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ISSN 1982-8632

Volume 4 • Número 1 jan/jun 2011


Ficha Elaborada pela Biblioteca Prof. Lúcio de Souza. UNICID

   Revista @mbienteeducação: mestrado em educação.


v.4, n.1 (jan/jun 2011) - São Paulo: Universidade
Cidade de São Paulo, 2008.

Semestral

ISSN 1982-8632

    1. Educação – Periódicos. I. Universidade Cidade de São


Paulo. II. Título.

CDD 370

Publicado de acordo com a nova ortografia.


Este número de @mbienteeducação aborda um dos mais significativos temas
da realidade nacional brasileira: a autonomia da escola e sua relação com a co-
munidade.
As grandes mudanças sociais advindas no pós-guerra mostraram a necessida-
de da participação popular como prevenção a regimes totalitários com consequên-
cias discriminadoras e desumanas. A solução encontrada para controlar o poder,
que deixado a si mesmo tende a enlouquecer, foi a criação de colegiados atentos às
ações dos executivos, tanto em nível das organizações quanto de Estado.
A autonomia da escola insere-se nesse cenário, buscando atender às deman-
das de maior participação da comunidade usuária bem como visa à contextualiza-
ção do atendimento de forma a produzir mais efetividade.
A necessidade da autonomia da escola e da participação da comunidade nos
processos educacionais é clara e unívoca, todavia o modus faciendi não é de todo

EDITORIAL
conhecido e não encontra ainda consensos amplos. Por isso, torna-se muito útil a
contribuição dos autores que participam do presente número da @mbienteeduca-
ção, uma vez que nos proporcionam conhecimento e reflexões relevantes para a
compreensão do tema.
• O Professor Doutor Carmelo Distante oferece brilhante contribuição ao
examinar o que é cultura e o que é autonomia. Entende que autêntica
cultura é aquela que emite juízos sobre a verdade das coisas. Para isso
deve ser, necessariamente, autônoma e crítica
• O Professor Doutor Jean Lauand examina e discute - a partir de João
Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Tomás de Aquino, Pascal e Shakes-
peare - a unidade do ser humano e a educação moral, condição para uma
verdadeira autonomia.
• A Professora Doutora Chie Hirose apresenta o confundente conceito de
Mi na tradição japonesa e o modo como a educação se apoia no corpo,
exemplificando com a tradicional Cerimônia do Chá.
• A Professora Doutora Carla Andréa Soares de Araújo procura discutir
alguns aspectos da autonomia na educação e conjugá-los à experiência de
conquista da autonomia da pessoa e da comunidade.
• A Professora Doutora Fátima Elisabeth Denari examina as condições ne-
cessárias para que a escola tenha autonomia para propor e viabilizar
seus projetos educativos, entre estes, o da inclusão escolar. E, para lograr
êxito, não basta uma política emanada do poder central, nem aquelas
provenientes de iniciativas externas. Antes, é preciso haver comprome-
timento por parte dos líderes educacionais locais (de cada comunidade),
tais como: diretores, supervisores, coordenadores pedagógicos, para subs-
tituir a transformação caracterizada por outorgado poder pelo incentivo
das habilidades e da confiança de trabalhar em prol do desenvolvimento
profissional, por meio de sua formação, atualização e aperfeiçoamento.
• As Professoras Doutoras Olga Solange Herval Souza e Gilca Lucena Kort-
mann mostram-nos como é possível um Centro Universitário que sabe
usar sua autonomia contribuir efetivamente para a acolhida de crianças
com Transtorno de Déficit de Atenção e suas famílias.
• A Professora Érica Aparecida Garrutti e a Professora Doutora Edna An-
tônia de Mattos trazem o tema da ludicidade como elemento para o ensino
e formação do professor que busca constituir seres humanos autônomos e
criativos.
• A Professora Doutora Edna Martins colabora para nossas reflexões apre-
sentando pesquisa sobre famílias em situação de risco e como se valem
das redes sociais de apoio para sobreviverem e educarem suas crianças e
jovens.
• A Professora Catia Ferdinando Costa e a Professora Doutora Edileine
Vieira Machado ensinam-nos como a escola e a comunidade vêm se rela-
cionando no Brasil e quais as condições necessárias para uma autêntica
colaboração que leve à melhoria da educação nacional.
A todos os autores nossos sinceros agradecimentos. A todos nós, seus leitores,
boa leitura.
Professor Doutor Jair Militão da Silva
EDITORIAL

Professor Doutor João Gualberto de Carvalho Meneses


A REVISTA @MBIENTEEDUCAÇÃO é uma publicação semestral da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID/SP)
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Mestrado em Educação
Coordenação do Programa
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PROFA. DRA. MARGARETE MAY BERKENBROCK ROSITO

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Profa. Dra. Ivani Catarina Arantes Fazenda – PUC/ Revista @ambienteeducação
SP – Brasil Volume 4, n° 1, janeiro/junho 2011
Prof. Dr. Jair Militão da Silva – Universidade Área temática: Políticas Públicas de Educação
Cidade São Paulo/UNICID – Brasil Tema: Autonomia da Escola e Comunidade
Prof. Dr. João Gualberto de Carvalho Meneses – COORDENAÇÃO CIENTÍFICA:
Universidade Cidade São Paulo/UNICID – Brasil
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Católica de Brasília – Brasil
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Brasil
ISSN 1982-8632

Revista @mbienteeducação • Universidade Cidade de São Paulo • Vol. 4 • nº 1 jan/jun, 2011

Autonomia della cultura


Carmelo Distante.......................................................................................................7

Para ter autonomia: unir corpo e alma


Jean Lauand............................................................................................................13

Educação e autonomia: o lugar do corpo na tradição japonesa


Chie Hirose...............................................................................................................19

Autonomia e comunidade: dois aspectos importantes na educação da pessoa


Carla A. S. de Araujo...............................................................................................29
SUMÁRIO

Autonomia escolar na diversidade das (d)eficiências e inclusão


Fátima Elisabeth Denari.........................................................................................37

Autonomia universitária a serviço da inclusão social: acolhendo crianças com


transtorno de déficit de atenção e suas famílias
Olga Solange Herval Souza, Gilca Lucena Kortmann...........................................44

A autonomia na escola inclusiva: contribuições da ludicidade para


o ensino e formação do professor
Érica Aparecida Garrutti, Edna Antônia de Mattos .............................................53

Família em situação de risco e rede social de apoio: um estudo em comunidade de


periferia metropolitana
Edna Martins...........................................................................................................60

Participação da comunidade na escola: transformações significativas e exitosas


Catia Ferdinando Costa, Edileine Vieira Machado...............................................72

Normas para publicação..........................................................................................82


AUTONOMIA DELLA CULTURA ISSN 1982-8632

Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 7-12

Prof. Dr. Carmelo Distante 1

RIASSUNTO
Questo articolo tratta di rispondere la domanda: Che cosa intendo dire, quando dico che la
cultura, per essere autonoma deve essere necessariamente critica? Voglio dire che la cultura
per essere tale, deve essere capace, prima di affermare che qualcosa è vera, di esaminarla, e
poi emettere il giudizio. La ricerca di ciò che si ritiene vero è sempre una ricerca faticosa, ed
in quanto tale autonoma e critica. Si tenga presente che la parola critica viene dal verbo greco
krino, che vuol dire io giudico.
PAROLE CHIAVE: Cultura • Autonomia • Critica
7
SUMMARY
This article aims to answer the question: what do I mean when I say that culture to be the pro-
vince must be necessarily criticism? I mean that culture to be such must be able, before stating
that something is true, to examine, and then issue a judgment. The search for what is believed
to be true is always laborious, an independent and critical. Note that the word criticism comes
from the Greek verb krino, meaning I judge.
KEY WORDS: Culture • Autonomy • Criticism

Autonomia della
cultura
Distante C
1
 Professor (aposentado) da Università di Pisa; Professor Titular (aposentado) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Uni-
versidade de São Paulo – FFLCH-USP
ISSN 1982-8632
Perché la cultura è e deve essere una nuova cultura, trasmutando e ar-
autonoma? Prima di arrivare a espor- ricchendo il patrimonio culturale che
re la tesi del perché io ritengo che la un uomo o un popolo nel suo assieme
Revista
cultura debba essere necessariamente hanno ereditato dal passato.
@mbienteeducação autonoma per non tradire se stessa e
V. 4, nº 1, jan/jun, quindi non venir meno alla sua funzio- Nella storia della lingua e della
2011: 7-12
ne di valorizzare l’intelligenza umana, cultura italiana, la parola ed il conceto
voglio partire dalla spiegazione etimo- di cultura appaiono nel Quattrocento,
logica di questi due splendidi vocaboli: a cominciare dal tempo dell’Umanesi-
autonomia e cultura. mo, mentre la parola ed il concetto di
autonomia appaiono nel Settecento, il
Ogni persona minimamente col- secolo dell’Illuminismo. Questo vuol
ta sa che le parole autonomia e cul- dire che nel Medioevo la cultura non
tura sono due parole che risalgono la era autonoma, in quanto altro non
prima alla lingua della Grecia antica era che lo specchio della trascenden-
e la seconda alla lingua latina: auto- za divina. Nella Divina Commedia di
nomia, composta dall’aggettivo ‘auto’, Dante Alighieri i vocaboli di cultura
che, tradotto in italiano, significa ‘pro- e di autonomia sono del tutto assenti.
prio’ o ‘se stesso’, e dal sostantivo ‘no- E non è per caso che la parola cultu-
mos’ che, in italiano, significa ‘legge’, e ra appare per la prima volta, mutua-
vuol dire la capacità di governarsi con ta dal latino, nel XIV secolo, il secolo
la propria legge; mentre con la parola dell’Umanesimo, dopo che Francesco
‘cultura’ i latini intendevano che l’uo- Petrarca (1304-1374) ne era stato il
mo poteva avere la cognizione, cioè la grande predecessore. È nel XIV seco-
conoscenza, delle cose. Quindi la con- lo, quando la dottrina dell’Umanesimo
giunzione dell’aggettivo auto con il so- diventa espressione dell’attività uma-
stantivo nomos significa la capacità di na come valore assoluto ed autonomo,
8 governarsi con le proprie leggi e non che la cultura diventa facoltà umana
con leggi prese in prestito da altri. È autonoma. Basta pensare a uomi-
evidente allora che la cultura è auto- ni come Leon Battisti Alberti (1404-
noma quando trova in se stessa la sua 1472), l’autore dei famosi I libri della
ragione di essere e quando non ubbi- famiglia (1433-1434) e dell’altrettan-
disce a nessuna entità che le è estra- to famoso Certame coronario (1441),
nea, sia di tipo politico o economico o nonché del De re aedificatoria, in dieci
di qualsiasi altro tipo. La cultura, per- libri, dove espone il suo concetto della
tanto, è un prodotto dell’intelligenza bellezza dell’architettura, di cui ave-
umana che non ubbidisce a niente e a va dato la prova pratica nella chiesa
nessuno, se non a se stessa, in quanto di Santa Maria Novella a Firenze, nel
è un valore assoluto, nel senso latino Tempio Malatestiano a Rimini, nel pa-
del termine absoluto, vale a dire di va- lazzo Rucellai a Firenze e nella basíli-
lore sciolto e staccato da tutto, di valo- ca di Sant’Andrea a Mantova. Pittura,
re, in altri termini, aldisopra di tutto. architettura e letteratura nella mente
di Leon Battista Alberti sono la stessa
Si faccia bene attenzione ora: non cosa, perché in tali arti l’uomo esprime
si confonda cultura con erudizione. La se stesso.
cultura non va confusa con l’erudizio-
ne, la quale ha una funzione passiva, Per rendersi conto di come conce-
mentre la cultura ha una funzione at- pivano la cultura gli uomini del secolo
tiva. Tra l’erudizione e la cultura c’è dell’Umanesimo, si pensi alla grande
uma differenza essenziale: mentre la scuola che per volontà di Lorenzo il
Autonomia della
cultura prima accoglie ed ammassa le nozioni Magnífico (1440-1492) venne fondata
del passato senza rielaborarle, la se- a Firenze, dove un grande poeta come
Distante C
conda invece le rielabora e crea così Angelo Poliziano (1454-1494) teneva
lezioni di latino e di greco insieme con tà pratica e scientifica, come si può ve-
ISSN 1982-8632
altri studiosi orientali come Androni- dere da tutto ciò che scrissero e fecero
co Callisto di Tessalonica e Giovanni gli scrittori, i poeti e gli scienziati che
Argiropulos. In quel tempo il latino e ho indicato sopra, e ne potrei indicare Revista
il greco a Firenze si respiravano come ancora molti altri, che se non ebbero @mbienteeducação
l’aria. E chi va a Firenze oggi e visita l’altezza e l’originalità intellettuale dei V. 4, nº 1, jan/jun,
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la biblioteca di quella celebre scuola ri- personaggi sopra menzionati, tuttavia
mane meravigliato del fatto che i libri grazie alla loro attività, le corti ita-
dei grandi scrittori e poeti latini e gre- liane del secolo XVI furono un centro
ci venivano letti e studiati dal pubblico splendido di civiltà e di raffinatezza ci-
come noi oggi li leggiamo nelle biblio- vile. Quante furono le corti mitaliane
teche specializzate. che si distinsero come centri splendidi
di cultura e di raffinatezza civile? Ne
L’Umanesimo non fu solo un fatto vorrei nominare solo alcune, perché
di erudizione, ma un fatto di cultura, e a volerle nominare e contare tutte, e
di grande cultura, che creò una nuova soprattutto a volerne descrivere le ca-
umanità, un’umanità che seppe guar- ratteristiche di ciascuna, sarebbe un
dare il mondo con occhi nuovi, cioè con lavoro che trascenderebbe i limiti che
occhi che volevano conoscere il mondo mi son posto in questo studio. Ma è
come era realmente fatto, per metterlo su di una che voglio concentrare spe-
poi al servizio dell’uomo. cialmente la mia attenzione. Mi rife-
risco alla corte di Urbino che Baldesar
In questo senso, il Quattrocento, Castiglione (1478-1529) indica come
il secolo dell’Umanesimo, fu un secolo la corte ideale, in cui la cortigianeria
rivoluzionario, perché scoprendo filolo- raggiunse la massima espressione del-
gicamente il mondo antico, lo continuò la perfezione cortigiana. Il Castiglione
con l’intelligenza creatrice dell’uomo. ebbe il merito di descrivere le qualità
Se non ci fosse stato il Quattrocen- intellettuali, psicologiche ed intellet- 9
to, il secolo dell’Umanesimo, quan- tuali che un perfetto cortigiano doveva
do l’uomo passò dall’erudizione alla possedere.
cultura autonoma, immanente e non
trascendente, come era nel Medioe- È chiaro che l’autore, come si può
vo, non avremmo avuto né Cristoforo vedere da una sua pagina che riporte-
Colombo (1441-1506), lo scopritore rò in questo studio, descrive le qualità
dell’America, né Niccolò Machiavelli che doveva avere um cortigiano ideale.
(1469-1527), lo scopritore della scien- Il ritratto che egli fa del cortigiano ide-
za politica, né Ludovico Ariosto, il po- ale, è un ritratto di altissima civiltà, di
eta cantore dell’immaginazione uma- quella civiltà che era stata raggiunta
na, né Leonardo da Vinci (1452-1519), dalle corti italiane nel Cinquecento,
lo scopritore della tecnica moderna e dove l’uomo riusciva ad esprimere il
dell’arte della pittura, la sola arte, che massimo della perfezione delle virtù
ritraendo il mondo, ce lo fa realmente umane che consistevano nell’essere un
conoscere, né Galileo Galilei, lo scopri- uomo senza alcun difetto, né di corpo
tore della reale struttura dell’universo né di spirito. E l’autore lo sapeva che il
e che non è il sole che gira intorno alla ritratto del cortigiano che egli descris-
terra, ma è la terra che gira intorno al se era un ritratto ideale, ma il fatto
sole. stesso che lo descrisse vuol dire che ce
l’aveva in mente e quindi lo immagina-
Il Quattrocento, pertanto, non fu va come se fosse reale. È l’Umanesimo
un secolo solamente erudito, ma fu un italiano che è giunto a saper cogliere il
Autonomia della
secolo che fece diventare l’erudizione meglio della cultura greca e latina e le cultura
cultura, cioè seppe trasformare l’eru- fa sua e le porta avanti. Distante C
dizione in cultura, vale a dire in attivi-
ISSN 1982-8632 Vediamo che cosa dice il Casti- del Magnifico Lorenzo, che non aveva
glione nella dedica del Cortegiano al trovato entro “la sua suppellettile cosa
Reverendo ed Illustre Signor Don Mi- quale io abbi più cara o tanto esistimi
Revista chel de Silva Vescovo di Visco. Visco quanto la cognizione delle azioni delli
@mbienteeducação è una città del Portogallo, dove Don uomini grandi imparata da me con una
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Michel de Silva fu vescovo dal 1525 lunga esperienza delle cose moderne e
al 1541. Ecco cosa dice: “Altri dicono una continua lezione delle antique: le
che, essendo tanto difficile e quasi im- quali avendo io con gran diligenza lun-
possibile trovare un uomo così perfet- gamente escogitate ed esaminate e ora
to come io voglio che sia il cortegiano, in un piccolo volume ridotte, mando
è stato superfluo il scriverlo, perché alla Magnificenzia Vostra”, e nel capi-
vana cosa è insegnar quello che impa- tolo XV del Principe, intitolato De his
rar non si pò. A questi rispondo che mi rebus quibus homines et praesertim
contenterò con Platone, Senofonte e principes laudantur aut vituperantur,
Marco Tullio, lassando il disputare del dallo stesso autore cosi tradotto “Di
mondo intellegibile e delle idee; tra le quelle cose per le quali gli uomini, e
quali, sì come (secondo quella opinio- specialmente i principi, sono lodati o
ne) è la idea della perfetta republica vituperati”, sciveva: “Resta ora a ve-
e del perfetto re e del perfetto oratore, dere quali debbano essere e modi e go-
cosi è ancora quella del perfetto corte- verni di uno principe con sudditi o con
giano: alla imagine della quale s’io non gli amici. E perché io so che di questo
ho potuto approssimarmi col stile, tan- hanno scritto, dubito, scrivendone an-
to minor fatica averanno i cortegiani cora io, non essere tenuto prosuntuo-
d’approssimarsi con l’opera al termine so, partendomi, massime nel disputare
e mèta ch’io col scrivere ho loro propo- questa materia, dalli ordini delli altri.
sto; e se, con tutto questo, non potran Ma sendo l’intento mio scrivere cosa
conseguir qella perfezion, qual che ella utile a chi la intende, mi è parso più
10 si sia, ch’io mi son sforzato d’esprime- conveniente andare drieto alla verità
re, colui che più le si avvicinarà sarà il effettuale della cosa che alla imagina-
più perfetto; come di molti arcieri che zione di essa. E molti si sono imaginati
tirano ad un bersaglio, quando niuno è republiche e principati che non si sono
che dia nella brocca, quello che più se mai visti né conosciuti essere in vero.
le accosta senza dubbio è miglior degli Perché egli è tanto discosto da come si
altri. Alcuni ancor dicono ch’io ho cre- vive a come si doverrebbe vivere, che
duto formar me stesso, persuadendo- colui che lascia quello che si fa per
mi che le condizioni ch’io al cortegiano quello che si doverrebbe fare, impara
attribuisco, tutte siano in me. A questi più tosto la ruina che la perservazione
tali non voglio già negar di non aver sua:perché uno uomo che voglia fare
tentato tutto quello ch’io vorrei che in tutte le parte professione di buono,
sapesse il cortegiano; e penso che chi conviene ruini infra tanti che non sono
non avesse avuto qualche notizia delle buoni. Onde è necessario a uno prin-
cose che nel libro si trattano, per eru- cipe, volendosi mantenere, imparare a
dito che fosse stato, mal avrebbe potu- potere essere non buono, e usarlo e non
to scriverle: ma io non son tanto privo l’usare secondo la necessita”.
di giudicio in conoscere me stesso che
mi presuma saper tutto quello che so In questo brano che abbiamo
desiderare”. trascritto c’è tutta la gloria eterna di
Niccolò Machiavelli. Con uno stile, al
Questo passo del Cortegiano mi ri- suo solito, parlato e diretto e antireto-
Autonomia della
chiama alla mente altri due passi del rico, scopre la verità delle cose. Ecco
cultura Principe di Niccolò Machiavelli. Anche un uomo geniale che si fa portavoce di
Distante C Machiavelli scriveva nella dedica del una cultura che ama scoprire il noc-
Principe a Lorenzo de’Medici, il figlio ciolo della verità delle cose. Siamo di
fronte ad un gigante del pensiero uma- centesco, col suo razionalismo, che ha ISSN 1982-8632
no che rovescia lo sforzo idealistico del condizionato il sorgere di quasi tutta
Castriglione, ma in realtà tutti e due la storia europea degli ultimi tre seco-
sono sullo stesso piano culturale, per- li, è vero altresì che lo spirito cristiano Revista
ché tutti e due riescono a descrivere la non è mai scomparso, e come una vena @mbienteeducação
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faccia dell’uomo: uno la parte nobile e sotteranea si è sempre infiltrato nella 2011: 7-12
l’altro la parte ambiguamente turpe storia europea, venendo allo scoperto
della faccia dell’uomo. Per questo sono di tanto in tanto, come nel tempo del
sullo stesso piano, ma rovesciato. È la Romanticismo ottocentesco. E quando
cultura del Cinquecento italiano; è la viene fuori la vena cristiana inonda i
cultura che doveva aprire, anzi spa- campi, come è avvenuto recentemen-
lancare, le porte per far entrare l’uomo te con la figura del papa polacco Ka-
nel mondo moderno, il mondo nostro, rol Wojtyla, che ha assunto il nome di
il mondo degli estremi e degli opposti, Giovanni Paolo II.
il mondo di Castiglione e di Machia-
velli, il mondo del bello e del vero. E E così, nel secolo passato, l’Europa
questo è il mondo moderno, il nostro ha conosciuto la grandezza ed insieme
mondo, da cui non possiamo e non sap- i limiti dell’Umanesimo. L’uomo, nel
piamo uscirne perché è culturalmente XX secolo, ha creduto di poter fare tut-
autonomo, e nel quale è inglobata an- to, di essere talmente potente da non
che l’attività pratica e culturale della conoscere i limiti della sua potenza e
Chiesa cattolica, la quale merita un della sua grandezza. Ed è stato capa-
discorso non facile. ce di scatenare la prima e la seconda
guerra mondiale e ha osato di dar vita
Benedetto Croce, alla fine della al fascismo, al nazismo e al comuni-
sua vita, dopo aver fatto una battaglia smo. Lo sviluppo tecnico e scientifico lo
filosofica di tipo laico, combattuta du- ha portato poi alla scoperta della bom-
rante tutta la sua vita, la conclude con ba atomica con la quale, se viene usata 11
una frase famosa, la quale suona così:” indiscriminatamente, può essere mes-
Perché non possiamo non dirci cristia- sa a rischio la vita universale dell’uo-
ni”. È una frase celebre formata da mo su tutta la terra. Siamo arrivati,
due negazioni, una delle quali raffor- pertanto, alla possibiltà di autofagoci-
za l’altra, nel senso che la seconda non tarci. Abbiamo toccato il limite tragico
annulla la prima, ma la rafforza. Eb- della potenza umana. La conoscenza
bene, la Chiesa cattolica, col Concilio filosofica e tecnologica ci ha portati, se
di Trento, durato quasi vent’anni, dal non ci fermiamo a pensare, all’autodi-
1545 al 1563, assunse uma posizione struzione.
nettamente contraria al Rinascimento
italiano. Si pensi alla figura di papa Ho detto se non ci fermiamo a pen-
Alessandro VI, il padre di Cesare Bor- sare. Di questo, oggi, abbiamo bisogno.
gia, il famoso Valentino. Abbiamo bisogno di riflettere verso
dove stiamo andando. Quale cammino
Ora, se si dà uno sguardo alla cul- sta prendendo l’uomo?
tura europea, dal Medioevo ai nostri
giorni, vediamo che la presenza del L’Umanesimo è ancora valido? E
pensiero della Chiesa non è mai man- se non è valido l’Umanesimo che cosa
cato. La verità è che il cristianesimo è valido? Sono domande difficili e ter-
nelle sue varie forme, ortodosse ed ete- ribili. Eppure non si scappa. Ad esse
rodosse, è parte integrante della storia bisogna rispondere. E non dobbiamo
europea. Senza il pensiero cristiano la aver paura di rispondere. Ci va di mez-
Autonomia della
storia europea non si spiega, non ha zo la nostra salvezza, non la salvezza cultura
senso, non si capisce. E se è vero, come mia o tua, ma la salvezza di tutti. Distante C
è vero, che è stato l’Illuminismo sette-
ISSN 1982-8632 E sono arrivato al punto finale del Che cosa intendo dire, quando
mio discorso. E concludo con la difesa dico che la cultura, per essere auto-
dell’autonomia della cultura. Solo l’au- noma deve essere necessariamente
Revista tonomia della cultura ci può salvare, critica? Voglio dire che la cultura per
@mbienteeducação perché con l’autonomia della cultura essere tale, deve essere capace, pri-
V. 4, nº 1, jan/jun,
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possiamo vedere ed aver coscienza, in ma di affermare che qualcosa è vera,
quanto uomini, del cammino migliore di esaminarla, e poi emettere il giudi-
onde possiamo evitare i pericoli che lo zio. La ricerca di ciò che si ritiene vero
sviluppo della tecnologia senza regole è sempre una ricerca faticosa, ed in
e senza controllo, invece di essere fon- quanto tale autonoma e critica. Si ten-
te di benessere sociale, può essere fon- ga presente che la parola critica viene
te di malessere universale. dal verbo greco krino, che vuol dire io
giudico.
E quale è il cammino migliore
per giungere alla salvezza di tutti? Il Ancora una volta la ricerca etimo-
cammino migliore per giungere alla logica di una parola ci fa capire meglio
salvezza di tutti è quello di fermarci, il significato ed il valore delle parole
e pensare senza lasciarci trascinare che usiamo quando parliamo o scri-
dal vortice di una fretta insensata ed viamo. La critica, dunque, non svolge
impazzita per giungere chi sa dove, mai una funzione negativa, ma estre-
forse nell’abisso del nulla. Purtrop- mamente positiva, perché prima che
po, nel mondo dei nostri giorni, tutti, una cosa venga accettata come vera,
proprio tutti, siamo soggetti ad essere è necessario che venga esaminata at-
corrotti dal bombardamento continuo tentamente e discussa. E la cultura,
dei mezzi di comunicazione (radio, te- nella sua autonomia, si deve basare
levisione, giornali, riviste, etc.), i quali sulla critica, altrimenti diventa un va-
ubbidiscono non alla ricerca della ve- niloquio, una chiacchiera senza fonda-
12 rità, ma a ciò che interessa a deter- mento.
minati gruppi sociali che influenzano
l’opinione pubblica. È chiaro che è Attenti, dunque: esaminiamo cri-
difficile liberarsi dal bombardamento ticamente dove stiamo andando: stia-
propagandistico dei mezzi di comuni- mo andando verso la felicità o verso
cazione che sono nelle mani dei gruppi l’infelicità, cioè verso l’autodistruzione
economicamente potenti che tendono a fisica e spirituale? La risposta tocca a
vendere all’opinione pubblica ciò che a noi darla, e non ai posteri. Io non so-
loro interessa. Questo fatto evidente- miglio a quel grande che si chiamava
mente non fa parte della cultura, ma Alessandro Manzoni.
della propaganda menzognera. Ecco
perché io insisto che la cultura deve Per conto mio, abbiamo bisogno di
essere autonoma e non deve ubbidire un nuovo Umanesimo, di un Umane-
a nessuno e a niente. E per essere au- simo cioè, che abbia delle basi critiche
tonoma, deve essere necessariamente ed autonome.
critica.
Recebido para publicação em 29.11.2010
Aceito em 15.12.2010

Autonomia della
cultura
Distante C
PARA TER AUTONOMIA: UNIR CORPO E ALMA ISSN 1982-8632

Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 13-8

Prof. Dr. Jean Lauand1


jeanlaua@usp.br

Resumo
Este artigo examina e discute - a partir de João Guimarães Rosa, Fernando Pessoa,
Tomás de Aquino, Pascal e Shakespeare - a unidade do ser humano e a educação
moral, condição para uma verdadeira autonomia. Também para tradições orientais, o
corpo e o agir participam na aquisição de virtudes.
PALAVRAS-CHAVE: Educação Moral • Antropologia • Virtude • Unidade do Homem.

Abstract
This article examines and discusses - from the writings of João Guimarães Rosa, Fer- 13
nando Pessoa, Thomas Aquinas, Pascal and Shakespeare - the unity of human being
and moral education, condition for a true autonomy. In Eastern traditions, body and
actions play an important role in acquisition of virtue.
KEY-WORDS: M
 oral Education • Anthropology • Virtue • Unitity of Man: soul and body

Para ter autonomia:


unir corpo e alma
1
 rofessor no Programa de Mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo. Professor Titular da Facul-
P Lauand J
dade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP – aposentado.
ISSN 1982-8632 Em qualquer instância, quem / matéria, está na pretensão raciona-
pensa em educação não pode ignorar lista moderna, que torna o ens certum
a antropologia, o ser do homem. Isso um absoluto.
Revista vale sobretudo para a educação mo-
@mbienteeducação ral, tema tão urgente nos dias de hoje. Como agudamente diagnosticou
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 13-8
Desde Platão, tornou-se evidente o ca- Heidegger:
ráter problemático do educar para a
virtude; o que, evidentemente, trans- De bem outra espécie é aquela dis-po-
cende o âmbito meramente intelectu- sição que levou o pensamento a colo-
car a questão tradicional do que seja
al e envolve o homem como um todo:
o ente enquanto é, de um modo novo,
alguém pode conhecer profundamente e a começar assim uma nova época
as teorias morais, as classificações das da filosofia. Descartes, em suas me-
virtudes, as doutrinas religiosas mais ditações, não pergunta apenas e em
santas... e ser pessoalmente um cana- primeiro lugar ti tò ón — que é o ente,
lha. Não que não seja importante – e enquanto é? Descartes pergunta:
mesmo uma valiosa ajuda – o estudo qual é aquele ente que no sentido do
dos clássicos da ética, mas sempre ha- ens certum é o ente verdadeiro? Para
verá algo mais do que estudo, quando Descartes, entretanto, se transfor-
se trata de aperfeiçoamento moral. mou a essência da certitudo. Pois na
Idade Média certitudo não significa-
va certeza, mas a segura delimitação
Nesse ponto, tipicamente falando,
de um ente naquilo que ele é. Aqui
os Orientes levam uma vantagem so- certitudo ainda coincide com a signi-
bre nós: enquanto o Ocidente aposta ficação de essentia. Mas, para Des-
na formação intelectual; os Orientes, cartes, aquilo que verdadeiramente
indepedentemente de teorias que as é se mede de uma outra maneira.
legitimem, tendem a práticas que con- Para ele a dúvida se torna aquela dis-
sideram o homem como um todo: em -posição em que vibra o acordo com
14 sua unidade espírito-corpo, ao menos o ens certum, o ente que é com toda
em muitas de suas propostas peda- certeza. A certitudo torna-se aquela
gógicas, que partem precisamente de fixação do ens qua ens, que resulta da
indubitabilidade do cogito (ergo) sum
uma ação corporal, exterior, para atin-
para o ego do homem. Assim o ego se
gir um efeito espiritual, interior. transforma no sub-iectum por exce-
lência, e, dessa maneira, a essência
O Ocidente, sobretudo na época do homem penetra pela primeira vez
moderna, tende a um fragmentarismo, na esfera da subjetividade no sentido
a uma cisão espírito/corpo, que reme- da egoidade. Do acordo com essa cer-
te a um desmedido afã de clareza no titudo recebe o dizer de Descartes a
pensamento. E a grande ruptura que determinação de um clare et distincte
o moderno pensamento ocidental ins- percipere. A dis-posição afetiva da dú-
tituiu deu-se precisamente em torno vida é o positivo acordo com a certe-
da concepção de corpo. Se sempre no za. Daí em diante a certeza se torna
a medida determinante da verdade.
Ocidente pairou a tentação de um exa-
A dis-posição afetiva da confiança na
gerado dualismo, separando de modo absoluta certeza do conhecimento a
mais ou menos incomunicável e abso- cada momento acessível permanece o
luto, por um lado, o intelecto (a mente, páthos e com isso a arkhé da filosofia
a “alma”, o espírito...) e, por outro, o moderna.1
corpo e a matéria; a partir de Descar-
tes (res cogitans x res extensa) tal dico- Já os Orientes, desprovidos dessa
tomia torna-se dominante. necessidade de certeza e convivendo
com naturalidade com o mistério, não
Para ter autonomia: Dualismo e clareza: na verdade, precisam distinguir res cogitans de res
unir corpo e alma a última instância do pensamento extensa, distinção que, na Europa, des-
Lauand J moderno, por detrás da cisão espírito de Descartes, torna-se um imperativo.
A Profa. Luciene Félix resume o posi- “Objeção: Parece que sono e banho ISSN 1982-8632
cionamento de Descartes: não mitigam a tristeza. Pois a tris-
teza reside na alma; enquanto banho
Há duas substâncias finitas (res co- e sono dizem respeito ao corpo, por-
Revista
gitans e res extensa) e uma infinita tanto, não teriam poder de mitigar a @mbienteeducação
(Deus). Substância (res) adquiriu um tristeza.3 V. 4, nº 1, jan/jun,
conceito fundamental no século XVII: 2011: 13-8
de natureza simples, absoluta, con- Resposta à objeção: Sentir a devida
creta (realidade intelectual) e com- disposição do corpo causa prazer e,
pleta. Somos portanto uma substân- portanto, mitiga a tristeza ”.
cia (res) pensante (cogito) e também
uma substância (res) que possui cor- De resto, para os remédios contra
po, matéria (extensa). Este dualismo a tristeza, Tomás não fala de Deus nem
cartesiano evidencia que cada indi- de Satã, mas sim recomenda: qualquer
víduo reconhece a própria existência tipo de prazer, as lágrimas, a solida-
enquanto sujeito pensante: nossa es-
riedade dos amigos, a contemplação da
sência é a razão, o ser humano é ra-
verdade, banho e sono. E ainda sobre
cional. O cogito é a consciência de que
sou capaz de produzir pensamentos, é a interação alma-corpo, Tomás afirma
um meio pragmático de dar início ao em I-II, 37, 4: “A tristeza é, entre todas
conhecimento. Estamos afirmando, as paixões da alma, a que mais causa
portanto, uma verdade existencial. dano ao corpo [...] E como a alma move
Há uma coincidência entre meu pen- naturalmente o corpo, uma mudança
samento e minha existência. (...) O espiritual na alma é naturalmente
primeiro conceito de Descartes, por- causa de mudanças no corpo”.
tanto, denomina-se “dualismo carte-
siano”, admitindo a existência de Agir no corpo para atingir a alma;
duas realidades: alma (res cogitans) e
agir na alma para atingir o corpo. Ti-
corpo (res extensa). A independência
vesse prevalecido a antropologia de
entre alma e corpo conduzirá a uma 15
Tomás teríamos estado, desde o século
nova separação: sujeito e objeto.2
XIII, em muito melhores condições de
Esse novo páthos era totalmen- compreender a natural e necessária
te estranho para um Tomás de Aqui- condição psicossomática (e somato­
no, que afirma - no começo da Suma psíquica...) de nossa realidade. Tomás
Teológica - que a dignidade do saber é tão "materialista", que nas questões
reside no objeto e não na clareza... E de Quodlibet, tratando do jejum, dirá
recusa também a dicotomia: alma x que o jejum é sem dúvida pecado (abs-
corpo. Nada mais alheio ao pensamen- que dubio peccat) quando debilita a
to de Tomás do que uma incomuni- natureza a ponto de impedir as ações
cação entre espírito e matéria. O que devidas: que o pregador pregue, que o
Tomás, sim, afirma é o homem total, professor ensine, que o cantor cante...,
com a intrínseca união espírito-corpo, que o marido tenha potência sexual
pois a alma, para o Aquinate, é forma, para atender sua esposa! Quem assim
ordenada para a intrínseca união com se abstém de comer ou de dormir, ofe-
a matéria. Por exemplo, Tomás indica rece a Deus um holocausto, fruto de
os remédios para a tristeza, que resi- um roubo.4
de na alma. E enfrenta essa questão
Como indicávamos, essa posição
na Suma Teológica I-II 38 e no artigo
de Tomás era excepcional, conside-
5 chega a recomendar banho e sono
rada, em sua época, quase herética:
como remédios contra a tristeza! Pois,
a teologia contemporânea recusava a
diz o Aquinate, tudo aquilo que recon-
doutrina de uma única alma no ho-
duz a natureza corporal a seu devido
mem e afirmava a existência de três Para ter autonomia:
estado, tudo aquilo que causa prazer é
(naturalmente a “alma espiritual”, unir corpo e alma
remédio contra a tristeza. Tomás des-
independente da matéria é que era Lauand J
trói assim a objeção "espiritualista":
ISSN 1982-8632 considerada a decisiva, em detrimento E os que lêem o que escreve,
da “alma vegetativa” e da alma “sen-
sitiva”). Se, desde Platão, o exagerado Na dor lida sentem bem,
Revista “espiritualismo” tem sido uma tenta-
Não as duas que ele teve,
@mbienteeducação ção (especialmente para visões super-
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 13-8
ficiais do cristianismo), com Descartes, Mas só a que eles não têm.
o Ocidente se lança de vez na dicoto-
mia mente x matéria... E assim nas calhas da roda

ANIMA FORMA CORPORIS Gira, a entreter a razão,

Essa dicotomia gera uma espécie Esse comboio de corda


de esquizofrenia no cristianismo: por
um lado, propõe-se um cristianismo Que se chama o coração.
“espiritual”, onde a matéria, o corpo,
o sexo e as paixões são maniqueisti- “Fingir” é também a proposta
camente considerados “do mal”; mas, de Shakespeare: “Assume a virtue, if
por outro - é o caso do catolicismo, por you have it not”, diz Hamlet (III, 4)6.
exemplo, - aposta-se na matéria (na O costume é monstro que vai comen-
liturgia, por exemplo) como o grande do o sentido de nossas ações. Mas, o
indutor de atitudes espirituais. diabo do hábito torna-se anjo quando
se volta para o bem: dando a capa que
E aí tocamos um dos pontos-chave reveste as ações boas – uma agora, ou-
da educação moral, que é sempre, em tra depois e outra ainda – e assim ir
boa medida, autoeducação. A fórmula mudando a natureza e, com prodigioso
vem dada numa aparentemente sur- poder, exorcizar os demônios.
preendente sem-tença de João Gui- O “fingir” proposto nas Pensées
16 marães Rosa: "Tudo se finge primeiro; (#250)7 de Pascal oferece-nos o enlace
germina autêntico é depois".5 com o grande tema da Liturgia. No re-
Um homem que reconheça um seu lacionamento com Deus:
defeito moral, digamos a ingratidão, e
queira adquirir a virtude correspon- É necessário que o exterior se una ao
interior, isto é, pôr-se de joelhos, re-
dente, como deve proceder? Fingindo.
zar com os lábios, etc. a fim de que
Quer dizer, começa-se por assumir as o homem orgulhoso, que não quis se
formas externas, verbais da gratidão submeter a Deus, seja submetido à
(que não se sente): “fingir” reconhecer criatura. Esperar socorro desse ex-
o cárater indevido do favor recebido, terior é ser supersticioso; não querer
“fingir” louvar o benfeitor, “fingir” sen- ajuntá-lo ao interior é ser soberbo.
tir-se na obrigação de retribuir etc. E,
um belo dia, germina autêntico aquilo É dessa ação (inter-ação) do corpo
que se fingia... no espírito que trata o clássico Sinais
Sagrados8 de Romano Guardini, afinal
“Finge” também Fernando Pes- toda a liturgia decorre do “anima for-
soa: ma corporis”. Nesse pequeno precioso
livro, já quase centenário, o mestre
Autopsicografia
alemão vai mostrando o alcance espi-
O poeta é um fingidor ritual das realidades materiais: o sino,
que - muito mais do que um mero ins-
Finge tão completamente trumento funcional sinalizador sono-
ro (como a sirene de uma escola ou o
Para ter autonomia:
Que chega a fingir que é dor apito de uma fábrica) - desperta-nos a
unir corpo e alma alma para a grandiosidade do mundo
A dor que deveras sente.
Lauand J como Criação; os degraus; a porta do
templo; a postura corporal na liturgia Uma abertura na parede faria o mes- ISSN 1982-8632
etc., etc., etc. Fiquemos com um par de mo efeito e um tabique de pranchas
exemplos: e tábuas fortes bastaria para fechar.
As pessoas poderiam entrar e sair e
Revista
Os degraus É a grande arte de ver e seria barato e estaria em correspon- @mbienteeducação
nos tornarmos sábios. Enquanto isto dência com o fim em vista... Mas não V. 4, nº 1, jan/jun,
não acontecer, tudo permanece mudo seria uma «porta». Esta destina-se a 2011: 13-8

e obscuro. Mas se o conseguirmos, cumprir mais do que um simples fim;


abre-se-nos, revela-se-nos o seu ínti- ela fala. Repara como ao transpô-la
mo, formando-se dali, da sua essên- tens esta sensação: «Agora deixo o
cia, a figura exterior. Poderás fazer a que fica lá fora. Entro». Lá fora fica
experiência: precisamente as acções o mundo belo, fervilhante de vida e
mais vulgares, as acções de cada dia poder criador. De mistura, existe
escondem o que há de mais profundo. também muita coisa menos digna: a
No mais simples se esconde o maior busca dos seus interesses, por vezes
mistério. exageradamente. Anda tudo a correr
de um lado para o outro, procurando
Aqui temos, por exemplo, os de- cada qual acomodar-se o melhor que
pode. Não queremos dizer que o mun-
graus. Vezes sem número os subiste
do não seja santo; mas alguma coi-
já. Mas tomaste consciência do que em sa de não santo tem sem dúvida em
ti se passava ao subi-los? Sim, porque si. Pela porta entramos num recinto
de facto acontece qualquer coisa em alheio a interesses, silencioso e sa-
nós mesmos quando subimos. Somente grado: no santuário. Certamente que
que é coisa tão subtil e silenciosa que tudo é obra e dom de Deus. Em toda a
facilmente a podemos deixar passar. parte Ele pode vir ao nosso encontro.
(...) E no entanto os homens desde
Manifesta-se aqui um profundo sempre souberam que determinados
mistério. Um daqueles fenómenos que lugares são especialmente consagra-
procedem do fundamento do nosso ser dos, reservados a Deus. A porta está 17
entre o interior e o exterior; entre os
humano; enigmático não o podemos
interesses e o santuário; entre o que
resolver pela inteligência, e, no entan-
pertence a toda a gente e o que é con-
to, cada qual compreende-o, porque o sagrado a Deus. E diz a quem a trans-
nosso ser mais íntimo lhe corresponde. pões: «Deixa lá fora o que não perten-
ce cá dentro: pensamentos, desejos,
Quando subimos os degraus, não preocupações, vaidades. (pp. 46-47)
sobe só o pé, mas também todo o nosso
ser. Subimos também espiritualmen-
te. E se o fazemos conscientemente, NOTAS EXPLICATIVAS
pressentimos uma ascensão até aque- 1
http://www.scribd.com/doc/3506403/Heiddeger-Que-
la altura em que tudo é grande e aca- e-isto-A-Filosofia Que é isto – A Filosofia? Tradução e no-
bado; o céu onde mora Deus. (...) (pp. tas: Ernildo Stein
2
“Descartes” http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_
43-44) descartes.htm
3
Videtur quod somnus et balneum non mitigent tristi-
Ou a porta – a pesada porta - que tiam. Tristitia enim in anima consistit. Sed somnus et
balneum ad corpus pertinent. Non ergo aliquid faciunt ad
marca a ruptura entre o profano e o mitigationem tristitiae.
sagrado... 4
Ad primum ergo dicendum quod ipsa debita corporis
dispositio, inquantum sentitur, delectationem causat, et
per consequens tristitiam mitigat.
A Porta Muitas vezes entrámos já 5
“Sobre a escova e a dúvida” in Tutaméia. Rio de Janeiro:
por ela na igreja e de cada vez nos Nova Fronteira. 1985, p. 166.
disse alguma coisa. Compreendemo- 6
  Assume a virtue, if you have it not. That monster, cus-
-lo? Para que está a porta ali? Talvez tom, who all sense doth eat. Of habits devil, is angel yet
in this, that to the use of actions fair and good He likewise
te admires desta pergunta. «Para se
gives a frock or livery, that aptly is put on. Refrain to-night,
sair e entrar», julgas tu. A resposta and that shall lend a kind of easiness to the next absti- Para ter autonomia:
não e assim tao fácil. Pois para entrar nence: the next more easy. For use almost can change unir corpo e alma
e sair não é preciso porta nenhuma! the stamp of nature. And either.. the devil, or throw him
Lauand J
out with wondrous potency.
7
  Il faut que l’extérieur soit joint a l’intérieur pour obtenir 8
  Guardini, R. Sinais sagrados, Braga, Franciscana, 1962
ISSN 1982-8632
de Dieu; c’est-à-dire que l’on se mette à genoux, prier des
lèvres, etc. afin que l’homme orgueilleux, qui n’a voulu se
soumettre à Dieu, soit maintenant soumis à la créature. Recebido para publicação em 15.11.2010
Attendre de cet extérieur le secours est être superstitieux,
Revista Aceito em 02.12.2010.
ne vouloir pas le joindre à l’intérieur est être superbe.
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 13-8

18

Para ter autonomia:


unir corpo e alma
Lauand J
EDUCAÇÃO E AUTONOMIA: ISSN 1982-8632

O LUGAR DO CORPO NA TRADIÇÃO JAPONESA


Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 19-28

Profa. Dra. Chie Hirose1


chie.hirose@terra.com.br

Resumo
Este artigo examina e discute o confundente conceito de Mi na tradição japonesa e o modo
como a educação se apoia no corpo, exemplificando com a tradicional Cerimônia do Chá.
PALAVRAS-CHAVE: Educação • Antropologia e educação japonesa • Mi, corpo e moral • Unidade
do ser humano • Cerimônia do chá.

Abstract
This article examines and discusses the “confounding” concept of Mi in Japanese tradition. And 19
how education is founded on body, as it is shown, for example, in Tea Cerimony.
KEY WORDS: E
 ducation • Japanese Anthropology and Education • Mi, Body and Moral • Unity
of Man • Tea Cerimony.

Educação e
autonomia: o lugar
do corpo na tradição
japonesa
Hirose C
1
  Doutora em Educação pela Faculdade de Educação –FEUSP. Professora da Faculdade Campos Salles.
ISSN 1982-8632 PENSAMENTO CONFUNDENTE confundente.
Em suas obras, Jean Lauand tem Após exemplificar com os diver-
indicado importantes conexões do com- sos significados confundidos na pala-
Revista
@mbienteeducação plexo espírito-corpo que é o homem. A vra árabe Salam (hebraica Shalom),
V. 4, nº 1, jan/jun, percepção dessa realidade é facilitada Lauand dirige-se ao chinês e ao Brasil:
2011: 19-28 pela tradição japonesa que, na própria
língua (ou, como diz Lohmann, no sis- Quando a língua chinesa confun-
tema língua/pensamento) já assume de diversos significados em torno
esse fato. Ao final, exemplificaremos da palavra Tao (MAY, 1975), não
com a Cerimônia do Chá. se trata, evidentemente, de mera
equivocidade (como no caso de
Comecemos por apresentar em
nossa palavra “manga” – a fruta
suas grandes linhas o pensamento
e a parte da vestimenta que re-
confundente, tarefa na qual valer-
cobre o braço), mas de que a pró-
-me-ei de um estudo de Jean Lauand
pria visão de mundo, o próprio
(2006), recolhendo resumidamente os
pensamento está marcado pelo
principais pontos que possam ser úteis
confundente: governo, sabedoria
para este estudo:
e virtude (Tao) devem ser indisso-
Ao analisar cultura e mentalidade ciáveis. O português também tem
de um povo, a língua é um fator suas confundências. Sobretudo,
importante, na medida em que o português do Brasil, com nossa
condiciona o pensamento, a pos- propensão ao genérico, à indeter-
sibilidade de acesso à realidade. minação, ao neutro. No outro dia,
Uma dessas formas de acesso ao dirigindo-me a um colega, vizinho
real é o pensamento confundente, de prédio, a quem frequentemen-
que - numa primeira aproximação te dou carona, perguntei: “E aí,
20 você vai para a USP amanhã?”.
- concentra numa única palavra
realidades distintas, mas conexas. Sua resposta foi: “Devo ir”. O lei-
Se distinguir, dar nomes diferen- tor (e mesmo o interlocutor) não
tes para realidades diferentes, é tem a menor possibilidade de sa-
uma importante função da língua; ber o que significa esse “devo”, en-
“confundir” é - como já faziam tre nós, muito confundente. Como
notar Ortega y Gasset e Julián traduzi-lo, por exemplo, para o in-
Marías - igualmente importan- glês (should, have to, supposed to,
te, pois: “Não haveria como lidar must, ought...)? Pois, esse “devo”
intelectualmente com realidades pode ser interpretado desde a
complexas, em suas conexões, mais absoluta e imperativa deci-
nas quais interessa ver o que há são de ir (“eu devo ir, senão a USP
de comum e, portanto, o tipo de desmorona”) até a mais descom-
relações que há entre realidades prometida e frágil intenção (“eu
que, de resto, são muito diferen- não falei que iria, eu falei ‘devo ir’,
tes” (LAUAND, 2007). Em maior e aí apareceu um desenho anima-
ou menor grau, variando de acor- do legal na TV e eu não fui”). (...)
do com o setor da realidade a que
É importante para nós destacar
se aplicam, todas as línguas são
ainda outros aspectos do pensamento
“distinguentes” e todas as línguas
confundente, como revelador da cultu-
são confundentes. Grosso modo,
ra da comunidade do falante:
Educação e se as línguas ocidentais parecem
autonomia: o lugar tender mais para a distinção, as Não só o distinguir, dizíamos, mas
do corpo na tradição
japonesa línguas dos Orientes - considera- também o “confundir” são importan-
Hirose C
remos o caso da língua árabe -, tes missões da linguagem, que cria
parecem convidar ao pensamento palavras (e acumula sentidos nelas)
em função da percepção que temos da modo, sim o somos: o corpo não é mera- ISSN 1982-8632
realidade (e reciprocamente: percebe- mente “tido”, ninguém diz “meu corpo
mos a realidade pelo crivo das pala- está com gripe” ou “você chutou o pé
vras de que dispomos...). Os irmãos do meu corpo”; o que se diz é “Eu estou Revista
dos pais e seus filhos recebem os
com gripe”, “você me chutou”. @mbienteeducação
nomes especiais de “tios” e “primos” V. 4, nº 1, jan/jun,
por uma questão de necessidade, de O Ocidente, com seu afã de ideias 2011: 19-28
economia de linguagem e de pensa- claras e distintas, uma e outra vez,
mento, pois frequentemente nos refe-
propõe uma dualidade radical corpo /
rimos a eles. Já a “cunhada da sogra
da tia da vizinha” nunca receberá um
espírito, deixando por resolver os evi-
nome especial, pois ela não entra na dentes fatos de integração, como as
cena de nossa realidade quotidiana. doenças psicossomáticas e - podemos
Nesse sentido, há uma sugestiva fala acrescentar hoje – os fenômenos soma-
no filme Broken Arrow de John Woo: to-psíquicos. Não só um desgosto espi-
um civil é chamado para ajudar a re- ritual produz ácidos que podem causar
solver um problema de broken arrow uma úlcera material, mas também as
e, ao perguntar o que significa essa alterações do corpo afetam o espírito.
expressão, recebe a resposta de que é Que o diga o meu acupunturista, que
sumiço de arma atômica para o inimi-
com uma agulha é capaz de dissipar
go. Espantado, ele se interroga sobre
o que é pior: o roubo de arma atômica
temores ou rancores espirituais.
ou o fato de já haver um nome para O Oriente (MACMILLAN, 2000) ,
2

isso! (...)
tradicionalmente, ao contrário do Oci-
Confundir é conveniente. Não só dente, não tem a necessidade de teori-
quando se trata de realidades “conju- zar aquilo que pratica, sabe por expe-
gadas” como as que se designam por riência que as coisas funcionam assim
salam , mas também quando a lin- ou assado e isso basta. Já o viés oci-
guagem lida com distinções que não dental – sempre tipicamente falando 21
correspondem à realidade. Por exem- – só aceita, digamos, uma terapia, se
plo, houve épocas e sociedades que dispuser do modelo teórico adequado
trabalharam com a errônea distinção que a “fundamente”: quantos médicos
entre “estrela matutina” (ou “estrela ocidentais recusam, por exemplo, a
d´alva”) e “estrela vespertina”, que,
acupuntura, por acharem que noções
afinal, na realidade, são o mesmo e
único planeta Vênus. E, assim, do como a de Qi, energia, são vagas e in-
ponto de vista científico, o melhor é suficientes. Mesmo confrontados com
acabar com a distinção entre as “es- a comprovada eficácia do tratamento,
trelas” matutina e vespertina. não o prescreverão. O oriental, que
não prioriza o “sistema de pensamen-
Mi (身) - O Corpo no Pensa- to” acolhe a prática que se mostra efi-
mento Confundente caz. Assim, a tradição oriental pensa o
homem como um todo: corpo-espírito,
O parágrafo anterior parece-nos e integrado num todo maior: homem-
especialmente importante para nosso -natureza.
tema, pois permitir-nos-á sugerir que
talvez se perca algo de conhecimento Nosso olhar se dirigirá agora a
sobre o homem na visão distinguidora um conceito antropológico essencial na
do Ocidente em relação ao corpo. Algo tradição japonesa: o de Mi (身). Numa
que a antropologia pode recuperar a primeira aproximação: corpo, self, re-
partir das intuições da língua japone- alidade humana etc. – e a dificuldade
sa. de apreensão, de explicitação, parece Educação e
elevar-se ao infinito. Não que se tra- autonomia: o lugar
O corpo tem um caráter miste- te de um conceito bizarro, artificial ou do corpo na tradição
japonesa
rioso no “eu” de cada um: certamente, estranho, mas precisamente por sua
não somos nosso corpo, mas, de algum adequação e acerto torna-se tão ina- Hirose C
ISSN 1982-8632 preensível quanto o próprio homem. cidas dos japoneses.
Para o Mi, como para os grandes te-
mas antropológicos, sempre vige aque- O CONCEITO DE MI (身) NOS
Revista la famosa e felicíssima observação de PROVÉRBIOS
@mbienteeducação Agostinho, originalmente refletindo
V. 4, nº 1, jan/jun, Comecemos por observar que Mi
sobre o que é o tempo: se ninguém me
2011: 19-28 aparece numa palavra já bem conheci-
pergunta, eu bem sei o que ele é; se eu
da entre nós: Sashimi (刺身). Portan-
quiser explicar, não sei (Si nemo me
to, o leitor brasileiro está familiariza-
quaerit, scio...).
do com um primeiro significado de Mi
Uma dificuldade adicional provém (身) (se quisermos adaptar ao padrão
do fato de que temos - como costuma ocidental, que distingue em várias pa-
ocorrer no sistema língua/pensamento lavras o que o japonês confunde em
oriental – uma relativamente alta acu- (Mi), que enfatiza a carne; a carne que
mulação semântica em Mi, em compa- reveste o osso, como aparece no parti-
ração com as abordagens ocidentais: cular corte de peixe do Sashi-Mi. As-
Mi é o corpo e ao mesmo tempo o ho- sim, quando há uma situação em que
mem todo; Mi é o self, mi pode ser o eu está difícil distinguir as coisas, diz-se:
etc. Se bem que, na verdade, mesmo “É pele ou é Mi”.
as antropologias ocidentais acabam in-
Passando para um segundo signi-
cluindo - de modo mais ou menos cons-
ficado, muito próximo do anterior, te-
ciente e explícito - o corpo como, de al-
mos Mi no sentido do corpo físico.
gum modo, base para o homem todo,
sem que isso implique nenhum tipo de Hara-mo mi-no uti.
materialismo ou exclusão do espírito.
Nesse sentido, note-se de passagem as O estômago também faz parte do
formas inglesas, tão familiares que o Mi.
22 próprio falante do inglês talvez nem
repare mais em sua profundidade: Este provérbio trata do Mi corpo.
everybody, somebody, anybody, nobody Ele diz para não esquecer, quando nos
etc. alimentamos, de que o alimento e a be-
bida vão para o estômago, que não está
Outro fator complicador dessa fora do corpo; ou seja, um alerta contra
nossa reflexão sobre o Mi decorre do a gula.
fato de que o conceito de corpo, no caso,
vem embutido num sistema de articu- Também a sabedoria das expres-
lações semânticas distinto daqueles sões aconselha como medida de segu-
que são usados pelo leitor ocidental. rança: “Deixe o dinheiro pegado ao
Mi”, bem junto de si, como quando as
Com essas observações prévias, mulheres escondem cédulas entre os
podemos agora começar a aproximar- seios.
-nos do conceito Mi (e, para tanto, o
caminho dos provérbios e expressões Nessa mesma linha, encontramos
idiomáticas parece adequado). Natu- Mi no sentido de base para panelas,
ralmente, trata-se aqui somente de caixas, recipientes, que servem para
uma primeira e informal aproximação. conter (nesse caso, o contraponto é
dado por uma tampa), como no provér-
Os provérbios que apresentamos a bio:
seguir foram extraídos das coletâneas
Educação e que indicamos nas referências biblio- Mi mo futa mo nashi.
autonomia: o lugar
do corpo na tradição gráficas; projetos editoriais ousados
japonesa que buscaram recolher os provérbios e/ Sem Mi nem tampa.
Hirose C ou expressões idiomáticas mais conhe-
O sentido é o de que não tem graça cia...”, circuns-tância que inclui, sobre- ISSN 1982-8632
ir diretamente a um assunto, sem os tudo, outros Mi.
comentários adequados dos aspectos
contextuais. Nesse caso, a comunica- Kyou-wa hito-no Mi, ashita-wa Revista
ção é insossa: falta-lhe a carne do Mi. waga Mi. @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 19-28
Do mesmo modo, o corpo, também Hoje, o Mi do outro; amanhã, meu
para nós, é estrutura básica, como Mi.
quando falamos em corpo docente,
corpo diplomático, corpo de baile, cor- Incluem-se aí, evidentemente, as
po da guarda, corporação, incorporar, incertezas da existência humana, ao
ganhar corpo etc., à margem de outras sabor do contingente. O que se reflete
dimensões: da alma, do espírito, do co- também em:
ração...
Hito-no ue-ni fuku kaze-wa waga
Mi, dimensão corporal, pode facil- Mi-ni ataru.
mente estender-se à totalidade: uma
vez que o corpo do ser vivo é precisa- O vento que sopra em cima do ou-
mente um corpo animado. Assim, tro, bate em meu Mi...

Mi arite no houkou. Hito-no ue mite waga Mi-wo omoe.

Tendo Mi é que se tem serviço. Olhe o outro e pense no seu Mi.

Somente tendo um corpo saudável Como em muitos provérbios, a


é que se consegue trabalhar. Natural- mensagem é aberta, puxando para o
mente, subentende-se aqui o Mi com neutro. Admite, portanto, múltiplas
saúde. interpretações; no caso, digamos, pôr 23
a barba de molho, aprender (para o
Nessa identificação com o self, o bem e para o mal) com as experiências
Mi vale pelo todo da pessoa: dos outros, não dizer: desta água não
beberei etc.. Contingências e futuros
Mi wo sutete koso ukabu se mo incertos; mas também há futuros pre-
are. -visíveis (condicionados pelo passado)
e condicionados pelo acaso. De qual-
Existe o lugar que se abre porque quer modo:
se joga o Mi.
Mi areba mei ari.
Próximo ao nosso “Quem não ar-
risca, não petisca”, desde que se enten- Se houver Mi, haverá destino.
da o arriscar como radical: o próprio eu
é que entra em jogo. Seja como for, o principal fator em
nossa vida são nossas ações e escolhas.
A igualdade fundamental entre Por elas, em boa medida, somos mais
os homens tem sua base no Mi: o que ou menos felizes.
acontece para mim é paradigma do
que pode suceder ao semelhante. Nes- Mi-kara deta sabi.
se sentido, a tradição japonesa apro-
xima-se do famoso dito de Terêncio: A ferrugem sai do Mi.
“Homo sum et nihil humani alienum
a me puto”, sou homem e nada daquilo O lixo existencial decorre, em ge- Educação e
autonomia: o lugar
que é humano considero alheio a mim. ral, de nossa própria atitude diante da do corpo na tradição
Ou da, também célebre, sentença de vida. Devemos portanto cuidar a mo- japonesa

Ortega: “Yo soy yo y mi circunstan- ral, que garante a integridade do Mi. Hirose C
ISSN 1982-8632 Mi-de Mi-wo kuu. nidade do Mi. Mesmo as vicissitudes e
contingências da vida são (devem ser)
É o Mi que consome (come) o Mi. proporcionais ao Mi:
Revista
@mbienteeducação O provérbio lembra que a prin- Mi-ni sugita kahou-wa wazawai-
V. 4, nº 1, jan/jun, cipal destruição é a autodestruição. -no moto.
2011: 19-28
Também há a variante:
A sorte que ultrapassa o Mi será a
Mi-de Mi-wo tsumeru. base da desgraça.

É o Mi que espreme o Mi. Aqui, a tradição japonesa aproxi-


ma-se da sabedoria cristã que vê o mal
Akuji Mi-ni kaeru. como uma desordem (e não como uma
entidade positiva).
Ato mau volta-se contra o Mi.
Com a encantadora forma nos-
Todos esses cuidados são acon- sa, “Parabéns!”, estamos expressando
selhados pelos provérbios porque sa- precisamente isto: que o bem conquis-
bemos que o ser humano vive para si tado, que a meta atingida seja usada
mesmo, e só ele é o sujeito da sua vida. “para bens”. Pois, qualquer bem obtido
(o dom da vida, dinheiro ou a conquista
Mi-ni masaru takara(mono) de um diploma) pode, como todo mun-
nashi. do sabe, ser empregado para o bem ou
para o mal. (LAUAND, 2007 pg.47)
Não há tesouro que supere o Mi.

Mi hodo kawaii mono nai.


OUTROS PROVÉRBIOS:
Mi atataka nareba suimin mashi,
24 Nada é tão encantador como o Mi yasun zureba ketai okoru.
(bom) Mi.
Se esquentarmos o Mi, ajuda no
Sendo o centro mesmo da pessoa, sono; se acabar a insegurança, surge o
não se pode abdicar do próprio Mi: Mi preguiçoso.

Ko-wo suteru yabu-wa aru-ga, Ou seja, o ser humano pode se de-


Mi-wo suteru yabu-wa nai. gradar quando permanece numa situ-
ação muito confortável.
Até pode haver matagal para des-
fazer-se de um filho, mas não para ar- Mi-no uchi-no takara-wa kutsuru
remessar o próprio Mi. koto nashi.

O Mi não é somente a base meta- O tesouro que está dentro do Mi


física do ser humano; ele informa tam- nunca estraga.
bém dimensões como a psicológica, a
social etc. Assim, de acordo com o Mi, O conhecimento e a habilidade
excluem-se certas atitudes, incompatí- aprendidos com muito esforço ajuda-
veis com a dignidade do sujeito: rão por toda a vida. Como em Mt 6,22:
“A lâmpada do corpo é o olho; se teu
Mi shirazu-no kuti tataki. olho for simples…”

Educação e Tagarela que não conhece (não Mi-no tomoshibi-wa me nari.


autonomia: o lugar respeita) o Mi.
do corpo na tradição
japonesa A luz que ilumina o Mi são os
Pois certos assuntos - ou mesmo o olhos.
Hirose C
muito falar - não condizem com a dig-
Mi-no hodo-wo shire. Quer levantar o seu Mi, então co- ISSN 1982-8632
mece levantando o outro.
Saiba o limite do Mi.
Hito-wo uramu yori Mi-wo urame. Revista
Não se deve desejar mais do que @mbienteeducação
se pode. Analise as coisas lembrando Se é para ficar ressentido com ou- V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 19-28
de sua posição e de sua capacidade. tro, melhor ressentir com Mi.
(Há também: Mibun souou-ni kura-
se./ Viva uma vida que corresponde às Antes de ficar odiando o outro,
suas condições.) veja se há algo para reavaliar em suas
atitudes.
Waga Mi-ni itsuwari arumono-wa
hito-no makoto-wo utagau. Wagami-wo tsunette hito-no ita-
sa-wo shire.
Quem tem em seu Mi falsidade,
duvida da verdade do outro. Beliscar o seu Mi para saber a dor
do outro.
Quem tem peso na consciência,
vê o outro com sua medida, duvida do A dor que se sente quando se be-
outro, como no célebre provérbio espa- lisca o próprio corpo será a mesma que
nhol: “Cree el ladrón que todos son de o outro sente. Assim, devemos nos co-
su condición”. locar no lugar do próximo e ter com-
paixão.
Waga Mi-no kusasa ware shirazu.
Ada mo nasake mo wagami yori
O próprio não percebe o odor de- deru.
sagradável do seu Mi.
Tanto o zombar quanto a compai- 25
Seus pontos negativos são difíceis xão sai do seu Mi.
de serem percebidos pela própria pes-
soa: Odiar ou amar alguém, depende
de como nos relacionamos com ele.
Waga Mi-no kotowa hito ni toe.
IkiMi-wa shiniMi.
Sobre o seu Mi, pergunte aos ou-
tros. O Mi vivo é o Mi morto.

Muitas coisas sobre nós mesmos Fatalmente, todos os que hoje es-
não podemos perceber sozinhos. O me- tão vivendo, um dia morrerão.
lhor é perguntar aos outros para se au-
toconhecer. E ouvir com humildade as Shoubu goto-no suki-na mono-wa
opiniões alheias. Mi-ga motenu.

Ryouhou tatereba Mi-ga tatanu. Quem gosta de jogo, o Mi não se-


gurará.
Se levantar os dois o Mi não le-
vanta. Quem gosta de jogos de aposta,
sucumbirá a eles de corpo e alma.
Considerando as razões dos dois
lados, você pode ficar sem a sua razão. O próprio ideograma traz sugesti-
vas indicações. Se no chinês moderno Educação e
Wagami-wo taten to seba, mazu o ideograma shen(身) corresponde me- autonomia: o lugar
do corpo na tradição
hito-wo tateyo. lhor à palavra karada (体), mais pró- japonesa
xima da nossa “corpo”; em Mi (身), o
Hirose C
ISSN 1982-8632 sentido do corpo recebe vários aspectos dade de formas de realizar a chanoyu,
adicionais não abrangidos por karada mas a carga antropológica por detrás
(体) ou jiko, jibun, honnin (自己,自分, dos diversos elementos, que permane-
Revista 本人), etc. Daí a prevalência do uso de ce relativamente constante nas diver-
@mbienteeducação Mi; pelo menos nos provérbios e nas sas variantes de estilo, normais numa
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 19-28 expressões idiomáticas. Mi pode ser tradição secular. A constante é a pro-
usado para vestir (revestir-se), adqui- dução, por meio de ritos materiais, de
rir etc. Assim, diz-se: “Coloquei o aven- um efeito espiritual: a cortesia, a con-
tal no corpo.” (fixar o avental ao Mi) sideração pelo outro, a reverência pelo
do mesmo modo que também é usado convidado.
para dizer “Adquirir conhecimento.”
(Fixar o conhecimento ao Mi). Tive, em meus tenros anos, no Ja-
pão, o privilégio de aprender com uma
Trazendo como exemplo a nossa criteriosa mestre tradicional, minha
própria experiência pedagógica Hirose avó Shizue Hirose, os diversos elemen-
et al. (2007), quando elaboramos pro- tos da chanoyu. A cerimônia completa
jetos procurando ou não um enfoque pode durar até 4 horas; em sua forma
ao vínculo, ao corpo e aos sentimentos simplificada - só a parte final -, cerca
das crianças, conscientemente ou não, de uma hora.
cada educador estará baseado na for-
ma como concebe o ser humano. Por Se possível, a cerimônia se realiza
exemplo: “que somos seres que senti- numa casa anexa, especialmente re-
mos, pensamos e agimos numa totali- servada para ela, à qual se chega por
dade que integra o corpo, o coração e um jardim, e dispõe de uma sala pre-
a mente”. Ao lembrarmos dos vários paratória e uma sala de espera.
significados do Mi verificaremos que
está muito próximo do que tentamos A chaleira, as xícaras, a colher de
26 expressar na sentença anterior. bambu para servir e o misturador de
bambu costumam ser objetos traba-
Se lembrarmos da expressão “Fi- lhados com requinte. Os convidados
xar o conhecimento no Mi” percebemos trajam quimonos de cores discretas,
a proximidade de pensamento que ve- meias brancas e portam um leque e
mos nesta sentença: “O conhecimento pequenos guardanapos.
deve ser feito pela totalidade do indiví-
duo, e não apenas pela razão. E é essa Os convidados entram curvados,
totalidade que modela as imagens em sinal de humildade. O anfitrião
às quais o mundo se adapta.” (MAY, leva-os pelo jardim até a sala da ce-
1975) Quando falamos de sentimento rimônia. Na beira do caminho há um
não significa apenas afeto. Significa, recepiente de pedra com água para
segundo interpretação de May a ca- os convidados lavarem as mãos e a
pacidade total do organismo humano boca. A entrada da sala de cerimônias
para sentir o seu mundo. “Fixar o co- é baixa, de tal modo que para entrar
nhecimento no Mi” consegue conter é preciso abaixar-se: é evidente que
esta concepção de aprendizagem. neste ponto, como em tantos outros, a
Cerimônia - pelo corpo, pelo material
A partir dessa complexidade do - quer induzir às atitudes espirituais
Mi podemos compreender o alcance apropriadas.
pedagó-gico e antropológico de diver-
Cada convidado se ajoelha diante
sas práticas da tradição japonesa, par-
Educação e de uma espécie de retábulo, a tokono-
ticularmente a Cerimônia do Chá.
autonomia: o lugar ma, e faz uma profunda reverência e,
do corpo na tradição
japonesa CERIMÔNIA DO CHÁ com o leque diante de si, admira a ima-
Hirose C
gem ou o quadro pendurado na parede
Não nos interessa aqui a varie- da tokonoma. O quadro é especialmen-
te escolhido pelo anfitrião para esta re- se sabe não merecedor). Sorve ligei- ISSN 1982-8632
cepção. Repetem-se essas ações diante ramente o chá, elogia seu sabor, dá
do braseiro do chá e, em seguida, todos outros dois goles e limpa a parte que
se sentam: os convidados principais foi tocada pelos lábios com um kaishi Revista
mais próximos do anfitrião. Após a (guardanapo retirado sutilmente do @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
troca de reverências e cortesias, é ser- quimono). Passa a chávena a outro 2011: 19-28
vida a kaiseki, uma pequena refeição, convidado, que repete a operação; e
seguida de alguns doces tradicionais. outro…, até o último. Este então passa
a chávena ao convidado principal, que
A um sinal do mestre, os convida- a devolve ao mestre.
dos vão para um jardim interno que
enlaça a casa do chá. O soar de um Claro que indicamos apenas al-
gongo – cinco ou sete toques – indica guns de um sem-número de detalhes
que vai começar a parte principal da e rigorosas prescrições materiais e cor-
cerimônia. Repetem-se as abluções e porais, que se articulam com quatro
todos voltam para a sala. Um ajudante valores da tradição japonesa são: wa,
retira as persianas de junco das jane- kei, sei, jaku.
las para que a sala se encha de luz (que
representa a luminosa presença das Wa, a paz e a harmonia, são reali-
visitas…). Nesse meio tempo, o qua- zadas entre anfitrião e convidado, en-
dro da tokonoma foi retirado e em seu tre os convidados, entre o que é servido
lugar instala-se um ikebana, arranjo e os utensílios etc.
floral artístico (que alude ao aroma e à
beleza que os convidados trouxeram à Kei é o respeito e a reverência, li-
casa). As cerâmicas para o chá e para gados à gratidão que se dirige às pes-
a água já estão em seu lugar e o anfi- soas e se estende até aos objetos da
trião entra com a chaleira (com o mis- Cerimônia. Cada gesto é uma manifes-
turador de bambu) e em cima a colher tação de delicadeza e atenção, que – se 27
de bambu. tudo correr bem – acaba por se incor-
porar às vidas dos convivas.
Os convidados admiram o arranjo
floral e a chaleira e o mestre vai bus- Sei é a pureza material e espiritu-
car um vaso para a água que sobrar, al. Purificar os utensílios do chá é, ao
a colher e o suporte para a chaleira. A mesmo tempo, purificar-se.
seguir, limpa o recepiente do chá e a
Jaku é a tranquilidade, que pre-
colher de mexer com um pano especial
para para acolher imperturbavelmen-
e enxágua a colher de mexer na chá-
te as vicissitudes que o futuro possa
vena, após verter nela água quente
trazer.
da chaleira.
Valores mais vivenciados a partir
O anfitrião levanta a colher e o
de uma tradição na qual o Mi já é mui-
recepiente do chá e serve o matcha (a
to mais do que o corpo na dicotômica
erva do chá) e o mexe com o bambu até
concepção ocidental…
que a mistura adquira uma consistên-
cia grossa de espuma e deixa perto do
braseiro. O convidado principal vai de
joelhos apanhar seu chá, faz uma re-
NOTAS EXPLICATIVAS
verência aos outros convidados e põe 1
  Naturalmente, quando falamos aqui de “Oriente”
e “Ocidente” são tipificações genéricas, que, num
sua cuia na palma da mão esquerda,
estudo mais acurado, requeririam mil detalha-
amparando-a com a direita (indican- mentos concretos; como, por exemplo, os recentes
Educação e
autonomia: o lugar
do o reverente cuidado com que aceita mimetismos do modo ocidental em alguns países do corpo na tradição
a generosidade da acolhida, da qual do Oriente... japonesa
Hirose C
ISSN 1982-8632 REFERÊNCIAS
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@mbienteeducação
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Factash Editora, 2007. Coleção Huma- SANKOU, shuppan. Shinpan Koji Ko-
nidas, V.1. São Paulo. towaza Shinjiten, Tokyo: Ed. Sankou
shuppan,1994.

Recebido para publicação em 16.11.2010

28 Aceito em 05.12.2010.

Educação e
autonomia: o lugar
do corpo na tradição
japonesa
Hirose C
AUTONOMIA E COMUNIDADE: DOIS ASPECTOS ISSN 1982-8632

IMPORTANTES NA EDUCAÇÃO DA PESSOA


Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 29-36

Profa. Dra. Carla A. S. de Araujo1


cansoar@fei.edu.br

Resumo
Este artigo procura discutir alguns aspectos da autonomia na educação e conjugá-los à experi-
ência de conquista da autonomia da pessoa e da comunidade.
PALAVRAS-CHAVE: Educação • Autonomia • Comunidade • Descentralização

Abstract 29
The present article concerns to discuss some aspects of self-government on education and link
them to people and community experience.
KEY WORDS: E
 ducation • Autonomy • Community • Decentralization

Autonomia e
comunidade: dois
aspectos importantes
na educação da
pessoa
1
  Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP. Professora do Centro Uni- Araujo CAS
versitário da FEI.
ISSN 1982-8632 EDUCAÇÃO E AUTONOMIA ples de ser experimentado.
Associada sistematicamente ao Uma das abordagens possíveis
de­senvolvimento das pessoas e da so- sobre o tema da autonomia na edu-
Revista
@mbienteeducação
ciedade a educação está presente em cação dirige-se consequentemente ao
V. 4, nº 1, jan/jun, todas as experiências humanas ao lon- processo de descentralização da gestão
2011: 29-36 go da história. A ela é designado papel educacional. Outra abordagem diz res-
de grande relevância na formação da peito à autonomia como possibilidade
pessoa e do cidadão e importância po- de participação e protagonismo comu-
lítica, econômica e social, além de am- nitário.
biental, nos dias atuais.
O termo autonomia advém do gre-
No relatório da UNESCO de 2001, go autonomia, e refere-se ao direito de
Jacques Delors afirma que uma das reger-se segundo leis próprias. A auto-
tarefas fundamentais da educação é nomia na educação pressupõe que as
“ajudar a transformar a interdepen- unidades educacionais possam estru-
dência real em solidariedade desejada turar-se de maneira a garantir a iden-
(...). Deve, para isso, preparar cada tidade local e própria de acordo com a
indivíduo para se compreender a si realidade inserida.
mesmo e ao outro, através de um me-
lhor conhecimento do mundo” (Delors, No Brasil, com a Constituição de
2001). A educação é, nesse sentido, 1988, novas diretrizes políticas para a
educação da pessoa na sua dimensão educação começaram a ser vislumbra-
individual e na sua dimensão social. das, abrangendo desde processos de
No Brasil, o Estado tem grande avaliação dos resultados educacionais
responsabilidade e ingerência na área até formas de minimizar as burocra-
da educação: na determinação de con- cias e propor maior autonomia às uni-
30 dades escolares (Araújo, 2010).
teúdos, na distribuição dos recursos,
no estabelecimento das diretrizes da
educação. Dessa forma, o Estado de- DESCENTRALIZAÇÃO COMO UM CA-
sempenha um papel ordenador, regu- MINHO PARA A AUTONOMIA
lador e fiscalizador na educação. Pode- Uma das formas de se experi-
-se dizer, portanto que no decorrer da mentar a autonomia na educação diz
história do sistema educacional bra- respeito à descentralização na gestão
sileiro, a educação vem sendo tratada que, na prática, tem se configurado
como um direito e o Estado como o seu na transferência de responsabilidades
agente central1 (Brasil, 1988). do governo federal para os Estados e
dos Estados para os municípios. Dessa
Apesar de na Constituição brasi-
forma, propõe-se aproximar a admi-
leira a educação constar como um di-
nistração educacional das esferas po-
reito social de todos e dever do Esta-
pulares, democratizando-se a gestão e
do e da família, pode-se afirmar que a
tomada de decisões.
educação, principalmente a educação
pública, é totalmente orientada pelo
Deve-se observar, entretanto, que
Estado2.
a descentralização na gestão é um pro-
Neste momento entra em questão cesso paulatino, que envolve mudan-
a discussão acerca da autonomia na ças políticas, econômicas e culturais.
educação. Num sistema educacional Assim, a descentralização tem como
Autonomia e
comunidade: dois de grandes dimensões, como o caso motor o reordenamento das competên-
aspectos importantes brasileiro, que depende de um comple- cias administrativas do Estado, que
na educação da
xo aparato burocrático para ser admi- passa de uma estrutura centralizado-
pessoa
nistrado, possibilitar a autonomia às ra para uma descentralizada, pelo re-
Araujo CAS
unidades educacionais não é algo sim- conhecimento da importância da auto-
nomia municipal3. tratando da necessidade de passagem ISSN 1982-8632
da autonomia decretada para a auto-
Para melhor compreender do que nomia construída.
trata a descentralização educacional, Revista
observe-se que ela: A análise crítica das medidas po- @mbienteeducação
líticas que, em vários países, têm V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 29-36
[...] não é um processo homogêneo e consagrado, do ponto de vista legal,
praticado em uma única direção. Ela uma gestão local do estabelecimento
responde à lógica da organização fe- de ensino e o reforço das competên-
derativa, no sentido de: a) ordenar cias dos seus órgãos de governo não
responsabilidades e competências pode ignorar que, para além desta
nos planos administrativo e financei- autonomia decretada, as escolas de-
ro aos entes federativos; b) instituir senvolvem (e sempre desenvolveram)
processos desconcentrados de admi- formas autônomas de tomada de de-
nistrações financeira, administrativa cisão, em diferentes domínios, que
e pedagógica; e c) instaurar a gestão consubstanciam aquilo que pode ser
democrática da escola, em cumpri- designado por autonomia construída.
mento a preceito constitucional, cuja Esta autonomia construída corres-
regulação maior encontra-se na nova ponde ao jogo de dependências e de
Lei de Diretrizes e Bases da Educa- interdependências que os membros
ção Nacional (LDB/1996), institucio- de uma organização estabelecem en-
nalizando a escola autônoma (Paren- tre si e com o meio envolvente e que
te e Luck, 2000). permitem estruturar a sua acção or-
ganizada em função de objectivos co-
No Brasil, a descentralização da lectivos próprios (Barroso, 1996).
educação encontra-se no estágio de
municipalização da educação, ou seja, A autonomia decretada seria, en-
uma transferência de poder de uma tão, a transferência de poder de uma
instância federal e estadual para a instância superior a uma instância
inferior, como no caso da municipali- 31
instância municipal, que se entende
como a instância mais próxima da co- zação.
munidade local, por isso, na munici-
palização da educação, deve-se contar A autonomia construída envolve
com a comunidade, compartilhar com os diferentes sujeitos educativos e sua
ela o planejamento, a gestão e a ava- participação não só enquanto poder de
liação em cada unidade escolar (Araú- decisão, mas principalmente como ato-
jo, 2007).
res ativos no processo educativo. Essa
é uma experiência de autonomia a ser
A descentralização pode ser en- educada, a ser trabalhada. A comuni-
tendida tanto do ponto de vista jurí- dade educativa, e a comunidade local
dico-administrativo e financeiro como são sujeitos que devem ser entendidos
da gestão sócio-organizacional. Pode- e buscados para que a autonomia da
-se tratar de descentralização nas de- unidade seja possível.
cisões pedagógicas, curriculares, nas
Diferentemente, o projeto democrati-
decisões administrativas das unidades
zante de descentralização supõe uma
escolares bem como na possibilidade intensa rediscussão do papel do Es-
de autonomia financeira, mas o ponto tado e da sociedade; seus compromis-
que mais nos interessa, para fins des- sos são com o exercício da soberania
se artigo é o da descentralização como popular, com os direitos humanos,
possibilidade de aproximação com a a participação social e os valores da
experiência local, isto é, com a comu- pessoa humana. Combina práticas Autonomia e
comunidade: dois
nidade. de democracia representativa e de
aspectos importantes
democracia participativa ou direta. na educação da
Barroso faz uma distinção impor- Nesse contexto, a população usuária pessoa
tante nesta experiência de autonomia, dos serviços públicos assume papel Araujo CAS
ISSN 1982-8632 ativo de cidadã e não de simples con- observação de toda a realidade na qual
sumidora ou cliente. (Fonseca, 2000). essa pessoa se insere. Dessa forma, a
educação da pessoa se dá também en-
Revista
Se, por um lado, a proposta de quanto relacionamento com outras
@mbienteeducação descentralização do Estado coloca pessoas, com a comunidade na qual se
V. 4, nº 1, jan/jun, em questão a distribuição do poder insere.
2011: 29-36
aos grupos sociais, o que se chama de
empoderamento4, por outro lado, isso O termo comunidade vem do la-
também supõe um envolvimento da tim communitate, que significa comu-
comunidade, dos sujeitos coletivos, na nidade e desdobra-se de commune: que
tomada de decisões, no planejamento pertence a muitos ou comum a todos.
e na execução da gestão da educação.
Nesse sentido, torna-se importante o [...] o homem não progride na sua
desenvolvimento não só do conceito, própria vida específica – intelectual
mas principalmente da experiência de ou moralmente – sem a experiência
identidade comunitária. coletiva, previamente preservada e
acumulada, e sem a transmissão de
conhecimentos adquiridos. Se quer
Esse processo de horizontalização
atingir o livre-arbítrio para o qual foi
do poder é uma das condições para a
criado, precisa de disciplina e tradi-
democracia participativa, mas para ção (Maritain, 1959).
alcançá-lo é necessário também com-
preender que a democratização como A família é a primeira comunida-
princípio legislativo não garante, por si de humana de educação da pessoa, lu-
só, uma maior participação popular na gar onde a pessoa inicia intensamente
educação, pois esta depende inclusive seu desenvolvimento. Juntamente com
de uma mudança de comportamento a comunidade a família forma o grupo
político-cultural, para que a comuni- social onde a pessoa apreende o signi-
32 dade possa ser ajudada e capacitada a ficado da realidade à qual pertence e
participar, como explica Dowbor: atua enquanto sujeito. Por essa razão,
Eliminar o analfabetismo, univer- juntamente com o Estado, enquanto
salizar o ensino formal, melhorar a estrutura obrigada a garantir a edu-
formação dos professores, adequar o cação da pessoa, há de se considerar
ensino profissional à dinâmica econô- esses sujeitos educativos. Essa coope-
mica local, envolver as empresas e os ração, do ponto de vista da gestão da
meios de comunicação de massa na coisa pública, acontece na qualidade
elevação do nível de formação da mão- de sociedade civil organizada.
-de-obra, tudo isso exige visão de con-
junto e um ordenamento de ações de Por isso, ao se refletir sobre a edu-
longo, médio e curto prazos, o que não
cação, toma-se como valor toda a rede
pode evidentemente ser deixado para
de relacionamentos que a pessoa es-
a ‘mão invisível’, já que o mercado e
a ‘livre iniciativa’ são, reconhecida- tabelece no decorrer de sua história e
mente, inoperantes nos investimen- de sua educação: família, comunidade,
tos sociais de longo prazo. Quanto a escola, como afirma Silva:
esperar que o governo central tome
a iniciativa, trata-se de uma atitude Uma ação educativa visando à busca
que nunca tirou ninguém do atoleiro. da afirmação da dignidade humana
(Dowbor, 1999). deve considerar como intrínseca a este
objetivo a existência de métodos que
EDUCAÇÃO DA PESSOA E A não tornem os participantes meros
Autonomia e
objetos do educador. Nesse sentido,
comunidade: dois
aspectos importantes
COMUNIDADE uma educação para a dignidade hu-
na educação da A educação deve ter como âmbito mana é necessariamente participati-
pessoa
o desenvolvimento integral da pessoa va. [...] Os educadores têm estudado o
Araujo CAS
humana considerando-se, para isso, a mecanismo de criação e manutenção
de identidades e concluíram pela im- comitantemente, e por isso, vai além ISSN 1982-8632
portância fundamental do grupo de da escolarização:
referência no qual a pessoa se situe.
O auto-conceito vai sendo construí- [...] a escola, independentemente de Revista
do nas relações cotidianas entre as seu estatuto específico – privado, co- @mbienteeducação
pessoas. [...] O ser humano terá uma operativo ou governamental –, é tipi- V. 4, nº 1, jan/jun,
identidade que incorpore a consciên- camente uma esfera de ação pública 2011: 29-36
cia de sua dignidade fundamental se como ambiente e locus de socializa-
tiver oportunidade de vê-la afirmada ção, sem deixar de contribuir, simul-
por um grupo de referência concreto, taneamente, para as esferas econômi-
por alguém que lhe seja autoridade. ca e privada, através da acumulação
[...] Ter uma identidade é pertencer de qualificações e de capital humano
a algo ou alguém. Os estudiosos do que ela produz. Em sociedades cada
tema da identidade humana afirmam vez mais complexas e multiculturais,
que, ao dizer ‘eu sou’, implicitamente, a emergência da escola como esfera
estou dizendo ‘eu sou de...’, ou seja, pública acentua a sua relevância in-
eu pertenço a uma certa realidade, substituível na promoção da coesão
que me quer, da qual faço parte, da social, da mobilidade humana e da
qual retiro meu ser algo ou alguém. aprendizagem da vida em comunida-
Desse modo, sou professor, sou advo- de. (Delors, 2001).
gado, sou católico, sou corintiano, sou
pedreiro, isto é, pertenço a essa ‘cate- AUTONOMIA E COMUNIDADE
goria’ e daí advém minha identidade.
(Silva, 1998; Silva, 2006). Autonomia e Comunidade po-
deriam ser entendidos como concei-
Jaeger contribui para aprofundar tos equidistantes e até antagônicos.
a reflexão sobre o valor da educação Enquanto o conceito de autonomia é,
para a vida da comunidade e para a muitas vezes, associado com os termos
formação do ser humano enquanto independência, autodeterminação, o
parte de uma comunidade, quando conceito de comunidade reflete uma 33
afirma: pluralidade de pessoas, algo que é co-
mum a um conjunto de pessoas, agru-
[...] a educação não é uma proprieda- pamento de pessoas em dado local, sob
de individual, mas pertence por es- um mesmo governo ou com interesses
sência à comunidade. O carácter da
e normas de convivência em comum.
comunidade imprime-se em cada um
dos seus membros e é no homem, [...],
Nesse sentido, a ideia de autono-
muito mais que nos animais, fonte
de toda a acção e de todo o compor- mia poderia levar a considerar o in-
tamento. Em nenhuma parte o influ- divíduo como um ser autônomo, um
xo da comunidade nos seus membros indivíduo - numa experiência antropo-
tem maior força que no esforço cons- cêntrica - assim como a ideia de comu-
tante de educar, em conformidade nidade poderia levar à distorção de se
com o seu próprio sentir, cada nova pensar em um conjunto de indivíduos
geração. A estrutura de toda a socie- indistintos, que não se distinguem uns
dade assenta nas leis e normas escri- dos outros.
tas e não escritas que a unem e unem
os seus membros. Toda a educação
Contudo, a autonomia não signifi-
é assim o resultado da consciência
ca que as pessoas são totalmente inde-
viva duma norma que rege uma co-
munidade humana, quer se trate da pendentes, sem a necessidade de vín-
família, duma classe ou duma profis- culos, pois a pessoa não se faz por si só,
são, quer se trate dum agregado mais não vive sozinha, o seu vir a ser pede Autonomia e
vasto, como um grupo étnico ou um uma interdependência estrutural que comunidade: dois
aspectos importantes
Estado. (Jaeger, 1973). é muito importante para seu desenvol-
na educação da
vimento. Como citado anteriormente, pessoa
Nesse sentido, a educação é edu- a família é seu primeiro grupo social Araujo CAS
cação da pessoa e da comunidade, con- e sua família vive em comunidade, se
ISSN 1982-8632 relaciona com um grupo social. Por sentido, a sociedade participativa,
isso, a autonomia da pessoa diverge integrada e consciente de seu papel
da experiência do individualismo, que atua em parceria com o Estado – de-
reduz a pessoa a um ser cujas relações sempenhando, simultaneamente,
Revista
con­trole sobre ele – e o exercício do
@mbienteeducação sociais são um meio para afirmar a si
V. 4, nº 1, jan/jun, poder ganha maior legitimidade, com
2011: 29-36 mesmo, numa postura de isolamento deixar de ser uma operação imposta
e egocentrismo, vulgarmente defendi- para lograr um consenso entre os go-
da enquanto darwinismo econômico- vernantes e os entes sociais (Torres,
-social4. 2001).

Hannah Arendt estende sua crí-


tica à postura reducionista, e reitera
A experiência de autonomia na
a relevância de pertencer ao grupo educação deve ser conquistada e con-
social enquanto espaço onde a pessoa struída na inter-relação com a comuni-
apreende o significado na realidade da dade, com os grupos sociais que darão
qual participa, e na qual atua e reali- àquela unidade educacional uma iden-
za: tidade própria, pois carrega o respeito à
cultura regional e comunitária. Isso se-
Tem sido frequentemente apontado
ria, em sentido literal, a experiência de
que os movimentos totalitários usam
e abusam das liberdades democrá- que “todo poder emana do povo”, men-
ticas com o objetivo de suprimi-las. cionado na Constituição da República
Não porque os líderes sejam diabo- Federativa do Brasil de 1988.
licamente espertos ou as massas in-
A autonomia da escola não é a autono-
fantilmente ignorantes. As liberda-
mia dos professores, ou a autonomia
des democráticas podem basear-se na
dos pais, ou a autonomia dos gesto-
igualdade de todos os cidadãos peran-
res. A autonomia, neste caso, é o re-
te a lei; mas só adquirem significado
34 sultado do equilíbrio de forças, numa
e funcionam organicamente quando
determinada escola, entre diferentes
os cidadãos pertencem a agremiações
detentores de influência (externa e
ou são representados por elas, ou for-
interna), dos quais se destacam: o
mam uma hierarquia social e políti-
governo e os seus representantes, os
ca. (Arendt, 2004).
professores, os alunos, os pais e ou-
Isso leva a considerar que a auto- tros membros da sociedade local.
nomia na educação não se constrói por
Deste modo, a autonomia afirma-se
decreto; pelo contrário, a autonomia como expressão da unidade social
na educação só pode ser conquistada que é a escola e não preexiste à ac-
integralmente à medida que a comuni- ção dos indivíduos. Ela é um concei-
dade vai se tornando protagonista. Em to construído social e politicamente,
suma, não se pode falar em autonomia pela interacção dos diferentes actores
na educação se esta não for construí- organizacionais numa determinada
da no processo de conscientização da escola (Barroso, 1996).
comunidade do seu papel de protago-
nista. Educar a pessoa e a comunidade
à participação responsável e criativa
A conscientização do papel da socie- da organização da vida social os tor-
dade como protagonista de seu desti- na protagonistas ao invés de meros
no conduz, de fato, à crescente par- expectadores das ações do Estado.
ticipação dos cidadãos e dos grupos Uma educação que promova o desen-
Autonomia e intermédios na elaboração e execução volvimento pleno das potencialidades
comunidade: dois de decisões, ampliando, com isso, o
aspectos importantes dos seus cidadãos. Uma comunidade,
processo de democratização do poder,
na educação da enquanto sociedade civil organizada,
pessoa que leva à coordenação e harmonia
entre organismos públicos e privados que participa como atores nas ativida-
Araujo CAS
em torno de um fim comum. Neste des públicas, para que se experimente
dialogicamente o bem comum. Essa NOTAS EXPLICATIVAS ISSN 1982-8632
experiência, que pode ser entendida
também como cidadania participativa, 1
  CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRAS-
IL, 05/10/1988: “Art. 6º. São direitos sociais a educação,
carrega consigo inclusive o desenvolvi- a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a Revista
mento humano e social, para além do previdência social, a proteção à maternidade e à infân- @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
desenvolvimento puramente produti- cia, a assistência aos desamparados, na forma desta
2011: 29-36
Constituição”
vo, econômico ou político. 2
  Ibidem: “Art. 205. A educação, direito de todos e de-
ver do Estado e da família, será promovida e incentivada
A educação na qualidade de es- com a colaboração da sociedade, visando ao pleno de-
senvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício
paço e tempo do amadurecimento do da cidadania e sua qualificação para o trabalho”..
protagonismo da pessoa e do grupo 3
  A Constituição de 1988 incorporou essa proposta no
social se concretizará não como res- que diz respeito à concessão de maior autonomia aos Es-
tados-membros da Federação, ao mesmo tempo em que
posta a uma necessidade do mercado, confere autonomia política, legislativa e financeira à in-
mas como educação para a vida social. stância municipal (ver Artigo 34, inciso VII, assim como o
parágrafo 8º. do Artigo 37, da Constituição da República
Assim, a autonomia na educação será Federativa do Brasil promulgada em 1988), favorecendo,
conquistada, enraizada e respeitada, dessa forma, que as decisões se aproximem da realidade
pois terá seu fundamento na experiên- local (ARAUJO, 2010: 74).
4
  O darwinismo econômico-social assenta sua teoria
cia daqueles que a empreenderam. no evolucionismo darwiniano, defendendo que a com-
petição entre os indivíduos na sociedade é salutar e terá
como consequência justificada o desaparecimento dos
menos aptos. Não parte do pressuposto de que as pes-
soas são diferentes e por isso possuem aptidões difer-
entes.

35

Autonomia e
comunidade: dois
aspectos importantes
na educação da
pessoa
Araujo CAS
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Autonomia e
comunidade: dois
aspectos importantes
na educação da
pessoa
Araujo CAS
AUTONOMIA ESCOLAR NA DIVERSIDADE ISSN 1982-8632

DAS (D)EFICIÊNCIAS E INCLUSÃO


Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 37-43

Profa. Dra. Fátima Elisabeth Denari1


fadenari@terra.com.br

RESUMO
Este artigo examina as condições necessárias para que a escola tenha autonomia para propor
e viabilizar seus projetos educativos, entre esses, o da inclusão escolar. E, para lograr êxito,
não basta uma política emanada do poder central, nem aquelas provenientes de iniciativas ex-
ternas. Antes, é preciso haver comprometimento por parte dos líderes educacionais locais (de
cada comunidade), tais como: diretores, supervisores, coordenadores pedagógicos, qual seja,
substituir a transformação caracterizada por outorgar poder pelo incentivo das habilidades e
da confiança de trabalhar em prol do desenvolvimento profissional, por meio de sua formação,
atualização e aperfeiçoamento.
PALAVRAS-CHAVE: Autonomia da escola • Inclusão educacional • Políticas públicas em educação
37
SUMMARY
This article examines the necessary conditions so that the school has autonomy to consider and
to make possible its educative projects, between these, of the pertaining to school inclusion. E,
to cheat success, is not enough one emanated politics of the central power, nor those proceed-
ing ones from external initiatives. Before, she is necessary to have comprometimento on the
part of the local educational leaders (of each community), such as: pedagogical directors, su-
pervisors, coordinators, which are, to substitute the transformation characterized for granting
to be able for the incentive of the abilities and the confidence to work in favor of the professional
development, by means of its formation, update and perfectioning.
KEYWORDS: A
 utonomy of the school • Pertaining to school inclusion • Public politics of
education

Autonomia escolar
na diversidade das
(d)eficiências e
inclusão
Denari FE
1 UFSCar/DPsi/PPGEEs
ISSN 1982-8632 O convite para escrever sobre a seus questionamentos e de suas pre-
temática autonomia e escola, desper- ocupações com a vida em comum, é,
tou-me uma série de desafios típicos de certamente a pedra fundamental des-
Revista nossa época e que colocam em desta- te caminho”.
@mbienteeducação quem aspectos afetos à educação e aos
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 37-43
repertórios acumulados nas diferentes Neste sentido, a escola compre-
experiências docentes. endida como o organismo respon-
sável por uma tarefa educativa de
Como se relacionam/imbricam (boa) qualidade para todos, tem como
autonomia escolar, diversidade, (d) princípio ético a autonomia de quem
eficiências e inclusão? A partir desta educa, sejam estes educandos, em pri-
questão, tomo a liberdade de, sem a meiro lugar, os alunos, e não menos
pretensão de esgotar os possíveis ele- importantes, todo o corpo docente, dis-
mentos que unem, afastam e impedem cente, administrativo e a família. Em
o entrelaçamento e a transformação consequência, “entre os diversos atri-
das dimensões que vinculam sujeito- butos que se pode predicar à escola,
-escola apresento aqui, tecer algumas um, certamente, é aceito por todos os
considerações pautadas pela inquietu- que a conhecem; a escola é um lugar de
de de professora/pesquisadora. Esta esperança, de desejo. (...) Isso significa
inquietude assenta-se no entendimen- considerá-la um lugar essencialmente
to da impossibilidade da separação do humano” (SILVA, 2004).
homem de sua conduta, de seus desti-
nos e, principalmente das consequên- Essa humanização considerada,
cias que destes advém. em tempos atuais, parece não ser a
norma eticamente mais valorizada!
Para definir alguns destes ter- Talvez porque, ainda que o educador
mos recorro a uma instância primeira a perceba expressa, entre outras, na
38 e absolutamente indispensável, a to- sua autonomia frente à própria auto-
dos aqueles que têm, seja por hábito, nomia que rege a norma escolar, na
seja por lazer, seja pelo compromisso verdade, este “reger” pode tornar-se
social, científico e acadêmico de escre- apenas uma das condições atreladas
ver e propagar conhecimentos: o dicio- ao seu exercício. Desta forma, a de-
nário. Assim, Ferreira (1983, p. 136) finição por um modelo autônomo pela
define autonomia como “a faculdade escola, poderia justificar-se por meio
de se governar por si mesmo; direito do respeito à diversidade de forma a
ou faculdade de se reger (um país) por superar e/ou minimizar as expressi-
leis próprias, emancipação; indepen- vas desigualdades sociais. E enquan-
dência, sistema ético segundo o qual to organismo autônomo, a escola se
as normas de conduta provêm da pró- reveste da responsabilidade que vai
pria organização humana”. além do pedagógico: há implícita uma
necessidade de aproximação com a co-
Autonomia também pode signifi- munidade, ação tal que, por sua vez,
car sistema ético e, neste caso, não po- pode atribuir-lhe uma categoria emi-
dem ser desconsiderados os vínculos nentemente democrática. E isto não
existentes entre as condutas presen- significa desconsiderar a fundamental
tes/ausentes daqueles que constituem importância de diretrizes de diferen-
a comunidade escolar: gestores, pro- tes instâncias que a possam organizar
fessores, alunos, funcionários e pais. e gerenciar....
Nas palavras de Miranda, (2004): “
Autonomia escolar Perante um conjunto tão vasto e ur- Silva (2004, p. 58), exprime um
na diversidade das
(d)eficiências e
gente de problemas, cabe apenas ao comentário a respeito do exercício da
inclusão ser humano enfrentá-lo. E a ética, em autonomia: esta “ocorre, portanto, em
Denari FE função de sua abrangência social, de uma situação concreta na qual se dão
relações do sujeito com os elementos Este modo burocrático, centrali- ISSN 1982-8632
materiais e culturais presentes no zado e hierarquizado de proceder à re-
ambiente, havendo, inclusive que se gulação da educação, vem sendo trans-
levar em conta a existência de outros formado paulatinamente, ainda que de Revista
sujeitos com atuação que podem vi- modo tímido, deixando transparecer @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
sar objetivos competitivos, cooperação uma nova forma de gestão: nesta nova 2011: 37-43
ou neutros em relação ao sujeito con- forma, os atores individuais e coleti-
siderado”. vos constroem a sua história, igual-
mente individual e coletivamente, no
Pode-se pressupor, então, que a sentido proposto por (NÓVOA, 1997):
autonomia escolar é tida como um dos
principais fatores de êxito e qualidade Educar significa instituir a inte-
da educação proporcionada a todos os gração dos educandos como agentes,
alunos, de todos os níveis escolares, em seu
independentemente de terem ou não
necessidades especiais e deficiências. lugar designado num conjunto so-
Nas palavras de (SACRISTÁN, 2002) cial, do qual nem eles nem seus edu-
“desvendar o mundo dos significados cadores, têm o controle. Significa as-
da diversidade ou da diferença e ver segurar ao mesmo tempo a promoção
o que se quis fazer com elas é um ca- desses mesmos educandos e, portanto,
minho para descobrir práticas, afinar de seus educadores, em atores de sua
objetivos, tomar consciência e admi- própria História individual e da Histó-
nistrar um processo de mudança”. ria coletiva em curso.

O movimento de melhoria da es- No momento em que a escola se


cola pública e da eficácia escolar tem impõe como um instrumento privi-
na proposta de autonomia, um dos fa- legiado de estratificação social, os
tores de maior realce para mudanças professores também passam a ser in- 39
nas competências escolares, de forma vestidos de ilimitado poder: podem
a alterar positivamente a qualidade promover a ascensão (inclusão) do
da educação. Para tanto, alguns ele- aluno diferente ou a sua estagnação.
mentos revestem-se de pontual im- (exclusão). Neste emaranhado de inte-
portância, tais como: as formas de resses percebem-se, por vezes, contra-
funcionamento da gestão escolar e a ditórios: personificam, concomitante-
liderança exercida pelo gestor; a ne- mente, a reprodução da ordem social
cessária participação na gestão escolar dominante e representam as esperan-
de todos aqueles que compõem a equi- ças de mobilidade social de determina-
pe escolar – professores, funcionários, das camadas da população. De forma
alunos e, especialmente, seus pais; re- ambígua, além de agentes culturais,
cursos (humanos, técnicos, organiza- são também e inegavelmente, agentes
cionais, entre outros) indispensáveis políticos.
à autonomia e que podem contribuir
para minimizar os efeitos da burocra- Verifica-se, pois, a crescente im-
cia iminente. Como nos ensina Silva portância de um jogo político interes-
(2004, p.27) “a burocratização das re- sante, estratégico, (in) tensional, uma
lações de trabalho em uma organiza- vez que por meio do controle dos pro-
ção deixa marcas profundas nas pes- fessores, o Estado assegura-se de que
soas, e uma característica que mais se o funcionamento da escola dar-se-á
torna presente é um descompromisso como um fator de integração político-
com inovações, com mudanças, quan- -social. Autonomia escolar
na diversidade das
do o ‘dever’ é tão somente o cumprir (d)eficiências e
determinações” Como, então, a escola e o Estado
inclusão
justificam a exclusão de alunos a par- Denari FE
ISSN 1982-8632 tir da constatação de diferenças – nem fazer com que a escola, no seu todo e
sempre fidedigna, mas, quase sempre, complexo emaranhado de relações e
questionável? Nas palavras de Perre- atributos, contemple mais esta tarefa?
Revista noud (2000, p. 10) São questões para as quais, já adianto
@mbienteeducação que, movida por dúvidas, (in)certezas,
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 37-43
...apesar dessas evidências e das (des) acertos, não tenho respostas de-
análises progressivamente mais pre- finitivas. Por ora, apenas julgo perti-
cisas da fabricação das desigualdades nente, discuti-las, (com) partilhá-las.
e do fracasso a partir dos anos 60, o (BRASIL, 2008).
modo dominante de organização da
escolaridade não mudou muito: agru- Perrenoud (2000) sugere que,
pam-se os alunos conforme a sua ida- para garantir a autonomia do profes-
de (que presumidamente indica o nível sor na sua decisão sobre modalidades
de desenvolvimento) e os seus conhe- de trabalho assentadas tanto nos obje-
cimentos escolares, em “turmas que tivos de formação, quanto nos princí-
falsamente se crê serem homogêneas pios de ética que o valorize e respalde,
o suficiente para que cada um tenha lhe seja atribuída responsabilidade
chance de assimilar o mesmo progra- em todas as etapas do processo, de for-
ma durante o mesmo tempo”. ma inovadora, criativa, cooperativa.
Em decorrência, tem-se que a igual-
Torna-se evidente, pois, a deter- dade de oportunidades, processo no
minação de que todas as pessoas com qual, toda a sociedade sob a forma de
necessidades especiais e com deficiên- serviços, atividades, informações, do-
cias, têm direito à educação de quali- cumentação, colocar-se-ia à disposição
dade, seja esta pública e gratuita, a de todos os cidadãos, equitativamente,
qual deve revelar-se adequada às suas representando uma contribuição fun-
necessidades e dar-se em um meio, damental para a mobilização em prol
40 o menos restritivo possível, preferen- do bem-estar de todos na sociedade
cialmente, nas classes do ensino co- justa que se espera construir.
mum, disponibilizando-se recursos e
arranjos específicos aos casos que as- Neste entendimento, dadas as
sim os exigirem (BRASIL, 1997). suas peculiaridades, cada aluno deve-
ria receber diferentes atendimentos,
Atualmente, tem se verificado no sem que isto constituísse demérito ou
Brasil um incremento acentuado em favorecesse o desencadear de um pro-
aportes legais (leis, decretos, resolu- cesso de marginalização. Tais aten-
ções) voltados à Educação Especial, dimentos justificar-se-iam na medida
que culminaram, mais recentemente, em que se reconhecesse que todas as
em 2008, com a criação do Programa pessoas diferenciam-se umas das ou-
de Educação Inclusiva: direito à diver- tras, e que podem conviver, harmoni-
sidade. Este programa visa transfor- camente, a partir desta diferenciação
mar todos os sistemas de ensino em E esta convivência não deveria ser
sistemas inclusivos, promovendo a for- interpretada como uma concessão de
mação de professores e gestores, para um determinado grupo a outro: mas
a garantia do acesso de todos à educa- sim, como um direito que a socieda-
ção. Pergunta-se em decorrência: e a de reconhece que todos têm, sem dis-
garantia da permanência? E a garan- criminação. Penso que este seria um
tia de uma educação realmente trans- importante passo para a busca da au-
formadora? Diante desse quadro, como tonomia da escola e de seus usuários/
Autonomia escolar fazer valer os princípios da autonomia usuárias.
na diversidade das
(d)eficiências e
escolar, se o paradigma da inclusão,
inclusão por si só, representa um “dever-cum- A criação de um ambiente edu-
Denari FE prir” na forma como instaurado? Como cativo que se revele positivo para o
processo de aprendizagem de todos os a instruí-lo, nem abdicar dos objetivos ISSN 1982-8632
alunos, com ou sem necessidades espe- essenciais. Diferenciar é, pois, lutar
ciais revela-se outra fonte de preocupa- para que as desigualdades diante da
ção e desafio para todos os envolvidos: escola atenuem-se e, simultaneamen- Revista
preocupação com a promoção de expe- te, para que o nível de ensino se eleve @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
riências diferenciadas que coloquem (PERRENOUD, 2000). 2011: 37-43
o aluno diante de situações ótimas de
aprendizagem; desafio, tendo em vista Considerando o educando em sua
as políticas de inclusão de alunos com integridade, independentemente de
necessidades especiais nas salas de suas condições físicas ou intelectu-
aula do ensino comum fundamentada, ais, atribui-se a cada pessoa a possi-
apenas, no requisito da legalidade... bilidade de desenvolver-se de acordo
com suas atitudes e aptidões visando
Outro importante passo em di- sua inserção na sociedade. Como par-
reção à autonomia está na percepção te do sistema educativo, sua existên-
da complexidade e da diversidade das cia está intimamente ligada a valores
características humanas, levando ao e virtudes, condições tais que fazem
entendimento de que a partilha dos da educação uma forma enriquecida
aspectos comuns e das necessidades, para melhorar a qualidade de vida das
excede os (des) entendimentos das di- pessoas. Eis aqui, mais um passo ne-
ferenças. cessário à tão sonhada construção da
autonomia.
Em consequência, passa-se a pen-
sar em uma escola, vista pela perspec- A inclusão de alunos com deficiên-
tiva de homem ético, crítico, criador, cias e necessidades especiais na escola
autônomo, curioso, investigativo, que comum, é antes, uma demanda social,
fala as diferentes linguagens do mun- relacionada aos direitos primeiros de
do, contemplada de forma a permitir educação, cujo fundamento ético inde- 41
a criação, a expressão de valores e co- pende de outros fatores considerados
nhecimentos. Para tanto, as mudan- na conveniência de sua implementa-
ças em concepções decorrem não so- ção. Ainda, independentemente da
mente de atitudes pessoais: implicam, obrigação ética-educativa e dos neces-
também, na construção de um projeto sários incentivos estruturais, esta po-
pedagógico que valorize a liberdade, a lítica não constitui um problema me-
cultura da sociedade e das instituições ramente organizacional que demanda
educacionais, a distribuição de respon- uma gestão de qualidade: ao contrário,
sabilidades no exercício profissional. a implementação do processo de inclu-
Há que pensar, ainda, em um projeto são pode se transformar numa experi-
cujas características não sejam refor- ência catalisadora de melhoria e efeti-
çadoras de rótulos que, uma vez atri- vidade para toda a instituição escolar.
buídos, excluam pessoas de seu meio,
impossibilitando-as a uma vida esco- A educação na e para a diversi-
lar, social e laboral. dade implica, antes, uma mudança
epistemológica, na qual a visão tra-
Então, tornar o ensino diferen- dicional do conhecimento, da relação
ciado é fazer com que cada aprendiz entre sujeito-objeto e a aprendizagem
vivencie, tão frequentemente quanto seja (re) considerada, (re) significada.
possível, situações fecundas de apren- A esse respeito Maturana, (1997) diz
dizagem. Para executar essa idéia sim- que “cada ser humano constrói o co-
ples e preciso mudar profundamente a nhecimento em interação e de onde os Autonomia escolar
escola. Acrescentemos de imediato que agentes externos só podem provocar na diversidade das
(d)eficiências e
adaptar a ação pedagógica ao apren- mudanças internas em cada organis- inclusão
diz não é, no entanto, nem renunciar mo determinados por sua própria es- Denari FE
ISSN 1982-8632 trutura”. Desse modo, existem realida- tores da educação (lembrando o senti-
des diferentes em domínios distintos, do proposto por Nóvoa, anteriormente
múltiplas realidades e, assim, as re- citado), em caráter nacional; e que os
Revista lações humanas ocorrem na aceitação profissionais que ali desempenham
@mbienteeducação mútua, reconhecendo a legitimidade suas funções, o façam pautados pelo
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 37-43
do outro. conhecimento dos mais expressivos
meandros desse enorme complexo de-
A existência de uma formação ini- nominado “educação” e “educação es-
cial renovada e a profissionalização pecial”, pela seriedade da ciência, pela
docente a partir desses novos enfoques independência de pensamentos e ações
propiciarão mudanças nas metodolo- restritas apenas e tão somente, aos in-
gias de ensinar, na organização das teresses governamentais, infelizmente
aulas, no planejamento de atividades, quase sempre oportunistas...
nas adaptações curriculares e nos sis-
temas de avaliação. E o enfrentamen- Para tanto, faz-se imprescindí-
to do desafio de trabalhar na/para a vel redesenhar os contextos laborais
diversidade, de um lado, implica uma e de funções, com base em um modelo
relação de equipe, de conjunto, de com- que permita tomar decisões, elaborar
pletude, de compartilhar experiências; projetos e solucionar problemas CON-
de outro lado, outorga a possibilidade JUNTAMENTE, tendendo a um con-
de dar soluções criativas a problemas texto mais participativo, responsável,
comuns, criar laços de apoio, respeito reflexivo. Um novo plano de estudos
e aprendizagens das experiências dos deve conter delineamentos específicos,
outros. Nesse sentido, os professores que favoreçam a formação dos futuros
devem aprender a usar todos os recur- docentes contemplando, em primei-
sos, em particular os humanos, a tra- ra instância, a necessária articulação
balhar de modo conjunto com alunos, metodológica e didática para a inter-
42 com seus pais e profissionais especia- venção e planejamento de ações de ca-
lizados. ráter formativo, no sentido amplo da
educação — a formação do cidadão.
A escola deve ter autonomia
para propor e viabilizar seus projetos Sem entrar na polêmica que en-
educativos, entre esses, o da inclu- volve as definições terminológicas e
são escolar. E, para lograr êxito, não semânticas, penso ser pertinente es-
basta uma política emanada do poder clarecer que tais ações dependem da
central, nem aquelas provenientes de organização e das possibilidades de
iniciativas externas. Antes, é preciso gestão interna de cada instituição es-
haver comprometimento por parte dos colar para propiciar um ambiente es-
líderes educacionais locais (de cada colar e de sala de aula adequados, con-
comunidade), tais como: diretores, tando, ainda, com os recursos técnicos
supervisores, coordenadores pedagó- e humanos necessários. No caso de
gicos, qual seja, substituir a trans- uma escola que se pretende inclusiva
formação caracterizada por outorgar PARA TODOS, é primordial que exis-
poder pelo incentivo das habilidades ta uma cultura que valorize a diversi-
e da confiança de trabalhar em prol dade e a considere uma oportunidade
do desenvolvimento profissional, por para propor mudanças e reformas, a
meio de sua formação, atualização e começar pelo projeto político-pedagó-
aperfeiçoamento. gico, das práticas adotadas para os
processos de ensino e aprendizagem,
Autonomia escolar Para além desta consideração, valorizando as diferenças individuais.
na diversidade das
(d)eficiências e
tem de haver, ainda e principalmente, Seria esta outra condição que garanti-
inclusão um despojamento da forma emanada ria a autonomia? Penso que sim.
Denari FE de poder absoluto, por parte dos ges-
Como transformar, competente- uma vez que por meio do controle dos ISSN 1982-8632
mente a escola de modo a responder professores, o Estado assegura-se de
as necessidades do mundo moderno? que o funcionamento da escola dar-se-
Como garantir que programas de for- -á como um fator de integração políti- Revista
mação de professores ainda que em co-social. @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
seus níveis mais elementares, incluam 2011: 37-43
conteúdos pedagógicos e curriculares Como, então, a escola e o Estado
voltados para o estudo e a compreen- justificam a exclusão de alunos a par-
são das diferenças que compõem a di- tir da constatação de diferenças – nem
versidade? sempre fidedigna, mas, quase sempre,
questionável?
A discussão e a tomada de deci-
sões, via de regra, estão restritas aos Por fim, resta refletir. Mas não
setores técnicos governamentais, aos somente isso: ao buscar as respostas
representantes de organismos interna- às questões que materializam este tex-
cionais e empresariais que mediante to, há que acontecer, implicitamente,
o atendimento a determinadas condi- um alvorecer mais colorido, mais hu-
ções, disponibilizam (ou não) recursos manizado, mas digno e ético no qual,
essenciais para a promoção de uma todas as pessoas, possam contemplar,
educação (trans) formadora de mundo, apreender e abstrair dos matizes que o
de pessoas. Verifica-se, pois, a crescen- compõe, o sentido pleno da liberdade,
te importância de um jogo político in- (inclusive de pensamento) princípio
teressante, estratégico, (in) tensional, primeiro para uma vida mais autôno-
ma.

43

REFERÊNCIAS

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convite à reflexão e á prática. São SILVA, J.M. A autonomia da escola
Paulo: Perspectiva, 2004. pública. Campinas, SP: Papirus, 2004.
Autonomia escolar
Recebido para publicação em 28.11.2010
na diversidade das
Aceito em 19.12.2010 (d)eficiências e
inclusão
Denari FE
ISSN 1982-8632 AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA A SERVIÇO DA INCLUSÃO
SOCIAL:
Revista ACOLHENDO CRIANÇAS COM TRANSTORNO DE
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun, DÉFICIT DE ATENÇÃO E SUAS FAMÍLIAS
2011: 44-52

Prof. Dra. Olga Solange Herval Souza1


olga.misty@yahoo.com.br

Prof. Dra. Gilca Lucena Kortmann2


gilca@unilasalle.edu.br

Resumo
O presente artigo relata ações que atendem ao Plano de Desenvolvimento Institucional do Uni-
lasalle a fim de promover a extensão aberta à participação da comunidade carente, visando
socializar os conhecimentos gerados na instituição, colaborando para a melhoria da qualidade
de vida das pessoas por ele atingidas. Trata-se do Núcleo de atendimento à comunidade na
área de Desenvolvimento Psicopedagógico, que atende desde o bebê no campo da Estimulação
Precoce, acompanhando o desenvolvimento de crianças, adolescentes e adultos no o intuito de
promover o bem-estar de pessoas em situação de vulnerabilidade social na comunidade local e
municípios próximos de forma integral e preventiva.
PALAVRAS CHAVE: Psicopedagogia • Laboratório de aprendizagem • Responsabilidade social •
44 Família • Comunidade.

Abstract
This article addresses actions that meet the Unilasalle’s Institutional Development Plan aiming
to promote the extent open to the participation of the needy community, in order to socialize the
knowledge generated in the institution, collaborating to the improvement of people life quality.
This is the community service center in the psychopedagogical development area, serving from
the baby in the Early Stimulation area, following children development, up to adolescents and
adults in order to promote the welfare of the people in situations of social vulnerability of the
local community and nearby towns in a thorough and preventive manner.
KEY WORDS: P
 sychopedagogy • Laboratory of learning • Social responsibility • Family • Com-
munity.

Autonomia
universitária a
serviço da
inclusão social:
acolhendo crianças 1
  Doutorado e Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Porto Alegre, Brasil.
com Transtorno de Professor titular no Centro Universitário La Salle – UNILASALLE. Professor M5 na Secretaria Municipal de Educação de
Déficit de Atenção e Porto Alegre – SMED.
suas famílias 2
  Doutora em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Especialista em Psicopedagogia Clínica, Educação
Especial, Psicomotricidade, Estimulação Precoce para bebês com patologias e Terapia de Casal e Família. Professora
Souza OSH
e coordenadora da graduação e pós-graduação em Psicopedagogia do Centro Universitário La Salle – Porto Alegre -
Kortmann GL RS. Diretora da Clínica Mediação Centro de Terapias Integradas. Membro do grupo de estudos em neuropsicologia da
UFRGS/2011.
INTRODUÇÃO nal, primeiramente através dos cursos ISSN 1982-8632
de Pós-Graduação Lato-Sensu e, pos-
O Centro Universitário Lasalle,
teriormente, do curso de Bacharelado
criou em 1995, o atendimento comu-
em Psicopedagogia (2003), desenvolve Revista
nitário às crianças com problemas no
Programas em rede de apoio social @mbienteeducação
desenvolvimento neuropsicomotor que V. 4, nº 1, jan/jun,
para que os alunos desses Cursos e
mais tarde veio a chamar-se NAPSI- 2011: 44-52
outros que desejarem se inserir ve-
Núcleo de atendimento à comunidade
nham prestar atendimento no campo
na área de Desenvolvimento Psicope-
das dificuldades de aprendizagem,
dagógico com o objetivo de atender
distúrbios e transtornos do desenvol-
programas sociais em rede, promoven-
vimento, assim como as famílias, te-
do gratuitamente assistência educa-
nham cada vez mais consciência do
cional ou de saúde. Suas ações estão
quanto podem investir nos seus entes.
voltadas à promoção e atendimento às
necessidades básicas do indivíduo e da Atendendo ao Plano de Desenvol-
família favorecendo sua autonomia e vimento Institucional do Centro Uni-
promoção social também na perspecti- versitário Lasalle, Unilasalle, este tra-
va da Assistência Social. balho de apoio social busca promover
a extensão aberta à participação da
A assistência social realiza-se de
comunidade carente, visando sociali-
forma integrada às políticas setoriais,
zar os conhecimentos gerados na ins-
visando ao enfrentamento da pobreza,
tituição, colaborando para a melhoria
à garantia dos mínimos sociais, ao pro-
da qualidade de vida das pessoas por
vimento de condições para atender os
ele atingidas; desenvolvendo a cultura
direitos sociais. Os programas sociais
dentro de uma visão cristã e adaptan-
em rede têm por objetivos:
do à realidade, as dificuldades que as
• A proteção à família, à mater- pessoas encontram.
45
nidade, à infância, à adoles-
cência e à velhice; Trabalhamos colaborando na in-
vestigação da verdade e na busca de
• O amparo às crianças e ado- soluções dos problemas humanos,
lescentes carentes; através da análise e difusão do pen-
samento ético, moral e social cristão,
• A promoção da inclusão ao
contribuindo com a comunidade local
mercado de trabalho;
para seu desenvolvimento pessoal, so-
• A habilitação e reabilitação cial, e cultural.
das pessoas com deficiência e
a promoção de sua inclusão à Sendo o UNILASALLE um Cen-
vida comunitária. tro Universitário que se insurge numa
vocação natural que predestina a Ins-
Os trabalhos em rede realizam- tituição na manutenção de atividades
-se de forma integrada às políticas de extensão comunitária de atenção
setoriais,visando ao enfrentamento integral à humanização da população,
da pobreza, à garantia dos mínimos de forma a prestar-lhe atendimento
sociais, ao provimento de condições qualificado, ao mesmo tempo inves-
para atender contingências sociais e te em ações socio-assistenciais, assim Autonomia
à universalização dos direitos sociais. como fortalece ações de Responsabili- universitária a
serviço da
(LOAS Lei 8742.DE 7 DE DEZEM- dade Social nas comunidades em que inclusão social:
BRO DE 1993). se insere, a partir de suas práticas en- acolhendo crianças
com Transtorno de
quanto instituição de ensino superior.
Desde a década de noventa, a Déficit de Atenção e
suas famílias
Rede Lasallista, através do seu Cen- Dessa forma, cria-se um núcleo
tro Universitário, por meio do Curso Souza OSH
de atendimento à comunidade na área
Kortmann GL
de Psicopedagogia Clínica e Institucio- de Desenvolvimento Psicopedagógico
ISSN 1982-8632 que atende desde o bebê recém-nasci- permanente, não têm acesso a um mí-
do no campo da Estimulação Precoce, nimo de bens e recursos sendo, portan-
acompanhando o desenvolvimento de to, excluídos em graus diferenciados
Revista crianças, adolescentes, adultos e ter- da riqueza social. O que justifica o in-
@mbienteeducação ceira idade com o intuito de promover vestimento nas ações dos projetos do
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 44-52
o bem-estar de pessoas em situação NAPSI, junto à população de Canoas -
de vulnerabilidade social na comuni- município do RS onde se localiza o Uni-
dade local e vizinhança próxima, de lasalle. Da mesma forma, municípios
forma integral e preventiva. Busca o vizinhos como Esteio, Sapucaia do Sul,
equilíbrio mental e físico através de Cachoeirinha, Gravataí, procuram
atividades educativas, informativas nossos serviços para atendimento psi-
e intervencionistas, de acordo com copedagógico à sujeitos com déficits no
a demanda populacional direciona- desenvolvimento, e isso tem sido nossa
da pelo sistema municipal de saúde, proposta uma vez que criar condições
educação e assistência social, também de superação é caminho eficaz para a
atendendo ao que preconiza a LOAS, mudança de comportamento e atitude
Lei Orgânica da Assistência Social em diante da pobreza. A situação de vul-
seu artigo 2º, inciso e parágrafo úni- nerabilidade social da família pobre se
co, bem como integrando-se ao teor da encontra diretamente ligada à miséria
Lei 8080/1990 possibilitando com isso estrutural, agravada pela crise econô-
efetiva possibilidade de transformação mica que lança o homem ou a mulher
social no meio em que o indivíduo está ao desemprego, subemprego e da de-
inserido. pendência financeira externa ao nú-
cleo familiar. Para Kaloustian (1994)
Sabe-se comprovadamente que por detrás da criança excluída da es-
populações com baixos índices de aces- cola, nas favelas, no trabalho precoce
so à educação, saúde e trabalho, cons- urbano e rural e em situação de risco,
46 tituem variáveis significativas para a está a família desassistida ou inatingi-
pouca qualidade de vida, assim como da pela política oficial. Corroborando
as condições de acesso aos serviços es- com esse autor, Martins (1993) afirma
senciais e aos mínimos sociais. que a criança abandonada é apenas a
contrapartida do adulto abandonado,
Petrini (2003) afirma que, à medi- da família abandonada, da sociedade
da que a família encontra dificuldades abandonada.
para cumprir satisfatoriamente suas
tarefas básicas de socialização e de Dessa forma, compartilhamos,
amparo /serviços aos seus membros, neste momento, um dos trabalhos co-
criam-se situações de vulnerabilidade. munitários que vem sendo desenvol-
A vida familiar para ser efetiva e eficaz vido junto à comunidade carente que
depende de condições para sua susten- é o atendimento “Psicopedagógico em
tação e manutenção de seus vínculos. escuta e intervenção a pais de alunos
que apresentam transtornos de défi-
Pobreza não pode ser definida cit de atenção e hiperatividade”, que
de forma única, mas ela se evidencia é constituído por alunos carentes da
quando parte da população não é ca- comunidade do município e do entor-
Autonomia
universitária a
paz de gerar renda suficiente para ter no. Este trabalho descreve elementos
serviço da acesso sustentável aos recursos básicos da narrativa trazidos pelas famílias
inclusão social: que garantam uma qualidade de vida que frequentam o NAPSI – Núcleo de
acolhendo crianças
com Transtorno de digna. Esses recursos são água potável atendimento Psicopedagógico cujos fi-
Déficit de Atenção e e tratada, saúde, educação, alimenta- lhos são atendidos porque apresentam
suas famílias ção, moradia, renda e cidadania. De como queixa, da família e da escola,
Souza OSH acordo com Yasbek (2003) são pobres Transtorno de Déficit de Atenção e Hi-
Kortmann GL aqueles que, de modo temporário ou peratividade. Neste laboratório traba-
lhamos com grupo focal composto por vidade (TDAH) é um dos transtornos ISSN 1982-8632
16 pais e mães de crianças em idade mais comuns apresentados na infân-
escolar, que tenham um ou mais filhos cia.
com diagnóstico de Transtorno de Dé- Revista
ficit de Atenção e Hiperatividade e que Barkley (2002) define: @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
estejam manifestando dificuldades de 2011: 44-52
aprendizagem. Os mesmos são divi- “Transtorno de Déficit de Atenção
didos em dois grupos que se alternam como um transtorno do desenvolvi-
mento do autocontrole que consiste
quinzenalmente. Esses pais deverão
em problemas com os períodos de
ter um nível sócio-econômico baixo e atenção, com o controle do impulso
não apresentar patologias associadas e com o nível de atividade, que são
que impeçam de serem entrevistados. refletidos em prejuízo da vontade
São encaminhados pelas escolas pu- da criança ou em sua capacidade de
blicas do entorno, ou através de pro- controlar seu próprio comportamento
fissionais da área da Saúde/Educação relativo à passagem do tempo, em ter
(neuropediatra, psicólogos dos postos em mente futuros objetivos e conse-
SUS da cidade). Além das crianças, quências.”
seus pais , professores e outros pro-
fissionais ligados à rede do aluno são Assim, encontramos inúmeras
contatados. pesquisas e livros que abordam esse
tema, pois se constatam grandes difi-
A partir da prática como psicope- culdades na família - principalmente
dagoga com formação em terapia fa- dos pais e daquelas pessoas que se en-
miliar, atendendo em especial a essa contram próximas dessas crianças no
clientela, aprofundo essa temática, manejo de situações específicas e ca-
pois entendemos que, pelo viés das racterísticas desse transtorno.
leituras e práticas como terapeuta da
linha sistêmica, poderemos melhor A literatura pertinente ao tema, 47
compreender as não-aprendizagens em grande parte, refere-se às dificul-
das crianças. dades e ao estresse dessas famílias,
destacando a dificuldade dos pais em
Com vistas ao ingresso, à inclu- lidar com as características apresenta-
são e participação efetivas da clientela das pelas crianças que têm esse diag-
atendida pelo programa no sistema nóstico. Dessa forma, não é raro encon-
regular de ensino, o núcleo conta tam- trar literatura que se propõe a oferecer
bém com a prática de uma pedagoga, indicações do que fazer, de que manei-
docente do curso de Psicopedagogia ra agir para obtermos os melhores re-
Clínica e Institucional, com forma- sultados na educação dessas crianças.
ção em diferentes áreas da educação
especial, com ênfase nos estudos perti- A presente pesquisa estuda os
nentes à educação inclusiva de alunos pais das crianças em idade escolar
com necessidades educacionais espe- com o diagnóstico de TDAH, objeti-
ciais. Assim, para conta da demanda, vando identificar que tipos de estraté-
a psicopedagogia e a pedagogia espe- gias educativas eles utilizam e quais
cializada se entrelaçam e permeiam as consideram mais eficazes na orienta-
nossas práticas cotidianas, afirmando ção e educação dos filhos. A ideia da Autonomia
mais uma vez, o compromisso do Cen- pesquisa é evidenciar os recursos que universitária a
os familiares possuem diante de tal si- serviço da
tro Universitário Lasalle com a comu- inclusão social:
nidade e a escola. tuação, a fim de evidenciar e fortalecer acolhendo crianças
as suas potencialidades. com Transtorno de
Déficit de Atenção e
A CRIANÇA, A FAMÍLIA E A ESCOLA suas famílias
A ideia de estudar as estratégias
Atualmente, sabe-se que o Trans- Souza OSH
educativas surgiu a partir da obser-
Kortmann GL
torno de Déficit de Atenção e Hiperati- vação das famílias que atendemos e
ISSN 1982-8632 da necessidade de buscar, através de racterísticas de tal transtorno - (KEN-
pesquisas, onde encontrar literatura DALL e SHELTON, 2003).
a respeito da patologia e disfuncio-
Revista nalidades das famílias cujas crianças Sabemos que a trajetória dessas
@mbienteeducação apresentam diagnóstico de TDAH e os crianças é permeada pela ansiedade
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 44-52
conflitos existentes nessas relações. dos pais em encontrar soluções para
a problemática da dinâmica familiar,
Assim, como objetivo amplo, este e buscam na escola um ambiente se-
estudo procurou rever os aspectos da guro, preparado para receber e aten-
interação pais-crianças, em uma abor- der a todas as crianças e adolescentes,
dagem sistêmica, em termos de detec- considerando as suas peculiaridades.
tar aspectos de saúde e a funcionali- Entretanto, a escola que temos hoje se
dade existentes nessas famílias que mostra em crise, diante da globaliza-
convivem com estas dificuldades, bem ção social que atinge todos os sistemas,
como identificar os tipos de estraté- desde os produtivos, até o desenvolvi-
gias de solução de problemas educati- mento econômico, o que tem gerado
vos empregados pelos pais, quais são significativa exclusão social. E tam-
considerados mais eficazes, quais as bém devido às mudanças de paradig-
formas de orientação e educação dos ma da ciência e do conhecimento que
filhos e quais recursos são utilizados influenciam diretamente na qualida-
perante dificuldades que surgem na de da formação docente e, consequen-
vida escolar de seus filhos. temente, no processo ensino-apren-
dizagem, a escola parece se manter,
A observação clínica aliada às in- na maioria das situações,distante e
tervenções psicopedagógicas, ao longo desarticulada do seu meio (CANDAU,
de muitos anos de trabalho nos permi- 2000). Outro aspecto ressaltado pela
tem constatar que as relações peculia- autora, é a crítica muito comum que
48 res de pais com filhos que apresentam denuncia o caráter padronizador, ho-
TDAH mostram-se, de forma geral, mogeneizante e monocultural. Segun-
mais estressantes quando compara- do ela, isso transforma a escola em
das/contrastadas com as relações de um espaço onde se dialoga pouco, ou
pais de crianças que não as apresen- sequer se dialoga com as culturas dos
tam. sujeitos que dela fazem parte. Essas
considerações, e tantas outras que po-
Está amplamente demonstrado deríamos aqui arrolar, apresentam a
na literatura empírica que as crian- escola que temos, em regra, como um
ças com TDAH têm mais interações lugar desinteressante e pouco compro-
negativas com seus pais, os quais se metido com a realidade complexa que
mostram mais autoritários, repetindo marca a nossa sociedade, aqui em par-
o que é solicitado com maior frequên- ticular a infância e as famílias.
cia do que outros pais. Esses pais tam-
bém percebem essas interações de for- Observamos que, à medida que
ma mais negativa do que aqueles que as mães se tornam mais responsabi-
têm filhos sem o diagnóstico de TDAH. lizadas por esses cuidados, são elas
que recebem, na maioria das vezes, as
Autonomia Podemos entender, então, que o
universitária a queixas e dificuldades apresentadas
serviço da contexto familiar onde essas crianças pelas crianças em diferentes situações,
inclusão social: se encontram inseridas é descrito, fre- quando ingressam na escola, ou du-
acolhendo crianças
com Transtorno de
quentemente, como caótico e exausti- rante seu processo de aprendizagem, e
Déficit de Atenção e vo. As causas disso são as necessida- convivência. Assim, podem apresentar
suas famílias des encontradas pelos pais com esse(s) sentimentos de incompetência dian-
Souza OSH filho(s) e a tentativa de solucionar te dessas demandas. (MALACRIDA,
Kortmann GL determinadas dificuldades que são ca- 2001).
Essa “grande luta” pode durar seus filhos cumpram o que lhes é so- ISSN 1982-8632
anos, com períodos de ataques e con- licitado. Assim, sentimentos de impo-
tra-ataques, pelos mais diversos mo- tência, ineficácia, bem como a falta de
tivos. No início, de uma forma mais compreensão do que está acontecen- Revista
branda e, com o decorrer do tempo, do parecem ser sentimentos comuns @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
agravando-se. entre os pais das crianças com esse 2011: 44-52
transtorno.
Identificamos que as caracterís-
ticas apresentadas por essas crianças As crianças com TDAH habitual-
interferem nas relações que elas esta- mente demonstram mais dificuldades
belecem, criando mais conflitos na re- em atender às disciplinas, cumprir
alização do que lhes é solicitado e nas suas obrigações, realizar os afazeres
interações com as pessoas. domésticos e os deveres escolares e
respeitar os horários seguidos por sua
Crianças com TDAH apresentam família. Isso acaba conduzindo à ten-
problemas sérios ao se envolverem tativa crônica, por parte dos pais, de
com outras em jogos ou trabalhos jun- estabelecer limites, colocando penas
tas, pois manifestam uma impulsivi- rigorosas e limitações cada vez mais
dade e dificuldade em lidar com suas inflexíveis, de maneira que os filhos
limitações. Atrapalham-se e perdem- cumpram o que é determinado.
-se no jogo, por exemplo, normalmente
geram irritações e brigam. Encontramos pesquisas que fa-
lam de diferentes maneiras sobre as
Podemos destacar, dos trabalhos dificuldades de aprendizagem e famí-
que lemos e de nossa prática psicope- lia, como Polity (1998), que descreve
dagógica, de modo geral, que existe a o quanto é frustrante para qualquer
necessidade de entendimento de al- família lidar com esse empecilho apre-
guns sentimentos de mal-estar e am- sentado por seus filhos, com suas vá- 49
bivalência que os pais demonstram ao rias problemáticas, o que mostra como
perceberem algum fracasso de seus fi- podem ser vistas por um ângulo dife-
lhos na escola. Encontramos, também, rente, que desvele e consolide outra
famílias que têm formas próprias de li- abordagem possível para tais proble-
dar com estratégias de aprendizagens mas.
e de enfrentar dificuldades.
Também Bianchini (2001) fala
Atualmente, existem diversos da possibilidade de ampliar a inter-
livros e manuais direcionados para -relação e a interação entre a família,
pais com filho com TDAH, que trazem a escola e o filho/aluno na ação educa-
estratégias de como lidar com essas tiva e acredita que o fortalecimento da
crianças de forma a obter os compor- união desses dois sistemas ajudará na
tamentos desejados. Tomamos como promoção da aprendizagem dos filhos/
exemplo o livro de Barkley (2002), em alunos.
alguns capítulos, com os seguintes tí-
tulos: “Quatorze princípios para criar Nessa mesma linha, Cerveny
uma criança com TDAH; Oito passos (1997) afirma que os padrões de re-
para ter um melhor comportamen- petição determinam a formação e/ Autonomia
to...”. Identificamos, assim, a necessi- ou rompimentos de vínculos afetivos, universitária a
serviço da
dade dos pais de buscarem recursos e influenciando sobremaneira o funcio- inclusão social:
informações concretas sobre a forma namento e a hierarquia da família. acolhendo crianças
de lidar com seus filhos. Percebemos Portanto, diz o autor, o grupo familiar com Transtorno de
Déficit de Atenção e
que esses pais, muitas vezes, encon- passa seu modelo e as gerações mais suas famílias
tram-se mais estressados e cansados, novas podem aprender a aprender, ou Souza OSH
devido à dificuldade em fazer com que não, e, em muitas famílias, o destino Kortmann GL
ISSN 1982-8632 da criança já está selado antes do nas- perdendo. Isto tanto para famílias,
cimento pelas próprias expectativas e quanto para aluno, é extremamente
interesses gerados. desestimulante, pois não nascemos
Revista com a ideia de que podemos perder.
@mbienteeducação Já sobre a atuação do psicopeda- Porém, em aprendizagem também se
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 44-52
gogo institucional sistêmico Gasparian perde: quando é preciso abrir mão de
(1997) esclarece que esse profissional ideias às quais estamos acostumados,
deve trabalhar de forma a orientar a de certezas que precisam ser revistas,
família e as instituições sobre carac- da ilusão de que é possível controlar
terísticas das diferentes etapas do de- o que está ao redor não mexendo em
senvolvimento, sobre o progresso nas nada, cuidando para que tudo fique
aprendizagens, sobre as condições psi- arrumado de forma a não abrir bre-
codinâmicas e determinantes destas chas para algo desconhecido que possa
mesmas dificuldades da aprendiza- ameaçar a sensação de segurança.
gem, não só em nível de defasagem de
conteúdo, mas ainda em áreas cogniti- Muitas pessoas deixam de am-
vas algumas vezes relacionadas a as- pliar seu universo de conhecimentos,
pectos também sociais e psico-afetivas. por receio de entrar em contato com
suas incertezas. Muitas famílias dei-
Atualmente, existem autores xam de aproveitar momentos de crise,
que discutem sobre questões referen- que poderiam resultar em aprendiza-
tes a dificuldades de aprendizagem gens e crescimento, para fugir da de-
em crianças com TDAH e enfocam os sarrumação e do desequilíbrio.
problemas no aluno, no professor e
na própria família. No entanto, pou- Ao avaliarmos como as famílias
cos se propuseram a estudar como os constroem suas narrativas em torno
pais das crianças em idade escolar com do sintoma TDAH e da não-aprendiza-
50 diagnóstico de TDAH lidam com tal si- gem, consideramos algumas análises:
tuação.
• As dificuldades educativas em
Percebemos, através de nossa lidar com o filho-aluno com
atuação profissional nessa área, há TDAH;
mais de trinta anos, somados aos qua-
se 18 anos junto ao Núcleo do Lasalle, • Estrutura familiar com ema-
quanto as famílias cujos filhos apre- ranhados; dificuldades de
sentam esse transtorno manifestam adaptação ao ciclo vital;
sentimentos de impotência, de estres-
se e verbalizam cansaço devido às difi- • Padrões de repetição; padrão
culdades em fazer com que seus filhos de aprendizagem familiar;
aprendam o, que muitas vezes, gera manejo dos segredos e mitos
exclusão escolar e, pelo desestímulo, familiares. Esses componentes
abandonam a escola. dão sustentação para a cons-
trução das narrativas familia-
Embora saibamos que as aprendi- res, uma vez que são elemen-
zagens podem ser definidas como um tos que se tramam e ajudam
Autonomia processo contínuo de vitórias e derro- a definir cada grupo dentro de
universitária a
serviço da tas, conquistas e perdas, para apren- suas individualidades.
inclusão social: der é preciso reconhecer e admitir que
acolhendo crianças
não se sabe, que se necessita de algo A escola, que é considerada como
com Transtorno de
Déficit de Atenção e que outro possui e, portanto, reconhe- um outro ponto forte de contribuição
suas famílias cer que se está em desvantagem em para o entendimento das dificuldades
Souza OSH relação àqueles que já sabem, numa de aprendizagem, atua nas chamadas
Kortmann GL linguagem competitiva, porque se está “dificuldades de ensinagem”, termo
usado no campo psicopedagógico para
se referir a abordagens inadequadas Não existe, na verdade, a preten- ISSN 1982-8632
do professor, à falta de disponibilidade são de apontar culpados (aluno, famí-
ou inflexibilidade de alguns em perce- lia, ou escola), visto que isso seria uma
ber os caminhos para “olhar o aluno” e visão reducionista que fere os princí- Revista
chegar a ele. Essa dificuldade de “ensi- pios sistêmicos; mas torna-se oportuno @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
nagem” pode ser relacionada ao movi- enfatizar que a aprendizagem é rela- 2011: 44-52
mento de ensinar carregado de ansie- cional e os sistemas envolvidos são co-
dade, o que lembra “obrigação”, peso, -responsáveis e se influenciam mutu-
medo e frustração para não entender o amente.
aluno. É um movimento permeado por
fantasias de incompetência que geram Consideramos que o processo de
muita raiva em determinadas ocasi- aprendizagem é sustentado por mui-
ões. Há um impasse entre a angústia tos eixos; mas, sobretudo, o cogniti-
do aluno que não consegue aprender e vo, o afetivo, o relacional, o técnico e
o professor que não consegue ensinar. o político, que são indissociáveis e so-
Nesses casos, o professor vira espelho brepostos, fazendo com que as ações
refletido nas dificuldades e emoções do humanas tenham de se articular de
aluno que tem medo que as emoções diferentes formas. Essas articulações
guardadas venham à tona. acontecem quando efetivamente rea-
lizadas em redes que buscam os mes-
Existe ainda a frustração de dis- mos objetivos, ou seja, o “de ensinar as
tinguir o aluno diferente do aluno so- crianças a aprender” a partir das inte-
nhador; e o fato de se deparar com o rações sociais.
aluno real leva-o ao luto pela imagem
idealizada. Muitas vezes o aprendiz é
sentenciado pelo seu baixo desempe-
nho.
51

Autonomia
universitária a
serviço da
inclusão social:
acolhendo crianças
com Transtorno de
Déficit de Atenção e
suas famílias
Souza OSH
Kortmann GL
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Recebido para publicação em 17.11.2010
Aceito em 13.12.2010

Autonomia
universitária a
serviço da
inclusão social:
acolhendo crianças
com Transtorno de
Déficit de Atenção e
suas famílias
Souza OSH
Kortmann GL
A AUTONOMIA NA ESCOLA INCLUSIVA: ISSN 1982-8632

CONTRIBUIÇÕES DA LUDICIDADE PARA


O ENSINO E FORMAÇÃO DO PROFESSOR Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 53-9
Profa. Ms. Érica Aparecida Garrutti1
egarrutti@yahoo.com.br

Profa. Dra. Edna Antônia de Mattos2


ednamattos@uol.com.br

Resumo
Nas últimas décadas, a inclusão é alvo de muitos estudos no campo da Educação e nas áreas di-
versas de interface, com vistas a se avaliar e propor políticas públicas e práticas que promovam
a construção de ambientes escolares inclusivos. Diante desse enfoque, a necessidade de capa-
citação da comunidade escolar para construir uma escola de qualidade para todos é realidade
proeminente. Além da formação didático-pedagógica, devem-se proporcionar condições para
que o professor desenvolva atitudes favoráveis em relação à inclusão e reconheça os alunos em
suas potencialidades. Ainda, para que o professor atue com autonomia em uma escola pautada
no paradigma inclusivo, é necessário buscar uma formação que resgate no professor o encontro
consigo e com o mundo, sendo o lúdico uma importante condição tanto para o favorecimento
de tal encontro como o desenvolvimento das ações pedagógicas com os alunos com necessi-
dades educacionais especiais. Nesse sentido, esta pesquisa versará sobre o lúdico na forma-
ção de professores com orientação inclusiva e terá, especificamente, o objetivo de analisar as 53
contribuições do lúdico para a educação de crianças com necessidades especiais, aspecto a ser
considerado nessa formação.
PALAVRAS-CHAVE: Autonomia • Ludicidade • Formação docente • Educação inclusiva.

Abstract
In recent decades, the inclusion is a target of many studies in the field of education and in
various areas of interface, with a view to assess and propose public policies and practices that
promote the construction of inclusive educational environments. Given this focus, the need for
training of the school community to build a school for all is prominent reality. In addition to the
didactic-pedagogic training it must provide conditions for which the teacher develops favorable
attitudes towards inclusion and recognizes students in their potential. Still, for the professor to
act with autonomy in a school based on the inclusive paradigm, it is necessary to seek a rescue
in teacher training that the meeting with you and with the world, being the playful one impor-
tant condition both for the favouring of such meeting as the development of pedagogical ac-
tions with pupils with special educational needs. In this sense, this research will deal about the
playful in the training of teachers, with an inclusive orientation and, specifically, the objective
of analysing the contributions from the playful to the education of children with special needs,
aspect to be considered in this training. A autonomia na
escola inclusiva:
KEY WORDS: A
 utonomy • Playfulness • Teacher training • Inclusive education. contribuições da
ludicidade para
o ensino e formação
do professor
1
  Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar; Professora do curso de Pedagogia da UNIFESP/ Garrutti EA
Guarulhos-SP; doutoranda da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP. Mattos EA
2
  Professora Doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP.
ISSN 1982-8632 Nas últimas décadas, o tema in- educação inclusiva. Aos alunos devem
clusão tem sido alvo de muitos estudos ser disponibilizados os apoios extras
na Educação e nas áreas diversas de necessários, intra ou interinstitucio-
Revista interface, levantando debates acerca nal, para lhes assegurar uma educação
@mbienteeducação das políticas públicas e práticas, deri- efetiva, de qualidade (Brasil, 2008).
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 53-9 vados de propostas da Assembleia Ge-
ral da Organização das Nações Unidas O planejamento e a operacionaliza-
(ONU, 1990). Essa Assembleia expli- ção de propostas educacionais pauta-
das no paradigma inclusivo no Bra-
citou por meio da resolução n. 45/91 o
sil encontram limites e dificuldades.
modelo de sociedade inclusiva ou so- Estudos apontam que o principal
ciedade para todos, que se baseia no obstáculo é o despreparo dos pro-
princípio de que todas as pessoas têm fessores para lidar com alunos com
o mesmo valor e que, portanto, a socie- necessidades educacionais especiais
dade deve se empenhar para atender (Bueno, 1999; Glat e Ferreira, 2003;
as necessidades de cada cidadão. Tais Sant’Ana, 2005).
colocações reforçam uma série de mo-
vimentos que ocorrem desde a década Na formação de professores, além
de 1960, com vistas a transformar as da capacitação didático-pedagógica,
condições de vida de grupos excluídos devemos possibilitar condições para
da sociedade, sejam deficientes, pesso- uma reflexão mais ampla sobre a edu-
as com síndromes, distúrbios emocio- cação: qual é o sentido atribuído à vida
nais, homossexuais, enfim minorias de sujeitos plurais, na qual cada histó-
étnicas que, na maioria das vezes, são ria é traçada quase que manualmen-
alvo de discriminação social. te, tal como salienta Bojunga (1999),
em sua obra: Feito à Mão? Vida essa
A inclusão social constitui a ga- tecida por emoções, paixões, sonhos e
rantia do acesso contínuo ao espaço co- lutas que nos motivam e nos fazem ca-
54 mum da vida em sociedade para todas minhar?
as pessoas,
Partindo do pressuposto de que a
“sociedade essa que deve estar orien- vivência de experiências lúdicas per-
tada por relações de acolhimento à meia o ensino na diversidade, este
diversidade humana, de aceitação estudo tece considerações sobre as in-
das diferenças individuais, de esfor- terfaces entre a ludicidade, educação
ço coletivo na equiparação de opor- inclusiva e autonomia do professor.
tunidades de desenvolvimento, com
Objetiva analisar as contribuições do
qualidade, em todas as dimensões da
vida” (Brasil, 2001). Significa ser um lúdico para a educação de crianças
membro ativo da sociedade, tendo to- com necessidades especiais, aspecto a
das as pessoas os mesmos direitos e ser considerado na formação dos edu-
deveres independentemente das par- cadores com orientação inclusiva, para
ticularidades pessoais. que se tornem seguros e autônomos
quando propuserem situações educa-
Especificamente na área educa- tivas.
cional, há o direito que assegura, aos
alunos com necessidades especiais, Independentemente da necessi-
o recebimento, sempre que possível, dade educacional especial, é essencial
A autonomia na dessa educação nas escolas regulares. que a criança seja considerada como
escola inclusiva: (UNESCO, 1994; Brasil, 1996; Brasil, ser único que possui toda uma história
contribuições da 2001; Brasil, 2002). A escola regular que lhe oferece subsídios para a com-
ludicidade para
o ensino e formação deve se organizar para acolher e ofe- preensão do mundo, incidindo em seu
do professor recer condições objetivas de aprendi- respectivo posicionamento. Nesse sen-
Garrutti EA zagem para todos os alunos e, desse tido, vale lembrar
Mattos EA modo, destacam-se os princípios da Freire (2006), ao afirmar que “a lei-
tura do mundo precede a leitura da ximo. Apenas ele não se lembrará de ISSN 1982-8632
palavra e a leitura desta implica a suas brincadeiras; para ele somente
continuidade da leitura daquele”. uma obra como esta permaneceria
“Linguagem e realidade se prendem muda. Mas quando um moderno po-
Revista
dinamicamente”, “a leitura da pala- eta diz que para cada homem existe @mbienteeducação
vra é a leitura da “palavramundo”. uma imagem em cuja contemplação V. 4, nº 1, jan/jun,
Abre-se a possibilidade para uma o mundo inteiro desaparece, para 2011: 53-9
construção da própria experiência de quantas pessoas essa imagem não se
vida que, muito além das vivências levanta de uma velha caixa de brin-
recentes, resgata todo o mundo cons- quedos?
truído pela pessoa. Ao realizar uma
analogia entre leitura da palavra e Na educação das crianças com ne-
leitura das diversas ações escolares, cessidades especiais, há que se romper
podemos afirmar que a escolarização com a concepção de que as ações edu-
faz parte de um continuum que deve cacionais seguem um caminho com-
ser considerado.
pletamente diferente. “É fundamental
As crianças, na interação com o que possibilitemos uma interface en-
meio, compreendem, reproduzem, in- tre ‘o aprendizado e a dinâmica lúdica
teriorizam e transformam valores, há- e prazerosa’ (Medeiros, 2005)”. A vi-
bitos, costumes e outros elementos que vência de experiências lúdicas neces-
acessam. sita de estímulo nos espaços escolares
quando se objetiva uma educação que
Conforme Dias (2003), é na infância prioriza a pluralidade, o resgate do
“quando tudo começa, quando a vida mundo construído e a essência do “ser
fica grávida do mundo e começa a to- criança”: o brincar, o pular, o correr e,
mar forma”. enfim, o “dar asas à imaginação”. Os
conhecimentos relacionam-se aos inte-
Ao considerar a essência das vi- resses das crianças, proporcionando-
vências infantis, o lúdico e as brin- 55
-lhes alegria, prazer e transformações.
cadeiras são quase que intrínsecos à
criança. Medeiros (2005), destaca que É preciso oportunizar a expressão
a atividade lúdica, assim como fonte e criação, pelo direito à palavra, à es-
do entretenimento, revela a dimensão crita, à manifestação plástica, musical
humana, ao considerar a pessoa arti- e corporal. Deve-se permitir à criança
culada ao seu meio social e cultural. A a formação da sensibilidade, em con-
brincadeira é uma condição de experi- traposição à ideia de que “a sensibili-
mentação do mundo. Benjamin (1994), dade é uma coisa que o indivíduo tem
fazendo referência ao jogo (lúdico), ou não tem” (Porcher, 1982). Ao pro-
afirma que fessor compete o desafio de saber em
que medida a “cegueira e surdez esté-
Pois é o jogo, e nada mais, que dá à ticas” constituem um produto da edu-
luz todo hábito. Comer, dormir, ves- cação elementar, centrada quase que
tir-se, lavar-se devem ser incultados
exclusivamente em saberes intelectu-
no pequeno irrequieto através de
brincadeiras, que são acompanhadas
ais, em detrimento do saber estético e,
pelo ritmo de versinhos. Todo hábi- então, buscar meios para romper com
to entra na vida como brincadeira, e esse estereótipo.
mesmo em suas formas mais enrije-
cidas sobrevive um restinho de jogo Vale ressaltar que A autonomia na
até o final. Formas petrificadas e ir- escola inclusiva:
reconhecíveis de nossa primeira feli- o contato direto com as obras, sua contribuições da
frequentação regular e intensa, são o ludicidade para
cidade, de nosso primeiro terror, eis o ensino e formação
os hábitos. E mesmo o pedante mais principal e o melhor caminho de sen- do professor
insípido brinca, sem o saber, de ma- sibilização, o único verdadeiro meio
Garrutti EA
neira pueril, não infantil, brinca ao de acesso ao domínio dos códigos, o
alimento por excelência do sentimen- Mattos EA
máximo quando ele é pedante ao má-
ISSN 1982-8632 to de familiaridade (Porcher, 1982). pam a posição central de todas as suas
ações.
Uma caminhada necessita ser tri-
Revista lhada para se combater o mito de que Prejudicial também é o modo como
@mbienteeducação a expressão artística relaciona-se ao as ações são conduzidas, por meio de
V. 4, nº 1, jan/jun, acaso, à espontaneidade e que é privi-
2011: 53-9
atividades frequentemente desvenci-
légio de poucos. lhadas de situações significativas às
crianças. O “fazer artístico” restringe-
Outra ação importante é conceder -se aos pequenos espaços, pouco tempo
espaço para o desenho em sala de aula. de execução e não relacionados com
O desenho na infância representa para outras áreas altamente priorizadas
a criança uma possibilidade de lançar- na escola, em consequência das exi-
-se para frente, projetar-se. É um meio gências sociais. O desenho fica restri-
para que expresse seus interesses e to aos momentos em que “não se tem o
motivações, abre margem à criação de que fazer” ou até mesmo quando há a
seu mundo em suas brincadeiras. “O substituição momentânea do professor
desenho é uma linguagem como o ges- efetivo da sala de aula.
to e a fala” (Moreira, 1984). É uma
forma de deixar registradas suas des- Também complicada é a existên-
cobertas ao mundo. cia de pais que, em nome do enrique-
cimento da vaidade pessoal, dedicam
O professor, em todas essas eta- seus momentos junto à criança, já res-
pas, deve ter sensibilidade e realizar tritos pelo excesso de atividades, para
uma avaliação detalhada das evolu- o treino de habilidades específicas. Em
ções empreendidas pela criança, assim uma situação, deparamo-nos com uma
como estimulá-la, em vista de que em mãe que tendo em mãos uma coleção
cada uma delas apresenta-se o mundo de livros, colocava à frente da criança
56 internamente por ela construído, que cada um deles, pedindo para que ela
certamente influirá em seu desenvol- fizesse a leitura do título da história.
vimento futuro. Há que se zelar para Era visível o esforço da criança para
conservar na criança o seu potencial corresponder às expectativas da mãe
criador e contribuir para diminuir os e do público presente que a aplaudia
efeitos de uma sociedade que preza orgulhosamente. Muitas vezes, os pais
o trabalho em excesso e não permite chegam até mesmo a fazer projeções
ao adulto espaço para apreciar e re- em seus filhos de profissões nas quais
construir o seu lado artístico. Devem- não conseguiram se sobressair. Absur-
-se buscar meios para não fazer jus à do? Não, triste realidade.
afirmativa “a arte é separada da vida
e não mais manifestação da vida”, em Outro desafio importante consti-
contraposição ao consumismo da ma- tui o rompimento com a cultura que
nifestação alheia (Moreira, 1984). prioriza a massificação, o consumismo,
o clone, o jogo de espelhos. Em uma so-
Com frequência, encontram-se ciedade alimentada pela massificação,
relatos de adolescentes e adultos: “eu produção em série e rentabilidade a
não sei desenhar”. Quais são as ori- qualquer custo, pouca atenção se dedi-
gens dessa afirmativa? Não é difícil ca à natureza, o que gera, no dizer de
encontrarmos a resposta quando nos
A autonomia na Porcher (1982), uma verdadeira cri-
escola inclusiva: remetemos às habilidades priorizadas se do meio ambiente. Essa crise não
contribuições da pela sociedade. A procura por pais que é gerida apenas pelo problema da
ludicidade para
o ensino e formação
priorizam “escolas fortes” não requer poluição industrial, mas prioritaria-
do professor uma análise minuciosa de nossa rea- mente pelos valores da sociedade.
Garrutti EA lidade. Nessas escolas, ainda que ma- O surgimento da feiúra em massa
Mattos EA ternais, os conteúdos acadêmicos ocu- torna-se uma característica geral da
vida.
O homem precisa aprender a pen- Pensar não é somente ‘raciocinar’, ou ISSN 1982-8632
sar diferente sobre si próprio, a ver a ‘calcular’ ou ‘argumentar’... mas, é so-
vida e a natureza com outros olhos: bretudo dar sentido ao que somos e ao
olhos humanos. Há que se aprender a que nos acontece (Bondía, 2002).
Revista
ver, sentir, ouvir e saborear os objetos @mbienteeducação
Toda significação de mundo, lei- V. 4, nº 1, jan/jun,
em seu sentido profundo e histórico 2011: 53-9
tura de mundo, considera a indivi-
e não simplesmente “apreciá-los” em
dualidade da pessoa, suas vivências
sua utilização imediata.
acumuladas, das quais se constituem
Como formar educadores com prá- participantes ativos.
ticas pautadas no lúdico e nas múlti-
Essa sensibilização tem como
plas linguagens para o atendimento
ponto de partida o desenvolvimento
da diversidade do alunado? Qual é a
global da personalidade, a descoberta
significação atribuída ao mundo das
de si mesmo, com condições de recriar
coisas, à arte, à natureza? Certamen-
o mundo com base na subjetividade e
te, a visão do homem influirá em suas
não simplesmente um desenvolvimen-
decisões sobre os rumos educacionais.
to mecânico das habilidades prioriza-
Como permitir a formação de uma
das pela sociedade. Um exemplo de tal
consciência comprometida com valores
sensibilização pode ser visualizado no
ambientais, quando se vive em uma
filme: Em Busca da Terra do Nunca.
sociedade massificada, conduzida pe-
las idas e vindas apressadas? É fun-
Ao retratar a vida do dramaturgo
damental possibilitar condições para
James Barrie, o filme permite obser-
que o professor em sua formação possa
var a nítida busca do protagonista por
sentir a si próprio, resgatar suas ex-
uma inspiração para a produção de pe-
periências e, então, redescobrir-se
ças teatrais imbuídas de significado e
enquanto humano e tornar-se seguro e
que, além de agradarem plateias, re- 57
autônonomo no momento das escolhas
tratassem também o encontro de seu
e decisões pedagógicas.
“eu” com o mundo. O grande desafio do
dramaturgo é encontrar sua interio-
Nesse processo de redescoberta, é
ridade perdida. “O sujeito só pode ul-
importante compreender o sentido do
trapassar o dualismo da interioridade
termo experiência.
e da exterioridade quando percebe a
Bondía (2002), ao pensar a educação unidade de toda a sua vida” (Benjamin,
a partir do par experiência e sentido, 1985).
define experiência como algo que sig-
nifica, nos acontece, nos alcança, que Esse encontro do dramaturgo
se apodera de nós, que tomba e nos ocorre por meio de vivências com a fa-
transforma. mília de uma viúva e seus quatro fi-
lhos, com um perfil, certas vezes, des-
O autor ressalta a necessidade de toante do que se priorizava em 1903.
se buscar a significação atribuída ao Eram pessoas que se conduziam pela
mundo e resgatar as experiências sig- imaginação e criatividade, transfor-
nificativas que extrapolem os formatos mando a realidade. Abria-se margem
convencionais, ou seja, imaginação se- para a produção de narrativas como
guida de opinião, ausência de tempo e expressão da vida. Essas pessoas,
excesso de trabalho. É colocar-se em mesmo tendo dificuldades advindas A autonomia na
uma passividade que permita à pessoa de diversas ordens, redescobriam e re- escola inclusiva:
contribuições da
estar em estado de escuta, de alerta -construíam o sentido da vida, como no ludicidade para
para o previsível e imprevisível; é en- “explorar da África no jardim de casa”, o ensino e formação
tregar-se com motivação e entusiasmo do professor
“soltar pipas” e nas inúmeras outras
na ação de fazer experiência. aventuras empreendidas. Garrutti EA
Mattos EA
ISSN 1982-8632 Em seu processo de criação, as flexibilidade e criatividade, postura
ações do dramaturgo são criticadas essencial para a atuação com alunos
pela sociedade, expressas por falas do com necessidades especiais. Preconcei-
Revista tipo: Como acreditar em um homem tos devem ser superados, e deve-se re-
@mbienteeducação que brinca o dia todo com crianças? conhecer que alunos com dificuldades
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 53-9
(avó das crianças). Pretende gastar e potencialidades, em meio às experi-
todas as tardes com essas crianças ências lúdicas encontram sentido para
(expressão de indignação)? (esposa do a aprendizagem.
dramaturgo). Essas falas permitem
observar que o brincar, o lúdico, o es- Na educação inclusiva, a respon-
paço para a expressão das múltiplas sabilização pelos obstáculos, anterior-
linguagens e do mundo da imaginação mente atribuída aos alunos, desloca-
pouca relevância têm em um mundo -se para o ambiente escolar que deve
social que prioriza as chamadas “eti- se adequar para receber a diversidade
quetas sociais”. Entretanto, é notório do alunado. As propostas educacionais
que, nessas ações, possibilita-se a des- devem possibilitar o acesso aos conteú-
coberta de si. dos básicos para todas as pessoas.

É na experiência da vida que Ja- Concomitantemente, a adequação


mes redescobre o Cineasta. Contraria- da edificação, mobiliário e uso de re-
-se a falsa ideia de que “os gênios reti- cursos e currículos apropriados às con-
ravam-se para um lugar secreto onde dições de cada aluno, constitui compo-
todas as boas idéias fluíam feito folhas nente essencial para as atitudes dos
no outono” (esposa do dramaturgo). A segmentos diversos da comunidade
expressão da arte é também expressão escolar diante da diversidade de seu
da vida, como algo que acontece, al- alunado. Em vista disso, a vivência
cança e transforma (Bondía, 2002). de experiências lúdicas apresenta-se
58 como condição importante que, além
Há que se promover o encontro do de ser elemento de motivação, permi-
professor consigo, com o outro e com te o conhecimento e fortalecimento dos
o mundo. Somente assim, perceberá valores humanos. Possibilita o geren-
o valor de sua profissão, fundamental ciamento de um ambiente educacional
para o alicerce dos valores humanos. autônomo, receptivo, acolhedor e pro-
Moraes (2007) destaca: “a imaginação dutivo.
não pode viver num mundo arrasado”,
é preciso redescobri-la. Para tanto, é fundamental que o
professor vivencie experiências estéti-
Faz-se necessário “ampliar as possi- cas e artísticas.
bilidades da vivência estética e artís-
tica nos cursos de formação. É o poder Para finalizar, destacam-se as pala-
de sonhar, alimentado pelo saber cul- vras de Benjamin (1994): “o ensino
tural – tesouro acumulado ao longo inteligente e sensível depende de en-
do tempo por distintos povos – que saio e erro, de pesquisa, investigação,
nos torna humanos” (Dias, 2003). experimentação na busca de solução
de problemas que geram dúvidas e
Na formação de educadores, deve- incertezas... A inteligência é o ato de
-se possibilitar espaço para que cada inventar e é sempre um ato original.”
A autonomia na profissional esteja aberto à novidade,
escola inclusiva:
contribuições da
ludicidade para
o ensino e formação
do professor
Garrutti EA
Mattos EA
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DE APOIO: UM ESTUDO EM COMUNIDADE
Revista DE PERIFERIA METROPOLITANA
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 60-71

Edna Martins1
edna.martins@unifesp.br

Resumo
Este estudo tem o objetivo de compreender como se configuram as formas de apoios oferecidos
pela rede social às famílias no trabalho de proteção e socialização das crianças de uma comuni-
dade da periferia metropolitana na cidade de São Paulo. Por se tratar de uma pesquisa qualita-
tiva, foram utilizados para essa coleta de dados, entrevistas reflexivas realizadas nas casas das
famílias participantes do estudo. A análise dos dados nos moldes da grounded-theory indica
que as famílias possuem vínculos com outras pessoas e instituições fora do espaço familiar,
apontando para uma significativa rede social que fornece apoio na tarefa de proteção e socia-
lização de crianças. Concluiu-se que as redes sociais formadas pela vizinhança, igreja e creche
60 parecem desempenhar importantes funções no cotidiano dessas famílias, expostas à privação e
a condições adversas de vida.
PALAVRAS-CHAVE: Famílias • Rede social de apoio • Socialização • Práticas educativas

ABSTRACT
This study aims to understand how to configure forms of support offered by the social network
for families in protection work and socialization of children on the outskirts of a metropolitan
community in São Paulo. Because it is a qualitative research, ware used to collect data reflective
interviews that were conducted in the homes of families participating in the study. Data analy-
sis along the lines of grounded-theory indicates that families with ties to other people and insti-
tutions outside the family, pointing to a social network that provides significant support in the
task of protection and socialization of children. It was concluded that social networks formed
by neighborhood, church and child care appear to play important roles in the daily life of these
families, exposed to harsh conditions and deprivation of life.
KEY WORDS: F
 amilies • Social networking support • Socialization • Educational practices

Família em situação
de risco e rede social
de apoio: um estudo
em comunidade
de periferia
metropolitana
Martins E 1
  Dra. em Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora da Universidade Federal
de São Paulo - Campus Guarulhos.
FAMÍLIA, COMUNIDADE E detectou que além dos termos “apoio ISSN 1982-8632
REDE SOCIAL DE APOIO social”, “rede social” e “suporte social”,
também foram encontrados outros no-
Muitas famílias que vivem atual-
minativos tais como “rede de suporte Revista
mente a realidade das periferias dos
social”, “rede de relações”, “suporte fa- @mbienteeducação
grandes centros metropolitanos e as- V. 4, nº 1, jan/jun,
miliar” e “suporte psicossocial” dentre
sumem a difícil tarefa de educar seus 2011: 60-71
outros, todos conceituados da mesma
filhos para a vida em sociedade, pas-
forma.
sam por inúmeras dificuldades que vão
desde aquelas ligadas às necessidades Jussani et al. (2007, p. 185) apon-
de sobrevivência como moradia, segu- tam que a rede social de apoio pode ser
rança, transporte e saúde, até àquelas vista como “uma espécie de terceiro
ligadas à formação moral e escolariza- campo do parentesco, da amizade, da
ção de suas crianças. Há uma varieda- classe social; um círculo social consti-
de de estudos que apontam as dificul- tuído por traços de afinidade, forman-
dades dessas famílias que vivem em do uma teia que une as pessoas”. Essa
situação de vulnerabilidade, no pro- rede está em constante movimento e
cesso de inserção da criança no mundo modifica-se com o passar do tempo, as-
adulto Martins e Szymanski (2004); sim como mudam as relações sociais,
Martins e Szymanski (2006); Ynes et os grupos e as instituições pelas quais
al. (2007) e das dificuldades pela falta as pessoas transitam em suas vidas
de políticas públicas a elas destinadas cotidianas. As autoras destacam a im-
Cerqueira (2010); Sart (2003); Cardoso portância da rede social de apoio na
e Féres-Carneiro (2008). vida das famílias, principalmente no
enfrentamento de adversidades ou em
Grande maioria dessas famílias
momentos de emergências que ocor-
que vivem em condição de pobreza aca-
rem no cotidiano das famílias. Nesse
ba por ter como suporte para as suas
sentido, pode-se afirmar que, para fa- 61
necessidades uma rede de apoio cons-
mílias que vivem em condições de vul-
tituída pela própria comunidade em
nerabilidade, esses suportes recebidos
que vivem. Essa rede de apoio, tam-
pela rede de apoio social formados por
bém denominada de rede social, pode
essas pessoas da comunidade ou vin-
ser composta pelo grupo de pessoas e
culadas a essas familias são de extre-
instituições nas quais os membros da
ma importância para a manutenção
família transitam e se relacionam.
do equilíbrio familiar no processo do
Essas relações, majoritariamente são
enfrentamento de situações que envol-
percebidas por esses indivíduos com
vem as mudanças no seio da família,
significados afetivos construídos a par-
assim como importante meio na socia-
tir das relações positivas que se esta-
lização de crianças pequenas.
belecem com outros seres humanos. A
rede de apoio tem o poder de fornecer Nas periferias urbanas das gran-
uma gama variada de elementos às des cidades a família tem a dura tarefa
famílias que, sozinhas ou isoladas em de educar suas crianças num contexto
seus núcleos, estariam limitadas na de dificuldades, inseguranças, violên-
tarefa de proteção e educação de suas cia e falta de apoio social oferecido pe-
crianças. las instituições públicas. O que se pode
notar quando se vivencia uma parcela
Uma pesquisa recente de Gonçal-
do cotidiano dessas comunidades é a
ves et al. (2011), realizada a partir de Família em situação
amplitude dessa rede interna que con- de risco e rede social
estudos brasileiros que avaliavam o de apoio: um estudo
segue informalmente oferecer o míni-
apoio social, concluiu que muitos ou- em comunidade
mo de apoio mútuo, principalmente no de periferia
tros termos são utilizados para se re-
que se refere ao cuidado e à educação metropolitana
ferir àquilo que chamamos comumen-
das crianças. Bronfenbrenner, (1996) Martins E
te de rede social de apoio. A pesquisa
ISSN 1982-8632 afirma que a possibilidade das famí- geral, por exemplo, ajuda em traba-
lias apresentarem efetivamente um lhos cotidianos como limpar uma casa,
bom desempenho em seus papéis de preparar uma refeição, como também
Revista educadoras, depende das exigências ajudar financeiramente; 3) apoio de
@mbienteeducação dos papéis, dos estresses vividos por informação: dar conselhos, sugestões
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 60-71
essa família e do apoio que ela recebe ou orientações no caso de resolução de
de outros ambientes fora da família. A conflitos e 4) apoio na interação social
presença de outras pessoas não só da que se relaciona ao fato de poder ter
família, como vizinhos e amigos, a fle- pessoas com quem se pode conversar,
xibilidade dos horários de trabalho dos sair, se divertir e descontrair-se.
familiares, assim como a qualidade dos
serviços sociais de saúde e segurança Assim, são várias as pessoas que
do bairro são de essencial importância podem oferecer quaisquer um desses
para ajudar os pais em suas práticas suportes à família e aos seus mem-
educativas com as crianças. bros, colaborando para a melhoria de
sua qualidade de vida e com a difícil
Muitos estudos recentes são quase tarefa de educar e proteger as crianças
unânimes em destacar a importância que, muitas vezes, podem estar em si-
das redes de apoio e das relações so- tuação de risco vivenciando as adver-
ciais tanto para a saúde física, quanto sidades comuns observadas em comu-
para a saúde mental das pessoas. Es- nidades de periferias urbanas. Dado o
ses trabalhos também realçam essas exposto, este trabalho teve o objetivo
redes sociais como importantes fontes de compreender como se configuram
de proteção e apoio aos grupos, no au- as formas de apoios oferecidos pela
xílio ao enfrentamento de situações co- rede social às famílias no trabalho de
tidianas, como, por exemplo, nos casos proteção e socialização das crianças de
em que membros das famílias passam uma comunidade da periferia metro-
62 por doenças crônicas ou agudas, es- politana na cidade de São Paulo.
tresse, crises ou conflitos, vulnerabili-
dade e risco social (Araújo et al. 2011; METODOLOGIA
Gonçalves et al. 2011; Marcon et al.
2009). 1-A comunidade
Nas comunidades mais pobres lo- A comunidade “Vista da Serra”
calizadas nas regiões periféricas de São é composta de famílias que firmaram
Paulo é visível a presença dessa rede suas residências em mais um dos lote-
social de apoio. É a esse grupo social amentos que engrossam as estatísticas
que a família, na figura de seus mem- do mapa da exclusão social na grande
bros, quer sejam adultos, crianças ou metrópole de São Paulo. Caracteriza-
jovens recorre no primeiro momento da por uma população que constitui a
de qualquer dificuldade ou problema grande periferia da cidade, os morado-
do dia-a-dia. O apoio social recebido res se arranjavam inicialmente como
por essas famílias no âmbito das redes podiam, morando em ruas sem asfalto,
sociais vem ao encontro do que suge- sem rede de água e esgoto, com ilumi-
rem Due et al. (1999) quando afirmam nação elétrica completamente clandes-
que essa rede de suporte social tem tina, com pouca oportunidade de lazer,
direta relação com elementos qualita- educação e trabalho.
Família em situação tivos e comportamentais contidos nas
de risco e rede social relações interpessoais e consistem em Originalmente as casas da vila
de apoio: um estudo
em comunidade quatro tipos: 1) apoio emocional, rela- foram construídas às pressas para
de periferia tivo à afetividade; 2) apoio com recur- abrigar as famílias que já não tinham
metropolitana so instrumental que se configura nos para onde ir. De um modo geral, o lote-
Martins E auxílios de necessidades materiais em amento foi ficando talhado de “barra-
cos” provisoriamente construídos em rodeadas de filhos, indo às casas das ISSN 1982-8632
pequenos espaços, de forma bastante vizinhas ou apressadas para o traba-
rudimentar, com restos de madeira, lho; o jogo dos jovens no campinho de
plástico, retalhos de lajes e pedaços de futebol ou ainda a farra de homens jo- Revista
blocos de tijolos quebrados, conforme gando bilhar ou bebendo nos inúmeros @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
aponta uma das entrevistadas: botequins, que proliferam na comuni- 2011: 60-71
dade, tanto e tão rapidamente quanto
... a gente ouviu falar que aqui esta- as igrejas pentecostais.
vam dando terreno. Os primeiros mo-
radores que vieram a Prefeitura divi- AS FAMÍLIAS PARTICIPANTES
diu. Porque é assim: Sempre aparece
“Ah estão dando terreno!!” Daí aquele As questões relativas ao tema
povo vai e cerca um pedacinho. ...Daí deste trabalho foram tratadas com 2
eu fiquei sabendo que aqui estava famílias que voluntariamente se dis-
vendendo terreno (...) Aí a gente veio, puseram a participar. Os únicos requi-
mas não nos interessamos pelos ter- sitos para a participação eram que fos-
renos, mas tinha esse barraquinho,
sem moradoras da comunidade “Vista
daí a gente comprou. Era um barra-
quinho que no dia em que eu mudei,
da Serra” e que possuíssem filhos com
eu tinha um guarda-roupa que tinha idades entre zero e cinco anos, fre-
maleiro, eu tive que serrar de tão quentando a creche municipal dessa
baixo. A cozinha, o meu marido não comunidade. As famílias assinaram os
cabia em pé. Era assim, bem pequeni- termos de consentimento livre e escla-
ninho. (Vânia, Família Torres). recido e todas as questões éticas foram
respeitadas neste estudo, incluindo-se
Atualmente a maioria das casas a alteração de nomes de pessoas e de
já é de alvenaria, com aparência de lugares, resguardando-se o sigilo das
inacabadas, demonstrando as cons- informações. As famílias entrevista-
tantes reformas e o crescimento dos das foram simbolicamente chamadas 63
espaços de morar que, passo a passo, de Família Jardim e Família Torres.
cada família procura melhorar. Algu-
mas casas ainda lembram bastante os 1- Família Jardim: Na casa
conhecidos barracos das favelas pau- da família vivem oito adultos e cinco
listanas, construídos de retalhos de crianças. A Sra. Alice é uma mulher de
vários materiais e, constituem peque- seus 48 anos, negra que faz tratamen-
nos locais onde muitas famílias mo- to de quimioterapia no combate a um
ram amontoadas. câncer de mama. Depois que ficou vi-
úva (o marido foi assassinado) casou-
...Daí a gente ficou no barraco, modifi- -se novamente com Sr. Carlos. Sua
cou o barraco, cresceu mais, porque a filha Léia (25 anos) é a mãe das duas
minha família era eu, o meu marido,
crianças pequenas da creche (Miguel e
cunhado, sobrinho, irmão meu. Tinha
15 pessoas morando aqui dentro nes-
Gabriela) e está grávida de seis meses
se barraquinho... A gente arrumou o do pai das crianças que se encontra
barraco, aí depois a gente comprou preso. A casa construída na vila fora
material e construiu. (Vânia, Família uma ajuda da pessoa a quem a Sra.
Torres) Alice prestou serviços domésticos pelo
menos uns 3 anos. Léia estudou até a
A fisionomia da vila teve uma mu- oitava série e a mãe, até a quarta série
dança nos últimos anos. O aumento do ensino fundamental.
de casas de alvenaria e a instalação Família em situação
de risco e rede social
de água, rede de esgoto e eletricidade 2 - Família Torres: Na casa da de apoio: um estudo
fizeram com que esse loteamento co- família vivem Vânia e seus quatro fi- em comunidade
meçasse a ter uma aparência real de lhos, Mirian de 15 anos, Kleber de 12, de periferia
metropolitana
uma comunidade com muitas crianças Kathia de 7 e Helen de 4 anos, que fica
Martins E
pela rua, mulheres indo às compras, na creche. O marido de Vânia foi as-
ISSN 1982-8632 sassinado há 4 anos muito próximo da O CONTEXTO DA COMUNIDADE:
casa. Vânia parou no começo do ensino VIOLÊNCIA E VULNERABILIDADE
fundamental, e hoje trabalha na comu-
A violência é algo bastante pre-
Revista nidade em serviços gerais e também
sente nas vidas das famílias da comu-
@mbienteeducação na cozinha. A rua em que fica a casa
V. 4, nº 1, jan/jun, nidade, onde assassinatos são frequen-
da família, parece mais um atalho ou
2011: 60-71 tes e a segurança pública não inspira
uma trilha por dentro de um mato bai-
confiança. A Família Jardim tem cons-
xo, numa descida bem acentuada, com
ciência do perigo que a cerca e relata
vários buracos provocados pela erosão.
que as crianças são testemunhas ocu-
Pela trilha podem-se se ver alguns
lares de crimes cometidos por alguns
barracos e casas simples enfileirados
dos moradores e muitas vezes acabam
até o final, onde mora a família.
desenvolvendo alguns medos por conta
da ameaça constante que as rodeiam.
INSTRUMENTOS
As famílias participaram de uma ... porque aqui a gente não sabe a
entrevista inicial que trouxe dados so- hora que vai acontecer alguma coi-
bre os meios utilizados para a educa- sa (...) Que nem da outra vez que a
ção de seus filhos pequenos no relacio- minha mãe estava saindo com eles
para ir para fora, no que minha mãe
namento em casa, práticas educativas
estava ali, eu já senti um movimento
e rede social de apoio. Num segundo errado ali, aí eu corri aqui no portão
momento, as famílias passaram por e falei: mãe entra que vai acontecer
uma “entrevista reflexiva” Yunes e alguma coisa! Quando minha mãe pi-
Szymanski (2005), que explicitou me- sou no portão com eles, começou um
lhor as suas falas anteriores, trazendo tiroteio ali. Dali estava vindo para cá
algumas mudanças em suas colocações o tiroteio e minha mãe estava indo
iniciais. Esse momento serviu também para lá. (Léia, Família Jardim)
64 como uma devolutiva sobre os dados
coletados e pré-examinados A violência vivida pelas famílias
aparece claramente nos relatos dos
Análise dos dados: a grounded entrevistados. O mais aterrador é o
theory contato que as crianças têm com cenas
violentas nesse contexto. As falas das
Buscando uma opção capaz de famílias demonstram a dificuldade
fornecer maior abrangência de olha- de realizar a socialização de crianças
res sobre o fenômeno social, optou-se num local com tantas adversidades e
pela utilização da grounded theory riscos:
ou teoria fundamentada nos dados,
proposta por Glaser e Strauss (1967), Já matou o homem ali na esquina (...)
Strauss, (1990) e descrita por Yunes Matou aqui na esquina. Quer dizer
que as crianças veem isso. Vê mesmo
e Szymanski (2005). Este método de
ao vivo. (Alice, Família Jardim)
análise de dados é definido como um
método indutivo o qual por meio de um Segundo relatos das famílias, as
olhar qualitativo, trata-se de uma te- crianças desenvolvem medos, afeta-
oria que se deriva a partir dos dados das pelo sentimento de insegurança e
obtidos pelo estudo de um fenômeno. pelos episódios vividos no cotidiano da
Sendo assim, não existe uma teoria a comunidade.
priori na qual o investigador se baseie
Família em situação única e exclusivamente para a análise
de risco e rede social ... Daí eu levei eles lá em cima para
de apoio: um estudo dos dados coletados. É por intermédio pegar bolo e doce. Aí a gente estava
em comunidade da coleta sistemática de dados e de sua tudo lá em cima começou um tiroteio.
de periferia
análise que a teoria é descoberta e de- Depois daquele dia, o Miguel mesmo,
metropolitana
senvolvida. ele não pode ouvir barulho de balão,
Martins E rojão que ele corre para dentro de
casa e fica perto de mim assim, e mor- procura educar os filhos, apontados ISSN 1982-8632
re de medo. (Léia, Família Jardim) por Bronfenbrenner (1996), possuem
influência direta no comportamento e
Para a Família Jardim, o melhor no desenvolvimento das crianças. O Revista
meio para se livrar de confusões e se impacto que os ambientes da comuni- @mbienteeducação
manter longe do perigo é se fechar em dade e suas interligações têm no de-
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 60-71
suas casas. A vida das crianças dessa senvolvimento das crianças, sem dúvi-
família, segundo relatos, se resume ba- da, é substancial. Instituições como a
sicamente em ir para a creche e depois creche, a igreja ou a escola também são
para dentro de casa. Podem apenas importantes agentes nesse contexto
brincar em um pequeno quintal, mas de desenvolvimento. Garmezy (1991),
irem até a rua, na qual quase nunca em estudos com crianças em situação
passam carros, é quase impossível, a de pobreza, observou que alguns dos
não ser que algum adulto esteja junto. atributos positivos observados nessas
crianças eram instalados pela famí-
É melhor deixar eles aqui trancado.
lia, alguns pela escola e ainda outros
Eles ficam trancados o tempo inteiro.
Eles vão para a creche, chegou, de-
por instituições como a igreja. Segun-
pois entrou o portão é trancado, é só do o autor, os fatores de proteção for-
aqui dentro de casa. Quando nós saí- necidos por essas instituições podem
mos com eles para fora eles saem jun- favorecer o desenvolvimento da auto
to com a gente, ou comigo ou com ela, estima e evitar efeitos que contribuem
ou essa daqui quando está em casa, para tendência antissocial e que com-
mas é só com nós, com os outros não. prometem a vida de jovens que vivem
(Alice, Família Jardim) em ambientes marcados pela privação.
Vivendo nesse contexto com tan- As duas famílias entrevistadas
tos fatores de vulnerabilidade e risco, buscam ajuda de outras instituições,
as crianças acabam por pagar um pre- na ampliação do seu trabalho de edu- 65
ço muito alto: são privadas do convívio cadora e socializadora. Suas crianças
com outras crianças da comunidade e vão para a creche ou escola e, como he-
a rede social que poderia ser ampliada rança dos patriarcas da família, todos
por essas relações, é, na maioria das vão à igreja ou, pelo menos, encami-
vezes, resumida pelas interações ocor- nham os filhos pequenos na doutrina
ridas na creche ou na escola.Quando na qual foram criados.
as crianças saem, devem ser sempre
acompanhadas dos mais velhos. Como importante fonte de apoio
no trabalho diário de proteção e so-
O Fábio, de dez anos, é o que mais cialização de suas crianças, as mães
a gente não deixa sair. Porque aqui
entrevistadas apontam a igreja que
tem muita coisa errada e se deixar já
vai criando naquela coisa de ir apren-
frequentam e onde as crianças apren-
dendo o que não presta. Então, nós dem alguns princípios morais. Quan-
não deixamos mesmo. Ele chora que- do encaminham os filhos à igreja, as
rendo. Agora mesmo ele desceu, mas famílias buscam respaldo no que diz
foi com o meu grandão que acho que respeito à educação moral das crian-
foi jogar bola ali e ele foi junto, mas ças, assim como na busca de melhores
eu fico em cima. Eu (risos), eu com os companhias. Apesar de não ser um
meus netos eu gosto que fiquem junto membro assíduo da igreja, Léia, mes-
comigo. (Alice, Família Jardim) mo quando não pode estar lá, manda Família em situação
os filhos juntamente com sua mãe e de risco e rede social
AS CONFIGURAÇÕES DA REDE SO- irmãos para que esses possam seguir de apoio: um estudo
CIAL DE APOIO NA SOCIALIZAÇÃO por um caminho que acredita seja cor-
em comunidade
de periferia
DAS CRIANÇAS reto. metropolitana

Os ambientes, nos quais a família Martins E


As outras instituições que se desta-
ISSN 1982-8632 cam nas falas da família são a creche só que eles lá e nós aqui. Se precisou
e a escola, que poderão dar aos seus de nós aqui, a gente podendo serve,
filhos uma educação sistemática e sabe? ... A Vera que é minha vizinha,
fornecer a eles a possibilidade de um que não tem como andar, quando nós
Revista
@mbienteeducação futuro seguro, diferente da história chegamos aqui ela era bêbada, bêba-
V. 4, nº 1, jan/jun, de vida dos adultos da família, que da, bêbada. Nós lutamos até tirar a
2011: 60-71 pouco estudaram. Sendo obrigada a bebida dela. Hoje ela é uma senhora
trabalhar de empregada doméstica, que precisa de ver, ali a Vera. Ela as-
Léia se lembra dos conselhos da mãe sim, não bebe mais, é uma senhora
para que não abandonasse os estu- saudável... A gente ajuda assim, mas
dos, por isso, hoje, quer que seus fi- nós estarmos enfiado na casa deles e
lhos frequentem a escola e em suas eles enfiado na minha casa, eu acho
práticas educativas tenta passar que não é necessário. (Alice, Família
para as crianças a importância de se Jardim)
ter um bom nível de escolaridade.
Contudo, a proximidade das ca-
Outras fontes de apoio também sas, no caso da comunidade pesqui-
aparecem nesses relatos das famílias, sada, oferece a possibilidade de um
organizando uma malha de relações contato ainda maior com a vizinhan-
na qual todos estão inseridos. Essas ça. As crianças acabam se envolvendo
fontes de apoio psicológico, financeiro com outros pares que moram perto e
ou instrumental podem ser claramen- as famílias podem obter ajuda de seus
te observadas quando, por exemplo, vizinhos numa hora de urgência ou em
uma família tem a oportunidade de trivialidades do seu cotidiano. Esses
ouvir de um vizinho algumas dicas de vizinhos acabam se tornando pessoas
como criar seus filhos ou mesmo quan- muito importantes para algumas fa-
do pode dispor da ajuda de uma amiga mílias, desenvolvendo relações de afe-
para ficar com as crianças quando es- to e cuidado entre seus membros, como
66 tão doentes. afirma Vânia.

1- A REDE DE APOIO FORMADA ...porque a Carla é uma pessoa que


PELA VIZINHANÇA me deu muita força, é uma pessoa
que eu posso contar com ela para toda
Pelo próprio perigo que o bairro hora: é de noite, é de dia, qualquer
representa, as famílias relatam que coisa que eu precisar ela está sempre
não se pode confiar em qualquer pes- aí. Ela e o marido dela são... É assim,
soa da comunidade, por isso a Famí- eu tenho os meus irmãos, mas o amor
lia Jardim parece se relacionar muito que eu tenho pelos irmãos, eu acho
pouco com os seus vizinhos. Procura que o que eu tenho pela Carla chega
a ultrapassar... Então eu falo: “Pode
“se dar bem” com todos, talvez com
acontecer o que quiser, eu não quero
o único intuito de não criar confu- perder a amizade da Carla e do Zeca
são com ninguém, fugindo, assim, de não. (Vânia, Família Torres)
qualquer perigo que um conflito pode
representar. As crianças da Família Estudos de Oliveira e Bastos
Jardim convivem basicamente com os (2000) apontam que a família de ca-
seus companheiros de creche e com ir- mada popular utiliza intensamente
mãos e primos que moram na mesma toda a rede informal de apoio social
casa, raramente tem um contato social disponível perante as várias dificulda-
com vizinhos próximos ou distantes. des que encontram em seu cotidiano,
Família em situação Entretanto, apontam em suas falas dentre elas o cuidado com os proble-
de risco e rede social
de apoio: um estudo que são solidários com os vizinhos, de- mas de saúde dos filhos. Essa rede for-
em comunidade monstrando a presença de a uma rede mada pelos parentes, amigos ou vizi-
de periferia social de apoio.
metropolitana nhos é a mais utilizada em situações
específicas em que a família não con-
Martins E A gente se dá com todo mundo, mas
segue encontrar saídas para solucio-
nar um problema. Num desses casos, o fogão da outra família quando acaba ISSN 1982-8632
a Família Jardim aponta o que ocorreu o gás e, ainda, alguns amigos fazerem
quando precisou de ajuda para cuidar reuniões em finais de semana para
dos outros filhos, quando teve um pro- “bater uma laje” (construir o telhado Revista
blema de saúde na família. da casa à base de concreto). Dessa ma- @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
neira essa rede de solidariedade pode 2011: 60-71
... a Helen que precisou fazer uma diminuir as dificuldades experimen-
cirurgia e ficou 8 dias internada. Se tadas pelas famílias, suprindo neces-
não fosse a minha vizinha... Nesse sidades básicas, construindo relações
tempo eu chorei tanto lá no hospital...
afetivas e sociais numa nova forma de
Porque se não fosse a Carla, minha
colega, meus filhos tinham ficado so- significar o mundo.
zinhos.(Vânia, Família Torres)
2- A REDE DE APOIO CONSTITUÍDA
Outra importante fonte de apoio PELA IGREJA
dos vizinhos está configurada nos mu- As famílias entrevistadas, assim
tirões para a reforma ou a constru- como muitas outras da comunidade
ção de casas na comunidade. O apoio “Vista da Serra”, buscam força para a
técnico-instrumental vindo das mãos luta diária na religião da qual fazem
de homens e mulheres da vizinhança parte. Evangélicos como eles mesmos
é primordial para que a comunidade se denominam, essas pessoas tentam
consiga prover a segurança de um teto manter os filhos longe dos conflitos e
para viver com sua família. A fala de ameaças urbanas, como a droga e o
Vânia expressa esse suporte que ela crime, por exemplo, encaminhando-os
encontra na vizinhança. logo cedo à igreja. É com o grupo de
pessoas que acredita nas mesmas coi-
...e o marido dela também, que gra-
ças à Deus fez uma coisa pra mim que sas e através de uma doutrina rígida
não tem preço... meu marido se fosse para educar os filhos, que as crianças 67
vivo não sei se teria feito. No caso, dessas famílias começam a ser socia-
meu marido deixou essas paredes, lizadas no mundo exterior ao da fa-
só em ponto de laje. Daí o Zeca falou mília. Às vezes, alguns membros das
assim: “Se você comprar o material, famílias não são verdadeiramente da
eu bato a laje para você”... Ele traba- igreja evangélica, mas tendo sido cria-
lhava das sete da manhã até as sete dos junto aos preceitos e ensinamentos
da noite e não me cobrou um centavo. presentes nessa religião, querem que
E quando eu falo assim: “Zeca, eu te-
os filhos sejam educados do mesmo
nho fé em Deus que um dia eu te dou
um agrado”. Porque pagamento, eu modo que eles. A ajuda das pessoas da
jamais vou pagar isso que ele fez por igreja também representa importante
mim e pelos meus filhos... Daí ele me fator no desenvolvimento emocional
fala: “Não. Você não me deve nada”. das duas famílias que enfrentaram
Então quer dizer que é uma coisa que perdas familiares violentas e doloro-
só Deus pode pagar para eles. (Vânia, sas.
Família Torres)
... eles vieram muito sabe? Fizeram
Nas comunidades das grandes pe- muita oração por mim. Até hoje, tem
riferias urbanas, as relações com a vi- hora que eu penso assim; “Ah, meu
zinhança persistem de forma intensa e Deus, será que vale a pena todo esse
duradoura e é muito diferente do que sofrimento... Lutar...” Ah, mas vale
ocorre em bairros de classes sociais porque eu tenho os meus filhos. Eu Família em situação
te digo uma coisa: se eu não tivesse de risco e rede social
mais abastadas. Quem já teve a opor-
ido procurar a igreja eu não sei o que de apoio: um estudo
tunidade de observar os modos de vida seria de mim. Eu acho que eu deve- em comunidade
dessas populações descobre que é co- ria beber, eu deveria fumar, porque
de periferia
metropolitana
mum uma vizinha pedir uma xícara de a primeira coisa que eu tinha na mi-
Martins E
açúcar ou farinha emprestada, ou usar nha cabeça era encontrar quem tinha
ISSN 1982-8632 feito aquilo. Eu queria vingança, mas rede social de apoio às famílias, esses
graças a Deus que Deus não deixou empregadores são importantes aliados
eu fazer isso, porque senão eu estava dessas mães que são chefes de família
perdida. (Vânia, Família Torres) e tentam buscar o melhor para educar
Revista
@mbienteeducação os seus filhos.
V. 4, nº 1, jan/jun, Já a Família Jardim tem lem-
2011: 60-71 branças do patriarca que era pastor da ...ele tem dentista, porque ele está
igreja onde eles cresceram. Ele mor- usando aparelho... que isso, graças a
reu assassinado quando estava saindo Deus, foi uma ex-patroa minha, que
com a filha para a igreja. Hoje, seus fi- eu trabalhei com ela e eles são mui-
lhos ainda vão à igreja e participam de to bons. Até hoje, eu saí de lá, mas
alguns cultos. Como aponta a senhora eles falam: “Ó Vânia, a hora que você
Alice, alguns dos filhos casados não são precisar da gente, você pode procurar
a gente”. Aí o ex-marido dela é pro-
verdadeiramente da igreja evangélica,
fessor dos dentistas lá do sindicato
mas foram criados junto aos preceitos
odontológico, então ele arrumou. A
e ensinamentos presentes nessa reli- Mirian usou, agora o Kleber foi, ligou
gião, e querem que seus filhos sejam lá, arrumou também . (Vânia, Famí-
educados do mesmo modo que eles. lia Torres)

A minha Marta até hoje tem trauma. A casa em que a Família Jardim
Porque ele morreu com ela no colo. mora atualmente é fruto de ajuda da
Porque ela não largava dele e ele ia
pessoa para quem a Sra. Alice prestou
para a igreja, porque ele dirigia uma
igreja. E ele ia para a igreja e ela ia
serviços durante anos. A partir dos re-
com ele, não ficava comigo. E ele es- latos das empregadas, seus patrões se
tava com ela no colo. Eu arrumava solidarizam e acabam auxiliando com
ela antes para ela ir com ele. Ele ia dinheiro, roupa, alimentos e outros
saindo para igreja. Quando ele saiu elementos na subsistência das famí-
68 assim... Era pastor da Assembleia lias.
mesmo”.(...) Eu nasci no berço do
evangelho. Depois dei uma desviada, (....) Era difícil para a minha mãe
mas depois voltei. As crianças foram criar a gente. Minha mãe pagava alu-
todas criadas no evangelho. (Alice, guel. A gente não tinha estudo direi-
Família Jardim) to. A gente não tinha roupa direito,
aí só quando ela começou a trabalhar
Mesmo quando eu não ia para a igre- nessa casa que a patroa dela começou
ja. Porque eu não ia, aí eles iam com a ajudar e que ajudava bastante, por-
a minha mãe... Daí minha mãe leva que ela que dava o material, porque
todos. Vão todos para igreja. (Léia, se fosse pela minha mãe, ela não ia
Família Jardim) ter condições.... (Léia, Família Jar-
dim)
3-A REDE DE APOIO FORMADA PE-
LOS EMPREGADORES O apoio informal recebido dos
empregadores é essencial para o de-
A maioria das mulheres que tra- senvolvimento das crianças no que
balha de empregada doméstica em ca- se refere às informações que as mães
sas de família acaba criando com essas podem receber dessa fonte ou ainda
pessoas um forte vínculo, fazendo com meios materiais importantes para a
que seus empregadores se solidari- sua sobrevivência. Bronfenbrenner
zem com seus problemas acabando por (1996) afirma que esse tipo de apoio
Família em situação ajudá-las em dificuldades do dia-a-dia pode influenciar o desenvolvimento
de risco e rede social
de apoio: um estudo
ou conseguindo recursos médicos, psi- das crianças, mesmo quando vem de
em comunidade cológicos ou odontológicos para suas lugares e pessoas com as quais elas
de periferia crianças. O apoio financeiro também não convivem diretamente. No local
metropolitana
vem em forma de cestas de alimentos, de trabalho das mães podem ocorrer
Martins E
roupas e brinquedos. Fazendo parte da eventos que a afetem profundamente,
mesmo quando essas situações de su- primordial no acompanhamento das ISSN 1982-8632
porte não aconteçam de modo visível. crianças em seu processo de desenvol-
Relacionados a essa questão estão, por vimento. Preocupam-se com a segu-
exemplo, os conselhos, orientações e rança, com as questões psicológicas, Revista
encaminhamentos recebidos dos em- com a educação e o desenvolvimento @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
pregadores pelas famílias em seus lo- de valores morais. A efetiva rede de 2011: 60-71
cais de trabalho. apoio social que envolve essas famílias
é desenvolvida a partir das relações
CONSIDERAÇÕES FINAIS que as mães e mulheres estabelecem
com o resto da comunidade ou fora
Historicamente no Brasil, com a
dela. Essa rede acaba por ser um dos
urbanização e a industrialização ocor-
grandes aliados dessa família quando
ridas ao longo do tempo, principal-
a mesma carece de serviços de saúde
mente das grandes metrópoles, a vida
e de educação. De modo informal, pes-
das famílias que vivem em periferias
soas que fazem parte desse círculo de
vem sendo profundamente afetada por
suporte social são capazes de ouvir e
múltiplos fatores. O processo migra-
ser ouvidas, partilhar conhecimentos
tório de famílias inteiras das regiões
sobre a educação de seus filhos e acon-
norte e nordeste em busca de traba-
selhar-se mutuamente.
lho e de melhores condições de vida foi
afastando as pessoas para as comu-
De um modo geral, as famílias fa-
nidades periféricas onde as condições
zem uso de toda a rede de apoio que
de sobrevivência são adversas e, em
possuem em diversos momentos da
muitos casos, insalubres. Segundo Oli-
vida cotidiana. Quando os recursos que
veira e Bastos (2000), nas famílias que
possuem para proteger e educar suas
vivem em estado de pobreza , com bai-
crianças ou mesmo quando passam
xa renda, o impacto desses processos
por estados de privação e desamparo
pode ser maximizado diante da inexis- 69
físico, social, emocional ou financeiro,
tência ou precariedade dos serviços de
elas são auxiliadas informalmente e
atendimento, como também pela falta
sistematicamente até que tudo esteja
de políticas publicas destinadas a essa
resolvido. Essas ajudas ou contribui-
população. Desse modo, as relações
ções oferecidas pela rede social não
afetivas parecem constituir para mui-
são cobradas ou não se espera nada
tas famílias uma das únicas bases de
como contrapartida, como no caso de
apoio, no compartilhamento de proble-
mutirões para construção de uma casa
mas, conflitos ou dificuldades enfren-
ou para a reforma e ampliação de uma
tadas no dia-a-dia.
laje, apontados por uma das famílias
entrevistadas.
Embora as famílias pesquisadas
vivam em condições de vulnerabilida-
Enfim, pode-se afirmar que o su-
de, os dados desta investigação mos-
porte ou apoio social oferecido por es-
traram que existe na comunidade uma
sas redes humanas de proteção e soli-
rede social de apoio que se configura
dariedade não podem ser medidos pelo
de variadas formas. Além da ajuda
que se tem ou pelo que se oferece, mas
esporádica da família extensa, outras
pela forma como o indivíduo percebe
pessoas da vizinhança e outras insti-
cada uma dessas ajudas. As famílias
tuições como a creche, a escola e a igre-
da comunidade pesquisada revelaram
ja podem ser úteis no fornecimento de
em seus relatos um intenso respei-
suporte a essas famílias, sobretudo no Família em situação
to por todas as pessoas e instituições de risco e rede social
cuidado e educação das crianças e jo- de apoio: um estudo
com as quais interagem, além de dar
vens. em comunidade
um significado de pertencimento ao de periferia
grupo a essa rede de apoio com a qual metropolitana
Este trabalho também concluiu
convivem, significado este que vem ao Martins E
que as mulheres e mães ocupam papel
ISSN 1982-8632 encontro do que afirmam Andrade e comunidade oferece suporte para me-
Vaitsman (2002), ao apontar em que, lhorar a autoestima e contribui para a
quando as pessoas ou famílias podem qualidade de vida. Desse modo, o apoio
Revista compartilhar seus valores, descobrem social compartilhado pelas redes de re-
@mbienteeducação consequentemente que têm necessi- lações e a força promotora de suporte
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 60-71
dades e objetivos em comum e que ao emocional e social para essas famílias
partilharem esses valores são capazes constituem importante fator para o
de fomentar uma intensa força de in- enfrentamento de adversidades e pri-
tegração e coesão de um grupo. Para vação das quais as famílias da comuni-
as autoras, esse sentimento de grupo dade investigada compartilham.
presente nas pessoas que comparti-
lham espaços e sentimentos na mesma

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97-107, jan-jun 2000.
Recebido para publicação em 20.11.2010
Aceito em 18.12.2010. 71

Família em situação
de risco e rede social
de apoio: um estudo
em comunidade
de periferia
metropolitana
Martins E
ISSN 1982-8632 PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE NA ESCOLA:
TRANSFORMAÇÕES SIGNIFICATIVAS E EXITOSAS
Revista
@mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 72-81

Profª Ms. Catia Ferdinando Costa1


cfcost@uol.com.br

Profª Dra. Edileine Vieira Machado2


edsilva@edu.unicid.br

Resumo
Este artigo tem por objetivo apresentar a importante relação entre a comunidade escolar e
local e a autonomia necessária à escola pública, e como essa relação pode propiciar melhores
oportunidades para o fortalecimento e equilíbrio da sociedade civil. A comunidade escolar e
local aqui compreendida é descrita como sendo os pais de educandos ou responsáveis legais,
moradores do entorno da unidade escolar, educandos e profissionais de educação da própria
unidade escolar.
PALAVRAS-CHAVE: Políticas públicas de educação • Autonomia • Participação • Comunidade •
72 Inclusão escolar

Summary
This article aims to present the important relationship between the school and local community
and the necessary autonomy to public school, and how this relationship can provide better op-
portunities for strengthening and balance of civil society. The school community and site here
comprised is described as being learner’s parents or legal guardians, residents surrounding the
school unit, students and education professionals school unit itself.
KEY WORDS: P
 ublic policy education • Autonomy • Participation • Community • School inclu-
sion.

Participação
da comunidade
na escola:
transformações
significativas e 1
  Mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo – Unicid. Professora da rede estadual de ensino de São
exitosas Paulo. Professora da Unianhanguera - São Paulo-SP. Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Inclusão Social.
Membro do Instituto Sagres – conhecimento e desenvolvimento.
Costa CF 2
  Doutora pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP. Professora da Programa de Mestrado em
Machado EV Educação da Universidade Cidade de São Paulo – Unicid. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Inclusão
Social - NEPIS. Membro do Instituto Sagres – conhecimento e desenvolvimento.
O cenário atual da sociedade bra- filho ocupa nesse núcleo: é alvo de cari- ISSN 1982-8632
sileira, e neste caso no Estado de São nho, cuidados, preocupações e projetos
Paulo, apresenta transformações na de vida e faz com que a família tenha
estrutura familiar resultantes das ne- uma nova relação com a escola, que Revista
cessidades e transformações econômi- passa a ter a responsabilidade de es- @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
cas, políticas e culturais que se apre- tender esses cuidados e projetos para 2011: 72-81
sentam. seu espaço, um complemento à famí-
lia. Uma das razões para tal mudança
Muitos pais (ou responsáveis le- é o fato de que o filho, hoje, é um ato de
gais) necessitam trabalhar em período escolha por parte dos pais e não mais
integral para sustentar seus filhos, o uma obrigação social, uma finalidade
que os obrigam a estarem ausentes única do casamento; o amor aos filhos
por muito tempo e mais distantes da surge mais forte e natural porque é
educação familiar. Políticas públicas uma opção (NOGUEIRA, 1998).
procuram atender as necessidades
educacionais das crianças e adolescen- Atualmente, também, os filhos
tes e dentro deste propósito cerceiam não são mais ‘garantias’ para os tem-
o trabalho antes dos 16 anos e ofere- pos de velhice ou meio de sustento e
cem cursos técnicos, estágios e outras ganho, por meio do trabalho precoce.
oportunidades, extra-escola, para os Isso teve fim por meio de políticas pú-
educandos. Mudanças e novas propos- blicas que proíbem o trabalho infantil
tas socioculturais e religiosas influen- e/ou precoce do adolescente. Os pais,
ciam no convívio familiar e requerem agora, podem ver em seus filhos o ob-
novas orientações por parte da família jeto de afeto, preocupação e razão de
e da escola, dentre elas o respeito às viver, uma fonte de orgulho e prazer.
diferenças e a necessária participação
e proximidade da família do educando Diante desse quadro, surgem a
no contexto escolar. preocupação e a mobilização da famí- 73
lia para inserir os filhos na sociedade.
A família contemporânea, embora Essa inserção se dá por meio da escola,
tenha de superar muitos obstáculos, porque as colocações profissionais e so-
prioriza o cuidado com as crianças, que ciais estão estreitamente relacionadas
são alvo constante da preocupação dos à formação escolar, ao conhecimento
pais, resultado mesmo das transfor- adquirido formalmente e à certificação
mações sociais atuais. Há uma maior legal desse processo, o diploma.
atenção para o aspecto afetivo e edu-
cacional. Este trabalho não pretende A escola, hoje, tornou-se um meio
discutir as situações críticas vividas de legitimação social e individual; o fi-
por muitas famílias, por conta de de- lho é medido em relação ao seu esforço
sestruturação familiar, econômica ou e resultados escolares, mesmo que a
mesmo moral. Não que o tema não seja escola não se foque apenas nesses que-
relevante, no entanto, a proposta des- sitos. Tudo que diz respeito à escola e à
te trabalho é apresentar a importante vida escolar do filho passa a ter maior
relação entre a comunidade escolar e atenção dentro das famílias, eviden-
local e a autonomia necessária à escola temente que com algumas variações
pública, e como esta relação pode pro- de acordo com o meio social e situação
piciar melhores oportunidades para o particular de cada uma (NOGUEIRA,
Participação
fortalecimento e equilíbrio da socieda- 1998). da comunidade
de civil. na escola:
Não só as famílias mudaram. A es- transformações
significativas e
Nos dias atuais, essa transforma- colarização também mudou. O sistema exitosas
ção das prioridades familiares pode de ensino passou por transformações Costa CF
ser percebida por meio do lugar que o que visam atender as demandas so- Machado EV
ISSN 1982-8632 ciais e isso se deu por meio de políticas vir (em certa medida) e participar nas
educacionais como a democratização decisões e funcionamento da escola.
do acesso, a extensão da escolaridade
Revista obrigatória, mudanças curriculares. As políticas educacionais passa-
@mbienteeducação Com isto o modo de funcionar das uni- ram por grandes transformações ao
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 72-81
dades escolares teve forte influência longo da história da educação bra-
no cotidiano das famílias dos educan- sileira. Atualmente, essas políticas
dos, como já discutido anteriormente. (LDB/1996, Lei de Renda Mínima
para a Educação/2001, PNE/2001, en-
A escola contemporânea abarca tre outros) primam por oferecer uma
necessidades psicológicas, emocionais educação de qualidade e democráti-
e sociais de seus educandos, além do ca, que possibilitem ao educando uma
processo cognitivo, e assim ela se tor- educação global. Tal proposta passa
na uma extensão da família e atua em pelo princípio da inclusão uma vez que
conjunto com esta. Portanto, o ensino esta pressupõe aceitação, respeito às
passa a centrar-se no educando, há diferenças, sentimento de pertencer
uma pedagogia que estimula a au- ao grupo, compreensão e equidade. In-
tonomia do educando no processo de clusão é um conceito abrangente. Sem
aquisição do conhecimento e de apren- um adjetivo que o qualifique (social,
dizagem, e que busca a vivência e a ex- educacional...) torna-se impessoal e
periência pessoal dos educandos, suas neutro. Há diferentes formas de en-
realidades para, a partir delas, cons- tendê-lo. Incluir pode estar relaciona-
truir e apresentar o currículo formal. do à ideia de envolver o que está fora;
Nesse processo é possível perceber o podemos pensar, também, em espaços
envolvimento entre escola e comuni- inclusivos onde há uma transformação
dade, onde ambos os envolvidos con- e adequação de espaços físicos e até
tribuem para o processo ensino-apren- virtuais tanto para pessoas com algu-
74 dizagem de maneira participativa e ma necessidade especial quanto para
democrática. aquelas que queiram se envolver com
determinado grupo, assunto, prática,
Há de se levar em conta que essa entre outros (COSTA, 2008).
ação participativa e democrática não
é total e nem fácil de ser conseguida. A escola inclusiva possibilita que
Muitas questões burocráticas, por par- o sujeito se construa mais facilmente
te do sistema escolar e políticas públi- e que as práticas de cidadania sejam
cas, e questões sociais e culturais por aplicadas naturalmente. Carvalho
parte das famílias dificultam o proces- (2004), além de acreditar na educa-
so de participação e autonomia. No en- ção como um ato pedagógico e político,
tanto, muitas escolas têm aprendido a nos alerta de que um dos traços mais
superar esses obstáculos de modo cria- marcantes nas teorias atuais acerca
tivo, alcançando bons resultados. da educação é a “valorização da pes-
soa do educando como aprendiz e como
Embora a burocracia ainda seja o ser histórico, político e social, isto é,
modelo administrativo da Rede Edu- como cidadão” (CARVALHO, 2004, p.
cacional, o Governo busca atender às 25). Essa ideia vem ao encontro das
demandas sociais pela educação de propostas de participação oferecidas
Participação qualidade e democrática por meio de pelas políticas educacionais. No en-
da comunidade políticas públicas educacionais que tanto, embora a escola caminhe para
na escola: passaram a recomendar e incentivar o
transformações
a universalização do acesso e da quali-
significativas e envolvimento, o diálogo, entendimento dade de ensino oferecido, em algumas
exitosas e parceria entre pais, escola e comuni- unidades escolares ainda falta muito
Costa CF dade em geral. Os pais hoje têm maio- para que se construa uma realidade de
Machado EV res possibilidades de conhecer, inter- autonomia e participação. Educação,
dedicação, esforço e re-humanização O sistema escolar tem por objetivo ISSN 1982-8632
devem ser empreendidos nessas uni- proporcionar educação. Sendo assim, é
dades escolares a fim de modificar a um sistema aberto, uma vez que recebe
realidade em que vivem os educandos. influência externa (comunidade local, Revista
sociedade civil em geral, políticas pú- @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
“A educação tem por missão (...) blicas) e influencia essa mesma socie- 2011: 72-81
levar as pessoas a tomar consciência dade civil por meio do conhecimento.
das semelhanças e da interdependên- Portanto, há uma relação entre o am-
cia entre todos os seres humanos do biente externo e interno, entre a escola
planeta”. Delors (1999, p.97) e isso se e a comunidade. Cabe aqui explicitar
aplica à escola. A escola é a agência o que se entende por sistema escolar,
social onde se dá o processo de ensino- dentro do contexto deste artigo:
-aprendizagem, portanto ela educa (ou
deveria fazê-lo). O referencial educa- Por sistema escolar se entende um
cional é importante porque leva à for- conjunto de escolas que, tomando o
mação de uma mentalidade crítica e indivíduo desde quando, ainda na in-
de comportamento, permite à popula- fância, pode ou precisa distanciar-se
da família, leva-o até que, alcançan-
ção assimilar, refletir sobre o que ocor-
do o fim da adolescência ou a plena
re à sua volta. maturidade, tenha adquirido as con-
dições necessárias para definir-se e
Após várias reformas educacio- colocar-se socialmente, com respon-
nais e movimentos sociais que in- sabilidade econômica, civil e política
fluenciaram essas reformas, a escola (RIBEIRO apud DIAS, 2004, p.127).
procurou transformar-se. Passou-se a
discutir formação de educadores, mo- Todo sistema escolar tem por ob-
delos educacionais a serem seguidos, jetivo contribuir para a sociedade civil
políticas públicas que atendam às ne- por meio da melhoria do nível cultural
cessidades educacionais. Todavia, a da população, da formação e qualifica- 75
burocratização ainda impõe sua pre- ção profissional, do aperfeiçoamento
sença, “a tradição burocrática é um de cada educando enquanto cidadão,
pesado ônus que impede o exercício da portanto tem um objetivo social. O
autonomia e somente esta conduz di- sistema brasileiro tem deficiências,
retamente à cidadania” (MARTELLI, entretanto, as políticas educacionais
2004, p. 289). Para efetivação de po- atuais têm objetivado superar tais de-
líticas educacionais condizentes à re- ficiências, como a falta de visão e pla-
alidade das escolas públicas, faz-se nejamento e o engessamento por conta
necessário que os dirigentes conside- de uma administração burocrática.
rem também os grupos de menor força
e expressão, o que implica vivência e Uma das possibilidades vislum-
respeito da dignidade humana. bradas nas políticas educacionais é o
estímulo à participação dos pais e da
Uma rede pública de escolas (sis- comunidade local no cotidiano esco-
tema escolar) possui planos gerais de lar e em alguns processos decisórios
educação que são elaborados com a da unidade escolar, participação esta
consciência dos diferentes níveis de proporcionada por políticas públicas
atuação de sua administração. Uma como a Lei Complementar nº 201/78
política educacional democrática só o e a Lei Complementar nº 375/84,
Participação
será apenas quando “fixar diretrizes Lei nº4024/61, Lei nº 5692/71, Lei nº da comunidade
gerais, deixando tudo o mais, que é a 9394/96, entre outras. Entendemos po- na escola:
transformações
vida nas escolas, ser decidido por elas líticas públicas como respostas dos go- significativas e
próprias, respeitada a orientação con- vernantes às demandas sociais. Cabe exitosas
tida nas diretrizes” (AZANHA, 2004, ressaltar que, embora as políticas Costa CF
p.120). educacionais existam para auxiliar e Machado EV
ISSN 1982-8632 nortear o sistema escolar, nem sem- A ideia de planejamento educa-
pre a realidade das unidades escolares cional, com vistas à participação e de-
confere com as propostas contidas nes- senvolvimento da escola, se concretiza
Revista sas políticas. Segundo Castro, (2004, no Plano Nacional de Educação. No
@mbienteeducação p.182), “uma das dificuldades da legis- entanto, formular, implementar, esta-
V. 4, nº 1, jan/jun,
2011: 72-81
lação é que esta atua mais fortemente belecer e cumprir prioridades e com-
sobre a estrutura do que sobre o fun- promissos é difícil em nível nacional
cionamento das instituições, embora ou estadual, por conta das diversas re-
sua aspiração final seja este último”. alidades e necessidades existentes nas
Daí a importância da autonomia da unidades escolares.
escola pública para que ela possa se
adequar às políticas e à sua realidade No entanto, para a unidade esco-
e suas necessidades. lar essa possibilidade não é tão difícil,
tendo em vista seu raio de atuação e
Essa autonomia não significa ig- abrangência (bem menor que o do go-
norar as políticas públicas. Estas, en- verno e, portanto, menos burocrático).
quanto leis, requerem obediência às De acordo com Silva et al., (2008, p.27)
normas gerais da Educação Nacional “pensar políticas em grandes blocos é
e a gestão democrática da escola. É um grande equívoco. Faz-se necessário
nesse âmbito que surge espaço para considerar as particularidades, os su-
a autonomia da escola, pois esta ges- jeitos a serem envolvidos [...]”. A polí-
tão democrática subentende partici- tica descentralizadora, através dos sis-
pação dos profissionais de educação temas de ensino (ou sistema escolar),
no cotidiano escolar, desenvolvimento possibilita esse benefício e o acresce de
pedagógico e presença da comunida- autonomia, característica básica para
de escolar e local por meio dos conse- essa política.
lhos e associações, Pode-se confirmar
76 essa ideia a partir da fala de Meneses Para que uma escola seja autôno-
(2007, p.75), “gestão democrática é ma é necessário um processo de cres-
sinônimo de gestão ou administração cimento político, reflexivo, de consci-
participativa, compartilhada, cujas ência de suas responsabilidades e do
decisões são tomadas por maioria ou poder que exerce e, também, uma atu-
consensualmente”. ação ativa e efetiva, não só da escola
como corpo organizacional, mas dos
Os objetivos da escola não se esgo- sujeitos que atuam nele, como o pro-
tam dentro dos seus muros, eles vêm fessor.
de uma realidade mais ampla onde es-
tão incluídas a comunidade e a socie- Muito se discute sobre a autono-
dade civil como um todo. A escola, hoje, mia (ou ausência dela) na escola. En-
pode manter uma relação harmônica e tretanto, percebe-se a necessidade de
produtiva com a comunidade por meio uma autonomia pedagógica para que
de elementos como Grêmio Estudantil, se possa dar o real sentido da escola e
Associações de Pais e Mestres (APMs), da própria autonomia administrativa;
Conselho de Escola, trabalho voluntá- os sujeitos da ação educativa precisam
rio, funcionários que fazem parte da estar livres para agir e contribuir, en-
comunidade local e que muitas vezes tão, para que a escola cumpra o seu
Participação têm seus filhos na escola em questão, papel social de formar sujeitos críti-
da comunidade entre outros. Essa realidade se reflete cos, reflexivos, detentores de certo co-
na escola: nhecimento e conscientes de seu papel
transformações
na fala de Dias (2004, p.282): “Somen-
significativas e te a gestão democrática, que garanta cidadão.
exitosas a participação de todos, tem condições
Costa CF de levar a escola brasileira a encontrar Há, portanto, a necessidade de
Machado EV seu verdadeiro caminho”. existir, em primeiro lugar, um sujeito
autônomo que age nessa escola cons- “Esse esquecimento é fruto de uma ISSN 1982-8632
ciente de suas ações e responsabilida- desumanização da instituição (...) tor-
des. A unidade escolar autônoma pede nando-se (a escola) um ente com exis-
“criar e/ou escolher livremente suas tência própria” (SILVA, 2006, p.70). Revista
normas de conduta” Silva (2006, p.59) @mbienteeducação
V. 4, nº 1, jan/jun,
e autogerir sua organização e funcio- Há muitos equívocos a respeito 2011: 72-81
namento. “Portanto, a escola pública da autonomia na escola (sua aplica-
estatal autônoma será aquela capaz ção, seus objetivos), mas o pior deles
de fixar regras de seu próprio existir é o esquecimento da sua chave da abó-
e agir, levando em conta seus limites boda: o sujeito, o ser humano. “Há ne-
e suas potencialidades” (SILVA, 2006, cessidade de um sujeito real para que
p.14). existam escolas autônomas” (SILVA,
2006, p.71).
Há vários fatores para se defender
uma escola pública autônoma, entre Esse sujeito real é para Silva
eles a relação da diversidade cultural, (2006) o sujeito coletivo. Esse sujeito
o ensino, a possibilidade de criar uma coletivo é formado por um grupo que
identidade escolar entre funcionários, tem objetivos comuns, um sentimento
educadores e educandos, desenvolver de “nós ético” (não sou mais eu, sou o
a capacidade de gerir, de maneira au- grupo); o sujeito coletivo busca supe-
tônoma, democrática, outras institui- rar o individualismo em detrimento do
ções e as próprias vidas envolvidas na grupo. Esse sujeito coletivo cultural e
escola. político visa ao trabalho coletivo para
chegar à autonomia da escola e a um
Há, também, várias propostas processo de ensino-aprendizagem com
para a concretização da autonomia na qualidade e para todos. Mas quando
escola; mas muitas delas se limitam à esse sujeito coletivo se torna corpora-
“declaração de principio” Silva (2006, tivo, visando apenas seu próprio inte- 77
p.66) em vez de se estruturarem para resse, a autonomia escolar corre risco,
enfrentar os problemas que, de fato, sua qualidade corre risco e a inclusão
enfrentarão. escolar corre risco.

Nessas discussões percebe-se uma A autonomia se dá em uma situ-


falha. Fala-se muito sobre a autono- ação concreta, com sujeitos ativos e
mia da escola pública como se a escola envolvidos com a realidade que estão
fosse o sujeito e como se a autonomia vivenciando. Todavia, essa autonomia
fosse uma “coisa” que pode ou não ser não é completa, total, mas parcial, re-
implantada nas escolas dependendo lativa, uma vez que a escola precisa
de vontade política. Porém, o cerne respeitar as políticas educacionais e as
dessa autonomia (que é um processo propostas direcionadas a ela enquan-
político, cultural, social e muito cons- to leis. Ainda assim, essa autonomia
ciente) na escola é o sujeito autônomo, pode acontecer. De acordo com Silva
aquele que dá vida, sentido à escola; (2006, p. 59):
esta é uma instituição humana, por-
tanto deve ser mantida e gerida por A unidade escolar será autônoma
seres humanos e este devem ser con- quanto tiver poder de criar e/ou esco-
siderados e valorizados. “O que cria e lher livremente suas normas de con-
duta. Esse poder de criação e escolha Participação
mantém uma instituição autônoma é da comunidade
exerce-se, evidentemente, também
o sujeito que a institui e garante sua pela capacidade de recusa de normas
na escola:
transformações
existência” (SILVA, 2006, p.69). heterônomas julgadas não-conve- significativas e
nientes. O ser autônomo tem como exitosas
Esqueceu-se o sujeito, e assim a contrapartida o dever de ser respon- Costa CF
autonomia está fadada a fracassar. sável. Machado EV
ISSN 1982-8632 A unidade escolar necessita ser Um autêntico sujeito coletivo procu-
autônoma, definir suas normas de con- ra sempre realizar uma obra; isto é
duta e decidir sobre seus planos peda- conatural à sua existência. [...] Nesse
gógicos a partir de sua realidade. Os sentido, a autonomia da escola públi-
Revista
ca será realizada por sujeitos que sin-
@mbienteeducação educadores precisam ter autonomia
V. 4, nº 1, jan/jun, tam essa necessidade e tenham esse
2011: 72-81
em sua tarefa educativa, poder tra- desejo. A expressão desse anseio será
balhar a partir da realidade e neces- a concretização de unidades escolares
sidade de seu alunado, assim como o autônomas que interagirão responsa-
corpo administrativo estabelecer o velmente com o restante do sistema
plano-gestão a partir da realidade da escolar (SILVA, 2006, p.99).
unidade escolar (o que já ocorre em
muitas escolas e é previsto em lei). A É possível haver harmonia entre
autonomia propicia à unidade escolar as políticas educacionais e a autono-
oportunidade de atuar em conjunto mia da escola pública. Estas políticas
com a comunidade escolar e local, ela devem estar voltadas para a criação e
representa a existência de um ideal manutenção da autonomia da unidade
democrático na educação por parte dos escolar, e devem ser resultado de uma
envolvidos. Daí sua importância, este escolha dos dirigentes do sistema esco-
pressuposto ético do compromisso com lar. “Não basta querer que a unidade
a educação e com a sociedade. torne-se autônoma e nem mesmo au-
torizá-la, mediante decretos, a isso. É
Ainda sobre a importância do su- necessário investir recursos na forma-
jeito na autonomia da escola pública ção de sujeitos coletivos que possam
compreende-se por sujeito, primeiro, assumir o comando dessa autonomia”
o indivíduo enquanto pessoa, ou seja, Silva (2006, p.117); e é isso que a Se-
um ser formado de corpo, alma (men- cretaria da Educação pode fazer.
te) e espírito, que necessita relacionar-
78 -se para viver e progredir; e, depois, o A escola só será autônoma e de-
sujeito enquanto grupo. mocrática quando os sujeitos coletivos
estiverem atuando sobre a realidade e
De acordo com Silva (2006, p.90) o cotidiano escolar. Essa participação
“a pessoa é [...] um sujeito enquanto é discutida e, muitas vezes, alvo de
vive em relação com um grupo e este resistência, tanto por parte da escola,
se torna sujeito na medida em que se quanto por parte da comunidade.
constitui por pessoas”. É o sujeito cole-
tivo: um coletivo de pessoas, com iden- A participação é intrínseca ao ser
tidade própria e memória, que atua humano, um ser relacional. De acordo
em prol do grupo e da sociedade. com Bordenave, (1994, p. 16), “a parti-
cipação não é somente um instrumen-
O sujeito coletivo vive uma ex- to para a solução de problemas, mas,
periência de unidade e solidariedade, sobretudo, uma necessidade funda-
resgata a identidade, a dignidade e a mental ao ser humano, como o são a
capacidade de cada um, possibilitando comida, o sono e a saúde”. É fazer par-
a restauração das relações, a re-huma- te de algo.
nização da escola e o cumprimento dos
objetivos pedagógicos e sociais da es- A participação nos dias atuais é
Participação cola. Com a constituição de sujeitos co- útil, tanto para aqueles, que acreditam
da comunidade letivos na unidade escolar (educandos, nela como para aqueles que preferem o
na escola: educadores, funcionários, pais, entre mando. É evidente que a participação
transformações
significativas e outros) pode-se alcançar um único su- beneficia a todos, tanto aqueles que
exitosas jeito coletivo, transformando a insti- lutam pela “igualdade”, como aqueles
Costa CF tuição em unidade, de fato. que a querem a manutenção de contro-
Machado EV le de muitos por alguns. Com a partici-
pação é possível resolver problemas de [...] estão a favor dela [participação] ISSN 1982-8632
maneira satisfatória para as partes in- tanto os setores progressistas que de-
teressadas tanto no setor público como sejam uma democracia mais autênti-
no privado, pois ao serem fiscalizados, ca, como os setores tradicionalmente
Revista
não muito favoráveis aos avanços das
os serviços apresentam melhor quali- @mbienteeducação
forças populares, a razão, evidente- V. 4, nº 1, jan/jun,
dade (FERRAZ, 2008). E como comple- mente, é que a participação oferece 2011: 72-81
menta Bordenave (1994, p.17). vantagens para ambos. Ela pode se
implantar tanto com objetivos de li-
A participação é inerente à natureza beração e igualdade como para a ma-
social do homem, tendo acompanha- nutenção de uma situação de controle
do sua evolução desde a tribo e o clã de muitos por alguns (BORDENAVE,
dos tempos primitivos, até as asso- 1994, p.12).
ciações, empresas e partidos políticos
de hoje. Neste sentido, a frustração
Deve-se buscar o equilibro entre a
da necessidade de participar consti-
liberdade e a igualdade, por meio da
tui uma mutilação do homem social.
Tudo indica que o homem só desen- participação, Silva (2003), e o ambien-
volverá seu potencial pleno numa so- te escolar é o local adequado para se
ciedade que permita e facilite a par- desenvolver essa premissa. “Participar
ticipação de todos. O futuro ideal do efetivamente da escola, influencian-
homem só se dará numa sociedade do decisivamente em sua organização
participativa. e funcionamento, significa influir no
currículo, no ciclo didático e nas ativi-
A participação traz consigo a res- dades de apoio” (SILVA, 2003, p.24).
ponsabilidade pelos atos realizados. Os educadores, os pais e educandos
Significa “influenciar pessoas ou os podem agir sobre essas questões. Uma
rumos da realidade com a qual está escola autônoma permite a participa-
envolvido” Silva (2003, p.12), ou seja, ção da comunidade escolar e local no
é uma questão de poder sobre deter- desenvolvimento do projeto pedagógi- 79
minada situação e as consequências co, em alguns processos decisórios em
dessa realidade. Essa situação inibe que se decida a vida escolar dos edu-
muitas pessoas a decidirem pela par- candos, em propostas de voluntariado.
ticipação ou não em algo.
O objetivo da participação da co-
Dentro do cotidiano escolar é pos- munidade na unidade escolar deve ser
sível encontrar diversas formas de se contribuir para uma educação global e
utilizar a influência e poder sobre os de qualidade para os educandos e para
grupos: o poder dos mais velhos (expe- mudanças e melhoria de vida da comu-
rientes) sobre os mais novos (educan- nidade e da sociedade, por meio de uti-
dos e/ou educadores), o poder dos mais lização dos recursos públicos de modo
jovens sobre os mais velhos (o grêmio consciente e racional, de projetos pe-
estudantil), o poder dos que têm mais dagógicos que atinjam as necessidades
poder aquisitivo (neste caso a influên- dos educandos e das políticas públicas,
cia dentro dos conselhos deliberativos de melhoria do ambiente escolar e por
ou APMs), entre outros. A participação meio de apoio comunitário.
fica, então, cerceada e pouco autênti-
ca dentro de sua proposta original de No entanto, nem sempre a partici-
busca por uma escola democrática e pação da comunidade é efetiva, e ten-
autônoma. Participação
de ao fracasso. Isso se deve a aspectos da comunidade
culturais, hábitos políticos, inseguran- na escola:
Bordenave (1994) discute essa ça na capacidade em participar, falta transformações
questão da utilização da participação significativas e
de fé na possibilidade de mudanças. exitosas
para o controle de um grupo sobre ou- Tais dificuldades serão superadas ape- Costa CF
tro ou, mesmo, crescimento e liberda- nas quando os sujeitos envolvidos per- Machado EV
de: ceberem significado em suas ações, e
ISSN 1982-8632 isso só é possível por meio da atuação só se tornará realidade quando os in-
do sujeito coletivo. “O trabalho na edu- divíduos aprenderem a participar e,
cação escolar possui uma natureza tal ao lado disso, souberem exigir seus
que, sem a adesão consciente e verda- direitos e cumprir seus deveres. A
Revista
participação há de ser trabalhada e
@mbienteeducação deira dos envolvidos, resulta em apa-
V. 4, nº 1, jan/jun, vivida dentro dos muros escolares
2011: 72-81
rências de mudança” Silva (2000, p.46) para depois ser levada para a comu-
e entenda-se aqui como os envolvidos nidade (MARTELLI, 2004, p.289).
tanto os profissionais de educação,
como educandos e comunidade. A sociedade brasileira contem-
porânea passou e passa por transfor-
Não se pretende com esta discus- mações importantes, que alterarão o
são ignorar a importância dos profis- curso de sua história e determinarão
sionais de educação e sua formação profundas alterações em suas estrutu-
específica necessária para elaborar ras.
e implementar projetos pedagógicos
consistentes e coerentes às necessida- É nesse cenário de movimento
des dos educandos e requeridos pelas e reflexão que a escola tem oportuni-
políticas educacionais. Embora a par- dade de auxiliar a sociedade por meio
ticipação da comunidade seja um fato de uma educação global, cidadã, autô-
positivo, não se devem abandonar as noma e participativa. Ela não é capaz
pesquisas educacionais e o conheci- de realizar essa tarefa isoladamente e
mento científico dentro da realidade nem é seu propósito. A escola requer
escolar, esta também é uma forma de a participação da comunidade e esta
participação. tem, hoje, meios de atender a essa so-
licitação.
A participação da escola e na escola

80

Participação
da comunidade
na escola:
transformações
significativas e
exitosas
Costa CF
Machado EV
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Recebido para publicação em 26.11.2010


Aceito em 14.12.2010 Participação
da comunidade
na escola:
transformações
significativas e
exitosas
Costa CF
Machado EV
NORMAS PARA PUBLICAÇÃO:
NORMAS PARA PUBLICAÇÃO ENVIO DE COLABORAÇÕES 1. Título do trabalho;
As colaborações devem ser enca-
2. Resumo de 5 a 10 (dez) linhas
minhados pelo correio eletrônico
e 3 a 5 palavras chave, forma-
das por expressões de no má-
ambienteeducacao@unicid.br . As
ximo 3 termos ;
colaborações deverão ser encaminha-
das em duas formas: com a identifica-
3. Abstract de 5 a 10 (dez) linhas
ção e a não identificação do autor.
e 3 a 5 keywords com a forma-
tação estabelecida;
O documento identificado a ser
anexado deverá conter:
4. Texto, incluindo introdução,
desenvolvimento: subtítulos,
1. Título do trabalho – deve ser
tabelas e gráficos (se utiliza-
digitado em negrito, alinha-
dos), conclusões, notas, refe-
mento centralizado;
rências.
2. Nome do autor – deve ser di-
Não serão aceitas colaborações
gitado em negrito, alinhado à
que não atendam às normas fixadas.
direita;

3. E-mail do(s) autor (es); ORIENTAÇÕES AOS


COLABORADORES
4. Resumo de 5 a 10 (dez) linhas 1. A Revista @mbienteeducação
e 3 a 5 palavras chave, forma- do Mestrado em Educação da
das por expressões de no má- Universidade Cidade de São
ximo 3 termos; Paulo (UNICID) tem como
objetivo a publicação de ar-
5. Abstract de 5 a 10 (dez) linhas tigos, entrevistas, resenhas
e 3 a 5 keywords com a forma- acadêmico-científicos inéditos,
tação estabelecida; produzidos no âmbito da área
Educação, com a colaboração
6. Nota de Rodapé: nome da ins-
de autores brasileiros e es-
tituição em que foi feito o estu-
trangeiros.
do, título universitário, cargo
do(s) autor(es); 2. Aceita-se a colaboração de ar-
tigos, entrevistas e resenhas.
7. Texto, incluindo introdução,
São admitidas colaborações de
desenvolvimento: subtítulos,
textos em português, inglês,
tabelas e gráficos (se utiliza-
espanhol, francês e italiano.
dos), conclusões, glossário, no-
tas explicativas, referências; 3. O envio espontâneo das cola-
borações implica automatica-
8. Dados pessoais e acadêmicos
mente na sessão dos direitos
do autor ou autores (nome, en-
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dereço, telefone, instituição de
vinculação, mais alta titulação 4. A publicação de artigos não é
acadêmica e e-mail) na ordem remunerada e sua reprodução
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a serem anexados deverão conter: 5. Os artigos, entrevistas, rese-
nhas e demais colaborações em caixa baixa, com o ende-
enviadas serão de responsabi- reço eletrônico em itálico.
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2. As resenhas devem obedecer

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO


res, e não refletirão a opinião
da Revista. ao limite de 10. 000 carac-
teres. O Título do trabalho
ANÁLISE E SELEÇÃO DAS deve estar em negrito, ali-
COLABORAÇÕES nhamento centralizado e o
nome do autor deve estar em
1. As colaborações serão analisa- negrito e alinhado à direita,
das pelo Conselho Editorial, com endereço eletrônico em
que poderá encaminhá-las a itálico.
pareceristas ad hoc. Nesses
casos, não haverá identifica- 3. Os quadros, gráficos mapas e
ção do(s) autor(es). imagens devem ser apresen-
tados em arquivos separados
2. Os autores serão comunicados do texto, indicando-se no cor-
a respeito do recebimento dos po do texto os locais em que
trabalhos e do resultado dos devem ser inseridos. Devem,
pareceres. também, ser numerados e ti-
tulados e apresentar indica-
3. Os artigos poderão sofrer
ção das fontes que lhes cor-
ajustes, por recomendação do
respondem.
Conselho Editorial. Nestes ca-
sos, somente serão publicados 4. As citações até 3 linhas de-
após as incorporações solicita- vem constar no corpo do tex-
das, com a devida concordân- to e vir entre aspas, seguidas
cia dos autores. do sobrenome do autor da
citação, ano e número de pá-
4. O Conselho Editorial se reser-
gina. As citações que ultra-
va o direito de recusar traba-
passam 4 linhas devem vir
lhos que não estejam de acordo
com recuo de 4cm e a letra
com as normas estabelecidas.
tamanho 10. As palavras es-
E não caberá nenhum tipo de
trangeiras devem ser citadas
recurso sobre as decisões do
em itálico.
Conselho.
5. As notas explicativas não de-
FORMATAÇÃO vem vir no rodapé das pági-
1. As colaborações podem ser nas, mas deverão ser nume-
gravadas em Word. Os ar- radas e aparecer antes das
tigos, resenhas, entrevistas referências bibliográficas.
devem ser digitados em fon-
te Times News Roman, cor- 6. Se houver a necessidade de
po 12, espaço 1,5 e ter entre apresentar um Glossário,
25.000 e 70.000 caracteres, deve vir antes das notas ex-
incluídos os espaços e con- plicativas.
sideradas as referências,
citações ou notas, quadros 7. As referências devem conter
gráficos, mapas etc. O Título exclusivamente os autores e
do trabalho deve ser digitado textos citados no trabalho e
em negrito e centralizado. O ser apresentadas ao final do
Nome do autor deve estar em texto, em ordem alfabética.
negrito, alinhado à direita,
EXEMPLOS DE REFERÊNCIAS ZACHARIAS, V. L. C. F. Vygotski e
a educação. Disponível em: <http://
• Livros
www.centrorefeducacional.com.br/
NORMAS PARA PUBLICAÇÃO 1. Livro com um autor vygotsky.html>. Acesso em: 04 mar.
2006.
SILVA, J. M. A autonomia da escola
pública: a re-humanização da escola. • Tese/Dissertação
7.ed. Campinas: Papirus, 2004. 136p.
ALMEIDA, J. C. A intervenção impos-
2. Livro ou capítulo com dois ou sível no cotidiano de uma escola: rela-
três autores: os autores são se- to do trajeto de um diretor de escola
parados por ponto e vírgula na rede pública municipal. São Paulo,
2003. 259f. Tese (Doutorado em Edu-
PEREIRA, P. A. ; WATANABE, cação) – Universidade de São Paulo,
O.K.; TFAUNI, F. A importância da São Paulo, 2003.
ciên¬cia para a formação do aluno.
In: MENESES, J.G.C., BATISTA, S. IMAGENS
H. S.S., (Coord.) Revisitando a prática 1. Imagens fotográficas devem
docente: interdisciplinaridade, políti- ser submetidas na forma de
cas pú¬blicas e formação. São Paulo: slides (cromos) ou negativos,
Thomson, 2003. p.46-59. estes últimos sempre acom-
panhados de fotografias em
3. Mais de três autores: indica-se papel.
apenas o primeiro, acrescen-
tando-se a expressão et al. 2. Câmaras digitais caseiras ou
semiprofissionais ("Mavica"
HAAS, C. M. et al. Reflexões in- etc.) não são recomendáveis
terdisciplinares sobre avaliação da para produzir imagens visan-
apren¬dizagem. In: MENESES, J.G. do á reprodução em gráfica,
C., BATISTA, S. H. S.S., (Coord.) Re- de- vendo-se dar preferência a
visitando a prática docente: interdis- máquinas fotográficas conven-
ciplinaridade, políticas públicas e for- cionais (que utilizam filme:
mação. São Paulo: Thomson, 2003. p. cromo ou negativo).
101-31.
3. Não serão aceitas imagens in-
4. Capítulo de Livro seridas em aplicativos de tex-
to (Word for Windows etc.) ou
MACHADO, E. V. Desenvolvimento de apresentação (Power Point
da criança e políticas públicas de in- etc.). Imagens em Power Point
clusão. In: MOTA, M. G. B. (Coord.) podem ser enviadas apenas
Orientação e Mobilidade. Conheci- para servir de indicação para
mentos básicos para a inclusão da pes- o posicionamento de sobrepo-
soa com deficiência visual. Brasília: sições (setas, asteriscos, letras
MEC/SEE, 2003: p. 22-34. etc.), desde que sempre acom-
panhadas das imagens origi-
• Artigo de periódicos
nais inalteradas, em slide ou
negativo/foto em papel.
FURLANETTO, E. C. Formação con-
tínua de professores; aspectos simbó-
4. Na impossibilidade de apre-
licos. Psicologia da Educação, n.19, p.
sentar imagens na forma de
39-53, 2o sem. 2004.
slides ou negativos, somente
serão aceitas imagens em ar-
• Artigo e/ou matéria de perió-
quivo digital se estiverem em
dico em meio eletrônico
formato TIFF e tiverem a di- TABELAS
mensão mínima de 10x15 cm e
Devem ser numeradas, consecu-
resolução de 300 dpi.
tivamente, em algarismos arábicos

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO


e encabeçadas pelo respectivo título,
5. Não serão aceitas imagens
que deve indicar claramente o seu con-
fora de foco.
teúdo. No texto, a referência a elas de-
6. Montagens e aplicação de se- verá ser feita por algarismos arábicos.
tas, asteriscos e letras, cortes Os dados apresentados em tabela não
etc. não devem ser realizadas devem ser repetidos em gráficos, a não
pelos próprios autores. Devem ser em casos especiais. Não traçar li-
ser solicitadas por meio de nhas internas horizontais ou verticais.
esquema indicativo para que Colocar em notas de rodapé de cada
a produção da Revista possa tabela as abreviaturas não padroniza-
executá-las usando as ima- das. Na montagem das tabelas seguir
gens originais inalteradas. as "Normas de apresentação tabular e
gráfica", estabelecidas pelo Departa-
7. Todos os tipos de imagens de- mento Estadual de Estatística da Se-
vem estar devidamente iden- cretaria de Planejamento do Estado,
tificados e numerados, seguin- Paraná, 1983.
do-se sua ordem de citação no
texto.