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Escola Sem Partido - anotações

O Programa Escola Sem Partido existe no Brasil desde 2004. Apesar dos treze
anos de existência, foi só recentemente que ele ganhou destaque no debate nacional sobre
a educação no Brasil, argumentado que nas escolas a militância político-partidária, a
doutrinação de esquerda, a discussão sobre sexualidade e gênero deveriam ser abolidasi.
Mas não é preciso olhar muito para ver que a sua chamada por uma educação plural é
uma fachada que guarda semelhança com o discurso mais conservador do Brasil que só
faz perdurar a ignorância. A couraça democrática dá, por exemplo, a possibilidade de
denúncia, pelo site, bastando escrever nome e e-mail, e podendo enviar fotos. Uma série
de fatores políticos contextualizam a ascensão atual do projeto bem como a imensa adesão
ao programa em vários municípios do país: em primeiro lugar, a promoção da educação
de gênero, apelidada pela bancada evangélica como kit gay, que trazia informações sobre
as identidades de gênero, sobre a sexualidade e suas mais diversas formas de
apresentação. Em segundo lugar, e para ficar por aqui, as ocupações feitas pelos
estudantes secundaristas que começaram em São Paulo e se estenderam pelo Brasil como
uma prática política importante na educação. Uma tomada de posição em relação aos
cuidados, aos direitos e obrigações de professores e alunos que ocuparam um lugar vazio
abandonado à própria sorte pelo Estado cada vez mais omisso e empenhado em cumprir
a famosa colocação de Darcy Ribeiro de que “a crise na educação no Brasil não é um
crise, é um projeto”, crise-projeto que gera, para além do sucateamento do ensino público,
o surgimento de inúmeras propostas no ensino privado aumentando o fosso da
desigualdade, ou como quer Miguel Nagib, tristeza ou inveja, no Brasil. A novilígua da
escola sem partido é outro tema que mereceria destaque. Mas isso ficará para depois.
A proposta de lei do Escola sem Partido versa “contra o abuso da liberdade de
ensinar”. Essa proposta se opõe ao segundo princípio fixado pela Lei de Diretrizes
Básicas, redigida por Darcy Ribeiro, a que estabelece as bases da educação nacional, onde
se lê que o ensino será ministrado com base na “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar
e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”. O que a Escola sem Partido propõe,
então, é que cada sala de aula do ensino fundamental e médio tenha um cartaz afixado
com seis deveres do professorii. Entre eles, um chama atenção no que toca o tema da
família e instituições educativas: “o professor respeitará o direito dos pais a que seus
filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.
Como respeitar a família? Que espécie de instituição seria essa que respeitaria cada
composição familiar? Inserir-se no universal não seria um dos princípios para a
emergência da diferença? Poderíamos pensar, por um lado, que a escola deixaria de ser
um lugar de universalização do discurso: na escola todos são iguais, tem os mesmos
direitos, são submetidos ao mesmo conteúdo, etc. Vale lembrar que em 1969 Médici
tornou a disciplina Educação Moral e Cívica obrigatória nos currículos escolares. Em
1971 foi então criada a Comissão Nacional de Moral e Civismo “responsável pela
implantação, manutenção e fiscalização da doutrina de EMC em todos os espaços -
escolares e extraescolares”. Passava-se então, a educação moral da família, da
comunidade, para a escola. Hoje, a Escola Sem Partido admite que essa é uma questão
que corresponde à família e que, para ser respeitada, deveria buscar o máximo de
objetividade possível no ensino das matérias, uma tentativa de fazer desaparecer o mal-
entendido, de se ter um enunciado sem enunciação. Eles sabem que um professor
transmite mais do que ensina e na tentativa de controlar essa transmissão, supõe uma lei
para evitar que os equívocos apareçam, e que a escola seja um dos lugares em que as
teorias familiares serão testadas.
Pesquisando um pouco mais sobre o que o movimento entedia por doutrinação,
que varia também para o “despertar a consciência crítica”, encontrei uma entrevista do
idealizador do movimento, Miguel Nagib, em que ele dizia: “Como eu disse, toda
ideologia – seja de esquerda, de direita ou de outro gênero – atrapalha a nossa
compreensão da realidade. Meu interesse é saber como as coisas realmente são (ou
foram). Não quero aprender uma história falsificada por mais que ela me agrade ou
corresponda aos meus preconceitos. E obviamente não desejo isto para os meus filhos.
Mas é um erro pensar que todas as correntes ideológicas se equivalem, que todas são
igualmente nocivas.”iii Recentemente, o movimento pediu para ser retirada a norma que
permite zerar a nota da redação do ENEM do aluno que desrespeitar os Direitos Humanos
dizendo que ninguém pode ser obrigado a dizer o que não pensa para entrar numa escola.
Paradoxalmente, querem tirar o direito de se dizer o que pensa em uma escola. Um lugar
movediço que quer sustentar um vazio em que a lei possa operar apenas como força (vide
as denúncias) sustentada pelo ódio. Este é propriamente o campo aberto da segregação,
onde só poderá operar o racismo que Lacan assinalava como não suportar o gozo do outro
impondo-lhe o seu, tomando o outro como subdesenvolvido que precisa do progresso, da
linearidade, da clareza, da verdade.
Esse trecho de Nagib me fez lembrar de uma professora de História de uma escola
pública em Curitiba que contou que já estavam acontecendo delações, para usar o termo
da moda, na escola. E ela me lançou a seguinte pergunta: como eu darei uma aula sobre
a Ditadura? Pensei de Walter Benjamin, uma de suas teses sobre Filosofia da História,
em que ele diz: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele
de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no
momento de um perigo”. Poderia ser de Freud, não é esse mesmo o movimento de uma
análise? Construir e reconstruir a vida com os escombros da história nos momentos de
perigo em que se entende como destino? Não é para isso que se conta uma história? Para
ouvir o que do passado não cessa de se repetir, que é o nosso mais terrível presente. E
dado nosso momento de perigo, me pergunto junto com essa professora, como se
explicará Araguaia? Como se explicará Carajás? Como se explicará que em 2016, pelo
menos 347 pessoas da população LGBT foram assassinados no Brasil? Como se explicará
o genocídio da juventude negra das periferias do Brasil? Deixaremos para quem? Para a
televisão? A internet? As igrejas? A família? Benjamin diz que sem isso, sem essa
apropriação, nem os mortos estarão seguros. E é urgente e imprescindível no Brasil
estarmos, nós psicanalistas, perto dos professores que trabalham para deter esse número
que não para de crescer.

Flávia Cêra
Texto apresentado na atividade preparatória para o VIII ENAPOL
(agosto de 2017)

i
Há no site escola sem partido um artigo de uma psicanalista apresentando a partido do complexo de édipo
e de castração a importância e a urgência em barrar a “ideologia de gênero” nas escolas: “Assim, é urgente
o combate a ideologia de gênero que, com a noção de igualdade de gênero e o incentivo às relações
homoparentais, coloca em risco as diferenças sexuais que possuem função estruturante no desenvolvimento
psíquico da criança. O grande dano provocado pela ideologia de gênero consiste em subverter os papéis
sociais atribuídos a cada sexo, que reafirmam e consolidam a identidade sexual. Esse dano vai muito além
de um desvio dos desejos heterossexuais, de uma estética corporal ou até mesmo de uma revolução dos
costumes. Ele chega, na verdade, às raias de uma confusão mental deliberada.”
ii
1 - O Professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios
interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias.
2 - O Professor não favorecerá, não prejudicará e não constrangerá os alunos em razão de suas convicções
políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.

3 - O Professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar
de manifestações, atos públicos e passeatas.
4 - Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de
forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e
perspectivas concorrentes a respeito.
5 - O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo
com suas próprias convicções.
6 - O Professor não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de
estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula.
iii
NAGIB, M. Entrevista para Revista Profissão Mestre.