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© 2 o i 6, Karl Monsma

LaPa „ , do café), acervo do Instituto Mart,


Fotografia: Beim Kaffeetrocknen (secagem cio
São Paulo.

Projeto gráfico
Vítor Massola Gonzales Lopes

Preparação e revisão de texto


Marcelo Dias Saes Peres
Daniela Silva Guanais Costa
Vivian dos Anjos Martins

Editoração eletrônica
Felipe Martinez Gobato

Apoio
C apes
Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS

Ficha catalográfica elaborada pelo DePT da Biblioteca Comunitária da UFSCar

Monsma, Karl Martin.


M754r A reprodução do racismo : fazendeiros, negros e
imigrantes no oeste paulista, 1880-1914 / Karl Martin
Monsma. -- São Carlos : EdUFSCar, 2016.
366 p.

ISBN - 978-85-7600-440-0

1. Racismo. 2. Imigrantes. 3. Fazendas de café. 4.


São Paulo (Estado) - história. I. Titulo.

CDD - 305.8 (20d)


CDU - 323.12
Iodos os direitos reservados. Nenhuma parte r ______
IM> por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eleirônicos oã m ècánkZindüindò^foi

rm T doI direito
do titular ’ ° U ' rqUÍ,“
autoral.la " " q" , l ',U' r SlSKma permissão
CAPÍTULO 2

O pós-abolição na América e no
interior paulista

Um dos fatos mais notáveis a respeito da desigualdade racial na


América é sua persistência em quase todas as regiões com populações sig­
nificativas de descendentes de europeus e de africanos escravizados, com os
negros quase sempre em posição de desvantagem. N ão podemos presumir
que toda e qualquer desigualdade racial é consequência do racismo, mas
sua extensão e durabilidade sugerem fortemente a operação da discrim ina­
ção racial e de outras formas do racismo. Existem vários outros grupos no
continente que foram estigmatizados ou sofreram grandes desvantagens
no passado, mas hoje estão em posição de igualdade com o resto da po­
pulação. Os judeus dos impérios espanhol e português foram expulsos se
não se converteram ao catolicismo, os mestizos (de indígenas e espanhóis)
dos países de língua espanhola foram discriminados pelas leis de castas
coloniais; nas colônias inglesas do Caribe e da Am érica do Norte, os “es­
cravos brancos”, ou servos por dívidas (indentured servants), muitas vezes
capturados na Irlanda ou na Inglaterra e embarcados a força, foram força­
dos a trabalhar por vários anos sem remuneração como “pagamento” pelas
passagens ao novo mundo; no século X I X , indianos foram importados às
colônias do Caribe como mão de obra semisservil; e mais recentemente,
imigrantes irlandeses, italianos e judeus nos E U A foram definidos como
raças” inferiores e sofreram a discriminação e exclusão .1 Os descenden­
tes desses grupos subordinados ou estigmatizados no passado não sofrem
desvantagens notáveis hoje, mas a estigmatização, subordinação e discri­
minação dos descendentes de africanos perdura. Os únicos outros grupos
na América a sofrer o racismo comparável em extensão e durabilidade ao
racismo antinegro são os povos indígenas e roma ( ciganos ).

Mõrner (1967), Jacobson (1998).


>
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

C o m o C arlos H asenbalg enfatiza, o p assad o escravista n ã o e Sl


ciente, por si só, para explicar a continuação hoje do racism o e de J
gualdades marcantes entre negros e brancos, E ste livro focaliza cu
o racism o se reproduz nas interações cotid ian as entre grupos e corriu
espalha para "novos" grupos - que aqui são os im igrantes europeus, pr
venientes de lugares onde não havia negros, A p esq u isa aborda uma ér.
ca de mudanças importantes na n atureza d a d om in ação racial no Bras
período da abolição da escravidão e as p rim eiras décadas depois de iSs.
examinando como o racismo se p erp etu a, m u itas vezes tomando nm
formas, apesar de mudanças institucionais e a con q u ista de novos direm
por negros.
Como notado no capítulo anterior, definições de racismo que o :
lacionam com diferenças físicas ou com a expan são europeia excluem fv
definição várias formas históricas de racism o na E u ro p a e em outros cor.
tinentes. Também escondem um a q uestão-chave a respeito do racismo r.
América, que é por que vários outros gru p os historicam ente racializaJo
na América conseguiram, por m eio de lutas m uitas vezes longas e árdua>
escapar dessa situação e serem aceitos com o "brancos", ao passo que os des
cendentes de africanos e dos povos indígenas continuam racializados r.
hoje/ Essa comparação pode nos in form ar sobre a natureza dos racismo
específicos sofridos pelos negros e pelos in dígenas na A m érica e ajudam
contextualizar melhor as interações de negros, fazen deiros e im igrai
no interior paulista, Uma questão correlata é p o r que até hoje, em
América, onde existem populações significativas de brancos e de negm>
indígenas na mesma região, os negros ou in d ígenas estão quase sempIC 1
posição subordinada. Aqui a ênfase central está nas explicações hlsrolK
^ a U/ra^ <^a^e racismo contra negros e das desvantagens de IH>
ica pós-escravista, deixando de lado as questões imp°rranr
respe.ro do racismo contra indígenas.
J
IJnírW •' r ?UC v^” os grupos de im igrantes europeus aaus
os E s»J‘
li*
radós^Z Z (:IaSSlficad° s c°m o “raças” inferiores, m as hoje são < <
rados brancos" (re v Iluc“ ui ra, " ■>
Z . fanC! (termo anteriormente reservado
Noroeste da E u r o n T antCrÍ° rmente reservado para as as "raças
“raças n ó rd ^
nórc
— -------------------- / atraiu a atenção de vários historiadores nos ulrii1111
2 Hasenbalg (í979).

“ T ,ndí« ™ ^ dT o ’L t p l “ L d,' ÍndígCniS n í0 » f r e m o racism o po rqu e não sáo definid-»


parses onde consumem am aioru da n " f " “ dos matizo*, descendentes de indígenas c e s p a n l« 15 ^ ( i.
Cons,dcr^ ° uma categoria de L ^ M íxico ' Colôm bia, E q u a d o r e C h ile. N esses P * "
vezes è “ - (t
-h c ^ g o ria d e -n e g ro -H d u m a fo r^ ^ ‘^ ■ a0COntrír‘o d > - e g o n a m u l a t o '; que m u.ras ^
“ mdjg£n“ - KndénCU d' - se identificarem com o- os >
brancos
-n , e d 's ír '
K arl M onsma

anos, levando à constituição de um campo de estudos conhecido como "estu­


dos da brancura" (whiteness studies).Jacobson analisou como judeus, italia­
nos e irlandeses nos Estados Unidos conquistaram o estatuto de "brancos".4
Segundo esse autor, em cada caso essa mudança foi fruto do contraste com
os negros, os indígenas e outros povos não europeus, vistos como "selva­
gens", no contexto do expansionismo dos Estados Unidos no continente
norte-americano e no Pacífico. As lutas pelo reconhecimento como brancos
de grupos étnicos europeus estigmatizados acabaram reforçando o racismo
antinegro. O que Jacobson não explica é por que os negros sempre serviam
como principal exemplo contrastivo na luta contra a racializaçáo de grupos
imigrantes e não foram incorporados ao projeto expansionista da mesma
maneira desses "brancos inferiores". Ou seja, não fica claro por que os negros
estavam permanentemente desprezados e relegados à posição mais baixa
na hierarquia norte-americana das raças, mais baixa até que os selvagens
externos, como os indígenas, os mexicanos ou os filipmos.
A explicação pode parecer óbvia: em função da escravidão e da
estigmatização dos escravizados, o racismo contra negros que se desen­
volveu na América era mais forte que os racismos entre europeus. Mas
essa observação não explica como o racismo contra negros pode se renovar
e continuar tão forte por tanto tempo depois do fim das circunstâncias
que o originaram. Ao fim, muitos europeus também são descendentes
de escravos ou servos, que certamente sofriam a essencialização negativa
no passado, e o tempo transcorrido desde o fim da servidão na Europa
oriental, onde durou até o século X IX , não é muito maior que o tempo
desde o fim oficial da escravidão nos vários países escravistas da América,
mas hoje os descendentes de servos não são estigmatizados nesses países.
Se o racismo fosse "somente" um conjunto de representações negativas de
negros provenientes da escravidão, sem processos sociais sustentando sua
reprodução continuada, teria se enfraquecido consideravelmente ao longo
das aproximadamente quatro gerações desde a abolição no Brasil, o último
país escravocrata da América, de maneira semelhante ao enfraquecimento
do preconceito contra os descendentes de servos na Europa.
Tampouco é convincente o argumento, caro ao senso comum, de
que os descendentes de cativos africanos continuam estigmatizados na

Jacobson (1998). Hoje. os descendentes de imigrantes latino-americanos (aqueles que nao sac
entes) e árabes estão no me,o do caminho para a branquitude nos EU A . embora este ultimo grupo ^ ^
«n novo processo de racializaçáo em consequência dos eventos de „ de setembro e a subsequente guerra
A liberação oficial dos servos da Prússia foi em ,807. do Império Austro-Húngaro em ,848. da Russ.a.
Mncnte em 1861.

71
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

América porque as diferenças corporais facilitam a identificação deles,


Como enfatizado acima, as diferenças físicas percebidas como "raciais'' não
são objetivos e pré-sociais, sendo construções sociais que mudam ao longo
do tempo de um contexto a outro. Muitas pessoas consideradas" brancas"
no Brasil hoje, por exemplo, seriam definidas como "negras” nos Estados
Unidos. As diferenças físicas tampouco são necessárias para a racialização
e para a identificação dos povos racializados. H oje existem vários grupos
dominados e racializados ao redor do mundo cujos fenótipos não os dis­
tinguem dos seus vizinhos, como os burakumin do Japão, os "intocáveis
(dalit) da índia, os católicos da Irlanda do N orte e os imigrantes senegale-
ses e nigerianos em Cabo Verde.6
Por forte que seja, o racismo não é uma ideologia com vida total­
mente autônoma, desvinculada das práticas racistas e capaz de se autor-
reproduzir eternamente. Reproduz-se com relação à dominação racial em
circunstâncias sociais específicas e se influencia por essas circunstâncias.
Referindo-se a Louisiana e Cuba no pós-abolição, Rebecca Scott afirma:
“Náo existe, com efeito, nenhuma maneira de isolar algo chamado ‘relações
raciais'das maneiras específicas em que a mão de obra negra foi empregada
no campo e o poder político foi realocado. A s pessoas não viviam sua raça
separadamente do seu trabalho e da sua participação política’’.7 Podemos
dizer o mesmo a respeito das práticas de dominação racial simbólica. Para
entender os processos de renovação do racismo, precisam os examinar os
detalhes das relações entre brancos e negros depois do fim oficial da escra­
vidão. As primeiras décadas após a abolição, especialmente, são importan­
tes para nossa compreensão de como o racismo antinegro se reproduziu
em outras bases, depois que os negros foram oficialmente decretados livres
e cidadãos. O desafio para o pesquisador é levar em conta as principais
diferenças regionais e ao mesmo tempo perceber as tendências gerais que
unificam o racismo e a experiência negra no pós-abolição. H oje, os cientis­
tas sociais que abordam o "Atlântico negro” enfatizam a grande variedade
de experiências e de identidades negras.8 Essa variedade era maior ainda
nas primeiras décadas após as várias abolições da A m érica. O argumento
geral esbouçado aqui, e elaborado no restante do livro com relação ao inte­

6 É verdade que a imaginação racista se fascina por diferenças físicas e tende a inventar diferenças físicas
me*mo quando náo existem, como a noção de que os judeus têm narizes grandes ou a crença, amplamente <Ü‘
fundida entre os brancos brasileiros, dc que os negros têm um cheiro diferente. M as as diferenças físicas, reais0"
inventadas, só importam como marcadores da alteridade e indícios de supostos defeitos internos essenciais.
7 Scott (2005, p. 2).

8 Costa (2006), Gílroy (1993), Sansone (2003).


K arl M o n sm a

rior paulista, é que o racismo originário da época escravista combinou com


certas vulnerabilidades da população negra - também decorrentes em boa
parte da história do cativeiro - para permitir a consolidação de novos re­
gimes de dominação racial no pós-abolíção, que por sua vez geraram novas
formas de racismo ideológico.

O pós-abolição na Am érica

Na maioria dos países de fala espanhola e nos Estados Unidos, a abo­


lição da escravidão foi uma tática de guerra. As novas repúblicas da Amé­
rica espanhola iniciaram o processo de abolição para manter a lealdade dos
negros na luta pela independência e libertaram os soldados negros. Depois
da independência, a abolição final em alguns casos aconteceu no contexto
de guerras civis, em que um dos governos rivais decretou a libertação dos
escravos para poder recrutá-los para seu exército. Nos EUA, o Presidente
Lincoln decretou a abolição nos estados sulistas rebeldes - e não nos outros
estados escravistas - durante a Guerra Civil como tática para enfraquecer
os confederados.9 Com isso, muitos cativos fugiram e se alistaram volunta­
riamente no exército da União. Grande número de homens negros morreu
nessas guerras de independência e civis, produzindo, especialmente em
alguns países de fala espanhola, um desequilíbrio demográfico que empo­
breceu muitas mulheres e crianças negras.
Com algumas exceções notáveis, como o Haiti pós-revolucionário
ou o Sul dos Estados Unidos durante o período de ocupação militar que
sucedeu à Guerra Civil, os ex-escravocratas continuavam com suas pro­
priedades e com o poder político local e regional. Os libertos, por outro
lado, receberam somente a liberdade, e muitas vezes até esta era cerceada
de restrições formais e informais. Os abolicionistas brancos, nos países
onde tiveram um papel mais ativo, como os EU A e o Brasil, haviam lutado
contra uma instituição que consideravam desumana, uma afronta a valo­
res cristãos e um obstáculo ao progresso, mas quase nunca imaginaram os
negros como iguais aos brancos, e pouco se importavam com a pobreza
e sujeição dos negros depois de conseguirem a eliminação da escravidão.
Dizer que os libertos foram abandonados à própria sorte seria equivocado,
porque em diversos contextos eles foram alvo de um leque de medidas
repressivas do Estado - leis antivadiagem, tutelagem, trabalho forçado,

9 A abolição nacional só aconteceu logo depois do fim da guerra com a ratificação da 13« emenda à Constituição.

73
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

criminalização da vida cultural e religiosa e prisões por pequenas violações


- desenhadas para forçá-los a aceitarem empregos com salários baixos e
impedir lutas coletivas para condições melhores.1012Os trabalhadores bran
cos muitas vezes se sentiam ameaçados pela competição dos libertos e se
organizaram para excluí-los dos empregos melhores, embora em outros
contextos - geralmente onde havia menos brancos - tenham se juntado
com os trabalhadores negros em sindicatos para lutar contra os patrões.
Como resultado do poder continuado dos senhores, da repressão
do Estado, da mortalidade nas guerras, da exclusão das terras e dos bons
empregos, observa-se forte tendência em toda a América para os negros
continuarem pobres depois da abolição, muitas vezes dependentes de bran­
cos para sobreviver. Invertendo a ordem causal, o habitus racial dos brancos
naturalizava a pobreza, a subjugação e a dependência da maioria dos negros,
percebendo a situação deles como consequência de deficiências internas in­
trínsecas - falta de ambição, de inteligência, de disposição para o trabalho
- e não como o resultado das condições objetivas e do racismo dos brancos.
O habitus racial dos brancos também percebia as formas de resistência pos­
síveis, geralmente individuais e de pequena escala, como indícios de defeitos
inerentes dos negros, mostrando que eram vagabundos, ladrões, ingratos e
traiçoeiros.'2
Esses fenômenos gerais se manifestaram de formas diferentes, de
pendendo das especificidades regionais e dos diferentes ritmos temporais,
lembrando que a abolição chegou tardiamente aos E U A , ao Brasil e a
Cuba, e algumas décadas antes às repúblicas de fala espanhola e às colônias
britânicas e francesas do Caribe, que geralmente terminaram o processo da
abolição oficial até meados do século X IX . A durabilidade da dominação
racial na América é ainda mais notável quando levarmos em conta a va
riedade e complexidade dos contextos locais e processos históricos depois
da abolição. E possível identificar quatro tipos gerais de contextos em que
negros buscavam se sustentar, controlar suas próprias vidas e afirmar sua
dignidade depois da abolição nos vários países escravocratas da América
O racismo antinegro perpassava todas essas situações e se combinava com

10 Cooper, Holt e Scott (2000), Scort (2005).

11 Andrews (2004).

12 A tendência, forte até hoje, do habitus racial dos brancos culpar os negros pela sua própria subordina^0*
desvantagem também pode ser parcialmente uma consequência da recusa coletiva de aceitar a responsabili<b“
moral pela escravidão e pelas desigualdades raciais posteriores, junto com a recusa de reconhecer as vantagens ^ .
os brancos podem aproveitar até hoje ("a escravidão acabou faz muito tempo”, "meus ancestrais não eram escrt'0
craras",”náo sou racista, todos devem ser tratados de maneira igual").

74
K arl M o n sm a

outros fatores de maneiras diferentes, muitas vezes ampliando as desvan­


tagens, que no início eram relativamente pequenas, com relação aos bran­
cos pobres.
As regiões de maior concentração de negros no pós-abolição quase
sempre eram aquelas com predominância histórica de fazendas escravistas,
como o Nordeste brasileiro, o Sul dos Estados Unidos ou as ilhas cari-
benhas. Nos territórios de monocultura escravista que não importavam
trabalhadores depois do fim da escravidão, e que muitas vezes eram regiões
de fazendas decadentes, como o Nordeste brasileiro ou o Vale do Paraí­
ba, fazendeiros geralmente tentavam segurar trabalhadores negros com a
concessão do usufruto da terra, às vezes com contratos formais ou infor­
mais de parceria, muitas vezes reforçada pela violência e pela dependência
pessoal.1314
5A violência chegou ao extremo no Sul dos Estados Unidos, que
recebeu poucos imigrantes e onde, depois do fim da ocupação pelo exército
do Norte, uma grande população de brancos pobres ajudou os fazendeiros
a ressubordinar os negros pelo terrorismo e pela intimidação, complemen­
tados pela repressão da polícia e do sistema carcerário.'4 Nessas regiões
de fazendas anteriormente escravistas, os fazendeiros e outros emprega­
dores pagavam salários extremamente baixos aos trabalhadores negros, o
que, em conjunto com a dependência pessoal dos negros e a violência que
sofriam, reforçavam a naturalização, pelo habitus racial dos brancos, da
sujeição e pobreza dos negros.
O atraso e a pobreza típicos dessas regiões também permitiam outra
inversão causal nas mentes de muitos brancos, em que a presença de grandes
concentrações de negros virou a causa do atraso regional. Além das terras,
muitas vezes cansadas, e das desigualdades extremas decorrentes da con­
centração das terras nas mãos dos latifundiários, as regiões de fazendas tro­
picais e subtropicais continuavam pobres depois da abolição porque, como
argumenta o economista caribenho W. Arthur Lewis, precisavam competir
no mercado mundial com outras regiões de monocultura tropical com salá­
rios baixos, onde, em função da baixa produtividade da agricultura tropical
de gêneros alimentícios, os agricultores eram tão pobres que mesmo salários
baixos nas fazendas eram suficientes para atrair trabalhadores.1’ Os grandes
avanços da época na produtividade da agricultura temperada dificilmente

13 Rios c Martos (2005).


14 Adamson (1983), Tolnay e Beck (i 995 )-

15 Lewis (1978).

75
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

podiam ser transpostos à agricultura tropical de alimentos, com outros cul­


tivos e outros tipos de solos.16
Para Lewis, as limitações políticas im postas pelos países metro­
politanos à industrialização das colônias e ex-colônias tiveram um papel
menor na divisão do mundo entre países ricos e pobres, que se exacer­
bou na segunda metade do século X I X e no início do X X . Entretanto,
outra forma de limitação política, as políticas racistas de imigração das
colônias e ex-colônias europeias de clima tem perado, exportadores de
grãos, carnes e produtos industrializados, como E stados U nidos, Canadá,
Austrália e Argentina, contribuíram bastante para essa divisão do mun­
do porque a resultante segmentação dos fluxos m igratórios manteve as
grandes diferenças salariais internacionais. A s m igrações internacionais
de grandes números de trabalhadores pobres, principalm ente da índia e
da China, asseguravam o nivelamento para baixo dos salários tropicais.
N a segunda metade do século X I X e início do X X , em torno de cinquen­
ta milhões de chineses e indianos deixaram suas terras natais em busca
de oportunidades em outros países, aproxim adam ente dois milhões deles
como trabalhadores contratados por tempo determ inado (indentured ser­
vants) nas fazendas, minas e obras de infraestrutura do m undo tropical,
endividados pelos custos do transporte e im pedidos de se dem itir durante
o período dos contratos.17 Os destinos desses m igrantes contratados in­
cluíam várias regiões americanas de fazendas anteriorm ente trabalhadas
por escravos, especialmente no Caribe e no Peru, que constituíam um se*
gundo contexto pela reprodução do racismo pós-abolição. N essas regiões,
a presença dessa nova categoria de mão de obra sem isservil, composta de
trabalhadores muitas vezes enganados no m om ento de assinar os contra'
tos e controlados pela coerção no país de destino, lim itou severamente os
salários. A baixa remuneração, em conjunto com leis im pedindo a ocu'
pação informal de terras públicas,18 mantinha a p obreza das populações

j6 A tecnologia das primeiras fábricas podia ser exportada ao mundo tropical com m aior facilidade - e, dt
faro, a indústria de tecidos alcançou certo sucesso em países com a índia, o M éxico e o B rasil ao final do século
X IX e início do X X , mas, segundo Lewis, a baixa produtividade da agricultura tropical tam bém limitava a indus
tnalizaçáo dessas regiões, pela falta de comida abundante e barata para sustentar os trabalhadores da indústria
e pela falta de agricultores com renda suficiente para constituir um mercado para a indústria. M esm o quando
países tropicais e temperados exportavam os mesmos produtos, como no caso dos m inérios, os salários baixos
dos países tropicais significavam que os benefícios ficavam com os donos das em presas, m uitas vezes estrangeiros
e náo com os trabalhadores, impedindo a formação de um mercado doméstico.

17 McKeown (2004), Northrup (199$), Ono-George (2007).

18 Holt (2000).
K arl M o n sm a

negras dessas regiões e, novamente, facilitou a naturalização, pelo habitus


racial dos brancos, da pobreza e sujeição dos negros.
Um terceiro tipo de contexto do pós-abolição na América é conse-
quência da busca de muitos negros por terras e autonomia, por meio da
migração para regiões afastadas e ainda não ocupadas por latifundiários,
onde podiam ganhar acesso a terras e viver de maneira relativamente au­
tônoma, sem senhores, patrões ou polícia, nas florestas ou montanhas.19
Ainda outros ocuparam fazendas abandonadas - fenômeno particular­
mente comum em algumas partes da América espanhola - , destruídas
pelas guerras de independência. Com o Andrews enfatiza, a vida comu­
nitária e religiosa autônoma em tais lugares proporcionava a dignidade e
poupava os moradores do racismo sofrido pelos negros que continuavam
em contato cotidiano com brancos.20 Entretanto, em longo prazo essas
comunidades autônomas de negros seriam vulneráveis a expropriações,
quando latifundiários, mineradoras ou empresas de colonização passaram
a cobiçar suas terras, porque geralmente não possuíam títulos formais das
terras e não tinham os recursos culturais e financeiros necessários para
se defender na Justiça e na burocracia do Estado. Essas comunidades
autônomas de negros, com propriedade comunitária da terra e tradições
festivas e religiosas de matrizes africanas, foram estigmatizadas como
atrasadas e semisselvagens pelos liberais que controlavam a maioria dos
governos latino-americanos do século X IX . N o Brasil, os remanescentes
dessas comunidades, que anteriormente eram bem mais numerosas, são
conhecidos hoje como comunidades quilombolas.21
Finalmente, o quarto contexto geral de reprodução do racismo no
pós-abolição eram os territórios com agricultura altamente produtiva e
indústrias crescentes, localizados em regiões de clima temperado ou sub­
tropical ao norte e ao sul do continente americano. Entretanto, eram ju s­
tamente essas regiões que mais atraíam imigrantes europeus, e os negros
sofriam várias desvantagens na competição com eles. Ao final do século
X IX e início do X X , no mesmo período em que grandes levas de chine­
ses e indianos deixaram seus países, a maioria em busca de trabalho nos
países tropicais, aproximadamente 56 milhões de europeus deixaram seu
continente, mais de 90% deles migrando para regiões de clima temperado
ou subtropical, sobretudo o N orte e o Oeste dos Estados Unidos, mas

19 Andrews (2004).

20 Id. ibid.

21 Anjos e Silva (2004), A rruti (2000), Leite (2004).


A REPRODUÇÃO DO RACISMO

também o Canadá, a Argentina, a Austrália, a Nova Zelândia, o Uruguai e


o Sul e Sudeste do Brasil.22 Nos países anglófonos dessa lista, onde os fio
mens brancos tinham direitos democráticos, sua pressão política resultou
em leis limitando ou barrando a imigração de não brancos, protegendo os
salários relativamente altos dos trabalhadores brancos.
Mesmo nos países onde os trabalhadores tinham pouca influên­
cia política, como o Brasil e a Argentina, as elites intelectuais e políticos
podiam contrariar os interesses de capitalistas e fazendeiros para impor
políticas de imigração coerentes com sua visão dos interesses do país, que
geralmente valorizava o imigrante europeu. N o Brasil, o debate sobre a
imigração chinesa é ilustrativo. Ao passo que alguns fazendeiros advoga-
vam a imigração chinesa como solução pela falta de mão de obra para a
grande lavoura, o projeto enfrentou a oposição veemente de uma parte
da elite política, que alegava que os chineses eram imorais, degenerados e
eivados de vícios, como o consumo do ópio, e o país acabou importando
poucos chineses.23 Certamente pesava também, na opção pela imigração
europeia, o fato de que, ao final do século X IX , o crescimento popula­
cional e as expropriações dos camponeses na Itália já haviam produzido
grande número de italianos dispostos a migrarem para o Brasil. A dispo-
nibilidade dos italianos, junto com o custo menor das passagens da Itália
que as passagens da China, facilitou a exclusão dos chineses do programa
de imigração subvencionada. Se a abolição brasileira tivesse acontecido na
primeira metade do século X IX , na mesma época da abolição no Cari­
be britânico, não teria havido tantos italianos, espanhóis ou p o rtu g u e se s

disponíveis para migrar para o Brasil, e São Paulo hoje poderia ter uma
grande população de descendentes de chineses e indianos.
Os negros já existentes nessas regiões de clima temperado ou sub
tropical não podiam ser barrados por políticas de imigração, mas mui'
tas vezes precisavam competir com imigrantes depois da abolição, ou ate
antes - levando em conta o grande crescimento da população de negros
livres no Brasil e em boa parte da América espanhola antes da abolição. Os
negros geralmente foram excluídos dos esquemas de colonização de terras
"novas" nesses países. N o sul do Brasil, os europeus ou seus descendentes
foram abertamente favorecidos pelos empreendimentos go vern am en tais c

22 Moya (2006).

23 U sser(i999.pi3'J9)-
K arl M o n sm a

privados de colonização, que muitas vezes expulsaram os brasileiros “cabo­


clos", ou seja, geralmente não brancos, que já ocupavam as terras.24
Nas cidades e na indústria dessas regiões de imigração europeia ou,
às vezes, japonesa, os negros sofriam o racismo dos empregadores, que mui­
tas vezes discriminavam os negros, por hostilidade ou desprezo, ou, no caso
de empresários ou fazendeiros imigrantes, porque estes favoreciam seus
compatriotas. Nos Estados Unidos, a grande maioria dos imigrantes se
concentrava nas cidades industriais do Norte, o que atrasou em várias déca­
das a “grande migração" de negros do Sul rural ao Norte urbano, porque os
negros sabiam que os empregadores favoreciam os imigrantes.25 Grandes
números de negros só começaram a migrar para o Norte com a interrup­
ção da imigração pela Primeira Guerra Mundial e as restrições à imigração
impostas depois da guerra. Quando essa massa de negros chegou ao Norte,
os imigrantes e descendentes já estavam bem estabelecidos na maioria das
cidades e organizados o suficiente para excluir os negros dos empregos me­
lhores e de “seus" bairros.26 A hostilidade dos trabalhadores brancos aos
migrantes negros ficou ainda mais evidente, resultando em vários distúr­
bios de brancos contra negros, nos locais onde os capitalistas usaram negros
como fura-greves, uma prática relativamente comum no Norte industrial
dos EU A nas primeiras quatro décadas do século X X .
São Paulo e Cuba são as únicas duas regiões de fazendas escravistas
da América a receber grandes números de imigrantes europeus depois da
abolição, e são as únicas duas regiões da América em que muitos europeus
se empregavam em fazendas trabalhadas até pouco tempo antes por escra­
vos. Em ambos casos, era necessário pagar as passagens para atrair os imi­
grantes, que geralmente eram pobres demais para pagar as passagens para
os Estados Unidos ou a Argentina, destinos preferidos pelos europeus
em função dos salários maiores e da ausência de doenças tropicais. Em
ambos contextos, havia certa tensão entre elites do Estado, que queriam
usar a imigração para branquear a população, e fazendeiros desesperados
por trabalhadores, que teriam aceitado imigrantes de qualquer cor. Cuba
também importou grande número de trabalhadores chineses contratados
e claramente integra o segundo contexto do pós-abolição discutido acima,

24 No sul do Brasil, a palavra "caboclo” não tem o sentido fixo dc descendente de indígenas que tem no restante
do país. Em vez disso, muitas vezes se refere a moradores rurais pobres que ocupam terras informalmente e
plantam roças de subsistência, embora também possam vender produtos. Supóc-se que a grande maioria dos
caboclos não fosse branca.

25 Briggs Jr. (2003), Collins (i 997 )-


26 Bonacich (1972).

79
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

o da imigração de trabalhadores semisservis, mas, com o mencionado aci


ma, o governo brasileiro vetou a importação de grandes levas de chineses.
São Paulo se destaca por outros m otivos tam bém . A maior par
te dos europeus encaminhados para as fazendas cubanas era composta
de solteiros ou homens desacompanhados, que só ficavam na ilha por
alguns meses durante a colheita de cana, ao passo que a grande maioria
dos imigrantes subvencionados a São Paulo chegava com suas famílias e
permanecia por bem mais tempo, aproxim adam ente a metade se fixan­
do permanentemente.27 Tanto no estado de São Paulo com o em Cuba, os
imigrantes europeus também iam para as cidades em grandes números,
onde ganhavam vantagens cruciais sobre os negros porque os empregado­
res urbanos geralmente preferiam brancos. M as ao contrário de Cuba, o
estado de São Paulo se industrializava durante a época da grande imigra­
ção, o que produzia grande demanda por trabalhadores imigrantes porque
muitos, senão a maioria, dos donos das oficinas e fábricas também eram
imigrantes, que favoreciam trabalhadores conterrâneos e eram até mais
racistas que as elites brasileiras.28 Por com binar características de dois dos
contextos mencionados acima, sendo uma região cujo governo importava
trabalhadores pobres, muitas vezes enganados nos contratos e controla­
dos parcialmente pela coerção, tal como as ilhas caribenhas, e ao mesmo
tempo uma região próspera, em vias de industrialização, que atraía muitos
imigrantes europeus permanentes, como os países tem perados de imigra­
ção europeia, o caso de São Paulo permite exam inar a reprodução e as
mutações da dominação racial de brancos sobre negros em um contexto
cuja boa parte, senão a maioria, dos europeus era inicialm ente pobre e
sujeita aos fazendeiros, tal como os negros.

Pós-abolição e imigração no estado de São Paulo

Hoje é comum afirmar que o principal m otivo para os incentivos a


imigração ao Brasil pós^abolição era o desejo de branquear a população
em função de uma crença na superioridade dos europeus. A evidência
apontada é a recepção brasileira do racismo científico europeu e vários
escritos dos intelectuais brasileiros. Claramente as elites intelectuais c
políticas da época, com poucas exceções, acreditavam que os europeus

27 De Ia Fuente (2001, p. 101), Holloway (1980).

28 Basride e Fernandes (2008).


K a r l M o n sm a

fossem superiores a outros povos, por motivos ao mesmo tempo biológi­


cos e culturais - dois conceitos mal distinguidos no discurso da época
e acreditavam que o branqueamento da população fosse essencial para o
progresso econômico, político e cultural. A partir desta constatação, alega-
-se, explícita ou implicitamente, que a vontade de branquear a população
fosse o motivo principal para as políticas imigrantistas, como o programa
de imigração subvencionada do estado de São Paulo, destino da grande
maioria dos imigrantes nas primeiras décadas após a abolição.
Um problema evidente com a tese da "imigração para branquear a
população" é que o programa paulista de imigração subvencionada foi de­
cidido não pelos intelectuais, mas pelos fazendeiros de café, que tinham
peso decisivo na política desse estado.29 Vários autores reconhecem que os
fazendeiros se preocupavam com a provável falta de mão de obra depois do
fim da escravidão, mas afirmam que o racismo e a vontade de branquear a
população os induziram a importar europeus em vez de empregar traba­
lhadores nacionais.30 Esta literatura aponta que os fazendeiros podiam ter
empregado os ex-cativos, a população livre já existente no interior paulista
ou migrantes do Nordeste. Afirma-se que a presença dos imigrantes em
São Paulo prejudicou os negros porque a preferência dos empregadores
por imigrantes excluiu os negros dos empregos mais desejáveis, aqueles
que permitiam a formação de algum pecúlio e possivelmente a aquisição
de pequenas propriedades, sobretudo o colonato nas fazendas de café.
Tudo isso importa porque explicaria as desvantagens, em longo prazo, dos
negros com relação aos descendentes de imigrantes e justificaria a inter­
venção do Estado, hoje, para compensar essa injustiça histórica.
Entretanto, a evidência histórica disponível atualmente contradiz
algumas das afirmações centrais desta interpretação predominante. Ao
fim, alegar que a imigração em massa para São Paulo e os estados do Sul

29 Algumas das análises mais importanres da história de ideias sobre “raça” e branqueamento no Brasil in­
cluem Hofbauer (2006), Schwarcz (1993) e Scyferth (1996). Esses autores geralmente não atribuem aos intelec­
tuais a responsabilidade direta pelo programa paulista de imigração subvencionada, mas tal suposição é comum
entre cientistas sociais e alunos das ciências sociais que leem esses autores para conhecer a história das ideologias
racistas brasileiras atuais. O olhar retrospectivo do cientista social em busca das “origens" de fenómenos atuais
muitas vezes simplifica e homogeneíza os diferentes grupos sociais e as diversas correntes intelectuais do passado,
porque focaliza seletivamente os argumentos que acabaram vencendo a disputa ideológica. Desconfio que muitos
sejam influenciados principalmcnte pela história clássica das ideias raciais brasileiras de Slcidmore (1993) (origi-
nalmcnte publicado em 1974, e publicado em português em 1989 pela Paz e Terra, com o título Preto no branco).
Nos poucos trechos em que menciona os fazendeiros de café, Slcidmore deixa a entender que a maior parte deles
seguiu a orientação dos intelectuais, com. talvez, um pouco de arraso, no que dizia respeito ao abolicionismo,
imigrantismo e branqueamento.
30 Cf. Dean (1976), Domingues (2004)-

8l
eKRUUÜl,AU DU KAV.I3MU

simplesmente refletia a vontade das elites é recair em uma das formas mais
tradicionais de historiografia, em que somente os grandes hom ens influen­
ciam a história, e as vontades, projetos e ações de pessoas comuns não
importam. Podemos construir interpretações históricas mais coerentes - e
argumentos mais convincentes para a justiça da ação afirmativa hoje - se
levarmos em conta, além dos discursos intelectuais da época, os projetos
variados dos fazendeiros, a experiência e a agência dos imigrantes e negros,
e a natureza das relações entre fazendeiros, negros e imigrantes.

Fazendeiros, racismos e o programa paulista de imigração


subvencionada

Presumir que os fazendeiros paulistas queriam a imigração princi­


palmente para branquear o país é desconsiderar o que eles diziam sobre o
tema. N a Assembleia Legislativa da Província de São Paulo - dominada
por grandes fazendeiros - houve muitos debates sobre como resolver o
problema de falta de mão de obra para a lavoura e poucas menções da
importância de branquear a população.31 Sem dúvida, a grande maioria
dos fazendeiros acreditava que os negros fossem inferiores aos brancos,
mas eles nunca haviam percebido isso como um problem a enquanto os
negros continuavam trabalhando para eles. A suposta falta de inteligência
e ingenuidade dos negros era uma justificativa conveniente para explorá*
-los. Sem a rebeldia dos cativos da década de 1880, não é claro por que os
fazendeiros teriam preferido trabalhadores de um a “raça su p erio r, que
podiam ser mais difíceis de controlar.
Nos debates paulistas, a imigração era somente um a das possíveis
soluções aventadas. Alguns deputados sugeriram o aproveitamento da
população nacional, mas parece que a maioria dos deputados concorda*
va com aqueles que alegavam que os nacionais fossem “vagabundos“, que
não queriam trabalhar. Muitos fazendeiros continuaram escravocratas
convictos até o fim, culpando os abolicionistas brancos pela rebeldia cres*
cente dos cativos - porque lhes custava acreditar que os negros tivessem a
inteligência e a solidariedade necessárias para organizar tanta resistência
coletiva sem a ajuda de brancos. Longe de priorizar o branqueamento da
população, eles queriam perpetuar a escravidão negra nas suas fazendas
e reabrir o tráfico de escravos, ou pelo menos eliminar impedimentos à

v Esta afirmação se baseia principalmcnte em informações de Azevedo (1987).


K a r l M o n sm a

compra de escravos de outras províncias, como o imposto sobre o tráfico


interprovincial.32 Por isso reagiam de maneira tão violenta contra os aboli­
cionistas, que foram expulsos de várias cidades do interior.
O s fazendeiros paulistas somente superaram suas diferenças e che­
garam a certo consenso a respeito da necessidade da imigração na segunda
metade da década de 1880, em consequência das rebeliões de escravos e
fugas em massa desses anos, que inviabilizaram a disciplina nas fazendas
e difundiram o medo entre os escravocratas.33 Maria Helena Machado
fornece bastante evidência das conspirações e revoltas de escravos nas
fazendas de café paulistas na década de 188o.34 Também mostra que a
polícia censurava as notícias de revoltas de escravos, para não difundir
o pânico entre os fazendeiros e outros brancos rurais. Além das perdas
que sofriam com a recusa de muitos negros a trabalhar nas fazendas, os
fazendeiros receavam a violência física de escravos revoltados contra eles,
suas famílias e seus administradores e feitores.
Dado que os escravos forçaram os fazendeiros a buscar trabalhado­
res livres, por que importaram trabalhadores europeus em vez de empre­
gar brasileiros? Certamente havia pessoas o suficiente em São Paulo para
trabalhar nas fazendas de café. Mesmo considerando que a área cultivada
estava em expansão constante, provavelmente havia trabalhadores o sufi­
ciente para vários anos de expansão se toda a população rural fosse traba­
lhar na grande lavoura. Entretanto, essa população de pouco valeria para
os fazendeiros se não aceitasse trabalhar nas fazendas. Não precisamos
acreditar, com os fazendeiros, que todos os nacionais fossem vagabundos
para reconhecer que boa parte da população rural, tanto os libertos como
os outros, não queria servir os fazendeiros, preferindo buscar opções que
permitissem maior autonomia, sobretudo estabelecer-se como pequenos
agricultores em terras próprias ou públicas.35
A historiografia recente sobre negros nascidos livres e libertos no
império e sobre as últimas décadas da escravidão fornece indícios impor­
tantes dos prováveis desejos e sonhos da maioria dos libertos após a abo­
lição. Hebe M attos enfatiza o processo de aprendizagem sobre a vida em
liberdade decorrente do contato frequente entre escravos e negros nascidos

32 Em 1886, o Conde do Pinhal, grande fazendeiro de Sáo Carlos e deputado na Assembleia Legislativa
paulista, apresentou uma proposta para a revogação do imposto sobre escravos trazidos de outras províncias
(B otelho , 2000, p. 46).
33 Azevedo (1987).
34 Machado (1994).

35 ld. ibid., p. 21-66 .

83
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

livres nas regiões rurais do Sudeste ao longo do século X I X .36 Esses nas­
cidos livres geralmente plantavam roças próprias em "situações" (sítios) em
terras dos latifundiários, terras devolutas ou terras próprias.37 Vários auto­
res enfatizam a tendência de escravos tentarem form ar famílias e conquis­
tar esferas de ação autônoma, como roças próprias e moradias separadas
das senzalas.38 Para Mattos, as famílias de cativos já presentes fazia tempo
no Sudeste tinham chances maiores de conseguir tais conquistas - ou
concessões, do ponto de vista dos senhores - do que os recém-chegados
pelo tráfico interprovincial. Focalizando o interior paulista na década de
1880, Machado também enfatiza o sonho da autonomia, encarnado prin­
cipalmente no camponês ou no pequeno produtor independente, mas para
Machado este ideal era principalmente uma reação contra a fiscalização
constante e o controle rígido nas fazendas.39 Em um estudo recente sobre
o pós-abolição no Paraná, Marques constatou que os municípios com a
maior proporção de negros eram aqueles na frente de expansão agrícola.40
Ou seja, muitos negros - incluindo, provavelmente, um bom número de
libertos do vizinho estado de São Paulo - migraram em busca de terras nas
florestas onde podiam se estabelecer como posseiros.
Logo depois da abolição, muitos fazendeiros paulistas achavam que
libertos e outros nacionais só se empregariam na grande lavoura mediante
a coerção. Autoridades do interior enviaram várias propostas para 0 re-
crutamento militar de "vagabundos" e até o estabelecimento de colônias
militares para o disciplinamento dos libertos.41 M esm o no Oeste paulista,
que atraiu muito mais imigrantes que o Vale do Paraíba, a prim eira colhei-
ta após a abolição foi difícil para os fazendeiros. Passado o pânico inicial
suscitado pela abolição, muitos fazendeiros do Vale do Paraíba e do Rio de
Janeiro fixavam famílias de ex-escravos com acordos de parceria (meação)
ou outros arranjos envolvendo a troca do usufruto de terras por serviços,
que Rios categoriza como o "pacto paternalista".42 M attos focaliza os pri­
meiros anos após a abolição no N orte fluminense e áreas adjacentes de
Espírito Santo e Minas Gerais, mostrando que muitos fazendeiros foram
forçados a abrir mão do controle do processo de produção para fixar liber­

36 Mattos (1998).
37 C f Franco (1974, p. 78-103).

38 Schwartz (1992). Slenes (1999).

39 Machado (1987. «994)-


40 Marques (2009).

41 Veja capítulo 3, adiante.


42 Rios (2005).
K arl M o n sm a

tos como trabalhadores nas suas propriedades, geralmente oferecendo-os


contratos de parceria.43 Rios identifica três trajetórias distintas de famílias
de libertos e seus descendentes no Vale do Paraíba fluminense e paulista
no pós-abolição: famílias que ganharam acesso estável à terra mediante
arranjos clientelistas com latifundiários; famílias que mudaram várias
vezes em busca de terra e trabalho, muitas vezes porque foram expulsas
das fazendas; e famílias que se fixaram em comunidades independentes
de negros, geralmente isoladas e estabelecidas em terras doadas por ex-
-senhores ou compradas por familiares, cujos descendentes constituem as
comunidades quilombolas de hoje.44
Entretanto, os fazendeiros do Oeste paulista geralmente não que­
riam ceder tanta terra a parceiros ou agregados, porque suas terras eram
muito mais ricas.45 Além disso, a área cultivada com café no Oeste estava
em expansão constante. Mesmo se fosse possível segurar todos os ex-ca­
tivos nas fazendas, não haveria trabalhadores o suficiente para as novas
fazendas. O número de adultos necessários para trabalhar nas fazendas
aumentou mais de três vezes entre 1886 e 1900, de aproximadamente
62.000 a mais ou menos 229.000.46 Provavelmente a população paulista
poderia ter suprido toda a mão de obra necessária para a cafeicultura no
caso de uma reforma agrária ampla, com distribuição das terras das fa­
zendas aos libertos e distribuição de terras públicas em pequenos lotes ao
resto da população rural. A rejeição do trabalho nas fazendas de café era
a recusa de se submeter ao domínio dos grandes fazendeiros, não a rejei­
ção da cafeicultura. Com o não havia economias de escala significativas na
produção de café, o plantio por agricultores familiares era perfeitamente
viável, e a nova classe de pequenos agricultores teria tido fortes incenti­
vos para plantar café, que era o produto mais rentável na época. Mas os
fazendeiros que controlavam o poder político no estado de São Paulo
obviamente não queriam a reforma agrária.
O motivo original para o programa de imigração subvencionada não
era o branqueamento, mas a crença de que a imigração em massa livraria os

43 Martos (1998).
44 Rios (2005).
45 Os contratos de colonato incluíam o direito de cultivar gêneros entre as fileiras de cafeeiros novos, ou em
terrenos separados, se os pés de café estivessem maiores, mas, embora muito apreciadas pelos colonos, estas roças
constituíam somente uma parte da remuneração e os contratos não davam nenhum direito de permanência nas
terras usadas.
46 Calculado, usando a razáo de um adulto para cada 2.500 cafeeiros, a partir de dados apresentados cm
Holloway (1980, p. 178).

35
fazendeiros da sua dependência dos negros e dos outros nacionais. Depois
da rebeldia dos últimos anos da escravidão, os fazendeiros também queriam
usar a competição dos imigrantes para controlar os negros e recolocá-los no
"seu lugar". O u seja, além da falta de mão de obra, havia questões raciais
importantes por trás do programa de imigração, que era motivado em parte
pela hostilidade aos libertos - vistos como insubordinados e insolentes - e
aos outros nacionais - vistos como vagabundos. A intenção explícita dos
fazendeiros e governantes era inundar o mercado de trabalho com imigran
tes para baratear os salários e disciplinar todos os trabalhadores, tanto es­
trangeiros como nacionais. Para este fim, im portaram muito mais europeus
do que o número de trabalhadores que empregavam nas fazendas.
Os fazendeiros também precisavam da oferta constante de novos tra­
balhadores em função da alta taxa de evasão dos colonos. Todos os anos,
ao final dos contratos anuais, muitas famílias de imigrantes rejeitavam as
condições de trabalho nas fazendas e se mudavam para as cidades ou vol­
tavam para a Europa. Outros se mudavam para as fazendas novas e mais
produtivas da fronteira oeste, onde podiam ganhar mais, principalmente do
cultivo de gêneros intercalados nas fileiras dos cafezais novos. Ainda outros
nem esperavam o fim dos contratos e fugiam das fazendas, antes. Com isso,
os fazendeiros das regiões mais antigas reclamavam constantemente da falta
de mão de obra. O sistema dependia da importação continuada de estrangei­
ros, que eram facilmente ludibriados sobre as reais condições de trabalho nas
fazendas. Holloway estima que, entre 1893 e 1900, o número de imigrantes
adultos enviados às fazendas da Hospedaria de Imigrantes na cidade de São
Paulo foi mais de cinco vezes maior que o aumento no número de trabalha­
dores adultos necessário para a produção do café; entre 1901 e 1910, esse nú­
mero foi mais de nove vezes maior que o aumento no número necessário.’
Teria sido impossível encontrar tantos trabalhadores entre os nacionais das
áreas rurais de São Paulo. Tampouco teria sido tão fácil enganar brasileiros
sobre as condições nas fazendas.
Alguns autores afirmam que um program a de migração subvencio­
nada de nordestinos poderia ter surtido o mesmo efeito no mercado de
trabalho paulista. Antes da abolição final, os fazendeiros não descartava!"
a possibilidade de empregar nordestinos. Durante a seca de 1878, os gover­
nos do Ceará e de São Paulo pagaram as passagens para retirantes cearen­
ses irem se empregar nas fazendas paulistas.4
748 Parece que os fazendeiros

47 là. ibíd., p. 67.


48 Moura (1998, p. 167-182),
K a r l M o n sm a
I

estavam satisfeitos com a qualidade do trabalho deles, mas com a chegada


de grandes levas de italianos e outros europeus não investiram mais em
mão de obra nordestina. É plausível que o racismo - não somente a crença
na superioridade dos europeus, mas também a hostilidade aos negros evo­
cada pela rebeldia dos cativos - tenha produzido uma preferência para eu­
ropeus sobre nordestinos, boa parte dos quais era negra ou pelo menos não
branca. Entretanto, um programa incentivando a migração em massa do
Nordeste também teria enfrentado a oposição da oligarquia nordestina,
que dificilmente teria aceitado a quebra dos laços de dependência dos po­
bres e a perda de boa parte de "sua” mão de obra aos fazendeiros paulistas.
Provavelmente foi uma combinação da facilidade em atrair europeus, da
oposição dos fazendeiros nordestinos e do racismo que levou a Assembleia
Legislativa de São Paulo a desconsiderar a possibilidade de promover a
migração massiva de trabalhadores nordestinos.
Com a chegada de grandes levas de europeus, os poucos nordesti­
nos que conseguiram viajar a São Paulo tiveram de enfrentar a competi­
ção dos imigrantes no mercado de trabalho, o que deve ter desincentivado
a migração de outros nordestinos. Tal como no caso do atraso da “grande
migração" de negros do Sul dos Estados Unidos ao Norte industrial, a
imigração massiva de europeus para o estado de São Paulo provavelmente
atrasou em várias décadas a migração de grande número de nordestinos
para São Paulo, onde poderiam ter encontrado empregos melhores e es­
capado da dependência pessoal dos fazendeiros do Nordeste - tal como
acabou acontecendo em meados do século X X , depois da imposição de
restrições à imigração pelo governo de Vargas.49 Com esse atraso na mi­
gração do Nordeste, os nordestinos, que migravam a São Paulo em gran­
des números a partir da década de 1940, geralmente chegavam em situa­
ção de desvantagem com respeito às famílias imigrantes, já estabelecidas
havia uma geração ou mais em São Paulo.

A imigração e a “marginalização” do negro no Oeste paulista

Existe certo consenso na literatura sobre o período pós-abolição no


estado de São Paulo de que os negros, sobretudo os libertos, foram afastados
das atividades produtivas centrais pela competição dos imigrantes. A suposta
marginalização econômica do negro no pós-abolição serve como explicação

49 Garcia Jr. ( 1989)-


A REPRODUÇÃO DO RACISMO

pela pobreza continuada da população negra nas décadas subsequentes e o


maior grau de mobilidade social entre os imigrantes e descendentes. Os imi­
grantes teriam monopolizado os contratos de colonato nas fazendas de café,
que forneciam algumas oportunidades para acumular dinheiro e adquirir
terras ou propriedades urbanas, e também teriam monopolizado os ofícios
manuais qualificados, deixando aos negros os empregos precários, mal re
munerados e desprestigiados, tais como o serviço doméstico, o comércio am
bulante e os serviços auxiliares nas fazendas de café, como o desmatamento
ou o conserto de cercas e estradas. Em suas explicações pelas vantagens dos
imigrantes, os autores recentes geralmente refutam os argumentos mais
antigos de Florestan Fernandes, que atribuía as desvantagens dos negros à
violência e à desumanização da escravidão, que supostamente haviam lhes
deixado anômicos, sem laços familiares e comunitários fortes, sem discipli­
na interna e com uma tendência de identificar a liberdade com a ausência
do trabalho.50 Além de desmentir a ideia da anomia dos cativos e mostrar
evidências da força das suas famílias e comunidades, a literatura histórica
amai enfatiza a discriminação e exclusão dos libertos e outros negros depois
da abolição. Devido aos estereótipos racistas da época, que retratavam os
negros como vagabundos, traiçoeiros e alcoólatras, e os imigrantes europeus
como laboriosos e sóbrios, os fazendeiros e outros empregadores, segundo
estes autores, quase sempre preferiam os imigrantes aos negros.5152Andrews
apresenta uma versão mais elaborada deste argumento, afirmando que, além
do evidente racismo dos fazendeiros, os imigrantes monopolizaram o colo*
nato porque aceitavam o trabalho familiar, enquanto os negros rejeitavam o
trabalho de mulheres e crianças nos cafezais, que lhes lembrava de alguns
dos piores aspectos da escravidão.51
Os argumentos citados acima sobre a marginalização dos negros
após a abolição geralmente se sustentam pela verossimilhança, porque é
difícil encontrar fontes permitindo a comparação sistemática das posições
de negros e imigrantes nas primeiras décadas depois da abolição final, em
função da supressão de informações sobre cor e sobre o cativeiro pregresso
na grande maioria dos dados coletados pelo Estado. Sabe-se que os fazem
deiros eram racistas, que seu ódio, medo e ressentimento contra os negros
aumentaram com a rebeldia e as fugas dos escravos na década de 1880, e

50 Fernandes (1978), Beiguelman (1978, p. 114-115), Costa (1998, p. 341), Durhan (1966, p. 28-29).

51 Dean (1976, p. 172-173). Hasenbalg (1979. p. 165-167), Holloway (1980. p. 63), Maciel (1997), Santos (1998).
Wissenbach (1998).
52 Andrews (1991, p. 81-85).
K a r l M o n sm a

que muitos acreditavam que os imigrantes eram trabalhadores melhores,


principalmente por serem mais submissos.53 Historiadores da escravidão
também apontam que os ex-cativos valorizavam a autonomia, queriam
evitar o trabalho coletivo disciplinado por feitores e detestavam os castigos
físicos de mulheres e crianças por fazendeiros e administradores.54 Culpar
o racismo das elites e as políticas imigrantistas pela desigualdade racial
posterior também é uma maneira conveniente de esquivar a investigação
das tendências racistas entre a própria população imigrante e seus descen­
dentes, que logo constituíram a maioria em boa parte do Oeste paulista e,
algumas décadas depois, concentravam o poder econômico e político em
muitos municípios do interior.55
A tese da”marginalização do negro” não é totalmente coerente com as
fontes já conhecidas. Fernandes apresenta evidências mistas.56 Primeiro, cita
documentos da época dizendo que muitos libertos continuavam trabalhando
nas fazendas, ou voltaram a trabalhar depois de alguns meses sem se empre­
gar, talvez mudando de fazenda. Depois, cita entrevistas com descendentes
de senhores e de escravos, que afirmam que os fazendeiros não readmitiram
os libertos que haviam saído ou até expulsaram todos os libertos. A corres­
pondência policial, os autos penais e documentos das fazendas do Oeste
paulista mostram que havia um bom número de negros trabalhando como
colonos nas fazendas, e outros em diversas ocupações urbanas.57 Ao que pa­
rece, muitos negros conseguiam competir com os imigrantes. A preferência
por imigrantes variava de um fazendeiro para outro; alguns expulsaram os
negros, mas outros continuavam empregando-os. Do lado dos negros, é im­
portante frisar que muitos aceitavam o trabalho familiar do colonato porque
permitia maior autonomia cotidiana que o trabalho do eito, realizado em
turmas vigiadas por feitores. O colonato também reforçava o poder patriar­
cal do pai de família, ao passo que a disciplina escravista minava este poder.58
Evidências apresentadas abaixo mostram que os libertos e outros
negros não eram totalmente excluídos do colonato nem de outros em­
pregos braçais da economia do café. Os brasileiros com acesso autônomo
a terras geralmente rejeitavam o trabalho nas fazendas, ou só aceitavam
contratar-se temporariamente durante a colheita, quando os salários eram

53 Azevedo (1987), Monsma (2005b).


54 Machado (1987,1994). Rios e Mattos (2004).
55 Truzzi e Kerbauy (2000).
56 Fernandes (1978, p. 31-34)*
57 Monsma (2006, 2010), Truzzi (2000. p. 56).
58 Stolcke (1988. p. xv-xvi. 17-19)-

89
m aiores. E ntretanto, outros aceitavam esses em pregos, provavelmente
p o r falta de opções, e m uitos fazendeiros desesperados por mão de obr,
em pregavam negros e outros nacionais. A s p ró xim as seções comparai
a situação de negros, brasileiros brancos e vários gru p os imigrantesno
m unicípio de S ão Carlos, no C en tro-O este p au lista, em 1907, quase dua<
décadas depois da abolição final, quando se realizou um censo local. Esse
censo é extrem am ente raro e valioso porque inclui a variável "cor ", que fo
excluída da grande m aioria dos censos e ou tros docum entos oficiais nas
prim eiras décadas após a abolição.59 O s resultados m ostram a presenç;
significativa de negros, ju n to com os im igrantes, no colonato e em outros
em pregos manuais. Entretanto, evidenciam outras form as de vantagem
dos im igrantes e desvantagem dos negros.

Imigração e mudança na população de São Carlos

Com o consequência da abolição, da exp an são das fazendas de café


e da im igração em m assa, a população de S ã o C a rlo s cresceu rapida
mente e sofreu grandes m udanças de com posição. A Tabela 1 compara
os dados sobre a população local do censo p rovin cial de 1886 e do censo
municipal de 1907. A p esar da alteração nas categorias raciais, estes da
dos permitem exam inar m udanças nas p rop orções relativas de brancos
e não brancos e m ostram o crescim ento dos vários gru p o s imigrantes
Em 1886, pretos, pardos e caboclos con stitu íam 55% da população total
de 16.104. E)os 5.950 pretos e p ard o s presen tes no m unicípio, 2.982 es*
tavam escravizados, e outros 1.2 7 7 eram "in g ê n u o s, filhos livres de máes
escravas, devendo serviços aos senhores até com p letar 21 anos, conforme
a Lei Rio Branco, de 1871. O u seja, 71,6% dos p reto s e p ardos presentes
no município, em 1886, eram escravos ou ingênuos. A prop orção dos que
haviam sido cativos era ainda m aior, p orq ue um n úm ero desconhecido j
de outros eram libertos. A alta prop orção de escravos e filhos de escravos
reflete a posição de São C arlos naquela época na fron teira próspera de
expansão da cafeicultura. Em função da alta dem an d a p o r mão de obra
nas fazendas de café do O este paulista, os fazen deiros dessa região relu'
tavam em libertar os cativos até a véspera da abolição.
N ão é possível comparar diretamente a população "parda" de 1896
com a mulata de 1907. Embora pardo ", hoje, designe aqueles de pele

59 O * livros originais deste censo esráo guardados na Fundação Pró-M em ória de S ã o C arlos.
K arl M o n sm a

rom, Mattos apresenta evidências de que, no século X IX , o termo também


era usado para negros nascidos livres, seja qual fosse sua cor.6° O emprego de
"mulato” em vez de "pardo" no censo municipal de 1907 sugere que, dezenove
anos depois da abolição final, as categorias raciais predominantes se referiam
principalmente à cor da pele e outras características fenotípicas, mas essas
categorias ainda se remetiam ao contraste entre escravizados e nascidos li'
vres porque havia mais libertos e filhos destes entre os "pretos", e a categoria
"mulatos" incluía mais pessoas nascidas de mães livres antes da abolição.6' O
desaparecimento da categoria "caboclo" (descendentes aculturados de indí-
genas) constitui mais evidência de que era principalmente a cor da pele que
embasava as categorias raciais de 1907. Embora alguns caboclos provavel­
mente tenham deixado o município, procurando áreas mais ao oeste, onde
ainda podiam ocupar terras como posseiros, muitos outros devem ter sido
classificados como mulatos, e alguns como brancos ou pretos. Havia 2.051
estrangeiros no município em 1886, a metade deles italianos.6 12
0

Tabela 1 Mudanças na população de São Carlos, 1886 • 19 0 7 .


1886 19 0 7
G ru p o
% N ú m e ro % N ú m e ro
P reto s* 24 .8 3-993 9.9 3-815
P ard o s 12,2 1-957 _ _

M u la to s - - 2,6 1.0 0 0
C a b o c lo s 18,0 2.906 _ _

B ra n co s b rasileiro s 32,3 5.209 48,1 18.579


Italianos 6,5 1.0 50 29.3 11.316
P o rtu g u eses 2,9 464 4.3 1.6 4 4
Espanhóis 0 ,7 117 4.3 1.662
A le m ã e s
2/3 371 0,5 210
Outros imigrantes 37
0 ,2 1,1 415
Total** IOO 1 6 .10 4 10 0 38 .6 4 1
*Inclui um pequeno núm ero de escravos c libertos nascidos na África.

**O s totais não som am exatam ente 100% devido ao arredondamento.

Fontes: B assan ezi01; C e n so m unicipal dc 1907, Fundação Pró-M em ória de São Carlos.

60 M attos (1998).

61 Em função dc tendências para os escravocratas alforriarem seus filhos e para a mestiçagem entre negros
livres e brancos.

62 Bassanezi (1999. p. 40, 54)-

91
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

Até 1907, a proporção de brancos na população local aumentara


drasticamente, devido, sobretudo, à imigração. Entre 1887 e 1902, São Car­
los era um dos municípios que mais atraía estrangeiros da Hospedaria de
Imigrantes, na cidade de São Paulo, chegando a ocupar o primeiro lugar
em 1894 e o segundo, em 1895.63 Entre 1887 e 1902, 64% dos imigrantes
que chegaram a São Paulo eram italianos,64 e, nas duas décadas entre esses
dois censos, o número de italianos em São Carlos aum entou dez vezes. 0
número de outros estrangeiros, principalmente espanhóis e portugueses,
cresceu quatro vezes, ao passo que a população não branca diminuiu. Os
15.247 estrangeiros enumerados em 1907 constituíam , aproximadamente
40% da população total, mas essa porcentagem subestim a a presença imi­
grante, porque os filhos de estrangeiros nascidos no Brasil foram contados
como brasileiros. Em 1907, 67,1% dos chefes de fam ília eram imigrantes e
a metade das famílias no município era chefiada por italianos. N o mesmo
ano, pretos e mulatos, conjuntamente, constituíam 12,5% da população lo­
cal, 14% dos moradores urbanos e 12% dos rurais.

Ocupações de negros, imigrantes e brasileiros brancos

Para algumas testemunhas da época, era óbvio que muitos libertos


continuavam trabalhando nas fazendas do Oeste paulista. N a opinião de
Cincinato Braga, o advogado que escreveu a introdução ao Almanacb de São
Carlos, publicado em 1894, “ Prepondera-se no pessoal do trabalho agrícola
o elemento italiano; segue-se-lhe o allemão, o portuguez, o ex-escravo, 0 ca­
boclo, o hespanhol e o polaco'!65 A Tabela 2 apresenta dados, coletados em
1899 pelo Clube da Lavoura de São Carlos, sobre a composição da mão de
obra nas fazendas do município. A grande maioria dos trabalhadores era
imigrante: os italianos eram dois terços; outros estrangeiros contribuíam
com outro quinto. Entretanto, aqueles classificados como "brasileiros pretos'
constituíam o terceiro maior grupo, um pouco atrás dos espanhóis, sendo
quase 8% dos trabalhadores.66

63 Truzzi (2000, p. 58).

64 Tremo (1989, p. 107).

65 Augusto (1894. p- li)*

66 O Clube da Lavoura náo incluiu nenhuma categoria de cor entre branco e preto. Presum e-se que a grand*
maioria dos mulatos foi classificada como "pretos''.
K a r l M o n sm a

Tabela 2 Cor e nacionalidade de trabalhadores nas fazendas de São Carlos, 1899*


G ru p o N ú m e ro Porcentagem

B rasileiro s "preto s” 1.24 2 7,9


Brasileiros brancos 1.028 6,6
Italianos 10.396 66,3

Espanhóis 1.356 8,6

P ortugueses 886 5,6


Austríacos 447 2,8

A lem ães 211 L3

Poloneses II9 0,8

Franceses 3 0,0

T otal 15.6 8 8 100 *

*Não soma exatamente 100% devido ao arredondamento.

Fonte: C lub da Lavoura.67

Mesmo no Oeste paulista, onde, de acordo com quase toda a litera­


tura existente, a presença dos imigrantes resultou na marginalização dos
negros, a persistência destes nas fazendas de café surpreende. Além da pos­
sibilidade de emprego como colonos, discutida abaixo, a primeira trajetória
identificada por Rios, o “pacto paternalista” era uma possibilidade real para
muitas famílias de negros no Oeste paulista.6 768 A segunda trajetória, a iti-
nerância, certamente era possível também, dado o grande número de cama­
radas (trabalhadores assalariados, muitas vezes temporários) empregados
nas fazendas e o aumento notável na demanda por mão de obra durante a
colheita. Mas a terceira trajetória, o estabelecimento de comunidades in­
dependentes de negros, era menos viável nessa região porque a valorização
das terras pela cafeicultura desestimulava sua doação a libertos, impedia
sua ocupaçáo informal ou compra por negros pobres e provavelmente levou
à expropriação de muitas comunidades de negros já existentes.
A Tabela 3 apresenta as distribuições ocupacionais dos homens che­
fes de família enumerados no censo municipal de 1907, separadas por grupo
étnico-racial. A maior parte da literatura afirma que, nas regiões cafeicultoras
mais novas e ricas do Oeste paulista, os imigrantes monopolizaram os con­
tratos familiares do colonato, ao passo que os negros só trabalhavam nas fa­
zendas como camaradas ou trabalhadores especializados, como carreteiros,

67 Club da Lavoura (1940. p. 1020).

68 Rios (2005)-

93
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

campeiros ou pedreiros.69 Como mencionado acima, vários aurores afirmam


que os contratos de colonato permitiam o acúm ulo de dinheiro, levando a
certo grau de mobilidade social, devido ao sistema de renumeração mista, na
forma de pagamentos anuais pelo cuidado de determ inado número de pés de
café, pagamento pela quantidade de café colhido, m oradias gratuitas e - tal­
vez o mais importante - o direito de cultivar gêneros. C o m anos de trabalho,
boa sorte e, sobretudo, com boa saúde, algumas fam ílias de colonos conse­
guiram poupar o suficiente para comprar sítios ou pequenos negócios.7071
Como esperado, a Tabela 3 m ostra que os im igrantes, sobretudo os
italianos e espanhóis, estavam altamente concentrados no colonato. Isso
não é surpreendente porque o governo paulista só pagava passagens para
famílias de agricultores - ou para aqueles que se diziam agricultores - e
os imigrantes eram impedidos de deixar a H o sped aria de Imigrantes sem
serem contratados por fazendeiros.7' Entre os portugueses e “outros imi­
grantes“ como os sírio-libaneses ou os alemães, havia m uitos de imigraçáo j
mais antiga, ou que chegaram por conta própria, o que reduziu a propor­
ção deles com contratos de colonato.
Entretanto, os resultados dessa pesquisa m ostram que os negros
não eram excluídos do colonato. Em bora as fam ílias italianas e, sobreru*
do, espanholas se concentrassem mais nessa atividade, esta também era a
categoria ocupacional mais comum entre chefes negros de família. Eram
colonos, em 1907, 43,5% das fam ílias com chefe m asculino preto e 31,3% U
das com chefe mulato. Som ando pretos e m ulatos, as 329 famílias de co- r
lonos com chefe preto (e masculino) eram m ais num erosas que as 299
famílias de colonos espanhóis ou as 230 fam ílias de colonos portugueses, j
Processos criminais também confirmam a presença continuada de negros;
nas fazendas de café, muitos deles na função de colono.

69 Bciguelnun (1978, p. 108), Dean (1976. p. 152), Holloway (1980, p. ,73).


70 Scolclce (1988, p. 36-43).
71 Holloway (1980, p. 45 ' 54 )-
1
K a r l M o nsma

Tabela 3 Distribuição ocupacional dos homens chefes de família de São Carlos


em 1907 por categorias de nacionalidade e cor.
B r a s ile ir o s (% ) Im ig ran te s (%)

P r o fis s ã o M u la - B ran ­ I ta lia ­ P o rtu ­ E sp a ­


P reto s O u tro s
to s co s n os g u eses nhóis

i. R u r a l

"L a v ra d o r” 7,5 9,6 27,7 5,4 10,1 4 ,i 6,7


A d m in istra d o r d e
0,5 1,2 6,4 0 ,4 0,8 1,0 0,0
fazenda

D ire ro r/feiro r 0 ,2 0 ,6 0 ,4 0,3 1.4 0,2 1,1

E m p reiteiro 0 ,8 1,8 1,3 0 ,5 1,6 0,0 0,6

C o lo n o 43,5 31,3 21,8 66 ,4 44 ,7 72,4 43,3


C am arad a 26 ,1 27,1 8,8 5.2 8,3 5,3 5,6
O u tro rural 3,8 4,2 1,6 0,8 1,6 0,2 3.4
2. U rb a n o c m isto r u r a l -u rb a n o

C o m ercian te/n e go -
ciante
0 ,3 1,2 4 .7 5,0 7,2 3,9 20,8

P ro fissio n al e sco la ­
rizad o / fu n c io n á rio 0 ,2 0 ,0 6,4 0 ,4 0,6 0,5 1,7
público

A rte sá o /serv . esp e cia ­


lizado
6,1 13,3 7,0 10,5 7.8 6.5 14,6
C a rro ce iro /co ch e iro 5,8 1,8 2,1 2,2 2,1 1,0 0,6

O p erá rio /fe rro v iá rio 0 ,8 1,8 3,9 0,6 8,0 3.6 1,1

T ra b a lh a d o r/ so ld a -
d o /serv iç o d o m éstic o
2,2 4,2 3.5 1.3 2,3 1,0 0,6

O u tro em p reg a d o
urbano
2,4 1,8 4 ,4 0,9 3.7 0,2 0,0

T o ta l* 10 0 10 0 10 0 10 0 10 0 100 10 0

N ú m e ro d e in d iv í­
duos
637 16 6 I.II 7 3.255 515 413 178

*N áo som am exaram ente 100% devido ao arredondamento.


Fonte: C e n so m unicipal de 1907» Fundação P ró -M em ó ria de São Carlos.

De forma coerente com a literatura, a proporção de chefes de família


pretos e mulatos que trabalhavam como camaradas era bem maior que
no caso dos chefes de família imigrantes. Entretanto, a Tabela 3 subes­
tima o número de camaradas europeus porque não inclui trabalhadores

95
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

solteiros ou desacompanhados. Muitos italianos meridionais e po


ses migraram para Sáo Paulo sozinhos, e boa parte deles trabalh lv ‘
camaradas nas fazendas.” Levando em conta somente homens d( '
a sessenta anos que não moravam em famílias, 30,9% dos 395
45,7%. dos 184 portugueses enumerados no censo de 1907 trabalh
como camaradas. Essas cifras não sáo muito diferentes daquelas p
mens pretos (41,9% de 296) e mulatos (45,1% de 51) da mesma fajx
que não viviam em famílias.
Claramente é exagerada a ideia de que os negros fossem tot
excluídos do colonato. Entretanto, ainda é possível que a discni
contra os negros fosse mais forte nos primeiros anos após a üv
quando havia mais imigrantes disponíveis e os salários dos colonos
mais altos. Grande número de imigrantes chegou na primeira met.u
década de 1890, e os fazendeiros do Oeste paulista que queriam su; c
negros por imigrantes podiam fazer isso facilmente. N a segunda
dessa década, porém, 0 preço mundial do café caiu, seguido por um
nos salários nas fazendas paulistas e um aumento no número de
que abandonaram as fazendas, mudando-se para as cidades ou voluiv.
Europa. Como resultado, os fazendeiros encontraram mais diiu
em encontrar trabalhadores nos últimos anos do século X IX e prm
anos do XX. Em 1902, a Itália proibiu a emigração subvencionad;:
rasil, restringindo ainda mais a oferta de mão de obra. Com o p
po, também cresceu 0 preconceito de fazendeiros e outras elite "
g antes, sobretudo os italianos, muitas vezes vistos como dcM
s e vio entos. Nesse contexto, faria sentido os fazendeiros conrrar.ur
mais brasileiros.
r

cafeicuCá907, Sa° C/ rl° S nà° CStava mais na to n teira de expan


madura- n l * , ' ma' ° ria dos Pés de « f é ali plantados j á -
potencialmente bem ° UCaS/ ami*ÍaS conse? u' am contratos de empre|[ K
para outras tarefas emais ucrativos, P3« a formação de novos c a t e : * '

havia proporções maiore d*"35' C° m° 3 derru^a<^a do mato.7' Entrei


mulatos que entre chefes / ^mPre‘te*ros entre chefes de família prct°'
número maior destes em 6 *talianos' provavelmente porqu«-’ “r
_ _ _ _ _ " recem' chegado, com pouca ^ ê n c a na *
72 AI«m(,9W),Uite(

74 A nd,«, { (,98o,

” —
96
K arl M o n sm a

rura do café; entre os espanhóis, que só começaram a chegar em grande


número no início do século X X , não havia nenhum empreiteiro em São
Carlos em 19° 7*
Apesar de seu enfoque numa região de fazendas mais antigas, o tra­
balho de Mattos ajuda a pensar sobre as prováveis origens sociais dos colo­
nos e empreiteiros negros no Oeste paulista após a abolição.76 Essa autora
enfatiza a luta dos escravos do século X IX para formar famílias estáveis,
conquistar direitos consuetudinários a terras e maximizar sua autonomia
dentro do sistema. Tudo isso era mais viável para aqueles que haviam mora­
do no mesmo lugar por muitos anos, sobretudo no seu lugar de nascimento.
O tráfico interno introduziu uma diferenciação crucial entre os escravos: os
cativos nordestinos comprados por fazendeiros do Sudeste quase sempre
foram separados das suas famílias e comunidades de origem e tinham de
recomeçar a luta por autonomia, formação de famílias, laços comunitários e
acesso a terras. As fazendas do Oeste paulista eram mais novas, mas Robert
Slenes achou evidências claras de que muitos cativos dessa região consegui­
ram formar famílias, morando separados dos outros escravos, e ganharam o
direito de cultivar roças próprias.77 Embora não existam informações siste­
máticas sobre as origens dos colonos pretos e mulatos de São Carlos, é pro­
vável que a maioria tivesse raízes nas famílias escravas mais estabelecidas ou
na população de negros nascidos livres. Outros, sem dúvida, migraram de
outras regiões, em busca de oportunidades melhores.78
Alguns poucos pretos e mulatos ocupavam posições de autoridade
nas fazendas em 1907. Entre estes, havia três administradores pretos, dois
administradores mulatos, um ajudante de administrador preto e um feitor
mulato. É possível que alguns deles fossem administradores de pequenas
fazendas, mas os processos criminais deixam claro que havia negros em
posições de autoridade sobre colonos e camaradas brancos. Em 1895, o ad­
ministrador negro de uma grande fazenda dirigia uma turma de colonos
italianos e brasileiros na manutenção de uma estrada quando brigou com
0 administrador branco de outra fazenda.79
Esse censo municipal de São Carlos também fornece evidências so­
bre a mão de obra em fazendas específicas. Com uma população de quase
mil pessoas, a Fazenda Palmeiras, de João Augusto de Oliveira Salles, era

76 Mattos (1998).
77 Slenes (1999).

78 Sobre a migração interna e o emprego de colonos brasileiros nos últimos anos da escravidão, cf. Moura
.' 998, p. 153-182).

9 FPM, processos criminais, caixa 257, nu 25, Alberto José de Castro, 1895-

97
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

uma das maiores do município. Incluindo as famílias chefiadas por rnulli,


res, aproximadamente 48% das 162 famílias trabalhando na fazenda erai,
chefiadas por italianos, 19% por outros imigrantes, 17% por pretos, 7%pc.
mulatos e 10% por brasileiros brancos. Entre as famílias de imigrantes, 92;
tinham contratos de colonato, ao passo que as famílias brasileiras (de todas
as cores) se distribuíam entre várias ocupações. Oito (29%) das 28 família
chefiadas por pretos, nove (56%) das dezesseis chefiadas por brasileirci
brancos e somente uma das onze famílias com chefe mulato trabalhavam
como colonos. Duas das três famílias de empreiteiros tinham chefes pretos
a outra era chefiada por um italiano. Vários dos negros nessa fazenda eram
camaradas, incluindo oito dos chefes pretos de família e cinco dos chefes
mulatos. Oito chefes pretos e um chefe mulato foram arrolados como “em
pregados" categoria que parece identificar principalmente os empregados
domésticos. Outros chefes de família pretos e mulatos eram trabalhadores
especializados, incluindo dois carpinteiros, uma cozinheira, um seleiro
um jóquei e um matador de formigas. Os sete brasileiros brancos chefes di
família que não eram colonos incluíam o administrador, dois camaradas
dois artesãos e dois outros que, aparentemente, eram agregados.
A imagem muda pouco quando focalizamos os trabalhadores indi­
viduais em vez dos chefes de família. Examinando somente trabalhadora
masculinos com idades entre 12 e 65 anos, a maior parte dos 50 pretos i
Fazenda Palmeiras era dividida, de maneira equilibrada, entre as catego­
rias camarada (quinze), colono (catorze) e empregado (treze); a maioru
dos dezessete mulatos era camaradas (sete) ou colonos (cinco); a grani
maioria dos 169 trabalhadores imigrantes se concentrava no colonato; fj
mais de dois terços dos 67 brasileiros brancos eram colonos, embora algum
brasileiros brancos fossem camaradas (sete) ou "empregados" (quatro). A|
distribuição das ocupações das mulheres era semelhante à dos homens
com a diferença de que havia menos mulheres que trabalhavam como ca
maradas ou trabalhadoras especializadas.
Na Fazenda Santa Constança, de tamanho médio, com 156 mora
dores, a composição da população era mais simples, mas ainda mistura^
imigrantes e negros: italianos chefiavam 20 das 28 famílias de tra b alh ad o

res, e não havia outros imigrantes; os outros oito chefes de família incluíaf
quatro pretos, um mulato e três brasileiros brancos. O administrador ^
Santa Constança era mulato, mas em outros aspectos a distribuição ocu'
pacional por cor e nacionalidade era parecida à encontrada na Fazeid*
Palmeiras. A Fazenda Jacaré, com 150 moradores, tinha somente umah
mília preta, os colonos Pedro Clemente, 50, sua mulher Laura Helena, P

98
K a r l M o n sm a

e seus nove filhos. A maioria das outras 24 famílias de colonos era italiana,
mas também havia seis famílias chefiadas por brasileiros brancos e três
com chefes portugueses.
A presença de colonos negros nas fazendas não significa, necessaria­
mente, a ausência de uma preferência por imigrantes nem que os fazendei­
ros tratavam negros e imigrantes de forma igual. É possível que muitos fa­
zendeiros só contratassem negros quando não havia imigrantes 0 suficiente
disponíveis, contratassem certo número de negros para manter as divisões
raciais entre os trabalhadores ou só empregassem aqueles negros que já co­
nheciam e consideravam bons trabalhadores. Nas fontes pesquisadas, não
há evidências de discriminação racial nos salários, mas os processos crimi­
nais mostram um rancor específico aos negros, sobretudo aos libertos, por
parte dos fazendeiros e de seus administradores, manifesto nas reações vio­
lentas a pequenos desacatos de negros. O ódio e desprezo se evidenciavam
de outras formas também, como a discriminação na distribuição de tarefas
e xingamentos ou outras formas de humilhação de negros.
Coerente com a literatura, que enfatiza a busca dos negros pela au­
tonomia, a Tabela 3 mostra que uma proporção alta dos afro-brasileiros
trabalhava em ocupações que permitiam maior autonomia, como o trans­
porte de cargas ou pessoas, mas muitos italianos também trabalhavam
nessas funções. Mulatos e italianos eram mais concentrados que os outros
entre os artífices e trabalhadores qualificados. Os imigrantes não gozavam
de nenhum monopólio no mercado de trabalho e encontravam afro-brasi­
leiros em quase todas as ocupações manuais.
A afirmação corrente de que a imigração em massa resultou na
exclusão dos negros dos empregos braçais mais desejáveis simplesmente
não se sustenta. O censo municipal de 1907 de São Carlos mostra que os
negros conseguiam competir com os imigrantes em uma ampla variedade
de empregos manuais, inclusive naqueles - como o colonato ou os ofí­
cios especializados - que proporcionavam algumas oportunidades para
a formação de pecúlio. Entretanto, isso não significa que a imigração em
massa não prejudicou os negros; ela produziu um aumento vertiginoso
no número de pobres procurando emprego, 0 que limitava os salários de
todos. O programa de imigração subvencionada do governo paulista era
uma intervenção no mercado de trabalho desenhada para enfraquecer o
poder de negociação dos trabalhadores. No Vale do Paraíba, onde havia
menos imigrantes, os negros muitas vezes conseguiram negociar termos
melhores com os fazendeiros, ganhando o usufruto relativamente estável

99
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

de terras.808
1Também existe bastante evidência qualitativa do preconceito
das elites contra negros, sobretudo contra libertos, e da sua preferência
por imigrantes, pelo menos nos primeiros anos após a abolição, quando
a remuneração dos colonos era melhor. Essa análise indica que os negros
conseguiam competir com os imigrantes apesar do racismo dos fazendei.
ros e de outros empregadores. Para explicar as taxas maiores de mobili
dade social entre imigrantes e descendentes nas décadas subsequentes, í
necessário examinar outras evidências.
Considerando as camadas mais altas da distribuição ocupacional, fia
evidente que os negros ainda estavam excluídos da elite local quase duas dé­
cadas depois da abolição final, com poucas exceções, que quase sempre eram
homens mulatos. Todos os grandes fazendeiros, aqueles com propriedades
maiores que 500 alqueires paulistas, arrolados no Estatística Agrícola e Zoo-
technica de 1904-58' e identificados no censo municipal de 1907, eram brancos
Quase todos os grandes comerciantes, profissionais liberais e funcionános
públicos, também eram brancos. O censo de 1907 arrolou alguns negros come
"negociantes” mas esta categoria não distingue entre grandes negociantes, por
um lado, e quitandeiros e vendedores ambulantes, por outro. Nenhum negrc
exercia uma profissão escolarizada - incluindo aqui não somente as profo
sões liberais, mas também outras que exigiam, principalmente, o trabalho não
braçal, como professor, guarda-livros ou padre - e o único funcionário públi­
co preto era um agente dos Correios. Havia, porém, alguns grandes fazendei
ros imigrantes e muitos negociantes italianos, portugueses e sírio-libaneses
alguns dos quais regularmente pagavam anúncios de meia página, ou até i
página inteira, nos jornais locais. D e fato, o número de italianos classificada
como comerciantes ou negociantes era três vezes maior que o número de bra­
sileiros nas mesmas categorias. Mesmo os espanhóis, altamente concentrado*
nos distritos rurais, tinham um agente consular em São Carlos.
A elite imigrante, composta de fazendeiros, comerciantes e dono*
de oficinas e pequenas fábricas, empregava seus com patriotas, e provavd
mente evidenciava uma preferência por im igrantes m ais forte que a do>
fazendeiros brasileiros. Também defendia os interesses dos imigrante-
pobres. Com a ajuda de patrícios mais abastados ou escolarizados, muita<
imigrantes pobres enviavam reclamações sobre abusos de fazendeiros ^
da polícia a seus cônsules ou vice-cônsules na cidade de S ão Paulo. Os cfr
sules encaminhavam as queixas ao chefe de polícia, solicitando sua ajiid*1

80 Rio* (2005).

81 Truzzi (2004).

IO O
K a r l M o n sm a

o chefe muitas vezes pedia a intervenção do delegado local, que às vezes


resolvia o problema.82 N os anos 1890, em São Carlos, o comerciante e jor­
nalista italiano Giovanni de Simoni Ferracciü, também conhecido como
Del Simoni, era defensor incansável da comunidade italiana. Às vezes ta­
chado de anarquista nos primeiros anos, com o passar do tempo ganhou o
respeito da elite local.83
Quase não existia uma elite negra para empregar e defender os ne­
gros pobres, e obviamente não havia cônsules negros, o que aumentava
a vulnerabilidade dos negros pobres à exploração e aos abusos dos em­
pregadores, da polícia e de aproveitadores. Para a maioria dos negros, os
únicos protetores possíveis, em um país onde os pobres muitas vezes pre­
cisavam do auxílio dos poderosos para resolver problemas corriqueiros,
encontravam-se entre a elite branca brasileira. A inserção dos negros mais
afortunados nas redes clientelistas de brancos poderosos tendia a manter
a subordinação de negros a brancos e inibir a ação coletiva dos negros em
defesa de seus interesses.

Estrutura fam iliar

Florestan Fernandes propôs a tese, hoje muito criticada, da‘anomia”


do liberto como origem de pelo menos uma parte de sua desvantagem.84
Uma maneira de abordar isso com o censo sáo-carlense de 1907 é exami­
nar a estrutura familiar dos vários grupos, supondo que, em um contexto
católico e tradicional, uma alta porcentagem de famílias chefiadas por mu­
lheres sirva como indicador d a‘ anomia” dos homens, que abandonam suas
famílias ou não assumem filhos gerados fora do casamento. A Tabela 4
mostra que todos os grupos imigrantes tinham porcentagens relativamen­
te baixas de famílias com chefes femininas, provavelmente porque a políti­
ca da imigração subvencionada favorecia as famílias chefiadas por homens.
Entre os chefes de família pretos e mulatos, as proporções femininas são
um pouco menores que os 15,8% encontrados entre brasileiros brancos. Ou
seja, esses dados não apoiam a ideia de que existisse maior tendência para
a desestruturação da vida familiar entre a população negra.

82 Arquivo do Estado de São Paulo ( A p e s p ), Polícia, várias latas, 1894-1902.

83 Monsma (2008).
84 Fernandes (1978).

101
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

Tabela 4 Porcentagem de famílias chefiadas por mulheres, por categorias de n,


cionalidade e cor.
Grupo Com chefe mulher (%) Total
Brasileiros
Pretos 14,2
■ M K
765
Mulatos 12,8 188
Brancos 15,8 1.326
Estrangeiros
Italianos 5,8 3.480
Espanhóis 5,0 437
Portugueses 6,0 554
Outros 7,3 193
jTotal 8,8 6.943
Fonte: Censo municipal de 1907, Fundação Pró-M em ória de São Carlos.

Outra manifestação de"anomia”, em um contexto católico tradicioná


seria uma baixa taxa de casamento. M as as taxas de casamento de pretos
e mulatos são mais altas que as de brasileiros brancos. Entre a população
adulta (com 21 anos ou mais) e incluindo os viúvos, a porcentagem de ne
gros que já se casou ou vive em união estável - condições geralmente indis
tinguíveis nesse censo - é um pouco maior que a entre brasileiros brancos.
Entre as mulheres adultas, 86,6% de pretas, 89,1% de mulatas e 83,9% de
brasileiras brancas já haviam se casado. Entre os homens, 77/7% de pretos
75,6% de mulatos e 68,9% de brasileiros brancos eram casados ou viúvos
Novamente, os resultados não são coerentes com a ideia de que existisse
maior “anomia” entre os negros. De fato, houve uma onda de casamentos
de libertos no interior paulista nos primeiros meses depois da abolição, su
gerindo que muitos escravos queriam se casar e formar famílias, mas eram
impedidos por seus senhores. Havia tantos casamentos que os delegados
reclamavam das festas de casamento de libertos, que, na opinião deles, rt
sultavam em desordens.85

85 O subdelegado de Sanra Cruz da Conceição escreveu ao chefe de polícia: "É costume aqui. serem os ca*
menros de libertos feitos nos Sabbados; e nessas occasióes, reune-se grande quantidade de negros na Fregucs'1'
comettem muitas desordens” (08/10/1888, A pesp , Polícia, CO2693).

im
K a r l M o n sm a

Tamanho das famílias

O tamanho das famílias também influenciava suas possibilidades


econômicas. Os fazendeiros preferiam as famílias maiores para os con­
tratos de colonato, e o tamanho da família também influenciava as pos­
sibilidades de poupar dinheiro e adquirir propriedade.86 Sobretudo entre
os colonos, as famílias maiores podiam tratar talhões maiores e ganhar
mais. A Tabela 5 apresenta o tamanho médio das unidades familiares dos
diferentes grupos de nacionalidade e cor, incluindo como integrantes das
famílias não somente pais e filhos, mas também outros parentes e agre­
gados que moravam com a família. Como a política imigratória também
favorecia famílias, não é surpreendente saber que as famílias imigrantes
nas regiões cafeicultoras fossem maiores, na média, que as famílias de
brasileiros, embora seja pequena a diferença entre o tamanho médio das
famílias portuguesas e o das famílias de brasileiros brancos.

Tabela 5 Tamanho médio da unidade familiar, por categorias de nacionalidade e


cor do chefe de família.
Grupo T a m a n h o m éd io T otal

Brasileiros
Pretos 4,30 765

Mulatos 4,4 6 188

Brancos 4,98 1.325

Estrangeiros
Italianos 5.64 3.480

Espan hóis 5, i 6 437


Portugueses 5.04 554
Outros 5,47 193

Total 5 >2 Ç 6 .942

Ponte: Censo municipal de 1907, Fundação P ró-M em ória de São Carlos.

A cultura italiana da época, sobretudo a dos camponeses da Itália


setentrional, também valorizava a família conjunta, com irmãos casados
morando e trabalhando junto, muitas vezes sob a supervisão do pai.87 Era
relativamente comum os casais italianos emigrarem junto com irmãos,

86 Stolcke (1988, p. 17)-


87 Alvim (1986, p. 30), Durhan (1966, p. 30), Kertzer e Bretrell (1987). Pereira (2002, p. 185-189).

IO3
A REPRODUÇÃO DO RACISMO

cunhados e pais, além dos filhos, uma tendência que aumentava o numere
de trabalhadores por família. As famílias italianas eram as maiores entre
todos os principais grupos, com a média de 5,6 integrantes, ao passo qu
as famílias com chefes pretos ou mulatos eram as menores, com tama
nhos médios de 4,3 e 4,5, respectivamente.88 A Tabela 5 inclui família,
chefiadas por homens ou mulheres, mas, mesmo quando incluímos so­
mente famílias chefiadas por homens, a natureza das diferenças entre
grupos continua igual. Portanto, essas diferenças no tamanho familiar
náo podem ser explicadas pela proporção maior de famílias chefiadas por
mulheres entre os brasileiros. Presume-se que o tamanho maior das famí­
lias italianas se explica, em parte, pelo número maior de filhos e, em parte,
pela presença de pais, irmãos, cunhados e outros parentes.89
Diferenças raciais nas taxas de mortalidade, sobretudo de crianças
e de mulheres durante o parto, podem explicar uma parte da diferença
no tamanho das famílias. Os dados do censo de 1907 permitem algumas
inferências a respeito da mortalidade das mães. Coerente com a ideia it'
maior mortalidade de negras durante o parto, a porcentagem de viúvos en
tre homens pretos que já haviam se casado, 10,3%, é aproximadamente 40^
maior que os 7,3% entre os brasileiros brancos, ao passo que a porcentagem I
de viuvez entre as pretas que já haviam se casado, 20,3%, é só 7% maior que
os 18,9% entre brasileiras brancas. Por outro lado, a porcentagem de viúvos
mulatos, 4,9%, é menor que a entre brasileiros brancos. Coerente coma
posição um tanto melhor dos mulatos na estrutura ocupacional, pare«
que as esposas de mulatos gozavam de melhores condições de saúde e mais
acesso ao atendimento médico que as esposas de pretos. A s taxas de viuve:
entre os imigrantes são menores e não são comparáveis às dos brasileiros
porque o programa de imigração subvencionada favorecia as famílias com
ambos pais presentes.
A falta de atendimento médico também teria aumentado a taxa A'
mortalidade infantil dos pretos. Além disso, os bairros urbanos e suburba­
nos onde os negros se concentravam provavelmente eram menos salubres-
afetando, sobretudo, as crianças. Depois da abolição, muitos libertos st
concentravam na periferia de São Carlos, nos bairros de Vila Izabel e Vil*
Pureza.90 A partir de 1890, a cidade contou com a canalização da água i

88 As famílias italianas também eram bem maiores que as outras na Fazenda Santa Gcrtrudes, em Rio CU(0
(B a ssan ezi , 1974. p-1*6).

89 Infelizmente. as relações familiares não estáo indicadas claramente nesse censo, fazendo com que nem * nV
pre seja possível distinguir entre filhos e outros parentes ou agregados.
90 Devescovi (1987, p. 57), Truzzi (2000, p. 52).

104
K arl M o n sm a

uma nascente e sua distribuição por meio de quatro chafarizes, mas essa
obra não chegou à periferia, onde a água dos riachos provavelmente era
poluída, o que teria aumentado, especialmente, a mortalidade infantil.9'

*****

Este capítulo salientou os diversos contextos do pós-abolição na


América e porque quase todos resultaram em desvantagens marcantes para
os descendentes de africanos escravizados. Os negros se concentravam em
regiões empobrecidas pela dominação histórica de latifundiários escravis-
tas, eram objetos de medidas repressivas desenhadas para forçá-los a ven­
der sua força de trabalho, como leis antivadiagem e a proibição de ocupar
terras públicas, e em vários casos precisavam competir com imigrantes po­
bres e semisservis, importados justamente para baratear o custo da mão de
obra. Em muitos casos podiam estabelecer comunidades autônomas em
regiões de fronteira ou fazendas abandonadas, mas ficaram vulneráveis à
expropriação em médio e longo prazo. Nas regiões mais prósperas do con­
tinente, principalmente nas faixas temperadas ou subtropicais do norte e
do sul, os negros precisavam enfrentar a competição de uma grande massa
de imigrantes europeus, que os empregadores geralmente favoreciam e que
às vezes se organizavam para excluir os negros dos melhores empregos.
Este capítulo também criticou alguns mitos comuns a respeito dos
libertos de São Paulo e da imigração em massa a esse estado. O primeiro
é a ideia de que o programa de imigração subvencionada para o estado
de São Paulo foi motivado pelo desejo de branquear a população. Existe
muita evidência de que as elites paulistas se preocupavam, sobretudo, com
o fornecimento de mão de obra para a grande lavoura. A vontade de bran­
quear a população era um motivo secundário. Também é altamente duvi­
doso que os fazendeiros pudessem ter encontrado todos os trabalhadores
que queriam entre a população paulista ou nordestina, porque boa parte
da população rural de São Paulo, inclusive muitos libertos, não queria se
empregar nas fazendas, preferindo trabalhar como agricultores autônomos
sempre que pudessem, e as oligarquias nordestinas não teriam aceitado a
migração subvencionada de "seus” trabalhadores e dependentes para São
Paulo. Os fazendeiros paulistas queriam muito mais trabalhadores livres
que o número de escravos existentes nas fazendas na véspera da abolição,

91 Augusto (1894. p- 75). Camargo (1915. p. xxx).

105
A REPRO DUÇÃO DO RACISM O

em parte porque a área plantada com café estava em rápida expansão,^


parte porque a evasão constante dos colonos significava que, para marv
salários baixos, precisavam importar muito mais trabalhadores queon
mero empregado na lavoura. Sem dúvida, a m aior parte dos fazendeiro;
políticos também achava, pelo menos no início da grande imigração
os europeus fossem trabalhadores melhores, em função do racismo;
época e das representações negativas da população livre brasileira. Co:
isso e o fato de que grande número de europeus estava disposto a migrr
para o Brasil se o estado de São Paulo pagasse as passagens, as elites ncr
procuravam trabalhadores em outro lugar. D epois de alguns anos deei
periência com imigrantes, representações negativas deles, sobretudo c
italianos, se espalhariam entre as elites paulistas, minando a preferênu
por imigrantes entre os empregadores.
O segundo mito é a ideia de que os negros fossem afastados detf
das as atividades produtivas centrais pela competição dos imigrantes,
evidência apresentada acima mostra que os negros conseguiam compe:
com imigrantes em uma ampla variedade de atividades. Em parte issoer.
consequência, sem dúvida, da competência e disposição para o trabalk
dos negros. Muitos negros paulistas já tinham bastante experiência n
trato do café, ao passo que os europeus eram principiantes nessa atividi
de. Entretanto, a falta de mão de obra também ajudou na colocaçáoi
negros. Mesmo fazendeiros ressentidos com a rebeldia dos cativos, f
acreditavam que os europeus fossem mais trabalhadores e mais fáceis«'
controlar, acabaram contratando negros por falta de outras opções. P
outro lado, negros realmente eram excluídos da elite e da classe mé^
escolarizada, e os poucos negros que acumularam alguma riqueza mostf
ram sinais de branqueamento, como o casamento com brancas.
O terceiro mito criticado aqui é a ideia do liberto “anômico" $
laços sociais e sem disciplina interna, proposta por Florestan Ferna#
Os historiadores da escravidão já demonstraram as solidariedades &
escravos, suas vontades de formar famílias e de trabalhar suas próprli
roças. Aqui se apresentaram evidências da continuidade dessas tendên^
depois da abolição. Houve uma grande onda de casamentos de libertos^
primeiros anos pós^abolição, e as taxas de casamento de negras eram
res que as das brancas brasileiras, ao passo que a porcentagem de fam>*
negras chefiadas por mulheres era levemente inferior à porcentagem
famílias de brasileiros brancos. A evidência apresentada aqui tamp^11'
é coerente com o estereótipo do "negro vagabundo", comum na épo'J
de certa forma reforçado por Fernandes. Vinte anos depois da aboli?1'
K arl M o n sm a

nde maioria dos negros no Oeste paulista trabalhava, e a distribuição


aaipacional dos negros era parecida com a dos imigrantes que realizavam
atividades braçais.