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Elloha

“Se você precisa piscar, faça-o agora! A partir de agora você deve prestar atenção em tudo o
que eu digo e faço; se você piscar, vai perder a apresentação da maior feiticeira que já
existiu”...bem, pelo menos esse é o jargão que uso quando me apresento pelas ruas; Me
chamo Elloha, cresci em um cortiço qualquer em uma cidade a qual não sou muito afeiçoada,
aprendi desde sempre o ofício da sobrevivência e, junto com os outros garotos do cortiço
roubávamos pão e moedas de cobre dos desavisados, éramos um grupo, mas ao mesmo
tempo indivíduos, se um de nós fosse pego, os outros fugiam e o deixavam para apanhar e
desmaiar na sarjeta, ou ser vendido como escravo; Éramos um grupo e ainda assim, era cada
um por si. Eu tinha 12 anos quando minha mãe ficou doente, a cólera já tinha levado vários
dos subúrbios, e eu não podia deixar que isso acontecesse com ela...eu havia prometido ao
meu pai que iria cuidar dela até que ele voltasse, então por mais arriscado que fosse, resolvi ir
ao porto, eu sabia que lá existiam gangues de bandidos que pagavam bem por serviços de
entrega, tudo o que eu precisava fazer era uma entrega e teria moedas suficientes para
comprar um elixir e salvar a vida dela; esperei até que a noite caísse e sai do cortiço
sorrateiramente, não poderia deixar que alguém tentasse me parar.

O porto era um lugar onde a maioria das operações ilícitas acontecia, lugar onde sempre
podiam encontrar ladrões, assassinos e errantes vendendo serviços ou tentando fugir dos
guardas nos navios, apesar do porto se situar dentro da capital, era quase uma terra sem lei,
governada por facções e pessoas importantes do submundo, contanto que as operações não
chamassem atenção do rei, ou da guarda, quase tudo era ignorado pelos cidadãos que viviam
nos arredores. O porto era próximo dos subúrbios então cheguei lá após ¼ de hora, avistei
alguns homens bêbados sentados ao redor de uma fogueira improvisada, eles bebiam em
silêncio, ao me aproximar um deles perguntou sem levantar os olhos do fogo, a razão para eu
estar lá, disse-lhe que precisava de dinheiro, ele me mandou ir embora, de novo sem sequer
levantar a cabeça, me ajoelhei e implorei, ele pigarreou e o outro homem então assobiou, das
sombras uma silhueta de um rapaz um pouco mais velho que eu, surgiu e logo, retornou as
sombras, fazendo sinal para que eu o seguisse por um corredor escuro e empoeirado, no final
do corredor havia uma lamparina acesa e um grupo de jovens desnutridos, três encostados nas
paredes em ruinas, e cinco sentados em um semicírculo ao redor da mesa onde ficava a
lamparina, e alguns papéis, um se assemelhando muito a um mapa. O rapaz que me
acompanhou até ali fez sinal para que eles continuassem, então o rapaz ruivo sardento
começou a explicar o plano do transporte que eles fariam a seguir. O plano era simples,
consistia em chegar até a colina onde ficava uma propriedade suntuosa, conferir a mercadoria
que estaria dentro de uma carroça simples, escolta-la até um beco ali perto, e depois
atravessar os bens do beco até o porto, um a um, pelos canais do esgoto da cidade. Eu sabia
que os esgotos da cidade eram perigosos, e por isso o pagamento era bom, lá dentro moravam
alguns bandos de ladrões, além disso haviam lendas sobre criaturas monstruosas que comiam
pessoas. Seguimos o plano, todos pareciam amedrontados mas decididos, a primeira parte
correu sem problema algum, carregamos a carroça até o lugar indicado no mapa, um dos
meninos abriu as grades do esgoto com muita facilidade e se esgueirou para dentro segurando
um vaso claramente estrangeiro, depois outro menino e outro, quando os primeiros cinco já
estavam se aventurando pelo esgoto, ouviu-se um grito abafado, um dos garotos havia sido
apanhado por um homem mais velho, suas roupas deixavam claro que ele fazia parte do grupo
de ladrões que viviam no esgoto, junto dele estavam mais dois ladrões, eles começaram uma
briga com os garotos despreparados do porto, um dos garotos aproveitou a oportunidade e
correu, deixando apenas mais dois e eu. Os ladrões mais velhos bateram nos dois garotos até
que eles implorassem por misericórdia e fossem afugentados como moscas; eu havia
aproveitado o começo da confusão para me esconder dentro da carroça, abraçada a uma urna
ornamentada que eu deveria levar para o porto, quando eles se livraram dos dois garotos,
foram em direção à carroça, decerto iriam vender a mercadoria para outro receptor, eu não
podia deixar que isso acontecesse, mas não tinha como lutar contra eles. Quando a manta sob
a carroça foi levantada, pulei desesperada agarrada a urna tentei correr em direção ao esgoto,
mas fui pega e jogada contra o chão, abracei forte a urna, enquanto eles me surravam, um
deles com o olhar sádico me levantou com força pelo braço e fez sinal para que os outros dois
que me rodeavam me segurassem, então ele puxou uma adaga do bolso e a estocou em meu
ombro, senti o sangue quente umedecendo minhas roupas e uma dor lancinante que quase
me fez perder a consciência, achei que iria morrer ali... minha visão já estava turva quando vi
Samuel, um dos meninos que vivia no cortiço. Samuel era um menino esguio, podia ser ágil e
bom de briga mas jamais ganharia dos três sozinho e, mesmo assim ele havia comprado uma
briga que não podia ganhar, quando ouvi o apito da guarda da cidade, quase me esqueci que
também seria considerada criminosa, naquele momento eu apenas temia pela segurança de
Samuel e, claro, pela minha. Os ladrões sumiram em questão de segundos por entre as ruelas
detrás da catedral, ainda com a visão turva, enxerguei um Samuel com rosto meio desfigurado
e Timothy, um dos garotos do cortiço que sempre me seguia por aí, com um pequeno apito de
metal pendurado no pescoço, tentei sorrir, mas acabei tossindo sangue e desmaiei. Em minha
mente a imagem do rosto inchado e roxo de Samuel brilhando a luz da lua permaneceu por
alguns segundos antes de tudo ficar preto.

Quando acordei novamente estava com frio e molhada, aparentemente começou a chover e
os dois me arrastaram para um teatro abandonado onde tentavam cuidar dos meus
ferimentos; Timothy atropelou as palavras ao me ver abrir os olhos e me abraçou com força
pressionando o ferimento ainda aberto, enquanto eu me contorcia de dor, Samuel o afastou e
me deu algo para beber, algum elixir que me deixou sonolenta e me fez dormir, a última coisa
que me lembro antes de apagar totalmente é de um cartaz meio apagado de um mago que se
apresentava em várias cidades, fazendo moedas desaparecerem, adivinhando cartas, fazendo
pombos aparecerem e várias outras façanhas mágicas, o respeitável Mago. Eu tive uma febre
horrível por alguns dias e pouco me lembro do que aconteceu a seguir, mas me recordo do
semblante preocupado de Samuel toda vez que eu abria os olhos, me lembro de sentir meu
corpo queimando e de tremer de frio inúmeras vezes, enquanto estava presa entre a realidade
e os sonhos, me lembro de sonhar com meu pai, meu pai era ferreiro antes da guerra, mas não
qualquer ferreiro, o melhor ferreiro, ele até mesmo desenvolvia bugigangas a pedidos de
nobres e inventores, tínhamos uma pequena oficina e vivíamos confortavelmente, eu o
ajudava algumas vezes e sempre me divertia, queria ser inventora quando crescesse porque
duvidava que algum dia seria melhor que ele no que ele fazia...mas aí veio a guerra, ele foi
convocado e nunca mais retornou, minha mãe fez o que pode mas, não demorou muito para
que perdêssemos tudo e tivéssemos que morar na sarjeta. Meu corpo todo doía, mas eu sabia
que tinha de recobrar minhas forças e voltar ao porto mais uma vez, eu tinha de completar
uma entrega e salvar a vida da minha mãe, mas por mais que eu soubesse disso, meu corpo
não respondia e eu caia novamente em um estado catatônico, em meus sonhos reavivei o
momento em que fui pega, várias e várias vezes, e me dei conta de que não poderíamos
continuar assim; quando consegui juntar alguma força ainda que meu corpo estivesse em
chamas tentei me levantar, precisava ir para o porto, foi quando Samuel colocou a mão no
meu ombro e me impediu de levantar, ele sequer deixou que eu falasse algo, apenas me
encarou, respirou fundo e apontou para a urna ornamentada que estava perto de mim, eles
haviam me carregado e trazido consigo alguns dos itens da carroça, respirei aliviada, depois
senti a força me deixando e cai no sono novamente. Não haviam muitas formas de ganhar
dinheiro para pessoas como nós, mas talvez não tivéssemos de ser tão diretos e pôr nossas
vidas em risco, foi então que me lembrei do cartaz do mago e, assim que finalmente fiquei
consciente resolvi contar meu plano para aqueles dois que arriscaram a vida por mim; havia se
passado uma semana desde o acontecido, mas ainda consegui receber o dinheiro pelos itens
que entreguei, foi o suficiente para comprar um elixir caro no boticário da cidade.

Durante alguns dias, vasculhamos o teatro abandonado a procura de instrumentos para


montar um pequeno show; Por alguns segundos faíscas brilharam em meus olhos e eu quis de
novo reaver meu sonho, junto com aqueles dois garotos tão miseráveis quanto eu, criamos
dispositivos que imitavam magias, também dominei algumas técnicas como por exemplo
utilizar um baralho marcado para sempre acertar a carta e como viciar o dado para que ele
sempre caísse no número que eu quisesse, além disso criei um chapéu com um fundo falso no
qual era possível guardar até mesmo um coelho. Feitos todos os preparativos, escolhemos um
dia e fizemos o nosso primeiro espetáculo, coloquei um caixote em uma viela, e comecei a
chamar atenção vociferando o meu jargão “Se você precisa piscar, faça-o agora! A partir de
agora você deve prestar atenção em tudo o que eu digo e faço; se você piscar, vai perder a
apresentação da maior feiticeira que já existiu” enquanto todos estavam boquiabertos com
meus truques, Samuel e Timothy subtraiam bens dos espectadores, depois estendi o chapéu
para aparar as moedas de cobre que recebemos pela apresentação; desse dia em diante
passamos a ter uma renda mais estável, podíamos até mesmo ter duas refeições ao dia.

Dois anos se passaram desde que me tornei uma ilusionista, não tínhamos mais que nos
arriscar roubando nas ruas, mas ainda tínhamos de lidar com o ostracismo e com pequenas
rixas por território, alguns bandos de ladrões tentavam cobrar impostos de nós, e a cada dia se
tornava mais complicado continuar como ilusionista, mesmo assim seguíamos fazendo shows
surpresa em becos e atraindo desavisados, eu fazia moedas sumirem na frente de todos e,
enquanto isso Samuel e Timothy se misturavam e fazia sumir anéis, relógios, moedas...sem
que ninguém percebesse, claro. Minha mãe havia falecido de cólera há um ano, mesmo o elixir
mais caro, não conseguiu salvá-la. No último show que fizemos juntos, notei a presença de um
nobre, este apareceu sem aviso e observou o show, sua carruagem estava parada em frente ao
beco em que eu me apresentava, e aos poucos ele foi se aproximando, mesclando-se entre as
pessoas que estavam ali, Timothy me lançou um olhar impaciente de quem iria fazer algo
impulsivo, então tratei de fazer fumaça e muitos movimentos para que a atenção de todos
fosse capturada, reparei em Timothy e seus dedos leves deslizando pelo bolso do nobre e
tirando um relógio dourado que habilmente se perdeu por entre as mangas do garoto, Samuel
apenas fez uma expressão de reprovação como se achasse que o garoto havia feito algo errado
mas não quisesse reconhecer o seu mérito. Quando o show acabou e a multidão começou a se
dispersar, o homem ainda estava parado, me encarando friamente, depois se aproximou
imponente e vociferou em uma voz limpa e calma “ dai-me o meu relógio de volta e lhes darei
algo mais precioso”, eu nervosa comecei a gaguejar, Samuel já se preparava pra derrubar o
homem, quando esse bateu a bengala no chão, e olhando pelo rabo do olho mandou que
Timothy saísse das sombras onde ele havia se escondido, arrependido, ele se aproximou e
estendeu a mão vacilante com o relógio na direção do homem. O homem então bateu a
bengala no chão novamente e o relógio desapareceu da mão de Timothy e apareceu nas mãos
enluvadas do Homem que, apenas o guardou no bolso sem nenhum esforço. Depois se virou e
caminhou de volta em direção a carruagem, antes de entrar ele fez uma pausa e indagou as
seguintes palavras “vocês não vêm?”, ainda boquiabertos, nos entreolhamos e seguimos o
homem.

O grande Mago nos tomou como aprendizes, nos deu um lar e ensinou-nos alguns truques
mágicos. Ele era um nobre e vivia uma vida com regalias em uma casa enorme e vazia, o mago
não tinha familiares, éramos aprendizes e serviçais. Durante os quatro anos seguintes vivemos
os melhores momentos de nossas vidas, Tim se afeiçoou ao mago de uma forma esquisita, ele
o seguia pela casa como um filhote de cachorro abanando a cauda; Timothy agora com 16
anos tinha se tornado um exímio feiticeiro, era como se ele tivesse nascido para a magia, entre
nós três ele havia se tornado o mais hábil, poderoso e inconsequente pupilo do mago...sim, ele
continuava se comportando como uma criança, usava magia levianamente para as coisas mais
triviais e desnecessárias. Samuel havia se tornado mais tolerante com o tempo, a magia para
ele era algo precioso, ele não conseguia fazer feitiços poderosos como os de Timothy, os
feitiços dele eram preparados previamente e ensaiados várias vezes, mesmo assim, ele
conseguia ser mais poderoso que eu, por exemplo, minha hora favorita do dia era quando Tim
desafiava o Mago, todos os dias eles jogavam por horas e Tim sempre perdia, eu e Samuel
ríamos, e depois eu ia confortá-lo, o Mago tinha um baralho mágico que utilizava para
canalizar magia, eu percebi depois de um tempo que essa era a razão para que ele sempre
ganhasse, quando comentei com ele sobre o assunto, ele apenas sorriu, depois tirou de sua
manga um baralho completo, que aparentava ser normal, mas emanava magia, ele me disse
que aquele baralho era capaz de muitas coisas, coisas inimagináveis, mas que nenhuma delas,
envolvia ganhar no truco, ele disse isso de forma tão triunfante, que me senti pequena por ter
achado que ele trapaceava. Eu já havia completado dezoito anos, quando o mago
desapareceu, era um dia como qualquer outro, limpamos a casa, cuidei do almoço enquanto
Timothy usava magia para consertar alguns móveis da cozinha, Samuel estava lá encima,
cuidando de documentos para o mago; no entanto ao pôr a mesa, o mago não apareceu, Tim e
eu procuramos por ele por toda a propriedade, e passado dois quartos de hora, ainda não
havia nenhuma notícia, mais tarde Sam nos acalmou mencionando o fato de que o mago fazia
isso algumas vezes, mesmo morando com ele, conhecíamos bem pouco sobre ele, sequer
sabíamos seu nome, muitas vezes brincávamos entre nós de tentar adivinhar o nome dele,
então chamávamos nomes aleatórios e observávamos a reação dele.

Já havia se passado um mês desde o desaparecimento do mago, Samuel parecia mais afastado
do que o normal, ele tinha de resolver várias coisas e lidar com uma pilha de documentos que
o mago havia deixado, apesar de irritadiço, ele sempre descia e tomava chá comigo, como se
para me tranquilizar. Tim, no entanto, parecia ainda mais selvagem que o normal, o fato de
não ter o mestre por perto o deixou confuso, e eu tinha que vigiá-lo de perto para evitar que
ele fizesse algo de errado, eu passava quase todas as horas do dia com ele, quase como uma
segurança particular. No segundo mês, um homem encapuzado bateu a porta, ele subiu e
conversou com Samuel, ele nunca nos contou o teor da conversa, mas eu podia sentir que algo
estranho estava acontecendo, mais algumas visitas aconteceram, até que no quarto mês após
o sumiço do mago, o acaso me fez entrar no escritório do mago. Era madrugada, chovia,
acordei incomodada e senti um arrepio nos ossos, levantei-me para beber água, e ao passar
pela porta do escritório que estava entreaberta, resolvi entrar. Lá dentro, vi uma cena que
jamais esperei ver, Tim estava no chão, inerte, seu corpo exalava um odor pútrido, sua pele
estava opaca, quase translúcida e suas veias saltadas, negras, o tapete que chegava até meus
pés, estava encharcado de sangue...na outra ponta da sala, estava Samuel, segurando um
códex negro, seus olhos pareciam tomados pela loucura, quando subitamente, foram de
encontro aos meus e ali pararam, estáticos.

Tudo a seguir aconteceu em alguns milissegundos, meu cérebro processou a situação, dei uns
passos para trás e arremessei um banco de madeira na direção do Sam, na direção de suas
mãos, do livro. Ah, Sam! Eu jamais esperaria, nem em meus piores pesadelos, que algo do tipo
pudesse acontecer...Samuel sempre foi pra mim, como a lua, uma presença contínua e
inegável em minha vida, um observador de palavras ríspidas e doces que me entorpeciam os
sentidos, ele fora o garoto que me seguiu quando eu fui ao porto e me salvou, fora o garoto
que cuidou de mim, e esteve ao meu lado quando minha mãe faleceu, ele era pra mim mais
que um amigo, ele era a pessoa que eu amava, mesmo que eu não tivesse expressado em
palavras o que sentia por ele, eu tinha certeza de que um dia, poderíamos ficar juntos. Sam pra
mim era a lua...e Tim era o sol, uma presença cálida e brilhante, ele era como um irmão para
mim, e agora, aquele sol havia perdido sua luz, e Sam era o culpado. O banco não o acertou,
ele se esgueirou por um triz e me encarou confuso.

Eu tremia de raiva e angústia aquele maldito livro negro com certeza era a causa de tudo,
aquela era a única coisa que jamais deveríamos tocar, necromancia; Antes que eu pudesse
falar mais alguma coisa sombras começaram a surgir do chão e silhuetas a se formar, Sam
parecia angustiado ele se aproximou da janela segurando o códex, me encarou e disse como se
repetisse pra si mesmo “Não foi minha culpa, ele pediu por isso, ele e sua maldita mania de
xeretar tudo”, quase sem palavras ele sussurrou que me amava e se jogou da janela. As
silhuetas se revelaram como sendo a corte dos magos, alguns se desfizeram instantaneamente
assim que se mostraram e seguiram perseguindo Samuel. Dois deles ficaram, uma mulher de
idade e um homem de trinta e poucos anos, o mesmo homem que havia nos visitado durante
o desaparecimento do mago, ele examinou o corpo de Timothy, ela me fitava, desgostosa, o
homem então meneou de leve confirmando o veredito que todos imaginávamos,
necromancia. Quando o mago nos deu acesso a biblioteca estávamos encantados com a
quantidade de livros sobre magia, aos poucos lemos mais da metade, um dia enquanto
limpávamos a biblioteca encontramos uma sessão escondida, quase como uma prateleira
secreta, nela haviam quatro livros, quando perguntamos para o mago sobre isso, ele ficou
nervoso e nos fez jurar que jamais mexeríamos ali de novo, eram livros sobre necromancia,
“magia profana” ele disse, não deveríamos jamais nos contaminar com aquilo, lembro de que
na época Samuel contrariou o mago dizendo que seria importante conhecer todos os tipos de
magia, mesmo sem usá-la para saber combate-la, o mago rebateu dizendo que não se
combate necromancia, e logo depois de uma pausa lançou um olhar cortante em nossa
direção, depois disso, nunca mais mencionamos o assunto; eu jamais poderia imaginar que
Samuel violaria as regras do Mago. A mulher levou a mão a têmpora como se a cabeça
começasse a doer só de ouvir o veredito, ela me olhou desdenhosa, e após um longo suspiro
pediu que o homem me explicasse a situação, depois saiu sussurrando algo. O homem,
membro da corte dos magos, era uma investigador, ele me contou que o Mago cessou contato
por um mês, então ele veio checar a situação, depois de algumas visitas desconfiou do pior, e
ao ver o corpo de Timothy, conseguia ter certeza de que o Mago havia sido assassinado, Sam
provavelmente havia matado ele e assim teria se tornado mais forte e tido acesso a todos os
livros de necromancia. Meu mundo havia desabado naquela noite, esperei junto ao
investigador e a senhora de cabelos grisalhos, até que o dia nascesse, quando finalmente
recebemos notícias, Samuel não havia sido capturado. Eles cuidaram do corpo de Timothy com
mágica, disseram que não era possível enterrá-lo pois seu corpo havia sido consumido pela
necromancia; durante os dias que se seguiram, fiquei sozinha na casa, o ruído do relógio me
incomodava e a angústia me corroía, fui até o escritório do mago novamente, dessa vez
inspecionei o local inteiro e encontrei em meio a alguns livros uma prova de que o mago com
certeza havia sido assassinado, o baralho, o baralho mágico do mago estava entre dois livros
na estante, só eu sabia o quanto aquele baralho significava para ele e como ele nunca se
separava dele; senti as lágrimas quentes no meu rosto, era tudo tão estranho, eu estava
agindo como se nada daquilo houvesse acontecido mas agora a realidade me atingia como
uma rocha gigante, e eu não conseguia suportar o peso daquilo. Depois de chorar por horas,
me levantei, reuni algumas pedras e criei duas sepulturas no jardim, uma para Tim e outra
para o Mago, coloquei junto da sepultura do Mago o baralho, depois algo me chamou atenção
na caixa, um nome, Lucius, eu sorri e senti as lágrimas novamente, então olhei para cima para
conter minhas lágrimas, a lua brilhava imponente, senti um calafrio e então olhei de novo para
os túmulos, apanhei o baralho, reuni outras pedras e criei outra lápide, a minha. A partir desse
dia, eu me tornaria outra pessoa, eu pegaria Samuel com minhas próprias mãos e o faria
pagar.

Era mais fácil falar do que fazer, para conseguir encontrar Samuel eu precisaria de informação,
e dinheiro para pagar por ela, a essa hora ele deveria estar longe da cidade, eu tinha urgência,
mas mais que tudo, eu tinha um plano. Voltei a me apresentar, mas dessa vez eu não teria
ajudantes para roubar os expectadores, então precisava conseguir o dinheiro por mim mesma,
comecei a fazer shows regulares na praça, com figurino e outros números, comecei a cobrar
taxa dos expectadores e aos poucos consegui dinheiro e fama o suficiente, comprei o teatro
abandonado da cidade onde tudo começou e o reformei, fiz meu nome ser falado até mesmo
pelo rei, mas mesmo depois de dois longos anos, eu não tinha uma informação sequer sobre
Samuel. Até que um dia ouvi de um viajante sobre uma cidade há algumas semanas de
distância que havia sido dizimada por um necromante, haviam rumores e mais rumores sobre
o tal necromante se dirigir ao norte e destruir vilarejos. Eu não tinha ideia ou prova de que
aquele necromante fosse Samuel, mas qualquer pista era melhor que nenhuma, e eu tinha de
acha-lo, mesmo que eu tivesse de perseguir cada necromante vivo. Reuni minhas coisas, deixei
o teatro para os meninos do cortiço, os novos habitantes do subúrbio, crianças que já foram
como eu, lhes ensinei coisa ou outra, mas nada envolvendo magia de verdade, apenas truques,
ilusões. E então, sob a luz da lua, parti.