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UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM SAÚDE E GESTÃO DO
TRABALHO - MESTRADO PROFISSIONAL

RODRIGO CECHELERO BAGATELLI

INTEGRALIDADE E HISTÓRIA DE VIDA/ORAL: UMA POSSIBILIDADE PARA


A COMPREENSÃO DA 'DOENÇA DOS NERVOS' NO PROCESSO
SAÚDE/DOENÇA

Itajaí / SC
- 2011 -
0

RODRIGO CECHELERO BAGATELLI

INTEGRALIDADE E HISTÓRIA DE VIDA/ ORAL: UMA POSSIBILIDADE PARA


A COMPREENSÃO DA 'DOENÇA DOS NERVOS' NO PROCESSO
SAÚDE/DOENÇA

Dissertação apresentada como requisito parcial à


obtenção do grau de Mestre, pelo Programa de Pós-
Graduação Stricto Sensu em Saúde e Gestão do
Trabalho – Mestrado Profissional em Saúde da Família
da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, sob
orientação da Profª. Drª Yolanda Flores e Silva.

Itajaí / SC
- 2011 -
1

B144i Bagatelli, Rodrigo Cechelero


Integralidade e história de vida/oral: uma
possibilidade para a compreensão da “doença
dos nervos” / Rodrigo Cechelero
Bagatelli.__Itajaí: Univali, 2011.
vi, 128 p. : il.
Orientadora: Prof. Dr.ª Yolanda Flores e
Silva.
Dissertação (mestrado) Universidade do
Vale do Itajaí.
1.Distúrbios nervoso. 2.Intervenção médica.
3.Sofrimento mental. 4. Mulheres –Saúde mental. 5.
Violência. 6.Saúde. I. Flores e Silva, Yolanda. II. Título.

CDU 616-01
2

Rodrigo Cechelero Bagatelli

Integralidade e História de vida/ oral:


uma possibilidade para a compreensão da 'doença dos nervos' no
processo saúde/doença

Dissertação apresentada como requisito


parcial à obtenção do título de Mestre,
pelo Programa de Pós-Graduação Stricto
Sensu em Saúde e Gestão do Trabalho –
Mestrado Profissional em Saúde da
Família da Universidade do Vale do Itajaí –
UNIVALI

Aprovado no dia 01 de junho de 2001.

_______________________________
Profª. Drª. Yolanda Flores e Silva
[Presidente e Orientadora]

_______________________________
Prof. Dr. Luiz Roberto Agea Cutolo
[Examinador UNIVALI]

______________________________
Profª. Drª. Eliany Nazaré Oliveira
[Membro Externo – UVA/UFC]
3

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho à Deus, o criador


à Jesus Cristo, meu salvador
e ao Espírito Santo, meu guia e inspirador.
4

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer

... Minha esposa Thays pelo apoio constante durante todo o trabalho; seu amor,
suas revisões e críticas foram de especial valor para que eu pudesse chegar até
aqui. Sem você eu teria errado o caminho...
... Minha filha Rebeca, que nasceu durante este processo e participou desta história
de vida fazendo com que eu refletisse muitas coisas que sem ser pai eu não teria
condições de fazê-lo.
... Ao sujeito deste trabalho (aqui cito como Sandra Mara), que me acolheu sem
restrições ao abrir sua história de vida, mesmo sabendo o quanto as lembranças
poderiam doer.
... À minha orientadora Drª. Yolanda, que deixou espaço livre para minha criatividade
e agüentou 04 mudanças de projeto, teve paciência com minhas limitações e
persistiu mesmo com tantos problemas de saúde.
... Aos professores do Mestrado: cada um de vocês deixou uma marca em minha
formação e espero fazer valer o conhecimento construído neste tempo. Em especial
destaco a professora Elisete e o professor Cutulo pelo apoio e incentivo que foram
essenciais nas horas mais difíceis.
... Ao Francisco, companheiro de viagem, pelas conversas que tivemos durante as
idas ao Mestrado (6 h por viagem!) de inestimável valor (foram ‘créditos’ do
mestrado à parte que eu ganhei), além da amizade construída neste período.
... À minha mãe, pela revisão do texto, pela confecção da ficha catalográfica e pelo
incentivo tão necessário.
... Ao meu pai, pela acolhida em Itajaí e pelo incentivo ao estudo e à reflexão, uma
herança familiar.
... Aos meus sogros, Geisa e Tibiriçá, que cuidaram da minha família na minha
ausência e na doença da Thays. As madrugadas nas férias de verão em Pontal do
Sul – momento em que escrevi a maior parte deste trabalho – só foram possíveis por
causa de vocês. Muito obrigado.
... À Drª. Tânia, minha ‘chefe’ e incentivadora, que leu meu primeiro projeto e fez
muito para que eu pudesse realizar o mestrado. Muito obrigado por ter aberto o
caminho para mim e para outros médicos de família e comunidade. Com certeza
você é nossa inspiração.
... À secretaria de saúde de São José dos Pinhais, representada aqui pela Giseli, Dr.
Adolfo e Jussara, que gentilmente me acolheram e proporcionaram o campo que eu
precisava para trabalhar.
... e ao chimarrão (especialmente a Tertúlia®), companheiro das madrugadas
infinitas que não me deixou dormir até escrever as últimas linhas deste trabalho. Só
Deus poderia ter criado uma coisa boa assim...
5

BAGATELLI, R. C.; Integralidade e História de Vida/ Oral: uma possibilidade


para a compreensão da 'doença dos nervos' no processo saúde/doença.
Orientação: Profª. Drª. Yolanda Flores e Silva.

RESUMO
A subjetividade do processo saúde/doença tem sido amplamente discutida como nó
crítico no desenvolvimento de uma atenção qualificada e sensível às especificidades
culturais e sociais do adoecimento. A utilização de instrumentos que possam
resgatar esta subjetividade fornece substrato para a orientação de atitudes,
raciocínios e uso de tecnologias que possam ser adequadas neste sentido. O
presente estudo foi construído com a intenção de compreender os fenômenos
envolvidos na produção da ‘doença dos nervos’ dentro da proposta da Integralidade
usada como perspectiva do processo saúde/ doença. Para isso, fizemos um ensaio
sobre a utilização da Integralidade como conceito de saúde/ doença que permite a
apreensão da subjetividade da ‘doença dos nervos’. Neste entendimento, realizamos
um estudo de caso de uma mulher com ‘doença dos nervos’ que era atendida em
uma Unidade de Saúde da Estratégia Saúde da Família. Utilizamos a História de
Vida/ Oral como método de pesquisa e analisamos o material através da Análise de
Conteúdo Temática. Obtivemos dois temas: “Porque eu tenho uma passado muito
difícil, doutor” e “Tudo é sistema nervoso”. Concluímos que a História de Vida/ Oral é
uma metodologia de grande poder para acessar a dimensão subjetiva de fenômenos
como a ‘doença dos nervos’ e que o processo saúde/doença visto pela perspectiva
da Integralidade proposta aqui, é capaz de alcançar a complexidade do sofrimento
caracterizado como ‘doença dos nervos’ e fomenta tecnologias que sejam
condizentes com o cuidado em saúde.

Palavras - chave: Sofrimento Mental; Gênero; Violência; Saúde.


6

ABSTRACT

The subjectivity of the health/ sickness process has been widely discussed as a
critical issue in the development of a qualified and sensitive attention to specific
cultural and social aspects of sickness. The use of instruments that can promote this
subjectivity provides guidelines for appropriate attitudes, reasoning and use of
technology in achieving this goal. From this perspective, the present study aims to
understand the phenomena involved in nervous system diseases under the proposal
of Integrality. Thus, the objective behind our search for deeper learning on the issue
was to study the life story of a woman suffering from a nervous system disease so as
to capture the subjective elements of the phenomena of the health/ sickness process,
analyzing her speech to find significant elements in her memory relating to her
sickening process and treatments that she has undergone in recent years. This is,
therefore, a case study of a woman with a nervous system disease, who was treated
in a Health Unit of the Family Health Strategy. We used the Oral History as research
method and the material was analyzed using Thematic Content Analysis. The most
significant contributions of this work are primarily related to the informant, who was
able to reflect on and discuss her problems during her narrative, which caused a
substantial improvement in her mind state, drawing attention to the fact that: even
after a few months, she remained well without medication. It thus highlighted, from
the therapeutic point of view, the importance of Oral History as a tool for mitigating
mental health problems. Finally, it is possible to say that the Oral History
methodology is a great instrument to access the subjective dimension of phenomena
such as nervous system diseases and that the health/ sickness process, seen from
the perspective of Integrality herein proposed, is capable of reaching the complexity
of health problems resulting from nervous system diseases and promotes
technologies that are consistent with health care.

Key words: Psychological stress; Gender; Violence; Health


7

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 9

1. Considerações sobre o tema ............................................................................ 9


2. Pressuposto teórico e objetivo ........................................................................ 14
3. Percurso Metodológico ................................................................................... 14
a. Pesquisa qualitativa .................................................................................... 14
b. Universo da pesquisa e seleção do sujeito ................................................. 15
c. Princípios operativos da pesquisa: a entrevista e a composição do contexto
etnográfico ......................................................................................................... 19
4. Apresentação do conteúdo da dissertação..................................................... 21
2 CAPÍTULO 01 - INTEGRALIDADE: UMA POSSIBILIDADE PARA A
COMPREENSÃO DA 'DOENÇA DOS NERVOS' NO PROCESSO SAÚDE E
DOENÇA ................................................................................................................... 22
1. Resumo .......................................................................................................... 22
2. Apresentando a ‘doença dos nervos’ ............................................................. 22
3. Concepções de saúde/doença ....................................................................... 28
4. Os movimentos holísticos ............................................................................... 31
5. Os determinantes de saúde ............................................................................ 32
6. A Integralidade como concepção do processo saúde/doença ........................ 37
7. Considerações finais ...................................................................................... 40
3 CAPÍTULO 02 - HISTÓRIA DE VIDA/ORAL E AS CONTRIBUIÇÕES
METODOLÓGICAS PARA A COMPREENSÃO DA 'DOENÇA DOS NERVOS' ....... 42
1. Resumo .......................................................................................................... 42
2. A ‘doença dos nervos’: algumas reflexões ..................................................... 42
3. A construção de um percurso metodológico individual: etapas e
procedimentos ....................................................................................................... 44
a. A História de Vida/Oral como metodologia para apreensão da
intersubjetividade ............................................................................................... 44
b. Análise de Conteúdo Temática ................................................................... 45
c. Percurso metodológico ............................................................................... 46
8

4. Resultados...................................................................................................... 48
a. Tema 01 - “Porque eu tenho um passado muito difícil doutor.” .................. 48
b. Tema 02 - “Tudo é sistema nervoso” .......................................................... 59
5. Discussão ....................................................................................................... 63
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 69
5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 74
APÊNDICE A............................................................................................................. 82
APÊNDICE B............................................................................................................. 84
APÊNDICE C ............................................................................................................ 85
ANEXO 01 ............................................................................................................... 127
9

1 INTRODUÇÃO

1. Considerações sobre o tema


Adoecer é uma realidade da vida. Esta simples constatação já introduz a
importância de se compreender o processo saúde/doença em sua complexidade.
Filósofos, historiadores, sociólogos e antropólogos se debruçam sobre o tema,
procurando entender a relação deste fenômeno com as construções pessoais e a
cultura.
Vivenciar uma experiência de enfermidade pode representar uma crise de
valores e conceitos. Médicos que sofreram doenças incapacitantes mudaram sua
forma de enxergar o ‘outro’ (MCWHINNEY; FREEMAN, 2010). Nesse processo, a
certeza da técnica é substituída pela incerteza do sofrimento, da dor e da restrição.
A importância que é tradicionalmente dada para alguns aspectos da abordagem da
doença, como o diagnóstico ou outros elementos da clínica, é relativizada por
valores que consideram a pessoa que sofre, com seus sentimentos, impressões e
questionamentos sobre o fato. Este fato possui dimensões que são as mesmas da
existência humana, que pode ser entendida qualitativamente em aspectos
objetivos e subjetivos.
Em relação à objetividade deste processo, parece que não há muita
discussão. As provas materiais produzidas pelas ciências naturais com o que é
sensível aos cinco sentidos acabam por satisfazer em grande parte os
questionamentos sobre esta dimensão. Ao examinar um micróbio sob a lente de
um microscópio ao comprovar o seu efeito como agente patogênico de uma
doença e se alcançar alguma eficácia com os tratamentos instituídos pelo modelo
teórico construído, pode ser que as outras causas relacionadas a esta doença
sejam consideradas de menor importância.
Na dimensão subjetiva já não se tem a mesma vantagem. Como avaliar o
pensamento e o sentimento? Pela filosofia e pela arte? E as relações de poder, os
dilemas da existência, as diferentes formas de se compreender o mundo, a cultura
10

e a espiritualidade? Os métodos científicos dedutivo-analíticos parecem se calar


diante de tamanha complexidade.
Nesse sentido, em tempos de pós-modernidade (MORRIS, 2000), as
questões colocadas acima se encaixam perfeitamente com as ansiedades de um
mundo em que os limites já não são mais tão bem definidos. Assim, a construção
de conceitos que exigem um movimento interdisciplinar (SAUPE; WENDHAUSEN,
2007) começa a se fazer necessária. Como exemplo, as verdades constituídas na
antropologia dialogam com as da física, da psicologia, da sociologia e com as da
medicina, tentando completar os hiatos que cada uma acaba por criar em seu
próprio Estilo de Pensamento (CUTOLO, 2007).
Este movimento interdisciplinar não é hegemônico. Em grande parte causada
pelo modo de produção do sistema capitalista, a medicina ocidental incorporou
elementos próprios da cultura e articulou as necessidades em saúde como
mercadoria, reificando o processo saúde/doença, separando-o da pessoa e
preocupando-se mais com a dimensão objetiva. O investimento do Complexo
Médico-Industrial em avanços tecnológicos e a formação acadêmica na Saúde
acaba por defender necessidades mercantilistas e auxiliaram na conformação de
sistemas de saúde que mantiveram e muitas vezes estimularam a iniquidade social
(KOIFMAN, 2001).
Percebe-se então, que discutir o processo saúde/doença é mais do que um
cuidado epistemológico: é um princípio que construído socialmente, reflete as
forças que atuam em determinado momento (histórico, político e econômico) nas
ações em saúde. Logo, o estudo sobre este fenômeno é também um ato político
(COELHO; ALMEIDA FILHO 2002).
Adoecer é mais do que um fato lógico, linear e matemático. Entre a ‘saúde’ e
a ‘doença’ existe toda uma rede de elementos que tencionam para uma direção ou
outra. O uso da palavra ‘processo’ anuncia a participação de outros elementos, que
dependendo da orientação teórica seguida, darão ênfase a uma ou outra realidade
da vida.
Nos serviços de atenção a saúde, o cuidado tem sido muitas vezes
desvalorizado (MATTOS, 2001; 2006; CECÍLIO; PUCCINI, 2004; PINHEIRO;
11

VALLA, 2006) e o que é pior: trocado pelo desrespeito; Boff (2001) denomina isto
de ação negligente, descuidada, que foge ao direito de todas as pessoas
receberem um cuidado ético, respeitoso e tolerante às suas limitações e
fragilidades. A ‘doença dos nervos’ é um caso típico desta discussão.
Numa formação médica tradicional, os elementos que se destacam na busca
por conhecimento são aqueles que nos levam às certezas ou ao diagnóstico
correto. Num ato quase espiritual, ao nominar algo se têm a impressão de um
poder sobre este ‘algo’. Este poder está relacionado ao conhecimento. Enquanto
este ‘algo’ não é conhecido, ele representa um desafio a ser vencido. Então há a
necessidade de se investir todo o repertório tecnológico-científico disponível:
realizar um exame clínico completo e solicitar exames complementares. Este
último recebe especial atenção por fornecer a ‘prova cabal’ da existência da
entidade provocadora da perturbação.
Esta materialidade que pode ser teoricamente alcançada pelos exames
complementares, tem levado ao exagero na solicitação de exames, demanda
provocada tanto por médicos como por pacientes (CHEHUEN NETO, 2007). A
confiança da relação entre médicos e pacientes baseada no uso de tecnologias
duras (MERHY, 1998), leva a um distanciamento dos sujeitos e implica em
modelos de atenção incompetentes do ponto de vista técnico e afetivo. Do ponto
de vista técnico, porque o método clínico que se baseia na condição descrita
(referimo-nos ao modelo biomédico) leva muitas vezes a erros diagnósticos e
abordagens equivocadas. E do ponto de vista afetivo, porque o não
estabelecimento de vínculo entre o terapeuta e o sujeito diminui a eficácia dos
tratamentos por má-aderência, perda de seguimento e insatisfação da pessoa
atendida (MACWHINNEY; FREEMAN, 2010).
Considerando todo esse contexto, percebemos que a ‘doença dos nervos’
não possui um exame complementar para confirmação do diagnóstico. Nem existe
este diagnóstico nos livros de medicina tradicional. O que temos é uma construção
lingüística das camadas populares assimilada por pesquisadores das Ciências
Sociais e mais especificamente da Antropologia, para apresentar um fenômeno
comum em mulheres mostrando que algo de errado está ocorrendo em sua vida.
12

Um termo que diz muito para a mulher e sua família, mas pouco compreendido
pela racionalidade médica.
Na minha vivência acadêmica e profissional como médico, o tema ‘nervos’
sempre esteve à minha volta e em minhas considerações. Ele apareceu sob vários
nomes: crise conversiva, distúrbio somatoforme, piti, histeria, DNV, o que muitas
vezes me fez refletir o quanto estas ‘desclassificações’ (BOURDIEU, 2007)
distanciavam os profissionais que prestavam atendimento do sujeito que sofria.
Algumas vezes presenciei este preconceito na voz de outros profissionais de
saúde que não eram médicos. Este preconceito parecia expor, entre outras coisas,
uma incompreensão em relação aos aspectos não biomédicos.
A atuação médica pautada por esse exemplo, muitas vezes é aprendida nos
ambientes acadêmicos fora da sala de aula: nos plantões e nos estágios
principalmente. Na graduação, foi possível perceber uma espécie de ‘currículo
oculto’. Este currículo não oficial, sem grade curricular ou manual explicativo,
orientava e era determinante na elaboração de uma ‘lista negra’ de pacientes
considerados inoportunos e sem diagnóstico que justificasse sua presença na
unidade de saúde. A orientação recebida era de oferecer algo rápido e paliativo e
que a partir dessa conduta ou ‘atendimento’ se tentasse ‘despachar’ esse paciente
para sua casa / família o mais rápido possível. Isto não ocorria com todos os
profissionais, mas permitia abusos de poder e desqualificações no serviço.
Situações apresentadas como ‘crise histérica’, por exemplo, viravam motivo
de piadas ou comentários desrespeitosos. A ausência de um substrato
fisiopatológico dentro da racionalidade médica, aliada à perda da dimensão
subjetiva do atendente levava a uma não-legitimação do sofrimento,
desencadeando atitudes que eram reproduzidas não somente pelo atendente, mas
por toda a equipe. Certamente nem todos se permitiam seguir este currículo,
entretanto, poucos eram os médicos que se solidarizavam com pessoas com esse
tipo de sofrimento psíquico.
Na minha experiência, como Médico de Família e Comunidade trabalhando
em Unidades da Estratégia Saúde da Família, foi comum encontrar mulheres que
se queixavam da ‘doença dos nervos’. Era visível que essas mulheres tinham um
13

passado de muito sofrimento, de problemas sociais e relacionais, em alguns casos


associado inclusive a violência sexual. Esta última, em algumas ocasiões era
relatada após o desabafo de ter guardado este trauma por anos sem conseguir
expô-lo aos que lhe prestavam atendimento. Muitas destas mulheres estavam
cansadas e sem esperança e os medicamentos prescritos infelizmente pareciam
resolver apenas parte do problema.
Nestes momentos conhecer a história da vida da pessoa ajudava a entender
melhor o problema. Se não houvesse uma preocupação com isto, dificilmente estas
violências seriam expostas e não haveria uma ampliação do cuidado. Esta
percepção também contribuiu para que escolhêssemos para este trabalho uma
metodologia que favorecesse acessar esta realidade: a História de Vida/Oral.
Apesar das notícias sobre prováveis mudanças nos manuais de diagnósticos
em saúde mental como a edição da 5ª versão do Manual Diagnóstico e Estatístico
de Transtornos Mentais - DSM (APA, 2011), a dimensão cultural dos transtornos
mentais ainda parece ser pouco discutida nos ambientes acadêmicos tradicionais
da saúde e muitos dilemas, principalmente relacionados com a medicalização da
saúde mental vão permanecendo.
Na antiguidade, era prática corrente realizar a retirada cirúrgica do útero da
mulher que sofria de ‘histeria’ (VIEIRA, 2002). A concepção de saúde/doença da
época fundamentava este tipo de intervenção. Segundo Helman (2008), o
desconhecimento dos processos culturais que envolvem as mulheres pode levar a
erros de interpretação dos médicos e aumentam a chance de prescrição de
medicamentos desnecessários (principalmente drogas psicotrópicas). Partindo
desses argumentos, um questionamento nos vem sobre a forma como assistimos
as mulheres com ‘doença dos nervos’: será que não estamos propondo uma
‘histerectomia’ do sofrimento, realizando recortes técnicos da expressão de
sofrimento destas mulheres e lhes propondo terapias que não são sensíveis e nem
eficazes à realidade apresentada?
14

2. Pressuposto teórico e objetivo


Considerando o contexto apresentado e avaliando que ele é bastante atual, a
problemática da pesquisa que nos levou a este trabalho partiu do pressuposto de
que: “o modelo biomédico e as concepções científicas de saúde/doença que
são enunciadas para profissionais da saúde [e mais especificamente o
médico], não são capazes de alcançar satisfatoriamente a complexidade do
fenômeno ‘doença dos nervos’. Nesse sentido, consideramos necessário um
diálogo interdisciplinar para apreender e compreender a dimensão subjetiva
da ‘doença dos nervos’ no viver cotidiano das mulheres”.
Para a confirmação desse pressuposto, o ideal seria que pudéssemos ter
contato e muitos diálogos com várias mulheres que pudessem nos relatar suas
histórias e seus sofrimentos. Mas, levando em conta nosso tempo para realização
desse estudo e a necessidade de um aprofundamento teórico – científico
decidimos por uma pesquisa direcionada a um único caso. Desta maneira, o
objetivo que norteou nossa busca por um maior aprendizado sobre a questão, foi o
de “analisar a história de vida de uma mulher com a ‘doença dos nervos’ para
apreender os elementos subjetivos do fenômeno no processo saúde/doença,
verificando no discurso da mesma quais os elementos destacados nas suas
lembranças sobre seu processo de adoecimento e os tratamentos a que se
submeteu nos últimos anos”.

3. Percurso Metodológico

a. Pesquisa qualitativa
As contradições geradas pelo cientificismo positivista dos últimos séculos
geraram um movimento de resgate por uma ciência comprometida com a
subjetividade dos indivíduos e com o equilíbrio na produção e uso do
conhecimento. A pesquisa quantitativa trouxe incontáveis avanços para a ciência e
é o ‘carro-chefe’ ainda da produção do conhecimento do mundo moderno. Porém,
com o desenvolvimento das ciências humanas houve um avanço no
15

questionamento das ‘verdades’ científicas e de como estas seriam usadas para


normatizar a sociedade.
Segundo Muraro (2001, p.9) “a estatística dá uma visão distorcida e
homogeiniziante da realidade”. Este aspecto não retira o valor da metodologia
quantitativa, contudo, faz-nos repensar se esta é única forma de se trabalhar em
pesquisa. Devemos à abordagem qualitativa o resgate da subjetividade na
produção do conhecimento e a possibilidade de explorarmos assuntos que outrora
na tradição positivista não seriam relevantes.
O relacionamento médico-paciente (assim como o dos outros profissionais
de saúde) é uma atividade eminentemente social e carregada de sentidos, como
relata Kleinman, Eisenberg e Good (1978).
Seguindo este entendimento, entende-se que a proposta de compreender
um elemento social é eminentemente subjetiva, imensurável em números, mas
compreendida através da linguagem. Neste sentido, o resgate da linguagem ou do
discurso como objeto de estudo fica extremamente interessante ao pesquisador.
Procura-se, no entanto, avançar no desafio de traduzir a realidade falada
através de uma metodologia científica que possa produzir conhecimento relevante
e sensível de realidades socialmente construídas através da análise do discurso. O
sujeito é a pessoa, o objeto a linguagem e o pesquisador é o interlocutor.
Todos estes elementos são entendidos dentro do seu contexto e das suas
limitações (sociais, político-históricas, econômicas e culturais) e o produto desta
relação é o material que analisado cientificamente contribui para a construção do
conhecimento.

b. Universo da pesquisa e seleção do sujeito


O município que realizamos a pesquisa é uma das maiores cidades da macro-
região de Curitiba, tendo 263.468 habitantes, com um pouco mais de 10% da
população vivendo na área rural. São José dos Pinhais é uma região em pleno
desenvolvimento populacional que teve um acréscimo de 50 mil habitantes em 10
anos e é destaque na economia por ser um dos mais importantes pólos automotivos
16

do país. Sedia também o Aeroporto Internacional Afonso Pena (IBGE, 2010;


PREFEITURA MUNICIPAL..., 2011).
Na formação da cidade houve a participação de várias etnias, dentre as que
ainda têm colônias ali se destacam a polonesa, italiana e ucraniana, entre outras.
Todas elas imprimem sobre a região os traços da sua cultura, como é o caso da
tradicional Festa do Vinho comemorada anualmente. Apesar disso, o crescimento
urbano acelerado devido à imigração de mão-de-obra atraída pelas montadoras de
carros e pela proximidade com Curitiba, mudou um pouco esta característica,
passando a ser considerada como ‘cidade-dormitório’ e os traços culturais das
colônias são menos salientes nestas áreas, pois se tratam de regiões mais novas.
O município de São José dos Pinhais está dividido em 06 regionais de saúde.
O número de habitantes e a extensão geográfica obedecem à lógica demográfica /
geográfica, pois existem áreas urbanas muito densas e que geograficamente são
menores do que as rurais. A regional em que a pesquisa foi realizada contém 06
Unidades de Saúde da Estratégia Saúde da Família. Elas recebem atualmente o
apoio Matricial de um psiquiatra, um ginecologista/obstetra e três psicólogos. Este
matriciamento possibilita uma educação permanente dos profissionais que atendem
na Atenção Primária além de uma discussão de todos os casos e uma co –
responsabilidade de todos esses profissionais com a atenção no local.
O apoio matricial é o resultado da implantação do Plano Municipal de Saúde
(SÃO JOSÉ DOS PINHAIS, 2010) que prevê além de outras mudanças, a ampliação
da rede de assistência na saúde mental do município, com a implantação de mais
unidades de CAPS (Centro de Atenção Psico Social), unidades de CAPS- AD
(Centro de Atenção Psico Social de álcool e drogas) adequando a rede de
assistência aos princípios da Reforma Psiquiátrica.
A nossa pesquisa foi direcionada por orientação da Secretaria de Saúde para
uma das 06 regionais. Meu ‘contato’ foi com uma psicóloga da regional que estava
trabalhando com a população daquele local, prestando o apoio matricial e iniciando
atividades naquela unidade com grupos terapêuticos. Este é um dos reflexos da
mudança do modelo tradicional da assistência à saúde mental em nosso país,
segundo o modelo pregado pela Reforma Psiquiátrica (BRASIL, 2005): a
17

descentralização do cuidado com ênfase na comunidade e a adoção de políticas não


hospitalocêntricas.
Após discutir com meu ‘contato’ nosso foco de interesse e quais os critérios
de inclusão/exclusão, ela prontamente citou o nome de uma informante [denominada
de agora em diante de S. M., que não corresponde às iniciais verdadeiras do nome
dela] e de outras duas mulheres que eram conhecidas como pessoas com ‘doença
dos nervos’. O caso da S. M. apresentava desafios para toda a equipe: a ansiedade
em ter um atendimento psiquiátrico a fim de garantir a prescrição de medicamentos
que usou quando ainda tinha direito ao plano de saúde do marido e alguns episódios
de ‘crises de nervos’ ocorridos durante sua ida a Unidade de Saúde estavam
causando certo transtorno para a equipe em relação ao manejo dos problemas
apresentados por ela.
Como S. M. se encaixava nos critérios de inclusão/exclusão definidos
inicialmente na proposta, decidimos que ela poderia fazer parte do estudo. Em
nossos critérios era importante que: a mulher tivesse no mínimo 30 anos e alguma
experiência em algumas fases do ciclo de vida; não fosse portadora de doenças
psiquiátricas e/ ou neurológicas que prejudiquem o juízo de realidade e/ ou discurso,
como esquizofrenia, retardo mental, depressão psicótica e outras doenças
incapacitantes; não apresentasse epilepsia ou transtorno neurológico documentado
que justificasse os sintomas da 'doença dos nervos'; ter história de 'doença dos
nervos', que no linguajar médico é entendida dentro dos transtornos conversivos
e/ou somatoformes (CID-10); aceitasse os termos da pesquisa e assinasse o termo
de consentimento livre e esclarecido (Apêndice A).
Importante também foi saber que a equipe da unidade de saúde em que
realizamos o estudo, não apenas aceitou que lá estivéssemos como também
contribuiu e facilitou nosso contato com S. M. A Unidade de Saúde que realizamos a
pesquisa pertence à Estratégia Saúde da Família (ESF). Conta com 04 equipes, que
recebem o apoio de outros profissionais no matriciamento e possuem como
referência o Hospital da cidade São José, uma maternidade que atende toda a
cidade, um CAPS (Centro de Atenção Psico Social), um CAPS A-D (Centro de
Atenção Psico Social de Álcool e Drogas) e CAPSi (Centro de Atenção Psico Social
18

Infantil), a coordenação da Regional, unidades de referência para atenção


secundária e uma unidade pré-hospitalar.
Percebemos que estão ocorrendo mudanças importantes no sistema de
saúde público do município. Desde as primeiras visitas e os primeiros contatos com
os profissionais da gestão/assistência, foi possível notar um clima de euforia e
aceitação positiva com a filosofia da Atenção Primária à Saúde, da Estratégia Saúde
da Família e da Reforma Psiquiátrica. Essa percepção ocorreu no contato com as
pessoas da equipe e também ao ler o Plano Municipal de Saúde.
Porém, a lotação de profissionais para compor o quadro necessário para
implementação destas políticas é um desafio neste período de implantação de
algumas políticas. Outro problema é que os profissionais concursados que já estão
lotados nem sempre têm uma formação voltada para estes modelos de atenção.
Existe na prática uma luta para que a mudança aconteça: a dificuldade dos
profissionais de saúde e da população em entender as propostas não-
medicalizadoras que foram construídas na Reforma Psiquiátrica. Atividades de
grupo, uso de técnicas que usam as artes para auxiliar na recuperação de
problemas mentais e a ligação com outros equipamentos como os CRAS (Centro de
Regional de Assistência Social) estão em fase de implementação no município e já
começam a demonstrar bons resultados, mas em certa medida ainda são vistos com
desconfiança pelos profissionais de saúde formatados dentro do modelo biomédico
e pela população medicalizada.
Nossa pesquisa pode ser vista como um destes bons resultados. Não que
naquele momento eu fosse como médico, suprir as necessidades de consultas com
psiquiatra (que depois ela conseguiu através do apoio matricial), mas a possibilidade
de uma experiência de pesquisa-ação, estabelecendo um diálogo entre a academia
(pesquisador) e a assistência (psicóloga) para uma compreensão mais profunda do
problema de S. M. que pode ser a figura chave de futuras propostas de trabalhos
terapêuticos que associem as consultas a História de Vida das pessoas.
19

c. Princípios operativos da pesquisa: a entrevista e a composição do


contexto etnográfico
Com base em Minayo (2008) e Meihy e Holanda (2007), desenvolvemos
alguns princípios para fundamentar a coleta e análise dos dados do nosso estudo.
Optamos por trabalhar com a História de Vida/Oral de uma mulher com 'doença dos
nervos' porque a subjetividade desse processo e a singularidade do mesmo, a nosso
ver, não possuem pretensões a uma validade externa ou generalizações.
Neste sentido nos aproximamos de uma vertente da História de Vida que se
projeta como disciplina e dá lugar à “voz dos excluídos” (MEIHY; HOLANDA, 2007,
p.79). Entendemos que para o médico ou outro profissional da saúde, ouvir uma
pessoa com uma enfermidade desprezada na racionalidade médica em seus
aspectos subjetivos, é importante para entender essa condição enquanto
enfermidade não oficial. Ao mesmo tempo é um movimento interessante de
valorização do discurso da pessoa em sofrimento.
Quando fizemos a entrevista inicial, esta foi aberta e não diretiva. Em parte
isto foi conseguido pela postura durante a gravação e pela pactuação, antes da
gravação, de que ela poderia falar o que quisesse, não existindo um ‘certo’ ou
errado e que na posição de pesquisador, seria muito importante saber a visão dela
sobre seus problemas.
No início houve certa apreensão sobre o que falar [‘falar o quê? ’]. Por isso se
fez necessário iniciar a entrevista com uma pergunta: ‘você já teve problema de
nervos?’. Esta pergunta é um exemplo de que a entrevista também é dialógica e tem
a condução do pesquisador, o que reflete a sua preocupação com o tema. Esta
postura de não-neutralidade é amparada pela História de Vida/Oral, ou seja, a
condição de interlocutor é aceita, é esperada e discutida dentro do processo de
produção do conhecimento (MEIHY; HOLANDA, 2007).
A condução do diálogo foi reflexiva, buscando entender as relações dos fatos
e sentimentos narrados com o tema da pesquisa. O número de encontros com S. M.
foi determinado pelo critério de saturação da informação (MINAYO, 2008). Esta
saturação foi percebida quando os assuntos pareciam se repetir nas narrativas e as
perguntas começaram a serem respondidas com poucas palavras ou até mesmo, na
20

expressão de pistas não-verbais de que o assunto já estava esgotado para o


momento.
As entrevistas foram gravadas em um gravador de áudio digital e foram
transcritas segundo a técnica da História Vida/Oral descrita por Meihy e Holanda
(2007). Neste momento, a simples transcrição é realizada sem análise, apenas
busca-se uma fidelidade ao que foram enunciados pela informante S. M. e
interlocutor, registrando palavras, expressões verbais, silêncios, pausas e qualquer
ruído ou interferência externa que possa fornecer informações do ambiente em que
foi enunciado.
As gravações foram feitas em um consultório da Unidade de Saúde da área
de abrangência em que S. M. é atendida. Preferimos este local pela privacidade que
ele fornecia, pois em casa o marido e os filhos poderiam interromper ou influenciar
naquilo que ela gostaria de falar. Isto pode ter reforçado a minha condição de
médico/interlocutor, mas com o desenvolvimento de maior intimidade, notei que nos
últimos encontros eu era visto mais como ‘amigo’.
Para a análise dos dados, seguimos a orientação de Minayo (2008) e
realizamos uma leitura flutuante do material, com vistas ao reconhecimento e
familiarização ao texto, que é a Fase Pré-Analítica. Para seguir em frente,
respondemos a 03 perguntas: O texto contém as informações pertinentes ao tema?
Ele esgota satisfatoriamente o assunto? Ele é adequado para responder os
objetivos da pesquisa?
Aqui, percebemos a necessidade de aprofundar nossa capacidade de
percepção da realidade da S. M. e fizemos uma visita a sua residência e fomos a
um culto religioso no qual ela participa. De forma bastante sintética, consideramos
esse momento o que serviu como aporte para a nossa percepção etnográfica de
seu cotidiano e de sua história.
A próxima fase foi à exploração do material (MINAYO, 2008). Após a leitura
exaustiva do texto transcrito da entrevista, passamos a uma fase classificatória que
intenta categorizar as idéias que perpassam a fala. Para auxiliar esta fase, se usou
a técnica de Transcriação da História de Vida/Oral (MEIHY; HOLANDA, 2007).
Esta técnica possibilita a realização de um exercício hermenêutico para entender o
21

texto pelo texto e ao mesmo tempo é um elemento fundamental na composição


das categorias discursivas.
Estas categorias refletem um conceito maior, diretivo, que organiza o
sentido do texto. A partir das mesmas, buscam-se as “palavras-chave” ou unidades
de registro que podem ser expressões, termos, frases ou palavras que remetem a
este conceito. Escolhidas as categorias, buscamos analisar o sentido do texto
exposto. As categorias definidas / escolhidas foram:
“Porque eu tenho um passado muito difícil doutor”
“Tudo é sistema nervoso”.
Tradicionalmente a freqüência de aparecimento de uma Unidade de Registro
dá a tendência da fala de um sujeito e é analisada estatisticamente. Como o
objetivo deste trabalho é reconhecer a diversidade de fatores envolvidos no
adoecimento, os dados foram apresentados em porcentagem simples apenas para
verificação, sem a intenção quantitativa de se estabelecer um sentido do texto.
Procuramos também ultrapassar a dicotomia Análise de Conteúdo X Análise do
Discurso. Para a interpretação foi feito num exercício dialógico de contextualização
dos elementos reconhecidos no discurso e separados em categorias que refletem a
percepção do estudo.

4. Apresentação do conteúdo da dissertação


Esta dissertação foi construída com dois artigos: um ensaio sobre a utilização
da Integralidade como princípio do processo saúde/doença tomando-se por
referência a ‘doença dos nervos’ e outro, um relato de experiência na construção da
História de Vida/Oral como forma de se apreender a dimensão subjetiva desta
enfermidade.
Ao final fazemos uma reflexão sobre os elementos encontrados e procuramos
dialogar com os instrumentos / filosofias de atenção à saúde na Medicina de Família
e Comunidade.
22

2 CAPÍTULO 01 - INTEGRALIDADE: UMA POSSIBILIDADE PARA A


COMPREENSÃO DA 'DOENÇA DOS NERVOS' NO PROCESSO
SAÚDE E DOENÇA

1. Resumo
Este artigo é o resultado de uma reflexão sobre os conceitos de
saúde/doença da 'doença dos nervos' e uma proposta de compreensão no contexto
da Integralidade. Foi feita uma revisão das principais obras brasileiras que tratam do
assunto 'doença dos nervos', com algumas contribuições de artigos internacionais e
também sobre modelos de saúde/doença disponíveis, com o intuito de verificar as
perspectivas mais atuais de saúde/doença. Ao final do artigo comentamos sobre os
caminhos possíveis e apresentamos uma proposta dentro do princípio da
Integralidade para apreensão do fenômeno saúde/doença.

Palavras – chaves: Doença dos Nervos; Processo Saúde/Doença;


Integralidade.

2. Apresentando a ‘doença dos nervos’

A 'doença dos nervos' é um termo cunhado na Antropologia Médica brasileira


por pesquisadores que se propuseram a compreender este fenômeno encontrado
nas classes populares. É também considerado como polissêmico, por possuir
diferentes sentidos e representações, dependendo da região em que se inscreve.
Seus diferentes correlatos podem ser encontrados no Brasil como: "nervos",
"nelvos", "crise de nervos", "sistema nervoso", "crise nervosa", dentre outros
(DUARTE, 1986, HITA, 1998; MEDEIROS; TRAVERSO-YÉPEZ, 2004; SILVEIRA,
2000).
Na literatura internacional temos o nervios na Costa Rica e nevra entre
imigrantes gregos em Montreal/ Canadá, que apesar da semelhança entre os
sintomas, possuem diferentes significados (HELMAN, 2008; SILVEIRA, 2000).
No âmbito da Saúde podem-se encontrar diversas nomenclaturas, algumas
oficiais como o Transtorno Dissociativo/ Somatoforme no CID 10 (OMS, 1983) e
23

DSM IV (APA, 1995) e outras não oficiais. A histeria, por exemplo, é o conceito mais
antigo do fenômeno, datado da época de Hipócrates (400 a. C.) e foi sendo
abandonado no século XIII pelas teorias de Charcot, Pierre Janet e Freud que
"separaram a histeria do útero" e atribuíram ao fenômeno um substrato neurológico
e psicanalítico (MATOS et al, 2005). A neurose histérica foi o termo utilizado por
Freud e que perdurou até a hegemonia da Psiquiatria e Psicologia modernas.
O DNV (distúrbio neuro-vegetativo) não é um termo técnico na medicina e é
utilizado na maioria das vezes com conotação de fundo moral ou, como atualmente
na histeria, sexista. Ainda outros termos são utilizados de forma pejorativa para
nominar a pessoa com este problema de saúde como poliqueixoso, somatizador,
psicossomático, funcional, psicofuncional ou pitiático (FONSECA; GUIMARÃES;
VASCONCELOS, 2008; MATOS et al, 2005; OKUN, 2003; VEITH, 1966).
O uso dos termos acima é denominado por Bourdieu (2007) de
‘desclassificação’ das falas e discursos de leigos, algo que para esse autor nasce
dos condicionamentos sociais construídos que podem se apresentar como algo
relacionado à classe social, às lutas por poder, às deformações e discriminações
de gênero e às representações de ordem moral e de julgamento.
O descompasso desta manifestação de sofrimento em contraste com a
racionalidade médica vigente levou alguns estudiosos, principalmente da área da
antropologia, a pesquisar sobre este fenômeno. Os primeiros trabalhos sobre o tema
apareceram na década de 70 e 80 e foram inspirados pela etno-psiquiatria e pela
psiquiatria transcultural.
Duarte (1986) descreve historicamente a ‘desfisicalização’ (perda da
corporalidade) do ‘nervoso’ através de 03 configurações: a melancolia, o ‘nervoso’ e
a psicológica. A melancolia, oriunda da tradição hipocrática, representava uma
concepção físico-moral do fenômeno. Não havia distinção entre subjetividade e
fisicalidade, que eram mantidas num plano relacional. Já na configuração ‘nervoso’ o
olhar era fisiológico, construído pelas teorias da comunicação interna no corpo
através de humores, espíritos, fibras e eletricidade (algo próximo das teorias
miasmáticas) o qual explicava desta forma como os sintomas aconteciam na pessoa
enferma. A configuração psicológica é estabelecida, segundo o autor, na teoria de
24

Freud, que passa a descrever o ‘nervoso’ na forma de histeria e em termos


fisiopatológicos mentais, se caracterizando como ‘desfisicalização’.
Em sua etnografia, Duarte (1986) fez um estudo profundo da percepção do
que as classes trabalhadoras denominavam ‘nervoso’ e os dividiu em três temas
principais: perspectiva intrapessoal (“nódulos”), interpessoal (“planos”) e na
construção diferencial de pessoa (“prismas”). Estes temas englobam um amplo
espectro que tendem ao sentido físico (obstrução da menstruação, masturbação,
sensibilidade pessoal, vermes, pancadas na cabeça, poluição) e ao moral
(possessão demoníaca/encosto e outras causas religiosas, problemas de caráter/
maldade, modo de produção e condições de trabalho, loucura, violência doméstica,
problemas de relacionamento).
A divisão em categorias temáticas serviu ao propósito do desenvolvimento da
teoria da perturbação físico-moral que Duarte (1986; 1994) defende. Nesta
concepção, o ‘nervoso’ é uma perturbação físico-moral, uma categoria fluída entre
os planos físico e moral. O exemplo: as “pancadas na cabeça” citadas acima, podem
atribuir uma certa fisicalidade à doença, porém a relação com violência doméstica
leva a uma questão eminentemente moral. Da mesma forma, a obstrução da
menstruação (menopausa na linguagem médica), pode ser vista como física – o
sangue sobe para a cabeça-, porém é despontada uma questão de gênero pela
perda da capacidade reprodutiva ou do papel social de ser mulher, reforçando o
caráter relacional entre estas duas dimensões (físico-moral).
Em outro trabalho, este autor responsabiliza a resistência à concepção
moderna de pessoa individualizada nas classes populares que manteve a utilização
deste código “puro”, não afetado pela psicologização e pelo cientificismo da cultura
ocidental (DUARTE, 1994).
Outros estudos etnográficos e narrativos (RABELO; ALVES; SOUZA, 1999;
HITA, 1998; MEDEIROS, TRAVERZO-YEPÉZ, 2004; SILVEIRA, 2000) corroboram
os achados de Duarte e levantam questões sociais, de gênero, problemas de
relacionamento familiar e violências.
A questão de gênero é flagrante na ‘doença dos nervos’. A atribuição do papel
social das mulheres em relação ao cuidado dos familiares, as limitações da vida
25

privada (em contraste com a vida pública dos homens), o papel mais relacional que
lhe é atribuído e atualmente a sobreposição de papéis com a participação na vida
pública, são apontados como fatores importantes na maior prevalência de casos em
mulheres (DUARTE, 1986; LUDERMIR, 2000; SILVEIRA, 2000).
Pobreza, baixa escolaridade, exclusão do mercado formal de trabalho
(LUDERMIR; MELO FILHO, 2002), violência física, psicológica e sexual (RUIZ-
PEREZ; PLAZAOLA-CASTAÑO, 2005), falta de apoio social (COSTA; LUDERMIR,
2005) e desigualdades no mercado de trabalho são apontados pelas mulheres como
importantes fatores de relevância para o adoecimento mental (LUDERMIR, 2008), e
neste sentido também para a ‘doença dos nervos’. Outro fator apontado pelas
mulheres é a culpa pelo abandono dos seus papéis sociais em função de assumir a
vida pública, que nem sempre oferece uma situação favorável de condições de
trabalho (SILVEIRA, 2000).
Uma importante discussão é levantada por Alves (1993) sobre a concepção
de saúde/doença dentro da perspectiva antropológica. A doença é entendida por ele
como ‘experiência de enfermidade’, que é a sensação de que algo não vai bem
(‘estou mal’). Esta experiência é subjetiva em essência. A legitimação social desta
experiência em doença é intersubjetiva, pois se refere à no mínimo ‘duas
subjetividades’.
Criticando os estudos de Representação Social, Alves e Rabelo (1999)
colocam que a doença é experiencial em primeira instância, ficando antes da
Representação Social, momento que definiu como pré-reflexivo. Este momento é
essencialmente subjetivo (a aflição é sentida, a sensação de que algo não vai bem é
percebida, antes de tudo) e a legitimação/objetivação da experiência é reflexiva. Ela
é um processo intersubjetivo, pois depende da subjetividade do “outro” (cultura,
sistema de saúde, etc., mesmo que este “outro” seja o “eu” interior). Conclui-se com
isso que para a compreensão da experiência da enfermidade é necessário acessar
essa intersubjetividade.
Internacionalmente, o Modelo Explicativo e os conceitos de illness, sickness e
disease são as contribuições mais expressivas da etno-psiquiatria e da psiquiatria
transcultural americana, propostos por Eisemberg, Good e Kleinman (1978). O
26

Modelo Explicativo serviu para evidenciar que cada pessoa tem a sua ‘explicação’
para um evento de adoecimento, que é influenciado pelo contexto cultural e a
medicina é relativizada como um sistema cultural que produz Modelos Explicativos
próprios.
Neste entendimento, illness representa os aspectos subjetivos do processo
saúde/doença, que tem forte correlação com a cultura do sujeito, pois abrange
concepções pessoais, interpessoais e sociais do fato. Aqui, se relaciona com o que
Alves (1993) coloca como experiência da enfermidade. Já o termo disease encerra
a maneira como a medicina nomina o problema e seu sentido é influenciado
diretamente pelo método clínico utilizado. O último termo se refere a compreensão
de “mal estar” e se relaciona com a compreensão cultural da doença em sua
relevância na comunidade, o que se aproximaria da concepção que traçamos aqui
da ‘doença dos nervos’.
A localização dos sintomas no ‘nervo’ (estrutura neurológica com significado
específica dentro da racionalidade médica) parece uma tentativa de ressignificar o
fenômeno numa linguagem médica. Este paradigma pode ser resultado da
medicalização que a própria pessoa faz, buscando coerência para seus sintomas
(MEDEIROS; TRAVERSO-YEPEZ, 2004). Este relato é coerente com o
entendimento de Helman (2009) de que a medicalização em si geralmente não é
mal vista pelas mulheres.
Estas mulheres na maioria das vezes se utilizam de meios artificiais e
paliativos para permanecer na luta cotidiana, contudo não são desistentes da luta
buscando algo mais definitivo e não apenas momentâneo para os muitos
problemas que parecem sem soluções. Muitas estão cansadas e sem esperança e
os medicamentos prescritos infelizmente apenas resolvem parte do problema
(CARVALHO, DIMENSTEIN, 2003; SILVEIRA, 2000).
A 'doença dos nervos', enquanto constelação de sintomas e linguagem de
mal-estar tem sido percebida dentro de 03 conceitos que, em sua maioria,
representam o entendimento de linhas de pesquisa interdisciplinar (antropologia,
sociologia, psicologia, psiquiatria, epidemiologia, etc.) sobre o fenômeno:
Transtornos Mentais Comuns (TMC), Sofrimento Difuso e o ‘estresse’.
27

Os Transtornos Mentais Comuns (TMC) foram sistematizados por estudos


epidemiológicos na psiquiatria em busca de um modelo que pudesse acessar o
sofrimento das pessoas que não ‘obedeceriam’ às categorias psiquiátricas (como
depressão, ansiedade, etc.). Os TMC representam um modelo dimensional dos
sintomas, que captam várias formas de sofrimento e que na linguagem biomédica
não se traduziriam em categorias (ou ‘doenças’) específicas, muitas vezes
classificados como expressões menores das doenças mentais (LUDERMIR; MELO
FILHO, 2002; FONSECA, 2007; KLEINMAN; PATEL, 2003; LIMA et al, 2008). Assim,
é uma forma mais fluída de compreensão do sofrimento e compatível com a
realidade da Atenção Primária a Saúde (FONSECA; GUIMARÃES;
VASCONCELOS, 2008).
O Sofrimento Difuso proposto por Valla (2001) foi construído a partir da
percepção que as queixas referentes ao sofrimento de ordem relacional, sócio-
econômica e laborativa não são adequadamente apreendidas pelas classificações
da psiquiatria, necessitando de um conceito que captasse esta dimensão
(FONSECA; GUIMARÃES; VASCONCELOS, 2008).
O ‘estresse’ é encontrado também como correlato à 'doença dos nervos',
porém é uma categoria tipicamente descrita nos discursos das camadas sociais mais
abastadas e traduz a idéia de que o motivo principal é o excesso de trabalho,
ganhando um status diferenciado em relação às camadas populares (MEDEIROS,
2003; SILVEIRA, 2000).
Com isto, não queremos inferir que os TMC, o Sofrimento Difuso e o
‘estresse’ são a mesma ‘coisa’. Concordamos com o entendimento de Fonseca
(2007, p. 29) que são posições paradigmáticas distintas e que a 'doença dos nervos'
se distinguiria delas por pertencer à uma matriz antropológica. No entanto, a
expressão do sofrimento por manifestações somáticas e/ou subjetivas pode ser
apreendida por qualquer uma das matrizes ao qual nos referimos e estas contribuem
por salientar uma ou outra faceta do fenômeno.
A subjetividade no adoecimento é uma discussão central na questão do
modelo de processo saúde/doença quando se procura alcançar a humanização do
28

atendimento na doença dos nervos' (KLEINMAN, 1978; MEDEIROS 2003;


TRAVERSO-YEPEZ; MORAIS, 2004; SILVEIRA, 2000).
A compreensão deste fenômeno, desvinculada de uma concepção
suficientemente abrangente de processo saúde/doença, desvia os sistemas de
saúde e as suas práticas do alvo principal, que é o cuidado (FRANCO;
MAGALHÃES JR, 2004).
Existe então, a necessidade de se buscar matrizes coerentes que possam
embasar a formulação de sistemas de cuidado, sejam elas ao nível de políticas de
saúde, de concepções ou de suas práticas.
Assim, faremos um resgate das concepções de saúde, com ênfase nas que
trouxeram – e ainda trazem - impactos no Brasil e buscaremos fazer uma reflexão
sobre o conceito da Integralidade e sua importância no entendimento da ‘doença dos
nervos’.

3. Concepções de saúde/doença
A falta de uma avaliação crítica dos conceitos e da prática na saúde serve aos
propósitos de perpetuar as relações de poder que equilibram o sistema e acabam
por reproduzir inconsistências, iniquidades e discriminações (NARVAZ; KOLLER,
2007).
O conceito de saúde é resultado das relações políticas, sociais, econômicas
da cultura em um determinado momento histórico (SCLIAR, 2007), mas também é
fruto das experiências individuais que dialogam com todo este contexto. Dentro
desta perspectiva, os fenômenos biológicos do processo de adoecimento,
desvalidos da subjetividade, como a cultura, as emoções, os sentidos, o momento
histórico-político-econômico de uma pessoa/ comunidade com suas lutas de classe
e dominação, perdem a coerência e muitas vezes levam a equívocos. (TRAVERSO-
YEPEZ; MORAIS, 2004).
Não é de se estranhar que a formação médica, ainda na maioria das vezes,
persiste em manter o modelo biomédico (BONET, 2004), fazendo eco às outras
29

disciplinas da saúde e desconhecendo os sujeitos a que se propõe tratar: as


pessoas.
Os avanços da ciência na modernidade, fundamentada em conhecimentos
experimentais que pudessem comprovar a ‘verdade’ pela metodologia científica,
culminaram em um modelo institucional-cultural de saúde. Esse modelo tem em
seus alicerces o capitalismo, a objetivação da dor/sofrimento, a relação positivista
com a ciência e um mercado voltado a ‘consumir saúde’. Assim se constituiu o
modelo biomédico (CAPRA, 1992). Desta maneira, o que é aceito pela sociedade
como doença deve passar pelo crivo da instituição - a medicina- e passa a adotar o
discurso/concepção médica de referência, fenômeno conhecido como medicalização
(ILICH, 1977).
Este processo é evidenciado pelos investimentos econômico-culturais que
são realizados através da indústria, do comércio, da mídia, das instituições de
ensino e pesquisa para regimentar o que é saudável e formar um mercado de
consumo e serviço. Esta forma de organização, da qual o modelo biomédico é
hegemônico, chamamos de Complexo Médico-Industrial (CAMARGO JR., 2007).
No ensino das disciplinas de saúde, este modelo utiliza as ciências naturais
como única fonte de conhecimento da realidade, promove o uso máximo de
tecnologia para os procedimentos diagnósticos e terapêuticos, dá ênfase à super-
especialização, enseja um modelo de assistência médico-centrado em que o
hospital é o centro de excelência da atenção a saúde e da aprendizagem. A
concepção de saúde, neste caso, é a simples ausência de doença e esta é
explicada na perspectiva homem-máquina-defeito (mecanicismo), defeito-corpo/
defeito-mente (dualismo) e para que se possa entender fenômenos complexos como
o adoecimento, basta separar seus componentes básicos até o ‘nível’ físico-químico
(reducionismo). Este é o paradigma flexneriano, apontado como marco inicial do
modelo biomédico nas faculdades de medicina (CAPRA, 1992; CUTOLO, 2006;
FRANCO; MERHY, 2003; KOIFMAN, 2004; MATTOS, 2001; MARQUES; LIMA,
2004).
Contudo os avanços técnico-científicos não puderam dar conta de dilemas
que se constituíram no processo. McWhinney & Freeman (2009, p.72-74) apontam
30

03 elementos de contrariedade no modelo biomédico: a anomalia ilness/ disease


(que pode ser traduzido como experiência da doença X doença) que expõe a
limitação diagnóstica da medicina em enquadrar as queixas das pessoas em
doenças bem delimitadas, ficando uma porção razoável de diagnósticos
indeterminados ao se utilizar as classificações tradicionais da medicina; a anomalia
etiológica específica argumentando que as doenças não se expressam
homogeneamente mesmo em comunidades homogêneas, denotando múltiplos
fatores para o adoecimento e não somente os genéticos, infecciosos, físicos e etc.; a
anomalia mente/ corpo, demonstrada pelo efeito placebo, que mesmo em
experiências controladas cientificamente, existe um efeito mensurável na resposta
do indivíduo a um determinado tratamento que não é ocasionado pela medicação
testada.
No contexto social, o modelo biomédico favorece a iniquidade social,
deflagrada por sistemas de saúde excludentes, de alto custo que geram limitados
impactos nos níveis de saúde da população (STARFIELD, 2002 cap. 01). A
sociedade foi se desgastando também pela desumanização das ações em saúde
(MATTOS, 2001), o que levanta críticas sobre as políticas, as instituições e as
práticas na Saúde.
Tomando-se por princípio a concepção saúde/doença, as críticas ao modelo
biomédico podem ser sistematizadas por duas correntes de pensamento: a dos
movimentos holísticos (bio-psico-social, medicina integral, psicossomática e
práticas complementares) e a dos determinantes de saúde. Não que esta divisão
represente a ausência de conceitos holísticos numa, ou determinantes de saúde na
outra, mas serve apenas para salientar uma construção histórica destes
movimentos. No Brasil, estes movimentos tiveram ênfases diferentes em relação ao
processo saúde/doença e resultaram em diferentes políticas públicas.
31

4. Os movimentos holísticos
Os movimentos holísticos têm em sua raiz, as medicinas tradicionais de
outros povos (chinesa, por exemplo) e a Teoria Sistêmica. O processo de
adoecimento é resumidamente um desequilíbrio entre o indivíduo e o universo. A
inserção das questões espirituais/religiosas, psicológicas/relacionais e das
político/sociais teriam maior ou menor ênfase de acordo com a corrente, parecendo
que quanto mais antiga a medicina (povos sem escrita), mais relacionada com o
‘mágico’ ela estaria vinculada. Em muitos casos as questões individuais/psicológicas
nem fazem parte da concepção de adoecimento, sendo ‘reduzidas’ à problemas
coletivos ou cósmicos. Estes movimentos questionam o dualismo e o mecanicismo e
compuseram as principais contribuições para a reflexão crítica do modelo biomédico
(CAPRA, 1982).
A medicina psicossomática e o modelo bio-psico-social de Engel foram duas
tentativas sistematizadas de romper com a biomedicina. As descobertas da
influência da psique no corpo fundamentaram as abordagens psicossomáticas,
ainda que não tenham rompido com o reducionismo, representam uma resposta
importante à fragmentação do cuidado (CAPRA, 1982).
Engel (1980), médico psiquiatra norte-americano, propôs um novo modelo
que se contrapunha com o modelo biomédico, buscando resgatar a subjetividade
dos sujeitos, integrando questões biomédicas, psicológicas e sócio-culturais, que é o
modelo bio-psico-social. Este foi um avanço importante na questão da perspectiva
que os médicos tinham e valorizavam da experiência da doença (illness), tendo se
contraposto ao dualismo e ao reducionismo.
A crítica a este modelo é levantada por Morris (2000) que percebe a mudança
no discurso dos profissionais de saúde e na academia, porém este discurso não
levou a mudanças conceituais nem estruturais nas práticas de saúde, sendo um
termo vulgarizado com o passar do tempo. A parte psico-social do termo pode ter
ficado restrita a uma soma de distúrbios psicológicos ou problemas sociais, sem uma
sistematização crítica destes fatores. Manteve-se assim uma superficialidade
alienada de questões mais importantes, exploradas por exemplo, com a discussão
sobre gênero, iniquidades sociais, políticas públicas de saúde e cultura .
32

Duarte (1994) também concorda com esta análise, criticando a psiquiatria


norte-americana que entende o social dentro de um plano de relacionamento entre
as pessoas, e o ‘psico’ numa perspectiva psico-analítica.
Assim, o movimento holístico foi uma aspiração à uma medicina mais integral,
uma crítica influenciada pelas outras medicinas tradicionais e pelo questionamento
da hegemonia cientificista no ocidente. No Brasil, iniciou-se uma ampla discussão do
papel das ‘outras medicinas’, tanto no contexto dos movimentos sociais a partir da
década de 60 (com o ápice na década de 80) quanto o relacionado à academia,
motivada por experiências da psiquiatria transcultural e contribuições de
pesquisadores da saúde que tinham formação em ciências humanas (principalmente
na sociologia e antropologia) e na saúde coletiva. A inclusão da homeopatia, da
acupuntura e o apoio à medicina popular no SUS (Sistema Único de Saúde) foi um
dos resultados deste movimento (BARROS, 2000).

5. Os determinantes de saúde
A busca por um entendimento que considerasse as desigualdades sociais e a
relevância dos modelos econômicos-políticos que produzem saúde ou doença
mobilizam a construção do conceito de determinantes sociais. Segundo Scliar
(2002), a construção desta concepção ocorre inicialmente na formação do Estado e
na formulação de políticas públicas de saúde em sua busca do estado de bem-estar
social (wellfare state).
Mas não permanece ali. A identificação de elementos da sociedade e do
modelo de produção que proporcionavam o adoecimento ou a resistência a ele,
motivaram o desenvolvimento de políticas públicas que melhorassem as condições
de vida da população. No Brasil, o desenvolvimento do termo mistura-se com a
formação da disciplina da Saúde Coletiva (SCLIAR, 2002). No entanto, este
movimento, amplamente influenciado pelo materialismo histórico, pode ter
tensionado a concepção dos determinantes de saúde para uma um viés socializante,
dando a entender que existia um predomínio absoluto dos aspectos sociais sobre os
outros determinantes (CAMPOS; AMARAL, 2007; PAIM, 2008).
33

Atualmente, a sistematização do conhecimento destes determinantes e as


propostas geradas por eles estão sendo desenvolvidas no Brasil pela Comissão
Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde (CNDSS) (BUSS, 2007) e compõe
um esforço político-científico para agir nestes determinantes.
O termo determinantes de saúde vem de uma concepção positiva de saúde,
que se contrapõe com a idéia da ausência de doença do modelo biomédico
(COELHO; ALMEIDA FILHO, 2002). A mudança de olhar para a saúde em vez da
doença auxiliou a mudanças de paradigmas nas instituições e na academia,
favorecendo o diálogo interdisciplinar. A construção histórica deste conceito se deu
pelos esforços em busca de modelos que pudessem privilegiar áreas de atuação
que foram esquecidas pela ênfase nos fatores biológicos ou puramente
preventivistas, o que perpetuava as iniquidades sociais que causavam o
adoecimento.
Dois modelos de determinantes de saúde foram propostos: o de Starfield
(1990) (FIGURA 01) e o de Dahlgren e Whitehead (1991) (FIGURA 02).
34

Figura 01: Os determinantes de saúde. Fonte: Starfield (1990).


35

Figura 02: Os determinantes de saúde. Fonte: Dahlgren e Whitehead (1991).

Os dois modelos são semelhantes na complexidade e abrangência do tema.


São representações do dinamismo do processo saúde/doença, numa perspectiva
sistêmica do fenômeno. Foram construídos num momento de urgentes
necessidades no campo político para reduzir as distorções produzidas por sistemas
de saúde que não conseguiram se desvencilhar das iniquidades sociais e
precisavam induzir mudanças principalmente de cunho político para a saúde,
avançando na concepção de saúde e possibilitando uma agenda diferenciada para
os sistemas de saúde.
A necessidade de uma mudança substancial no sistema de saúde brasileiro
ocorreu em meio à luta por uma Constituição democrática e das eleições diretas. Foi
intensificado pela crise econômica mundial, décadas de modelos sócio-econômicos
iníquos que promoveram desigualdade social e a precarização da assistência a
saúde pública no Brasil. A carta de Alma-Ata (OMS/UNICEF, 1978) foi um
documento seminal para o movimento que estava por vir na reformulação dos
sistemas de saúde de vários países. No bojo do seu discurso amplia o conceito de
saúde da OMS, colocando-o como direito humano fundamental de responsabilidade
36

governamental e conceitua os Cuidados Primários de Saúde que desencadearam a


construção da Atenção Primária a Saúde.
No Brasil, as articulações promovidas por instituições como o CEBES (Centro
Brasileiro de Estudos de Saúde) e a ABRASCO (Associação Brasileira de Saúde
Coletiva) agregaram diversos setores da sociedade, incluindo intelectuais
(principalmente da Saúde Coletiva), movimentos populares, políticos, religiosos e
empresários. Este movimento é conhecido como Reforma Sanitária Brasileira e está
sistematizado no relatório final da VIII Conferência Nacional de Saúde e legalmente
materializado pela Constituição Brasileira e na construção do SUS (PAIM, 2008).
Este relatório é dividido em três temas, que propõe mudanças filosóficas e
institucionais necessárias para que se concretizassem as expectativas da sociedade
em relação à Saúde: saúde como direito do cidadão, reformulação do sistema
nacional de saúde e o financiamento do setor saúde (BRASIL, 1986). No tema
‘saúde como direito’ estão as contribuições para as mudanças filosóficas do conceito
de saúde, afastando do ilusório ‘completo bem-estar’ da OMS e das armadilhas do
Estado mínimo neoliberais, amparando então a construção do conceito ampliado de
saúde.
Os desdobramentos da VIII Conferência estão na Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988 e na promulgação do SUS pela lei 8080. Nestes
documentos não existe -até porque fugiria do propósito- a presença de um termo
definidor para o processo saúde/doença, mas apresenta o ‘elemento’ saúde como
direito do cidadão e dever do Estado, mantendo a ampliação do conceito citando
alguns fatores determinantes e condicionantes de saúde (ambientais, trabalhistas,
condições de saneamento básico, etc.) sem se aprofundar no tema.
Até aqui temos duas posições antagônicas em relação à presença ou não de
uma concepção de saúde/doença na Reforma Sanitária Brasileira. A primeira seria
apoiada por Paim (2008) que entende haver uma concepção própria deste momento
histórico-científico na Reforma Sanitário Brasileiro sintetizado pelo ‘conceito
ampliado de saúde’. Influenciado pelo materialismo histórico marxista, este conceito
foi passível de críticas por certo reducionismo sócio-econômico, deixando para
segundo plano as questões psicológicas e subjetivas do processo. Outra posição é
37

sustentada por Scliar (2007), que prefere não atribuir ao disposto na Constituição
Federal no artigo 196 (que seria o resultado da Reforma Sanitária Brasileira) uma
concepção de saúde, limitando apenas a dispor princípios de organização e práticas.
Campos (2007), ao propor o método Paidéia de co-produção de saúde
através da Clínica Ampliada, também não procura defender um conceito de
saúde/doença ampliado, antes, busca na articulação da concepção de ‘co-produção
do processo saúde/doença’ em que o campo Particular (imanência do sujeito com
seus fatores biológicos e subjetividades - intenção e desejos), o campo Singular
(sujeito enquanto ente dialógico e reflexivo à sua cosmovisão) e o campo Universal
(o que transcende o sujeito, cultura, economia, ambiente, etc.) levam a co-produção
de saúde.
A vantagem deste método é sua fluidez e aplicabilidade em diversas
realidades, por constituir princípios de ações e não excluir ou hierarquizar as várias
dimensões da produção de saúde. Porém, também não há uma dedicação ao tema
conceito de saúde, fazendo assim uma aproximação, lingüística ao nosso entender,
ao conceito ampliado da Reforma Sanitária Brasileira.

6. A Integralidade como concepção do processo saúde/doença


A complexidade do processo saúde/doença evoca a busca por modelos que
não sejam reducionistas e que possam abranger uma ‘totalidade’ que só consegue
ser atingida no campo da teoria. Porém, ao propor um termo que contenha uma
matriz própria, busca-se embasar elementos que se considerem apropriados para
construir ferramentas, sistemas e políticas que lhes sejam consonantes.
A busca pela construção de um termo que conceitue o processo
saúde/doença não vem de um esforço simplista ou reducionista de recortar a
realidade em palavras vazias: é uma busca por princípios históricos que brotam do
diálogo entre os que se envolvem no campo da saúde. Ao propor a Integralidade,
princípio normativo do SUS, está se falando em processo, em práxis, em um diálogo
entre áreas distintas da ciência, mas que se mesclam interdisciplinarmente na
produção de saúde. O termo é tão complexo quanto a natureza do seu objeto. Se as
38

práticas em saúde são ‘ações integradas’, se o sistema deve ser integral, pensamos
que o processo saúde/doença deve ser visto da mesma maneira.
A Integralidade, princípio normativo do SUS, é um termo polissêmico
(MATTOS, 2001). Este autor relaciona 03 sentidos que têm sido dados ao termo:
traço de boa medicina, modo de organizar as práticas e princípio de políticas saúde.
Este termo aparece na legislação do SUS relacionado com o atendimento às
necessidades das pessoas, que perpassam vários níveis de complexidade e assim,
demandam um sistema de saúde hierarquizado em ações assistenciais e
preventivas (Lei 8080). O termo tem sido relacionado à humanização do
atendimento (BRASIL, 2000), ações em saúde culturalmente sensíveis (OLIVEIRA,
2002; PUCCINI, 2004), práticas intersubjetivas (MATTOS, 2004), missão ética/
social do agente de cura (TESSER; LUZ, 2008), cuidado/relação entre sujeitos
(FRANCO; MAGALHÃES JR, 2004), oposição ao dualismo (PINHEIRO, VALLA;
2006) e práticas de outras racionalidades médicas como acupuntura e homeopatia
(PINHEIRO; GUIZARDI, 2006).
Apesar de o termo Integralidade ter seu uso mais comum para descrever as
ações em saúde, Cutolo (2006) extrapola este conceito desenvolvendo um modelo
de processo saúde/doença baseado nas conquistas da Reforma Sanitária
Brasileira.
Este modelo abrange os determinantes sociais, os condicionantes
ambientais e os desencadeadores etiológicos. Os determinantes sociais
compreenderiam a organização da sociedade (instituições de atenção a saúde,
modelo econômico/ político, educação/ informação, moradia e saneamento, etc.), o
seu modo de acesso e os aspectos culturais. Já os condicionantes ambientais
contidos na concepção da Integralidade estariam relacionados à exposição aos
agentes biológicos e aos fatores concernentes à insalubridade. Os
desencadeadores etiológicos são entendidos como os agentes causadores
biológicos (genética, vírus, bactérias, etc.) e/ ou psicológicos (personalidade,
temperamento) da enfermidade e nisto se aproximaria do entendimento biomédico
(CUTOLO, 2006).
39

Concordamos com Cutolo (2006) e nos apropriaremos da Integralidade como


conceito de saúde, na medida em que as práticas do SUS são baseadas neste
princípio (FIGURA 03).

Integralidade no processo saúde/doença

Figura 03: Conceito de Integralidade do processo saúde/doença


Fonte: modificado de Cutolo (2006)

Aproveitando a questão da 'doença dos nervos', poderíamos teorizar


argumentando com o que já foi exposto, que os desencadeantes etiológicos
poderiam ser estruturas de personalidade tipificadas pela psicologia. Os
condicionantes ambientais poderiam ser as condições insalubres de moradia, a
poluição ambiental (ruídos, ar, etc.), o tempo gasto para se deslocar nas grandes
cidades, o risco de violência, condições de trabalho precarizadas e os determinantes
sociais abrangeriam a cultura local de nominar a enfermidade de 'doença dos
nervos', a produção de iniquidade social que, pelo capitalismo, favoreceria as
desigualdades sociais que acarretam na precarização das condições de vida e
acesso à saúde, por exemplo.
Com isto, não queremos inferir que chegamos a um conceito universal ou
total. Como na crítica de Camargo Jr. (2007) sobre os perigos de se incorrer no
mesmo erro de medicalizar a vida e tornar a saúde como meio para intervir em todas
as áreas da existência humana levando o conceito positivo de saúde às últimas
instâncias, entende-se que os limites do conceito exposto se referem eticamente ao
contexto da disciplina saúde e das suas limitações práticas.
40

Tentamos aqui passar a idéia de um processo dinâmico em movimento que


segue a linha da vida, que não é totalmente ‘saúde’ ou totalmente ‘doença’, mas
uma relação de múltiplos fatores.
Neste modelo, procuramos transmitir a idéia de que a relevância de um
determinante em relação ao outro é apenas uma construção situacional: um Médico
de Família atendendo uma criança com diarréia, no momento da consulta, vai se
preocupar com os desencadeantes etiológicos e utilizará a Medicina Baseada em
Evidências e outras ferramentas da consulta clínica para estabelecer a gravidade do
processo e o melhor tratamento para a ocasião.
Contudo, em outros momentos, quando numa visita domiciliar de rotina ou
quando alguém da equipe da ESF (Estratégia Saúde da Família) trouxer a
informação de que a avó é a responsável por cuidar da criança a maior parte do dia
e faz uso de ‘purgantes’ para que as crianças sejam mais saudáveis, questões como
cosmovisão ou cultura ficam muito mais salientes. Se a família mora em área de
ocupação irregular e vive um ciclo de pobreza onde todas as tentativas de ajuda à
recuperação da saúde esbarram neste fator, acessar outras instâncias (associação
de moradores, Estado, igrejas, centros de assistência social, etc.) se torna muito
necessário para entender e agir no processo.
Com este exemplo tentamos trazer à discussão que até na visão de uma
mesma pessoa sobre o mesmo caso, os determinantes de produção de saúde e a
ação consecutiva podem variar de ênfase dependendo do momento.

7. Considerações finais
A complexidade do processo saúde/doença desafia a uma reflexão
permanente e profunda. Nos estudos que pudemos resgatar, percebemos a
presença constante da tônica da intersubjetividade na forma de demandas culturais,
sociais (de gênero principalmente), emocionais, políticas, econômicas e espirituais
na enfermidade ‘doença dos nervos’.
Uma realidade de iniqüidade social, violências, relações de poder
assimétricas e desamparo, redes de suporte social esgarçadas, auto estima
41

degradada e a dependência de medidas paliativas aparecem nas narrativas de


doenças em geral. Desta maneira, a ‘doença dos nervos’ traz consigo uma
complicada rede de determinantes do processo saúde/doença que não poderiam
cair em reducionismos já delatados.
Existe uma tentação acadêmica de procurarmos definir qual seria o melhor
parâmetro para entender e atender a ‘doença dos nervos’. Porém, notando o perigo
de se entrar em definições totalizantes ou reduzidas denunciada por alguns autores
(CAMARGO JR., 2007; MATTOS, 2001), parece-nos que o enfoque da
Integralidade, em sua flexibilidade e abrangência processual, permite compreender
esta enfermidade e apoiar as ações fundamentais através de um princípio simples,
mas de grande complexidade prática: o cuidado.
42

3 CAPÍTULO 02 - HISTÓRIA DE VIDA/ORAL E AS


CONTRIBUIÇÕES METODOLÓGICAS PARA A COMPREENSÃO
DA 'DOENÇA DOS NERVOS'

1. Resumo
Este artigo foi elaborado a partir da análise da História de Vida/Oral de uma mulher
que se reconhecia como ‘doente dos nervos’ e recebia tratamento em uma unidade
de saúde de um município do Paraná. O estudo teve como caminho metodológico a
pesquisa qualitativa num modelo de estudo de caso com o uso de instrumentos de
coleta de dados da História de Vida/Oral. Os resultados demonstram a dimensão
subjetiva, histórica e contextual da vida de uma pessoa que precisa conter suas
crises de nervos com medicação a fim de continuar vivendo e construindo um
cotidiano ao lado família. Na perspectiva de uma vida, elaboramos uma proposta e
uma discussão sobre como seria possível assistir esta informante e outras pessoas
com problemas semelhantes, seguindo as premissas da integralidade.

Palavras – chaves: História de Vida/Oral; Doença dos Nervos; Processo Saúde


e Doença; Integralidade.

2. A ‘doença dos nervos’: algumas reflexões

A 'doença dos nervos' é um fenômeno muito peculiar quando se busca a


compreensão do processo saúde/doença. Este termo enseja um referencial popular
de sofrimento, não encontrado na literatura médica tradicional. A construção deste
fenômeno nas camadas populares é entendida por Duarte (1986) como uma
persistência de uma racionalidade antiga, hipocrática, em que não se separavam as
dimensões objetivas das subjetivas na produção da enfermidade. Segundo ele, a
resistência à concepção individualizada e psicologizante de pessoa neste extrato
social levou a persistência do uso desta linguagem (Duarte, 1994).
Este termo varia de acordo com a região e a cultura. Em alguns locais pode
ser encontrado como ‘nervos’, ‘crise de nervos’, ‘sistema nervoso’, ‘nelvos’ ou
estresse, entre outros. Já na medicina, a reprodução de termos ‘desclassificatórios’
como denomina Bourdieu (2007) no uso de palavras como histeria, DNV (distúrbio
43

neuro-vegetativo), crise histérica, somatização entre outros, pode refletir esquemas


de julgamento sexistas ou de cunho moral (FONSECA; GUIMARÃES;
VASCONCELOS, 2008; SILVEIRA, 2000).
O uso da palavra ‘nervos’ é compreendia por alguns autores como uma
tentativa de significação no corpo de uma aflição de outra ordem: os conflitos
sociais, traumas, violências (física, psicologia ou sexual), desemprego ou
informalidade e a ausência de uma rede social de suporte que acabam por serem
manifestadas pela pessoa em uma linguagem que é aceita socialmente pelo grupo
como doença (DUARTE, 1986; HITA, 1998; MEDEIROS; TRAVERSO-YÉPEZ, 2004;
SILVEIRA, 2000).
Desta maneira, ao utilizar a expressão ‘doença’ e ‘nervo’, existe uma ação
social de atribuir um sentido ao sofrimento através da linguagem, pois de nada
adiantaria as palavras ficarem expostas em termos de sintomas físicos ou mentais, o
que ocorre muitas vezes nas categorizações psicopatológicas/psiquiátricas. Logo,
'[...] enfermidade não é um fato, mas uma interpretação e julgamento de informações
heterogêneas vindas do corpo humano' (ALVES, 1994, p. 96).
Alves (1993) defende a intersubjetividade como escopo para entender a
enfermidade. Na sua compreensão, enfermidade é a ‘experiência’ da doença, que
vai desde a sensação de que algo não vai bem até a elaboração com o ‘outro’
(mesmo que este ‘outro’ represente a cultura do indivíduo, por exemplo) do
significado desta experiência.
Esta problematização é importante para salientar a necessidade de se
conhecer o contexto em que a 'doença dos nervos' e outras formas de sofrimento se
constroem como fenômenos sociais. Assim, esta compreensão dos fenômenos
culturais que permeiam o processo saúde/doença é destacada pela relevância que
tem ao favorecer o desenvolvimento de uma atenção em saúde mais qualificada e
sensível à pessoa (OLIVEIRA, 2002), que é o cuidado integral (MATTOS, 2001).
Para conhecê-las, precisamos de ferramentas que possam capturar aquilo
que a linguagem tenta expressar: a experiência de doença e nesta proposta, a
narrativa da doença é uma das formas encontradas para isso.
44

Alguns pesquisadores defendem a utilização das narrativas de doença como


forma de se apreender os elementos intersubjetivos da enfermidade (RABELO;
ALVES; SOUZA, 1999). Seguindo este entendimento, podemos escapar das
limitações de enxergar a 'doença dos nervos' na perspectiva de modelos cognitivos
estereotipados. Assim, compreendendo-a na perspectiva da ‘experiência’, temos um
caminho para perceber como os fatores sociais são assimilados pela pessoa,
produzindo uma interpretação e julgamento que produzirá por fim a própria narrativa.

3. A construção de um percurso metodológico individual: etapas


e procedimentos

a. A História de Vida/Oral como metodologia para apreensão da


intersubjetividade

Alves (1993) desenvolve alguns elementos que caracterizam a ‘experiência


da doença’ como um fenômeno intersubjetivo. Em sua natureza , é “[...] um ato
discursivo, apresenta uma unidade semântica (significação) [...] refere-se a um
mundo que pretendem descrever [...] remete-se (de forma auto-referencial) a um
locutor [...] vincula-se, dentro de situações dialógicas e ‘performáticas’, a um
interlocutor.” (RABELO; ALVES, 1999, p. 192). Desta forma, entendemos que para
apreender dimensão de fenômenos desta natureza, podemos utilizar as narrativas
de doença, pois são também um ato discursivo, possuem um significado atribuído
pelo narrador e são referenciados dialogicamente ao interlocutor.
Estas características são encontradas também na História Oral. Seja como
ferramenta, técnica ou metodologia, a História Oral permite a consideração última da
narrativa, não se preocupando em atestar fatos verídicos, mas permite o
estabelecimento de um diálogo com outras fontes ou a análise do texto pelo texto,
uma postura hermenêutica. Desta maneira, permite captar a dimensão subjetiva
dentro da perspectiva do autor do discurso (MEIHY, HOLANDA, 2007).
Como disciplina, ela busca a ‘contra-história’ ou a percepção singular dos
fatos, destacando um papel político-cultural de fortalecimento das minorias sociais
45

(MEIHY, HOLANDA, 2007). Para estes autores, a História Oral como disciplina
implica na valorização do indivíduo, na inclusão social, na formação de argumentos
políticos e de transformação social, indo contra o silêncio provocado pela academia,
que para a saúde pode ser representado pelos aspectos negativos do modelo
biomédico.
A História de Vida/Oral nos permite ainda acessar alguns elementos que num
relato simples de doença não obteríamos (MINAYO, 2008). Como ela nos
proporciona o contexto – mesmo que limitado – ela produz um material sociológico
rico, favorecendo a apreensão desse complexo processo que é a saúde/doença. Ela
nos dá também o contexto de produção da doença, e assim podemos acessar
questões mais amplas da produção da enfermidade.

b. Análise de Conteúdo Temática


O sujeito está ligado ao seu discurso. Desvendar a mensagem implícita nele
é a tarefa do pesquisador. Esta mensagem é produzida com componentes afetivos
e cognitivos historicamente mutáveis e contêm informações do autor, a seleção
dele sobre o que é interessante expressar e uma teoria que orienta a fala e a vida
dele (FRANCO, 2007).
Diversas técnicas de análise têm sido propostas para o tratamento do
material colhido em campo. A análise de conteúdo iniciou num movimento
positivista e quantitativo com preocupações relacionadas ao comportamento dos
indivíduos e a possibilidade de vigilância e controle destes (FRANCO, 2007).
A Análise de Conteúdo Temática proposta por Minayo (2008) consiste em
transcrever o discurso dos sujeitos e após leitura exaustiva estabelecer uma
hipótese ou pressuposto inicial sobre os significados do seu conteúdo. Para isto,
busca-se no texto a ocorrência de palavras-chave ou expressões-chave que
enunciem algum conceito. Estas são as Unidades de Registro. Estas expressões
compõem uma Categoria, que é um conceito maior e que abrange um grupo
destas expressões. As Categorias – e em alguns casos com suas respectivas
46

subcategorias – compõe o Tema do discurso, que é a tônica ou a ênfase percebida


pelo pesquisador.
A diferenciação em Análise de Conteúdo ou Análise do Discurso tem sido
ultrapassada atualmente. Seria muito limitante ignorar o contexto de enunciação de
um relato para se descobrir as Categorias. Por exemplo: expressões não verbais
podem destacar o contrário do que a palavra transcrita fora do contexto poderia
significar. Por outro lado, o discurso pode ser esvaziado se a análise dele se
restringir a elementos lingüísticos ou totalmente distorcido pelo pesquisador no
momento em que se ultrapassa aquilo que foi dito. Por este motivo, optamos por
seguir uma análise de conteúdo que permitisse incluir o discurso do sujeito da
pesquisa.

c. Percurso metodológico
A informante de nosso estudo é uma mulher que apresentaremos a partir
daqui como S. M1. Ela foi identificada por alguns profissionais de saúde de uma
Unidade de Saúde da Estratégia Saúde da Família como tendo a 'doença dos
nervos'. Foi feito um contato prévio com a Secretaria Municipal de Saúde do
município e o projeto foi apreciado para avaliação ética no comitê responsável. Após
a liberação pelo comitê, realizamos um primeiro encontro com a S. M. para explicar
os objetivos do projeto e discutir a metodologia que iríamos utilizar.
As entrevistas foram gravadas com aparelho digital e transcritas para Análise
de Conteúdo Temática. Para compor o contexto etnográfico da pesquisa ainda
realizamos uma visita domiciliar e também participamos de um culto numa igreja que
a S. M. freqüenta.
Para a Categorização, utilizamos a técnica de Transcriação (MEIHY;
HOLANDA, 2007). Nesta técnica, o diálogo entre o entrevistador e o sujeito é

1
As iniciais não correspondem ao nome verdadeiro da nossa informante
47

transcrito com todos os detalhes da gravação: elementos verbais como pausas,


silêncios e risadas são complementados por registros de interrupções de gravação,
mensagens não-verbais, ruídos e qualquer elemento que seja relevante na audição
do encontro. Como exemplo:

“SM: Daí que sempre sofrendo desde criança, nunca fui_ não vou dizer assim pro doutor que fui uma
uma_uma menina feliz, não! Eu tive que cuidar de casa como uma dona de casa\voz embargada\
desde pequena \ inicia o choro\ senão quando ele chegasse quando ele entrasse dentro de casa era
só sofrimento... era só apanhá ...
R: huhum.
SM: \suspiro\só...\silêncio\\ruídos\ não era como as otras crianças, não...”

Depois de transcrito, procede-se a uma textualização, onde os elementos do


diálogo com as intervenções do entrevistador, os elementos verbais e não-verbais
sem significado ou com erro de sintaxe são retirados para compor um texto mais
fluído. Aqui se insere também outro elemento, organizador do texto, pois é através
dele que se dirá o que pode ou não conter na textualização: o ‘tom vital’. No nosso
estudo, nós aproveitamos este conceito para auxiliar na formação das Categorias da
Análise de Conteúdo. Exemplo:

Categoria/ Tom vital: Violência na infância/adolescência


“Sempre sofrendo desde criança. Não vou dizer que para o doutor que eu fui uma menina
feliz, não! Eu tive que cuidar da nossa casa como uma dona de casa... desde pequena! Senão,
quando ele chegasse em casa era só sofrimento... só apanhar... não era como as outras crianças
não...”

A última fase é a Transcriação, no qual o interlocutor coloca sua


percepção/subjetividade: o texto recebe um tratamento temático, num exercício
hermenêutico de se criar uma narrativa que signifique aquilo que o sujeito quis
relatar. Para tanto, é necessário uma compreensão profunda do texto, honestidade
por parte do pesquisador e uma postura reflexiva para se compreender os sentidos
trazidos ali (MEIHY; HOLANDA, 2007). Exemplo:
48

“Sempre sofrendo desde criança, nunca fui uma menina feliz, não! Eu tive que cuidar de casa
como uma dona de casa desde pequena... Senão quando ele chegasse, quando ele entrasse dentro
de casa, era só sofrimento... era só apanhar ... Não era como as outras crianças, não!”

4. Resultados2
A seguir apresentamos a Análise de Conteúdo Temática da entrevista, que foi
categorizada segundo o sentido do texto produzido na Transcriação. Esta é uma
adaptação metodológica e nos permitiu uma compreensão mais profunda do sentido
da fala de S. M., antes do estabelecimento das Categorias. Os dois Temas foram
separados e discutidos em seguida a apresentação.

a. Tema 01 - “Porque eu tenho um passado muito difícil doutor.”


A frase escolhida para o tema veio de uma reflexão da Transcriação realizada
na técnica da História Oral de Vida. Existem dois discursos que permeiam toda a
entrevista: uma história de vida sofrida e uma história do sofrimento, que é a
concepção que a S. M. tem do seu problema de ‘sistema nervoso’. Estes dois
discursos se entrelaçam numa narrativa não-linear, movimento típico das narrativas
de vida de ‘vai-e-vem’ no tempo cronológico. O texto é uma soma de relatos,
considerações/reflexões e definições sobre sua vida e sobre a doença que também
foi construído com o interlocutor. Esta é a beleza da História Oral: não se propõe
uma objetividade positivista de análise do relato, como se o discurso não fosse
‘escolhido’ por e para alguém. Ele tem um direcionamento, um recorte e foi neste
sentido que nos propusemos a construir este tema.

2
Para uma melhor compreensão, em anexo segue o Genograma da S. M. confeccionado durante as
entrevistas (ANEXO 03)
49

A primeira palavra do Tema “Porque” refere-se a um relato da doença e das


repercussões pessoais que o sofrimento lhe causava. Longe de uma descrição em
termos físicos, foram os aspectos “morais” que Duarte (1986) conceitua ou
contextuais que marcaram os primeiros minutos de relato. Havia uma ‘pressão de
fala’ que parecia insistir em delatar os algozes da sua vida que lhe causaram
sofrimento.
A constatação feita por ela “... eu tenho um passado muito difícil...” traz uma
definição interessante da História Oral: o relato não é um elemento concreto sobre a
realidade, antes, é a reflexão do passado construída num presente, que é o
momento do diálogo (MEIHY; HOLANDA, 2007).
“... doutor.” Foi a ‘terrível’ constatação da presença do interlocutor: médico,
homem e pesquisador. Aqui cabe mais um princípio da História Oral: o texto ou
objeto de pesquisa é construído pelas partes sujeito-interlocutor. O que é falado é
uma seleção influenciada pelas escolhas pessoais do sujeito da pesquisa e do que o
interlocutor e a própria pesquisa representam para ele.
No intuito de buscar os elementos que o sujeito da pesquisa relaciona da sua
história na produção da ‘doença dos nervos’, utilizamos a técnica de Análise do
Conteúdo Temática adaptada de Minayo (2008) e aplicamos à entrevista original,
sem o tratamento da História de Vida/Oral pela Transcriação. Este tratamento foi
realizado para orientar as Categorias, mas as Unidades de Registro foram criadas a
partir do material transcrito.
Foram destacadas 04 categorias com suas subcategorias respectivas que são
resumidas como segue (QUADRO 01):
50

Tema 01
Categoria Sub-Categoria
Violência na Infância Física
/adolescência Psicológica
Sofrimento da mãe
Relações Familiares Adultério do marido
Irmãos
Pai e esposa
Hereditariedade
Morte Luto da mãe
Morte do amigo do filho
Problemas trabalhistas e
Condições sociais e pobreza
econômicas Conflito no papel social
Desamparo sócio-relacional
Quadro 01: “Porque eu tenho um passado muito difícil doutor.”
Fonte: Trabalho de Campo / Entrevistas

A narrativa dos eventos que produziram sofrimento para a S. M. teve como


pano de fundo a intenção da pesquisa em compreender a ‘doença dos nervos’. A
preocupação em manter o discurso livre, para que ela relatasse aquilo que fosse
relevante dentro da concepção dela sobre a história da sua vida e sobre a doença foi
discutido antes da entrevista. As perguntas foram dirigidas conforme as informações
necessitavam de algum aprofundamento.
A primeira pergunta foi “Você teve problema de nervos?”. Uma simples
verificação sobre o tema, mas que desatou relatos das agressões e do sofrimento
que ela passou na vida. Em se tratando de uma enfermidade mental, a ‘doença dos
nervos’ está obviamente vinculada ao sofrimento mental. Todas as experiências aqui
relatadas em forma de Categorias/Subcategorias produziram na vida da S. M. um
impacto psicológico, porém elas diferem em sua natureza. Assim, estas Categorias
que serão analisadas são os eventos da vida que S. M. destacou como importantes
para a produção dos seus problemas de ‘nervos’.
51

Categoria Violência na infância/adolescência:

Subcategoria Física

“Ele ponhava num quarto, ponhava nóis sentado, nóis tinha sentado não cho_ ele falava assim:
“engole o choro! seis não_deixo chorá!”. Uma vez a minha irmã era muito chorona né e eu conseguia
segurá o choro né!? As lágrimas escorria mas eu não soluçava, e ela começou a soluçá! Daí ele
jogava ela pelas parede, daí eu gritei né, pra ele ver “não papai, não faça isso!” e coloquei a mão no
rosto né, daí ele me deu...tipo de um murro né e eu também fui pa parede ...”

“[...] e me bateu bastante, me deu murro... eu nunca tinha levantado a voz pro meu pai! Nunca. Aí
aquele dia ele bateu demais, pegou uma vara não contentô, pegô um cabo de vassoura não contentô
com o cabo de vassoura e me machucou todinha...”

Infância e adolescência não possuem uma separação muito clara na


entrevista. A violência e a opressão paterna permearam estas fases da vida. É
conhecido que a baixa escolaridade, problemas de relacionamento na família,
privação das necessidades básicas promovidos pela pobreza, levam as pessoas das
classes pobres a um ingresso no mercado de trabalho precoce e a adolescência
nestas classes acaba sendo abreviada por gravidez e casamento, em comparação
com as classes pertencentes às elites (HINES, 1995). No caso da S. M., a violência
paterna foi marcante para a saída de casa, como uma opção de fuga para se afastar
deste ambiente de violência.
Plazaola-Castaño (2005) realizou um estudo sobre saúde mental em
mulheres de classes populares que tinham sido agredidas pelos parceiros. Na
conclusão do estudo, houve uma correlação positiva com piores níveis de saúde
mental na combinação de três tipos de violência: física, psicológica e sexual. Estes
níveis de saúde mental eram melhores quando havia apenas um ou a combinação
de dois destes elementos.
Apesar de S. M. não ter relatado violência sexual em sua história – mesmo
quando conversamos objetivamente sobre isso – a ocorrência dos dois tipos de
violência que ela sofreu demonstram uma sintonia com o achado destes
pesquisadores. Um estudo transcultural realizado em países em desenvolvimento
52

sobre Transtornos Mentais Comuns, dos quais a 'doença dos nervos' também está
inclusa, apontou também a violência como um fator importante no desencadeamento
destes distúrbios. O destaque dado na narrativa sobre os episódios de
espancamento, a falta de proteção, a opressão psicológica de “ficar quietinha” ou
“engolir o choro” reforçam a importância que o sujeito da pesquisa deu para estes
fatos.
A violência urbana como roubo, não poder sair de casa em determinados
horários, mortes no bairro e etc. não são tão destacados como participantes da
gênese dos seus problemas, mas apareceram como pano de fundo quando
realizamos a visita domiciliar.

Subcategoria Psicológica

“A gente tinha medo!”

O medo constante das agressões parece ter cerceado a infância e a


adolescência. O controle rígido do pai e a condição submissa / passiva da mãe
conformaram aquilo que ela denomina de vida sofrida: não poder dar risada, brincar,
conversar com amigos, terminar os estudos, vestir calça para ir ao trabalho (tinha
que ser saia por causa dos dogmas religiosos seguidos pelo pai), “fazer as unhas” e
ser obrigada a retirar com uma faca o esmalte e também, a partir de uma certa
idade, ser responsável dos trabalhos domésticos. Estes relatos foram seguidos de
questionamentos onde S. M. se perguntava sobre o motivo do pai foi assim. Logo
em seguida, vinham as justificativas do comportamento do pai pelo passado de
sofrimento que o ele teve, de ter tido problemas mentais e de ter sido internado, por
ser “ignorante” ou “muito antigo”.
Num episódio de revolta na escola contra as humilhações que sofria por ser
pobre, espancou uma menina que tinha xingado sua irmã de mendiga. Estas
agressões psicológicas de humilhação também compuseram a narrativa dentro
daquilo que entendemos como violência psicológica.
53

Categoria Relações Familiares:

Subcategoria Sofrimento da mãe

“Ela cortou os pulso daí com a gilete daí chegou na cozinha e mostrou pra nóis.”

“Minha mãe era sempre foi doente né. Então ela... acho que aguentou mal o coração né ... e
conforme os médico passa não suporta tanta coisa né. E ela vinha sofrendo a anos, sofrendo a anos
e vendo tanta coisa né ...”

Ao relatar os internamentos psiquiátricos da mãe por tentativas de suicídio e a


situação de sofrimento que a mãe vivia, chegando a desenvolver um problema no
coração que levou a sua morte, S. M. denuncia a situação crítica de vida que a
família viveu. O pai tinha sido internado por ‘loucura’ na adolescência, já tinha
matado alguém por ser violento e tinha um suposto atestado médico que explicaria à
justiça sua condição de enfermo mental, caso cometesse algum crime. A mãe era
uma sofredora passiva, de saúde fraca demonstrada em dois relatos: um em que por
causa de um aborto quase morreu de hemorragia e outro, que por causa do aborto e
da retirada do útero como tratamento da hemorragia, desenvolveu um “problema da
cabeça” que começou a se manifestar levando-a a tentativas repetidas de suicídio.
Os filhos aqui eram espectadores desta condição e sofriam ‘engolindo o choro’.

Subcategoria adultério do marido

“Eu acho que sim, porque depois de tudo isso... a gente sei lá... a gente traída é doído demais, eu
acho assim, que se ele tivesse morrido no tempo que ele me traiu não tinha doído tanto como se ele
tivesse me traído.”

O verbo usado no passado refere-se há mais de uma década do


acontecimento. Este trauma teve quase a mesma relevância da morte da mãe. O
impacto da descoberta da traição foi uma comoção geral da rede de suporte social:
a igreja e a família ampliada, principalmente o pai. Antes o marido era tido como um
54

religioso de menor responsabilidade – “crente vagabundo” nas palavras dela – e


parece que após ter sido disciplinado pela igreja, sendo destituído de algumas
atividades litúrgicas e receber orientações do sogro, o marido se torna um fiel
‘verdadeiro’ e hoje ‘trabalha’ como recepcionista dos cultos. No momento ela o
considera o como um bom pai e apoio para seus problemas.
A manutenção do casamento baseado no perdão foi a tônica daquele
momento. Contrariada, ela deu mais uma chance, porém, uma discussão conceitual
sobre o que é perdão aparece como fonte de angústia que se arrastou desde então:
perdão é esquecer ou não? É possível esquecer?! Por muito tempo, outras causas
de sofrimento, além da desconfiança e da lembrança da traição, foram as ligações
telefônicas que ela recebia de uma mulher que relatava sobre o paradeiro do marido,
as roupas e etc., reavivando a dor do conflito e da desconfiança.
Quando ela se refere à morte, existe um sentido peculiar: a morte da mãe foi
a principal causa dos seus problemas de ‘nervos’. A morte do marido seria – mesmo
que hipoteticamente – muito importante. Porém a traição, pela sua característica de
‘permanecer ali’ e de haver o convívio com o ‘traidor’, dá a entender que seria um
tipo de sofrimento especial, comparável ao evento da perda da mãe.

Subcategoria irmãos

“É a minha lida é uma tribulação! Eu aguento eles até hoje! E quando não é os otro batendo nele na
rua, tenho que entrá no meio!”

“Ah, é que quando eles briga, ela corre lá em casa né, porque esse marido da minha irmã chegô a
violentá a própria esposa né.”

A primeira citação refere-se ao irmão: um alcoólatra com ótimo emprego, mas


que desperdiça tudo com a bebida. O casamento dele com uma alcoólatra é cheio
de histórias de agressão mútua, idas para a delegacia, comportamentos de risco
como dirigir bêbado e surras que leva na rua por se meter em ‘confusão’. Como eles
moram perto dela, ainda causam preocupação, mas esta preocupação já tem sido
55

mais elaborada: os médicos a aconselharam a deixar os problemas dos outros ‘para


fora do portão da casa’ e ela têm reconhecido algum efeito desta mudança de
atitude.
Uma reflexão interessante que a S. M. faz da situação do irmão é o motivo do
seu alcoolismo: o sofrimento na infância. Segundo ela, se o pai tivesse cumprido seu
papel afetivo, ele não seria do jeito que é.
A segunda citação é da irmã: um casamento sempre conturbado em que ela
foi violentada fisicamente diversas vezes com um episódio de violência sexual
cometido pelo marido. O papel de mediadora do casal lhe causou muito desgaste e
a separação atual deles é bem vista por ela.

Subcategoria pai e esposa

“... fala assim: “ah, ela dá apoio demais pros filho, que a filha entra em casa e apronta ich...! Daí eu
falo “ai meu Deus do céu, até quando eu tenho que aguentá isso!”.”

O pai, figura terrível da infância, após a morte da mãe se torna alguém


admirável: não bate mais nos filhos, ajudou nos cuidados do nascimento do segundo
filho da S. M., cozinhou para ela neste período e se casou com uma mulher com o
mesmo nome da filha: S. M.. Seu pai não tem filhos com ela, porém uma das filhas
dela mora com os netos no mesmo terreno, causando perturbação a alguém já de
idade avançada. Daí vem a reclamação do pai de S. M. citada acima.
56

Subcategoria hereditariedade

“Minha mãe também já teve problema, ela ficou internada quando a gente era criança, quando tinha o
3
Hospital P* e ficou internada um ano e pouco \choro de criança no fundo\. Então eu acho que já vem
um pouco de família...”

Esta é a Sub-categoria que mais se aproxima da causalidade biológica: a


transmissão genética de uma doença. Não se percebe uma transmissão de padrão
relacional, como se por ter convivido com a mãe enferma ela teria ‘aprendido’ a ficar
enferma, mas fica a impressão de que o fato de ser ‘filha dela’ seria uma explicação
para seus ‘nervos’ e, possivelmente, para seu comportamento suicida. Interessante
contextualizar que este foi um dos primeiros parágrafos da entrevista e pode ser que
o papel do interlocutor aqui tenha sido muito relevante na construção deste relato.

Categoria Morte:

Sub-categoria luto da mãe

“... eu penso também que pode que foi pela morte da minha mãe né, \voz embargada\, que nossa! eu
amava demais ela! Achava que todo mundo morreria menos ela! E na hora que eu mais precisava
que eu achava né! Ela morreu né \voz embargada\ ela morreu dia quatro de agosto meu menino
nasceu dia sete.”

Este foi o elemento considerado por ela como o fator mais importante da
‘doença dos nervos’. Apesar de ser um dos menos citados em números absolutos de
freqüência de aparição na entrevista, o relato que seguiu a morte da mãe foi extenso
e carregado de sentimento. Lágrimas, mãos agitadas e voz acelerada. A postura de
revolta que ela assumiu durante os outros relatos, agora fica eminentemente de

3
Retirado para preservar a identidade do sujeito do estudo.
57

tristeza. A perda de um apoio afetivo dias antes do nascimento do segundo filho


reforçou a sensação de desamparo e perplexidade. A mãe tinha 54 anos e faleceu
logo após um breve período de separação com o pai. O pai tinha recém assumido o
casamento e trouxe a esposa para morar perto dos filhos com o intuito de cuidar da
saúde da esposa. Dois dias depois ela morre.
Os momentos que se seguem são intensos: tinha ‘esquecido’ que estava
grávida e ficou internada até o filho nascer. Depois do parto conseguiu voltar ao
‘normal’, mas a tristeza da perda da mãe a levou a um sofrimento profundo,
traduzido nas palavras “Parecia que eu estava sufocando junto com ela na terra!”.

Sub-categoria morte do amigo do filho

“... e veio subindo atrás e o caminhão bateu na moto dele e matô ele! A médica falou que foi o susto
que eu levei. Porque quando avisaram que tinha falecido, eu perdi, eu não conseguia nem enxergá!”

A morte deste rapaz foi lembrada num contexto de ‘crise de nervos’. No


momento em que conversávamos sobre o que era uma ‘crise de nervos’, houve este
relato que exemplificou o que ela considerava crise. Longe de ser comparado com a
morte da mãe, foi o ‘susto’, ou o elemento surpresa e a tragédia que desencadearam
as reações que ela considerou como ‘crise de nervos’.

Categoria Condições sócio-econômicas:

Sub-categoria Problemas trabalhistas e pobreza

“e meu esposo ainda pra ajudar, tá afastado da firma por invalidez no braço de acidente... até falta
das minhas coisa dentro de casa eu já passei estes dias.”

A pobreza faz parte do pano de fundo de todo o relato. A pobreza na infância


gerou humilhações que em um dado momento resultou na agressão de uma menina
que chamou sua irmã de mendiga. No presente ela se demonstra na falta de um
58

plano de saúde que foi cancelado quando o marido foi afastado do serviço. Isto foi
colocado enfaticamente por ela, que se sentia angustiada com a demora da
marcação da cirurgia do marido pelo SUS e na dependência do Estado para suprir
suas necessidades básicas da família com a pensão do INSS que o marido recebe.

Subcategoria conflito no papel social

“às vezes eu quero fazer alguma coisa e não posso fazê, vai me atacando os nervo e acho que vou
guardando comigo... dalí a uma semana ou depois dá aquela...”

Não conseguir realizar as tarefas de mãe na manutenção da casa também


aparece aqui colaborando para o ‘estado nervoso’. Sem a predisposição para as
obrigações de casa e também para o lazer, como tocar clarinete na orquestra da
igreja ou o trabalho da igreja com as crianças, o ‘nervo’ vai se acumulando e
acabam por desencadear as crises.
No conflito de papel está também a sobrecarga de papéis que ela percebeu
enquanto trabalhava. Cuidar da casa, dos filhos e do marido gerou também um
estresse importante.

Subcategoria desamparo sócio-relacional

“... parece que ninguém me entende. Quando eu sinto as coisa eu não tenho com quem conversá
\fala embargada acelerada\. Nem desabafá.”

Este isolamento foi referenciado em vários momentos da vida. Na infância era


causado pelo controle do pai, que não permitia o desenvolvimento de uma vida
pública. Na vida adulta, o isolamento foi considerado tanto como parte da
enfermidade como também contribuinte: em alguns momentos a falta de ter alguém
para desabafar, como quando houve a traição do marido e se sentiu sozinha e
envergonhada pela condição de traída ou na época da perda da mãe, quando
59

perdeu um apoio importante da sua vida. A manifestação do isolamento como parte


da ‘doença dos nervos’ é tratada a seguir.

b. Tema 02 - “Tudo é sistema nervoso”


A frase escolhida que nomina nosso capítulo veio de uma conclusão
perturbadora: não havia distinção clara do que era ‘doença dos nervos’ no discurso.
Nem ela chama de ‘doença dos nervos’. Usou diversas vezes o termo depressão,
depressão pós-parto, ‘sistema nervoso’, ‘nervoso’ e ‘nervos’. Na literatura, ‘doença
dos nervos’ é descrito de várias formas, como já discutimos anteriormente, porém foi
necessário avançar na questão e fomos desafiados a uma nova reflexão: o que ela
entende do seu problema?
O termo “tudo” do nosso Tema é o ‘problema’ da pergunta acima. “Tudo” se
refere a todas as perturbações consideradas mentais por ela e reflete a fluidez do
conceito de enfermidade mental para ela. Os planos físico e moral do ‘nervoso’ que
Duarte (1986) descreveu para compor seu conceito de perturbação são bem
representados aqui. A ‘doença dos nervos’ é mediadora nestes planos e não
pertence a nenhum deles, onde a percepção corporal do sofrimento é indissociada
dos problemas da sua vida. “Sistema nervoso” é um nome dado a este fenômeno de
adoecimento. Abaixo segue o resultado desta Análise de Conteúdo com as
Unidades de Registro, que foram as palavras ou expressões-chave que
compuseram a Categoria.
60

Tema 02 - “Tudo é sistema nervoso”

Categoria Unidades de Registro

Estado de Não tenho vontade; vivia isolado; dô cada grito; não gosto que
Nervo ninguém fale comigo; dor de cabeça; parece que some da cabeça;
não lembro; não consigo dormir; não dá vontade de falar nada;
vontade é só de ficar deitada, não quero sair nem comer; não tinha
coragem de levantá pra tomá banho; tontura; ficá agitado; pouca
coisa eu fico nervosa; qualquer coisinha irrita a gente; brigá com
otras pessoas; nervoso;

Crise Desmaio; não podia falá; tentei o suicídio; tomei todos os remédios;
me dá um branco na mente; tô ficando louca; fico diferente; olhos
roxo; a boca fica torta; as palavra não sai; olhos fica roxo; não saio
de dentro de casa; reação alérgica; ajunta com o problema de
depressão; mão tudo enrolada, roxinha; não conseguia enxergá
direito; depressão atacada; não consigo andá, falá, conversá; mal
estar grande; tipo uma ânsia de vômito; enjôo muito grande; perdia
o sentido; apagava tudo; a pessoa fica bem alterada; muita
angústia; muita tristeza; parece que tá tudo negro; a pessoa fica
bem alterada; Ouvi vozes, vultos, pessoas me chamando.

Medicalização Depressão pós-parto; depressão; sem remédio eu não durmo;


acredito que é doença; demônio não se cura com remédio; médico
não qué que eu saia; engordei, pedi pa médica daqui me dá um
remédio pa esmagrecê; médico de hoje diz; tinha dito pro meu pai
que ela não ia...guentá muito tempo; uma carta do médico [...] que
se matasse alguém né, nem preso ele iria; e conforme os médico
passa não suporta tanta coisa; os médico mandou entregar;
médico passô pra mim aquele clonazepan; só paro na hora que o
médico mandá!; se os médico passam os remédio eu acho que
eles sabem o que tão fazendo; se o psiquiatra passô remédio pra
mim pra depressão ele sabe o que tá fazendo; eu tive uma crise
forte, no hospital, a médica me deu uma injeção; a médica falô que
é do sentimento; médica falou que foi o susto que eu levei; médico
passo remédio tudo; o médico mandou eu fazer um chá tipo
calmante
Quadro 02: Tema 02 – “Tudo é sistema nervoso”
Fonte: Pesquisa de campo/ Entrevistas

Vistas isoladamente, as Unidades de Registro não parecem significar


exatamente o que a Categoria descreve e ainda podem estar em todas as
Categorias. Aí vem a necessidade de analisar o contexto em que foram enunciadas
61

para compreender o sentido a que elas se referem e por este motivo a técnica de
Transcriação se prestou como interessante caminho para esta elaboração.
A Categoria ‘Estado de Nervo’ foi criada a partir de uma percepção de que
existe um estado de predisposição à perda de controle, um desconforto crônico que
hora pode desencadear uma crise, hora pode ser entendida como a depressão do
linguajar médico. Os elementos que geram esta Categoria estão muito próximos da
concepção que ela faz de ‘personalidade’, o que poderíamos chamar de
‘personalidade nervosa’. Esta personalidade é marcada por uma constante irritação
e inadequação em lidar com as coisas do dia a dia. Impaciência ao ‘esperar numa
fila de banco’, irritação, angústia, reclusão social, falta de força ou concentração
para realizar as tarefas cotidianas e instabilidade emocional caracterizam este
fenômeno.
Já a ‘Crise’ é a expressão da perda total de controle. A perda parcial da
consciência (já que desmaiava e continuava ouvindo as vozes), dormir (inclusive por
efeito de medicações quando internada), romper com a ‘normalidade’ ou a total
desestabilização ocorreu em vários momentos de profundo sofrimento. Interessante
é que existe no discurso um sentido terapêutico destas crises. Algumas vezes os
relatos de desmaios ou dos internamentos (momento em que ficava sedada por
medicações) eram seguidos de muito alívio, quase como se desaparecessem os
sentimentos de angústia.
O rompimento de uma função social tão importante que é o ‘falar’ acontece
em dois momentos: numa primeira vez, após ter sido brutalmente espancada pelo
pai enquanto era noiva, ficou calada durante todo o internamento, não se
comunicando com os médicos, pois queria preservar o pai para que ele não sofresse
as conseqüências do seu ato. Nos outros momentos este silêncio era motivado pela
doença: nas ‘Crises’ como incapacidade mecânica de falar (boca torta, desmaio, por
exemplo) e no ‘Estado de Nervo’ como isolamento social ou falta de vontade para
falar.
A ‘Medicalização’ foi construída com o objetivo de selecionar na fala dela as
referências biomédicas do seu problema e as relações de poder expressas pela
medicalização do problema. Ao se referir ao diagnóstico depressão/depressão pós-
62

parto, ao uso fiel das medicações na esperança da cura e à constatação máxima de


que seu problema não tinha relação com fenômenos espirituais/religiosos
(possessão demoníaca), figura-se uma postura consoante ao parecer dos médicos
que lhe atenderam.
Esta postura passiva reflete a relação de poder/submissão que ela tem com
os médicos e a medicalização do fenômeno feita por ela. As expressões utilizadas
para se referir às ‘ordens’ médicas e sua defesa contra questionamentos sobre a
natureza médica do seu problema amparam esta compreensão.
Apesar desta medicalização, em outros momentos ela contraditoriamente
expõe a não-eficiência das medicações/tratamentos:

“[...] não adianta! eu vô lá e saio do mesmo jeito!”

... e seguindo sua cosmovisão e cultura, declara:

“A gente pensa que tá sozinho mas nós não estamos sozinho, porque tem um Deus presente,
né. E eu creio que ele vai me curá. Mesmo com a ajuda médica, eu sei que é as mãos Dele. Porque
se ele não tivé no controle das coisas... o homem não pode fazê nada.”

Na tentativa de significar seu sofrimento, os diagnósticos médicos parecem


autorizar tacitamente seu comportamento de enferma: as ‘Crises’ e o ‘Estado de
Nervo’ são aceitas pelo marido, pela igreja e pela sociedade. Lembrando a
concepção parsonista de ‘papel de doente’ (COELHO; ALMEIDA FILHO, 2002). Aqui
existe um arranjo em torno deste diagnóstico que produz sentido e por fim alívio
para S. M., cumprindo seus deveres (tomar a medicação) e direitos (ser afastada
das responsabilidades sociais). Os filhos e as pessoas em volta (como as amigas do
coral da igreja) tentam lhe dar o suporte necessário para dirimir os males de uma
doença e assim reforçam estes papéis.
Porém este arranjo não é hegemônico: o pai e a irmã possivelmente
apoiando-se em outra racionalidade, reprovam o uso das medicações, nominando
estas medicações de “porcaria” e desconfiam da atribuição de ‘doença’ aos seus
problemas, o que lhe causa muita revolta.
63

‘Estado de Nervo’ e ‘Crise’ são experiências fluídas que se misturaram no dia


a dia da S. M.. Estes conceitos apreendidos de uma análise das palavras com seu
contexto de enunciação serviram para os propósitos de salientar alguns elementos
da dimensão subjetiva. A distinção que propusemos aqui serve para algumas
reflexões, mas não se presta a definições exatas do problema: as duas Categorias
são indistintas para ela que sofre a experiência da doença.

5. Discussão
As categorias do primeiro Tema tiveram o propósito de revelar a experiência
da doença da S. M. e sua 'doença dos nervos'. É a relação dela com seus valores
culturais, sua história, seu meio de vida e papel social. Essa relação resultou na
constituição do segundo Tema, que é a construção dela sobre seu problema de
saúde mental.
Neste estudo de caso, percebemos a participação preponderante de
elementos de natureza sócio-cultural. Estes achados corroboram com outras
pesquisas e etnografias sobre a 'doença dos nervos' (COSTA, 1987; DUARTE,
1986; HITA, 1998; MEDEIROS; TRAVERSO-YÉPEZ, 2004; PATEL; KLEINMAN,
2003; RABELO; ALVES; SOUZA, 1999; SILVEIRA, 2000). Esta natureza pode ser
entendida na discussão do gênero, nas diversas formas de violência social, na
cosmovisão – trazendo a questão da concepção de morte –, nas condições
econômicas do extrato social e nos recursos de apoio que ali se dão.
A discussão sobre gênero certamente se alinha ao caso de S. M.. O advento
dos métodos anticoncepcionais, a democracia, o capitalismo, a Revolução Industrial
e a introdução da mulher no mercado de trabalho trouxeram algumas mudanças no
papel que a mulher vinha exercendo até então nas sociedades ocidentais (KOLLER;
NARVAZ, 2007). Entendemos por gênero o debate militante científico-cultural
originado nos anos 70 pelos movimentos feministas de questionamento da
determinação sexista do papel social e da exploração/opressão resultante disto
(COSTA, 2001). Estas novas possibilidades de emancipação para as mulheres
trouxeram também novos modos de dominação: ainda percebe-se uma continuidade
64

de um sistema opressor, quando se observa que as mulheres ganham, em média,


menos do que os homens, realizando o mesmo trabalho e a permanência da divisão
sexual do trabalho, principalmente na esfera doméstica (VAITSMAN, 2001). Isso fica
claro quando S. M. relata a sobrecarga destes papéis na gênese de seus problemas.
As preocupações da manutenção do lar, expressas na limpeza e na educação dos
filhos refletem isso. Mesmo tentando se inserir no mercado de trabalho, as
obrigações de casa permaneceram sobre ela.
Medeiros e Traverso-Yépez (2004) constatam que na literatura a 'doença dos
nervos' é mais prevalente no gênero feminino. Esta predominância pode ser
explicada por vários fatores que se incluem na discussão de gênero, como por
exemplo, a atribuição do papel relacional ou cuidador na sociedade ocidental à
mulher (COSTA, 2001; KOLLER; NARVAZ, 2007; MCGOLDRICK, 1995;
MENDONÇA et al, 2008; SILVA et al, 2007). Este papel pode favorecer, como
descrito por McGoldrick (1995), à uma predisposição para que as mulheres estejam
mais sensíveis aos eventos da comunidade, como a morte de alguém. Este
fenômeno pode explicar o porquê da ‘crise de nervo’ da S. M. ao saber da morte do
amigo do filho.
Outro ponto que enfatiza a questão de gênero é descrito por Duarte (1986)
em sua etnografia. Ele expõe que nas sociedades patriarcais a mulher ocupa
tipicamente o lugar da vida privada. Ao manifestar uma ‘crise de nervos’ ela se torna
pública, ou seja, ela entra em outra dimensão do arranjo social, adquirindo outro
status. Assim, ao freqüentar as unidades de atendimento médico com as ‘crises de
nervos’, poderíamos inferir que além de outros elementos de conforto (medicações,
sono, cuidado), a exposição à vida pública estaria trazendo também um recurso
terapêutico para ela.
Outros elementos das questões sociais e de gênero encontradas em nosso
estudo são também destacados em outros trabalhos: incapacidade de sucesso
como mãe/esposa por adultério (SOUZA; RABELO, 2000); violências, abandono e
pobreza (COSTA, 1987; RABELO; ALVES; SOUZA, 1999; SOUZA; RABELO, 2000;
SILVEIRA, 2000); morte da mãe e violência na infância (HITA, 1998); baixa
escolaridade (LUDERMIR, 2008; MEDEIROS; TRAVERSO-YÉPEZ, 2004).
65

A histeria (outro nome para 'doença dos nervos'), segundo Hita (1998), foi
sendo assumida por esta nova entidade nosológica, a depressão, que se tornou uma
epidemia mundial no gênero feminino. Com isso estabeleceu-se uma causa e um
tratamento para algo que foi definido como doença. Ao nosso entender, a
medicalização do sofrimento da histeria, ganhou mais força ao ser transportada para
a linguagem médica da depressão, pois se antes não haveria tratamentos capazes
de resolver os sintomas, com o desenvolvimento farmacológico e o conseqüente
aprimoramento das categorias psicopatológicas, agora existe a promessa de ‘cura’.
O título “A minha melhor amiga se chama fluoxetina” (DIEHL; MANZINI;
BECKER, 2010, p. 331) representa enfaticamente essa relação. A larga utilização de
psicotrópicos na sociedade pós-moderna (MORRIS, 2000) pode simbolizar uma
tentativa de aquietar questões mais amplas da nossa cultura ocidental como o
isolamento social pelo individualismo, as exigências cada vez maiores de ascensão
social, sem citar ainda questões do modo de produção excludente e iniquidades
sociais que já foram colocadas acima.
Esta confiança no remédio e na medicina aparece em algumas expressões
que S.M. utiliza para exaltar o poder dos médicos no ato de prescrever e curar.
Apesar de ser religiosa e ter em sua concepção o elemento da ‘cura divina’ e do
poder de Deus para controlar todos os aspectos da cura, existe ainda uma fé na
medicina como recurso último de tratamento para seu mal.
Esta situação está de acordo com o levantamento sobre o uso de
psicotrópicos e a medicalização no trabalho de Carvalho e Dimenstein (2003). Estas
autoras concordam com Dutra et al (2008) que percebem o uso das medicações
para a minimização do sofrimento. A medicalização, segundo eles, é por conta do
reducionismo que a abordagem do sistema de saúde promove ao restringir o
cuidado à prescrição de remédios.
Para Fonseca, Guimarães e Vasconcelos (2008), as representações dos
servidores de saúde estão atreladas à divisão mente/ corpo e abordam o sujeito
separadamente do seu mundo, aspecto que leva à medicalização do sofrimento e
prescrição de calmantes, o que muitas vezes apenas pioram a elaboração da
realidade e as chances de uma mudança real no contexto da pessoa.
66

Mendonça et al (2008) refletem que a medicação recoloca a mulher nos seus


papéis sociais e reafirma seu papel de gênero. Também é uma resposta para as
angústias dos conflitos familiares, para a pobreza e eventos da vida (morte,
separação e etc.). Os calmantes regulam e são regulados por estes eventos,
trazendo uma resposta rápida para o problema, enquanto outras formas de alívio já
não são tão eficazes neste ponto, como conversar sobre seus problemas com outra
pessoa, as várias formas de aconselhamento terapêutico, atividades lúdicas ou
vinculadas a grupos que comportam redes sociais, por exemplo.
Aqui vai uma discussão interessante: se são as dificuldades crônicas da vida
que mais importam para a saúde mental das pessoas, quando comparadas aos
estressores agudos (LUDERMIR, 2008), nos parece um tanto ilógica a ênfase nos
meios imediatos de curto prazo para o alívio dos sintomas. Seria por causa da
gravidade do desconforto ou por uma questão da cultura pós-moderna (MORRIS,
2000) imediatista, exigindo uma resposta rápida ao problema?
Mas seria a discussão das naturezas socioculturais e de gênero, ou da
medicalização e utilização de remédios a única forma de abordar a ‘doença dos
nervos’?
Apoiados nos resultados do nosso trabalho gostaríamos de salientar dois
aspectos alcançados aqui que podem embasar algumas outras considerações
práticas. O primeiro está relacionado com os ‘microdeterminantes’ encontrados aqui.
O segundo elemento que pudemos perceber com este estudo, está de acordo com
os achados de Patel e Kleinman (2003) sobre os macrodeterminantes do processo
saúde/doença no caso dos Transtornos Mentais Comuns e conseqüentemente, na
‘doença dos nervos’.
Concordamos com Silveira (2010, p. 455) que discorre sobre os
microdeterminantes, refletindo sobre sua etnografia da 'doença dos nervos', quando
coloca que “a dimensão narrativa da doença é o primeiro passo na busca da cura e
que o trabalho terapêutico de qualquer médico começa justamente na escuta [...]”.
Com isto, enfatiza-se a capacidade tecnológica que ferramentas como a História de
Vida/Oral e as narrativas da doença em geral têm de proporcionar a compreensão
da experiência da doença. O valor desta compreensão é inestimável para se
67

alcançar qualidade na relação de cuidado em saúde mental. Outro benefício que


queremos destacar, ainda discorrendo sobre o mesmo aspecto, é que as narrativas
auxiliam na ressignificação da enfermidade para quem sofre (HYDÉN, 1997; NÚBIA;
CARDOSO, 1998; RABELO, 1999; SOUZA, 1998), produzindo um efeito terapêutico.
Quando se fala dos macrodeterminantes, percebemos que as questões de
gênero, as iniquidades sociais, as condições de estudo, o trabalho, os valores
culturais sobre relações de poder (violência na infância permitida no âmbito familiar)
e outros, necessitam abordagens que somente a promoção de saúde (ARANTES et
al, 2008) poderia abranger, questionando o modo de produção de bens e suas
conseqüentes iniquidades, promovendo políticas públicas saudáveis, agindo com
outros setores da sociedade para ampliar o cuidado, influenciando a formação
acadêmica em saúde com conceitos relevantes do ponto de vista sócio-
antropológico permitindo assim o desenvolvimento de profissionais com
competência cultural (TARGA, 2010).
A desumanização, que pode ser uma das causas da precarização das ações
em saúde, pode ser atribuída a não valorização das tecnologias leves (TEIXEIRA,
2005). Merhy (1998) define como tecnologias leves de atenção à saúde, aquelas
que não pertencem a nenhuma categoria profissional específica: escuta,
acolhimento, vínculo, gestão local e rede de conversas. As tecnologias leve/duras
seriam aquelas que necessitam um conhecimento específico para serem
operacionalizadas: saberes clínicos, epidemiológicos e relacionais. As tecnologias
duras representam aspectos gerenciais em saúde ao nível de sistema (Saúde
Coletiva e Gestão), conhecimentos e técnicas relacionados ao uso de equipamentos
materiais (instrumentos, exames, insumos, etc.).
O que concluímos com isso tudo é que uma escuta ativa para colher a história
de vida de uma pessoa, dentro de uma postura dialógica que privilegia o vínculo, é
uma das características encontradas na utilização da História de Vida/Oral. Portanto,
a História de Vida/Oral se torna uma ferramenta especial de trabalho na saúde, pois
tem em seus elementos características de uma tecnologia leve, mas em sua
aplicabilidade seria caracterizada de leve/dura.
68

Não propomos aqui sua utilização em larga escala, mas que seja uma opção
para agravos de saúde complexos como a ‘doença dos nervos’ ou em situações que
demandem da equipe de saúde um conhecimento mais profundo da ‘pessoa’
atendida. Nestes casos esta abordagem se torna uma proposta interessante.
Com isso, entendemos que as ações integradas propostas no SUS de
promoção, proteção e recuperação da saúde devem estar embasadas na ampliação
da perspectiva que os determinantes sociais abarcam, mas também não podem
perder o foco da singularidade dos indivíduos que pretende atender e na utilização
de práticas e filosofias de trabalho. Assim, percebemos que a utilização da História
Vida/Oral foi um instrumento adequado para a apreensão da intersubjetividade da
‘doença dos nervos’ de S. M. e pode ser utilizado como técnica para reflexão sobre
problemas de saúde complexos como ocorre na ‘doença dos nervos’, em que
diversos elementos contribuem para o adoecimento e necessitam de um olhar mais
atento às questões da subjetividade. Sem este olhar, corremos o risco de reduzir o
sofrimento a doenças e o cuidado aos remédios.
69

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A construção deste trabalho se iniciou há 04 anos, enquanto ensaiava um


projeto de pesquisa para a conclusão do curso do programa de Residência Médica
de Medicina de Família e Comunidade. O projeto, ainda muito imaturo, era o produto
de reflexões sobre 02 questões que se tornaram essenciais para a prática médica:
compreender e cuidar.
Compreender é tudo o que um jovem médico recém-formado deseja ao se
deparar com as realidades do Sistema Único de Saúde no interior do Brasil. As
mazelas humanas traduzidas por doenças e o sofrimento expressado nos ‘nervos’,
constrangiam-me a uma postura mais reflexiva e dialógica na prática clínica do
então chamado “PSF” (Programa Saúde da Família). Compreender era ouvir muito.
Cuidar foi o que aprendi quase que por instinto. O conhecimento médico
adquirido na academia não era suficiente para atender às demandas, que variavam
desde a prescrição correta das medicações até situações em que o sofrimento pela
iniquidade social não tinha remédio... até certo ponto.
Foi no meio destas questões que me deparei com um assunto intrigante: as
‘crises de nervos’. Este fenômeno aparecia na maioria das vezes em mulheres, sob
nomes diferentes (estresse, convulsão, depressão, nervos) e as medicações
prescritas (antidepressivos, chás, calmantes, etc.) não eram suficientes para a ‘cura’
esperada. Assim, elas seguiam tentando o alívio em seus itinerários terapêuticos e
no caso, buscando a renovação das receitas de seus calmantes.
A resposta dentro da perspectiva de compreender era ouvir. Com algum limite,
parecia que isso bastava, porém questões mais profundas foram aparecendo
conforme o vínculo se firmava e alguns pontos cruciais começaram então a surgir.
O marido alcoólatra que agredia, o filho drogadito que estava preso,
relacionamentos marcados por traição, violência e filhos abandonados, desamparo
social, econômico e fome, um luto mal elaborado, humilhações de todos os tipos e a
que mais me chamou atenção: a violência sexual. Estes temas apareciam em
consultas que levavam mais tempo do que o corriqueiro.
70

Não sei se foi pelo teor da humilhação ou pelos anos seguidos de silêncio que
se quebravam numa consulta de “Saúde Mental”, mas a atenção a esse fenômeno
foi aumentando a cada caso que era atendido como ‘problema de nervo’. Não foi
constatado que houve violência sexual em todos os casos, mas isto era muito
freqüente.
Em meio a esta problemática, surge a questão: esta manifestação tão peculiar
de sofrimento era realmente uma doença? Existiriam outras formas de se entender o
problema que ultrapassariam o diagnóstico médico de transtorno mental? Qual seria
a melhor abordagem terapêutica para esses casos.
Algumas respostas foram surgindo na discussão sobre conceitos de
saúde/doença. A resposta da Integralidade veio após tentarmos pensar uma forma
de incluir a questão de gênero e os determinantes sociais, a perspectiva da
antropologia e da sociologia na visão tradicional deste processo.
Ao salientarmos a contribuição do gênero no estudo, nos posicionamos também
contra a opressão de uma sociedade que nega a dignidade das mulheres, afetando
inclusive a produção científica e a percepção do trabalhador em saúde sobre essas
relações de poder. Esta produção científica abrange também a formação médica. A
ausência de uma discussão mais profunda sobre os aspectos do processo
saúde/doença e a concepção biomédica da formação ainda deturpam as práticas em
saúde, levando a uma atenção preconceituosa e desqualificada dentro do ponto de
vista ético. Ao não questionar a origem dos conhecimentos adquiridos e nem sua
aplicabilidade sociocultural, corre-se o risco de favorecer esquemas traiçoeiros de
captação de renda pelo Complexo Médico-Industrial e precarizar as relações sociais
no contexto da saúde desde a formação.
Em relação aos ‘nervos’, não faltam exemplos sobre esta abordagem deturpada
na trajetória de quem trabalha em saúde. O preconceito aparece sob diversas
formas. Uma delas aparece na idéia de realizar injeções de água destilada para as
crises conversivas, numa tentativa de punir a pessoa com dor por não apresentar
uma ‘doença verdadeira’ e ‘ocupar’ o tempo de atendimento de quem está num
serviço de pronto-socorro. Aí se percebe uma reação típica do sistema de valores
desta instituição (aqui me refiro ao sistema de saúde de uma forma geral que está
71

baseada numa degradação do modelo biomédico). Da mesma forma, ao


diagnosticar um transtorno mental sem levar em consideração o entorno do
problema, reduz a abordagem aos critérios psicopatológicos, perdendo o contato
com a pessoa, que é tão caro para a recuperação da saúde em geral.
Exemplo disto é a ‘conversão’ da histeria em depressão. Hoje a depressão é um
termo corriqueiro na mídia e nos assuntos de saúde em geral. Esta grande epidemia
da pós-modernidade abrange quase que todo tipo de sofrimento que cause tristeza.
Não só no discurso do leigo, mas com o papel medicalizador da sociedade, a
resposta com antidepressivos e calmantes a todo sofrimento reforça este conceito e
gera uma expectativa de cura de uma entidade tratável, que é a depressão.
Tecnicamente a histeria não tinha tratamento eficaz, mas a depressão tem.
Estudando o caso da S. M. ousamos nos questionar: a expressão do sofrimento
humano causado por tantas violências e realidades muitas vez tão iníquas podem
ser chamadas de doença?
Considerar a pessoa no processo saúde/doença é um grande avanço conceitual.
Os maiores questionamentos que o modelo tradicional das práticas em saúde
recebem, são provenientes da perda da dimensão subjetiva que ocorreu no
desenvolvimento da medicina. Desta maneira, quando a Reforma Sanitária Brasileira
propõe a Integralidade como conceito norteador das práticas em saúde, ela
direciona o sistema de saúde para um olhar amplo sobre a saúde/doença e inclui a
(inter)subjetividade neste olhar.
A Integralidade nos parece um conceito adequado a este olhar, pois outros
termos já desenvolvidos se tornaram esvaziados de suas propostas iniciais, em
grande parte pelo seu emprego descontextualizado. A vantagem da Integralidade é
que já existe um contexto e uma prática (ações integradas de promoção proteção e
recuperação) e estão sendo implementadas cada vez mais no âmbito do Sistema
Único de Saúde e na Medicina de Família e Comunidade.
Utilizamos a ‘doença dos nervos’ justamente pela sua característica contraditória
em relação ao modelo tradicional de categorização. Como sua construção é cultural
e não se alinha aos substratos fisiopatológicos da biomedicina, foi um elemento
72

interessante de exemplo para se verificar a possibilidade da utilização da


Integralidade como conceito de saúde/doença.
A metodologia escolhida para abordar com Integralidade a ‘doença dos
nervos’ foi a História de Vida/Oral. Este uso foi evocado principalmente da
percepção de que os relatos que ouvi nos consultórios sobre os ‘nervos’ em grande
parte foram histórias de vida. Os que deram ‘mais certo’ eram aqueles em que
pudemos acessar com certa profundidade o problema e o seu entorno e a
expectativa que tínhamos era o quão profundo poderíamos chegar no
desenvolvimento deste trabalho. Por este motivo, não nos sentimos compelidos a
fazer uma pesquisa com mais de uma pessoa, pois a singularidade do caso era o
que nos interessava. Dependendo da qualidade do material e da preparação teórica
prévia, poderíamos acessar os elementos da Integralidade do processo
satisfatoriamente.
Em grande parte pelas limitações de tempo, não pudemos realizar uma
etnografia, o que poderia ter dado ainda mais profundidade a discussão. No entanto,
as visitas na casa, no bairro e na igreja enriqueceram o material e ajudaram a
constituir um contexto etnográfico. A profundidade almejada veio com as entrevistas
e o preparo teórico/metodológico do trabalho. A leitura exaustiva do material e a
confecção da Transcriação possibilitaram conclusões interessantes sobre a
perspectiva da S. M. sobre o que influenciou a desenvolver o seu problema de
‘nervos’.
Acredito que as contribuições mais expressivas do trabalho para S. M. foi o tempo
que ela pôde receber de reflexão sobre seus problemas durante a narrativa
dialógica. Durante o nosso estudo e a gravação das entrevistas, podemos perceber
uma melhora substancial dos seus ‘nervos’ e fato que chama atenção: mesmo após
alguns meses, continuava bem e sem remédios.
Aqui, destaco a importância da História de Vida/Oral como um instrumento
também terapêutico dentro do ponto de vista da saúde mental. Não que apenas
ouvir como foi a vida de uma pessoa possa em si levar à cura ou conforto, mas
como já colocamos no Capítulo 02, em casos complexos em que se precise de uma
73

compreensão mais profunda da ‘pessoa’, a História de Vida/Oral se mostrou eficaz


em nosso caso e poderia ser usado em outras situações semelhantes.
Como médico de família e comunidade, fui treinado a realizar genogramas, fazer
abordagens familiares incluindo elementos de terapia familiar, montar grupos
terapêuticos e tive experiência com ‘rodas de conversa’/terapia comunitária para
trabalhar questões de saúde mental. Porém, o que enriqueceu minha experiência
como médico neste estudo, foi a capacidade que a Transcriação da História Oral
teve de me levar a uma auto-reflexão sobre minha postura durante o diálogo. Em
todas as ferramentas que citei acima, a crítica geralmente vem de outra pessoa
(quando há um instrutor), mas ao escrever o que se fala e objetivar o diálogo,
analisando-o minuciosamente, obtêm-se um rico material para (auto)reflexão.
Este exercício de analisar a fala (incluindo a minha) produziu algumas mudanças
no meu dia-a-dia como preceptor da residência de medicina de família e
comunidade e como médico. Pela sutileza das mudanças, elas podem ter ficado ao
nível da postura/atitude, mas provavelmente impactaram também o cuidado que eu
presto.
Conhecer o outro ‘pelo outro’ é um exercício também muito rico que ocorre na
História Oral como disciplina. Retirar a voz da ‘academia’ e a minha própria voz da
análise em alguns momentos, possibilitou ampliar a minha percepção sobre a
natureza do fenômeno da doença e valorizar os instrumentos que a Medicina de
Família e Comunidade possui com este tipo de abordagem. A Clínica Ampliada, o
Método Clínico Centrado na Pessoa e as diversas formas de Abordagem Familiar e
Comunitária podem ser enriquecidas com médicos treinados para esta postura
dialógica e sensível à intersubjetividade.
Não como método, mas como exercício, a História de Vida/Oral pode ser utilizada
na formação médica ou de Médicos de Família e Comunidade como tecnologia leve-
dura. Assim, poderíamos aumentar a capacidade autocrítica destes profissionais e
também promover uma reflexão mais profunda sobre o processo saúde/doença,
‘desmedicalizando’ o sofrimento da pessoas que atendemos e fortalecendo a
proposta básica de qualquer ato em saúde: o cuidado.
74

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84 p. (Colecão Antropologia e Saúde).
82

APÊNDICE A
UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM SAÚDE DA FAMÍLIA
MESTRADO PROFISSIONAL EM SAÚDE E GESTÃO DO TRABALHO

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO


Você está sendo convidada a participar, como voluntária, em uma pesquisa de
mestrado. Após ser esclarecida sobre as informações a seguir, no caso de aceitar
fazer parte do estudo, assine ao final este documento, que está em duas vias. Uma
delas é sua e a outra é do entrevistador responsável. Em caso de recusa você não
será penalizada de forma alguma.

PESQUISA: HISTÓRIA DE VIDA E SOFRIMENTO FEMININO: UM RELATO


AUTOBIOGRÁFICO DA DOENÇA DOS NERVOS.

Pesquisadora responsável: Profa. Dra. Yolanda Flores e Silva (orientadora).


Contato: yolanda@univali.br / fone: (47) 3341 7932
Pesquisador co-responsável: Rodrigo Cechelero Bagatelli (mestrando)
Contato: rodrigobagatelli@yahoo.com.br fone: (41) 99622572

A presente pesquisa pretende fornecer informações para elaboração da


dissertação de Mestrado Profissional em Saúde e Gestão do Trabalho de Rodrigo
Cechelero Bagatelli. Ela será realizada no município de Curitiba, Estado do Paraná e
tem como objetivo analisar a história de vida de uma mulher com o sofrimento
feminino caracterizado como ‘doença dos nervos’ para melhorar a compreensão e o
cuidado das pessoas que sofrem deste problema.

A pesquisa será realizada conforme a sua conveniência com encontros individuais,


onde serão gravadas as entrevistas. Sua identidade será preservada e sua
participação é voluntária e caso não deseje participar não haverá qualquer prejuízo a
sua pessoa. Fica registrado que a participação voluntária não implica em pagamento
de qualquer espécie [remuneração ou indenização]. Também não haverá
83

ressarcimento para quaisquer outras ações judiciais movidas pelo entrevistado a


exemplo de desconforto e danos morais.
Espera-se com o resultado da pesquisa, a construção de abordagens mais
humanas que possam ajudar no cuidado de pacientes que sofrem desta
enfermidade. Esta pesquisa não causa nenhum risco à sua saúde.
Fica acordado que o resultado da pesquisa será informado ao participante.
Durante o período de participação e término da entrevista e mesmo após o término
da pesquisa, fica garantido o sigilo dos seus dados pessoais, dando o direito de
você retirar o consentimento de participar a qualquer tempo.

Nome:
RG:
CPF:
84

APÊNDICE B
UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM SAÚDE DA FAMÍLIA
MESTRADO PROFISSIONAL EM SAÚDE E GESTÃO DO TRABALHO

TERMO DE ACEITE DE ORIENTAÇÃO

Eu, Yolanda Flores e Silva, Professora Drª da Universidade do Vale do Itajaí


– UNIVALI concordo em orientar a pesquisa para a dissertação de mestrado do
aluno Rodrigo Cechelero Bagatelli, tendo como tema: HISTÓRIA DE VIDA E
SOFRIMENTO FEMININO: UM RELATO AUTOBIOGRÁFICO DA DOENÇA DOS
NERVOS.
O mestrando está ciente das Normas para Elaboração do Projeto de
Mestrado, bem como do Calendário de Atividades apresentado.

Itajaí-SC, 10 de maio de 2010.


85

APÊNDICE C
UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ – UNIVALI
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM SAÚDE DA FAMÍLIA
MESTRADO PROFISSIONAL EM SAÚDE E GESTÃO DO TRABALHO

HISTÓRIA DE VIDA/ORAL DE S. M.4

1. Genograma5 da S. M. realizado em out/Nov 2010


Legendas utilizadas:

Homem Mulher

Casados Divórcio Vivendo Juntos Separados

Vivendo na mesma casa Informante Etilismo Doença Mental Recuperando Dça Mental

Relação entre as pessoas:

Distante Amizade/apoio Conflituosa Manipulação Violência

Relação reatada Melhores amigas Relação hostil

4
Todos os nomes das pessoas citadas neste relato foram trocados para preservara identidade da
informante.
5
O Genograma é uma representação gráfica da estrutura e das relações familiares, utilizado em
Medicina de Família e Comunidade para auxiliar na abordagem familiar e entre outros objetivos,
produzir insights para a pessoa que informa sobre seu contexto de enfermidade (MCGOLDRICK,
1995; MCWHINNEY; FREEMAN, 2010)
86

Genograma da Sra. S. M. realizado entre outubro e novembro de 2010


87

2. Ecomapa da Sra. S. M.6

Pai
Unidade de Saúde

Pastor
Irmã Hospital

Tio João e tia Tânia


Queila (filha)
Filhos

Marido Mãe (falecida)

Rafaela (igreja) Sara (igreja)

Psiquiatra

Polícia

6
O Ecomapa é uma representação gráfica das relações do informante com a rede de apoio social e
foi construído junto com S. M. (MCWHINNEY; FREEMAN, 2010).
88

3. Um nascimento cheio de alegria7


Eu nasci em P8 às dez horas da manhã, no dia quatro de julho de 1966.
Dizem que no dia que eu nasci, meu pai, que era meio bravo, ficou muito feliz! Ele
não saía de volta de mim! Ele estava tocando a lavoura no sítio onde trabalhava.
Veio pra casa e não deixava ninguém chegar perto. Queria ficar o tempo todo
comigo no colo, diz que minha avó brigava com ele porque estava com a camisa
suja...

4. Minha Mãe
Minha mãe morreu com cinqüenta e cinco anos. Ela morreu no dia quatro de
agosto e no dia sete meu segundo filho nasceu... Eu aguentei até o dia sete. Morreu
há vinte anos atrás, no dia quatro de agosto, logo quando mudamos para cá. Ela
tinha sido operada do coração em novembro do ano anterior. O médico tinha dito pro
meu pai que ela não ia aguentar muito tempo, só que ele não contou pra gente. Ele
só contou no dia que ela faleceu. O médico veio e nem precisou levar pro IML. Só
veio pra dar o atestado de óbito.
Acho que o coração dela aguentou mal, conforme os médicos falam, ele não
suportou tanta coisa, não é? Ela vinha sofrendo há anos e vendo tanta coisa... Meu
pai tinha se separado dela naqueles dias, não tinha mulher e estava morando
comigo. Aí ele falou “quer saber de uma coisa, vou buscar sua mãe pra viver com
ela, eu tenho que cuidar dela! Eu casei com ela, eu tenho que cuidar dela!”. Aí
arrumou uma casa aqui perto e foi buscar ela. Dalí a dois dias ela faleceu... Eu
penso que se ele não tivesse buscado ela e tivesse vivido longe, acho que ele tinha

7
Este apêndice é o produto final da Transcriação, parte final da metodologia da História Oral que
ocorre após a transcrição da entrevista. Aqui o texto recebe um tratamento pelo autor, que é a
correção dos elementos lingüísticos e textuais para um relato mais fluído e também é colocado em
ordem cronológica (no caso da História de Vida).
8
Retirado para manter a privacidade do sujeito da pesquisa.
89

ficado doente. Tinha sido pior pra ele. Porque eu sempre converso com a minha
irmã e falo assim “eu acho que o pai se arrepende muito, não é?”. A sorte dele é
que ele a buscou dois dias antes dela falecer.
A minha mãe era muito doente. Ela trabalhava muito quando a gente era
pequeno. Nós vivíamos mais na casa dos vizinhos ou da minha avó, porque ela era
muito doente. Uma vez ela teve uma hemorragia muito grande. Eu era criança, mas
eu lembro. Tiraram ela enrolada num saco plástico, ela nem se mexia... Eu achava
que ela estava morta. Meu tio teve que levá-la num caminhão para a cidade. Ela
estava grávida e abortou o nenê. E com trinta e três anos tiraram o útero dela, por
causa da hemorragia. Ela era muito nova quando teve esta hemorragia e foi a partir
daí que ela começou a ter as crises, porque na época da menstruação o sangue não
tinha como descer e subia para a cabeça, foi o que os médicos disseram para o meu
pai. Eu acho que isso não faz muito sentido...
Aí ela foi internada no Hospital por um ano e pouco quando a gente era
criança e passou a ser internada por problema mental. Por isso eu acho que esses
problemas já vêm um pouco de família, não é?! Uma vez minha mãe mandou eu e a
minha irmã para São José para passear, mas ela queria era se matar! Aí, quando
cheguei em casa ela tinha tomado remédio de rato! Gritei para os vizinhos e
acudimos ela a tempo e daí ela ficou internada no Hospital Pinheiros de novo. Uma
outra vez eu peguei ela com os pulsos cortados com gilete. Ela se cortou e foi na
cozinha mostrar para nós... era um domingo e estava eu e a minha irmã sozinhas
em casa. Foi aquele pânico de novo! Meu pai chegou correndo e levou ela para o
hospital.
Daí ela ficou fraca da cabeça. Tinha dia que ela fazia meu pai levá-la para P9,
porque minha tia precisava dela. Meu pai viajou com ela e chegando lá, ela quis
voltar imediatamente para Curitiba porque nós estávamos precisando dela...!
Também diz que via coisas, via gente dentro de casa... assim, bem perturbada!

9
Retirado o nome da cidade para preservar a identidade do sujeito do estudo.
90

Tinha um poço no fundo da casa onde a gente morava e ela tentava ir pra
dentro, teve até que fazer uma tampa de cimento, pra ela não se jogar. Eu não sei
de nenhum motivo para ela tentar se matar, eu acho que era fraca da cabeça
mesmo. O pai não ficava em casa muito tempo porque trabalhava viajando e ela
ficava sozinha conosco. Depois ela melhorou com uns tratamentos que os médicos
começaram e ficou boa.
Aí logo a gente veio para cá. Com vinte e quatro anos eu estava grávida do
meu segundo filho e a minha mãe faleceu três dias antes dele nascer... Eu estava
nos dias de ganhar e tinha feito todo o enxoval dele. No último dia ela foi lá em casa,
pediu pra eu tirar todo o enxoval do guarda-roupa por cima da cama pra ela ver. Ela
pegou peça por peça das roupas e disse “você está judiando da tua mãe, não é
menino? Eu vou te dar umas palmadas! Quem vai cuidar de você? O primeiro banho
é a avó quem vai dar!”.
Estes foram os dias mais longos da minha vida, mais tristes... porque eu não
dormia, passava sentada na porta de casa. Sentia a dor dele nascer e não queria ir
pro hospital porque não lembrava que estava grávida. Quando minha mãe estava
sendo velada na igreja, eu não saía de volta dela nem um minuto. Até a hora de
sepultar! Eu sabia que não ia ver ela mais, não é? Ela era uma mãe especial, pra
mim foi. Eu sei que todos ajudaram ela da melhor forma possível. Ela tinha o cabelo
bem longo e a mexa do cabelo dela caía por cima, parecia que ela estava sorrindo.
Eu não queria deixar ela nem um pouco. Fui até o cemitério no estado que eu
estava. Não podia andar. Dentro da igreja rompeu a bolsa e quis nascer, mas eu não
fui pro hospital! Fiquei até as últimas horas. Não conseguia lembrar que estava
grávida. Aí me levaram para o hospital e mesmo assim eu não lembrava que estava
grávida.
Lá os médicos tinham me deixado num quarto sozinha. Eu não queria ver
ninguém e quando as outras mães diziam “a vovó veio te ver filha...”, nossa! Aquilo
me dava um desespero tão grande que parecia que eu ia morrer! Eu tinha que sair
do quarto e entrar no banheiro pra não ver! Eu lembro que o médico chegou pra mim
e falou “o fruto não cai da árvore se não está maduro! Você não pode ir embora
agora, você tem que ficar aqui até nascer o bebê!”. Eu só queria ir pra casa.
91

Fiquei vários dias internada, porque eu fiquei doente também...sentia muitas


dores no corpo, doía toda as juntas do meu corpo, doía tudo. Não conseguia pegar
nem o neném no colo pra dar de mamar. Precisava da enfermeira pra dar de mamar.
Depois eu nunca mais tive isso. Eu fiquei sete dias lá, tinha febre, mas acho que
tudo era por causa dos nervos que eu estava passando.
Depois que ele nasceu é que eu fui cair em si que eu estava grávida! Que eu
tinha um nenê... Daí eu lembrava da minha mãe direto. Eu estava no pré-parto
quando a enfermeira entrou, depois que ele tinha nascido, para tirar a pressão. Eu
pensei que era minha mãe que estava entrando. Aí ela entrou e disse pra mim, não
sei se estava sonhando ou o quê que era, sei que ela disse pra mim “já nasceu o
nenê? O quê que é?” e eu falei, abri o olho e era a enfermeira. Aí eu entrei em
pânico na hora! Daí eles me sedaram e no hospital eles me deixavam sedada. Eu
dormia o tempo todo quando ele nasceu. Fiquei quase louca da cabeça quando ela
faleceu! Eu não achei que perder a mãe ia ser tão difícil!
Achava que minha mãe tinha fome, sede... Toda noite quando eu achava que
o sol ia se pôr, nossa! Parecia que eu estava sufocando junto com ela na terra! Fiz
várias vezes meu marido me levar no cemitério. Queria entrar no caixão por força.
Sei lá, me dava uma aflição muito grande! Não sei se por causa da gravidez que eu
estava. Sei que foi muito triste quando ela morreu.
Após a alta do hospital, o médico passou os remédios e fui pra Curitiba, na
casa da minha tia. Fiquei lá até melhorar e depois fui embora. Lá eu melhorei bem,
porque ela ia dar aula e deixava uma pessoa para cuidar de mim em casa. Uma vez
passei mal e era noite. Ela ligou para o médico e ele mandou fazer um chá tipo
calmante para eu tomar e daí eu dormi bastante e melhorei. Quando fui para casa já
estava cuidando da família, do meu pai, do meu irmão, de tudo...
92

5. Infância em P10
Eu não lembro muito antes dos seis anos de idade... Hoje em dia as crianças
com seis anos parecem mais espertas, não é? Só lembro que minha mãe já avisava
quando o pai estava vindo da roça: “ó, teu pai está vindo! não vão fazer bagunça
senão papai vai bater! Não corra dentro de casa!” ela dizia pra nós, “não vai dar
risada senão vocês apanham!”. Meu irmão era pequenininho. Então a gente já...
ficava dentro do quarto. Minha mãe era acostumada a dar a janta pra nós mais cedo
e a gente ficava dentro do quarto, porque ele era bem nervoso.

6. Infância e adolescência em São José dos Pinhais


Eu não lembro muito de antes dos seis anos, só sei que nós chegamos em
São José e fomos morar na casa da minha avó por parte de mãe, porque ela já
morava aqui. Por parte do meu pai eu não conheço, eles moram em Aracaju-
Sergipe.
A gente veio porque lá diz que teve a geada preta que queimou todos os
cafezais. Não tinha serviço, pois meu pai mexia com café. Ele não tinha terra,
trabalhava pra alguém... Não tinha solução, daí tivemos que vir embora. Daí a gente
ficou com eles até meu pai arrumar um emprego. Aí ele arrumou um emprego,
alugou a casa e fomos pra casa da gente. Então eu comecei a estudar. Eu estudava
no Silveira da Mota. Essa é a parte que eu mais lembro da minha infância.
Na escola, como a gente era mais humilde, mexiam muito com a gente... Eu
não levava desaforo pra casa! Os outros podiam até falar qualquer coisa comigo, eu
aceitava. Mas se mexessem com minha irmã, que ela era bem quietinha...! Ficavam
chamando ela de mendiga. Uma vez eu quase matei uma menina! Passei a mão
numa vara, numa vara de cerca que tinha perto e o prego estava junto... Era uma
ripada e o sangue descia... Porque eu vi a minha irmã chorar e ser humilhada! Eu

10
Retirado o nome da cidade para preservar a identidade do sujeito do estudo.
93

não acho direito a pessoa humilhar ninguém! Não que eu não sou mais do que o
outro. Pode ser em estudo e em dinheiro, mas eu acho que no caráter e na
dignidade nós somos iguais! Aí eu lembro que meu pai também dizia que se nós
apanhássemos no colégio, apanhava em casa. Então não podia apanhar no colégio.
A gente estudava e não era de provocar ninguém, mas sempre tinha alguém que
gostava de... assim... cutucar a gente! Sempre tem um ou outro que gostava.
Comigo não mexiam, mas a minha irmã, como era bem quietinha, menor, eles
empurravam, derrubavam, batiam, daí eu não aceitava, não deixava.
Eu lutava por ela e pelo meu irmão. Eu ia na escola defender ele dos
meninos! Eu levava tapa dos piá, mas eles levavam também! Eu ia bater neles no
colégio! Eu ia buscar e não deixava... Eu achava que era a irmã mais velha e não
podia deixar espancar os meus irmãos! Eu tinha os dois, os dois irmãos que era a
Marcela e o Mauro. Eu sou mais velha que a Marcela dois anos e do que o Mauro eu
sou quatro anos.
Quando era criança o Mauro apanhava porque vindo da escola, passava no
rio, tomava banho, chegava em casa e todo dia levava uma surra. Mesmo assim, a
gente falava: “Mauro, você não cria vergonha na cara! o pai quase mata você e você
ainda...”. Pior que se batesse só nele! Mas meu pai era meio ignorante, se ele fosse
bater em um ele pegava nós três! Apanhava todo mundo junto! Fizesse ou não
fizesse errado apanhava! Porque apanhava eu e com a minha irmã que entrava no
meio daí, não é? Daí era aquele sufoco quando meu irmão estava indo pra escola, a
gente ficava com o coração na mão e falava: “Ah meu Deus! o Mauro vai passar no
rio e vai demorar! Papai chega e ele não está em casa... vamos apanhar todo
mundo!”. A nossa sorte é que a avó corria para acudir! Um dia ela pegou com ele: “O
dia que você for bater no que estiver errado, você bate naquele que estiver errado,
não naquele que não fez nada errado!”. E ele considerava bastante a minha avó
porque ele a chamava de mãe. Daí ele parou.
Ele parou de fazer isso quando eu tinha mais ou menos quinze anos pra cima.
Só que daí a gente ficava preocupada com meu irmão, não é? Porque daí meu Deus
do céu... meu irmão era teimoso! A gente dizia “Mauro, não vai no rio! Mauro, chega
na hora certa senão o pai vai bater em você!”. A gente escutava aqueles barulhos
94

batendo, como num cavalo e não podia nem chorar! Não escutava choro! Escutava
os barulhos...
Para bater ele colocava a gente num quarto, fazia ficar sentado e ele falava
assim: “Engole o choro! Não deixo chorar!”. Batia em nós com aquele negócio do
facão, a bainha, e não deixava nós chorar. Se nós chorássemos ele jogava a gente
pelas paredes. Nós tínhamos que engolir o choro! Apanhava de ficar mancha deste
tamanho nas costas inteirinha! O meu irmão uma vez estava vendendo sorvete. Só
porque estava na frente do bar sentado, esperando para encher a caixinha de
sorvete, ele trouxe meu irmão em casa e quase matou meu irmão. Deixou ele com
as costas toda preta! Toda preta... Ele batia com a bainha do facão ou com a cinta.
Quando eu tinha dez anos, ele nos surrou tanto com a cinta que a fivela pegou no
meu umbigo e fez uma ferida enorme. Ele bateu e puxou... Nossa, foi feio!
Outra vez... a minha irmã era muito chorona, mas eu conseguia segurar o
choro. As lágrimas escorriam, mas eu não soluçava... Só que ela começou a
soluçar! Daí ele jogava ela pelas paredes. Daí eu gritei, pra ele “não papai, não faça
isso!” e coloquei a mão no rosto. Daí ele me deu ...tipo de um murro e eu também fui
pra parede que ele jogava. Daí minha mãe entrou junto, ele viu e acho que com
medo de ter matado minha irmã, saiu. Minha mãe nos pegou e saiu de dentro de
casa. Foi pra casa da avó, mas de noite ele veio buscar. Só que era assim: ele batia
agora e depois chegava como se nada tivesse acontecido! Não falava nada! Ele
chegava na casa da minha avó, pegava minha mãe e falava “eu vim buscar você
com as crianças”. Minha mãe voltava... Ela pegava a gente pra ele não bater mais e
íamos pra casa da avó... aí a gente voltava pra casa!
Eu tinha medo de dormir. Meu pai dizia que se nós não ficássemos quietos
ele matava a mãe. Nós íamos dormir de noite com medo dele matar ela, não é? A
gente ficava com aquela coisa na cabeça e nem dormia. Daí de passo em passo, eu
levantava devagarzinho e ia lá no quarto pra ver se estava tudo bem. Eu chamava
“mamãe!” - sempre chamamos de mamãe e papai-. Daí ela respondia assim “Está...!
Vai dormir menina!”. Mas a gente ficava com aquele negócio na cabeça... Que tal
que ele matasse ela?! Mas ele só falava, não fazia...
95

Sempre sofrendo desde criança, nunca fui uma menina feliz, não! Eu tive que
cuidar de casa como uma dona de casa desde pequena... Senão quando ele
chegasse, quando ele entrasse dentro de casa, era só sofrimento... era só apanhar
... Não era como as outras crianças, não! Minha mãe não podia falar nada, se ela
falasse ela também apanhava. Ela tinha que ficar quieta, só assistindo...
Trabalhava assim na lavoura eu nunca trabalhei não. Quando a gente foi
embora pra Curitiba, eu comecei trabalhar, mas daí fiquei com um problema sério
nos rins, fiquei internada dezesseis dias entre a vida e a morte na Nova Clínica e daí
não aguentava trabalhar. Trabalhei pouco tempo a partir daí. Trabalhava na casa de
doméstica, mas não aguentava trabalhar. Ele nunca obrigou nem o meu irmão a
trabalhar pra fora, ajudar em casa. Ele nunca obrigou a ter que trabalhar e dar tanto
de dinheiro em casa! Minha mãe nessa parte ela já era mais... crica. Ela queria que
nós arrumássemos serviço pra trabalhar. Aí meu pai dizia: “Não adianta trabalhar,
ela tem problema nos rins e é melhor ficar em casa. Enquanto ele estivesse ciente
de que a gente estava doente ele tratava bem. Sarou e ele achava que precisava
apanhar, ele batia mesmo! Isso era mais ou menos quando eu tinha catorze anos.
Desde que meu pai começou a trabalhar viajando eu tinha que fazer o serviço
de casa... Pra isso eu servia. Ele chegava em casa e dizia “ah, vem pra cá fazer
isso” ou “segunda feira, eu vou viajar , aí você vai pra casa da tua tia. Final de
semana você vem pra casa e limpa a casa”. Eu era tipo uma empregada! Tinha que
fazer o serviço de casa! Aí quando ele saía pra viajar, eu tinha que ficar na casa com
a minha tia... A minha tia me tratava bem... É que em casa eu não prestava. Mas pra
trabalhar eu servia! Estudar que eu tanto quis, eles não deixavam. Eu estudei só até
a sétima série.
Meu tio... Eu amo ele como um pai. Até hoje se eu precisar de alguma coisa é
só ligar. Tudo o que eu precisar é só ligar para eles. Tanto que meu pai às vezes
fala: “tudo pra você é sua tia, tudo pra você é...”. Mas realmente é mesmo! Na outra
vez que eu fiquei internada, no Hospital psiquiátrico, eles sempre estavam lá. Meu
tio chegava fora do horário de visita e mesmo assim eles deixaram ele entrar. Ele é
como um pai pra mim. Tenho por ele um carinho, um amor como de um pai.
96

Para ter um namorado, Deus o livre?! Se arrumasse um namorado, para ele


tinha que casar. Então eu tinha que namorar escondido dele... e ele não podia nem
perceber porque se ele percebesse...! Eu namorei várias vezes escondido! Eu acho
que quando um pai proíbe, todo mundo namora escondido! Quando um rapaz vinha
pro meu lado, no começo eu tinha medo! “Se o meu pai pegar a gente ele vai matar
nós dois!”. Ele dizia pra mim “se um dia você aparecer em casa grávida... eu mato
você!”. Tanto que quando minha irmã engravidou, eu falei “E agora? O senhor vai
matar ela?!”. Ele respondeu “Ah, os tempo mudaram...!”. Eu disse “Ah, eu podia
morrer então, não é?”! Eu acho que ele era muito antigo!
Ele não sabia conversar com a gente. Quando a gente vê que os pais brincam
e sorriem... Meu pai não era assim! Nunca foi. Eu dava graças quando ele ia pro
serviço e ficava triste quando era hora dele chegar. Por que ele era desse jeito. Já
pensei... quando eu era criança, pensava que se ele morresse seria bom. Hoje eu
fico triste de pensar isto. Mas é que ele era muito bravo!
A gente não contava pra ninguém, porque se nós contássemos seria pior!
Nós tínhamos que voltar pra dentro de casa... Não tinha pra onde mais ir. Nós
tínhamos que apanhar e ficar quietos dentro de casa. Hoje eu vejo muitas crianças,
só por causa de uma tapa, os pais vão parar no Conselho Tutelar. E o que eu e os
meus irmão passamos, não é? Nunca ninguém fez nada. A gente aguentou calado
todas as coisas. E estamos aqui, mas com catorze anos comecei a tomar remédio
pra nervo. Tomava o diazepan®.

7. Dos internamentos
Quando eu tinha dezesseis, dezessete anos meu pai quase me matou. Eu
estava noiva do meu esposo e ele me bateu tanto que eu fiquei vários dias internada
na Santa Casa. Os médicos perguntavam e eu não falei com ninguém! Não abri a
boca para médico nenhum! Não tinha vontade de conversar com ninguém, senão
teria que entregar ele e eu não queria, pois tinha medo.
Aconteceu que eu estava conversando com uns amigos e o meu esposo.
Chegamos da igreja em casa e ele disse “aquilo não é coisa de moça decente! Ficar
97

conversando na esquina...! E me bateu bastante, me deu murro... eu nunca tinha


levantado a voz pro meu pai! Nunca. Aí aquele dia ele bateu demais, pegou uma
vara e não contente, pegou um cabo de vassoura e não contente com o cabo de
vassoura me machucou todinha.
Aí eu peguei uns livros que estavam em cima da estante e joguei nas costas
dele! Aí ele me deu um murro na cara, me jogou em cima da cama e foi sangue pra
tudo era lado. Isso aqui ficou tudo preto! As costas, as pernas, tudo! Aí minha mãe
gritava pra eu parar. Gritava para não avançar nele, aí eu avançava, porque eu já
estava apanhando demais! Aí quanto mais eu avançava, mais ele surrava! Porque
ele não aceitava! Meus dedos, minhas mãos, ficaram toda inchada, toda
machucada! Até sangue eu cuspia! Aí ele deitou, dormiu a noite inteira... Eu não
dormi. Eu não conseguia dormir de dor e via meus irmãos chorando de medo. Minha
irmã dizia “é melhor você não voltar, porque ele vai bater de novo!”.
Mas eu não conseguia dormir! Levantei de manhã. Ele era crente e ia pra
igreja, eu passei pra minha mãe e fiz de propósito: dei benção pra ela, mas não dei
pra ele! Aquele dia eu estava disposta, eu já tinha apanhado muito dele não ia
aceitar mais. Se ele ia me matar de vez mesmo... Daí ele falou pra minha mãe:
“Essa menina é muito ruim, nem pra me dar a benção!”. Daí ela falou assim:
“Depois de tudo que você fez com ela, com a cara toda roxa, você quer que ela te dê
benção?!”
Aí ele chegou pra mim e falou: “Você vai na igreja?!”. Eu falei: “O senhor tem
coragem de perguntar se eu vou sair na situação que eu estou?!”. Porque eu fiquei
toda inchada! Meu rosto ficou todo preto! Aí eu levantei o vestido, mostrei minhas
pernas e minhas coxas como estavam. Daí ele ficou quieto. Eu vi ele chorando. Ele
chorou. Aí me deu acho que um desmaio e quando acordei eu estava na Santa
Casa de Curitiba. Eu fiquei vários dias internada lá, oito dias em coma. Eu tinha
tentado o suicídio tomando todos os remédios de nervo que eu tinha, pra me matar
mesmo! Mas infelizmente não morri. Tomei pra me matar mesmo... Não deu certo.
Eu fiz com a consciência, sabendo o que eu estava fazendo. Eu queria sair daquela
vida. Eu queria me livrar daquela vida que eu não podia ser feliz! Não podia ter, sair,
nem conversar com amigos nem nada!
98

Esta foi a primeira vez que fiquei internada por esses problemas. O médico
vinha e perguntava o que é que foi aquilo, o que aconteceu e eu não falava com
ninguém! Eu não abria a boca pra dizer o que foi ou o que não foi. O tempo todo que
eu estava lá eu não conversava. Não tinha vontade de falar nada. Se eu fosse abrir
a boca eu teria que falar a verdade. Eu não queria machucar meu pai. Eu só sei que
ele chegou ao hospital e eu mandei tirar ele pra fora do quarto. Isso eu mandei! Ele
foi junto com o pastor e eu pedi pra enfermeira que tirasse ele “tira meu pai pra fora
que se não eu vou chamar os médicos e vou contar tudo”... O pastor ficou no quarto
e ele saiu chorando. Ah, por que ele foi lá me ver se ele tinha me machucado?!
Acho que ele não aceitava, porque eu nunca tinha reagido! Toda a vida eu
apanhei e ficava quieta, apanhava quietinha! E quando ele me deu o soco na cara, a
dor foi tão grande que eu voei nos livros e joguei nele sem pensar, nem pensei!
Taquei nas costas dele! Aí ele voltou e não se contentou, não é? Era vara, era cabo
de vassoura, o que ele pegava ele mandava... Foi a última vez que eu reagi.
O pessoal da igreja aconselhou bastante o pai, falaram que o que ele fez era
muito errado, que aquilo podia dar cadeia pra ele. Eles falaram que ele não deveria
agir desse jeito. O pastor ainda falou para ele “você tem uma filha que canta na
igreja... como é que você tem coragem de fazer uma coisa dessas?! Se fosse uma
moça que não parasse em casa...”. Eu ia cantar para fora, já cantei em São Paulo
uma vez com minha irmã. Acho que se eu fosse uma pessoa errada, talvez ele não
fizesse aquilo... Daí minha tia, que é pedagoga, não deixou eu voltar pra casa depois
da alta e então fui morar com ela e meu tio em Curitiba. Fiquei lá até casar. Nessa
época meus pais foram embora pro norte, pra P11.
Eu já tinha sido internada duas vezes por causa dos rins no hospital Nova
Clínica quando eu era solteira. Depois do casamento eu tive mais dois
internamentos nestes últimos tempos porque tomei muito remédio. No começo
desse ano fiquei quase cinqüenta dias. Deu uma crise forte de novo e... eu tornei a

11
Retirado o nome da cidade para preservar a identidade do sujeito do estudo.
99

fazer bobeira, tomar os remédios... Quando eu acordei já estava na UTI do Hospital


Nova Clínica e o doutor que atendeu falou pro meu esposo que por cinco minutos eu
não teria mais chance de sobreviver.
A psiquiatra disse que eu não estava bem mesmo, que por causa da minha
cabeça eu tinha feito aquilo. Ela perguntou no hospital pra mim por que eu tinha feito
aquilo. Eu falei “eu fiz porque eu estava me sentindo muito mal, eu queria que saísse
o que eu estava sentindo! Eu não virei o vidro de remédio de uma vez e tomei. Eu fui
tomando um, depois eu ia lá e tomava mais um, quando eu vi tinha tomado todos os
remédios e daí passei mal. Deitei e meu marido achou que eu estava dormindo, se
não fosse a minha irmã chegar em casa eu já tinha morrido!”.
Nesta época do primeiro internamento por estes problemas eu ouvia vozes,
via vultos, pessoas me chamando e até minha mãe que tinha falecido. Às vezes eu
saía de casa pra ver porque eu ouvia nitidamente, como se tivesse alguém
conversando comigo. As vozes me chamando e aí fiquei meio desnorteada.
Eu não tentei me matar de propósito! Foi um dia de domingo, eu sentia muita
angústia! É uma coisa que eu não sei explicar! Quando a gente está bem... Mas
quando bate aquela angústia... É uma coisa lá de dentro! Parece que tem algo lá
dentro que a gente quer arrancar pra fora e não sai! Parece que está tudo negro, o
dia parece que está tudo... turvo, tudo escuro! É uma angústia que ninguém... Acho
que só quem passa por isso é quem sabe dizer o que é isso! Eu acho que quando
eu estou angustiada, eu acho que se os remédios são pra depressão, então vão tirar
essa angústia, não é? Eu tomo um, vejo que não passa, tomo mais dois, vejo que
não passa... e vou tomando! Quando eu vi já tomei tudo! Eu tento tirar aquilo que eu
estou sentindo.
Fiquei cinco dias internada. Tive alta, vim para casa. Daí os médicos daqui
foram em casa, acho que o hospital passou alguma coisa para eles, não sei. Aí eles
viram que eu não estava melhor. Eu tinha retorno com psiquiatra do convênio, fui lá
e ele viu que eu não estava bem e me internou de novo. Fiquei trinta dias internada.
Saí melhor.
Na segunda vez a psiquiatra disse que eu não estava boa e que eu tinha ficar
trinta dias internada. Fiquei internada no Hospital Psiquiátrico por vinte dias, só que
100

daí atacou os rins e inchei todinha. Meu esposo foi me buscar e fui internada no
Nova Clínica. Fiquei mais quinze dias internada, porque meus rins não estavam
filtrando. Tiveram que passar sonda porque eu não conseguia urinar. Não sei se era
dos remédios, mas fiquei muito ruim. Depois nem voltei pra tirar os outros dez dias
daí, eu não ia querer voltar de novo!
Esses dias até pra tomar banho estava difícil. Não tinha coragem de levantar
pra tomar banho, não tinha coragem de fazer nada! Cuidar da minha casa, dos meus
filhos, como é que eu vou viver desse jeito?!
Eu penso que com os remédios, cada dia eu vou melhorar um pouco mais. Eu
tomo os remédios com esse objetivo. Estou tomando pra hoje estar melhor e
amanhã se Deus quiser melhor ainda! Acho que se os médicos passam os
remédios, eles sabem o que estão fazendo. Realmente eu penso que se o psiquiatra
passou remédio para depressão ele sabe o que está fazendo. É para tirar aquela
angústia, aquele mal-estar. Eu tomava um monte de remédio: fluoxetina®,
depakene®, carbolítio®, eram tantos comprimidos que minha família não deixava
pegar, o meu esposo é quem me dava. Era perigoso misturar tudo. Engraçado que
eu estava tomando tanto remédio, mas em vez de melhorar... no começo dos
remédios até que fiquei bem. Melhorei bastante há uns três anos. Aí quando deu
mais ou menos um ano e pouco, parece que começou a não resolver nada. Foi
quando a psiquiatra me internou da primeira vez porque eu tinha tomado remédio
demais. Se eu soubesse... É uma coisa horrível o que eles fazem com a gente no
hospital, para desintoxicar a gente. Nunca mais eu quero fazer uma coisa dessas...
Nos internamentos é assim: quando a gente não está boa a gente fica
sedada. Aí quando começa a melhorar eles põe pra fazer os artesanatos. Eles não
deixam mexer com tesoura ou agulha, essas coisas não! Quem está melhor às
vezes pode fazer um crochê, mas senão, não chega nem perto dessas coisas! Vai
fazendo biscuit, aprendendo com as pessoas que estão lá para ensinar. É gostoso
porque passa o tempo e a gente nem vê. A gente aprende a fazer caixinhas de porta
jóias, tem umas pessoas que vão lá tocar violão e a turma canta. A gente fica
ouvindo e parece que melhora!
101

Por que em casa não é assim também? Não sei se é o jeito deles nos
tratarem, de fazer... Os terapeutas às vezes vêm conversar com a gente, fazem
reunião... A gente se sente bem melhor! Aí eu fico pensando: por que em casa a
gente não pode fazer a mesma coisa? Ser assim também, não é? Pode ser que eles
tenham um dom, sei lá, de mexer com a gente, de tirar aquilo que a gente está
sentindo...
Depois dos primeiros dias internada ia melhorando bastante. Uma vez eu tive
uma crise forte no hospital, a médica me deu uma injeção que eu dormi o dia inteiro!
Acordei só no outro dia. Me deu desmaio e eu não voltava! Eu ouvia a médica
falando, mas não podia falar! Às vezes eu não estou passando bem. Eu levanto,
começo a passar mal. Representa que não sou eu, parece que eu estou drogada...
É um mal-estar incontrolável!
Até que esses dias eu fui consultar com a psicóloga do Posto de Saúde e ela
não teve condições de me atender. Não dava nem para conversar! Eu não
conseguia nem falar! Parece que a boca fica toda torta, as palavras não saem... E os
olhos ficam bem fundos, roxos! Eu acho que a depressão estava muito atacada. Eu
não conseguia olhar direito firme, que os meus olhos tem que ficar fechados, se não
tiver alguém me segurando, eu não consigo nem andar. Daí ela falou “não tem
condições de consultar ela porque ela não aguenta nem falar...!” e daí eu fui
internada e fiquei um dia e uma noite no pronto-socorro de São José. Eu nem sei o
que fizeram comigo porque eu dormi o tempo todo! E saí melhor. Acordei, já estava
bem melhor. Então eles me encaminharam para um hospital psiquiátrico de Curitiba.
Chegamos lá e o médico falou pra mim que não precisava nada. Nem consultei com
o médico lá! Vim embora.
Eu não posso reclamar dos hospitais daqui, eles tratam bem a gente! Eu
chego aqui no postinho, sou bem atendida, chego no hospital sou bem atendida. Eu
não tenho do que reclamar. Eu vejo muita gente reclamar, mas eu acho que é
porque não tem paciência. Não tem como chegar no hospital e querer ser a primeira,
se já tem gente na frente. A não ser que seja grave, daí é diferente mas se não, tem
que esperar a vez da gente, não é?
102

8. Meus filhos
O meu filho mais velho chama casou faz quatro meses. Ele é... como é que
eu posso dizer? Ele é bem calmo, carinhoso. Ele é aquele filho assim, que todo dia
vai me ver todo dia. Aí eu tenho o segundo filho. Esse tem vinte anos, o mais velho
tem vinte e cinco. Esse é o que não ficava longe de mim nem um dia. Aí se ajuntou
com uma moça... às vezes leva semanas sem ir em casa. É o que dizia que mais me
amava, dizia “mamãezinha eu te amo” e é o que menos vem em casa. E aí eu tenho
o terceiro, com catorze anos. Ele estuda, é trabalhador e é músico. Está no primeiro
ano e trabalha durante o dia assentando cerâmica Ele não dá trabalho nenhum. Ele
toca sax na igreja. Graças a Deus meus filhos estão sendo trabalhadores.
O mais velho toca trombone. O segundo filho também é músico, só que ele
não gosta de tocar muito, ele toca trombone de vara, mas o dele mesmo é bateria. A
menina, a caçula tem dez anos e quer fazer aula de violino e harpa. Ela gosta
bastante de violino e tocar harpa.
O segundo menino sempre foi mais espoleteado e o meu marido nunca foi
desses pais de bater, de castigar. Já comigo não! Em casa eu tinha que castigar, pôr
de castigo, ir na escola, em reunião, sempre eu que tive que corrigir. Porque o meu
marido não faz essas coisas. Eu é que sempre estava pegando ele, quando fazia
arte na escola. Quando as professora me chamavam, eu chegava em casa corrigia
ele. Colocava de castigo, chamava atenção e se às vezes era necessário, dava
umas varadas, porque eu acho que umas varadas não matam, sabendo dar, não é?
Pegava uma varinha na rua e dizia “você sabe por que você vai apanhar
agora?”, ele dizia “Não...!”, eu respondia “Você não sabe? A professora não chamou
a mãe lá, porque você fez isso e isso dentro da sala?”. Daí ele começava “Mãe, se
você me der mais uma chance...!”. Ele era tão chantagista! E comovia a gente, não
é?! Na minha igreja tem um corinho que cantam e ele cantava pra mim assim “Se tu
me amas de todo o coração, me mostra teu sorriso, me dê a tua mão...”. Aí eu tinha
dó, mas mesmo assim eu dava as varadas! Porque eu falava assim “Se a mamãe
promete um presente, você vai cobrar de mim! Então, as varadas que eu disse que
ia te dar eu tenho que dar! Eu te amo sim, de todo meu coração, te dou minha mão,
mas... você vai levar umas varadas!”.
103

Aí ele vinha pra mim “você não me ama não!”, mas eu dizia “é claro que eu te
amo, você não sabe o quanto eu te amo! Se eu tiver que tirar o meu coração pra te
dar, para pôr em você meu filho, eu dou... eu te amo muito! Você é que não sabe!”.
Ele era mais peraltinha do que os outros na escola.
Se deixar, os filhos ficam do jeito que querem! Eles dizem “pai, me leva em tal
lugar?”, ele leva, “ faz isso?”, ele faz. Quando eram pequenos, ele saía com as
crianças pra tudo que é lado.

9. Meu problema de sistema nervoso


Toda a vida eu tive problema de sistema nervoso, doutor. Tem hora que eu
acho que estou ficando louca. Porque tudo o que eu faço não dá certo e não tenho
vontade! Parece que dá um branco na mente e eu não consigo... Tem coisas que eu
lembro, tem coisas que não. Esses dias eu ia levar ela no pediatra e eu não
conseguia lembrar da cara do doutor. Como é que eu vou levar ela que eu não
conheço o médico mais! Eu não sei o que é isso! Parece que representa que eu
estou ficando louca.
Conversando dentro de casa com meus meninos, eles falam: “mãe! você
lembra de tal dia, isso e isso...” e eu falo: “não, não lembro”. Então é uma coisa
estranha, tem coisas que eu converso que eu não lembro. Às vezes coisas de dois
dias eu não consigo lembrar mais.
Eu sou evangélica. Antes, eu cantava e agora não tenho vontade mais. Eu
toco clarinete na orquestra e voltei a tocar estes dias, pra ver se me ajuda. Só que
até as músicas... Parece que somem da cabeça. Eu tenho as notas ali e não
consigo, preciso que o maestro me passe separado pra eu tornar a pegar. Sempre
são as mesmas notas, como eles falam, são as mesmas notas semicolcheia... Por
que eu esqueço?! Então fica confuso, não é? Tem outras músicas que eu já vejo e já
faço, toco tranquila.
Com tudo isso eu só não quero esquecer dos meus filhos! Porque se eu
esquecer deles, que são a razão de eu viver... Se não fossem eles, eu não iria
querer viver mais. Porque eu tenho um passado muito difícil... E ainda prá ajudar,
104

meu esposo está afastado da firma por invalidez no braço por causa de um
acidente... Até falta das minhas coisas de dentro de casa eu já passei estes dias.
Não consegui receber nada do INSS até agora. Entramos na justiça por causa
da minha doença, ganhei a causa e até agora nada. Tem médico perito que disse
que eu posso trabalhar, tem uns que dizem que eu não tenho condições de
trabalhar. Fui obrigada a sair da firma pra trabalhar por que é perigoso pra eu
trabalhar. Eu estava trabalhando na Barduchi, uma empresa de lavanderia industrial,
dobrando roupas em cima da esteira e ali era muito corrido. As máquinas que vão as
roupas são perigosas e que tal se eu desmaio e caio ali dentro? E tinha que
atravessar a BR para chegar lá, era muito perigoso se desse um desmaio ou coisa
assim. Conversei com eles e fui demitida.
Porque parece que ninguém me entende? Quando eu sinto as coisas eu não
tenho com quem conversar. Nem desabafar. Todo mundo fala... Minha irmã fala que
não existe este negócio depressão. Que é coisa da minha cabeça. Se fosse da
minha cabeça... eu tento tirar! Por que não sai?!Por que não sai esse, esse...?!
O desmaio às vezes eu sinto de repente. Sentia um mal-estar grande, tipo
uma ânsia de vômito muito grande, um mal estar, um enjôo muito grande, dali a
pouco... apagava tudo! Começava a suar as mãos e desmaiava. Aí depois que eu
voltava, me sentia melhor! Eu acho que isso tinha a ver com o nervoso, porque eu
trabalhava na firma, tinha que cuidar da casa, fazia as coisas e pensar em tudo.
Outras vezes dá aquela tontura e eu vou com tudo para o chão. Às vezes eu fico tipo
assim, meio apagada, mas ouvindo e às vezes eu não vejo nada. Nesta semana
deu. Caí dentro do banheiro, fiquei horas dentro do banheiro, tentava pedir socorro,
mas não podia falar. Meu esposo que estava dentro de casa não viu porque eu caí
dentro do banheiro. Eu demorei e ele nem percebeu. Domingo eu fui votar aqui na
escola e tem uma escadaria. Na hora que eu fui descer me deu uma tontura, caí,
machuquei o joelho e o braço, está tudo preto... É de repente! Se eu passar
nervoso... logo, logo dá.
Quando eu fico com bastante nervoso, já vou pra dentro do quarto em cima
da cama, porque se der lá eu não vejo nada e não vou me machucar. Uma vez me
queimei. Tenho marca aqui porque estava passando roupa. Eu caí e o ferro caiu por
105

cima. A sorte é que meu filho chegou a tempo. Outra vez passei a mão na extensão,
não sei como que eu fiz isso e joguei por cima do fio da coisa. Aí eu voltei em si.
Levei um susto! Tirei a corda, a extensão e joguei do lado. Fiquei até com medo de
mim mesma.
Aí os médicos não querem que eu saia sozinha, dizem que é perigoso eu sair
sozinha... Tem dia que eu estou bem e não sinto nada, parece que não tenho nada!
Mas outros dias já passo bem mal. Esses tempos os médicos me proibiram de sair
sozinha, meu marido tinha que estar sempre comigo quando eu ia para fora.
Teve uma vez que cheguei aqui e a psicóloga do Postinho que me
acompanha não teve condições nem de me atender. Eu não conseguia nem falar.
Eu fico diferente, parece que eu fico com os olhos roxos e a minha vontade é só ficar
deitada, não quero sair nem comer!
Tomei muito antidepressivo já, estou sem os remédios agora porque estou
sem o psiquiatra. Engordei bastante e acho que o remédio faz engordar. Pesava
setenta quilos e já estava pegando cento e poucos quilos. Pedi para a médica daqui
do posto de saúde me dar um remédio para emagrecer, ela não quis me dar. Ela
disse “olha, eu não posso te dar”. Eu falei “mas doutora eu não quero continuar
neste peso doutora, porque é... é incômodo não é? E as roupas ficam tudo...”. Até
brinquei com ela “eu estou sem condições de fazer um guarda roupa novo, não é?!”
Então ela ficou responsável de conseguir um psiquiatra para conversar sobre isso.
Eu acho que agora estou emagrecendo mais, depois que eu fiquei sem os
antidepressivos... Algumas roupas eu já consigo vestir, mas tem umas que não
entram!
Acho que tudo isso é sistema nervoso, tanto que ataca depressão... É sistema
nervoso... Uma crise de nervo sim. Quando uma pessoa é muito nervosa, qualquer
coisa a gente já fica agitado, eu acho que é crise de nervo. Para quem é nervoso,
qualquer coisinha irrita a gente. É diferente quando é crise de nervo. Quando se está
com a crise de nervo a gente perde o controle de tudo! Daí quando vê, já fez o que
não deveria ter feito... ou bobeira, sei lá. Até brigar com outras pessoas, não é? Tem
muitas pessoas que perdem o controle, não é? Perde o controle e dá um ataque,
106

uma crise de nervo... briga com quem tiver na frente! Acho que não importa o lugar,
às vezes isso acontece em firmas, em filas de banco.
A gente vê muito caso de pessoas se irritando com pouca coisa, por uma
demora. Eu não tenho paciência de ficar muito tempo esperando! Se eu tenho que ir
a algum lugar, um compromisso eu faço questão de estar no horário certo. Se eu
tenho que sair com alguma pessoa e ela não chegou naquele horário, eu não
espero! Então crise de nervo é mais ou menos isso, a pessoa se irrita por pouca
coisa. Por mais que a gente não queira! A gente tenta controlar, mas não consegue!
Quando eu fico muito nervosa... Não sei se ajunta o problema de depressão,
eu vou parar no hospital, porque eu tento me aliviar daquele nervoso que eu estou
sentindo com os remédios que eu tenho em casa. Eu tento me socorrer com aquilo!
É aonde que eu faço bobeira, tomo demais. Eu tomo tudo e é aonde que eu não vejo
mais nada e quando acordo, estou no hospital. Eu não lembro, pra ser sincera... Eu
não lembro o que eu fiz ou o que eu estou fazendo. Eu acho que naquela hora, que
estou com aquela angústia, eu tomo os remédios e dá a um branco, alivia! A gente
fica meio em estado de choque, não sente nada! Daí quando a gente acorda no
hospital, parece que acorda mais aliviada!
Então é por isso que eu mesmo nem quero que fiquem os remédios comigo,
porque eu tenho medo da hora que dá a crise. Graças a Deus tem mais de semanas
que eu estou bem melhor. Espero que não volte mais. Isso é o que eu estou pedindo
a Deus, que não volte mais, porque tenho passado bem e não tenho sentido mais
esses negócios. Estou bem melhor, então espero que não volte mais essas crises.
Eu também tive desmaios. Eles dão de repente. Às vezes eu estava fazendo
alguma coisa e quando eu via que ia me dar, corria, gritava porque podia não dar
tempo. Se eu não percebesse que ia acontecer, era perigoso me machucar, cair.
Mas quando eu percebia que ia me dar eu sentava no sofá ou ia ao quarto e se eu
estava sozinha em casa eu ficava em algum canto pra não me machucar.
Nunca percebi se os desmaios tinham relação com o problema de nervos.
Mas teve uma vez que o desmaio deu junto com uma crise que enrolou as minhas
mãos e elas ficaram tudo pretinha. Aí eu fui levada pro hospital. Isso aconteceu
porque tinha um menino, amigo de escola do meu filho mais velho que cresceu junto
107

com meus filhos. Ele vinha lá em casa e ficava sexta, sábado e ia embora no
domingo. A gente viu ele crescer. Ele foi para Guaratuba e veio subindo atrás dele
um caminhão que bateu na moto dele e matou ele! A médica falou que a crise que
eu tive foi do susto que eu levei.
Quando avisaram que ele tinha falecido, eu não conseguia nem enxergar! A
minha psiquiatra também falou que foi um susto, porque ele era criado dentro de
casa. Foi depois da morte dele que começou essas crises de desmaio. Eu fazia
tratamento e não estava muito bem naqueles dias que ele faleceu. Naquele dia eu
cheguei em casa e falei pro meu marido “ eu não estou enxergando direito, está tudo
tão embaçado”, tentava enxergar , lavava o rosto e não conseguia. Aí quando foi de
noite me deu desmaio, comecei a me sentir mal, tipo uma falta de ar, daí me deu
esse desmaio. Eles me levaram pro hospital, a médica me atendeu e disse que era
pra me levarem para o psiquiatra. Daí marcou a consulta com a psiquiatra do
convênio e ela falou que era por causa do susto, do nervoso. Eu acho que tudo isso
é sistema nervoso, depressão... tudo junto.
Tive desmaios também durante a gravidez dos meninos. Da minha menina
mesmo desmaiei na rua, sorte que me acudiram. Achava que era por causa da
pressão que baixava e desmaiava.
Se eu não estou bem eu não tenho condições nem de conversar, eu só quero
ficar deitada, não saio de dentro de casa... Fico assim, ruim em casa. Às vezes vou
no postinho com os clínicos gerais, eles dão uma olhada... No postinho quase não
tenho ido mais não! Eu falei “não vou incomodar mais os médicos! Porque não
adianta! Eu vou lá e saio do mesmo jeito!”. Vou lá só para tomar o lugar do outros...
Esse problema também me dá uma reação alérgica. A médica falou que é dos
sentimentos. Inchou todo o rosto, fez ferida na cabeça, no rosto, no corpo todo! Aí
nada melhorava! Aí a médica do postinho disse que era problema de sistema
nervoso. Também tem vezes que eu não durmo! Eu vejo anoitecer e amanhecer o
dia e sem os remédios pra dormir eu não durmo. Começo a pensar nas coisas, sei
lá, tem hora que eu penso em coisas boas pra não fazer besteira. Às vezes eu
levanto, vou pra sala, pego a Bíblia pra ler e volto, deito e o sono não vem. Me dá
aquela angústia, vou no banheiro, vou pra cozinha, vou no quarto, vou ver meus dois
108

filhos, chego no meu quarto e vejo meu marido dormindo e eu nada de dormi. Deito
e fico ali. Quando dão seis horas, sei e meia, sete horas, levanto, chamo os filhos
para se arrumarem para a escola e não consigo dormir...!
Um médico passou pra mim aquele clonazepan®, mas não resolveu nada!
Nesses dias eu tomei dez comprimidos e não consegui dormir! Só fiquei tonta, mas
não dormi! Tomei quatro, depois passou mais ou menos umas duas horas tomei seis
e não fez nada! Não faz nada!
Tem dia que estou boa, mas tem dia que eu estou naquele estado de nervo
que não gosto que ninguém fale. Quando falam comigo eu dou cada grito que eu
acho que... Depois me arrependo... mas eu acho que a falta de sono me deixa
irritada! Aí me arde os olhos, parece que tudo fica ressecado, dá uma dor de cabeça
que fica o dia inteiro e eu não consigo dormir. Ah, causa um desespero...!
Então quando eu estou mal eu vou pro meu quarto, fico quietinha lá dentro.
Às vezes dá mais forte, passa, eu durmo e passa... acordo melhor. Com a cabeça
mais leve... Às vezes passo dias e dias do mesmo jeito. Aí não consigo levantar nem
pra cuidar da minha casa...
Eu acho que sinto essa angústia desde que minha mãe morreu. Eu sempre
me senti sozinha, mas aí eu fiquei completamente só. Depois que meu esposo me
enganou, parece que foi pior ainda! Aí quando vem alguém na casa da gente, meu
pai ou minha irmã, que a gente pensa que vai receber uma palavra de carinho e não
recebe...! Eu fico doida da vida quando alguém vem pra mim dizer “depressão é
coisa do demônio!”, aí eu fico louca da vida! Então eu estou endemoninhada! Esse
povo... a minha irmã fala desse jeito! Eu digo “não é verdade! É só ler a Bíblia,
porque se fosse verdade Davi esteve endemoninhado e Elias também! Porque eles
tiveram depressão! Por que eu sou diferente dos outros?”.
Na primeira vez que eu fui consultar com a psiquiatra que me acompanhava,
ela disse pra mim “eu sei que você é evangélica e muitos crentes não acreditam que
depressão é doença. Você tem que acreditar que é doença!”. Eu falei “não doutora,
se eu estou aqui é porque eu acredito que é doença... porque demônio não se cura
com médico! E eu sei que eu preciso de ajuda!”. Mas pra minha irmã não! Ela fala
que não é para eu tomar os remédios, que é para parar, que é tudo porcaria, que eu
109

fico mais doente ainda com eles. Meu pai também fala assim “você tem que largar
isso, é muito remédio, é muita droga, é muita porcaria!”. Mas eu falo “só paro na
hora que o médico mandar! Eu conheço gente que andava bem doente e hoje está
bem. Os médicos foram retirando os remédios aos poucos. Por que comigo não
pode ser assim também e eu conseguir melhorar?”.
Nunca procurei chás, ervas para tratar disso. Ultimamente, na hora que
começa a bater um desânimo, eu saio, eu tento fazer alguma coisa, ouvir algum CD!
Não fico mais parada como antes... Antes quando eu estava meio abatida já me
trancava dentro do quarto, ficava deitada, não abria a porta prá ninguém. Agora não
tenho feito isso. Eu trancava toda a casa e os vizinhos achavam que não tinha
ninguém em casa. Ficava só trancada!
Eu não tenho tomado nenhum remédio nesses tempos. Faz uns dois meses
que eu estou sem remédio nenhum. Eu sinceramente não sei o que está
acontecendo. Eu converso bastante com psicóloga do Postinho, ela é muito bacana
pra conversar com a gente. Tenho pedido muito a Deus também. A conversa com
você ajudou bastante. Força de vontade da gente também tem que ter, porque não
adianta outras pessoas quererem ajudar se a gente não tem força de vontade. Tem
que tentar se ajudar. Eu acho que tudo isso está contribuindo, me ajudando
bastante.

10.Meu pai
Meu pai tem uma história bem difícil de vida. Foi criado sozinho em Sergipe
porque os pais dele morreram muito cedo. Veio de lá com dez anos de idade,
pegando um ônibus com os peões pra esses lados de cá. No caminho teve um
homem que parece que matou quinze pessoas e ele viu tudo! Ele foi obrigado a fugir
com esse homem, porque ele era uma criança e podia morrer... ele teve que vir
junto. Não tinha como reagir. Depois eles chegaram numa cidade do estado de São
Paulo. Ele ficou trabalhando num sítio que esse homem deixou lá e depois esse
homem sumiu. Meu pai diz que nunca mais viu ele. Deixou ele lá trabalhando e foi
embora.
110

Sempre sofrendo, vivendo na casa dos outros, trabalhando pros outros pra ter
o que comer, até pegar a maioridade. Trabalhando feito um louco e ganhando a
metade do que ele fazia. As pessoas exploravam porque ele era criança. Aí, depois
que ele pegou uma idade, as coisas melhoraram. Ele começou a trabalhar bastante
com cantores de samba como o Duduque e Galvão, tocando pandeiro. Ele sempre
está citando as músicas que ele tocava. Ele é um músico baterista de mão cheia, ele
toca muito bem!
Ele veio para cá trabalhando batendo estaca em uma empresa grande. Eles
foram embora para os Estados Unidos, mas mesmo sendo chamado por eles, não
quis ir. Depois foi trabalhar de guardião noturno. Também trabalhou uns tempos
vendendo fita cassete. Nessa época ele viajava bastante. Ficava fora de casa
durante a semana.
Quando ele era adolescente ele ficou vários tempos internado. Ele fala que
eles tomavam choque, davam choque de insulina porque ele tinha problema na
cabeça. Depois eles eram jogados num pátio e deles saía um monte de sangue pela
boca. Na hora daquele choque ele diz que vinha um monte de gente correndo,
gritando e não tinha como escapar. Eles colocavam em cima de uma cama, tipo uma
maca de rodinha, que na hora do choque dava aquele soco que eles iam longe...
Depois jogavam num pátio que é aonde eles vinham e jogavam aquele monte de
sangue pela boca.
Ele tinha até uma carta de um médico dum hospital do Estado de São Paulo,
não me lembro do lugar que ele ficou internado. Que se matasse alguém, nem preso
ele iria. Porque ele ficava louco mesmo. Minha mãe diz que uma vez, no norte, ele
era recém-casado. Diz que tinha um capim que chamava colonhão. Dizem que se
entrar no meio se corta todo. Ele ficou louco, arrebentou os arames que tinham
entrou no meio do mato. Juntou uns dez homens para pegá-lo e não conseguiam
pegar! E teve que ser pegado, amarrado e levado pro hospital. Ele ficava bem fora
de si.
Minha mãe não aceitava ele ir para os bailes. Ele disse que minha mãe não
deixava ele ir mais no baile tocar, aí ele teve que parar. Ele disse que teve que parar
senão não dava certo. Daí quando ele foi para a igreja ele parou de tocar tudo.
111

Na igreja todo mundo gosta dele. Não tem quem não goste. Todo mundo
gosta dele. Ele é uma pessoa excelente... ele era brabo pra nós! E outra assim, se
alguém mexesse com a família dele... Por que quando ele era rapaz, solteiro, ele foi
bem violento! Eu acho até o ponto de tirar a vida de alguém! Ele fala que ele deu
umas... ele não fala ‘faca’, porque ele é sergipano, falou que deu uma chunchada
boa de faca nuns cara que ... a barrigada veio tudo pra fora! Porque atiraram nele!
Ele falou que, se atiraram, não souberam atirar! Então o cabra que não sabe atirar,
morre! Tem que saber! Se não sabe usar uma arma tem que morrer. Hoje ele... é
diferente, mas quando ele era mais novo... era impossível!
Ele não era de arranjar confusão! As pessoas que conheciam ele, dizem que
ele não era de confusão. Ele é trabalhador, honesto, nunca pegou nada de ninguém,
administrava a fazenda das pessoas e tinha muitos amigos. Tinha vezes que alguém
se dizia amigo, mas por trás falava dele e ele não aceita as pessoas falarem pelas
costas dele. Porque se tiverem alguma coisa pra falar pra ele, não pelas costas! É
aonde era a confusão dele. E ele não aceitava, diz que o homem tem que ser
homem, em todos os sentidos. Ele pode não ter leitura nem nada, se tiver que falar
pra alguém alguma coisa chega e fala na cara, não pelas costas! Assim ele nos
ensinou, ensinou a não falar dos outros nas costas. E ele tem um costume de dizer:
“a pessoa que não encara os outros dentro dos olhos é falsa! Você tome cuidado,
que uma pessoa assim é falsa. Eu vivi pelo mundo e eu sei como que é o mundo!”.
Ele é querido por todo mundo. Ele é até hoje. Em São José as pessoas bem
ricas do Boticário gostam demais dele! Às vezes batem lá e chamam ele “entra
aqui!” e ganha um perfume. Eu falo “ô pai, porque você não traz um pra mim
então?!”. Ele é muito querido com as pessoas. Acho que tudo foi alguma coisa que
ele teve na infância. Às vezes um nervoso que ele passava no serviço, mas ele
descontava na gente, que era criança não é? Só que na minha mãe nunca ele
bateu. Graças a Deus não! Ele ameaçava, dizia pra ela: “você não vem tirar se eu
estiver batendo nos menino e nas meninas. Você não entra no meio! Que se você
entrar... você apanha!”.
Nunca bebeu, nunca fumou e nunca foi preso. Ele é um pai e uma mãe. Ele
fica horrorizado quando houve essas coisas de abuso, ele diz que por ele uma
112

pessoa assim tinha que ser linchada! Deixada pros outros. Nesta parte nunca houve
nada! Ele também nunca bateu na minha mãe, mas tinha muita discussão e
xingamentos em casa, que parece que não terminava nunca. Começavam a brigar e
não paravam mais!
Meu pai era um bom pai, mas era aqueles pais... como eu posso dizer...
aqueles pais rígidos, que quando chegava em casa a gente não podia brincar, não
podia sorrir alto dentro de casa e tudo para ele era motivo de surra. Não era para ele
uma varinha não, aquele lá ele era brabo! Ele batia em mim, na minha irmã e no
meu irmão com aquela bainha de facão, não é... de deixar sangue vertendo
Ele era violento, só que não deixava faltar o que comer nem nada pra gente.
Mas quando eu tinha uma idade, ele me tirou da escola porque não podia estudar a
noite porque pra ele eu seria vagabunda. Eu era moça de família e não pude me
formar como minha irmã se formou. Eu não pude...
Ah, eu não sei por que ele batia, eu acho que era porque ele tinha problema
da cabeça. A gente não dava motivo! Se a gente desse motivo pra ele, não é? Mas
se ele pedisse pra nós assim ó “me traz agora o chinelo!”, nós tínhamos que dar
tudo e se demorasse uns cinco minutinhos nós apanhávamos! Tinha que saber onde
estava e entregar pra ele! Se demorasse... era surra na certa! Nós tínhamos que dar
bem rápido as coisas na mão dele! Mamãe dizia “deixa o chinelo do teu pai no lugar!
Não tira de lá, não perca, que se seu pai estiver pedindo e você não levar lá você
apanha! E com certeza apanhava mesmo!
Eu acho que tudo vai na base da conversa, não é?! Uma vez eu passei uma
base na unha ele fez eu tirar com uma faca! E que eu não tirasse que apanhava!
Nossa, minha tia ficou horrorizada com ele! Não podia fazer nada! Eu tinha o cabelo
comprido e não deixava aparar as pontas, não deixava a gente fazer nada! Eu
trabalhava. Ia pro serviço de calça comprida e uma vez ele invocou e disse “a partir
de hoje você não usa mais calça comprida!”. Eu falei “pai, mas eu tenho que
trabalhar assim!”, ele respondeu “mas de calça comprida você não vai!”, e se
teimasse apanhava!
Mas ele cuidou da minha mãe quando ela ficou muito doente e quando era
mais novo sempre cuidou também, não é? Ele é uma pessoa muito boa pra ajudar
113

os outros, o que ele tem não é dele... Se ele puder ajudar ele ajuda, só também não
tire ele do sério! Apesar de que hoje ele está com setenta anos. Hoje ele vai lá em
casa quando não estou boa, ele é diferente com o tempo que passou... Às vezes,
quando a gente vai bater nas crianças ele diz: “ó, não é pra bater no fulano!” e a
gente dizia: “e como é que você batia em nós? Por que eu não posso bater e o
senhor quase matava a gente?!”. Diz ele “é , mas as coisas mudam...”
Ele mudou a partir do momento que minha mãe faleceu. Sei lá... ficou
sozinho. Acho que é remédio pra gente a solidão. Às vezes estando sozinha a gente
pensa nas coisas que a gente fez de ruim para os outros, não é? Eu acho assim,
que quem tira a vida de uma pessoa, acho nunca mais tem paz. Por mais que a
pessoa seja absolvida pela lei. Se deitar, vai dormir, vai sonhar, a coisa sempre vai
estar na consciência. Acho que tudo de mal que a gente faz para uma pessoa a
gente não esquece. Acho que fica na consciência da gente. Não que eu ache que
ele tenha matado minha mãe...
Quando minha mãe faleceu, ele chegou pra mim, no dia que eu saí da
maternidade com meus dois filhos e disse pra mim: “tua mãe não está mais aqui,
mas a partir de agora sou mãe e pai de vocês!”. Tentou dar banho no nenê e não
conseguiu! Ele queria fazer a parte dela, tadinho! É que ela prometeu que o primeiro
banho seria dela! Cuidou de mim... eu não comia nada. Meu esposo foi mexer com
os papéis, essas coisas e ele ficou cuidando. Todo dia ele vinha em casa, pra
cozinhar. Ele tem uma mão, que nossa! É um cozinheiro de mão cheia! Ele cuidou
de mim na dieta...
Ele nunca pediu desculpas pra mim. Só o dia que eu estava internada porque
eu tomei os remédios. O médico falou que eu estava entrando em óbito, meu esposo
chegou no hospital e perguntou “tem perigo doutor, é grave o estado dela, assim,
que remédio ela tomou?”, ele mostrou os frascos e disse “nós temos cinco minutos
pra tentar trazer ela de volta!”. Daí meu pai chegou perto de mim e dizia: “ah minha
filha, não morra! O pai te ama tanto minha filha!”. Eu escutei... Ele dizia chorando
desesperado...
Às vezes a gente começa a falar alguma coisa sobre o passado: “o senhor me
bateu tanto, não é?... que me mandou pro hospital...”, mas ele fala assim “eu não te
114

machuquei!”, e eu falo “então eu é que me machuquei sozinha!”... Sei lá, acho que
ele não quer receber a culpa, não é? Sentir... remorso pelo que ele fez! Eu acho
que ele se sente culpado, mas ele nunca falou isso pra mim. Eu acho que apesar de
tudo o que ele fez ele me amava, do jeito dele, não é? Do jeito que ele conhecia de
amar e por tudo que o meu pai fez comigo, não quero que aconteça nada de ruim
pra ele. Porque se eu acho que acontecesse aí eu não agüento, apesar de todas as
coisas que ele fez, eu amo muito meu pai! A gente não falava as coisas porque a
gente vai com dó dele, não é? Lembrava do que ele passou quando era criança, não
é?
Logo em seguida da morte da minha mãe, ele começou a namorar bastante e
a gente brigava com ele! Eu fiquei brava com ele, perguntei se ele não tinha
educação, se ele não respeitava a mamãe que tinha falecido há uns quatro meses.
Ele dizia “mas tua mãe já morreu! Não volta mais...”. Mas tem que respeitar, porque
se fosse ela garanto que ela não ia namorar de volta. Daí ele ficou bravo comigo,
bem emburrado, porque uma mulher passou lá em casa, chamou ele e eu meti a
boca na mulher! Ele não gostou! Falei “ah, aqui em casa eu não quero!” Daí ele fico
meio bravo comigo...
Meu pai agora é bem diferente. Mudou bastante depois que ficou velho! Ele
está casado com uma mulher que tem o mesmo nome que o meu! Não agride ela,
só discute... Quando está tudo bem com a família dele, não aparece, mas quando
não está... vai lá em casa reclamar! Ele fala assim: “Ah, ela apóia demais os filhos!”,
que a filha dela entra em casa e apronta... Daí eu falo “ai meu Deus do céu, até
quando eu tenho que aguentar isso!”.
A mulher dele deve ter uns cinquenta e poucos anos, não tem filhos com ele –
graças a Deus!-, mas tem um casal, o mais velho com uns trinta e oito anos e a
caçula com trinta e cinco. Ela não é casada e tem dois filhos que moram nos fundos
da casa deles. Mas ela pára mais na casa deles do que na dela. É aonde meu pai se
invoca. E ainda tem o neto. O menino é bem arterinho, meu pai diz “esse menino é
muito chato! Ele sobe em cima do sofá, ele desliga a televisão que eu estou
assistindo...!” e ele já esta de idade, então pra ele isso é difícil... mas ele não toca a
115

mão! Só que ele briga. Mesmo assim ele traz o menino no prézinho, vem buscar...
falei pra ele “com nós não tinha isso não hein?!”.
O menino tem quatro anos, mas parece um adulto. Pra conversar e contar...
Uma vez ele falou pra mim: “tia, quando eu crescer eu vou cuidar de você, está
bom?!” e eu falei “tudo bem André, a tia espera você crescer!”. Outra vez ele pediu
pra ver a tia dele que era eu, não tem noção o menino. Meu pai teve que levar ele lá
em casa...

11.Casamento
Casei no cartório dia primeiro de setembro de oitenta e quatro, às nove e
meia da manhã no cartório e às sete horas na igreja. Foi um coquetel na igreja para
os padrinhos e os conhecidos. Eu não estava muito feliz porque minha avó tinha
morrido fazia três dias e não dava para adiar a festa. Mas foi bom!
Quando eu casei, nossa, foi uma maravilha para mim! Tinha me livrado do me
pai... tudo o que eu queria era me livrar do meu pai. Me livrar da onde vivia... Porque
quando eu era solteira não podia usar aquilo, não podia fazer isso, nada...
Sei que graças a Deus eu casei, pensei que ia melhorar na vida... Até certo
ponto o casamento meu foi bom. Depois meu esposo começou a me dizer palavras
pesadas, mas porque ele estava me traindo. A gente sente quando está sendo
traída. Eu não sei por que, mas a gente sabe, não é? Eu perguntava, ele dizia que
não. Chegava em casa do serviço emburrado comigo, às vezes com cara virada,
ficava de grosseria sem conversar comigo, só porque “sou ruim e não puxo
conversa”... Pra mim tanto fazia. Quando ele me enganou eu tinha o meu terceiro
filho com dois meses. Mas eu só fui descobrir depois que eu tive a menina. Só aí eu
fui saber seriamente que ele tinha me traído!
Eu descobri quando ele trabalhava na empresa. Ele era encarregado lá.
Nessa época eu não trabalhava e só cuidava dos filhos, porque eu nunca gostei de
deixar meus filhos em creche. Meu primo tinha entrado para trabalhar com ele.
Minha irmã sabia de tudo e não quis me contar! Porque ela sabe que eu sou
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nervosa, eu estava grávida do terceiro filho e eu podia fazer uma bobeira. Aí meu
primo falou assim “não, não vou deixar a minha prima enganada de jeito nenhum!
Quando eu falei com ele negou, lógico! Então eu voei com tudo nele! Eu não
cheguei a bater porque ele segurou minha mão! Daí ele soltou, fui na gaveta e
passei a mão na tesoura, encostei no pescoço dele e disse “ou você conta ou você
morre!”. Nós estávamos dentro do quarto e falei “agora você vai falar a verdade!”.
Daí ele disse que não ia falar, então eu disse “está bom, então eu me mato e você
vai carregar a culpa pro resto da vida!”. Ele achou que eu ia mesmo fazer isso
comigo! Eu não! Não ia fazer isso comigo... Daí ele me contou! Aí ele teve que
contar a verdade. Eu fiz ele contar toda a verdade! Com uma tesoura na mão ele
não tinha como...
Minha irmã disse que não queria ver bagunça... a gente separado. Eu acho
que se você trair, se não dá certo... então separa, não é? Mas trair o outro...? Mas
meu primo falou “não, e vou contar! Porque se fosse comigo e eu tivesse sendo
traído eu queria que me contassem!”.
Daí a gente ficou seis meses na mesma casa, mas eu fiz ele dormir no outro
quarto. Neste tempo teve muito conselho do meu pai pra nós darmos mais uma
chance, porque meu pai queria muito bem a ele... Dizem que quem ama perdoa. A
gente pode perdoar, mas esquecer a gente não esquece não! Uns falam “então você
não perdoou teu marido”, eu falo que se isso não é perdoar... não tem como. Eu vou
esquecer uma pessoa que me traiu? Não tem como!
Eu sou evangélica, sou pobre, mas gosto das minhas coisas todas limpinhas.
Tudo normal, as coisas dos meus filhos tudo direitinho, as roupas... Não é porque a
gente é pobre que a gente tem que ser relaxado, não é? Sempre eduquei, amei
meus filhos. Mas tudo o que não prestava da família deles e da minha caía em cima
de mim. Eu tinha que aguentar tudo.
Contei pro meu pai, contei para os pais dele. Para os pais dele era Deus no
céu e ele na terra, pra minha sogra era o único filho perfeito. Achei que a minha
sogra ia ficar contra mim. Mas não! Ela ficou a meu favor e contra ele. Só que daí
ele mudou. Pelo menos, eu não ouvi mais histórias. A gente vive bem, só que eu
não consegui esquecer, mas eu acho que perdoei, se não, não estava com ele. Uns
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falam pra mim que perdoar é esquecer, mas como é que eu vou esquecer uma
coisa? Como é que eu vou conseguir esquecer? Se eu não perdoasse eu não
estaria com ele! Eu teria me separado e cada um para o seu canto! Agora, por que
eu não esqueci quer dizer que eu não perdoei?! Então é difícil...! Então isso é
complicado, não é?!
Eu acho que isso teve influência nos meus problemas, porque depois de tudo
isso... a gente sei lá... gente traída é doído demais, eu acho que se ele tivesse
morrido no tempo que ele me traiu, não tinha doído tanto como se ele tivesse me
traído.
A partir dali já vivia isolada dentro de casa, não queria sair... Pensava “que
tipo de mulher eu sou?” Eu sentia vergonha de mim mesma, não tinha coragem de
sair, foi quando eu comecei a ficar mais dentro de casa. Também me atacou os
nervos e eu tive que tomar remédio pra dormir e acompanhar no médico porque
atacava os nervo. Tinha dias que estava tudo numa boa e eu começava a lembrar.
Me dava um ódio tão grande, tinha vontade de levantar de noite e acabar com ele,
se eu pudesse...nossa! Quantas vezes eu pensei nisso. Pensava “a gente não pode
com um homem acordado, mas dormindo... uma hora ele dorme! Todo mundo
dorme uma hora”. Depois já começava a pensar como iam ficar meus filhos? Vão
ficar jogado por aí? Não valia a pena...aqui se faz, aqui mesmo as pessoas pagam...
A minha vida era assim: tinha dia que estava bem, tinha dia que não estava,
porque as mulher que saía com ele, ficavam me atormentando, ligando lá em casa,
não sei como, não sei quem dava o número, quem não dava... e acontecia de ligar
em casa falando: “ó, teu marido vai hoje de carro, está de óculos assim e assim, de
roupa assim e assim...” Eu falava pra ele, mas ele dizia “não! É mentira!”, mas eu
respondia “mas você estava com essa roupa!”. Então tinha dia que eu tinha paz,
tinha dia que eu não tinha, nossa! O segundo filho sempre dava apoio para o pai, só
que o mais velho não! O mais velho um dia chegou nele falou “ó pai, se o senhor
trair minha mãe, eu arrumo uma casa, tiro ela daqui e o senhor nunca mais vai nos
ver!”.
Depois que a gente descobriu tudo e que passou, comecei a ter uma vida
melhor. Graças a Deus hoje ele é um homem evangélico, porque antes ele era
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destes crentes vagabundos, que vivia lá dentro e fora ao mesmo tempo, sem
compromisso.
Agora ele está afastado pelo INSS porque ele trabalhou polindo carro, moto,
essas coisas. Por último estava numa empresa que faz luminária para bancos. Até
para os Estados Unidos eles mandavam estas peças. Ele polia as peças e pintava.
Desgastou o osso do ombro, fez um buraco nessa parte do osso e daí ele não
aguenta mexer com o braço muito tempo. Está esperando pelo SUS pra fazer a
cirurgia do braço...imagine! Vai demorar muito tempo. Está até pra sair a
aposentadoria dele. Nós sobrevivemos só com o salário dele, setecentos e
pouquinho... é complicado mas a gente vive. A gente dá um jeitinho... Eu já fiz vários
cursos, mas no momento não estou fazendo nada para trazer dinheiro pra casa.

12.O meu irmão


Meu irmão também coitado... é outro que vive jogado por aí de tanto ser
espancado... eu tenho até dó da vida que meu irmão leva. Porque eu acho que se
meu pai fosse um pai melhor, meu irmão não ia virar hoje um alcoólatra. Eu acho
que ele não seria desse jeito.
Logo depois que eu tinha casado, eles voltaram pra P12 e ficaram num sítio
por uns tempos. Minha mãe escrevia sobre as coisas e a gente ficava preocupada
aqui, porque nossa...! Meu irmão gostava muito de pescar e como tinha mata, ele ia
caçar passarinho, procurar tatu e meu pai queria que ele ficasse dentro de casa! Um
rapaz de dezessete anos ficar parado dentro de casa! Não tem como segurar quieto
dentro de casa! Não era pra ele ir prá lugar nenhum. E se saísse apanhava! Uma
vez meu pai deu uma surra nele de corrente...! Passou a mão na corrente de cavalo
e como se batesse num animal deu nele. Ele tinha dezessete anos...

12
Retirado o nome da cidade para preservar a identidade do sujeito do estudo.
119

Ele é um pedreiro profissional que trabalha super bem! Era pra viver em
outras condições... ele vive numas condições de miséria! Ele ganha cinco mil por
mês! Tem vez que ele recebe seiscentos reais por dia e vive na situação...! De tanto
beber! Só no baile ele gasta mil e pouco. A gente dá conselho pra ele, não adianta...
Ele é um bom homem, também não é de mexer em nada que é dos outros, só
que ele é ruim pra ele mesmo. Ele é amasiado, mora com a mulher há mais de dez
anos e ela também é alcoólatra. O nome da mulher dela é Ângela. Ela também bebe
nos bar, vive com os homens... Então através deles eu fiquei pior ainda, porque
quando eles vieram morar perto de mim, bebiam os dois e quase se matavam. E eu
grávida tinha que estar no meio prá acudir!
Eles vieram morar comigo há catorze anos! Eu estava grávida do terceiro
filho. Eles quase se matavam. Dava cacetada, paulada, facada no outro... e eu no
meio! Gritava pela polícia... Uma vez ela furou ele nas costas, aí ele pegou a faca
dela, foi lá e furou ela na mão! Os dois estavam caindo de bêbado...!
Eles têm uma menina, a Tayane. Ela nem quer morar com eles! A menina
mora com a avó! Ela tem catorze anos, ela é dois meses mais nova do que o meu
terceiro filho. E a minha cunhada quando estava grávida dela enchia a cara!
Eles moram perto de mim. É a minha lida, é uma tribulação! Eu aguento eles
até hoje! Quando não são os outros batendo nele na rua. Tenho que entrar no meio!
Eu entro no meio pra não matarem ele!
Uma vez ele estava no bar bêbado. Daí já tinha saído de outro bar bêbado.
Que bêbado quando bebe, já viu... Aí acho que começou a incomodar e a turma
também aproveitou. A turma começou a chutar ele e eu tive que me jogar em cima
dele. Levei chute nas costas, me machucaram tudo! Fiz isso pra não matarem ele!
Eu levei chute nas costas, tudo, de eu não saí de cima dele, porque ele chegou a
ficar com o rosto deste tamanho! Nossa, a gente não podia nem ver! Fiquei uns dias
sem ver ele de tanta tristeza que dava dele. Pensei que eles iam matar meu irmão,
que ele tinha morrido... Ele estava bêbado demais, porque quando ele está bêbado
demais ele fica muito pentelho! Fica chato... Aquele bêbado muito chato! Só que foi
covardia! Dez contra um bêbado!
120

Acho que eles já foram parar na delegacia umas quatro vezes. Uma vez tive
que tirar os dois da delegacia: eu de dieta da minha menina, tive que correr o dia
inteiro pra soltar os dois da delegacia porque aprontaram fiasco no bar. Os caras
mexeram com a mulher dele, bêbado, o que iria fazer?! E a minha sobrinha estava
junta, menina pequena... Daí o delegado veio na igreja atrás de mim. Pra me buscar,
pegar a menina, que os dois... o casal de pombinho, iam pousar na delegacia. Aí
jogaram eles numa cela que escorria água, descalços, ela de shorts bem curtinho,
um frio que estava que dava até dó de ver! Daí no outro dia eu estava lá pra tirar
eles de lá... deu o maior trabalho, até eu conseguir.
O trabalho que ele dá agora é que a gente fica preocupada com ele. Este final
de semana ele e um amigo beberam e os dois foram dirigir bêbados! Aí meu menino
falou “mãe o tio está deitado dentro do carro caindo de bêbado”. Eu falei “o quê que
eu posso fazer?! Se Deus não cuidar eu não posso fazer nada! Como é que eu vou
sair atrás dele de carro, na rua?! Tem que deixar...”. Pegaram a BR e se mandaram,
caindo de bêbado os dois. E estão vivos, porque Deus cuidou.
É assim a minha vida, correr pra cima e pra baixo por modo dos problemas
deles. Só que os médicos que eu tenho me consultado falaram que problema de
família não entra pra dentro do portão da minha casa mais! Fica pro lado de fora,
cada um resolva os seus problemas!

13.Minha Irmã
A minha irmã com o marido dela é briga, é larga e volta, volta e separa, volta
e sobra tudo pra mim! Quando eles brigam, ela corre lá em casa, porque esse
marido da minha irmã já chegou a violentar a própria esposa!
A gente via... Uma vez encontramos ela de cara roxa e eles mentiram para o
meu pai que ela tinha caído com a cara no portão. Eu acreditei, mas meu pai já ficou
meio assim. Depois a gente descobriu que ele a surrou mesmo e falou batendo nela
que “enquanto nós morarmos debaixo do mesmo teto você vai fazer o que eu
quiser!”. Aí ela deu parte na polícia dele, mas quando foi pra ele ser preso ela foi lá e
retirou a queixa!
121

Daí voltou a morar com ele. Aí brigam, separaram, esses dias voltaram e
agora estão separados de novo! Espero que não voltem mais! A família dele é
perigosa, o irmão dele matou o próprio pai. E ele está ameaçado pelos irmãos. A
gente tem medo porque, como eu falei pra minha irmã que a gente com ele não tem
sossego. Que tal que os irmãos dele passam atirando aqui?! Ela mora aqui, mas os
irmãos dele moram em Piraquara. Então eles são muito ruins, é gente muito ruim.
Aí o ex-marido dela fica me ligando lá em casa. Fica me enchendo o saco lá
em casa “tua irmã não me quer mais!” e eu falo “nem quero saber do problema de
vocês, vocês que se virem! São gente grande, que se entendam”. Quando estão
tudo bem não se lembram da gente! Mas na hora que tão na bagunça...
Ela não tem esses problemas de depressão. Já passou por vários exames,
psiquiatra e não tem não. Ela só tem umas dores de cabeça terríveis que às vezes
chega a ter que parar no hospital por causa dela. Agora, eu tenho o meu sobrinho,
filho dela, que tem transtorno bipolar! Ele não é filho do ex-marido dela, nasceu
quando ela era solteira e eles têm mais uma menina junto. Uma vez, quando ele
tinha quatro anos de idade, o ex-marido dela jogou azeite no chão e falou pro
menino: “se você não ajuntar o azeite eu mato a tua mãe!”. Diz que ele ficava
apavorado “como é que eu vou ajuntar o azeite do chão?”. E começou a gritar indo
por toda a casa... e a minha irmã com a perna cortada porque ele tinha jogado um
prato nela não tinha como sair nem nada de casa...

14.A igreja
Toda a vida eu estive trabalhando dentro da igreja, desde pequena. Abri
departamento, e agora no começo do ano entreguei o departamento. Trabalhei
nove anos no departamento infantil com as crianças. Me desliguei porque não
estava boa, não tinha condições e os médicos mandaram entregar, porque eu tenho
que. Mas sempre trabalhei nos departamentos da igreja, toda a vida.
O nosso trabalho é como a igreja católica que faz catequese. Nós fazemos
escola dominical. Todo domingo tem escola dominical, tem os livros de histórias
evangélicas pra fazer com eles. No meio do ano tem escola bíblica de férias. A
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gente sai fazendo palestra, não só com os evangélicos, mas com todo tipo de
pessoa, até aquelas que vão em centro... Nós fazemos um curso na Central de
Curitiba de “EBF” que é a escola bíblica de férias. Lá eles ensinam como trabalhar
com as crianças e até como saber quando uma criança é abusada.
Tem o coral das crianças da nossa igreja que canta muito bonito. Também
tem o coral misto, como tem na igreja católica.
Eu trabalhei nove anos nesta parte com as crianças. Através de muitas
crianças que hoje muitos pais são evangélicos, foi através desse trabalho. Tem
criança que eu trabalhei que hoje estão casados... então é muito gostoso! É muito
bom. Estes dias eu estava na igreja e não estava boa. Um menininho chegou perto
de mim e falou pra mim “tia, volta a dar aula pra nós, volta...!” e eu falei “no momento
não, na hora certa que Deus preparar pra nós eu volto... ainda não” . Porque a gente
vai trabalhando, vai passando das crianças, vai para os adolescentes, dos
adolescentes tem o grupo dos jovens e daí em diante. Então começa no
departamento infantil, começa com os pequenininhos...
Teve uma época que eu era secretária na igreja. Fazia o livro caixa da escola
dominical. O geral da igreja são outras pessoas que tomam conta. Cada
departamento às vezes faz um livro caixa, daí no final do mês presta conta com a
igreja ou com o pastor.
Este trabalho me ajudou bastante porque nas horas mais tristes é gostoso
cantar. Ou estando no meio das crianças, a gente esquece os problemas. Nas horas
de angústia, quando a gente está na igreja trabalhando com as crianças e elas
começa a cantar a gente sai aliviada... A gente colocava o CD pra elas cantar e elas
realmente cantavam! É muito gostoso! Na nossa igreja também tem curso toda
segunda-feira. Tem de crochê, tricô, de tudo que se imaginar tem. Quando eu estou
bem eu vou. Gosto de fazer bastante tricô essas coisa...
O pastor sabe que depressão é uma coisa que existe e que a pessoa fica
doente. Só que a pessoa tem tentar se ajudar, não se abater e ficar isolada. Tem
uns ignorantes que já falam que é demônio, que eu acho que daí já é ignorância. Eu
digo: “não tem nada a ver com demônio, porque se você ler a Bíblia você vai ver que
na Bíblia tem personagens que entraram em depressão... está escrito na Bíblia,
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então a Bíblia está mentindo? E não estavam endemoninhados coisíssima


nenhuma! Se você tiver tomando remédio, uns vão dizer para parar, outros não.
Os pastores da igreja entendem, eles sabem que este problema existe não só
comigo, mas tem várias pessoas com isso. Até pastores tem depressão, não é só
pessoas iguais a gente, tem pastores com depressão! O trabalho deles é muito
grande! Imagine cuidar de trezentos e poucos membros como é na nossa igreja, ele
tem que ser responsável por todos?! Então não é fácil, cuidar do problema dos
outros e eles também tem problema...
Quando houve a traição foi bem complicado. Eu acho que uma traição dói
mais do que uma morte. Porque eu até pensei que se ele tivesse morrido eu não
tinha sofrido tanto como se ele tivesse me enganado! Se o casamento não deu mais
certo, é melhor chegar um para o outro e conversar. Acho que é bem melhor! Mais
bonito também pra outra pessoa.
Meu trabalho não foi prejudicado, porque foi ele quem fez errado. Na igreja,
quem comete adultério, rouba, briga ou essas coisa aí, passa pelo processo de
disciplina. Só é disciplinado quem desce às águas, que é o batismo, e se torna
membro da igreja. Antes de fazer isso é dado um curso chamado discipulado, que a
pessoa vai aprender o que é certo e o que é errado Enquanto a pessoa não for
membro, ela não pode ser colocada em disciplina. Por mais que ela faça! A igreja
não pode.
Quando a pessoa é disciplinada ela não pode participar da comunhão na
igreja. Na igreja católica eles falam hóstia, na nossa igreja é a santa ceia. A pessoa
estando em pecado não pode participar. A pessoa é levada para o corpo de
cooperadores, pastores, obreiros, presbíteros, diáconos, evangelistas. Tem uma
reunião e a pessoa pega uns três meses não podendo participar de algumas coisas,
como ser obreiro na igreja, cantar... mas pode participar do culto. Tem que sentar no
banco e mais nada! Eu toco na banda, toco na orquestra, faço tudo na igreja, se eu
cometer uma coisa dessas eu não vou tocar. Vou ficar encostada. Todo mundo sabe
disso quando está na igreja. Cada igreja acho que é diferente, mas a nossa pelo
menos é assim. Se a pessoa mostrar um bom caráter, não praticar de novo, daí
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volta a ter comunhão. Tem muitos que fazem isso, daí saem da igreja e não voltam
nunca mais. Porque não querem ficar direito não voltam, saem fora!
Eu sempre tive duas irmãs da igreja que eu posso contar para desabafar
meus problemas, uma é a irmã Sara e a outra é a Rafaela, que é da orquestra. Não
dá para confiar em todo mundo, porque tem gente que tem a língua solta, fica dando
pitaco nas coisas...
A Sara é mãe do maestro da orquestra. Nos momentos mais difíceis em que
eu estava em casa ruim, ela vinha ficar comigo, orava comigo, chorava junto... Dava
conselhos, sempre pondo para cima. Mesmo nas horas mais difíceis. Às vez tem
pessoas que não vê uma solução, joga a gente pra baixo, não é? Elas não, elas são
diferente! Às vez ela dizia “Não esqueça que sobre tudo isso tem um Deus! Que ele
é maior do que todas as coisas, do que todos os problemas...”. Daí ela uma vez
falou para mim “Nunca mais tente contra a tua vida, porque quem tem o direito de
dar ou tirar é só Deus. A Rafaela sempre está lá em casa, são de confiança e estão
sempre juntas comigo!
Eu nem preciso eu ir atrás delas. Quando eu estou com a angústia, o rosto
parece que fica diferente, daí elas vêem que não estou bem. Nestes momentos eu
não tenho ânimo para conversar, falto nos ensaios da orquestra, porque eu não
tenho vontade de ir pra lugar nenhum. Não vou nos cultos, fico em casa e não saio
para lugar nenhum! Aí eles vêm atrás, porque eles sabem que eu não estou bem. E
se eu chegar na igreja e estiver mal, eles já percebem também, só no olhar já
sabem.
Eu também orava bastante na igreja pra melhorar, fiz campanha de oração.
Essas campanhas são assim: toda quinta-feira tem culto da vitória. Eu sei da minha
necessidade e eu faço um propósito com Deus, de vir dez quintas-feiras, quatro
quintas-feiras, então isso aí serve de um propósito com Deus que eu vou e sei que
uma hora ele vai me responder. Ele pode demorar, mas eu sei que uma hora ele vai
me responder.
O pastor sempre faz campanha de oração na igreja. No culto, ele faz uma fila
e ora com as mãos imposta sobre as pessoas também. Tem um caderno onde é
marcado o nome das pessoas que precisam, daí é feita a oração no templo pelas
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pessoas que estão marcadas ali ou na caixinha de oração, onde as pessoas


colocam os pedidos de oração.
Teve uma vez que o pastor foi em casa porque eu estava muito mal. Daí
Deus falou comigo através dele. Deus sabe todas as coisas, ele é o Deus onipotente
e sabe todas as coisas ocultas. Ele falou que vir ao mundo foi um propósito dele.
Todos nós viemos ao mundo pelo propósito de Deus. Então a nossa vida é um
propósito dele. Somente Ele que dá e pode tirar a vida e nós não podemos tirar a
vida. Eu tinha tentado tirar a minha... Porque a gente sabe que quem tirar a própria
vida não tem salvação. Quem se mata com as próprias mãos, não tem salvação
porque tirou a própria vida. Eu também não posso tirar a vida de outra pessoa. De
outro ser humano. Quem pode tirar é somente Deus. Então o pastor, foi em casa,
orou e eu me senti bem melhor, com certeza!
Sempre que a gente está doente, vai um pastor visitar. É avisado à toda
igreja. Ou se não, vai o obreiro, sempre tem uma comissão que vai visitar. Nunca a
gente fica abandonada. Sempre tem alguém que cuida do rebanho, cada um tem
seu rebanho e tem que cuidar dele.
A nossa igreja não é rezado. A reza é uma coisa decorada. A oração não. É
você falar com Deus à sua maneira! É como a gente está conversando aqui. A
oração me ajuda muito. Eu conto pra ele o que eu estou sentindo. É como se nós
estivéssemos conversando, só que daí eu estou falando com Deus. Eu desabafo,
conto pra ele o que estou sentindo, aí alivia bastante porque eu sei que ele houve. A
gente pensa que está sozinho mas nós não estamos sozinhos, porque tem um Deus
presente. E eu creio que ele vai me curar. Mesmo com a ajuda médica, eu sei que é
as mãos dele. Porque se ele não estiver no controle das coisas... o homem não
pode fazer nada.
Hoje de manhã eu estava bastante triste. Eu comecei ler a bíblia bem na parte
que fala assim “esforça-te e tenha bom ânimo, que eu te ajudarei!”, daí eu fechei a
bíblia, dobrei o joelho e orei, pedindo ao Senhor que ele me ajudasse. Se eu me
esforçar e ter bom ânimo, ele me ajudará. E eu creio que ele pode todas as coisas,
não é? Ele é o dono do mundo, dono da minha vida... eu sei que uma hora isso vai
passar.
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15.Conclusões
Quando eu penso no problema que enfrento hoje, eu acho que um pouco tem
relação com a minha infância. Não sei se toda a culpa, não é? Porque a gente não
tinha um, como se diz assim, carinho por um pai... a gente tinha medo! Eu acho que
pelo pai a gente tem que ter carinho. Tem que amar! Não ter medo! A gente tinha
medo!
Eu não sei se é sistema nervoso, eu penso também que foi pela morte da
minha mãe. Eu amava demais ela! Achava que todo mundo morreria, menos ela! E
na hora que eu mais precisava... ela morreu. ,
Os médicos de hoje dizem que um pouco da depressão foi de pós-parto.
Depois que minha mãe morreu eu nem comia! Só que como a gente naquela época
a gente não entendia direito, não procurei médico nem nada, tratei em casa. Aí há
uns três anos pra cá comecei a passar mal, desmaiar e as crises aumentaram
bastante.
Hoje eu vejo que estou melhor do meu problema. Se a gente fica sem ter uma ajuda,
não procurar ninguém que possa ajudar, não tem como saber o que está
acontecendo com a gente, não é? Quando uma pessoa que entende dessas coisas,
faz a gente voltar no passado, ver algumas feridas que ficaram abertas... às vezes a
gente não quer mexer porque acha que vai ficar complicado, mas não é nada
daquilo que a gente pensa. Se a gente começar a buscar pra trás, consegue, não é?
Dá a volta por cima. Deixar o que ficou pra trás, o que magoou o que machucou e
tentar viver a vida melhor, deixar as coisas ruins que a gente viveu pra trás e pensar
no futuro.
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ANEXO 01
DOCUMENTO DE APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA