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[Capa]

FRANCISCO
ALVES

minha
VIDA
[1]

MINHA VIDA
[2]

FRANCISCO ALVES

MINHA VIDA
(AUTO-BIOGRAPHIA)

1 9 3 6
Editora
Brasil Contemporaneo
Rio de Janeiro – Brasil
[Sem número]

[Foto

Dedicatória impressa:
Ofereço a minha idolatrada mãe, como lembranças
de seu filho.
Francisco Alves
Rio – 19-9-921

Legenda: Francisco Alves em 1921.]


ESTE LIVRO

Não tem nenhuma pretensão literaria. Fil-o,


apenas, para attender a innumeros e insistentes
pedidos de minhas admiradoradas, cujos applausos
generosos têm influido de modo decisivo em todas
as phases de minha carreira artistica. Foram ellas
que me animaram sempre, que me incentivaram
atravez das vicissitudes de uma vida humilde e
agitada, a trabalhar e a destruir os obstaculos que
têm de enfrentar todos os que aspiram vencer.
Si eu tivesse nascido em berço de ouro, facil me
seria galgar rapidamente uma posição de destaque
em nossos meios artisticos. O dinheiro, com seu
prestigio fascinante, colloca tudo ao alcance de
seus possuidores. A unica fortuna, porém, que
trouxe para a vida foi a minha voz. Todavia, a
minha situação éra, paradoxalmen

[VI]

te, a de um homem que tem um diamante em bruto e


não possue recursos para lapidal-o.
Caruso, o maior dos cantores italianos, foi em
sua infancia um modesto vendedor ambulante. Si
não fosse a argucia e o faro artistico de um
professor de canto que o foi buscar no anonymato
das ruas, elle teria sido apenas o cantor
desconhecido da arte lyrica da Italia. Eu,
entretanto, não encontrei nenhum Mecenas que
quizesse offerecer-me uma opportunidade para
educar a voz e apparecer em publico.
Os meu paes eram pauperrimos. Não puderam,
a despeito de me quererem muito, dar-me uma
educação aprimorada. Passei pelos bancos das
escolas primarias com a rapidez de um trem
expresso. Não pude frequentar o Instituto de
Musica e muito menos os cursos particulares onde,
em regra, os professores cobram muito e ensinam
pouco.
Vim para a vida desamparado e pobre.
Lutei, soffri e venci com os meus proprios
esforço. Este livro tem, pois, a exemplo de “Me-

[VII]
morias”, de Humberto de Campos, guardadas as
devidas proporções, o merito de ser “uma licção de
coragem aos timidos, de audacia aos pobres, de
esperança aos desamparados, e, dessa maneira, um
roteiro util á mocidade que a manuseie”.
Afóra essa finalidade, quiz, como accentuei
acima saisfazer a romantica curiosidade da mulher
brasileira, a quem devo as emoções mais
encantadoras de minha longa jornada artistica
pelas ribaltas e pelo radio. Aliás, estou certo de que
ella, pelo menos, saberá compreender a sinceridade
destas paginas, que são um tributo de meu
reconhecimento ao muito que lhe devo.

FRANCISCO ALVES
Minha Infancia
MINHA INFANCIA

Nasci em 19 de Agosto de 1898, na rua da


Prainha, na cidade do Rio de Janeiro.
Folheando as paginas do livro de meu passado,
as minhas recordações tornam-se bem vivas dos sete
annos para cá. Nessa época, lembra-me como se
fosse hoje, morava na rua Evaristo da Veiga, 49.
Não fui uma creança prodigio. Ao contrario.
Sempre me revelei um pequeno peralta e alegre que
queria, apenas, gozer a vida, que não via com bons
olhos os livros, que não achava nenhuma attração
nos estudos.
A rua era a minha grande preoccupação.
Viver ao ar livre, correr e brincar, empinar
papagaios e jogar pião com os meus companheiros
de infancia, eis o que constituia os unicos objectivos
de meu sete annos.

[12]

Os meus paes tinham-me verdadeira adoração.


Tudo elles me perdoavam, achando proprio da
minha edade.
Em casa, sempre que chegava alguma
reclamação dos visinhos, todos já sabiam que eram
“artes” do Chico, apellido com que era chamado
pelos meus e que conservo até hoje, mesmo nos
meios artisticos.
As primeiras relações que travei com o
alphabeto, aliás contra a minha vontade, foram por
intermedio de uma senhora das relações da minha
familia, mãe de um amigo de infancia, hoje
jornalista. Sabendo já alguma coisa da cartilha, os
meus paes resolveram que eu devia frequentar a
escola publica, onde o rigor da disciplina deveria
despertar o estudioso que parecia adormecido no
bosque de minha infancia.
Não raro, fiquei de castigo por causa de minha
má vontade com os livros. Minha mãe procurava
orientar melhor os meu passos. Vendo o inutilidade
de seus bons conselhos, ás vezes appellava para os
castigos corporaes. Não pou-

[13]

cas vezes enfrentei a palmatoria e outros


instrumentos disciplinares. No entanto, as mais
vivas saudades de minha longinqua infancia são
precisamente as de meus paes, hoje mortos e que
tudos fizeram para que os meus primeiros contactos
com a vida fossem agradaveis.
Fui creado nnum ambiente profundamente
religioso. Todos nós frequentavamos, pelo menos,
aos domingos, a igreja. Como meus irmãos, fui
obrigado a aprender o cathecismo.
A religião catholica, a religião de meus paes
ficou desde essa época remota arraigada em meu
espirito.
Os annos correrram vertiginosamente. Lutei.
Soffri. Fiquei homem. A minha vida teve
modificações radicaes. Todavia, continúo o mesmo
catholico fervoroso.
A proposito, lembro-me de um facto assás
expressivo, occorrido comigo, por occasião de uma
tournée artistica que realizei ao sul, em companhia
de Mario Reis, Noel Rosa e Nonô.

[14]

Uma noite, elles entraram no meu camarote e


surpreenderam rezando. Acharam graça e
commentaram o facto de vêr “um bohêmio, um
artista rezando como uma criança!”
Então expliquei que “aquillo” era um velho
habito que eu tinha. Todos os dias costumava rezar
pelos meus parentes e principalmente pelos meus
queridos paes.
Algum tempo depois, passei a frequentar o
Collegio da Ajuda.
Apesar de continuar a ser um mau estudante, eu
ia progredindo.
A insistencia e os conselhos dos meus
progenitores iam vencendo, pouco a pouco, a
aversão que eu tinha á escola e aos professores. E’
claro que os meus costumes e as minhas tendencias
“libertarias” se acentuavam cada vez mais.
O meu amôr á rua e a liberdade empolgavam por
completo o meu espirito.
A não ser as horas em que eu me julgava um
prisioneiro, sentado nos bancos escolares, lendo
livros que só me interessavam pelas suas

[15]

illustrações coloridas, o resto do dia e da noite eram


inteiramente dedicados aos brinquedos e ás
distrações.
De manhã, ás vezes, até antes do café matinal,
eu já estava na rua em companhia dos amigos,
jogando bola de gude e fazendo girar o meu pião.
A’ tarde, mudava de roupa e ia ouvir o ensaio da
banda de musica do 1.º ou do 2.º batalhão que,
naquella época, faziam retretas todos os dias.
O meu gosto pela musica, a minha inclinação
pela arte de Carlos Gomes começava, então, a se
manifestar.
Carnaval
CARNAVAL

Quando attingi 9 annos continuava um garoto


sadio e esperto, dotado de vivacidade e famoso, no
meu bairro, pelas traquinadas que fazia, pelas
vidraças que quebrava, treinando foot-ball.
Lembro-me de que, naquelles tempos, a
influencia pelos clubs carnavalescos tornara-se uma
coisa séria, um verdadeiro delirio. Toda cidade
deixava-se empolgar pela paixão dos partidos, em
que se dividiam as preferencias collectivas.
A’s vezes, o antagonismo das predilecções e
sympathias determinava scenas de aggressão e
brutalidade. Na ausencia de outros argumentos,
trocavam-se sopapos. Até na intimidade dos lares
ocorriam desintelligencias entres os membros da
mesma familia. Se o pae era Fe-

[20]

niano, a mãe era pelos Democraticos e os filhos


Tenentes do Diabo. A cosinheira tambem entrava
resolutamente no cordão, prestigiando o gosto do
patrão ou da patrôa, ou divergindo de ambos.
Um verdadeiro inferno domestico.
Minha casa não se recusara a acompanhar a
sanha dos partidos em collisão. Era tambem um
reflexo da chamma geral, uma onda bulhenta do
mar agitados que inundava a cidade de alegria. Meu
pae torcia pelos Fenianos, a minha mãe e irmãos
pelos Democraticos. Quanto a mim, tomara,
incondicionalmente o partido dos Democraticos.
Batia por elle com firmeza e eloquencia incommuns
em garoto da minha idade. Talvez essa
circumstancia toda sentimental contribuisse para
que, mais tarde, no coração do homem, perdurasse,
sempre querida e inapagada, a saudosa predilecção
de infancia.
Meu pae não perdia opportunidade para dar
expansões ao seu bom humor. Um dos traços
caracteristicos do seu temperamentos era a

[21]

alegria constante, a jovialidade com que encarava a


vida. Mesmo nos momentos de maiores
difficuldades elle tinha um sorriso. Creio que foi um
precursor da campanha de bôa vontade...
Conhecendo o meu “beguin” pelos
Democraticos, dizia-me, em tom ironico, mas
illuminando a physionomia com a nitidez de um
sorriso dôce:
— Chico: Só te darei phantasia que tenha as
côres Fenianas. E’ inutil “estrillar”.
Eu ficava furioso e respondia com altivez:
— Vou rasgar a minha phantasia!
Mas, passado o susto, refazia o animo e esperava
confiante pela decisão final, que era sempre
favoravel ao meu club. E note-se que a phantasia
era bonita e enchia de inveja os meus companheiros
de infancia.
Naquella época, as musicas populares já se
faziam ouvir com enthusiasmo durante a quadra
carnavalesca. Não apresentavam ainda, o sabor das
canções que caracterizam os carna-

[22]

vaes cariocas da actualidade. Mas já definiam,


nitidamente, o espirito irreverente e os sentimentos
affectivos das multidões empolgadas pelo ardor da
folia.
Quem, ao passar em revista os dias trepidantes
do carnaval daquelle tempo, não se recor
dará com melancolia e saudade das canções que
fizeram vibrar a nossa infancia e adolescencia?

Yayá me deixa subir nesta ladeira...


Eu sou do grupo mas não pego na chaleira.

E outra:

Vem cá mulata,
Não vou lá não...
Sou Democrata,
De coração.

Com esta musica saltitante, os gloriosos


Democraticos rompiam, na terça-feira gorda, as
ondas populares que se agitavam, em plena Ave-

[23]

nida Central, num tumultuar incessante e colorido.

Vem cá mulata,
Não vou lá não...

E o “refrain” tomava conta da garganta do povo


carioca que não cessava de cantar com grande
espectaculosidade e alegria.
Quando alguem passava ao meu lado dizendo: -
— “Gato comeu carapicú”— podia contar com as
erupções silenciosas de minha raiva juvenil. Ficava
por conta. Mas tinha que suffocar os impetos da
minha indignação.
Se fosse homem já feito, dono de uns musculos
poderosos, pensava com os vistosos botões de
minha phantasia, castigaria o atrevido, revidando o
insulto, ao pé da letra.
Foi nesse ambiente que embalei os primeiros
sonhos de minha infancia.
O tempo foi se passando rapidamente. Dizem os
entendidos em materia sociologica que o

[24]

homem é o produto do meio em que vive. A arvore


plantanda á beira do rio, deve ser differente em
fecunidade e seiva da que mergulha as suas raizes
no subsolo de uma região escassa de liquido
fertilisante.
A seiva que mais tarde teria de me nutrir a voz,
traçando-me o destino de cancioneiro da cidade,
veiu-me, para bem dizer, das sensibilidades
domesticas que me cercavam.
Minha mãe e meus irmãos viviam enganando a
modestia, a pobreza do nosso lar, com a toada de
nossas canções. Guardo, ainda, os livros de
modinhas daquella época que, em casa, andavam de
mão em mão.
Papae tinha por sua vez um quinhão na
unanimidade lyrica da familia. Tocava diversos
instrumentos.
Como se póde avaliar a nossa casa era, dessa
forma, um paraiso musicado, onde se revelava um
viveiro de passaros alacres que o mundo ignorava.
Dobraram-se os annos.

[25]

Fomos obrigados a procurar outra residencia, em


virtude do predio em que habitavamos ter sido
condemnado pela Saude Publica. Installamo-nos na
rua Frei Caneca, 141. Este predio, aliás, ainda
existe. Pouco demoramos ahi, mudando-nos para á
rua Riachuelo, 112.
Dir-se-ia que não pagavamos os alugeis, em
consequencia da instabilidade dos nossos
domicilios. Mas essa supposição deve ser afastada
pelos leitores intelligentes. Meu pae foi um chefe de
familia exemplar e um cidadão trabalhador e
cumpridor dos seus deveres. Talvez, por isso
mesmo, a unica herança que me legou foi um nome
digno, mantido nobremente através de difficuldades
de toda sorte.
Na Escola Tiradentes
NA ESCOLA TIRADENTES

Alguns dias depois de fixarmos residencia na rua


Riacuelo, meu pae tomeou energicas providencias
afim de que eu fosse encaminhado para uma escola
publica.
Juntamente com meus irmãos Lina, Carolina e
Juca, fui matriculado na “Escola Tiradentes”.
Julgo desnecessario accentuar que nesta altura
ainda não tinha me reconciliado com os livros.
O professor apparecia aos meus olhos infantis
com ares terriveis de um carcereiro, cujas funcções
eram controlar os meus instinctos da liberdade, a
minha vontade de ir para as ruas brincar e correr
livremente.
Sempre que podia fazia “gazeta”, a pretexto de
“doença” que passava logo que o

[30]

ponteiro do relogio indicava que já haviam


começado as aulas.
Ficava em casa satisfeito e feliz.
Para me distrahir, para matar o tempo, eu
cantava o “Vem-cá-mulata”, a canção dos
“Democraticos” e á noite ouvia, com enlevo, o
bombardino do meu pae, que estava sempre em
grande actividade musical, ensaiando um dobrado
qualquer. Esse bombardino era uma especie de
“lampeão” metallico, a vociferar coleras
synchronisadas. Era o terror da pacata visinhança,
onde não existia, ao que me constasse, nenhuma
creatura victima de surdez, isto é, devidamente
munida com “habeas-corpus” auricular.
O mundo para mim se resumia nessas pequenas
cousas.
Os primeiros livros, em que estudei, inspiraram-
me a principio uma certa curiosidade pittoresca.
Varios dias fiquei preso ás suas paginas que me
encheram de enthusiasmo.

[31]

Depois fatiguei-me. A paysagem tornara-se


monotona e insipida. A’ medida que me iam
impondo a obrigação de entrar em estreita
intimidade, de me familiarisar com aquelles
caracteres, cada vez mais complicados e difficeis de
serem assimilados pela minha memoria,
experimentava, não digo relutancia em acceitar as
exigencias do ensino, mas accessos de displicencia.
Tive, na “Escola Tiradentes”, a minha primeira
“fan”. Era uma garota magra e feia, cheia de sardas,
que gostava de me ouvir cantar. Fazia tudo para me
incutir o amôr aos livros. Talvez pensasse que, mais
tarde, por gratidão, eu pudesse tambem gostar um
pouco della. Mas a vida é profundamente ironica.
Acabei gostando mais della do que dos livros.
Todavia hoje penso que a minha amizade não era de
todo desinteressada: ella me presenteava
constantemente com doces e bon-bons...
A minha falta de applicação, o meu pouco
interesse pelos estudos acabaram repercutindo em
casa. Meu pae, depois de pensar seriamente

[32]

sobre o caso, acabou afastando por completo a idéa


antiga de me fazer um dia doutor.
Fiquei triste e alegre com o facto. Triste por
desagradar aos meus paes e alegre por ter satisfeito
a mim mesmo.
De reto, eu andava muito apprehensivo.
Alguem contara em casa, um desses casos
dolorosos de pessôas que se martyrisam para
alcançar o gráu de doutor.
Tratava-se de um medico bahiano, se não me
falha a memoria. Toda a noite para estudar e afim
de evitar o somno, collocava os pés numa bacia de
agua fria.
O processo deu resultados magnificos. Elle
conseguiu formar-se com distinção em todas as
cadeiras á custa daquelle original lava-pés nocturno.
Entretanto, pouco tempo depois, appareceu-lhe uma
tossezinmha secca e impertinente que o forçou,
dentro de pouco tempo, a ir clinicar no outro
mundo.
Eu, francamente, não havia nascido disposto a
esse martyriologio.

[Foto com legenda: Francisco Alves e Sylvio Caldas


tambem são, nas horas vagas campeões de foot-
ball.]

[33]

Minhas tendencias “libertarias” são se


submettiam, de modo algum, aos supplicios
culturaes do medico bahiano.
Acabaria por dar um vigoroso ponta-pé na
nefanda bacia de agua fria.
Na “Villa”
NA “VILLA”

Onze, doze, annos... Os poetas acham que é a


melhor quadra da vida. Não resta menor duvida que
elles têm razão. O mundo se nos apresenta tão bom,
tão interessante, tão curioso.
Nossa vida domestica decorria no mesmo
ambiente festivo, onde havia muitas notas de
música... Um acontecimento inesperado veio
modificar-lhe o rythmo, pelo menos, quanto a mim.
Tivemos necessidade de mudar para uma nova casa,
na mesma rua.
Essa situação, a principio, trouxe-me amarguras
indefiniveis. Já estava habituado á amplitude de um
quintal cheio e sombras amigas.
O preido para onde nos transferiramos,
não apresentava a vantagem de uma area fol-

[38]

gada, onde eu pudesse levantar o meu palco de


barricas. Isso me contrariava sobremodo. Todavia
esas nuvens que enconbriram, então, o sol radioso
de minha infancia foram passageiras. O tempor é
uma esponja qua apaga, na lousa de nossa vida, os
acontecimentos bons e maus. Nada resiste á sua
acção destruidora. Aliás, as contrariedades que me
trouxeram a nossa nova residencia foram
compensadas por outra attracção que surgiu para o
encantamento de meu espirito irrequieto: a barreira
do Senado.
Passava alli, quasi todos os dias, brincando em
companhia da garotada do bairro.
Algum tempo depois, meu pae, mais uma vez,
resolveu mudar. Desta feira nos transferimos para
Villa Izabel. Minha alegria foi intensa. Esse bairro,
naquelle tempo, já desfructava de grande prestigio e
popularidade. Nelle morava os maiores do samba.
Os bohemios e noctivagos, apreciadores do canto e
das serenatas andavam altas horas da noite
perambulando pelas ruas, illuminadas lyricamente
pelo luar.

[39]

Confraternisando com o meio, a minha alliança com


a guitarra tornou-se mais forte. No entanto, deixei-
me dominar por uma idéa bizarra: a de transformal-
a num bandolim. Todos achavam interessante essa
innovação que aliás, deu resultados satisfactorios.
Em Villa Izabel, a minha maior preoccupação
foi o foot-ball. Jogavamos partidas sensacionaes,
em campos improvisados no meio da rua.
A bola de meia, pulava de pé em pé, á procura
do “goal”. Muitas vezes ella fazia “goal” nas
vidraças da visinhança. Ahi, então, havia uma
debandada geral. Ninguem queria assumir a
responsabilidade do chute mal dirigido.
A’ noite, fatigado das pugnas esportivas, eu me
recolhia a casa, após a victoria ou a derrota do meu
“club”.
Apesar dos grandes esforços physicos, ainda
tinha appetite para dedicar alguns momentos á
minha guitarra solitaria.
Amei, Soffri
AMEI, SOFFRI

Entre as mais lindas canções que lancei no carnaval


de 1936, figura “Amei”, de E. Frasão e Antonio
Nássara, nomes consagrados pelo brilho invulgar de
suas produções que, não raro, têm saido victoriosas
em pleitos populares e officiaes.
Nos estudios da “Cinédia”, fazendo o film
“Allô, Allô, Carnaval!” cantei essa marcha com a
collaboração de um grupoo de jovens e graciosas
alumnas. Eu interpretava o papel de professor e
cantava:

Eu que nunca tive professor


Para me ensinar o verbo amar
Aprendi o A.B.C. do meu amôr
Na cartilha azul do teu olhar.

Insensivelmente, ao cantar os versos bonitos,


cheios de lyrismo, dos dois azes de nossas

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canções populares, evoquei o meu passado, percorri


com os olhos da imaginação os caminhos floridos e
distantes da minha juventude.
Quem me ensinou as primeiras letras do
alphabeto do amôr foi uma visinha, uma linda
morena, de grandees olhos verdes, dona de umas
tranças longas e romanticas.
Creio que foi a primeira moradora do meu
coração. Chamava-se Suzanna. Não raro, ella me
dava beijos furtivos e deliciosos. Foi, em assumptos
sentimentaes, a minha primeira professora.
Eu era ainda muito joven e bastante
inexperiente. Tinha, apenas, theoria... Ella, ao
contrario, era um Greta Garbo precoce, tal a arte e o
calor de seus beijos.
Separamo-nos, pouco tempo depois, por
incompatibilidade de genios... Eu era
demasiadamente egoista. Não quiz concordar com a
prodigalidade sentimental de Suzanna que dividia o
seu coração com os rapazes do bairro.

[45]

Um dia, tivemos um scena violenta por causa


dos seus “flirts”.
Suzanna, no ardor da discussão, teve um sorriso
ironico e me disse com profundo despreso:
— Ora, Chico, não me amole. Não dou
confiança a fedêlho.
Fui para casa furioso e revoltado. Nesse dia, não
jantei. E se não fosse o gosto ruim da criolina, teria
renunciado muito cedo ás batalhas do amôr...
Fedêlho!
“Por causa della”, eu andei muito tempo de
“parada” com as morenas.
Ser ou não ser
SER OU NÃO SER

Toda infancia possue as suas inclinações. O tempo,


ou aviva essas tendencias, quando a creança já traz
um destino certo, uma vocação decidida, ou traça-
lhe novos rumos, conforme as suggestões e
influencias do meio.
Uns, amam as caçadas de borboletas, attraidos
pelo colorido de suas azas; outros, preferem a
“punga” dos bondes e as fitas de aventuras em que o
classico “mocinho” enfrenta “bandidos” para salvar
a dona de seus pensamentos. Outros, de
sensibilidade menos esportiva e mais lyrica
preferem uma musica dolente ou um samba
farfalhante.
Posso dizer que a minha verdadeira vocação foi
o theatro. A esse respeito guardo recordações bem
gratas e commovidas.

[50]

Commetteria uma falta, se não evocasse, aqui, esse


typo bonissimo que se chamou Camillo e que,
durante muitos annos, exerceu as funcções de
porteiro do Theatro “Recreio”. Julgo não haver
necessidade de descrever-lhe a figura sympathica.
Basta salientar-lhe as virtudes do coração.
Acamaradei-me com elle. Fiz-me um dos seus
mais impertinentes amigos.
Existem creaturas, cujo espirito magnanimo
compraz-se em absequiar e favorecer a vontade das
creanças.
Camillo gostava immensamente de mim.. Elle
offerecia á minha gulodice infantil o prato de minha
predilecção: um espectaculo. Outros meninos de
minha idade talvez preferissem ganhar tamaras,
ameixas, balas ou mesmo um vulgar pé de moleque.
Commigo era no violão e no theatro.
Com a autorisação dos meus paes, de quando em
vez, lá estava eu repimpado numa cadeira

[51]

do Theatro “Recreio”. Quasi sempre levava em


minha companhia as duas irmãs mais velhas.
Eu era um carona que me dava ao luxo de levar
convidados...
A’s vezes, o “senhor Camillo”, era assim, com
todo o respeito, que eu o tratava, sentava-se ao
nosso lado, enchendo-me de satisfação e orgulho.

*
* *

O “Recreio” foi o primeiro theatro que conheci.


Ali ouvi o celebre tenor Almeida Cruz e assisti aos
mais ruidosos sucessos de Palmyra Bastos, Enrique
Alves e outros “astros” das platéas cariocas
daquelles tempos.
A primeira peça que o prazer de ouvir e
applaudir foi a opereta “Amores de Principe”.
Nunca, até então, eu sentira uma impressão tão
forte, um enthusiasmo tão grande.
Ao assistir á representação da linda opereta
viennense, os artistas e os scenarios vistosos

[52]

surgiram deante de meus olhos deslumbrados como


a concretização dos contos de fadas.

*
* *

Certa vez, fui apresentado ao grande actor


Henrique Alves. Contei-lhe, sem cerimonia, as
minhas predilecções de garoto. E para demonstrar-
lhe, ao pé da letra, as minhas “habilidades”
artisticas, cantei diversos trechos de “Amores de
Principe”. Henrique Alves achou-me interessante e
animou, com palavras de sympathia, o futuro
“actor”.
*
* *

Meu pae era admirador fervoroso de Angela


Pinto e Eduardo brazão. Por isso, não perdiamos
nenhuma temporada no tradicional Theatro “Carlos
Gomes”.
Eduardo Brazão e Angela Pinto tinham, no
“Hamlet”, as suas maiores creações artisticas.

[53]

Um a noite, durante a representação, meu pae


não poude reprimir os impulsos de sua admiração e
commentou alto:
— Mas que colossos!
Mal sabia elle que, no meu espirito ainda em
formação, agitava-se um drama talvez egual ao do
personagem de Shakespeare. Sim, eu tinha dentro
de mim um Hamlet cujos olhos inquietos
procuravam rasgar as nevoas de meu futuro, numa
interrogação angustiosa:
— Serei ou não um grande artista?
Minha paixão pelo Theatro
MINHA PAIXÃO PELO THEATRO

Em nossa residencia á rua Riachuelo havia um


quintal de larga área, com fartura de sombra. Muitas
arvores frutiferas tornavam-no poetico com a
belleza das suas copas farfalhantes.
Empolgado pela idéa de ser artista, eu re-solvera
passar do sonho á realidade. Vira no quintal de casa,
o sitio apropriado para o audacioso
emprehendimento que me empolgava. A força de
vontade realisa milagres. Basta dizer que consegui
improvisar com algumas barricas velhas um palco.
O aspecto era, sem duvida, grotesco, mas o meu
objectivo estava executado. Organisei, então, uma
“companhia” com a collaboração de alguns garotos,
meus amigos. Fiz primeiro um estudo rigoroso dos
varios elementos “artisticos”, dando os papeis de
maior res-

[58]

ponsabilidade aos mais capazes e intelligentes. Só


houve protecção na hora de preencher o lugar de
“estrella”, que coube a uma menina muito faceira
de quem eu gostava “pedaço”. Apezar de cobrar os
ingressos que variavam de cem até duzentos réis,
conforme a localidade occupada pelo “espectador”,
os “actores” trabalhavam por amôr á arte. A renda
eu “abafava”.
Como se vê, eu era um pequeno emprezario que
agia com a intelligencia dos grandes...
O peior era que eu desconhecia, por completo, a
fórma do ensaio e da marcação. A representação
acabava não dando certo. Os “artistas” chegavam ao
palco e falavam todos ao mesmo tempo. Os
espectadores protestavam. Havia tumulto.
*
* *

Ao correr dessa época, a minha irmã Lina, tendo


ido a Portugal, em tratamento de saúde, de la
trouxera, ao regressar, uma bonita guitarra.

[59]

Foi este o primeiro instrumento com que entrei


em contacto intimo.
Com umas lições ligeiras que meu pae me dera,
não me foi difficil tocar alguma cousa.
Dedilhando o instrumento da saudade lusa, eu
treinava, com minha irmã, as cantigas que ella
aprendera em Portugal.
Mais do que nunca eu sentia a vontade de ser
artista. Todas as forças do meu pensamento
concentravam-se nessa aspiração.
Tomava da guitarra e, no quintal, pulava sobre
as barricas arvoradas em palco. E trechos de
“Amores de Principe” e “Balance” sahiam de minha
garganta, ainda inexpressiva, de menino. Mas as
palmas que servem de estimulo aos artistas, não as
tinha.
Só o sussurro das copas das arvores “applaudia”
as minhas canções.
Operario
OPERARIO

Ao traçar a sua auto-biographia, Henry Ford


focalisou com excepcional carinho a sua origem
humilde.
Espirito plastico, com uma nitida visão das
cousas, o poderoso industrial americano viu que a
hora da aristocracia já passou. a mentalidade que
governa o mundo contemporaneo é outra. E’ preciso
envolver os meios proletarios numa aureola de
sympathia e admiração. Dahi apparecer
constantemente figuras de relevo da industria e da
politica que se ufanam de suas origens proletarias...
Eu, entretanto, não preciso appellar para esses trucs
da popularidade facil.

*
* *

Até os dezoito annos, os meus paes não consentiram


que eu trabalhasse. Attingindo es-

[64]

sa idade, porém, decidi a ajudal-os de qualquer


modo.
Foi na popular fabrica de chapéos “Mangueira”
que empreguei, pela primeira vez, a minha
actividade de proletario.
Naquelle tempo, o gerente era um senhor
chamado Francisco, mais conhecido pelo apellido
de “Chiquinho”. Aliás, era um bom camarada,
muito amavel com todos os auxiliares da fabrica. O
meu mestre, que, hoje, é funccionario da Prefeitura,
chamava-se Henrique. Elle nunca fez fé commigo.
Mostrava-se muito importante. Não queria
intimidades com os operarios. Parece que tinha um
pouco de sangue azul em suas veias...
Na fabrica “Mangueira”, trabalhei quase um
anno. Dos companheiros daquelles dias longinquos
de labor arduo, lembro-me, apenas, de dois:
Antonio e Claudio, que foram os mais intimos. Um
trabalhava no escriptorio, e o outro, exercia as
funções de caixeiro viajante.

[Foto: “Team” Cremilda de Oliveira que fez


sucesso em nossos meios sportivos, do qual fazia
parte Francisco Alves.]

[65]

Um dia, ousei discordar do meu autoritario mestre.


Para evitar maiores complicações, despedi-me e fui
trabalhar na fabrica de chapéos Julio Lima. O
mestre, aqui, era outro temperamento. Tratava os
operarios como amigos. Chamava-se Paulino. A
mim, pelo menos, elle fazia toda a concessão
possivel. Só não queria que eu faltasse ás segundas-
feiras. Elle sabia que era por causa do foot-ball. Não
tolerava esse esporte.
Mestre Paulino era um grande coração.
Perdoava-me qualquer falta na fabrica, mas não
perdoava que eu jogasse foot-ball. Um domingo,
tendo me machucado sériamente num jogo
disputadissimo, quiz tapear o bondoso mestre
phantasiando, no dia seguinte, um “accidente de
trabalho”. Elle, porém, não se deixou “embromar”.
Ficou furioso commigo e suspendeu-me durante
uma semana.
Um anno depois, deixei a fabrica Julio Lima,
dando um novo rumo a minha vida.

[66]

O destino não quiz que eu continuasse operario.


Mestre Paulino ficou livre dos meus
enthusiasmos pelo foot-ball.
Experiencia...
EXPERIENCIA...

Um dia, cheio de curiosidade, me aventurei a ir á


caixa do Theatro “S. Pedro”, actualmente “João
Caetano”.
Caixa de theatro, todo mundo já sabe mais ou
menos o que é: uma colmeia onde há poucas
abelhas e muitos abelhudos.
Notei que era observado como um intruso.
Fiquei constrangido. Estava nesta situação
desagradavel e já me preparava para uma retirada
estrategica, quando fui chamado pelo maestro
Roberto Soriano, que, depois de me fazer algumas
perguntas, em tom cordial, mandou que eu falasse
ao maestro de côros, Sr. Lago. Sem saber do que se
tratava, attendi.
Ao chegar á sala de ensaios do corpo corál, que
era composto de cerca de 40 figuras, entre homens e
mulheres, o maestro pediu para eu

[70]

cantar uma canção, por signal, bem aguda. Cantei


em quatro tons.
Terminada a experiencia levaram-me,
novamente, á presença do maestro Roberto Soriano.
Este, informado pelo seu collega dos côros, que
experimentara a minha voz, convidou-me a visital-o
em sua residencia.
Não me fiz de rogado, e, certo dia, appareci em
sua casa. Elle recebeu-me com muita distincção e,
pela segunda vez, interessou-se pela minha voz.
Disse-me que havia gostado della.Offereceu-se para
ser meu professor de canto.
Acceitei o offerecimento, mas quando saí da
residencia do maestro não pensava mais nisso.
Como não lhe apparecesse mais, o maestro
Soriano declarou a varios amigos meus que era
uma penas eu abandonar os estudos, adeantando que
uma perspectiva risonha se desenhava deante de
mim. Que o timbre de minha voz era bastante
promissor e bonito.

[71]

Fiquei satisfeito com esses commentarios que


chegaram até os meus ouvidos como um lenitivo
para o desconforto e as difficuldades que eu vinha
enfrentando.
Houve, porém, alguem que não gostou dos
elogios desinteressados do maestro.
E’ claro que esse alguem só podia ser o tenor da
companhia do Theatro S, Pedro.
Os Mestres
OS MESTRES

Toda existencia soffre influencias bôas e más.


Embora tendo me feito, principalmente com os
meus proprios esforços, não esqueci, aqui, osamigos
sinceros e dedicados que me foram uteis. Tambem
não quero deixar sem uma referencia especial certos
cavalheiros que tentaram botar pedras no sapato de
meu destino.
Tive um professor que uma verdadeira
calamidade. Era um barytono aposentado por falta
de ouvintes, que resolvera ensinar o que nunca
conseguira aprender: cantar.
O seu curso funccionava num predio da rua 7 de
Setembro. As installações eram confortaveis e
elegantes. O mobiliario, quasi lu-

[76]

xuoso. Grandes photographias authenticadas por


Caruso e outras celebridades lyricas ornavam as
paredes.
Deslumbrados com aquella vistosa “mise-en-
scene”, os alumnos só podiam suppôr que estavam
deante de um notavel professor de canto.
O homem, no entanto, não passava de uma
“blague”.
A mim, pelos menos, parece que elle jurára
arrancar a voz, em vez de educal-a e fortalecel-a. E
se não realizou esse seu inglorio objectivo, devo á
intervenção amiga e opportuna do maestro Bento
Mossoranga, que me chamou a attenção, dizendo:
— Que é que você tem, Chico? Cada dia a sua
voz está mais defeituosa.
Respondi-lhe que estava estudando com um
professor de canto.
Bento Mossoranga aconselhou-me, então, que
tomasse cuidado. Com tal professor eu acabaria
soffrendo da garganta.

[77]

Larguei o barytono aposentado.


Um dia convidaram-me a ir á casa de Santh
Athos, pae do baixo brasileiro João Athos.
Em sua mocidade, fôra um barytono de grande
valor e prestigio.
Santh Athos sympathisou commigo. Contei-lhe
as minhas esperanças e os meus desenganos. Elle
gostou de minha franqueza e prometteu-me ajudar.
Alguns dias depois, reiniciei os meus estudos, já,
agora, sob a direcção de um professor que não
precisava, para recommendar-se, de problematicos
autographos de Caruso.
Estudei tres mezes com elle. Encontrou minha
voz cheia de defeitos e procurou corrigil-a.
O barytono da rua Sete caira como um furacão
sobre a minha garganta.
Fiz grandes progressos. O meu novo professor
mostrava-se muito satisfeito commigo.

[78]

Sempre que algum critico ou pessôa entendida em


canto visitava o seu curso, elle me apontava com
orgulho, dizendo:
— Aqui está a pinta de um bom cantor.
No fim de tres mezes, abandonei novamente os
estudos.
Santh Athos, porém, que já me estimava muito,
tentou reconduzir-me ao bom caminho, mandando
recados por diversas pessôas, inclusive pelo tenor
Francisco Pezzi. Que eu apparecesse em casa delle.
Insistiu para que não abandonasse os estutos .
Achava que era um crime. De parte delle tudo faria
em meu favor.Não pleiteava mesmo nenhuma
remuneração.
Quando somos moços quasi sempre nos
descuidamos do futuro.
A despeito dos insistentes e generosos
offerecimentos do velho mestre, a quem, hoje,
recordo com respeito e emoção, não voltei a
procural-o.

[79]

Justificando o meu procedimento, mandava-lhe


dizer que não tinha recursos nem tempo para
continuar frequentando as suas aulas.
Santh Athos foi um dos nossos melhores
professores de canto. E’ certo que não dava voz a
quem não possuisse, mas dava a naturalidade de
cantar, que é um dos segredos da arte.
Apenas com tres mezes, as suas licções, os seus
methodos praticos me fizeram um bem enorme.
Durante esse curto espaço de tempo, elle expurgara
os defeitos da minha voz, uniformisando-a
tornando-a mais harmoniosa.
Ainda hoje conservo bem vivas as palavras de
Santh Athos.
— No Brasil — costumava dizer-me o saudoso
professor — o artista deve fazer como a formiga,
guardar prudentemente o fruto de seu labor, para
não ser pegado desprevenido no inverno...
Eu não esqueci as suas lições e os seus
conselhos.
Meu companheiro
MEU COMPANHEIRO

O violão foi sempre o meu amigo dilecto, meu


companheiro inseparavel. Era com elle que eu
desabafava as maguas e festejava as alegrias.
Habituei-me ao seu convivio desde muito creança.
Eu era, ainda, adolescente quando obtive o meu
primeiro violão á custa de uma transação original,
isto é, em troca de uma bicycleta. Nunca mais me
separei delle.

*
* *
Foi nas noites de serenata, quando passeava pelos
pittorescos arrabaldes cariocas, em alegres jornadas
de bohemia e de sonho, que mais fortemente me
identifiquei com o violão.
Os poetas daquelles tempos eram os Cyranos
cujos versos maravilhosos abriam-me os

[84]

corações mais insensiveis. Eu me aproveitava bem


do prestigio e da fascinação de suas rimas.
Psychologo por intuição dentro de mim havia a
certeza de que, para vencer e dominar a alma
feminina, necessitava audacia. Mas, o meu
temperamento era tímido e retraido. Tinha
difficuldde em dizer que gostava. Faltavam-me as
palavras precisas e convincentes. Dahi a minha
tactica. Cantando eu me sentia forte e dominador. O
que as minhas palavras não sabiam dizer, diziam
com eloquencia os poemas que eu interpretava com
emoção.

*
* *

Só me lembro de ter cantado inutilmente uma


vez. Foi no aristocratico bairro de Botafogo,
debaixo das janelas de um “bungalow” recatado e
florido. Havia um lindo luar passeando lyricamente
pelas ruas ermas. Dei os agudos mais fortes, sem
que a eleita de meu co-

[85]

ração de trovador apparecesse entre as trepadeiras


romanticas de sua janella.
Ensarilhei as armas ou melhor, botei o violão
debaixo do braõ e fui para casa com a amargura de
um general que soffre a sua primeira derrota.
Entrementes, um companheiro de bohemia que
me viu muito desapontado com o facto, confortou-
me, explicando que a minha inaccessivel Dulcinéa
era surda como uma porta. Talvez por isso não
tivesse aberto a janella... Acceitei a informação. Foi
um saida honrosa para a minha vaidade de trovador
famoso.
*
* *

Certa vez, no “café Nice”, falei a Orestes Barbosa a


proposito de meu violão. Pedi ao consagrado poeta
de “Agua Marinha”, que já naquella ocasião
“abafava”, nos meios da nossa musica popular, com
“Flor do asphalto” e

[86]

“Verde e amarello”, que me fizesse uma canção


sobre o meu companheiro das horas bôas e más.
O fulgurante chronista de “Phantasma dourado”
accedeu promptamente ao meu pedido, numa phrase
ironica:
— Está bem, Chico. Vou vêr o que posso fazer
por você.
No dia seguinte, pela manhã, recebi uma carta
de Orestes Barbosa acompanhada da letra da
canção:
MEU COMPANHEIRO

Foste, talvez, uma arvore frondosa


harmonisando a voz do violão.
E hoje, na minha vida dolorosa,
só tu me entendes, triste violão.

Sorrisos, ilusões, phrases perdidas,


um vestido ligeiro que passou,
olhares, beijos, sonhos, despedidas,
tudo meu violão crystalisou.

[87]

Estribilho

Meu companheiro dilecto


violão, és meu affecto,
és minha consolação.
De tanto roçar meu peito
tens hoje o timbre perfeito
da voz do meu coração.
Foi umas das maiores emoções de minha vida.
Os versos do mais carioca de nossos escriptores
traduziam com rara felicidade os meus sentimentos
affectivos.
Aliás, melhor do que as minhas palavras, falam
do extraordinario successo de “Meu companheiro”
o acolhimento enthusiastico que teve, entre nós,
essa linda canção que marcou o feliz inicio da miha
parceria com Orestes Barbosa.
Depois de “Meu companheiro”, lancei com a
collaboração do victorioso autor de “Samba” as
seguintes producções:
“Ha uma forte corrente”, “Palhaço do luar”,
“Dona de minha vontade”, “Adeus”, “A

[88]

mulher que ficou na taça”, “Não sei”, “A abelha da


ironia”, “Adeus mocidade”, “Ouve esta canção”,
“Ciume”, “Romance”, “Por teu amor” e “Balão do
amôr”.
Dessas canções não sei qual foi a que alcançou
maior exito. Só posso dizer convictamente que
todas ellas tiveram grande resonancia na alma lyrica
do nosso povo.
Vinte Annos de Ribalta
VINTE ANNOS DE RIBALTA

Foi no antigo e popular “Pavilhão do Meyer” que


fiz a minha estréa como actor. Uma festa intima,
realisada em casa de uma familia de minhas
relações, offerecera-me o ensejo de concretisar a
maior aspiração de minha vida. Depois de ter
cantado para o pequeno auditorio de amigos, uma
senhora de nome Aida, que me ouviu com o maior
interesse, perguntou-me:
— Você quer trabalhar em theatro?
Ora aquilo foi mesmo que cair mosca no mel.
Dominando o meu jubilko intimo, disse,
apparentando displicencia:
— Quero, sim.
No dia seguinte, conforme a combinação, dirigi-
me ao encontro da minha protectora artistica.

[92]

Esperava-me no antigo “Palacio-Theatro”. Ahi


estavam ensaiando diversos artistas. Logo que me
viu, apressou-se em me receber. Feitos os
cumprimentos de praxe, lecou-me aos empresarios
que eram os actores João Martins e João de Deus.
Sem pensar em retribuição monetaria, nitidamente
lyrico, cavalheiro do sonho ingressei na Companhia.
Chegou o dia da estréa. Eu fazia um papel que tinha
duas palavras e outro em que eu cantava com o
violão. Entrei em scena, muito nervoso, já se vê.
Nunca me tinha visto naquelles apuros. Cantei,
entretanto, os meus numeros. Creio que foi muito
bem porque me applaudiram. Sai com o rei na
barriga, todo satisfeito. Depois da temporada no
“Palacio-Theatro”, a Companhia veiu ter ao “Circo
Spinelle”. Começou, então, para mim, a
opportunidade de ser em breve homem de circo...
Trabalhavamos normalmente, quando entrou,
em scena, uma “compére” absolutamente
desconhecia e indesejavel: a Hespanhola. Ape-

[93]

sar de sermos de circo, a gripe atacou-nos derijo. A


Companhia viu-se obrigada a parar. Os artistas
entregaram os pontos. Ao cabo de uma semana
fomos irremediavelmente dissolvidos pela
Hespanhola. Falta de artistas, é, sobretudo, ausencia
de publico.
Os empresarios, nessas condições, desistiram.
Fiquei desanimado, Mas como não há bem que
sempre dure nem mal que não se acabe, recebi
convite para trabalhar numa Companhia dirigida
pelo sr. Baptista, pae da actriz Amelia de Oliveira,
esposa, agora, do actor Arthur de Oliveira. Esta
companhia exhibiu-se no “Polytheama”, de
Nictheroy. Lá estivemos cerca de tres mezes, que
foi a duração da sua existencia. Desta vez não
fomos dispersados pela Hespanhola, mas morremos
de insufficiencia cardiaca, que no caso era a falta de
“notas”...
Fiquei á espera de dias melhores, acompanhado
do meu violão. algum tempo depois, appareceu-me
um convite do sr. José Segreto

[94]

para o elenco do “Theatro São José”. Quase


endoideço, de alegria!
Apalpei-me todo para ver se era realidade ou se
estava sonhando. Sem pensar em outra cousa, fiquei
ansioso aguardando o dia da estréa ao lado de
Ottilia Amorim, Alfredo Silva e demais artistas
daquella casa de espectaculos.
Afinal, entrei em scena com o meu velho
companheiro, sua magestade, o violão. Saime com
galhardia. No dia seguinte, porém, um jornalista
metteu-me o pão. Apesar disso, a minha boa estrella
protegeu-me e eu não perdi o animo. Prosegui no
elenco. Os annos correram. Fui vencendo. Fazia até
o repertorio do tenor Vicente Celestino, nas peças
“Adão e Eva”, “Morro da Favella”, etc.
Dois annos depois, a Companhia fez uma
viagem a S. Paulo, onde exhibiu-se no “Cine
Theatro Braz Polytheama”. Tal excursão obedeceu á
necessidade de ser reformado o Theatro “S. José”.

[95]

Eu ganhava 250$000 de ordenado, e, para viajar


a S. Paulo, augmentaram-me para 350$000. Em S.
Paulo, fizemos uma temporada no referido theatro e
outra no “Appollo”, onde, em ultima representação,
levamos á scena a revista “Aguenta, Felippe”.
Nesta altura, surgia, nos bastidores, uma forte
intriga que visava me indispor com a administração.
Não dei nenhuma importancia ao caso. Quem
não deve não teme. No entanto, certo dia o meu
amigo José Segreto veio me interpellar de modo
áspero. Respondi-lhe no mesmo tom. Dahi surgiu
uma discussão violenta. No calor da polemica, o sr.
José Segreto descontrolou-se e acabou me dando
tres tiros. Felizmente tudo acabou bem. O rapaz era
um optimo empresario, mas um péssimo atirador...
Este incidente occorreu nas vésperas da
Companhia embarcar para o Rio. Logo que cheguei
á capital da Republica, fiz uma carta á empresa,
despedindo-me. Depois do que acon-

[96]

tecera, só me cabia essa providencia. A empresa não


acceitou a minha demissão e eu comtinuei,
provando dessa forma que não guardo rancor. Sou,
ainda, amigo de José Segreto.
A vontade de vencer no theatro não me
abandonava. Para isso, lançava mão de todos os
esforços, afim de ganhar maior salário, e consegui,
nesse particular, o augmento para 450$000. Todos
lamentavam que eu ganhasse tão pouco, fazendo
como eu fazia diversos papeis, e , modestia á parte,
agradando ao publico, até me numeros marcados
por mim, com por exemplo, o Maxixe Acrobático,
numero meu e da fallecida Antonia Denegri, na
revista “Olha o Guedes”, que obteve grande
sucesso. Em outra revista, fiz o “Veterano do
Paraguay”. Aliás, este typó, fel-o, pela primeira vez,
o velho amigo e bom collega Asdrúbal Miranda.
Achei-me um dia deante de uma peça
carnavalesca. Como é da praxe nessas peças, entram
os tres grandes clubs da cidade. Na destribuição dos
papeis, coube-me – ironia da sor-

[Foto com legenda: Francisco Alves na aphoteose


da revista carnavalesca “Tatu subiu no pau”,
levada á scena pela companhia da empresa
Paschoal Segreto em 1923.]

[97]

te! – o club dos Fenianos. Muito pesaroso porque


preferia desempanhar a missão dos Democraticos,
comecei a ensaiar. Um dia o director Izidro Nunes,
já fallecido, chamou-me para dizer que fora avisado
das minhas preferencias “Democráticas” e que,
entretanto, teria de representar, em scena, os
Fenianos.
E enérgico:
– Veja lá o que você vae fazer. tal advertencia
afastou-me, mas prosegui no ensaio.
Veiu a estréa, e, para evitar aborrecimentos,
cada dia um club entrava por ultimo. Entrando em
ultimo ou primeiro logar eu procurava agradar ao
publico e fazer notar ao meu director que estava,
realmente, tomando interesse pelo Club dos
Fenianos. Todavia, por azar ou cousa que o valha,
dei um esbarrão no par que fazia o meu glorioso
Democráticos. Quando desceu o panno, a dona Lêna
Vieira chamou-me a attenção. Desculpei-me. Como
é natural em nervos femininos, dona Leda exaltou-
se. E eu também, perdendo a calma, segui-

[98]

lhe o exemplo. O meu fallecido collega Martins


Veiga, que era o par da distincta actriz, em vez de
acalmar a encrenca, ainda collocou gasolina no foco
do incêndio, que era dona Leda.
A contenda travara-se renhida. Um dos
directores da empreza, o sr. João Segreto, sem,
entretanto, saber, ao certo, como se passara o facto,
despediu-me por tabella na mesma hora.
Lembor-me disso como se fosse hontem. Fui
para o camarim desolado. Sozinho me lamentava.
Preso por ter cão por não tel-o. Se eu não tomasse
interesse pelo Club que representava, certamente,
seria objecto de advertência ou censura; porém,
como eu havia tomado, a infelicidade de um esbarro
involuntário no par que dansava ao meu lado,
complicar a minha situação.
Resolvera-me a arrumar as minhas cousas, e,
conversava com as coristas que eram as minhas
maiores camaradas, quando uma dellas approxima-
se, para me avisar que dona Leda havia lido a
tabella e exigira que a retirassem, pois,

[99]

o que occorrera entre nós dois, não constituía


motivo sério para dispensarem os meus serviços.
Tratava-se de uma discussão entre
artistas,affirmando mesmo a actriz que se no dia
seguinte eu não trabalhasse, ella também não
trabalharia. Deante dessa nobre attitude a empresa
achou conveniente retirar a tabella. Teve dona Leda
um procedomento correcto.
Entrara no cartaz a revista “Secos e Molhados”,
do sr. Luis Peixoto e Marques Porto, sendo o
primeiro naquella ocasião, director artísitico. Ia já
para cinco annos que eu trabalhava na Companhia.
Era justo, pois, que fosse melhor recompensado.
Fallei, a esse respeito, com o sr. Luis Peixoto,
explicando-lh o motivo pelo qual eu pedia o
augmento. Prometteu-me que dentro de alguns dias
o meu pedido seria attendido. Recommendou-me,
porém, não dizer mais a ninguém.
Disse-lhe que sim, mesmo porque não tinhá que
dar satisfação da minha vida. Dias de_

[100]

pois mandou chamar-me, declarando que me fizera


o augmento de 25$000 por quinzena. Não tolerei a
pilheria. Na mesma hora, declarei-lhe que só
trabalharia naquelle dia. O sr. Luiz Peixoto não se
incommodou. Terminando o espectaculo, arrumei
os meus “troços” e não fui mais no theatro, a não
ser para receber alguns dias do meu ordenado. Tive
a honra de ser substituído por quatro artistas, e, sem
exagero nem jactancia das minhas qualidades, esses
mesmos elementos não fizeram os papeis ao gosto
dos autores. Chegaram até os meus ouvidos as
palavras de um delles, o sr. Marques Porto que
dissera que o “Chico” era canastrão, mas que
ninguém fazia esse quadro como elle.
A convite do dr. Isaac Cerquinho, ingressei
numa companhia que estreou em Nictheroy, mas
que fracassou. Dahi fomos a Petrópolis. Em tal
companhia, esse doutor theatral, gordo como um
capado mineiro, entendeu, emergindo das suas
tremendas banhas, de bancar o “bamba” commigo.
Depois de saber que eu queria sahir da Com-

[101]

panhia, por estar sendo perseguido pelo director de


scena, essa grotesca figura representativa do
bacharel-empresario, empenhava-se em me
convencer para que eu ficasse, quatro dias depois de
me despedir por tabella e em frente de toda a
Companhia, onde, dentre muitos artistas, só tive a
solidariedade de dois, o tenor Mafra e a actriz
Thereza Patti.
O director a Companhia soffria da mania de
cantar. Uma doença como outra qualquer.
Com todos estes contratempos, eu não
desanimava. Procurava ganhar a vida honestamente.
Poucos companheiros, porém, me ajudavam. Mais
tarde fui chamado para trabalhar na Companhia
“Antonio de Souza”.
Immediatamente acceitei as condições que o
director me estabeleceu.Tratava-se do desempenho
de pequenos papeis e substituir o applaudido collega
Arthur Castro, possuidor, aliás de uma voz
lindíssima.
Nas vésperas do embarque da Companhia para
S. Paulo, assisti ao enterro de minha sem-

[102]

pre lembrada mãesinha. Aliás, desde esse dia, não


dei mais pezames a ninguem e o motivo
passo a explicar.
Estava triste, na porta do theatro, penalizado
pelo fallecimento de minha genitora, quando
encontrei um idiota que me perguntou o que eu
tinha, pois, notára o meu pezar. Disse-lhe a grande
perda que acabara de soffrer. E elle, com
displicência, apresentou-me pezames, dizendo
textualmente:
– Conforme-se, isso é da vida.
Fiquei irritado. Tive ímpetos de applicar-lhe uns
cascudos para que aprendesse a ser mais discreto e
sensato.
No emtanto, ao chegar á porta do antigo café
“Criterium”, encontrei um gesto de sólidariedade
que bastante me confortou. A mãe de Aracy Côrtes,
com quem eu andava meio “politico”, veio me dar
os pezames da festejada artista. Mais tarde, ao
chegar á casa, encontrei uma bonita coroa enviada
por Aracy Côrtes. Mão esqueci

[103]
nem esquecerei nunca a delicadeza de sentimentos
desta minha brilhante collega.
Como já disse, segui para S. Paulo com a
Companhia do Sr. Antonio de Souza. Minha estréa
é até ridículo dizer. Foi a seguinte: havia um quadro
na platéa e, eu, entrava , então, nesse quadro, com
uma blusa e um bonet muito velho, dizendo:
–“O senhor está se portando mal recinto. Retire-
se”.
Foi esse o papel com que fiz a minha estréa
nesta Companhia. E só cantei um numero, que
apresentava o final do 1.º acto, naturalmente porque
viram que não tinham outro.
E as indirectas que eu ouvia?
–Oh! como o Castro ninguém faz esses
números! Elle tem uma voz admirável.
A todo o instante ouvia isto. Como precisava
cavar a vida, sujeitava-me a tudo.
Vieram outras peças e, graçs aos meus esforços,
os papeis que me confiavam, agradavam á platéa.
De S. Paulo, seguimos para Curityba.

[104]
Na capital paranaense, fiz algum sucesso.
Demandamos o sul. As piadas continuavam. Não
brigava, esperando dias mais auspiciosos. E elles
chegaram. Despedi-me da Companhia. Tudo
fizeram para que eu ficasse. Ri por ultimo, e, se bem
que minha situação financeira não fosse boa, o
momento era propicio para que eu os mandasse
arranjar substituto. De resto, foi um pouco difficil.
A companhia deixou a cidade e fiquei no hotel a
pensar no que ia fazer. Dei umas voltas em Pelotas.
Fui a Porto Alegre. Organisei espectaculos em
vários cinemas. Arranjei algum dinheiro. Estava
mais ou menos remediado para regressar ao Rio,
quando tive a infeliz idea de jogar. Vi-me
depennado, sem um vintem.
Para embarcar, consegui recursos á custa da
generosidade de alguns amigos, cada um dando-me
o que podia com boa vontade. Comprei uma
passagem de 3.ª classe. Ainda me lembro do vapor
que era da Costeira, o “Itassucê”. Logo que eu
cheguei a bordo o commissario me reco-
[105]

nhecendo pediu-me que eu passasse para a 1.ª classe


e, assim, vim distraindo os passageiros e a
tripulação do “Itassucê”, até o Rio.
Chegando á cidade maravilhosa, mantive-me é
espera de chamado para outra companhia.
Trabalhei num “mambembe” que durou, apenas,
sete dias. O desanimo já me contaminava o espírito,
quando fui para em um elenco organisado pelo
fallecido José do Patrocinio Filho. Exhibimo-nos no
theatro Phenix, Durante 15 dias, período de tempo
em que durou. O elenco era formado de bons
artistas, entre os quaes Alfredo Abranches, Adriana
Noronha e Brandão Filho.
Fiz o “Moleque namorador”, creação e
marcação minhas.
Extincta a Companhia, sou chamado pela actriz
Alda Garrido para trabalhar no Cine Gloria, em
companhia della. Depois de dois dias de ensaio
deram-me a entender que não me queriam... e, eu
não fiz cerimônias.
[106]

Com a chegada de Jardel Jercolis e a sua


Companhia, do Sul, a convite delle, recomecei o
trabalho theatral. Estreamos no Lyrico. Representei
sete dias, a razão de 30$000. Disse-me, depois, que
não precisava mais dos meus serviços.
A este tempo, eu comecei a gravar. Minha boa
“estrella” surgiu com novo fulgor. Melhorei.
Participei de duas peças com Alda Garrido, no
Carlos Gomes. Segui com Jardel Jercolis para S.
Paulo. Mais uma vez fui jogado para a linha de “off-
side” da vida, mas a minha taça de soffrimento já se
havia exgottado. Embora o elenco fosse composto
de “estrellas” como Auzenda de Oliveira e o
barytono Sylvio Vieira, consegui receber applausos
do publico. Nessa epocha eu já tinha o “ Samba de
verdade”, “Voz do Violão”, “Lua Nova” e outras
canções. Após uma temporada de quasi um
anno,vim para o Rio definitivamente. Mesmo
durante a minha estadia em S. Paulo, vinha varias
vezes ao Rio,para gravar.
[107]

Um anno mais tarde fui convidado pelo


empresário Pinto para trabalhar na Companhia
Margarida Max, que fez uma temporada em S.
Paulo.
A felicidade sorriu-me nesta temporada.
Terminado o meu contracto em S. Paulo, retornei á
Capital Federal. as gravações continuavam com
grande acceitação do publico.
Dispuz-me a fazer, por minha conta, varias
excursões a S. Paulo.
Da mesma forma fui ao Sul. Levei um “beiço”,
como se diz na gíria, de 800$000, mas todos os
elementos que foram por mim contractados
receberam os seus ordenados, sendo que alguns
mais até do que havia sido combinado. Nessa
excursão participaram Mario Reis, Noel Rosa, Nono
e Pery Cunha.
Estive, em Buenos Aires, pela primeira vez, com
Jardel Jercolis, chefiando um conjunto de artistas,
entre os quaes se destacavam Carmen Miranda,
Mario Reis, Celia Zenatti, Tute e Singerce e um
rapaz mais conhecido por Americano,

[108]

fóra a orchestra organisada em Buenos Aires.


Ultimamente, trabalhei numa peça, no theatro
Recreio, da qual o publico deve, ainda, se lembrar:
Da Favella ao Cattete. A revista agradou
sobremaneira, indo o sucesso além da expectativa.
Participei della, também em S. Apulo, onde foi
representada com êxito.
Tenho recebido optimos convites para o theatro.
Recusei-me sempre porque desejo ser grato aos
meus ouvintes. Não quero deixal-os. A canção e o
disco foram os alicerces da minha carreira artística.
Valorisaram-me, elevaram o meu nome e as minhas
finanças. E’ por esse motivo que, hoje, sou artista
de radio e continuo a gravar na R. C. A. Victor.
Gravando discos
GRAVANDO DISCOS

O Disco teve, em minha vida, uma influencia


capital, sem trocadilho. Foi com o concurso delle
que eu alcancei os meus maiores successos
artísticos e financeiros.
A primeira gravação que fiz, em disco, foi com
João Gonzaga que acabava de deixar os estúdios da
Fabrica Odeon e resolvera trabalhar por conta
própria. Os processos de gravação ainda eram
primitivos. O cantor tinha que altear bem a voz,
tornando-a muito forte. Compareci ao estudio
improvisado de João Gonzaga, acompanhado de
Juvenal Fontes e minhas sobrinhas, cuja missão era
fazer coro.
“Pé de Anjo” foi o primeiro disco meu que
andou rolando vertiginosamente pelo Brasil.
Depois, gravei outras musicas populares daquelles
tempos, em que “Sinhô” empunhava o

[112]

bastão de leader, nas rodas do samba carioca.


Dessas gravações não tive nenhum resultado
material. A única cousa que ganhei foi experiencia...
Annos depois, já cansado de trabalhar para os
emprezarios theatraes, acceitei um convite de Freire
Junior para fazer uma experiência na Casa Edison,
distribuidora dos discos Odeon. Gravei o samba de
Sinhô “Ora, vejam só!” Foi um sucesso. Venderam-
se mais de 25... mil réis, que o sr. Figner me pagou
com ares, de philanthropo...
Como eu tivesse agradado, convidaram-me para
continuar gravando. Acceitei o convite de bom
grado. Nem siquer discuti condições. A
remuneração de meu trabalho ficou por conta do
critério dos “generosos” emprezarios de minha
garganta... Gravei mais quatro discos a 25$000,
cada um.
O chefe das gravações era um allemão de nome
Roeder. Bom technico, elle seria um opti-

[113]

mo auxiliar se quizesse metter-se na seara alheia. A


sua pretensão era demasiada. Quis me ensinar a
cantar até as nossas canções e sambas. Eu achava
graça. Era a melhor maneira de me livrar de suas
impertinências artísticas. O sr. Roeder, que falava
mal o portuguez, costumava me dizer, em sua meia
língua, que eu não sabia interpretar. Mas, na hora de
gravar, o publico preferia os meus discos...
Decorridos alguns mezes fui convidado para ser
cantor exclusivo da Odeon, ganhando 100 réis por
disco. Concordei. Depois a situação melhorou.
Augmentaram-me para 150, 200 e 300 réis. Assim,
de tostão em tostão, cheguei a ganhar 600 réis por
disco. O grande desenvolvimento do mercado de
discos animou a Victor que resolveu montar uma
fabrica. Convidaram-me. Rogério Guimarães
trouxe-me a proposta de 25 contos para eu cantar na
nova fabrica. Expuz, lealmente ao sr. Figner a
minha situação. Ou elle me augmentava ou perdiria
o cantor que não sabia interpretar... O sr. Figner,
porém, não entregou os

[114]

pontos. Fez-se de victima. Disse-me que eu não


podia abandonal-o. Emfim, tanto se lamentou o
finório do judeu que eu acabei com pena delle e
assignei um contracto de um anno. Quando estava
para terminar o contracto que me foi arrancado
pelas lagrimas do sr. Figner, adverti-o que não
desejava continuar a trabalhar na Odeon.
Respondeu-me que não se conformaria,
absolutamente, com essa attitude, visto que o meu
contracto era de dois annos!
Com effeito. Ao examinar o famoso contracto,
verifiquei que tinha assignado de boa fé, um
compromisso de dois annos! Fiz ver isso ao sr.
Figner. Elle não tomou conhecimento de meu
protesto. Tive ímpetos de “desencarnar” o
insaciável judeu da Casa Edison. Mas, contive-me.
Eduardo Souto, a quem contei o caso, prestou-se as
servir de intermediário. Resolveu, então, o sr.
Figner dar-me uma ajuda de custo de um conto e
quinhentos, de accôrdo com a Fabrica Odeon, da
qual era distribuidor geral.

[115]

Assim fiquei nas mãos do sr. Figner até 1931.


Nessa época, elle deixou a representação da Odeon,
que me conservou como seu cantor exclusivo.
Terminado esse compromisso, fui chamado pela
Victor, na qual permaneço até hoje, satisfeito com
os seus directores e com a boa acceitação que os
meus discos têm tido.
Fazendo samba
FAZENDO SAMBA

Nunca me aconteceu sentar na secretaria, em meu


escriptorio, e fazer, burocráticamente, uma musica
ou uma letra.
Quasi sempre a inspiração me vem na rua, de
uma impressão qualquer.
Uma mulher que passa, uns olhos bonitos que
me fitam, um perfume subtil são, muitas vezes, o
motivo emocional de um samba ou de uma canção
que se tornam mais tarde populares.
Entre outros, lembro-me que a segunda parte do
samba “Se você jurar”, foi feita num bonde que me
levava a Villa Isabel.
*
* *

Certa vez, estava na “Casa Edison”, ensaiando


com Mario Reis o samba de minha auto-

[120]

ria “Soffrer é da vida”. Ao nosso lado, ouvia-nos


com interesse Newton Bastos, que foi um dos
melhores autores de seu tempo. Terminado o ensaio,
Newton começou a cantar o estribilho do sambar
“Se você jurar”, que era delle. O Mario Reis achou-
o notável e ficamos os três a repetir os versos a meia
voz.
Mas o tempo corria.
Chegou a hora de fechar a loja e nós não
tínhamos, ainda, conseguido fazer a segunda parte
do samba.
Saímos. Na rua, cada um seguio caminho
differente, Eu fui tomar o meu bonde de Villa
Isabel, na Praça Tiradentes. Estava preoccupado
com a nova creação do Newton. Sentei-me no banco
da frente, e emquanto o bonde rodava
vertiginosamente dentro do tumulto da tarde, eu
puxava pela intelligencia.
De repente, gritei um Eureka tão alto que
chegou a assustar os meu companheiros de viagem.

[121]

A inspiração tinha se sentado amavelmente ao


meu lado. E a segunda parte do “Se você jurar” foi
feita, mentalmente, alli mesmo.
Em casa, não quis jantar e fui directamente ao
meu escriptorio. O meu appetite estava todo
concentrado no samba que eu queria escrever logo,
antes que a inspiração désse o fóra. Peguei o violão
e só o larguei quando a letra e a musica estavam
promptas.
E foi assim que acabei o samba que fiz de
parceria com o saudoso Newton Bastos, samba que,
dias depois, gravei com Mario Reis, em disco
Odeon.
No Radio Nacional
NO RADIO NACIONAL

Minha estréa como cantor de radio foi feita há


annos, na “Radio Sociedade Rio de Janeiro”.
Não me ocorre o dia exacto, nem mesmo o anno
da primeira exibição que fiz para o ouvinte carioca.
Sei, apenas, que isso aconteceu logo que comecei a
gravar discos para o sr. Fred Figner, da “Odeon”.
Cantei, depois, na ”Mayrink Veiga”. Mais tarde
transferi-me para a “Radio Club”.
Indo a S. Paulo, trabalhei na “Radio Educadora”,
da capital bandeirante. Regressando ao Rio,
continuei a actuar nas estações do “broadcasting”
carioca. Entre outras, cantei na “Guanabara”, a
popular estação que obedece á orientacão
intelligente dos irmãos Manes, no “Programma
Cazé” e na “Educadora”, num pro-

[126]

gramma organisado pelo “speaker” Christovam de


Alencar. Quasi sempre essas mudanças foram
motivadas pelos meus interesses econômicos. A
minha actuação nos microphones cariocas estava
interessando aos ouvintes e eu procurei tirar partido
disso. Já me sentia cançado de trabalhar para os
Figner da arte nacional.
Voltei varias vezes a S. Paulo em actividade
radiophonica. De preferência, trabalhei na “Radio
Record”. Os seus directores e auxiliares
dispensaram-me sempre a maior consideração.
Cantei tambem na “Radio Diffusora”. E isto por
um motivo particular. Tendo saído da “Mayrink
Veiga”, suppuz que a “Radio Record” não se
interessaria mais por mim, em virtude de manter um
programma de inter-cambio isto é, de ida e volta
com a estação que o valor e o prestigio de Cezar
Ladeira impoz como um baluarte do radio nacional.
Foi por esta circumstancia que acceitei a
proposta da “Radio Diffusora”, a ultima vez

[127]

que cantei em S. Paulo. Aliás, nessa ocasião, fui


convidado também pelo dynamico Jorge do Amaral
para a “Radio Cruzeiro”. Na “Radio Farroupilha”
fiz ultimamente uma rápida temporada, de que trato,
com detalhes, num capitulo especial.
Fiz parte ainda do quadro de artistas da
fracassada “Cajuti”, na qual mantive, algum tempo,
com sucesso, um programma sob a minhá direcção
artística. Saindo dessa estação, fiquei aguardando a
inauguração da “Radio Transmissora” que fez
questão de assignar contracto commigo muito antes
de iniciar as suas irradiações. Terminado esse
contracto, procurei me orientar de accôrdo com as
sympathias de meus queridos ouvintes. Dahi
decidir-me pela “Mayrink Veiga” que é,
incontestavelmente, a preferida do povo carioca.
[ Foto: Companhia Antonio de Souza. Aspecto do
festival de Francisco Alves e Celia Zenatti,
realisado e, 13-9-926.]
Eu e a Mayrink Veiga
EU E A MAYRINK VEIGA

Houve quem interpretasse mal o meu afastamento


da estação Mayrink Veiga. Sobre esse caso,
fizeram-se vários commentarios. Todavia é muito
simples esclarecei-o. Sempre fui e continuo amigo
de todos quantos trabalham na Radio Mayrink
Veiga, incluindo os directores que me honraram,
invariavelmente, com a sua estima e amisade.
O que houve de verdadeiro foi o seguinte:
apenas um disse me disse, que, ao certo, não sei de
quem partiu. Como todos sabem fui durante muito
tempo cantor da popular estação. Certo dia tive uma
contrariedade com um dos auxiliares que trabalhava
commigo. Por esse motivo, sahi. Passado algum
tempo recebi convite do director da Mayrink, o sr.
Joaquim Antunes, para ingressar novamente no
quadro dos artistas. Não

[132]

accedi logo. Fil-o mais tarde, attendendo a


instancias do meu prezado amigo Cesar Ladeira.
Cumprindo a minha obrigação, enquadrada no
contracto de um anno, certa vez, um cavalheiro que
exercia a sua actividade no studio, pretendeu dar-me
umas ordens, as quaes julguei inacceitaveis porque
se achavam fora dos limites determinados pelas
clausulas contractuaes.
Ainda assim, com o proposito de evitar
aborrecimentos, pedi ao s. Joaquim Antunes, a
rescisão do meu contracto. Sabedor do occorrido,
elle ponderou-me não ter importancia o caso. Não
devia tomar essa decisão. Continuei, então, a cantar
na Mayrink, mas o cavalheiro, autor das ordens que
eu não acceitara, ao que parece, ficou de prevenção
commigo.
Comtudo, sem levar em conta essa
circumstancia, prosegui na execução do meu
contracto. Para mim, a situação estava longe de ser
a de um mar de rosas. Nada transparecia,
directamente, contra a minha pessoa, Deixei correr
o marfim. Eis senão quando, certo dia, surge uma

[133]

empresa denominada “Propalam”. Fui convidado


com alguns collegas para uma reunião, cujo
assumpto objectivava a elaboração de um
programma destinado a fazer propaganda da
mencionada empresa. Eu e meus collegas,
comprometidos pela fé da palavra empenhada e dos
contractos, fomos obrigados a recusar a proposta.
Não deixamos, porém, de agradecer a preferencia
com que nos distinguiam.
O director-chefe de “Propalam”, todavia, não se
conformou com as nossas excusas. Chegou a
declara até que pagaria a multa imposta pela
exclusividade do meu contracto.
Agradecendo mais uma vez, fiz-lhe sentir que
não era só esse o motivo que me levava a declinar o
convite, e, sim, a amiz\ade que me dispensavam os
directores da Radio Mayrink Veiga. Em virtude da
minha resolução, o chefe de “Propalam”, tendo um
contracto com um o escriptor Paulo Magalhães,
appelou para este, no sentido de, por seu intermédio,
conseguir que a Radio Sociedade Mayrink Veiga
désse consentimento,

[134]

ao menos, para que eu tomasse parte no programma


a ser executado.
Paulo Magalhães promptificou-se a promover
esse entendimento. Nesse interim, o director da
“Propalam” precipitou-se.
Começou a annunciar o meu nome nos jornaes
com a noticia de que se tratava de uma irradiação
para uma nação irmã, isto é, para a capital da
Argentina.
As notas fornecidas pelo director da
“Propalam”, de certo modo, comprometiam-me.
Meu nome estava em jogo. Entretanto, eu não
participaria da irradiação. Como se vê, a situacão
era bastante seria. Os ouvintes do Brasil e Buenos
Aires, naturalmente, iriam ficar supresos e poderiam
attribuir a mim a falta de bom senso de outros. Eu,
que sempre fui bem recebido na Argentina, não quiz
passar por ingrato.
Emfim, a leviandade do director da “Propalam”
refletiu-se principalmente sobre mim. Procurei
explicar a situação aos directores da Mayrink Veiga.
Não me foi possivel convencel-

[135]

os. Afinal de evitar desgostos maiores, dirigi-me ao


director da “Propalam”. Disse-lhe francamente, que
eu não podia cantar. Podia ajudal-o, somente, no
que fosse possivel. De facto, o ajudei, arranjando, á
ultima hora, elementos para o programma.
Vi-me, assim, em circumstancias delicadas e
tudo fiz para honrar o nome do nosso broadcasting,
e, sobretudo, do Brasil.
Na noite da irradiação para Buenos Aires, por
intermédio da “Propalam”, cantei na Mayrink
Veiga. Tive, porém, o necessario excrupulo de
expor a miha situação e o que eu havia resolvido.
Dispunha-me, apenas, a solucionar da melhor
maneira uma situação melindrosa para nosso paiz.
Fiz o que minha consciência e o meu cavalheirismo
de brasileiro dictavam. Estive presente á irradiação
da “Propalam”, mas não cantei. No dia seguinte,
embarquei para São Paulo. No regresso, encontrei o
disse-me-disse. Solicitei, então, a rescisão do meu
contracto, o que foi feito de commum accordo.
Eis ahi, o que houve.
“Programma Francisco Alves”
“PROGRAMMA FRANCISCO ALVES”

Quando, em 1934, me lancei ao emprehendimento


do “Programma Francisco Alves”, a convite de meu
prezado e brilhante parceiro Orestes Barbosa, não
me passou pela mente a idea de fazer concorrencia
aos cantores e directores de outros programmas.
Pensei, sómente, em collaborar com todos elles
na obra commum. O radio no Brasil, sob o ponto de
vista artístico, pareceu-me ainda nos primeiros
passos. Quis também fazer força. Desejei trabalhar
num campo mais amplo e efficiente, no qual eu
tivesse a necessaria autonomia para incentivar o
desenvolvimento do nosso “broadcasting”.
Até aquella occasião não me fôra possivel pôr
em pratica umas idéas que martelavam ha muito em
meu cérebro e que visavam, principal-

[140]

mente, uma propaganda mais intensa e melhor


orientada as nossas musicas e canções.

*
* *

Dentre os elementos do nosso “broadcasting”


que collaboraram para o êxito artístico do
“Programma Francisco Alves”, lembro-me dos
seguintes: Luiz Barbosa, Dyrce Baptista,
Pixinguinha, Ary Barroso, Moacyr Bueno Rocha,
Bill Don, Luci Maria, Mario Cabral, Orlando Silva,
Manoel Monteiro, Anninha Goulart, Aracy de
Almeida, Sonia Carvalho, Marly Cadaval, Malena
de Toledo, Haroldo Brown, Linda Baptista e o
victorioso speaker Christovam de Alencar.
Infelizmente, a minha iniciativa, recebida com
grande enthusiasmo pelo povo carioca, foi
prejudicada pela falta de correcção dos directores da
“Cajuti”, que, deixando de satisfazer as principaes
clausulas do contracto que assinaram

[141]

commigo, deram-me vultosos prejuízos Moraes e


financeiros.
Protelei, emquanto foi possivel, uma acção mais
enegica contra á má fé desses cavalheiros da
industria radiophonica. Mas, vendo que toda a
contemporisação era inutil, resolvi suspender a
irradiação do “Programma Francisco Alves” e
appellar para a acção da Justiça.
Aliás, ainda hoje estou aguardando
pacientemente a solução deste caso, que está sendo
patrocinado pelo meu amigo e talentoso causidico
dr. Carlos Lossio da Silva.
Apesar de sua vida ephemera, o “Programma
Francisco Alves” realizou algo em pról do radio
nacional.
Os elementos novos que lancei e que estão ahi,
actuando com successo em nossas principaes
estações, attestam de modo positivo que o meu
esforço foi util e fecundo.
Orlando Silva, actualmente artista exclusivo da
“Transmissora”, é um exemplo bem expressivo
disso. Sempre que procurou se appro-

[142]

ximar dos nossos microphones encontrou obstaculos


invenciveis. Linda Baptista, eleita há pouco Rainha
do Radio, cantou pela primeira vez no meu
programma. E a propria Dyrcinha Baptista estava
afastada do radio. Fui eu que a trouxe para a
popularidade que desfructa agora.

*
* *

No “Programma Francisco Alves”, eu vivia


assediado constantemente com os candidatos a
cantores de radio.
Havia pêssoas então de uma tenacidade e
teimosia desconcertantes.
Certa vez, appareceu no nosso escriptorio uma
encantadora senhorita com uma carta de um
influente politico, meu amigo.
Experimentei a sua voz. Era um dos maiores
“facões” que eu já ouvira.
Desculpei-me da melhor maneira. Disse-lhe que
ella tinha uma voz aproveitavel, mas não estava
educada.

[143]

– Não faz mal, Francisco Alves – contestou-me com


vivacidade – eu não me incommodo de cantar voz
mal educada.
– Mas, me incommodo eu, senhorita.
Ela, porém, insistiu:
– Faço questão de cantar em seu Programma, Chico.
Nem que seja uma só vez, eu tenho que occupar o
microphone. Estou disposta mesmo a pagar
generosamente. Na hora em que eu cantar é como se
você fizesse um na-
nuncio de “O Dragão”, o rei dos barateiros.
– A idéa não é má. Mas por que esse capricho?
– Eu lhe conto. Tenho um noivo que é um
grande creador de bovinos em Barra Mansa.
Elle, apezar do meio rustico em que vive, é um
temperamento muito caprichoso e sentimental. Faz
questão fechada de me ouvir pelo radio. Se eu não
cantar, elle é capaz de desmanchar o nosso noivado.
– Seria uma pena...

[144]

– Uma calamidade! Imagina que elle tem...


– Um bom coração?
– Não, isso é o menos. Tem mais de dez mil cabeças
de gado.
– Está bem, senhorita. Em homenagem ás cabeças
de gado, seu noivo ouvirá hoje a sua linda voz...
Com effeito. Nesse mesmo dia, depois de
encerrarmos a irradiação do Programma mandei
desligar o microphone e a encantadora senhorita
pôde, então, “cantar”, especialmente para a
sensibilidade romantica do creador de gado de Barra
Mansa...
Boátos que se Desfazem
BOATOS QUE SE DESFAZEM

Depois da minha accidentada passagem pela


“Cajuti”, cantei algum tempo na “Radio
Sociedade”. Vieram, então, diversas propostas que
me offereciam ensejo de exercer actividade artistica
em outras estações do “broadcasting” carioca.
Acceitei a da “Radio Transmissora”. Emquanto se
ultimavam os preparativos para a inauguração dos
estudios, dei uma festa no “Carlos Gomes”, em que
fui bastante feliz. Segui, então, para S. Paulo, onde
cantei uma semana, na “Radio Diffusora”.
Regressei ao Rio, e, pouco dias após, estavamos em
pleno carnaval.
Passou-se o ruidoso e ephemero reinado de
Momo.
Novamente fiquei afastado dos microphones,
aguardando a inauguração da “Radio
Transmissora”.

[148]

Os boatos começaram a fervilhar nas portas dos


cafés e nos estudios de radio:
– O Francisco Alves decaiu!
– O Francisco Alves não tem mais voz!
– O Francisco Alves está tuberculoso!
Eu sabia que havia uma forte corrente contra
mim, mas ouvia os commentarios com a maior
serenidade deste mundo. E prosseguia, calmo e
displicente, gravando os meus discos na “Victor”.
Graças a Deus, de maneira geral, a vida me corria
serena e desafogada sob todos os pontos de vista.
Nesse interim, surge-me uma proposta dos
emprezarios do “Theatro Recreio”, para eu trabalhar
numa peça que era a burleta-revista: “Da Favella ao
Cattete”
Em face de tantos boatos de que eu não
agradaria mais ao publico, de que havia perdido a
voz, resolvi acceitar o convite.
Os ensaios correram muito bem. Apenas o
director de scena pedia-me que eu não cantasse tão
alto durante as provas, afim de não en-

[149]

rouquecer. Parece que elle tambem se deixara


influenciar pela campanha.
No entanto, não dei nenhuma importancia á
advertencia e continuei a ensaiar no mesmo tom de
voz.
Quando chegou o dia decisivo do ensaio geral,
notei que quasi todos os artistas estavam
decepcionados. A peça não agradava, a não ser a
mim e ai seu autor, meu amigo Freire Junior.
Primeira representação. Mais uma vez a minha
estrella brilhou. A peça fez successo. O meu papel
foi desempenhado a contento de todos, merecendo
bôas referencias da critica e applausos calorosos do
publico.
Os boateiros, que sonhavam com o meu
fracasso, ficaram por “conta”, e foram desabafar as
maguas, ou melhor, o despeito, nas portas dos cafés.
“Da Favella ao Cattete”, que os meus collegas e os
technicos de theatro julgaram um desastre, ficou
trinta e seis dias no cartaz.

[150]

Ainda valendo-se da mesma revista. Alda


Garrido um dos mais brilhantes elementos da
companhia, fez a sua festa artistica, tomando eu
parte nella, gentilmente, no papel que criei.
E não foi mais representada, porque tive de
viajar para Porto Alegre, cumprindo, assim, um
compromisso que havia assumido com a “Radio
Farroupilha”.

*
* *
Em toda classe ha gente que fica damnada com
o successo dos outros. Aliás, geralmente essa raiva
não é mais do que o reflexo dos proprios fracassos.
Dias depois da morte de Marques Porto, passei,
por accaso, pelo “Café Opéra”, na Praça Tiradentes.
Alli está installado ha muito tempo a séde do Club
da Má Lingua do nosso theatro.
Convidado por alguns collegas, entrei e sentei
numa mesa, disposto a tomar uma chicara da
rubiacea e ouvir as novidades.

[151]

No decorrer da palestra, alguém falou a respeito


da morte de Marques Porto, focalisando os seus
grandes serviços ao theatro nacional.
Um da roda, a quem o saudoso escriptor
chamara certa vez, com muita felicidade, “um tenor
confidencial”, não se conteve:
– Marques Porto, era um sujeiro mau. Vivia
fazendo “blagues” e irreverencias com os collegas.
– Você queria que elle fizesse com elle proprio?
– Eu não perdôo essas cousas. E, no enttanto, estou
vendo aqui, no jornal, innumeros convites para
missas por alma desse sujeito.
– Você não tem razão – respondi ao “tenor
confidencial”. – O Marques Porto, não era mau?
– Sim. Uma pessima lingua.
– Então mais um motivo para que a classe
theatral mande dizer missas por sua alma.
– Por que?

[152]

Logico. Só os maus precisam dos bons officios dos


religiosos, no outro mundo. Você, por exemplo,
quando morrer não vae precisar de missas para
entrar no reino do céo...
Em Porto Alegre
EM PORTO ALEGRE

Durante os festejos do Centenario Farroupilha, fui


convidado pelo sr. Luiz Aranha para ir ao Rio
Grande do Sul. Atendi, com prazer, ao gentil
convite do illustre politico, que vinha ao encontro
de um desejo meu.
Dias depois seguia para a terra de Pinheiro
Machado, na companhia de Mario Reis e Lamartine
Babo.
Em Porto Alegre, a primeira visita que fiz, como
era natural, foi aos directores da “Radio
Farroupilha”.
Fui bem recebido, amavelmente mesmo, mas
sem aquella intimidade espontanea que é um dos
traços característicos dos valorosos filhos dos
Pampas. Posto que tivesse notado essa restricção
minima no cavalheirismo gaucho, não me
preoccupei com o facto e preparei-me para entrar
em actividade.

[156]

O primeiro ensaio com orchestra correu bem.


A irradiação inicial, optima.
Obedecendo a uma clausula do meu contracto,
estreei, depois, no popular “Cine-Imperial”.
Esforcei-me por agradar e, parece, consegui
plenamente o meu objectivo, por isso que a platéa
se manifestou, ruidosamente em palmas calorosas.
Na noite seguinte repetiu-se o mesmo enthusiasmo.
Senti-me em lua de mel com o publico. Aliás,
supponho que a preferencia dos applausos para a
minha voz, obedecia a uma questão de sympathia.
Os outros artistas, meus companheiros de excursão,
também foram muito applaudidos.
Satisfeito o contracto, na parte que se refe-
ria á minha actuação no palco, voltei a irradiar,
afim de completar o compromisso que tinha as-
sumido.
A “Radio Farroupilha”, no emtanto, recebeu
innumeras cartas dos seus ouvintes, pedindo que
organisasse outro espectaculo. Os dire-

[157]

ctores decidiram, então, convidar-nos para essa


festa extra, que se realizou, ainda, no “Cine
Imperial”.
Fiz a minha despedida nessa noite. Mario Reis
tambem. O theatro exgotou as lotações.
Um successo amplo, admiravel, absoluto. Fui
alvo de uma ovação que devéras me commoveu –
uma ovação que ficará para sempre retida na minha
memoria. Foi uma das noites mais felizes da minha
vida de artista. Os gauchos pediram-me que não
esquecesse a sua terra. (como se fosse possivel
esquecer uma terra tão linda e um povo tão
generoso!) Prometti que voltaria a Porto Alegre,
antes do carnaval. A promessa, porém, não poude
ser cumprida. A estação de radio da qual era eu, até
ha pouco, cantor exclusivo, não permitiu a
realização desse meu desejo.
Agora um episodio curioso.
Numa das noites do espectaculo, no “Cine
Imperial”, quando eu sahia do theatro, encontrei um
grupo de conhecidos, no qual se desta-

[158]

cavam os directores da “Radio Farroupilha”, drs.


Luiz Flores da Cunha e Antonio Flores da Cunha e
outras pessoas de relevo na sociedade
Riograndense.
O dr. Luiz Flores da Cunha, abrançando-me,
disse, sorrindo:
– Francisco Alves, tive uma grande decepção
com você.
– Por que? – indaguei surpreso.
– Deram-me, a seu respeito, más informações. Vejo,
agora, que você é muito differente do que me
disseram.
Accentuou, então, sem espirito de lisonja, a
minha actuação nos espectacuos e no radio,
dizendo-me que fôra eu o elemento que mais
fortemente impressionára o publico. Que teria nelle
e em todos os directores da “Farroupilha”, amigos
sinceros e admiradores da minhaarte, pois, eu bem
merecia.
E concluindo:
– Você, Francisco Alves, Deixa saudades a
todos quantos tiveram o prazer de ouvil-o.

[159]

O Rio Grande lhe receberá sempre de braços


abertos.
Fiquei profundamente sensibilisado com as
expressões carinhosas do dr. Luiz Flores da Cunha,
temperamento nobre e cavalheiresco de gaucho de
boa tempera.
Só depois deste encontro, todo occasional, é que
pude tirar conclusões bastante elucidativas,
relacionadas com a frieza da recepçõa com que me
acolheram os directores da “radio Farroupilha”.
Sabia, agora, dos motivos que determinaram as
reservas de tratamento que me causaram extranheza.
Quem teria sido o autor das más informações?
Com certeza algum collega, cheio de qualidades,
mas de voz duvidosa...
O facto é que o “amavel” collega perdeu o seu
tempo e seu latim.
Nada adeantou. Porto Alegre applaudiu-me e
pediu bis e a “Radio Farroupilha”, ou melhor, os
seus illustres directores dispensaram-me toda a
consideração.

[Foto: Primeira companhia theatral da qual fez


parte Francisco Alves, estreando em Abril de 1918,
no Polytheama do Meyer.]
Entre a vibração dos Gauchos e o
cavalheirismo dos Paulistas
ENTRE A VIBRAÇÃO DOS GAUCHOS E
O CAVALHEIRISMO DOS PAULISTAS

Deixei Porto Alegre com a saudade no coração. Os


dias que passei na bella capital sulina, foram todos
magnificos de acolhimento. O povo gaucho é
intelligente, vibrante e, sobretudo hospitaleiro.
Elle allia, ao impeto enrgico e quixotesco de
suas attitudes, uma delicadeza de sentimentos que
se manifesta em gestos de rara fidalguia. Dahi
explicar-se, talvez, a razão do meu grande successo.
Com os ouvidos ainda cheios dos applausos
delirantes da culta platéa do “Cine-Imperial”,
encetei a viagem de regresso. Antes, porém,
emquanto o navio se afastava lentamente do caes de
Porto Alegre, dei á cidade invicta e aos seus
valorosos filhos o mais commovido dos meus
adeuses.

[164]

Deve haver um pouco de pieguice, deve háver


muito do sentimentalismo de nossa raça nessa
emoção singular que nos empolga quando partimos
de uma terra em que fomos bem acolhidos, em que
sentimos a sypathia a transbordar da alma generosa
do povo.
Neste estado de espirito segui para Santos.
Ainda estavamos muito longe da encantadora
cidade litoranea paulista e já ouviamos, a bordo,
pelo radio, annunciar:
“Amanhã offereceremos aos nossos ouvintes
uma irradiação excepcional com Francisco Alves e
Mario Reis. Sociedade Radio Atlantica. – “A voz do
mar”. P.R.C. 5”. Depois de uma noite de exhibição
na P.R.C. 5, deixei Santos e voltei cheio de
saudades para o convivio da minha cidade
maravilhosa.
No Rio, continuei a receber propostas para
cantar em varias estações. Mas tinha a palavra
empenhada com a “Radio Transmissora”.
Aguardava, portanto, a sua inauguração.

[165]

Para rever o povo de Piratininga fui, mais uma vez,


fazer a burleta-revista da “Favella ao Cattete”, a
convite dos empresarios do theatro Sant’Anna. A
ventura me acompanhou ainda desta vez na minha
visita á mais dynamica das metropoles brasileiras.
Fiquei em S.Paulo quatorze dias, em verdadeiro
embevecimento, captivo com tantas e tão
expressivas provas de sympathia e apreço.
Entre a cigarra e a formiga
ENTRE A CIGARRA E A FORMIGA

Minha actividade tem sido das mais productivas. E


é facil,proval-a com documentação bem farta.
Na minha vida, não me seduziu sómente a
bohemia imprevidente da cigarra. Attrahiu-me,
tambem, a rude prova da formiga.
Se não fosse um paradoxo, poderia qualificar a
minha arte de lyrismo pratico.
Entre os autores da minha época, sem modestia
convencional, posso affirmar que tenho sido um dos
mais activos e fecundos.
Considero-me em primeiro plano, não só pela
quantidade como pela qualidade de minhas
producções.
Não será de todo inopportun abrir o meu
“dossier” ou expôr a bagagem sentimental que é um
resumo da minha vida artistica.

[170]

Talvez, amamnhã, os chronistas da cidade desejem


registrar o retrospecto das creações da arte popular,
mercê das expressões musicaes ou dos enlevos do
cancioneiro. Encontrarão neste livro um subsidio
valioso.
São da minha autoria as musicas das canções:
“Lua Nova”, “Voz do violão”, “Não Sei”, “Palhaço
do Luar”, “Veio dagua”, “Adeus”, “Minha
Serenata”; as valsas, “Dona da minha vontade”,
“Ciume”, “Por teu amor”, “A mulher que ficou na
taça”, “Romance”; os sambas, “Vadiagem”,
“Soffrer é da vida”; marchas, (parceria) “Gosto, mas
não é muito”, “Uma forte corrente”.
Orestes Barbosa foi um dos mais brilhantes
collaboradores de meu repertorio. Devo ao illustre
chronista e poeta carioca, os meus maiores sucessos.
Aliás, noutro capitulo deste livro, faço-lhe a devida
justiça. Seria demasiado longo enumerar aqui cento
e tantas composições que constituem o meu volume
de producções. Em algumas dellas nem o meu nome
figura. Mas quem

[171]

quizer saber, estou prompto a prestar informações


minuciosas.
Com relação ás minhs actividades de autor
poderão dar testemunho, dizendo a verdade, Noel
Rosa, Ismael, Nassara, Orestes Barbosa, Armando
Reis e outros. Acho, entretanto, que os nomes
citados, são sufficientes para julgar o caso.
O leitor, com certeza, se sentiria caceteado se eu
pretendesse pormenorisar o conjunto de minha obra
de autor. Não quero commetter essa calamidade
com espiritos tão tolerantes e amaveis.
Contento-me com esta synthese. De resto, meus
ouvintes conhecem, perfeitamente, talvez melhor do
que eu, o meu repertorio.
Tenho gravados, até hoje, nada menos de
oitocentos discos.

*
* *

Mas, voltando a La Fontaine, a verdade é que o


espirito previdente e economico da formiga influiu
poderosamente em minha vida. A dura

[172]

experiencia de meu passado, os dias amargos, de


incerteza economica, tornaram-me prudente. Com a
venda dos meus primeiros discos, comecei a
guardar, tenazmente, as minhas economias de
artista, na “Caixa Economica”! Dentro de alguns
annos, eu proprio me surprehendia com o meu
peculio. Fiz, então, uma casa e pude, finalmente,
cantar com a alegria e a confiança dos que têem um
tecto, dos que não precisam bater á porta da
formiga...
Critica e Criticos
CRITICA E CRITICOS

Em nossos meios artisticos ninguem desconhece o


quanto é generosa e acolhedora a opinião.
Si é certo que nos tem faltado por parte do
governo um apoio menos lyrico e mais efficiente,
não é menos certo que devemos aos que mourejam
na imprensa uma collaboração desinteressada e
brilhante que tem servido de incentivo aos que se
batem nobremente em pról do progresso artistico do
nosso paiz.
De mim posso dizer que, desde o dia cheio de
emoções em que pisei pela primeira vez um palco,
encontrei sempre o apoio e a sympathia da critica.
E note-se que appareci modestamente, como um
moço pobre, sem nenhum relevo social e artistico.

[176]

Recommendava-me sómente por uma voz bonita e


melodiosa que, segundo o conceito prudente de
alguns criticos anonymos, gastava em noites
bohemias, como um perdulario.

*
* *

Tenho, na imprensa carioca, affeições sinceras,


amigos devotados. Na maioria, são antigos
profissionaes que vêm acompanhando a minha
actividade nos palcos e no radio. Espiritos cultos e
bem intencionados, as suas suggestões, os seus
ensinamentos foram-me utilissimos.
O modesto cantor, que veio dos bairros
humildes, dos meios proletarios e conseguiu vencer,
esqueceu ha muito os que o combateram, mas não
esquecerá nunca os que o ajudaram a enfrentar os
preconceitos de uma sociedade que o recebeu com
prevenções.

[177]

E’ verdade que não me lembro de ter merecido


algum dia qualquer referencia do illustre critico
Oscar Guanabarino.
Mas, esse venerando expoente da nossa cultura
artistica vive muito distante do Brasil, preocupado
com Gigli, Tauber, Tita Ruffo e outras celebridades
estrangeiras e não póde perder o seu precioso tempo
com as manifestações incipientes da musica e das
canções nacionaes. Aliás, não lhe quero nenhum
mal por isso. Acho até que elle é um excellente
velho, um curioso e pitoresco representante dos
bons tempos coloniaes em que era chic ouvir-se
opera, no Theatro Lyrico...

*
* *
Mas, ao lado dos elementos sadios e
constructores há, entre nós, alguns “criticos” cujas
pennas são molhadas no tinteiro do despeito.
Há tempos, soffri uma campanha systematica de
um joven poeta e pamphletario nas horas vagas.

[178]

Certo dia, um amigo commum procurou-me e me


disse radiante:
– Sabes, Chico, resolvi a tua “parada”. O fulano
não só não atacará mais, como vae fazer um elogio
“batatal” á tua voz e ás tuas canções.
– Não me diga!
– E’ verdade. E sairá no mesmo jornal em que te
insultou.
– Será que chegou o dia de juizo?
– Uma grande victoria, Chico. Muita gente que
frequenta o “Café Nice” vae achar ruim...
– Está bem. Agradeço a tua habil intervenção
diplomatica.
– Obrigado. Mas há, ainda, um pequeno detalhe.
– Qual é – perguntei, já meio prevenido.
– Nada de importante – respondeu-me.
Tens, apenas, que gravar um samba delle.
– Um samba?

[179]

– Sim. Não é grande cousa. Elle proprio


reconhece, mas está convencido de que a tua
interpretação faz milagres.
– Não, meu caro – contestei resolutamente –
prefiro continuar a ser atacado.
Boa Bola
BOA BOLA

A primeira vez que mereci, publicamente, louvores


do escriptor Paulo Magalhães foi no Republica. O
popular theatro da Avenida Gomes Freire era,
naquella noite memoravel, uma synthese da cidade
maravilhosa.
Todas as classes sociaes estavam lá
representadas, desde a nossa notavel aristocracia,
pauperrima de sangue azul e millionaria de
bentinhos, até os sadios elementos populares que se
comprimiam, nas torrinhas, como sardinha em lata.
O proprio prefeito, sr. Antonio Prado Junior,
honrava a festa com sua presença.
Antes de descer o panno. Paulo Magalhães veio
ao palco, produzindo uma brilhante oração, na qual,
com a cumplicidade de alguns adjectivos amaveis,
rasgou a seda dos elogios mais

[184]

calorosos ao artista humilde que escreveu este livro.

*
* *

Tempos depois, por ocasião de minha


passagem pelas ribaltas de Buenos Aires, como um
dos principaes elementos da Companhia Jardel
Jercolis, certa noite, depois da representação,
appareceu em meu camarim o festejado
comediographo. Estava commovido até ás lagrimas.
E, diante de toda companhia e de alguns collegas
argentinos, fez-me uma vibrante saudação,
affirmando que eu era o único cantor de sua terra
que tinha credenciaes artisticas para representar
condignamente o Brasil.
Confesso que me emocionei profundamente.
Não tanto pelas palavras do orador, que achei
exaggeradas, mas por razões sentimentaes.
Paulo Magalhães é uma figura decorativa da
nossa cidade. A sua visita, naquelle momento, em
que eu vinha recebendo do nobre povo ar-

ta do radio”. Nesta curiosa entrevista, Paulo


Magalhães disse que o maior artista do “broad-

[186]
casting” nacional era Mario Reis, meu fulgurante
collega e talentoso official de gabinete do conego
Olympio de Mello.

*
* *

As contradições do illustre e conceituado


escriptor patricio não me parecem dignas de grande
importancia. Em todo caso, ellas serviram de
pretexto a que eu focalisasse aqui o nome de seu
autor, que anda, ultimamente, muito esquecido...
Correspondo, assim, áquellas lagrimas que
Paulo Magalhães derramou civicamente, em Buenos
Aires, em homenagem ao obscuro autor destas
memorias.
O Telephone
O TELEPHONE

– Allô!
– Quem fala?
– Francisco Alves.
– E’ com você mesmo que estou falando?
– Sim, senhorita.
– Meu Deus! Que sorte!
– Sorte foi a minha. E’ um prazer ouvir uma
creatura de voz tão suave.
– Como você é amavel, Francisco Alves.
– O que ordena ao mais humilde de seus creados?
– Eu queria que você me dissesse...
– O que?
– E’ certo que você tem feito soffrer muito as
mulheres?
– Não é verdade. Ellas é que têm jogado foot-ball
com o meu coração.

[190]

– Não creio.
– Faz mal.
– Você quer me marcar um encontro?
– Não, senhorita. Não me julga capaz de crueldades
contra os innocentes represetantes do sexo fraco?
– Precisamente, por isso... Queria fazer uma
experiencia.
– Muito obrigado. Não sou cobaia.
– Chico: Quem é a “dona de sua vontade?”
– Todas as minhas “fans”. A senhorita, por
exemplo, deve ser uma pequena acionista do meu
coração.
– Sabe que gosto muito de você?
– Duvido. A senhorita me conhece?
– Conheço, apenas, a sua voz. Tenho na minha
cabeceira um radio “Pilot”, que está sempre florido
nos dias em que você canta.
– Então não póde gostar de mim.
– Por que?
– Naturalmente. No maximo, me apreciará como
cantor.

[191]

– Neste caso, por que não me marca o encontro?


– Para não decepcional-a.
– Não seja prosa, Chico. O seu retrato anda
espalhado pelos jornaes e revistas. Você é da
“pontinha”.
– Não creia em photographia, senhorita.
– O Paul é um excellente photographo.
– Sim, mas me cobra uma fortuna para me fazer
bonito, para não desagradar as minhas “fans”.
– Todavia, insisto em falar pessoalmente a você.
– Impossivel. Não vou quebrar o meu encanto. Não
quero perder a sua admiração.
– Você é mesmo feio, Chico?
– Não. Sou feiissimo.
– Não exaggere.
– Já matei uma admiradora...
– De paixão?
– Não. De susto!
– Que graça...

[192]

– De accôrdo. Em toda tragedia ha um pouco de


humorismo.
– Quer dizer que você não quer ser mais do que
o meu cantor predilecto?
– Sim. Isso é bastante para me fazer feliz.
Depois é mais original e romantico.
– Seja. Você será para mim um canario
caprichoso, que está sempre á minha cabeceira, mas
que só canta em horas certas.
– Um canario caprichoso e economico, senhorita,
que não come alpiste nem alface...
– Mas que gasta energia...
*
* *

A influencia do telephone, na vida de um cantor


de radio, é grande. Não ha um só momento em que
o nosso apparelho, ou o da estação em que
trabalhamos, não nos chame. Ha admiradoras de
todo o genero e feitio. Algumas, intelligentes e
espirituosas. Outras, ficam horas inteiras, no
telephone, perguntando as cousas mais banaes deste
mundo.

[193]

Todavia, apesar de alguns inconvenientes, o


telephone é um amigo deligente e prestimoso que,
muitas vezes, nos proporciona momentos bem
agradaveis.
Existem estações que controlam a popularidade
de seus astros através do telephone. Quando não há
nenhum pedido para bisar qualquer canção de seu
repertorio, é signal evidente de que o artista não está
agradando.
*
* *

Certa vez conheci, no estudio de uma de nossas


mais populares estações de radio, uma jovem
bastante sympathica e insinuante. O seu sonho
dourado era ser “estrella” do broadcasting carioca.
Moça intelligente, ella lançava mão de todos os
trucs para realisar o seu objectivo, para apparecer
aos olhos do director artistico como uma cantora de
prestigio, dona de um publico numeroso.
No dia em que estreou, attendendo a um
insistente pedido seu tive que lhe telephonar.

[194]

Eu não ouvira ella cantar, Não sabia nada,


absolutamente, de suas possibilidades artisticas.
Mas quiz ser gentil com a nova “estrella”.
Depois de muitas tentativas (as linhas com
certeza estavam tomadas por outros “admiradores”)
consegui finalmente a ligação. Quando a jovem e
intelligente artista ouviu a minha voz, ficou radiante
e me agradeceu, bem alto, de modo que todos, na
estação, ouvissem:
– Agradeço-lhe muito as felicitações, Francisco
Alves.

*
* *

Outro facto curioso occorreu commigo há


tempos.
Eu tinha uma admiradora que não me dava uma
folga no telephone. Tinha uma voz agradavel e
sabia dizer umas cousas amaveis que soavam bem
aos ouvidos. Habilmente, creara em torno de sua
pessôa um ambiente de mysterio que me enchia de
curiosidade e interesse. Eu apenas tinha sido
informado de que ella se chamava Julieta e que era
casada.

[195]
De vez em quando, combinava encontros, mas
no dia marcado achava sempre um pretexto para
adial-os.
Talvez, por isso mesmo, o meu enthusiasmo por
ella crescia, tomava vulto. Além das telephonemas,
passou a me enviar diariamente flores e cartas
perfumadas, escriptas romanticamente, com tinta
roxa.
Depois de grandes difficuldades, uma noite
ficou combinado definitivamente que nos iamos
encontrar na Praia da Saudade. Foi a minha maior
decepção amorosa.
Eu nunca podia imaginar que Julieta, com um
nome tão romantico e uma voz tão dôce, tivesse
uma pelle tão escura e um corpo tão pesado...
Ella parece que notou a má impressão que me
causara e procurou attenual-a, dizendo-me
carinhosamente:
– Não repare, Chico. Estou muito queimada.
Ultimamente tenho abusado dos banhos de sol em
Copacabana!
Minha Correspondencia
MINHA CORRESPONDENCIA

Naquella manhã clara e luminosa, acordei cêdo e


me dispuz a continuar a escrever as minhas
memorias.
Estava bem disposto. A influencia do tempo
fizera-se sentir de modo promissor sobre os meus
nervos.
Sentei-me em meu “bureau”, defronte ás janellas
abertas, de par em par, por onde entrava, como uma
caricia, o halito suavel da manhã primaveril.
Mentalmente, comecei a rebuscar, nas
prateleiras de meu passado, os factos marcantes de
minha vida.
Mal tinha redigido as primeiras linhas, o
empregado veio me interromper.
O que deseja – perguntei com modo brusco. –
Não lhe disse que não queria se importunado?

[200]

– Sim. De facto. Mas, é que...


– Afinal, de que se trata?
– Está ahi uma senhorita que insiste em lhe falar.
– Quem é?
– Não quis dar o nome. Mas affirma que tem um
assumpto importante a tratar.
Fiquei de mau humor e pensei, com os meus
botões, se devia desagradar a ella ou a mim. Acabei
acceitando a segunda hypothese.
– Mande entrar.
Momentos depois, entrava, no meu gabinete de
trabalho, uma jovem alta e loura. Tudo nella tinha
uma nota invulgar de elegancia e bom gosto.
– A que devo a honra de sua visita, senhorita?
– Primeiro, quero lhe explicar que não sou
senhorita. Sou casada.
– Oh! Muito obrigado pela participação...

[201]

– Esse detalhe, tem grande importancia, conforme


verá no decorrer de nossa palestra.
– Muito bem, minha senhora. Póde continuar.
– E’ certo que você está escrevendo as suas
memorias, Francisco Alves?
– Sim. Agora mesmo acabo de interrompel-as
em sua homenagem.
– Perdão!
– O prazer de conhecer uma creatura tão
encantadora é muito mais interessante que o de
escrever memorias. Afinal, a vida de um simples
cantor é uma pagina vulgar.
– Mas você não é um simples cantor. A sua vida
deve ser cheia de encantos e aventuras. Quantas
mulheres fascinantes não vão reviver nas paginas de
seu livro?
– Ao certo, eu não sei. Mesmo porque a gente
nunca sabe quando as mulheres gostaram realmente.
– Não seja pessimista.
[202]

– Não é o pessimismo que me faz falar assim, é


a experiencia.
– E a “Dona de sua vontade” existe?
– Sim. Estamos distanciados por conveniencias
sociaes. A nossa separação, porém, é motivo de
grande magua para mim.
– E ella?
– Creio que soffre tambem.
– Sabe que eu tenho uma profunda curiosidade
de conhecer os pormenores de sua vida?
– Não duvido. Creio, porém, que essa
curiosidade vae ser desfeita, em breve, com a leitura
do meu livro. Nada tenho de original, de differente.
Sou, apenas, um temperamento um tanto esquisito.
Gosto pouco dos salões. Vivo uma vida interior.
Muita gente me censura por esse retraimento.
Preferiam que eu apparecesse a miude nas
recepções elegantes. Mas, ha, no meu espirito,
qualquer cousa de monge. Aprecio os passeios
solitarios. A’s vezes, altas horas da noite, saio de
casa e vou para a praia deserta.

[203]

Ha uma profunda melancolia em todos os meus


actos.
– No entanto, você podia brilhar em nossos
meios sociaes.
– Não creio. O meu destino é outro, muito
differente. Cada um deve consultar sobretudo o seu
intimo, deve obedecer aos seus instinctos e
tendencias. Se eu não conseguir brilhar nas ribaltas
e no radio, muito menos nos salões... Depois, os
soffrimentos e as desilusões de meu passado não me
reconciliarão nunca com a aristocracia...
– Acredite, Francisco Alves, que está errado.
Hoje, felizmente, as nossas canções e os seus
interpretes já reivindicaram o logar a que têm
direito na sociedade.
E’ possivel. Mas, nada me demove de meus
habitos. Já me sinto velho para mudar a directriz de
minhas convicções. Gosto do radio principalmente
porque ninguem nos ouve contrariado. A um
simples movimento de mão,

[204]

vae-se um cantor e vem outro... Nos salões, ha


muita hypocrisia e fingimento.
– Mas, afinal, estou vendo que, a senhora mudou
o rumo de nossa conversa. Em vez de falar a
respeito de sua interessante pessôa, estou me
preoccupando demasiado commigo.
– Bem. Já que deseja, falarei, agora, do que me
trouxe até aqui.
– Sou todo ouvidos.
– Pretende você referir-se nas memorias á sua
correspondencia, ás cartas que tem recebido de suas
“fans”?
– Sem duvida. Não iria esquecer essas amigas
generosas e desconhecidas, que me confortam com
as suas palavras de enthusiasmo e sympathia. Seria
uma ingratidão.
– Mas, não vae publicar o nome dellas?
– Não. Não farei nenhuma indiscreção. Depois,
devo dizer-lhe sinceramente que nunca acreditei no
amôr de que me falam algumas dessas cartas.
– Por que?

[205]

– Simplesmente porque tenho a convicção de


que as suas autoras não amam Francisco Alves.
Amam, apenas, uma voz.
– Engana-se. Asseguro-lhe que todas nós lhe
queremos muito.
Olhei-a com maior interesse. O calor com que
ella dissera aquellas palavras me encheu de surpresa
e curiosidade. Ah! Se eu pudesse penetrar na alma
daquella estranha creatura e desnudar-lhe todos os
seus segredos...
Depois de um ligeiro silencio, perguntei-lhe:
– Porventura, a senhora tambem me escreveu
alguma missiva?
– Não – respondeu-me. E – continuou um tanto
nervosa – não se trata de mim. Vim aqui a pedido
de uma amiga, que tem um marido cimento e feroz
como um Othelo. Se o nome della apparecesse no
seu livro, no minimo iria haver um divorcio.
– Tranquilize-se, ou melhor, póde tranquilizar a
sua imprudente amiga. Não publicarei nenhum
nome legitimo.

[206]

– Não me surprehende essa sua nobre atTitude,


Francisco Alves. Sempre o idealizei assim, com
esse “penacho” de perfeito cavalheiro. Sorri da
ingenua affirmação da minha mysteriosa visitante e
respondi-lhe:
– Sim. Um cavalheiro perfeito e prudente...

[207]

Francisco Alves:

Hoje, ao abrires as cartas que te levam,


diariamente, um pouco do perfume e da alma de
tuas “fans”, vaes te surprehender, de certo, com
esta missiva humilde, que vem de um suburbio
distante e esquecido.
Apezar de ter, na minha infancia, vivido com
conforto e recebido boa educação, com a morte de
meu pae fui forçada a fazer-me operaria.
Vejo passar os dias tristemente, dentro das
paredes sombrias de uma fabrica de tecidos,
ouvindo, apenas, o ruido monotono e incessante dos
teares. As minhas mãos são aranhas inquietas
empenhadas na confecção de tecidos finissimos e
bizarros que vão enfeitar as mulheres elegantes –
essas creaturas cheias de encantos que te rodeiam
nos estudios e nos salões doirados da alta
sociedade.
O meu destino é igual ao destino inglorio de
todos os proletarios, que constroem arranha-céos
gigantescos, predios modernos e confortaveis e
moram em casebres que se equilibram, como ar-

[208]

tista de circo, nas encostas ingremes de nossos


morros.
Eu fabrico sedas e visto organdi.
A’ tarde, quando consigo reconquistar um
pouco da liberdade, o sol já declina no horizonte. A
vida perdeu seus melhores encantos. Regresso,
então, á pobreza franciscana do meu lar. Os meus
passos são apressados e nervosos. Tudo me é
indifferente. Tambem o que poderia me deter neste
passeio obrigatorio de todos os dias? As mesmas
ruas quietas e humildes onde, só de raro em raro,
apparece um bungalou florido, que é um oasis de
alegria dentro da pobreza da paysagem?
Em casa, o meu primeiro gesto é ligar o radio –
meu companheiro e confidente – e procurar, cheia
de ansiedade, a tua voz. No dia em que não cantas,
elle fica desligado e solitario, na cabeceira do meu
leito, com uma profunda saldade das horas felizes
em que embalou a rede de meus sonhos com o
rythmo das tuas lindas e suggestivas canções.

[ Foto:
Pery Cunha, Mario Reis, Francisco Alves, Noel
Rosa e Nonô, por ocasião de uma excursão artistica
ao sul do paiz.]

[209]

Francisco Alves:

Quero que, quando cantares no proximo


programma “Por teu amor”, penses um momento
nesta tua admiradora suburbana.
Não sei se é audacia aspirar a tanto. Sei,
apenas, que és bom, que tens um bom coração. A
melancolia de tua voz não me engana: ella traduz
um pouco de solidariedade e sympathia por todos
que soffrem.

Tua admiradora
Lais

*
* *
Francisco Alves:

Todas as minhas collegas aqui, no colegio,


gostam de você. Não calcula como estas garotas
falam da sua voz. Já chega a ser mania, aliás
perdoavel, não acha? Eu, então, estou seriamente
atacada da deliciosa “molestia”. A mim nenhum
cantor interessa. Você é o meu “Fasanello”. Só
você me satisfaz e me alegra. Principalmente,

[210]

nas canções sentimentaes, a sua voz apresenta-se


com toda a pujança, com toda a belleza da
expressão apaixonada. A’s vezes, de noite, quando
acontece não ouvir as suas mágicas canções, não
posso estudar, não posso dormir. Fico, horas
inteiras, junto ao radio, esperando ansiosamente a
visita do meu trovador preferido. Se eu for
reprovada nos exames, pode ter a certeza de que a
culpa cabe a você, que canta com tanta alma,
fazendo a cabeça da gente andaar em reboliço.
Perdoa a minha curiosidade, ma eu desejava
que você me dissesse confidencialmente quem é a
“dona da sua vontade”? Quando você canta esta
canção, nota-se que a sua voz adquire uma emoção
excepcional, dando a impressão de que existe
dentro de seu coração um segredo. Talvez um amor
infeliz! Terei, porventura, adivinhado? Quem sabe
se a “dona de sua sua vontade” não estará ouvindo
e não terá remorsos? Mas em que logar? Em
Copacabana? Em Botafogo? Emm Vila Isabel?

[211]

Você vae sorrir da minha criancice. Mas a verdade


é que eu tenho ciume della.
Em dezembro, por occasião das férias, assisti ao
fil “Allô, Allô, Carnaval!” Não gostei. Você não
estava bem. Parece, até, que tinha sahido do leito,
depois de uma grave molestia.
Em “Allô, Allô, Brasil!”, sim, a minha
impressão foi optima.
Vou parar. Já devia estar no leito. A disciplina
aqui é rigorosa. Não quero ser punida. Antes,
porém, desejo saber se posso realizar um dos meus
maiores sonhos: obter uma photographia sua com
autographo. E’ facil ou difícil? Terei o necessário
cuidado de ser discreta, senão todas as collegas
quererão também o seu retrato.

Da admiradora
Odila.

[212]

Francisco Alves:
A minha admiração, o meu enthusiasmo pela tua
voz vem de longe. Foi no “Theatro S. José”,
durante a representação de uma revista,que te ouvi
pela primeira vez. Eu era ainda, garota. Usava
vestido curto e sapato de salto baixo. No momento
em que appareceste no palco, empunhando o violão
e cantaste, eu senti um deslumbramento. Os meus
olhos ficaram humidos de emoção. Nunca eu ouvira
um cantor de voz tão bonita e hamoniosa. Com o
correr vertiginoso dos annos, o prestigio de tua voz
privilegiada cresceu. Fiquei moça. Hoje, estou
casada. O meu marido é joven e rico. Todavia, tem
um temperamento muito differente do meu. E’ um
espírito profundamente materialista. Vivê occupado
e preoccupado com os seus negocios, com a
cotação de suas ações na Bolsa. Quando me queixo
de sua frieza e indifferença, elle costuma dizer que
é um marido, que não me falta nada...

[213]

Acredite que elle é mais amável e carinhoso com


os seus cavallos de corrida do que commigo.
A’s vezes, na penumbra melancólica de meu
quarto, illuminado suavemente pela luz rósea do
abat-jour, eu reflicto tristemente sobre o meu
destino inglório. Todas as aspirações de minha
juventude foram desfeita. Fui educada num
ambiente bem brasileiro. Os meus sonhos de moça,
nasceram e cresceram á sombra amiga da arvores
secular da tradição. Acostumei-me assim a olhar a
vida pelo seu lado poético e sentimental.
E’ certo que, no meu lar, não me falta nada,
conforme costuma dizer, com a arrogância de um
senhor feudal, o meu querido esposo...
E, no entanto, preferia que elle fosse pobre, que
não tivesse tantos juros para sommar, mas que
possuísse um bocadinho de sensibilidade que me
olhasse com mais considerações do que aos seus
famosos cavallos de puro sangue.

[214]

A não ser os negocios, só o foot-ball o interessa


e enthusiasma. Aliás, eu acho logica essa sua
preferencia. Entre meu marido e esses rapazes que
se julgam importante só porque são mestres em
ponta-pés, ha certa affinidade. O meu marido usa o
talento no bolso e elles usam nos pés...
Parodiando Antonio Torres, eu posso dizer, sem
receio de errar, que nós nos detestamos
cordialmente.
Francisco Alves:
Neste ambiente de profundo desencanto,em que
vivo, é que me vem, como uma dadiva do céo, a
doce emoção de tua voz, na interpretacão magistral
de nossas canções.
Tua admiradora
Sonia

*
* *

Francisco Alves:
Não tenho prazer de conhecel-o pessoalmente.
Possuo, entretanto, no meu album, um

[215]

retrato seu, aliás, bem nitido. Os seus labios estão


abertos num sorriso espontaneo e feliz, sorriso que
é uma photographia bem expressiva de sua alma
bôa e generosa.
Escrevo-lhe de Theresopolis, esta região
maravilhosa, onde vim buscar alento á minha saúde
sériamente abalada. Creio que estou condemnada á
um fim doloroso e proximo. Em todo caso, anima-
me a esperança de que os ares sadios da serra
collaborem para que eu refaça o meu organismo,
debilitado pela enfermidade que me martyrisa.
Longe do “brouhaha” da cidade, tudo aqui
concorre para aggravar o melancolia de meu
destino. De que serve a belleza da paysagem que
me circumda, se experimento a angustia da solidão
e a dôr dos que soffrem moral e physicamente. No
tumultos das preoccupações em que vivo, dos
terríveis anseios em que me debato, do temor que
me causa o futuro, só tenho, para bem dizer, um
momento de suave enlevo quando ouço a sua voz
através do radio, que é minha unica alegria de
moça desil-

[216]

ludida e enferma. Sua voz tão melodiosa, tão rica


de sentimentos faz-me esquecer todas as angustias
de minha vida, embala-me, cariciosamente, num
delicioso sonho de felicidade.
Peço-lhe que cante sempre a “Dona da
minha vontade” e a “Mulher que ficou na taça”.
Não deixe de satisfazer sempre que puder o pedido
de quem lhe estima e admira sinceramente.
Se o destino que tem sido injusto para mim,
apesar do conforto material que me deu, accelerar
o fim de meus dias, zombando de todos os esforços
da sciência, uma unica aspiração me acompanha:
desapparecer deste mundo ouvindo a sua voz
encantadora, como o ultimo adeus da terra.

Carmen

DOIS POEMAS DE GILKA MACHADO

A Francisco Alves – o mais interprete da modinha


brasileira – que só conheço através do radio.

*
* *

Canta,
que tua voz ardente e moça
faz com que eu ouça,
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse!...

Para te ouvir melhor, abro as janellas


e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a Noite está cantando
pelos labios de fogo das estrellas

[218]

Canta
bocca febril que eu não conheço
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...
– Ave estranha, de garras de velludo,
entôa para mim
uma canção sem fim!...

Canta
que ao teu canto eu vejo,
em tudo, a quietude atroz
do insatisfeito desejo!...
Canta!
– cada ouvido é um beijo
para tua linda voz!...

[219]

Pensa que ha alguem


a quem
a tua voz consola,
pensa que alguem
na solidão,
vive a esperar dos labios teus a esmola
de ouro
de uma canção...
Canta, que tua voz, como um thesouro
rola
na miseria de amor de cada coração

Meu sonho ao teu silencio não resiste,


manda-me sempre tua voz humida e triste
que, por ser tão triste é linda...
solta essa voz, que me parece vinda
de um banho
estranho
de pranto...
sinto ás vezes, por encanto,
minha alma nos teus labios presa,
misturada com a tristeza
da tristeza de teu canto!...

[220]

O’ de todas sonoro namorado,


tua voz é do Amor a invisivel visita;
ao teu canto angustiado,
em que abysmo de mel a alma se
[precipita!...
Canta, que, dessa voz á embriagante
expressão,
bailam perfumes mil
palpita na amplidão
um suspenso jardim primaveril...
Canta que tens a voz ligada ao coração
de todas as mulheres do Brasil!...
ÍNDICE
Este livro ................................................................ 5
Minha Infancia ........................................................ 9
Carnaval ................................................................ 17
Na Escola Tiradentes............................................. 27
Na “Villa”.............................................................. 35
Amei, Soffri........................................................... 41
Ser ou não ser ........................................................ 47
Minha paixão pelo theatro..................................... 55
Operario................................................................. 61
Experiencia............................................................ 67
Os mestres ............................................................. 73
Meu companheiro.................................................. 81
Vinte annos de ribalta............................................ 89
Gravando discos .................................................. 109
Fazendo samba .................................................... 117
No Radio Nacional.............................................. 123
Eu e a Mayrink Veiga ......................................... 129
Programma Francisco Alves ............................... 137
Boatos que se desfazem ...................................... 145
Em Porto Alegre.................................................. 153
Entre a vibração dos gauchos e o cavalheirismo dos
paulistas............................................................... 161
Entre a cigarra e a formiga ..................................167
Critica e criticos ..................................................173
Bôa bola...............................................................181
O telephone..........................................................187
Minha correspondencia........................................197
Opiniões sobre Francisco Alves ..........................221