Sunteți pe pagina 1din 20

A ADI 4.

983/13 e o choque entre direitos fundamentais: A via é a mais eficiente para a


proibição da vaquejada no Brasil?
The ADI 4.983/13 and the clash between fundamental rights: The motion is the most
efficient for the vaquejada’s prohibition in Brazil?

George Carneiro Rolim1


Thaís Vieira Carvalho Melo 2
Lucíola Maria de Aquino Cabral3

RESUMO

Este trabalho trata sobre a definição do termo “vaquejada” e a sua concepção na


atualidade, haja vista sua suposta categorização como “tradição cultural”. Nesse
contexto, tem-se como objetivo central demonstrar e analisar o choque entre direitos
fundamentais presente na demanda concernente a ADI 4.983/13 e seus desdobramentos.
A metodologia aplicada foi qualitativa-explorativa baseada na análise de documentos
jurídicos, textos doutrinários e jornalísticos. Salienta-se que este estudo não tem como
finalidade encerrar qualquer discussão acerca da questão posta na ADI em referência,
mas tão somente demonstrar que a vaquejada, longe de caracterizar uma tradição
cultural, configura ela mesma uma prática abusiva contra animais. Fez-se breve estudo
comparado da situação em voga com as corridas de toros espanholas e o tratamento da
questão naquele país. Reputa-se da maior importância a decisão final do STF sobre a
matéria, ao mesmo tempo em que se analisa a manifestação do Amicus Curiae na
referida ação perante aquele tribunal. O foco da questão alude as controvérsias da
argumentação de defesa da vaquejada como manifestação cultural e desporto em
detrimento do bem-estar animal. Em defesa da proteção animal foram colacionados
exemplos de movimentações institucionais concretas em prol da defesa das demandas
animais no Brasil, como comissões no congresso nacional, comissões de proteção
animal da OAB e projetos de leis que visam assegurar os direitos dos animais,
concluindo-se, ao final pela possibilidade de reformulação da Lei federal nº 9.605/98,
Lei de Crimes Ambientais, visando contemplar expressamente tais práticas abusivas
como crime ambiental.

Palavras-chave: Inconstitucionalidade. Proteção Constitucional. Direitos dos animais.


ADI. Vaquejada.

ABSTRACT

This work deals with the definition of the term "vaquejada" and its
concept today, given its alleged categorization as a "cultural
tradition". In this context, the main objective is to demonstrate and
analyze the clash between fundamental rights presented in the demand
concerning the law ADI 4.983 / 13 and its consequences. The

1
ROLIM, George Carneiro. Estudante do Curso de Direito da Universidade de Fortaleza.
2
MELO, Thais Vieira Carvalho. Estudante do Curso de Direito da Universidade de Fortaleza.
3
CABRAL, Lucíola Maria de Aquino Cabral. Procuradora do Município de Fortaleza, Professora da
Universidade de Fortaleza. Doutora em Direito Constitucional. Membro do Instituto Brasileiro de
Advocacia Pública. Membro da Associação de Professores de Direito Ambiental – APRODAB.
methodology used was qualitative-explorative based on analysis of
legal documents, scholarly and journalistic texts. It is important to
note that this study is not intended to close any discussion about the
question posed in the ADI referenced, but only to show that the
vaquejada, far from characterizing a cultural tradition, is actually a
practice of abuse against animals. There was a brief comparative study
of the current situation with the Spanish bull race and how this
matter was addressed in that country. It is noted the utmost
importance of the final decision of the Supreme Court on the matter,
while it analyzes the manifestation of Amicus Curiae of such action
before that court. The focus of the discussion is about the
controversies in the vaquejada defense argument as culture and sports
expression at the expense of animal welfare. In defense of animal protection evidence
was gathered from concrete institutional moves for the defense of animal rights in
Brazil, such as committees in the national congress, Law Bar
Association OAB animal protection committees and bill projects aimed
at ensuring animal rights, concluding, eventually in the possibility
of ADI as a means of extend the scope of animal protection,
as well as the possibility of reformulating the federal Law No. 9.605
/ 98, the Environmental Crimes Law, aimed expressly at contemplating
such abusive practices as environmental crime.

Keywords: Unconstitutionality. Constitutional Protection. Animals rights. ADI.


“Vaquejada”.

1. INTRODUÇÃO

Há no atual momento histórico uma enxurrada de questionamentos sobre


costumes e culturas anteriormente aceitos ou tolerados pela população, inseridos no que
se denomina tradição popular e cultural. Como dispõe Catenacci (2001);

A conjuntura brasileira na passagem dos anos 50/60, especialmente os


primeiros anos desta última década, é marcada por uma grande agitação
política e cultural. Sendo assim, para compreendermos as mudanças que
ocorrem nesse período no enfoque da cultura popular, é necessário situá-las
como parte de um processo mais amplo de transformações econômicas,
sociais e políticas do país.

Sob essa ótica de mudança de perspectivas das tradições culturais, objetiva-se


nesse trabalho, discutir o evento vaquejada, enfatizando o direcionamento social que
está tomando, diante da vertente econômica e em detrimento de outros valores sociais e
legais, igualmente caros a população.
1.1 - O que se entende por “vaquejada”

A vaquejada, enquanto considerada como fenômeno cultural demonstrou, ao


longo do tempo, ser uma atividade de grande relevância e constância no dia a dia do
sertanejo. Como descreve Bezerra (2007, online):

Na verdade, tudo começou aqui pelo Nordeste com o Ciclo dos Currais. É
onde entram as apartações. Os campos de criar não eram cercados. O gado,
criado em vastos campos abertos, distanciava-se em busca de alimentação
mais abundante nos fundos dos pastos. Para juntar gado disperso pelas serras,
caatingas e tabuleiros, foi que surgiu a apartação. Escolhia-se
antecipadamente uma determinada fazenda e, no dia marcado para o início da
apartação, numerosos fazendeiros e vaqueiros devidamente encourados
partiam para o campo, guiados pelo fazendeiro anfitrião, divididos em grupos
espalhados em todas as direções à procura da gadaria. O gado encontrado era
cercado em uma malhada ou rodeador, lugar mais ou menos aberto,
comumente sombreado por algumas árvores, onde as reses costumavam
proteger-se do sol, e nesse caso o grupo de vaqueiros se dividia.
Habitualmente ficava um vaqueiro aboiador para dar o sinal do local aos
companheiros ausentes. Um certo número de vaqueiros ficava dando o cerco,
enquanto os outros continuavam a campear. Ao fim da tarde, cada grupo
encaminhava o gado através de um vaquejador, estrada ou caminho aberto
por onde conduzir o gado para os currais da fazenda. O gado era tangido na
base do traquejo, como era chamada a prática ou jeito de conduzi-lo para os
currais. Quando era encontrado um barbatão da conta do vaqueiro da
fazenda-sede, ou da conta de vaqueiro de outra fazenda, era necessário pegá-
lo de carreira. Barbatão era o touro ou novilho que, por ter sido criado nos
matos, se tornara bravio. Depois de derrubado, o animal era peado e
enchocalhado. Quando a rés não era peada, era algemada com uma algema de
madeira, pequena forquilha colocada em uma de suas patas dianteiras para
não deixa-la correr. Se o vaqueiro que corria mais próximo do boi não
conseguia pega-lo pela bassoura, o mesmo que rabo ou cauda do animal, e
derrubá-lo, os companheiros lhe gritavam: - Você botou o boi no mato!

Trata-se de tradição centenária que por motivos variados foi convertida em


atividade econômica e que, mais recentemente, foi reconhecida como esporte,
possuindo, inclusive, regulamentação legal, conforme Lei estadual nº 15.299, de 08 de
janeiro de 20134.
Ao tratar de tal questão, alguns autores entendem que essa mutação da vaquejada
para atividade desportiva, como colocado na lei estadual referida acima, teve o condão
de transformá-la em atividade econômica e fenômeno movimentador de economia.
Cláudia Magalhães (2007) anota, referindo-se a manifestação do prefeito da cidade
Maranguape, no Ceará, que:

4
Lei estadual nº 15.299, de 08 de janeiro de 2013, que regulamenta a vaquejada como prática
desportiva e cultural no Estado do Ceará.
(...) É hoje conhecida em todo o mundo, estimulando o incremento do
turismo na região (...). Por seu porte e organização tem alcançado uma
dimensão nacional e internacional, movimentando - sobremaneira - a
economia local, com a geração de vários empregos sazonais.

Esta visão empreendedora e desportista da vaquejada põe em segundo plano uma


série de fatos levantados por outras fontes que procuram expor as práticas de maus
tratos sistemáticas praticadas contra os animais. Mesmo em um texto tão antigo como o
de Policarpo Feitosa (1928), pode-se perceber a visceralidade e crueldade na realidade
da vaquejada, como se observar do texto adiante:

Inclinados, quase deitados sobre o cavalo, cujo pescoço cingem com um


braço, a outra mão estirada para diante e para baixo, já meio fechada como
um gancho, buscam na corrida desenfreada o momento propício e
rapidíssimo em que, segura a extremidade da cauda enrolada na mão, a rês
esteja, entre um e outro contacto com a terra, de patas no ar. Então, firmando-
se nos estribos, executam um movimento de tração, em que o jeito e a
presteza são mais valiosos que a força. Desviando repentinamente da direção
seguida e faltando-lhe o apoio do solo, o animal “arrastado” faz meia volta e
rola desamparado por terra, descrevendo com as patas, se a derrubada a
perfeita, um semicírculo no ar.

Ao vislumbrar esta disparidade de valores, constata-se que de esporte a


vaquejada não tema nada e, como atividade econômica não se justifica, considerando-se
que não encontra fundamento na ordem econômica traçada na Constituição de 1988 (art.
170, inciso VI). Por tais razões, a legislação estadual que regulamenta esse “esporte” é
duramente combatida e foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal,
no âmbito da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4983 – CE. Trata-se da Lei
estadual nº 15.299, de 08 de janeiro de 2013.

1.2 - A regulamentação legal da vaquejada

A vaquejada adquiriu respaldo legal como esporte a partir da entrada em vigor


da Lei nº 10.220, de 11 de abril de 2001, que dispõe sobre a profissão de peão de rodeio
equiparando-os a atletas profissionais.

Art. 1 Considera-se atleta profissional o peão de rodeio cuja atividade


o

consiste na participação, mediante remuneração pactuada em contrato


próprio, em provas de destreza no dorso de animais eqüinos ou bovinos, em
torneios patrocinados por entidades públicas ou privadas.

Parágrafo único. Entendem-se como provas de rodeios as montarias em


bovinos e eqüinos, as vaquejadas e provas de laço, promovidas por entidades
públicas ou privadas, além de outras atividades profissionais da modalidade
organizadas pelos atletas e entidades dessa prática esportiva. (...)

A regulamentação de tal atividade por meio de lei federal traz uma implicação
direta na concretização desse tipo de evento como atividade economicamente
organizada e estruturada, colocando-a muito além da simples tradição cultural.
Evidencia-se um claro poder de lobby político e econômico por parte de determinados
grupos sociais, visando concretizar e consolidar uma atividade inicialmente considerada
do tipo cultural como modelo puramente econômico.
Com o escopo de contrapor as críticas sociais de cunho ambiental, a Assembleia
Legislativa do Estado do Ceará, aprovou a Lei estadual nº 15. 299/2013, que dispõe
sobra a regulamentação da vaquejada como prática esportiva. Pode-se identificar no
corpo do texto legal, a tendência de abranger e esclarecer sobre os cuidados que os
animais, objetos núcleo da prática, devem receber no ambiente de vaquejada:

Art. 4º. Fica obrigado aos organizadores da vaquejada adotar medidas de


proteção à saúde e a integridade física do público, dos vaqueiros e dos
animais.
§ 1º - O transporte, o trato, o manejo e a montaria do animal utilizado na
vaquejada devem ser feitos de forma adequada para não prejudicar a saúde
do mesmo.
(…)
§ 3º - O vaqueiro que, por motivo injustificado, se exceder no trato com o
animal, ferindo-o ou maltratando-o de forma intencional, deverá ser excluído
da prova. (Lei estadual do Ceará Nº 15.299, de 08 jan. de 2013).

A ideia por trás desta regulamentação é a de externar para a população em geral


a preocupação e os cuidados com os animais, de modo a abrandar as críticas por parte
daqueles que entendem que a vaquejada é uma atividade que produz maus tratos aos
animais. Fica demonstrada, no corpo da lei, suposta preocupação com as condições
físicas do animal no ambiente de vaquejada.
Ocorre que, o Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma Ação
Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra a referida lei estadual, por entender que
esta prática da vaquejada constitui forma de maus tratos aos animais, baseando-se nas
normas constitucionais que asseguram a proteção contra maus tratos e crueldade contra
animais, contida no art. 225 da Constituição de 1988.
A referida ADI 4983 – CE usou como fundamentos, ainda, os precedentes do
próprio Supremo, ao decidir sobre a briga de galos e a farra do meio, assim como a
necessidade de se manter o conceito de meio ambiente em sua integralidade.
2. A PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL EM FAVOR DOS ANIMAIS

O Ministério Público Federal do Estado do Ceará, compreendendo o evidente


conflito entre direitos fundamentais caracterizados pelo direito a livre manifestação
cultural e o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, ingressou, por
meio da Procuradoria Geral da República, com ação direta de inconstitucionalidade
contra a Lei estadual nº 15.299/2013, que regulamenta a vaquejada, considerando-a
como atividade desportiva e cultural no Ceará.
A ADI proposta em face da referida Lei estadual nº 15.299/13 tem como
objetivo, obter a declaração de inconstitucionalidade desta lei, visando proibir a prática
da vaquejada, por considerá-la atividade que causa maus tratos aos animais.
A declaração de inconstitucionalidade da citada lei, produzirá outros efeitos, tais
como a criação de precedente em tribunal superior, que poderá estimular a propositura
de outras ações. Tudo isto em prol de uma maior segurança jurídica no combate a
prática de maus tratos e crueldade contra animais e a efetivação dos direitos
constitucionalmente assegurados pela Constituição de 1988, haja vista que se trata de
prática desportiva que viola o direito ao meio ambiente equilibrado, assim como
acarreta maus tratos e crueldade aos animais.

2.1 - A ADI 4.983/2013

A ação direta de inconstitucionalidade 4.983/2013 CE, ajuizada no dia 18 de


junho de 2013, descreve de forma ímpar o embate entre direitos constitucionais.
Consoante dispõe o art. 215 da CF/88: “O Estado garantirá a todos o pleno
exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e
incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”.
O caput do art. 225, por sua vez, assegura o direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado e a proteção aos animais:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente


equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de
vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo
e preservá- lo para às presentes e futuras gerações.

§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:


VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que
coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies
ou submetam os animais a crueldade.

Esse dispositivo assegura tanto os direitos a um meio ambiente equilibrado,


como garante a proteção à fauna, fazendo constar expressa vedação quanto a atos que
importem em maus tratos e crueldade aos animais, vale dizer, o texto constitucional
proíbe de maneira clara qualquer submissão dos animais à crueldade. Citando as
palavras do Ministro Celso Melo na ADI, ressalta-se o seguinte:

(...) Colisão de direitos fundamentais - Critério de superação desse estado de


tensão entre valores constitucionais relevantes - Os Direito básicos da pessoa
e as sucessivas gerações (Fases ou dimensões) de Direitos (RTJ 164/158,
160-161) A questão da precedência do Direito a preservação do meio
ambiente: Uma limitação constitucional explícita à atividade econômica (CF,
Art. 170, VI) (...) A preservações da integridade do meio ambiente:
Expressão constitucional de um Direito fundamental que assiste a
generalidade das pessoas.

Em sua peça o parquet demonstra que o Supremo Tribunal Federal já possui


inúmeros precedentes que realçam o direito coletivo, colocando-o como prioritário em
relação ao individual. Os precedentes do STF, segundo noticia o MPF, são relacionados
a casos semelhantes em essência, caracterizados por maus-tratos animais.
Registra-se a ADI 1.856/98 - Brigas de galos e a ADI 2.514/05 que trata da
“farra do boi”. Em ambos os casos, as duas ações lograram sucesso no Supremo
Tribunal Federal, resultando na declaração de inconstitucionalidade das referidas leis
que disciplinavam tais práticas, haja vista que violavam expressa norma constitucional e
iam de encontro com a efetivação do interesse da coletividade prevista na Constituição
de 1988. Esta a questão posta na ADI 4.983/13 CE.
O parquet alegou em sua peça que: (...) prevalece o entendimento que se deve
afastar toda e qualquer prática que trate inadequadamente os animais, ainda que a
pretexto dela tais práticas ocorram no contexto cultural o desportivo.

2.1.1 - Equiparação com o fenômeno das corridas de toros na Espanha e a


tolerância desta prática

A corrida de toros, também conhecida como touradas, é uma festa popular de


origem hispânica datada do século XVIII. Seu objetivo é exibir uma batalha entre um
toureiro e seus ajudantes com um touro, estimulando a raiva do animal e lesionando-o,
de forma a acarretar sua exaustão durante todo o ato, até o último rito, quando o mata
em um golpe de espada (Jokura, 2014, on line).

Embora considerada em alguns países como patrimônio cultural, verifica-se que


em algumas cidades e regiões autônomas da Espanha suas práticas já estão proibidas,
como, por exemplo, nas Ilhas Canárias e na Catalunha.

Nas Ilhas Canárias, a utilização de animais em festas que os submetam a maus-


tratos, crueldades e sofrimentos estão proibidos legalmente por meio da Ley 8/1991, de
30 de abril de 1991, de protección de los animales, conforme artículo 5.- 1: Se prohíbe
la utilización de animales en peleas, fiestas, espectáculos y otras actividades que
conlleven maltrato, crueldad o sufrimiento.

Unindo-se as Canárias, em 28 de julho de 2010 o Parlamento de Catalunha


aprovou a abolição das touradas a partir de uma iniciativa legislativa popular, entrando a
lei em vigor em 1º de janeiro de 2012 (Boletin Oficial de Canarias, 1991).

Do mesmo modo da vaquejada, a prática das corridas de toros utiliza um animal


submetido a uma luta esgotante, causando-lhe sofrimento e até mesmo a morte. Ainda
que considerada parte da cultura, a maioria dos espanhóis se posiciona contra os festejos
que exploram touros, como se observa em uma pesquisa realizada entre o período de 11
e 15 de dezembro de 2015, a qual mostrou que 58% (cinquenta e oito por cento) da
população hispânica se opõe a tauromaquia, enquanto que apenas 19% (dezenove por
cento) a apoia. (SERRA, 2016, on line).
Não obstante esta prática seja datada de séculos e considerada arte e cultura em
alguns países, as touradas vem decaindo no gosto do público. Manifestações são
frequentes em favor da proibição de festejos que submetam touros a crueldade. Dados
significativos mostram que os jovens estão se conscientizando e se posicionando contra
a tauromaquia. Nos últimos anos, o que seria algo inimaginável, o que está acontecendo
é a proibição da corrida de toros em regiões hispânicas, demonstrando assim que a
proteção aos animais é um direito que deve ser garantido legalmente (SERRA, 2016, on
line).
2.1.2 - A manifestação do Amicus Curiae

Ocorre, porém, que a Associação Brasileira da Vaquejada (ABVAQ) ingressou,


no dia 08 de novembro de 2013, com pedido de habilitação como amicus curiae nos
autos da ADI 4.983/13. Em trecho da manifestação, o requerente alega que, caso seja
declarada a inconstitucionalidade da referida Lei Estadual, tal decisão acarretaria um
vácuo legal, considerando-se o que dispõe a lei federal que trata da vaquejada. Segundo
o interessado, observa-se que:

Com efeito, a Lei Federal nº 10.220/2001 - a qual não é objeto desta ADI -
considera a vaquejada como esporte profissional (...) Da análise do texto,
resta claro que a só impugnação do dispositivo estadual frustra o objetivo de
combater a atividade da vaquejada, já que ela continuará a encontrar fulcro
em dispositivo legal. Mais do que isso, a própria declaração de
inconstitucionalidade da norma ora impugnada traria um evidente vácuo
normativo, porquanto complemente aquele dispositivo de cunho nacional, o
qual é omisso quanto à preservação da integridade dos animais participantes.
(Manifestação amicus curiae - ADI 4.983/13).

No pedido de habilitação, o interessado procura, ainda, demonstrar que não há


inconstitucionalidade na Lei estadual atacada por meio da referida ADI, salientando que
o promovente não apontou os artigos constitucionais feridos, cogitando, inclusive de
uma possível nulidade processual à demanda disposta na ADI. Pode-se verificar tal
argumento no trecho seguinte da referida manifestação:

Ainda que se tenha demonstrado em várias linhas sobre a irresignação do


Promovente com a edição da lei estadual, este não pode conter-se às
referências sobre a totalidade do conteúdo sem apontar especificadamente
quais são os artigos que oferecem ameaça constitucional. Já não bastasse o
dever de apresentar argumentos a esta Corte Suprema, em sede de controle
concentrado, dotados de profundidade na discussão dos temas, que causem
reflexão de forma a decretar inconstitucionalidade, é regra básica do Direito
Brasileiro o que preconiza o art. 282, III e IV do Código de Processo Civil,
sob pena de inépcia da petição inicial.

É possível perceber que existe a intenção do interessado, ao final de sua


manifestação, em demonstrar a prática da vaquejada como manifestação de caráter
popular e como esporte legalmente reconhecido e aceito. Levanta-se a ideia de que a
ação busca desconstituir uma tradição e um desporto.
2.1.3 - A controvérsia dos argumentos defensores da vaquejada

Diante desse cenário, busca-se identificar as razões que justificam a prática da


vaquejada, assim como os argumentos trazidos pela defesa e pelo amicus curiae sobre
sua importância quanto ao aspecto econômico local e nacional.
Verifica-se que para aqueles que defendem a vaquejada como manifestação
cultural e atividade desportiva o debate começa por desqualificar o argumento de maus-
tratos, ao mesmo tempo em que reanalisa o conceito de crueldade e sua relação com o
individualismo do ser humano e não com o bem-estar do animal em si, como anota
Fiorillo (2009, p. 189/190), em texto transcrito na manifestação do AC:

O termo crueldade é a qualidade do que é cruel, que, por sua vez, segundo o
dicionário Aurélio Buarque de Holanda, significa aquilo que se satisfaz em
fazer mal, duro, insensível, desumano, severo, rigoroso, tirano. Diante dessa
denotação, o art. 225, §1º VII, da Constituição Federal busca proteger o
homem e não o animal. Isso porque a saúde psíquica do homem não lhe
permite ver, em decorrência de práticas cruéis, um animal sofrendo.

Porém, este pensamento não traduz o entendimento doutrinário majoritário. Na


realidade, o posicionamento defendido na própria peça inicial do MPF aponta um
pensamento sistemático e uma interpretação mais palpável da constitucionalidade dessa
controvérsia. Quando dispõe sobre maus-tratos, o texto constitucional engloba a
proteção da fauna, conforme inciso VII, do art. 225, da CF/88 e este, em seu caput,
assegura o direito a um meio ambiente equilibrado, que não será possível sem a
manutenção da vida de todos os seres.
Esse direito é pacificado como um direito fundamental e, portanto, se sobrepõe a
quaisquer interesses e/ou atividades econômicas, vantajosas tão somente aos indivíduos
humanos. No trecho da ementa de voto do Ministro Celso de Melo na ADI 3.040/06,
ora transcrito no texto da ADI 4.983/13 destaca-se o seguinte:

A atividade econômica não pode ser exercida em desarmonia com os


princípios destinados a tornar efetiva a proteção ao meio ambiente. - A
incolumidade do meio ambiente não pode ser comprometida por interesses
empresariais (...) ainda mais se se tiver presente que a atividade econômica,
considerada a disciplina constitucional que a rege, está subordinada, dentre
outros princípios gerais, àquele que privilegia a defesa do meio ambiente (CF
art. 170, VI) (...)

É possível afirmar, por conseguinte, que o exercício da atividade econômica não


pode ocorrer ao arrepio da lei, em especial quando a própria Constituição de 1988 insere
a defesa do meio ambiente como um de seus princípios. O art. 170, inciso VI, do texto
constitucional é bastante claro nesse sentido. Entende-se, portanto, que o Ministério
Público Federal agiu corretamente ao propor a referida ADI, demonstrando
corretamente respaldo não só constitucional, como amparo nos precedentes do próprio
supremo.

2.2 SOBRE OS VOTOS E DECISÃO FINAL

No que concerne a votação, destaca-se que cinco dos onze ministros do STF
foram em desfavor da autoria, entre eles os ministros Edson Fachin, Gilmar Mendes,
Teori Zavascki, Luiz Fux e Dias Toffoli, estes sendo votos vencidos na decisão final.
Os ministros Marco Aurélio de Melo e Luís Roberto Barroso, assim como a
ministra Rosa Weber, entre outros três, votaram pela procedência da ação, conforme
abaixo:
(...) procedência da ação e afirmou que o dever de proteção ao meio ambiente
(artigo 225 da Constituição Federal) sobrepõe-se aos valores culturais da
atividade desportiva, diante da crueldade intrínseca aplicada aos animais na
vaquejada.(...) Em seu voto, o ministro Barroso reconheceu a importância da
vaquejada como manifestação cultural regional, no entanto, afirmou que esse
fator não torna a atividade imune aos outros valores constitucionais, em
especial ao valor da proteção ao meio ambiente. “A Constituição veda
expressamente práticas que submetam os animais à crueldade (...) (Notícias
STF, 2016, on line).

Os outros cinco ministros possuem entendimento contrário, pois, de maneira


geral, entendem que a Lei federal nº 10.220/2001 engloba o cuidado animal, afastando
os maus-tratos e preserva a vaquejada como uma prática de manifestação cultura
saudável.
Da leitura dos votos é possível apreender que, em essência, suas motivações são
centradas no fato de a prática da vaquejada ser considerada como manifestação cultural
e de desporto protegida pela Constituição de 1988. Os votos contrários ao entendimento
anterior destacam que o objeto da ação não é a vaquejada em si, mas a
constitucionalidade ou não da Lei estadual, como se vê adiante:

(...) ministro Teori Zavascki seguiu na sessão de hoje a divergência aberta


pelo ministro Fachin e já acompanhada pelo ministro Gilmar Mendes. O
ministro ressaltou que o objeto da ADI é a constitucionalidade da lei
estadual, e não da prática da vaquejada em si. Ele salientou que o texto da lei
prevê regras de segurança para os vaqueiros, o público e os animais. “A lei
talvez tenha procurado evitar aquela forma que vaquejada cruel. Essa lei é
melhor do que não ter lei sobre vaquejada”, ressaltou o ministro ao votar pela
improcedência da ação. O ministro Luiz Fux também seguiu essa corrente.

A ação foi julgada procedente no dia seis de outubro de 2016, data em que os
votos ainda restantes foram dispostos e constatou-se o ganho de causa para a
Procuradoria Geral da República por 6 a 5. Dessa forma, seguiram o relator os ministros
Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e a
presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia. Ficaram vencidos os ministros Edson
Fachin, Teori Zavascki, Luiz Fux, Dias Toffoli e Gilmar Mendes.
A decisão do Supremo Tribunal Federal nesta ADI vem a confirmar
entendimento em defesa da proteção animal consubstanciado em posicionamentos
anteriores, como na ADI relativa a briga de galo e a da farra do boi.

3 - MOTIVAÇÕES INSTITUCIONAIS A FAVOR DOS ANIMAIS

Independentemente do ajuizamento da ADI 4.983/13 e de movimentos sociais,


pode-se observar uma série de instrumentos legislativos em favor da causa animal,
como o Decreto Federal nº 6899/09, a Lei federal nº 11.794/08 e a Lei estadual do
Ceará nº 17.918/13. Estes instrumentos regulamentam órgãos de proteção, o uso de
animais em experiências científicas e a proibição destes em transporte de tração.
Nesse contexto passa-se a analisar com mais profundidade, três situações que
procuram estabelecer uma nova realidade, na medida em que prestigiam os direitos dos
animais.

3.1 - PL 6799/13

O projeto de Lei Federal nº 6799/13, de iniciativa do Deputado Federal Ricardo


Izar, propõe que, por meio da sensibilização da condição do animal silvestre e de
doméstico, adote-se o entendimento que estes são seres suis generis de Direitos,
procedendo-se a mudança de sua condição de ser semovente para sujeitos de Direitos
despersonalizados, consoante descreve o texto do projeto:

Art. 1° - Esta Lei estabelece regime jurídico especial para os animais


domésticos e silvestres.(…)
Art. 3º - Os animais domésticos e silvestres possuem natureza jurídica sui
generis, sendo sujeitos de direitos despersonificados, dos quais podem gozar
e obter a tutela jurisdicional em caso de violação, sendo vedado o seu
tratamento como coisa.

Em justificativa, o autor do referido projeto, Deputado Federal Ricardo Izar,


discorre sobre a destituição da “descoisificação” dos animais e procura afastar a antiga e
ultrapassada concepção do animal como objeto utilizável, trazendo o entendimento de
que os animais são seres sencientes. Em sua justificativa o autor da proposta sustenta
que:

Assim, embora não tenha personalidade jurídica, o animal passa a ter


personalidade própria, de acordo com sua espécie, natureza biológica e
sensibilidade. A natureza suis generis possibilita a tutela e o reconhecimento
dos direitos dos animais, que poderão ser postulados por agentes específicos
que agem em legitimidade substitutiva. Para o reconhecimento pleno dos
direitos dos animais há de se repensar e refletir sobre as relações humanas
com o meio ambiente. O movimento de “descoisificação” dos animais requer
um esforço de toda a sociedade, visto que, eles próprios não podem exigir sua
libertação.

O PL ainda aguarda votação, porém demonstra uma clara sensibilização de


alguns representantes legislativos sobre a necessidade de mudança do status quo dos
animais, notadamente em relação as salvaguardas ambientais e protecionistas que lhe
são asseguradas pelo texto constitucional.

3.2 - CPI dos CCZs

Outro fato marcante que merece destaque ocorreu no âmbito investigatório do


Congresso Nacional, por meio da instauração de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito, para investigar denúncias de maus-tratos nos centros de zoonoses de todo o
país. A CPI procurou incluir em suas investigações as constantes denúncias de maus-
tratos, crueldade e outras problemáticas apontadas por grupos protetores de animais,
com fim de averiguar tais denúncias e assegurar adequado tratamento aos animais
submetidos a maus tratos. Tal medida fortaleceu a causa animal, porém, não se mostrou
eficiente nem suficiente para fazer cessar tais práticas. Segundo o site de notícias da
câmara dos deputados:

O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Maus-Tratos a


Animais, deputado Ricardo Izar (PSD-SP), quer incluir no Orçamento da
União de 2016 recursos para que os municípios capacitem seus centros de
zoonoses. Em visita nesta quinta-feira (3) à Gerência de Vigilância
Ambiental de Zoonoses de Brasília (Gevaz), deputados da CPI recolheram
produtos fora da validade, entre coleiras contra a leishmaniose e produtos de
limpeza usados nos canis.(...) Biólogos da Zoonoses de Brasília, que não
quiseram se identificar, admitiram que o trabalho de vigilância poderia ser
mais eficiente, com investimentos de modernização.

Além dessa ação em si, existem denúncias de tortura e de despejo de lixo em


lugar inapropriado. Todas estas questões evidenciam a preocupação não só com o bem
estar animal, mas com as práticas adotadas pelos poderes públicos.

3.3 - Comissões estaduais de proteção aos animais da OAB

No viés das denúncias investigadas e promovidas pela CPI, observa-se que a


OAB procura efetivar a proteção dos animais por meio de suas comissões, tendo sido
criadas nos últimos anos, inúmeras comissões de defesa e proteção dos animais em
várias cidades, em especial nas capitais. Como exemplo do proativismo das seccionais
da Ordem, a OAB/SP, por meio da sua Comissão de Proteção e Defesa Animal, no ano
de 2015, pediu a apuração de denúncias sobre a triagem dos animais que devem ser
sacrificados, a qual é feita por agentes e não por veterinários no Centro de Zoonoses do
município de Taboão da Serra, em São Paulo, como disposto no site de notícias da
Câmara dos Deputados (Notícias Câmara, 2016, on line).
O texto ainda revela que, de acordo com o representante da OAB, uma
testemunha forneceu documentos, fotos e vídeos dos maus-tratos. Existem também
denúncias de que animais estariam sendo mortos ilegalmente, em desacordo com a lei
estadual paulista.
As Comissões de proteção aos animais, criadas pela OAB têm um papel-chave
nesta questão, haja vista que reúne profissionais envolvidos com a causa animal,
desenvolvendo um trabalho da maior relevância caracterizado tanto pelo recebimento de
denúncias, bem como pelo acompanhamento das mesmas e posterior ajuizamento de
ações, quando necessário. As Comissões realizam, ainda, campanhas educativas e de
conscientização da população, demonstrando que a preocupação com a efetivação
desses direitos e garantias abrange os mais diversos setores da sociedade, exigindo do
poder público, a adoção de políticas públicas de proteção dos animais.
3.4 A Declaração Universal dos Direitos dos Animais

Oportuno destacar o que diz a Declaração Universal dos Direitos dos Animais,
promulgada pela UNESCO, em 1978:

PREÂMBULO
Considerando que todo o animal possui direitos,
Considerando que o desconhecimento e o desprezo destes direitos
têm levado e continuam a levar o homem a cometer crimes contra os
animais e contra a natureza,
Considerando que o reconhecimento pela espécie humana do direito
à existência das outras espécies animais constitui o fundamento da
coexistência das outras espécies no mundo,
Considerando que os genocídios são perpetrados pelo homem e há
o perigo de continuar a perpetrar outros.
Considerando que o respeito dos homens pelos animais está ligado
ao respeito dos homens pelo seu semelhante,
Considerando que a educação deve ensinar desde a infância a
observar, a compreender, a respeitar e a amar os animais.
PROCLAMA-SE O SEGUINTE:
Art. 1º - Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os
mesmos direitos à existência.
Art. 2º
1. Todo o animal tem o direito a ser respeitado.
2. O homem, como espécie animal, não pode exterminar os outros
animais ou explorá-los violando esse direito; tem o dever de pôr os
seus conhecimentos ao serviço dos animais.
3. Todo o animal tem o direito à atenção, aos cuidados e à proteção do
homem.
Art. 3º
1. Nenhum animal será submetido nem a maus tratos nem a atos
cruéis.
2. Se for necessário matar um animal, ele deve de ser morto
instantaneamente, sem dor e de modo a não provocar-lhe angústia.

Como destaca Elaine Franco5, a prática de maus tratos e de crueldade contra


animais está relacionada a criminalidade, conforme estudos realizados por diversas
fontes.

Declaração Universal dos Direitos dos Animais[1] (UNESCO,


1978), no seu preâmbulo, declara que todo o animal possui direitos e
que o desconhecimento e o desprezo desses direitos têm levado e
continuam a levar o homem a cometer crimes contra os animais e
contra a natureza. Considera que o reconhecimento pela espécie

5
FRANCO, Elaine. Artigo disponível na internet:
http://elainefrancoadv.jusbrasil.com.br/artigos/394009666/a-violencia-e-a-tortura-de-animais-
revela-desvio-de-personalidade?ref=topic_feed
humana do direito à existência das outras espécies animais constitui o
fundamento da coexistência das outras espécies no mundo; que os
genocídios são perpetrados pelo homem e há o perigo de continuar a
perpetrar outros; que o respeito dos homens pelos animais está ligado
ao respeito dos homens pelo seu semelhante; e que a educação deve
ensinar desde a infância a observar, a compreender, a respeitar e a
amar os animais.

Matéria publicada na Revista Galileu, destaca que o FBI passará a tratar maus
tratos aos animais como crimes graves 6, conforme se verifica adiante:

A partir desse mês, crimes de maus tratos contra os animais


serão investigados pelo FBI (Agência Federal de
Investigação). A medida marca uma parceria entre a agência
americana e o Animal Welfare Institute, especialista no
tema.
A iniciativa foi anunciada no primeiro dia de janeiro e é
a primeira do tipo a ser colocada em prática nos Estados
Unidos. A decisão foi tomada a partir da crença do governo
americano de que a crueldade contra os animais é um
indicador de violência criminosa. Os crimes serão
divididos em categorias como maus tratos e abuso sexual de
animais. SAIBA MAIS
"Nunca mais os casos de extrema violência serão incluidos
na categoria de 'outros crimes' só porque as vítimas são
animais", anunciou Wayne Pacelle, presidente da Humane
Society of the United States, em nota. "O FBI passará a
investigar crimes contra os animais da mesma forma
como investiga crimes de ódio e de outra categorias
importantes."
Com isso, os atos de crueldade relacionados a animais farão
parte da base de dados National Incident-Based Reporting
System (NIBRS), utilizada por várias agências do país e
pelo próprio FBI. Futuramente, os dados serão abertos ao
público.

Outros estudos podem ser verificados, sugerindo-se The Cruelty Connection7,


um estudo científico realizado por pesquisadores americanos.
A prática de maus tratos e de atos de crueldade contra animais não pode ser tida
como atividade desportiva nem cultural, uma vez que apenas alimenta a continuidade de
uma atividade econômica em desconformidade com a norma constitucional, seja em seu
aspecto econômico seja em seu viés ambiental.

6
Artigo disponível na internet: http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/01/o-fbi-passara-
tratar-maus-tratos-aos-animais-como-crimes-graves.html

7
Estudo disponível na internet: albertaspca.org/cruelty
4 A NECESSÁRIA REVISÃO DA LEI DE CRIMES AMBIENTAIS

A Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, Lei de Crimes Ambientais, dispõe


em seu art. 32, o seguinte:

Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais


silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou
cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos,
quando existirem recursos alternativos.
§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do
animal.

Verifica-se, no entanto, que depois da recente decisão do Supremo Tribunal


Federal sobre a questão da vaquejada, persistem iniciativas sobre a realização de tais
eventos, assim como manifestações de segmentos econômicos interessados na
continuidade desta atividade.
Ressalta-se a existência de Projeto de Lei de nº 503/2015, também de iniciativa
do Deputado Federal Ricardo Izar 8, visando alterar o art. 32 da Lei nº 9.605, de 12 de
fevereiro de 1998, para agravar a pena para quem praticar ato de abuso, maus-
tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos
ou exóticos.
No entanto, o PL em comento não descreve, ainda que sumariamente, em
que consistem os chamados maus-tratos ou atos de crueldade aos animais.
Em outro PL, o de nº 501/2015, é proposta alteração ao mencionado art. 32, da
Lei de Crimes Ambientais, para elevar a pena quando ocorrer a morte do animal ou for
constatado ato de zoofilia.
Sugere-se alteração ao art. 32 da Lei de Crimes Ambientais para incluir outro
parágrafo no sentido e consignar que constituem maus tratos e atos de crueldade aos
animais a prática de vaquejadas, provas de rodeios e provas de laços, assim como quais
quer outras práticas que possam acarretar desconforto físico ou psicológico aos animais,
submetê-los a esforços físicos incompatíveis com sua natureza ou que possam resultar
em danos a sua saúde.

8
Projetos de Leis do Deputado Federal Ricardo Izar disponíveis na internet:
http://www.ricardoizar.com.br/projetosdelei.asp
CONCLUSÃO

Conclui-se que a ADI em face da Lei estadual nº 17.918/13 mostra-se como via
processual adequada para efetivar a proteção dos animais utilizados nas vaquejadas. Tal
conclusão autoriza, por outro lado, a proibição dessa prática de forma abrangente e,
nesse sentido, a Lei federal nº 10.220/01 encontra-se em descompasso com o
entendimento do Supremo Tribunal Federal.

Considerando-se, portanto, o evidente descompasso, ou melhor,


desconformidade, da referida lei federal com o texto constitucional, impõe-se, na
verdade sua revogação, haja vista que sua aplicabilidade resta prejudicada. Ademais, a
decisão do STF nesta ADI demonstra que o aparente choque de direitos fundamentais
apresentado na ação, não chega a ser sequer circunstancial e que a proteção animal não
pode ser descurada em nome de interesses econômicos acobertados sob o manto de
atividade desportiva ou de tradição cultural.

Como alternativa para banir a prática de atos que importem em maus tratos e/ou
crueldade contra animais, sugere-se incluir na Lei federal nº 9.605/98, Lei de Crimes
Ambientais, um dispositivo proibindo a prática de vaquejada e outras modalidades
desportivas ou culturais, tipificando-as como crime, com o intuito de incluir-las de
forma expressa no rol dos crimes contra a fauna.

Por último, é possível afirmar, ainda, que a proibição da prática da vaquejada


afastaria legalmente os maus-tratos sofridos por esses animais em situação de abuso,
sob o pretexto de se tratar de manifestação cultural e atividade esportiva com forte
reflexo na economia. Contudo, não há dados concretos que permita aferir a
rentabilidade de tais atividades, como, por exemplo, o número de empregos e o valor de
impostos efetivamente recolhidos9. Não obstante a ausência de tais dados, observa-se
que a matéria recebeu tratamento apropriado, realçando o compromisso do judiciário
com a Constituição de 1988 e com os anseios da sociedade.

A decisão favorável a ADI pelo pleno do STF acaba por criar mais um
precedente, esperando-se que doravante mudanças no entendimento e no tratamento da

9
Observe-se que nenhum dado concreto foi acostado a peça processual do amicus curiae – ABVAQ:
Associação Brasileira da Vaquejada, conforme se verifica no endereço eletrônico do STF.
matéria em todos os estados do país, trazendo a tona uma nova visão do vanguardismo
constitucional sobre a diversidade das ramificações da constituição cidadã e uma
atenção significativa com as demandas modernas da sociedade, notadamente quando se
trata da proteção ambiental.

REFERÊNCIAS

- BEZERRA, José Fernandes. No mundo do vaqueiro. Disponível em:


<http://www.barcelona.educ.ufrn.br/mundo.htm>. Acesso em: 08 ago. 2016.

- BOLETIN Oficial de Canarias, 591 - LEY 8/1991, de 30 de abril, de protección de


los animales. Disponível em:
<http://www.gobiernodecanarias.org/boc/1991/062/001.html.>. Acesso em: 06 ago.
2016.

- BRASIL. Projeto de Lei nº 6.799 (2013). Acrescentar parágrafo único ao artigo 82


do Código Civil para dispor sobre a natureza jurídica dos animais domésticos e
silvestres, e dá outras providências . Brasília, DF, Câmara, 2013.

- BRASIL. Lei nº 10.220 (2001). Institui normas gerais relativas à atividade de peão
de rodeio, equiparando-o a atleta profissional. Brasília, DF, Senado, 2001.

-BRASIL, STF, Ação Direita de Inconstitucionalidade nº 4.983, MPF/CE e


Assembleia Legislativa do Ceará, 18 de jun. de 2013.

- BRASIL, Manifestação do amicus curiae na ADI 4.983/13, Associação Brasileira de


vaquejada (ABVAQ), 08 de nov. de 2013.

- CATENACCI, Vivian, cultura popular: entre a tradição e a transformação.


Disponível em : <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
88392001000200005>. Acesso em: 02 de ago. 2016.

- CEARÁ. Lei nº 15.299 (2013). Regulamenta a vaquejada como prática desportiva


e cultural no estado do Ceará. Fortaleza, CE, Assembleia legislativa do Ceará, 2001.
- ESPANHA, Ley 8 (1991). La presente Ley tiene por objeto establecer normas para la
protección de los animales domésticos y, en particular, la regulación específica de los
animales de compañía en el ámbito territorial de la Comunidad Autónoma de
Canarias. Ilhas Canárias, governo das Canárias, 1991.
- FEITOSA, Polycarpo. Flor do Sertão. Natal: Tipografia da A república, 1928.

- FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 10ª ed.
São Paulo: Saraiva, 2009, p.189/190.
- FRANCO, Elaine. Artigo disponível na internet:
http://elainefrancoadv.jusbrasil.com.br/artigos/394009666/a-violencia-e-a-tortura-
de-animais-revela-desvio-de-personalidade?ref=topic_feed

- JOKURA, Tiago, Como é uma tourada? Disponível


em:<http://mundoestranho.abril.com.br/materia/como-e-uma-tourada>. Acesso em: 07
de ago. 2016.
- MAGALHÃES, Cláudia. Vaquejadas viram "indústrias" milionárias. Disponível
em:<http://www.paginarural.com.br/noticias_detalhes.asp?subcategoriaid=19&id=1943
1>. Acesso em: 02 ago. 2016.

- Notícias STF, Suspenso julgamento de ADI sobre lei cearense que regulamenta
vaquejada. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=317895>. Acesso
em: 02 de ago. 2016.

- Notícias Câmara, CPI dos Maus-Tratos a Animais quer melhorias nos centros de
zoonoses. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/meio-
ambiente/495478-cpi-dos-maus-tratos-a-animais-quer-melhorias-nos-centros-de-
zoonoses.html>. Acesso em 03 de ago. 2016.

- Notícias Câmara, OAB/SP pede apuração de denúncia sobre sacrifício de animais


em centro de zoonoses. Disponível em:
<http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/meio-ambiente/493644-oab-sp-
pede-apuracao-de-denuncia-sobre-sacrificio-de-animais-em-centro-de-zoonoses.html>.
Acesso em 03 de ago. 2016.

- Projetos de Leis do Deputado Federal Ricardo Izar disponíveis na internet:


http://www.ricardoizar.com.br/projetosdelei.asp

- Revista Galileu: http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/01/o-fbi-passara-


tratar-maus-tratos-aos-animais-como-crimes-graves.html

- SERRA, Josep Maria, Cerca del 60% de los españoles se oponen a la tauromaquia,
Disponível em:
<http://www.lavanguardia.com/vida/20160122/301601192081/espanoles-contra-
toros.html>. Acesso em 07 de ago. 2016.