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Dicionário de Sociologia (Alan)

1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97


3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
Allan G. Johnson

Dicionário de Sociologia
Guia Prático da
Linguagem Sociológica

Tradução:
Ruy Jungmann

Consultoria:
Renato Lessa
Professor e diretor-executivo, Iuperj
Professor-titular de ciência política, UFF

Rio de Janeiro
Título original:
The Blackwell Dictionary of Sociology
(A User’s Guide to Sociological Language)

Tradução autorizada da primeira edição inglesa,


publicada em 1995 por Blackwell Publishers,
de Oxford, Inglaterra

Copyright © 1995, Allan G. Johnson

Copyright da edição em língua portuguesa © 1997:


Jorge Zahar Editor Ltda.
rua México 31 sobreloja
20031-144 Rio de Janeiro, RJ
tel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800
e-mail: jze@zahar.com.br
site: www.zahar.com.br

Todos os direitos reservados. Este e-book foi publicado


com a permissão de John Wiley & Sons, Ltd.

Todos os direitos reservados.


A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo
ou em parte, constitui violação de direitos autorais. (Lei 9.610/98)

Capa: Gustavo Meyer

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Johnson, Allan G.
J65d Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem
sociológica / Allan G. Johnson; tradução, Ruy Jungmann;
consultoria, Renato Lessa. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 1997

Tradução de: The Blackwell dictionary of sociology


(a user’s guide to sociological language)
Contém dados biográficos
ISBN 978-85-7110-393-1

1. Sociologia – Dicionários. I. Título.

CDD: 300.3
97-0411 CDU: 301(038)
SUMÁRIO

Prefácio à edição brasileira . . . . . . . . . . . . . vii

Sobre este livro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ix

Verbetes A-Z . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1

Esboços biográficos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 257

Índice remissivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285

Dicionário de Sociologia (Alan)


1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
Dicionário de Sociologia (Alan)
1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

É um princípio básico do pensamento sociológico o fato de que participamos


sempre de algo maior do que nós próprios. A vida social não começa ou termina
com o indivíduo; ela brota da inter-relação das pessoas e de todos os tipos de
sistemas sociais, desde famílias até locais de trabalho, desde escolas e comuni-
dades até sociedades. Por um lado, como indivíduos, somos aqueles que fazem
os sistemas sociais acontecerem. Percebemos e interpretamos o mundo, situamo-
nos em relação a ele, e decidimos de uma hora para outra o que dizer e fazer. Por
outro lado, sistemas sociais fornecem os termos da vida social — os símbolos e
idéias culturais e a estrutura das relações sociais. Estas, por sua vez, modelam
como fazemos os sistemas acontecerem. Escolhemos a partir das alternativas que
temos diante de nós; mas o leque de alternativas em função das quais escolhemos
diz respeito antes de tudo a como os sistemas são agrupados. Nesse sentido, a
vida social “acontece” como resultado de uma dinâmica contínua entre os
sistemas e as pessoas que deles participam.
Cada vez mais, o “algo maior” de que as pessoas participam abrange o mundo
inteiro. Sistemas econômicos e políticos são os mais visíveis nessa tendência
global; mas isso também vem acontecendo em sistemas de conhecimento,
inclusive a sociologia, como a tradução deste livro do inglês para o português. A
cultura brasileira e a minha própria nos Estados Unidos diferem bastante em
diversos aspectos. A força do pensamento sociológico, porém, reside em sua
capacidade de transcender diferenças com uma estrutura conceitual universal que
podemos utilizar para compreender qualquer sistema social — e sua conexão
com outros sistemas sociais — em qualquer época, em qualquer lugar.
É incomum um único autor escrever um dicionário. Fiz este trabalho porque
acredito que a coisa mais importante que a sociologia tem a oferecer não é um
conjunto de fatos ou teorias, mas um modo singular de observar o mundo e pensar
sobre ele, e sobre nós em relação a ele. A sociologia nos proporciona uma janela
para o mundo e um espelho que reflete quem somos em relação ao mundo e as
escolhas que fazemos à medida que dele participamos e fazemos a vida social e
todas as suas conseqüências acontecerem. Essa janela é construída de conceitos
e idéias centrais, os quais vocês encontrarão neste livro.
ALLAN G. JOHNSON
Collinsville, Connecticut, EUA

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Dicionário de Sociologia (Alan)


1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
Dicionário de Sociologia (Alan)
1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
SOBRE ESTE LIVRO

TODA DISCIPLINA TEM seu vocabulário próprio, ou melhor, os termos que utiliza
para classificar e qualificar o que considera que vale a pena ser compreendido.
Em biologia, por exemplo, vida, célula e organismo são essenciais para quem
quer conhecer o assunto, da mesma maneira que sustenido, bemol e compasso o
são em música, e cultura, interação e estrutura em sociologia.
No caso de estudantes que se iniciam em uma matéria, o vocabulário parece
ser, muitas vezes, apenas uma assustadora série de definições que devem ser
decoradas para o próximo exame. O que os estudantes freqüentemente deixam
de entender é que essas palavras são muito mais do que obstáculos mentais a transpor,
muito mais do que um jargão inventado por profissionais para distingui-los dos
demais. Tomada como um todo, a linguagem de uma disciplina é como um mapa
que identifica um campo de estudo e proporciona pontos de vista a partir dos quais
se deve examiná-lo. Aprender uma nova disciplina assemelha-se a viajar por terras
desconhecidas, e a linguagem técnica é um guia que leva a paisagens importantes
que se deve conhecer e mostra como localizar seus aspectos mais notáveis.
Nesse sentido, a linguagem desempenha um papel fundamental ao chamar
atenção para diferentes aspectos da realidade e, no processo, modelar a realidade
que percebemos e experimentamos. Na primeira vez que andamos por um campo
de flores silvestres, por exemplo, podemos ver apenas um mar suave de cores,
fundindo-se em um todo indiferenciado. Mas o que acontece se levamos conosco
alguém que sabe distinguir uma flor de outra, que nos convida a inclinarmo-nos
para observar os detalhes de cada uma delas? Passear pelos campos nunca mais
será a mesma coisa. Nesse momento, conhecemos a individualidade própria de
cada variedade de flor e como elas se reúnem para constituir essa coisa que
experimentamos como um campo. Quando menos esperarmos, estaremos dizen-
do “Eu nunca vi essa flor antes”, quando, na verdade, a vimos milhares de vezes.
O que nunca fizemos antes foi observá-la.
Observar representa em grande parte aquilo que a linguagem técnica significa.
Quando aprendemos a palavra relativa a um conceito — tal como sistema —
podemos em seguida pensar nesse conceito em relação a outros conceitos — tal
como família — e, dessa maneira, compreender ambos de uma maneira diferente
de como os entendíamos antes. De muitas maneiras, é isso que significa pensar:
observar e estabelecer conexões. Não importa se os rótulos verbais se referem a
cores, variedade de flores, tipos de sistemas políticos ou teorias de mudança
social; eles são essenciais para que possamos observar, estabelecer ligações,
pensar e compreender.

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
A linguagem da sociologia é aquela que os sociólogos usam para estudar a
vida social em toda a sua diversidade e complexidade — para descobrir no que
este sistema difere daquele ou como um padrão de interação de um pequeno grupo
difere do de outro. É essa linguagem que nos leva além do ato de meramente ver
o que está em volta, que nos leva a observar, a prestar atenção, de maneiras que
nos permitam compreender de forma mais sistemática a vida social. A palavra
cultura, por exemplo, indica um conjunto de coisas, símbolos, idéias e costumes
que moldam a vida em um sistema social, como por exemplo, uma sociedade. A
cultura inclui a língua que as pessoas falam, os alimentos que preferem, as regras
a que obedecem e os valores que modelam suas opções. Logo que o termo cultura
se torna parte de nosso vocabulário ativo, é mais provável que observemos a
distinção entre a personalidade do indivíduo e a cultura da qual é membro.
Podemos nos tornar mais conscientes de que há algo maior do que nós mesmos,
do qual nós e outros participamos, um “algo” a ser compreendido por si mesmo.
A partir desse ponto podemos compreender que não entenderemos o comporta-
mento de indivíduos se não dermos atenção à cultura da sociedade em que vivem.
Em vez de ver apenas personalidades individuais destrutivas como causa dos
problemas sociais, por exemplo, observamos também as muitas maneiras através
das quais a sociedade pode recompensar ou promover o comportamento nocivo.
Em suma, começamos a observar que tudo que os indivíduos experimentam ou
fazem ocorre em um contexto social e é por ele modelado.
Inventar palavras para rotular a realidade social não é trabalho simples e está
repleto de controvérsias. Sociólogos podem discordar sobre a maneira de definir
conceitos, tais como família, cultura ou poder, em parte porque cada um deles
representa algo tão complexo e variado em formas que é difícil propor uma única
e concisa definição para todos. Isso significa que a mesma palavra pode ser usada
de diferentes maneiras. O leitor deste livro, portanto, deve ficar consciente de que,
embora por razões de espaço o autor talvez não estude em detalhes minuciosos
essas complicações, elas, muitas vezes, de fato ocorrem.
Há também discordâncias sobre o próprio processo de dar nomes. Alguns
autores argumentam que o mundo social não existe de maneira fixa, concreta, à
espera de um nome. Ao contrário, nomear é um ato criativo, no qual damos forma
àquilo que, na ocasião, experimentamos como “real”. O filósofo francês Michel
Foucault sustentava que não há uma “sexualidade”, existindo como uma “coisa”
fixa a ser descoberta. Acreditava ele, ao invés disso, na existência de uma grande
variedade de sexualidades que foram (e continuam a ser) socialmente formadas
através de idéias culturais sobre sexualidade. A palavra homossexual, por exem-
plo, só no último século, mais ou menos, passou a ser usada como substantivo
para identificar um tipo de pessoa, e não como adjetivo para descrever um tipo
de comportamento. Logo que começamos a rotular pessoas, e não comportamen-
tos, essa orientação altera fundamentalmente o que experimentamos como a
“realidade” delas e o que elas fazem.
Este livro é um dicionário da linguagem sociológica, mas dizer isso não
expressa realmente o que ele é, e como deve ser usado. Há numerosos termos que
de alguma forma se referem à vida social mas que não são incluídos aqui porque

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
não fazem parte da linguagem que sociólogos usam para descrever e analisar a
vida social. A Ku Klux Klan, por exemplo, é uma organização que produziu um
impacto muito forte sobre as relações raciais nos Estados Unidos, mas esse fato
apenas não a torna parte da linguagem sociológica. Contudo, o leitor encontrará
neste dicionário o verbete movimento social, porque este é um conceito que
sociólogos usam para extrair sentido de organizações como a Klan.
O leitor tampouco encontrará aqui todos os conceitos e termos inventados por
sociólogos para descrever a vida social e a maneira como ela funciona. Esse tipo
de dicionário jamais caberia bem entre duas capas (e, mesmo que coubesse, seria
volumoso demais para levar de um lado para outro e ler em momentos de lazer,
como tenho esperança de que façam com este livro). O conjunto acumulado de
termos sociológicos é não apenas vastíssimo, mas está crescendo tão rapidamente
que qualquer tentativa de abranger todos eles ficaria ultrapassada antes mesmo
de ser impressa. A vida social inclui uma gama extraordinária de fenômenos
sociais, variando desde o motivo porque casais se divorciam até a maneira como
funciona o sistema econômico mundial. Isso significa que qualquer tentativa
sistemática de compreender a vida social implica inevitavelmente a invenção de
um conjunto sempre crescente de conceitos e linguagem a eles referentes. À luz
desse fato, não tentei abranger toda a amplitude desta disciplina tão diversificada,
nem incluir os acréscimos mais recentes. Esforcei-me para representar seu núcleo
conceitual clássico, juntamente com uma amostragem representativa das diversas
áreas da sociologia e alguns conceitos fundamentais importantes de disciplinas
correlatas, como a filosofia. Incluí também breves esboços biográficos de grandes
figuras — históricas e, em menor grau, contemporâneas — do desenvolvimento
e da aplicação da sociologia.
Este livro também não é uma enciclopédia, contendo discussões em profun-
didade das várias nuanças de significado dos conceitos. Qualquer estudante da
vida social logo encontrará essas complexidades, e em contextos que permitem
o tipo de discussão ampla que lhes faz a devida justiça. Um dicionário portátil,
em um único volume, tem de ser elaborado dentro de uma extensão limitada, com
vistas a estabelecer um equilíbrio entre profundidade, por um lado, e aces-
sibilidade, por outro. De modo geral, quanto maior a profundidade, mais se supõe
que os leitores conheçam não só a sociologia mas também disciplinas correlatas,
como a filosofia. Trata-se, no entanto, de uma suposição muito frágil no caso de
estudantes iniciantes de graduação e mesmo de estudantes de pós-graduação, que
talvez careçam de treinamento em sociologia. Como professor e escritor, atribuo
a maior importância a ser compreendido: prefiro tentar menos, e ser compreen-
dido, a tentar demais em nome da sofisticação e deixar o leitor inteligente típico
sentindo-se perdido e sem pista para compreender o que estou dizendo.
Se, então, este volume não é nem um dicionário exaustivo nem uma vasta
enciclopédia, o que é? A resposta tem a ver, em primeiro lugar, com minhas razões
para escrevê-lo. Mais de uma vez me perguntaram por que resolvi escrever um
dicionário de sociologia, uma vez que a maioria deles é compilação de verbetes
redigidos por dezenas de autores. O escritor em mim responde que me senti
atraído pela idéia de escrever um dicionário na voz de um único autor, o que lhe

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3ª Revisão: 31.3.97
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Para: Ed. Zahar
daria um sentido mais profundo de continuidade e conjunto. O sociólogo e
professor responde que se trata de um trabalho interessante e útil, em parte porque
tive de aprender muita coisa a fim de escrevê-lo, mas também porque proporciona
mais uma maneira de promover uma compreensão clara do que é o pensamento
sociológico.
Como todos os sociólogos, meu objetivo é compreender sistematicamente a
vida social. Tal como muitos de meus colegas, acredito também na importância
de tornarmos aquilo que sabemos mais acessível a estudantes e a leitores inteli-
gentes e curiosos. Embora o mundo sofra com grande número de problemas
sociais, pouco se sabe fora da academia sobre o que é a sociologia e como usá-la.
Isso significa que tornar claras as bases conceituais daquilo que os sociólogos
fazem constitui em si um trabalho sociológico sério, que requer treinamento
formal em sociologia e compromisso com o texto claro e o ensino eficaz, ambos
os quais têm servido de modelo à minha vida profissional. Daí, este livro.
Por um lado, este dicionário é igual a qualquer outro, escrito com o propósito
de ser consultado de tempos em tempos, à medida que surgir a necessidade de
extrair sentido de termos pouco conhecidos encontrados em outros contextos.
Mais amplamente, no entanto, trata-se de um trabalho independente, elaborado
com a intenção simples de transmitir o sentido do que significa ver o mundo do
ponto de vista sociológico. Como tal, pode ser lido isoladamente, embora não
exatamente da mesma maneira que a maioria dos livros. É possível começar com
conceitos básicos como sociologia, sistema social, cultura, estrutura social e
interação e, em seguida, passar às perspectivas teóricas — os fundamentos do
que os sociólogos estudam —, as principais maneiras de estudar algo na área da
sociologia.
A partir desse ponto podemos prosseguir de várias maneiras. O leitor pode,
por exemplo, começar simplesmente do princípio e ir lendo até o fim, com
incursões paralelas indicadas pelas listas de conceitos aludidos nas remissões
sugeridas ao fim de cada verbete. Ou pode identificar áreas de interesse particular
tais como estratificação social, conhecimento, e família, e partir desses verbetes.
À medida que avançar em suas consultas, o leitor descobrirá estar fazendo muito
mais do que adquirir uma lista de termos e definições: estará desenvolvendo a
idéia de um enfoque completo para observar e pensar sobre o mundo e o lugar
que nele ocupa.
Como quer que use este livro, o leitor não encontrará aqui a última palavra
sobre qualquer tópico. O que espero que encontre é um recurso claro, interessante
e útil, um guia para facilitar a caminhada na direção de uma compreensão mais
profunda da vida social e da única disciplina dedicada a extrair sentido da mesma,
em toda a sua diversificada e magnífica complexidade.

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
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Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
AGRADECIMENTOS

No momento em que este dicionário vai para o prelo, lembro-me das muitas
pessoas que tornaram esse fato possível. Agradeço a meus editores da Blackwell
Publishers — Romesh Vaitilingam, John Davey, Jason Pearce e Simon Prosser
— que, durante os anos que levei para escrevê-lo, contribuíram generosamente
com apoio e estímulo. Agradeço a Ginny Stroud-Lewis pelo elegante projeto da
capa, a Stephanie Argeros-Magean pela suave e eficiente revisão do texto, e a
Deborah Yuill pela administração cuidadosa do complexo processo editorial do
livro. Sinto-me grato também a Mary Jo Deegan por ter me revelado a importante
contribuição das mulheres ao trabalho sociológico.
Meus mais profundos agradecimentos a Peter Dougherty. Primeiro a sugerir
que eu escrevesse este livro, ele, mais uma vez, demonstrou sua abrangente visão
editorial. Previu que este livro seria trabalho árduo e divertido, e acertou nas duas
coisas.
Finalmente, meus agradecimentos aos numerosos sociólogos nos Estados
Unidos, Grã-Bretanha, Austrália e Nova Zelândia, cujas resenhas críticas de
várias versões do manuscrito original constituíram insights e sugestões de valor
inestimável.
ALLAN G. JOHNSON

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
Dicionário de Sociologia (Alan)
1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
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Para: Ed. Zahar
Verbetes
A-Z

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 7.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
Dicionário de Sociologia (Alan)
1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 7.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
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abordagem episódica ver EVOLUÇÃO SO- ação ver INTERAÇÃO.
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CIAL.
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ação afirmativa ver PRECONCEITO E DISCRI-


aburguesamento Aburguesamento é o pro- MINAÇÃO.
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cesso através do qual a classe operária, ao adquirir


níveis relativamente confortáveis de segurança fi-
ação de alinhamento e de realinhamento
nanceira e bem-estar material, torna-se mais seme-
Uma ação de alinhamento é qualquer comporta-
lhante à classe média, em especial graças à influên-
mento que indica a outras pessoas a aceitação da
cia dos sindicatos. Em sua análise do capitalismo,
definição particular de uma dada situação. Quando
Karl MARX afirmava que os operários acabariam
as luzes se apagam em um teatro, por exemplo, os
sendo tão oprimidos pelos baixos salários e outras
membros da platéia normalmente deixam de con-
formas de exploração sob o CAPITALISMO que versar e voltam a atenção para o palco, ação esta
fariam a revolução que resultaria no SOCIALISMO. que indica sua aceitação e aprovação da situação
Uma das razões por que isso não aconteceu foi a e das expectativas que a acompanham. Erving
de que segmentos importantes da classe operária GOFFMAN, a partir de sua PERSPECTIVA TEA-
passaram pelo processo de aburguesamento. Co- TRAL, interpreta indivíduos em interação social
mo resultado, a classe operária se dividiu entre como aqueles que usam várias técnicas para criar
uma elite relativamente pequena de trabalhadores uma DEFINIÇÃO DA SITUAÇÃO, por meio da qual
afluentes e a vasta maioria que vive mais próxima podem identificar expectativas que se aplicam a si
das realidades da classe sob o capitalismo descritas mesmos e aos demais.
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por Marx. Essa divisão afeta valores políticos e de Uma ação de realinhamento é uma tentativa de
outros tipos, bem como padrões de consumo, o que mudar a definição da situação. Se um membro da
enfraquece os sentimentos de solidariedade entre platéia de um teatro levanta-se durante a apresen-
os trabalhadores e, dessa forma, o potencial de tação e inicia um discurso inflamado sobre as
pensamento e ação revolucionários.
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implicações políticas da peça, uma possível nova


Há prova de aburguesamento nos Estados Uni- definição da situação é introduzida e, dependendo
dos e em algumas outras sociedades industriais nas de se outros presentes praticam as apropriadas
décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mun- ações de alinhamento, poderá ou não tornar-se a
dial. Alguns autores argumentaram que, desde nova definição aceita. De maneira semelhante, um
essa época, as depressões econômicas — sobretu- empregador que pratica assédio sexual contra uma
do as que afetam a indústria de transformação e funcionária está tentando mudar a definição da
operários altamente qualificados — puseram um situação, de uma situação de trabalho para outra
fim ao processo, se é que não o reverteram. de intimidade sexual, tentativa esta que poderá ou
Ver também CAPITALISMO; CLASSE SOCIAL; não ser respondida com uma ação de alinhamento.
CONSCIÊNCIA E FALSA CONSCIÊNCIA DE CLASSE; Ver também DEFINIÇÃO DA SITUAÇÃO; PERS-
ESTILO DE VIDA; PROLETARIZAÇÃO. PECTIVA TEATRAL.

Leitura sugerida: Goldthorpe, John H., David Leitura sugerida: Goffman, E. 1959: The Presenta-
Lockwood, F. Bechhofer, e J. Platt 1969: The Affluent tion of Self in Everyday Life. Nova York: Doubleday/
Worker in the Class Structure. Cambridge, Cam- (1995): A representação do eu na vida cotidiana.
bridge University Press. 6ªed., Petrópolis: Vozes.

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 7.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra A
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Para: Ed. Zahar
4 AÇÃO E ESTRUTURA

ação e estrutura Ação e estrutura são ques- namentos estruturados entre os jogadores. Mas é
tões fundamentais no estudo da vida social, giran- verdade também que são os indivíduos que literal-
do em torno da relação entre indivíduos e os mente criam a realidade do jogo de futebol, cada
SISTEMAS SOCIAIS de que fazem parte. Especifi- vez que disputam uma partida. Quando jogam, os
camente, há uma antiga discórdia sobre o grau em indivíduos se valem do conhecimento comparti-
que indivíduos demonstram capacidade de ação ao lhado das regras relativas ao jogo e as usam a fim
agirem de forma independente das restrições im- de desenvolvê-lo como uma realidade concreta.
postas pelos sistemas sociais. Interacionistas co- Nesse sentido, há o que Giddens chama de duali-
mo Georg SIMMEL e Herbert BLUMER, por exem- dade de estrutura, isto é, a estrutura de um sistema
plo, argumentam que “sistemas sociais” pouco proporciona aos atores individuais aquilo de que
mais são do que abstrações que não existem real- precisam para produzir, como resultado, a própria
mente, exceto através do que pessoas decidem estrutura.
fazer em suas interações recíprocas. “Sociedade”, Ver também ATOMISMO E HOLISMO; INDIVI-
escreve Simmel, “é simplesmente o nome de certo DUALISMO METODOLÓGICO; PERSPECTIVA IN-
número de indivíduos associados por interação” TERACIONISTA.
([1902] 1950, p.10). Dessa perspectiva, a ação Leitura sugerida: Blumer, Herbert 1969: Symbolic
humana é de suprema importância, e aquilo que os Interactionism: Perspective and Method. Englewood
sociólogos designam como sistemas sociais cons- Cliffs, NJ: Prentice-Hall ● Giddens, Anthony 1979:
tituem meros resultados da mesma.
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Central Problems of Social Theory. Structure and
Em acentuado contraste, interacionistas como Contradiction in Social Analysis. Londres: Macmil-
Manfred Kuhn sustentam que a vida social é orga- lan; Berkeley: University of California Press ● Kuhn,
nizada sobretudo em torno de redes de status e Manfred H. 1964: “Major trends in symbolic interac-
papéis que são externos aos indivíduos e limitam tion theory in the past twenty-five years”. Sociologi-
profundamente, se é que não determinam, o que cal Quarterly 5, inverno: 61-84 ● Simmel, G. 1902
as pessoas pensam, sentem e fazem. Membros de (1950): The Sociology of Georg Simmel. Org. e trad.
uma equipe de futebol, por exemplo, podem im- por K.H. Wolf, Nova York: Free Press.
provisar quando participam de uma partida, mas
sentem-se também muito limitados pela situação ação, teoria da ver INTERAÇÃO.
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socialmente definida do jogo, que tendem a consi-


derar como algo que existe de maneira indepen-
dente deles (na verdade, anterior a eles) e que
acomodação cultural ver CONTATO CULTU-
RAL.
exerce um alto grau de autoridade sobre o modo
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como resolvem se comportar. Dessa perspectiva,


o jogo gera os padrões de comportamento, e não aculturação ver CONTATO CULTURAL.
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o contrário.
Há boas razões para argumentar a favor de um adaptação A adaptação refere-se às mudanças
terreno intermediário que combine elementos de que ocorrem com o objetivo de manter os vários
ambas as interpretações. Embora certamente seja- aspectos de uma cultura ou suas estruturas ou, em
mos limitados pelas situações sociais de que par- casos extremos, de contribuir para sua sobrevivên-
ticipamos, também é verdade que essas situações cia, em qualquer que seja a forma. Todos os sis-
não existem, de forma concreta, até que efetiva- temas sociais têm de se adaptar em relação a outros
mente façamos alguma coisa, e que, embora haja sistemas e ao ambiente natural. Famílias, por
padrões reconhecíveis de comportamento que dis- exemplo, têm de se adaptar à economia, às escolas
tinguem uma situação social de outra, muita coisa e ao Estado, ao passo que sociedades têm de se
que acontece não pode ser prevista por um simples adaptar a outras sociedades e aos recursos e limi-
conhecimento da situação social. Em sua teoria de tações dos ambientes físicos. Por esse motivo,
estruturação, Anthony GIDDENS chega ao ponto sistemas sociais são obrigados a levar em conta
de argumentar que é um erro descrever sistemas mudanças em outros sistemas e no ambiente físico.
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sociais e ação individual como separados entre si À medida que a vida econômica na Europa e
porque nenhum dos dois existe salvo em relação nos Estados Unidos mudava da agricultura para a
recíproca. Não há, por exemplo, jogador de futebol indústria urbana no século XIX, por exemplo, a
sem jogo de futebol, com todas as regras e relacio- forma da produção familiar mudava também. Ca-

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ADOLESCÊNCIA 5

da vez mais as famílias deixavam de produzir bens estreitamente relacionado ao desenvolvimento da


e, em vez disso, enviavam seus membros às fábri- produção em massa, em especial às linhas de
cas a fim de fazer jus a salários. Essa situação montagem em fábrica introduzidas por Henry
mudou profundamente a DIVISÃO DO TRABALHO Ford, o fabricante americano de automóveis. O
e a distribuição do poder nas famílias, ao excluir que veio a ser conhecido como fordismo separava
mães (que ficaram com a criação dos filhos e os operários uns dos outros e dividia o processo de
outras atividades domésticas) da produção de produção em uma série fragmentada de tarefas que
bens, fato este que as tornou dependentes de assa- podiam ser controladas com maior facilidade por
lariados masculinos. Atualmente, em escala mais supervisores e pela administração.
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ampla, as sociedades industriais estão se adaptan- Críticos do capitalismo industrial consideram


do a mudanças externas para manter seus sistemas a administração científica como um dos principais
sociais e valores fundamentais. Dando um exem- instrumentos de controle dos operários, não ape-
plo, os níveis crescentes de poluição da água e do nas para aumentar a produtividade mas também
ar, devidos à produção industrial e ao consumo para solapar o poder dos sindicatos em relação à
privado (como automóveis) levaram governos a administração, ao privar os trabalhadores do
intervir cada vez mais mediante regulamentação e controle sobre seu processo de trabalho.
restrições ao que antes eram considerados interes- Ver também ALIENAÇÃO; AUTOMAÇÃO; DES-
ses privados. Determina-se às empresas, dessa QUALIFICAÇÃO.
maneira, em que condições podem obter lucros e,
às famílias, quais bens podem comprar ou como Leitura sugerida: Braverman, Harry 1974: Labor
podem usá-los. and Monopoly Capital: The Degradation of Work in
O conceito de adaptação desempenha um papel the Twentieth Century. Nova York: Monthly Review
importante na PERSPECTIVA FUNCIONALISTA de Press / (1981): Trabalho e capital monopolista: a
Talcott PARSONS sobre a sociedade, que conside- degradação do trabalho no século XX. 3ªed., Rio de
ra a adaptação como uma das quatro tarefas bási- Janeiro: Zahar/Guanabara ● Houndshell, D.A. 1984:
cas que todos os sistemas sociais têm de cumprir. From the American System to Mass Production 1900-
Essa perspectiva também tem destaque em algu- 1932: The Development of Manufacturing Technolo-
mas teorias de MUDANÇA SOCIAL, sobretudo nas gy in the United States. Baltimore: Johns Hopkins
University Press ● Salaman, Graeme 1986: Working.
teorias evolucionárias.
Londres: Tavistock ● Taylor, Frederick Winslow
Ver também EVOLUÇÃO SOCIAL; MATERIALIS- 1911: The Principles of Scientific Management. Nova
MO CULTURAL; PERSPECTIVA FUNCIONALISTA. York: Harper and Row.
Leitura sugerida: Malinowski, Bronislaw 1944: A
Scientific Theory of Culture and Other Essays. Cha- adolescência Adolescência é o estágio no
pel Hill: University of North Carolina Press / (1983): CURSO DE VIDA que separa a infância da vida
Uma teoria científica da cultura. Rio de Janeiro: adulta. Trata-se de fenômeno relativamente re-
Zahar ● Parsons, Talcott, Robert F. Bales, e Edward cente, datando de fins do século XIX e encontrado
A. Shils 1953: Working Papers in the Theory of sobretudo nas sociedades industriais. Nas socie-
Action. Glencoe, Il.: Free Press ● Parsons, Talcott, e
dades não-industriais, crianças tornam-se econo-
Neil J. Smelser 1956: Economy and Society. Nova
micamente produtivas em idade relativamente jo-
York: Free Press ● Spencer, Herbert 1876-96 (1925-
vem e a puberdade vem a ser muitas vezes a
29): The Principles of Sociology. 3 vols. Nova York:
D. Appleton. ocasião de assumir o status pleno de adulto. Nas
sociedades industriais, contudo, o período anterior
à vida adulta é prolongado bem depois da puber-
administração científica A dm i nistra ção dade e, não raro, até princípios da casa dos vinte
científica é o empenho sistemático em analisar o anos. Esse fato permite que os jovens se preparem
trabalho para identificar a maneira mais eficiente para as necessidades relativamente sofisticadas
de realizar uma dada tarefa. A teoria surgiu em dos empregos industriais e os impede de competir
1911 na obra de F.W. Taylor (e daí ser freqüente- por cargos com os adultos. Mais do que considerar
mente chamada de taylorismo). Taylor comparou a adolescência como inerente ao processo de enve-
o corpo humano a uma máquina e realizou estudos lhecimento, os sociólogos a vêem como um pro-
de tempo e movimento a fim de determinar o modo duto da organização social.
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mais eficiente de utilizá-lo. O taylorismo esteve Ver também ENVELHECIMENTO; FAIXA ETÁRIA.

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6 AFINIDADE

Leitura sugerida: Elkind, David 1984: All Grown tamente porque tendem a ser desorganizados, ca-
up and No Place to Go: Teenagers in Crisis. Reading, recer de coesão social e constituem, por isso mes-
MA: Addison-Wesley ● Hall, G. Stanley 1904: Ado- mo, uma fonte importante de COMPORTAMENTO
lescence: Its Psychology and its Relations to Physio- COLETIVO, tais como distúrbios de rua e ação de
logy, Anthropology, Sociology, Sex, Crime, Religion, multidão. Explicar esses fenômenos é, claro, mui-
and Education. Nova York: Appleton ● Mead, Mar- to difícil, uma vez que raramente se pode prevê-los
garet 1928 (1961): Coming of Age in Samoa: A Psy- e, portanto, são de observação problemática.
chological Study of Primitive Youth for Western Civi-
Ver também CATEGORIA SOCIAL; COLETIVI-
lization. Nova York: Morrow.
DADE; GRUPO; NÍVEL DE ANÁLISE; STATUS.

afinidade ver PARENTESCO.


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alienação Da forma desenvolvida por Karl


MARX e outros autores, a alienação é um conceito
afluente, trabalhador ver ABURGUESA- que se refere simultaneamente a um estado psico-
MENTO.
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lógico encontrado em indivíduos e, mais impor-


tante, a um estado social que o gera e o promove.
agregado A palavra agregado tem dois signifi- O trabalho alienado, por exemplo, refere-se não
cados em sociologia. No primeiro sentido, um tanto ao estado psicológico de trabalhadores que
agregado é a soma de características, experiências se sentem alienados mas sim a sistemas econômi-
e comportamentos individuais, usada para expres- cos, como o CAPITALISMO, que são organizados
sar um fenômeno coletivo de toda uma população. de maneiras que alienam os trabalhadores de seu
Se somarmos todos os atos individuais de suicídio trabalho. Em outras palavras, é mais o trabalho do
que ocorrem em um ano, por exemplo, o resultado que o trabalhador que é o alienado, e é o trabalho
é um agregado que nos diz algo sobre a sociedade alienado que afeta a maneira como o indivíduo se
em que eles ocorreram. O agregado pode ser apre- sente.
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sentado na forma de um índice — tal como 8,5 Marx argumentava que a alienação é resultado
suicídios por 100.000 indivíduos na Inglaterra e da posse privada do capital e do emprego de
no País de Gales, em comparação com 12,3 nos trabalhadores por salário, um arranjo que concede
Estados Unidos e 15,1 na Noruega. De forma a estes pouco controle sobre o que fazem. A alie-
análoga, a percentagem de crianças que residem nação ocorre primeiro na relação rompida entre
com ambos os pais, idade média de casamento ou trabalhadores e trabalho. No sentido mais comple-
o produto nacional bruto são agregados.
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to, produzir alguma coisa implica um processo
No segundo sentido, o agregado é um conjunto humano complexo, que se inicia com idéias sobre
de pessoas que se pode considerar como um todo o que fazer e como fazer. Dessa situação segue-se
simplesmente porque estão no mesmo lugar, na uma unidade de mente e corpo, à medida que a
mesma ocasião. Pedestres que andam por uma rua, idéia adquire forma no processo de execução. Sob
por exemplo, formam um agregado. O que dis- o capitalismo, contudo, tal processo é rompido,
tingue os agregados de outros conjuntos de pes- porque os que produzem bens não têm voz sobre
soas (tais como GRUPOS e CATEGORIAS SOCIAIS) o que produzir e como produzir.
é o fato de que tudo de que se necessita para um A alienação ocorre também na relação inter-
agregado existir é a proximidade física, pouco rompida entre operários e o produto de seu traba-
importando o que reúne as pessoas. Os agregados, lho, já que eles não exercem controle sobre o que
em geral, carecem de senso de organização; seus é feito com o mesmo. Uma vez que o senso de self
membros normalmente não possuem senso de in- fundamenta-se até certo ponto na integridade do
tegração e não interagem com muita freqüência. trabalho do indivíduo, Marx argumenta que a pro-
Embora os membros de uma multidão possam dução capitalista rompe também essa conexão, o
compartilhar características sociais tais como na- que resulta na tendência de os trabalhadores se
cionalidade, raça ou religião, não são elas que os distanciarem do trabalho, vivenciando-o como
tornam um agregado. uma tarefa enfadonha (se não como uma prova-
Em um sentido mais técnico, o agregado é um ção) a ser suportada até o apito final ou a chegada
conjunto de pessoas que compartilham do mesmo do fim de semana. Finalmente, Marx argumenta
STATUS SITUACIONAL, no mesmo tempo e lugar. que a alienação do self está ligada à alienação
Os agregados são importantes em sociologia exa- de outras pessoas.

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AMBIENTE 7

Indivíduos que participam de sistemas sociais Em tempos mais recentes, o altruísmo subiu a
alienados tendem a se sentir como dentes de uma primeiro plano no debate sobre a SOCIOBIOLOGIA
engrenagem — isolados e desligados dos demais, e sua relevância para a vida social. Ao argumentar
do self, e de um trabalho significativo, no qual que a vida social tem base biológica, por exemplo,
possam vivenciar a si mesmos como seres huma- alguns sociobiólogos afirmaram a existência de
nos completos, integrados, cuja vida tenha uma um “gene altruístico” que explicaria a tendência
finalidade. Uma vez que Marx acreditava que o para o altruísmo encontrada em membros indivi-
âmago da condição de sentir-se humano é o traba- duais de comunidades. Seguidores dessa opinião
lho significativo, através do qual o homem modela distanciaram-se desde então da mesma e reco-
e transforma o meio ambiente, ele considerava o nheceram a importância suprema dos fatores so-
capitalismo como uma maneira de organização ciais na explicação de fenômenos sociais como o
social que o desumaniza ao solapar a essência da altruísmo.
própria espécie. Nos sistemas alienados, indiví- O conceito de altruísmo é encontrado também
duos não trabalham porque experimentam satisfa- em estudos sociológicos sobre como pessoas esco-
ção ou senso de conexão com o processo vital, mas lhem maneiras de se relacionar com outras através
para ganhar o dinheiro de que necessitam para de COMPETIÇÃO E COOPERAÇÃO, EXPLORAÇÃO,
satisfazer suas necessidades. O trabalho alienado, troca e compartilhamento. Esse fato foi particular-
portanto, transforma-se em rotina, em atividade mente importante para o desenvolvimento da TEO-
mecânica dirigida por outras pessoas e que serve RIA DA TROCA.
meramente como meio para um fim. O trabalhador Ver também FATO SOCIAL; RELAÇÃO DE DÁ-
e seu trabalho transformam-se em pouco mais do DIVA; SOCIOBIOLOGIA; TEORIA DA TROCA.
que mercadorias compradas e vendidas nos mer-
cados de trabalho. Leitura sugerida: Dovidio, John F. 1984: “Helping
behavior and altruism: An empirical and conceptual
Leitura sugerida: Blauner, Robert 1964: Alienation overview”. Advances in Experimental Social Psycho-
and Freedom. Chicago: University of Chicago Press logy, vol.17, org. por L. Berkowitz. Nova York: Aca-
● Marcuse, H. 1964 (1982): Ideologia da sociedade demic Press ● Durkheim, Émile 1897 (1969): Le sui-
industrial. Rio de Janeiro: Zahar / (1964): One-Di- cide, étude de sociologie. Paris: Félix Alcan; PUF /
mensional Man: the Ideology of Industrial Society. (1982): O suicídio. Rio de Janeiro: Zahar / (1963):
Londres: Routledge & Kegan Paul; Boston: Beacon Suicide: a Sociological Study. Nova York: Free Press;
Press ● Marx, K. 1844 (1985): Manuscritos econômi- Londres: Routledge & Kegan Paul ● Pilavian, Jane
co-filosóficos e outros textos escolhidos. São Paulo: A., e Hongwn, Charng 1990: “Altruism: A review of
Abril Cultural / (1967): Economic and Philosophical recent theory and research”. Annual Review of Socio-
(Paris) Manuscripts. Moscou: Progress ● Ollman, B. logy.
1971: Alienation: Marx’s Critique of Man in Capita-
list Society. Cambridge: Cambridge University Press.
amálgama ver CONTATO CULTURAL.
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alinhamento ver AÇÃO DE ALINHAMENTO E


DE REALINHAMENTO.
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ambiente Genericamente, um ambiente é qual-
quer conjunto de coisas, forças ou condições em
relação com algo que existe ou ocupa um lugar.
alteridade ver OUTRO.
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Sociólogos, especificamente, distinguem entre


ambientes naturais físicos e ambientes sociais. Os
altruísmo Altruísmo é a tendência a considerar últimos incluem tanto a cultura material (como
as necessidades dos outros como mais importantes edificações e computadores) e as características
do que as próprias e, por conseguinte, estar dispos- culturais e estruturais abstratas de sistemas sociais
to a sacrificar-se por eles. Sociologicamente, o que determinam e moldam os termos em que a
conceito ocorre em vários contextos diferentes. vida social é vivida. Na medida em que a maior
Émile Durkheim considerava o altruísmo como contribuição da sociologia para se compreender o
uma das razões dos padrões de suicídio em certas comportamento humano incide na influência de
sociedades, nas quais pessoas se identificam de fatores externos sobre os individuais, a existência
maneira tão forte com um grupo ou comunidade de vários tipos de ambiente é um requisito essen-
que se sacrificam tranqüilamente para defender cial que subjaz a todo trabalho sociológico.
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seus interesses ou sustentar suas tradições.


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A Ver também ECOLOGIA.

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8 AMOSTRA

amostra Uma amostra é qualquer subconjunto veram grande variedade de modelos de amos-
de uma POPULAÇÃO selecionado para representar tra que, apesar de não serem rigorosamente aleató-
e gerar inferências sobre a mesma. Como técnica rias, constituem aproximações que produzem ní-
de pesquisa, a amostragem foi usada inicialmente veis aceitáveis de erro que são muito compensados
em estudos agrícolas como forma de estimar ren- pelos melhoramentos em praticidade e custo.
dimentos de culturas sem ter que medir todas elas. Ver também AMOSTRA COMPLEXA; AMOSTRA
Hoje em dia, as técnicas de amostragem são am- SISTEMÁTICA; ERRO; ERRO AMOSTRAL.
plamente usadas nas ciências sociais a fim de
reunir informações sobre populações grandes e
complexas, sem a despesa de realização de um amostra complexa Uma amostra complexa
CENSO.
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(ou de múltiplos estágios) é um subconjunto de
Embora a amostragem seja um processo que população selecionado em mais do que um único
inevitavelmente gera ERRO (como acontece com estágio. Quando fazem amostragens de popula-
qualquer outro método de observação), os resulta- ções grandes e complexas, como uma área urbana
dos, quando utilizados procedimentos científicos, ou um país inteiro, por exemplo, os pesquisadores
são em geral bastante precisos e implicam níveis em geral selecionam a amostra em estágios, come-
de erro que se tornam mais do que justificados pela çando com as unidades mais numerosas e traba-
economia de tempo e de dinheiro. Na verdade, lhando a partir delas em ordem decrescente até as
numerosos estudos de interesse sociológico se- unidades finais (tais como unidades familiares ou
riam impossíveis sem o uso de amostras. pessoas) selecionadas para observação. A fim de
Ver também AMOSTRA COMPLEXA; AMOSTRA fazer uma amostragem de alunos de escolas secun-
ALEATÓRIA SIMPLES; AMOSTRAGEM APT; AMOS- dárias de um país, os pesquisadores poderiam
TRAGEM DE COTA; AMOSTRAGEM DESPROPOR- começar com a seleção aleatória de uma amostra
CIONAL; ERRO AMOSTRAL; SISTEMA DE AMOS- de cidades grandes e pequenas (para assegurar
TRAGEM. representação geográfica) e em seguida, dentro
das cidades, grandes e pequenas, selecionar uma
Leitura sugerida: Kish, Leslie 1965: Survey Sam- amostra das escolas. Selecionadas estas, poderão
pling. Nova York: Wiley ● Singleton, Royce A., em seguida fazer o mesmo com os estudantes que
Bruce C. Straits, e Margaret M. Straits 1993: Ap- serão entrevistados.
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proaches to Social Research, 2ªed. Oxford e Nova Note-se que, sem esse tipo de procedimento,
York: Oxford University Press.
seria muito difícil selecionar diretamente uma
amostra de estudantes, uma vez que montar tal
lista seria extremamente dispendioso, se não im-
amostra aleatória ver AMOSTRA ALEATÓ- possível. Com um modelo em multiestágios, a
RIA SIMPLES.
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lista dos estudantes é necessária apenas no estágio


final e mais simples, e somente no caso das escolas
nas quais eles serão efetivamente entrevistados.
amostra aleatória simples Um a amostra A amostra de conglomerado é um tipo de
aleatória simples é um modelo de AMOSTRA no amostra complexa usada para economizar tempo
qual seleções são feitas em uma população de de viagem e despesas na realização de levanta-
maneira que dê a todos os membros e a todas as mentos, sem incorrer em um aumento inaceitável
combinações de membros uma oportunidade igual de erros. Um modelo de amostra complexa, por
de serem escolhidos. A maneira clássica de sele- exemplo, poderia ser usado para entrevistar 2.000
cionar tal amostra consiste em atribuir um número residentes de Londres. Os pesquisadores poderiam
a cada membro da população e, em seguida, sele- usar inicialmente o mapa da cidade para selecionar
cionar a amostra escolhendo números em uma uma amostra de 2.000 quarteirões e, em seguida,
tabela numérica aleatória.
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A entrevistar um morador escolhido de forma alea-
Virtualmente toda a matemática da INFERÊN- tória em cada quarteirão. Esse procedimento, no
CIA ESTATÍSTICA supõe que os dados foram reu- entanto, exigiria que os entrevistadores visitassem
nidos com um modelo de amostra aleatória sim- 2.000 lugares diferentes na cidade. Como alterna-
ples, embora, na prática, essa condição seja mui- tiva, eles poderiam “conglomerar” entrevistas, se-
tas vezes impraticável e proibitivamente dispen- lecionando não 2.000, mas 400 quarteirões. Em
diosa. Como alternativa, pesquisadores desenvol- cada um deles, entrevistariam cinco moradores

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AMOSTRA SISTEMÁTICA 9

escolhidos aleatoriamente. Cada um desses con- a melhorar sua eficiência, o que equivale a dizer
juntos de cinco entrevistados é chamado de “con- que ela representará a população com a precisão
glomerado” e nos fornece um tamanho total da geralmente associada a amostras de maior tama-
amostra de 400 x 5 = 2.000. nho. A fim de selecionar uma amostra estratifi-
Pesquisa metodológica demonstrou que a cada, deve ser possível identificar os vários seg-
amostra de conglomerado justifica plenamente o mentos da população e deles retirar amostras se-
esforço. Ela reduz muito os custos do levantamen- paradas — condição esta que freqüentemente
to, ao mesmo tempo que introduz apenas um vo- não ocorre.
lume negligível de viés (tendendo a produzir
amostras que são mais homogêneas do que as Leitura sugerida: Kalton, Graham 1984: Introduc-
populações usadas para representar, uma vez que tion to Survey Sampling. Beverly Hills, CA: Sage
indivíduos que residem no mesmo quarteirão ten- Publications ● Kish, Leslie 1965: Survey Sampling.
Nova York: Wiley.
dem a se parecer mais entre si do que pessoas que
vivem em quarteirões diferentes). O erro adicio-
nal, no entanto, é pequeno e pode ser estimado amostra sistemática Uma amostra sistemá-
estatisticamente e corrigido mais tarde. tica é um modelo no qual uma lista da POPULAÇÃO
Ver também AMOSTRA; AMOSTRA ESTRATIFI- é usada como SISTEMA DE AMOSTRAGEM e os
CADA. casos são selecionados “saltando-se” pela lista a
intervalos regulares. Se a população consiste de
Leitura sugerida: Kalton, G. 1984. Introduction to
1.000 pessoas, por exemplo, e queremos selecio-
Survey Sampling. Beverly Hills, CA: Sage Publica-
nar uma amostra de 250, escolheremos cada quarta
tions ● Kish, Leslie 1965: Survey Sampling. Nova
York: Wiley.
pessoa na lista, após selecionar aleatoriamente um
ponto de partida entre 1 e 4. Esse “intervalo de
salto” é encontrado dividindo-se o tamanho da
amostra de conglomerado ver AMOSTRA população pelo tamanho da amostra, neste caso,
COMPLEXA.
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1.000/250 = 4. Se escolhêssemos o terceiro caso
como ponto de partida, selecionaríamos os casos
seguintes para a amostra: 3, 7, 11, 15, 19, 23, 27,
amostra de múltiplos estágios ver AMOS- 31, 35... 987, 991, 995, 999. Se o intervalo de salto
TRA COMPLEXA.
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não for um número inteiro, seguiremos o mesmo
processo, mas arredondaremos nossas seleções
para cima ou para baixo até o número inteiro mais
amostra estratificada Uma amostra estrati- próximo como etapa final.
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ficada é um modelo de amostragem no qual AMOS- A amostragem sistemática supõe que a lista foi
TRAS semelhantes são retiradas de diferentes seg- “bem embaralhada”, o que significa que não há
mentos de uma POPULAÇÃO a fim de assegurar tendências claras tais como organizar os dados por
representação proporcional de cada segmento na idade, renda ou educação, ou que uma caracterís-
amostra geral. Se estamos tirando uma amostra de tica se repita a intervalos regulares (um problema
estudantes em uma comunidade, por exemplo, conhecido como periodicidade). Se ocorrer orde-
queremos assegurar que cada nível seja repre- nação, haverá o perigo de se selecionar uma amos-
sentado em proporção à sua parcela na população tra viesada. Se a lista fosse organizada partindo dos
escolar. Para obter esse resultado, podemos es- mais jovens para os mais velhos, a seleção de um
tratificar a amostra por nível e selecionar amostras ponto de partida aleatório baixo resultaria em uma
separadas dentro de cada um deles, combinando- amostra que seria viesada para as idades mais
as no estágio final em uma única amostra. Dessa baixas, enquanto que escolher um ponto de partida
maneira, os vários níveis não podem ser sub ou alto teria o efeito oposto. Conforme demonstrou
super-representados, uma vez que seus números Blalock, o problema da periodicidade pode ser
relativos são determinados pelo próprio modelo da encontrado no exemplo de seleção de apartamen-
amostra. Em cada nível, ou estrato, os indivíduos tos em uma listagem de unidades em um grande
são, é claro, selecionados aleatoriamente para in- prédio. Se certos tipos de apartamentos (como as
clusão.
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A unidades de esquina) ocorrem a intervalos regu-
De modo geral, a estratificação é um aspecto lares na lista, então, dependendo do ponto de
desejável em um modelo de amostra porque tende partida aleatório selecionado, poderemos terminar

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10 AMOSTRAGEM APT

com uma amostra na qual as unidades de esquina amostra final apresentar as proporções corretas de
são sub ou super-representadas, variando de ne- indivíduos com essas várias características, pouco
nhuma unidade de esquina a nada mais que uni- importa quais indivíduos os entrevistadores sele-
dades de esquina. cionam.
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Embora amostragens de cota possam gerar


Leitura sugerida: Blalock, Hubert M. Jr. 1979: So-
resultados com um grau considerável de precisão,
cial Statistics, 2ªed. Nova York: McGraw-Hill ● Sin-
não há razão científica para esperá-lo, uma vez que
gleton, Royce A., Bruce C. Straits e Margaret M.
não se baseiam em probabilidades conhecidas de
Straits 1993: Approaches to Social Research, 2ªed.
Oxford e Nova York: Oxford University Press.
seleção. Nenhum dos instrumentos matemáticos
sobre os quais se baseia a INFERÊNCIA ESTATÍS-
TICA, por exemplo, pode ser usado com amostras
de cota porque elas não satisfazem nenhum dos
amostragem APT A amostragem de probabili-
pressupostos teóricos associados a essas técnicas.
dades-proporcionais-ao-tamanho (APT) é um mode-
Nessas condições, as amostras de cota têm escassa
lo de AMOSTRA COMPLEXA no qual em cada nível
legitimidade na pesquisa séria e são usadas prin-
de amostragem a probabilidade de uma unidade
cipalmente em pesquisa de mercado como medida
ser selecionada é diretamente proporcional a seu
que reduz custos.
tamanho. Em uma amostra de conglomerado de
uma cidade, por exemplo, quanto maior o quartei- Ver também AMOSTRA; ESTATÍSTICA.
rão, maior o número de conglomerados — e, por
conseguinte, de respondentes — que nele serão
selecionados. É mais provável, portanto, que in- amostragem de eficiência A eficiência da
divíduos que vivem em um grande quarteirão amostragem é o grau de precisão que o modelo de
sejam selecionados do que outros que vivem em uma AMOSTRA proporciona em relação ao seu
um menor. Uma vez que o quarteirão é seleciona- tamanho. Se dois modelos de amostra podem ser
do, porém, a probabilidade de cada família ou usados, por exemplo, para estimar uma média de
pessoa ser selecionada na amostra final é também população com o mesmo grau de precisão, a me-
proporcional ao tamanho do quarteirão, mas inver- nor das duas amostras é a mais eficiente. Dada a
samente. Neste estágio final da amostragem, pes- grande despesa de levantamento de amostras na
soas que residam em quarteirões maiores têm me- pesquisa sociológica, a eficiência é altamente
nos possibilidade geral de serem selecionadas do apreciada e tem levado ao desenvolvimento de
que indivíduos que vivem em quarteirões me- numerosas técnicas para melhorá-la.
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nores. Como resultado, as desigualdades em pro- Ver também AMOSTRA ESTRATIFICADA.


babilidades da seleção se cancelam e são as mes-
Leitura sugerida: Kalton, G. 1984: Introduction to
mas para todos os membros da população, o que
Survey Sampling. Beverly Hills, CA: Sage Publica-
constitui um requisito importante na amostragem
tions ● Kish, Leslie 1965: Survey Sampling. Nova
científica.
York: Wiley.
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Ver também AMOSTRA COMPLEXA.


Leitura sugerida: Kish, Leslie 1965: Survey Sam-
pling. Nova York: Wiley. amostragem desproporcional A amostra-
gem desproporcional é uma prática de pesquisa na
qual membros de um subgrupo da população são
amostragem de cota Uma amostragem de co- selecionados em maiores números do que seria
ta é um modelo de pesquisa no qual os entrevis- justificado por seu tamanho relativo na população.
tadores recrutam os respondentes de acordo com Essa prática é seguida com mais freqüência nos
um conjunto de diretrizes que resultarão em uma casos em que os pesquisadores estão interessados
amostra global com certas proporções de pessoas em subgrupos que compreendem uma pequena
dotadas de várias características sociais. O requi- parte da população total.
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sito pode ser, por exemplo, gerar um conjunto de Nas escolas de engenharia, por exemplo, as
entrevistas que sejam uniformemente divididas mulheres constituem uma pequena percentagem
entre mulheres e homens, contenham certas per- de todos os estudantes. Se tirássemos uma amostra
centagens de indivíduos de raças diferentes, de de 1.000 estudantes, o número resultante de mu-
grupos etários, e assim por diante. Enquanto a lheres seria estatisticamente pequeno demais para

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ANÁLISE DE APROVEITAMENTO DO TEMPO 11

justificar tirar conclusões sobre elas como grupo. B. Rosenberg, I. Bernard e F. Howlen. Nova York:
A fim de compensar esse fato, podemos tirar uma Free Press.
amostra desproporcional de mulheres engenhei-
ras, colhendo uma amostra muito mais ampla delas
como parte da amostra geral.
amplitude Em uma DISTRIBUIÇÃO de escores,
a amplitude é uma medida da variação que leva em
Se em seguida usamos essa amostra para fazer
conta simplesmente a diferença entre os escores
declarações sobre todos os estudantes de enge-
mais altos e mais baixos. Se a pessoa mais velha
nharia, porém, as mulheres serão super-represen-
em um grupo tem 110 anos de idade e a mais jovem
tadas. Podemos corrigir esse viés através do uso
18, então a amplitude da VARIÁVEL idade é de
de PESOS DE AMOSTRAGEM.
(110-18) = 92. A amplitude é uma medida relati-
Ver também AMOSTRA. vamente grosseira de variação porque usa apenas
Leitura sugerida: Kalton, Graham 1984: Introduc-
dois escores na distribuição, mas pode fornecer
tion to Survey Sampling. Beverly Hills, CA: Sage informações úteis. A amplitude da renda associada
Publications ● Kish, Leslie 1965: Survey Sampling. a uma ocupação, por exemplo, proporciona uma
Nova York: Wiley. idéia significativa do grau de desigualdade entre
os que a exercem, bem como o potencial de pro-
moção.
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ampliação de desvio A ampliação de desvio Ver também VARIÂNCIA.


é uma situação que ocorre quando a resposta social
a comportamento anormal — pela polícia e pela Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
mídia, por exemplo — produz o efeito de aumentar Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed.
o desvio, e não limitá-lo. Suponhamos que a mídia Ithaca, IL: F.E. Peacock.
americana concentre-se fortemente no problema
do crime nas cidades, especialmente no tráfico de análise de aproveitamento do tempo Uma
drogas. Uma vez que é maior a probabilidade de análise de aproveitamento do tempo é um registro
que negros sejam presos por crimes do que bran- por escrito da maneira como pessoas empregam
cos, seria relativamente fácil para a mídia recair seu tempo. A técnica pode variar da manutenção
em estereótipos raciais e identificar os negros co- de um diário detalhado a relembrar o passado em
mo os principais autores de crimes. Essa situação, uma entrevista. É usada para estudar uma grande
por seu lado, pressiona a polícia a focalizar seus variedade de problemas sociológicos. Em algumas
esforços nos bairros negros, deter na rua e passar sociedades industriais o aproveitamento do tempo
revista em negros e seus carros, na possibilidade tem sido usado para acompanhar mudanças na
de que drogas possam ser encontradas, a dar bus- divisão do trabalho na família como reação ao
cas em seus apartamentos ao menor pretexto de movimento feminista e ao aumento da participa-
conduta ilegal. Os brancos tornam-se cada vez ção das mulheres na força de trabalho. Na maior
mais temerosos da proximidade dos negros, pas- parte, esses estudos revelam que a participação do
sam menos tempo no centro da cidade e contri- homem no trabalho doméstico não aumenta quan-
buem para a decadência econômica e social do mes- do a esposa trabalha fora. Ao invés disso, o volume
mo. Os negros se sentem cada vez mais isolados, total desse trabalho declina à medida que a esposa
sitiados, ameaçados e, talvez, se tornem contestado- aumenta seus compromissos fora de casa. Como
res em relação à polícia e outras autoridades. O resultado, aumenta a percentagem de todo traba-
resultado final pode ser uma ampliação do compor- lho doméstico realizado pelo homem, mas não por
tamento desviante, gerado por respostas sociais que causa de sua maior participação.
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tinham intenção de controlá-lo.


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O conceito de ampliação de desvio tem sido Leitura sugerida: Oakley, Ann 1974: Woman’s
aplicado a numerosos grupos, variando de usuá- Work: The Housewife, Past and Present. Nova York:
rios de drogas a pessoas que sofrem de AIDS. Pantheon ● Sorokin, Pitirim, A., e Clarence Q. Berger
Ver também TEORIA DAS ROTULAÇÕES. 1939: “Time-Budges of Human Behavior”. Harvard
Sociological Studies, vol.2. Cambridge: Harvard
Leitura sugerida: Wilkins, L.T. 1964: Social De- University Press ● Thompson, L., e A.J. Walker
viance: Social Policy, Action, and Research. Londres: 1989: “Women and men in marriage, work, and pa-
Tavistock Ο 1965: “Some sociological factors in drug renthood”. Journal of Marriage and the Family, 51:
addiction control”. In Mass Society in Crisis, org. por 845-72.

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12 ANÁLISE DE CONGLOMERADOS

análise de conglomerados A análise de con- Embora a análise de conteúdo possa assumir


glomerados é uma técnica estatística usada para uma forma quantitativa relativamente objetiva
identificar de que maneira várias unidades, tais (como na contagem do número de personagens
como indivíduos, organizações ou sociedades po- femininos e masculinos em um livro ou a percen-
dem ser agrupadas ou “conglomeradas” devido às tagem de notícias de primeira página em jornais
características que têm em comum. Se estudarmos que focalizam mulheres), na prática geral ela tende
sociedades, por exemplo, veremos que as ricas a ser mais subjetiva do que outros métodos de
tendem também a exibir DIVISÕES DO TRABALHO pesquisa, a menos que seja feita com muito cuida-
complexas, possuir aguerridas forças militares, do. Pesquisadores, por exemplo, precisam especi-
base industrial diversificada, instituições políticas ficar o que procuram e estabelecer categorias cla-
relativamente democráticas e populações educa- ras, nas quais possam classificar suas observações.
das. Nessa base, poderíamos incluir sociedades Ver também ANÁLISE SECUNDÁRIA.
como Grã-Bretanha, Japão, França, Estados Uni-
dos, Alemanha e Itália como pertencendo ao mes- Leitura sugerida: Holsti, O.R. 1969: Content Ana-
mo “conglomerado”. Em contraste, sociedades lysis for the Social Sciences and Humanities. Rea-
ding, MA: Addison-Wesley ● Weber, R.P. 1985: Ba-
como China, Uganda e Nicarágua tendem a se
sic Content Analysis. Beverly Hills, CA: Sage Publi-
aglomerar em torno de um conjunto de caracterís-
cations.
ticas muito diferentes, incluindo baixos níveis de
riqueza, divisões do trabalho mais simples, depen-
dência da produção de matérias-primas e produtos análise de conversação ver ETNOMETODO-
agrícolas, instituições políticas relativamente ins- LOGIA.
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táveis e antidemocráticas, baixo desenvolvimento


tecnológico, e assim por diante.
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Como procedimento estatístico, esse tipo de análise de regressão A análise de regressão


análise inclui um conjunto de técnicas usadas para é uma técnica estatística para descrever e analisar
identificar conglomerados em uma série de dados. relações entre uma VARIÁVEL dependente e uma
No sentido mais geral, constitui uma maneira de ou, com a regressão múltipla, duas ou mais variá-
identificar “tipos”, sejam eles tipos de sociedades, veis independentes. A fim de usar a análise de
indivíduos ou organizações. regressão, as variáveis devem estar na escala ra-
zão ou na escala intervalo, o que significa que
Ver também ANÁLISE FATORIAL.
devem assumir naturalmente a forma de números
Leitura sugerida: Everitt, Brian 1980: Cluster Ana- (tais como renda ou idade). Uma exceção à essa
lysis, 2ªed. Londres: Heinemann ● Sokal, Robert R., regra é qualquer variável que assuma a forma de
e Peter H.A. Sneath 1963: Principles of Numerical uma DICOTOMIA, tal como sexo, ou uma variável
Taxonomy. São Francisco: Freeman. de multicategoria, como educação, que se reduz
a duas categorias tais como “menos que estudo
universitário” ou “algum ou mais do que estu-
análise de conteúdo A análise de conteúdo é do universitário”.
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um método de pesquisa usado para analisar a vi- A análise de regressão é melhor compreendida
da social mediante interpretação de palavras e na figura abaixo, em que a plotação da dispersão
imagens contidas em documentos, filmes, obras mostra a relação entre duas variáveis: a percenta-
de arte, música e outros produtos culturais e da gem de uma população que é alfabetizada (X) e a
mídia. Tem sido usada amplamente, por exemplo, sua expectativa de vida (Y). Cada ponto no gráfico
para estudar o lugar da mulher na sociedade. Es- representa um país, e a localização (ou coordena-
tudos de livros escolares revelam que os persona- das) de cada ponto é determinada por seu nível de
gens em histórias ou exemplos tendem a ser do expectativa de vida (no eixo vertical) e a percen-
sexo masculino, especialmente quando o persona- tagem da população alfabetizada (no eixo horizon-
gem é dominante, ativo ou heróico. Na publici- tal). Como se pode ver, há uma tendência para que
dade, mulheres em geral são mostradas como su- os países baixos em X sejam também baixos em
bordinadas, muitas vezes através de seu posicio- Y e para que países altos em X o sejam também
namento físico inferior em relação ao homem ou em Y (não há pontos nos cantos superior esquerdo
da natureza experimental, não-assertiva, de sua e inferior direito). Há, portanto, uma relação posi-
postura e gestos.
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A tiva entre alfabetização e expectativa de vida:

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ANÁLISE DE REGRESSÃO 13

quanto mais alto o nível de alfabetização, mais Se aplicamos a técnica estatística de análise de
tempo, em média, tende o indivíduo a viver. regressão linear ao caso mostrado na figura, a
A análise de regressão utiliza uma equação equação resultante é Y=41,5+0,3X. Isso significa
matemática para descrever esse tipo de relação. Na que se queremos estimar a expectativa de vida de
regressão linear, a equação descreve a linha reta um país, nossa melhor aposta é tomar 41,5 anos e
que, em média, proporciona simultaneamente uma adicionar a isso 0,3 multiplicado pela percentagem
“aderência” a todos os pontos. Há uma única linha de alfabetizados nesse país. Se 75 por cento da po-
desse tipo que é conhecida como linha de regres- pulação é alfabetizada, a melhor estimativa de
são de mínimos quadrados. Seu nome deriva do expectativa de vida seria Y=41,5+(0,3)(75)=64
fato de que se medirmos a distância vertical entre anos. Se a percentagem de alfabetizados for 10
a linha e cada ponto no gráfico (denominado resí- pontos mais alta, neste caso, uma vez que a decli-
duo), elevarmos ao quadrado cada distância e as vidade é de 0,3, teremos que aumentar nossa esti-
somarmos, o total será menor no caso dessa linha mativa em 0,3 anos por cada percentagem adicio-
do que de qualquer outra. Daí, é a linha que melhor nal de alfabetizados ou por outros (0,3)(10)=3
“adere” aos dados. pontos. A estimativa resultante seria então de 67
A forma geral da equação é Y ^ =a+bX, na qual anos.
^
Y é o valor previsto da variável dependente e X é Uma vez que as coordenadas no caso da maio-
o valor da variável independente. O sinal de inter- ria dos países (os pontos no gráfico de dispersão)
polação (^) sobre o Y indica que é um valor não se situam diretamente sobre a linha, nossa
esperado, e não um valor real. A constante de estimativa, com toda probabilidade, incorrerá em
regressão (conhecida também como intercepção- algum grau de erro, ao passo que usar a linha de
Y), que é representada por a na equação, informa- regressão nos dá estimativas que, no longo prazo,
nos do valor de Y quando X tem um valor de zero. implicam o menor volume de erro. Devido a esse
É também o ponto em que a linha corta o eixo fato, a equação é às vezes montada como
vertical (Y). O coeficiente de regressão (ou decli- Y=a+bX+e, onde e representa o erro associado a
vidade), que é representado por b na equação, cada predição. Note-se que Y não tem mais sinal
informa-nos até que ponto o valor de Y muda com de interpolação, uma vez que não representa mais
cada modificação em X. uma estimativa. Uma vez que incluímos o erro no

Figura 1. Gráfico de dispersão com linha de regressão representando a relação entre expectativa de vida
(x) e percentagem de indivíduos alfabetizados (y) em vários países, em princípios da década de 1980.
Fonte: US Census Bureau, 1989.

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14 ANÁLISE DE SEQÜÊNCIA

termo direito da equação, o valor real de Y é nesse para avaliar modelos causais mediante exame das
momento representado no termo esquerdo. relações entre uma VARIÁVEL dependente e duas
Uma forma mais complicada de análise de ou mais variáveis independentes. Os efeitos de
regressão é a regressão múltipla, em que duas ou cada variável independente sobre a dependente
mais variáveis independentes são usadas simulta- são mostrados direta e indiretamente através de
neamente para estimar o valor de uma variável outras variáveis independentes.
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dependente. A fim de estimar renda pessoal, por A análise de seqüência possui dois requisitos
exemplo, poderíamos usar variáveis independen- principais. Em primeiro lugar, todas as relações
tes como anos de escolaridade (X1), escore de causais entre variáveis devem tomar uma única
prestígio ocupacional (X2) e sexo (X3). A equa- direção, o que significa que não podemos ter um
ção teria então a seguinte forma: par de variáveis que sejam a causa uma da outra.
^ = a+b1X1+b2X2+b3X3
Y Em segundo, as variáveis precisam ter uma clara
No caso de uma relação que parece mais uma ordenação temporal, uma vez que não se pode
curva do que uma linha reta, a regressão curvili- dizer que uma cause outra, a menos que a preceda
near pode ser usada. De modo geral, as técnicas no tempo.
curvilineares são de uso e interpretação mais com-
Um diagrama de seqüência típico é mostrado
plicados e menos usadas em sociologia do que as
técnicas lineares. na figura 2. A variável dependente (renda) está no
lado direito. De acordo com esse modelo variações
Embora a linha de regressão dos mínimos qua-
drados seja a linha que melhor se ajusta a um na renda de mulheres americanas empregadas são
conjunto de dados, isso não significa que se ajuste devidas a seis fatores — diretamente pelo prestígio
muito bem a eles. Para medir esse fato é necessá- ocupacional e pela educação (como mostram as
rio computar uma CORRELAÇÃO. setas) e diretamente pelo número de filhos, educa-
Ver também COVARIÂNCIA; PADRONIZAÇÃO. ção do pai, educação da mãe e prestígio ocupacio-
nal do pai (note-se que a educação de uma mulher
Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David tem efeitos diretos na renda e indiretos por seu
Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed. prestígio ocupacional). A educação da mãe afeta
Ithaca, IL: F.E. Peacock. a renda indiretamente, por exemplo, ao afetar a
educação e o número de filhos. A educação do pai
análise de seqüência A análise de seqüência e a ocupação da mãe são mostradas sem qualquer
é uma forma de ANÁLISE MULTIVARIADA usada variável por trás delas agindo como causa, o que

Figura 2. Diagrama de seqüência relativo à renda decorrente de prestígio ocupacional, educação, número
de filhos, educação do pai e da mãe, e prestígio ocupacional do pai, mulheres americanas empregadas, 25-64
anos de idade, 1972-76. Fonte: computado com base em dados reunidos de Pesquisa GENSOC, 1972-76.

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ANÁLISE DE VARIÂNCIA 15

as torna variáveis exógenas neste modelo. As se- Sociological examples”. American Journal of Socio-
tas curvas no lado esquerdo indicam que embora logy. 72: 1-16.
as variáveis que elas ligam sejam correlacionadas,
não há, por causa disso, qualquer sugestão de análise de séries cronológicas Em estatís-
relação causal entre elas. tica, a análise de séries cronológicas é qualquer
As setas vindo de fora do modelo (apontando conjunto de dados extraídos de populações com-
para educação, renda, prestígio e filhos) indicam paráveis a intervalos regulares de tempo, como por
a relação entre essas variáveis e todas as variáveis exemplo, anualmente, ou, no caso de um CENSO
não-incluídas no modelo. Os números junto às nacional típico, a cada cinco ou dez anos. Esse tipo
setas (0,83, 0,89, 0,79 e 0,93, respectivamente) são de análise tem sido usado para descrever ten-
coeficientes de correlação múltipla, indicando o dências em uma grande variedade de indicadores
quão forte essas variações são correlacionadas sociais, de OPINIÃO PÚBLICA a crime e TAXA DE
fora do modelo. Se esses números são inteiros, MORTALIDADE. Embora seja em geral usada para
indicam a percentagem de variação explicada pe- finalidades descritivas, a análise de séries crono-
los fatores fora do modelo. Nesse exemplo, lógicas tem sido cada vez mais empregada para
(0,89)2= 0,79 ou 79 por cento de variância em submeter a teste modelos causais.
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renda é explicado por variáveis externas, o que Ver também ESTUDO LONGITUDINAL; EXPLI-
significa que apenas 21 por cento é explicado por CAÇÃO CAUSAL E MODELO CAUSAL.
variáveis no modelo.
Os números nas setas retas indicam o impacto Leitura sugerida: Gottman, J.M. 1981: Time Series
que uma variável tem sobre outra, medido em Analysis. Cambridge: Cambridge University Press ●
unidades de desvio padrão. Por exemplo, a seta Marsh, C. 1988: Exploring Data. Cambridge: Polity
ligando educação e renda mostra que, para cada Press.
aumento em uma unidade padrão de desvio em
educação, há um aumento de 0,20 unidades de análise de variância A análise de variância
desvio de padrão em renda. Esses números são (conhecida também como ANOVA) é uma das mui-
mostrados como pesos beta ou coeficientes de tas técnicas estatísticas usadas para determinar
análise em seqüência, e nos permitem comparar a como uma variável se relaciona com outra. É
importância relativa de diferentes variáveis in- usada sobretudo em psicologia a fim de comparar
dependentes. Prestígio ocupacional, por exemplo, um ou mais grupos experimentais com um grupo
tem duas vezes mais impacto em renda do que a de controle e, ocasionalmente, empregada tam-
educação (0,42 versus 0,20). bém em sociologia.
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O efeito indireto de uma variável sobre outra é Suponhamos, por exemplo, que queremos sa-
encontrado multiplicando-se os coeficientes de ber como a estrutura de um grupo afeta seu de-
seqüência. O efeito direto da educação sobre a sempenho em uma tarefa de solução de problema.
renda, por exemplo, é 0,20; mas o efeito indireto Variamos a estrutura de pequenos grupos de modo
através do prestígio ocupacional é de (0,60) que alguns tenham líderes enquanto outros são
(0,42)= 0,25, em um efeito total de 0,20 + 0,25 = dirigidos democraticamente. Suponhamos, tam-
0,45. bém, que descobrimos que o tempo médio de que
Em contraste com técnicas como a análise de os grupos com líderes necessitam para solucionar
regressão múltipla, a análise de seqüência é teori- um problema é mais longo do que o tempo tomado
camente útil porque nos força a especificar as por grupos sem eles. A questão que a análise de
relações entre todas as variáveis independentes, variância se propõe a responder é a seguinte: o fato
resultando em um modelo mostrando os mecanis- de as médias diferirem em nosso experimento
mos causais através dos quais variáveis indepen- permite-nos concluir que a liderança faz uma di-
dentes produzem efeitos diretos e indiretos em ferença, além de nosso experimento na população
uma variável dependente. de grupos em geral?
Ver também EFEITO ESTATÍSTICO; MODELO; Para responder a essa pergunta, comparamos
PADRONIZAÇÃO; VARIÁVEL. duas coisas. Em primeiro lugar, examinamos gru-
pos iguais — isto é, todos os grupos que contam
Leitura sugerida: Blalock, Hubert M., org. 1971: com líderes, por exemplo, ou todos os que são
Causal Models in the Social Sciences. Chicago: Al- dirigidos democraticamente — e medimos quanto
dine ● Duncan, Otis Dudley 1966: “Path analysis: de variação existe entre eles em tempo de solução

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16 ANÁLISE FATORIAL

de problema. Em segundo lugar, comparamos gru- análise log-linear Em estatística, a análise log-
pos diferentes — grupos com líderes em compa- linear é uma forma de ANÁLISE MULTIVARIADA
ração com grupos democráticos — e verificamos elaborada para lidar com variáveis de escala no-
quanto de variação há entre eles. Se a estrutura do minal e ordinal. A maioria das técnicas multidi-
grupo faz uma diferença, então grupos com es- mensionais, tais como ANALISE DE REGRESSÃO e
truturas diferentes devem variar mais no tempo ANÁLISE DE SEQÜÊNCIA, requer variáveis de es-
necessário para solução de problemas do que gru- cala de intervalos ou escala de razão, as quais,
pos com a mesma estrutura. A análise de variância antes do desenvolvimento do método log-linear,
compara esses dois tipos de variação (daí o nome limitavam muito os tipos de MODELOS CAUSAIS
análise de variância) e se a primeira é substancial- que os sociólogos podiam construir e submeter a
mente maior do que a última, concluímos que as teste, sem ignorar pressupostos cruciais que pode-
diferenças observadas no experimento refletem riam tornar inexpressivos seus resultados. A técni-
diferenças na população em geral. ca aplica logaritmos à TABULAÇÃO CRUZADA, a
Ver também HIPÓTESE E TESTE DE HIPÓTESE; fim de submeter a teste modelos sucessivos até ser
VARIÂNCIA. encontrada a melhor explicação dos dados.
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Leitura sugerida: Agresti, Alan 1990: Categorical


análise fatorial Em ESTATÍSTICA, a análise fa- Data Analysis. Nova York: Wiley.
torial é uma técnica usada para substituir grande
número de VARIÁVEIS por um número menor de
“fatores” que refletem aquilo que os conjuntos de
análise multivariada Em estatística, a aná-
lise multivariada é uma técnica que envolve duas
variáveis têm em comum. A técnica foi desenvol-
ou mais VARIÁVEIS independentes em relação a
vida por Charles Spearman para identificar fatores
uma variável dependente. Ao tentar determinar as
básicos subjacentes a várias medidas de inteligên-
causas de variação na renda, por exemplo, pesqui-
cia. Ele argumentou que várias medidas de capa-
sadores costumam incluir grande diversidade de
cidade mental são correlacionadas porque refle-
variáveis independentes, tais como nível educa-
tem dois fatores básicos: 1) um nível geral de
cional, ocupação, raça, sexo e meio formativo
inteligência que afeta a capacidade da pessoa no
familiar (como a educação e ocupação dos pais).
trato de todos os tipos de problemas e 2) a inteli-
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A análise multivariada pode ser usada para


gência específica a certos tipos de problemas.
responder a grande número de perguntas dife-
Através da análise fatorial, Spearman tentava re-
duzir o que, de outra maneira, seria um número rentes, entre elas as seguintes: com que precisão
grande e intratável de resultados de testes de inte- podemos prever valores de uma variável depen-
dente, como a renda pessoal, utilizando infor-
ligência a alguns fatores básicos que explicavam
mações sobre certo número de variáveis indepen-
a maior parte da variação observada em capaci-
dentes? Que variável independente produz maior
dades individuais.
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efeito sobre a variável dependente? De que modo


A análise fatorial é usada principalmente de
as variáveis independentes se relacionam entre si
forma exploratória a fim de identificar o que existe
e de que maneira isso afeta o efeito de cada variá-
subjacente a um conjunto de variáveis de outra
vel independente sobre a dependente? De que
maneira frouxamente ligadas entre si. As medidas
modo os efeitos diretos das variáveis indepen-
das atitudes de pessoas em relação a questões
dentes sobre as dependentes se comparam com
sociais, como aborto ou raça, por exemplo, refle-
seus efeitos indiretos?
tem todas uma visão subjacente do mundo, tal
como tendência para intolerância com a diversi- As técnicas multivariadas tiveram rápido cres-
dade ou a mudança. cimento no uso sociológico, especialmente nos
Estados Unidos e sobretudo com o advento de
Ver também ANÁLISE DE CONGLOMERADOS.
computadores de alta velocidade, capazes de ana-
Leitura sugerida: Gorsuch, Richard L. 1984: Fac- lisar grandes conjuntos de dados, tais como pes-
tor Analysis, 2ªed. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum quisas de âmbito nacional.
● Lawley, D.N. e A.E. Maxwell 1971: Factor Analy- Ver também ANÁLISE LOG-LINEAR; ANÁLISE
sis as a Statistical Method. Londres: Butterworth ● DE REGRESSÃO; ANÁLISE DE SEQÜÊNCIA; ANÁ-
Spearman, Charles 1947: Multiple Factor Analysis. LISE DE VARIÂNCIA; EFEITO ESTATÍSTICO; MO-
Chicago: University of Chicago Press. DELO.

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ANOMIA 17

Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W. e David de manter um Estado coercitivo no período de


Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed. transição entre a queda do capitalismo e a emer-
Ithaca, IL: F.E. Peacock. gência do comunismo autêntico.
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Como movimento social, as várias correntes do


anarquismo foram mais ativas durante o século
análise secundária A análise secundária é a XIX e princípios deste século, sobretudo como
prática de analisar dados que foram reunidos por reação à ascensão do capitalismo industrial na
outras pessoas, não raro para finalidades inteira- Europa e nos Estados Unidos.
mente diferentes. Trata-se de método de pesquisa Ver também COMUNISMO; ECONOMIA COMU-
muito útil porque economiza tempo e dinheiro e NAL; ESTADO.
evita duplicação desnecessária do trabalho de pes- Leitura sugerida: Carter, A. 1971: The Political
quisa. O método, contudo, tem deficiências, já que Theory of Anarchism. Londres: Routledge and Kegan
os dados talvez não se ajustem exatamente às Paul ● Miller, D. 1984: Anarchism. Londres: Dent ●
necessidades dos pesquisadores que os analisam.
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Woodcock, G. 1963 (1986): Anarchism. 2ªed.,


As fontes de dados para a análise secundária Harmondsworth, Inglaterra: Penguin.
são cada vez mais variadas e extensas, sobretudo
porque institutos de pesquisas nacionais, órgãos
do governo, empresas e outras organizações conti- androcentrismo ver PATRIARQUIA.
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nuam a coletar muito mais informações do que


podem concebivelmente analisar com seus pró-
prios meios. Com a proliferação de computadores androcracia ver PATRIARQUIA.
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pessoais de alta velocidade, com grande capaci-


dade de armazenamento de dados, a análise de
informações sociológicas de alta qualidade está androginia ver SEXO E GÊNERO.
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hoje ao alcance da maioria dos sociólogos.


Ver também ANÁLISE DE CONTEÚDO; LEVAN-
TAMENTO. animismo Animismo é uma forma de religião
baseada na crença de que espíritos habitam seres
Leitura sugerida: Hyman, Herbert H. 1972: Secon- vivos e objetos sem vida, tais como árvores, ro-
dary Analysis of Sample Surveys. Nova York: Wiley. chas, nuvens, ventos ou animais. Os Mbuti da
África, por exemplo, consideram a floresta como
a fonte sagrada da morte e da vida. As religiões
anarquismo Embora o anarquismo e a anar- animistas incluem freqüentemente xamãs, figuras
quia sejam popularmente associados a vários tipos carismáticas que se acredita que possam comuni-
de desordem, eles possuem também um significa- car-se com espíritos e influenciá-los. Os xamãs
do mais limitado: a ausência de autoridade coerci- adquirem seu status especial em uma grande va-
tiva usada para manter a ordem social, em especial riedade de maneiras, incluindo experiências reli-
quando a autoridade é exercida pelo Estado. Os giosas de êxtase, tais como sonhos ou visões ins-
anarquistas, portanto, não são contrários a um piradoras, ou porque possuem características pes-
estilo de vida organizado, mas sim ao uso indevido soais que são definidas culturalmente como tendo
da coerção e da força para mantê-lo. Alguns anar- significação religiosa, como certas deformidades.
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quistas sustentam que o Estado infringe os direitos Ver também CULTO DOS ANTEPASSADOS.
dos indivíduos de viverem como querem. Comu-
nistas e anarquistas socialistas argumentam que o
Estado serve principalmente para defender os in- Annales ver ESCOLA DOS ANNALES.
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teresses da dominação e exploração capitalistas e


que, se a posse privada do capital e o trabalho
assalariado pudessem ser eliminados, as pessoas anomalia ver REVOLUÇÃO CIENTÍFICA.
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tenderiam naturalmente para arranjos sociais co-


letivos, cooperativos, nos quais a ordem poderia anomia A anomia é uma situação social onde
ser mantida sem a coerção de uma autoridade falta coesão e ordem, especialmente no tocante a
centralizada. A discórdia entre marxistas e anar- normas e valores. Se normas são definidas de
quistas surge da questão de se haveria necessidade forma ambígua, por exemplo, ou são implementa-

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18 ANOVA

das de maneira casual ou arbitrária; se uma cala- ANOVA


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A ver ANÁLISE DE VARIÂNCIA.
midade como a guerra subverte o padrão habitual
da vida social e cria uma situação em que se torna aparência e realidade Aparência e realida-
obscuro quais normas têm aplicação; ou se um de representam a distinção entre como a vida
sistema é organizado de uma forma que promove social nos parece e a realidade subjacente, que em
o isolamento e a autonomia do indivíduo ao ponto geral não percebemos. Trata-se de um tópico pelo
das pessoas se identificarem muito mais com seus qual Karl MARX, em sua análise da vida sob o
próprios interesses do que com os do grupo ou da CAPITALISMO, demonstrou um interesse todo es-
comunidade como um todo — o resultado poderá pecial. Nas sociedades capitalistas, por exemplo,
ser a anomia, ou “falta de normas”. indivíduos parecem ser livres para trabalhar onde
Émile DURKHEIM formulou o conceito de mais lhes agrada, em um mercado de trabalho
anomia como parte da explicação dos padrões de livre. Uma vez que ninguém é forçado a trabalhar
suicídio na Europa do século XIX. Argumentou para qualquer empregador, a democracia econô-
que as taxas de suicídio eram mais altas entre mica parece ser a regra. Por baixo dessa aparência,
protestantes do que entre católicos porque a cultu- no entanto, há a realidade de que a vasta maioria
ra protestante atribuía um valor muito mais alto à das pessoas não possui meios de produção — nem
autonomia e à auto-suficiência individual e, por ferramentas nem máquinas que possam usar para
conseguinte, tornava menos provável que pessoas ganhar a vida produzindo bens — e são obrigadas
desenvolvessem os tipos de laços comunais es- a vender seu tempo a alguém em troca de salário.
treitos que poderiam sustentá-las em ocasiões de Esse fato concede aos que possuem os meios de
crise emocional. Essa situação, por outro lado, produção um alto grau de poder coletivo — como
tornava-as mais suscetíveis ao suicídio. o de ditar condições de trabalho e taxas salariais
O conceito de anomia também foi aplicado ao —, porque empregadores sabem que, sob o capi-
estudo dos DESVIOS. Durante calamidades natu- talismo, os trabalhadores têm poucas alternativas
rais e guerras, por exemplo, não é raro que pessoas ao trabalho assalariado.
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infrinjam leis — como por exemplo, roubando — Da perspectiva de Marx, portanto, por baixo da
que nunca pensariam em transgredir em tempos aparência de um mercado de trabalho livre há a
“normais”. Esse fato resulta em perda de coesão realidade de um sistema relativamente limitado,
social e de clareza normativa na comunidade ou no qual empregadores capitalistas possuem alto
em toda a sociedade. grau de poder econômico coletivo em comparação
com os trabalhadores. A fim de compreender a
Embora a anomia seja muitas vezes usada para vida dos trabalhadores, argumentava Marx, temos
descrever a condição psicológica de um indivíduo, de levar em conta a realidade subjacente, e não as
sociologicamente ela descreve uma condição em aparências superficiais.
sistemas sociais como um todo. O que Durkheim Ver também CONSCIÊNCIA E FALSA CONSCIÊN-
descreveu como suicídio anômico era um padrão CIA DE CLASSE; IDEOLOGIA.
de comportamento que constituía resultado de
condições sociais anômicas — em outras palavras, Leitura sugerida: Abercrombie, Nicholas 1980:
características culturais e estruturais de sistemas Class, Structure, and Knowledge. Oxford: Blackwell
sociais que produziam baixa coesão e um conse- Publishers ● Marx, K. 1867 (1974): O capital, crítica
qüente senso fraco de apego dos membros às suas da economia política. Rio de Janeiro: Civilização
comunidades. Brasileira / (1976) Capital, vol.1. Harmondsworth:
Penguin.
Ver também ALIENAÇÃO; ESTRUTURA DE
OPORTUNIDADES.
apartheid O apartheid é um sistema centenário
Leitura sugerida: Durkheim, Émile, 1897 (1969): de separação social rígida e opressão na África do
Le suicide, étude de sociologie. Paris: Félix Alcan / Sul que terminou oficialmente com as primeiras
(1982): O suicídio. Rio de Janeiro: Zahar / (1963): eleições nacionais multirraciais em 1994. Embora
Suicide: a Sociological Study. Nova York: Free Press; os negros formassem a maioria esmagadora da
Londres: Routledge & Kegan Paul ● Merton, Robert população, negava-se a eles os direitos políticos e
K. 1938: “Social structure and anomie”, American civis, eram separados dos brancos em virtual-
Sociological Review 8: 672-82 Ο 1968: Social Theory mente todos os aspectos da vida social e viviam
and Social Structure, ed. rev., Nova York: Free Press. sob um regime de exploração econômica. Junta-

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ASSOCIAÇÃO PARCIAL 19

mente com a Índia e os Estados Unidos, a África to de oportunidades para usá-las de maneiras des-
do Sul contribuiu com um de vários exemplos viantes. Tudo isso é aprendido e promovido prin-
históricos de autênticos sistemas de CASTAS.
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A cipalmente em grupos tais como gangues urbanas
ou grupos empresariais que fecham os olhos a
Leitura sugerida: Frederickson, G.M. 1981: White
fraudes, sonegação fiscal ou uso de informações
Supremacy: A Comparative Study in American and
privilegiadas no mercado de capitais. A taxa geral
South African History. Nova York: Oxford University
de desvio em uma sociedade ou as variações nas
Press.
taxas entre grupos de classe, raciais ou de outra
natureza dependem da existência de tais grupos e
APT, amostragem ver AMOSTRAGEM APT. da socialização que oferecem.
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Podemos também argumentar que um sistema


aristocracia ver CLASSE ALTA. social mais complexo forçosamente gerará mais
desvios do que um sistema mais simples, porque
aristocracia do trabalho ver MERCADO DE este não pode assegurar uma experiência de socia-
TRABALHO. lização uniforme e geral a cada nova geração.
Quanto maior a variedade das normas e valores
com os quais as pessoas crescem (ou se “as-
assimetria ver SIMETRIA. sociam”), menos provável que haja um forte senso
de COESÃO em torno de valores e normas de um
assimetria estatística ver SIMETRIA. dado sistema social.
A teoria de Sutherland foi proposta inicial-
assimilação ver CONTATO CULTURAL. mente na década de 1930 como reação a teorias
individualistas de desvio que focalizavam apenas
associação coordenada de modo impera- fatores como hereditariedade e personalidade.
tivo A associação coordenada de modo impera- Sutherland argumentou, ao contrário, que a taxa
tivo é um conceito usado por Ralf DAHRENDORF de criminalidade é um fenômeno social cuja expli-
em sua teoria de estratificação social. Derivado do cação deve incluir as características de sistemas
trabalho de Max WEBER, o conceito refere-se a sociais, tais como a freqüência, a duração e a
organizações estruturadas sob a forma de HIERAR- intensidade das interações de pessoas com vários
QUIAS, tais como sociedades anônimas e burocra- tipos de grupos. Sua teoria é sumamente útil para
cias oficiais. O conceito se baseia na definição de compreender criminosos profissionais.
Weber de PODER como a capacidade de controlar Leitura sugerida: Sutherland, Edwin H. e Cressey,
outras pessoas e refere-se ao grau em que tal D. 1974: Principles of Criminology. Filadélfia: S.B.
controle é irresistível ou “imperativo” em uma Lippincott Ο 1978: Criminology. 10ªed. Filadélfia:
organização ou “associação”. Dahrendorf utilizou S.B. Lippincott.
o conceito como parte do argumento de que a
concentração e a estruturação hierárquica do poder
constituem um aspecto fundamental da desigual- associação parcial (Também denominada de
dade social em sociedades industriais complexas, correlação parcial ou relação parcial). Na análise
e que é em relação a essas organizações que ocorre estatística das relações entre VARIÁVEIS, uma as-
a maioria dos conflitos sociais.
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sociação parcial é uma relação que ocorre entre
Ver também AUTORIDADE; ESTRATIFICAÇÃO duas variáveis, depois de introduzidas uma ou
E DESIGUALDADE; HIERARQUIA; PODER. mais VARIÁVEIS DE CONTROLE. Suponhamos, por
exemplo, que começamos com uma relação entre
Leitura sugerida: Dahrendorf, Ralf 1957 (1959): sexo e renda que demonstra que os homens aufe-
Class and Class Conflict in Industrial Society. Stan- rem rendas mais altas do que as mulheres. Para
ford, CA: Stanford University Press. ajudar a explicar essa relação, poderíamos intro-
duzir um controle para ocupação, baseados na
associação diferencial Segundo Edwin SU- idéia de que os homens recebem mais dinheiro do
THERLAND, a associação diferencial é o processo que as mulheres porque têm melhores empregos.
de aprender alguns tipos de comportamento des- Ao controlar a variável ocupação, ainda es-
viante que requer conhecimento especializado e tudamos a relação entre sexo e renda, mas, neste
habilidade, bem como a inclinação de tirar provei- momento, restringimo-nos a pessoas que ocupam

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20 ASSOCIAÇÃO VOLUNTÁRIA

empregos semelhantes. Neste caso, a relação entre ving GOFFMAN no seu enfoque teatral da intera-
sexo e renda seria chamada de relação parcial e ção social e que faz parte das técnicas usadas por
qualquer medida estatística da força da relação indivíduos para transmitir tipos particulares de
seria denominada uma associação parcial (ou cor- impressões de natureza social. A atenção civil é
relação parcial) — e, em ambos os casos, uma empregada pelo indivíduo para dar a impressão de
“parcial”, para abreviar.
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A estar representando um papel quando, na verdade,
Ver também VARIÁVEL; VARIÁVEL DE CON- isso não ocorre. Estudantes em sala de aula, por
TROLE. exemplo, utilizam grande variedade de técnicas
para transmitir a impressão de que estão dando
Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W. e David atenção ao professor quando, na verdade, ocupam-
Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis. 2ªed. se em outras atividades, como escrever cartas ou
Ithaca, IL: F.E. Peacock. se entregar a devaneios. Essas técnicas incluem
fingir tomar notas, inclinar a cabeça nos momentos
associação voluntária Uma associação vo- apropriados, rir com as piadas do professor quando
luntária é um grupo, ou organização, no qual pes- os outros riem, e assim por diante.
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soas podem ingressar ou sair livremente; que está Em contraste, a desatenção civil é usada para
isenta de controle externo; e cujas finalidades, criar a impressão de que o indivíduo está alheio ao
objetivos e métodos cabem aos membros determi- que acontece no momento, de modo que as outras
nar. As associações voluntárias assumem diversas pessoas possam manter a sensação de que o que
formas, variando de clubes esportivos informais, dizem e fazem está ocorrendo em um ambiente
grupos de igreja e associações de melhoramento privado. No consultório médico, por exemplo,
de bairros a agremiações nacionais, como partidos pessoas perto de nós podem falar sobre detalhes
políticos. Como todos os grupos e organizações, íntimos de saúde. Como estranhos suficientemen-
elas variam na formalidade de suas estruturas e te próximos para entreouvir o que é dito, ninguém
finalidades a que servem para seus membros. Os espera que estejamos ouvindo atentos esses fatos.
partidos políticos, por exemplo, são úteis princi- Como resposta a essa expectativa, evitamos olhar
palmente no sentido em que existem como meios para elas ou admitir de outra maneira nossa capa-
para atingir certas metas. Outras associações, cidade de ouvir e, em vez disso, fingimos desviar
contudo, como grupos de orações ou clubes re- a atenção para alguma outra coisa. O fato de
creativos, têm também importantes finalidades ouvirmos alguma coisa assume menos importân-
expressivas, organizadas em torno das neces- cia social do que nossa capacidade de dar a impres-
sidades emocionais, espirituais ou sociais de seus são de que fazemos justamente o oposto.
membros.
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A Ver também PERSPECTIVA INTERACIONISTA;
Sociologicamente, as associações voluntárias PERSPECTIVA TEATRAL.
são muitas vezes consideradas de importância fun-
damental para o funcionamento da democracia, Leitura sugerida: Goffman, Erving 1963: Behavior
in Public Places. Nova York: Free Press Ο 1971:
sobretudo ao fornecer às pessoas maneiras de to-
Relations in Public: Microstudies of the Public Or-
marem parte na vida pública, fora da privacidade
der. Londres: Allen Lane.
do lar e da família. Esse fato é especialmente
verdadeiro no tocante aos Estados Unidos.
Ver também GRUPO DE INTERESSE. atitude Atitude é um conceito com dois signi-
ficados em sociologia, o primeiro muito usado
Leitura sugerida: Gordon, C. Wayne e Nicholas como substituto dos conceitos de CRENÇAS e VA-
Babchuk 1959: “A typology of voluntary associa- LORES. Declarações como “O governo gasta mui-
tions”. American Sociological Review 24, 22-29 ● to pouco em serviços de saúde”, “A arte obscena
Knoke, Daid 1986: “Associations and interest devia ser proibida”, e “Deveria haver controle
groups”. Annual Review of Sociology 12, 1-21 ● mais rigoroso da imigração” podem ser descritas
Smith, Constance, e Ann Freedman 1972: Voluntary
corretamente como crenças, valores ou alguma
Associations: Perspectives on the Literature. Cam-
combinação dos dois. Fundamentam-se todos eles
bridge: Harvard University Press.
em crenças sobre a realidade (a relação entre gas-
tos do governo e a qualidade e disponibilidade de
atenção e desatenção civis Atenção e desa- serviços de saúde; a idéia de obscenidade; a exten-
tenção civis são conceitos desenvolvidos por Er- são e as conseqüências reais da imigração, e assim

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ATOMISMO E HOLISMO 21

por diante) e implicam juízos de valor (mais ser- Leitura sugerida: Allport, G.W. 1935: “Attitudes”.
viços de saúde são desejáveis, como o apoio do In A Handbook of Social Psychology, org. por C.
governo aos mesmos; a obscenidade é nociva; o Murchison. Worcester, MA: Clark University Press.
excesso de imigração é indesejável).
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O segundo significado vai além de crenças e


valores e identifica um aspecto distinto da maneira
atomismo e holismo Atomismo e holismo
são conceitos que representam duas opiniões radi-
como nos orientamos no mundo — a emoção.
Neste sentido da palavra (referida também às ve- calmente diferentes sobre a natureza da vida so-
zes como sentimento), a atitude é uma orientação cial. A perspectiva atomista é individualista e psi-
cultural em relação a alguma coisa que nos predis- cológica, argumentando que um SISTEMA SOCIAL
põe não só a pensar nela de maneiras particulares, nada mais é do que um conjunto de indivíduos. Se
mas também a alimentar sentimentos positivos ou podemos entendê-los, sabemos tudo que precisa-
negativos sobre a mesma. O racismo, por exem- mos saber sobre os sistemas sociais de que eles
plo, é mais do que uma questão de crenças e participam. Em suma, o todo é a soma de suas
valores, pois implica também emoções como des- partes, e nada mais. Em contraste, o holismo cons-
prezo, ódio, repugnância, condescendência e ver- titui o próprio âmago do pensamento sociológico.
gonha. De forma análoga, o que torna o patriotis- Ele considera o todo do sistema social como mais
mo uma força cultural tão poderosa não são sim- do que os indivíduos que dele participam. A guer-
plesmente as crenças e valores do indivíduo sobre ra, por exemplo, não pode ser compreendida como
seu país, mas também os sentimentos profun- uma simples soma de impulsos e comportamento
damente enraizados de orgulho, afeição e apego agressivos e belicosos de indivíduos.
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que os acompanham. O trabalho pioneiro de Émile Durkheim em


Atitudes incluem uma grande variedade de sociologia durante o século XIX constituiu, de
emoções existentes apenas em um contexto social. muitas maneiras, uma reação à perspectiva atomis-
O orgulho, a vergonha, a culpa, a repugnância, a ta predominante em sua época. Trata-se de um
simpatia, o amor, a gratidão, o vexame, o desprezo, debate que continua ainda hoje dentro e fora da
o respeito, a reverência, a piedade — todos man- sociologia. Em um lado alinham-se os que argu-
têm uma relação particular com idéias culturais e mentam que os sistemas sociais consistem de re-
seres humanos. O orgulho, por exemplo, é um des de status e papéis, que modelam e limitam a
respeito positivo pelo self que tem origem não aparência, a experiência e o comportamento do
apenas na maneira como avaliamos a nós mesmos indivíduo. No outro, figura certo número de inte-
em relação a algum sistema de valores, porém, racionistas que sustentam que os sistemas sociais
mais importante ainda, na maneira como espe- são meras abstrações e que não existem à parte de
ramos que os demais nos avaliem. Analogamente, indivíduos que interagem entre si.
a indignação é mais do que um estado emocional Como amiúde acontece nesses debates, as po-
e do que emoções de irritação ou raiva, porquanto laridades talvez representem não uma contradição,
inclui o fator adicional de alguém que violou mas um paradoxo que reflete a complexidade da
valores culturais profundamente sentidos e expec- realidade social subjacente. Sistemas sociais não
tativas sobre o que se espera que aconteça ou que podem existir sem indivíduos que deles participem
seja. Uma vez que valores e expectativas são em certo grau; ainda assim, indivíduos, como os
elementos abstratos da cultura, a indignação só conhecemos, existem apenas em relação a um ou
pode existir em relação a um contexto cultural. Por outro sistema social.
esse motivo, embora bebês possam sentir raiva, Ver também AÇÃO E ESTRUTURA; INDIVIDUA-
não podem sentir indignação, uma vez que, sem a
LISMO METODOLÓGICO; PERSPECTIVA INTERA-
linguagem, são incapazes de vincular significado
CIONISTA.
e valores abstratos a seus sentimentos.
Como conceito, atitude é importante porque Leitura sugerida: Blumer, Herbert 1969: Symbolic
incorpora ao pensamento sociológico um aspecto Interactionism: Perspective and Method. Englewood
em geral negligenciado da vida social, ou seja, o Cliffs, NJ: Prentice-Hall ● Homans, George 1950:
papel da emoção e o poder dos sistemas sociais de The Human Group. Nova York: Harcourt Brace ●
modelá-la, regulá-la e evocá-la, gerando simulta- Kuhn, Manfred H. 1964: “Major trends in symbolic
neamente coesão e conflito social. interaction theory in the past twenty-five years”. So-
Ver também CULTURA. ciological Quarterly 5 (inverno): 61-84.

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22 ATRIBUIÇÃO SOCIAL

atribuição social Atribuição social é o pro- Uma vez que tende a depender fortemente da
cesso através do qual pessoas tentam explicar capacidade de coagir a população à submissão, a
como outras pessoas se comportam e parecem, autocracia costuma também ser uma forma relati-
especialmente em termos da motivação das mes- vamente instável de governo, especialmente vul-
mas. A crença de que indivíduos são pobres prin- nerável a GOLPES DE ESTADO e REVOLUÇÃO.
cipalmente porque não estão dispostos a trabalhar Ver também AUTORITARISMO; DEMOCRACIA;
arduamente, ou que os ricos assim o são porque ESTADO; ESTRUTURA DE PODER; FASCISMO; GOL-
possuem talento e trabalham muito, constituem PE DE ESTADO; OLIGARQUIA; REVOLUÇÃO.
exemplos de atribuição social. Exemplos de auto-
atribuição poderiam explicar os sucessos como Leitura sugerida: Perlmutter, H.V. 1977: The Mili-
resultado de talento e trabalho árduo ou, alternati- tary and Politics in Modern Times. New Haven: Yale
vamente, como questão de sorte.
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University Press.
Essas atribuições são sociais não apenas no
sentido simples de ocorrer entre pessoas, mas tam- automação Automação é a prática de usar má-
bém, e mais importante, porque recorrem às carac- quinas para substituir trabalhadores. Do ponto de
terísticas sociais de pessoas para formar a base da vista ecológico, tal sistema aumenta em muito a
atribuição. O fato de o sucesso ser atribuído a capacidade humana de alterar o meio ambiente,
talento ou sorte, por exemplo, depende até certo extrair matérias-primas e produzir bens em gran-
ponto de se a pessoa em questão é homem ou des quantidades. Do ponto de vista de relações
mulher, uma vez que se considera mais provável trabalhistas e perspectiva de classe social, cons-
que a mulher tenha sucesso por questão de sorte titui uma das principais maneiras para a classe
do que de talento, talvez como reflexo de seu status capitalista aumentar seus lucros às expensas dos
desvalorizado em sociedades dominadas pelo ho- trabalhadores (porque ocasiona uma perda líquida
mem. Ao descrever outras pessoas, recorremos a de empregos) e controlar a classe operária, ao
um conjunto enorme de idéias e maneiras de ver despertar nela o medo de ser substituída por má-
as características de pessoas, classe, raça, sexo e quinas.
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idade, e até a detalhes físicos, como se são altas ou Ver também ADMINISTRAÇÃO CIENTÍFICA;
baixas, gordas ou magras, belas ou feias, da forma ALIENAÇÃO; DESQUALIFICAÇÃO.
interpretada por uma dada cultura.
Ver também IMAGEM AUTOPROJETADA. Leitura sugerida: Marsh, Peter 1982: The Robot
Age. Londres: Sphere ● Shaiken, H. 1986: Work
Leitura sugerida: Bierhoff, H.W. 1989: Person Transformed: Automation and Labor in the Computer
Perception and Attribution. Nova York: Springer- Age. Lexington, MA: Lexington Books ● Zuboff,
Verlag ● Weary, G., M.A. Stanley e J.H. Harvey Shoshana 1988: In the Age of the Smart Machine.
1989: Attribution. Nova York: Springer-Verlag. Nova York: Basic Books.

autonomia do estado A autonomia do esta-


auto-estima ver SELF.
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do é uma condição que representa o grau em que


o ESTADO é independente dos interesses capitalis-
autoconceito ver SELF.
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tas, especialmente na medida em que estes são
organizados através de sociedades anônimas. Max
WEBER argumentou que o Estado é uma ins-
autocracia Uma autocracia é um Estado go- tituição independente que opera de acordo com
vernado por um único líder, tal como um ditador. sua própria cultura burocrática. Karl MARX, con-
Nas sociedades agrárias, a liderança autocrática tudo, considerava o Estado como pouco mais do
assumiu, ao longo da história, a forma de famílias que um prolongamento da ELITE, controlado prin-
reais que governavam por direito tradicional. No cipalmente por seus próprios membros, com vistas
século XX, o governo autocrático tem se baseado a proteger e promover o CAPITALISMO e os interes-
mais em liderança carismática e controle do apare- ses da classe dominante. Opiniões mais recentes
lho político e militar do Estado, como aconteceu argumentam que o Estado desempenha um papel
na Alemanha nazista sob Hitler, na União Soviéti- mais complicado, embora, em última análise, seja
ca sob Stálin, na Nicarágua sob Somoza, e no ainda um papel que promove o status quo e rara-
Iraque sob Saddam Hussein.
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A mente contesta o capitalismo como sistema. É

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3ª Revisão: 31.3.97
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AUTORIDADE 23

obrigado a manter certo grau de autonomia, por Estado britânico mudou para reduzir sua autori-
exemplo, para conservar sua legitimidade aos o- dade. A transformação foi mais política e sistêmica
lhos da classe trabalhadora.
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A do que psicológica e pessoal.
Sociologicamente, autoridade é a forma mais
Leitura sugerida: O’Connor, James 1973: The Fis- importante assumida pelo poder na vida social
cal Crisis of the State. Nova York: St. Martin’s Press
porque, ao contrário do poder pessoal, que se
● Parkin, Frank 1978: Marxism and Class Theory: A
baseia em fatores como força física, personalidade
Bourgeois Critique. Londres: Tavistock; Nova York:
ou controle de recursos, a autoridade é gerada e
Columbia University Press. (1977): USA: a crise do
estado capitalista. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
controlada por sistemas sociais. Como tal, tende a
ser mais estável e duradoura do que outras formas
de poder, porque aqueles sobre os quais é exercida
autoridade Autoridade é um conceito cujo de- têm tanto interesse em perpetuá-la quanto em per-
senvolvimento é mais freqüentemente associado petuar o próprio sistema social. Tentar derrubar a
ao grande sociólogo alemão Max WEBER, que a autoridade investida no Estado como instituição,
considerava como uma forma particular de PO- por exemplo, equivale a derrubar o próprio Estado
DER. A autoridade é definida e sustentada pelas (o que não deve ser confundido com remover um
normas do sistema social e, de modo geral, aceita dado indivíduo de uma posição de autoridade,
como legítima pelos que dela participam. Como usando de algum mecanismo, como o impea-
tal, a maioria das formas de autoridade está ligada chment) e, por conseguinte, ameaça os interesses
não a indivíduos, mas às posições — status — que não só dos ocupantes do cargo, mas também de
eles ocupam em sistemas sociais. Tendemos a todos aqueles que podem sofrer os efeitos da sub-
obedecer às ordens de policiais, por exemplo, não versão social. Nesse sentido, os subordinados da
por causa de quem são como indivíduos (sobre os autoridade desempenham muitas vezes um papel
quais provavelmente nada sabemos), mas porque ativo, ao defender sua própria subordinação, acei-
costumamos aceitar seu direito de ter poder sobre tando-lhe a legitimidade social. Nenhum Estado
nós em certas situações e supomos que outros autoritário pode perdurar sem apoio substancial da
apoiarão esse direito, no caso de resolvermos de- população, que lhe empresta a legitimidade de que
safiá-lo. De maneira análoga, policiais não agem precisa para governar.
com confiança principalmente porque possuem A legitimidade social da autoridade depende de
autoconfiança, mas porque compartilham da cren- a mesma ser usada de acordo com as normas que
ça social de que a sua autoridade é legítima. É por lhe definem a esfera de ação e os mecanismos
essa razão que tudo que se torna necessário para sociais através dos quais é aplicada. Ao contrário
invocar a autoridade de um policial seja a impres- dos valentões dos recreios na escola, cujo poder se
são convincente de que a pessoa em questão é de baseia em coerção e não em um senso comparti-
fato um policial, como indicado pela exibição de lhado de legitimidade, pessoas em posições de
distintivos ou pelo uso de uniformes apropriados.
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autoridade podem conservá-la apenas mantendo a
Temos um exemplo menos formal de autori- impressão de que ela não está sendo objeto de
dade na tendência de abstermo-nos de interferir no abuso. O abuso de autoridade, no entanto, é mui-
castigo, na rua, de uma criança por um adulto, se tas vezes difícil de provar, uma vez que parte de
podemos encontrar uma razão para supor que o sua legitimidade inclui certo grau de deferência
adulto é o pai. Neste caso, relutamos em interferir por aqueles que a exercem. Como tal, a autoridade
no que consideramos uma relação de autoridade é uma forma de poder muito vulnerável a abuso
socialmente aprovada. porque repousa sobre suposições sociais compar-
Indivíduos exercem autoridade apenas en- tilhadas de que os detentores da mesma agem
quanto julgamos que ocupam os cargos aos quais tendo por trás todo o peso do sistema social. Isso
ela está ligada, e a amplitude de sua ação depende significa que aqueles que poderiam sofrer com
da natureza da posição e do sistema. Se um chefe abusos de autoridade podem relutar em identificá-
de estado é ou não poderoso, por exemplo, depen- los como tais, e ainda menos a desafiar a autori-
de menos das características do indivíduo do que dade abusiva, pois isso poderia provocar represá-
da autoridade que o sistema social investe nesse lias não só do indivíduo envolvido mas do próprio
cargo. Os monarcas britânicos perderam a maior sistema social. A relutância em questionar ou de-
parte da autoridade não porque se tornaram mais safiar a autoridade é, na verdade, inerente à es-
fracos como indivíduos, mas porque a estrutura do trutura da própria autoridade e ajuda a explicar o

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3ª Revisão: 31.3.97
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24 AUTORIDADE PROFISSIONAL

fato de que ela permite que indivíduos exerçam que tal autoridade deriva e é controlada pela pes-
muito mais poder do que suas capacidades e ca- soa que a exerce. Ao contrário, de um ponto de
racterísticas individuais, em outras circunstâncias, vista sociológico, o carisma está inteiramente nos
permitiriam. É por essa razão que se torna tão olhos de quem o vê e é da atribuição coletiva
difícil prevenir ou mesmo impedir maus-tratos dessas características a alguém que depende a
contra crianças, já que essa conduta se baseia na autoridade carismática.
autoridade, socialmente apoiada, de adultos sobre Aos três grandes tipos de autoridade postula-
crianças. dos por Weber, alguns sociólogos contemporâ-
Weber identificou três tipos de autoridade, as- neos acrescentaram um quarto, a autoridade ba-
sentadas sobre diferentes bases sociais: 1) a auto- seada no conhecimento especializado (conhecida
ridade racional-legal; 2) a autoridade tradicional; também como autoridade profissional). Tornan-
e 3) a autoridade carismática. A autoridade racio- do-se as sociedades cada vez mais dependentes de
nal-legal baseia-se em normas formalmente pro- tecnologia sofisticada, por exemplo, e ficando ca-
mulgadas, em geral codificadas, embora nem da vez mais complexas as divisões do trabalho, os
sempre em forma escrita. O indivíduo que exerce que podem gerar e manter a impressão de que
autoridade racional-legal o faz porque os códigos possuem conhecimento especializado provavel-
concedem essa autoridade a quem quer que ocupe mente conseguirão, como resultado, adquirir al-
essa posição particular. Essa é a forma de autori- gum grau de autoridade. A autoridade dos médicos
dade encontrada em ambientes de trabalho, gover- é um exemplo. Até certo ponto tradicional, está se
no, escolas e na maioria das grandes instituições tornando cada vez mais racional-legal à medida
sociais. que corpos legislativos assumem de forma cres-
A autoridade tradicional baseia-se em um sen- cente a regulamentação legal de decisões médicas
so coletivo não-codificado que diz que ela é antiga que variam do aborto à retirada de aparelhagem
e correta e que, por conseguinte, deve ser aceita mantenedora de vida. Além disso, contudo,
como legítima. Esse é o tipo de autoridade exerci- tornando-se a prática da medicina cada vez mais
da pelos adultos em relação a crianças, embora, em complexa e longe da compreensão de muitos pa-
muitas sociedades, a autoridade dos pais se revista cientes, a posse de conhecimentos especializados
também de aspectos racionais-legais. A tradição torna-se, por mérito próprio, uma base para a
pode ser também a base da autoridade de maridos autoridade. Observações semelhantes poderiam
sobre as esposas em sociedades patriarcais ou de ser feitas no tocante à lei, à ciência e à erudição
líderes religiosos sobre os membros de comuni- acadêmica em numerosos campos de estudo.
dades religiosas. As quatro formas de autoridade são TIPOS
A autoridade carismática baseia-se na atribui- IDEAIS e, como tais, não encontrados em suas
ção social de características ou capacidades extra- formas puras em qualquer dada situação. Na prá-
ordinárias a uma pessoa. Note-se que a autoridade tica, a maior parte da autoridade é uma mistura de
fundamenta-se não nas próprias características, dois ou mais tipos.
mas na atribuição dessas características por Ver também LEGITIMAÇÃO; LIDERANÇA; PO-
aqueles que reconhecem a autoridade como legí- DER; TECNOCRACIA.
tima. Essa distinção é de importância crucial, pois
Leitura sugerida: Haskell, T.L., org. 1984: The Au-
destaca o fato de que a autoridade carismática é
thority of Experts. Bloomington: Indiana University
socialmente concedida e pode ser retirada, se o Press ● Weber, Max 1946 (1982): Ensaios de socio-
líder deixar de ser considerado pessoa extraordi- logia. Rio de Janeiro: Zahar / (1946): From Max
nária. Tal como a autoridade tradicional, a caris- Weber: Essays in Sociology. Org. e trad. por Hans
mática não é codificada, mas, ao contrário da Gerth e C. Wright Mills. Nova York: Oxford Univer-
tradicional e da racional-legal, liga-se à pessoa e sity Press; Londres: Routledge & Kegan Paul (1970)
não ao status social por ela ocupado. O falecido ● Wilner, A.R. 1984: The Spellbinders: Charismatic
aiatolá Khomeini, do Irã, por exemplo, exercia Political Leadership. New Haven, CT: Yale Univer-
grande autoridade carismática não apenas porque sity Press.
ocupava a mais alta posição de liderança na igreja
islâmica, mas por causa das qualidades pessoais
que se acreditava que ele trouxera para o cargo. autoridade profissional ver AUTORIDADE.
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Sociologicamente, referir-se a alguém como “ca-


rismático”, induz a erro, pois gera a impressão de autoridade racional-legal ver AUTORIDADE.
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Para: Ed. Zahar
AUTORITARISMO 25

autoridade tradicional ver AUTORIDADE.


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Ver também ESCALA DE ATITUDES; MEDIDA.
Leitura sugerida: Adorno, R.W., E. Frenkel-Bruns-
autoritária, personalidade Uma personali- wick, D.J. Levinson e R.N. Sandford 1950: The Au-
dade autoritária caracteriza-se por conformidade thoritarian Personality. Nova York: Harper and Row.
rígida, intolerância, numerosos preconceitos, adu-
lação dos fortes e dos que ocupam posições de autoritarismo O autoritarismo é um método
autoridade e desprezo pelos fracos. Em seguida à de fazer política no qual o governo é usado para
guerra de 1939-45, Theodor ADORNO e colegas controlar a vida de indivíduos em vez de estar
realizaram um estudo clássico no qual tentaram submetido a controle democrático pelos cidadãos.
identificar perfis psicológicos de indivíduos pre- Uma vez que a verdadeira DEMOCRACIA é muito
dispostos ao PRECONCEITO e à intolerância e que rara, a maioria dos governos é até certo ponto
tendiam a apoiar governos autoritários, como o autoritária e, por conseguinte, problemática para
fascismo, que havia devastado a Europa. Eles aqueles aos quais governa.
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elaboraram uma escala de medição — a escala-f A forma mais extrema de autoritarismo é o


—, a fim de aferir o grau em que pessoas se totalitarismo, um sistema político concebido para
ajustavam ao modelo de personalidade autoritária, obter controle completo da vida interior e exterior
e aplicaram-na a numerosas áreas da vida social, do indivíduo. Trata-se, no entanto, de um objetivo
variando de atitudes em relação a minorias ao extremamente difícil de atingir, se não impossível,
apoio a instituições democráticas. Com o Holo- que raras vezes foi implementado por tempo muito
causto na Europa ainda recente na história, a pes- longo, exceto em obras notáveis de ficção, tal
quisa focalizou-se explicitamente no anti-semitis- como o aterrador romance 1984, de George Or-
mo, mas descobriu que o preconceito tende a ser well. Até mesmo as sociedades mais autoritárias,
uma visão generalizada, e não específica. Em ou- tais como a Alemanha nazista e a União Soviética
tras palavras, pessoas que alimentam preconceito sob Stalin, fracassaram quando tentaram controlar
contra um grupo tendem a fazer o mesmo contra a maioria dos aspectos da vida privada das pessoas
muitos grupos, sendo o ódio aos judeus, por exem- ou reprimir a dissidência e a subversão.
plo, associado ao ódio aos católicos.
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Ver também AUTOCRACIA; DEMOCRACIA PO-
Embora controversa e objeto de considerável LÍTICA E ECONÔMICA; ESTRUTURA DE PODER;
crítica, a obra de Adorno é sociologicamente im- FASCISMO; INSTITUIÇÃO TOTAL; OLIGARQUIA.
portante, pois procurou uma conexão entre perso- Leitura sugerida: Friedrich, C.J., e Z. Brzezinski
nalidade e a maneira como sistemas sociais são 1965: Totalitarianism, Dictatorship and Autocracy.
organizados, tanto no que diz sobre como as con- Cambridge, MA: Harvard University Press ● Howe,
dições sociais geram personalidades autoritárias e Irving, org. 1983: 1984 Revisited: Totalitarianism in
como o AUTORITARISMO afeta a vida social. our Century. Nova York: Harper and Row.

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Para: Ed. Zahar
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baby boom Baby boom é uma expressão que se formas diferentes por classes de indivíduos com
refere ao período que se seguiu à guerra de 1939- conjuntos próprios de interesses. Os grupos domi-
45, quando as taxas de natalidade cresceram rapi- nantes nas sociedades feudais dependiam em parte
damente na América do Norte, Austrália, Nova da força da tradição e da crença religiosa para
Zelândia e partes da Europa Ocidental. A explo- sustentar e justificar seu poder e privilégio. Em
são de nascimentos terminou em princípios da contraste, a dominância dos capitalistas industriais
década de 1960 e foi seguida, na década de 1970, baseia-se mais na AUTORIDADE racional-legal, no
por uma queda na fecundidade. O baby boom se controle sobre as instituições do Estado e, acima
deveu principalmente ao inesperado “emparelha- de tudo, na propriedade dos meios de produção.
mento” da fecundidade, que sofrera um retardo Como tal, o Estado é muito mais desenvolvido e
com o grande número de homens convocados para complexo nas sociedades capitalistas industriais e
o serviço militar durante a guerra, mas também as maneiras gerais de pensar são também muito
devido a um aumento modesto no tamanho da mais organizadas em torno da racionalidade, da
família.
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legalidade, e das relações contratuais.
Ver também FECUNDIDADE E FERTILIDADE. Marx argumentava que é impossível compre-
ender inteiramente os aspectos superestruturais
das sociedades sem levar em conta a respectiva
base e superestrutura Base e superestrutura base. Isso não implica dizer, no entanto, que a base
são dois conceitos fundamentais, na opinião de causa ou determina a superestrutura de uma ma-
Karl MARX, sobre a maneira como sociedades são neira direta, linear. A superestrutura é moldada por
organizadas em torno da produção material. A ba- forças não-econômicas e afeta também a base. Em
se é o MODO DE PRODUÇÃO, a maneira básica suma, a relação entre base e superestrutura é si-
como a sociedade organiza a produção de bens. O multaneamente complexa e recíproca.
sistema produtivo é tão importante na visão mar- Ver também CONHECIMENTO; ESTADO; HEGE-
xista de vida social que os que dominam o sistema MONIA; IDEOLOGIA; MODO DE PRODUÇÃO.
econômico são considerados também como domi-
nando outros aspectos da vida social, à sua ima- Leitura sugerida: Hall, Stuart 1977: “Rethinking
gem e interesse. As mais importantes dessas áreas the ‘Base and Superestructure’ Metaphor”. In Papers
de dominação são a superestrutura da sociedade, on Class, Hegemony, and Party, org. por J. Bloom-
do estado e das instituições, tais como escolas, field. Londres: Lawrence and Wishart ● Marx, K.
organizações religiosas e os meios de comunica- 1859 (1982): Para a crítica da economia política. São
ção de massa, que desempenham um papel vital Paulo: Abril Cultural / (1971): A Contribution of the
na criação da consciência coletiva. Isso é feito Critique of Political Economy. Londres: Lawrence
and Wishart ● Marx, K. e Engels, F. 1845-46 (1986):
através de crenças, valores, normas e atitudes que,
A ideologia alemã. São Paulo: Hucitec / (1970): The
juntos, proporcionam a matéria-prima para a cons-
German Ideology. Londres: Lawrence and Wishart.
trução e interpretação da realidade social.
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Como acontece com um edifício, a superes-


trutura repousa sobre a base e tem que refletir sua bastidor ver PALCO E BASTIDOR.
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forma. A natureza do Estado e as maneiras gerais


de pensar diferirão em sociedades feudais e capi-
talistas industriais, por exemplo, porque as re- behaviorismo O behaviorismo é um enfoque
lações de produção diferem e são dominadas de psicológico que se concentra apenas no compor-

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Para: Ed. Zahar
BUROCRACIA 27

tamento observável e supõe que os padrões de taxas de natalidade. Os países diferem muito na
comportamento resultam exclusivamente de con- maneira como registram os eventos bioestatís-
dicionamento através do emprego de recompensa ticos. Costumeiramente, os melhores sistemas de
e castigo. Embora tenha sido pouco usado por registro são encontrados nas sociedades mais ri-
sociólogos (com a notável exceção de George cas. A Suécia orgulha-se do que é talvez o mais
Homans, sociólogo americano), o conceito é ainda antigo sistema de alta qualidade. Nos casos de
assim sociologicamente importante porque colide populações com medíocres sistemas de bioestatís-
de modo frontal com pressupostos sociológicos tica, os demógrafos elaboraram certo número de
básicos sobre o comportamento humano. No nível técnicas para estimar características básicas da
macro, o behaviorismo ignora a existência e a população baseando-se em outras fontes de dados.
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influência dos sistemas sociais e de seus aspectos


culturais e estruturais. No nível micro, nega a Leitura sugerida: Shryock, Henry S., Jacob Siegel
importância de significado na ação e interação et al. 1976: The Methods and Materials of Demogra-
phy. Londres e Nova York: Academic Press.
humanas e, portanto, ignora a distinção sociológi-
ca fundamental entre comportamento simples, por
um lado, e ação significativa, por outro, que requer bode expiatório O bode expiatório é um in-
alguma interpretação. Como tal, há grande desa- divíduo, grupo ou categoria de pessoas usados
cordo se o behaviorismo pode dar ou não uma como objeto de culpa no sistema social. Essa
explicação adequada da vida social e do compor- figura fornece um mecanismo para dar vazão à
tamento humano em geral, incluindo o processo raiva, à frustração, ao ressentimento, ao medo e
de socialização, através do qual indivíduos se tor- outras emoções que, de outra forma, seriam ex-
nam seres sociais capazes de participar da vida pressadas de maneiras que danificariam a coesão
social e de sistemas sociais.
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social, contestariam o status quo ou atacariam os
Ver também INTERAÇÃO; SOCIALIZAÇÃO. grupos dominantes e seus interesses. Imigrantes e
MINORIAS, por exemplo, são muitas vezes usados
Leitura sugerida: Skinner, B.F. 1938: The Behavior
of Organisms. Nova York: Appleton-Century ● Zu-
como bodes expiatórios durante épocas de dificul-
riff, G.E. 1985: Behaviorism: A Conceptual Recons- dades econômicas e considerados causa de desem-
truction. Nova York: Columbia University Press. prego e de outros problemas sociais. Como resul-
tado, certos aspectos de sistemas sociais que ge-
ram crises econômicas, tais como a competição e
bem-estar ver ESTADO DE BEM-ESTAR.
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a exploração capitalista, são ocultados do público


e de possível crítica.
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bens ver MERCADORIA.


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Ver também ATRIBUIÇÃO SOCIAL; CONSCIÊN-
CIA E FALSA CONSCIÊNCIA DE CLASSE.
bioestatística A bioestatística diz respeito a Leitura sugerida: Ryan, William 1971: Blaming the
medidas quantitativas que descrevem a TAXA à
Victim. Nova York: Pantheon.
qual ocorrem eventos que afetam processos demo-
gráficos, tais como natalidade, mortalidade, mi-
gração e crescimento. Os mais importantes desses Bogardus, escala de ver DISTÂNCIA SOCIAL.
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eventos são a natalidade e a mortalidade, embora


demógrafos considerem também as mudanças em
burguesia ver CLASSE SOCIAL.
status matrimonial (casamento, anulamento, sepa-
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ração, divórcio e novo casamento) como eventos


vitais, uma vez que eles, por sua vez, afetam as burocracia ver ORGANIZAÇÃO FORMAL.
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Dicionário de Sociologia (Alan)


1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra B
Produção: Textos & Formas
Para: Ed. Zahar
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caçadores-coletores, sociedade de A so- os efeitos do CAPITALISMO e de economias de
ciedade de caçadores-coletores é um sistema so- MERCADO emergentes sobre a vida que levam.
cial que tem os mais simples e menos tecnologica- Sob o capitalismo, por exemplo, eles muitas vezes
mente sofisticados MODOS DE PRODUÇÃO. A descobrem que são privados do direito de usar a
maioria dos indivíduos que dela fazem parte de- terra, perdendo sua auto-suficiência econômica e
pende primariamente da coleta de alimentos exis- tornando-se cada vez mais dependentes dos capri-
tentes na natureza, sendo a carne uma fonte mais chos dos mercados internacionais no que interessa
ocasional do que regular de alimentação. Eles às exportações de alimentos.
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quase nunca geram um excedente, uma vez que


não dispõem de meios para armazenar o que não Leitura sugerida: Moore Jr., Barrington 1967: So-
podem consumir no futuro imediato e são obriga- cial Origins of Dictatorship and Democracy: Lord
and Peasant in the Making of the Modern World.
dos a se mover de um lugar a outro, o que torna
Harmondsworth: Penguin Press ● Shanin, T., org.
impraticável acumular posses. A desigualdade so-
1988: Peasants and Peasant Societies. Harmonds-
cial reduz-se ao mínimo e baseia-se principal- worth, Inglaterra: Penguin ● Weller, R.P., e S.E.
mente em prestígio conferido aos que se destacam Guggenheim, orgs. 1982: Power and Protest in the
em determinadas tarefas. Ocorre uma DIVISÃO DO Countryside: Studies of Rural Unrest in Asia, Europe,
TRABALHO baseada em sexo, mas há pouca, se é and Latin America. Durham, NC: Duke University
que há alguma, desigualdade por esse motivo. Press.
Toda a sociedade é organizada em torno de laços
de PARENTESCO, o que significa que desconhecem
a idéia de famílias individuais que existam como capital No linguajar comum, capital é tudo
unidades distintas. A produção é comunal e coope- aquilo que pode ser usado para gerar renda ou
rativa e a distribuição se faz na base de uso comum.
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produzir riqueza, incluindo dinheiro emprestado a
Ver também SOCIEDADE AGRÁRIA; SOCIE- juros, ferramentas e maquinaria utilizadas para
DADE HORTELÃ; SOCIEDADE INDUSTRIAL E IN- fabricar produtos e o tempo do trabalhador, ven-
DUSTRIALIZAÇÃO; SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL. dido por salário. Esse significado amplo, contudo,
é pouco útil para fins analíticos, em parte porque
Leitura sugerida: Lenski, Gerhard, Jean Lenski e inclui tanta coisa que nunca podemos ter certeza
Patrick Nolan 1987: Human Societies: an Introduc- do que a palavra está aludindo em um caso parti-
tion to Macrosociology. 5ªed., Nova York: McGraw- cular. Mais importante ainda, se capital é usado
Hill. para referir-se a qualquer coisa que gere riqueza
ou renda, não fica muito claro o que se deve en-
camponeses Camponeses são fazendeiros em tender por capitalismo como sistema econômico,
grandes sociedades agrárias que produzem princi- uma vez que riqueza e renda são produzidos em
palmente dentro de unidades familiares para quase todos os sistemas econômicos, sejam eles
consumo próprio. Em geral estão sujeitos a algum capitalistas ou não.
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grau de controle e têm obrigações com um poder Uma definição alternativa é fornecida pelo
externo, tal como um senhorio. Os camponeses ponto de vista marxista que utiliza o conceito de
variam dos relativamente prósperos aos sem-terra. capital para descrever não como alguma coisa é
O interesse sociológico pelos camponeses concen- usada para produzir riqueza, mas o tipo de sistema
tra-se em várias questões, incluindo o papel que econômico utilizado. Nesse particular, capital re-
desempenham em movimentos revolucionários e fere-se a alguns meios de produção — como ma-

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra C
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Para: Ed. Zahar
CAPITALISMO 29

quinaria e ferramentas — usados por trabalhado- capital humano Capital humano é um con-
res que nem os possuem nem controlam, mas que ceito baseado na crença em que o papel dos traba-
com eles produzem riqueza em troca de salário. lhadores na produção assemelha-se ao papel da
Quando uma máquina é de propriedade e operada máquina e de outras forças de produção. Da mes-
pela mesma pessoa, ela constitui um meio de ma maneira que as sociedades industriais investem
produção, mas não capital, porque as relações em fábricas e maquinaria para aumentar a produ-
sociais através das quais é usada, possuída e con- tividade, elas investem também em escolas a fim
trolada são uma única e mesma coisa. Se o in- de aumentar o treinamento, os conhecimentos e as
divíduo que possui a máquina passa a contratar qualificações de seus trabalhadores. Nesse senti-
trabalhadores que a usam para produzir bens em do, empresas, comunidades e sociedades possuem
troca de salário, então a máquina se transforma em certo volume de capital humano sob a forma dos
capital através da criação de um novo conjunto de vários tipos de capacidade de seu pessoal. Analo-
relações sociais. gamente, pode-se considerar indivíduos como
Essa maneira de encarar o capital o define possuindo volumes variáveis de capital humano,
como um fenômeno basicamente social, que tanto que podem usar para fins produtivos, incluindo
deriva como reflete as relações sociais através das ganhar o sustento.
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quais ocorre a atividade econômica. O conceito de capital humano é usado com


Ver também CAPITALISMO; TRABALHO E FOR- mais freqüência para explicar padrões de desigual-
ÇA DE TRABALHO.
dade social relacionados com raça, classe, etnici-
dade ou sexo. A teoria do capital humano argu-
Leitura sugerida: Marx, Karl 1867 (1974): O capi- menta que as mulheres, por exemplo, ganham
tal, crítica da economia política. Rio de Janeiro: menos dinheiro do que os homens porque pos-
Civilização Brasileira / (1975): Capital, vol.1. Har- suem menos capital humano sob a forma de edu-
mondsworth: Penguin. cação, qualificações e experiência. Embora o ca-
pital humano certamente explique algumas va-
riações em renda e riqueza, contribui relativa-
capital cultural De acordo com o sociólogo mente pouco para explicar padrões persistentes de
francês Pierre BOURDIEU, o capital cultural con- desigualdade. Cerca de dois terços do hiato de
siste de idéias e conhecimentos que pessoas usam renda entre homens e mulheres nos Estados Uni-
quando participam da vida social. Tudo, de regras dos não podem ser explicados por diferenças em
de etiqueta à capacidade de falar e escrever bem educação, experiência, continuidade de trabalho
pode ser considerado capital cultural. Bourdieu ou treinamento no emprego.
estava particularmente interessado na distribuição O grande problema com a teoria do capital
desigual do capital cultural em sociedades es- humano é a suposição de que a quantia que pessoas
tratificadas e na maneira como essa desigualdade recebem como remuneração por seu trabalho ba-
desprivilegia as pessoas. Esse fato é verdadeiro seia-se em um cálculo racional de seu valor pro-
sobretudo em escolas e profissões, onde a ignorân- dutivo, sem nenhuma atenção a fatores como raça,
cia do que as classes dominantes definem como sexo, etnicidade e vulnerabilidade desses grupos à
conhecimento tácito torna muito difícil a membros discriminação e exploração baseadas em precon-
de grupos marginais ou subordinados competir ceito.
com sucesso. Imigrantes étnicos, por exemplo,
freqüentemente têm desempenho medíocre nas Leitura sugerida: Becker, Gary S. 1975: Human
Capital, 2ªed. Chicago: University of Chicago Press
escolas porque carecem do importante capital cul-
● Marini, M.M. 1989: “Sex differences in earnings in
tural requerido pela nova sociedade onde vivem.
the United States”. Annual Review of Sociology 15:
Bourdieu referiu-se a essa carência como privação 343-80.
cultural.
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Ver também CULTURA; ESTRATIFICAÇÃO E


DESIGUALDADE; REPRODUÇÃO CULTURAL E RE- capitalismo O capitalismo é um sistema eco-
PRODUÇÃO SOCIAL. nômico surgido na Europa nos séculos XVI e XVII.
Do ponto de vista desenvolvido por Karl MARX,
Leitura sugerida: Bourdieu, Pierre, e Jean-Claude o capitalismo é organizado em torno do conceito
Passeron 1977: Society, Culture, and Education. Be- de CAPITAL e da propriedade e controle dos meios
verly Hills, CA: Sage Publications. de produção por indivíduos que empregam traba-

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30 CAPITALISMO AVANÇADO

lhadores para produzir bens e serviços em troca de suíam nem controlavam pessoalmente os meios de
salário. Como fundamental ao capitalismo como produção, embora, como mercadores, obtivessem
sistema social, há um conjunto de três relações lucros aproveitando as condições de mercado, tais
entre 1) trabalhadores; 2) meios de produção (fá- como comprando e transportando bens para venda
bricas, máquinas, ferramentas, e assim por diante); em locais onde não existiam. Os mercadores
e 3) os que possuem ou controlam esses meios. Os contribuíram para a emergência do capitalismo ao
membros da classe capitalista os possuem ou desenvolver a idéia do lucro, do uso de bens como
controlam, mas não os usam concretamente para veículos para transformar dinheiro em mais di-
produzir riqueza; os membros da classe traba- nheiro. Só mais tarde é que o capitalismo surgiu
lhadora nem os possuem nem controlam, mas os como sistema, cuja principal base de poder e lucro
usam para produzir; e a classe capitalista emprega era o controle sobre o próprio processo de produ-
a classe trabalhadora comprando FORÇA DE ção. Na forma avançada que assumiu em socie-
TRABALHO (tempo) em troca de salários.
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C dades industrializadas capitalistas modernas, afas-
A definição mais comum de capitalismo — tou-se do capitalismo competitivo, que implicava
simplesmente a posse privada dos meios de pro- um conjunto de empresas relativamente pequenas,
dução — ignora o fato de que indivíduos vinham evoluindo para o que Marx chamou de capitalismo
produzindo bens há milhares de anos com fer- monopolista (ou avançado ). Nessa forma, empre-
ramentas próprias, muito antes do aparecimento sas se fundem e formam centros globais cada vez
do capitalismo. Sob o capitalismo, portanto, a maiores de poder econômico, com potencial para
posse dos meios de produção não é simplesmente rivalizar com nações-estado em sua influência
privada; é também exclusiva e fornece base à sobre os recursos e a produção e, através deles,
CLASSE SOCIAL e à exploração no interesse do sobre as condições em que a vida social ocorre, no
lucro e da acumulação de ainda mais meios de seu sentido mais amplo. À medida que as tensões
produção. Como tal, a identificação costumeira e contradições no sistema se tornam mais severas,
de capitalismo com “livre iniciativa” induz, de governos intervêm com uma freqüência e rigor
certa maneira, ao erro, pois a tríade de relações cada vez maiores para controlar mercados, finan-
entre meios de produção, trabalhadores e capitalis- ças, trabalho e outros interesses capitalistas. Marx
tas não é condição necessária para a livre iniciativa considerava essa situação como o estágio final que
e, de várias formas, pode prejudicá-la. Uma vez levaria à revolução socialista.
que a concorrência ameaça o sucesso de toda Ver também CONTRADIÇÃO; LUCRO; MERCA-
empresa capitalista (por mais que ela possa contri- DO; MERCADO DE TRABALHO; MERCADORIA;
buir para o sistema como um todo), as empresas MODO DE PRODUÇÃO; MONOPÓLIO; OLIGOPÓ-
geralmente a enfrentam tentando aumentar seu LIO; SOCIALISMO ESTATAL; TRABALHO E FORÇA
controle sobre o trabalho, a produção e os merca- DE TRABALHO; VALOR ECONÔMICO.
dos, com o resultado de que a economia torna-se
cada vez mais dominada por um número relativa- Leitura sugerida: Edwards, Richard C., Michael
mente pequeno de grandes empresas. Neste senti- Reich e Thomas E. Weisskopf, orgs. 1986: The
Capitalist System, 3ªed. Englewood Cliffs, NJ: Pren-
do, o exercício efetivo de liberdade no capitalismo
tice-Hall ● Mandell, Ernest 1971: Marxist Economic
de livre mercado torna-se possível apenas em ní-
Theory, 2 vols. Nova York: Monthly Review Press Ο
veis cada vez mais vastos de organização social.
1975: Late Capitalism. Londres: New Left Books ●
À medida que milhares de pequenas empresas Marx, Karl 1867 (1974): O capital, crítica da econo-
concorrentes são substituídas por enormes mia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira /
CONGLOMERADOS (muitos deles transnacionais), (1975): Capital: a Critique of Policial Economy.
assim, também, a liberdade da “livre iniciativa” é Nova York: International Publishers; Harmonds-
exercida por um número cada vez menor de atores worth: Penguin ● Smith, Adam [1776] 1982: The
econômicos. Wealth of Nations. Nova York: Penguin.
A idéia de livre mercado está provavelmente
associada de forma mais correta ao que poderia ser
denominado de “capitalismo primitivo”, aquele
capitalismo avançado ver CAPITALISMO.
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período anterior à REVOLUÇÃO INDUSTRIAL,


quando o capitalismo adotou a forma de busca de capitalismo estatal O capitalismo estatal
lucros através da compra e venda de bens. Os (conhecido também como socialismo democráti-
precursores do capitalismo moderno não pos- co ) é um tipo de ECONOMIA POLÍTICA em que o

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CASAMENTO NEOLOCAL 31

Estado participa ativamente da posse, controle ou pai e diversos parentes. Serve também para regular
ajuda efetiva à empresa capitalista. Em alguns o comportamento sexual; para transferir, preservar
casos, essa orientação inclui a posse e operação de ou consolidar propriedade, prestígio e poder; e,
indústrias-chave, tais como as de utilidade públi- nas sociedades patriarcais, transferir a autoridade
ca, estações de televisão, petróleo, gás natural e sobre as mulheres dos pais para os maridos. Mais
transporte de massa. Em termos mais gerais, con- importante ainda, constitui a base da instituição da
tudo, o Estado, no regime do capitalismo estatal, FAMÍLIA.
utiliza seus recursos e autoridade para estabilizar Embora na maioria das sociedades o casamen-
mercados capitalistas (proibindo monopólios, por to seja definido em termos heterossexuais, o casa-
exemplo, ou controlando as taxas de juros, tarifas mento envolvendo parceiros do mesmo sexo não
sobre as importações e formação de preços) e, de é desconhecido e está se tornando cada vez mais
outras maneiras, para proteger e promover os in- aceito em algumas sociedades industriais. O casa-
teresses da classe capitalista. A prática repetitiva mento de gays e lésbicas é legal na Dinamarca, por
que se observa nos Estados Unidos do uso de exemplo, e em algumas partes dos Estados Unidos
fundos fiscais para “salvar” grandes empresas ma- casais homossexuais conquistaram alguns direitos
nufatureiras e bancos que ameaçam ir à falência (tais como a herança e benefícios da previdência
(não raro porque mal administrados ou por fraude) social), antes reservados a cônjuges heteros-
constitui exemplo de intervenção do capitalismo sexuais.
estatal. Essa modalidade desvia-se fortemente do O divórcio é a dissolução socialmente reco-
ideal capitalista de “livre mercado”, no qual a nhecida do casamento. Como o matrimônio, é
capacidade competitiva constitui a principal deter- regido por grande variedade de normas culturais
minante do sucesso ou do fracasso das empresas.
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que determinam o quão difícil é consegui-lo e as
Ver também CAPITALISMO; SOCIALISMO ES- conseqüências sociais e pessoais que produz. De
TATAL. modo geral, é mais difícil de obter em sociedades
em que casamento e divórcio afetam os interesses
Leitura sugerida: Edwards, Richard C., Michael
de grande número de pessoas, como, por exemplo,
Reich e Thomas E. Weisskopf 1986: “The capitalist
quando os casamentos ligam famílias inteiras em
economy: Structure and change”. In The Capitalist
arranjos de compartilhamento e concentração de
System, 3ªed., org. por Edwards, Reich e Weisskopf,
4-15. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall ● Jessop, propriedade e poder. Em comparação, o divórcio
Bob 1982: The Capitalist State. Nova York: New é relativamente fácil em sociedades em que se
York University Press. considera o casamento como nada mais do que a
união consensual entre duas pessoas, destinada a
produzir felicidade e segurança material para elas
capitalismo monopolista ver CAPITALISMO.
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como indivíduos.
Ver também REGRAS DE CASAMENTO.
carismática, autoridade ver AUTORIDADE.
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Leitura sugerida: Cherlin, Andrew J. 1981: Mar-


riage, Divorce, and Remarriage. Cambridge: Har-
carreira ver TRABALHO.
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C vard University Press ● Goode, William J. 1993:
World Changes in Divorce Patterns. New Haven:
Yale University Press ● Phillips, Roderick 1988: Put-
casamento e divórcio O casamento é uma
ting Asunder: A History of Divorce in Western Socie-
união socialmente sancionada envolvendo dois ou
ty. Nova York: Cambridge University Press.
mais indivíduos no que é considerado um arranjo
estável, duradouro, baseado, pelo menos em parte,
em laço sexual de algum tipo. Dependendo da casamento grupal ver REGRAS DE CASA-
sociedade, o casamento pode requerer sanção re- MENTO.
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ligiosa ou civil (ou ambas), embora alguns casais


venham a ser considerados casados pelo simples
casamento matrilocal ver REGRAS DE CA-
fato de viverem juntos durante um período pres-
SAMENTO.
crito (casamento consuetudinário).
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Na maioria das sociedades, o casamento serve


socialmente para identificar os filhos, ao definir casamento neolocal ver REGRAS DE CASA-
com clareza os laços de PARENTESCO com mãe, MENTO.
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32 CASAMENTO PATRILOCAL

casamento patrilocal ver PARENTESCO.


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de William Foote Whyte sobre gangues urbanas.
Os estudos de caso também são usados em escala
casamento, regras de ver REGRAS DE CASA- muito mais vasta, contudo, como nos estudos
MENTO.
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comparativos de práticas empresariais britânicas,
americanas e japonesas, de causas de revoluções
caso Em pesquisa, um caso é qualquer unidade políticas ou do impacto da tecnologia sobre o
selecionada para observação. Em uma pesquisa de ambiente de trabalho.
opinião, por exemplo, cada respondente é um Embora os estudos de caso não possam ser
caso, ao passo que em um estudo da economia usados como base para declarações confiáveis
mundial o caso pode ser uma empresa, uma comu- sobre populações, podem proporcionar insights
nidade ou toda uma nação. Em tabulações estatís- importantes que poderão ser utilizados com o ob-
ticas, o número de casos é em geral representado jetivo de desenhar estudos mais amplos e mais
pela letra n, como em “n = 1.500”. O n minúsculo representativos. Além disso, à medida que se acu-
denota o tamanho de amostra e um N maiúsculo mulam os estudos de caso em determinadas áreas
indica o tamanho da população.
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da vida social, o resultado pode muitas vezes ser
Ver também POPULAÇÃO; AMOSTRA. usado como substituto de estudos isolados mais
amplos, baseados em amostras representativas.
caso, estudo de O estudo de caso é um méto- Ver também AMOSTRA; CENSO; OBSERVAÇÃO
do de pesquisa que se concentra em um único caso, PARTICIPANTE; PERSPECTIVA INTERACIONISTA.
e não em um CENSO de população ou numa amos-
tra representativa.
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Leitura sugerida: Feagin, J.R., A.M. Orum e G.
Sjoberg 1991: A Case Study for the Case Study.
A despeito do fato de que o estudo de caso torna
Chapel Hill: University of North Carolina Press.
virtualmente impossível fazer generalizações so-
bre população, o método tem seus usos. Quan-
do pesquisadores focalizam um único caso, por casta Uma casta é uma categoria rígida na qual
exemplo, podem fazer observações detalhadas du- pessoas nascem sem possibilidade de mudança.
rante longo período de tempo, o que seria impos- Em alguns sistemas de ESTRATIFICAÇÃO E DESI-
sível com grandes amostras sem que se incorresse GUALDADE, a distribuição de recompensas e re-
em grandes despesas. Os estudos de caso são cursos é organizada em torno de castas. Na Índia,
também úteis nos primeiros estágios da pesquisa, o sistema de casta tem consistido ao longo da his-
quando o objetivo consiste em explorar idéias, tória em quatro categorias básicas — Brahmin,
submeter a teste e aperfeiçoar instrumentos de Kshatriya, Vaisya e Sudra —, todas elas com lo-
medição e qualificações observacionais, e prepa- calização específica e rígida no sistema de estrati-
rar um estudo em base mais ampla. ficação. Além dessas castas, há os “párias”, o gru-
Às vezes o estudo de caso é a única possibili- po composto de “intocáveis”, situados abaixo da
dade. Nosso interesse, suponhamos, poderia con- casta mais baixa. O cruzamento de fronteiras de
centrar-se na dinâmica de eleições nacionais, mas, casta é rigorosamente proibido mediante controle
uma vez que elas ocorrem apenas a intervalos de sobre a distribuição ocupacional e local de residên-
vários anos, nossa única opção seria realizar um cia e, sobretudo, sobre a escolha de cônjuges. Nas
estudo de caso de uma eleição particular, sabendo quatro castas principais existem numerosas sub-
que os resultados não podem ser generalizados castas, entre as quais é possível certo grau de
para todas as eleições. Ou poderíamos querer es- mobilidade.
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tudar um fenômeno que é improvável que se repita De acordo com o sistema indiano de castas,
de modo previsível, tais como as conseqüências codificado na religião hinduísta, pessoas podem
sociais de uma guerra ou de uma calamidade na- passar de uma casta a outra em várias vidas, atra-
tural, como inundações, terremotos ou secas. vés do processo de reencarnação. Essa movimen-
Uma vez que permitem focalização intensa no tação depende de desempenho bem-sucedido na
comportamento social, esses estudos são os mo- atual posição na casta, o que significa que o siste-
delos de pesquisa preferidos pelos que usam a ma proporciona um forte incentivo para obrigar à
PERSPECTIVA INTERACIONISTA e confiam na OB- aceitação do próprio sistema e de suas desigual-
SERVAÇÃO PARTICIPANTE como método de pes- dades.
quisa. Dois estudos clássicos nesse particular fo- Embora o conceito de casta esteja ligado quase
ram os de Erving GOFFMAN sobre hospícios e o que exclusivamente à Índia, elementos desse sis-

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CENTRO URBANO 33

tema podem ser encontrados em algumas outras cauda da distribuição ver SIMETRIA.
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sociedades, como ocorreu no Japão nos séculos


XVII e XVIII e, mais recentemente, nos Estados
Unidos e na África do Sul. Apesar do sistema de cela ver TABULAÇÃO CRUZADA.
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castas ter sido oficialmente abolido na Índia em


1949, sua influência continua muito forte, em censo O censo é uma coleta de informações
especial nas áreas rurais. sobre todos os membros de uma população, e não
Ver também CLASSE SOCIAL; MOBILIDADE de uma AMOSTRA. Na Grã-Bretanha e nos Estados
SOCIAL. Unidos, por exemplo, um censo é realizado a cada
dez anos. Embora seja com mais freqüência as-
Leitura sugerida: Frederickson, G.M. 1981: White sociado à coleta de dados em nível nacional, o
Supremacy: A Comparative Study in American and censo, como conceito, aplica-se a qualquer popu-
South African History. Nova York: Oxford University lação, não importa seu tamanho.
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Press ● Gould, Harold A. 1987: The Hindu Caste Uma vez que visa uma população inteira, é
System: The Sacralization of a Social Order. Déli: tentador supor que suas informações serão mais
Chanakya. precisas do que as decorrentes de uma amostra.
Isso não ocorre necessariamente, contudo, uma
castelo ver FEUDALISMO.
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vez que a pesquisa por amostragem pode concen-


trar-se fortemente na obtenção de respostas de
categoria ver CATEGORIA SOCIAL.
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todos os respondentes, enquanto que o censo tem
necessariamente de aceitar um alto nível de ausên-
categoria social Categoria social é um con- cia de resposta. Esse é o motivo por que grandes
junto de pessoas que têm o mesmo STATUS social, pesquisas por amostragem são freqüentemente
tais como “mulher”, “gerente” ou “estudante uni- usadas para avaliar a precisão dos censos.
versitário”. Embora os membros da mesma cate- Ver também AMOSTRA; ESTUDO DE CASO; LE-
goria social possam, como resultado, compartilhar VANTAMENTO PÓS-CENSITÁRIO ; POPULAÇÃO.
das mesmas características, como crenças e va-
lores, elas não identificam necessariamente a ca- Leitura sugerida: Anderson, M.J. 1988: The Ame-
tegoria como uma entidade significativa à qual rican Census: A Social History. New Haven: Yale
pertencem (se assim acontecesse, elas constitui- University Press.
riam uma COLETIVIDADE). Tampouco participam
de padrões regulares de interação (em contraste centro urbano Centro urbano é o termo mo-
com os GRUPOS). A despeito do movimento femi- derno para o conceito de zona de transição, de
nista, por exemplo, numerosas mulheres não pen- Ernest Burgess, inicialmente introduzido em sua
sam em “mulher” como sendo algo mais do que teoria de zona concêntrica de desenvolvimento
uma característica social e biológica. Não a consi- urbano. Burgess argumentava que à medida que
deram uma entidade mais ampla com a qual se as cidades crescem suas áreas centrais são crescen-
identificam e com a qual sentem algum senso de temente reservadas às empresas, hotéis, bancos e
solidariedade. Em contraste, numerosas feminis- outros usos que tendem a romper o senso de
tas consideram “fêmea” como o nome de um comunidade entre os que nelas vivem. Esse fato
grupo reconhecível de pessoas por quem cultivam deflagra um processo social através do qual essas
um senso de lealdade.
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áreas se transformam em zonas de transição. Ca-
Categorias sociais podem ser facilmente trans- recendo de base para uma comunidade forte, os
formadas em coletividades ou grupos mediante a centros urbanos tendem a se tornar pontos de
criação de um senso de identidade compartilhado entrada para migrantes relativamente pobres que
e por aumento de interação entre os membros. Os chegam em busca de trabalho. Eles se amontoam
MOVIMENTOS SOCIAIS em geral iniciam-se dessa em habitações de baixo padrão e, à medida que a
maneira, quando membros de MINORIAS oprimi- pobreza se espalha e as condições sociais se agra-
das identificam seu status desprivilegiado não ape- vam, proliferam o crime e outros problemas so-
nas como uma característica pessoal, mas como ciais, o que leva os residentes prósperos a fugir
um indicador de sua participação em uma entidade para os subúrbios. Essa situação gera uma espiral
social mais ampla. descendente de receita fiscal em queda, pobreza,
Ver também AGREGADO. escolas decadentes e fuga para os subúrbios, com

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3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra C
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34 CERIMÔNIA DE DEGRADAÇÃO

exceção dos mais ricos e dos mais pobres, com perante a lei; 2) direitos políticos, que incluem o
uma classe média e uma classe de trabalhadores direito de votar e disputar cargos em eleições
qualificados cada vez menores. O modelo de Bur- livres; e 3) direitos socioeconômicos, que incluem
gess tem sido criticado por ter dado pouca atenção o direito ao bem-estar e à segurança social, a
às fontes de coesão nas áreas de centros de cidade, sindicalizar-se e participar de negociações coleti-
especialmente no nível de bairros.
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C vas com empregadores e mesmo o de ter um
Conceitos como centro urbano e zona de tran- emprego.
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sição são sociologicamente importantes porque Uma questão sociológica fundamental sobre
chamam a atenção para a maneira como a geogra- cidadania é de que forma os vários grupos são de-
fia e os usos do espaço desempenham um papel la incluídos e excluídos — como na negação do
importante na criação e perpetuação de padrões voto às mulheres na Grã-Bretanha e Estados Uni-
sociais como a desigualdade. dos até bem recentemente neste século ou na proi-
Ver também ESCOLA DE CHICAGO; PERIFERIA bição de sindicalização aos trabalhadores durante
URBANA; SUBÚRBIO; URBANIZAÇÃO E URBANIS- grande parte do início da história do capitalismo
MO. — e como essas situações afetam a desigualdade
social. Marshall argumentou, por exemplo, que a
Leitura sugerida: Dogan, Mattei, e John D. Kasar- concessão da cidadania plena aos trabalhadores
da, orgs. 1987: The Metropolis Era. Nova York: desprivilegiou-os até certo ponto: enquanto se
Russell Sage Foundation ● Gottdiener, Mark 1985:
sentirem excluídos do sistema, os trabalhadores
The Social Production of Urban Space. Austin: Uni-
têm maior probabilidade de se organizarem em
versity of Texas Press ● Park, Robert E., Ernest
oposição ao mesmo. Na medida em que se sentem
Burgess e Roderick D. McKenzie, orgs. 1925: The
City. Chicago: University of Chicago Press.
mais incluídos, tendem também a aceitar a legiti-
midade do próprio sistema sob o qual são explo-
rados como trabalhadores e, por conseguinte, me-
cerimônia de degradação A cerimônia de nor a probabilidade de que se rebelem contra o
degradação é um RITO DE PASSAGEM usado às mesmo. Note-se, por exemplo, que os direitos de
vezes para iniciar pessoas em INSTITUIÇÕES TO- cidadania nas sociedades capitalistas não incluem
TAIS como hospitais de doentes mentais, prisões e igual controle dos meios de produção.
unidades militares. O objetivo das cerimônias de
degradação é privar o indivíduo de sua antiga Leitura sugerida: Bendix, Reinhard 1977: Notion-
identidade e dignidade a fim de fazer com que Building and Citizenship. Berkeley: University of
aceite mais facilmente o controle externo. Nas California Press ● Marshall, Thomas H. 1950: Citi-
prisões, por exemplo, essa prática pode incluir ser zenship, Social Class, and Other Essays. Cambridge,
despido, passado em revista (inclusive nas cavi- Inglaterra: Cambridge University Press.
dades do corpo), e verbalmente hostilizado de
maneiras que classificam o interno como inferior ciência Do ponto de vista sociológico, ciência
e frisam sua falta de poder e de autonomia.
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é um corpo de conhecimentos sobre o mundo


Leitura sugerida: Garfinkel, Harold 1956: “Con- natural, um método para descobrir tal conheci-
ditions of successful degradation ceremonies”. Ame- mento e uma INSTITUIÇÃO social organizada em
rican Journal of Sociology 61: 420-4. torno de ambos. Como método, a ciência repousa
na idéia de que o conhecimento confiável do mun-
do deve basear-se em observação sistemática, ob-
ceticismo organizado, norma de ver RE-
jetiva, de fatos que levarão qualquer um que os
GRAS DA CIÊNCIA.
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estudar a chegar às mesmas conclusões. Embora


grande volume de trabalhos sociológicos sejam
cidadão e cidadania Da forma desenvolvida orientados por princípios científicos, há contro-
por Thomas H. MARSHALL, cidadania é uma vérsia se métodos científicos são ou não aplicáveis
situação social que inclui três tipos distintos de à vida social ou, por falar nisso, até mesmo ao
direitos, especialmente em relação ao ESTADO: 1) mundo natural.
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direitos civis, que incluem o direito de livre ex- Sociólogos estão interessados na ciência não
pressão, de ser informado sobre o que está acon- apenas como um método que podem usar em suas
tecendo, de reunir-se, organizar-se, locomover-se próprias pesquisas, mas como um fenômeno social
sem restrição indevida e receber igual tratamento por mérito próprio. Como instituição social, por

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CLASSE ALTA 35

exemplo, a prática da ciência tornou-se crescente- Leitura sugerida: Elias, Norbert 1939 (1990-93): O
mente complexa, dispendiosa e dependente do processo civilizador, 2 vols. Rio de Janeiro. Jorge
governo e de empresas para financiamento. Esse Zahar / (1978-82): The Civilizing Process, 2 vols.
fato, por seu lado, transformou o processo do Oxford: Blackwell; Nova York: Pantheon.
trabalho científico, a começar pelos valores que
influenciam a escolha dos objetos de pesquisa. clã No estudo do PARENTESCO, o clã é um con-
Ver também DESCONSTRUÇÃO; EPISTEMOLO- junto de pessoas que se consideram descendentes
GIA; ESTRUTURALISMO E PÓS-ESTRUTURALIS- de um mesmo ancestral e, portanto, julgam-se co-
MO; FALSIFICACIONISMO; MÉTODO HIPOTÉTICO- mo parte de um grupo que tem uma identidade
DEDUTIVO; METODOLOGIA; MODERNISMO E PÓS- comum. A filiação ao clã é unilinear: pode ser
MODERNISMO; OBJETIVIDADE; RELEVÂNCIA DO traçada através da mãe ou do pai, mas nunca de
VALOR, ISENÇÃO DE VALOR E NEUTRALIDADE ambos.
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VALORATIVA. Ver também PARENTESCO.

Leitura sugerida: Barnes, Barry 1985: About Leitura sugerida: Neville, Gwen 1979: “Communi-
Science. Nova York: Blackwell Publishers ● Merton, ty form and ceremonial life in three regions of
Robert K. 1973: The Sociology of Science: Theoreti- Scotland”. American Ethnologist 6: 93-100 ● Rivers,
cal and Empirical Investigations. Chicago e Londres: William H.R. 1914: Kinship and Social Organiza-
University of Chicago Press ● Zuckerman, Harriet tion. Londres: Constable.
1988: “The sociology of science: A selective Re-
view”. In Handbook of Sociology, org. por Neil J. classe ver CLASSE SOCIAL.
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Smelser. Beverly Hills: Sage Publications.


classe alta No estudo da ESTRATIFICAÇÃO, a
ciência, regras da ver REGRAS DA CIÊNCIA.
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classe alta é identificada pela sua posição domi-
nante em relação à distribuição da riqueza, poder
e prestígio. Nas sociedades feudais, a classe alta
circulação de elites ver ELITE.
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assumia a forma de aristocracia, ou seja, um con-
junto de posições herdadas de privilégio baseadas
no controle da terra e das populações camponesas,
civilização Uma civilização é uma sociedade posições estas não raro concedidas em troca de
cuja relativa falta de necessidade de lutar pela mera lealdade militar a líderes mais poderosos. Sob o
sobrevivência permite-lhe tornar-se mais comple- capitalismo, o privilégio da classe alta baseia-se na
xa em cultura e estrutura. As características típicas propriedade e controle dos meios de produção e
de civilização incluem COMUNIDADES fixas; or- no emprego de trabalhadores em troca de salário.
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ganização política sob a forma de ESTADO; DIVI- Há várias maneiras de identificar as fronteiras
SÃO DO TRABALHO complexa; negócios e comér- que separam a classe alta das outras. Em um
cio em economias de mercado; instituições reli- sentido, ela se distingue por sua imensa parcela de
giosas formais; e arte, literatura, música e outras posse dos recursos e das recompensas, tais como
formas de expressão altamente desenvolvidas.
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renda e riqueza, a maior parte das quais é herdada.
A civilização distingue-se principalmente em Na Grã-Bretanha, por exemplo, dois em cada três
comparação com as sociedades de CAÇADORES- executivos-chefes de grandes empresas têm meio
COLETORES e a SOCIEDADE HORTELÃ, que são formativo de classe alta. Nos Estados Unidos, os
muitas vezes denominadas de “primitivas” por 10% mais ricos da população controlam 67% de
aqueles que se consideram civilizados. Essa dis- toda a riqueza, incluindo 87% dos bens de liquidez
tinção freqüentemente inclui pressupostos sobre a imediata, 94% dos ativos empresariais, 90% de
superioridade moral destes últimos, que a história papéis e títulos mobiliários e 49% de todos os bens
e estudos culturais entre culturas demonstram que, imobiliários. É um tanto arbitrário se considera-
na maior parte, carecem de fundamento. Na ver- mos esses 10% como constituindo a classe alta,
dade, alguns autores argumentam que o desenvol- uma vez que poderíamos, com igual facilidade,
vimento da civilização ocidental — completa com mudar a definição para incluir os 12% mais ricos,
bem-estar organizado de massa, extensa poluição ou os 8% mais ricos, ou mesmo o 1% mais rico.
ambiental, alienação, exploração econômica e Um enfoque menos arbitrário focaliza o fato de
opressão social — sugere decadência moral. que membros da classe alta tendem a possuir um

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36 CLASSE BAIXA

senso relativamente claro de identidade de classe, dimensões da desigualdade. Os membros dessa


baseado em laços de família e experiências co- classe nenhuma riqueza têm e pouca renda aufe-
muns, como estudo em escolas particulares. Esse rem. Não possuem nem controlam quaisquer
fato se reflete em práticas tais como a compilação meios de produção e se encontram no fundo das
de anuários de figuras da alta sociedade, no envio estruturas econômica e de autoridade política. Em
dos filhos a seletas escolas particulares freqüenta- geral desempregados, quando trabalham ocupam-
das por outros membros da classe alta e no es- se das tarefas mais humildes, que pouca ou ne-
tabelecimento de restrições severas à escolha de nhuma qualificação ou treinamento exigem e nada
parceiros de casamento. Sociólogos como William oferecem em matéria de estabilidade ou esperança
Domhoff, nos Estados Unidos, tentaram, com al- de promoção. Especialmente nos Estados Unidos,
gum sucesso, usar esses critérios para identificar predomina a crença de que a composição da classe
as fronteiras concretas que delimitam a classe alta. baixa é relativamente estável e transmitida de uma
Os marxistas em especial argumentam que a a outra geração. Embora provas recentes sugiram
classe alta constitui, algumas vezes, uma classe que uma SUBCLASSE permanente possa estar se
governante, principalmente através do controle formando na população negra, há, de modo geral,
que exerce sobre as instituições econômicas e movimento considerável entre a classe baixa e a
políticas. Esse fato certamente aconteceu com as classe trabalhadora que fica imediatamente acima.
aristocracias feudais, mas é menos claro que uma As crises repetidas do CAPITALISMO, por exemplo,
autêntica classe governante exista nas sociedades geram considerável mobilidade descendente que
capitalistas modernas. A fim de manter o controle engorda as fileiras da população sem teto, errante,
dos meios de produção, é necessário que os capi- marginal, que Karl MARX denominou de LUM-
talistas providenciem para que o Estado atue tendo PEMPROLETARIADO.
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em vista seus melhores interesses durante, pelo Ver também CLASSE SOCIAL; ESTRATIFICA-
menos, a maior parte do tempo. A classe alta busca ÇÃO.
cumprir esse intuito de várias maneiras. Coloca
seus próprios membros em posições de autori- Leitura sugerida: George, Vic., e Roger Lawson
dade, tais como em cargos de ministros; contribui 1980: Poverty and Inequality in Common Market
para as despesas de campanha de candidatos que Countries. Londres: Routledge and Kegan Paul ●
apóiam o capitalismo e seus interesses; financia Wilson, William Julius 1987: The Truly Disadvanta-
organizações como “grupos de alto nível” que ged: The Inner City, the Underclass, and Public Po-
publicam livros e trabalhos que a promovem e licy. Chicago: University of Chicago Press.
patrocina conferências que modelam a maneira
como as pessoas interpretam assuntos relativos ao
capitalismo; e controla o potencial da mídia de
classe de serviço ver CLASSE GERENCIAL.
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criticar o capitalismo e revelar suas conseqüências


sociais problemáticas. É discutível o grau em que classe gerencial Nas sociedades capitalistas
a classe alta realmente tem sucesso em tudo isso. industriais, a classe gerencial é uma camada situa-
Ver também CLASSE GERENCIAL; CLASSE SO- da perto do topo da estrutura de classe, imediata-
CIAL; ELITE; ESTRATIFICAÇÃO E DESIGUALDA- mente abaixo da classe alta. Embora compartilhe
DE; FEUDALISMO; HEGEMONIA; OLIGARQUIA. de muitas das características da mesma, a base de
sua posição se situa menos na propriedade dos
Leitura sugerida: Domhoff, G. William 1983: Who
meios de produção do que no controle que sobre
Rules American Now? Englewood Cliffs, NJ: Pren-
eles exerce. Esse fato coloca na classe gerencial os
tice-Hall ● Stanworth, Philip, e Anthony Giddens,
principais funcionários executivos e outros mem-
orgs. 1974: Elites and Power in British Society. Cam-
bridge, Inglaterra: Cambridge University Press ●
bros da alta administração, bem como, em alguns
Useem, Michael 1984: The Inner Circle: Large Cor- casos, funcionários do governo cujo trabalho con-
porations and the Rise of Business Political Activity siste em servir aos interesses do CAPITALISMO (daí
in the US and UK Nova York: Oxford University Press. serem algumas vezes designados como perten-
centes à classe de serviço).
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Há algum desacordo entre os sociólogos sobre


classe baixa No estudo da estratificação so- a influência relativa das classes alta e gerencial,
cial, a classe baixa é o nível designado como a argumentando alguns que o rápido aumento do
posição mais inferior em virtualmente todas as tamanho e poder desta última ameaça eclipsar a

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CLASSE SOCIAL 37

primeira. Outros observam que embora a classe Em termos de renda e riqueza, por exemplo, gran-
gerencial tenha se tornado cada vez mais impor- de parte do que é considerado de classe média está
tante, seus membros ainda prosperam sobretudo muito mais perto da classe operária do que da
por servir a interesses que coincidem com os da classe alta; a maioria das ocupações de classe
classe alta. média implica baixos níveis de autoridade; e ela
Ver também CLASSE ALTA; CLASSE SOCIAL; não exerce mais propriedade real ou controle sobre
REVOLUÇÃO ADMINISTRATIVA. os meios e processo de produção do que a classe
operária. Exceções a essas generalizações, claro,
Leitura sugerida: Abercrombie, Nicholas, e John são encontradas nas camadas superiores da classe
Urry 1983: Capital, Labour, and the Middle Classes. média, mas formam uma pequena parcela os que
Londres: Allen & Unwin ● Renner, Karl [1953] 1978:
se consideram enquadrados nessa categoria. Pode-
“The service class”. In Austro-Marxism, org. por Tom
ríamos argumentar que a classe média fica a meio
Bottomore e P. Goode. Oxford: Oxford University
caminho entre a classe operária e a alta em termos
Press ● Useem, Michael 1984: The Inner Circle:
Large Corporations and the Rise of Business Political
de prestígio ocupacional, mas, no que interessa a
Activity in the US and UK Nova York: Oxford Univer- grandes segmentos da classe alta, o prestígio ocu-
sity Press. pacional é irrelevante porque não é através de suas
características que seus membros atingem ou man-
têm sua posição de classe.
classe governante ver CLASSE ALTA.
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Embora a classe média seja geralmente consi-


derada como a maior classe isolada, há provas de
classe média No estudo da ESTRATIFICAÇÃO que está diminuindo em número. Nos Estados
E DESIGUALDADE social, classe média é um con- Unidos, por exemplo, tem havido no último meio
ceito que tem permanecido esquivo a definição século uma erosão constante na percentagem de
precisa. Da forma descrita por Karl MARX e Fri- indivíduos que se identificam como membros da
edrich ENGELS, a classe média nos séculos XVII e classe média, que passou de 61% em 1964 para
XVIII consistia de pequenos lojistas e comer- 45% em 1993.
ciantes, artesãos e profissionais liberais — a pe- Ver também CLASSE SOCIAL; PROLETARIZA-
quena burguesia — que ocupava o território eco- ÇÃO; TRABALHADOR DE COLARINHO AZUL E
nômico entre os grandes capitalistas e seus empre- TRABALHADOR DE COLARINHO BRANCO.
gados. Atualmente, essa “velha” classe média é
separada da “nova” classe média que perdeu muito Leitura sugerida: Abercrombie, Nicholas, e John
de sua independência econômica e que hoje está Urry 1983: Capital, Labour, and the Middle Classes.
Londres: Allen & Unwin ● Mills, C. Wright 1951:
associada principalmente ao prestígio inerente a
White Collar. Nova York: Oxford University Press /
ocupações de colarinho branco, tais como traba-
(1980): A nova classe média. Rio de Janeiro: Zahar ●
lhadores burocráticos, chefes de seção de escritó-
Nicolaus, Martin 1967: “Proletariat and middle class
rios, funcionários públicos, profissionais liberais
in Marx”. Studies on the Left 7.
e professores.
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Como conceito analítico, classe média é um


termo problemático por vários motivos. A linha classe ociosa ver CONSUMO CONSPÍCUO.
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que a separa da classe operária, por exemplo, é


obscura, porque ocupações de colarinho branco
classe operária ver CLASSE SOCIAL.
não estão necessariamente ligadas a níveis mais
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altos de educação, renda, riqueza, qualificações ou


treinamento, quando comparadas a empregos bra- classe social Classe social, um dos conceitos
çais altamente qualificados. Esse fato torna-se es- mais importantes no estudo da ESTRATIFICAÇÃO,
pecialmente verdadeiro à medida que empregos é uma distinção e uma divisão social que resultam
administrativos são cada vez mais rotinizados, da distribuição desigual de vantagens e recursos,
fragmentados e automatizados, tornando mais di- tais como riqueza, poder e prestígio. Sociólogos
fícil distingui-los de ocupações da classe operária. definem classe social principalmente na base de
O segundo problema surge com o uso do termo como essas divisões são identificadas.
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“média”, porque é duvidoso que a classe média Karl MARX argumentava que as divisões de
esteja, em qualquer sentido da palavra, no interva- classe baseiam-se em diferenças nas relações entre
lo entre a classe alta e as classes baixa e operária. indivíduos e processo de produção, em especial na

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38 CLASSE SOCIAL

propriedade e controle dos meios de produção (tais fatores do que sobre relações com meios de pro-
como maquinaria, terra e fábricas). Sob o capita- dução — como prestígio ocupacional, educação,
lismo, esses meios são possuídos e controlados por experiência e níveis de qualificação e inteligência,
uma única classe — a classe burguesa, ou herança, sorte, ambição e meio formativo familiar.
capitalista —, cujos membros porém não os usam A segunda dimensão da desigualdade, segun-
concretamente a fim de produzir riqueza. Em vez do Weber, é a distribuição de poder, em especial
disso, esse trabalho é feito por membros da classe com relação a organizações complexas como em-
operária ou proletariado, que produz riqueza mas presas, governos, sindicatos e outras instituições.
nem possui nem controla os meios de produção. Weber utilizou a palavra partido a fim de indicar
Uma vez que os próprios capitalistas tampouco diferenças de poder, não só no sentido de partidos
produzem riqueza de fato, sua prosperidade políticos, mas, em sentido geral, isto é, que o poder
depende necessariamente do trabalho de outras é burocraticamente organizado nas sociedades in-
pessoas. Dessa maneira, eles controlam os meios dustriais, tornando os indivíduos relativamente
de produção e, por extensão, a riqueza produzida. impotentes, a menos que tenham acesso a essas
Trabalhadores satisfazem suas necessidades atra- organizações. Alguns sociólogos argumentam que
vés de salários, que lhes são pagos em troca da a localização na distribuição do poder é a principal
venda de seu tempo (ou FORÇA DE TRABALHO); determinante da posição da classe, e não a posição
salários que, do ponto de vista marxista, repre- econômica ou o prestígio.
sentam apenas uma parte do valor da riqueza que Weber citou como terceira dimensão a dis-
eles produzem. Daí, classe e relações de classe tribuição de prestígio, ou grau de honraria social,
baseiam-se em tensão e luta sobre interesses status ou deferência que pessoas desfrutam em
conflitantes. relação a outras. Essa dimensão foi estudada prin-
O proletariado e a burguesia, no entanto, não cipalmente nos Estados Unidos, sobretudo no to-
foram as únicas classes identificadas por Marx, cante ao prestígio ocupacional como dimensão
embora sejam as mais importantes. As demais para medir a mobilidade social. Ao contrário das
incluíam a aristocracia e os donos de terra (consi- duas outras dimensões, o prestígio é um recurso
derados como sem importância, uma vez que sua cuja distribuição tem que ser desigual a fim de
influência seria nula nas sociedades industriais) e existir, uma vez que a deferência tem que declinar
o lumpemproletariado, ou subclasse (que inclui- das posições mais altas para as mais baixas, exa-
ria a moderna população dos sem-teto), que ne- tamente como a honraria, em sentido oposto, eleva
nhuma relação mantém com o processo de produ- alguns acima de outros. O enfoque multidimensio-
ção. (Por esse motivo, alguns sociólogos argumen- nal de Weber não só amplia a análise da classe,
tam que essa subclasse é fragmentada e transitória como ajuda a identificar as complexidades da po-
demais para constituir uma classe.) Pensadores sição e relações de classe, em especial se as rela-
marxistas mais recentes identificaram novas dis- ções são consideradas no contexto das três dimen-
tinções de classe para explicar a ascensão da classe sões de desigualdade e dos fatos que as afetam.
gerencial (que normalmente não possui os meios Embora poder, prestígio e riqueza freqüentemente
de produção, mas os controla nos interesses da apareçam juntos, eles, até certo ponto, variam de
classe capitalista) e os trabalhadores liberais (tais forma independente. Um líder, por exemplo, pode
como professores de faculdade e funcionários do classificar-se alto em matéria de poder e prestígio,
governo) que trabalham por salário, mas que, ape- mas relativamente baixo em riqueza, da mesma
sar disso, desfrutam de um grau considerável de maneira que riqueza não traz automaticamente
autonomia que os distingue de outros membros da poder ou prestígio.
classe trabalhadora. Além dos determinantes da localização da
Max WEBER identificou três distinções de classe e da dinâmica das relações entre classes, as
classe, de acordo com três dimensões de desigual- questões fundamentais nesse estudo incluem o
dade: 1) classe; 2) poder; e 3) prestígio. Weber ponto em que se deve traçar as linhas entre elas
usou o termo “classe” para referir-se a OPORTUNI- (ou, na opinião de alguns, se tais linhas existem
DADES DE VIDA, ou a capacidade de pessoas de mesmo, fora dos modelos sociológicos de estrati-
conseguir o que querem e necessitam no mercado: ficação); a invisibilidade relativa das mulheres na
comprar bens e serviços, proteger-se dos demais, análise de classe, uma vez que percentagens subs-
e assim por diante. Desse ponto de vista, a posição tanciais delas (embora rapidamente declinando
da classe repousa em um número muito maior de agora) não trabalham fora de casa, ainda que con-

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CÓDIGOS DE LINGUAGEM 39

tribuam muito para a manutenção e a reprodução grupos de outra maneira impotentes podem com-
dos trabalhadores; e a questão de se a família ou o binar-se para exercer influência considerável.
indivíduo deve ser a principal unidade da análise Ver também DÍADE; ESTRUTURA DE PODER.
de classe.
Ver também ABURGUESAMENTO; ALIENA- Leitura sugerida: Caplow, Theodore 1968: Two
ÇÃO; CASTA; CLASSE ALTA; CLASSE BAIXA; CLAS-
Against One: Coalitions in Triads. Englewood Cliffs,
NJ: Prentice-Hall ● Gamson, William A. 1968. “A
SE GERENCIAL; CLASSE MÉDIA; CONSCIÊNCIA E
theory of coalition formation”. American Sociologi-
FALSA CONSCIÊNCIA DE CLASSE; CURVA DE LO-
cal Review 22: 273-9.
RENZ; INTERESSE DE CLASSE; MOBILIDADE SO-
CIAL; PRESTÍGIO; PROLETARIZAÇÃO; TRABALHO
E FORÇA DE TRABALHO; TRABALHADOR DE codificação Codificação é o processo de atri-
COLARINHO AZUL E TRABALHADOR DE COLARI- buir números ou categorias a dados ou infor-
NHO BRANCO. mações. É muito mais fácil, por exemplo, usar
computadores para processar, resumir e exibir in-
Leitura sugerida: Bendix, Reinhard, e Seymour formações quantitativas se cada observação for
Martin Lipset, orgs. 1966: Class, Status, and Power. expressada por um número. Podemos perguntar a
Nova York: Free Press ● Marx, Karl 1867 (1974). O respondentes de pesquisas que categoria de classe
capital, crítica da economia política, Rio de Janeiro: social melhor os descreve — baixa, operária, mé-
Civilização Brasileira / (1976): Capital, vol.1, dia, alta-média ou alta. Quando as respostas são
Harmondsworth: Penguin ● Weber, Max 1920
processadas posteriormente, cada categoria recebe
(1982): Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar
um número equivalente, denominado código —
/ (1946, 1970): From Max Weber: Essays in Sociolo-
tais como classe baixa = 1, classe operária = 2, e
gy. org. por H.H. Gerth e C.W. Mills. Nova York:
Oxford University Press (1946); Londres: Routledge
assim por diante.
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& Kegan Paul (1970) ● Wright, Erik Olin 1985: Clas- A codificação pode ser usada também para
ses. Londres: Verso. atribuir observações a categorias diferentes. Se
queremos estudar um processo de grupo, podemos
gravar uma fita de vídeo de uma reunião do grupo
coalizão Coalizão significa duas ou mais pes- e, mais tarde, tentar identificar os diferentes tipos
soas, grupos ou outras unidades em um SISTEMA de comportamento, gestos e declarações observa-
SOCIAL que se aliam para obter maior PODER ou dos. De que maneira podemos chegar à conclusão
influência. Georg SIMMEL, por exemplo, obser- se uma sugestão feita por um membro do grupo é
vou que uma das principais diferenças entre uma uma tentativa de ajudá-lo no seu trabalho ou um
díade (duas pessoas) e uma tríade (três pessoas) é ataque sarcástico ao mesmo? O processo de atri-
que, com a terceira pessoa, torna-se possível a duas buir essa observação particular a uma ou outra
formar uma coalizão contra uma delas. Como categoria e, em seguida, dar-lhe um número iden-
resultado, três pessoas que vivem juntas tenderão tificador, faz parte do processo de codificação.
a ter uma dinâmica de poder muito diferente do Ver também MEDIDA.
que aconteceria com apenas duas.
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Alguns sociólogos trabalharam no problema Leitura sugerida: Singleton, Royce A., Bruce C.
de prever quando coalizões surgirão nos sistemas Straits e Margaret M. Straits 1993: Approaches to
sociais e quem serão os parceiros mais prováveis. Social Research, 2ªed. Oxford e Nova York: Oxford
Caplow, por exemplo, argumenta que pessoas for- University Press.
mam coalizões a fim de maximizar seu poder sobre
outras, bem como sua própria autonomia. Gamson códigos de linguagem Em seus estudos de
sustenta que, além do poder, indivíduos formam SOCIOLINGÜÍSTICA, Basil Bernstein desenvolveu
também coalizões para maximizar vantagens. os conceitos de códigos de linguagem formal e de
Membros mais fracos de um sistema, por exemplo, jargão, para analisar a relação entre SOCIALIZA-
poderiam combinar-se contra os mais fortes na ÇÃO, LINGUAGEM e CLASSE SOCIAL. Bernstein
esperança de obter recompensas que poderiam argumentava que as pessoas usam a linguagem de
lhes ser negadas, caso se aliassem aos membros duas maneiras básicas. A primeira é o código for-
mais fortes. mal, uma linguagem pública, mais precisa (univer-
As coalizões constituem ingredientes impor- salista) que o indivíduo pode usar para comunicar-
tantes em sociologia política porque, através delas, se de formas que todos compreenderão. Se esta-

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40 COEFICIENTE DE ALIENAÇÃO

mos tentando explicar um fato a alguém que não pessoal explicada pelas variáveis básicas, tal como
estava presente quando ele aconteceu, por exem- a educação, é de 0,40, então 0,60 é a proporção
plo, temos de nos colocar no lugar do ouvinte e deixada sem explicação, uma vez que as pro-
fornecer detalhes suficientes para descrever ade- porções têm que somar 1,00. O coeficiente de
quadamente o contexto do evento, em especial alienação é a raiz quadrada disso, ou 0,77. No
através do uso de adjetivos, advérbios e orações diagrama de seqüência, essa quantidade é cos-
subordinadas. O resultado é uma história coerente, tumeiramente mostrada ligada por uma seta a uma
com boa possibilidade de que o ouvinte compreen- variável dependente, no quadrante direito mais
da o que aconteceu, mesmo que não esteja fami- distante do modelo. (Para uma ilustração, ver a
liarizado com o contexto que, para começar, gerou figura contida no verbete sobre ANÁLISE DE SE-
a história.
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C QÜÊNCIA.) Quanto mais ela se aproxima de 1,00,
A segunda maneira é através de um código de mais medíocre é o modelo como explicação da
jargão, ou seja, a linguagem usada de modo infor- variável dependente. Nesse sentido, o coeficiente
mal, que tende a ser compreendida apenas pelos de alienação é o oposto de uma correlação.
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que têm uma compreensão comum de um dado Ver também ANÁLISE DE REGRESSÃO; ANÁ-
contexto. Quando membros de uma família se LISE DE SEQÜÊNCIA; CORRELAÇÃO; COVARIÂN-
sentam em volta da mesa e contam histórias do CIA.
passado, por exemplo, deixam de fora muitos deta-
lhes porque a familiaridade de todos com as cir- coeficiente de correlação momento-pro-
cunstâncias torna desnecessário incluí-las a fim de duto ver CORRELAÇÃO.
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transmitir o significado. Um convidado, porém,


decerto ignorará o sentido da história justamente
por faltar tantos detalhes. coeficiente de determinação Em CORRE-
Bernstein argumentava que crianças da classe LAÇÃO, ANÁLISE DE REGRESSÃO e ANÁLISE DE
média têm mais oportunidade de dominar os códi- SEQÜÊNCIA, o coeficiente de determinação é uma
gos de linguagem formal e de jargão, ao passo que estatística que varia em valor de 0,00 a 1,00. Indica
as da classe operária costumam ter experiências a proporção de variação da dependente variável
apenas com a segunda delas. Uma vez que o que é explicada estatisticamente por uma ou mais
código formal é a linguagem da vida pública, variáveis independentes. É equivalente ao quadra-
incluindo a escola, crianças que careçam de conta- do do coeficiente de correlação. É representada
to com ele sofrerão com as diferenças de classe no pelo símbolo r2 em regressão simples e por R2 em
seu desempenho escolar, especialmente em tarefas regressão múltipla.
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que requeiram tipos de pensamento universalista, Ver também CORRELAÇÃO.


abstrato. Há muito desacordo se Bernstein tem Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
razão ou não no que diz (é possível usar código Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed.
formal e, ainda assim, discutir conceitos abstratos, Ithaca, Il: F.E. Peacock.
por exemplo) mas suas idéias permanecem in-
fluentes no estudo de classe social e linguagem.
coeficiente de regressão ver ANÁLISE DE
Leitura sugerida: Bernstein, Basil 1971, 1977: REGRESSÃO.
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Class, Codes, and Control, vols.1 e 3, 2ªed. Londres:


Routledge and Kegan Paul.
coeficiente de resposta Em um levantamen-
to, o coeficiente de resposta é a percentagem dos
coeficiente de alienação Em CORRELAÇÃO, indivíduos selecionados na AMOSTRA que real-
ANÁLISE DE REGRESSÃO e, em especial, ANÁLISE mente forneceram dados para análise. Se, por
DE SEQÜÊNCIA, o coeficiente de alienação é uma exemplo, é selecionada uma amostra nacional de
ESTATÍSTICA que varia em valor de 0,00 a 1,00. É 1.500 pessoas e 1.100 delas são efetivamente
usado para indicar o grau em que uma ou mais entrevistadas, o coeficiente de resposta é de
VARIÁVEIS independentes deixam de explicar va- 1.100/1.500 = 0,73 ou, expressado em percenta-
riação na variável dependente. Matematicamente, gem, 73%.
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o coeficiente é a raiz quadrada da parte da VARIÂN- O coeficiente de resposta é de importância


CIA não explicada. Se, por exemplo, a análise crucial em pesquisa de levantamento porque,
mostra que a proporção da variação em renda quanto mais baixa, maior o perigo de que a amos-

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COESÃO 41

tra seja visada de uma ou de outra maneira. No Em contraste, a solidariedade orgânica baseia-
caso de pessoas que se recusam a ser entrevistadas, se em uma DIVISÃO DO TRABALHO complexa, na
por exemplo, pode-se esperar que difiram em ma- qual pessoas dependem umas das outras porque a
neiras socialmente significativas das que não pro- especialização lhes tornou difícil sobreviver in-
cedem da mesma maneira. dependentemente. Na maioria das sociedades in-
Embora não haja regras rígidas neste particu- dustriais, por exemplo, pessoas trabalham para
lar, os sociólogos em geral consideram os coefi- ganhar dinheiro e adquirir no mercado as neces-
cientes de resposta de menos de 73% como sus- sidades básicas da vida. Elas não sabem como
peitos e os abaixo de 50% como virtualmente plantar, construir casas, tecer pano ou costurar. Isto
inúteis para pesquisa científica. Isso não significa significa que a única maneira de atender a essas
que tais dados não tenham valor. Podem ser usados necessidade é através de uma rede complexa de
para gerar idéias e insights, entre outras coisas, ou interpendência que reúne pessoas que, em outros
para fins exemplificativos. Não podem, contudo, aspectos, podem ser muito diferentes e têm pouco
ser usados para gerar inferências científicas sobre em comum. Em certo sentido, a solidariedade
a população da qual foi obtida a amostra. orgânica resulta não de semelhanças, mas de dife-
Ver também ERRO; ESTATÍSTICA. renças.
Versões mais recentes do enfoque da coesão
Leitura sugerida: Singleton, Royce A., Bruce C. social de Durkheim, especialmente a que foi des-
Straits e Margaret Straits 1993: Approaches to Social envolvida por Talcott PARSONS, baseiam-se na
Research, 2ªed. Oxford e Nova York: Oxford Univer- idéia de que as sociedades modernas, complexas,
sity Press.
são mantidas coesas por um consenso geral sobre
valores. Este acordo coletivo é cultivado por ins-
coeficiente intrínseco de crescimento ver tituições socializantes, tais como a FAMÍLIA, esco-
POPULAÇÃO ESTÁVEL.
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las e a mídia. Embora essa situação seja verdadeira
em certo grau em todas as sociedades complexas,
ela precisa ser ressalvada de várias maneiras. Em
coerção, poder de ver PODER.
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primeiro lugar, um consenso aparente sobre va-


lores pode ocultar grande variação entre subgru-
coesão Coesão é o grau em que indivíduos que pos da população. Em segundo, na medida em que
participam de um SISTEMA SOCIAL se identificam os grupos dominantes na sociedade podem contro-
com ele e se sentem obrigados a apoiá-lo, es- lar grandes instituições, como as escolas e os
pecialmente no que diz respeito a NORMAS, VA- meios de divulgação de massa, podem também
LORES, CRENÇAS e estrutura. O problema de com- definir e promover valores universais que, na ver-
preender as origens da coesão tem sido importante dade, refletem seus próprios interesses e não os da
na sociologia, sobretudo desde o trabalho do so- sociedade como um todo. Nas sociedades capita-
ciólogo francês Émile DURKHEIM no século XIX. listas, por exemplo, a maior parte da riqueza é
Durkheim afirmava que o grau de coesão depende possuída por pequenas elites, o que significa que
da maneira como os sistemas sociais são organi- valores que colocam os direitos privados à pro-
zados. Neste sentido, discordava do UTILITARIS- priedade acima de outras considerações (como
MO, que considerava a coesão como resultado de condições de vida humanitárias, pleno emprego ou
decisões correntes de indivíduos racionais, de par- meio ambiente saudável) servem aos interesses da
ticipar de sociedades porque é de seu interesse elite.
próprio assim proceder.
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C Neste sentido, o consenso não precisa signifi-
Durkheim identificou duas fontes básicas da car que aquilo com que se concorda seja, de fato,
coesão: a solidariedade mecânica e a solidarie- nos melhores interesses da sociedade como um
dade orgânica. A primeira é a coesão que tem por todo ou de todos ou mesmo da maioria de seus
base a cultura e estilo de vida comuns, o consenso componentes. Em vez disso, o consenso pode
sobre valores, normas e crenças resultantes de refletir o poder de alguns grupos de moldar as
socialização e experiência também comuns. Em- coisas de acordo com interesses próprios. Essa
bora ela opere em certo grau em todos os sistemas idéia está mais ligada à PERSPECTIVA DE CONFLI-
sociais, associa-se mais estreitamente a sociedades TO e à obra de Karl MARX e Max WEBER, que
tribais, onde é mínima a distinção entre indivíduos argumentaram que coesão e ordem são, até certo
e sociedades. ponto, criadas e mantidas por coerção e domina-

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42 COLARINHO BRANCO

ção, sobretudo por meio de instituições como o concordância em aceitar regras de conduta profis-
Estado. Sociedades em que há minorias oprimidas, sional.
por exemplo, podem continuar a exibir coesão Ver também AGREGADO; CATEGORIA SOCIAL;
social não só por causa de um verdadeiro consenso GRUPO.
de valores, mas porque talvez temam que, se ou-
sarem exigir justiça social, poderão ser vítimas de Leitura sugerida: Merton, Robert K. 1968. Social
ainda mais violência e perseguição. Theory and Social Structure, ed. rev., Nova York:
Ver também CONTRATO SOCIAL; CONTROLE Free Press.
SOCIAL; CULTURA; GEMEINSCHAFT E GESELL-
SCHAFT; HEGEMONIA; ORDEM SOCIAL; PENSA- colonialismo e imperialismo Colonialismo
MENTO ORIENTADO PELO GRUPO; PERSPECTIVA é um sistema internacional de exploração econô-
DE CONFLITO; PERSPECTIVA FUNCIONALISTA; mica através do qual nações mais poderosas domi-
PODER; UTILITARISMO. nam outras mais fracas. No caso típico, o coloni-
zador controla a colônia através de uma combina-
Leitura sugerida: Durkheim, Émile 1893: De la di-
ção de coerção militar, dominação das principais
vision du travail social. Paris: Félix Alcan / (1978)
instituições internas, tal como o Estado, e, através
Da divisão do trabalho social. São Paulo: Abril Cul-
delas, os mercados e a produção. O papel da
tural/ (1984): The Division of Labor in Society. Lon-
dres: Macmillan; Nova York: Free Press ● Parsons, colônia é fornecer matérias-primas para que a
Talcott 1951: The Social System. Glencoe, IL: Free potência colonial possa fabricar barato seus pro-
Press; Londres: Routledge & Kegan Paul ● Tönnies, dutos e, dessa maneira, lucrativamente. Esses bens
Ferdinand 1887: Gemmeinschaft und Gesellschaft / são em seguida vendidos nos mercados mundiais,
(1955): Community and Association. Londres: Rout- que incluem a colônia. A relação colonial é em
ledge & Kegan Paul; East Lancing, MI: University geral exclusiva, o que significa que a colônia não
Press. pode vender suas matérias-primas a mais ninguém
e é obrigada a comprar bens acabados apenas do
colonizador. Essa relação assegura matérias-pri-
colarinho branco ver CRIME DE COLARINHO mas baratas e um mercado cativo à potência colo-
BRANCO.
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nial, uma base lucrativa de exploração econômica.


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O colonialismo desempenhou um papel impor-


coletividade Uma coletividade consiste de tante na aceleração do desenvolvimento do capi-
pessoas que se consideram pertencentes a uma talismo na Europa, ao criar riqueza para inves-
unidade social identificável, tal como um partido timento e mercados para a produção de exce-
político. Ao contrário do GRUPO, porém, a coleti- dentes. Desse modo, pode ser visto como uma
vidade carece de padrões regulares de interação manifestação do fenômeno mais geral do imperia-
entre seus membros. Os partidos políticos têm lismo, a prática de uma nação dominar outra,
estruturas de liderança que implicam interação costumeiramente através da força militar, mas ca-
considerável e, por conseguinte, possuem quali- da vez mais pela dependência econômica. O que
dades de grupo. A vasta maioria dos seus mem- define o colonialismo é a ênfase no lucro econô-
bros, no entanto, a eles pertencem apenas no sen- mico e não na dominação política em si e por si
tido de se registrarem como tais e votarem de mesma, como aconteceu no caso dos antigos im-
acordo com pouca, se é que alguma, interação périos de Roma, de Alexandre, o Grande, e da
regular com outros membros do partido. Dessa Babilônia. Embora o sistema colonial tenha desa-
maneira, embora diretórios de partido se qualifi- parecido através do processo de descolonização e
quem como grupos, partidos como um todo po- ex-colônias sejam agora autogovernadas, padrões
dem ser descritos mais corretamente como coleti- de dominação econômica e política e de depen-
vidades.
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C dência persistem através do que alguns chamam
As coletividades podem assumir inúmeras for- de neocolonialismo ou neo-imperialismo.
mas, incluindo identificações raciais, étnicas, na- O termo colonialismo interno tem sido usado
cionais, políticas, religiosas e comunitárias (nova- para chamar atenção para o fato de que relações de
iorquinos, por exemplo, graduados pela Oxford, exploração podem existir não só entre sociedades,
ou protestantes) e associações, em que pessoas mas dentro delas. Isso acontece de várias manei-
ingressam por um grande número de razões, va- ras. Regiões industriais, por exemplo, podem do-
riando de um simples donativo em dinheiro à minar e explorar regiões agrícolas no que diz

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COMPLEXO INDUSTRIAL-MILITAR 43

respeito a alimentos e matérias-primas; grupos Marx argumentou que a competição entre capita-
étnicos ou raciais dominantes podem explorar gru- listas, entre trabalhadores e entre capitalistas e
pos subordinados. Usado pela primeira vez por trabalhadores eram as principais causas da CON-
marxistas como Vladimir Lenin e Antonio Grams- TRADIÇÃO e luta que geravam uma grande varie-
ci, a fim de descrever como a exploração capitalis- dade de conseqüências negativas, em primeiro
ta funciona em nível regional, o conceito de colo- lugar a exploração da classe trabalhadora e a falta
nialismo interno tem sido usado em uma grande de consciência e unidade dessa classe por tal mo-
variedade de ambientes, como na América Latina, tivo.
em particular entre populações urbanas com meios Se a competição é ou não necessária e inevitá-
formativos principalmente europeus e as popu- vel, e as condições nas quais indivíduos a prefe-
lações indígenas nativas; às relações raciais nos rem, e não a cooperação, constituem questões
Estados Unidos e à desigualdade econômica e sociológicas importantes porquanto cobrem um
política no Canadá e na Europa. De modo geral, o largo espectro — desde a maneira como indiví-
conceito contesta a idéia de que a industrialização duos interagem em situações íntimas até a es-
capitalista resulta em sociedades integradas, go- trutura da economia mundial e as relações entre
vernadas pelo princípio da igualdade. nações.
Ver também CAPITALISMO; SISTEMA-MUNDO; Ver também JOGO DE SOMA ZERO.
TEORIA DA DEPENDÊNCIA; TERCEIRO MUNDO.
Leitura sugerida: Baran, Paul, e Paul Sweezy 1974:
Leitura sugerida: Barratt Brown, M. 1974: The Monopoly Capitalism. Nova York: Monthly Review
Economics of Imperialism. Harmondsworth, Ingla- Press/ (1978): Capitalismo monopolista. 3ªed., Rio
terra: Penguin Books ● Hechter, M. 1975: Internal de Janeiro: Zahar ● Cowling, K. 1982: Monopoly
Colonialism. Londres: Routledge ● Hobson, John A. Capitalism. Londres: Macmillan; Nova York: Hal-
1902 (1968): Imperialism- a Study. Londres: Allen sted ● Marx, Karl 1867 (1974): O capital, crítica da
and Unwin ● Mommsen, W. 1980: Theories of Impe- economia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasi-
rialism. Londres: Wiedenfeld and Nicolson. leira / (1976): Capital, vol.1. Harmondsworth: Pen-
guin ● Weber, Max [1921] 1968: Economy and So-
colonialismo interno ver COLONIALISMO E ciety. Nova York: Bedminster Press.
IMPERIALISMO.
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complexo industrial-militar Termo cunha-


competição e cooperação Competição é a do pelo então presidente dos Estados Unidos,
luta que ocorre quando pessoas tentam maximizar Dwight Eisenhower, em 1960, o complexo indus-
suas vantagens às expensas dos demais. A coope- trial-militar é uma rede de interesses mútuos e que
ração é esforço coordenado para atingir objetivos se entrelaçam de entidades militares e industriais.
comuns. A competição tem importância socioló- Eisenhower utilizou o termo como um aviso: uma
gica por causa dos efeitos positivos e negativos vez que a principal função das forças militares é
que produz na vida social. Antigos pensadores preparar-se para travar a guerra, e desde que a
sociológicos, como Herbert SPENCER, considera- fabricação de armamentos constitui atividade al-
vam a competição um mecanismo necessário para tamente lucrativa, era provável que esses dois
promover o progresso social, opinião esta que poderosos sistemas (o militar e o econômico)
concordava em grande parte com o sistema capi- trabalhassem em conjunto para promover a
talista então emergente e com sua crença na com- confiança no uso da tecnologia militar e da força
petição como um motor que promove baixos pre- armada para resolver problemas internacionais.
ços e alta eficiência. Em seu enfoque da vida Como tal, considerava-o uma ameaça ao desen-
urbana, a ESCOLA DE CHICAGO de sociologia en- volvimento de estratégias alternativas, pacíficas,
fatizou o papel da competição nos padrões de para solucionar conflitos e promover os interesses
crescimento urbano, à medida que vários grupos nacionais. Além disso, temia que a influência com-
étnicos, raciais e de classe, entre outros, competem binada de ambos produzisse uma drenagem cres-
por espaço.
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C cente dos recursos nacionais, à medida que partes
Max WEBER considerava a competição uma cada vez maiores da riqueza nacional fossem ca-
forma pacífica de conflito. Karl MARX percebia nalizadas para o desenvolvimento da capacidade
também sua relação com o conflito, mas a uma luz de fazer a guerra e reforçar os sistemas de defesa.
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menos pacífica. Em sua crítica ao CAPITALISMO, Ver também ECONOMIA POLÍTICA.

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44 COMPORTAMENTO COLETIVO

Leitura sugerida: Sarkesian, Sam. C., org. 1972: Ver também MOVIMENTO SOCIAL; OPINIÃO
The Military-Industrial Complex. Washington: Seven PÚBLICA.
Locks Press.
Leitura sugerida: Le Bon, Gustave [1895] 1960:
The Crowd: A Study of the Popular Mind. Nova York:
comportamento coletivo O comportamen- Viking ● Smelser, Neil J. 1962: Theory of Collective
to coletivo é um tipo geral de comportamento Behavior. Nova York: Free Press ● Turner, Ralph H.,
social que ocorre em massas e multidões. Uma e Lewis Killian 1957: Collective Behavior. Engle-
multidão é qualquer conjunto temporário de pes- wood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.
soas que por acaso se encontram no mesmo local
ao mesmo tempo, de modo que uma pode afetar a comportamento eleitoral Do ponto de vista
outra. Uma platéia de teatro é uma multidão, como sociológico, o estudo do comportamento eleitoral
também pessoas que se reúnem em uma esquina concentra-se principalmente em explicar quem
para observar um incêndio. A massa difere da vota e como vota. As pesquisas pioneiras realiza-
multidão no sentido em que embora pessoas das por Paul F. LAZARSFELD e outros na Univer-
compartilhem do mesmo fato e a ele reajam, não sidade de Colúmbia concluíram que votar depende
estão na presença física recíproca. Quando se es- principalmente da posição que o indivíduo ocupa
palha a notícia de uma calamidade natural ou de nos sistemas sociais — classe social, história de
um assassinato político, por exemplo, ou quando comportamento eleitoral da família, etnicidade,
pessoas comemoram um feriado nacional, elas sexo, raça, religião e filiação a ASSOCIAÇÕES VO-
participam de um padrão comum de comporta- LUNTÁRIAS, tais como SINDICATOS, PARTIDOS
mento em relação a um mesmo evento, ainda que políticos e organizações cívicas. A partir de fins da
não estejam em contato recíproco. Elas são parti- década de 1940, a Universidade de Michigan
cipantes em comportamento de massa.
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transformou-se na principal instituição a pesquisar
O comportamento coletivo pode assumir gran- o eleitor e adotou um modelo diferente que enfa-
de variedade de formas, como distúrbios de rua, tizava características individuais como o senso de
ação de turbas, pânicos, histeria de massa, “coque- identificação da pessoa com determinados parti-
luche” por alguma coisa, modas, boatos e opinião dos políticos, a opinião sobre quais questões so-
pública. Alguns sociólogos categorizam também ciais eram as mais importantes e impressões sobre
os movimentos sociais como uma forma de com- alguns candidatos. Dessa perspectiva, fatores co-
portamento coletivo, embora muitos deles apre- mo CLASSE SOCIAL são importantes principal-
sentem níveis de organização que ultrapassam em mente por seus efeitos sobre partidos, questões
muito o que é encontrado na maioria das multidões cruciais e identificação com o candidato, que, por
e massas, e podem ser melhor compreendidos sua vez, são os fatores que realmente influenciam
o comportamento eleitoral. Em anos recentes,
como grupos ou organizações formais.
alguns pesquisadores usaram a TEORIA DA ESCO-
O estudo do comportamento coletivo tem sido LHA RACIONAL a fim de argumentar que votar é
uma área importante, na qual a sociologia subs- determinado menos pelas lealdades a grupo e po-
tituiu em grande parte a psicologia como ponto de sição de classe do que por cálculos racionais de
vista. No século XIX, Gustave Le Bon propôs uma auto-interesse de parte de indivíduos.
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psicologia das multidões como teoria do compor- Uma grande preocupação recente em estudos
tamento em grandes aglomerações de pessoas. Em sobre comportamento eleitoral tem sido a dinâmi-
particular, argumentou que indivíduos tendem a ca mutável que condiciona os partidos políticos.
renunciar à sua individualidade, vontade e capaci- Até data bem recente neste século, por exemplo,
dade de juízo moral quando fazem parte de mul- eleitores da classe operária tendiam a apoiar par-
tidões e ceder aos poderes hipnóticos de líderes, tidos liberais como o Democrata, nos Estados
que moldam como querem o comportamento da Unidos, e o Trabalhista, na Grã-Bretanha, ao passo
multidão. Sociólogos demonstraram desde então que os de classe média e alta costumavam apoiar
que uma vez que o comportamento das multidões partidos conservadores, como o Republicano nos
é muito mais intencional, racional e socialmente Estados Unidos e o Conservador na Grã-Bretanha.
organizado do que acreditava Le Bon, a conduta Mais recentemente, contudo, ambos os países vêm
nesse caso pode ser compreendida nos mesmos presenciando um desalinhamento com base na
termos que outras formas de interação social. classe no comportamento eleitoral, na medida em

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COMUNIDADE 45

que eleitores de classe operária e média votam ● Lasswell, Harold D. 1947: “The structure and func-

cada vez mais em programas partidários libe- tion of communication in society”. In The Communi-
ral/conservadores. cation of Ideas, org. por L. Bryson. Nova York:
Ver também CIDADÃO E CIDADANIA; CULTU- Harper ● Towler, Paul 1988: Investigating the Media.
RA POLÍTICA; PARTIDO POLÍTICO; POLÍTICA. Londres: Unwin Hyman.

Leitura sugerida: Campbell, Angus, Philip E.


Converse, Warren E. Miller e Donald E. Stokes 1960: comunidade Comunidade é um termo com
The American Voter. Nova York: Wiley ● Flanagan, numerosos significados, tanto sociológicos como
Scott C., Kohei Shinsaku, Ichiro Miyake, Bradley M. não-sociológicos. A comunidade pode ser um gru-
Richardson e Joji Watanuki 1991: The Japanese Vo- po de indivíduos que têm algo em comum — como
ter. New Haven: Yale University Press ● Franklin, em “comunidade hispânica”—, sem neces-
Mark, Tom Mackie e Henry Valen, orgs. 1991: Elec- sariamente viver em um dado lugar. Pode ser um
toral Change: Responses to Evolving Social and At- senso de ligação com outras pessoas, de integração
titudinal Structures in Seventeen Democracies. Cam- e identificação, como em “espírito de comuni-
bridge: Cambridge University Press. dade” ou “senso de comunidade”. E também um
grupo de pessoas que realizam tipos de trabalhos
relacionados entre si, como em “a comunidade da
comunicação de massa e mídia A comu-
saúde” ou “a comunidade acadêmica”. E, talvez
nicação de massa é a transmissão de informações
em seu sentido mais comum e concreto, pode ser
por especialistas treinados a uma platéia grande e
um conjunto de pessoas que compartilham de um
diversificada espalhada por um grande território.
território geográfico e de algum grau de interde-
É realizada através dos meios de comunicação de
pendência que proporcionam a razão para viverem
massa (mídia), ou seja, meios técnicos e organiza-
na mesma área. Há exceções a essa definição,
cionais complexos que incluem tipicamente tele-
como os bandos de caçadores-coletores que va-
visão, rádio, cinema, jornais, livros e revistas.
gueiam de um lugar para outro em busca de ali-
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O interesse sociológico na pesquisa da mídia


mento. De modo geral, contudo, comunidades
concentra-se em várias questões a ela relaciona-
geograficamente localizadas implicam viver, tra-
das. Quem controla a mídia e, com ela, as infor-
balhar e realizar as atividades básicas da vida
mações que transmite? A que interesses serve? De
dentro de um território definido pelos seus resi-
que maneira a comunicação de massa afeta pes-
dentes como tendo uma identidade geográfica,
soas — desde os produtos que compram às suas
refletida mais vivamente pela atribuição de nomes
opiniões políticas e tendência para comportamen-
a regiões e ao traçado de fronteiras.
to violento — e como esses efeitos variam segun-
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Para alguns sociólogos, como Ferdinand Tön-


do características como classe, idade, sexo e edu-
nies, a idéia de comunidade inclui um sentimento
cação? De que modo o efeito cumulativo de mui-
muito forte de pertencimento e compromisso mú-
tos meios de divulgação de massa que transmitem
tuo baseado em uma cultura homogênea, expe-
mensagens semelhantes molda as populações e
riência em comum e acentuada interdependência.
suas maneiras de interpretar a realidade social? De
Tönnies comparou esse sentimento de comuni-
que forma as mensagens da mídia modelam as
dade com outros modelos de assentamento —
definições públicas de problemas sociais e prepa-
sobretudo com a cidade grande que, em sua opi-
ram a agenda para a discussão e o debate públicos?
nião, não se qualifica absolutamente como comu-
De que modo a mídia se relaciona com a explosão
nidade.
na tecnologia dos computadores e em seu poten-
cial de transmitir imensos volumes de informações Sociólogos desenvolveram duas dimensões
para distinguir entre tipos diferentes de comuni-
através de redes, tal como a Internet? Qual a
relação entre a mídia e outras grandes instituições dade: 1) rural/urbana, e 2) tradicional/moderna. A
comunidade rural tem como principais caracterís-
sociais como o Estado, as grandes empresas, a
educação e a religião organizada? ticas uma população pequena, dispersa, relativa-
mente homogênea, que se ocupa principalmente
Ver também CONHECIMENTO; IDEOLOGIA; SO-
da agricultura (embora haja exceções a essa regra,
CIEDADE DE INFORMAÇÃO.
em especial em pequenas cidades e vilarejos a uma
Leitura sugerida: Iyengar, Shanto, e Donald R. distância acessível às grandes cidades, nas socie-
Kinder 1987: News that Matters: Television and Pu- dades industriais). A comunidade urbana possui
blic Opinion. Chicago: University of Chicago Press uma população numerosa, densamente assentada

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46 COMUNIDADE LINGÜÍSTICA

e um tanto heterogênea. A designação de uma no qual os meios de produção e virtualmente todos


comunidade como urbana é, de certa maneira, os demais aspectos da vida social são controlados
arbitrária. O U.S. Census Bureau, por exemplo, pelos que deles participam mais diretamente, isto
traça essa linha em 2.500 habitantes, embora, para é, pelos trabalhadores, membros da comunidade,
qualificar-se como “área urbanizada”, uma cidade e assim por diante. A vida das pessoas é organizada
e território circunvizinho devam abrigar pelo me- menos em torno de cobiça, competição e medo do
nos 50.000. que da satisfação de necessidades humanas autên-
A dimensão tradicional/moderna focaliza-se ticas, cooperação e compartilhamento. A base ma-
principalmente em diferenças culturais. As comu- terial da comunidade é a capacidade de produzir
nidades tradicionais são mais homogêneas e resis- abundância de bens. A base social inclui ausência
tentes a novas idéias, menos tecnológicas e menos geral de propriedade econômica privada, divisões
dependentes da mídia. Atribuem também valor de classe social, desigualdades em riqueza e poder
mais baixo à alfabetização e escolaridade e valor e instituições opressivas, como o Estado.
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mais alto à religião. Em contraste, as comunidades Marx imaginava o comunismo como o resul-
modernas são culturalmente heterogêneas, mais tado inevitável do socialismo, o qual acreditava
seculares do que religiosas e dependentes de tec-
que seria conseqüência de transformações revolu-
nologia sofisticada e divisões do trabalho com-
cionárias das sociedades capitalistas industriais.
plexas, além de usarem mídia muito desenvolvida
Após a derrubada do capitalismo, o Estado gover-
e possuírem instituições de educação formal.
naria em benefício dos trabalhadores e asseguraria
Essas distinções são sociologicamente impor-
que não haveria uma contra-revolução capitalista.
tantes devido a seus efeitos sobre a vida comuni-
Com a passagem do tempo, contudo, o Estado
tária. Os efeitos da urbanização sobre as relações
sociais, crime, tolerância, poluição ambiental, perderia sua razão de ser, uma vez que o controle
trabalho, política e vida familiar, por exemplo, têm dos ritmos da vida social seriam cada vez mais
sido há muito tempo motivo de interesse socioló- concentrados no nível local, entre os mais direta-
gico. De maneiras semelhantes, a modernização mente envolvidos. O Estado, acreditava Marx,
tem sido associada à FAMÍLIA, à promoção da simplesmente “murcharia”.
democracia e ao desenvolvimento econômico. Uma vez que não houve revoluções socialistas
Ver também ESCOLA DE CHICAGO; GEMEIN- em sociedades capitalistas industriais avançadas,
SCHAFT E GESELLSCHAFT; URBANIZAÇÃO E UR- tampouco houve sociedades comunistas segundo
BANISMO; VISÃO DE MUNDO. o modelo marxista, embora muitas sociedades
socialistas tenham sido erroneamente rotuladas
Leitura sugerida: Frankenburg, R. 1966. Commu- como tal (sobretudo porque, embora na práti-
nities in Britain. Harmondsworth, Inglaterra: Penguin
ca fossem socialistas, sua ideologia era comunis-
● Tönnies, Ferdinand 1887: Gemeinschaft und Ge-
sellschaft / (1955): Community and Society. Londres:
ta). O mais perto que a experiência humana che-
Routledge & Kegan Paul; East Lancing, MI: Univer- gou do comunismo foi entre as sociedades tribais,
sity Press ● Wirth, Louis 1938: “Urbanism as a way em especial entre as que se entregavam
of life”. American Journal of Sociology 44: 1-24. principalmente à coleta de alimentos como meio
de subsistência. Resta a ser visto se o comunismo
pode ser implantado em sociedades industriais
comunidade lingüística ver LINGUAGEM.
avançadas.
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Ver também CAÇADORES-COLETORES, SOCIE-


comunidade moderna ver COMUNIDADE.
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DADE DE; CAPITALISMO; CLASSE SOCIAL; SOCIA-


LISMO ESTATAL.
comunidade rural ver COMUNIDADE.
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Leitura sugerida: Marx, Karl 1844 (1985): Manus-


comunidade tradicional ver COMUNIDADE.
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critos econômico-filosóficos e outros textos escolhi-
dos. São Paulo: Abril Cultural / (1967): Economic and
Philosophical (Paris) Manuscripts. Moscou:
comunidade urbana ver COMUNIDADE.
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Progress ● Marx, Karl, e Friedrich Engels 1848


(1981): Manifesto do partido comunista. São Paulo:
comunismo Da forma descrita por Karl Global / (1967): The Communist Manifesto. Harmo-
MARX, o comunismo é um MODO DE PRODUÇÃO ndsworth: Penguin.

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CONFORMIDADE 47

condição ver STATUS.


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C conflito de classe e luta de classe Segundo
Karl MARX, o conflito e a luta de classe são dis-
sensões inevitáveis que ocorrem devido à organi-
confiabilidade Confiabilidade é o grau em
zação econômica da maioria das sociedades, como
que um instrumento de MEDIDA fornece os mes-
entre os camponeses e a nobreza sob o FEUDALIS-
mos resultados a cada vez que é usado, supondo-se
MO, por exemplo, ou entre trabalhadores e em-
que aquilo que se mede não muda. Se a tempera-
pregadores sob o CAPITALISMO. Em suas teorias
tura em um cômodo permanece a mesma, por
de história, Marx argumentou que essas lutas eram
exemplo, um termômetro confiável dará sempre a
o motor que impulsionava e moldava a MUDANÇA
mesma leitura. Mas se as leituras mudam, e não
SOCIAL. Foi, por exemplo, a luta entre a aris-
acontecendo com a temperatura, então o termôme-
tocracia possuidora de terras e os empreendedores
tro carece de confiabilidade.
capitalistas emergentes que resultou no declínio
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Note-se que o termômetro não tem de ser pre-


do feudalismo e na ascensão do capitalismo.
ciso a fim de ser confiável: ele pode sempre regis-
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Do ponto de vista marxista, o conflito e a luta


trar 3 graus a mais, por exemplo. Seu grau de
de classe são inevitáveis nas sociedades capitalis-
confiabilidade, em vez disso, tem a ver com a
tas porque os interesses de trabalhadores e dos
previsibilidade de sua relação com o que quer que
capitalistas divergem fundamentalmente: os capi-
esteja sendo medido.
talistas acumulam riqueza mediante exploração
Podemos submeter a teste a confiabilidade
dos trabalhadores que a produzem; os trabalhado-
verificando se vários observadores de uma mesma
res mantêm ou promovem seu próprio bem-estar
situação dela darão versões semelhantes. Podemos
apenas resistindo à exploração capitalista. Os re-
pedir a pessoas que observem a interação de um
sultados do conflito de classe se refletem em vir-
grupo, por exemplo, e informem depois que vo-
tualmente todos os aspectos da vida social — do
lume de conflito ocorreu. Neste caso, o ins-
trabalho para promover a sindicalização e as
trumento de medida consiste simplesmente de pes-
greves a campanhas políticas, políticas de imigra-
soas que observam, escutam e em seguida comu-
ção e conteúdo da arte, literatura e CULTURA PO-
nicam o que observaram. Como resultado, contu-
PULAR.
do, poderemos descobrir que as versões diferem
Ver também CAPITALISMO; CLASSE SOCIAL;
muito, dependendo de como pessoas prestam aten-
MATERIALISMO; PERSPECTIVA DE CONFLITO.
ção a uma interação.
A fim de aumentar a confiabilidade, podería- Leitura sugerida: Braverman, Harry 1974: Labor
mos — como fizeram Bales e seus colegas ao and Monopoly Capital. Nova York: Monthly Review
estudar processos envolvendo grupos — formular Press / (1981): Trabalho e capital monopolista: a
um conjunto de categorias de comportamento, degradação do trabalho no século XX, 3ªed., Rio de
incluindo conflito, e pedir aos observadores que Janeiro: Zahar/Guanabara ● Friedman, A.L. 1977:
classifiquem em uma categoria, por escrito, cada Industry and Labor. Londres: Macmillan ● Marx,
tipo de comportamento que notaram. Poderíamos, Karl, e Friedrich Engels 1848 (1981): Manifesto do
ainda, proporcionar treinamento a nossos observa- partido comunista. São Paulo: Global / (1967): The
dores para que soubessem quando deveriam consi- Communist Manifesto. Harmondsworth: Penguin.
derar um tipo de comportamento como conflito e
quando considerá-lo como outra coisa. Como re- conflito de papéis ver PAPÉIS, CONFLITO DE.
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sultado, poderíamos esperar que eles concordas-


sem mais sobre o que viram do que antes, o que
conformidade A conformidade é a prática de
significaria que nosso instrumento para medir
obedecer a uma norma. Tal como o DESVIO, a
conflito em interações de grupo teria maior confia-
conformidade é um fenômeno social que precisa
bilidade.
ser compreendido em termos das condições que o
Ver também ERRO; MEDIDA; VALIDADE.
ocasionam e as conseqüências sociais que produz.
Leitura sugerida: Bales, Robert R. 1950: Interac- A maioria dos indivíduos, por exemplo, acha ex-
tion Process Analysis: a Method for the Study of Small tremamente difícil resistir às pressões para a con-
Groups. Cambridge, MA: Addison-Wesley ● Single- formidade em grupos pequenos e, quando levada
ton, Royce A., Bruce C. Straits e Margaret M. Straits a extremos, ela pode gerar efeitos desastrosos para
1993: Approaches to Social Research, 2ªed. Oxford os sistemas sociais.
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e Nova York: Oxford University Press. Ver também DESVIO.

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48 CONGLOMERADO

Leitura sugerida: Asch, Solomon E. 1952: Social conhecimento, em especial no conhecimento con-
Psychology. Nova York: Prentice-Hall ● Roethlisber- tido na cultura. Sem a existência de conhecimento
ger, F.J., e W. Dickson 1939 (1961): Management and não saberíamos como participar das incontáveis
the Workers: an Account of a Research Program situações que constituem a vida social. Mas é
Conducted by the Western Eletric Company, Haw- igualmente verdade que, sem esse conhecimento,
thorne Works. Chicago, Cambridge, MA: Harvard a própria vida social tampouco existiria. Não have-
University Press ● Scheff, Thomas J. 1988: “Shame ria, por exemplo, “conversa” sem o conhecimento
and conformity: The deference-emotion system”. comum do que é uma conversa e como as pessoas
American Sociological Review 53(3): 395-406. devem se comportar para que ela aconteça.
O interesse sociológico mais antigo pelo co-
conglomerado O conglomerado é uma em- nhecimento diz respeito, em primeiro lugar, à
presa que controla certo número de outras que, questão de sua origem. De modo geral, sociólogos
entre si, produzem uma grande variedade de bens consideram todas as formas de conhecimento co-
e serviços. Um conglomerado, por exemplo, pode mo socialmente produzidas e moldadas pela cul-
possuir uma companhia de alimentos congelados, tura e estrutura dos sistemas sociais. Karl MARX
uma fábrica de malas, uma empresa que produz argumentava que as classes econômicas domi-
armas, uma agência de publicidade, e assim por nantes moldavam o conhecimento de maneiras
diante. Os conglomerados são sociologicamente que promoviam seus interesses sobre os das clas-
importantes porque sua posição complexa e diver- ses subordinadas. Da perspectiva marxista, por
sificada torna-os muito mais poderosos, estáveis e exemplo, a idéia de que a riqueza resulta de traba-
competitivos do que outros tipos de empresas. À lho árduo, e não de herança, sorte ou várias formas
medida que empresas bem-sucedidas usam seus de manipulação de mercado, serve aos interesses
lucros para adquirir ou se fundir com outras, os das classes dominantes nas sociedades capitalis-
mercados tornam-se cada vez mais dominados por tas. E isso é feito ocultando a verdadeira causa da
conglomerados e a distribuição da riqueza e do riqueza e mantendo as classes baixas trabalhando
poder econômico torna-se mais desigual. Esse fato de forma exaustiva (o que raramente as tornará
assume importância especial quando os conglo- ricas) e sem dar atenção crítica à realidade do
merados são de âmbito internacional. Em alguns sistema de classes e à maneira como funciona.
casos, seus recursos econômicos excedem o pro- Seguindo as pegadas de Marx, Karl MANN-
duto nacional bruto da maioria das nações.
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HEIM afirmou que a base social do conhecimento
Ver também EMPRESA TRANSNACIONAL E é muito mais ampla do que as forças econômicas,
MULTINACIONAL. que formam o núcleo do enfoque de Marx. Em
tempos mais recentes, várias maneiras de estudar
o conhecimento foram desenvolvidas, incluindo o
conhecimento Conhecimento é aquilo que PÓS-MODERNISMO.
consideramos como real e verdadeiro. Pode ser tão Ver também BASE E SUPERESTRUTURA; CO-
simples e banal como dar o laço nos sapatos ou tão MUNICAÇÃO DE MASSA E MÍDIA; CONSCIÊNCIA E
abstrato e complexo como a física de partículas. O FALSA CONSCIÊNCIA DE CLASSE; CRENÇA; CUL-
conhecimento é importante para a sociologia por- TURA; ETNOMETODOLOGIA; HEGEMONIA; HER-
que é socialmente criado e também porque dele MENÊUTICA; IDEOLOGIA; POSITIVISMO; TESE DA
dependemos para nosso senso de realidade.
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IDEOLOGIA DOMINANTE; VISÃO DE MUNDO.
Na vida diária, levamos conosco o conheci-
mento de como o mundo social funciona, o que o Leitura sugerida: Mannheim, Karl 1929 (1936,
sociólogo Alfred SCHUTZ chamou de conhe- 1960): Ideology and Utopia: an Introduction to the
cimento tácito (também conhecido como conheci- Sociology of Knowledge. Londres: Routledge/
mento comum). Sabemos o que dizer quando aten- (1982): Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar Ο
1952: Essays on the Sociology of Knowledge. Lon-
demos ao telefone, por exemplo, como responder
dres: Routledge & Kegan Paul ● Schutz, Alfred 1932
que horas são, como nos comportar em restauran-
(1979): Fenomenologia e relações sociais. Rio de
tes, como nos vestir de maneiras apropriadas às
Janeiro: Zahar / (1972): The Phenomenology of the
várias ocasiões, ou como desviar a atenção de uma Social World. Londres: Heinemann.
pessoa que está profundamente constrangida. A
vida social baseia-se em um sentido comum do
que é real e isso, por sua vez, fundamenta-se em conhecimento comum ver CONHECIMENTO.
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CONSCIÊNCIA E FALSA CONSCIÊNCIA DE CLASSE 49

conhecimento tácito ver CONHECIMENTO.


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pation, and Earnings: Achievement in the Early Ca-
reer. Nova York: Academy Press.
conjunto de papéis ver PARCEIRO DE PAPEL.
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consciência coletiva De acordo com Émile


DURKHEIM, a consciência coletiva é um arcabou-
conquista de status e novo estruturalismo
ço cultural de idéias morais e normativas, a crença
A conquista de status e o novo estruturalismo
em que o mundo social existe até certo ponto à
constituem os dois principais métodos sociológi-
parte e externo à vida psicológica do indivíduo.
cos para compreender a desigualdade social, na
Como indivíduos, sentimos as limitações e res-
medida em que ela ocorre em ocupações e renda
trições impostas pelo mundo social e somos afeta-
auferida. A conquista do status baseia-se na idéia
dos por elas quando fazemos opções sobre como
de que a desigualdade resulta principalmente de
nos mostrar e nos comportar em relação aos ou-
diferenças em características tais como educação,
tros. Quando alguém comete um ato imoral, por
ocupação e educação dos pais, realizações acadê-
exemplo, é a consciência coletiva que é violada.
micas, capacidade mental, valores e motivação.
Dizer que alguma coisa é imoral diz muito mais
Desse ponto de vista, as desigualdades por motivo
do que aquilo que é pessoalmente ofensivo ou
de raça, sexo, étnicas e de classe resultam sobre-
abominável para a pessoa que assim se manifesta.
tudo de diferenças na capacidade individual de
Em vez disso, declarações desse tipo apelam para
competir com sucesso por status ou renda mais
uma autoridade maior, que está contida na ordem
altos.
moral associada a sistemas sociais como um todo.
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Em nítido contraste com o modelo individua-


Neste sentido, a consciência coletiva é inteira-
lista de conquista de status, o novo estruturalismo
mente diferente da consciência individual. Não é
focaliza-se em saber como as características dos
uma “mente grupal”, mas sim um arcabouço co-
sistemas e organizações econômicos influenciam
mum que indivíduos experimentam como externo,
a distribuição de oportunidades às várias catego-
limitador e significativo.
rias de pessoas, limitando a conquista a alguns ao
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Ver também COESÃO; FATO SOCIAL.


mesmo tempo que promove a de outros. Esse
método inclui características dos MERCADOS DE Leitura sugerida: Durkheim, Émile 1893: De la di-
TRABALHO, especialmente da ECONOMIA DUAL, vision du travail social. Paris: Félix Alcan / (1978):
e dos mercados de trabalho segmentados; mudan- Da divisão do trabalho social. São Paulo: Abril Cul-
ças na estrutura das ocupações, à medida que tural / (1984): The Division of Labor in Society.
certos empregos tornam-se obsoletos ou são trans- Londres: Macmillan; Nova York: Free Press Ο 1924
feridos para locais diferentes; e mercados de (1974): Sociology and Philosophy. Nova York: Free
trabalho internos, que estruturam as oportuni- Press.
dades de obtenção de emprego e promoção dentro
das empresas. Dessa perspectiva, um fator como consciência e falsa consciência de classe
desigualdade por motivo de sexo resulta em parte Karl MARX definiu consciência de classe como
da localização das mulheres em certos segmentos uma condição social na qual membros de uma
do mercado de trabalho (mais em serviços do que CLASSE SOCIAL — a classe operária em especial
em manufatura) e, dentro das empresas, em em- — estão agudamente conscientes de si mesmos
pregos relativamente mal remunerados (secreta- como classe. A falsa consciência é a ausência dessa
riais e burocráticos), em comparação com homens condição, resultando em maneiras distorcidas de
dotados de qualificações semelhantes. ver a realidade da classe e suas conseqüências.
Ver também DESEMPREGO E SUBEMPREGO; Mais recentemente, Michael MANN ampliou o
MOBILIDADE SOCIAL; QUALIFICAÇÃO EQUIVA- conceito de Marx para incluir não só a consciência
LENTE. de filiação à classe, mas também a relação de
Leitura sugerida: Baron, James N., e William T. conflito entre capitalistas e trabalhadores, a larga
Bielby 1980: “Bringing the firms back in: Stratifica- faixa de maneiras como os sistemas de classe
tion, segmentations, and the organization of work”. afetam a vida das pessoas e as alternativas à opres-
American Sociological Review 45: 737-65 ● Blau, são de classe.
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Peter M., e Otis Dudley Duncan 1967: The American Marx definiu classes em termos da posição de
Occupational Structure. Nova York: Wiley ● Sewell, indivíduos em relação ao processo de produção
Williams, e Robert Hauser 1975: Education, Occu- econômica. A classe capitalista possui ou controla

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50 CONSENSO

os meios de produção (fábricas, máquinas, fer- Ver também CAPITALISMO; CLASSE SOCIAL;
ramentas, e assim por diante); os trabalhadores os CONTROLE SOCIAL; IDEOLOGIA; IMAGEM DE
usam para produzir riqueza, em troca da qual CLASSE; INTERESSE DE CLASSE; MODO DE PRO-
recebem salários, pagos pelos empregadores. O DUÇÃO.
lucro capitalista depende do pagamento de salários
que representam menos do que o valor daquilo que Leitura sugerida: Mann, M. 1973: Consciousness
and Action among the Western Working Class. Lon-
os trabalhadores produzem. Daí, a estrutura das
dres: Macmillan ● Marx, Karl 1852 (1986): O 18
relações de classe é inerentemente espoliativa e
Brumário. Rio de Janeiro: Paz e Terra / (1973): “The
antagônica, uma vez que uma classe só pode be-
eighteenth brumaire of Louis Bonaparte”. In Surveys
neficiar-se à custa da outra. from Exile. Harmondsworth: Penguin.
A classe, então, pode ser descrita de uma pers-
pectiva marxista em termos objetivos. Marx, con-
tudo, via essas classes não só como conjuntos de consenso ver COESÃO.
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indivíduos com características semelhantes, mas


como participantes de uma luta acirrada e contínua conseqüência disfuncional ver PERSPECTI-
que gerava MUDANÇA SOCIAL. A fim de participar VA FUNCIONALISTA.
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do processo da história, as classes têm de estar


cientes ou conscientes de si mesmas como classes,
têm de se tornar classes não só “em si mesmas” conseqüência funcional ver PERSPECTIVA
FUNCIONALISTA.
mas também “para si mesmas”, ao compreender
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as verdadeiras causas e extensão da opressão que


sofrem como trabalhadores. Marx acreditava que conseqüência latente ver PERSPECTIVA FUN-
a natureza exploradora do capitalismo, em conjun- CIONALISTA.
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to com o sofrimento coletivo crescente da classe


trabalhadora, formaria a consciência de classe, e conseqüência manifesta ver PERSPECTIVA
daí a mudança revolucionária, inevitável. FUNCIONALISTA.
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Historicamente, a consciência de classe tem


sido a exceção, e não a regra, pois poderosas forças
sociais trabalham contra ela. As classes domi- conseqüência não-antecipada ver PERS-
nantes tendem a controlar as grandes instituições PECTIVA FUNCIONALISTA.
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sociais, incluindo o Estado e sua autoridade coer-


citiva. Exercem também grande influência sobre conservadorismo e liberalismo É difícil
os valores, crenças e normas culturais. Dessa ma- precisar a distinção entre conservadorismo e libe-
neira, embora a concentração de grande riqueza ralismo, em parte porque o significado de ambas
dependa muito mais de herança do que de trabalho as palavras mudou ao longo da história. De modo
árduo, a ética predominante, ainda assim, enfatiza geral, contudo, há algumas idéias básicas que as
a importância do trabalho árduo para progredir na separam como pontos de referência para extrair
vida. Desse modo, a distribuição desigual da ri- sentido da vida social e, em particular, modelar o
queza é preservada e as classes baixas são deixadas trabalho para mudá-la ou manter o status quo.
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para culpar sobretudo a si mesmas pela privação Como ideologia política, o conservadorismo
em que vivem, presumivelmente sobre o funda- surgiu principalmente como reação à Revolução
mento de que carecem de talento e motivação Francesa. Em Reflections on the Revolution in
suficientes para ter sucesso. France (1855), Edmund Burke argumentou que o
Em um nível mais geral, a consciência da status quo era sempre preferível a uma alternativa
verdadeira natureza da vida social só resulta em que existia principalmente apenas como teoria, o
geral de muito esforço e treinamento. A maioria que, na época em que escrevia, era verdade quanto
dos sistemas sociais — de casamentos e famílias à democracia como forma de governo. A mudança,
à economia mundial — não inclui em sua cultura se é que devia ocorrer, melhor seria que aconteces-
uma percepção crítica sustentada de si mesmos se devagar e como ampliação lógica da ordem
como tais. Em sistemas de classe, contudo, a classe natural das coisas, e não como uma mudança
dominante tem interesse inerente na falsa cons- revolucionária de direção.
ciência das classes subordinadas e pode usar sua O conservadorismo baseia-se em uma opinião
autoridade e recursos para promovê-la e mantê-la. um tanto pessimista da natureza humana, vista

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CONSUMO CONSPÍCUO 51

como basicamente má, irracional e violenta, se constante de regressão ver ANÁLISE DE


deixada a seus próprios meios. A única maneira de REGRESSÃO.
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controlar esse potencial destrutivo consiste em


impor rígidos códigos morais através de fortes
tradições, instituições sociais e uma sociedade construção social da realidade ver
FENO-
MENOLOGIA E SOCIOLOGIA FENOMENOLÓGICA.
hierárquica governada por elites, cujo poder re-
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pousa em sua superioridade inerente e na proprie-


dade privada, herdada através de gerações. Isso consumo coletivo Consumo coletivo é um
implica que a desigualdade social é inevitável e, conceito que se refere aos numerosos bens e ser-
na verdade, necessária para manter a sociedade. viços que, nas cidades, tendem a ser produzidos e
O liberalismo tem suas origens no Iluminismo consumidos em nível coletivo. Incluem escolas
europeu e no conflito entre os empreendedores públicas e bibliotecas, ruas, pontes e transporte
capitalistas do mercado livre e a aristocracia feudal público, serviços de saúde, coleta do lixo, habita-
fortemente enraizada. Baseia-se em um compro- ção financiada pelo Estado, bem-estar, proteção
misso com a liberdade do indivíduo. Da maneira policial e contra incêndios e parques e equipamen-
como o CAPITALISMO se desenvolveu nos séculos tos de recreação. Manuel Castells utiliza esse ter-
XIX e XX, contudo, os liberais acharam que ele mo em seu trabalho sobre comunidades urbanas,
estava se transformando em uma nova e opressiva em especial na medida em que elas se desenvol-
ameaça à liberdade e ao bem-estar individual. Sob vem e funcionam em relação ao CAPITALISMO
o FEUDALISMO, a ELITE havia sido a aristocracia, industrial. De muitas maneiras, empresas
que se opusera ao capitalismo do livre mercado. capitalistas dependem desses bens e serviços —
Sob o capitalismo avançado, porém, a classe assim como de uma força de trabalho educada e
capitalista tornou-se a elite. A solução do liberalis- de meios de transporte — para que possam fun-
mo para essa situação tem sido a confiança cada cionar. Não obstante, relutam em pagar por eles
vez maior no governo para defender os direitos porque não geram lucros. Como resultado, cidade,
individuais contra os excessos da expansão e ex- Estado e governos nacionais constituem os
ploração capitalista, como, por exemplo, prote- maiores fornecedores desse serviços, mas lutam
gendo os trabalhadores e os consumidores ou de- com uma crônica falta de recursos. Esse fato,
fendendo empresas-chave de algumas das conse- argumenta Castells, ocasiona crises repetidas, MO-
VIMENTOS SOCIAIS e outras formas de luta política
qüências mais nocivas da competição sem limites.
Ao fazer isso, o liberalismo perpetua o capitalismo em torno do fornecimento de serviços e controle
ao defendê-lo contra seus próprios excessos. sobre as instituições do Estado por eles res-
ponsáveis.
Há uma grande incoerência no uso dos rótulos
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conservador e liberal, especialmente quando se Leitura sugerida: Castells, Manuel 1977: The Ur-
referem apenas a atitudes sobre mudança. Durante ban Question: A Marxist Approach. Trad. por A.
a Guerra Fria, por exemplo, os americanos fre- Sheridan. Cambridge: MIT Press ● Saunders, Peter
qüentemente associaram os liberais ao comunis- 1981: Social Theory and the Urban Question. Lon-
mo e os conservadores ao anticomunismo. Du- dres: Hutchinson.
rante as revoluções anticomunistas na União So-
viética e na Europa Oriental em fins da década de consumo conspícuo Em A teoria da classe
1980 e na década de 1990, os inveterados defen- ociosa, Thorstein VEBLEN define consumo cons-
sores do status quo comunista foram com freqüên- pícuo como a prática de comprar e ostentar posses
cia chamados de conservadores e, os pró-capitalis- materiais com vistas a indicar ou realçar o próprio
tas, considerados liberais. prestígio aos olhos dos demais. O consumo cons-
pícuo ocorre em forma ostensiva ou sutil. Em um
Leitura sugerida: Laski, Harold J. 1936 (1962): The
Rise of European Liberalism. Nova York: Barnes and
extremo temos a exibição exagerada, através da
Noble ● Nisbet, Robert 1986: Conservatism: Dream qual os muito ricos (que Veblen chamou de classe
and Reality. Mineápolis: University of Minnesota ociosa ) indicam sua posição superior demons-
Press. trando que possuem tanto que podem dar-se ao
luxo de desperdiçar em enorme escala (algo seme-
lhante à prática do POTLATCH entre os índios da
constante ver VARIÁVEL.
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C América do Norte). A grande riqueza de industriais

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52 CONTATO CULTURAL

americanos como os Rockefeller e os Vanderbilt mente aos valores e normas vigentes como manei-
no início deste século, por exemplo, era com fre- ra de se adaptar à nova situação. É mais fácil para
qüência demonstrada em festas faraônicas, nas imigrantes ter sucesso em seu país de adoção caso
quais enormes quantidades de alimentos eram ser- se conformem e aceitem a nova língua, usem a
vidas em pratos de ouro puro por um exército de nova moeda e obedeçam às normas. Não renun-
empregados — todas as quais serviam à função ciando inteiramente à cultura de origem, esses
primária de demonstrar como eles eram altamente grupos formam a base do pluralismo cultural,
colocados.
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C através do qual culturas diferentes coexistem e
Em escala mais comum, indivíduos de vários mantêm certo grau de identidade separada. Além
meios formativos de classe usam o consumo cons- disso, a assimilação raramente é uma rua de mão
pícuo para chamar atenção para si mesmos e real- única e a cultura de grupos dominantes também é
çar sua posição. Desde etiquetas de costureiros afetada. Negros na Europa e nos Estados Unidos,
famosos nas roupas a possuir uma determinada por exemplo, perderam muitas de suas tradições
marca de carro (ou qualquer carro, por falar nisso) culturais africanas, mas também é verdade que a
— de “ser visto” em determinados restaurantes a sociedade branca adotou rapidamente muitos ves-
morar em bairros caros ou exclusivos; de fazer tígios da cultura africana e seus derivados, do jazz
refeições à luz de velas a tocar música clássica para e maneira de se vestir à gíria e aos estilos de
os convidados; e fazer longas e caras viagens de linguagem.
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férias — o consumo encerra muitas vezes conse- O amálgama ocorre quando duas ou mais cul-
qüências que nada têm a ver com os usos para o turas se fundem em uma única nova cultura que
qual um determinado artigo foi produzido ou um contém elementos de ambas, bem como alguns
serviço prestado. Em suma, em todos os casos em elementos inteiramente novos que representam a
que sociedades incluem sistemas de escalas de síntese das duas. O México, por exemplo, é um
prestígio, os bens e serviços que pessoas conso- amálgama de culturas espanhola e americana na-
mem desempenham um dado papel. tiva.
O consumo conspícuo é importante para o Ver também MULTICULTURALISMO; SEGRE-
pensamento sociológico porque chama atenção GAÇÃO E INTEGRAÇÃO.
para o problema de como identificar as conseqüên-
cias sutis, freqüentemente inesperadas, de vários Leitura sugerida: Blauner, Robert 1972: “Racism
aspectos da vida social. Muito do que considera- as the negation of culture”. In Racial Oppression in
mos como comportamento, gosto e preferência America. Nova York: Harper and Row ● Castles, Ste-
pessoais têm conseqüências sociais, cujo signifi- phen, em colaboração com Heather Booth e Tina
cado e alcance se situam muitas vezes além da Wallace 1984: Here for Good: Western Europe’s New
consciência que temos deles. Ethnic Minorities. Londres: Pluto Press ● Park, Ro-
bert E. 1950: Collected Papers of Robert Ezra Park.
Ver também CLASSE SOCIAL; PRESTÍGIO.
Nova York: Free Press.
Leitura sugerida: Veblen, Thorstein 1899 (1953):
The Theory of the Leisure Class: an Economic Study contexto indicativo (indexicality) No estu-
of Institutions. Ed. rev., Nova York: New American
do da interação social e do processo contínuo de
Library.
interpretar o que pessoas dizem e fazem, o contex-
to indicativo é um conceito que se refere ao fato
contato cultural Contato cultural é o que de que o significado da linguagem e da ação
ocorre quando duas ou mais culturas entram em depende da situação social em que ocorrem. Em
contato uma com a outra através de imagens na outras palavras, podemos concluir que o significa-
mídia, comércio exterior, imigração ou conquista, do indica o contexto. O significado de “Fogo”, por
de modo que podem influenciar-se de várias ma- exemplo, é inteiramente diferente quando a pala-
neiras. Com o processo de assimilação (conhecido vra é berrada por alguém que foge de uma casa do
também como aculturação), um grupo dominante que quando é uma ordem dada pelo comandante
pode impor com tanta eficiência sua cultura a de uma bateria de artilharia. De forma análoga,
grupos subordinados que estes se tornam virtual- bater palmas significa uma coisa na platéia de um
mente indistinguíveis da cultura dominante. Uma teatro e outra inteiramente diferente quando feita
forma menor de assimilação ocorre quando recém- por um professor que procura chamar a atenção de
chegados a uma sociedade conformam-se externa- uma classe de estudantes barulhentos. O contexto

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1ª Revisão: 28.11.96 – 2ª Revisão: 8.1.97
3ª Revisão: 31.3.97
4ª Revisão: 21.4.97 — Letra C
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Para: Ed. Zahar
CONTRATO SOCIAL 53

indicativo é um conceito muito importante em contradição resultante gerou tensões profundas


ETNOMETODOLOGIA.
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C que por fim levaram à queda do feudalismo e da
aristocracia.
contracultura Uma contracultura (ou cultura O capitalismo também gera contradições que
alternativa) é uma subcultura que rejeita e com- ocupam um lugar central na análise marxista. Uma
bate elementos importantes da cultura dominante das mais importantes é a existente entre os interes-
da qual faz parte. Durante a década de 1960, por ses conflitantes dos capitalistas (que ganham às
exemplo, movimentos contraculturais nos Estados expensas dos trabalhadores) e dos trabalhadores
Unidos criticavam em altos brados os valores da (que ganham às expensas dos capitalistas).
corrente principal da vida americana, como o ma- Ver também MATERIALISMO.
terialismo, o apoio à Guerra do Vietnã, o respeito Leitura sugerida: Godelier, Maurice 1966: “Systè-
à autoridade e as opções do estilo de vida conser- me, structure et contradiction dans Le Capital”. In Les
vador refletidas no vestuário, corte de cabelo e Temps Modernes, novembro / (1972): “System, struc-
rejeição de drogas como a maconha e o LSD. As ture, and contradiction in capital”. In Rationality and
contraculturas podem assumir grande variedade Irrationality in Economics. Londres: New Left; Nova
de formas, de CULTOS religiosos a comunas e York: Monthly Review Press ● Lukács, George 1923
movimentos políticos como o Partido Verde na (1974): História e consciência de classe. São Paulo:
Europa Ocidental.
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C Martins Fontes / (1971): History and Class
Ver também MOVIMENTO SOCIAL. Consciousness. Londres: Merlin; Cambridge: MIT
Press ● Myrdal, Gunnar 1945: An American Dilem-
Leitura sugerida: Roszak, Theodore 1969: The Ma- ma. Nova York: Harper & Brothers.
king of a Counter-Culture. Nova York: Anchor.

contrafatual Uma declaração contrafatual ba-


contradição No pensamento sociológico (em seia-se na ocorrência de alguma coisa que, na
especial na tradição de Karl MARX), a contradição verdade, não aconteceu. “Se eu estivesse encar-
é qualquer caso em que dois ou mais aspectos de regado de dirigir o mundo, as coisas seriam muito
um sistema social são incompatíveis ou colidem melhores do que são agora” é uma declaração
entre si. Uma sociedade cuja cultura valoriza a contrafatual, uma vez que, evidentemente, eu não
igualdade, a equanimidade e a justiça, por exem- estou encarregado das coisas do mundo. Decla-
plo, existe em estado de contradição se inclui rações contrafatuais são importantes quando pen-
também preconceito e opressão por motivo de raça samos nas causas de fenômenos sociais, porque
e sexo. Esse fato produz tensão social e pressões quando argumentamos que A causou B, supomos
por mudança. Em seu estudo clássico da década freqüentemente o contrafatual, que se A não tives-
de 1940 das relações sociais nos Estados Unidos, se acontecido, B tampouco teria ocorrido, o que
o sociólogo sueco Gunnar Myrdal previu cor- talvez não seja absolutamente o caso. Qualquer
retamente que a contradição entre ideais igualitá- argumento, por exemplo, sobre os efeitos da Re-
rios e a realidade do racismo constituía um “dilema volução Russa sobre o curso da história russa e
americano” que, inevitavelmente, resultaria em mundial teria também que levar em conta decla-
mudança, como começou a acontecer várias déca- rações contrafatuais sobre o que teria acontecido
das depois com a emergência dos movimentos dos se não tivesse havido uma revolução, um caso
direitos civis.
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hipotético para o qual é evidentemente difícil for-


Marx afirmava que as contradições mais im- mular um argumento convincente.
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portantes envolviam fatores econômicos. A transi- Ver também FALSIFICACIONISMO.


ção do FEUDALISMO para o CAPITALISMO, por
exemplo, resultou de tensões entre duas forças
contraditórias. Por um lado havia a ordem feudal contrato ver CONTRATO SOCIAL.
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baseada na produção camponesa, apego à terra e


laços de lealdade, obrigações e dominação entre contrato social Contrato social é uma idéia
nobreza e servos. Por outro, despontava um sis- que tem sido usada um tanto metaforicamente para
tema de cidades e mercados nos quais homens descrever a relação entre CIDADÃOS e ESTADO.
produziam com a finalidade de comprar e vender. Thomas Hobbes, filósofo do século XVII, conside-
Uma vez que o capitalismo prosperaria com o rava o Estado uma instituição necessária para evi-
rompimento dos laços de obrigações feudais, a tar que pessoas fizessem mal umas às outras. Era

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54 CONTROLE

uma proteção, contudo, que requeria que pessoas constitui um induzimento poderoso para confor-
renunciassem a parte de sua liberdade e autonomia mar-se, como também o risco de passar por vergo-
em favor do Estado. Esse fato gerou a idéia de nha. É também importante o induzimento de cul-
contrato, de proteção em troca de submissão à pa, conseguido através da internalização de pa-
autoridade, com o entendimento de que ambas as drões morais durante a socialização. Subjacente a
partes — o Estado e o corpo de cidadãos — tudo isso há a crença fundamental em que os
deveriam ficar à altura de sua parte na barganha, sistemas sociais e suas normas são legítimos e, por
sem abuso dos termos do acordo. Pessoas, claro, conseguinte, de cumprimento obrigatório por nós,
não entram conscientemente em um contrato de como deles participantes.
tal tipo e essa não foi a maneira como o Estado Ver também CONFORMIDADE; DESVIO; NOR-
veio de fato surgir. Daí a natureza metafórica do MAS; ORDEM SOCIAL; PODER; SELF; SOCIALIZA-
conceito. ÇÃO; VERGONHA E CULPA.
A idéia de contrato social desempenhou um
papel importante na discussão dos direitos dos Leitura sugerida: Cohen, S. 1985: Visions of Social
cidadãos em relação ao Estado, bem como da base Control. Cambridge: Polity Press ● Lemert, Edwin
da legitimidade do Estado como instituição, em M. 1951: Human Deviance, Social Problems, and
especial da forma proposta por Jean Jacques Rous- Social Control. Nova York: McGraw-Hill ● Parsons,
Talcott 1951: The Social System. Glencoe, Il.: Free
seau. Outros autores, Talcott PARSONS entre eles,
Press; Londres: Routledge & Kegan Paul.
argumentaram que a COESÃO social repousa em
consenso sobre valores e não sobre um contrato
social. conurbação ver MEGALÓPOLE.
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Leitura sugerida: Hobbes, Thomas 1651 (1983):


Leviatã. São Paulo: Abril Cultural / (1968): Levia- cooperação ver COMPETIÇÃO E COOPERA-
than. Harmondsworth: Penguin ● Parsons, Talcott ÇÃO.
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1937: The Structure of Social Action. Nova York:


McGraw-Hill ● Rousseau, Jean Jacques 1762 (1959):
Du contrat social. Paris: Gallimard / (1983): O coorte A coorte é o conjunto de todas as pessoas
contrato social e outros escritos. São Paulo: Cultrix / que participam de uma dada experiência, em es-
(1973): The Social Contract and Discourses. Lon- pecial o fato de terem nascido no mesmo período.
dres: Dent. As coortes etárias são muitas vezes definidas em
termos de períodos de cinco a dez anos, tal como
os nascidos entre 1970-75 e 1940-50. Em algumas
controle ver CONTROLE SOCIAL.
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sociedades tribais as coortes são formalizadas e


recebem nomes que as distinguem de outras. So-
controle social Controle social é um conceito ciologicamente, estas são conhecidas como
que se refere às maneiras como os pensamentos, conjuntos de idade.
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sentimentos, aparência e comportamento de pes- A coorte é um conceito sociológico importante,


soas são regulados nos sistemas sociais. Até certo sobretudo no estudo da mudança social. Uma vez
ponto, o controle é exercido através de várias que cada nova coorte experimenta à sua própria
formas de coerção, variando da capacidade do pai maneira a sociedade em que vive, em condições
de restringir fisicamente um filho à AUTORIDADE históricas únicas, elas inevitavelmente contribuem
do sistema de justiça criminal de condenar à prisão para a mudança social ao interpretar a seu modo
indivíduos julgados culpados de crimes, e de mé- valores, crenças e atitudes e ao se ajustar a res-
dicos de aplicarem drogas que tornam mais trições estruturais. Pode-se esperar, por exemplo,
“controláveis” pacientes “difíceis”.
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C que a coorte que cresce durante tempos de depres-
A coerção, porém, é em geral ineficaz como são econômica desenvolva valores inteiramente
meio único de controle social. Muito mais impor- diferentes sobre trabalho árduo e importância da
tante é o processo de SOCIALIZAÇÃO, mediante o frugalidade e poupança do que a coorte que se
qual pessoas vêm a se identificar com o sistema desenvolve durante épocas de expansão e pros-
social e seus valores e normas e, dessa maneira, peridade. De maneiras análogas, pode-se esperar
adquirem interesse na manutenção dos mesmos, também que coortes que passam os primeiros anos
bem como o senso de pertencer ao sistema. O da vida adulta participando de guerras desastrosas,
medo do ridículo ou de exclusão, por exemplo, como o envolvimento americano no Vietnã ou o

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CORRELAÇÃO 55

da antiga União Soviética no Afeganistão, desen- social refletia um equilíbrio de interesses entre
volvam mais atitudes e valores contra a guerra do esses grupos corporativos. Há algum desacordo
que coortes que são expostas ao que é em geral sobre suas origens e finalidade básica. Na Itália foi
considerado uma guerra “justa”, como a Segunda usado para forjar um senso de unidade nacional e
Guerra Mundial. minimizar conflitos internos. Alguns autores afir-
Essas diferenças são denominadas de efeitos de maram que, em suas manifestações mais recentes,
coorte. Distinguem-se dos efeitos longitudinais representa uma maneira de o governo e as empre-
que ocorrem devido ao envelhecimento dentro da sas controlarem os sindicatos.
coorte. À medida que mulheres envelhecem, por Ver também DEMOCRACIA POLÍTICA E ECONÔ-
exemplo, o número de filhos que têm costuma MICA; ESTADO.
aumentar simplesmente porque elas estão expos-
tas a maior número de oportunidades de engravi- Leitura sugerida: Goldthorpe, J.H. org. 1984: Or-
dar — o que é um efeito longitudinal. Dependendo der and Conflict in Contemporary Capitalism. Stu-
de circunstâncias sociais mutáveis, contudo, o nú- dies in the Political Economy of Western European
mero médio de crianças em cada coorte pode Nations. Oxford: Oxford University Press ● Panitch,
variar. Esse fato foi comprovado pelo baby boom L. 1980: “Recent theorizations of corporatism”. Bri-
que se seguiu à Segunda Guerra Mundial na Eu- tish Journal of Sociology 31: 159-87.
ropa e na América do Norte, com o posterior
declínio da fecundidade que se iniciou em fins da
década de 1960.
correlação Correlação é freqüentemente usa-
da como termo geral relativo a MEDIDAS DE AS-
Ver também ESTUDO LONGITUDINAL.
SOCIAÇÃO que indicam a força da relação entre
Leitura sugerida: Riley, Matilda White 1987: “On duas variáveis. De modo geral, contudo, está liga-
the significance of age in sociology”. American So- da de forma mais específica à ANÁLISE DE RE-
ciological Review 52(1): 1-14 ● Ryder, Norman B. GRESSÃO. Nesta, a dependente variável, Y, é plo-
1965: “The cohort as a concept in the study of social tada contra a variável independente, X. Uma linha
change”. American Sociological Review 30: 843-61. é ligada aos pontos a fim de fornecer a predição
mais exata de Y baseada em conhecimento de X.
coorte etária ver COORTE.
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O coeficiente de correlação é uma quantidade
estatística que indica o grau em que os pontos se
encontram na linha usada para prever Y a partir de
corporativismo Corporativismo é um sistema
de distribuição de poder na SOCIEDADE entre vá- X. Em outras palavras, quanto mais forte a cor-
rias organizações como ESTADO, SINDICATOS, relação, mais exatamente X pode ser usado para
empresas e associações de profissionais liberais. A prever Y.
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idéia básica é que o PODER é mantido por essas O coeficiente de correlação (conhecido tam-
organizações em coordenação entre si e que in- bém como coeficiente de correlação momento-
divíduos têm poder apenas na medida em que seus produto de Pearson) é representado por r. Seu
interesses são representados por uma ou mais de valor numérico varia entre -1,0 e +1,0, com o sinal
uma delas. Nesse sentido, o corporativismo difere positivo ou negativo indicando a DIREÇÃO DA
da democracia representativa, na qual o indivíduo RELAÇÃO e o próprio número indicando a força da
exerce diretamente sua parcela de poder votando relação. Um valor de 1,0 (positivo ou negativo)
em seus candidatos. E difere ainda mais profun- indica uma relação perfeita, o que significa que
damente da democracia direta, na qual o indivíduo conhecer X permite que se preveja Y sem erro. Um
vota em reuniões na praça pública para referendar valor de 0,00 indica que não há relação, o que
proposições e coisas semelhantes.
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significa que ao tentar prever os valores de Y
O corporativismo surgiu inicialmente na Espa- cometeremos tantos erros conhecendo X como se
nha sob o governo de Franco, como parte do não o conhecêssemos. Na interpretação de cor-
FASCISMO italiano. Na década de 1970, emergiu relações, é sempre importante manter em mente
também em vários países europeus, incluindo a que correlação e causação não são a mesma coisa.
Áustria, a Grã-Bretanha e quase toda a Escan- A capacidade de prever Y com base em conheci-
dinávia. Na maior parte consistiu em uma relação mento de X não significa que X cause Y, mas
de trabalho entre governo, empresas e sindicatos, apenas que tendem a variar juntos de maneiras
na qual a maioria das grandes decisões de política previsíveis.

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56 CORRELAÇÃO MÚLTIPLA

A correlação pode ser usada também para exa- babilidade de serem democráticas do que as menos
minar-se simultaneamente a relação entre uma desenvolvidas.
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variável dependente e duas ou mais variáveis in- As correlações de ordenações mais usadas são
dependentes. Poderíamos, por exemplo, querer o r de Spearman e o tau (τ) de Kendall.
explicar a variação na renda usando variáveis co- Ver também CORRELAÇÃO; INDEPENDÊNCIA
mo educação, ocupação, experiência, raça e sexo. ESTATÍSTICA E DEPENDÊNCIA ESTATÍSTICA; ME-
Neste caso, calcularíamos um coeficiente de cor- DIDA DE ASSOCIAÇÃO.
relação múltipla (R), indicando o grau em que a
renda pode ser prevista com base nas informações Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
contidas em todas as variáveis independentes Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis. 2ªed.
Ithaca, IL: F.E. Peacock.
operando juntas.
Em análises estatísticas que envolvam um con-
junto de variáveis, é muitas vezes útil computar a costume Costume é um modo regular, padro-
correlação de cada possível par de variáveis. Elas nizado, de parecer ou comportar-se, considerado
são em seguida inseridas em uma matriz de cor- característico da vida em sistemas sociais. Aperto
relação que, no caso de cada linha e coluna de de mão, reverência e beijo, por exemplo, são todos
variável, mostra o valor da correlação nas células meios costumeiros de cumprimentar pessoas que
da tabela. distinguem uma sociedade de outra. Analoga-
Ver também ANÁLISE DE REGRESSÃO; AS- mente, famílias individuais têm muitas vezes cos-
SOCIAÇÃO PARCIAL; MEDIDA DE ASSOCIAÇÃO. tumes diferentes, como meios próprios de come-
morar feriados ou marcar fatos importantes na
Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David história da família.
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Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed. Ver também CULTURA; MANEIRAS DE AGIR.
Ithaca, IL: F.E. Peacock.
Leitura sugerida: Murdock, George P. 1967:
correlação múltipla ver CORRELAÇÃO.
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Ethnographic Atlas. Pittsburgh: University of Pitts-
burgh Press.

correlação ordenada Uma CORRELAÇÃO


ordenada é uma MEDIDA DE ASSOCIAÇÃO das coup d’etat ver GOLPE DE ESTADO.
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relações entre variáveis de escala ordinal que as-


sumem a forma de ordenações, sobretudo quando covariância Covariância é um tipo especial de
há relativamente poucos empates (poucos casos VARIÂNCIA. Trata-se de uma quantidade estatís-
com escores idênticos). Se ordenamos nações por tica que mede o grau em que duas variáveis se
grau de desenvolvimento econômico, por exem- modificam juntas em relação recíproca. Se há uma
plo, e em seguida como são democráticas suas relação positiva entre X e Y, por exemplo, então
instituições políticas, podemos usar um de seus em todos os casos em que o valor de X for alto, o
vários coeficientes de correlação ordenada para valor de Y tenderá também a ser alto; quando o
medir estatisticamente o grau de aderência entre valor de X é baixo, o valor de Y tende a ser também
os dois postos. Tal como todas as medidas de baixo.
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associação, o valor numérico das correlações or- Outra maneira de expressar a mesma coisa
denadas varia entre +1,00 e -1,00. Um valor de seria dizer que quando o valor de X é maior do que
+1,00 indica uma relação perfeita, na qual os dois a média de X, o valor de Y tenderá a ser maior do
conjuntos de postos são idênticos, sendo a socie- que a média de Y, e assim por diante. Esse fato é
dade mais altamente desenvolvida a mais demo- de grande importância para calcular a covariância.
crática e a menos desenvolvida a menos democrá- Para cada observação (como de uma pessoa numa
tica. Um valor de -1,00 indica uma relação na qual pesquisa), tomamos o escore da variável X e o
os dois conjuntos de ordenações estão em desacor- subtraímos da média de X. Em seguida, tomamos
do perfeito entre si, com a sociedade mais desen- o escore de Y e o subtraímos da média de Y.
volvida como menos democrática e a menos de- Finalmente, multiplicamos essas duas diferenças.
senvolvida como mais democrática. Um valor de Fazemos isso no caso de cada observação e, em
zero indica que não há relação entre os dois con- seguida, somamos todos esses produtos. O total
juntos de ordenações, o que significa que as socie- resultante é a covariância. Quando a relação entre
dades altamente desenvolvidas não têm mais pro- as variáveis é positiva, a covariância será positiva.

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CRIME DE COLARINHO BRANCO 57

Quando não há relação e as variáveis são indepen- velho tolo”, “No piano, a nota imediatamente aci-
dentes entre si, a covariância será igual a zero. ma do dó é o ré”.
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Conforme será notado no verbete sobre variân- As crenças culturais são importantes porque é
cia, um dos principais objetivos da pesquisa socio- com elas que construímos o que julgamos ser a
lógica consiste em explicar diferenças, ou seja, realidade da vida diária, além de assuntos menos
explicar o fato estatístico que pessoas ou outras triviais, como espiritualidade e cosmologia. Esse
unidades de observação diferem em caracterís- fato é especialmente verdadeiro no tocante às cren-
ticas, como renda ou idade na ocasião da morte. ças relativas às várias posições nos sistemas so-
Uma vez que a variância indica em quanto a ciais, suposições estas que usamos como subs-
variável Y varia absolutamente, e a covariância titutas do conhecimento pessoal direto das pessoas
indica o grau em que Y varia com X, então, se a com quem interagimos e das quais dependemos
covariância é subtraída da variância, o resto é o todos os dias. Supomos que os caixas de banco
volume de variância em Y que não varia com X. põem de fato nosso depósito na caixa-forte em vez
Isso é chamado de variância inexplicada. A cova- de fugir com ele e aposentar-se logo; supomos que
riância é freqüentemente denominada variância pessoas que se apresentam como médicos e exi-
explicada. bem a aparência correta sabem o que estão fazen-
As variâncias explicada e inexplicada são mui- do; supomos que a maioria das pessoas guiará o
tas vezes apresentadas como percentagens da va- carro na mão certa da estrada. Fazemos estas su-
riância total. Em outras palavras, se o valor numé- posições porque elas nos são apresentadas como
rico da variância total de Y é 347 e o valor da partes de nosso sistema cultural de crenças, e
covariância entre X e Y é 83, então podemos dizer mesmo quando alguns indivíduos as violam —
que 83/347 = 0,24, ou 24% da variação de Y são como invariavelmente fazem, às vezes — conti-
estatisticamente esclarecidos ou “explicados” por nuamos em geral a aceitá-las, a menos que as
sua relação com X. Mediante subtração (1,00 — exceções se tornem tão numerosas que a crença
0,24), podemos dizer que 76% da variância são não possa mais ser mantida (como aconteceu
“inexplicados”. quando pessoas perderam a confiança nos bancos
O uso dos termos “explicado” e “inexplicado” durante a Grande Depressão).
é restrito porque esses termos se referem a uma O poder das crenças torna-se mais evidente
explicação estatística, que talvez nada tenha a ver ainda com a falta geral de conscientização de que
com causa e efeito. O fato de a variável Y variar elas existem como tais. Alguns cientistas, por
com a variável X — até mesmo perfeitamente — exemplo, irritam-se com a idéia de que seu traba-
não significa que X cause Y. lho é baseado em crenças, que preferem classificar
Ver também COEFICIENTE DE ALIENAÇÃO; como “fatos”. Eles, porém, tal como nós, aceitam
COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO; CORRELA- alguns aspectos de suas realidades como certos e
ÇÃO; FALSIDADE ESTATÍSTICA; VARIÂNCIA. além de qualquer dúvida, como simplesmente a
maneira como as coisas são, e não a maneira como
Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David foram construídas de matérias-primas brutas for-
Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis. 2ªed. necidas por um sistema cultural particular de cren-
Ithaca: F.E. Peacock.
ças. Do ponto de vista sociológico, porém, todo
conhecimento é socialmente construído e crenças
crença Nos sistemas culturais, a crença é qual- de toda ordem se situam no âmago dessa cons-
quer declaração ou parte de uma declaração que trução.
supostamente descreve algum aspecto da reali- Ver também CULTURA; PROFECIA AUTO-REA-
dade coletiva. Se a declaração corresponde ou não LIZÁVEL.
ao que é geralmente aceito no sistema social como
“verdade” ou “fato” em nada influencia se ela se
qualifica como crença. Nesse sentido, todas as crime de colarinho branco Conceito pro-
descrições da realidade com base na cultura são posto inicialmente pelo sociólogo Edwin
crenças, incluindo declarações como “Deus exis- SUTHERLAND, o crime de colarinho branco des-
te”, “E = mc2”, “Comerciantes aceitarão dinheiro creve o conceito de atos criminosos que surgem de
em troca de mercadorias”, “A pessoa cujo cérebro oportunidades criadas pela posição social do in-
não tem atividade elétrica está morta”, “O Sol gira divíduo, em particular da ocupação. O peculato,
em torno da Terra”, “Não há maior tolo do que um por exemplo, só pode ser cometido por emprega-

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58 CRIME E CRIMINOLOGIA

dos como funcionários públicos, de bancos, conta- tivamente baixas de detecção e condenação por
dores etc. e é, por conseguinte, um crime de colari- crimes de colarinho branco e, dadas as dificul-
nho branco. Outros exemplos incluem a inclusão dades de reunir provas fortes contra os perpetra-
de despesas falsas em contas de representação, a dores, em acordos de cooperação com a promoto-
fixação de preços abusivos por empresas, a sone- ria e outros arranjos que reduzirão a severidade do
gação fiscal, a violação dos regulamentos de segu- castigo.
rança relativos a empregados, a discriminação ile-
gal, a publicidade enganosa, o furto de idéias Leitura sugerida: Shapiro, S.P. 1990: “Collaring
protegidas por direito autoral de outras compa- the crime, not the criminal: Reconsidering the
concept of white-collar crime”. American Sociologi-
nhias, o uso de informações privilegiadas em ne-
cal Review 55(3): 346-65 ● Sutherland, Edwin H.
gociações em bolsa de valores e práticas trabalhis-
1983: White-Collar Crime: The Uncut Version. New
tas injustas.
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Haven: Yale University Press.


A grande importância do crime de colarinho
branco como categoria de análise sociológica foi
a constatação de que criminosos desse tipo tendem crime e criminologia ver DESVIO.
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a ser da classe média e alta e que, por causa de


tendenciosidade de classe no sistema judiciário crime organizado O crime organizado (syn-
criminal, seus crimes são em geral considerados dicated, em inglês) é um sistema que se distingue
menos graves e menos merecedores de punição. O por uma estrutura complexa, que lembra mais uma
conceito de crime de colarinho branco tem figura- ORGANIZAÇÃO FORMAL do que um conjunto in-
do com destaque no estudo da ESTRATIFICAÇÃO e definidamente entrelaçado de criminosos. As or-
DESVIO sociais. ganizações de criminosos têm uma cadeia hierár-
Shapiro argumentou que devemos nos concen- quica de comando, uma DIVISÃO DO TRABALHO
trar nas características definidoras do crime de complexa que inclui um sistema de administração,
colarinho branco, e não nas características da- um sistema formal para manutenção de registros e
queles que os cometem. Ela afirma que o crime de regras claramente elaboradas que se espera que
colarinho branco, ao contrário de outros tipos de sejam seguidas por todos — todas as quais são
comportamento criminoso, implica violação de características de organizações formais. Tornan-
relações de confiança. Advogados que roubam do-se as organizações criminosas mais complexas,
clientes enquanto administram seus bens, por o mesmo acontece com as variedades de crimes
exemplo, fazem mais do que roubar porque tiram que cometem, tais como tráfico de droga, com sua
proveito também de uma relação de confiança estrutura complicada de aquisição, processamen-
através da qual esses roubos se tornam possíveis. to, transporte e venda, ou a infiltração em empre-
A violação de uma relação de confiança tem a ver sas legítimas através de uma vasta rede de recur-
com o próprio crime, e não com a classe à qual sos. Algumas dessas formas de crime organizado
pertence o criminoso e, como tal, deveria ser mais são constituídas até mesmo como franquias, de
fundamental para o conceito de crime de colarinho modo muito parecido com cadeias de lanchonetes
branco. e outras redes comerciais.
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Shapiro também diz que se o crime de colari-


nho branco for conceituado dessa maneira, ficará Leitura sugerida: Ianni, Francis A.J., Elizabeth
claro do mesmo modo que a taxa relativamente Reus-Ianni 1973: A Family Business: Kinship and
baixa em que eles são descobertos, levados à Social Control in Organized Crime. Nova York: Men-
tor ● Posner, G.L. 1988: Warlords of Crime: Chinese
Justiça e punidos deve-se tanto aos sistemas so-
Secret Societies. Nova York: McGraw-Hill.
ciais em que ocorrem quanto à tendenciosidade de
classe. A estrutura da relação de confiança propor-
ciona aos criminosos uma grande variedade de crime sem vítima Analisado inicialmente por
maneiras de ocultar suas atividades (falsificando a Edwin Schur, o crime sem vítima é um delito em
escrituração, por exemplo) e destruindo provas. que não há vítima identificável que seja objeto do
Como resultado, eles implantam seus crimes de tal crime. Em vez disso, o delito é praticado contra a
maneira na estrutura vigente de organizações com- própria sociedade, com infração de suas normas,
plexas que é difícil provar o que foi feito e quem valores e crenças. Quem fuma maconha, por
esteve envolvido, com conhecimento dos fatos. exemplo, ou usa cocaína, ou ainda se empenha em
Isso, argumentou Shapiro, resultará em taxas rela- conduta sexual ilegal com um adulto aquiescente,

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CULTURA 59

viola valores culturais sobre conduta correta e as cultura Cultura é o conjunto acumulado de
normas que dão respaldo a esses valores. Não há, símbolos, idéias e produtos materiais associados a
contudo, vítima direta per se, como acontece no um sistema social, seja ele uma sociedade inteira
caso em que alguém é roubado, espancado ou ou uma família. Juntamente com ESTRUTURA SO-
assassinado, ou quando fundos são surrupiados de CIAL, POPULAÇÃO e ECOLOGIA, constitui um dos
um banco por desfalque ou traição é cometida principais elementos de todos os sistemas sociais
contra a nação.
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e é conceito fundamental na definição da pers-


Ver também CONSCIÊNCIA COLETIVA. pectiva sociológica.
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A cultura possui aspectos materiais e não-ma-


Leitura sugerida: Schur, Edwin M. 1965: Crimes
teriais. A cultura material inclui tudo o que é feito,
Without Victims. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.
modelado ou transformado como parte da vida
social coletiva, da preparação do alimento à pro-
crime sindicalizado ver CRIME ORGANIZA- dução de aço e computadores, passando pelo pai-
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sagismo que produz os jardins do campo inglês. A
cultura não-material inclui SÍMBOLOS — de pala-
vras à notação musical —, bem como as idéias que
cristalização de status ver STATUS, INCON- modelam e informam a vida de seres humanos em
SISTÊNCIA E CRISTALIZAÇÃO DE.
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relações recíprocas e os sistemas sociais dos quais


participam. As mais importantes dessas idéias são
culto Um culto é um tipo estrutural especial de as ATITUDES, CRENÇAS, VALORES e NORMAS.
instituição religiosa. A filiação a cultos é predomi- É importante notar que cultura não se refere ao
nantemente de membros da classe baixa e, em que pessoas fazem concretamente, mas às idéias
geral, procedida através de conversão, muitas que têm em comum sobre o que fazem e os objetos
vezes durante uma crise emocional, a qual o in- materiais que usam. O ato de comer com pauzi-
divíduo pensa que o ingresso no culto resolverá. nhos ao invés de com talheres, ou com as mãos,
Ao contrário de outras instituições religiosas, os por exemplo, não faz parte da cultura. O que os
cultos tendem a ter vida curta, principalmente por homens fazem é que torna visível a influência da
causa de sua estrutura — organização informal, cultura. Os pauzinhos de comer em si, contudo,
fraca, formada em torno da autoridade carismática constituem na verdade uma parte da cultura, como
de um único líder; serviços religiosos muito emo- também as expectativas comuns que definem esse
cionais que carecem de ritual formalizado e uma ato como maneira apropriada, e mesmo esperada,
orientação para abstenção, hostil, no tocante às de comer em certas sociedades.
principais instituições sociais. Virtualmente todas A distinção entre cultura, por um lado, e o que
as grandes religiões começaram como cultos, fazemos, por outro, é importante porque o poder e
incluindo o budismo, o islamismo e o cristianismo.
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a autoridade da cultura na vida humana têm ori-
Ver também AUTORIDADE; DENOMINAÇÃO; gem principalmente em nossa experiência da mes-
ECLÉSIA; IGREJA; RELIGIÃO; SEITA. ma como algo externo a nós e que transcende o
que fazemos na realidade. Nossa aparência ou
Leitura sugerida: Becker, Howard 1950: Through comportamento podem conformar-se ou desviar-
Values to Social Interpretation. Durham, NC: Duke se dos padrões culturais, mas aparência ou com-
University Press ● Merton, J.G., e R.L. Moore 1982:
portamento não são em si partes da cultura e não
The Cult Experience. Nova York: Pilgrim Progress.
devem ser confundidos com esses padrões. O que
torna uma idéia cultural, e não pessoal, não é
culto dos antepassados O culto dos antepas- simplesmente o fato de ser comum a duas ou mais
sados é uma prática religiosa — exemplificada pessoas: ela deve ser vista e vivenciada como
pelo xintoísmo japonês —, organizada em torno tendo uma autoridade que transcende os pensa-
da crença cultural de que o espírito dos ancestrais mentos do indivíduo. Não consideramos um sím-
tem o poder de influenciar a vida de seus descen- bolo ou uma idéia como culturais porque a maioria
dentes. As práticas variam de medidas com a das pessoas deles compartilha; na verdade não
intenção de evitar ofender os espíritos dos mortos temos meios de saber o que a maioria das pessoas
a invocá-los para produzir os resultados desejados, numa sociedade pensa. Em vez disso, supomos
tais como maior fecundidade.
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C que a maioria das pessoas compartilha de uma

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60 CULTURA ALTERNATIVA

idéia cultural porque a identificamos como cultu- Nova York: Basic Books Ο 1967: La Vida: A Puerto
ral. Rican Family in the Culture of Poverty. Nova York:
Ver também RELATIVISMO CULTURAL; SOCIE- Panther ● Valentine, Charles 1968: Culture and Po-
DADE; TECNOLOGIA. verty. Chicago: University of Chicago Press.

cultura alternativa ver CONTRACULTURA.


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cultura material ver CULTURA.
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cultura da juventude ver SUBGRUPO E SUB- cultura não-material ver CULTURA.


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CULTURA.
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cultura política Cultura política é o repositó-


cultura da pobreza Cultura da pobreza é rio acumulado de símbolos, crenças, valores, ati-
uma teoria formulada pelo antropólogo Oscar Le- tudes, normas e outros produtos culturais que mol-
wis em seus estudos de comunidades de Porto dam e pautam a vida política em uma sociedade.
Rico e do México. Lewis identificou o que acre- Inclui lemas e hinos nacionais; cultura material
ditava ser um fator importante na perpetuação da como bandeiras, monumentos e estátuas de figuras
pobreza. Independentemente do que tenha origi- heróicas; crenças sobre a história e destino nacio-
nado padrões de desigualdade e pobreza na socie- nais; atitudes de patriotismo ou deferência (ou
dade, argumentou Lewis, uma vez sejam eles es- ainda de cinismo ou desprezo) por políticos e
tabelecidos, a vida de pobreza tende a gerar idéias outros líderes; valores que dão forma a opções de
culturais que promovem comportamentos e pon- política; e normas que determinam expectativas,
tos de vista que a perpetuam. Os pobres podem variando da garantia de direitos civis a mecanis-
perder a ambição de melhorar de vida, adotando a mos para mudar o governo ou reprimir a dis-
crença fatalista de que trabalho pesado e ambição sidência. Os tópicos de interesse sociológico in-
em nada melhorará sua existência. Assim, essa cluem a maneira como vários aspectos da cultura
cultura é transmitida de uma geração à outra. Em política afetam o comportamento e as suas conse-
um sentido, Lewis sugeriu que à medida que in- qüências políticas; a relação entre a cultura política
divíduos se adaptam às circunstâncias da pobreza, e os vários tipos de sistemas, tais como DEMOCRA-
CIA e AUTORITARISMO, e o processo de socializa-
eles tendem a desenvolver uma cultura compatível
com ela e que por isso a sustentam. Esse fato ção, através do qual a cultura política é transmitida
ajudaria a explicar não só padrões de pobreza em de uma geração à outra.
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sociedades, mas também a incapacidade de países Ver também HEGEMONIA.


do Terceiro Mundo (não-industrializados) de se Leitura sugerida: Almond, Gabriel A., e Sidney
desenvolverem também economicamente.
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Verba 1963: The Civic Culture: Political Attitudes


Embora Lewis tivesse o cuidado de observar and Democracy in Five Nations. Princeton, NJ: Prin-
que não acreditava que o conceito se aplicava além ceton University Press ● Pye, Lucian W., e Sidney
dos tipos de sociedade que estudava quando o Verba, orgs. 1965: Political Culture and Political
desenvolveu, isso não impediu sua ampla aplica- Development. Princeton, NJ: Princeton University
ção à pobreza encontrada em sociedades indus- Press.
triais, tais como a dos Estados Unidos, especial-
mente em relação aos afro-americanos e outros
membros da subclasse urbana, cada vez mais nu-
cultura popular Cultura popular é o repertó-
rio acumulado de produtos culturais como música,
merosa. Tem havido grande debate, contudo, não
literatura, arte, moda, dança, cinema, televisão e
só sobre essa teoria, mas se o conceito aplica-se ou
rádio que são consumidos principalmente por gru-
não a qualquer sociedade e se seu efeito principal
pos não-ELITE, tais como as classes operária e
é ou não culpar injustamente as vítimas da pobreza
baixa (bem como por segmentos substanciais da
pela situação em que vivem.
classe média). Tem atraído a atenção de sociólogos
Leitura sugerida: Gans, Herbert 1969: “Culture and — primeiro na Grã-Bretanha e, mais recente-
class in the study of poverty”. In On Understanding mente, nos Estados Unidos — por duas razões. A
Poverty, org. por Daniel P. Moynihan, 201-28. Nova primeira, a idéia de que a cultura popular é usada
York: Basic Books ● Lewis, Oscar 1959: Five Fami- pelas elites (que tendem a controlar a mídia e
lies: Mexican Case Studies in the Culture of Poverty. outros escoadouros da cultura popular) para con-

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CURSO DE VIDA 61

trolar os que estão abaixo delas. Membros da literatura. O currículo oculto é uma questão impor-
Escola de Frankfurt, por exemplo, argumentaram tante no estudo sociológico da maneira como esco-
que a cultura popular é banal, homogeneizada e las produzem desigualdade social. Estudantes mu-
comercializada e que entorpece a mente das pes- lheres, por exemplo, ou aqueles que são originá-
soas, tornando-as passivas e fáceis de controlar. rios de famílias de classe baixa, ou que pertencem
Um argumento correlato diz que uma vez que é a categorias raciais ou étnicas consideradas infe-
controlada principalmente pelas elites (através da riores recebem muitas vezes tratamento que cria e
propriedade dos meios de divulgação de massa, reforça auto-imagens de inferioridade, bem como
por exemplo), a cultura popular tende a refletir baixas aspirações e expectativas para si mesmos.
seus interesses. A trivialização e objetificação se- Além disso, freqüentemente pouco lhes é conce-
xual das mulheres no cinema, por exemplo, tem dido em matéria de confiança, independência ou
sido criticada por numerosas feministas como ser- autonomia e, dessa forma, são preparados para
vindo aos interesses dos espectadores masculinos vidas de trabalho, nas quais docilmente se subme-
e à dominação masculina.
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C tem à autoridade.
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Outros, em especial sociólogos britânicos em- Estudantes cujas características sociais os si-
penhados em ESTUDOS CULTURAIS, dizem exata- tuam nos grupos dominantes, por outro lado, ten-
mente o oposto, ou seja, que a cultura popular é dem a ser tratados de maneiras que reforçam sua
freqüentemente um veículo para a rebelião contra auto-estima, independência, autonomia e expecta-
a cultura dos grupos dominantes. Desse ponto de tivas de realizações e sucesso. Essa experiência
vista a cultura popular não é uma dieta habitual, contribui também para o desenvolvimento das
anódina, servida de cima para baixo a fim de qualificações e atitudes que esses objetivos reque-
entorpecer e pacificar grupos subordinados e re- rem.
fletir e promover os interesses da elite. Em vez O conceito de currículo oculto focaliza tam-
disso, é uma arena cheia de diversidade, conflito e bém as conseqüências não previstas de sistemas
luta sobre o conteúdo da cultura e, portanto, da sociais, assunto este que constitui uma área impor-
forma da vida social. As classes baixas, os adoles- tante do pensamento sociológico. Até mesmo os
centes, os negros, as mulheres e outros grupos professores mais comprometidos com os princí-
subordinados não absorvem passivamente a cultu- pios de igualdade de sexo e raça, por exemplo, em
ra popular; desempenham, sim, um papel em pro- geral não percebem como, em seu próprio com-
duzir e reproduzir uma visão do que são suas vidas, portamento, praticam discriminação prejudicial.
incluindo alguma consciência da situação des- Ver também CLASSE SOCIAL; PRECONCEITO E
privilegiada em que vivem. Essa luta se reflete em DISCRIMINAÇÃO; REPRODUÇÃO CULTURAL E RE-
uma grande variedade de produtos culturais, do PRODUÇÃO SOCIAL.
rap e da música feminista a programas de humor
na televisão e à música de rock, cujas letras deli- Leitura sugerida: Bowles, Samuel, e Herbert Gintis
ciam muitos jovens mas ofendem seus pais. 1976: Schooling in Capitalist America: Educational
Ver também HEGEMONIA; SOCIEDADE DE Reform and the Contradictions of Economic Life.
MASSA; TEORIA CRÍTICA. Nova York: Basic Books; Londres: Routledge ● Jack-
son, Philip 1968: Life in Classrooms. Nova York:
Leitura sugerida: Brake, M. 1980: The Sociology of Holt, Reinehart and Winston ● Snyder, Benson G.
Youth Culture and Youth Subcultures. Londres: Rout- 1971: The Hidden Curriculum. Nova York: Knopf.
ledge and Kegan Paul ● Curran, James, Michael Gu-
revitch e Janet Woolacott 1979: Mass Communica-
curso de vida (Também denominado ciclo de
tion and Society. Nova York: Russell Sage Foun-
vida.) O curso de vida é a seqüência culturalmente
dation ● Tuchman, Gaye 1989: Edging Women Out.
definida de faixas etárias pelas quais se espera que
New Haven: Yale University Press.
o indivíduo passe do nascimento até a morte. Esses
estágios estão associados a crenças culturais sobre
currículo oculto O currículo oculto é um con- a maneira como o envelhecimento afeta as capa-
ceito usado para descrever as coisas muitas vezes cidades, valores etc. do indivíduo, bem como mu-
não expressas e não reconhecidas que se ensinam táveis distribuições de vantagens e recursos so-
a estudantes nas escolas. Difere do currículo divul- ciais, como poder e prestígio.
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gado, que define o que se espera que eles estudem Incluída nas concepções sociais de curso de
e aprendam — disciplinas como matemática e vida há alguma idéia de por quanto tempo se

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62 CURTOSE

espera que pessoas vivam e, com ela, idéias sobre curva de Lorenz No estudo da estratificação
o que constitui uma morte “prematura” ou “ines- social, a curva de Lorenz é um gráfico que pode
perada”. A morte entre bebês e crianças de pouca ser usado para medir quanto a distribuição de
idade, por exemplo, é mais comum em sociedades alguma coisa, como a riqueza ou a renda, desvia-se
não-industriais do que nas industriais e, por essa de uma condição de autêntica igualdade. No caso
razão, é menos provável que seja considerada de uma dada unidade de análise (como famílias),
trágica. a figura mostra qual percentagem de toda a renda
Ver também COORTE; ENVELHECIMENTO; FAI- (mostrada no eixo Y) é recebida por que percenta-
XA ETÁRIA. gem de famílias (mostradas ao longo do eixo X).
Uma linha diagonal reta indica, por exemplo, que
Leitura sugerida: Binstock, Robert H., e Linda K. os 10% mais pobres da população recebem 10%
George, orgs. 1990: Handbook of Aging and the de toda renda; que os 20% mais pobres recebem
Social Sciences, 3ªed. Nova York: Academic Press ● 20%, que os 80% mais pobres recebem 80%, e
Clausen, John A. 1986: The Life Course: A Sociolo-
assim por diante, como seria de esperar se a renda
gical Perspective. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-
fosse distribuída igualmente por toda a população.
Hall ● Eisenstadt, Samuel N. 1956: From Generation
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Arqueando-se a linha para fora e se transfor-


to Generation. Nova York: Free Press.
mando em uma curva que se estende para o canto
inferior direito, porém, ela indica uma distribuição
curtose ver DISTRIBUIÇÃO DE CURVA NORMAL.
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C crescentemente desigual. Na curva superior, por

Figura 3. Curvas de Lorenz mostrando o grau de desigualdade na distribuição da renda e da riqueza


(linhas curvas) em comparação com condições de igualdade perfeita (linha reta), nos Estados Unidos,
em 1983. Fonte: Harold R. Kerbo, Social Stratification and Inequality, 2ªed. figura 2.5. Nova York:
McGraw-Hill, 1991.

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CURVA DE LORENZ 63

exemplo, os 50% mais pobres da população rece- a curva de renda). O índice de Gini baseia-se na
bem apenas 20% de toda a renda e, na curva percentagem de área total do triângulo que se situa
inferior, os 50% mais pobres auferem apenas cerca entre a diagonal e a curva de Lorenz. Quanto maior
de 5% de toda a riqueza. Essas curvas de Lorenz o grau de desigualdade, maior será o índice. Ele
mostram a um rápido olhar que a distribuição da variará entre o valor de zero (quando a curva de
riqueza é mais desigual do que a distribuição da Lorenz e a diagonal coincidem) e um máximo
renda. teórico (mas praticamente impossível) de 1,0.
Em conjunto com as curvas de Lorenz, o índice A curva de Lorenz e o índice de Gini são úteis
de Gini (elaborado pelo sociólogo italiano Cor- não só para descrever o nível de desigualdade em
rado Gini) oferece um indicador numérico do grau uma dada população, mas para medir diferenças
de desigualdade. Note-se que a linha diagonal, que entre populações (tais como nações) ou mudanças
representa a condição de igualdade na figura, for- ao longo do tempo no grau de desigualdade dentro
ma um triângulo com o eixo X no fundo e o reflexo de uma população.
do eixo Y à direita. Se nos focalizarmos na área Ver também CLASSE SOCIAL; ESTRATIFICA-
contida nesse triângulo, poderemos ver que à me- ÇÃO E DESIGUALDADE; RIQUEZA E RENDA.
dida que a curva de Lorenz torna-se mais abaulada Leitura sugerida: Gini, Corrado 1921: “Measure-
para refletir maior desigualdade, a proporção da ment of inequality of incomes”. Economic Journal
área entre a linha diagonal e a curva aumenta (o 31: 124-6 ● Lorenz, Max O. 1905: “Methods of mea-
que significa dizer que há mais área entre a diago- suring the concentration of wealth”. Journal of the
nal e a curva de riqueza do que entre a diagonal e American Statistical Association 9: 209-19.

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dádiva ver RELAÇÃO DE DÁDIVA.
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D dados de corte transversal Dados de corte
transversal (ou de períodos ) são informações co-
letadas em uma única ocasião a fim de refletir
dados No contexto sociológico, dados são fatos condições sociais, da mesma maneira que uma
que cientistas sociais coletam, analisam e interpre- foto capta uma imagem visual. A maior parte dos
tam. Na linguagem cotidiana e também na impren- dados coletados por sociólogos — especialmente
sa, a palavra data em inglês é usada comum e er- sob a forma de LEVANTAMENTOS — assume essa
roneamente como singular (como na frase “The forma e é, por isso, de uso limitado para descrever
data is accurate”), e não no plural (“The data are o processo através do qual indivíduos ou sistemas
accurate”). Uma peça isolada de informação, tal sociais mudam, ou, por falar nisso, o processo de
como uma percentagem ou a resposta de um causa e efeito, mediante o qual uma variável afeta
entrevistado a uma pergunta em um levantamento outra no tempo. Estudos de corte transversal po-
é um datum. Um conjunto de percentagens, no dem ser usados para gerar inferências sobre
entanto, deve ser sempre referido como dados processos, como se eles fossem repetidos, em
(data).
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especial se cada amostra é observada em cada
ponto. Mesmo que as amostras sejam diferentes,
porém, é ainda possível usar uma série de estudos
dados agrupados Dados agrupados são fatos de corte transversal para tirar inferências sobre
exibidos em um formato de tabela, na qual cate- mudança. Uma amostra representativa de in-
gorias de VARIÁVEIS são combinadas ou con- divíduos de 15-19 anos de idade, por exemplo,
densadas para se obter um número menor de cate- pode ser comparada dez anos depois com uma
gorias. A tabela abaixo, por exemplo, mostra como amostra de indivíduos de 25-29 anos. Mesmo que
a variável “Idade à época do casamento” poderia os indivíduos não sejam os mesmos, a população
ser apresentada em categorias agrupadas.
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da qual as amostras foram tiradas é a mesma, com
a exceção dos que nela ingressaram ou saíram por
Idade à época do casamento migração ou falecimento.
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Menos de 15 anos Ver também COORTE; PESQUISA LONGITUDI-


15 – 18 NAL.
18 – 20
Leitura sugerida: Blalock, Hubert M. 1964: Causal
20 – 24
Inferences in Nonexperimental Research. Chapel
25 – 29
Hill: University of North Carolina Press ● Singleton,
30 ou mais Royce A., Bruce C. Straits e Margaret M. Straits
1993: Approaches to Social Research, 2ªed. Oxford
A vantagem de agrupar dados é que o display e Nova York: Oxford University Press.
resultante ocupa menos espaço e pode ser lido a
um simples olhar. O risco é que, combinando
dados de período ver DADOS DE CORTE
categorias (como reunir todas as pessoas de 30
TRANSVERSAL.
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anos e mais), diferenças importantes possam ser


obscurecidas (indivíduos que se casam à idade de
60 anos, por exemplo, diferirão de maneiras im- darwinismo social O darwinismo social, uma
portantes dos que se casam à idade de 30). adaptação feita no século XIX da teoria da evolu-

64

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DEFASAGEM ESTRUTURAL 65

ção de Charles Darwin, é uma explicação teórica defasagem cultural Defasagem cultural é
da vida social humana em geral e da desigualdade um termo criado por William F. Ogburn para des-
social, em particular. Da forma exposta por Her- crever o que acontece em um sistema social, quan-
bert SPENCER na Grã-Bretanha e, em maior exten- do as idéias culturais usadas para regular a vida
são, por William Graham SUMNER nos Estados social se atrasam em relação a outras MUDANÇAS
Unidos, o desenvolvimento das sociedades as- SOCIAIS. As armas nucleares, por exemplo, estão
semelha-se à evolução natural, com competição sendo produzidas por um número cada vez maior
entre vários grupos (raciais, étnicos, de classe etc.) de nações, sem que haja um sistema internacional
fornecendo a dinâmica necessária para que a so- eficaz para controlar seu uso. Em menor escala, a
ciedade progrida através da vitória de grupos su- nova tecnologia médica torna possível manter o
periores sobre os inferiores e menos “aptos”. No corpo humano funcionando muito depois de ter
tocante à desigualdade social, o darwinismo social sido considerado clinicamente morto. Esse fato,
atribuía a brecha entre ricos e pobres principal- por sua vez, coloca questões culturais sobre a
mente à maior “aptidão” dos primeiros para sobre- definição do momento em que a vida termina,
viver e prosperar. A sociedade era assemelhada ao quem tem o direito de supender o uso de aparelhos
mundo natural, governada pela competição e pela de sustentação vital, e como equilibrar valores
“sobrevivência dos mais aptos”, frase esta cu- conflitantes sobre a duração absoluta e a qualidade
nhada por Spencer, e não por Darwin.
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D de vida. Em todos esses casos, o desenvolvimento
Como argumento, o darwinismo social tem de novas crenças, valores e normas sociais se
defeitos profundos e goza de pouca ou nenhuma atrasa em relação aos dilemas criados pela mudan-
credibilidade entre os modernos cientistas sociais. ça tecnológica. Daí o termo defasagem cultural.
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Em certo sentido, baseia-se em uma tautologia Ver também DEFASAGEM ESTRUTURAL.


porque mede aptidão em termos do que a aptidão
deve supostamente explicar: os ricos são mais Leitura sugerida: Ogburn, William F. 1922: Social
ricos porque são mais aptos, e a prova de sua maior Change. Nova York: Viking Ο 1964: “Cultural lag as
aptidão está na riqueza de que dispõem. Esse theory”. In On Culture and Social Change, org. por
argumento é verdadeiro por definição enquanto William F. Ogburn, 86-95. Chicago: University of
aceitarmos a idéia de que a posse de grande riqueza Chicago Press.
é uma medida válida de aptidão (e não um aci-
dente, como nascer em família rica, por exemplo). defasagem estrutural A defasagem estrutu-
Como tal, pode ser sempre usado para justificar o ral é uma condição que ocorre quando duas carac-
status quo, começando com a OPRESSÃO SOCIAL, terísticas estruturais relacionadas mudam a taxas
racial e de outros tipos, e o imperialismo. diferentes e, portanto, deixam de sincronizar-se.
Ver também EVOLUÇÃO SOCIAL; SOCIOBIOLO- Esse fato acontece freqüentemente na relação en-
GIA. tre as estruturas ocupacional e etária. Em ocu-
pações que dependem de um suprimento de traba-
Leitura sugerida: Hofstadter, Richard 1945 (1955): lhadores de certa idade, mudanças na ESTRUTURA
Social Darwinism in American Thought, 1860-1915. ETÁRIA de uma comunidade ou sociedade gerarão
Boston: Beacon; Filadélfia: University of Pennsylva- carência ou excesso de trabalhadores. Esse fato,
nia Press ● Sumner, William Graham 1883: What por sua vez, tenderá a criar problemas no mercado
Social Classes Owe to Each Other. Nova York: Har- de trabalho. O declínio das taxas de natalidade, por
per. exemplo, resultará finalmente em declínio do nú-
mero relativo de adolescentes, que constituem a
de facto e de jure, segregação ver SEGRE- principal fonte de trabalhadores de serviço de
GAÇÃO E INTEGRAÇÃO.
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baixo salário nas lanchonetes e lojas a varejo.
Como resultado, a oferta de trabalhadores se atra-
sará em relação à demanda por eles, criando uma
declividade ver ANÁLISE DE REGRESSÃO.
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defasagem estrutural.
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Ver também DEFASAGEM CULTURAL.

dedutivo, raciocínio ver MÉTODO HIPOTÉTI- Leitura sugerida: Riley, Matilda W., Anne Foner e
CO-DEDUTIVO.
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D Joan Waring 1988. “A sociology of age”. In Hand-

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66 DEFINIÇÃO DA SITUAÇÃO

book of Sociology, org. por Neil J. Smelser e R. Burt. adultos, seriam tratados como crimes — como o
Nova York: Russell Sage. furto —, mas que, quando cometidos por crianças,
são considerados em termos menos severos. Como
definição da situação Definição da situação resultado, “jovens transgressores” talvez não se-
é o que indivíduos usam para extrair algum sentido jam julgados em juizados comuns ou postos na
dos STATUS e PAPÉIS envolvidos em uma situação, mesma prisão que adultos, e seus antecedentes
de modo que possam saber o que deles se espera criminais podem ser mantidos em sigilo e mesmo
e o que devem esperar dos outros. Eles precisam suprimidos por completo quando atingem o status
saber, por exemplo, se estão em um banco, em uma de adulto.
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sauna, em um cinema ou em um mercado; e tam- A delinqüência inclui também comportamento


bém, em sentido social, exatamente com quem que viola a lei apenas quando cometido por não-
estão interagindo e para que fim.
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adultos, tais como fugir de casa, recusar-se a es-
Um dos problemas mais interessantes neste tudar, desobedecer habitualmente aos pais ou (es-
particular é que definir a situação não constitui pecialmente no caso de meninas) ter vida sexual
uma simples questão de identificar fatos objetivos, ativa ainda com pouca idade. Esses atos são às
bem visíveis a quem quiser examiná-los. Em vez vezes conhecidos como delitos contra o status,
disso, a definição pode ser altamente subjetiva e porque são definidos principalmente em relação
aberta a negociação. Na realidade, enquanto par- ao status de idade do transgressor.
ticipa da vida social, o indivíduo pode “inventar” Ver também ADOLESCÊNCIA; DESVIO; FAIXA
a definição da situação enquanto nela se envolve, ETÁRIA ; TENDÊNCIA DELINQÜENTE.
interpretando várias “pistas”. Se estamos andando
por uma rua escura e um homem se aproxima e Leitura sugerida: Cloward, Richard A., e Lloyd E.
Ohlin 1960: Delinquency and Opportunity: A Theory
nos pede para acender seu cigarro, podemos defi-
of Delinquent Gangs. Nova York: Free Press ● Sut-
nir a situação como um assalto ou roubo iminentes
ton, J.R. 1983: “Social structures, institutions, and the
e, neste caso, preparamo-nos para agir de modo legal status of children”. American Journal of Socio-
diferente do que faríamos se interpretássemos suas logy 88(5): 915-47.
intenções como cordiais. O que se seguirá poderá
ter muito menos a ver com os fatos objetivos da
situação do que com as definições formuladas delinqüência juvenil ver DELINQÜENCIA.
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pelas pessoas envolvidas.


Essa importante relação entre interpretações e
delinqüente ver TENDÊNCIA DELINQÜENTE.
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definições subjetivas, por um lado, e os resultados


objetivos da interação, por outro, deram origem a
idéia clássica de William I. THOMAS, de que o que democracia política e econômica Da for-
definimos como real é real em suas conseqüências. ma aplicada à política, uma democracia (do grego,
Ver também ETNOMETODOLOGIA; PERSPECTI- significando “governo do povo”) é um sistema
VA TEATRAL. social no qual todos dispõem de parcela igual de
poder. Embora existam muitos sistemas sociais
Leitura sugerida: McHugh, P. 1968: Defining the relativamente pequenos e simples (um grupo de
Situation. Indianápolis: Bobbs-Merrill ● Thomas, amigos, por exemplo) que são organizados como
William I. 1927: “The behavior pattern and the situa-
democracias puras, no nível de organizações, co-
tion”. Publications of the American Sociological So-
munidades e sociedades inteiras complexas, a de-
ciety (papers and proceedings), 1-13 Ο com Dorothy
mocracia pura é muito rara. Em parte isso se deve
Swain Thomas 1928: The Child in America. Nova
York: Knopf. ao fato de que a definição de “todos” quase sempre
exclui algumas partes da população — tais como
mulheres, crianças ou minorias. Além do mais,
degradação ver CERIMÔNIA DE DEGRADAÇÃO.
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quase todas as sociedades que descrevem a si


mesmas como democracias políticas são na ver-
delinqüência Delinqüência é um conceito que dade democracias representativas, nas quais cida-
em geral se refere a comportamento criminoso ou dãos elegem representantes que, na prática, detêm
desviante cometido por crianças e adolescentes, e exercem a autoridade política.
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ainda não considerados como maiores de idade. Mas até sociedades que desfrutam níveis rela-
Em alguns casos refere-se a atos que, no caso de tivamente altos de democracia política muitas

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DENOMINAÇÃO 67

vezes deixam de estender essa igualdade à econo- zado e, em grau muito menor, também nas socie-
mia. Todas as sociedades capitalistas industriais, dades não-industriais.
por exemplo, funcionam politicamente como de- A estreita ligação entre demografia e sociolo-
mocracias representativas, embora uma pequena gia é bem visível no campo dos estudos demográ-
ELITE controle a vasta maioria da riqueza, incluin- ficos, que se concentram na relação entre variáveis
do os meios de produção, como fábricas. Apesar demográficas, por um lado, e características dos
dos trabalhadores terem liberdade de decidir não sistemas sociais, por outro. Esse tipo de trabalho
trabalhar para um dado empregador, eles em geral inclui perguntas sobre a maneira como sistemas
não têm liberdade de trabalhar para si mesmos e sociais afetam os processos demográficos e como
evitar a posição relativamente impotente de as- estes afetam as condições da vida social.
salariado. Ver também MIGRAÇÃO; POPULAÇÃO; TAXA
Os marxistas argumentam que a relação entre DE AUMENTO NATURAL; TAXA DE MORTALIDA-
a democracia política e a econômica é complexa e DE; TAXA DE NATALIDADE; TRANSIÇÃO DEMO-
importante para compreender CLASSE SOCIAL e GRÁFICA.
OPRESSÃO SOCIAL. A existência de democracia
política em uma sociedade, por exemplo, pode ser Leitura sugerida: Namboodiri, K. 1988: “Ecologi-
usada para ocultar a falta de democracia econômi- cal demography: Its place in sociology”. American
ca. Além disso, instituições políticas como o Es- Sociological Review 5(4): 619-33 ● Shryock, Henry
tado são usadas muitas vezes para proteger os S., Jacob Siegal et al. 1976: The Methods and Mate-
interesses das elites econômicas. rials of Demography. Londres e Nova York: Acade-
Ver também AUTOCRACIA; AUTORITARISMO; mic Press ● Wrigley, E.A. 1969: Population and His-
ECONOMIA POLÍTICA; OLIGARQUIA. tory. Londres: Weidenfeld and Nicolson.

Leitura sugerida: Bottomore, Tom B. 1979: Politi-


cal Sociology. Londres: Hutchinson ● Bollen, Ken- denominação Denominação é uma instituição
neth, e Robert W. Jackman 1985: “Political democra- religiosa menor do que uma IGREJA mas maior do
cy”. American Sociological Review 50(4): 438-57 ● que uma SEITA. A filiação a ela tende a ser atribuída
Held, David 1987: Models of Democracy. Cam- por ocasião do nascimento e inclui uma mistura
bridge: Polity Press. relativamente pequena de meios formativos de
CLASSE SOCIAL. A estrutura de autoridade é for-
mal, com um clero treinado, mas quase nunca
demografia Demografia é o estudo sistemá- burocrática. Como acontece com os tipos mais
tico do crescimento, tamanho, composição, dis- importantes de instituições religiosas, a denomi-
tribuição e movimentação de populações huma- nação utiliza uma forma altamente abstrata de
nas. Essa especialidade surgiu quando um inglês serviço religioso, com pouca exibição de emoções.
do século XVII, John Graunt, usou registros de Em comparação com outras grandes instituições,
nascimento e batizados de igreja e da cidade para como o Estado, a denominação nem apóia nem
identificar padrões sociais de mortalidade na área combate o status quo, tendendo a coexistir com o
de Londres. Embora não tivesse sido o primeiro a mesmo.
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pensar em assuntos relativos à população, Graunt Nos Estados Unidos, o conceito de denomina-
realizou um trabalho pioneiro ao basear suas ob- ção é aplicado com maior freqüência às religiões
servações em registros sistemáticos. Utilizou-as protestantes, tais como os congregacionalistas,
para fazer uma grande variedades de estimativas unitaristas universalistas e presbiterianos.
— do tamanho da população de Londres, por Ver também BUROCRACIA; CULTO; ECLÉSIA;
exemplo, que era desconhecido à época — e ana-
RELIGIÃO.
lisar os efeitos relativos de migração, nascimentos
e mortes sobre o tamanho e o crescimento da Leitura sugerida: Becker, Howard 1950: Sys-
população.
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tematic Sociology. Nova York: Wiley ● Troeltsch,
A demografia desempenha um papel impor- Ernst 1912 (1956): The Social Teaching of the Chris-
tante não só nas ciências sociais, e na sociologia tian Churches. Londres: Allen and Unwin (1931,
em particular, mas na formulação da política pú- 1981): Chicago: University of Chicago Press ● We-
blica e econômica. Dados demográficos são cole- ber, Max [1922] (1963): The Sociology of Religion.
tados regularmente em todo o mundo industriali- Boston: Beacon.

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68 DEPENDÊNCIA ESTATÍSTICA

dependência estatística ver INDEPENDÊNCIA Ver também MODERNISMO E PÓS-MODERNIS-


ESTATÍSTICA E DEPENDÊNCIA ESTATÍSTICA.
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Leitura sugerida: Derrida, Jacques 1967: L’écriture


derivações ver RESÍDUOS E DERIVAÇÕES.
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et la différence. Paris: Seuil / (1971): A escritura e a
diferença. São Paulo: Perspectiva / (1978): Writing
and Difference. Chicago: University of Chicago
desalinhamento com base na classe ver Press; Londres: Routledge.
COMPORTAMENTO ELEITORAL.
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descendência ver PARENTESCO.


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desempenho de papel ver PAPEL.
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descendência bilateral ver PARENTESCO.


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desemprego e subemprego Desemprego é
a condição de alguém querer trabalhar e não en-
contrar emprego. Por várias razões reveste-se de
descolonização ver COLONIALISMO E IMPE- interesse sociológico. No primeiro sentido, há di-
RIALISMO.
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ferentes tipos de desemprego, correspondendo a


diversas causas. O desemprego estrutural, por
desconstrução Desconstrução é um método exemplo, ocorre quando a ESTRUTURA OCUPA-
para compreender significado relacionando pala- CIONAL muda (como no caso em que declina o
vras entre si, e não diretamente com o que pensa- número de empregos em manufatura e aumenta
mos que elas representam. Da forma discutida por em serviços), tornando obsoletas algumas qualifi-
Jacques Derrida e outros defensores da pers- cações e deixando pessoas sem trabalho. O desem-
pectiva conhecida como pós-estruturalismo, o si- prego estrutural pode ocorrer por grande variedade
gnificado da linguagem não deve ser procurado de razões, incluindo inovações tecnológicas ou o
em alguma realidade ou verdade concretas, mas fato de empresas decidirem fechar ou relocalizar
apenas em relação à própria linguagem, que é suas operações em outras regiões ou países.
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socialmente construída. A palavra masculino, por Outras formas de desemprego incluem o de-
exemplo, não nomeia alguma verdade concreta semprego voluntário (que ocorre quando pessoas
que possa ser observada em seres humanos. Ao mudam de emprego por decisão própria); desem-
invés disso, o significado da palavra só pode ser prego sazonal (quando a mudança das estações
identificado através de um processo intelectual reduz a demanda de trabalho agrícola, de recrea-
(desconstrução) que liga masculino a outras pala- ção e de outros tipos); desemprego cíclico (quando
vras, tais como feminino ou andrógino. Incluído empresas dispensam empregados durante reces-
na desconstrução há o argumento de que algumas sões, com vistas a cortar custos, preservar os lucros
idéias (como masculino) são culturalmente privi- e proteger os interesses dos acionistas). Quase
legiadas em comparação com outras (como femi- todos esses tipos de desemprego estão ligados à
nino) e contribuem para impor uma hierarquia maneira como é organizada a economia. O capita-
social e OPRESSÃO SOCIAL subjacentes.
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lismo industrial tende a gerar desemprego com o
Uma vez que o significado da linguagem é comportamento competitivo e a busca de lucro,
fluido e instável, o mesmo acontece com a reali- que definem o capitalismo como sistema. O socia-
dade que nomeamos e explicamos com ela. Der- lismo estatal, em contraste, tende a gerar baixos
rida via nesse método o forte potencial de usar a níveis de desemprego porque é menos condicio-
desconstrução para mostrar como a linguagem é nado pelas exigências da eficiência competitiva e
usada para promover desigualdade e opressão. Em controle de custos.
outros campos, no entanto, a desconstrução tem O desemprego é também sociologicamente
sido usada de maneiras muito diferentes. Algumas importante devido às suas conseqüências sociais.
escolas de crítica literária, por exemplo, argumen- Essa situação tende, de uma grande variedade de
tam que é impossível chegar a uma conclusão maneiras, a machucar indivíduos, famílias e co-
sobre o que alguma coisa significa, postura esta munidades. Além disso, costuma ser distribuído
que, de algumas maneiras, poderia contribuir para de forma desigual pelos diferentes grupos e cate-
garantir a perpetuação do status quo, incluindo a gorias sociais. Nas sociedades dominadas por
desigualdade e a opressão. brancos é muito mais provável que as populações

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DESVIO 69

negras fiquem desempregadas, qualquer que seja desqualificação A desqualificação é o proces-


seu nível educacional e outras qualificações. so de usar a tecnologia e a fragmentação do traba-
Finalmente, o desemprego é importante na ma- lho com o objetivo de reduzir a extensão e a pro-
neira como é medido como fenômeno social. Nos fundidade das qualificações possuídas por traba-
Estados Unidos e na Grã-Bretanha, as estatísticas lhadores. Nas primeiras fases do capitalismo in-
oficiais definem como desempregados apenas os dustrial, por exemplo, trabalhadores de produção
que não têm emprego e que o procuram ativa- eram em geral altamente qualificados em todas as
mente. Essa orientação tende a subestimar a exten- áreas do processo produtivo. Esse fato, contudo,
são do desemprego ao excluir os que gostariam de dava a eles considerável influência e poder porque
trabalhar, mas estão tão desanimados com a falta era difícil substituí-los. Desenvolvendo-se a tec-
de oportunidades de emprego que não mais o nologia da produção em massa, linhas de monta-
procuram. Tampouco consegue medir a extensão gem foram usadas para, ao mesmo tempo, tornar
do subemprego, uma condição na qual as pessoas a produção mais eficiente e fragmentar o processo
são obrigadas a trabalhar em tempo parcial ou em de trabalho, de modo que cada trabalhador se con-
empregos que não lhes pagam o suficiente para centrasse em uma estreita faixa de tarefas simpli-
sustentar a si mesmos ou a suas famílias, ou ainda ficadas que exigiam menos treinamento e perícia.
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que não lhes permitem utilizar plenamente suas Como resultado, a geração moderna de traba-
qualificações. À medida que as economias indus- lhadores é substituída mais facilmente, e atender
triais substituem empregos melhor remunerados às exigências deles tornou-se menos difícil. A
em manufatura por empregos em serviços com
desqualificação parece estar também se dis-
pagamento mais baixo, e à proporção que empre-
seminando entre os níveis mais baixos de empre-
sas aumentam sua competitividade recorrendo a
gos de colarinho branco, tendência esta relaciona-
trabalhadores em tempo parcial, o problema do
da ao aumento do uso de computadores. As profis-
subemprego torna-se cada vez mais importante.
sões liberais são as únicas em geral insensíveis à
Ver também FORÇA DE TRABALHO AGREGA-
desqualificação, em parte porque ainda conse-
DA; MERCADO DE TRABALHO.
guem reter controle sobre as condições e métodos
Leitura sugerida: Ashton, D.N. 1986: Unemploy- de trabalho.
ment under Capitalism: The Sociology of British and Há algum desacordo se a desqualificação está
American Labor. Westport, CT: Greenwood Press ● de fato ocorrendo ou não, sobretudo de parte da-
Sinclair, Peter 1997: Unemployment: Economic queles que prevêem uma força de trabalho mais
Theory and Evidence. Oxford: Blackwell Publishers altamente qualificada na SOCIEDADE PÓS-INDUS-
● Sullivan, Teresa A. 1978: Marginal Workers, Mar-
TRIAL.
ginal Jobs. Austin: University of Texas Press.
Ver também ADMINISTRAÇÃO CIENTÍFICA;
ALIENAÇÃO; PROLETARIZAÇÃO.
desemprego estrutural ver DESEMPREGO E
SUBEMPREGO.
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Leitura sugerida: Braverman, Harry 1974: Labor
and Monopoly Capital: the Degradation of Work in
desemprego voluntário ver DESEMPREGO
the Twentieth Century. Nova York: Monthly Review
Press / (1981): Trabalho e capital monopolista: a
E SUBEMPREGO.
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degradação do trabalho no século XX. 3ªed., Rio de


Janeiro: Zahar / Guanabara ● Wood, Stephen 1982:
desemprego sazonal ver DESEMPREGO E SU- The Degradation of Work? Londres: Hutchinson.
BEMPREGO.
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desvio Desvio é qualquer comportamento ou


desengajamento, teoria do ver TEORIA DO
aparência que violam uma NORMA. Em termos
DESENGAJAMENTO.
sociológicos, difere de comportamento ou aparên-
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cia que sejam apenas incomuns em sentido estatís-


desigualdade ver ESTRATIFICAÇÃO E DESI- tico. É extremamente incomum, por exemplo, mas
GUALDADE.
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não um desvio, que alguém seja eleito primeiro-


ministro ou presidente de um país. Em contraste,
desinteresse, norma de ver REGRAS DA usar drogas ilegais e cometer adultério são com-
CIÊNCIA.
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D portamentos bastante comuns, a despeito do fato

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de serem definidos em muitas culturas como des- revestem-se de interesse porque descrevem sis-
vios.
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D temas sociais e as categorias de pessoas neles
Conforme observou Émile DURKHEIM, o des- incluídas.
vio, do ponto de vista da PERSPECTIVA FUNCIONA- A tabela abaixo mostra vários padrões interes-
LISTA, é uma criação cultural porque só através da santes. Países diferem em taxas de suicídio, mas
criação de normas é que existe a possibilidade de as diferenças variam com a idade. A da Dinamarca
elas serem violadas. é a mais alta entre todos os homens e mulheres,
Normas e, daí, desvio, são socialmente impor- por exemplo, mas a França possui a mais alta entre
tantes porque ajudam a definir e regular as FRON- homens idosos e o Japão a mais alta entre mulheres
TEIRAS dos sistemas sociais. Nossa lealdade co- velhas. Os homens apresentam taxas uniforme-
mum, visível, às normas de uma cultura nos define mente mais altas do que as mulheres, embora
como membros da mesma. Mas, de maneira seme- homens na Austrália, Grã-Bretanha, Itália e Es-
lhante, os que as violam aguçam a conscientização tados Unidos tenham uma taxa mais baixa do que
de fronteiras ao violá-las. Ao fazer isso, reforçam a das mulheres na Dinamarca. Essa diferença desa-
o senso de coesão e integração daqueles que se parece em idades mais avançadas, contudo, por-
conformam a elas. que embora as taxas dos homens aumentem muito
Da PERSPECTIVA DE CONFLITO, o poder de com o avanço da idade, as das mulheres tendem a
definir normas e, portanto, desvios, é em geral declinar.
desigualmente distribuído na sociedade. Isso si-
gnifica que os grupos dominantes podem moldá- Tabela 1
las para servir a seus interesses, incluindo controle Taxas de Suicídio por Sexo e Idade em Países
sobre grupos subordinados, às expensas de outros. Selecionados
Os grupos dominantes, na maioria das sociedades, Todos 75 Todas as 75
podem usar leis, tribunais, polícia e, em alguns os anos mulheres anos
casos, forças militares, para impor normas que homens ou mais ou mais
protegem suas propriedades e privilégios, em es- Austrália 17,0 39,3 5,4 8,2
pecial o controle da riqueza e das grandes ins- Grã-Bretanha 11,5 22,5 5,9 9,7
tituições sociais. Canadá 22,3 26,4 6,4 4,6
Da PERSPECTIVA INTERACIONISTA, desvio e Dinamarca 37,1 69,1 21,2 27,8
conformidade são criados pelo comportamento do França 28,5 97,9 11,1 24,8
indivíduo em relação a outros e através da maneira Itália 10,1 37,4 4,6 10,2
de ver e interpretar a aparência e o comportamento Japão 27,6 79,1 13,3 56,9
dos demais. Todas as formas de desvio — do Suécia 27,8 56,7 11,2 13,1
comportamento criminoso ao ESTIGMA da defor- Estados
midade física e ao fato de alguém ser simples- Unidos 19,2 46,1 5,6 5,3
mente considerado “esquisito” — ocorrem apenas Fonte: Statistical Abstract of the United States, U.S.
quando pessoas percebem, interpretam e reagem Census Bureau 1987.
a comportamento e aparência como sendo desvios.
A criminologia interessa-se principalmente De uma perspectiva sociológica, a explicação
em descrever e explicar padrões de desvio que para tais padrões está nas condições em que cada
violam as leis criminais. A sociologia do desvio, uma dessas diferentes populações vive.
porém, adota uma visão mais ampla, que inclui Ver também ANOMIA; ASSOCIAÇÃO DIFEREN-
todas as maneiras em que uma pessoa se conforma CIAL; CRIME SEM VÍTIMA; ESTRUTURA DE OPOR-
ou se desvia das expectativas normativas vigentes TUNIDADES, DESVIO E; TEORIA DAS ROTULA-
nos sistemas sociais e como esses tipos de com- ÇÕES.
portamento produzem conseqüências não só para
si mesma e para outras, mas para sistemas sociais Leitura sugerida: Becker, Howard S. 1963: Outsi-
como um todo. Na sociologia do desvio, o foco ders: Studies in the Sociology of Deviance. Nova
não é apenas no motivo por que indivíduos violam York: Free Press; Londres: Macmillan ● Downes, D.,
normas, mas como as características de sistemas e P. Rock 1988: Understanding Deviance. Oxford:
sociais geram padrões ou taxas de desvio, tais Oxford University Press ● Sutherland, Edwin H. e
como taxas de homicídio e suicídio ou a taxa de Donald R. Cressey: 1978. Criminology, 10ªed. Fila-
“cola” em uma universidade. As taxas de desvio délfia: Lippincott.

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DETERMINISMO E REDUCIONISMO 71

desvio aberrante Da forma descrita por Ro- se sentem frustradas em suas tentativas de satisfa-
bert K. MERTON em sua teoria do DESVIO, o zer desejos e necessidades materiais. Uma das
desvio aberrante é um ato que viola uma lei ou reações a essa situação é a rebelião, através da qual
outra norma secretamente, tendo em vista acima indivíduos rejeitam os valores envolvidos e renun-
de tudo o ganho pessoal. Pode assumir a forma de ciam aos meios legítimos, culturalmente defini-
desvio inovador, ou seja, o uso de meios desvian- dos, para atingi-los. Como conseqüência podem
tes para atingir metas promovidas pela cultura adotar novos valores, tal como levar uma vida de
(como roubar para conseguir sucesso financeiro), simplicidade, com um mínimo de riqueza material
ou retração, isto é, a retirada da vida social e a e esforço, ou adotar novos meios para alcançar
rejeição das normas e valores da sociedade. Os que esses objetivos, como viver em comunas, em que
passam a fazer parte da subcultura das drogas, por a posse comum e a cooperação são mais aprecia-
exemplo, rejeitam não só as regras da vida social, das do que a competição e nas quais não se permite
mas os valores que são em geral considerados mais a propriedade privada.
importantes.
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Ver também DESVIO ABERRANTE; ESTRUTURA
Ver também DESVIO NÃO-CONFORMISTA; ES- DE OPORTUNIDADES, DESVIO E.
TRUTURA DE OPORTUNIDADES, DESVIO E.
Leitura sugerida: Merton, Robert K. 1938: “Social
Leitura sugerida: Merton, Robert K. 1949 (1968): structure and anomie”. American Sociological Re-
Social Theory and Social Structure. Ed. rev. e ampl., view 8: 672-82.
Nova York: Free Press.
desvio padrão ver VARIÂNCIA.
desvio e estrutura de oportunidades ver
ESTRUTURA DE OPORTUNIDADES, DESVIO E. desvio primário ver TEORIA DAS ROTULA-
ÇÕES.

desvio inovador ver DESVIO ABERRANTE;


DESVIO NÃO-CONFORMISTA. desvio secundário ver TEORIA DAS ROTU-
LAÇÕES.

desvio não-conformista Da forma descrita determinismo biológico ver DETERMINIS-


por Robert K. MERTON em sua teoria do DESVIO,
MO E REDUCIONISMO.
o do tipo não-conformista é o ato cometido aber-
tamente e por interesses sociais, e não de forma
secreta, para ganho pessoal. A desobediência civil, determinismo cultural ver DETERMINISMO
por exemplo, é uma violação deliberada da lei com E REDUCIONISMO.
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a intenção de provocar prisão e castigo. Tem por


finalidade focalizar a atenção pública na neces- determinismo e reducionismo Em termos
sidade de mudar algum aspecto da vida social, seja gerais, determinismo é um modo de pensar que
pôr fim a uma guerra ou protestar contra o que se supõe que tudo é, de modo previsível, causado por
considera uma injustiça. alguma coisa. Mais especificamente, determinis-
O desvio não-conformista pode assumir a for- mo descreve qualquer teoria que explique o mun-
ma de desvio inovador, ou seja, uma situação em do em termos de alguns fatores estreitamente de-
que normas são contestadas, mas não os valores finidos, com exclusão de todos os demais (prática
culturais que as sustentam e impõem. Indivíduos conhecida também como reducionismo). O deter-
podem apoiar a idéia de reduzir o número de minismo biológico, por exemplo, argumenta que a
crimes, por exemplo, mas ser contra medidas po- fisiologia, a genética e as pressões demográficas
liciais repressivas destinadas a combatê-los. O determinam como sociedades são organizadas. O
desvio não-conformista pode adotar também a determinismo social (ou cultural) adota a postura
forma de rebelião, na qual são rejeitados valores e oposta, atribuindo a vida social exclusivamente a
normas culturais. Em muitas sociedades, por sistemas sociais, que se supõe estarem além da
exemplo, acumular riqueza material é atividade influência dos aspectos biológicos da existência
altamente apreciada, embora os meios legítimos humana. Ambas as perspectivas implicam que o
para consegui-la sejam distribuídos de forma de- homem tem relativamente pouco controle ou livre-
sigual, com o resultado de que numerosas pessoas arbítrio em face de fatores biológicos ou sociais.

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72 DETERMINISMO ECONÔMICO

A teoria marxista tem sido criticada como sen- dicotomia, com as duas categorias de 0-45 e 46 e
do uma forma de determinismo econômico (co- mais anos de idade.
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nhecida também como economismo), ao argumen- Há várias razões para condensar em uma dico-
tar que as forças e relações de produção que defi- tomia uma variável com diversas categorias. Às
nem os sistemas econômicos determinam as con- vezes são tão poucas as observações em algumas
dições sociais, da religião e literatura ao governo categorias que se torna impossível analisá-las —
e à vida familiar. como por exemplo, o número extremamente pe-
Da perspectiva sociológica, o pensamento de- queno de indivíduos com idade de 90-100 em
terminista/reducionista é falho por sua própria na- qualquer levantamento típico. Uma das maneiras
tureza, uma vez que deixa de compreender a com- mais interessantes de adotar esse sistema é que
plexidade inerente à vida social, que a sociologia podemos considerar a dicotomia como tendo pro-
tenta abranger e descrever. Na verdade, o surgi- priedades de ESCALA DE INTERVALO, desde que
mento da sociologia no século XIX teve origem em ela tenha apenas um intervalo, o que existe entre
parte na crítica de Émile DURKHEIM à tendência duas categorias. Uma vez que numerosas técnicas
de reduzir os fenômenos sociais à psicologia in- estatísticas sofisticadas podem ser usadas com
dividual. variáveis de escala de intervalo, isso significa que
Ver também AÇÃO E ESTRUTURA; BASE E SU- variáveis de escala baixa, como sexo, podem ser
PERESTRUTURA; INDIVIDUALISMO METODOLÓ- tratadas como escalas de intervalo e incorporadas
GICO; SOCIOBIOLOGIA. a análise mais sofisticadas, o que de outra maneira
não seria possível.
Leitura sugerida: Durkheim, Émile 1895: Les rè-
gles de la méthode sociologique. Paris: Félix Alcan / O perigo com essa prática é que condensar
(1982): The Rules of the Sociological Method. Nova variáveis muitas vezes oculta informações impor-
York: Free Press; Londres: Macmillan ● [1924] 1974: tantes. Se condensamos a variável religião em
Sociology and Philosophy. Nova York: Free Press. duas categorias, como “cristã” e “não-cristã”, por
exemplo, amontoamos grupos religiosos que dife-
rem de maneiras profundas. Se essas diferenças
determinismo econômico ver DETERMINIS- são relevantes para as outras variáveis que estão
MO E REDUCIONISMO.
sendo estudadas, o procedimento pode constituir
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um erro grave.
determinismo social ver DETERMINISMO E Ver também ESCALA DE MEDIÇÃO; VARIÁVEL
REDUCIONISMO.
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DICOTÔMICA.

díade Uma díade é um relacionamento social


que envolve dois participantes. A importância dos diferenciação Diferenciação é um conceito
números na interação social é freqüentemente as- com dois significados diferentes em sociologia,
sociada ao sociólogo alemão Georg SIMMEL, que ambos os quais descrevem a estrutura de sistemas
notou, por exemplo, que quando uma díade se sociais. No primeiro sentido, diferenciação é a
transforma em tríade (isto é, passa a ter três parti- tendência de sistemas sociais de se tornarem cada
cipantes), a possibilidade de coalizão emerge e, vez mais complexos à medida que se desenvol-
com ela, maior potencial de desequilíbrio de po- vem, em especial através da especialização. Con-
der.
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forme os governos se expandem, por exemplo,
Ver também COALIZÃO. tendem a criar um número cada vez maior de
ministérios para cuidar de atividades separadas.
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Leitura sugerida: Simmel, Georg 1908 (1965): No segundo sentido, diferenciação é o proces-
“The poor”. Social Problems 13: 118-40. so social de distinguir pessoas de acordo com o
status social que ocupam. A diferenciação hori-
dicotomia Dicotomia é uma VARIÁVEL que zontal refere-se simplesmente a diferenciações en-
tem apenas duas categorias, como o sexo ou a tre status sem semelhanças entre si — as expecta-
respota (sim ou não) à pergunta, “Você acredita em tivas de papel de empregados de escritório, por
Deus?”. Toda e qualquer variável com várias ca- exemplo, são diferentes das de soldados comba-
tegorias pode ser convertida em uma dicotomia tentes. A diferenciação vertical adiciona o ele-
pela simples combinação das mesmas. A idade, mento de hierarquia ao estabelecer distinções ba-
por exemplo, poderia ser condensada em uma seadas nos volumes de riqueza, poder, prestígio e

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DIREÇÃO DA RELAÇÃO 73

outras vantagens e recursos valiosos que pessoas sobre outros. Na prática, contudo, vários mem-
recebem em virtude do status que ocupam. O bros, que por algum motivo são menos poderosos,
sistema de classes sociais, por exemplo, diferencia podem formar uma COALIZÃO sobre um dado
algumas pessoas tanto horizontal (diferenças em assunto e temporariamente privar do poder
estilo de vida, comportamento político etc.) como aqueles que exercem a autoridade formal. A ma-
verticalmente (desigualdades de riqueza, poder e neira exata como isso é realizado e como afeta o
prestígio). funcionamento geral do grupo são questões fun-
Ver também ASSOCIAÇÃO DIFERENCIAL; DIVI- damentais no estudo da dinâmica de grupo.
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SÃO DO TRABALHO; ESTRATIFICAÇÃO E DESI- Ver também PAPEL.


GUALDADE; STATUS.
Leitura sugerida: Bales, Robert F., e Stephen P. Co-
Leitura sugerida: Durkheim, Émile 1893: De la di- hen 1979: SYMLOG: a System for the Multiple Level
vision du travail social. Paris: Félix Alcan / (1978): Observation of Groups. Nova York: Free Press ●
Da divisão do trabalho social. São Paulo: Abril Cul- Cartwright, Dorwin, e Alvin Wander, orgs. 1968:
tural / (1984): The Division of Labor in Society. Nova Group Dynamics: Research and Theory, 3ªed. Nova
York: Free Press; Londres: Macmillan. York: Harper and Row ● Hare, A.R. 1976: Handbook
of Small Group Research, 2ªed. Nova York: Free
diferenciação horizontal ver DIFERENCIA- Press.
ÇÃO.
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direção da relação Direção da relação é a co-


diferenciação vertical ver DIFERENCIAÇÃO.
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nexão estatística entre duas variáveis que podem
ser descritas em termos de sua direção ou forma,
difusão Da forma como foi descrita pela pri- ou a maneira padronizada como escores em uma
meira vez pelo antropólogo Edward Tylor, difusão variável variam em relação aos escores da outra.
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é um processo social através do qual conheci- A relação linear assume geralmente a forma
mentos e práticas cuturais, bem como produtos de uma linha reta e pode ser positiva ou negativa.
materiais, são disseminados de um sistema social Se os escores em Y tendem a aumentar à medida
a outro. A imprensa, por exemplo, foi inventada que aumentam os escores em X, então a relação é
pelos chineses no século XVI; da China a desco- descrita como positiva (ou direta ). Esse é o caso
berta espalhou-se pelo resto do mundo e revolu- com a relação entre renda (Y) e educação (X). Se
cionou a capacidade do homem de armazenar, os escores em Y tendem a diminuir enquanto
recuperar e transmitir conhecimento e idéias. Au- aumentam os escores em X, então a relação é
mentando as oportunidades de interação entre as negativa (ou inversa ). Esse é o caso com a relação
culturas, o mesmo aconteceu com a taxa de difu- entre o bom aproveitamente de crianças na escola
são. Desde o desenvolvimento tecnológico das (Y) e o número de irmãos que têm (X).
armas nucleares, por exemplo, tem havido um A relação não-linear pode ser curvilinear ou
grande esforço para impedir sua difusão além do irregular. As relações irregulares carecem de pa-
núcleo de sociedades industriais dominantes.
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drão claro. Se examinamos a maneira como o
Ver também MUDANÇA SOCIAL. apoio de pessoas a uma determinada crença difere
à medida que a renda cresce, por exemplo, pode-
Leitura sugerida: Rogers, Everett M. 1983: Diffu- mos encontrar um padrão irregular alternante de
sion of Innovations, 3ªed. Nova York: Free Press ● aumentos e reduções que nem se parecem com
Tylor, Edward 1871 (1958): Primitive Culture. Nova uma linha reta nem com uma curva.
York: Harper. As relações curvilineares têm sido muito im-
portantes em sociologia. As relações entre status
dinâmica de grupo Dinâmica de grupo é o socioeconômico e fecundidade, por exemplo, va-
processo que efetivamente ocorre quando pessoas riam segundo país e período histórico. Em muitos
interagem entre si. O conceito é importante porque casos elas são lineares (sejam positivas ou negati-
chama atenção para a diferença entre o que acon- vas), mas em outros assemelham-se a um “U”,
tece e o que poderia se esperar que acontecesse, com os níveis mais altos de fecundidade entre os
dadas a cultura e a estrutura do grupo. Um grupo que estão no topo e na base do sistema de classe.
pode ter uma ESTRUTURA DE PODER, por exem- A forma em U é encontrada também no estudo de
plo, que concede AUTORIDADE a certos membros Émile DURKHEIM sobre o suicídio, no qual as

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74 DIREITO

taxas mais altas ocorrem quando o grau de coesão demos a pensar e a falar sobre a realidade de uma
social é muito baixo ou muito alto. A taxa de maneira particular, não podemos deixar de desli-
suicídio foi mais baixa em faixas mais moderadas gar nossa capacidade de nela pensar em um incon-
de coesão. tável número de outras maneiras.
Na prática, pesquisadores tendem a supor que Foucault estava especialmente interessado na
as relações são lineares, em parte porque as técni- formação do discurso — de que forma as maneiras
cas estatísticas para analisar relações curvilineares de pensar e conversar surgiram na sociedade e
não tiveram o mesmo desenvolvimento e são mais como afetam a vida social. Duas áreas eram de
complicadas e difíceis de usar e interpretar. Ainda interesse especial para ele, a loucura e a sexuali-
assim, as relações curvilineares figuram entre as dade, ambas as quais considerava socialmente
mais fascinantes na sociologia. construídas. Não há tais coisas, argumentava ele,
Ver também ANÁLISE DE REGRESSÃO; INDE- como sexualidade ou loucura, exceto na medida
PENDÊNCIA ESTATÍSTICA E DEPENDÊNCIA ESTA- em que seres humanos criam idéias sobre elas
TÍSTICA. através da conversa e de outras formas de discurso.
Se consideramos a loucura divinamente inspirada,
direito ver
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D LEI.
ou má, ou uma patologia de causas biológicas, por
exemplo, depende do que o discurso sobre a lou-
cura parece em nossa sociedade. Da mesma forma,
direito civil ver LEI. se consideramos capitalismo igual a democracia
ou sexualidade igual a heterossexualidade, não
direito criminal ver LEI. podemos deixar de moldar a vida econômica e
sexual de maneiras que tornam difícil considerar
a possibilidade de alternativas democráticas ao
direitos cívicos ver CIDADÃO E CIDADANIA.
capitalismo ou vidas sexuais que sejam igualitá-
rias, gays ou lésbicas.
direitos políticos ver CIDADÃO E CIDADANIA. Ver também CULTURA; CONHECIMENTO.
Leitura sugerida: Foucault, Michel 1971: Madness
direitos socioeconômicos ver CIDADÃO E
and Civilization: A History of Insanity in the Age of
CIDADANIA. Reason. Londres: Tavistock Ο 1976: Histoire de la
sexualité, vol.1, La volonté de savoir. Paris: Galli-
discriminação ver PRECONCEITO E DISCRI- mard / (1977): História da sexualidade. vol.1, A
MINAÇÃO. vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal / (1981): The
History of Sexuality., vol.1, An Introduction.
Harmondsworth: Penguin; Londres: Tavistock.
discriminação etária A discriminação etária
é o preconceito baseado em diferenças de idade.
Ao contrário da maioria das demais formas de distância ver DISTÂNCIA SOCIAL.
preconceito, esta afeta todas as pessoas em uma ou
outra época, uma vez que todos passam certo distância do papel ver PAPÉIS, CONFLITO DE.
tempo em categorias etárias subordinadas (como
a infância) e dominantes (como a meia-idade). distância social Distância social é o grau em
Ver também ENVELHECIMENTO; GERONTOLO- que pessoas estão dispostas a aceitar e associar-se
GIA; PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO.
com aquelas que têm características sociais dife-
rentes. A má vontade em ser vizinho de uma
discurso e formação do discurso Discurso família de raça diferente, por exemplo, indicaria
é conversa escrita e falada e o pensamento que lhe um alto grau de distância social, ao passo que a
serve de base. De acordo com Michel FOUCAULT, disposição de casar com alguém de raça diferente
o discurso é sociologicamente importante porque indicaria um nível extremamente baixo.
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a maneira como falamos e pensamos sobre o mun- Uma das maneiras de medir a distância social
do modela o modo como nos comportamos e o tipo consiste no uso da escala de distância social de
de mundo que, como resultado, ajudamos a criar. Bogardus (assim chamada em homenagem a Eme-
É através do discurso que construímos o que ex- ry S. Bogardus, sociólogo americano). A escala
perimentamos como realidade e, logo que apren- baseia-se em uma série de perguntas a entrevis-

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DISTRIBUIÇÃO BIMODAL 75

tados, como, por exemplo, se estariam ou não britânicas e usamos esses números para estimar a
dispostos a tolerar vários níveis de distância social renda média de toda a população de unidades
— viver no mesmo bairro, convidar para jantar, censitárias do país. A amostra que selecionamos,
casar etc. A suposição é que os entrevistados dis- bem como sua renda média, é apenas uma de um
postos a tolerar um dado nível de distância tolera- número quase infinito de possíveis amostras e
rão também níveis mais altos. Em outras palavras, médias de amostras que poderíamos ter escolhido.
se estão dispostos a casar com alguém de raça A distribuição amostral contém todos essas pos-
diferente, a escala supõe que estariam também síveis médias de amostra.
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dispostos a convidá-los para jantar. Uma escala Ao usar distribuições amostrais, temos de ser
com essa característica é conhecida como escala capazes de estimar as principais características da
de Guttman. distribuição: seu valor médio, sua forma e sua
Ver também ESCALA DE ATITUDES; SEGREGA- VARIÂNCIA (o grau em que amostras na distribui-
ÇÃO E INTEGRAÇÃO. ção diferem umas das outras). Uma vez que amos-
tragem envolve erro aleatório, metade das médias
da amostra será maior do que a média da popula-
distribuição Distribuição é um conceito com ção e a outra metade será menor. Desde que esses
duas definições básicas em sociologia. Em sentido
erros tendem a se cancelar mutuamente, se somás-
estatístico é um conjunto de escores, como a idade
semos todas as possíveis médias da amostra e
de pessoas e o número relativo de ocasiões em que
tirássemos uma média aritmética das mesmas, ela
cada escore acontece. Nos Estados Unidos, por
seria igual à média da população que estamos
exemplo, a distribuição da maneira como adultos
tentando estimar.
identificam sua posição na classe social mudou
A forma da distribuição é determinada a partir
acentuadamente para baixo na segunda metade
de um teorema matemático conhecido como teo-
deste século. Em 1964, 61% consideravam-se na
rema do limite central. De acordo com esse teore-
classe média e 35% na classe operária, com os 4%
ma, a distribuição amostral de uma dada caracte-
restantes divididos entre as classes alta e baixa. Em
rística de amostra, como a renda média, terá forma
comparação, a distribuição de 1993 mostrou que
normal se a própria população tiver forma normal
apenas 45% se incluíam na classe média, 45% na
no que interessa à essa variável. Uma vez que isso
classe operária, 7% na classe baixa e 3% na classe
raramente acontece, o teorema proporciona uma
alta.
posição de reserva: quanto maior a amostra, mais
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No estudo da desigualdade social, distribuição


fielmente a distribuição amostral se assemelhará a
é o processo de dividir vantagens e recursos sociais
uma DISTRIBUIÇÃO DE CURVA NORMAL campa-
e o resultado dele decorrente. Os sistemas de classe
nular. Isso será verdade qualquer que seja o tipo
e outras formas de desigualdade sistemática não
de população.
são estáticos. Na verdade, são sistemas correntes
de produção e distribuição que afetam não só a A quantidade de variação em uma distribuição
amostral é medida por uma estatística conhecida
vida de pessoas mas moldam sistemas sociais
inteiros. como ERRO PADRÃO. As distribuições amostrais
são de valor inestimável em pesquisa porque ser-
Distribuições figuram ainda com destaque na
vem como ponte estatística entre o que sabemos
análise estatística, através do uso de DISTRIBUI-
(os dados coletados em amostras) e o que quere-
ÇÃO DE CURVA NORMAL, de QUI-QUADRADOS etc.
mos saber (as características de populações das
Ver também DIFERENCIAÇÃO; DISTRIBUIÇÃO quais foram retiradas as amostras). Isso é feito
AMOSTRAL; DISTRIBUIÇÃO DE FREQÜÊNCIA; ES-
através do processo conhecido geralmente como
TRATIFICAÇÃO E DESIGUALDADE; ESTRUTURA
INFERÊNCIA ESTATÍSTICA.
ETÁRIA ; ESTRUTURA SOCIAL; GRÁFICOS; ÍNDICE
Ver também DISTRIBUIÇÃO DE CURVA NOR-
DE DISSIMILARIDADE; QUI-QUADRADO.
MAL; ERRO; ERRO AMOSTRAL: ERRO PADRÃO;
ESTATÍSTICA.
distribuição amostral Em ESTATÍSTICA, dis-
tribuição amostral é uma DISTRIBUIÇÃO matemá- Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
tica teórica de todos os possíveis resultados de Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed.
Ithaca, IL: F.E. Peacock.
AMOSTRAS que podem ser obtidas selecionando-
as em uma população. Suponhamos que determi-
namos a renda MÉDIA de uma amostra de famílias distribuição bimodal ver MODO.
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76 DISTRIBUIÇÃO DE CURVA NORMAL

distribuição de curva normal Em estatís- Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
tica, distribuição de curva normal faz parte de uma Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed.
família de distribuições que se conforma a uma Ithaca, IL: F.E. Peacock.
forma especial que produz uma curva simétrica,
campanular (ver Figura 4). Distribuições de curva distribuição de freqüência Distribuição de
normal diferem entre si na medida em que se freqüência é a descrição de uma VARIÁVEL que
estendem ou se aguçam em pico, dependendo do proporciona a contagem do número de CASOS que
volume de variação que contêm.
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se incluem em cada uma de suas categorias. Consi-


deremos, por exemplo, a seguinte declaração: “Se-
ria muito melhor para todos os interessados se o
homem fosse o provedor fora de casa e a mulher
cuidasse do lar e da família.” Da forma medida na
Pesquisa Social Geral de 1993, da população adul-
ta dos Estados Unidos, essa variável incluía quatro
categorias, com as freqüências mostradas na tabela
abaixo.
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Tabela 2
Distribuição de Freqüência
Concorda fortemente 64
Figura 4. Distribuição de curva normal.
Concorda 318
As distribuições normais são muito úteis em
pesquisas pois se pudermos supor que uma distri- Discorda 491
buição de escores é normalmente modelada, sabe- Discorda fortemente 181
remos que percentagem de casos na distribuição
se situa a qualquer dada distância do centro (a Não sabe 23
média) da distribuição. Em uma distribuição nor- Total 1.077 = n
mal, por exemplo, 68% de todos os casos terão
Fonte: James A. Davis e Tom W. Smith, General Social
escores que se situarão dentro de um desvio padrão Surveys, 1972-1993: Cumulative Codebook (Chicago:
da MÉDIA da distribuição; 95,5% se situarão den- National Opinion Research Center, 1993).
tro de dois desvios-padrão; e 99,7% dentro de três.
A possibilidade de fazer esses tipos de enunciados
A tabela representa a freqüência de distribuição
é de grande importância na inferência estatística
da variável, com n denotando o número total de
pois permite que os pesquisadores estimem a prob-
casos na distribuição. As distribuições de freqüên-
abilidade de erro associada ao uso de um resultado
cia são úteis para dar uma idéia aproximada dos
de amostra a fim de tirar inferências sobre a popu-
resultados (podemos ver, por exemplo, que uma
lação da qual foi extraída.
maioria — 672 em 1.077 — discorda ou discorda
Embora a forma das distribuições de curva
fortemente), mas elas podem ser rapidamente con-
normal mude com maiores ou menores volumes
vertidas em outras formas para responder a per-
de variação, nem todas as curvas simétricas cam-
guntas de natureza sociológica.
panulares são normais. Economistas, em especial,
Ver também GRÁFICOS; TABULAÇÃO CRUZA-
identificam vários graus de curtose nas curvas.
DA; VARIÁVEL.
Elas podem desviar-se da normalidade, por exem-
plo, por terem um pico agudo demais (leptocúrti-
cas) ou niveladas demais (platicúrticas). Uma dis- distribuição de t de student ver DISTRIBUI-
tribuição platicúrtica especializada usada pelos ÇÃO DE CURVA NORMAL.
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sociólogos é a distribuição de t de student, utiliza-


da para estimar médias de população quando o
tamanho da amostra é pequeno. distribuição leptocúrtica ver DISTRIBUIÇÃO
DE CURVA NORMAL.
Ver também DISTRIBUIÇÃO AMOSTRAL; ES-
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CORE PADRÃO; ESTATÍSTICA; SIMETRIA; VA-


RIÂNCIA. distribuição multimodal ver MODO.
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DUPLA HERMENÊUTICA 77

distribuição platicúrtica ver DISTRIBUI- LHO; MERCADO DE TRABALHO; ESTRUTURA


ÇÃO DE CURVA NORMAL.
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OCUPACIONAL; PAPÉIS, ESTRUTURA DE.

Leitura sugerida: Braverman, Harry 1974: Labor


divisão do trabalho Divisão do trabalho é a and Monopoly Capital: the Degradation of Work in
amplitude de tarefas que são realizadas em um the Twentieth Century. Nova York: Monthly Review
sistema social. Pode variar de todas as pessoas Press / (1981): Trabalho e capital monopolista: a
fazerem a mesma coisa a cada pessoa ter um PAPEL degradação do trabalho no século XX. 3ªed., Rio de
especializado. Tem sido há muito tempo um Janeiro: Zahar / Guanabara ● Durkheim, Émile 1893:
conceito sociológico importante porque é através De la division du travail social. Paris: Félix Alcan /
da divisão do trabalho que a vida social realmente (1978): Da divisão do trabalho social. São Paulo:
ocorre e a ela todos os indivíduos estão ligados.
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Abril Cultural / (1984): The Division of Labor in
O conceito é usado sobretudo no estudo da Society. Londres: Macmillan.
produção econômica. Nas sociedades de caça-
dores-coletores, por exemplo, as divisões do traba- divisão internacional do trabalho A divi-
lho são relativamente simples, uma vez que não é são internacional do trabalho é o leque de tarefas
muito grande o número de tarefas a serem feitas. que existe em diferentes níveis no SISTEMA-MUN-
Em comparação, sociedades industriais as têm DO econômico. No nível empresarial, as EMPRE-
extremamente complexas, principalmente porque SAS TRANSNACIONAIS freqüentemente dividem o
a capacidade de produzir um vasto excedente de processo de produção entre operações em diversos
alimentos permite que a maioria das pessoas se países. A versão européia do automóvel Ford Es-
entregue a uma grande variedade de tarefas que cort, por exemplo, é um acoplamento de peças
pouco têm a ver com as necessidades da sobrevi- produzidas em cerca de quinze países europeus e
vência. Da forma exposta pela primeira vez por norte-americanos.
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Émile DURKHEIM, as diferenças na divisão do No nível nacional, a produção é cada vez mais
trabalho afetam de forma profunda aquilo que organizada em torno da especialização regional.
mantêm coesas as sociedades. Com divisões do Peças para aparelhos eletrônicos como computa-
trabalho simples, a COESÃO social baseia-se prin- dores, por exemplo, são tipicamente produzidas
cipalmente nas semelhanças das pessoas entre si e nos países industriais mais ricos e só então acopla-
no fato de terem um estilo de vida comum. Com das para formar o produto final nos países do
as divisões do trabalho complexas, porém, ela tem TERCEIRO MUNDO, como México e Malásia. Uma
por fundamento a interdependência que resulta da divisão similar do trabalho existe para os têxteis e
especialização. Num sentido irônico, as diferenças outras indústrias.
são o que nos mantêm unidos. A atual divisão internacional do trabalho re-
A divisão do trabalho figura também com des- flete o poder das empresas transnacionais em ma-
taque no estudo da desigualdade social. Do ponto ximizar eficiência e lucros aproveitando-se de
de vista marxista, o capitalismo utiliza uma divi- condições locais favoráveis como mão-de-obra
são do trabalho complexa para controlar melhor os barata, impostos baixos, indulgência quanto ao
trabalhadores. O trabalho é dividido em grande meio ambiente e quanto às leis de segurança do
número de tarefas minuciosamente especializadas trabalho, além de governos repressores que con-
que requerem apenas o mínimo de treinamento e trolam trabalhadores desestimulando sindicatos.
qualificação. Esse fato permite aos empregadores Ver também COLONIALISMO E IMPERIALISMO;
monitorar e controlar o processo de produção e SISTEMA-MUNDO; TEORIA DA DEPENDÊNCIA.
substituir sem dificuldade os trabalhadores, o que Leitura sugerida: Fröbel, Folker, J. Heinrichs e O.
os priva de poder em suas relações com os patrões. Kreye 1980: The New Intenational Division of Labor.
A divisão do trabalho é também importante no Cambridge: Cambridge University Press.
estudo de formas de desigualdade social por mo-
tivo de sexo, raça e outras características, uma vez
que os tipos de papéis desempenhados pelas pes- divórcio ver CASAMENTO E DIVÓRCIO.
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soas afetam fortemente a parcela que elas recebem


de riqueza, poder e prestígio. domicílio ver
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D LAR.
Ver também GEMEINSCHAFT E GESELL-
SCHAFT; DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABA- dupla hermenêutica ver
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D HERMENÊUTICA.

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eclésia Eclésia é um tipo de organização reli- como pelo sistema como um todo. A maioria dos
giosa cujas características culturais e estruturais nichos não-humanos é relativamente simples. As
diferenciam-na de outras formas como IGREJA, plantas absorvem certos nutrientes, por exemplo,
DENOMINAÇÃO e SEITA. A eclésia é a maior, mais desprendem oxigênio e, quando morrem e se de-
cerimoniosa e mais poderosa de todas as organi- compõem, fornecem nutrientes para outros seres
zações religiosas.
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E vivos. Esses nichos mudam com relativa lentidão,
A filiação a ela é em geral determinada já por uma vez que, na maior parte, estão gravados em
ocasião do nascimento do indivíduo e tem caráter códigos genéticos. Os nichos humanos, em con-
quase universal na comunidade onde existe. Adota traste, são extremamente complexos, pois suas
uma estrutura de poder altamente formal e buro- populações afetam de muitas maneiras diferentes
crática e atua por intermédio de um clero bem e interdependentes os ecossistemas. Além disso, a
preparado. De ritual muito abstrato, é relativa- cultura torna possível alterar com grande rapidez
mente pouca a exibição de emoção nos seus servi- os nichos humanos, sobretudo através do uso de
ços religiosos. Em comparação com outras formas nova tecnologia.
de organização desse tipo, identifica-se de forma Em sociologia, o ponto de vista ecológico é
profunda com as instituições dominantes, tais co- utilizado de várias formas. No nível mais baixo,
mo o Estado e a economia. Na verdade, em algu- interacionistas podem levar em conta os efeitos de
mas sociedades, constitui a instituição política e condições físicas sobre as formas tomadas pela
religiosa dominante. interação. Uma sala de aula organizada em círculo,
Exemplos de eclésia incluem a Igreja católica, por exemplo, promoverá mais discussões do que
na Itália, e o islamismo, no Irã. outra organizada em filas de cadeiras, todas elas
Ver também BUROCRACIA; CULTO; RELIGIÃO. voltadas para a frente. Em um nível mais alto de
análise, a sociologia ecológica interessa-se pelos
efeitos de fatores físicos, tais como clima e topo-
ecologia Ecologia é o estudo de relações atra-
vés das quais as populações das várias espécies grafia, sobre o desenvolvimento de sistemas so-
afetam e são afetadas pelo ambiente físico em que ciais, bem como sobre os efeitos destes sobre o
vivem. Do ponto de vista ecológico, a vida é ambiente físico. A industrialização e a urbaniza-
organizada em ecossistemas, que consistem de ção, por exemplo, são dois fenômenos sociais que
todas as formas vivas que coexistem em relações continuam a produzir conseqüências ambientais,
recíprocas em um dado ambiente físico. A maneira que por seu lado afetam de maneiras complexas e,
como o ambiente físico é definido depende intei- não raro, imprevisíveis, as sociedades humanas.
ramente dos interesses de quem o define. Pode ser Alguns sociólogos argumentam que o ponto de
tão pequeno como a gota d’água de um tanque, por vista ecológico tem o potencial de organizar, ou de
exemplo, tão grande como uma cidade ou país, ou fato organiza, grande parte dos interesses básicos
incluir todo o universo. Na ecologia humana, os dessa ciência. Indícios desse fato podem ser en-
ecossistemas são sempre definidos em relação às contrados na construção teórica de Duncan e
populações humanas.
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E Schnore, representada pelo acrônimo POET (popu-
Nos ecossistemas, as várias populações ocu- lation, organization, environment e technology,
pam posições funcionais conhecidas como nichos. em inglês — população, organização, meio am-
Esses nichos descrevem como elas afetam e são biente e tecnologia). Partes substanciais, embora
afetadas por outros participantes do sistema, bem certamente não a maioria, da matéria de estudo dos

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ECONOMIA 79

sociólogos podem ser enquadradas em termos des- De acordo com a perspectiva ecológica, um
sas quatro classes de variáveis. Outros sociólogos determinado território será utilizado de diversas
de inclinação ecológica argumentaram que o mo- maneiras por diferentes misturas de formas de
delo básico da análise de ecossistemas — que as vida, e esses padrões mudarão ao longo do tempo
espécies utilizam variados insumos retirados do através de um complexo processo de adaptação e
ambiente físico para produzir diversos tipos de competição. Ecologistas urbanos sustentam que o
resultados — pode ser também aplicado vantajo- crescimento urbano pode ser descrito e compreen-
samente a sistemas sociais. dido em termos similares, salvo que, em lugar de
Embora a perspectiva ecológica não seja ainda estudar diferentes espécies de vida, o foco agora
muito usada no pensamento sociológico, seu lugar se dá sobre categorias sociais de indivíduos que
na disciplina está assegurado pelo simples fato de diferem no que diz respeito a características como
que todos os sistemas sociais implicam alguma etnia, classe social e raça. Por exemplo, à medida
população de indivíduos que participam dos mes- que as cidades se desenvolvem, fábricas e outros
mos, bem como de seus arranjos e ambientes empreendimentos tendem a ser construídos próxi-
físicos. mos a vias de transporte como rios e ferrovias, o
Ver também ECOLOGIA URBANA; ESCOLA DE que promoverá habitação para trabalhadores, além
CHICAGO; HOMEOSTASE; MICROECOLOGIA; SU- de serviços que irão ao encontro de suas neces-
CESSÃO ECOLÓGICA. sidades. Considerando que diferentes grupos de
trabalhadores se adaptam a esse ambiente, eles
Leitura sugerida: Duncan, Otis Dudley 1961: irão formar vizinhanças com identidades de classe
“From social system to ecosystem”. Sociological In- e étnicas peculiares cuja alocação dependerá em
quiry 31: 140-9 Ο e L.F. Schnore 1959: “Cultural, parte da proximidade das várias oportunidades de
behavioral, and ecological perspective in the study of emprego. Em contrapartida, na medida em que
social organizations”. American Journal of Sociology novas populações migrem para a cidade, ou que
65 ● Hawley, Amos H. 1986: Human Ecology: A empreendimentos fechem, se transfiram ou mu-
Theoretical Essay. Chicago: University of Chicago dem suas características, padrões residenciais po-
Press ● Namboodiri, K. 1988: “Ecological demogra- derão mudar através de um processo conhecido
phy: Its place in sociology”. American Sociological como SUCESSÃO ecológica.
Review 5(4): 619-33. Os primeiros ecologistas urbanos consideram
as características culturais e estruturais das cidades
ecologia humana ver ECOLOGIA.
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como secundárias, se não irrelevantes, para o de-
senvolvimento urbano, visão extremada que even-
tualmente leva a perspectiva ecológica a perder
ecologia urbana Ecologia urbana é uma status na sociologia. Mais recentemente, contudo,
abordagem que procura compreender como ci- ela vem sendo revigorada numa forma menos rigi-
dades põem em prática o que foi desenvolvido damente ecológica, sobretudo por Amos Hawley.
pelo grupo de sociólogos da Universidade de Chi- Ver também ECOLOGIA; URBANIZAÇÃO E UR-
cago conhecido como ESCOLA DE CHICAGO. A BANISMO.
idéia básica dessa perspectiva é considerar as ci-
dades da mesma maneira que os ecologistas consi- Leitura sugerida: Hawley, Amos H. 1981: Urban
Society: An Ecological Approach, 2ªed. Nova York:
deram as diversas espécies de vida em relação a
Wiley Ο 1986: Human Ecology: A Theoretical Essay.
seu ambiente natural. Cada espécie faz uso do
Chicago: University of Chicago Press.
meio ambiente de maneira própria, o que freqüen- IA
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temente resulta em competição com outras es-


pécies ou membros da mesma espécie. Como re- economia Uma economia é um conjunto de
sultado, a população de diferentes espécies dimi- dispositivos institucionais através dos quais bens
nui, aumenta ou se estabiliza de acordo com mu- e serviços são produzidos e distribuídos em uma
danças climáticas e outras mudanças que afetam o sociedade. A partir de Karl MARX, Max WEBER
processo de competição. Além disso, se um ter- e Émile DURKHEIM, sociólogos vêm tendo um
ritório extenso o suficiente é examinado, dife- grande e complexo interesse pelas instituições
rentes padrões de distribuição também serão en- econômicas, especialmente na medida em que
contrados, com diferentes espécies distribuídas de estas se vinculam a aspectos não econômicos da
diversas maneiras nesse espaço.
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E vida social como o Estado, a educação e a família.
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80 ECONOMIA CENTRAL

Historicamente, as economias variam segundo economia dual Denomina-se economia dual


diversas dimensões, incluindo sua complexidade, o sistema surgido quando o capitalismo ultrapas-
a sofisticação de sua TECNOLOGIA, seus valores sou seu estágio formativo, que tinha como base um
intrísecos (cooperação e partilha versus explora- grande número de firmas relativamente pequenas
ção e competição, por exemplo), confiança nos que concorriam de forma intensa entre si. Desen-
MERCADOS, e, sobretudo na tradição marxista, a volvendo-se o capitalismo e adquirindo aspectos
estrutura de controle sobre os meios de produção mais oligopolistas e monopolistas, o resultado as-
e sua relação com o CONFLITO DE CLASSE. sumiu a forma de duas economias — monopolista
Ver também CLASSE SOCIAL; DETERMINISMO e competitiva —, cada uma delas dotada de tipos
E REDUCIONISMO; DIVISÃO DO TRABALHO; ECO- característicos de firmas, mecanismos de mercado
NOMIA POLÍTICA; MODO DE PRODUÇÃO. e mercados de trabalho.
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A economia monopolista (ou central) consiste


Leitura sugerida: Durkheim, Émile 1893: De la di-
de empresas grandes, poderosas, cujos produtos
vision du travail social. Paris: Félix Alcan / (1978):
Da divisão do trabalho social. São Paulo: Abril Cul- ou serviços têm uma procura tão certa que sua
tural / (1984): The Division of Labor in Society. Nova posição no mercado é relativamente estável no
York: Free Press ● Moore, Wilbert 1955: Economy longo prazo. Os ramos de aço, automóveis, produ-
and Society. Nova York: Doubleday ● Swedberg, Ri- tos químicos, petróleo e produtos farmacêuticos
chard 1990: Economics and Sociology. Princeton: são exemplos de indústrias centrais. Em contraste,
Princeton University Press ● Weber, Max 1904-05 a economia competitiva (ou periférica) consiste de
(1967): A ética protestante e o espírito do capitalis- firmas de tamanho variável, cuja posição de mer-
mo. São Paulo: Pioneira / (1930, 1974): The Protes- cado tende a ser altamente competitiva e, por
tant Ethic and the Spirit of Capitalism. Nova York: conseguinte, instável. Os exemplos incluem o
Scribner’s; Londres: Allen & Unwin Ο 1921-22 comércio varejista, as companhias de aviação e
(1968): Economy and Society: an Outline of Interpre- pequenos fornecedores de grandes empresas
tative Sociology, ed. em 3 vols., Nova York: Bedmins- centrais.
ter Press (1967); eds. em 2 e 3 vols., Berkeley:
A economia dual é sociologicamente impor-
University of California Press (1978).
tante de várias maneiras. À medida que se desen-
volve, por exemplo, o capitalismo tende para a
economia central ver ECONOMIA DUAL.
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dominação da periferia pelo centro e, com isso,
uma concentração cada vez maior de poder eco-
nômico e político. Além do mais, as vantagens
economia competitiva ver ECONOMIA DUAL.
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desfrutadas por trabalhadores no centro tendem a


aliená-los de seus companheiros da periferia, com
economia comunal ECONOMIA comunal é o efeito de solapar o potencial de organização do
um sistema no qual a produção e distribuição de trabalho em torno de interesses comuns. Os traba-
bens e serviços são controlados coletiva e não lhadores do centro, por exemplo, costumam ser
individualmente. Terra, ferramentas e outros re- melhor remunerados, é mais provável que sejam
cursos produtivos não são mantidos como proprie- sindicalizados e têm maior segurança no emprego
dade privada, o que significa que nenhum in- do que companheiros de ocupações semelhantes
divíduo ou subgrupo pode usar de poder econômi- na periferia. Como tais, é menos provável que se
co para acumular riqueza ou obter vantagens sobre identifiquem com os problemas trabalhistas de
os demais. Como tais, a produção e a distribuição outros companheiros.
da riqueza baseiam-se na posse comum e na co- Ver também CAPITALISMO; MERCADO DE TRA-
operação, e não na competição e dominação.
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BALHO; CONQUISTA DE STATUS E NOVO ESTRUTU-
Até agora, a maioria dos exemplos de econo- RALISMO.
mias comunais tem sido encontrada nas socie-
dades HORTELÃ e de CAÇADORES-COLETORES. Leitura sugerida: Averitt, Robert T. 1968: The Dual
Ver também COMUNISMO. Economy: The Dynamics of American Industry Struc-
ture. Nova York: Norton ● O’Connor, James 1973:
Leitura sugerida: Lenski, Gerhard E., Jean Lenski The Fiscal Crisis of the State. Nova York: St. Martin’s
e Patrick Nolan 1987: Human Societies: An Introduc- Press / (1977): USA: a crise do estado capitalista. Rio
tion. 5ªed., Nova York: McGraw-Hill. de Janeiro: Paz e Terra.

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3ª Revisão: 31.3.97
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Para: Ed. Zahar
EFEITO ESTATÍSTICO 81

economia monopolista ver ECONOMIA DUAL.


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E ecossistema ver ECOLOGIA.
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economia periférica ver ECONOMIA DUAL.


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educação Em todos os sistemas educacionais,
a SOCIALIZAÇÃO assegura que todos os novos
membros saibam como deles participar. Em sis-
economia política Economia política é um temas mais simples, esse treinamento pode ser
conceito que se refere ao funcionamento e interes- feito informalmente. Em sistemas mais comple-
ses interdependentes de sistemas políticos e eco- xos, como as SOCIEDADES INDUSTRIAIS, o vo-
nômicos, sobretudo em sociedades industriais lume de conhecimentos necessários é tão grande
complexas. Tão forte é essa conexão que se torna e diversificado que treinamento formal, sistemáti-
virtualmente impossível compreender o funciona- co, torna-se necessário. No uso sociológico, o
mento de um sem levar em conta suas relações conceito de educação refere-se a esse treinamento,
com o outro.
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com vistas a distingui-lo de modos menos formais
Associado principalmente a Karl MARX, o de socialização. As escolas são as instituições
conceito de economia política chama atenção para sociais encarregadas de ministrar a educação.
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a maneira como o Estado apóia de forma vigorosa Leitura sugerida: Chapman, Karen 1986: The So-
o sistema econômico e, nesse processo, promove ciology of Schools. Londres: Tavistock ● Mulkey,
e protege os interesses dos que o dominam e com Lynn M. 1993: Sociology of Education. Fort Worth,
ele mais se beneficiam. Em troca, o Estado depen- TX: Harcourt Brace Jovanovich.
de do sistema econômico para arrecadar recursos.
O fato de líderes circularem livremente entre os
efeito de coorte ver COORTE.
domínios empresarial e político é apenas um re-
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flexo da relação fundamental entre essas duas


esferas básicas de poder. efeito de interação ver ESPECIFICAÇÃO.
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Ver também POLÍTICA.


efeito direto ver EFEITO ESTATÍSTICO.
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Leitura sugerida: Froman, C. 1984: The Two Ame-


rican Political Systems: Society, Economics, and Po-
efeito estatístico Efeito estatístico é a diferen-
litics. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall ● Marx,
ça no valor de uma variável associada a uma
Karl (1982): Para a crítica da economia política. São
Paulo: Abril Cultural / (1971): A Contribution to the diferença relacionada com uma ou mais variáveis.
Critique of Political Economy. Londres: Lawrence & Indivíduos com mais anos de escolaridade (uma
Wishart Ο 1867 (1974): O capital, crítica da econo- diferença em educação) tendem a auferir rendas
mia política. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira / mais altas (diferença em renda) e países com níveis
(1976): Capital, vol.1. Harmondsworth: Penguin. mais altos de pobreza costumam ter taxas de mor-
talidade mais altas.
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São dois os tipos gerais de efeitos estatísticos:


economismo ver DETERMINISMO E REDUCIO- direto e indireto (ver figura 5). O efeito direto não
NISMO.
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E envolve a influência de uma variável adicional que

Figura 5. Diagrama mostrando efeitos direto e indireto (por motivo de educação) da classe social dos
pais sobre a ocupação dos filhos.

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Para: Ed. Zahar
82 EFEITO HAWTHORNE

ocorre entre as duas variáveis. Ter pais de classe efeito longitudinal ver COORTE.
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alta, por exemplo, pode exercer um efeito direto


sobre a possibilidade de o filho conseguir um bom
emprego (através de influência deles junto a em- egoísmo Egoísmo é a tendência do indivíduo
pregadores potenciais). O efeito indireto, porém, de focalizar-se intensamente em si mesmo, com
funciona através de outras variáveis. Ter pais de exclusão de outras pessoas e sistemas sociais, tais
classe alta pode afetar as aspirações, o desenvol- como grupos, comunidades e sociedades. Em so-
vimento de qualificações e talentos, e o acesso à ciologia, o conceito mantém a mais estreita ligação
educação superior, todos os quais podem produzir com a teoria do suicídio, desenvolvida por Émile
efeitos diretos sobre a obtenção de bons empregos. DURKHEIM, que argumentou que o suicídio
Neste sentido, o meio formativo de classe dos pais egoístico resulta de baixa coesão social em grupos
pode exercer efeitos direto e indireto sobre a ocu- que enfatizam o individualismo, como os protes-
pação. tantes, em comparação com católicos ou judeus. A
Os efeitos estatísticos poderão ou não indicar teoria de Durkheim tem sido muito criticada, prin-
cipalmente sobre o fundamento de que as estatís-
uma relação causal entre as variáveis. Em alguns
casos, a relação é uma FALSIDADE ESTATÍSTICA, e ticas oficiais sobre suicídios são viesadas de ma-
neiras que tendem a apoiá-la. Jack Douglas, por
não causal.
exemplo, afirma que grupos de alta coesão são
Ver também ANÁLISE DE SEQÜÊNCIA; DIRE- mais bem-sucedidos em esconder o suicídio entre
ÇÃO DA RELAÇÃO; VARIÁVEL INTERVENIENTE.
seus membros, o que dá a aparência de baixas
taxas.
Leitura sugerida: Rosenberg, Morris 1968: The Lo-
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gic of Survey Analysis. Nova York: Basic Books. Leitura sugerida: Douglas, Jack 1967 (1970): The
Social Meanings of Suicide. Princeton, NJ: Princeton
University Press ● Durkheim, Émile (1969): Le sui-
efeito Hawthorne O efeito Hawthorne ocor- cide, étude de sociologie. Paris: Félix Alcan; PUF /
re quando o conhecimento de sujeitos de que estão (1982): O suicídio. Rio de Janeiro: Zahar / (1963):
participando de um EXPERIMENTO afeta seu com- Suicide: a Sociological Study. Nova York: Free Press;
portamento e, portanto, os resultados do mesmo. Londres: Routledge & Kegan Paul.
O nome refere-se à fábrica Hawthorne, da Western
Electric Company, onde o efeito foi identificado
pela primeira vez pelo sociólogo Elton Mayo e eleitoral, comportamento ver COMPORTA-
seus colegas que pesquisaram, entre 1927 e 1932, MENTO ELEITORAL.
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as conseqüências de condições de trabalho sobre


a produtividade. Eles descobriram que, o que quer elite Elite é qualquer grupo ou categoria em um
que fizessem — mudando a iluminação, por exem- sistema social que ocupa uma posição de privilé-
plo, ou a freqüência das pausas para o café — a gio e dominação. Os exemplos incluem a classe
produtividade aumentava. Esse fato levou os pes- alta, os altos comandos militares, os professores
quisadores a concluir que a atenção dada por eles catedráticos em algumas universidades, executi-
aos trabalhadores produzia um efeito sobre o com- vos-chefes de empresas, líderes da religião orga-
portamento dos mesmos. Desde então, esses efei- nizada, altos funcionários de partido na OLIGAR-
tos experimentais passaram a ser conhecidos como QUIA política ou peritos em sistemas sociais que
efeitos Hawthorne.
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dependem de conhecimentos especializados.


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Ver também ERRO. O estudo das elites inclui pesquisas sobre a


maneira como elas recrutam seus membros, o
Leitura sugerida: Roethlisberger, Fritz J., e William
quanto podem reunir-se em torno de objetivos
J. Dickson 1939 (1961): Management and the Wor-
kers: an Account of a Research Program Conducted
comuns e clara conscientização de si mesmas co-
by the Western Eletric Company. Hawthorne Works, mo tais, e como elites diferentes coordenam esfor-
Chicago; Cambridge, MA: Harvard University Press ços para promover interesses comuns. Nos sis-
● Rose, M. 1988: Industrial Behavior, 2ªed. Har-
temas políticos das democracias representativas,
mondsworth, Inglaterra: Penguin. por exemplo, o poder é freqüentemente distribuído
entre uma grande variedade de elites que compe-
tem entre si sobre questões específicas, embora
efeito indireto ver EFEITO ESTATÍSTICO.
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E tendam a se unir sobre questões fundamentais, tal

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3ª Revisão: 31.3.97
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EMPRESA TRANSNACIONAL E MULTINACIONAL 83

como se não-elites devem poder entrar na compe- chegando-se à resposta através de raciocínio abs-
tição. O sociólogo C. Wright MILLS argumentou trato.
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que existe uma elite de poder entre os altos es- Empirismo é um método filosófico baseado na
calões das instituições militares, econômicas e idéia de que a única forma válida de conhecimento
políticas que circula livremente entre uma e outra é aquela obtida através do emprego dos sentidos.
posição de autoridade e desfruta de outras as- De acordo com esse ponto de vista, se alguma
sociações e características formativas comuns, co- coisa não pode ser observada, então de nada adian-
mo escolaridade e laços de família. ta tentar explicar fenômenos naturais ou de qual-
Essa teoria está ligada ao conceito de circula- quer outro tipo.
ção de elites, do sociólogo italiano Vilfredo PA- Ver também EMPIRISMO ABSTRATO; POSITI-
RETO, que se refere à tendência de sociedades de VISMO; REALISMO; TEORIA.
serem governadas por elites, pouco importando
quão democráticas suas instituições políticas pos-
empirismo ver EMPÍRICO.
sam parecer. Na Grã-Bretanha, por exemplo, os
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altos funcionários do governo são em geral forma-


dos por algumas poucas escolas de elite. Nos empirismo abstrato Segundo C. Wright
Estados Unidos, os membros dos gabinetes presi- MILLS, empirismo abstrato é a prática de coletar
denciais costumam ser recrutados nas classes al- dados sociológicos por si mesmos, sem pensar em
tas, qualquer que seja o partido político que esteja formular um arcabouço teórico que lhes daria
no poder. Embora uma eleição possa trazer consi- valor e significado. Mills estava preocupado com
go a aparência de mudança, os interesses dos a possibilidade de que a sociologia — em especial,
grupos privilegiados raramente são ameaçados, se com o advento dos computadores de alta veloci-
é que isto acontece, por qualquer um dos partidos. dade — se transformasse em um campo inundado
Ver também CLASSE ALTA; ESTRUTURA DE de informações mas, na maior parte, despojado de
PODER; OLIGARQUIA; RESÍDUOS E DERIVAÇÕES; idéias. Mills criticava igualmente o que chamava
de teoria geral — isto é, uma teoria sem dados
Leitura sugerida: Mills, C. Wright 1956: The Po- colhidos no mundo real e que assume forma tão
wer Elite. Nova York e Oxford: Oxford University abstrata que pouca significação tem, exceto para
Press / (1981): A elite do poder. Rio de Janeiro: Zahar os teóricos.
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● Pareto, Vilfredo 1916-19 (1963): The Mind and


Ver também EMPÍRICO; TEORIA.
Society: a Treatise on General Sociology. Londres:
Cape; Nova York: Dover. Leitura sugerida: Mills, C. Wright 1959: The So-
ciological Imagination. Nova York: Oxford Univer-
elite de poder ver ESTRUTURA DE PODER.
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sity Press / (1982): A imaginação sociológica. Rio de
Janeiro: Zahar.

emergentes, propriedades ver PROPRIEDA-


DES EMERGENTES.
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emprego ver
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E TRABALHO.

emigração ver MIGRAÇÃO.


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empresa transnacional e multinacional
Uma empresa transnacional é uma organização
comercial que opera além de fronteiras nacionais;
empatia ver MENTE.
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uma empresa multinacional faz negócios em mais


de um país, vendendo bens no mercado interna-
empírico Um enunciado empírico descreve cional ou tendo fábricas em mais de um país. No
observações ou pesquisas baseadas em observa- caso das transnacionais, o processo de produção e
ções concretas. Distingue-se, portanto, de algo comercialização é coordenado além de fronteiras
baseado apenas em processos mentais, teóricos ou nacionais, de modo que, por exemplo, peças po-
de qualquer outro tipo. “A maioria das pessoas de dem ser produzidas em um local, enviadas a outro
alta educação vota em eleições nacionais” é um para montagem e ainda para outro para a venda
enunciado empírico, baseado em observações final. Esses fatos conferem às transnacionais o
concretas da maneira como indivíduos votam. A potencial de uma enorme flexibilidade, ao transfe-
questão do que entendemos por “pessoas de alta rir várias fases da produção para países com
educação”, porém, não é uma questão empírica, impostos e salários mais baixos ou padrões mais

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84 ENCONTRO

lenientes de controle da poluição ou segurança dos semanas. Essa técnica é mais usada no método de
trabalhadores. Essa possibilidade foi muito am- ESTUDO DE CASO.
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pliada pelas revoluções recentes em computadores Sociólogos agora consideram a entrevista uma
e telecomunicações. situação social por mérito próprio, que precisa ser
Ao maximizar a flexibilidade e a diversifica- entendida como tal a fim de se compreender me-
ção, as transnacionais aumentam a vantagem com- lhor como ela afeta os dados da pesquisa de levan-
petitiva em relação a outras empresas e a influên- tamento. É menos provável, por exemplo, que
cia nos países em que operam. O tamanho e o brancos manifestem crenças racistas se entrevis-
poder dessas empresas tornaram-se tão vastos que tados por negros, forma esta de viés do entrevis-
elas rivalizam em poder econômico com a maioria tador que opera mesmo quando a atividade se
das nações, especialmente as do TERCEIRO MUN- restringe a preencher questionários anônimos na
DO. Entre as 100 maiores unidades econômicas presença de negros. Esse fato se relaciona com a
existentes no mundo, por exemplo, metade são tendência de respondentes de dar o que julgam ser
países e metade transnacionais. A emergência e respostas socialmente aceitáveis para produzir boa
crescimento das transnacionais é a última fase na impressão sobre o entrevistador. Há preocupação,
GLOBALIZAÇÃO do CAPITALISMO industrial. também, com a possibilidade de que a situação de
Ver também CONGLOMERADO; DIVISÃO IN- entrevista seja um tanto artificial e, como tal, possa
TERNACIONAL DO TRABALHO; SISTEMA-MUNDO. provocar respostas que não reflitam o que pessoas
realmente sentem, pensam ou como se compor-
Leitura sugerida: Chandler, Alfred D. Jr. 1990: tam. Como resultado dessas descobertas, estudos
Scale and Scope: The Dynamics of Industrial Capi- metodológicos de entrevistas como situações so-
talism. Cambridge: Belknap ● Gill, Stephen, e David
ciais constituem uma área importante da pesquisa
Law 1988: The Global Political Economy. Baltimore:
sociológica.
Johns Hopkins University Press.
Ver também CASO, ESTUDO DE; ERRO; OBSER-
VAÇÃO PARTICIPANTE; LEVANTAMENTO.
encontro No estudo da INTERAÇÃO social, o
encontro é uma reunião face a face na qual duas Leitura sugerida: Alreck, Pamela L., e Robert B.
ou mais pessoas interagem. Como tal é a unidade Settle 1985: The Survey Research Handbook. Home-
primária e o foco da análise.
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wood, IL: Irwin ● Mishler, Elliot G. 1986: Research
Ver também PERSPECTIVA INTERACIONISTA. Interviewing: Context and Narrative. Cambridge:
Harvard University Press ● Schuman, Howard, e
Leitura sugerida: Goffman, Erving 1961: Encoun- Stanley Presser 1981: Questions and Answers in At-
ters. Indianápolis: Bobbs-Merrill Ο 1967: Interaction titude Surveys. Nova York: Academic Press.
Ritual: Essays in Face-to-Face Behaviour. Chicago:
Aldine Ο 1971: Relations in Public: Microstudies of entrevista em profundidade ver ENTRE-
the Public Order. Nova York: Basic Books. VISTA.
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endogamia ver REGRAS DE CASAMENTO.


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envelhecimento O envelhecimento cronoló-


gico é o processo biológico universal e experiência
entrevista A entrevista é o método básico usa- que afeta todos os indivíduos com a passagem do
do na pesquisa de LEVANTAMENTO. Em geral, tempo. Já o envelhecimento social é um processo
implica um entrevistador treinado, que faz pergun- muito mais complexo, que implica a passagem de
tas face a face ou, cada vez mais, por telefone, uma posição social para outra e, com ela, para
anotando as respostas para processo e análise pos- novos conjuntos de direitos e responsabilidades,
teriores. As perguntas podem ser estruturadas — além de uma nova identidade social. Todas as
impressas de uma forma que restringe os respon- sociedades dividem o curso da vida em uma série
dentes a um dado conjunto de respostas — ou de faixas etárias, cada uma das quais ligada a
abertas, caso em que os entrevistadores fazem várias idéias culturais sobre quem as pessoas são,
sondagens, buscando explicações e detalhes sobre o que podem fazer e o que se espera delas em
as opiniões ou experiências do entrevistado. Esta relação a outros indivíduos.
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última é mais usada em entrevista em profun- O conceito de envelhecimento pode ainda ser
didade, na qual entrevistador e entrevistado po- aplicado a populações inteiras. As populações da
dem passar horas juntos em um período de dias ou Europa e da América do Norte, por exemplo, vêm

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EPISTEMOLOGIA 85

envelhecendo há longo tempo, à medida que as por outro. O fato de o hábito de fumar cigarros ser
taxas de mortalidade e, em especial, as de natali- mais comum entre as classes baixa e operária, por
dade, caem. Esse fato teve como resultado pro- exemplo, sugere ligações entre sistemas de classe
porções decrescentes de jovens e proporções cres- e distribuição de comportamentos benéficos e des-
centes de idosos. Na Grã-Bretanha 16% da popu- trutivos para a vida. Entre epidemiologistas tem
lação têm 65 anos ou mais de idade, em compara- havido a tendência de recorrer a explicações in-
ção com apenas 4% na Índia. Nos Estados Unidos, dividualísticas desses padrões — considerar o há-
os centenários constituem agora a faixa etária em bito de fumar cigarros, por exemplo, como nada
mais rápido crescimento. mais do que uma opção pessoal, em vez de procu-
Ver também CURSO DE VIDA; ESTRUTURA ETÁ- rar verificar como ambientes sociais afetam os
RIA; FAIXA ETÁRIA; GERONTOLOGIA; TEORIA DO padrões de opção. Há, contudo, um grande poten-
DESENGAJAMENTO. cial de progresso, além desses enfoques individua-
lísticos, e de desenvolvimento de uma epidemio-
Leitura sugerida: Eisenstadt, Shmuel N. 1956:
logia realmente social.
From Generation to Generation. Nova York: Free
Ver também TAXA DE MORTALIDADE.
Press ● Foner, N. 1984: Ages in Conflict: A Cross-
Cultural Perspective on Inequalities Between Young Leitura sugerida: Friedman, Gary D. 1974: A Pri-
and Old. Nova York: Columbia University Press ● mer of Epidemiology. Nova York: McGraw-Hill ●
Riley, Matilda White 1987: “On the significance of
Valanis, Barbara 1986: Epidemiology in Nursing and
age in sociology”. American Sociological Review
Health Care. Nova York: Appleton-Century-Crofts.
52(1): 1-14.

epistemologia Em filosofia, epistemologia é o


epidemiologia Epidemiologia é o ramo da
estudo do conhecimento, da base para conhecer e
ECOLOGIA que estuda como enfermidades, doen-
a maneira como pessoas vêm a saber o que sabem.
ças e outras causas de morte e invalidez (tais como
Às vezes, o termo é aplicado apenas ao que se
acidentes) se espalham e se distribuem entre po-
conhece através de meios científicos, embora seja
pulações. Focaliza a incidência de condições (o
número de novos casos que ocorrem todos os usado com freqüência em sentido geral para refe-
anos), sua prevalência (a soma acumulada de casos rir-se a todos os tipos de conhecimento e ao ato de
existentes em um dado momento numa população, conhecer.
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sem referência a quando surgiram pela primeira A epistemologia interessa-se por várias ques-
vez), e os fatores de risco ambientais e de outra tões ligadas ao ato de conhecer, incluindo a relação
natureza que explicam esses padrões.
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entre o conhecedor e o objeto de conhecimento; as
Um assunto de interesse especial no particular variações entre diferentes tipos de conhecimento
é como as condições se distribuem geografica- (científico, espiritual etc.); a natureza da verdade;
mente e de acordo com as características sociais, a possibilidade de compreender a vida social usan-
tais como raça, sexo, idade, renda, ocupação e do apenas dados científicos; a obtenção de qual-
status matrimonial. Ao ser diagnosticada a Aids quer tipo de conhecimento válido sobre qualquer
pela primeira vez, por exemplo, os casos se con- coisa; os métodos mais válidos para adquirir dife-
centraram entre homossexuais, usuários de drogas rentes tipos de conhecimento; e o papel da razão e
e indivíduos que haviam recebido transfusões de dos sentidos no ato de conhecer.
sangue, padrão este que forneceu pistas impor- Na sociologia, é grande o desacordo sobre a
tantes sobre suas origens geográficas e os meca- epistemologia mais apropriada para o trabalho
nismos através dos quais estava sendo transmitida sociológico — em outras palavras, a maneira mais
de uma pessoa a outra. Analogamente, mapas que apropriada de conhecer a vida social. Os que ado-
mostram a distribuição de várias formas de câncer tam o método científico, por exemplo, abstêm-se
geram perguntas sobre condições de vida, riscos em geral de questionar se técnicas empíricas são
ocupacionais e características ambientais. adequadas para compreender o mundo social e
Quando se combina com a perspectiva socio- focalizam-se, em vez disso, em decidir que méto-
lógica, a epidemiologia coloca questões sobre a dos usarão. A opinião contrária é que para com-
ligação entre a vida dos seres humanos como preender a base subjacente da vida social, o soció-
organismos biológicos, por um lado, e as caracte- logo tem de dar tanta atenção ao que não pode
rísticas culturais e estruturais de sistemas sociais, observar diretamente quanto ao que pode.

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86 ERRO

Ver também CIÊNCIA; CONHECIMENTO; IDIO- erro amostral Erro amostral é aquele que
GRÁFICO E NOMOTÉTICO; METODOLOGIA; OBJE- ocorre quando amostras são usadas para gerar
TIVIDADE; ONTOLOGIA; POSITIVISMO; REALIS- inferências sobre as populações de onde são reti-
MO; VALIDADE. radas. Dividem-se em dois tipos: aleatório e de
viés. Uma vez que pesquisadores raramente po-
Leitura sugerida: Keat, R., e John Urry 1981: So-
dem saber se uma dada amostra está errada, a idéia
cial Theory as Science. Londres: Routledge & Kegan
de erro amostral aplica-se mais à probabilidade a
Paul.
longo prazo de que os resultados de uma amostra,
como a percentagem de pessoas que casaram mais
erro Um dos aspectos mais importantes em de uma vez, difiram dos correspondentes valores
qualquer pesquisa consiste em estimar o volume da população em não mais do que uma dada
de erro em um dado conjunto de dados. São dois margem de erro.
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os tipos de erro: o aleatório e o viés. Se o erro é Até mesmo os melhores modelos de amostra
aleatório, então todos os padrões possíveis de erro geram certo volume de erro aleatório, um padrão
são igualmente prováveis. Se pedimos a entrevis- de erros que tendem a se cancelar mutuamente, de
tados, por exemplo, que nos digam se foram víti- modo que o resultado geral ainda reflete de forma
mas de crimes no ano anterior, podemos cometer precisa o verdadeiro valor. De modo geral, o erro
dois tipos de engano: anotar que foram vitimados aleatório diminui com tamanhos maiores da amos-
quando não foram, ou que não foram quando na tra e varia diretamente com o volume de variação
verdade foram. Se nosso objetivo, contudo, con- na população da qual é tirada. Em outras palavras,
siste em estimar a percentagem de pessoas que grandes amostras tendem a ser mais precisas do
foram vitimadas, então esses erros não alterarão o que as pequenas; além disso, se há um grande
resultado, enquanto houver iguais números de am- volume de variação em alguma característica da
bos os tipos. Se para cada pessoa incorretamente população (indivíduos têm idades que variam
listado como vítima alguém for incorretamente muito, por exemplo), as amostras usadas para
listada como não-vítima, os dois erros se cancela- estimar as características da população (tal como
rão no longo prazo.
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a idade média) ficarão mais sujeitas a erro aleatório


Com o viés, no entanto, o erro tende a ser mais do que amostras semelhantes tiradas de uma po-
sistemático, com o resultado de que alguns pa- pulação na qual as pessoas tendem a ser mais
drões de erro tornam-se mais prováveis do que parecidas.
outros. Isso parece de fato acontecer na comuni- Uma vez que ocorre por acaso, o erro aleatório
cação de crimes. É muito mais provável que pes-
pode ser minimizado através do uso de várias
soas neguem ter sido vítimas do que alegar falsa-
técnicas de amostragem, como a realização de uma
mente que o foram. Isso significa que se confiamos
grande amostra ou o uso de um modelo de AMOS-
nos relatórios da polícia como indicadores da in-
TRA ESTRATIFICADA. Não podemos, no entanto,
cidência real de crimes, os resultados subestima-
eliminá-lo por completo. A inferência estatística,
rão seu número.
ou o processo de usar resultados de amostra para
O viés e o erro aleatório podem criar problemas
estimar características de populações, é por essa
para os pesquisadores, tanto no processo de medi-
razão, principalmente, uma questão de tentar es-
ção como no uso de amostras para descrever po-
timar o volume de erro aleatório que terá maior
pulações. Entre as duas formas de erro, o viés é
probabilidade de ser produzido por um determina-
muito mais grave por causa de seu potencial de
do modelo de amostra.
distorção. O erro aleatório, por outro lado, tende a
cancelar-se no longo prazo e, se os métodos cor- O viés de amostragem é mais grave do que o
retos de pesquisa forem usados, pode ser estimado erro aleatório, já que o padrão de erros é acumula-
estatisticamente e, portanto, levado em conta. do em uma ou outra direção, o que quer dizer que
Ver também ANÁLISE DE REGRESSÃO; DISTRI- os erros não tendem a se corrigir mutuamente e,
BUIÇÃO AMOSTRAL; ENTREVISTA; ERRO AMOS-
portanto, geram uma distorção autêntica. Um mo-
TRAL; ERRO PADRÃO; ESTATÍSTICA; ESTIMATIVA;
delo de amostra que usa catálogos telefônicos para
MEDIDA.
fazer seleções, por exemplo, tenderá a produzir
amostras que são viesadas para a extremidade
mais alta do STATUS SOCIECONÔMICO, uma vez
erro aleatório ver ERRO.
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E que pessoas que não têm telefone tenderão a ser as

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ESCALA DE MEDIÇÃO 87

mais pobres. O viés é também mais grave do que social ou uma experiência de vida, como a morte.
o erro aleatório porque há poucas maneiras, se é Tipicamente, os pesquisadores elaboram uma es-
que há alguma, de estimar sua presença em um cala fazendo aos respondentes certo número de
dado conjunto de dados, motivo pelo qual pesqui- perguntas, todas elas relacionadas com a questão
sadores fazem um grande esforço para planejar em pauta e que os convida a concordar ou discor-
amostras que lhe minimizem a possibilidade de dar de declarações como “Mulheres e homens
ocorrência. devem ter igual tratamento perante a lei” ou “Mu-
Ver também AMOSTRA; AMOSTRA ESTRATIFI- lheres não devem ter o direito de usar o aborto
CADA; ERRO; ESTATÍSTICA. como uma forma de controle da natalidade”. Uma
escala é formada reunindo-se as respostas a todas
Leitura sugerida: Kalton, Graham 1984: Introduc- as perguntas em um único escore numérico, co-
tion to Survey Sampling. Beverly Hills, CA: Sage nhecido como índice. A escala é usada para clas-
Publications ● Kish, Leslie 1965: Survey Sampling. sificar os respondentes em termos de sua posição
Nova York: Wiley. no que diz respeito à questão. O apoio aos direitos
das mulheres, por exemplo, poderia ser medido
erro de medição ver ERRO.
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por perguntas que abordam muitas dimensões di-
ferentes da questão, do aborto ao emprego, à lide-
rança na igreja, à violência sexual e aos relaciona-
erro padrão O erro padrão é uma medida es- mentos familiares. Altos escores nessa escala po-
tatística do volume de variação em uma DISTRI-
deriam indicar forte apoio aos direitos das mu-
BUIÇÃO AMOSTRAL. De modo geral é calculado lheres, enquanto que os baixos sugerir forte opo-
como a raiz quadrada do resultado obtido da divi-
sição.
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são da VARIÂNCIA da população pelo tamanho da


Há diferentes técnicas e procedimentos para
amostra (transformando-a basicamente em uma
decidir que itens devem ser incluídos numa escala.
espécie de desvio padrão). Uma vez que o tamanho
Algumas dependem de painéis de juízes, ao passo
da amostra está no denominador, o erro padrão
que outras utilizam técnicas estatísticas com vistas
diminui à medida que o tamanho da amostra au-
a determinar que itens se relacionam mais entre si
menta.
e a questão que está sendo estudada. As escalas
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Desde que a distribuição amostral contém to-


mais comuns são as de Likert, Guttman, e Thur-
dos os resultados possíveis que poderiam ser ob- stone.
tidos selecionando-se uma amostra de uma deter-
Ver também ANÁLISE DE CONGLOMERADOS;
minada população, o erro padrão é uma quanti-
ANÁLISE FATORIAL; DISTÂNCIA SOCIAL; MEDIDA.
dade crucial para se tirar inferências das amostras.
Se o erro padrão é grande, as várias amostras Leitura sugerida: Dawes, Robyn M., e Tom L.
diferirão muito da média, que é o valor da popu- Smith 1985: “Attitude and opinion measurement”. In
lação que está sendo estimado. Isso significa que Handbook of Social Psychology, 3ªed., org. por G.
qualquer dada amostra provavelmente conterá um Lindzey e E. Aronson. Nova York: Random House ●
erro considerável. Quanto menor o erro padrão, Sudman, Seymour, e Norman R. Bradburn 1983:
contudo, menos variação haverá entre as amostras Asking Questions: A Practical Guide to Ques-
potenciais e, portanto, menor a probabilidade de tionnaire Design. São Francisco: Jossey-Bass.
que qualquer dada amostra que for selecionada
incida em erro por uma margem inaceitável. escala de Bogardus ver DISTÂNCIA SOCIAL.
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Uma vez que amostras são usadas para estimar


uma grande variedade de características de popu-
lação — de médias e percentagens a correlações escala de Guttman ver DISTÂNCIA SOCIAL;
entre variáveis —, há um número igualmente ESCALA DE ATITUDES.
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grande de fórmulas para estimar os erros padrão


correspondentes. escala de Likert ver ESCALA DE ATITUDES.
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Ver também ERRO; ESTATÍSTICA.


escala de medição O objetivo da pesquisa
escala de atitudes A escala de atitudes é uma empírica é fazer comparações — verificar como
maneira de medir como pessoas vêem alguma crenças diferem de uma religião a outra, por exem-
coisa, seja um grupo de pessoas, uma questão plo, ou comparar a fecundidade de pessoas em

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88 ESCALA DE THURSTONE

classes sociais diferentes. Se queremos fazê-las, Há, contudo, uma diferença importante entre
temos de observar pessoas e sistemas sociais e esses dois exemplos de variáveis com escala de
notar seus variados comportamentos, caracterís- intervalo. Ambos nos permitem comparar catego-
ticas, conseqüências etc. Estas tomam a forma de rias, mas, no caso de idade, podemos realmente
VARIÁVEIS, de classe, raça e sexo até a complexi- tomar a razão entre uma escala e outra: podemos
dade de organizações ou o poder de nações. dizer que a idade de 30 anos é duas vezes a idade
As variáveis diferem nos tipos de comparações de 15. Com a escala de graus centígrados, porém,
que podemos fazer com elas e estas diferenças não podemos fazer o seguinte: um dia em que a
assumem a forma de quatro diferentes escalas de temperatura chega a 30 graus não é duas vezes
medição: 1) nominal, 2) ordinal, 3) intervalo e 4) mais quente do que um dia de 15 graus. A razão
razão. A propriedade escala nominal permite-nos disso é que zero grau centígrado não é um ponto
classificar variáveis simplesmente em termos de zero autêntico. Não representa a ausência de calor
seus nomes, a fim de determinar se são as mesmas (ao contrário da escala Kelvin). Uma idade de
ou diferentes. A religião, por exemplo, é uma zero, contudo, de fato representa um verdadeiro
variável que consiste de categorias tais como mu- zero, o que nos permite tomar a razão entre uma
çulmana, cristã, judaica, budista ou hinduísta. A idade e outra. A variável que nos permite proceder
única maneira como pessoas podem ser compara- assim tem uma propriedade de escala de razão.
das nos termos dessa variável é ver se são pareci- Há quatro pontos importantes a notar sobre as
das — têm a mesma religião — ou são diferentes. escalas de medição: 1) elas são ordenadas de alta
Elas não podem ser classificadas, por exemplo, de a baixa, com as propriedades de escala nominal
“alta preferência religiosa” para “baixa preferên- consideradas como “baixas” e as de escala de
cia religiosa”. Todas as variáveis têm essa proprie- razão como “altas”; 2) uma variável é conhecida
dade de escala nominal (ou categórica). pelas mais altas propriedades de escala que tem.
Se a variável tem uma propriedade de escala Assim, religião é uma variável de escala nominal,
ordinal, podemos classificar as observações em graus centígrados é uma variável de escala de
termos de mais alto e mais baixo, mais ou menos, intervalo e idade é uma variável de escala de razão,
melhor ou pior. Se pedimos a pessoas que clas- mesmo que todas tenham em comum propriedades
sifiquem seu grau de compromisso religioso em de escala nominal; 3) a variável que tem uma
termos de “alto”, “médio”, “baixo” e “nenhum”, a propriedade de escala terá também abaixo dela
resultante variável de quatro categorias teria uma todas as outras propriedades. Dessa maneira, uma
propriedade ordinal, no sentido em que podería- variável de escala de intervalo tem propriedades
mos ordenar pessoas como tendo compromisso de de escalas de intervalo, ordinal e nominal; e 4) a
alto a baixo. Note-se, contudo, que nada podemos adequação de técnicas estatísticas usadas para ana-
dizer sobre quão grande as diferenças são entre as lisar dados depende da escala de medição das
categorias. Não sabemos qual o tamanho da dife- variáveis envolvidas, o que é o motivo porque é
rença entre “alto” e “médio”, por exemplo, ou tão importante podermos diferenciar uma da outra.
como essa diferença se compara com a diferença Ver também DICOTOMIA.
entre “baixo” ou “nenhum”. Note-se também que
toda variável que tem propriedades de escala ordi- escala de Thurstone ver ESCALA DE ATITU-
nal as tem também de escala nominal, o que nos DES.
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permite categorizar pessoas quanto a ter o mesmo


ou diferentes níveis de compromisso religioso.
escala etária ver FAIXA ETÁRIA.
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Se uma variável tem a propriedade de escala


de intervalo, as distâncias efetivas (ou intervalos)
entre as categorias podem ser comparadas. Se escala-f ver AUTORITÁRIA , PERSONALIDADE.
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usamos a escala Celsius para medir temperatura,


por exemplo, podemos dizer que a diferença entre Escola de Chicago Escola de Chicago é o no-
100 e 150 graus é a metade da diferença entre 200 me dado a um enfoque do trabalho sociológico
e 300 graus. Analogamente, podemos dizer que a associado ao Departamento de Sociologia da Uni-
diferença entre as idades de 20 e 25 é a mesma que versidade de Chicago, fundado em 1892, e que foi
existe entre as idades de 50 e 55, ou que a que há o primeiro de seu tipo nos Estados Unidos. É
entre as idades de 18 e 24 é metade da diferença conhecida como “escola” por causa de sua concen-
entre as idades de 30 e 42. tração característica em problemas urbanos, seu

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ESCOLA DOS ANNALES 89

uso pioneiro de métodos ecológicos e etnográfi- Escola de Relações Humanas A Escola de


cos, e desenvolvimento de idéias básicas que evo- Relações Humanas é uma teoria que se propõe a
luíram e se transformaram no que é hoje a PERS- explicar o trabalho e a produtividade sob o CAPI-
PECTIVA INTERACIONISTA.
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E TALISMO industrial. Baseia-se na idéia de que o
A Escola de Chicago está mais estreitamente comportamento de trabalhadores depende forte-
ligada a seu fundador, Albion Small (1854-1926) mente de seus relacionamentos recíprocos, que
e a seus colegas Ernest W. BURGESS, George grupos de trabalhadores funcionam na base de
Herbert MEAD, Roderick McKenzie, Robert Ezra entendimentos informais, que desempenham um
Park, William I. THOMAS, Louis WIRTH, e Flo- papel tão importante no processo de produção
rian ZNANIECKI. Mead e Thomas estudaram prin- quanto os objetivos e expectativas formais fixados
cipalmente a interação social, em especial na ma- pela administração. Um senso de solidariedade de
neira como ela afeta o desenvolvimento da identi- grupo e trabalho de equipe, por exemplo, podem
dade pessoal e o SELF. Mas é o trabalho dos res- aumentar a produtividade. Mas a mesma solidarie-
tantes, contudo — os que se concentraram nos dade pode funcionar para reduzir a produtividade,
problemas do rápido crescimento urbano — o mais como acontece quando trabalhadores se defendem
citado como característico da Escola de Chicago. de excesso de trabalho estabelecendo e cumprindo
Os Estados Unidos da passagem do século padrões mais baixos do que os fixados pela admi-
eram uma região de mudança rápida, imigração nistração.
maciça, industrialização e urbanização, o que le- A Escola de Relações Humanas teve origem na
vou os membros da Escola de Chicago a imergir obra de Elton Mayo e seus colegas nos famosos
na cidade como se ela fosse um gigantesco labo- Estudos Hawthorne, assim denominado por causa
ratório, variando seus estudos dos padrões da ocu- do nome da fábrica onde realizaram seus experi-
pação urbana do espaço e de racismo e pobreza à mentos na década de 1930. Ela surgiu em parte
estonteante diversidade de estilos de vida étnicos como reação aos pressupostos da ADMINISTRA-
ÇÃO CIENTÍFICA de que trabalhadores são motiva-
que coexistiam na mesma comunidade. Eles for-
dos principalmente por interesse individual, sob a
mularam, por exemplo, uma teoria de crescimento
forma de salários mais altos. Sua influência des-
urbano baseada na idéia de que a COMPETIÇÃO
apareceu na década de 1960 porque a teoria dava
pela terra resulta em padrões característicos de seu
pouca atenção à importância do conflito de classe
uso e da composição dos bairros. Observaram
entre trabalhadores e administração.
também a rica diversidade da vida de pessoas,
Ver também EFEITO HAWTHORNE.
variando das áreas marginais aos bairros étnicos
da rica “Costa Dourada”, ao longo das praias do Leitura sugerida: Mayo, Elton 1945: The Social
Lago Michigan. A Escola de Chicago, em suma, Problems of an Industrial Civilization. Cambridge,
distinguiu-se por seu corpo substancial de trabalho MA: Harvard University Press; Londres: Routledge
sociológico e pela dinâmica e compromisso com and Kegan Paul (1949) ● Roethlisberger, Fritz J., e
a compreensão direta de aspectos fundamentais da William J. Dickson 1939: Management and the Wor-
vida social. kers: an Account of a Research Program Conducted
Ver também PERSPECTIVA INTERACIONISTA; by the Western Eletric Company, Hawthorne Works,
ECOLOGIA URBANA; URBANIZAÇÃO E URBANIS- Chicago. Cambridge, MA: Harvard University Press
● Rose, M. 1988: Industrial Behavior, 2ªed. Har-
MO.
mondsworth, Inglaterra: Penguin.
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Leitura sugerida: Blumer, Herbert 1984: The Chi-


cago School of Sociology: Institutionalization, Diver-
sity, and the Rise of Sociological Research. Chicago:
Escola dos Annales Escola dos Annales é o
nome dado a um enfoque da história iniciado em
University of Chicago Press ● Park, Robert E., Ernest
Burgess e Roderick D. McKenzie, orgs. 1925: The
1929 por um grupo de historiadores franceses que
City. Chicago: University of Chicago Press ● Zor- queriam ligar a história à sociologia. Esta orienta-
baugh, Harvey W. 1929: The Gold Coast and the ção trazia para a história, que é muitas vezes escrita
Slum: A Sociological Study of Chicago’s Near North sob a forma de uma cronologia de fatos e de
Side. Chicago: University of Chicago Press. pessoas que neles figuraram com destaque, uma
maior ênfase nos sistemas sociais, em seus as-
pectos culturais, estruturais, populacionais e eco-
Escola de Frankfurt ver TEORIA CRÍTICA.
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E lógicos, e no papel que desempenham em grandes

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90 ESCORE BRUTO

tendências históricas ao mudar a forma da vida sua distância da média da distribuição. Um escore
social. Em vez de focalizar-se em líderes e eventos padrão (ou reduzido) é calculado como a diferença
políticos, os membros da Escola dos Annales in- entre ele e a média, dividida pelo desvio padrão
teressavam-se mais por grandes forças, como o para a distribuição. Neste caso, 120 corresponde
declínio do FEUDALISMO, a industrialização e o ao desvio padrão de (120-100)/10 = +2,0, o que
crescimento do imperialismo e do CAPITALISMO indica que o escore de 120 está a dois desvios
global. Esse enfoque deu à Escola dos Annales padrão acima da média. Um escore padrão de 80
uma ligação sumamente estreita com o pensamen- corresponde a (80-100) = -2,0, o que indica que
to marxista.
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E está dois desvios padrão abaixo da média.
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Lucien Febvre e Marc Bloch foram as princi- O escore padrão desempenha um papel fun-
pais figuras dessa escola, sobretudo pelo fato de damental no cálculo de probabilidades associado
terem fundado, em 1929, a revista Annales d’His- à INFERÊNCIA ESTATÍSTICA.
toire Économique et Sociale. O estudo de Bloch Ver também PADRONIZAÇÃO.
sobre a sociedade feudal é uma obra clássica nes-
sa tradição. A mais notável entre obras recentes Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
dessa escola é a história global em vários volumes Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed.
de Fernand BRAUDEL e os estudos de Imma- Ithaca, IL: F.E. Peacock.
nuel WALLERSTEIN sobre o sistema econômico
mundial. escore reduzido ver ESCORE PADRÃO; PA-
Ver também SISTEMA-MUNDO; SOCIOLOGIA DRONIZAÇÃO.
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HISTÓRICA.

Leitura sugerida: Bloch, Marc. 1940: La société esfera pública ver ESFERA PRIVADA E ESFE-
féodale. Paris: Albin Michel / (1961): Feudal Society: RA PÚBLICA.
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Social Classes and Political Organization. Londres:


Routledge & Kegan Paul; Chicago: University of
esfera privada e esfera pública As esferas
Chicago Press ● Braudel, Fernand 1981: The Structu-
privada e pública são os dois tipos de esferas
res of Everyday Life: Civilization and Capitalism,
15th-18th Century. Vol.1. Nova York: Harper and
associados a gênero que se tornou prática comum
Row Ο 1983: The Wheels of Commerce, Civilization considerar como dividindo o mundo social. A
and Capitalism, 15th-18th Century. Vol.1. Nova esfera privada é o estereótipo típico do mundo
York: Harper and Row Ο 1984: The Perspective of the feminino do lar, da família, do TRABALHO DOMÉS-
World: Civilization and Capitalism, 15th-18th Cen- TICO não remunerado; a esfera pública é o mundo
tury. Vol.3. Nova York: Harper and Row ● Waller- supostamente masculino da política e do emprego
stein, Immanuel 1974: The Modern World System. remunerado. A emergência das duas esferas data
Nova York e San Diego: Academic Press Ο 1980: The da REVOLUÇÃO INDUSTRIAL capitalista, que tirou
Modern World System II. Mercantilism and the Conso- a produção do lar e levou-a para a fábrica, arras-
lidation of the European World Economy, 1600-1750. tando nesse processo os homens e deixando es-
Nova York e San Diego: Academic Press Ο 1989: The posas e mães atrás para cuidar dos filhos e da casa.
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Modern World System III: The Second Era of Great Essa opinião tem sido criticada por intelectuais
Expansion of the Capitalist World Economy, 1730- feministas que argumentam que a cisão priva-
1840. Nova York e San Diego: Academic Press. do/público constitui uma ilusão que serve para
reforçar a subordinação da mulher sob um regime
de PATRIARQUIA. Uma vez que a maioria das
escore bruto ver ESCORE PADRÃO.
mulheres trabalha dentro e fora de casa, e porque
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a vida de trabalho produz efeitos tão profundos


escore padrão Em uma DISTRIBUIÇÃO DE sobre todos os membros da família, induz a erro
CURVA NORMAL, escores individuais são descri- tratar trabalho e família como sendo mundos dis-
tos em uma entre duas maneiras. Consideremos a tintos e separados. Além disso, mesmo as mu-
distribuição de escores de QI, que tem a forma de lheres que não trabalham por salário fora de casa
uma curva normal, com uma MÉDIA de 100 e um encarregam-se ainda de importante trabalho pro-
DESVIO PADRÃO de 10 pontos. Um escore, tal dutivo, proporcionando os serviços essenciais que
como 120, é conhecido como escore bruto. Pode- reproduzem a geração seguinte de trabalhadores e
mos descrevê-lo também, porém, em termos de mantêm a capacidade de trabalhar da geração cor-

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ESTADO 91

rente. A cisão privado/público ignora também o Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
fato de que as mulheres negras e das classes ope- Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis, 2ªed.
rária e baixa nunca tiveram o luxo de não trabalhar Ithaca, IL: F.E. Peacock ● Rosenberg, Morris 1968:
por salário fora de casa, enquanto ao mesmo tempo The Logic of Survey Analysis. Nova York: Basic
cuidavam da maior parte do trabalho doméstico. Books.
Outras argumentam que embora a reconhecida
cisão entre as esferas pública e privada talvez não espoliação ver EXPLORAÇÃO.
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possa refletir com precisão a verdadeira natureza


da vida das mulheres, constitui ainda assim uma
imagem cultural poderosa que é freqüentemente
Estado Da forma definida por Max WEBER, o
Estado é a INSTITUIÇÃO social que mantém mono-
usada para limitar suas vidas e tornar invisível sua
pólio sobre o uso da força. Neste sentido, o Estado
produtividade econômica. Neste sentido, a cisão
é definido por sua autoridade para gerar e aplicar
privado/público desempenha um papel ideológico
PODER coletivo. Como acontece com todas as
importante na perpetuação da desigualdade entre
instituições sociais, o Estado é organizado em
os sexos. torno de um conjunto de funções sociais, incluindo
manter a lei, a ordem e a estabilidade, resolver
Leitura sugerida: Thorne, Barrie e Yalom, Marilyn
vários tipos de litígios através do sistema judiciá-
orgs. 1982: Rethinking the Family. Nova York: Long-
rio, encarregar-se da defesa comum e cuidar do
man ● Zaretsky, Eli 1976: Capitalism, the Family and
bem-estar da população de maneiras que estão
Personal Life. Nova York: Harper.
além dos meios do indivíduo, tal como implemen-
tar medidas de saúde pública, prover educação de
especificação Na análise estatística da relação massa e financiar pesquisa médica dispendiosa.
entre variáveis, a especificação é a prática de De uma PERSPECTIVA DE CONFLITO, no entanto,
verificar se uma dada relação permanece a mesma o Estado opera também no interesse dos vários
em diferentes segmentos de uma população. Isso grupos dominantes, como as classes econômicas
e grupos raciais e étnicos.
é conhecido também como relações condicionais.
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Estado não é a mesma coisa que governo,


A relação entre educação superior e renda nos
embora os termos sejam muitas vezes usados um
Estados Unidos é mais forte entre afro-americanos
pelo outro fora da sociologia e da ciência política.
do que entre brancos. A razão disso é que entre os
O Estado é uma instituição social, o que significa
brancos há mais “exceções” à “regra” geral de que,
que consiste de uma forma ou plano social de
a fim de auferir uma renda mais alta, o indivíduo
como várias funções devem ser desempenhadas.
precisa ter educação mais alta. Entre os afro-ame- O sistema parlamentar, por exemplo, é uma ma-
ricanos, porém, é muito mais difícil auferir renda neira de realizar as várias tarefas de governo, tal
alta sem educação correspondentemente alta. A como promulgar legislação. O governo, contudo,
educação, portanto, é um meio mais exato de é um conjunto particular de pessoas que, em qual-
predizer renda entre os negros e a relação entre as quer dado tempo, ocupam posições de autoridade
duas variáveis é por isso mesmo mais forte.
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dentro do Estado. Neste sentido, os governos se


Neste caso, o ato de controlar a variável no revezam regularmente, ao passo que o Estado
tocante à raça, a fim de verificar o que acontece à perdura e só pode ser mudado com dificuldade e
relação entre educação e renda, é chamado de muito lentamente.
“especificação de raça”. A verificação subseqüen-
te de que a relação de fato varia em força de uma Leitura sugerida: Marx, Karl 1845 (1964): Selected
categoria de pessoas para outra é denominada de Writings in Sociology and Social Philosophy. Nova
efeito de interação. Em alguns casos, os efeitos de York: McGraw-Hill; Harmondsworth: Penguin
interação podem assumir também a forma de di- (1967) ● Parsons, Talcott 1969: Politics and Social
Structure. Nova York: Free Press ● Weber, Max 1920
ferenças reais na direção da relação (positiva em
(1982): Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: Zahar
um grupo e negativa em outro) ou a existência de
/ (1946, 1970): “Politics as a vocation”. In From Max
uma relação (positiva ou negativa em um grupo ou Weber: Essays in Sociology, org. e trad. por Hans H.
inexistente em outro). Gerth e C. Wright Mills. Nova York: Oxford Univer-
Ver também DIREÇÃO DA RELAÇÃO; VARIÁ- sity Press (1946); Londres: Routledge & Kegan Paul
VEL; VARIÁVEL DE CONTROLE. (1970).

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92 ESTADO DE BEM-ESTAR

estado de bem-estar O Estado de bem-estar Os estatísticos identificam dois tipos principais


é um sistema social no qual o governo assume a dessa ciência: a descritiva e a inferencial. A es-
responsabilidade básica pelo bem-estar de seus tatística descritiva simplesmente expõe e explica
CIDADÃOS, providenciando para que o povo tenha fenômenos que se prestam a ser contados e clas-
acesso a recursos básicos como habitação, servi- sificados, tais como a freqüência de relações se-
ços de saúde, educação e emprego. O Estado de xuais ou o volume de renda que pessoas auferem
bem-estar foi inicialmente implantado na Alema- todos os anos em uma dada população. Podería-
nha em fins da década de 1800 e subseqüente- mos, por exemplo, verificar como as práticas se-
mente na Grã-Bretanha e na maior parte da Europa xuais variam de uma classe social a outra a fim de
ocidental e Escandinávia. Essa modalidade de Es- obter alguma pista para o motivo por que as taxas
tado não se desenvolveu ainda no Japão ou nos de natalidade variam também entre as classes.
Estados Unidos, sendo esta última a única socie- A estatística inferencial (ou indutiva) preenche
dade industrializada que não dispõe de um serviço as mesmas funções que a descritiva, com a tarefa
nacional de assistência médica.
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adicional de chegar a conclusões sobre populações


Embora freqüentemente associado ao socialis- inteiras, usando informações colhidas em uma
mo, o Estado de bem-estar tem sido criticado, do AMOSTRA, e não em um CENSO. Se queremos
ponto de vista marxista, por administrar o conflito saber como o número de amigos que pessoas têm
potencial entre trabalhadores e capitalistas. O se-
varia dependendo de viverem no interior, em uma
guro-desemprego e os programas de garantia de
cidade grande ou numa metrópole, podemos obter
renda para ajuda aos pobres, por exemplo, são
informações de uma amostra de pessoas em cada
considerados mecanismos para enfraquecer os
um desses tipos de comunidade. O que quer que
efeitos da exploração capitalista e desarmar o po-
pareça a informação contida em nossa amostra,
tencial da classe operária para a CONSCIÊNCIA DE
ainda teremos o problema de usá-la para fazer
CLASSE e a ação revolucionária.
enunciados sobre aquilo em que estamos real-
Leitura sugerida: O’Connor, James 1973: The Fis- mente interessados, que são as populações mais
cal Crisis of the State. Nova York: St. Martin’s Press amplas, das quais foram extraídas as informações
/ (1977): USA: a crise do estado capitalista. Rio de — comunidades do interior, cidade pequena e
Janeiro: Paz e Terra ● Offe, Claus 1984: Contradic- metrópoles em geral. Tudo isso exige um conjunto
tions of the Welfare State, org. por John Keane. Cam- adicional de técnicas matemáticas, conhecidas co-
bridge, MA: MIT Press ● Pinker, R. 1979: The Idea of mo estatística inferencial.
Welfare. Londres: Heinemann Educational Books.
De modo geral, a inferência estatística é usada
para estimar características de população (tais co-
estados, sistema de ver FEUDALISMO.
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mo médias, percentagens ou correlações) ou para
submeter a teste HIPÓTESES sobre características
estatística Estatística é um conjunto de técni- da mesma. Em ambos os casos, o fundamental no
cas matemáticas usadas para organizar, analisar e processo é estimar o volume de ERRO associado a
interpretar informações em forma de números. Se qualquer dado resultado ou conclusão.
queremos saber como o comportamento sexual de Ver também ESTIMATIVAS; HIPÓTESE E TESTE
adolescentes é afetado colocando anticoncepcio- DE HIPÓTESE.
nais à disposição dos mesmos, podemos obter
informações nesse sentido de adolescentes que Leitura sugerida: Bohrnstedt, George W., e David
diferem no quanto de acesso têm a meios contra- Knoke 1988: Statistics for Social Data Analysis. 2ªed.
ceptivos. Poderíamos calcular vários indicadores Ithaca, IL: F.E. Peacock.
de atividade sexual, tal como a percentagem dos
que são sexualmente ativos ou o número médio de
relações sexuais por mês e usá-los para fazer com- estatística descritiva ver ESTATÍSTICA.
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parações baseadas em acesso diferente a anticon-


cepcionais. A estatística diz respeito não só ao
cálculo de quantidades, como percentagens e mé- estatística indutiva ver ESTATÍSTICA.
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dias, mas também a resultados — as próprias


percentagens e médias em si, cada uma das quais
pode ser mencionada como “uma estatística”.
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E estatística inferencial ver ESTATÍSTICA.
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ESTIGMA 93

estatística não-paramétrica As técnicas es- Embora pessoas geralmente se manifestem


tatísticas para uso de uma AMOSTRA para descre- contra generalizações, como se elas fossem es-
ver uma POPULAÇÃO freqüentemente exigem su- tereótipos, há uma diferença importante entre os
posições matemáticas rigorosas e restritivas. Em dois termos: a generalização não se aplica a in-
alguns casos, por exemplo, a DISTRIBUIÇÃO das divíduos, mas apenas a conjuntos de indivíduos,
VARIÁVEIS em questão precisa ter uma forma par- tais como grupos e categorias sociais. O fato de
ticular (muitas vezes a de uma CURVA NORMAL) que é mais provável que negros cometam crimes
na população, condição esta que pode ser superada violentos do que brancos não significa absoluta-
apenas se a amostra for muito grande. Os pesquisa- mente que todos, a maioria ou mesmo muitos
dores muitas vezes dependem de amostras peque- negros assim procedam. Todos os que fazem ge-
nas, contudo, e com freqüência carecem de jus- neralizações como se fossem estereótipos, no en-
tificação para supor o que a população parece ser.
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tanto, tenderão a supor exatamente isso de todo e
A estatística não-paramétrica é um grupo de qualquer negro que encontrarem.
estatísticas que não requer suposições sobre as Estereótipos são importantes porque consti-
distribuições de população (e, por esse motivo, em tuem a base do PRECONCEITO, que por sua vez é
geral é chamada de estatística de distribuição usado para justificar discriminação e atitudes po-
livre). A não-paramétrica é usada principalmente sitivas ou negativas. Neste sentido, é importante
com variáveis de ESCALA ORDINAL, que assumem saber que os estereótipos podem ser não só positi-
a forma de postos. As mais conhecidas dessas vos, mas também negativos. A opinião estereoti-
técnicas são os testes de Wald-Wolfowitz, Mann- pada sobre os judeus como gananciosos, por
Whitney (ou Wilcoxon) e Kolmogorov-Smirnov. exemplo, é contrabalançada pela crença igual-
mente estereotipada de que cristãos não são.
Ver também DISTRIBUIÇÃO DE CURVA NOR-
Apesar dos estereótipos serem freqüentemente
MAL; ESTATÍSTICA.
considerados indesejáveis, devido ao papel impor-
Leitura sugerida: Neave, H.R., e P.L. Worthington tante que desempenham na OPRESSÃO SOCIAL
1988: Distribution-free Tests. Londres: Unwin Hy- baseada em características como raça, sexo, etni-
man ● Siegel, Sidney, e N. John Castellan Jr. 1988: cidade e idade, em um aspecto importante eles são
Nonparametric Statistics for the Behavioral essenciais à vida social. Quando ingressamos em
Sciences. 2ªed. Nova York: McGraw-Hill. uma situação em que não conhecemos nenhum
dos indivíduos, por exemplo, temos de possuir
alguma base para saber o que esperar dos outros e
estereótipo O estereótipo é uma crença rígida, o que eles devem esperar de nós. A fim de realizar
excessivamente simplificada, não raro exagerada, esse propósito, confiamos no que é chamado de o
aplicada tanto a uma categoria inteira de indiví- OUTRO GENERALIZADO, ou seja, a maneira como
duos como a cada indivíduo na mesma. (A palavra vemos aqueles que ocupam determinados status
é tomada de empréstimo do processo de impressão sociais. Quando consultamos um médico pela pri-
gráfica, no qual uma única impressão é usada para meira vez nada sabemos sobre ele, apenas sobre
produzir muitas cópias idênticas.) A crença em que médicos em geral. Nessa base, contudo, fazemos
pessoas que trabalham em assistência social são todos os tipos de suposições sobre esse dado mé-
indolentes é um estereótipo, como também a cren- dico, suposições que são, no fundo, estereotípicas.
ça de que homens não sabem cuidar de crianças.
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A diferença fundamental entre estereótipos e
É importante, porém, distinguir entre estereó- generalizações é que ambos produzem tipos muito
tipo e generalização. A generalização é qualquer diferentes de conseqüências sociais.
declaração descritiva aplicada a uma categoria ou Ver também ATITUDE; CONHECIMENTO;
grupo de pessoas como um todo. Um exemplo dela CRENÇA; OUTRO; PRECONCEITO E DISCRIMINA-
seria uma declaração como, “Nos Estados Unidos, ÇÃO; STATUS SOCIAL.
é mais provável que negros cometam crimes vio-
lentos do que brancos”. Sociólogos freqüente- Leitura sugerida: Allport, Gordon W. 1954: The
mente são obrigados a fazer generalizações porque Nature of Prejudice. Garden City, NY: Doubleday
estão interessados sobretudo em descrever e com- Anchor Books.
preender sistemas sociais e a posição de indiví-
duos neles (o que equivale a dizer, as categorias estigma O estigma é um rótulo social negativo
em que eles se encartam). que identifica pessoas como desviantes, não por-

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94 ESTILO DE VIDA

que seu comportamento viole NORMAS, mas por- ríamos, por exemplo, perguntar a uma amostra de
que elas têm características pessoais ou sociais que mulheres se elas foram sexualmente assediadas no
levam outras pessoas a excluí-las. Indivíduos obe- trabalho e, em seguida, usar essa informação para
sos, com defeitos físicos ou desfigurados (sobre- estimar a percentagem delas em toda a população
tudo no rosto) não violaram normas, mas freqüen- que sofreram o mesmo constrangimento. As es-
temente são tratados como se o tivessem feito. timativas assumem duas formas básicas: a es-
Esse fato aplica-se também aos que são identifica- timativa por ponto e o intervalo de confiança. A
dos como homossexuais, doentes mentais ou in- primeira usa um único número, como a média ou
fectados pelo vírus da AIDS, ou parentes de al- a percentagem da amostra, como estimativa da
guém que seja um traidor ou assassino que violou média ou percentagem da população. Se 62% das
normas importantes. O estigma também pode ser mulheres na amostra comunicaram que foram as-
aplicado a grupos minoritários, tais como negros, sediadas, a estimativa por ponto da população
judeus e mulheres, cujo único crime consiste sim- seria também de 62%. O interesse pelas es-
plesmente em fazer parte de uma categoria social timativas por ponto é que elas são muito precisas.
estigmatizada.
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E A desvantagem é o fato de ser altamente imprová-
Ver também PRECONCEITO E DISCRIMINA- vel que sejam exatas, dado o erro aleatório inerente
ÇÃO; TEORIA DAS ROTULAÇÕES. até mesmo ao melhor modelo de amostra. Em
outras palavras, é pouco provável que a percenta-
Leitura sugerida: Goffman, Erving 1963: Stigma:
gem de mulheres na população que foram asse-
Notes on the Management of a Spoiled Identity. En-
diadas seja exatamente 62%.
glewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall ● Schur, Edwin M.
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1984: Labeling Women Deviant: Gender, Stigma, and O intervalo de confiança é formado por uma
Social Control. Nova York: Random House. série de escores com um nível de confiança a eles
atribuídos sob a forma de probabilidade. Com uma
amostra de 1.500 respondentes, por exemplo, po-
estilo de vida Estilo de vida é um padrão que deríamos construir um intervalo de confiança de
inclui os tipos de bens e serviços que pessoas 99% que estimaria a percentagem de mulheres na
usam; o gosto em música, arte, cinema e outros população que foram assediadas como se situando
produtos culturais e a escolha de atividades de entre 62%, com mais ou menos 3%, ou seja, entre
lazer. Sociologicamente, o estilo de vida é com 59% e 65%. Embora a estimativa de intervalo não
freqüência estudado em relação a características tenha a precisão da estimativa por ponto, podemos
sociais, tal como classe social. É também de inte- supor com maior confiança que reflita acurada-
resse para os que estudam desvio e estilos de vida mente a população.
alternativos; a vida em comunidades rurais, urba-
As estimativas podem ser caracterizadas como
nas e suburbanas; e os efeitos dos padrões de estilo
viesadas ou não-viesadas. A estimava será não-
de vida sobre a saúde emocional e física.
viesada se puder ser demonstrado matematica-
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Ver também ABURGUESAMENTO.


mente que, em um conjunto a longo prazo dessas
Leitura sugerida: Berkman, Lisa F., e Lester Bres- estimativas, o valor médio de todas elas juntas será
low 1983: Health and Ways of Living. Nova York: igual ao valor da população que estamos tentando
Oxford University Press ● Macklin, Eleanor D., e estimar. Em outras palavras, se imaginamos tirar
R.H. Rubin 1983: Contemporary Families and Alter- muitas amostras diferentes e calcular para cada
native Lifestyles. Beverly Hills, CA: Sage Publica- uma delas a percentagem de mulheres que foram
tions. assediadas, a percentagem da amostra será uma
estimativa não-viesada se a média de todas essas
estimativa de intervalo ver ESTIMATIVAS.
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percentagens de amostra for de fato igual à per-
centagem da população.
estimativa não-viesada ver ESTIMATIVAS.
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A estimativa é viesada se o valor médio da
amostra não é igual ao valor da população. Se
usamos o DESVIO PADRÃO de amostra, por exem-
estimativa por ponto ver ESTIMATIVAS.
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plo, a fim de estimar o desvio padrão de população,


a estimativa tenderá a ser pequena demais porque
estimativas Em pesquisa sociológica, estima- as amostras tenderão a ser mais homogêneas, isto
tivas são cálculos que utilizam amostras a fim de é, a apresentar menos variação, do que as popu-
determinar as características de populações. Pode- lações, principalmente porque são menores. A

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ESTRUTURA DE COMUNICAÇÃO 95

amostra de desvio padrão, portanto, é um estima- que influenciam a distribuição de recursos e van-
dor viesado dos desvios padrão da população. tagens.
Ver também ERRO. Ver também CAMPONESES; CASTA; CLASSE SO-
CIAL; CURVA DE LORENZ; FEUDALISMO; MOBILI-
DADE SOCIAL; PERSPECTIVA DE CONFLITO; PERS-
estimativa viesada ver ESTIMATIVAS.
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PECTIVA FUNCIONALISTA; POBREZA; STATUS.

Leitura sugerida: Bendix, Reinhard, e Seymour


estratificação e desigualdade Estratifica-
Martin Lipset, orgs. 1966: Class, Status, and Power.
ção é o processo social através do qual vantagens
Nova York: Free Press ● Kerbo, Harold R. 1991:
e recursos tais como riqueza, poder e prestígio são
Social Stratification and Inequality. 2ªed. Nova
distribuídos sistemática e desigualmente nas ou York: McGraw-Hill.
entre sociedades. A estratificação difere da simples
desigualdade porque é sistemática. Baseia-se tam-
bém em processos sociais identificáveis, através estrutura ver ESTRUTURA SOCIAL.
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dos quais pessoas são classificadas em categorias,


como classe, raça e sexo. Teoricamente, uma so- estrutura cronológica Em um sistema so-
ciedade pode ter desigualdades sem ser estratifi- cial, a estrutura cronológica é um método para
cada, como por exemplo, concedendo oportuni- organizar eventos em alguma relação com a pas-
dades iguais a todos, mas distribuindo as recom- sagem do tempo, variando de reuniões anuais à
pensas na base do desempenho.
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programação de aulas nas escolas ou à hora em


De modo geral, as categorias que constituem que as crianças vão dormir. A estrutura cronológi-
os sistemas de estratificação assumem uma das ca funciona de três maneiras básicas: 1) atividades
três formas seguintes: 1) CASTA, 2) ELITE, 3) são organizadas em graus variáveis em relação ao
CLASSE SOCIAL. Castas são categorias rígidas de- tempo; 2) a extensão da participação de indivíduos
terminadas por ocasião do nascimento e não per- em sistemas sociais é, em geral, ligada ao tempo:
mitem mobilidade de uma casta a outra. Sistemas espera-se que a ligação com a família dure por toda
de casta são encontrados na Índia e, até certo a vida, enquanto que se espera que alunos se
ponto, sistemas de subjugação racial existiram, formem nas escolas em um período razoavelmente
historicamente falando, nos Estados Unidos e na previsível; e 3) a existência dos próprios sistemas
África do Sul. Os estados formaram categorias nos varia com o tempo: comitês ad hoc são criados
sistemas feudais, especialmente na Europa du- para funcionar enquanto forem necessários, para
rante a Idade Média, embora fossem menos rígidos uma finalidade específica e relativamente tempo-
do que as castas e permitissem alguma mobilidade rária. Já sistemas institucionais, como o Estado e
(ainda que muito limitada). Três estados cons- a Igreja, são criados com a intenção de durar
tituíam o núcleo desses sistemas na Europa — o indefinidamente.
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clero (o primeiro estado), a nobreza (o segundo), Ver também ESTRUTURA SOCIAL.


e o restante das pessoas, dos CAMPONESES aos
artesãos (o terceiro estado). Leitura sugerida: Lauer, R.H. 1981: Temporal
Em contraste com os sistemas de castas e esta- Man: The Meaning and Uses of Social Time. Nova
dos, os de classe social dão menos ênfase a carac- York: Praeger ● Sorokin, Pitirim A., e Robert K. Mer-
terísticas imputáveis, tais como raça e anteceden- ton 1937: “Social time: A methodological and func-
tes familiares, e mais a critérios universalistas, co- tional analysis”. American Journal of Sociology 42:
mo grau atingido de educação. Dessa forma, per- 615-29 ● Zerubavel, Eviatar 1981: Hidden Rhythms:
mitem mais MOBILIDADE SOCIAL de um nível a Schedules and Calendars in Social Life. Chicago:
outro, embora seja muito limitada a magnitude University of Chicago Press Ο 1985: The Seven-Day
Week: The History and Meaning of the Week. Nova
média da circulação individual. A natureza relati-
York: Free Press.
vamente aberta dos sistemas de classes é, contudo,
relativa na verdade, e ainda ressalvada pelo pa-
pel fundamental de fatores como raça, sexo, idade estrutura de comunicação Uma estrutura
e antecedentes familiares. De fato, um dos maio- de comunicação é o padrão de interação — quem
res desafios aos que estudam sistemas de classe se comunica com quem, com que freqüência e por
consiste em distinguir claramente a intersecção quanto tempo — existente em todos os sistemas
de classe, raça, sexo, etnicidade e outros fatores sociais. Nas famílias, por exemplo, mães tendem

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96 ESTRUTURA DE OPORTUNIDADES, DESVIO E

a interagir mais com os filhos do que os pais, dores e ilegais para atingir as mesmas metas pelas
sobretudo quando as crianças são muito jovens, quais todos aspiram. Ou podem rebelar-se de vá-
padrão este que pode mudar um pouco à medida rias maneiras contra o sistema, a fim de protestar
que elas crescem. Um dos efeitos mais nocivos do contra a estrutura desigual de oportunidades ou
divórcio sobre os sistemas familiares é a perturba- contra os próprios valores (como por exemplo,
ção da estrutura de comunicação, especialmente condenando abertamente a riqueza material).
entre o cônjuge que deixa a casa e os filhos.
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As estruturas de oportunidades promovem
Uma distinção, porém, precisa ser feita entre também o desvio quando proporcionam igual
estruturas de comunicação que são definidas por acesso aos meios legítimos para atingir metas, mas
PAPÉIS e outras que refletem a interação da forma esses meios são inadequados. Se todos podem
como geralmente ocorre. Nas forças militares, por conseguir emprego em tempo integral, por exem-
exemplo, espera-se que o indivíduo limite suas plo, mas muitos deles têm remuneração baixa
comunicações a ninguém mais altamente situado demais para assegurar o sustento do indivíduo, é
do que seu superior imediato, sobretudo quando provável que, mais uma vez, surja o desvio. De
tem uma queixa a fazer. (Ignorar isso é conhecido maneiras análogas, as estruturas podem também
como “passar por cima de alguém”, uma atitude tornar relativamente disponíveis meios ilegítimos
bastante desaconselhável). Dependendo das cir- para alcançar objetivos e, dessa maneira, tornar
cunstâncias, no entanto, poderíamos observar uma provável que ocorram desvios. Usar estudantes
unidade militar e descobrir grande variação no para tirar cópias xerox de páginas de provas, for-
tocante a essa expectativa. necer provas para serem preenchidas em casa ou
Ver também ESTRUTURA SOCIAL. submeter alunos a exames sem fiscalização, no
caso de não haver um código de honra em vigor
Leitura sugerida: Bavelas, Alex 1950: “Communi- entre eles, são aspectos da prática universitária que
cation patterns in task-oriented groups”. Journal of promovem a conduta desonesta, ao tornar mais
the Acoustical Society of America 22: 725-30 ● Lea- acessíveis oportunidades ilegítimas.
vitt, Harold J. 1951: “Some effects of certain commu-
A teoria de Merton tem grande importância
nication patterns on group performance”. Journal of
sociológica porque demonstra como o funciona-
Abnormal and Social Psychology 46: 38-50.
mento normal de um sistema social pode produzir
conseqüências indesejáveis que são em geral as-
estrutura de oportunidades, desvio e A es- sociadas a deficiências individuais.
trutura de oportunidades em uma sociedade é a Ver também DESVIO ABERRANTE; DESVIO
distribuição do acesso aos empregos e outras ma- NÃO-CONFORMISTA.
neiras de ganhar o sustento e atingir objetivos.
Esse conceito desempenha um papel fundamental Leitura sugerida: Cloward, Richard A., e Lloyd E.
na teoria do desvio de Robert K. MERTON. Ele Ohlin 1960: Delinquency and Opportunity: A Theory
afirma que a maioria das sociedades inclui algum of Delinquent Gangs. Nova York: Free Press ● Mer-
grau de consenso sobre os principais valores, tais ton, Robert K. 1938: “Social structure and anomie”.
como os que definem o que se entende por uma American Sociological Review 8: 672-82.
“boa vida”. Nas sociedades industriais, por exem-
plo, a riqueza material é muito apreciada, como estrutura de papéis ver PAPÉIS, ESTRUTU-
também o são o poder, o prestígio, o lazer etc. RA DE.
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NORMAS definem os meios socialmente legítimos


para obter esses valores — aprovando o trabalho
árduo como ocupação legítima, por exemplo, bem estrutura de poder Nos sistemas sociais, a
como a herança, ao mesmo tempo reprovando o estrutura de poder é a distribuição de poder entre
roubo, a extorsão, a fraude e coisas semelhantes.
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E indivíduos ou, em níveis mais amplos de análise,
No âmago da teoria de Merton há o argumento entre categorias sociais ou sistemas sociais intei-
de que, se uma cultura promove valores comuns ros, tais como grupos, organizações, comunidades
que definem os objetivos do indivíduo, mas a ou sociedades. Para os sociólogos, a dimensão
estrutura de oportunidades não proporciona igual mais importante em que variam as estruturas de
acesso a meios legítimos para atingir essas metas, poder é o grau de desigualdade na distribuição. Na
surgirão níveis mais altos de desvio. Será mais DEMOCRACIA, por exemplo, o poder é dividido de
provável que pessoas criem meios novos, inova- maneira uniforme. Quanto mais autoritário o sis-

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ESTRUTURA ETÁRIA 97

tema, mais concentrado é o poder nas mãos de um a estrutura cuja base não é muito mais larga do que
número relativamente pequeno de indivíduos.
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E o resto da pirâmide. A maioria dos países não-in-
Em sociedades denominadas democráticas, dustriais, por exemplo, tem estruturas etárias mui-
como as que são encontradas em nações indus- to jovens, com tipicamente de 40 a 50% de suas
trializadas, tem havido algum debate sobre como populações abaixo da idade de 15 anos e menos
se apresenta realmente a estrutura de poder. Uma de 5% acima dos 65. Na maioria dos países indus-
das opiniões é que as principais instituições são triais, as percentagens abaixo de 15 anos são de
dominadas por uma elite de poder, uma malha menos de 20% e de mais de 65 chegam a 18% na
estreita de indivíduos altamente colocados cujas Suécia e a baixos 12% nos Estados Unidos.
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famílias, educação, classe, meios ocupacional e Embora a estrutura etária reflita os efeitos a
cultural proporcionam a base para a circulação longo prazo das taxas de natalidade e mortalidade,
fácil de uma esfera de poder a outra e para um as primeiras são as que mais a afetam. Paradoxal-
consenso geral sobre questões de interesse coleti- mente, é o declínio nas taxas de natalidade, e não
vo. A opinião contrária diz que as sociedades de mortalidade, que desempenha o papel mais
industriais são complexas demais para que uma importante no envelhecimento das populações na
elite unificada as domine. Em vez disso, as es- Europa e na América do Norte. Isso acontece
truturas de poder seriam pluralísticas, distribuídas porque cada novo nascimento equivale a uma
entre uma grande variedade de grupos de interes- pessoa adicional, mas também a um pai potencial,
ses que competem entre si, tais como industriais, que poderá contribuir com ainda mais crianças
sindicatos, e entidades cívicas, ambientais, de di- para a população. E embora as taxas de mortali-
reitos civis etc. Uma opinião que combina as duas dade possam ter declinado espetacularmente nos
— o pluralismo de elites — argumenta que a dois últimos séculos, o maior efeito disso sobre as
competição ocorre principalmente entre grupos da estruturas etárias tem sido observado entre os mui-
elite que, não obstante, tendem a assumir uma to jovens, e não entre os idosos. Os grandes pro-
posição comum em questões de política social gressos na expectativa de vida, por exemplo, ocor-
fundamental que afetam sua posição de elite. reram mais por queda na mortalidade infantil do
Ver também AUTOCRACIA; AUTORITARISMO; que pelo prolongamento da vida entre os que
DEMOCRACIA; ELITE; PODER. conseguem chegar a uma idade avançada. Toda
criança que sobrevive ao perigoso primeiro ano de
Leitura sugerida: Kornhauser, William 1966: “‘Po- vida pode contribuir com muitos anos adicionais
wer elite’ or ‘veto groups’?” In Class, Status, and para a idade média da população. Em comparação,
Power, org. por Reinhard Bendix e Seymour Martin um indivíduo de 70 anos cuja vida é prolongada
Lipset. Nova York: Free Press ● Mills, C. Wright por alguns anos por cuidados médicos contribui
1965: The Power Elite. Nova York e Oxford: Oxford com um número muito menor de anos adicionais
University Press/(1981): A elite do poder. Rio de para a média geral.
Janeiro: Zahar ● Riesman, David et al. 1950 (1966):
The Lonely Crowd: a Study in the Changing Ameri-
A estrutura etária é sociologicamente impor-
can character. Nova York: Doubleday Anchor. tante porque grande parte da vida social é organi-
zada até certo ponto em torno da idade. Quanto
mais crianças houver na população, por exemplo,
estrutura etária A estrutura etária de uma PO- maior o fardo sobre a população adulta para pro-
PULAÇÃO é a distribuição de indivíduos entre as duzir não só para si mesma, mas também para uma
várias idades. No sentido mais simples, ela assume grande população economicamente dependente
a forma de uma distribuição percentual, mostran- que precisa ser vestida, alimentada, educada etc.
do os números relativos de indivíduos de cada Verificou-se que jovens adultos em pelo menos
idade, freqüentemente agrupados em categorias de alguns países industrializados apresentam uma al-
cinco ou dez anos. Em forma gráfica, a estrutura ta e inesperada propensão para comportamento
etária é mostrada como uma pirâmide etária, cuja criminoso, o que significa que uma população
base relativamente larga indica o número de crian- mais jovem tem mais possibilidade de produzir
ças e cujo pico afilado reflete os números cres- altas taxas de criminalidade do que terá uma
centes de mortes à medida que as pessoas enve- população mais velha (pelo menos no tocante a
lhecem. A população cuja estrutura etária tem uma crimes com maior probabilidade de serem co-
base muito larga e um pico estreito aguçado é metidos por jovens). Por outro lado, quanto
denominada de “jovem”, enquanto que é “velha” mais velha a população, mais recursos terá de

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98 ESTRUTURA OCUPACIONAL

reservar para despesas como tratamento médico a Leitura sugerida: Blau, Peter M., e Otis Dudley
longo prazo e aposentadoria, e menos recursos Duncan 1967: The American Occupational Structure.
serão necessários para o custeio de escolas primá- Nova York: Wiley.
rias.
Ver também DEFASAGEM ESTRUTURAL; RA- estrutura pluralística de poder ver ESTRU-
ZÃO DE DEPENDÊNCIA. TURA DE PODER.
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Leitura sugerida: Coale, Ansley J. 1964: “How a


population ages or grows younger”. In Population: estrutura social Juntamente com o conceito
The Vital Revolution, org. por Ronald Freedman. de CULTURA, estrutura social é um conceito defi-
Nova York: Anchor Books ● Shryock, Henry S., e nidor crucial para a sociologia como maneira de
Jacob Siegel and Associates 1976: The Methods and pensar na vida social. Todos os sistemas sociais a
Materials of Demography, org. por E.G. Stockwell. possuem e é este fato que explica grande parte das
Londres e Nova York: Academic Press. diferenças entre eles e os padrões de experiência e
comportamento humanos que constituem o que
conhecemos como vida social.
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estrutura ocupacional Em uma sociedade, a A estrutura de um sistema social pode ser


estrutura ocupacional é a composição dos dife- analisada em termos de duas características, re-
rentes tipos de ocupações que nela existem. Ela lações e distribuição. As relações ligam entre si as
descreve também a distribuição de indivíduos en- várias partes do sistema e, daí, ao sistema como
tre essas ocupações, o que dá alguma idéia dos um todo. As “partes” podem variar das posições
tipos de trabalho que predominam. As sociedades que indivíduos ocupam a sistemas inteiros, como
industriais, por exemplo, incluem números imen- grupos, organizações, comunidades e sociedades.
sos de ocupações, algumas das quais (como em As relações que ligam as partes têm características
trabalho burocrático e de vendas) são muito nume- estruturais. Uma unidade militar, por exemplo, é
rosas, ao passo que outras (como neurocirurgiões um sistema social que tem FRONTEIRAS que regu-
e dignitários de igrejas) são desempenhadas por lam o ingresso e a saída de indivíduos de posições
um número relativamente pequeno de indivíduos.
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E sociais: uma ESTRUTURA DE PAPÉIS, que inclui
Os tipos ocupacionais podem ser categoriza- todas as diferentes tarefas que se espera que pes-
dos de certo número de maneiras, incluindo dis- soas cumpram na DIVISÃO DO TRABALHO; uma
tinções entre os vários setores da economia. Em ESTRUTURA DE COMUNICAÇÃO, que descreve a
comparação com sociedades agrárias, por exem- freqüência e duração da interação entre os dife-
plo, as industriais têm estruturas mais complexas rentes membros da unidade; e uma estrutura so-
e mais pesadamente ponderadas na direção da ciométrica, cujos padrões de afeição e antipatia
manufatura (o setor secundário) e dos serviços (o ligam pessoas entre si (ver SOCIOMETRIA).
setor terciário) e menos concentradas em agricul- A segunda característica estrutural de um sis-
tura, mineração e outros tipos de trabalho envol- tema social inclui vários tipos de DISTRIBUIÇÃO.
vido principalmente na produção de matérias-pri- O PODER pode ser distribuído igualmente, como
mas (o setor primário). Nestas últimas décadas do nas democracias, ou desigualmente, como na fa-
século XX, os Estados Unidos vêm perdendo gran- mília patriarcal tradicional. De maneiras análogas,
de número de empregos em manufatura, à medida podemos descrever a distribuição estrutural de vá-
que sua estrutura ocupacional muda para empre- rios outros produtos e recursos da vida social, da
gos em serviços. riqueza, renda e propriedades a prestígio e acesso
Sociologicamente, a estrutura ocupacional é à educação e aos serviços de saúde. Podemos
também de grande importância nos efeitos que também examinar a distribuição de indivíduos
produz sobre a CLASSE SOCIAL e outras formas de entre as várias posições do sistema social — quan-
desigualdade. tos estudantes há por professor, o número de es-
posas ou maridos em um casamento ou os números
Ver também CLASSE SOCIAL; DEFASAGEM ES-
relativos de indivíduos nas várias ocupações.
TRUTURAL; DESEMPREGO E SUBEMPREGO; DIVI-
Ver também ESTRUTURA CRONOLÓGICA; ES-
SÃO DO TRABALHO; MERCADO DE TRABALHO;
TRUTURALISMO E PÓS-ESTRUTURALISMO.
MOBILIDADE SOCIAL; PRESTÍGIO; TRABALHA-
DOR DE COLARINHO AZUL E TRABALHADOR DE Leitura sugerida: Bates, F.L., e W.G. Peacock
COLARINHO BRANCO. 1989: “Conceptualizing social structure: The misuse

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ESTUDO LONGITUDINAL 99

of classification in structural modeling”. American estudo de caso ver CASO, ESTUDO DE.
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Sociological Review 54(4): 565-77 ● Blau, Peter M.,


org. 1975: The Idea of Social Structure: Papers in
Honor of Robert K. Merton. Nova York: Harcourt estudo longitudinal Um estudo longitudinal
Brace Jovanovich ● Merton, Robert K. 1949 (1968): (conhecido também como estudo de painel)
Social Theory and Social Structure. Ed. rev. e ampl. acompanha a mesma amostra ao longo do tempo
Nova York: Free Press. e faz repetidas observações. Com levantamentos
desse tipo, por exemplo, o mesmo grupo de pes-
soas é interrogado a intervalos regulares, permitin-
estruturação ver AÇÃO E ESTRUTURA.
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do que os observadores sigam mudanças ocorridas


no tempo e as relacionem com variáveis que po-
estruturalismo e pós-estruturalismo deriam explicar por que as mudanças ocorreram.
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Estruturalismo é um ponto de vista sobre lingua- A pesquisa longitudinal é valiosa porque per-
gem que supõe haver uma ligação direta entre as mite que os pesquisadores estudem bem de perto
palavras e o que acreditamos que as palavras re- os tipos de EXPLICAÇÕES CAUSAIS que geral-
presentam. “Sexualidade”, por exemplo, é um mente só podem ser obtidas com EXPERIMENTOS.
símbolo que indica alguma coisa real e concreta Estudos de mobilidade ocupacional, por exemplo,
no mundo externo. Em linguagem sociológica, acompanharam mudanças de ocupação de pessoas
termos como “estrutura social” ou “cultura” in- durante várias décadas e as relacionaram com
dicam alguma coisa real e concreta que, embora fatores tais como educação, família, meio forma-
não possamos observar diretamente, afeta profun- tivo, sexo, raça e padrões de trabalho.
damente a vida social, em especial ao limitar e A grande dificuldade (e despesas) desse tipo de
restringir o que pessoas pensam, sentem e fazem. pesquisa consiste em manter a integridade da
Combinando os dois termos, a sociologia é uma amostra original. Pessoas perdem o interesse, mu-
perspectiva que defende a existência de estruturas dam-se para outros locais ou morrem, e isso pode
subjacentes inobserváveis, que modelam a vida ocasionar deterioração no tamanho da amostra e,
social e podem ser rotuladas e compreendidas com ela, a validade das conclusões extraídas dos
mediante o uso da linguagem.
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dados. Além do mais, o fato de simplesmente
O pós-estruturalismo, por outro lado, é uma pertencer a um painel pode afetar o comportamen-
perspectiva baseada na crença em que palavras to, as esperanças e a maneira de pessoas interpre-
indicam não alguma realidade externa concreta, tarem a si mesmas e sua vida, isto de maneiras que
mas simplesmente outras palavras que usamos fazem com que a amostra não seja mais repre-
para construir a realidade social. Cometemos o sentativa da população.
erro de acreditar que essa realidade construída é Uma das maneiras de lidar com o problema de
mais do que é, que tem uma realidade concreta manter o painel consiste em tirar diferentes amos-
além das palavras que usamos para construir idéias tras de grupos etários comparáveis em épocas
sobre o que é real. Uma vez que são as pessoas que diferentes. Os pesquisadores, por exemplo, pode-
inventam e usam palavras, elas trabalham ativa-
riam entrevistar uma amostra de indivíduos de
mente para construir a realidade social na qual
20-24 anos e, em seguida, entrevistar uma amostra
vivem, em vez de ser meramente limitadas e con-
de pessoas de 30-34 anos, dez anos depois. Embo-
troladas por uma realidade externa e subjacente.
ra os indivíduos talvez não sejam os mesmos (e,
Há também uma tese intermediária que pede a
daí, não constituírem um painel), as duas amostras
inclusão de elementos de ambas as posições, co-
mo, por exemplo, que indivíduos tanto modelam são tiradas de aproximadamente a mesma popula-
como são modelados pelo ambiente social. ção, em dois momentos diferentes no tempo (os
que tinham 20-24 anos terão 30-34 dez anos de-
Ver também AÇÃO E ESTRUTURA; DESCONS-
pois). Claro que não é possível usar esse modelo
TRUÇÃO; OBJETIVIDADE.
para acompanhar mudanças ocorridas em indiví-
Leitura sugerida: Giddens, Anthony 1987: “Struc- duos isolados, mas é possível seguir mudanças em
turalism, poststructuralism, and the production of um nível AGREGADO, o que pode ser extrema-
culture”. In Social Theory Today, org. por Anthony mente revelador.
Giddens e Jonathan Turner. Stanford, CA: Stanford Ver também COORTE; DADOS DE CORTE
University Press. TRANSVERSAL; EXPERIMENTO.

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100 ESTUDO-PILOTO

Leitura sugerida: Menard, S. 1991: Longitudinal Igreja e seus ritos como meios seguros de salva-
Research. Newbury Park, CA: Sage Publications. ção, o protestantismo confiou, em vez deles, na
autonomia e na responsabilidade individuais que,
estudo-piloto Um estudo-piloto é um projeto por seu lado, geraram grande ansiedade e a neces-
de pesquisa realizado em escala limitada que per- sidade de reafirmação de que a salvação pessoal
mite a pesquisadores obter uma idéia mais clara do estava garantida. A resposta protestante a essa
que querem saber e qual a melhor maneira de ansiedade foi promover uma coerência ética e um
descobrir o que pretendem, sem as despesas e o estilo de vida que ajudaram a criar um ambiente
trabalho de um estudo completo. Estudos-piloto, cultural que legitimava e promovia todos os tipos
por exemplo, são usados para submeter a teste de práticas e valores que permitiriam ao capitalis-
perguntas de LEVANTAMENTOS e outros INSTRU- mo florescer.
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MENTOS DE MEDIÇÃO e para refinar HIPÓTESES de Por várias razões técnicas, têm sido numerosas
pesquisa.
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as críticas à tese de Weber (tal como se o catolicis-
Ver também METODOLOGIA. mo também fornecia ou não algum apoio cultural
à prática capitalista). Talvez sua contribuição mais
duradoura, contudo, resida simplesmente no argu-
estudos culturais Os estudos culturais cons- mento de que certos aspectos da cultura afetam de
tituem uma área da sociologia que se concentra em forma profunda a estrutura dos sistemas sociais.
saber como a cultura é produzida e experimentada
Essa tese choca-se de frente com a opinião marxis-
em uma sociedade. Mais especificamente, exami-
ta de que o MODO DE PRODUÇÃO é que molda a
na como a cultura é moldada por grandes ins-
cultura, e não o inverso.
tituições sociais como o Estado e a economia. De
que maneira, por exemplo, o capitalismo molda Ver também BASE E SUPERESTRUTURA.
produtos culturais como a literatura e o cinema, e Leitura sugerida: Marshall, G. 1982: In Search of
como a dinâmica social de classe, raça, idade, sexo the Spirit of Capitalism: an Essay on Max Weber’s
e relações étnicas afetam a forma como as pessoas Protestant Ethic Thesis. Londres: Hutchinson.
os experimentam? De que modo grupos subordi-
nados, como minorias, jovens e classe operária
podem dar forma a sua própria CULTURA POPU- etnicidade Etnicidade é um conceito que se
LAR, a despeito do controle da mídia e outros refere a uma CULTURA e estilo de vida comuns,
meios de produção cultural por uma ELITE?
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E especialmente da forma refletida na LINGUAGEM,
MANEIRAS DE AGIR, formas institucionais religio-
Leitura sugerida: Hoggart, Richard 1957: The Uses sas e de outros tipos, na cultura material, como
of Literacy: Aspects of Working-Class Life with Spe- roupas e alimento, e produtos culturais como mú-
cial Reference to Publications and Entertainment.
sica, literatura e arte. O conjunto de pessoas que
Londres: Chatto & Windus ● Williams, Raymond
têm em comum a etnicidade é freqüentemente
1961: The Long Revolution. Nova York: Columbia
University Press Ο 1980: Problems in Materialism denominado de grupo étnico, embora, tecnica-
and Culture. Londres: Verso. mente, o uso de “grupo” seja incorreto no uso
sociológico porque um grupo é um sistema social
com certo grau de interação regular entre seus
estudos demográficos ver DEMOGRAFIA.
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membros. Uma etnicidade, contudo, em geral in-


clui um número grande demais de pessoas para
ética protestante A ética protestante é uma haver uma interação regular entre elas. Por isso
ética religiosa que enfatiza comportamento rigo- mesmo, um termo mais preciso seria coletividade
rosamente controlado, planejamento metódico e étnica ou categoria étnica.
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trabalho árduo, abnegação, dedicação à vocação e A etnicidade é sociologicamente importante


ao sucesso. Ao tentar explicar o contexto cultural porque constituiu muitas vezes uma grande causa
no qual se desenvolveu o CAPITALISMO, Max de coesão ou de conflito social. O nacionalismo,
WEBER argumentou que a Reforma Protestante na por exemplo, tem com freqüência uma forte base
Europa produziu uma ética que facilitou e deu étnica, como acontece também com a opressão de
respaldo às tendências básicas do capitalismo, em minorias. A etnicidade constitui também uma base
especial às que se relacionavam com os inves- importante para a formação de subculturas em
timentos e à acumulação de riqueza. Ao rejeitar a sociedades complexas.

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ETNOMETODOLOGIA 101

Ver também CATEGORIA SOCIAL; COLETIVI- cia de qualquer dada cultura e da realidade social-
DADE; CONTATO CULTURAL; MANEIRAS DE AGIR; mente construída que a acompanha. Exatamente
MINORIA. da mesma maneira como todo indivíduo é até certo
ponto egocêntrico, assim também todos os sis-
Leitura sugerida: Lieberson, Stanley, e M.C. Wa- temas sociais promovem até certo ponto uma opi-
ters 1988: From Many Strands: Ethnic and Racial
nião de si mesmos e do mundo em volta, em
Groups in Contemporary America. Nova York: Rus-
relação a si mesmos e à realidade que construíram.
sell Sage Foundation ● van den Berghe, Pierre L.
Tal como sua contrapartida psicológica, o etnocen-
1981: The Ethnic Phenomenon. Nova York e Oxford:
Elsevier ● Peach, P. 1981: Ethnic Segregation in Ci-
trismo torna-se um problema na medida em que
ties. Londres: Croom Helm. distorce a maneira de ver outras culturas, sobretu-
do quando usado ideologicamente como base para
opressão social.
etnicismo ver PRECONCEITO E DISCRIMINA- Ver também XENOCENTRISMO.
ÇÃO.
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Leitura sugerida: Sumner, William Graham 1906:


Folkways. Boston: Ginn.
etnocentrismo No seu primeiro sentido, etno-
centrismo é uma cegueira para diferenças cultu-
rais, a tendência de pensar e agir como se elas não etnografia e etnologia Um trabalho etno-
existissem. No segundo sentido, refere-se aos jul- gráfico é uma explicação descritiva da vida social
gamentos negativos que membros de uma cultura e da CULTURA em um dado SISTEMA SOCIAL,
tendem a fazer sobre todas as demais.
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baseada em observação detalhada do que as pes-
Conforme a antropologia deixou bem claro, as soas de fato fazem. Constitui um método de pes-
culturas diferem muito entre si, mas há também quisa associado principalmente a estudos antropo-
grande variação no grau em que pessoas estão lógicos de sociedades tribais, mas é também usado
conscientes desse fato simples ou querem aceitá- por sociólogos, sobretudo em relação a grupos,
lo. O etnocentrismo pode ser considerado a contra- organizações e comunidades que são parte de so-
partida sociológica do fenômeno psicológico do ciedades maiores e mais complexas tais como
egocentrismo. A diferença é que, em vez de in- hospitais, bairros étnicos, gangues urbanas e cul-
divíduos se definirem como o centro do universo, tos religiosos.
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em relação ao qual tudo mais deve sua existência A etnografia desempenha um papel importante
e significação, uma cultura inteira é colocada nes- em etnologia, o ramo da antropologia que estuda
sa posição elevada. Tal como o egocentrismo, o como as culturas se desenvolvem ao longo da
etnocentrismo é como um prisma, através do qual história e se comparam com outras.
tudo é percebido e interpretado em relação a um Ver também OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE.
único arcabouço cultural, com exclusão de todas
as demais possibilidades. Quando indivíduos que Leitura sugerida: Gurbrium, Jaber F. 1988: Analy-
vivem em sociedades industriais supõem que todo zing Field Reality. Newbury Park, CA: Sage Publica-
tions.
mundo sente seu apetite por bens de consumo e
instituições políticas democráticas de estilo oci-
dental, e que os que preferem outras coisas são, etnometodologia Da forma como foi criada
por isso mesmo, “primitivos”; quando os descen- por Harold GARFINKEL, a etnometodologia (sig-
dentes dos imigrantes brancos europeus que ora nificando “métodos pessoais”) é o estudo de como
vivem nos Estados Unidos supõem que foi Colom- pessoas realmente usam a INTERAÇÃO social para
bo, e não os americanos nativos, quem “desco- manter um senso contínuo de realidade em uma
briu” a América do Norte; quando estrangeiros são situação. Uma conversa, por exemplo, é um pro-
considerados, por definição, “bárbaros”; ou quan- cesso social que requer certas coisas a fim de que
do a música “clássica” é definida apenas como a os participantes a identifiquem como uma conver-
que teve origem na Europa, estamos presenciando sa e a mantenham nesse nível. Pessoas se olham
as suposições, a cegueira e os juízos de valor enquanto conversam e escutam, inclinam a cabeça
inerentes ao etnocentrismo. ou murmuram palavras, dando sinal de que conti-
Em um sentido importante, o etnocentrismo nua o interesse pela conversação, fazem e respon-
não é um problema. Trata-se de uma conseqüência dem a perguntas, revezam-se falando, e assim por
inerente ao fato de pessoas viverem sob a influên- diante. Se esses métodos não são bem usados, a

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102 ETOLOGIA

conversa se interrompe e é substituída por uma and Relations with Other Sciences. Oxford: Oxford
situação social de tipo diferente. Com o objetivo University Press ● Lopreato, Joseph 1984: Human
de colher dados, etnometodólogos utilizam aná- Nature and Biocultural Evolution. Boston: Unwin
lises de conversas e um rigoroso conjunto de téc- Hyman.
nicas para observar e registrar sistematicamente o
que acontece quando pessoas interagem em am- eu ver MENTE.
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bientes comuns do dia-a-dia.


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Ver também CONTEXTO EXPLICATIVO; EXPLI-


CAÇÃO; MACROSSOCIOLOGIA E MICROSSOCIO- eu ideal ver SELF.
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LOGIA.

Leitura sugerida: Atkinson, J. Maxwell, e John He-


evolução social De acordo com alguns dos
ritage, orgs. 1984: Structures of Social Action: Studies primeiros teóricos sociais, como Herbert SPEN-
in Conversation Analysis. Cambridge: Cambridge CER, a evolução social é um processo através do
University Press ● Garfinkel, Harold 1967: Studies in qual sociedades se desenvolvem de maneiras pre-
Ethnomethodology. Englewood Cliffs, NJ: Prentice- visíveis, que em geral refletem progresso para
Hall ● Hilbert, R.A. 1990: “Ethnomethodology and formas “mais altas” ou quase perfeitas de vida
the micro-macro order”. American Sociological Re- social. Inicialmente, os teóricos evolucionários,
view 55(6): 794-808 ● Livingston, E. 1987: Making que seguiam as idéias de Charles Darwin e suas
Sense of Ethnomethodology. Londres: Routledge & teorias de evolução biológica, argumentaram que
Kegan Paul. a evolução social consistia de mudança unilinear,
que seguia um caminho prescrito, como, por
exemplo, de formas mais simples para mais com-
etologia Etologia é o estudo de comportamento
plexas de organização social. A mudança cíclica é
animal não-humano. Sua importância para a so-
uma variação, desenvolvida por Oswald Spengler
ciologia é que observações de espécies não-huma-
e Arnold J. Toynbee, da teoria unilinear. Esses
nas são às vezes usadas em apoio de teorias sobre
autores afirmaram que as sociedades mudam de
comportamento humano, em especial as que pos-
acordo com ciclos de ascensão, declínio e queda,
tulam que a vida social é moldada principalmente
exatamente como pessoas nascem, chegam à ma-
por forças biológicas e genéticas. Estudos de pri-
turidade, envelhecem e morrem. A teoria da mu-
matas, por exemplo, têm com freqüência sido
dança cíclica foi estimulada até certo ponto pelos
usados para argumentar que padrões sociais huma-
eventos da guerra de 1914-18, que transformou o
nos, tais como dominação masculina, agressivida-
que parecera uma nova era de Iluminismo e pros-
de sexual e outros fenômenos gerados pelo sexo
peridade em um pesadelo de carnificina e des-
são inatos, e não produtos de sistemas sociais.
truição sem precedentes. Relacionada com a teoria
Com o advento da análise feminista, contudo,
da mudança cíclica, Pitirim SOROKIN propôs a
grande parte dessa pesquisa é agora controversa e
idéia de mudança imanente. Argumentava ele que
está passando por um período de grande contes-
certos elementos, como os valores culturais, de-
tação e reinterpretação.
sempenham papel importante na direção da mu-
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Em alguns casos, a pesquisa etológica tem


dança nas sociedades. O valor atribuído à acumu-
sugerido o aprendizado como a natureza de grande
lação de riqueza material em muitas sociedades,
parte do comportamento humano. Em seus famo-
por exemplo, resultou na ênfase na industrializa-
sos experimentos com macacos, Harlow desco-
ção, comércio externo e outras maneiras de conse-
briu que, a menos que jovens fêmeas tomassem
gui-la. Acreditava Sorokin que, no longo prazo,
conhecimento de modelos adultos, elas nunca de-
certos elementos se desenvolviam excessivamente
senvolviam as necessárias habilidades e predis-
e culminavam em condições extremas, nas quais
posição para serem mães eficientes de seus pró-
perdiam sua utilidade e precipitavam a mudança
prios filhotes.
social, como a reação contra o materialismo e o
Ver também SOCIOBIOLOGIA.
ressurgimento do interesse por valores espirituais.
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Leitura sugerida: Harlow, H.F., e M.K. Harlow Um contraste com essas idéias é encontrado na
1969: “Effects of various mother-infant relationships teoria multilinear, mais complexa e, na opinião de
on rhesus monkey behaviors”. In Determinants of muitos sociólogos, um enfoque mais realista. Ela
Infant Behavior. Vol.4, org. por M. Foss. Londres: de fato identifica algumas tendências sociais como
Methuen ● Hinde, R.A. 1982: Ethology: its Nature quase universais: o progresso do menor para o

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EXPERIMENTO 103

maior, do mais simples para o mais complexo, do experimento O experimento é um método


rural para o urbano, de baixa para alta tecnologia. científico de pesquisa usado para comprovar re-
Mas reconhece que essas mudanças podem acon- lações de causa e efeito entre variáveis. Em sua
tecer de várias maneiras (talvez com os “estágios” forma mais simples, compara dois grupos de ob-
experimentados por algumas sociedades, mas que servações, em duas condições idênticas em todos
são “saltados” inteiramente por outras) e com os aspectos, menos em um. O grupo experimental
conseqüências diferentes, algumas das quais ape- é exposto a uma condição que se acredita produzir
nas podem ser caracterizadas como progresso. algum tipo de efeito causal. O grupo de controle
Muitos países (não-industrializados) do Terceiro não é exposto a essa condição. Se as observações
Mundo, por exemplo, tornaram-se altamente urba- resultantes diferem, pode-se concluir que a dife-
nizados e reduziram muito suas taxas de mortali- rença é causada pelas condições que variaram.
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dade (e tiveram aumento das taxas de crescimento Vamos supor que temos dois grupos de ho-
demográfico, em conseqüência) sem se indus- mens. Os grupos são iguais em todos os aspectos,
trializarem, enquanto países como a China e o com a exceção de que um grupo assistiu a um filme
Iraque são não-industrializados mas, ainda assim, pornográfico e o outro não. Se observarmos mu-
têm acesso à alta tecnologia, como computadores dança nas atitudes do primeiro grupo em relação
e armas sofisticadas de destruição em massa. a mulheres, mas nenhuma nas atitudes do segundo,
A teoria multilinear relaciona-se com o que é podemos concluir que a mudança foi conseqüên-
conhecido como abordagem episódica, que enfa- cia da condição experimental, ou seja, do filme
tiza a importância de acasos e circunstâncias his- pornográfico.
tóricas, sociais e ambientais excepcionais, que
Na prática, o requisito de que os dois grupos
ajudam a explicar um dado curso de mudança
sejam idênticos em tudo, exceto na condição ex-
social. Embora a teoria episódica fosse inicial-
perimental é impossível de confirmar, uma vez que
mente desenvolvida em oposição à teoria evolu-
não há maneira de explicar todas as maneiras em
cionária, muitos estudiosos argumentam que, so-
bretudo na teoria multilinear, há espaço para levar que pessoas poderiam diferir entre si. Experimen-
em conta os fatores episódicos. tadores respondem a esse problema selecionando
sujeitos mediante uso de um modelo de amostra
Ver também DARWINISMO SOCIAL; MUDANÇA
aleatória, ou alguma coisa próxima. Supõem em
SOCIAL.
seguida que, no longo prazo, a única diferença
Leitura sugerida: Lenski, Gerhard E., Jean Lenski sistemática entre os dois grupos seria a condição
e Patrick Nolan 1987: Human Societies, an Introduc- experimental, e que as outras diferenças não se-
tion to Macrosociology. 5ªed. Nova York: McGraw- riam mais do que ERRO aleatório, isento de viés.
Hill ● Giddens, Anthony 1981: A Contemporary Cri- Experimentos apropriados a perguntas socio-
tique of Historical Materialism. Vol.1, Power, Pro- lógicas tendem a ser dispendiosos e impraticáveis
perty and the State. Londres: Macmillan; Berkeley: demais. O método é limitado também pelo artifi-
University of California Press ● Sorokin, Pitirim A. cialismo relativo do ambiente típico de laborató-
1937-41: Social and Cultural Dynamics. 4 vols. Nova rio. Uma solução neste particular é o experimento
York: American Book Company; Englewood Cliffs, de campo em ambiente não-laboratorial. Com o
NJ: Bedminster Press ● Spencer, Herbert 1891: The objetivo de submeter a teste a discriminação se-
Study of Sociology. Nova York: Appleton Ο 1896: The
xual, por exemplo, experimentadores conduziram
Principles of Sociology. Nova York: Appleton ●
estudos nos quais enviaram currículos a emprega-
Spengler, Oswald 1926: The Decline of the West.
Nova York: Knopf.
dores potenciais e lhes pediram que avaliassem os
candidatos. Os currículos eram todos iguais, com
a exceção de que metade identificou os candidatos
exogamia ver REGRAS DE CASAMENTO.
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E como homens e a outra metade como mulheres.
A descoberta de que os homens invariavelmente
recebiam classificação mais alta justificou a con-
expectativa de vida ver TAXA DE MORTALI- clusão de que o sexo em si é uma base de discri-
DADE.
minação.
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Embora o modelo experimental clássico rara-


expectativas crescentes ver TEORIA DE FRUS- mente seja usado em sociologia, uma grande va-
TRAÇÃO-AGRESSÃO.
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E riedade de técnicas de análise estatística pode ser

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104 EXPERIMENTO DE CAMPO

usada para chegar bem perto de análises de causa idade, meio formativo familiar, características co-
e efeito. mo as ocupações do pai e da mãe, nível educacio-
Ver também EFEITO HAWTHORNE; ERRO; ES- nal atingido pelos mesmos e renda de ambos. O
TATÍSTICA; EXPLICAÇÃO CAUSAL E MODELO CAU- modelo poderia especificar ainda como cada um
SAL; HIPÓTESE E TESTE DE HIPÓTESE; VARIÁVEL. deles afeta a renda de maneira direta ou indireta.
A ocupação, por exemplo, produz um efeito direto
Leitura sugerida: Blalock, Hubert M. 1964: Causal sobre a renda, gerentes recebendo salários mais
Inferences in Nonexperimental Research. Chapel altos do que secretárias. Não obstante, o nível
Hill: University of North Carolina Press ● Singleton,
educacional atingido pelos pais terá mais probabi-
Royce A., Bruce C. Straits e Margaret M. Straits
lidade de produzir um efeito indireto sobre a renda,
1993: Approaches to Social Research. 2ªed. Oxford
talvez por seus efeitos sobre as aspirações educa-
e Nova York: Oxford University Press.
cionais dos filhos.
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Em pesquisa, explicações e modelos causais


experimento de campo ver EXPERIMENTO.
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são submetidos a teste através de grande variedade
de técnicas estatísticas, incluindo ANÁLISE DE SE-
explicação Em interação social, explicação é QÜÊNCIA e ANÁLISE LOG-LINEAR. Mas elas são,
aquilo que pessoas oferecem para justificar sua de certa maneira, inconclusivas, uma vez que de-
aparência ou comportamento, como por exemplo, pendem de várias suposições que muitas vezes não
chegar tarde para um encontro ou violar a lei. As podem ser confirmadas. Ainda assim são úteis
explicações variam de desculpas relativamente como instrumento para esclarecer como pensamos
insignificantes a amigos (“Foi sem querer. Não sei sobre um dado problema, pois nos obrigam a es-
por que fiz isso”) a defesas formais contra acu- pecificar como as variáveis se relacionam entre si.
sações de crime grave (“Foi legítima defesa. Não Toda questão da explicação causal nas ciências
tive opção”). As explicações são importantes na sociais é também problemática, dada a dificuldade
sociologia porque constituem parte daquilo que de identificar relações de causa e efeito sem reali-
usamos para produzir uma impressão de nós mes- zar EXPERIMENTOS, o que em geral não é possível
mos aos olhos de outras pessoas, através da qual em trabalho sociológico. Podemos, por exemplo,
influenciamos sua percepção, expectativas, ati- confirmar que, quanto mais educadas as pessoas,
tudes e comportamento em relação a nós. O con- mais alta tende a ser a renda, mas esse fato não
ceito tem sido aplicado principalmente no estudo significa que o nível educacional atingido per se
do desvio, em especial quando pessoas o usam seja um fator causal. Embora raramente possam
para evitar responsabilidade e castigo por seus provar que existe uma relação causal com as va-
atos.
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riáveis que tipicamente estudam, os sociólogos
Ver também ATRIBUIÇÃO SOCIAL; DESVIO; podem aproximar-se o suficiente de seus objetivos
PERSPECTIVA INTERACIONISTA. para contribuir com insights importantes para ex-
plicar como funciona a vida social.
Leitura sugerida: Mills, C. Wright 1940: “Situated Ver também ANÁLISE MULTIVARIADA; MO-
actions and vocabularies of motive”. American So- DELO.
ciological Review 5: 904-93.
Leitura sugerida: Blalock, Hubert M. 1964: Causal
explicação causal e modelo causal A ex- Inferences in Nonexperimental Research. Chapel
plicação causal é a declaração de que um fenôme- Hill: University of North Carolina Press Ο org. 1985:
Causal Models in Experimental and Panel Designs.
no é resultado de um ou mais fenômenos que o
Chicago: Aldine ● Blalock, Hubert M., e Anne B.
precederam no tempo. Qualquer explicação com-
Blalock, orgs. 1968: Methodology in Social Research.
pleta de desigualdade social, por exemplo, prova-
Nova York: McGraw-Hill.
velmente incluiria a idéia de que ocupação produz
um efeito causal sobre níveis de renda. O modelo
causal leva esse fato um passo adiante, ao descre- explicação teleológica A explicação teleoló-
ver relações causais envolvidas em diversas variá- gica baseia-se na idéia de que as coisas acontecem
veis que atuam juntas. Um modelo usado para de certa maneira porque servem a alguma finali-
explicar diferenças em renda, por exemplo, pode- dade última ou contribuem para algum objetivo ou
ria incluir não só ocupação, mas fatores adicionais, ponto final. Neste sentido, pode-se concluir que a
como nível de educação atingido, raça, sexo e causa é um resultado que contribui para que algu-

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EXTENSÃO MÉDIA DE GERAÇÃO 105

ma coisa aconteça. Esse raciocínio é muito comum pelo senhor e, daí, de tudo que ele produz. Na
em explicações de comportamento e aparência de opinião de Karl MARX, o CAPITALISMO é também
animais. A cor do corpo de um animal, por exem- um sistema de exploração, só que não baseado na
plo, pode ser explicada em termos do que parece propriedade dos que produzem, como na escravi-
ser a conseqüência que produz, como esconder-se dão, mas de máquinas e de outros meios de pro-
de predadores.
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E dução.
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A explicação teleológica é especialmente rele- O conceito de exploração pode ser ampliado


vante para a PERSPECTIVA FUNCIONALISTA e sua para incluir formas não-econômicas, como a ex-
ênfase nos requisitos de sistemas sociais. A teoria ploração sexual de mulheres pelos homens no
do DARWINISMO SOCIAL, de Herbert SPENCER, regime de PATRIARQUIA. A autoridade de homens
argumentava que a desigualdade existe porque como maridos, empregadores e outras formas de
serve aos interesses da EVOLUÇÃO SOCIAL e do autoridade lhes dá uma base socialmente legítima,
progresso. Talcott PARSONS afirmava que a DIVI- da qual podem coagir e obter concordância sexual
SÃO DO TRABALHO entre homens e mulheres ser- da parte de mulheres. Em um sentido mais amplo,
via a um objetivo social mais alto, o de assegurar o corpo e a sexualidade de mulheres são explora-
que funções sociais de grande importância seriam dos pela publicidade e pelos meios de entreteni-
desempenhadas eficientemente e que existia por mento da mídia capitalistas.
essa razão (e não para dar respaldo ao privilégio e Ver também COLONIALISMO E IMPERIALISMO.
dominação do homem). Fora da sociologia, as
explicações teleológicas são muito comuns,
considerando a desigualdade de sexos, por exem- expulsão Expulsão é uma medida demográfica
plo, como manifestação de uma ordem natural ou usada para controlar pessoas, obrigando-as a
de uma finalidade divina. deixar um dado território. Numerosas tribos nati-
O lugar da explicação teleológica na sociologia vas norte-americanas nos Estados Unidos, por
continua a ser matéria controversa. Como um dos exemplo, foram removidas à força de suas terras
fundadores da sociologia e da perspectiva funcio- ancestrais para que brancos pudessem explorar e
nal, Émile DURKHEIM enfatizava a importância lucrar com recursos tais como terra e ouro. Em
de distinguir entre a função de algum aspecto da seguida à Guerra Civil nos Estados Unidos, ouvi-
vida social e a sua causa, mas esta é uma distinção ram-se apelos para que fosse resolvida a “questão
freqüentemente ignorada. racial” enviando-se à força os negros para a África.
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Neste século, o genocídio perpetrado pela


Leitura sugerida: Durkheim, Émile 1895: Les rè- Alemanha nazista contra os judeus e outros grupos
gles de la méthode sociologique. Paris: Félix Alcan / étnicos foi inicialmente descrito como nada mais
(1982): The Rules of the Sociological Method. Nova do que expulsão de populações, da Alemanha e de
York: Free Press; Londres: Macmillan ● Ryan, A. outros países ocupados, para a Europa Oriental.
1970: The Philosophy of the Social Sciences. Lon-
Mais recentemente, grupos étnicos inteiros foram
dres: Macmillan ● Turner, Jonathan H. 1986: The
expulsos de algumas sociedades africanas como
Structure of Sociological Theory. 4ªed. Chicago:
resultado de pressões econômicas, guerra civil e
Dorsey Press; 5ªed., Belmont, CA: Wadsworth
(1991).
outros tipos de desordem. Em vários países euro-
peus, com maior destaque na França, movimentos
sociais têm pedido a expulsão de populações de
exploração A exploração é um conceito bási- imigrantes, a maioria não-branca, a fim de aliviar
co no estudo da OPRESSÃO SOCIAL, sobretudo da a concorrência por empregos e outros recursos.
perspectiva marxista. Ocorre quando um grupo Ver também GENOCÍDIO.
pode tomar para seu uso o que é produzido por
outro. A escravidão, por exemplo, é um sistema de
exploração baseado na propriedade do escravo extensão média de geração ver GERAÇÃO.
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4ª Revisão: 21.4.97 — Letra E
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facticidade Facticidade é o estado de vivenciar certamente não é verdade no tocante a faixas etá-
e pensar no mundo externo como se ele tivesse rias, exceto as menores sociedades tribais.
realidade concreta, e não como sendo, na maior Ver também CATEGORIA SOCIAL; COORTE;
parte, concebido como produto da vida social. DISCRIMINAÇÃO ETÁRIA; ENVELHECIMENTO.
Tendemos, por exemplo, a experimentar sistemas
sociais, como a família, como se fossem sólidos, falácia ecológica ver NÍVEL DE ANÁLISE.
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“como coisas”, mesmo que eles sejam, antes e


acima de tudo, idéias abstratas — criações cultu-
rais — sobre relacionamentos, expectativas, va- falsa consciência ver CONSCIÊNCIA E FALSA
CONSCIÊNCIA DE CLASSE.
lores etc. Vivemos, na maior parte, sem perceber IÊ
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as origens sociais da realidade que experimenta-


mos e de sua natureza freqüentemente arbitrária, falsidade estatística Na análise da relação
conforme revelam comparações com outras socie- entre VARIÁVEIS, a falsidade estatística ocorre
dades. Em suma, tendemos a supor que o mundo quando se descobre que duas variáveis estatis-
é, na verdade, exatamente o que parece ser, da ticamente relacionadas entre si não guardam uma
forma identificada e interpretada através de termos relação causal. Suponha que tenhamos determina-
de referência culturalmente definidos.
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F do que, quando o nível de consumo de sorvete
Ver também FENOMENOLOGIA E SOCIOLOGIA aumenta em uma comunidade à beira-mar, o mes-
FENOMENOLÓGICA. mo acontece com o número de afogamentos. Antes
de concluirmos que a relação estatística indica
Leitura sugerida: Berger, Peter L., e Thomas Luck- causa e efeito — que sorvete causa afogamento —
mann 1967: The Social Construction of Reality: a poderemos introduzir como controle uma terceira
Treatise in the Sociology of Knowledge. Garden City, variável, tal como quantas pessoas nesse período
NY: Doubleday; Londres: Allen Lane / (1995): A
praticam natação. Poderíamos então concluir que
construção social da realidade. 12ªed., Petrópolis:
o aumento do consumo de sorvete reflete o início
Vozes.
do verão e, com ele, o aumento do número de
nadadores. E é isto, e não o consumo de sorvete,
faixa etária Faixa etária é um espaço de tempo que causa o aumento do número de afogamentos.
culturalmente definido — tais como os períodos Concluiríamos, portanto, que a relação entre con-
de infância e adolescência —, considerado como sumo de sorvete e afogamentos é uma falsidade
uma situação social que afeta a maneira como estatística, apenas estatística e de maneira alguma
pessoas são vistas e tratadas e o que delas se causal. A terceira variável que usamos como con-
espera. As sociedades diferem muito no número trole — o volume de praticantes de natação — é
dessas categorias que incluem em suas culturas — denominada de variável insignificante.
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de apenas três entre os Nupe, da Nigéria, a cerca A falsidade estatística é uma interpretação mui-
de 28 na cultura Nandi, no Quênia.
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F to importante e freqüentemente ignorada na aná-
As faixas etárias são muitas vezes denomina- lise estatística, porque amiúde constituti a diferen-
das de escalas etárias ou grupos etários. Embora ça entre o que é causal e o que não é. Educadores,
a primeira seja um termo aceitável, a última é por exemplo, dizem muitas vezes que educação
imprópria, uma vez que grupo é um conjunto de universitária associa-se a pensamento liberal e
pessoas que interagem de formas padronizadas e interesse por assuntos públicos. Não está claro,
se consideram como a ele pertencentes. Esse fato contudo, se esse fato é efeito da educação per se

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FAMÍLIA 107

ou uma relação espúria. É bem possível que os proporcionar apoio emocional aos adultos, servin-
jovens que têm maior probabilidade de chegar a do como origem de status atribuído, como etnici-
um nível superior de educação sejam originários dade e raça. Embora a forma das instituições fa-
de famílias que valorizam as próprias caracterís- miliares varie muito de uma sociedade ou período
ticas mais comumente associadas a indivíduos histórico a outros, as funções básicas da família
formados em universidades. parecem ser razoavelmente constantes e quase
O analista alerta e consciencioso pensará sem- universais.
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pre na possibilidade de falsidade estatística e fará Há uma diferença entre a família como ins-
todo o possível para identificar possíveis variáveis tituição e as famílias individuais existentes em
insignificantes. qualquer dado tempo na sociedade. Como ins-
Ver também VARIÁVEL DE CONTROLE. tituição é um modelo abstrato que descreve sua
organização e atividades. Em muitas sociedades,
Leitura sugerida: Rosenberg, Morris 1968: The Lo-
gic of Survey Analysis. Nova York: Basic Books.
por exemplo, a instituição descreve um ambiente
seguro e protegido para os filhos, mesmo que a
realidade da vida em algumas delas inclua muitas
falsificacionismo Da forma desenvolvida pe- vezes maus-tratos e descaso. A incapacidade de
lo filósofo Kark POPPER, o falsificacionismo é um perceber a brecha entre ideais e realidade tem conse-
enfoque científico baseado na convicção de que é qüências sociais importantes. Nos Estados Unidos
impossível provar realmente qualquer coisa. Ao numerosos programas assistenciais do governo ba-
contrário, a ciência avança apenas gerando HIPÓ- seiam-se em um modelo de família no qual pais e
TESES formuladas de tal maneira que é possível filhos vivem juntos, o pai é o principal provedor e a
submetê-las a teste (prática esta que, acreditava mãe permanece em casa, cuidando da prole. Na
Popper, separa a ciência da não-ciência). Quando realidade, porém, apenas uma pequena parte das
submetida a teste, a hipótese é ou não refutada, mas famílias americanas corresponde a esse modelo.
a incapacidade de refutá-la não a torna neces-
Como sistemas sociais, as famílias variam em
sariamente verdadeira. O que é aceito como co-
suas características estruturais, o que, por seu lado,
nhecimento, então, é uma teoria ou descoberta que,
acarreta grandes variações na vida familiar. A fa-
até o momento, ninguém conseguiu ainda refutar.
mília nuclear, por exemplo, consiste dos pais e
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Embora grande volume de trabalho científico


filhos naturais ou adotados residentes na mesma
se desenvolva dessa maneira, há proposições-
casa, e ausência de outros parentes. Este modelo é
chave que tornam a ciência possível, mas que
principalmente associado à vida em sociedades
ainda assim não podem ser submetidas a teste,
começando com a opinião de que tudo tem uma industriais, onde as mobilidades geográfica e eco-
causa que pode ser descoberta através do método nômica andam de mãos dadas: quanto menor a
científico. Além do mais, o fato de uma hipótese unidade familiar, mais facilmente ela pode reagir
ser considerada refutada ou não depende freqüen- a oportunidades econômicas em lugares distantes.
temente da prática de juízos de valor, que transcen- A família nuclear está associada também a isola-
dem os resultados de testes empíricos. mento social e à falta de contato com parentes e,
Ver também EMPÍRICO; HIPÓTESE E TESTE DE como resultado, a uma grande variedade de pro-
HIPÓTESE; POSITIVISMO. blemas, como a sobrecarga de papéis. Neste parti-
cular, o modelo de família nuclear é comparado
Leitura sugerida: Feyerabend, Paul 1971: Against principalmente com a família extensa — pais,
Method. Londres: New Left Books / (1985): Contra filhos e vários tipos de parentes vivendo sob o
o método. Rio de Janeiro: Francisco Alves ● Popper, mesmo teto —, que é em geral considerada como
Karl R. 1934 (1959): Logic of Scientific Discovery. a forma dominante e um tanto idealizada de vida
Londres: Hutchinson / (1985): A lógica da pesquisa familiar em sociedades não-industriais. A pesqui-
científica. São Paulo: Cultrix. sa, no entanto, sugere que, ao longo da história, o
modelo de família nuclear, e não a extensa, é que
família Como INSTITUIÇÃO social, a família é predominou. Além disso, mesmo em sociedades
definida pelas funções sociais que se espera que individualistas como a dos Estados Unidos, a fa-
ela cumpra: reproduzir e socializar os jovens, re- mília nuclear é mais extensa do que em geral se
gular o comportamento social, agir como grande supõe. Embora fisicamente separada de parentes,
centro de trabalho produtivo, proteger os filhos e ela mantém com eles laços regulares e contatos

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108 FAMÍLIA COMPOSTA

freqüentes através de visitas, troca de correspon- família composta ver FAMÍLIA.


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dência e telefonemas.
A dissolução de famílias por morte e divórcio família de pais solteiros ver FAMÍLIA.
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gera três estruturas adicionais, com efeitos impor-


tantes sobre a vida familiar. A família mista (co-
nhecida também como composta ou fundida) família divorciada ver FAMÍLIA.
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conta com uma estrutura de papéis na qual pelo


menos um dos pais foi antes casado e que inclui família extensa ver FAMÍLIA.
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filhos de um ou ambos os casamentos. Isso signi-


fica que o sistema tradicional de laços de sangue família mista ver FAMÍLIA.
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entre pais e filhos é complicado por um ou mesmo


dois conjuntos de relações afins. Este fato é socio-
logicamente interessante porque pode gerar es- família nuclear ver FAMÍLIA.
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truturas complexas em grupos muito pequenos,


criando numerosas oportunidades de conflito. Pais fascismo Na forma como apareceu na Europa
afins, por exemplo, descobrem muitas vezes que na primeira metade deste século, o fascismo teve
competem pela afeição das crianças com pais bio- caráter de IDEOLOGIA e MOVIMENTO SOCIAL e, na
lógicos ausentes ou se sentem excluídos dos laços Itália e na Alemanha nazista, de forma de governo.
entre seu cônjuge e os filhos naturais do mesmo. Como ideologia, o fascimo combatia o in-
Em alguns países onde é freqüente o divórcio, dividualismo, o liberalismo, o marxismo e o CAPI-
o mesmo acontece com a formação de famílias TALISMO selvagem, praticado puramente com ob-
compostas. Trata-se, por exemplo, de uma das jetivo de ganho privado. Para substituí-los, o fas-
formas de estrutura famíliar em crescimento mais cismo defendia o primado do grupo, em especial
rápido nos Estados Unidos, onde aproximada- da nação-estado, como o núcleo que definia e
mente metade de todos os casamentos é de novos proporcionava alicerce à vida social e individual.
casamentos pelo menos para um dos cônjuges e O ESTADO, freqüentemente dominado por um lí-
um sexto de todas as crianças vive com um pai der carismático visto como corporificação da iden-
afim. tidade nacional, procurava obter controle sobre
Outro tipo de família em rápida expansão em quase todos os aspectos da vida social, da família
sociedades onde há alta taxa de divórcio é a família à economia, religião e educação. A fim de justificar
de pais solteiros, que sociologicamente tem gran- e atingir esses fins, os Estados fascistas dependiam
de importância devido à falta de modelos de papel fortemente de ideologias racistas e de supremacia,
adulto proporcionado por ambos os sexos, ao po- e faziam uso extenso de forças militares e da
tencial de tensão nervosa do pai residente e a polícia e o potencial de ambas as instituições em
tendência para a pobreza, em especial em famílias vigilância, violência, terrorismo e eliminação de
dirigidas por mulheres. massa de toda e qualquer oposição.
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Famílias mistas e de pais solteiros são freqüen- Ver também AUTORITARISMO; NACIONAL, NA-
temente (embora nem sempre) também famílias ÇÃO-ESTADO; NACIONALISMO.
divorciadas, no sentido em que pelo menos um de Leitura sugerida: Kitchen, Martin 1976: Fascism.
seus membros passou por um divórcio. Como Londres: Macmillan ● Woolf, S.J., org. 1968: The
resultado, formam-se laços complexos com pais, Nature of Fascism. Nova York: Random House.
crianças e ex-cônjuges não residentes. Alguns so-
ciólogos argumentam que a família divorciada
fato ver FATO SOCIAL.
deveria ser reconhecida como um tipo distinto de
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estrutura familiar, cujos relacionamentos com-


plexos e, não raro, conflituosos afetam profun- fato social De acordo com Émile DURKHEIM,
damente a natureza da vida familiar. o fato social é uma característica cultural e es-
Ver também CASAMENTO E DIVÓRCIO; INS- trutural de sistemas políticos que experimentamos
TITUIÇÃO; LAR; PARENTESCO. como externa a nós e que exerce uma influência e
autoridade que equivalem a mais do que a soma
Leitura sugerida: Sussman, Marvin B., e Suzanne das intenções e motivações de indivíduos que por
K. Steinmetz, orgs. 1987: Handbook of Marriage and acaso participem desses sistemas em um determi-
the Family. Nova York: Plenum Press. nado tempo. Uma “empresa”, por exemplo, existe

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FEMINISMO 109

como sistema que envolve pessoas que nela traba- sociais que mantêm a fertilidade humana em geral
lham, mas de várias formas é independente delas. bem abaixo de seu potencial de fecundidade.
A empresa pode ir à falência ou desaparecer por
completo, mas esse fato não significa que as pes- Leitura sugerida: Bulatao, Rodolfo, e Ronald D.
Lee, orgs. 1983: Determinants of Fertility in Develo-
soas que nela trabalham terão o mesmo destino. A
ping Countries. Nova York: Academic Press ● Coale,
empresa, então, com uma cultura e estrutura que a
Ansley, e Susan C. Watkins, orgs. 1988: The Decline
definem como sistema, é um conjunto de fatos
of Fertility in Europe. Princeton: Princeton Universi-
sociais que limitam e moldam a vida das pessoas ty Press ● Knodel, John. 1988: Demographic Beha-
que dela fazem parte. Até certo ponto, a sociologia vior in the Past. Cambridge: Cambridge University
teve origem como reação a uma perspectiva in- Press.
dividualística, psicológica, da vida humana (UTI-
LITARISMO) que dominou o pensamento europeu
no século XIX. Durkheim argumentava em es- feminilidade ver SEXO E GÊNERO.
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pecial que a natureza coletiva da sociedade e da


vida social não podia reduzir a experiência do feminismo O feminismo pode ser definido de
indivíduo ou representações da mesma, que expe- duas maneiras principais. No sentido mais restrito
rimentar a lei como indivíduo, por exemplo, não é um conjunto complexo de ideologias políticas
poderia explicar a lei como fenômeno