uma das
tarefas essenciais dessa nova ciê ncia consiste na conceptualização da
se sentem à vontade em suas tentativas, por exemplo, de minimizar a variedade de objetivos básicos e de seus correspondentes sistemas espe -
alienação em f á bricas de alimentos para bichos de estimação ; de me - cíficos, de que as organizações económicas formais são um caso a um
lhorar a cultura humana em complexos industriais poluentes e destrui - limite. Quer dizer , é essencial libertar a concepção de natureza huma -
dores dos recursos naturais; de aumentar a eficiê ncia de corporações na e dos objetivos à mesma relacionados das prescrições impostas pela
especializadas em fornecer ao pú blico mercadorias desnecessá rias e sí ndrome comportamentalista, e desenvolver os enfoques operacionais
necessá rios ao planejamento, à implementação e ao est ímulo de
8 Veja Galbraith ( 1970 ).
empreendimentos diversos e na conformidade das metas peculiares a
9 Veja , por exemplo , Argyris , Chris (1973, 1973* e 19736 ). cada um deles.
% 97
5.4 O alegre detentor de emprego, vítima patológica da sociedade corporação em seu trabalho ao papel representado por um artista num
centrada no mercado palco. Enquanto o bom ator se projeta em seu papel , o executivo
-
eficiente esconde set em situações id ê nticas. Esse contraste, entre
Uma dimensão básica a demonstrar o car á ter da disciplina orga- revelação e ocultação, é instrutivo:
nizacional contemporâ nea como exemplo de pol ítica cognitiva é seu
inadequado pressuposto de que os ambientes formais de trabalho são “ O ator deve interpretar o papel em termos de sua própria persona -
apropriados para a atualização humana. Essa noção é claramente lidade. Ele se introduz no personagem , em vez de simplesmente
desautorizada por qualquer um que esteja em dia com a literatura ‘representar’ o papel. Ao contrário, as normas e o protocolo ( na
competente sobre a natureza da sociedade de mercado. Pode-se dificil - companhia ) nos ensinam a representar nossos papéis com uma deso-
mente admitir que um responsá vel especialista em organização se per- nestidade intr í nseca . Assim como o ator se derrama no papel que
mita ignorar aquilo que Max Weber escreveu sobre as peculiaridades desempenha , o executivo ( da empresa ) extrai de seu papel a pró pria
hist óricas da sociedade de mercado e sua repercussão sobre a estrutura individualidade ” ( Harrington , 1959, p. 144).
de emprego. De fato, Max Weber salientou que, comparada às socieda - Os atos que o indiv íduo pratica em sua qualidade de detentor de
des a que sucedeu , a sociedade de mercado constitui uma configuração um emprego são de import ância secund ária , relativamente à sua verda-
histó rica particular precisamente porque n ão pode funcionar de deira atualização pessoal. Se uma pessoa permite que a organização se
maneira eficaz a menos que o desempenho do indiv íduo, como mem - tome a referê ncia primordial de sua existê ncia, perde o contato com
^ bro dos ambientes de trabalho, tenha cará ter impessoal . Os sistemas
sociais adequados ao desempenho pessoal nos ambientes profissionais, dade fabricada. Os sistemas planejados, como as organizações formais,
-
sua verdadeira individualidade e , em vez disso, adapta-se a uma reali

tanto quanto ao tratamento personalizado de seus clientes, retardam tê m metas que, só acidental e secundariamente, consideram a atualiza-
o advento e o desenvolvimento do sistema de mercado. Weber insi-
nuou , por exemplo, que uma das raz ões pelas quais a Alemanha de
ção pessoal . Verdadeiros atualizadores são os agentes capazes de ma
nobrar, no mundo organizacionalmente planejado, de modo a servirem
-
seu tempo estava atrasada, em relação à Grã-Bretenha e a outras aos objetivos desse mundo com reservas e restrições mentais, sempre
nações da Europa ocidental , era a de que sua estrutura administrativa deixando algum espaço para a satisfação de seu projeto especial de
ainda estava contida dentro do tipo patrimonialista de trabalho carac- vida. Há , portanto, uma tensão contínua entre os sistemas organiza-
ter ístico dos sistemas sociais feudais do passado. Modernizar a cionais planejados e os atualizadores, e afirmar que o indiv íduo deve-
Alemanha — —
queria ele dizer equivaleria a acelerar a formação de
um mercado nacional alem ão e, portanto, a desmantelar o tipo feudal
ria esforçar-se para eliminar essa tensão, Chegando assim a uma condi-
ção de equil íbrio orgânico com a empresa (exemplo de pol ítica cogni-
de estrutura administrativa. As afirmações de Weber tê m sido objeto tiva que uma psicologia motivacional defende, em bases supostamente
de um grande n ú mero de restri ções, mas a essê ncia de sua an á lise da cient íficas), corresponde a recomendar a deformação da pessoa huma-
modernização como sin ónimo de desenvolvimento da sociedade de na. Somente um ser deformado pode encontrar em sistemas planeja-
mercado ainda é verdadeira , sem restrição alguma. dos o meio adequado à própria atualização.
Numa sociedade de mercado, o empregado eficiente deve ser um O atual humanismo integracionista das organizações toma por
ator despersonalizado. Espera -se dele que acate as determinações base uma concepção sociomórfica da atualização humana, e, pois,
impostas, de cima para baixo, e que definem o papel que tem que opõe resistê ncia ao reconhecimento do fato de que a psique humana
desempenhar. Um traço de sua patologia normal é aquilo que Dewey contenha qualquer elemento substantivo que não seja interiorizado
chamou de ‘‘psicose ocupacional ” , resultante de uma aceitação acr í- mediante o processo de socialização. Essa concepção do integracionis-
tica das determinações referentes a seu papel profissional ( Merton , ta humanista é indefensável, diante da consequente patologia dos pró-
1967, p. 198). Como assinalou Robert Merton , o empregado está prios sistemas sociais. Uma concepção oposta , isto é , uma perspectiva
destinado a conformar-se a um “ comportamento esteriotipado” , que real centrada no indiv íduo, toma-se necessária para que se adote um
“ n ão se adapta às exigências dos problemas individuais” ( Merton , enfoque cl í nico de tais sistemas. Do ponto de vista de uma psicologia
1967, p. 202).
Vamos fazer uma pausa, a esta altura, e prestar atenção a uma

desse tipo, centrada no indiv íduo, “ o homem é doente não apenas o
neurótico ou psicótico, mas igualmente aquele que é chamado de
narração autobiográ fica do executivo de uma corporação. O livro, homem ‘normal * - porque esconde o seu eu real na transação com os
Life in the Chrystal Palace, contrapõe o desempenho do membro da outros, (e) equipara os papé is que desempenha nos sistemas sociais à

98
99
própria identidade e tenta negar a existê ncia de tudo aquilo do eu real dade assim , n ão ser detentor de um emprego corresponde a n ão ter
que não tem import ância para o papel desempenhado” (Jourard ,
1964, p. 60-1).
O conceito sociom ó rfico da psique humana despoja o indiv íduo

valor e mesmo a n ão existir.
N ão obstante , a noção de emprego, como a conhecemos, é t ão
recente que o dicion á rio Webster ainda a considera um coloquialis-
de seu desejo de significação. Na realidade , o indiv íduo confere signifi- mo.10 No ingl ê s do per í odo coberto pelos séculos XII a XVI , jobbe,
cação a sua vida quando tal significação, primordialmente, resulta da
atualização de suas potencialidades pessoais. Contudo, isto n ão quer —
raiz da palavra moderna job - emprego queria dizer um pedaço , ou
um monte , e nada tinha em comum com a ocupação de qualquer
dizer que , ao atualizar-se , possa o indiv íduo dar plena expansão a suas
cargo especificado de uma organização formal. Antes do advento da
compulsões psicológicas e deva se permitir a realização indiscriminada
de suas potencialidades. Na verdade , terá ele até que lutar contra
sociedade centrada no mercado, o emprego nunca tinha sido o crité rio
principal para definir a significação social do indiv íduo, e nos contex -
muitas delas, se estiver decidido a alcan çar o objetivo pessoal sem par
de sua vida. A auto-atualização conduz o homem na direção da tensão tos pré- industriais as pessoas produziam e tinham ocupações sem
interior, no sentido da resistê ncia à completa socialização de sua
serem, necessariamente , detentoras de empregos. No plano estrutural
dessas sociedades, e desemprego como uma caracter ística de desocupa- ,
psique . H necessá rio que se proceda a uma cuidadosa caracterização do
conceito de auto-atualização, para que o mesmo não venha a justificar ção era inconceb ível ,11 já que as mesmas asseguravam uma fun ção
produtiva a qualquer pessoa que reconhecessem como um de seus
a incapacidade do indiv íduo de viver a tensão inerente à sua existê ncia.
membros. Em tais sociedades, o que poderia se assemelhar ao desenv
O conflito entre o indiv íduo e os sistemas sociais projetados é prego em massa de nossos dias era , antes, resultado esporá dico de
permanente e inevitável, e só pode ser eliminado pela morte do ser acontecimentos perturbadores, como as secas, as guerras, as rixas entre
humano ou por sua paralisia , mediante exagerada adaptação às condi
ções sociais exteriores. Alé m disso, a auto-atualização individual é , na
- fam ílias, ou as pragas. O fato de pertencer a essas sociedades, por si só,
dava ao indiv íduo a possibilidade de estar livre de morrer de fome. A
maior parte das vezes, uma consequência n ão premeditada de in ú me- morte pela fome só aconteceria como um fen ómeno coletivo, causado
ras ações. Paradoxalmente , constitui uma verificação posterior ao fato, por uma cat ástrofe natural ou social , que afetaria todos os membros
em vez de ser t ópico garantido de uma agenda. Quanto mais se preo-
,
da sociedade .
-
cupa o homem , de maneira expl ícita, com a auto atualização, tanto Como reconhece Adam Smith, a sociedade de mercado transfor -
mais se vê colhido no emaranhado da frustração existencial . ma o homem , necessariamente , num detentor de emprego : “ Onde uma
vez se estabeleç a a divisão do trabalho” , diz ele, “ todo homem vive
Falam- nos de um dom ínio profundo da pessoa humana , intoca-
do pelo processo da socialização, n ão apenas psicólogos como Jung, numa base de troca ou, de alguma forma , toma-se um comerciante, e a
Laing, Progoff e outros, mas també m outras pessoas que se atrevem a pr ó pria sociedade passa a ser aquilo que constitui , de fato , uma socie-
penetrar nesse dom ínio - indiv íduos criativos, poetas, m ú sicos, nove- dade comercial ” ( Smith , 1965, p. 22 ). Na sociedade que conceitua
listas, artistas de muitos tipos, até mesmo loucos. O indiv íduo que a como sendo comercial , o indiv íduo só pode garantir a si mesmo os
psicologia sociom órfica motivacional enfoca é aquele para quem o bens e serviços de que necessita através do exerc ício de um emprego.
mundo social representa o ú nico centro de experiência. Ele é provido Exercendo o emprego , recebe um sal á rio, um certo montante de
de ego, mas perdeu a consciência de sua individualidade, onde est ão dinheiro, com que compra aquilo que lhe seja possível comprar. Nesse
adormecidas realidades imencion á veis ( Laing, 1968, p. 133- 58). tipo de sociedade , fica sem ocupação, no sentido antigo e primitivo.
Exatamente no momento em que Adam Smith escrevia A Riqueza das
A psicologia sociom órfica motivacional utilizada e depois perpe- nações, ainda podia ver, na Inglaterra, á reas intocadas pelo sistema de
tuada pela disciplina organizacional existente é , ela pró pria , um aspec
to da síndrome comportamentalista inerente à sociedade centrada no
- mercado, mas lamentava o fato de que “ quando o mercado é pequeno,
ningu é m pode ter est í mulo para se dedicar a uma ú nica ocupação”
mercado. Avalia a normalidade e a qualidade do indiv íduo de acordo (Smith , 1965, p. 17 ), como o carregador, numa grande cidade , onde o
com a função que ele exerce como detentor de um emprego. É um ) mercado é ubíquo. Escreve ele :
tipo de psicologia que n ão transcende um episódio histórico peculiar ,
já que somente na sociedade centrada no mercado, pela primeira vez , “ Nas propriedades isoladas e nos vilarejos muito pequenos, espalha-
os empregos passaram a ser a categoria dominante - sen ão a exclusiva

100
para reconhecimento do valor dos propósitos humanos. Numa socie -
10

11
.
Veja dc Grazia ( 1964 , p. 51 )
Veja Schumpeter ( 1974 , p . 270 ). Veja també m Garraty ( 1978 ).

101
dos por uma região tão deserta quanto os altiplanos da Escócia, para se ter uma visão adequada da natureza dessas realidades, será ú til
cada granjeiro tem que ser açougueiro, padeiro e cervejeiro de sua
12
distinguir entre bens e serviços, primaciais e demonstrativos. Os pri -
pr ó pria fam ília. Nessas situações mal podemos esperar que haja um meiros são aqueles que atendem às limitadas necessidades biof ísicas de
ferreiro, um carpinteiro ou um pedreiro distante menos de trinta qui- alimento, abrigo , vestu á rio, transporte e de serviços elementares que
lómetros de outro irm ã o de of ício. As fam ílias dispersas, que vivem a ajudam o indiv íduo a se manter como um organismo sadio e um
uma distância de 10 ou 15 quilómetros umas das outras, precisam membro ativo , no funcionamento da sociedade. Bens e serviços de-
aprender a executar , elas mesmas, um grande n ú mero de pequenos monstrativos são aqueles que visam , principalmente , a satisfação dos
trabalhos, para os quais, em regiões mais populosas, poderiam pedir a desejos que tê m os indiv íduos de exprimir seu n ível pessoal , relativa -
colaboração desses trabalhadores. Os homens que trabalham no mente à estrutura de status, sendo seus desejos concebidos em termos
interior sã o, em quase toda parte , obrigados a se dedicarem a todos os sociais e ilimitados.
diferentes tjpos de atividades que tenham suficiente afinidade umas Em retrospecto, pode ser justificada a visão que Smith tinha do
com as outras para poderem ser executadas com o mesmo tipo de desenvolvimento da sociedade de mercado como um processo civiliza -
material. Um carpinteiro de roça faz todo tipo de trabalho que seja t ó rio. Enquanto o mercado permaneceu confinado ( tal como em todas
executado com madeira ; um ferreiro de roça, toda espé cie de trabalho -
as sociedades pr é industriais ), o fornecimento de bens e serviços pri-
maciais constituiu a meta essencial do sistema de produção. Em tais
feito com ferro. O primeiro n ão é apenas um carpinteiro, mas també m
um montador, um marceneiro e at é um entalhador , do mesmo modo sociedades, a produtividade da forç a de trabalho era baixa e apenas
que um fabricante de rodas, de arados, ou um construtor de carroças e uma minoria dominante era capaz de se ocupar de atividades de natu -
carruagens. As ocupações do segundo são ainda mais variadas. É reza civilizat ó ria. O desenvolvimento do sistema de mercado traria , em
imposs ível a existê ncia de um of ício até mesmo como o de fabricante ú ltima an á lise , a abund â ncia e , portanto, uma estrutura social mais
de pregos, nas zonas remotas e interioranas dos altiplanos da Escócia. justa , pelo fato de libertar a forç a do trabalho do peso de atividades
Um oper á rio desses, produziria 1.000 pregos por dia e, nos 300 dias enfadonhas. Semelhante justificação post hoc do desenvolvimento da
ú teis do ano , faria 300 mil pregos por ano. Mas, em tal situação, seria sociedade de mercado foi articulada sistematicamente por John Stuart
imposs ível utilizar 1.000 deles, quer dizer, o resultado de um dia de Mill : “ O efeito legí timo" da sociedade de mercado - infere ele - é a
-
trabalho por ano” (Smith , 1965 , p. 17 8). “ diminuição do trabalho” . Em algum est á gio , no desenvolvimento da
Portanto, a economia clássica foi concebida por seus criadores sociedade de mercado, qualquer “ aumento de riqueza ” seria um
como uma disciplina que encara o emprego formal como o crit é rio “ adiamento ” de uma “ melhor distribuição” de bens e serviços e , nessa
-
primordial para a alocação de recursos e de m ão de-obra. Smith via conformidade , afirmou :
essas regi ões da Inglaterra como um obst áculo à civilização. Estar-se-ia
servindo à civilização se se permitisse a expansão do mercado, na “ Confesso que n ão estou encantado com o ideal de vida defendido
Inglaterra , eiiminando-se qualquer possibilidade de perman ê ncia de pelos que acham que o estado normal dos seres humanos é o de
tipos como o carpinteiro de roç a e o ferreiro de roça , que ele descreve lutarem para ganhar a vida ; que espezinhar o pr óximo, esmagá -lo,
com nuanças pejorativas. N ão havia razão para preocupações com o -
acotovelá lo e caminhar um grudado nos calcanhares do outro - como
choque da expansão do mercado sobre a vida do carpinteiro de roç a e se constitui hoje o tipo de vida social , seja o que mais se pode desejar
do ferreiro de roça, que n ão estavam treinados para agir como deten - para a humanidade , ou que seja algo mais que sintomas desagrad á veis
de uma das fases do progresso industrial. ” 1 3
tores de emprego. Com o tempo, aprenderiam os of ícios necessá rios
para se tomarem parte do tipo de força de trabalho que estava emer - Essa explicação retrospectiva do desenvolvimento da sociedade
gindo, e a lei da oferta e da procura proporcionaria emprego para
todos os indiv íduos que estivessem dispostos a trabalhar . Smith, do de mercado traz nova luz à interpretaçã o de acontecimentos caracte-
mesmo modo que os economistas clássicos em geral , n ão concebia o -
12 Devcr sc-ia compreender que tal distin ção pretende evitar o uso da classifica -
desemprego involuntá rio. E, em regra , esse pressuposto foi confirmado ção das atividades dc produ ção como primárias, secundá rias e terciárias, coisa
pelos fatos, durante, mais ou menos, os primeiros 150 anos da socie- corrente nos manuais dc economia. A noção que tenho de bens e serviços de -
dade de mercado. monstrativos reflete o conceito de Duesemberry sobrz efeitos de demonstração ,
Contudo, no presente sistema econ ómico do Ocidente, há reali- embora se assemelhe ao que Fred Hirsch ( 1976 ) chama bens “ de posição *' .
dades que Smith e os economistas cl ássicos n ão poderiam prever e, 13
-
Esta e outras cita ções de J .S. Mill foram tiradas de Daly ( 1973, p. 12 3).

102 103
r ísticos da hist ó ria econ ómica contemporâ nea. Pode-se argumentar , novo ficando incapaz de proporcionar empregos para todos os que
por exemplo, que a Grande Depressão, nos EUA , foi uma indicação desejam trabalhar . Isso se transformou numa tend ê ncia estrutural
de que , neste pa ís, o sistema de mercado havia desempenhado seu
papel histórico. Paradoxalmente, a depressão n ão significou falta de
-
secular , que desafia qualquer sistema de pol í ticas econ ómicas, incluin
do aqueles de natureza keynesiana . Assim, por exemplo, no livro Work
capacidade para produzir bens primaciais suficientes para todos os in America, pode-se ler :
cidad ãos, mas resultou do baixo poder aquisitivo destes para compr á-
los. Exatamente quando a depressão ia come ç ar a aparecer, o presi- “ ... a própria economia n ão foi (capaz ) . . . de absorver o aumento
dente Hoover disse: “ Em breve, com a ajuda de Deus, estaremos vendo espetacular verificado no n ível educacional da força de trabalho. A
o dia em que a pobreza ser á banida desta nação.” 14 Em outras pala- expansão nos empregos nas á reas de pessoal , t écnica e de serviços de
vras, o mercado deste pa ís desenvolvera uma disponibilidade de capital escrit ório absorveu apenas 15% dos novos trabalhadores instru ídos; os
e uma log ística tecnológica capazes de produzir uma quantidade de restantes 85% aceitaram trabalhos anteriormente executados por
bens e serviços primaciais equivalentes às necessidades básicas da pessoas portadoras de menores credenciais.
população. Al é m disso , podia chegar a esse resultado sem exigir que Se as coisas continuarem como est ão, a disparidade entre a oferta
cada indiv íduo se transformasse no detentor de um emprego. Mas a e a procura de trabalhadores instru ídos provavelmente estará exacer-
mentalidade dos empresários e dos elaboradores da pol í tica econ ómica bada na próxima década. Cerca de 10 milh ões de diplomados de
oficial os impediu de compreender o conceito de emprego em outro n ível superior est ão previstos para entrar no mercado de trabalho
sentido que n ã o fosse o de um mecanismo para a distribuição de nesse per í odo, enquanto apenas 4 milhões de diplomados deixar ão a
renda , e isso, por sua vez , os levou à cren ç a de que n ão havia maneira forç a de trabalho, por aposentadoria ou morte. Isso quer dizer que
pela qual essa economia de bens primaciais proporcionasse ocupação haverá 2 vh diplomados competindo em tomo de cada um dos ‘bons’
para todos. empregos, para n ão mencionar os outros 350 mil doutorados que
Os economistas cl ássicos estavam conceptualmente desprepara - estar ão procurando trabalho” (OToole et alii , 1973, p . 135-6 ).
dos para compreender e superar essa crise. A revolu ção keynesiana
consistiu em socorrer a disciplina econ ómica e em resolver o impasse Afirmar que o car á ter psicologicamente disfuncional da estru-
do mercado, pela atualização através do dispê ndio, do potencial do tura de emprego.dominante nas situações industriais avan ç adas passou
mercado para produzir bens e serviç os de natureza demonstrativa. Sob despercebido dos estudiosos de organização n ão é inteiramente
essa nova condição, pôde o mercado proporcionar , outra vez, empre - exato, mas a teoria fundamental de semelhante disfuncionalidade e o
gos para todos, o que , por sua vez, aumentaria o poder de compra. choque que produz sobre a vida da totalidade dos cidad ãos t ê m sido
Deve -se notar poré m que Keynes concebeu o emprego como o crité rio lamentavelmente negligenciados. É fato que um anseio de personaliza -
essencial de distribuição de m ão- de -obra , sendo sua mente prisioneira ção constitui, agora , uma caracter ística preponderante do perfil psico-
do desenho social estrutural impl ícito nesse princ í pio de organização. l ógico dos cidad ãos e , ao darem not ícia dos resultados de um levanta-
Por essa razão, continuou ele sendo um economista cl ássico, e falhou mento de â mbito nacional, empreendido nos primeiros anos da presen-
na tarefa de produzir uma verdadeira “ teoria geral de emprego” , se te d écada, os autores de Work in America afirmam :
entendemos por emprego uma condição em que o indiv íduo pode
exercer uma atividade produtiva socialmente ú til , sem ser , necessaria-
mente , um item da folha de pagamento de uma empresa. É certo que “ Comparado com as gerações anteriores, o jovem de hoje quer me-
as pol í ticas econ ómicas de Keynes salvaram de fato o mercado e de dir seu aperfeiçoamento segundo um padrão que ele próprio esta-
fato reestimularam suas atividades, mas o keynesianismo foi apenas belece para si. ( É claro que existe muito maior grau de direçã o interior
um adiamento tempor á rio da crise , que prenunciava o fim da validade do que David Riessman teria predito duas d écadas atr ás.) O problema ,
hist órica da categoria de emprego como um princ í pio organizacional com a forma segundo a qual o trabalho est á hoje organizado, est á em
da produ ção. que ela n ão permitir á ao trabalhador a consecu ção de suas metas pes-
Nas sociedades de mercado, atualmente , apesar do fato de que a soais” ( OToole et alii, 1973, p. 51 ).
produ ção de bens e serviç os demonstrativos equivale , se é que n ão
A disciplina organizacional existente , ao que parece, també m é
excede , a produ ção dos bens e serviç os primaciais, o mercado est á de
sensível a essa tendê ncia , mas focaliza erradamente sua atenção sobre
14 Apud Hcilbroncr ( 1972 , p . 241 ). o atendimento da necessidade de personalização dos cidad ãos no
104 105
de produção despersonalizado. A deformaçã
o da pessoa humana ,
contexto dos ambientes de trabalho. Isso implica uma incompreensão imposta por essa transição, tem sido o preço psicol
ógico pago pela
duplamente errada. Primeiro, os teó ricos convencionais, ou os teó ricos criação da log ística da abund â ncia de bens primord
iais para todos.
e praticantes da ciê ncia organizacional n ão percebem que os pr ó prios Essa é a grande transformação , a ser creditada ao sistema de mercado.
empregos são incidentais, no processo de personalização ; segundo, ao Mais que qualquer outra coisa , um inciden te hist ó rico isolado prova
que parece , n ão levam em conta o fato de que a estrutura de emprego que essa grande transformação foi consegu ida . Tal incident e come ça
da sociedade avançada de mercado é cronicamente incapaz de propor- com a II Guerra Mundial e desdobr a -se atrav é s dos 30 anos subse -
cionar ocupação para todos os cidad ãos dispostos a trabalhar. quentes.
A queixa de que a estrutura empresarial oferece agora aos indi- O argumento é desenvolvido por H. F. William Perk. A II
Guerra
v í duos tarefas que n ão se destinam a lhes satisfazer as necessidades
de
Mundial ativou uma capacidade de produção sem precede
ntes siste-
no
esperar de uma abordag em imensa de
personalização é menos do que se poderia
ma industrial americano. Infelizmente, uma quantidade
verdadeiramente humanista do planejamento de sistemas sociais.
o em mais
O
o materiais e artigos de destruição foi produzida e entregue
ao consumi -
que os empreg os já n ã constitu dispend iosas
â mago da questão est á em dor , nas frentes de guerra . Esse esforço envolveu diversas
ú nico meio de engajar os indiv íduos em atividad es de produ
mercad
çã
o
o
,
social
a ocu
-
- operações, tais como embalagem , transporte , distribu içã o e suas com-
. O fato de que , na socieda de de úentemente , o
mente signific ativas
que o homem se torne plexas medidas administrativas correlacionadas. Subseq
pação de um empreg o é o ú nico caminh o para anos da d é cada de 40 até o
per í odo de guerra fria , que foi dos ltimos
ú
uma pessoa com significação social , tem que ser interpretado como final da de 50, introduziu a era do overkill - al é m do necess á rio para
um requisito funcional, temporá rio, para o desenvolvimento da log ís- matar - na qual nossa capacidade destruti va aumento u um milh ão de
tica capaz de produzir fartamente e para todos. Como serviç al dessa vezes. Durante esse per í odo , vimos tamb é m o aparecim ento de um
logística , o sistema de mercado não teria desempenhado sua missã
o ionar a abund â ncia
o se tomasse o princ ípio essen - sistema industrial n ão- militar , capaz de proporc
histórica sem que o conceito de empreg da pr á tica da
o. material. Prova desse fato est á em indicadores como o
cial da organização social da produ çã , a escalada
obsolescência pknejada de artigos para o consumidor
O sistema de mercado , em seu modelo ocidental, provou que intencional da demanda de bens supé rfluos de natureza
demons trativa ,
a produ ção de bens primaciais para todos é possível sem exigir que o envolvendo o engajamento de parte considerá vel da for ç a de trabalho ,

indiv íduo só possa subsistir como fator impessoal de produção. A taxa a admissã o do fato de que a capacidade produti va n ã o poderia ter
de produtividade do labor humano, nos sistemas pré-industriais, era 100% de utilização, sob pena do excesso de produção perturb ente
ar os
tão baixa que propósitos de lazer só podiam ser privil égio de poucos. termos convencionais do mercado, for ç ando a utiliza çã o insufici
Na medida em que a produção nessas sociedades n ão podia ser conce- da capacidade industrial combinada da Europa, URSS
e Japão para a
bida como objeto sistem á tico de conhecimento aplicado, o labor tinha produção de bens e serviç os primaci ais em abund â ncia .
que ser encargo da maioria do povo e tinha que ser justificado como ais poderia
uma questão de princí pio e como um fato da natureza. No entanto, Portanto, essa produ ção abundante de bens primaci , mas esse
ter sido empreendida pelo sistema log ístico ent
ão existente
nessas sociedades, o trabalhador estava a salvo de certos imperativos constitu i , em si mesmo , a necessária e indispen-
vexatórios, que recaem singularmente sobre o empregado hoje em dia. acontecimento n ã o
, efetivamente , afir-
Por exemplo , o trabalhador pré-industrial era privado de refinadas ati- sável condição para a grande transformação. Perk
vidades de lazer, mas era dono de si mesmo, n ão um fator de produção ma:
a ser tratado como mercadoria , e avaliado de acordo com a lei da Depressão que precedeu a
oferta e da procura . Seu trabalho deixava-lhe amplo espaço para pro- “ H á razão para se acreditar que a Grande
porque a possibilidade técnica da
pósitos através dos quais podia atualizar livremente seu potencial indi - II Guerra Mundial foi tão grave
m o controle do
vidual . Mesmo na Idade da Pedra , como a retrata Sahlins ( 1972), a abund ância já era iminente, e aqueles que detinha
essa condição" ( Perk ,
aflu ê ncia estava à disposição do indiv íduo. sistema industrial n ão sabiam como lidar com
O objetivo final do sistema de mercado era o de transformar a 1966, p. 362).
produ ção numa atividade cient ífica e de prover a sociedade de capaci- nova para uma
- O racioc ínio de Perk fornece uma referê ncia
dades de processamento de alta taxa de produtividade, simultaneamen keynesi anas , que foram
te liberando os homens do labor. No processo de consecução desse obje - reavaliação das pol í ticas econ ó micas, em geral Depress ão e que
formuladas e implementadas para superar a Grande
tivo, a sociedade dc mercado tinha que usar o homem como um fator
107
106
constituem , ainda mesmo em nossos dias, grande parte da sabedoria Simon , em seu livro Administrative behavior, publicado em 1947.
convencional do economista. Aparentemente , os formuladores de tais Afirma Simon :
pol í ticas econ ómicas n ão puderam compreender que , num est ágio em
que a abund ância de bens e serviços primaciais pode ser produzida a “ A comunicação pode ser formalmente definida como qualquer pro-
uma taxa inferior de envolvimento dos indiv íduos na estrutura formal cesso pelo qual as premissas decisó rias são transmitidas de um membro
de emprego, passa a ser necessá ria uma reinterpretação do papel hist ó- da organização para outro" (Simon , 1965 , p. 154).

rico do mercado isto é, uma reinterpretação pressupondo sua deli-
mitação, atrav és de novas normas pol í ticas, como um enclave incumbi- Considerando-se que Simon está sobretudo interessado nas orga-
do das atividades de natureza econ ómica, por excelê ncia. Ao invés nizações econ ómicas, tal afirmaçã o é realmente correta. Nas organiza-
disso, as pol í ticas de Keynes e de outros economistas com orientação ções econ ómicas, a comunicação entre as pessoas ocorre independen -
semelhante retardaram a delimitação do mercado, mediante a expan - temente daquilo que são como pessoas, e delas extrai informa ção que
são de suas linhas de produção e de suas atividades, levando-o dessa só é compreens ível sob premissas decisórias impostas. Em outras pala -
maneira a apossar-se da direção da pró pria estrutura social . vras, essa espé cie de comunica ção n ão é livre de imperativos externos e
A pol í tica cognitiva é uma dimensão inevitável dessa hipertrofia não serve como um ve ículo para a exposição autogratificante , pessoal
do mercado, e a teoria administrativa, aceitando a presente estrutura e subjetiva do indiv íduo. Simon esclarece suas definições como se
de emprego como um traço permanente da economia , falha em segue:
compreender a dif ícil situação organizacional dos cidadãos americanos.
“ Através de sua submissão a metas organizacionalmente estabeleci-
das e atravé s da absorção gradual dessas metas em suas próprias atitu-
5.5 A psicologia da comunicação instrumental des, aquele que participa da organização adquire uma personalida -
de de organização, bastante diferente de sua personalidade como indi-
A disciplina administrativa dominante deixa de perceber que no v íduo. A organização destina-lhe um papel : especifica os valores parti -
contexto das organizações econ ómicas a comunicação é essencialmen - culares, os fatos, as alternativas, segundo os quais devem ser tomadas
te instrumental , no sentido de que é planejada , de modo sistem á tico, suas decisões na organização" (Simon , 1965, p. 198).
para maximizar a capacidade produtiva. Em tais organizações, o pró-
prio indiv íduo é um recurso que deve ser empregado eficientemente. É clara a razão pela qual Simon nega, com propriedade , a possi-
A psicologia transforma-se numa tecnologia de persuasão para aumen- bilidade de auto-atualização no contexto das organizações formais.
tar a produtividade. Culpar as organizações de natureza econ ómica por Contudo, embora sua descrição das realidades organizacionais seja
serem incapazes de atender às necessidades do indiv íduo como um ser mais realista do que a que fazem seus oponentes humanistas, tal des-
singular é tão f ú til quanto culpar o leão por ser carn ívoro. Elas não crição tende a justificar a prá tica da pol í tica cognitiva. Até certo
podem agir de outra maneira e, já que sem as organizações econ ómicas ponto , o livro de Simon reflete o ambiente social deste pa ís no per í o-
a sociedade n ão poderia funcionar adequadamente , é preciso que as do subsequente à 11 Guerra Mundial , quando uma visão otimista e
mesmas sejam realisticamente compreendidas conforme são. A comu - acr í tica das fun ções da organização predominava. Assim , ao enfocar os
nicação substantiva, isto é , aquela que visa desvendar a subjetividade relacionamentos entre o indiv íduo e a organização, sua abordagem
de pessoas engajadas em permutas autogratificantes, é pouco tolerá vel inclina-se a favor da organiza çã o. Por exemplo, admite ele que “ o
em organizações econ ómicas. Nessa conformidade , admitir que a auto- empregado assina um cheque em branco, ao entrar na organiza ção”
atualização pode ser estimulada nos contextos económicos, como o (Simon , 1965 , p. 116 ). É certo, adverte , que “ a á rea na qual será
fazem os humanistas organizacionais, é incorrer em pol í tica cognitiva. aceita a autoridade da organização n ão é ilimitada ” (Simon , 1965,
p. 117 ). Mas sua compreensão de tais limites é deficiente. Apoiado em
De fato, semelhante pressuposto conduz à prá tica de t é cnicas ilusórias Barnard , ele vê o detentor do emprego como uma personalidade divi-
de aperfeiç oamento de pessoal, destinadas a facilitar a exposição com - dida, simultaneamente portador de uma “ personalidade de organiza -
pleta da subjetividade das pessoas, fora de contexto, isto é, no desem- ção” e uma “ personalidade particular" ( Simon , 1965, p. 204). Diz ele :
, os
penho de papé is de natureza instrumental . “ Quando as exigê ncias organizacionais ultrapassam [ seus limites ]
No dom ínio da teoria organizacional , uma das raras tentativas
para enfrentar o conceito da comunicação foi feita por Herbert *5 Veja a discussão entre Simon ( 1973 ) c Argyris ( 1973 ).
109
108
jJIBLIOTECA
pnrpfs
CENTRAL
I
motivos pessoais se reafirmam e a organização, nessa medida , deixa de intimidação e coerção” ( Lazarsfeld e Merton , 1974, p. 556 ). Preso
de existir ” ( Simon , 1965, p. 204 ). ao contexto dessa forma, o ambiente social , como um todo, tornou -se,
Contudo, a concepção de Barnard e de Simon , relativamente à ele pró prio, um ambiente mecanomórfico e, pela interiorização de
dupla personalidade do detentor de emprego, est á insuficientemente suas normas e exigências, o indiv íduo é induzido a se transformar , a si
caracterizada , apresentada em termos exageradamente mecanicistas e mesmo, num sistema mecanomórfico. Substitui por um jargão projeta -
pressupõe uma lealdade à organização que conduz, sejamos francos, do o senso comum e , inevitavelmente , perde a habilidade verbal de
a terr íveis consequê ncias sociais. Por exemplo, Barnard conta a hist ó- falar sobre n íveis profundos de sua psique, que resistem à expressão
ria de uma telefonista , t ão preocupada com a m ãe doente que aceitou , mediante signos mecanomórficos.
contra as pró prias inclinações, um emprego num lugar solit á rio, Herbert Simon n ão veria nada de extraordin á rio na presente
porque dali podia ver a casa em que estava a m ãe , em seu leito de
submissão passiva do indiv íduo ao ambiente social . Argumentando
enferma.- N ão obstante , quando chegou o dia em que a casa se incen - que existe apenas uma diferen ça de grau entre uma formiga e um
diou , ela observou o fato sem abandonar a mesa de ligações telef óni - homem, diria ele que, quanto ao indiv íduo, seu “ ambiente interior
cas. Barnard elogia a telefonista : “ mostrou extraordin á ria ‘coragem
pode ser muito irrelevante para (seu ) comportamento, relativamente
moral ’, poder íamos dizer, ao agir segundo o código de sua organização
ao ambiente exterior ” (Simon , 1969, p. 25). Na realidade, afirma ele:
- a necessidade moral de serviç o ininterrupto ” ( Barnard , 1948,
p. 269). É precisamente esse tipo de injustificada lealdade do empre - “ Uma formiga , encarada como um sistema de corhportamento, é bem
gado às organizações que , finalmente , as transforma em agê ncias de simples. A aparente complexidade de seu comportamento, ... é em
corrupção moral , induzindo os indiv íduos, por exemplo, a aceitarem grande parte um reflexo da complexidade do ambiente em que ela se
os horrores nazistas como fatos normais da vida do Estado, ou a se encontra . ..
permitirem violações da lei, tais como aquelas em que o presidente
Eu gostaria de explorar esta hipótese , mas com a palavra ‘homem’
Nixon e seus auxiliares foram apanhados, durante o caso Watergate. substituindo ‘formiga’ . . .
Alé m disso, é evidente que a submissão passiva do indiv íduo à
Um homem , encarado como um sistema de comportamento, é bem
simples. A aparente complexidade de seu comportamento, ... é em
organização, em sua qualidade de detentor de emprego, tem um
profundo efeito sobre sua personalidade, efeito que n ão desaparece
grande parte um reflexo da complexidade do ambiente em que ele se
em seu espaç o vital particular. Se , como sustenta Simon , se espera do
encontra .
Pessoalmente , acredito que a hipótese vale mesmo em relação ao ho-
empregado que “ deixe em repouso suas faculdades cr í ticas” , a fim de
“ permitir que as decisões que lhe forem transmitidas” possam “ guiar
sua própria opção” (Simon, 1966, p. 151 ), essa disposição pode mem como um todo . .. Um ser humano raciocinante é um sistema
adaptativo; suas metas são definidas pela área comum entre seus
conden á-lo a fazer de sua psicose ocupacional uma segunda natureza ,
ambientes interior e exterior . Na medida em que ele é de fato adapt á-
como assinalam alguns analistas ( Merton , 1967 ; Mannheim , 1940). Em vel , seu comportamento refletir á caracter ísticas situadas, em grande
outras palavras, estará ele enfraquecendo sua capacidade de fazer , fora
parte , no ambiente exterior (em face das metas individuais) e revelará
da organização, julgamentos é ticos e cr í ticos de natureza pessoal . A
injustificada legitimação dessa pressão, exercida sobre o indiv íduo pela
apenas umas poucas propriedades limitativas de seu ambiente interior”
(Simon , 1969, p. 24-6 ).
organização, deve ser reconhecida como exemplo de pol í tica cognitiva.
É duvidoso, na verdade, que em seu tempo fora do trabalho Essa afirmação é altamente representativa da concepção de
possa o indiv íduo dispor de á reas suficientes, livres da penetra ção de homem infiltrada na psicologia behaviorista, sendo formulada em dois
pressões sociais organizadas. O ambiente social desta nação é altamen - passos n ão articulados. Primeiro, define o homem como um sistema de
te planejado , se se leva em conta a maneira pela qual normalmente a comportamento e , segundo, pressupõe que um sistema de comporta -
informação chega aos cidadãos. Tem sido corretamente afirmado por mento é equivalente a um sistema de processamento de informação.
muitas autoridades que , altamente controlados por gigantescos com- Os oponentes humanistas de Simon, no dom ínio da teoria organiza -
plexos empresariais, os meios de comunicação de massa promovem cional t ípica , reconhecem, de fato, no indiv íduo, uma gama de neces-
amplamente aqui uma “ irrefletida lealdade ” ( Lazarsfeld e Merton , sidades, que se funda em sua subjetividade pessoal. Contudo, parado -
.
1974, p. 567) ao status quo Estes autores interpretam essa forma xalmente , na prá tica não há uma pol é mica essencial entre Simon e
institucional de prestar informação como o meio utilizado “ em lugar aqueles que concordam com ele , por um lado, e os colegas que a eles
110 111
tem
se opõem , de outro lado, pela simples razão de que os ú ltimos dei - O projeto de humanização das organizações formais
, aceitando a
xam de compreender que as referidas necessidades n ão podem ser també m suas ra ízes nessa compreensão errada . De fato
a raz ã o em
atendidas dentro de ambientes mecanom ó rficos, nos quais se sentem limitada razão das organizações formais como constituindo
ínseca
geral, os humanistas esforç am -se por mitigar a preocupaçã intr
o
à vontade para exercer sua per ícia clínica. Os humanistas, por exem - á propondo estrat égias
plo, acreditam que a confian ç a , a autenticidade, o amor, a franque- que t é m com os requisitos funcionais de efic cia ,
, o
ionais e individua is e , assim
za só podem ser estimulados na cultura interpessoal das organiza - destinadas a integrar metas organizac
de perceber , evidente -
ções de natureza económica pelo engajamento de seus membros em projetado e o emocional e espont â neo . Deixam
instrumen tais de comunica -

sessões de realimentação - feedback , em que são encorajados n ão mente , que quando engajado
ção, o indiv íduo est á fadado a
em sistemas
rejeitar , sistematic amente , sua experi ê n -
apenas a produzir informações sobre seus sentimentos, mas a processar lucidez por
informações sobre si mesmos vindas també m das outras pessoas. Esse cia direta da realidade . Esta observação foi articulada com
Joseph Weizenbaum , em seu livro The Computer and human
reason ,
tipo de din â mica de grupo que inclui , por exemplo, t écnicas como a ê ncia
do grupo T e a do treinamento da sensitividade, é mecanomórfica e, onde ele corretamente acentua que a presente rejeição da experi
auspiciada pelas organizações de natureza econ ó mica , impr ó pria para direta é uma habilidade que o indiv íduo aprende atrav é s de sua socia -
seu caminho " , num
tratar de t ó picos de desenvolvimento pessoal. lização, um "novo sentido" para que "encontre
efic á cia
Na realidade, o desenvolvimento pessoal e a solid ão pessoal são mundo projetado de acordo com requisitos funcionais de
de mundo , o homem aprende
insepará veis. O desenvolvimento pessoal desdobra -se vindo da psique ( Weizenbaum , 1976 , p. 25). Nesse tipo
que desvia-
individual e, com toda a probabilidade , é dificultado por processos a reprimir espontaneamente sentimentos e maneiras de ver
16 dos respectivo s prop ósitos instrumen tais.
sociais ou de realimentação grupai. Toda socialização é alienaçã o. riam seu comportamento
o rel ó gio diz que é hora , n ã o quando está
É significativo que os humanistas n ão iiesitem em abraç ar a psicologia Assim , ele come quando
suas outras necessida des da mesma maneira .
behaviorista , e desnecessário reafirmar minha cr í tica desse tipo de com fome , e satisfaz à tele -
de Barnard
psicologia , que é apresentada no cap í tulo 3 deste livro. Basta dizer No dom ínio da disciplina organizacional , o elogio tentar
permane ce em sua mesa de liga çõ es , em vez de
aqui que o comportamento é , essencialmente , uma categoria da vida fonista que , é um
exterior do indiv íduo. É natural que uma psicologia que encara o socorrer a mãe doente dentro de uma casa que se incendeia.
exemplo not á vel de rejeição da experiê ncia direta da realidade
homem como um animal que só é capaz de comportamento se incline e orga-
a ser centrada no grupo, ou gire em torno de processos de realimenta- A tentativa humanista de integração de metas individuais
ção. Mas essa é uma visão muito parcial da vida ps íquica do homem. O nizacionais só pode ser empreendida à base de uma psicologi a behavio -
cr í ptica de pol í tica cognitiva ) ,
comportamento é uma dimensão superficial de sua vida. O homem , rista ( que é pouco mais que uma forma
essencialmente , n ão se comporta - como um portador da razão, essen - apoiada numa compreensão pr é anal í -
tica das realidade s operacion
adminis-
ais
cialmente age. Mas a psicologia behaviorista está fadada a negligenciar da organização, na qual as fun ções cr í ticas do conhecimento
sã o sistematic amente deixadas de lado . A moda
a ação como uma categoria da vida interior do homem , porque é uma trativo convencional
da teoria de sistemas é um caso a assinalar . Como frisa
Sheldon Wolin ,
psicologia sem razão, isto é , uma psicologia na qual a razão é interpre- categoria de
tada erroneamente como sin ó nimo da mera avalia ção de consequê n - na abordagem de sistemas , de orientação behaviorista na ,

cias. Essa errada compreensão, baseada numa teoria pretensiosa, expli


ca porque é que os humanistas alegam um choque entre o homem em
- insumo
— —
gé neo comum . Por exemplo, o termo insumo
-
input reduzem se t ó picos heterog é

o
neos
vale
da
"
a um
igualmen
Associa
item homo-

çã o
te, para
Nacio-
auto-atualização e o homem racional. um protesto pelos direitos civis, uma delega çã
on ) e uma greve da UAW ( Uni ã o
. nal do Rifle ( National Rifle Associati
*6 Sólido conhecimento de psicologia deveria justificar esta afirmação Não se Americana de Trabalhadores )" ( Wolin , 1969 , p . 1.078 ) .
deveria esquecer que o pr ó prio Frcud afirmou , no livro A Civilização e seus dis- -
sabores , que “ na severidade de seus comandos e de suas proibições [o superego ] No mesmo sentido, argumenta Wolin que essa orientação meca
incomoda sc muito pouco com a felicidade do ego" ( Frcud , 1962, p. 90). Mas, o
- nom ó rfica , que denomina de metodismo, tem alicerces é ticos
educacion
e te ó ri
ais"
-
menos que se pode dizer é que Freud foi amb íguo sobre a irredutibilidade do eu cos que, finalmente , conduzem a "grotescos resultados proposta
à socialidade. Melhores fontes para fundamentação do que foi afirmado seriam (Wolin , 1969, p. 1.078 ). Constitui "em ú ltima an á lise , uma
encontradas nos escritos de Carl Jung, Alfred Adler, Otto Rank , Franz Alexan - "pres -
. para a moldagem da mente" ( Wolin , 1969, p. 1.064 e seus atuais
)
.
der, H . Hartmann , W. Stekel , L Binswanger Erich Fromm , M . Boas, Viktor
a vis ã o acr í tica das
.
Frank!, R . D. Laing , Ira Progoff , R May , e outros. A justificação da assertiva n ão supostos são de natureza tal que revigoram
" ( Wolin , 1969,
pode ser feita no texto do presente cap ítulo , para que o mesmo n ão se afaste de estruturas pol í ticas e de tudo que elas envolvem
seu objetivo principal .
113
112
p. 1.064 ). Muito freqiientemente ensina uma “ falsa racionalidade e nal , da aprendizagem dos meios capazes de facilitar m últiplos tipos de
uma pseudo-excel ê ncia ” , como já assinalou outro analista. 17 Quando microssistemas sociais, no contexto da tessitura geral da sociedade,
se preparam sob a influ ê ncia desse tipo de abordagem, os alunos das transformando a organização económica formal num enclave restrito e
escolas de administração de empresas e de administração pú blica sã o incidental , no espaço vital da vida humana, assim deixando margem
encorajados a concordar com uma visão pré-reflexiva das realidades para relacionamentos interpessoais livres das pressões projetadas e or -
organizacionais e , portanto, a se tornarem n ã o doutos especialistas, ganizadas. O delineamento de uma abordagem substantiva da teoria da
mas apenas escriturá rios acadê micos. organização , abordagem básica para a delimitação organizacional , é o
que constitui o tema do capítulo seguinte .
5.6 Conclusão

Nenhuma sociedade, no passado, esteve jamais na situação da BIBLIOGRAFIA


sociedade desenvolvida centrada no mercado de nossos dias, na qual
o processo de socialização est á , em grande parte, subordinado a uma
pol í tica cognitiva excercida por vastos complexos empresariais que
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p. 165) “ tender o mundo a ser percebido pelos membros da organiza -
ção em termos dos conceitos particulares refletidos no vocabulá rio da
organização. As categorias e os esquemas especiais de classificação que
aquele emprega são materializados e tomam-se , para os membros da
organização, atributos do mundo, em vez de meras convenções” .
Em seu comentá rio sobre “ absorção de incerteza ” , Charles
6. UMA ABORDAGEM SUBSTANTIVA Perrow afirma que as organizações controlam a a ção de seus membros
DA ORGANIZAÇÃO desenvolvendo “ vocabulá rios que escondem algumas partes da realida -
de e magnificam outras partes” (Perrow , 1972, p. 152). Dada a cir -
cunst ância de que as atuais organizações tê m “ proté ica habilidade de
A disciplina organizacional contemporâ nea n ão desenvolveu a moldar a sociedade ” (Perrow, 1972, p. 199), reclama Perrow um
capacidade anal ítica necessá ria à cr ítica de seus alicerces teó ricos e , reexame da noção de ambiente, tal como é correntemente apresentada
em vez disso, em grande parte toma emprestadas capacidades exte- na literatura especializada. Em lugar do ambiente afetar a organização,
riores. Por essa razão, condenou-se a si mesma a permanecer pré-ana- parece que o contr á rio fica mais perto da verdade . A organização deve
l ítica e, para sempre , na periferia da ciê ncia social. Dificilmente um ser vista , hoje em dia , “ como definindo, criando e moldando seu am-
biente ” (Perrow , 1972, p. 199). Opinião semelhante sobre o ambiente
campo disciplinar atingirá o n ível sofisticado de conhecimento reque -
rido para o ensino em grau superior, se n ão for capaz de desenvolver
em cará ter cr ítico e de si mesmo extra ídas suas bases epistemológicas.

é sustentada por J. K. Galbraith (1973) e B. Gross (1973) opinião
que sustentam ser caracter ística de todo o sistema social dos EUA .
Ao concentrar -se nessas bases, este cap ítulo tentará apresentar uma Embora sejam frequentes declarações como essas, um exame sis-
abordagem sistemá tica da teoria organizacional , fundada na racionali - temá tico de suas implicações só recentemente está sendo tentado por
dade substantiva . alguns poucos autores, preocupados com a dimensão epistemológica
A formulação de uma abordagem substantiva para a organização dos sistemas sociais.
inclui duas tarefas distintas : a ) o desenvolvimento de um tipo de an á- Robert Boguslaw defronta -se com este problema no livro The
lise capaz de detectar os ingredientes epistemológicos dos vá rios cen á- New Utopians . Declara ele que o desenho de sistemas n ão é assunto
puramente té cnico, mas deveria envolver uma sistemá tica preocupação
rios organizacionais; b) o desenvolvimento de um tipo de an álise orga
nizacional expurgado de padrões distorcidos de linguagem e concep-
- com as consequê ncias, avaliadas do ponto de vista de valores humanos.
tualiza ção. No entanto , os atuais planejadores de sistemas enfocam esses proble-
Embora o cap ítulo trate , sobretudo, da segunda tarefa , são cab í- mas organizacionais usando instrumentos conceptuais e operacionais
veis algumas considerações sobre a primeira . que só t ê m coer ê ncia em termos do status quo tecnológico ( Boguslaw,
1965, p. 4). Trabalham com o conjunto de hardware dos computado-
6.1 Tarefa 1 - a organização como sistema epistemolôgico — —
res equipamento pesado com normas de sistemas, com análises
funcionais e com heur ística que especifica comportamentos e atitudes
Os cientistas sociais afirmam, comumente , que as definições da humanas. Boguslaw tenta desvendar as regras de cogni ção que domi -
realidade são aprendidas pelos indiv íduos no processo de socialização. nam a arte e a teoria do planejamento convencional de sistemas, que
Como salienta Karl Mannheim , quando novas situações emergem considera sob a influ ê ncia das conveniê ncias pol íticas, e emite a opi-
numa sociedade, seus membros normalmente tendem a interpret á -las nião de que os planejadores se apoiam, em larga proporção, “ numa
do acordo com categorias já estabelecidas. É como se “ se recusassem a teoria de tipo subsequente ao fato f ísico” ( Boguslaw, 1965, p. 2).
Assim sendo, questiona ele a validade dos “ mé todos, té cnicas e funda -
-
admitir-lhes o cará ter de novidade ” , ou preferissem “ ignorar lhes a
singularidade ” ( Mannheim , 1940, p. 302). Ao n ível da microrganiza - mentos intelectuais das várias abordagens do planejamento de siste-
ção, March e Simon (1958, p. 165) chamam esse padrão de reação de mas” ( Boguslaw, 1965 , p. 2-3).
“ absorção de incerteza ” . Quando exposto a uma situação nunca vista , Alguns estudiosos de sistemas e comunicação estão, igualmente ,
atentos às quest ões epistemol ógicas pertinentes à teoria da organiza -
o indiv íduo tenta normalmente interpret á -la de acordo com o vocabu
lá rio conceptual familiar à organização, para que não venha a pôr em
- ção. Por exemplo, C. W . Churchman ( 1971 ) e W. Buckley ( 1972) de -

118 119
dicaram -se à epistemologia considerando-a um tó pico da an álise de a teoria da organiza ção nunca examinou , em termos de cr ítica , a epis-
sistemas, poré m num alto n ível de abstração. Da mesma forma , foi temologia inerente ao sistema de mercado. E os pontos cegos da atual
amplamente analisada por Joseph Weizenbaum ( 1976 ) a influ ê ncia do teoria da organização podem ser caracterizados da forma seguinte :
computador sobre a autopercepção do indiv íduo. Mas, até recente- teoria or -
1 . O conceito de racionalidade predominante na vigente .
mente, os especialistas na teoria de sistemas não tinham desenvolvido
instrumentos conceptuais e operacionais para lidar com o sistema ganizacional parece afetado por fortes implica çõ es ideol ó gicas Con -
ento econ ó mico como constituin do
epistemológico que , embora geralmente oculto, constitui componente duz à identificação do comportam
humana . Embora a no çã o de comportam ento
fundamental de qualquer tipo de organização. a totalidade da natureza
- , a qual-
económico pareça evidente por si mesma , refere se ela aqui
,
Exceção nessa tendê ncia é Donald Schon ( 1971 ). Em sua an á lise é movido,
quer tipo de ação empreendida pelo homem , quando ele
de sistemas sociais, conforme apresentada em Beyond the stable state , econ ó micos .
apenas , pelo interesse de elevar ao máximo seus ganhos
a dimensão epistemológica é um t ó pico sistemá tico de interesse . De 2. A presente teoria da organização n ão distingue , sistematic amen -
acordo com Schon , qualquer sistema social consiste , basicamente , te , entre o significado substantivo e o significad o formal da organi -
de uma estrutura , uma tecnologia e uma teoria . A estrutura é o “ con - zação. Essa confusão toma obscuro o fato de que a organiza çã o eco -
junto de papé is e de relações entre os membros, individualmente*’ n ómica formal é uma inovação institucio nal recente , exigida pelo im -
(Schon , 1971 , p. 33). A tecnologia é o conjunto vigente de normas e perativo da acumulação de capital e pela expans ã o das capacidad es de
organização
praxes consolidadas, através do qual as coisas são feitas e os resultados processamento caracter ísticas do sistema de mercado. A
conseguidos. A teoria é ó conjunto de regras epistemológicas segundo pode ser considerad a um paradigma , segundo o
econ ó mica formal n ão
o qual a realidade interna e externa é interpretada e tratada , em ter - qual devam ser estudadas todas as formas de organizaçõ
es , passadas,
mos prá ticos. Em qualquer sistema essas dimensões são interdependen - presentes e emergentes.
compreensão do
tes, de modo que a modificação numa delas conduz a modificações 3. A presente teoria da organização n ão tem clara
correspondentes nas outras e , portanto , em todo o sistema . É poss ível papel da interação simbólica , no conjunto dos relacionam
entos inter -
visualizarem -se essas dimensões como c írculos, ou como constituindo pessoais.
uma “ estrutura circular ” (Schon , 1971 , p. 38). A dimensão epistemo - 4. A presente teoria da organização apóia-se
numa visão mecano-
lógica dos sistemas sociais , usualmente , n ão recebe adequada aten ção. , e isso fica patente através
m ó rfica da atividade produtiva do homem ção.
No entanto, “ quando uma pessoa passa a fazer parte de um sistema so- de sua incapacidade de distinguir entre trabalho e ocupa
cial encontra um corpo de teoria que , de maneira mais ou menos ex - Na medida em que os teoristas da organização continuem a -
ne
plícita estabelece n ão apenas ‘como o mundo é \ mas também ‘quem uma abordagem reducionis -
somos n ós’, ‘que estamos n ós fazendo’ e ‘que é que dever íamos estar glicenciar esses pontos, estarão cedendo a
ta do desenho dos sistemas sociais. Tal reducionis mo exige que vejam
fazendo” ’ (Schon , 1971 , p. 34). Conseqiientemente , a teoria é uma di- diferentes tipos de sistemas sociais sob a ó tica de um conjunto
de pres-
mensão nuclear e quando essencialmente alterada expõe a organiza - supostos pertinentes apenas a um desses tipos .
ção a grave fratura , na medida em que a mudan ç a possa afetar : a ) sua
auto-interpretação; b) a definição de suas metas; c) a natureza e o al - Cada um desses t ó picos será agora considerado mais detalhada -
cance de suas operações ; d ) suas transações com o mundo exterior. mente.

6.3 Reexame da noção de racionalidade


6.2 Tarefa 2 - pontos cegos da teoria organizacional corrente
, no
A situação em que se encontra a noção de racionalidade o
Constitui argumento básico deste livro a noção de que os siste
mas sociais cujo desenho evita considerações substantivas deformam ,
- campo da teoria da organizaçã
teó rica. Os pontos de vista de
o , ilustra
Herbert
sua insuficien
Simon sobre
te qualifica
racionalid
çã
ade ,

caracteristicamente , a linguagem e os conceitos através dos quais a rea - apresentados em Administrative behavior e outros trabalhos . A ra
, consti -
lidade é apreendida. Nessa conformidade, nossa atenção deve voltar-se, tuem ainda parte do conhecime nto convencio nal desse campo -
agora , para uma abordagem substantiva da organização.
Nenhuma mudança significativa ocorreu nos pressupostos episte - cionalidade consoante a versão de Simon ( I 9t> 5 ) é o

to absoluto de consequê ncias. Assim , mal pode o homem

conhecimen -
ser conside -
est á alé m de
mológicos da an álise organizacional , desde Taylor. Em outras palavras, rado um ser racional , porque o conhecimento abrangente
121
120
sua capacidade .1 As corporações, poré m, da mesma forma que a orga - entre os quais o conceito tem validade. Tivesse ele esclarecido que sua
nização convencional , especialmente quando computarizadas, mere - opinião era v álida apenas no mundo de puros objetivos econ ó micos e a
cem o qualificativo de racionais, na medida em que são menos limi - posi ção que adotou seria mais firme. Infelizmente , n ão chega a fazer
tadas que o homem em sua habilidade de avaliação. Alé m disso, para tal esclarecimento e , na realidade , tenta induzir o leitor a acreditar que
Simon , a racionalidade na conduta ou nas decisões humanas nunca é seu enfoque envolve tudo aquilo que se pode considerar como raciona -
uma quest ão de conte ú do qualitativo intr ínseco, mas antes quest ão de lidade. Por exemplo , questiona o conceito de racionalidade de Arist ó-
ser ou n ão instrumental para a consecução de objetivos ou fins. Em teles que envolve o exame da “ bondade’’ do homem e da sociedade e
consequê ncia , quest ões como a do que é bom , no homem ou na socie - o considera “ limitado” ( Simon , 1965 , p. 47), como se ele e o fil ósofo
dade , n ão t ê m lugar na á rea do debate racional . O homem racional n ão grego estivessem tratando da mesma dimensão de racionalidade .
se preocupa com a natureza é tica dos fins per se. É um ser que calcula, A verdade é que o termo racionalidade, como é usado por Si -
decidido apenas e encontrar , com precisão, meios adequados para atin - mon , nada absolutamente tem a ver com o conceito aristot é lico de
gir metas , indiferente ao respectivo conte ú do de valor. racionalidade. Arist ó teles jamais considerou o mercado como o siste -
A argumentação de Simon tem sido criticada , não quanto aos ma primordial da sociedade e nunca pensou que os requisitos psicol ó-
mé ritos intr ínsecos de seu conceito de racionalidade , mas porque ele gicos do mercado se transformassem nas normas da vida social em seu
-
afirma que a organização n ão pode tolerar nenhuma espé cie de ativi
dade que não esteja afinada com os requisitos da racionalidade, da
conjunto. É certo que tinha clara noção da racionalidade do compor -
tamento econ ómico, mas em seu conceito normativo de uma boa so-
maneira como a conceptualiza Assim , alguns teoristas de organiza -
. ciedade esse tipo de racionalidade só incidentalmente influiria sobre a
ção defendem a atualização do indiv íduo dentro do arcabou ço orga - -
exist ê ncia humana . Poder se-ia argumentar que o conceito aristot é lico
nizacional e pressupõem uma polaridade entre o homem racional e o de prudê ncia cont é m um ingrediente de cálculo. No entanto, na opi -
indiv íduo que se auto-atualiza. A identificação de racionalidade como ni ão de Arist ó teles, a prudê ncia é uma categoria é tica , n ão puramente
capacidade de calcular é tida como coisa certa tanto pelos simonistas uma conduta conveniente . Assim , diz o filósofo: “ Não podemos ser
-
como pelos anti simonistas, como prova a obra de Chris Argyris. A prudentes sem sermos bons” ( Ética a Nicômaco , VI / XIII , p. 10). Con -
premissa de que a atualiza ção humana n ão se coaduna com a conduta
raciona] est á , pois, amplamente difundida. 2
sequentemente , a racionalidade aristotélica e a racionalidade instru
mental pertencem a duas esferas qualitativas da existê ncia humana , e a
-
E ó bvio que os simonistas, assim como seus cr íticos humanistas, racionalidade de Arist ó teles não pode ser criticada da perspectiva de
falham em compreender a quest ão da racionalidade. Até que emergisse
a sociedade de mercado, o tipo de racioc ínio deliberado, somente in -
Simon , a menos que o autor de Administrative behavior queira , real -
mente , dizer que a racionalidade instrumental é a única que se pode
teressado nos meios de atingir metas determinadas , fora apenas um conceber , o que é uma posição claramente errada.
aspecto limitado de um conceito mais amplo de racionalidade. Como
est á explicado em outra parte deste livro , o conceito de racionalidade , 6.4 Peculiaridade histórica das organizações económicas
classicamente , revestira -se sempre de nuan ç as é ticas , e chamar um ho-
mem ou uma sociedade de racional significava reconhecer sua fidelida - O campo da teoria da organização n ão consegue compreender a
de a um padrão objetivo de valores postos acima de quaisquer impera - peculiaridade hist órica das organizações de cará ter econ ó mico e de
tivos econ ó micos. Simon escreve , poré m, como se os crit é rios de eco- suas fun ções. A organização que constitui o foco da aten ção da teoria
nomicidade fossem os ú nicos crit é rios da racionalidade . Não h á uma organizacional , em stricto sensu , é , intrinsecamente, vinculada a uma
só ocasião, em seu livro, em que ele indique , explicitamente , os limites
1 Simon afirma : “ É imposs ível que o comportamento de um único e isolado in -

sociedade de tipo sem precedentes a sociedade de mercado. Como
assinalou Mareei Mauss , “ somente as nossas sociedades ocidentais é
div íduo alcance algum grau de racionalidade ” (Simon , 1965 , p. 79 ). Mostra ele, que , bastante recentemente , transformaram o homem num animal
claramcnte , que apenas os agentes corporativos e as organizações se comportam económico” , 3 isto é , numa criatura que age , normalmente , de acordo
racionalmente. Assim é que escreve Simon : "( a ) organização permite ao indiv í
duo uma abordagem razoavelmente pró xima da racionalidade objetiva ” (Simon ,
1965, p. 80).
- —
com o car á ter - ethos utilitá rio, imanente às organizações formais
de hoje.
Deveria ser feita uma distin ção entre o significado substantivo e
2 É exatamente um pressuposto errado desse tipo que permeia a polemica entre
. .
H Simon e Chris Argyris Veja Argyris (1973a e 1973& ). Veja també m Simon
o formal de organização e essa distin ção é importante pelas mesmas
(1973) . 3 Apud Dalton , G. ( 1971 , p. Í X ).

122 123
razões que levaram Karl Polanyi a diferen çar entre os significados for - do por Moreno ( 1934 ), os grupos num playground constituem organi -
mais e os substantivos do termo econ ó mico. Diz ele : zações substantivas.
Ao contrá rio das organiza ções substantivas, as organizações for -
“ . . .nenhuma sociedade pode existir sem algum tipo de sistema , que
assegura ordem na produ ção e na distribuição dos bens. Mas isso n ão
mais são fundadas em cálculo e , como tal , constituem sistemas proje -
tados, criados deliberadamente para a maximização de recursos. Como

envolve a exist ê ncia de instituições econ ó micas distintas ; normalmen - tó pico da teoria padr ão de organizaçã o , são artefatos sociais e , nesse
te , a ordem econ ó mica é meramente uma fun ção da social , na qual es - sentido, organiza ções formais de variados objetivos t é m existido em
tá contida . Nem nas condições de vida tribal , ou feudal , ou mercantil
todas as sociedades, embora só se tenham transformado em objeto de
houve ... um sistema econ ó mico separado na sociedade . A sociedade
estudo sistemá tico num est ágio recente da hist ó ria .
do século XIX , na qual a atividade econ ó mica foi isolada e imputada
a uma razão econ ó mica inconfund ível , representou , de fato, um des - Realmente , nas sociedades mais rudimentares, as pessoas tiveram
vio singular ... semelhante padrão institucional n ão podia funcionar , a a capacidade de se dedicarem a problemas de utilização de recursos do
menos que a sociedade ficasse , de alguma forma , submetida às suas ponto de vista de vantagens comparativas calculadas. Por exemplo, al -
exigê ncias. Uma economia de mercado só pode existir numa sociedade gumas maneiras de colher frutos, de ca ç ar , de pescar , de construir mo-
de mercado” ( Polanyi , 1971a , p. 71 ). radias , de fazer toda sorte de coisas eram reconhecidas como melhores
do que outras, do ponto de vista da compara ção de resultados. Uma
-
Polanyi indica que nas sociedades n ão mercantis, as economias vez que um indiv íduo escolhe uma norma de ação em lugar de outra ,
existiam no sentido substantivo. Na sociedade de mercado , poré m , o está -se permitindo um tipo de ação calculista. O desejo de poder ins -
termo econó mico deriva formalmente seu sentido do pressuposto de pirou deliberadas estruturas organizacionais formais nas sociedades tri -
que, sendo escassos os meios e os recursos, devem ser otimizados atra - bais, na Europa antiga , na Gré cia , em Roma , e em instituições espec í -
vés de opções que atendam , com precisão , aos requisitos de economi - ficas como o exé rcito e a igreja . Max Weber percebeu em tais estrutu -
-
cidade . Nas sociedades n ão mercantis, a escassez de meios n ão consti - ras traços daquilo que chamou de burocracia , ou organiza ção no senti -
tui princ ípio formal para a organização da produ ção e para a escolha do formal . Mas percebeu ele , també m, que nessas sociedades tais estru -
humana de modo geral , uma vez que a sobrevivê ncia do indiv íduo é, turas constitu íam enclaves delimitados no contexto do espaç o vital
normalmente , garantida pela eficá cia dos crit é rios sociais globais ( n ão humano. Em tais sociedades, a maior parte do espa ço vital humano
da organização formal ) de reciprocidade , redistribuição e troca . A mantinha -se dispon ível sobretudo para a intera ção social , livre das re -
economia , aqui, est á incrustada na tessitura social , e n ão constitui um pressões da organização formal . Em outras palavras , os tipos de a ção
-
sistema auto regulado. Em outras palavras, numa sociedade n ão mer
cantil , ningué m vive sob a ameaç a do chicote económico *
- - calculista eram incidentais e freqiientemente classificados sob regras
de intera ção social prim á ria .
Por circunst âncias idê nticas às que foram mencionadas , nas so - Weber compreendeu que a sociedade moderna é sem paralelo na
ciedades não-mercantis as organizações constituem , de modo geral ,
campos de experiê ncia de que ningué m tem formalmente consciê ncia. medida em que nela a organização formal ( burocracia ) se tornou um
Em tais sociedades, os indiv íduos t é m uma vida compacta , n ão uma modelo social fundamental , e sua racionalidade calculista imanente
vida diferenciada . Em outras palavras , existem em bases substantivas e passou a ser o padr ão dominante de racionalidade para a exist ê ncia hu -
mana . Graças a essa circunst ância , a sociedade moderna merece a rotu -
não formais, legais ou contratuais. Por exemplo, numa sociedade pri
mitiva uma fam ília é uma organização substantiva , no sentido de que
- lação de sociedade organizacional , como tem sido apropriadamente
n ão funcionaria como um sistema a menos que existisse algum padr ão chamada .
nos relacionamentos entre aqueles que a constituem, e entre estes e o As finalidades da vida humana são diversas e só umas poucas,
ambiente exterior . A fam ília em nossa sociedade , na medida em que dentre elas, pertencem , essencialmente , à esfera das organizações eco-
ainda preserva algumas fun ções da fam ília arcaica , partilha de seu car á -
-
nómicas formais . Na tentativa de criar e maximizar os recursos neces-
ter organizacional substantivo. No entanto , gra ç as à natureza da socie sá rios a seu bem -estar material , o indiv íduo pode -se permitir atividades
dade global contemporânea , a fam ília está antes se transformando mecanomórficas, que são aquelas espec íficas da organização econ ómi -
num fen ô meno de organiza ção formal . Em outro exemplo, demonstra - ca formal . No entanto, regras operacionais, mecânicas, n ão se ajustam
a todo o espectro da conduta humana .
4 Expressão de E. H. Carr citada por Dalton ( 1971 , p . XIII ).
.
125
124
6.5 Interação simbólica e humanidade nômicas são ocasionais, quase sempre restritas a situações em que os
homens se defrontam com o problema da utilização de recursos natu -
Em toda sociedade , o homem se defronta com dois problemas : rais, reclamados por sua existê ncia prá tica e, assim , as relações entre
o problema do significado de sua exist ê ncia e o problema de sua sobre - eles nunca são determinadas apenas por crité rios de economicidade .
vivê ncia biológica. Uma sociedade é formada quando representa para De fato, antropólogos de vá rias correntes teóricas ofereceram provas
seus membros uma expressão da ordem do universo. Toda sociedade
parece natural a seus membros na medida em que , pela adesão a seus
-
de que nas sociedades pré capitalistas é dif ícil identificar com6é rcio en -
tre indiv íduos causado por motiva ção puramente econ ómica .
s í mbolos e pela confian ça em seus padrões, sintam eles a pró pria exis- Antes da sociedade de mercado, nunca existiu uma sociedade
em que o crit é rio econ ó mico se tomasse o padr ão da existê ncia huma -^
tê ncia como alguma coisa que se harmoniza com aquela ordem . Nas
palavras de Voegelin , “ toda sociedade tem que enfrentar os problemas na. A presente teoria da organiza ção é, sobretudo, uma expressão da
de sua exist ê ncia prá tica e , ao mesmo tempo , se preocupar com a vera - ideologia de mercado, e é da natureza dessa ideologia negligenciar os
cidade de sua ordem" ( Voegelin , 1964 , p. 2). Em outras palavras , em pontos envolvidos pela interação simbólica . É por essa razão que os
toda sociedade existe , de um lado, uma sé rie de a ções simbólicas em teoristas convencionais da organiza ção se sentem à vontade ao tratar
sua natureza , ações condicionadas, sobretudo, pela experiê ncia do de assuntos como confian ç a , virtude , valia , amor , auto-atualização, au -
significado e , de outro lado, atividades de natureza econó mica , que
são acima de tudo condicionadas pelo imperativo da sobrevivê ncia , da
tenticidade, no campo da organização económica, a que, por sua natu
reza , dificilmente os mesmos pertencem .
-
calculada maximização de recursos. Os crité rios de cada tipo de con - São numerosos os esforços para explicar a natureza da intera ção
duta são distintos e n ão devem ser confundidos . Uma atividade de na - simbólica e, neste pa ís, associa -se geralmente o tema com os trabalhos
tureza econ ó mica , ou um sistema social econ ómico, é avaliado em ter - da chamada Escola de Chicago , fundada por George Herbert Mead. No
mos das vantagens prá ticas a que conduz; est á engrenado para a conse - entanto , o t ó pico tem constitu ído també m interesse primordial de au -
cu ção de tais vantagens, e n ão para o conhecimento da verdade . As ati - tores cuja orientação teó rica nem sempre coincide e entre estes
vidades de natureza econó mica são compensadoras em razão de seus incluem se Carl Jung, Ernest Cassirer, Georges Gurvitch , Eric Voege -
-
resultados extr ínsecos, enquanto a intera ção simbólica é intrinseca - lin , Jurgen Habermas, Kenneth Burke , H . D. Duncan , Herbert Blumer
mente compensadora . O primeiro tipo de atividade é meio para conse - e muitos outros. De seus trabalhos parece poss ível extra írem -se algu -
guir um fim ; o segundo , constitui um fim em si mesmo.5 mas proposições que caracterizam a convicção das teorias da interação
simbó lica :
Em todas as sociedades primitivas e arcaicas, a vida simbólica foi
predominante e manteve os padrões de economicidade em condição 1. O enfoque da interação simbólica repousa no princ ípio de que
perif é rica e subordinada. Nas sociedades primitivas , as atividades eco - há m ú ltiplas maneiras de se chegar ao conhecimento, e, entre outras
coisas, questiona fundamentalmente o pressuposto de que a ciê ncia,
5 A natureza simbó lica da exist ê ncia social é sublinhada por Voegelin , cm seu no sentido que lhe dá o cientismo, seja a ú nica forma correta de
projeto de Uma nova ciência pol í tica . Declara ele : conhecimento. Cassirer é expl ícito ao afirmar que a ciê ncia , em si ,
“ A sociedade humana não é apenas um fato , ou um acontecimento , no mundo constitui uma de vá rias formas simbólicas e que n ão h á razão para lhe
exterior, a ser estudado pelo observador como um fenômeno natural . Embora a reconhecer uma posi ção privilegiada em relação às outras. Arte , mito,
exterioridade seja um de seus importantes componentes , ela é , em seu conjunto ,
um pequeno mundo , um cosmbn , iluminado significativamente de dentro para religião e hist ória são formas de conhecimento, legando diferentes ti -
fora pelos seres humanos que , continuamente , o criam e sustentam , como a for- pos de experiê ncia , cada um deles válido nos limites da realidade a que
ma e condição de sua auto-realização . £ iluminado mediante um elaborado sim - corresponde.7
bolismo , em vários graus de compacidade e diferenciação - do rito , atravé s do 2. Os estudiosos da interação simbólica partem do princípio de que
mito , até a teoria - e tal simbolismo o ilumina de maneira significativa na medi-
da em que os s ímbolos tomam a estrutura interna desse microcosmo , as rela ções
a sociedade é, essencialmente , a existê ncia social. A ênfase aqui é
entre seus membros e grupos de membros, assim como a totalidade de sua exis- em exist ência, que n ão pode ser explicada através da objetivação de
tência , transparente ao mistério da existê ncia humana . A plena auto -ilumina ção categorias como forças, estruturas, classes. A verdadeira existê ncia , in -
da sociedade através de símbolos é uma parte essencial da realidade social , e
pode -se até dizer que é sua parte essencial , porque mediante tal simbolização os

dividual tanto quanto social , nunca é um fato uma simples manifes-
membros de uma sociedade tê m a experi ência dela como alguma coisa mais que 6 Veja Polanyi ( 19716 ) . Veja também Biicher ( 1968 ).
um acidente ou uma conveniência : experimentam-na como algo que faz parte de
sua essência humana” (Voegelin , 1969 , p. 27 ).
7 Para um resumo da teoria de Cassirer , veja Cassirer ( 1970 ).
127
126
taçâo externa evidente por si mesma . É alguma coisa intermedi á ria -
in -between :8 uma tensão entre o potencial e o real. Assim , a existê n - 3. A interação simbólica presume que a realidade social se faz inte-
cia social e individual n ão pode ser explicada segundo categorias meca - lig ível ao indiv íduo através de experi ê ncias livres de repressões ope -
nomó rficas, tais como aquelas que infestam o modelo predominante racionais formais. Símbolos são ve ículos para a troca dessas expe-
de ciê ncia social . Herbert Blumer observa que “ de um modo geral os riê ncias, isto é , para a reciprocidade de perspectivas. Em outras pala-
vras, tais experi ê ncias da realidade são socialmente trocadas ou comu-
sociólogos n ão estudam a sociedade humana em termos de suas unida - nicadas mediante a intera ção simbó lica , que requer , necessariamente ,
des atuantes ” mas , em lugar disso, a consideram “ em termos de estru
tura de organiza ção ” e “ tratam a a ção social como uma expressão des-
- rela ções íntimas entre os indiv íduos, que n ão se efetivam mediante pa -
sa estrutura de organização ” , dando ê nfase a “ categorias estruturais, dr ões ou regras impostas, de cará ter econ ó mico. A interação simbólica
como sistema social , normas culturais, valores, estratifica ção social , é um tipo de comunicação n ão- projetada e que se opõe às comunica-
situações de status, papé is sociais e organizações institucionais” ções projetadas. Nos sistemas racionais e funcionais , tais como o da or -
( Blumer , 1962, p. 188-9). ganiza ção convencional , as comunicações entre os indiv íduos n ão se
Diz ele , caracterizando a abordagem da intera ção simbólica : fundamentam no livre fluxo da experiê ncia direta da realidade , mas
“ Reconhece (ela ) a presen ç a de organizações na sociedade humana e
classificam -se sob um conjunto de regras té cnicas c de procedimento.
A organização convencional perderia sua raison d 'etre se fosse permi-
respeita -lhes a importâ ncia . Contudo, encara e trata as organizações de
tir a livre intera ção simbólica , e as comunica ções no contexto de tais
maneira diferente , e a diferen ça traduz-se consoante duas linhas princi
pais: primeiro, do ponto de vista da intera ção simbólica , a organização
- organiza ções são operacionais e n ão expressivas. No dom ínio da inte -
da sociedade humana é o arcabou ço , no interior do qual se verifica a
ra ção simbólica , n ão h á comportamentos funcionais que devam ser jul
gados do ponto de vista de estratégias instrumentais ou de regras té cni -
-
ação social , e n ão constitui o est ímulo determinante de tal ação. Se -
cas, mas antes a ções ou atitudes intelig íveis ou inintelig íveis, definidas
gundo , essa organização e as mudan ç as que nela se operam são o pro-
a partir de um plano de reciprocidade de perspectivas. Há pouca tole -
duto da atividade das unidades em ação e n ão de forças que deixam
râ ncia para a ambiguidade na intera ção social instrumental , enquanto
essas unidades fora de consideração” ( Blumer , 1962, p. 189). a tolerâ ncia é grande para a ambiguidade , na interação simbólica.
Em outras palavras, o indiv íduo participa da feitura da realidade “ Uma das caracter ísticas dos símbolos ” , diz Gurvitch ( 1971 , p. 40),
social , e o cará ter dessa participação pode diferir de um indiv íduo para
outro. Pode ser um car á ter ativo , caso em que o indiv íduo é um exis-
“ é que eles revelam enquanto encobrem e encobrem enquanto reve -
tente real ( isto é , um ego , uma pessoa ), ou pode ser meramente reativo.
lam , e proporcionam participação, enquanto a impedem ou restrin
gem , mas encorajando, apesar disso, essa participa ção.” As atividades
-
Neste último caso, o indiv íduo perde o cará ter de ser real e trans- de natureza económica est ão presas , essencialmente , a regras opera -
forma-se num simples sistema de processamento de informação, como cionais formais e , portanto , limitam o alcance desse tipo de intimida-
argú em alguns cientistas da computa ção. Pode acontecer que , em cer- de nas transa ções humanas.
tas circunst â ncias , as estruturas sociais influenciem t ão pesadamente É evidente , portanto, que pontos como o amor, a confian ça, a
os indiv íduos que eles passem a agir como se estivessem completamen - honestidade , a verdade e a auto-atualização n ão deveriam estar inclu í-
te moldados pelo processo social . As proposições da ciê ncia social con - dos no campo de ação da organização econó mica , e que tais organiza -
vencional seriam corretas se tal espé cie de reação passiva devesse estar ções deveriam ser distintas de outros tipos de sistemas sociais, a que os
equiparada à pró pria natureza humana . A premissa de que deriva é a pontos referidos efetivamente pertencem . As organiza ções econ ó micas
de que o indiv íduo é um ser completamente socializado.9 fazem -se intelig íveis , antes, através de normas funcionais e racionais de
8 Esta expressão é tomada
emprestado a Voegelin . Ao descrever a tensão ima -
nente á existê ncia humana , acentua ele sua estrutura intermediária - in -between
conduta e comunica ção. Existem , contudo , outros sistemas sociais em
que a interação simbólica é considerada como constituindo o principal
structure. O vocabulário do modelo estabelecido de ciência social , por mo- fundamento para relacionamentos interpessoais intelig íveis.
tivos ó bvios , é inadequado â conceituação deste tema . Na realidade , o esfor ço
de recuperação de Voegelin envolve crité rios de cogni ção e , consequente men -
te , de linguagem , que parecem chocantes aos que est ão exageradamente con
formados ao modelo predominante de ciê ncia social . Para uma caracterização do
- 6.6 Trabalho e ocupação

.
ção de in- between , veja Voegelin (1970 e 1974 )
-
modelo de ciência pol ítica de Voegelin , veja Sandoz , Ellis (1972 ). Sobre a no
Em todas as sociedades pré -mercado dotadas de algum grau de
diferenciação social , existiu sempre uma clara distin ção entre ativida -
• 9 A prop
ósito , veja Wrong , D. H. ( 1961 ).
des ou ocupações superiores e inferiores, do ponto de vista de uma
128
129
classificação existencial . Embora as atividades classificadas numa ou A inversão do significado original de lazer , como foi gradual -
noutra categoria variem de sociedade para sociedade, duas premissas mente conseguida através do processo de autojustifica ção é tica do sis-
parecem permear essa distinção. Primeira , as atividades de categoriza- tema de mercado, é um exemplo da desorientação da civilização oci -
ção existencial superior são, de preferê ncia , exercidas autonomamente dental em seu est ágio moderno. “ Grandes mudan ças subterrâ neas em
pelo indiv íduo, de acordo com seu desejo de atualização pessoal. Ao nossa escala de valores ” ( Pieper , 1963, p. 23) ocorreram nos últimos
exercer tais atividades, o homem realiza alguma coisa que, aos olhos três sé culos, e por meio delas o lazer perdeu seu cará ter como “ uma
dos outros indiv íduos, é desejá vel como um fim em si mesma. Segun - das bases da cultura ocidental ” ( Pieper , 1963, p. 20). Essa distorção
-
da, as atividades que n ão alcan çam esse n ível superior são, de preferê n foi ditada pelas premissas de valor do sistema de mercado, no qual o
cia , determinadas externamente por necessidades objetivas e n ão pela homem sente que est á social e mesmo religiosamente justificado “ a
livre deliberação pessoal . É esse segundo tipo de atividade que força o desfrutar , com a consciê ncia tranquila ” , apenas “ aquilo que adquiriu
indiv íduo a se empenhar em esforços penosos. As atividades de n ível com esforço e sacrif ício ” ( Pieper , 1963, p. 33).
superior n ão deixam de exigir esforços, no entanto são, intrinsecamen - Veblen salienta , corretamente , que a exist ê ncia de uma classe
te , gratificantes. ociosa é imposs ível sem a existê ncia da propriedade privada , fato que
Parece evidente que uma distin ção sistemá tica entre trabalho e foi bem compreendido por Arist ó teles, que especificou també m
ocupação pode ser conceptualizada, de acordo com esses pressupostos. que somente aqueles que dispunham de propriedades individuais po-
O trabalho é a prá tica de um esforço subordinada às necessidades obje- diam ser livres. Para ele , a posse da propriedade era uma condição para
tivas inerentes ao processo de produção em si. A ocupação é a pr á tica uma vida plena , racional , livre. Desse modo, considerava ele o escravo
de esforços livremente produzidos pelo indiv íduo em busca de sua como um ser n ão inteiramente racional , e embora tal opinião seja re-
atualização pessoal . pugnante aos nossos sentimentos atuais, nela Arist ó teles é apenas cul -
Semelhante distin ção constitui a base da teoria de Veblen sobre pado por considerar uma imposi ção das circunstâ ncias como indicação
classe ociosa . O trabalho, como foi definido, tem sido t ão universal - de uma dicotomia essencial entre duas categorias de seres humanos.
mente desprezado, que aqueles que n ão precisam trabalhar para viver Como assinala Leo Strauss :
se empenham em enfatizar essa condição através da prá tica do consu - “ Aristó teles considerou como coisa certa alguma coisa que já n ão po-
mo consp ícuo. No entanto , a noção que Veblen tem de consumo
consp ícuo pode dificultar a plena compreensão do lazer. demos considerar como certa . Tomou como certo o fato de que toda
Na sociedade de mercado, a noção de lazer tem sido degradada, economia teria que ser uma economia de escassez, em que a maior par-
porque se tomou sin ónimo de ociosidade, passatempo, diversão
conotações que o lazer nunca teve antes. Esse fato é sintom á tico das
premissas de valor do sistema de pre ços de mercado, em que o traba
—- te dos homens n ão disporia de lazer . Descobrimos uma economia de
abundâ ncia . E , numa economia de abund â ncia , já n ão é verdade que a
maior parte das pessoas tenha que ser n ão educada . Esse fato constitui
uma resposta perfeita a Arist ó teles, nesse particular . Mas é preciso que
lho foi transformado no crit é rio par excellence de valia e merecimen - vejamos aquilo que mudou , exatamente . N ão os princ ípios de justi ça ,
to. Num mundo de “ trabalho total ” ( Pieper , 1963, p. 20), tal como o
que são os mesmos. O que mudou foram as circunst âncias” (Strauss,
que pressupõe o sistema de mercado, o lazer naturalmente perde o ca-
rá ter que anteriormente teve, de correspondê ncia a uma condição 1972, p. 231 ).
apropriada para os mais sé rios esforços em que um homem se pode
empenhar . Tentando reconstituir o significado original de lazer , Josef De fato, na medida em que a exeqiiibilidade de uma economia
Pieper escreve : de abund â ncia é inconceb ível , é correto admitir que , em todo sistema
pol í tico diferenciado, apenas uma minoria podia ser livre da condi ção
de trabalhadora , o que constitui o requisito indispensável de Aristó te -
“ A ociosidade, no velho sentido da palavra , longe de ser sinó nimo de
lazer é , mais aproximadamente , o requisito indispensá vel e secreto que les para um tipo de vida racional e livre. Portanto, se pusermos nossa
toma o lazer imposs ível : poderia ser descrita como a total ausê ncia de indignação moral contra a justificação da escravatura sob adequada
lazer, ou o exato oposto do lazer. O lazer só é possível quando o ho- perspectiva , n ão h á como fazer obje ção a Aristó teles.
mem se sente unido a si pró prio. A ociosidade e a incapacidade de la - Como acentua Arendt , “ a instituição da escravatura, na antigui -
zer entre si se correspondem. Lazer é o contrá rio de ambas” (Pieper, dade , foi um recurso para excluir o trabalho da condi ção da vida do
1963, p. 40). homem ” ( Arendt , 1958, p. 74 ). Essa exclusão só podia ser viá vel atra -
130 131
vés da institucionalização da escravatura , dadas as capacidades de pro- ser subsidiárias de objetivos mecânicos. Em outras palavras, em tais
du ção daquele per íodo hist órico. Ponderando bem a teoria de Aristó- circunstâ ncias espera -se do homem não que se ocupe adequadamente,
teles em sua apropriada perspectiva hist órica , Arendt escreve: nem que se exprima livremente , em relação à tarefa que lhe foi designa -
da ; espera -se dele que trabalhe . O homem é, portanto , essencialmente
“ Arist ó teles, que defendeu essa teoria t ão explicitamente e depois, em considerado apenas como um componente de uma força de traba -
seu leito de morte , libertou os escravos que possu ía, talvez n ão tenha lho .10 A transformação do indiv íduo num trabalhador é um requisito
sido t ão incoerente como os homens modernos est ão inclinados a pen - do plano mecânico da produção .
sar. Ele não negava ao escravo a capacidade de ser humano, mas ape -
Segundo, o sistema de mercado é um sistema de preços e precisa
nas o uso da palavra ‘homens’ para membros da espécie humana, en-
de padrões objetivos para determinar a equivalê ncia de bens e serviços.
quanto os mesmos estivessem inteiramente sob o dom í nio da necessi-
Alé m disso , na medida em que os relacionamentos entre produtores e
dade. E é verdade que o uso da palavra ‘animal’, no sentido de animal
consumidores, no mercado , são destacados e simultaneamente classifi-
laborans, de maneira distinta do muito discut ível uso da mesma pala-
cados sob um processo competitivo, os lucros e custos precisam ser ri-
vra na expressão animal rationale, é inteiramente justificado. O animal
gorosamente calculados. Desse modo, o indiv íduo participa do proces-
laborans é , realmente, apenas uma e na melhor das hipóteses a mais
so de produ ção, mas unicamente como um item de custo. Os fatores
elevada das espécies animais que povoam a terra" ( Arendt , 1958, p.
de produção são avaliados em termos de preço e , assim , o indiv íduo
74-5).
toma -se apenas um ganhador de sal á rio. No mercado, como observou
O fato de que palavras como razão, racionalidade e lazer adqui- Blake, “ as almas das pessoas são compradas e vendidas". 11 A transfor-
rem, no sistema de mercado, significados que originalmente n ão expri - mação do indiv íduo num trabalhador é um requisito da contabilidade
miam n ão é acidental . O processo da consolidação institucional do sis- de produção.
tema de mercado é inseparável de um processo de desculturação da Terceiro, o sistema de mercado n ão pode funcionar em bases pu -
mentalidade ocidental , por meio do qual é eliminado o sentido origi - ramente té cnicas e económicas. Só se poderia transformar no mais im -
nal dessas palavras. De modo particular , o lazer e a distinção qualitati- portante setor social na medida em que o processo geral de socializa-
va nele contida entre trabalho e ocupação foram transformados, de ção induzisse os indiv íduos a aceitarem seus requisitos psicológicos.
maneira a enquadrar o termo no arcabou ço epistemol ógico do sistema Diversos estudiosos t ê m examinado as conota ções religiosas da ideolo-
de mercado. Nesse sistema , o trabalho transformou -se na fonte de to- gia inerente ao sistema de mercado , e salientam que tal ideologia n ão
dos os valores e o animal laborans foi elevado “ à posição tradicional- representa a contribuição de uma ú nica pessoa , mas resultou de esfor-
mente ocupada pelo animal rationale” ( Arendt , 1958, p. 75). ços confluentes de filósofos como Hobbes e Locke , de reformadores
A maneira pela qual ocorreu essa transformação constitui uma religiosos como Lutero e Calvino, de moralistas como Bentham e ou -
quest ão muito complexa e que, ali ás, foi amplamente discutida por tros, que elaboraram o antecedente teó rico do éthos utilitá rio. A con -
W . A . Weisskopf ( 1957; 1971). Tal discussão aborda apenas as razões sequê ncia final dos esforços desses homens é a é tica do trabalho, ba -
psicoculturais para a “ s ú bita , espetacular ascensão do trabalho, da seada no postulado de que o trabalho é o crité rio cardinal de valor ,
mais baixa , mais desdenhada posição ao n ível mais elevado, como nos dom ínios da existê ncia individual e social . Aquilo que em econo-
a mais prezada de todas as atividades humanas" ( Arendt , 1958, p. 88). mia é conhecido como a teoria de valor do trabalho é apenas um as-
Segue -se um sumá rio de razões: pecto particular da ideologia que legitima a sociedade centrada no
Primeiro, o sistema de mercado encontrou condições excepcio- mercado.12
nais para estabelecer seu comando sobre a vida social durante a chama - Sobre este ponto , veja Weisskopf (1957 e 1971).
-
da revolução industrial . A ind ústria tomou -se , agora , uma pe ça funda
10

mental , um componente do sistema de mercado. A produ ção indus - 11


Apud Hicks, John ( 1969 , p. 123).
trial apóia-se antes nas leis da mecânica do que em qualquer destreza 12 Sir John Hicks escreve : “ Trabalho ... n ão é... ‘ocupação . Cada uma das
1

pessoal particular , condicionando o homem , eficazmente , a concordar classes de pessoas cujas atividades estivemos examinando tem sua ocupa ção. O
com suas exigê ncias operacionais. No processo de fabrica ção, o traba - campon ês tem sua ocupação, o administrador tem sua ocupação, o negociante
lho é dividido e , assim , quanto mais o indiv íduo se adapta às determi - tem sua ocupa ção, mesmo o proprietário , na medida em que conserva uma fun -
ção positiva , tem sua ocupação. O que caracteriza o operá rio, ou trabalhador , no
nações mecânicas ao fazer as coisas, melhores são os resultados gerais .
sentido mais estreito . . é que ele trabalha para uma outra pessoa. Ele é ( não te-
esperados. No contexto de tais circunstâncias, e para chegar à conse - nhamos medo de dizer ) um servidor.* E Hicks acrescenta : “ A economia mercan-
1

cução dos resultados finais previstos, as habilidades pessoais passam a til nunca foi capaz de passar sem servidores * ( Hicks, 1969, p. 122)
1
.
132 133
A escolha do trabalho como instrumento de medição do valor e ximização de recursos limitados e utiliza crit é rios quantitativos para
da dignidade humana de um modo geral foi condicionada pela necessi - avaliar a equival ê ncia de bens e serviços. Isso quer dizer que as organi
za ções económicas, tendo exigê ncias pró prias que n ão coincidem, ne-
-
dade de aliviar a disson ância cognitiva gerada pelo surgimento do sis-
tema de mercado. A velha distinção entre ocupação e trabalho precisa - cessariamente , com aquilo que é requerido pela boa qualidade da exis-
va ser solapada , de outro modo os conflitos interiores da psique huma - tê ncia humana em geral , devem ser consideradas como pertencentes a
na tomariam o sistema de mercado impraticá vel. O trabalho como ins - um enclave conceptual e pragmaticamente limitado, dentro do espaço
vital humano.
trumento de medição do valor e da dignidade humana é um expe-
diente psicocultural , usado para minimizar a disson â ncia cognitiva e o 2. A conduta individual , no contexto das organizações econ ómi-
conflito interior. cas, est á , fatalmente, subordinada a compulsões operacionais, for -
O rudimento de uma distin ção entre as duas palavras é encon- mais e impostas. Assim sendo, o comportamento administrativo é in -
trado no livro Principles of economics, de Alfred Marshall . O trabalho trinsecamente vexat ório e incompat ível com o pleno desenvolvimento
é nele definido como “ qualquer esforço de mente ou de corpo, pro- das potencialidades humanas.
movido parcial ou totalmente com vistas a alguma coisa boa , alé m do 3. A organização econ ómica é apenas um caso particular de diver-
prazer diretamente derivado do trabalho ( wor )” .13 Embora esta afir-
* sos tipos de sistemas microssociais, em que as funções econ ómicas
mação esclare ça de modo satisfat ório a natureza do trabalho, o faz são desempenhadas de acordo com diferentes escalas de prioridades.
erradamente no final , quando usa a palavra work . Depois de citar a de - A import ância do comportamento administrativo diminui , quando se
parte de sistemas sociais planejados para a obten ção de lucro e se ca-
finição de Marshall , Galbraith observa corretamente , na obra The
Affluent society ( 1958, p. 264 ), que a distin ção formal entre trabalho minha no sentido de sistemas sociais mais adequados à atualização
e ocupação n ão teve papel na teoria econó mica . Galbraith parece acre- humana .
ditar que as condições peculiares da sociedade afluente exigiriam a dis- 4. Uma abordagem substantiva da teoria organizacional preocupa-se ,
tin ção, para a clarificação de seus problemas. Não h á d ú vida , poré m , sistematicamente, com os meios de eliminação de compulsões des-
de que tal distin ção é teoricamente importante , do ponto de vista de necessá rias agindo sobre as atividades humanas nas organizações
uma abordagem substantiva da organização. econ ómicas e nos sistemas sociais em geral . Em outras palavras,
tal abordagem reconhece que , por sua pró pria natureza, o comporta -
6.7 Conceptualização de uma abordagem substantiva da organização mento administrativo constitui atividade humana submetida a compul-
sões operacionais. Todavia , essa abordagem está interessada em meios
Temos que começar , a esta altura , o confronto com a noção de viáveis de redu ção, e mesmo de eliminação, de descontentamentos e
delimitação organizacional. A expressão pressupõe, n ão apenas que h á com o aumento da satisfa ção pessoal dos membros das organizações
m ú ltiplos tipos de organização, mas també m , e mais importante ainda , económicas.
que cada um deles pertence a enclaves distintos, no contexto da tessi- 5. As situações em que os seres humanos se defrontam com tópi-
tura geral da sociedade . As organizações formais convencionais cons- cos relativos à pr ó pria atualização adequadamente entendidas, têm
titu íram , até agora , o interesse principal da teoria organizacional con - exigê ncias sist é micas diferentes daquelas que atendem aos contextos
tempor ânea , o que tem inibido os teoristas da organiza ção, quanto a econ ó micos. Essa diferenciação social sisté mica foi corretamente
sistemá tica e acuradamente se dedicarem à variedade de sistemas so- apreendida por H. Arendt como uma condi ção que habilita os indiv í-
ciais que constitui o espaço macrossocial . Para que seja poss ível superar duos a se avantajarem , na consecução das diferentes obras de suas vi-
esse paroquialismo teórico, é necessário um enfoque substantivo da or- das. Diz ela : “ Nenhuma atividade pode vir a ser excelente, se o mundo
ganização, e esse enfoque se caracteriza pelas seguintes considerações: não proporcionar um lugar adequado para seu exercício” ( Arendt ,
1. Os limites da organização deveriam coincidir com seus objetivos. 1958, p. 49). Para proporcionar esses lugares adequados, precisamos
Nessa conformidade , a delimitação organizacional est á, primor- começar formulando uma tipologia de interesses humanos e dos cor -
dialmente , interessada na delimitação das fronteiras específicas da or- respondentes sistemas sociais onde tais interesses possam ser propria -
ganização econ ó mica. É poss ível tentar definir a organização econ ó mi- mente considerados como t ó picos do desenho organizacional.
ca como um sistema microssocial que produz mercadorias segundo Como indicam estas cinco considera ções, uma abordagem subs-
normas contratuais objetivas, dispõe de meios operacionais para a ma- tantiva da organização resiste a tomar -se , sob qualquer disfarce , um
13 Apud . .
Galbraith, J . K . (1958, p 264 ) instrumento de pol í tica cognitiva.

134 135
6.8 Conclusão to e eficazmente combinadas do ponto de vista dos rendimentos dese-
jados. A mescla que hoje se faz da teoria da organização econ ó mica
Ante a an álise até aqui apresentada , torna -se claro que a teoria com a teoria da personalidade é uma união espú ria, que esconde um
da organiza ção precisa ser reformulada sobre novos fundamentos epis- propósito sinistro. A ú nica desculpa para seus advogados é , na melhor
temol ógicos. Dos dias de Taylor at é hoje , a teoria da organização - hipótese, sua equivocada boa-fé .
graças à persistente falta de exame de suas dimensões epistemológi -
De fato , os proponentes da administra ção cient ífica , como
cas - tem sido, em grande parte , uma ideologia do sistema de preço de
Taylor, e os operacionalistas positivos, como Herbert Simon , estão mais
mercado. Só sobreviverá se for transformada numa teoria realmente
vi á vel , fazendo -se sens ível aos pontos cegos de sua conceptualiza ção e
pró ximos de uma teoria de organização válida do que os teoristas hu -
redefinindo-se sobre bases substantivas .
-
manistas , que colocam erradamente a noção de auto atualiza ção.
Para o aperfeiçoamento da teoria da organização, precisar -se-ia
As afirmações que se seguem são oferecidas como um conjunto
- reformular Taylor e Simon . Foi cheio de sentido o esforço desses ho-
de poss íveis diretrizes, necessá rias à reformula ção da teoria da orga
mens, tentando descobrir estruturas eficazes que deveriam caracterizar
nização:
as organizações econ ó micas , para que as mesmas pudessem atingir seus
1 . O homem tem diferentes tipos de necessidades, cuja satisfação
requer mú ltiplos tipos de cen ários sociais. É poss ível n ão apenas -
objetivos. Interessaram se eles, essencialmente , pelas quest ões t écnicas e
a maior parte daquilo que disseram ainda constitui , pelo menos , um
categorizar tais tipos de sistemas sociais, mas també m formular as con - fundamento parcial , sobre o qual se pode continuar a promover a
di ções operacionais peculiares a cada um deles. constru ção te ó rica. Há muita coisa a ser considerada v á lida no esforço
2. O sistema de mercado só atende a limitadas necessidades huma- de Taylor para formular os fundamentos de uma ciência da produ ção.
nas, e determina um tipo particular de cen ário social em que se es- Simon , també m , estava basicamente correto, em sua tentativa de escla -
pera do indiv íduo um desempenho consistente com regras de comuni - recimento do processo da tomada de decisões , já que o mesmo, como
cação operacional , ou crité rios intencionais e instrumentais, agindo co- é caracter ístico , se desenrola dentro dos limites da organização econó -
mo um ser trabalhador . O comportamento administrativo, portanto, é mica. No entanto, quando eles negligenciaram as fronteiras das regras
conduta humana condicionada por imperativos econ ó micos. de cognição inerentes às organizações econ ó micas, sua psicologia tor-
3. Diferentes categorias de tempo e espaço vital correspondem a nou -se, do ponto de vista objetivo, uma psicologia de má-fé, porque
tipos diferentes de cen á rios organizacionais . A categoria de tempo e inconscientemente , transformaram as mesmas em regras de cogni ção
espaço vital exigida por um cen ário social de natureza econ ómica é supostamente v álidas para a natureza humana em geral .
apenas um caso particular entre outros, a ser discernido na ecologia Taylor e Simon ainda merecem ser reexaminados , do ponto de
global da exist ê ncia humana . vista de uma teoria de organização econ ó mica , mas de uma teoria
4. Diferentes sistemas cognitivos pertencem a diferentes cen ários contida entre suas adequadas fronteiras. A teoria da organização que
organizacionais. As regras de cognição inerentes ao comportamento imaginaram trata de atividades humanas operacionalmente ú teis para
administrativo constituem caso particular de uma epistemologia multi - poupar recursos. O erro de Taylor consistiu em expandir exagerada -
dimensional do planejamento de cen á rios organizacionais. mente a l ógica dessas atividades espec íficas. Para ele , cada ato da vida
5. Diferentes cen á rios sociais requerem enclaves distintos, no con - humana deveria ser focalizado do ponto de vista da administra ção
texto geral da tessitura da sociedade, havendo, contudo, v ínculos cient ífica . Parece n ão ter interesse no papel da interação social primá -
que os tornam inter relacionados. Tais v ínculos constituem ponto cen -
- ria (simbólica ), um campo da associa ção que nada tem a ver com pos -
tral do interesse de uma abordagem substantiva do planejamento de sibilidade de cálculo e maximização. Em ú ltima an álise , Simon equipa -
sistemas sociais.14 ra a racionalidade com a estimativa de consequências e , por conseguin -
O estudo cient ífico das organizações econ ó micas trata de estru -
te , identifica as exigê ncias psicol ógicas do sistema de mercado com a
turas que conduzem à efetiva utiliza ção de recursos f ísicos e de m ão- natureza humana em geral .
de-obra . Esse estudo cient ífico da produ ção, é verdade , focaliza seu in -
teresse sobre personalidades, mas apenas na medida em que as aptid ões O problema de pontos de vista doutrin ários dessa espé cie n ão es-
e habilidades individuais podem ser melhoradas através do treinamen - tá apenas em que são teoricamente alienados, mas també m em que,
mediante a prá tica da pol ítica de cognição, são eles utilizados para
14 As redes e os papéis a serem desempenhados nas redes, na concepção dc
Schon , ilustram especificamente tal abordagem . Veja Schon ( 1971 ). construir a realidade social do cidad ão comum.
137
136
i
Não há sentido em se descartar o estudo cient ífico dos cen ários
sociais de natureza econó mica. A sociedade , como um todo, não pode
-
Neisser, U. Cognitive psychology. New York , Apple ton Century -Crofts,
1967.
subsistir sem eles. 0 planejamento e a operação desses cen ários consti
tuem um problema t é cnico de car á ter peculiar . No entanto, esse tema
- Perrow, C. Complex organization , a critical essay. Glenview, Illinois,
Scott , Foresman , 1972.
é apenas parte daquilo que , no cap ítulo seguinte, será conceptualizado Pfiffner, J . & Sherwood , F . Administrative organization. Englewood
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138 139
Figura 1
0 paradigma paraeconômico
Prescrição
Economia Isolado
CTJ

I a
E
-s39
a
E
3 1 §
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=
7. TEORIA DA DELIMITA ÇÃO DOS SISTEMAS SOCIAIS: í •a
APRESENTA ÇÃO DE UM PARADIGMA 1 S í 2
o>
c


O Motim A nomia
0 modelo de an álise e planejamento de sistemas sociais que ora Ausê ncia de
predomina , nos campos da administração, da ciê ncia pol ítica , da eco- normas
nomia e da ciê ncia social em geral , é unidimensional , porque reflete o
moderno paradigma que, em grande parte , considera o mercado como tanto pode ocorrer em pequenos ambientes exclusivos , quanto em
a principal categoria para a ordenação dos negócios pessoais e sociais.
Neste cap ítulo, começarei a delinear um modelo multidimensional ,
comunidades de regular tamanho. Nesses lugares alternativos, é possí -
vel uma verdadeira escolha pessoal , mas é preciso que se tenha em
para a análise e a formulação dos sistemas sociais, no qual o mercado é mente que, no arcabou ço epistemol ógico do paradigma , a escolha
considerado um enclave social leg ítimo e necessá rio, mas limitado e re
gulado , modelo que reflete aquilo que chamo de paradigma paraeco-
- pessoal não tem a mesma conotação da palavra escolha no campo das
ciê ncias pol íticas atuais e , especialmente , aquela em que é usada pelos
nô mico. teoristas da escolha pú blica , l os quais seriam capazes de ver escolha
O ponto central desse modelo multidimensional é a noção de pessoal onde, do ponto de vista do paradigma, n ão h á nenhuma. Redu -
delimita ção organizacional , que envolve : a ) uma visão da sociedade co- zem o indiv íduo, ou o cidad ão, a um agente da maximização da utilida-
mo sendo constitu ída de uma variedade de enclaves ( dos quais o mer
cado é apenas um), onde o homem se empenha em tipos nitidamente
- de , permanentemente ocupado em atividades de comé rcio. A escolha
exercida por esse agente não envolve uma confrontação do merca-
diferentes, embora verdadeiramente integrativos, de atividades subs - do , mas pressupõe que o indiv íduo neste se inclui completamente ,
tantivas; b ) um sistema de governo social capaz de formular e imple
mentar as pol íticas e decisões distributivas requeridas para a promoção
- tendo sua natureza definida pelas exigê ncias do mercado. A teoria da
escolha pú blica , da mesma forma que a teoria administrativa , é prega -
do tipo ótimo de transações entre tais enclaves sociais. A teoria da da em termos de um modelo humano unidimensional , que visualiza o
delimita ção dos sistemas sociais aqui apresentada enfoca , sobretudo, a espaço social como horizontal e plano: nele , onde quer que o homem
primeira implicação. A segunda é examinada nos capí tulos 8 e 9. vá , nunca sai do mercado.
A figura 1 mostra as dimensões principais do paradigma para - Ao contr á rio, primeiro e acima de tudo, o padr ão paraecon ômi -
econômico. As categorias do paradigma (em grifo) devem ser conside- co parte do pressuposto de que o mercado constitui um enclave den -
radas como eiabora ções heur ísticas, no sentido weberiano. Não se tro de uma realidade social multicé ntrica , onde h á descontinuidades
espera de nenhuma situação existente na vida social que coincida com de diversos tipos, m ú ltiplos crit é rios substantivos de vida pessoal e
esses tipos ideais . No mundo concreto , só existem sistemas sociais mis- uma variedade de padr ões de relações interpessoais. Segundo, nesse
tos. espaço social , só incidentalmente o indiv íduo é um maximizador da
Uma explicação de alguns detalhes específicos do paradigma utilidade e seu esforço básico é no sentido da ordena ção de sua
-
toma se agora oportuna . exist ê ncia de acordo com as pró prias necessidades de atualização
pessoal . Terceiro , nesse espaço social , o indiv íduo n ão é forçado a
7.1 Orientação individual e comunitária conformar -se inteiramente ao sistema de valores de mercado. São lhe
dadas oportunidades de ocupar-se , ou mesmo de levar a melhor sobre
-
No mundo social visualizado pelo paradigma , há lugares para a 1 Veja , por exemplo, Monsen , R .J . & Downs, A . (1971 ) e Tullock , G. (1972).
atualização individual livre de prescrições impostas, e essa atualização
140 141
o sistema de mercado, criando uma porção de ambientes sociais que
diferem uns dos outros, em sua natureza , e deles participando. Em
suma, o espa ço retratado pelo padrão é um espaço em que o indiv íduo
i muitos casos em que uma pessoa podia fugir da emula ção fren é tica de

nosso sistema económico instituições como a fam ília numerosa e a
vizinhan ça est á vel , nas quais se podia encontrar um prazer diferente
pode ter ação adequada , em vez de comportar -se apenas de maneira daquele que se experimenta ao conquistar uma vit ória simbólica sobre
que venha a corresponder às expectativas de uma realidade social do- um companheiro. Mas desapareceram , esses casos, um a um, deixando
minada pelo mercado. o indiv íduo, mais e mais , numa situação em que precisa tentar satisfa -
Raramente se podem integrar atualização pessoal e maximização
da utilidade , no sentido estritamente econ ómico. Onde quer que am-

zer suas necessidades gregá rias e hostis no mesmo lugar o apelo da
vida cooperativa fez-se mais sedutor e a necessidade de suprimir o de -
bas sejam seriamente consideradas como imperativos fundamentais da sejo que temos dela se fez mais aguda ” (Slater , 1971 , p. 6).
vida individual e social , é preciso que se delimitem enclaves em que ca -
Uma arte de formulação de sistemas sociais preocupada com a
da uma delas possa ser convincentemente atendida. A maximização da atualização humana , por direito pró prio, assim como com a eficiê ncia
utilidade é incidental , nos sistemas que visam a atualização pessoal e , na produ ção de bens e na prestação de serviços, tem que defender uma
conversamente , a atualização pessoal é incidental naqueles que visam a variedade de ambientes organizacionais, em que esses diferentes objeti-
maximização da utilidade. Assim , a formula ção dos sistemas sociais é , vos possam ser mais ou menos atendidos. A afirmação inadequada de
tanto quanto uma ciência, uma arte multidimensional . que o interesse pelas pessoas pode ser harmonizado com o interesse
A delimitação organizacional é , portanto, uma tentativa sistem á- pela produção de mercadorias só se justifica à base de uma abordagem
tica de superar o processo cont ínuo de unidimensionalização da vida unidimensional da organização. E esse é , precisamente, o erro caracte-
individual e coletiva . A unidimensionalização é um tipo específico de r ístico das atuais tendê ncias do pensamento e da prá tica , no campo
socialização , através do qual o indiv íduo intemaliza profundamente o administrativo. Os exemplos incluem designa ções como a teoria x con -
— —
cará ter o ethos do mercado, e age como se tal cará ter fosse o su -
premo padrão normativo de todo o espectro de suas relações inter -
tra a teoria y , escala gerencial ( managerial grid ) e desenvolvimento
organizacional.
pessoais. 2 Esse processo é caracter ístico da sociedade centrada no Em vez de proclamar a possibilidade de uma total integração das
mercado, na forma institucional peculiar que a mesma assumiu nos metas individuais e organizacionais, o paradigma aqui apresentado
pa íses industriais desenvolvidos.3 mostra que a atualização humana é um esforço complexo. Jamais po-
O processo de unidimensionalização tem sido examinado por derá ser empreendido num tipo único de organização. Como detentor
numerosos autores de diferentes convicções filosóficas. Não tenho a de um emprego , o indiv íduo é , geralmente , obrigado a agir segundo
inten ção de elaborar esse ponto, mas merece aten ção um livro de regras impostas. Contudo, em diferentes graus, tem ele variadas neces -
Philip Slater , intitulado The Pursuit of loneliness: American culture at sidades. Por exemplo, precisa participar da comunidade, da mesma
the breaking point . Slater investiga as consequê ncias psicol ógicas e so- forma que tomar parte em especulações que déem expressão à singula -
ciais da unidimensionalização. No mundo social que descreve , “ rela - -
ridade de seu cará ter. Os cená rios adequados à satisfa ção de tais neces
-
ções p ú blicas, o drama da televisão e a vida tomam se indistingu íveis” sidades , embora em grande parte n ão estruturados, são até certo ponto
(Slater , 1971 , p . *19), e o indiv íduo é sistematicamente ensinado a ex
primir mal suas emoções. Esse tipo de mundo engendra aquilo que
- modelados por prescrições ou a que se chegou por consenso , ou que
foram livremente auto impostas. O exame dos termos de governo inte
- -
Slater define como a “ perversão da emocionalidade humana ” (Slater , rior peculiares a diferentes espaços sociais será feito numa fase ulterior
1971 , p. 3), e ele vê o processo de unidimensionalização da sociedade desta análise . É importante, agora, prosseguir no delineamento do pa -
-
americana aproximando se do ponto de ruptura. No passado, os ame -
ricanos tinham condições de formular contextos existenciais mais ajus-
radigma geral que estamos examinando.
tados a suas próprias escolhas, e é assim que Slater afirma:
7.2 Prescrição contra ausência de normas
“ No passado, como tantos já salientaram, houve em nossa sociedade
Para que se consiga a execu ção de qualquer trabalho, é preciso
2 Para uma visão mais complexa da unidimensionalização, veja Marcuse, Her -
bert (1966 ). Sobre esse processo de perspectiva hist órica , veja Halmos , Paul
que haja a observância de normas operacionais. Quanto maior é o car á
ter económico do trabalho, menos oportunidade de atualização pes
-
-
(1953 ) . soal é oferecida aos que o executam pelas respectivas prescrições ope -
3 Sobre este ponto , veja Polanyi, Karl (1971 ). racionais. E isso ocorre porque h á uma oportunidade m ínima de esco-
142 143
lha pessoal , no sentido em que a mesma foi discutida anteriormente .
da pessoal criativa . “ A solid ão ” , diz Marcuse ( 1966, p. 70), “ a pró pria
Essa contradição entre as necessidades individuais e as exigê ncias da
organização econó mica n ão pode ser resolvida através de nenhuma
condição que foi o sustentá culo do indiv íduo contra e al é m da socie -
prá tica behaviorista , ou dita human ística. A produ ção de bens e a -
dade em que vive , tomou se tecnicamente imposs ível.” Pode se facil
mente comprovar tal afirma ção. Num ensaio cheio de discernimento,
- -
prestação de serviços, sob o imperativo de maximização do saldo l í-
Mordecai Roshwald oferece uma porção de exemplos significativos,
quido entre custos e benef ícios, reclamam tipos de organizações em
aludindo à padronização da emocionalidade , que resulta do largo uso
que , obviamente , há pouca toler ância para a atualização pessoal. Na
de cart ões dispon íveis nas lojas, para que os fregueses manifestem seus
realidade , a palavra comportamento , nesse contexto , significa aquilo
sentimentos, em ocasi ões como natal ícios, aniversá rios , casamentos,
que se espera que as pessoas fa çam , em sua qualidade de detentoras
de emprego. Assim , como foi dito anteriormente , o comportamento
mortes, doenças, situações de solidariedade ; à utilização dos chefes de
administrativo consiste na atividade humana sob prescrições opera - torcida , para animar o p ú blico presente aos jogos de futebol ; ao uso
cionais formais e impostas. O uso inadequado da expressão compor - das “ deixas ” para o riso e o aplauso, orientando os que assistem a pro -
gramas de audi ê ncia. A educação, també m, n ão escapou ao processo
tamento administrativo é , ele pró prio, uma indicação do car á ter uni
dimensional da teoria e da pr á tica organizacionais do momento. Essa
- de superorganiza ção; seu objetivo, de modo geral , é sobretudo tomar
as pessoas capazes de se transformarem em detentoras de emprego , no
teoria ignora , sistematicamente, o fato de que o comportamento admi
nistrativo é uma categoria de conformidade a prescrições formais e im -
- sistema de mercado. Os estudantes dos gin ásios e dos cursos colegiais
postas. Quanto mais a atividade humana é considerada administrativa,
são submetidos a praxes uniformes de ensino e avalia ção, que dificil -
menos é ela uma expressão de atualização pessoal .
mente lhes estimulam a criatividade e o desenvolvimento da sensitivi -
Uma vez que as economias funcionam , caracteristicamente, na
dade , em relação ao cará ter complexo dos t ó picos para os quais se de -
termina que orientem sua aten ção.4 Preso continuamente a uma trama
sociedade centrada no mercado, são elas, até certo ponto, sistemas
ameaçadores que dispõem de meios para compelir seus membros a
de exigê ncias sobre mé todo e organização, o indiv íduo acaba por acei -
tar uma visão predeterminada da realidade .
aceitar as prescrições operacionais estabelecidas. Dizem ao indivíduo: É ó bvio que a superorganização aumenta a despersonalização do
aceite as normas de desempenho, ou saia. O comportamento adminis-
trativo é uma sí ndrome psicol ógica inerente à economia e aos sistemas
indiv íduo. Nos trabalhos de Erving Goffman , por exemplo, encontra se -
abundante material cl ínico sobre as pressões institucionalizadas de
amea çadores em geral . No entanto, o problema relativo ao modelo despersonalização. Uma das conclusões de Goffman é a de que um
atual da teoria unidimensional de organiza ção e à sua prá tica está em
que o mesmo pressupõe que o comportamento administrativo é idê n - -
modelo predominante da inter ielação pessoal , na sociedade , consiste
na gerência de impressão ( impression management), ou seja , a prá tica
tico à natureza humana. Essa errónea suposição é, às vezes, expressa do engano sistemá tico entre as pessoas. As conclusões de Goffman d ão
em termos rudes. Por exemplo, num manual de comportamento t ípi - apoio emp írico à afirmação de que, numa sociedade superorganizada ,
co, lê-se que “ a organização, ao que se acredita , tem em larga escala o indiv íduo perde a identidade pessoal , na medida em que é induzido
todas as qualidades do indiv íduo” ( Rush , 1969, p. 8). Sob as pressões a interiorizar uma determinada identidade , exigida pelos papé is que se
do sistema de mercado, n ão é de surpreender que o indiv íduo médio espera que desempenhe . 5
se sinta confuso , tanto sobre a natureza da condi ção humana , quanto
sobre atualização pessoal . A teoria administrativa corrente dá legitimi-
Uma arte muldimensional de desenho de sistemas sociais n ão po -
de desprezar os efeitos psicol ógicos das prescrições operacionais. N ão
dade ao crescente processo de superorganização e de despersonaliza - procura eliminar essas prescrições do mundo social , porque as mesmas
ção do indiv íduo, no contexto do sistema de mercado de um tipo in - são indispensá veis à manutenção e ao desenvolvimento do sistema de
dustrial desenvolvido.
Esse duplo processo de superorganização e de despersonalização -
apoio de qualquer coletividade . No entanto, interessa se pela delimita -
ção dos enclaves em que cabem tais prescrições, e nos quais podem até
poderia ser caracterizado como se segue: o fen ô meno da superorgani -
zação na sociedade americana tem sido estudado por numerosos espe-
ser legitimamente impostas ao indiv íduo. Nos sistemas sociais que vi -
cialistas. A superorganização ocorre com a transforma ção de toda a so-
sam maximizar a atualização pessoal , as prescrições não são elimina
das. São m ínimas, poré m , e nunca são estabelecidas sem o pleno con
-
ciedade num universo operacionalizado, em que se espera sempre que -
o indiv íduo viva como um ator , a quem cabe um papel determinado.
sentimento dos indiv íduos interessados. Tais sistemas são bastante fie -
Num sistema social superorganizado, o indiv íduo não dispõe de 4 Veja Roshwald , M . (1973) .
lugar e tempo verdadeiramente privados, duas condi ções para uma vi - 5 Veja , especialmente , Goffman ( 1961 ). Veja també m Goodman , Paul ( I 960).
144 145
»
x íveis para estimular o senso pessoal de ordem e de compromisso com soai . São os beats , os marginais , os exclu ídos, que vez por outra assu -
os objetivos fixados, sem transformar os indiv íduos em agentes passi - -
mem a condição do jovem errante , ou do adulto n ão convencional , em
vos. A total elimina ção das prescrições e das normas é incompat ível
com uma significativa atualização humana , no contexto do mundo so-
busca da pró pria identidade ou de novas experiê ncias ; são alguns cri
minosos, viciados em drogas , é brios e mendigos, os indigentes e os
-
cial . Nessa conformidade , os fatos classificados nas categorias de mo- mentalmente defeituosos.
tim (mob) e anomia (anomy ) põem em risco , essencialmente , a viabili
dade de toda a tessitura social.
- O indiv íduo an ômico é incapaz de criar um ambiente social pa
ra si pró prio e , simultaneamente , obedecer às prescrições operacionais
-
No contexto deste cap ítulo , o formulador de um sistema social de organizações importantes para sua subsist ê ncia . Tem que ser assis -
não é encarado como uma espécie de benfeitor ou de Pigmalião, que tido, protegido ou controlado por instituições como o Exército de Sal -
modela um ambiente e diz a seus membros como nele devem viver. É, vação, os hosp ícios, os reformatórios, os hospitais e as prisões . No en -
antes, imaginado como um agente , capaz de facilitar o desenvolvimen
to de iniciativas livremente geradas pelos indiv íduos, pass íveis de se
- tanto, o planejamento dos ambientes destinados aos indiv íduos an ò mi
cos precisa atender a requisitos específicos. Os articuladores e os res
-
-
amalgamarem , sob a forma de configurações reais. Nessa qualidade, ponsáveis por esses sistemas deveriam compreender que a tarefa que
pode ele desempenhar alguns dos papé is que caracterizam a rede ge - lhes cabe envolve meios e habilidades adequados aos objetivos imedia -
rencial de Donald Schon ,6 tais como o de facilitador , de negociador -
tos. Nesse sentido, a anomia encaixa se no quadro da delimita ção e
de sistemas, de gerente de underground , de manobrador , ou de corre - uma das razões pelas quais as instituições referidas geralmente agravam
tor. Outros t í tulos podem -se acrescentar a estes, como o de construtor a condição an ô mica das pessoas de que cuidam é que seu esquema e
de equipe , o de especialista em din â mica de grupo, terapeutas de gru - administração n ão são sistematicamente encarados como pertencendo
po como representado, por exemplo, por Ira Progoff , e o papel de pla - a um enclave social espec ífico. Os clientes dessas instituições, que
nejador de espaço, como foi descrito por Fred Steele. 7 constituem , de fato , um testemunho vivo do desconforto que prevale -
Deve ser salientado , finalmente , que da forma como est ão con - ce na sociedade, são definidos em termos dos pressupostos operacio -
ceituados no paradigma , n ão se espera que os enclaves existam em par - nais do conjunto social, que penetram em todos os campos. Essa cir -
tes segregadas do espaço f ísico. Economias , isonomias, fenonomias e cunstâ ncia , por si pró pria , inibe a compreensão dos que agem em no -
suas formas mistas caracterizam -se por seus estilos específicos de vida me desses ó rgãos, quanto à natureza de suas funções e. quanto às quali -
e , eventualmente , podem ser encontradas em vizinhan ça f ísica . ficações que se supõe que tenham . Est ão sendo hoje em dia ampla -
mente experimentados numerosos ambientes destinados ao trato com
7.3 Conceituação das categorias delimitadoras
indiv íduos anô micos. A formulação e implementação de tais ambien
tes, tal como referem, por exemplo, J . M. N . Query (1973), S. B. Saran
-
-
É oportuna , agora , uma conceituação de cada uma das catego - —
son (1974 ) e outros, envolvem uma per ícia espec ífica expertise —
que agora ainda est á em est ágio muito incipiente . Se vier a ser possível
rias representadas no paradigma . uma delimitação do mercado, ent ão a estrutura , as fun ções e os pres -
supostos de tais instituições ser ão radicalmente diferentes daqueles
7.3. 1 Anomia e motim que atualmente prevalecem . Assim sendo, a anomia faz jus a ser consi -
derada uma categoria de delimitação organizacional .
A presen ç a das categorias anomia e motim no paradigma é exi- -
No paradigma , anomia refere se a indiv íduos desprovidos de nor-
gida pela l ógica de suas dimensões. A anomia é conceituada como uma mas orientadoras, que n ão tê m o senso de relacionamento com outros
situa ção estanque , em que a vida pessoal e social desaparece. O termo
anomia (anomie, em francês ), originariamente inventado pelo sociólo-
indiv íduos. Motim é a referê ncia de coletividades desprovidas de nor -
mas, a cujos membros falta o senso de ordem social. Pode acontecer
go francês É mile Durkheim , define uma condição em que os indiv í - que uma sociedade se tome passível de perturbação pelos motins,
duos subsistem na orla do sistema social . Eles são desprovidos de nor
mas e de ra ízes, sem compromisso com prescri ções operacionais, mas
- quando perder , para seus membros, a representatividade e o significado.
são incapazes de modelar suas vidas de acordo com um projeto pes- 7.3.2 Economia
6 Veja Schon (1971 ).
Em termos gerais, uma economia é um contexto organizacional
7 .
Veja Steele (1973) altamente ordenado, estabelecido para a produ ção de bens e /ou para a
146 147
I
prestação de serviços, possuindo as seguintes caracter ísticas :
.1 Presta seus serviços a fregueses e / ou a clientes que, na melhor os indiv íduos e as economias, resume completamente a natureza hu
mana. A predomin ância das economias e do comportamento adminis-
-
das hipóteses, têm influê ncia indireta no planejamento e na execução
de suas atividades. trativo é considerada axiomá tica pelos teoristas pol íticos, económicos
I e administrativos centrados no mercado. Ilustrando esse ponto, é
2. Sua sobrevivê ncia é uma função da eficiê ncia com que produz
os bens e presta serviços aos fregueses e clientes. Assim sendo, a oportuno comentar uma passagem de Victor Thompson , em seu livro
eficiê ncia de uma economia pode ser objetivamente" avaliada em ter- Modem organization.
mos de lucros e / ou da relação custo / benef ício, envolvendo mais que Afirma Thompson (1966, p. 21) que “ o sucesso, no contexto de
a simples consideração de lucros diretos. nossa sociedade , significa , para a maioria , a ascensão numa hierarquia
3. Pode e geralmente precisa assumir grandes dimensões em tama- organizacional ” . Parece que ele enfoca esse tópico partindo de um
nho (que se exprime pelo conjunto de pessoal , escritórios, instala- ponto de vista semelhante ao da supersocializada conceituação de nor-
ções materiais, e assim por diante ) e complexidade ( que se exprime malidade humana de É mile Durkheim . Para este , em instância final e,
através da diversidade de opera ções, deveres, relacionamentos com o aparentemente, també m para Thompson , os critérios de normalidade e
ambiente , e assim por diante ). moralidade , na vida humana , são inerentes ao sistema social . Essa
4. Seus membros são detentores de empregos e são avaliados, so- orientação justifica a implicação de neutralidade de valor , contida na
bretudo, nessa qualidade. As qualificações profissionais para o de afirmação de Thompson (1966, p. 20-1), que figura a seguir:
sempenho dos cargos determinam a contrata ção , a dispensa, a manu -
-
ten ção no emprego, a promoção e as decisões sobre o progresso na
“ Uma vez que uma instituição monocrá tica não pode admitir a legiti
midade de conflitos, a legitimidade de metas e interesses divergentes,
-
carreira.
gasta -se muito esforço para garantir a aparê ncia de consenso e de acor -
5. A informação circula de maneira irregular entre os seus mem -
bros, bem como entre a pró pria economia , como entidade , e o pú bli-
do, garantindo uma ‘organização que caminha suavemente *. A organi
zação moderna deseja tanto convertidos quanto deseja trabalhadores.
-
co. Isso quer dizer que as pessoas situadas nos vá rios n íveis da estrutu - Preocupa-se com o que pensam seus membros tanto quanto com suas
ra condicionam a prestação de informa ção aos interesses pessoais ou ações e com o que pensa o p ú blico sobre os pensamentos e a ções de
empresariais . Essa difundida condição das economias em geral é o seus membros. Em consequê ncia , preocupa -sc copi toda a vida de seus
principal fator da lei de ferro da oligarquia, da lei de Parkinson, do membros, com aquilo que pensam e fazem fora do trabalho, tanto
princ ípio de Pedro, da errónea localização de metas, e assim por diante . quanto nele .”
Presume-se que as cinco caracter ísticas mencionadas são comuns
a todas as economias: a monopólios, firmas competidoras, organiza- É preciso que se diga que Modem organization, de Thompson,
ções de fins n ão-lucrativos e agê ncias. É ó bvio que cada um desses qua - oferece uma descrição muito acurada do comportamento económico.
tro tipos de economias pode ser examinado em termos de suas peculia- No entanto , a completa falta de interesse do seu autor pela delimita-
ridades, tanto quanto de seus traços comuns. Mas uma an álise detalha - ção organizacional dá um cará ter unidimensional a algumas de suas
da das economias n ão é essencial aos objetivos deste estudo, sendo su
ficiente dizer que , enquanto os monopólios, as firmas de natureza
- opiniões. Por exemplo, ao explicar seu conceito de burose ( bureausis),
estabelece ele os padrões psicol ógicos exigidos pelas agê ncias como pa -
competitiva e mesmo os empreendimentos sem fins lucrativos obtê m drões de sa ú de humana . A falta de conformidade a tais padr ões ( buro-
sua receita da produ ção unit á ria , as agê ncias operam à base de um or
çamento, derivando pelo menos parcialmente sua renda de aux ílios,
- se ) é , para Thompson (1966 , p. 24 ), reflexo de uma personalidade
imatura. Essa opini ão legitimiza definitivamente o processo de unidi-
donativos, financiamento direto e verbas especiais. mensionalização , como foi descrito anteriormente.
O mercado tende a transformar-se numa categoria de abrangé n
cia total , quanto à ordenação da vida individual e social . Na sociedade
- Nos ú ltimos tempos, diversos autores e especialistas desenvolve-
centrada no mercado , as economias são livres para modelar a mente de ram opiniões em oposi ção aparentemente direta aos pontos de vista de
seus membros e a vida de seus cidadãos, de modo geral. Assim, uma Thompson . Advogam , sem justificação, uma organização não-hierár -
quica , uma gerê ncia part ícipe e , algumas vezes , a total eliminação da
teoria pol ítica e administrativa centrada no mercado, como é caracte
r ístico da que atualmente prevalece e é largamente ensinada , pressu -
- burocracia. Um deles predisse o desaparecimento da burocracia nos
põe que o crité rio do desempenho eficiente , nas m ú tuas relações entre pró ximos 20 ou 50 anos. De modo geral , as opini ões desses autores
são expressas em termos avassaladores. O que fundamentalmente lhes
148 149
falta é uma visão coerente e sistem á tica da delimita ção organizacional . lecem pol í ticas . A isonomia é concebida como uma verdadeira comu -
Para finalizar este item , caberia assinalar que uma gerê ncia parti - nidade , onde a autoridade é atribu ída por delibera ção de todos. A au -
cipante, envolvendo relacionamentos interpessoais não-hierá rquicos, é toridade passa , continuamente , de pessoa para pessoa , de acordo com
maté ria bastante estranha aos ambientes económicos centrados no a natureza dos assuntos, com os problemas em foco e com a qualifica-
mercado. Uma vez que no presente está gio hist ó rico é inconceb ível ção dos indiv íduos para lidar com eles. O sufixo nomo é particular-
mente indicativo do fato de que , nesse tipo de associa ção, n ão h á uma
que qualquer sociedade venha jamais a ser capaz de descartar comple
tamente as atividades de natureza econó mica , certo grau de hierarquia
- -
agê ncia diretora determinada e exclusiva como os sufixos arquia e
e coerção será sempre necessá rio para a ordenação dos negócios huma - craciã em monarquia , oligarquia e democracia poderiam sugerir. Uma
y

isonomia n ão é uma democracia , e isto nos leva à sua quinta caracte-


nos, como um todo. No â mbito de seus respectivos enclaves , as econo
mias burocratizadas podem -se tomar mais produtivas para seus mem
- r ística .
bros e para os cidadãos em gerai .
- 5. Sua eficácia exige que prevaleçam entre seus membros relações
interpessoais prim árias. Se ela aumentar de tamanho alé m de de-
terminado ponto ótimo , de modo que surjam e se desenvolvam entre
7.3.3 Isonomia as pessoas relacionamentos secund á rios ou categóricos, a isonomia ne -
cessariamente declinar á e , afinal , se transformar á numa democracia ,
De modo geral , isonomia pode ser definida como um contexto
numa oligarquia ou numa burocracia.
em que todos os membros são iguais . A polis , tal como a concebeu
Arist ó teles , era uma isonomia - uma associa ção de iguais , constitu ída A isonomia est á , cada vez mais , passando a constituir uma parte
“ por amor a uma boa vida ” ( A Política, I , ii , 125 b , § 8). O uso de tal do mundo social de hoje . É poss ível que n ão se encontre uma comple -
palavra , poré m , n ão significa nenhum nost álgico anseio de uma volta ta materialização do conceito que , afinal de contas, serve apenas como
ao passado , mas serve apenas para chamar a aten ção para formas pos- propósito heur ístico. Mas todo mundo pode imaginar as tentativas de
-
s íveis de ambientes sociais atuais igualit á rios . As principais caracter ís ambientes ison ômicos que já funcionam neste pa ís, como, por exemplo,
ticas da isonomia são as seguintes :
1. Seu objetivo essencial é permitir a atualização de seus membros,
- —
as PTAs { parent teachers associations associações de pais e professo-
res ), as associações de estudantes e de minorias, as comunidades urba -
independentemente de prescrições impostas. Desse modo, as pres- nas, as empresas de propriedade dos trabalhadores, algumas associa -
crições são m ínimas e , quando inevit áveis, mesmo ent ão se estabe - ções art ísticas e religiosas, associações locais de consumidores, grupos
lecem por consenso. Espera -se dos indiv íduos que se empenhem em re- de cidad ãos interessados em assuntos e problemas da comunidade, e
lacionamentos interpessoais, desde que estes contribuam para a boa vi- muitas outras organizações recentemente constitu ídas , nas quais, em
da do conjunto . última instâ ncia , as pessoas buscam estilos de vida que transcendem
2. É amplamente autogratificante , no sentido de que nela indiv í- os padrões normativos que dominam a sociedade como um todo. Ti-
duos livremente associados desempenham atividades compensadoras pos de governo de vizinhan ç a e corporações de desenvolvimento co-
em si mesmas. As pessoas n ão ganham a vida numa isonomia ; antes, munitário, idealizados por especialistas como Saul Alinsky,8 Milton
participam de um tipo generoso de relacionamento social , no qual d ão Kotler ( 1969 ), Simon S. Gottschalk ( 1973), Will McWhinney ( 1973) e
e recebem . outros, e modelos impl ícitos no enfoque para reforma e reconstrução
3. Suas atividades são sobretudo promovidas como vocações, n ão social sugerido por Lewis Munford , Paul e Percival Goodmann , E. F.
como empregos. Nas isonomias, as pessoas se ocupam , não labutam. Schumacher, Ivan Illich, H. R. Shapiro e outros, têm um grande com-
Em outras palavras, sua recompensa básica est á na realização dos ponente ison ô mico. Os instrumentos necessá rios para essa reconstru-
objetivos intr ínsecos daquilo que fazem , n ão na renda eventualmente ção, que Illich denomina “ convivial ” , constituem agora uma á rea sis-
auferida por sua atividade. Dessa forma , a maximiza ção da utilidade temá tica de assunto , de crescente interesse para os tecn ólogos e refor-
não tem importâ ncia para os interesses fundamentais do indiv íduo.
4. Seu sistema de tomada de decisões e de fixação de diretrizes
madores sociais. Que já existe uma tecnologia de instrumentos comi -
pol í ticas é totalmente abrangente . N ão h á diferencia ção entre a lide- f
viais é demonstrado por publicações como Alternative sources of ener
gy (editada por Sandy Eccli et alii ), Design for the real world , de
-
ran ça ou a gerê ncia e os subordinados. Assim , uma isonomia perderia Victor Papanek , e outras.
o seu cará ter, se seus membros se dicotomizassem entre nós e eles, en -
-
tendendo se os ú ltimos como aqueles que tomam decisões ou estabe - 8 .
Sobre Alinsky , veja Norton ( 1972 ) Veja també m Kotler ( 1969 ).

150 151
«
7.3.4 Fenonomia Simon Rodia , o ladrilheiro e consertador que construiu em Los Ange
les as justamente famosas torres Watts.
-
Este é um sistema social , de caráter esporá dico ou mais ou me-
nos estável, iniciado e dirigido por um indiv íduo, ou por um pequeno
grupo, e que permite a seus membros o máximo de opção pessoal e
um m ínimo de subordinação a prescri ções operacionais formais* Uma
* 7.3.5 O isolado

Enquanto o indiv íduo an òmico e os membros do motim n ão


fenonomia tem as seguintes caracter ísticas principais: t ê m normas , o ator isolado, tal como representado no paradigma , está
1. Constitui-se como um ambiente necessário às pessoas para a li- excessivamente comprometido com uma norma que para ele é ú nica.
beração de sua criatividade , sob formas e segundo maneiras escolhi- Por uma sé rie de razões, o isolado considera o mundo social , como um
das com plena autonomia . É parte do esforço de expressão (em grego, todo, inteiramente incontrolá vel e sem remé dio . Mas, a despeito de
phaineim significa mostrar ), que mobiliza a atividade criadora de um sua total oposição interior ao sistema social em conjunto, encontra ele
pequeno grupo, ou de um indiv íduo isolado. um canto em que , de forma consistente , pode viver de acordo com seu
2. Seus membros empenham-se apenas em obras automotivadas, o peculiar e r ígido sistema de cren ça . Este n ão é o caso do indiv íduo
que significa que, de modo geral, se mantêm ocupados ao extremo e
seriamente comprometidos com a consecução daquilo que, em termos
an òmico que falha no desenvolvimento de um sistema pessoal de cren
ça , bem como em seu ajustamento ao conjunto de padr ões sociais. Os
-
pessoais , consideram relevante . É importante ressaltar que as tarefas isolados podem , afinal , ser considerados casos cl ínicos de paranoia ,
automotivadas são, com muita frequência , as que demandam maiores
esforços. Para desempenh á -las com sucesso, os indiv íduos precisam de-
mas n ão é necessariamente assim . Na verdade , muitos deles são empre
gados n ão- participantes e cidad ã os que , sistematicamente , escondem
-
senvolver programas e regras operacionais pró prios, jamais permitindo dos outros suas convicções pessoais .
a si mesmo agir caprichosamente . Tal como foi aqui conceituado, o paradigma paraecon ô mico se
3. Embora o resultado das atividades ômpreendidas em fenono- constitui na referê ncia para uma nova abordagem do planejamento de
mias possa vir a ser considerado em termos de mercado , os crit é rios sistemas sociais e da nova ci ê ncia das organiza ções, maté rias que ser ão
económicos são incidentais, em relação à motivação de seus membros. examinadas nos dois cap ítulos seguintes.
As fenonomias são cen ários sociais protegidos contra a penetração do
mercado, e esse aspecto n ão deve ser desprezado, se se deseja com -
preender a natureza de uma fenonomia. Na realidade, as fenonomias BIBLIOGRAFIA
desafiam , ou “ batem” , o sistema de mercado. O escritório que o em -
pregado em franca ascensão, ou o gerente muito ocupado, manié m em Goffman , E. Asylums. Garden City , Doubleday , 1961 .
casa , para poder dar cumprimento de noite ou durante os fins de se- Goodman , F. Growing up absurd . New York , Random House, 1960.
mana às laboriosas atividades que seu emprego exige , n ão é uma & Percival. Communitas, means of livelihood and ways of life.
fenonomia. New York , Random House, 1960.
4. Embora interessado em sua própria singularidade, o membro da Gottschalk , S.S. The Community - based welfare system: an alternative
fenonomia tem consciê ncia social. Na verdade , sua opção n ão signi- to public values. The Journal of Applied Behavioral Science , ( 9 , 213),
fica o abandono da sociedade como um todo, mas visa tomar outros 1973.
indiv íduos sensíveis quanto a poss íveis experiências que são capazes Gross, B. An Organized society ? Public Administration Review , July /
de partilhar ou de apreciar. Aug. 1973.
Há muitas pessoas normalmente envolvidas em atividades que se Halmos, P. Solitude and privacy . New York , Philoshophical Library ,
qualificam como fenonomias e este é , por exemplo, o caso da mulher 1953.
e do marido habilidosos, que reservam sistematicamente um canto da Kotler, M. Neighborhood government . Indianapolis, Bobs Merrill ,
casa para planejar e produzir tapetes, cerâ mica , pinturas, bem como o 1969.
das oficinas dos artistas, escritores, jornalistas, artesãos, inventores e Marcuse , H. One-dimensional man . Boston , Beacon Press, 1966.
assim por diante , que trabalham por conta pró pria . Um exemplo de fe- McWhinney, W . Phenomenarchy: a suggestion for social redesign. The
nonomias particularmente bem -sucedidas é aquele que Will e Ariel Du - Journal of Applied Behavioral Science. ( 9, 213), 1973.
rant vê m conseguindo realizar , com a sé rie de ensaios históricos e filo- Monson , R.J. & Downs, A . Public goods and private goods. Public In -
sóficos projetados para toda a vida , e també m a aventura art ística de terest , Spring, 1971.
152 i
153
BIBLIOTECA C E N T R A J
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sobre doenças nervosas e mentais, n. 58.)
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Jossey- Bass Publishers, 1974. senta uma categorização de tend ê ncias básicas da emergente sociedade
.
Schon, D. Beyond the stable state New York , Random House , 1971. pós-industrial . Isto não quer dizer que o paradigma paraeconô mico
.
Shapiro, H.R. The Bureaucratic state New York , Samizdat Press, pressupõe uma concepção evolutiva do processo histó rico e social . Ce -
Brooklyn , 1975. -
ná rios e explicações atuais da sociedade pós industrial est ão ainda pre-
Slater, P. The Pursuit of loneliness: American culture at the breaking sos , em larga medida , a padrões de pensamento baseados em teorias
point . Boston , Beacon Press, 1971. serialistas do século XIX. Em contraposi ção, o paradigma paraecon ô-
Steele , F. Physical setting and organizational development. Reading, mico não encara a sociedade pós-industrial como o desdobramento ne-
Massachusetts, Addison -Wesley , 1973. cessá rio de uma sociedade centrada no mercado. É claro que n ão h á
Thompson , V.A . Modem organization , a general theory . New York , garantia alguma de que a extrapola ção literal das tend ê ncias intr ínse-
Alfred A. Knopf , 1966. cas deste tipo de sociedade vá conduzir à sociedade multicê ntrica , tal
Tullock , G. Economic imperialism. In : Buchanan , J . M. & Tollinson , como est á categorizada no paradigma paraeconô mico. Antes, é mais
R .D., publ. Theory of Public Choice. Ann Arbor, Michigan , University prová vel que essa extrapola ção contribua para agravar o desconforto
of Michigan Press, 1972. que aflige os homens de hoje , salientado neste livro em alguns de seus
aspectos. Por conseguinte , a sociedade pós-industrial visualizada no
paradigma paraecon ô mico só poderá vir a existir como resultado de
vigorosa oposição por parte dos agentes cujo projeto pessoal consiste
em resistir às tend ê ncias intr ínsecas da sociedade centrada no merca -
do. Contudo, o objetivo do paradigma paraeconô mico não é a supres-
são do mecanismo de mercado, mas a preservação somente das capaci-
-•
dades sem precedentes que o mesmo criou , ainda que pelas razões er -
radas. Dessa forma, pode ele atender às metas de um modelo multidi-
mensional de exist ê ncia humana , numa sociedade multicê ntrica.
A sociedade multicê ntrica é um empreendimento intencional .
Envolve planejamento e implementa ção de um novo tipo de estado,
com o poder de formular e pô r em pr á tica diretrizes distributivas de
apoio n ão apenas de objetivos orientados para o mercado , mas tam -
bé m de cen á rios sociais adequados à atualização pessoal , a relaciona -
mentos de convivê ncia e a atividades comunitá rias dos cidad ãos. Uma
sociedade assim requer també m iniciativas partidas dos cidad ãos , que
estarão saindo da sociedade de mercado sob sua pró pria responsabili-
dade e a seu pró prio risco .
O paradigma paraecon ô mico pressupõe que planos de vida
pós- industrial são imediatamente poss íveis , tanto nos pa íses cé ntricos
154 155
quanto nos pa íses perifé ricos. É uma abordagem do tipo faça você ganiza çáo, autoridade e consentimento são “ partes de uma situação
mesmo, em rela ção à sociedade pós-industrial . Para muitos indiv íduos, abrangente ” ( Follet , 1973, p . 33), na qual os administradores cedem
a sociedade pós-industrial não significa um est ágio futuro mas, em diante de normas induzidas por circunstâ ncias concretas. Ela focaliza ,
grau significativo, uma possibilidade objetiva que t ê m a seu alcance . 1 sobretudo, o processo de dar ordens. A lei dos requisitos adequados
O modelo delimitativo encerra , hoje , sob forma conceptual , o tipo de tem um alcance mais amplo, pois sugere , també m, que embora os re -
vida procurado por muita gente , em muitos lugares . Infelizmente, os quisitos dos sistemas possam , em geral , ser generalizados, para o plane -
sistemas sociais incompletos, que esses indiv íduos est ão criando jador de sistemas constituem , antes, um ponto de ordem pr á tica , isto
através do processo do ensaio e erro, ainda n ão se transformaram na é, consequê ncias de concreta e participante observação, que envolve o
força impulsionadora de um esforço sistem á tico e disciplinado de planejador e seus clientes. Uustrarei o significado dessa lei por meio de
constru ção te órica , no meio acad ê mico. um rá pido exame de algumas dimensões principais dos sistemas so-
J á est á dispon ível a per ícia t écnica para o desenho e controle de ciais, a saber : tecnologia , tamanho, espaço, cognição e tempo . No est á -
sistemas sociais econ ó micos. É menos do que suficiente a per ícia gio atual da minha pesquisa , só posso formular afirmações hipoté ticas
té cnica para o desenho e controle de sistemas sociais em que as ativi - e impressionistas desses tó picos.
dades económicas sejam , na melhor hipótese, de cará ter incidental . 1 . Tecnologia . Só parece cab ível , aqui , um breve coment á rio sobre es -
Como resultado disso, o conhecimento organizacional dominante mal ta dimensão dos sistemas sociais , já que a mesma tem sido amplamente
pode proporcionar os ensinamentos necessá rios à superação da condi - estudada pelos especialistas da organização convencional . H á vasta lite -
ção social do homem contemporâ neo. Um dos objetivos do paradigma ratura sobre esse tó pico, na qual os planejadores de sistemas sociais de
paraeconô mico é a formulação de diretrizes de uma nova ciê ncia orga - confronto podem encontrar ú teis e importantes conhecimentos. Reco -
nizacional , em sintonia com as realidades operativas de uma sociedade -
nhece se , de modo geral , que a tecnologia é uma parte essencial da es -
multicê ntrica. trutura de apoio de qualquer sistema social , e existe no conjunto de
Um t ó pico fundamental da nova ci ê ncia da organização é aquele normas operacionais e de instrumentos através dos quais se consegue
que as coisas sejam feitas. Assim, n ão existe sistema social sem uma
que chamo de lei dos requisitos adequados. Na realidade , preferiria de -
tecnologia , seja ele , por exemplo, uma igreja , uma prisão, uma fam ília ,
nomin á -lo lei da variedade de requisitos. Mas esta expressão tem sido
uma vizinhança , uma escola ou uma fá brica . Quando solicitado, o pla -
usada por W. Ross Ashby ( 1968), para analisar sistemas f ísicos e biol ó-
nejador deveria incluir , como aspecto central de sua an álise, o exame
gicos. A quest ão da delimita ção dos sistemas sociais é estranha à con -
da tecnologia , para verificar se aquela que é usada pelo sistema social
cepção que Ashby tem da lei da variedade de requisitos. Essa delimi -
propicia ou dificulta a consecu ção de sua meta . A satisfa ção desse im -
ta ção advoga uma variedade de cen á rios diferenciados como imperati - perativo envolve complexo trabalho de an álise , que o planejador deve
vo vital de sadia vida humana associada , isto é , envolve o conceito de empreender em estreita colaboração com seus clientes. Grande parte
que a atualiza ção dos indiv íduos é bloqueada quando eles são coagidos do sucesso daquilo que no dom ínio da teoria convencional sobre orga -
a se ajustar a uma sociedade antecipadamente dominada pelo merca -
do, ou por qualquer outro tipo de enclave social . De modo espec ífico, -
niza ção é conhecido como sistemas sócio t écnicos , resulta da aten ção
sistemá tica que seus representantes t ê m dado à harmonia entre a
a lei dos requisitos adequados estabelece que a variedade de sistemas tecnologia de um sistema social e os objetivos espec íficos do sistema .
sociais é qualificação essencial de qualquer sociedade sens ível às neces-
Essa habilidade est á bem desenvolvida e, alé m disso, tem um alcance
sidades básicas de atualização de seus membros, e que cada um desses geral e deveria ser assimilada e ampliada pelos planejadores de sistemas
sistemas sociais determina seus pró prios requisitos de planejamento.2 sociais de confronto .3
Mary Parker Follet mostrou -se sens ível a um aspecto parcial des- 2. Tamanho. Ao contr á rio, existe relativamente pouca teoria contem -
se t ó pico , quando chamou a aten ção dos administradores para a lei da por â nea dando sistem á tica aten ção à quest ão do tamanho. Isto n ão
situação . Sua preocupação era libertar a ger ê ncia da arbitrariedade e significa a afirmação de que o t ó pico tenha sido ignorado. Pelo contrá -
do “ mandonismo” ( bossism), encarando-a como um processo desper- rio , h á uma heran ça de conhecimentos sobre a influ ê ncia do tamanho
sonalizado de dai e de receber ordens. Na opini ão de Follet sobre or -
3 Sobre a dimensão tecnol ógica dos sistemas sociais e suas implica ções, em ter
mos de planejamento , veja , por exemplo, Woodward (1965 ), Lawrence & Lorsch
-
1 Sobre o conceito da “ possibilidade objetiva ” , veja Ramos ( 1970 ).
-
( 1969), Perrow ( 1965 72 ), Bums & Stalker ( 1961 ) , Thompson (1967 ), Davis
2 Sobrea noção de planejamento , em sentido amplo , veja Pye ( 1968 9 ) c - & Engelstad ( 1966 ) , Von Beinum ( 1968) , Miller & Rice ( 1967 ), Emery ( 1969 ) ,
Davis & Taylor ( 1972 ) e Davis & Cherns ( 1973).
Thompson ( 1961 ).

156 157
( isto é , o n ú mero de pessoas) dos cen á rios sociais , relativamente à sua
eficácia e ao cará ter das relações interpessoais de seus membros, que
escala , em cen ários sociais. Haurindo dessas e de outras fontes, arris -
car - me-ei a propor três poss íveis enunciações.
est á a merecer reelabora ção e sistematização. No entanto, até agora , o Primeira , a capacidade de um cenário social para fazer face e pa-
tamanho dos sistemas sociais dificilmente pode ser considerado um ra corresponder , eficaz mente , às necessidades de seus membros exige
dos interesses centrais dos organizadores e dos planejadores de siste - limites mí nimos ou máximos a seu tamanho. 4 Em outras palavras,
mas sociais. A resist ê ncia da organização ou dos sistemas sociais é mais cada cen á rio social tem um limite concreto de tamanho, abaixo ou aci-
importante do que aquilo que hoje é correntemente denominado de
senvolvimento organizacional, e que, com muita frequê ncia , considera
- ma do qual perde a capacidade de atingir eficazmente suas metas ( por
exemplo, a extração e o processamento de recursos) e de conseguir de
o tamanho das organiza ções ou como um dado ou como tó pico de so - seus membros o m ínimo de consenso de que necessita para a pró pria
menos import ância . preservação.
Num ambiente cultural como o nosso, em que se infiltra a pre - Segunda , nenhuma norma geral pode ser formulada para deter-
-
missa de que quanto maior , melhor, h á necessidade de salientar se , en - minar , com precisão , antecipadamente , o limite de tamanho de um
faticamente , que a eficá cia de um cen á ric social na consecução de suas cenário social; a questão do tamanho constitui sempre um problema
metas e na ó tima utilização de seus recursos n ão acarreta , fatalmente , concreto , a ser resolvido mediante investigação ad hoc, no pró prio
um aumento de tamanho. O princ í pio do quanto maior , melhor con - contexto. Em outras palavras, é possível determinar com exatidão o li-
duz, com frequê ncia , a falsas relações interpessoais , à s índrome da lei
mite de tamanho de um cen á rio social . Essa tarefa constitui , poré m ,
de Parkinson , à desnecessá ria redundâ ncia e, finalmente, a sistemas so - uma quest ão que envolve não apenas competê ncia técnica, mas tam-
-
ciais de desperd ício, de limitada capacidade de auto sustenta ção. Pre -
bé m educada sensitividade para as m ú tuas implica ções de contexto e
cisamos aprender a arte do planejamento de cen á rios sociais capazes
forma .
de perdurar .
Terceira , a intensidade das relações diretas entre os membros de
0 tamanho dos cen á rios sociais tem sido um tema investigado
por reformadores e teoristas pol í ticos. Plat ão , de maneira meticulosa ,
um cenário social tende a declinar na proporção direta do aumento de
afirmou que a boa comunidade deveria ter 5.040 cidad ãos ( chefes de
seu tamanho. Corolá rio deste postulado é que , quando a intensidade
das rela ções interpessoais diretas é considerada fundamental para a
fam ília ). Arist ó teles evitou a precisão aritmé tica de seu mestre , mas ,
consecu ção de um objetivo, são apropriados os cen á rios pequenos, em
de forma id ê ntica , tinha consciê ncia de que deveriam ser impostos li - lugar dos mais amplos.5
mites ao tamanho do grupo de cidad ãos, como uma das condições pa - N ã o h á uma regra geral para a determinação do tamanho das
ra uma boa comunidade . Comentá rios sobre o assunto são igualmente
economias. Por exemplo, as economias de car á ter ison ô mico , isto é,
encontrados nas obras de Montesquieu e de Rousseau . Nos documen - certos tipos de cooperativas e de empresas em que a administra ção e a
tos federalistas ( nQ 14 ), James Madison trata da quest ão do tamanho
propriedade são coletivas, preceituam tamanhos bastante moderados.
como um fator potencialmente proibitório da aplicação dos princ í
pios de representação na Uni ão . E, em vasto arcabou ço sociol ógico, o
- No entanto, quando a divisão do trabalho, a impessoalidade e a espe -
cialização se fazem indispensá veis para que as economias entrem em
sociólogo alemão Georg Simmel ( 1950) focaliza os aspectos quantita - bem-sucedida competição no mercado, são elas compelidas a assumir
tivos das rela ções sociais. É ele figura pioneira naquilo que se conhece
largas proporções. Desse modo, acontece que o grande tamanho, com
como dinâmica de grupo . muita frequência , passa a ser um requisito para a viá vel opera ção das
Um estudioso contemporâ neo , Robert Dahl , tem frisado a im - economias convencionais. Pode haver um sabor româ ntico na afirma -
port â ncia do componente tamanho dos sistemas pol í ticos, e em seu
4
livro After the revolution? o tema é tratado com realce . É mais am ’ - Estou delibcradamente evitando o uso da controvertida no ção de tamanho
ótimo . Sobre essa questão, veja Alonso ( 1971 ) e Richardson ( 1973) . Sou grato a
piamente investigado ainda em Size and democracy , que Dahl escre - Hélio Viana , por chamar a minha aten ção para essa contrové rsia .
veu em colaboração com Edward R . Tufte . De extrema import â ncia
sã o també m The Breakdown of nations ( 1957) e Overdeveloped 5 Sobre o tamanho das organizações , veja
-
Schumacher (1973, p. 59 70 ). Esta
nations, dois fecundos volumes, em que Leopold Kohr apresenta sua afirmação enfoca a intensidade dos relacionamentos interpessoais diretos. Certa
mente que a presente tecnologia de comunicações pode integrar as pessoas numa
-
teoria do tamanho em termos de desenvolvimento social e econ ó mico.
comunidade de interesses, independentemente das grandes distâ ncias f ísicas que
Conclusões significativas, apresentadas nesses livros, merecem conside- as separem . Levando essa circunst â ncia cm consideração , Melvin M. Webber pro-
ra ção de qualquer pessoa que se envolva num esforço de pesquisa vi - põe o conceito de “ comunidades n ão localizadas
( Webber , 1967 ).
- nonplace communities”
sando ao desenvolvimento de habilidades para o trato de quest ões de
158 159
ção de que o pequeno è belo . Na realidade , poré m , o grande també m é a produ ção ou o controle do ambiente ; é essencialmente pol í tico ,
se recomenda , por seus pró prios mé ritos. As isonomias, tipicamente , quando seu interesse dominante é o est í mulo dos padr ões de
são cen á rios sociais de proporções moderadas , com r ígida intolerâ ncia bem-estar social , em seu conjunto; é essencialmente personal ístico
para desvios de tamanho al é m de determinado limite . As fenonomias ( personalogic ) , quando o interesse dominante é o desenvolvimento do
são o menor tipo conceb ível de cen á rio social e uma fenonomia pode conhecimento pessoal . Um sistema cognitivo deformado é aquele des-
mesmo se compor de uma só pessoa, como é o caso do ateliê do pin - provido de um ú nico interesse central.
tor ou escultor. Parece , contudo, duvidoso , que uma fenonomia tenda Misturados de variadas maneiras , esses sistemas podem existir si-
a manter sua capacidade de sobrevivê ncia , quando o n ú mero de seus
membros excede a cinco . Uma vez que a anomia n ão constitui um sis-
multaneamente num ú nico cen á rio social , mas o sistema cognitivo fun
cional predomina nas economias, o sistema cognitivo pol ítico, nas iso-
-
tema social , só indiretamente apresenta ela quest ões de tamanho ; n ão nomias, o sistema cognitivo personal ístico, nas fenonomias e , finalmen
obstante , o tratamento de pessoas an ô micas tem mais sucesso em pe - te , o sistema cognitivo deformado é bem caracter ístico dos indiv íduos
-
quenos sistemas sociais, onde lhes possa ser dispensada aten ção pes- e / ou grupos an ô micos. Há , concretamente , sistemas sociais em que
soal. Na verdade , o tamanho dos sistemas sociais , em geral , influi sobre mais de um tipo de sistema cognitivo assume , paralelamente , o car á ter
o alcance da anomia , numa determinada sociedade. A dimensão tama- dominante . Esse é , por exemplo , o caso das economias de natureza
nho, das sociedades de massa , é em si mesma um fator de est ímulo à ison ô mica c de muitas instituições educacionais em que a informação
inclinação à anomia, uma vez que , dentro dessa dimensão, as relações pessoal e o fomento do beip, na sociedade, se revestem de fundamen -
interpessoais tendem a se tomar predominantemente funcionais, em tal importâ ncia .
lugar de afetivas. Nas modernas sociedades industriais, como salientou A primeira conclusão a tirar desses enunciados experimentais 6 a
É mile Durkheim , tipos an ômicos de conduta são consequê ncias neces- de que a abrangê ncia total do sistema de mercado, numa sociedade co-
sá rias do processo de divisão social do trabalho. Contudo, n ão se deve- mo a nossa , envolvendo continuamente os indiv íduos em seus padrões
rá procurar nas conclusões de Durkheim apoio para uma condenação cognitivos intr ínsecos, pode invalid á -los para a ação como membros
injustificada da industrialização. A prá tica da delimitação dos sistemas eficientes de fenonomias ou isonomias. Nessa conformidade , no plane-
sociais pode muito bem constituir o corretivo para a anomia, que por jamento de tais sistemas e de suas formas mistas, deveria ser feito um
toda parte se tornou uma consequê ncia normal da industrialização. esforço para proporcionar aos indiv íduos condições adequadas a seus
3. Cognição. Trabalho pioneiro sobre as dimensões cognitivas dos sis- espec íficos e dominantes interesses cognitivos.
temas sociais tem sido desenvolvido pelo sociólogo Georges Gurvitch 4 . Espaço. Em sua expansão, através dos dois ú ltimos sé culos, o siste -
( 1955 , 1971 ). Sustenta ele que há uma variedade de tipos e formas de ma de mercado passou cada vez mais a ocupar os espaços reservados
conhecimento, os quais se posicionam numa sequê ncia de prioridade aos sistemas sociais, constituindo-se na força impulsionadora da vida
que difere consoante a natureza dos sistemas sociais. Assim , as socie - pessoal e comunit á ria . A arquitetura das cidades contemporâ neas aten -
dades arcaicas, feudais , capitalistas e socialistas podem ser diferencia - de , par excellence , às exigê ncias do mercado. Seria poss ível recordar
das conforme seus predominantes e espec íficos sistemas cognitivos, que , em seus est ágios iniciais, o sistema de mercado estimulou , na In -
isto é , segundo a ordem de prioridade crescente ou decrescente de glaterra , a prá tica de locais confinados, o que acarretou a expulsão de
tipos e formas de conhecimento que prevale çam em cada uma delas. grandes massas de gente dos espa ços que costumava ocupar . A revolu -
Embora eu considere as abrangentes tipologias de Gurvitch mui - ção industrial obrigou popula ções a se mudarem de amplas resid ê n -
to ú teis para a an á lise macrossocial , usarei um processo mais simples e cias e chalés para apartamentos e pavimentos ex íguos, e para edif ícios
ad hoc, que acredito seja importante para rapidamente caracterizar as e guetos entupidos de gente , perto dos centros urbanos. Nesse proces-
dimensões cognitivas dos ambientes retratados pelo paradigma para - so , as pessoas perderam tempo, dinheiro e seu relacionamento direto
económico. com os verdadeiros contextos naturais. 7 Em outras palavras, a deterio-
7
Habermas restabeleceu a id éia de que os sistemas cognitivos po- Uma vigorosa avaiiaçâo da revolu ção industrial na Inglaterra , e de suas conse-
dem ser classificados de acordo com seus interesses dominantes.6 Pa - quê ncias econ ó micas, sociais e arquitet ô nicas, é oferecida
por John Ruskin , em
ra os propósitos deste cap ítulo, é bastante salientar que um sistema .
seus livros Unto this last Sesame and Lilies, The Ethics of dust , The Crown of
Wild Olive , Time and Tide , Fors Gavigera , Munera Pulveris c The Stones of
cognitivo é essencialmente funcional , quando seu interesse dominante Venice. A melhor edição das obras dc Ruskxn é a organizada por Cook AWedder -
6 Sobre Habermas c os interesses do conhecimento, veja o cap ítulo 1 deste li- burn ( 1973 ) . Outro tipo de importante avalia ção da revolu ção industrial , com
vro. ê nfase nas consequências sociais, culturais e psicológicas do largo uso de dinhei
ro é o de Simmel ( 1978 ) . -
160 161
ra ção das condi ções da vida comunit á ria do povo tem sido uma conse - zes, e começar de novo , até que o olho da gente nos dissesse que tudo
quê ncia normal da expansão do sistema de mercado. A fam ília peque - estava certo. O olho sabia muito mais sobre arquitetura do que os li -
na é um s ímbolo dessa transformação e significa que o contato entre a .
vros O olho era infal ível, na medida em que a pessoa confiasse em seu
velha e a nova geração se toma , em grande parte , descont ínuo. Gra ças pró prio olho , e n ão no olho dos outros” ( Munthe , 1956, p. 436 ). N ão
ao encolhimento do espa ço , espera -se que avós e netos vivam separa - h á d ú vida de que esse preceito de planejamento espacial funciona efi -
dos , fato que , em si mesmo , produz nocivos efeitos sobre a vida comu - cazmente para indiv íduos como Axel Munthe , que são de extrema cla -
nit ária . Não é de admirar que hoje as pessoas manifestem , muitas ve
zes, uma certa nostalgia dos velhos tempos. Como assinala de Grazia ,
- reza em relação à respectiva agenda existencial .
É dif ícil imaginar uma expressã o mais v ívida de sentido espacial
“ o . .. espaço de que os ingleses dispunham , quando surgiu a ind ú stria , do que aquela que é oferecida por Carl Jung, num cap í tulo ( A Torre )
(est á ) perdido. Ingleses e americanos pagam por isso todos os dias. No de suas Lembranças, sonhos e reflexões. Como Axel Munthe, em fase
entanto, em todo lugar em que um jardim p ú blico é inaugurado, o fa - adiantada de sua vida Jung decidiu “ pôr em base firme suas fantasias
to é envergonhadamente saudado como um triunfo de um bom gover- e o conte ú do do subconsciente ” (Jung , 1963, p. 223). Materializou
no ou da filantropia e , de qualquer forma , do progresso. A recupera - esse desejo num trato de terra comprado em 1922 em Bollinger ( Zuri -
ção parcial do espaço perdido passa a constituir um progresso” ( de que ), e fala da casa que construiu nesse lugar , em diversos est ágios, co-
Grazia , 1964 , p. 328-9 ). A recuperação de espaço para a vida pessoal e
comunit á ria deveria constituir , agora , meta priorit ária de cidad ãos e de
mo sua “ confissão de fé na pedra ” ( Jung, 1963, p. 223), a represen
tante do “ lar materno” ( Jung , 1963, p. 224 ). N ão se precisa , poré m ,
-
governos, pela exigê ncia de adequada delimitação do sistema de ser t ão h á bil e t ão ricamente prendado como esses homens, para per -
mercado. ceber que os espaços em que nos é dado viver podem nutrir ou dificul
tar nosso desenvolvimento ps íquico, em nossa singularidade como
-
O espaço tem sido cuidadosamente examinado pelos especialis- pessoas.
tas de organização sobretudo como uma dimensão do processo de O espaço pode ser um fator que facilite ou que iniba a descarga
produ ção e distribuição de bens e de prestação de serviços. Tem , po- de tensões , assim como um determinador de estresse . Estudos sobre o
ré m , numerosas implica ções, que vão muito alé m desses propósitos comportamento de animais indicam que cada espé cie animal parece
económicos, as quais muitas vezes escapam à percepção do leigo e necessitar de um espa ço adequado , a fim de desenvolver , normalmen -
mesmo daqueles que , como os arquitetos e os especialistas de orga -
niza ção, supostamente deveriam compreendê -las em sua plenitude . G
te , as atividades inerentes a seu tipo espec ífico de vida . Exposto a con
di ções de franca violação do adequado espaço de que precisa , qualquer
-
espaço afeta e , em certa medida , chega a moldar a vida das pessoas . animal desenvolve padrões pervertidos de comportamento . Uma das
Não é de admirar que indiv íduos de grande sensitividade a mais impressionantes demonstrações desse fato é a morte em massa de
condi ções que afetaram sua experiê ncia pessoal singular tenham , entre ratos vivendo em espaç os repletos, fen ó meno observado entre ratos
si , real çado muitas vezes as casas em que viveram . Por exemplo , selvagens da Noruega, mesmo havendo fartura de comida. Existem nu -
Goethe descreve , em sua autobiografia , a casa em que viveu quando merosas poré m desarticuladas observações dos efeitos do espaço sobre
-
criança , atribuindo lhe uma influê ncia benigna em seu processo de
crescimento . Reconheceu que a casa lhe despertou “ um sentimento
a vida humana , embora só recentemente tenham sido empreendidos
esforços no sentido de seu estudo sistem á tico.8
de solbd ão , de que resultou um anseio vago , que correspondia a ( seu )
Tentarei agora indicar algumas implica ções do aspecto espaço,
temperamento” (Goethe , 1949, p . 4 ). Herman Hesse refere -se a uma
casa em que morou 1 2 anos, a qual denomina a Casa Camuzzi , como
no planejamento dos ambientes sociais. Sustento que exigências espe -
sendo um lugar em que “ sentiu a mais profunda solid ão e sofreu por
cificas de dimensões espaciais são inerentes a cada tipo de cenário so
cial. Assim , a formula ção dos sistemas sociais em termos de espaço
-
isso ” ( Hesse , 1973 , p. 246 ) e onde pôde dar ré dea solta à imagina ção
constitui uma arte , tanto quanto uma ciê ncia. Sua prá tica, formal ou
e à criatividade . A sensitividade ao espaço é , por certo, uma das razões
que fizeram d'0 Livro de San Michele, de Axel Munthe, um fascinante
intuitivamente , requer aquilo que Fred I. Steele chama de competê n
cia ambiental , ou seja , “ ( a) a capacidade pessoal de percepção do
-
registro autobiogr á fico. Quando ele decidiu construir seu retiro ideal ,
meio-ambiente e de seu impacto sobre a pró pria pessoa , e ( b ) a habili -
a percepção do plano que o mesmo impunha foi t ão forte que o fez dade desta para usar ou modificar o ambiente que a cerca , de modo
atrever-se a desafiar a orienta ção do construtor , o mestre Nicola . Con
ta ele: “ Eu disse ao mestre Nicola que a maneira certa de uma pessoa
- 8 Veja, por exemplo, Freedman (1975), Barash (1977), Wilson ( 1977 ), Sahlins
construir sua casa era pô r tudo abaixo , sem importar o n ú mero de ve - * .
( 1976 )

162 163
que o mesmo a ajude a conseguir seus objetivos , sem erradamente des- Ascosanti , uma comuna experimental localizada no Arizona Central e
projetada por Soleri , como um conjunto habitacional em que a nature-
truir esse ambiente , ou reduzir o pró prio senso de eficiê ncia , ou o da - za humana e o ambiente est ão adequadamente combinados. Os defei-
.
queles que tem em redor de si ” ( Steele , 1973 p. 113). Steele concebe
tos do cen á rio urbano americano tê m sido amplamente focalizados
a competê ncia ambiental como uma capacidade obtida através de trei-
namento , já que a mesma tem fatores operacionais correlativos que
por muitos cr í ticos sociais, entre os quais Paul e Percival Goodman
podem ser aprendidos sistematicamente . merecem aten ção especial . Em su& obra Communitas, vão alé m da
cr í tica social, articulando modelos de planejamento urbano que repre-
Em seus livros The Silent language e The Hidden dimension , sentam a expressão de sadios princ ípios, levando em conta a arte de
Edward T. Hall focalizou importantes aspectos do espa ço vital huma - combinar espaço e necessidades humanas.
no , do ponto de vista antropol ógico. Chama ele a aten ção para a dis-
tin ção que H. Osmond fez entre espaços sócio-afastadores ( sociofugal) Nos trabalhos de analistas de espaço como Hall ( 1959 , 1966),
e sócio-aproximadores ( sociopetal) ( Hall , 1966, p. 101 ), isto é , aqueles Sommer ( 1969 , 1972) e Steele (1973), há uma riqueza de sugestões
que mant ê m as pessoas separadas e aqueles que facilitam e encorajam que os planejadores de sistemas sociais paraecon ô micos podem consi -
a convivalidade . Nenhum desses tipos de espaço é, intrinsecamente, derar construtiva . Nesse sentido, é particularmente importante a classi -
bom ou mau . São necessá rios por diferentes razões e Hall afirma : “ O ficação de aspectos f ísicos conceituada tanto por Hall quanto por
que é necessá rio é flexibilidade e coerê ncia entre o plano e a fun ção, Steele . Os planejadores deveriam aprender a utilizar o aspecto de espa -
de modo que haja uma variedade de espaços, e que as pessoas possam ço determinado , o aspecto de espaço semideterminado e o aspecto de
ser ou n ão envolvidas , conforme o exijam a ocasi ão e o estado de esp í- espaço falsamente determinado, isto é, onde e quando um ambiente
rito” ( Hall , 1966 , p. 1034 ). O que deveria ser evitado é o descuida
do agravamento das dimensões sócio-afastadoras do espaço nos siste-
- f ísico exige aspectos im óveis ou relativamente im óveis ( paredes que
suportarão cargas , monumentos, edif ícios, ruas , pisos), aspectos flex í-
mas sociais, onde as mesmas devem ser sócio-aproximadoras, ou cen - veis e m ó veis como cadeiras, quadros, escrivaninhas, tapetes e cortinas,
tr í petas. Assinala Hall : ‘‘Virtualmente , tudo nas cidades americanas , e aspectos aparentemente im óveis. No livro de Steele Physical settings
hoje em dia , é sócio-afastador e separa os indiv íduos, alienando-os uns and organization development h á um reposit ó rio de instru ções pr á ti -
dos outros. As ... revoltantes ocasiões em que pessoas tê m sido es - cas sobre a tarefa de tratamento espacial dos sistemas sociais.
pancadas e até mortas , enquanto seus vizinhos ficam olhando, sem
mesmo pegarem num telefone , mostram até que ponto progrediu essa Os planejadores de sistemas sociais do tipo de isonomias e feno-
tendê ncia para a alienação” ( Hall , 1966, p. 163). A predomin â ncia dos nomias, e de suas poss íveis formas mistas , deveriam compreender que
espaços sócio-afastadores nas cidades americanas , como, por exemplo. a adequada consideração do espaço é uma condi ção essencial para o
Los Angeles, Nova Iorque , Boston , as qualifica como verdadeiras -
bem sucedido funcionamento desses sistemas. 0 espaço fala uma lin -
fossas behavioristas , expressão que Hall toma emprestada a John guagem silenciosa , mas eloquente , pela qual as pessoas são afetadas
Calhoun ( Hall , 1966 , p . 24 ). Viver nessas cidades exige dos indiv íduos inadvertidamente . Conta -se que num debate sobre o reparo dos danos
uma grande quantidade de energia ps íquica , para compensar as pres- causados pela guerra ao edif ício da Câ mara dos Comuns, Churchill ma -
sões que estimulam o comportamento patológico. nifestou o desejo de que fosse preservado o local tradicional da Câ ma -
Arquitetos e planejadores vê m h á longo tempo assinalando que ra , em que os representantes do povo n ão podiam deixai de ficar de
o espaço pode ser fator de deformação humana. Diz-se , por exemplo, frente uns para os outros, enquanto usavam da palavra , para que um
que Frank L. Wright afirmava que “ podia planejar uma casa em que , novo tra çado desse local n ão viesse a alterar os padrões de governo.
depois de seis meses , qualquer casamento desmoronaria ” (Skoli- “ Modelamos nossos edif ícios'’, disse ele , “ e eles nos modelam ” ( Hall ,
mowski , 1976, p. 84 ).9 Num estudo em que Henryk Skolimowski ana- 1966, p. 100). Uma senhora observou para o marido: “ Se algum dos
lisa os projetos urbanos empreendidos por Paolo Soleri no Arizona , homens que desenharam esta cozinha tivesse trabalhado nela , n ão a
declara ele , embora n ão em referê ncia a Soleri , que “ muitos arquitetos teria feito assim ” ( Hall , 1966, p . 98). Portanto, mesmo o sexo dos
est ão projetando exatamente esse tipo de casa , sem conhecer a projetistas pode , sem o saber, influenciar o tratamento espacial dos
fó rmula de Frank L. Wright ” (Skolimowski , 1976, p. 84 ). Descreve sistemas sociais. Pode muito bem acontecer que um dos principais re -
sultados arquitetônicos do movimento de liberação feminina venha a
9 . Esta é , no entanto , uma afirmação exageradamente determin ística . O homem
e mesmo os animais podem , finalmente , transcender o cará ter deformante do es-
ser a reinterpretação das funções da cozinha , que se tornou agora me -
paço . Sobre este assunto , veja , por exemplo , Frankl ( 1968 ) c Bcttelheim ( 1958 ) .
*
nos um lugar para preparar comida do que um s ítio de intensas e ínti -
164 165
II
mas relações sociais entre as pessoas , independentemente de sexo e A arte de projetar esses ambientes tem muito a ganhar , se incorporar
idade . Mais ainda , mulheres e homens partilham de seu funcionamen - as contribuições que antropó logos e psicólogos de ambiente té m a ofe
-
to , cada vez mais , em termos de igualdade . recer. 10 Aparentemente , espaços sócio -aproximadores, de preferê ncia
Finalmente , na medida em que um dos objetivos fundamentais aos sócio-afastadores, deveriam prevalecer nas isonomias e fenonomias,
da delimitação dos sistemas sociais está em conter a influê ncia do sis- da mesma forma que em cen á rios projetados para ressocializar indiv í -
tema de mercado sobre o espa ço vital humano , os que praticam a deli- duos an ò micos. Em razão da natureza de suas atividades , as economias
mita ção, mais que qualquer outra pessoa , precisam ter consciê ncia da . são sistemas em que os espa ç os sócio-afastadores devem prevalecer,
lei da adequa ção de requisitos. Parece evidente que o sistema de mer- embora com alcance limitado espa ços sócio-aproximadores sejam tam -
bé m funcionalmente necessá rios em tais cen á rios.
cado condiciona , nos cidad ãos americanos, a percepção e o uso do es - 5. Tempo. Volto-me , agora , à considera ção do tempo como uma di
paço. Por exemplo , como foi observado por Hall , “ os americanos são
mensão dos sistemas sociais. Devo salientar : o fato de que trato tempo
-
atentos para a dire ção num sentido t é cnico , mas formal e informal
mente n ão t ê m preferê ncias. Uma vez que nosso espaço é , em grande
- e espa ço em seções separadas n ão significa a minha aceitação de uma
parte , definido por pessoal de formação t écnica , casas , cidades e arté- dicotomia newtoniana de espaço e tempo. Apenas por um imperativo
rias principais são geralmente orientadas de acordo com um dos pon - de ordenada exposi ção é que um tema se segue ao outro . Espa ço e
tos indicados pela b ússola. .. Um padr ão t é cnico que pode ter derivado tempo est ã o mutuamente envolvidos. A orienta ção temporal dos
de uma base informal é o do valor da posição em quase todos os as- membros de um sistema social tem correlativos espaciais intr ínsecos.
pectos de nossas vidas, de tal maneira que mesmo crian ças de quatro O espa ço, nos sistemas sociais , por outro lado , envolve orientações
anos de idade t ê m plena consci ê ncia de suas implica ções e est ão pron - temporais espec íficas.
tas a brigar umas com as outras, quanto à quest ão de quem ser á a pri- O tempo , como uma categoria do planejamento organizacional ,
meira ” ( Hall , 1959, p. 158-9 ). Em seu estudo sobre a aflu ê ncia ma- tem sido tema da teoria convencional de organização. Contudo, nesse
terial e seus efeitos sobre a formação do car á ter americano , denomina - dom í nio, somente o tempo inerente aos sistemas econ ómicos tem cons-
do People of plenty , David M . Potter observou que “ o espaço domésti- titu ído objeto de estudo. Assim , Taylor e alguns de seus associados fo-
co proporcionado pela economia da abund â ncia tem sido usado para ram os pioneiros do estudo de tempo e movimento como aspecto da ad -
salientar a separa ção , o distanciamento, sen ão o isolamento , da crian - ministração cient ífica , mas o tempo que focalizaram representa um ca-
ça americana ” ( Potter , 1954 , p. 197). Nos EUA de hoje , quando a oti - so limitado, constituindo um aspecto do espectro temporal da experiê n -
mização e a conserva ção de recursos se tornaram mat é ria de interesse cia humana . Nessa tradição, a maior parte dos estudos de tempo ora
p ú blico e item da agenda governamental , a influ ê ncia de nossa cultura dispon ível , no campo da teoria organizacionaJ , n ão transcende a con -
sobre a percepção individual do espa ço e o uso dele deveria ser manti - cepção tayloriana . 11 Trata o tempo apenas como uma mercadoria , ou
da sob sistem á tica aten ção dos formuladores de pol íticas e dos plane - um aspecto da linearidade do comportamento organizacional . Impor-
jadores. Os americanos deveriam aprender a transcender a tendência tante como seja essa faceta da experiê ncia humana de tempo, n ão
que o mercado tem , quanto a explorar o uso do espa ço, se est ão seria - constitui o impulso fundamental de uma variedade de sistemas sociais,
rrfente empenhados em superar a deteriora ção ecol ógica de sua socie - tais como as isonomias, as fenonomias e as diferentes formas pelas
dade . Os la ços afetivos do indiv íduo com seu ambiente f ísico, na for-
ma demonstrada por Yi - Fu Tuan ( 1974 ), em seu livro Topophilia, po-
quais se mesclam às economias. Conseqiientemente , o paradigma para
econ õ mico prescreve uma abordagem multidimensional do tempo , co-
-
dem ser objeto de investigação cient ífica . Podem ser identificados e mo categoria do planejamento dos sistemas sociais .
categorizados em cada cultura , assim como apreciados como uma vari á- No dom ínio da sociologia , Georges Gurvitch ( 1964 ) desenvolveu
vel que influi sobre a eficá cia ecol ógica de planejamentos de espa ços uma tipologia de dimensões temporais dos sistemas sociais. 12 Sustenta
vitais. ele , por exemplo, que o tempo das organizações formais n ão é id ê nti -
O tratamento adequado do espaço em relação aos sistemas so - co ao tempo caracter ístico dos sistemas sociais em que prevalecem a
ciais constitui , certamente , um dos meios de estimular a atmosfera psi - intimidade e uma intensa reciprocidade interpessoal . Ademais, cstabele -
col ógica apropriada a seus objetivos espec íficos. Tó picos como soli - 10
Veia H . M . Proshansky et alii ( 1970).
dão, privacidade , reserva , intimidade, anonimidade , territ ó rio pessoal ,
órbita individual e outros são pontos a levar em conta , na definição do
11 Há umas poucas exceçõ
es. Veja Lee (1968) e Waldo ( 1970).
espa ço dos sistemas sociais, particularmente isonomias e fenonomias. 12
.
Sobre a abordagem filosófica do tempo, veja Fraser ct alii ( 1972 )

166 167
J
ce o conceito de uma variedade de tempo, para explicar as diferen ças é a massa de aposentados, em nossa sociedade , que não sabe o que fazer
de orientação humana nas estruturas feudais, capitalistas e socialistas. consigo mesmo, quando perde a condição de detentora de emprego.
As dimensões temporais do sistema social , do ponto de vista paraeco - “ Os americanos são confusos em relação ao trabalho” , diz A.K . Bier
nô mico, só podem ser apresentadas tentativamente e , nesse cará ter , man , e acrescenta : “ a menos que nos seja poss ível aprender a ir para a-
poderia ser proposta uma tipologia constitu ída das seguintes catego - cama com a máquina , no Eden , ela será fator de nossa desumanização,
rias: tempo serial , linear ou sequencial ; tempo convivial ; tempo de sal - em vez de ser nossa benfeitora ” ( Bierman , 1973, p. 15 ). É poss ível
-
to leap time -; tempo errante .
As economias são cen ários em que prevalece o tempo serial e ,
que a orientação temporal dominante em relação à maior parte dos
americanos seja o fator principal a dificultar -lhes o engajamento em
desse modo, são incapazes de atender às necessidades humanas cuja sa
tisfa ção envolva uma experi ê ncia de tempo que n ão possa ser estabele
-
-
processos isonômicos de aculturação.
A isonomia é s í tio para o exerc ício da convivê ncia , e seu princi
cida em termos de sé ries. A sociedade centrada no mercado tende a pal requisito temporal é uma experiência de tempo em que aquilo que-
serializar o tempo de seus membros de acordo com sua orientação o indiv íduo ganha em seus relacionamentos com as outras pessoas n ão é
temporal e sai -se muito bem nessa tarefa , dessa forma desenvolvendo medido quantitativamente , mas representa uma gratificação profunda
neles uma dirigida incapacidade para se engajarem em esforços que re - por se ver liberado de pressões que lhe impedem a atualização pessoal .
queiram outros tipos de orientação temporal . “ Os americanos” , diz O tempo convivial é catárticoe nele a experiência individual encoraja o
Hall , “ pensam que é natural quantificar o tempo. É inconceb ível dei - -
xar de fazer isso , e o americano especifica a quantidade de tempo que -
a interagir com os outros sem fachadas , e vice versa . Quando um grupo
de pessoas partilha esse tipo de experiê ncia temporal , seus membros
é necessá ria para fazer qualquer coisa ” ( Hall , 1959, p. 134 ). Definindo relaxam , tendem a confiar uns nos outros e a expressar , com autentici
o monocronismo como a tendência a “ fazer uma coisa de cada vez” , dade, seus sentimentos profundos. Aqueles que participam dessa inte -
Hall afirma que “ a cultura americana é caracteristicamente monocrô - ração social não vê em os outros, nem os tratam como objetos, mas co--
nica ” ( Hall , 1959, p . 138), e compara esse traço cultural americano ao
policronismo de outras culturas: -
mo pessoas. Aceitam-se e estimam se pelo que são, independentemen
te de suas posições empresariais, ou seu status no ambiente -
vo do mercado. O tempo, em seu sentido serial , é esquecido , quando a-
competiti
“ Na Silent language , descrevo duas maneiras contrastantes de conside -
rar o tempo, a monocrônica e a policrônica. A monocr ônica é caracter ís - pessoa se envolve na experiê ncia do tempo convivial .
O tempo de salto é um tipo muito pessoal de experiência tempo-
tica de pessoas de baixo grau de envolvimento, que compartimentalizam
ral , cuja qualidade e ritmo refletem a intensidade do anseio do indiv í
o tempo . Planejam uma coisa para cada hora , e ficam desorientadas se
duo pela criatividade e o auto-esclarecimento. É um momento muito
-
tiverem que lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. As pessoas poli -
crônicas, possivelmente pelo fato de estarem profundamente envolvi- importante na vida de uma pessoa criativa e perscrutadora , isoladamen -
das umas com as outras, tendem a manter várias coisas em operação ao te ou na companhia de outras pessoas igualmente sintonizadas com o
mesmo tempo, como os prestidigitadores . Portanto , a pessoa mono- mesmo tipo de indagação. É o impulso temporal das fenonomias.
crónica muitas vezes acha mais fácil funcionar se lhe é possível separar O tempo de salto n ão se enquadra no dom ínio do Chronos. A
as atividades em termos de espaço, enquanto a pessoa policrônica ten - mente grega concebia o Chronos como uma dimensão da parte do cos
-
de a acumular atividades. No entanto , se esses dois tipos estiverem in - mos restrita e regulada pelo tempo, e alé m da qual estava o que Anaxi
teragindo reciprocamente , grande parte da dificuldade que experimen - mandro denominava o apeiron, isto é, o infinito, o ilimitado, de onde, -
tam pode ser superada pela adequada estrutura ção do espaço” ( Hall , em última instâ ncia , prové m todas as coisas . 13 Parece- me que é deste
1966, p. 162). ú ltimo conceito que emerge o tempo de salto , para tomar se parte
terreno do Kairos, palavra grega que antes designa um tempo n ão
- do

Na verdade , a avalia ção que se faz no Ocidente da orientação quantificá vel e que é constitutivo das percepções humanas do processo
temporal das pessoas que vivem em sociedades perifé ricas e primitivas que conduz a eventos cr í ticos. É um traço de certo tipo de íntima vida
como uma indica ção de preguiç a , ou de falta de motivação para reali - pessoal , quando envolvida em jornadas auto-explorat ó rias e ou em es
forços culminados por importantes arrancadas. Os psicólogos reconhe -
/
zar coisas , n ão é senão uma expressão de paroquialismo cultural.
A participa ção em cen á rios sociais que n ão sejam economias exi - cem que esse tipo de tempo é um dactum , em certas circunstâ ncias da-
ge propensões psicológicas que , muito freqiientemente , muitos indiv í- experiê ncia humana. Tem alguma semelhan ça com aquilo que Laing
duos deixam de desenvolver . Exemplo extremamente expressivo disso 13 Sobre a noçáo de apeiron, veja Kahn (1960) e Seligman (1962).
168
169
(1967 ) chama de tempo eterno - eonic time, uma caracter ística de
í fundos acontecimentos subjetivos ( Laing , 1967, p. 128). Constitui,
prt dê ncia de tempo de salto é marcada por altos e baixos do estado de es-
também , uma preocupação central de Jung e Progoff , em sua aborda - pírito do indiv íduo , e é experimentada numa mistura de sofrimento e
gem da psique humana . alegria . Os baixos podem ser profundamente depressivos, mas repre-
Jung fala de acontecimentos de sua pró pria vida como ocorren - sentam os passos necessá rios que os indiv íduos precisam dar , a fim de
do “ fora do tempo” (Jung, 1963, p. 225 ) e pertencendo ao “ reino consumarem suas metas autogratificantes. Quando passam os sofri-
desprovido de espa ço” ( Jung, 1963, p. 226 ) da psique . Sugere ele que mentos que uma pessoa bem -sucedida teve que suportar numa busca
o significado de tais acontecimentos é apreendido no contexto de ex- criativa , são eles encarados como experiê ncias gratificantes. Após a pe-
periê ncias simbólicas em que , como explica Progoff , prevalecem “ ima - nosa prova ção de um bem -sucedido ato de criação, as pessoas geral -
gens desprovidas de tempo” e “ espaço desprovido de espa ço” ( Progoff , mente afirmam que seriam capazes de dar os mesmos passos, se se vis-
1973, p. 53, 135). Quando entregue a experiências simbólicas, o indi- sem novamente na posição de -ter que escolher. O tempo de salto é um
v íduo ultrapassa os limites sociais imediatos da vida cotidiana . É nesse momento importante de esfor ços criativos autogratificantes.
sentido que devemos entender que toda socializa ção é uma aliena ção A ocorrê ncia de tempo de salto é frequente nos informes sobre
^
do mundo interior da psique. A socialização tem aspectos contraditó- progressos marcantes conseguidos por pessoas criativas, inclusive in
ventores, reformadores, administradores, cientistas , novelistas , pinto-
-
rios : sem ela o indiv íduo n ão sobrevive como um membro da espé cie ,
mas quando inteiramente dominado por ela , o ser humano - homem res e poetas. Em suas carreiras , um padrão pode ser configurado : a ) em

ou mulher perde o cará ter de pessoa.
Soren Kierkegaard ( 1962) e Henri Bergson ( 1966 ) descreveram ,
geral , são pessoas que apreciam e sabem como trabalhar com elas mes-
mas, sozinhas ( coisa que as fenonomias se destinam a proteger ); b) pa -
ambos, um tipo de criativa experi ê ncia humana que só ocorre quando recem ter uma n ítida compreensão daquilo que devem fazer ; c) man -
o indiv íduo consegue romper os limites do social . A experiê ncia envol - tê m -se ocupadas, como se fossem movidas por uma compulsão interior
( o que constitui um indicador fundamental do tempo de salto ), que os
ve um salto do fechado para o aberto ( Bergson , 1956 , p. 77 ), das nor-
mas sufocantes que caracterizam uma era peculiar para dentro da eter- capacita a realizar coisas que est ão al é m do alcance das pessoas
nidade . Especialmente em Kierkegaard , o salto é equivalente à
comuns.
autodescoberta individual . “ Lan çando-se às profundezas” , diz ele , “ a
pessoa aprende a ajudar -se a si mesma ” ( Kierkegaard , 1962, p. 58 ). É
— —
J á existe alguma per ícia especializada expertise para o pla -
nejamento de ambientes que parecem ter as caracter ísticas de fenono-
ó bvio que , em razão de seu car á ter transocial, o conte ú do de saltos mias. As equipes de pesquisa e desenvolvimento que trabalham em
existenciais só pode ser articulado através de uma linguagem simbóli- corporações empresariais e organizações como a Rand Corporation e a
ca. Pode-se argumentar que o dom ínio da experiê ncia simbólica é es- Nasa , tipos especiais de forç as-tarefas governamentais, n ão seriam bem -
tranho à teoria organizacional , mas sustento que qualquer teoria orga - sucedidas se n ão estivessem dispon íveis habilidades especiais para a ge-
nizacional que fa ç a abstração da experi ê ncia simbó lica deixa de de- rê ncia de fenonomias. 14 Contudo, um esforço concentrado precisa ser
sempenhar seu papel human ístico. A teoria organizacional verdadeira - agora articulado , para que se desenvolva e consolide uma per ícia ade-
mente human ística tem que estar criticamente consciente de que os quada à cria ção dc sistemas sociais de car á ter mais alternativo do que
modelos sociais do homem são sempre categorias de conveni ê ncia . Mas aquele visualizado pelas unidades de especialistas, organizadas pelas
a conveniê ncia n ão é a única preocupa ção do conhecimento organiza- instituições representativas do sistema de mercado.
cional ; este deve ter sensibilidade para aquilo que , no ser humano , n ão Chamo um tempo de direção inconsistente de tempo errante . As
pode ser reduzido a termos sociais , de modo a impedir a fluidez da psi- pessoas afetadas pelo conceito de tempo errante t ê m uma experiê ncia
que humana e sua deformação como simples espécime de episódica vi - imprecisa de sua agenda existencial , se é que tê m alguma espé cie de
da empresarial . Deve ser capaz de ajudar o indiv íduo a manter um agenda. As circunst â ncias , em vez de sua pró pria vontade em rela ção a
sadio equil í brio entre as exigê ncias exteriores de sua condição corpo- um propósito, modelam diretamente o curso de suas vidas. Para ilus
trar casos concretos de tempo errante , pode-se pensar imediatamente
-
rativa e sua vida interior . Dessa forma , o tempo serial precisa ser reco-
nhecido por aquilo que é , e n ão tomado erroneamente por tudo aquilo em pessoas an ô micas ou quase -an ô micas, tais como os mendigos e os
que o tempo significa . marginais, que de ordin á rio se localizam em zonas de vagabundagem ,
os trabalhadores nómades, os vadios, os mascates e , em alguns casos,
São abundantes as fontes teó ricas sobre a experiê ncia de tempo cidad ãos aposentados ou desempregados. No entanto , o viver de acor -
de salto. Nos esforços automotivados de homens e mulheres, a inci - 14 Veja , por exemplo
, Gordon (1973 ).
170
171
do com os caprichos do tempo errante pode ser , temporariamente , ca - No passado , as pessoas tinham numerosas oportunidades de se entre-
paz de conduzir ao desenvolvimento pessoal . Supõe -se que muito do gar a formas genu ínas de convivê ncia e à busca de esforços pessoais,
que George Orwell conta em Down and out in Paris and London é completamente livres de qualquer rela ção com o mercado.
autobiográfico, e certamente que sua experiê ncia como escritor sem Ao proporcionar a seus membros essas oportunidades, as socie -
vinté m nessas cidades, durante a mocidade, lhe ensinou a compreender dades antigas interpretavam -se como ré plicas do cosmos, e assim se
melhor a si mesmo e à sua vocação. Fome , de Knut Hamsun , parece conformavam a prescrições de cará ter sagrado, ou quase-sagrado. Em
mostrar um tipo semelhante de experi ê ncia juvenil , em Oslo. De tais sociedades, as pessoas dispunham de muito tempo não relacionado
id ê ntico significado é Uma festa mó vel , de Ernest Hemingway , a narra - à sua condição de trabalhadoras, no qual se poderiam engajar em obje -
ção de seus dias de busca de identidade , quando era moço e vivia em tivos auto-gratificantes. Em seu calend ário, o cará ter das horas, dos
Paris. As agê ncias de turismo e viagens parecem saber como organizar dias, dos meses e dos anos refletia o interesse que tinham pelas m últi-
excursões destinadas a revigorar pessoas que procuram um meio de se plas implicações da dimensão sagrada da vida . Na Idade Média , 167
livrar , por algum tempo, da obrigação de se preocupar com aquilo que dias em cada ano eram dias de não trabalhar , incluindo 52 domingos.
far ão em seguida . Na verdade , um know-how visando recuperar para a Os dias destinados a festividades e a feriados excediam os dias de tra -
corrente mestra da sociedade os cidad ãos sistematicamente atacados balho, na Gré cia do fim do primeiro sé culo antes de Cristo. Em Roma ,
da s índrome do tempo errante deveria constituir ponto importante mais ou menos no mesmo per íodo, 65 dias eram reservados para os jo-
para os planejadores de sistemas sociais alternativos. gos. Na Roma da segunda metade do segundo século da era crist ã, os
Um dos objetivos desta tipologia é pô r a nu o processo de unidi - jogos ocupavam 135 dias e , mais tarde, no quarto sé culo, 175 dias. 16
mensionalização de tempo, que vitima a maior parte das pessoas viven - Agora , mal se pode captar o sentimento de festividade e de celebração
do na sociedade de mercado. As teorias econ ó mica e organizacional que animava aquelas datas calend á rias.17 Ao contrá rio, é fundamental
t í picas focalizam o tempo numa estreita perspectiva unidimensional. nas sociedades contempor â neas o fato de que n ão há dia, no calend á-
Consideram apenas o tempo serial , negligenciando sistematicamente os rio, livre da penetração das prescri ções temporais inerentes ao merca-
objetivos humanos que n ão são funcionalmente prescritos pelo sistema do, que se apoderou das funções das agê ncias sagradas e se transfor -
de mercado. Aceitam o tempo social inerente ao mercado como deter - mou no á rbitro da temporalidade como um todo.
minativo da natureza da temporalidade social em seu conjunto. É pre - Semelhante sincronização deveria ser ao reverso , ajustando o
cisamente essa situação que as diretrizes paraecon õ micas e seus plane - mercado para funcionar em conson â ncia com as exigências dos siste-
jamentos procuram superar . Os indiv íduos excessivamente acomoda - mas sociais que elevam a qualidade da vida comunitá ria em geral , da
dos à orienta ção temporal imanente ao mercado mal podem com - convivê ncia e da atualização pessoal dos indiv íduos. Essa tarefa tem si -
preender a extensão e a natureza de sua deformação psíquica. Uma te- do empreendida , neste pa ís, por muitos cidad ãos, engajados numa sé -
rapia destinada a curar essa deformação pode, talvez, ser desenvolvida rie multifacetada de experiê ncias sociais alternativas. O estudo das im-
como um conjunto de procedimentos capazes de ajud á -los a se dedica - plicações de pol í tica que isso encerra e das tend ê ncias afins será feito
rem a experiê ncias n ão-seriais de tempo . A plenitude da existê ncia hu - no cap ítulo seguinte.
mana é perdida , se a pessoa n ão encara os t ó picos substantivos que
constituem sua condição consoante as variedades de tempo que a mes- BIBLIOGRAFIA
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tologia normal . Na realidade, a sociedade centrada no mercado tem
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privado o indiv íduo da variedade de experi ê ncias de tempo que ele
sempre encontrou à sua disposi ção, at é o surgimento dessa sociedade . 16 Veja de Grazia ( 1964 , p. 82 ).
15 Sobre este assunto, veja Linder ( 1970 ) . 17 Veja Cox (1970).

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Tuan , Yi- Fu. Topophilia. Englewood , New Jersey, Prentice-Hall, mias são consideradas apenas como uma parte do conjunto da tessitu -
1974. ra social. Contudo, a paraeconomia pode ser entendida també m como
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Durham, North Carolina , Duke University Press, 1970. teoria , embora já se encontrem dispon íveis contribuições fragment á -
Webber, M . M. et alii. Explorations into urban structure. Filad élfia, rias para sua elabora ção. Ademais, em palavras e atos , h á muitas pes -
University of Pennsylvania Press, 1967. soas cujas atividades as qualificam como paraeconomistas, isto é , indi -
.
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i Há, por exemplo, uma coloração paraecon
Oxford University Press, 1965. ô mica nos trabalhos e no pensa -
mento de indiv íduos como Kenneth Boulding , Barry Commoner, Ren é Dubos,
Gunnar Myrdal , C. B. MacPhcrson , John Gardner , Ralph Nader e Hazel e Carter
Henderson . O que é mais caracter ístico dessas pessoas é seu compromisso de va -
lor , sua posição de confronto, relativamentc aos tipos de disposições organiza -
cionais predominantes. Do ponto de vista normativo do paradigma , o consultor
-
paraecon ô mico deveria ser seletivo , ao aceitar incumbê ncias, porque está dispos
to a pô r sua per ícia a serviço apenas das promo ções que visem criar e implemen
tar planos de vida pessoal e coletiva sem caracter ísticas de mercado , ou de eco-
-
nomias existentes cm que perceba uma inclinação para mudanças que melhor as
capacitem a atender a necessidades genu ínas, do indiv íduo e do p ú blico.
O paraeconomista , portanto , n ão deveria ser confundido com o que Alvin
.
Toffier chama de aciocrata Toffler define a adocracia como uma força -tarefa
que ajuda as organiza ções a atingirem suas metas, sem questionar , sistematica
mente, a natureza delas. A adocracia de Toffler e uma consequência de um tipo
-
de pensamento reativo que considera o atual e abrangente sistema de mercado
como um dado certo c , portanto, procura legitimar as mudan ças decorrentes de
sua din âmica intr ínseca . Conccbe-a ele , cspecificamcntc , como um instrumento
-
para aumentar a “ capacidade de enfrentar - cope ability" das economias exis
tentes (Toffler, 1970 , p. 257 ).
-
Nesse sentido , n ão há , na atividade profissional do adocrata , ou do
consultor comum , inten ção delimitativa. Contrariamentc a essa orientação, a pa -
176 177
sentido ú nico — one way caracter ísticas daquiJo que Kenneth Boul -
Em oposição ao enfoque centrado no mercado que ora prevalece ding e seus associados chamam de economia de subvenções ( grants ) }
em relação à análise e planejamento de sistemas sociais, o paradigma Por exemplo , existem sistemas sociais , sobretudo aqueles que utilizam
paraeconômico advoga uma sociedade suficientemente diversificada um mecanismo alocativo de troca para distribuição de bens e serviços
para permitir que seus membros cuidem de tó picos substantivos de vi - t í picos ao pú blico , cuja eficá cia é avaliada através da contabilidade
da , na conformidade de seus respectivos crité rios intr ínsecos, e no convencional de preço / lucro . Mas a qualidade e o desenvolvimento de
contexto dos cenários espec íficos a que esses tó picos pertencem . Do uma sociedade n ão resultam apenas das atividades desses sistemas cen -
ponto de vista da pol í tica paraeconômica , não apenas as economias trados no mercado . Qualidade e desenvolvimento resultam també m de
que já constituem o enclave do mercado, mas també m as isonomias e uma variedade de produtos , distribu ídos através de processos alocati -
fenononiias e suas diversas formas mistas , devem ser consideradas vos que n ão representam troca . A avaliação da eficácia desses proces-
agê ncias , através das quais se deve efetivar a alocação de mão- de -obra sos alternativos e de seus ambientes sociais envolve m is do que uma
e de recursos. É neste último sentido que a delimitação dos sistemas ^
contabilidade direta de fatores de produção . Sua contribuição para a
sociais é aplicá vel tanto no n ível da sociedade , quanto a n ível macror- viabilidade do conjunto social n ão pode ser determinada numa estru -
ganizacional . Em outras palavras , da mesma forma que as economias , tura convencional de custo / benef ício . Esses sistemas, normalmente ,
as isonomias e fenonomias devem també m ser consideradas agê ncias não podem funcionar , a menos que sejam financiados por subvenções.
leg í timas , necessárias à viabilidade da sociedade em seu conjunto. A complexa quest ão de saber quais as atividades que , numa sociedade ,
Há duas maneiras básicas para implementação de diretrizes e de - deveriam ser financiadas por subvenções, ou organizadas segundo um
cisões alocativas na sociedade : transferê ncias nos dois sentidos — crit é rio de troca , e o tipo de apoio pol í tico de que um Estado necessi -
two - way caracter ísticas da economia de troca, e transferê ncias em ta para atender à s funções desse último tipo delimitativo , est ão alé m
do objetivo desta análise .3
raeconomia é concebida como uma categoria dc pensamento confrontativo e de - Beyond the stable state , Schon faz a suposi ção de que , atualmente , o governo
limitativo. Assim , o consultor paraecon ô mico est á decidido a trabalhar apenas
para as mudan ças que tenham significado , do ponto de vista dc seu paradigma dos EUA n ão dispõe de capacidades institucionais para atender à s necessidades
pessoal sobre a boa ordem dos negócios humanos e sociais. de nossa complexa sociedade. Uma das razões principais dessa deficiência insti-
No momento , h á poucas pessoas que poderiam ser classificadas como ati - tucional é o sistema centralizado de formula ção de pol ítica, a base do qual o go
verno trata as agê ncias administrativas, a n ível estadual c local , como se fosse
-
vistas paraccon ô micas. Contudo, uma posi ção paraecon ô mica tem , cada vez
mais , passado a constituir dimensão saliente dc consultores dc primeira classe , .
preceptor delas As inovações , nesses n íveis, são sufocadas por esse modelo su -
perccntralizado de formula ção de pol ítica . Schon reconhece a necessidade de
neste pa ís. Por exemplo , A . K . Bicrman aproxima-se muito daquilo que pode ser
encarado como um agente de transforma ções paraccon ô micas. Tem ele partici - superar o ‘‘conservadorismo din â mico" dos centros de formula ção pol ítica do
pado de alguns programas de vizinhan ça , em São Francisco, de acordo com o governo e considera que é necessário deixar mais espa ço para iniciativa e imple -
que merece ser definido como uma estrat égia paraecon ô mica . Acima de tudo , a menta ção descentralizada de pol íticas p ú blicas e, para transformar o governo
atual num sistema p ú blico de aprendizagem , sugere ele o "planejamento, o de-
a ção dc Bicrman reflete suas opiniões sobre aquilo que uma cidade deveria ser ,
como está enunciado em seu livro The Philosophy of urban existence . Da mesma senvolvimento e a administra ção de redes" (Schon , 1971, p. 190), que habilita -
rão o governo central “ a funcionar como facilitador da aprendizagem social , e
forma que Milton Kotlcr em suas propostas dc governo de vizinhan ça , Bicrman
percebe també m que as pol íticas seguidas pelas autoridades locais para desenvol- n ão como treinador da sociedade" (Schon , 1971 , p. 178). A administração das
ver as artes reforçam , dc modo geral , o imperialismo do centro da cidade cm re - redes, tal como ele a concebe , é obviamente uma abordagem de oposi ção ao mo
dclo de sistemas sociais e , ao que se supõe, a Organização de Inova ção Social c