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OLHOS DE MADEIRA

õêiáêüiâ ê úóiios problemas anuais. W


@

da possibili
que servís-
ora fecun
3. Representação
A palavra, a ideia, a coisa

.b..'

v''t

1, Nas ciências humanas fala-se muito, e há muito tempo, de


'representação':lalgo que se deve, sem dúvida, à ambigiiidade do
termo. Por um lado, a "representação" faz asvezesda realidade
representada e,portantos ê:;alia"ãã!$Êgcia; por outro, torna visível
a realidade rl:presentada e.t.pgrtlgtol..:.ygSISI.R,p11çsç:liça.
Mas a con-
traposição poderia ser facilmente invertida: no primeiro caso,a
representaçãoé presente, ainda que como sucedâneo; no segundo,
elaacaba remetendo, por co ntraste, à realidade ausente que preten-
de representar.' Não entrarei nesse aborrecido jogo de espelhos.
: Basta-me fazer entender o que, em tempos recentes, os críticos do
positivismo, os pós-modernistas cénicos,os cultores da metaHsica
da ausência, volta e meia encontraram no termo "representação''l:
A oscilação entre substityjção e evocação mimética jú está
contoquejáseconhece. fegistrada, como observou Reger Chartíer, navFrbete représenra-
fiondo Dfcfion pairel riiverse/deFuretiêre ( ] 690); Nele, sãocitados
;tanto os manequins de cera,madeira ou couãoljue eram deposita
dossobre o catafalco real durante os funerais dos soberanos fran-

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berro com um len- cento, Teria sido possível recorrer ao catafaíco fúnebre coberto com
cesese ingleses como o leito fúnebre vazio e to
um lençol mortuário: uma alternativa baseadanuma evocaçãonão
çol mortuário que mais antigamente "representava" o soberano
mimética, e consagradapela tradição.' Jáem Londres,em 1327,
defunto. A vontade mimética presente no primeiro caso estava
decidiu-se pagar um artesão para que fizesse quantia ! ymagitien!
ausente nn segunda; mas em ambos sc fallw a de "represe"Loções"-
de dignoad sínlÍJítudinem dica-{dominó Reais,uma imagem de
Partamos daqui.
madeira que se parecessecom o rei morto, Eduardo n. Por quê?E

2. O testemunho mais antigo de um catafalco vazio num fune- por que essainovação seria adorada na França um século depois,
prolongando-se por tanto tempo em ambos os reinos?:'
ral régio remonta a 1291. Nessealia, informa-nos um documento
conservado oos arquivos de Barcelona, os sarracenos que viviam Falei de "inovação"; termo talvez ilegítimo. As imagens de

na cidade aragonesa de Daroca atacaram os judeus agrupados em cera utilizadas durante os funerais dos imperadores rojnanos nos
terno de um esquife "que estava ali representando in represerzfa séculos]t e ili erammuito semelhantes notou Juliusvon
Ílorzcrn " Afnnso Ht.o soberano que acabara de morrer.' Táa utiliza- Schlosser -- àquelas de cera, madeira ou couro dos reis franceses

ção do manequim nos funerais dos reis é bem mais tardia: na e ingleses exibidas em circunstâncias análogas um milênio depois.

Inglaterra. remonta a 1327 aquando da nlorle de Eduardo iil; na Devemos supor uma 6lliação óu uma redescoberta espontânea?
trança. a1422(quando da morte de CarlnsvEI.-Dessesmanequins Schlosserinclinava- separa a primeira hipótese, sebem que os tes-
-- objetos frágeis, destinados a um uso efémero --, pouquíssimos temunhos de tal continuidade sejam mirrados.: ' Pelasegunda hi-
restaram, quase sempre grosseiramente restaurados.' pótesepronunciaram-se outros historiadores, entre eles Giesey.
Ernst Kantorowicz sustentou que o manequim exibido nos fu- Ele não nega as semelhanças l.sobre as qua is x-olharei ejn bre\ e)
nerais dos soberanos ingleses e francesesao lado do cadáver entre os funerais dos reis franceses e ingleses e os dos imperadores
exprimia de forma palpável a teoria jurídica do duplo corpo do rei. romanos; mas a comparação entre ritos pertencentes a culturas
De um lado, o manequim, o corpo eterno do rei, associadoa uma l:ão distantes entire si Ihe pareceu "fácil, porém estéril" de ulb ponto
instituição pública(dignlias); de clulro, o cadáver,o corpo efémero de vista histórico. ': E acrescentou:" Do ponto de vista da antropo-
do soberano como indivíduo,' A demonstração é convincente, logia cultural, as semelhançassão estimulantes, mas as conexões
ainda que seja forçoso recordar que, pelo menos na França, o cos- históricassãofrágeis'l''
tume de exibir nos funerais uma efígie do defunto, chamada premi": A hipótese que orienta estaspáginas é exatamente oposta.
semente de represenfacÍorz,não se limitava aos soberanos.: Mas Procurarei demonstrar que as semelhançastransculturais podem
como surgiu o hábito de exibir ambos? Segunda Ralph Giesey,ado'
ajudar a compreender a especi6cidade dos fenómenos de que par-
tou-se o manequim como "substituto do corpo" por motivos de
ti ram. É um calminho laborioso. que demanda uma quantidade
ordem prática: as técnicas de embalsamamentn se enconLravarn iigniâicativa de vaivéns espaciais e temporais. Os manequins dos
tão pouco evoluídas que, se não se qtlisesse exp.?tl..!m cadáver.semÊ :leis franceses e ingleses servirão de ponto de referência.
putrehto, era prece?orglorrel ãluü ÜiãÕêqüi;;. de madeira. couro
ou ceralãTratei.éle,"noentantol
de limo explicaçãopouco convín'
.1

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analisados por }lerEz Em ambososcasos,eran] seguidosdosfune-
3. O próprio Giesey revela ter partido, por sugestão de seu
rais das imílgens, ou seja,de um rito não apenas definitivo, mas
mestre Kantorovvicz, claro, do ensaio de Ellas Bickerman sobre a eternizaao( O imperador era consagrado deus; o rei, em virtude da
apoteose dos imperadores romanos( ] 929).: ' Em páginas brilhan-
afirmação da perenidade da função monárquica, não morria
tes, que suscitaram críticas vigorosas, Bickerman analisou os ritos ;:: g
nunca. As imagens inaperíais de cera e as efígies reais, que consuma-
da consecralío,baseadaem uma dupla treinei.açi.o: a do corpo do W
vam a morte dos imperadores como processo social, equivaliam,
imperador e, dias depois, a da.lpa.imagem..de cera. Graças a esse
num plano diferente, àsmúmias ou aosesqueieEos.Jáha algum $

/it us jlníiglnarirírPr. a esses"lunerai\ da'imagem". o impera'tilr,


tempo, Floresce Dupont cllegou à mesma conclusão, seguindo
que jã havia abandonado seusdespejos Imortais, era recebido entre
outro roteiro de pesquisa.
os deuses.Bickernian salientava exatamente as analogias entre
Nesse horizonte amplo, transcultural, é possível aval iar me-
essesritos e os fenómenos inglês e francês da Idade Média tardia;
lhor a especificidade da solução idealizada quer na Romã dos
numa llota, também aludia aos ritos funerários estudados por
Alltoninos, quer na lílgiaterra e na trança do Quatrocentose do
Prazer.Aparentemente, escapou'lhe a "Contribuição para tlm
Quinhénto$. Nesteúltimó caso sabe séqué à és6thgeml)saravao rei
estudo sobre a representaçãocoletiva da morte" que Robert Hertz
"vivo"; úas também em Romã a imagem e;ã ing Úilâ no que 6oi
havia publicado em AntíÍ;csn(fP/ogiqliÍÍ1907)." E no entanto no
definido cl)nlo uma "ficçãll da soberania pos/ pnorrcrn" ' Erma pági
Rlmdo l)rinlei rn panigrato da ensaiade Bickermaí\ I'odemos lcr na bem conhecida da .Hisfór;a Tornara de Díon Cássio descreve a
uma afirmação que poderia ter sido subscrita por }lertz: "A morte
estátuade cera do imperador Pertinax, üiecído em } 93,"adornada
não constitui o 8im da vida do corpo no mundo: não é o fato bioló-
com hábitos triunfais"; diante dela, "um jovem escravo espantava
gico, mas o ato social -- os funerais -- que separa os que se vão dos
asmoscas com um leque de plumas de pavão, como se o soberano
que ficam'l'' O esplêndido ensaio de Hertz investiga, numa pera
estivessedorm indo':" Herodiano descreveco:n ainda maior rique.
pectivabastante ampla, o.r ho.do dupl.o sepuit:g eito estudado por
za de detalhes as cerimâilias que se seguiram) à morte de Sétimo
Bickerman no contexto l=ómano.}.lertz mostra que a morte, toda
: Severo: durante sete dias a imagem de cera do imperador, acomo-
morte, é um acontecimento traumático para a comunidade: uma
dadanum grande leito de marHm com cobertura dourada, foi visi-
verdadeira crise, que pode ser dominada mediante a adição de
ãi. tada por médicos que constatavam que o doente estava"cada vez
ritos que transformam o acontecimentobiológico num processo
pior'::' Essasdescrições certamente lembram o que aconteceu na
social,contnlland{) a pas\agem do cadáver )utrescente íobieLO ins
:trança em 1547, depois da morte de Francisco i. Por onze dias,
tável e ameaçador por excelência) a esqueleto. Entre esses ritos está
foram realizados banquetes, primeiro junto do cadáver, depois
o sepultamento provisório ou, em outras culturas, a mumificaçao
junto da eãgiedo rei: comia-sejunto dele,bebia-sejunto dele,e

&
e a cremação, às vezes combinadas: soluções específicas, segundo
'bacias de agua limpa jeraml oferecidas ao trono do supracitado
Hertz, de um problema extremamente difuso.:' Na Romã dos:
Senhor, como se ainda aEIestivesse sentado, vivo':" Giesey observa
.\ ntoíl mos, assim como na Inglaterra e na Fnlnça do Quatrocentos
queo texto de Herodiano começoua circular na trança por volta
e do Quinhentos, os funerais do corpo dns impenldores e dos reis
de 1480 e que os mais antigos testemunhos franceses sobre o costu-
tinhan} uma função comparável à dos sepultamentos provisórios

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Como salientaram vigorosamente Marc Bloco e Claude Lévi-
me dn banquete fúnebre remontam ao 6im do Quatrocentos; con Straussa propósito de questõestotalmente distintas, o contato
tudo. corno vimos, ele não acreditaque essasanalogiascom a
l.seé que hou\ e con lato, o que nestecaso não é seguro ) não expli-
caa permanência.:

i.*.,,=1" 4. Por que, então, em Romã e em outros lugares, eram cons-


i11:.''"' truídas imaljêhi"dõi:iíi;Êêããtbli:es oureis falecidos? Fíorence Du-
pont deü uãã iõ;iliõ:iã::Fãftiíí 6:Mo;;üiõ,próprio das famílias
arisl:ocráticas ro manas, de confeccionar máscaras de cera dos ante-

l passados ( imagfnfsl. .q ímaga era considerada equivalente dos os


sos,porque se acreditava que uma e outros eram uma parte :õin
respeito ao todo, o corpo." Recordemos que Marcei Mauss,anali-
sando ã"loção de pessoa,já havia salientado q.estreitarelação que
existia na Romã antiga entre a:;magoe o mgnome4, isto é, a parte
mais pessoal do sistema dos trêlsnomes." Éhtlétanto, o uso das
máscaras dos antepassados não se restringia às famílias aristocráti-
cas.;'Bickerman cita uma leí, que remonta aos anos 133-6, em que
um colégio ou uma associaçãode Lanúvio se reservavao direito de
celebrar um .íunus fmagfnarí m, "ftmeral da imagem': no caso de
g
um patrono malvado não conceder o corpo de um escravomem-
brodocolégio.:
>' Neste último caso, a âmagofunerária sub!!i:!u.í!.,q. çpdiíxçr
} ausente. Essedado converge com o ponto de lihl;gãt:ia de uma dii-
: cussão que se ofígiiiõq de um tema circunscrito -- o significado da
palavra grega ko/ossos.-L,mas que seampliou até alcançar o estatu:
to da imagem:como tal, Quem a iniciou foi Pierre Chantraine
(1931), com uma nota sobre a etimologia da palavra kolossós,que a
?euver deviaser investigadafora do âmbito indo-europeu No en-
:tanto, ao corrigir o rascunho do artigo, acrescentou que a iei sagra-
dade Cirene, publicada havia pouco, mostrava.que o significado
Qrigina] de ko/ossosnão era aquele com que nos familiarizamos
devido ao colosso de Redes -- o de "estátua de grandes dimen-

9t
9o
"substittlto de um cavalo" o levaram a salientar a fuinção da substi-
sões" --, mas simplesmente o de "estátua"l Dois anos depois, um
tuição nos arranjos funerários: "0 cavalo ou o servo de barro,
artigo) de Émile Benvenisle orientou a pesquisa clll outra direçãCl-
sepultados nos túmulos dos poderosos, substituem os cavalosou
De acordo com a lei sagradade Cirene (segunda metade do século
os servosvivos'l Essaobservação,referida por exemplo ao Egito
lv), quem acolhia em suacasastlplicantes estrangeirosdevia invo- antigo, é prójetada por Gombrich, hipoteticamente, num plano
car três dias seguidos o nome da pessoa que os protegia. Se essapes'
mais geral:"A substituição precede! in:tei5fiojde tàze! um rerraEO,
soaestivessemorta ou fossedesconhecida,aqueleque pronuncia-
ea criação,a dccómunicar;'Soínenre em algumas sociedades a
va a invocação devia confeccionar kolossoí,fallt.achesde madeira
Gréêiá"li"China, a Ehiê)pado Renascimento -- uma mudança de
ou de argila, de sexo masculino e femtniho, que seriam posterior-
funções acabou gerando o surgimento de uma arte diferente, liga-
ÍTlente "})lantadús nunln rl\ala virgctTl". lal explicaçãil parece't
da à"idéia da imagem como representação ilo sentido moderno do
estfãi\bãbara vãli(iiíêétu:iiõilos, se não pura e simplesmente ilógi-
termo" Dez anos mais tarde, essasfórmulas rápidas e brilhantes
ca. Mas, objetou Benveniste,"quem sabe a admissão de que um ser
foram desenvolvidaspelopróprio Gombrich em seufundamental
vivo desconhecido é como se não existisse não obedece a uma lógi-
.,4rfee i/cisão." Pomian, por sua vez, para entender o que unifica os
camais profunda? "I Daí a conclusão: "Eis o signi6lcado autêntico da
objetos tão díspares que encontramos nas coleções, parti u das ofer-
palavra: estatuetas funerárias, substitutos..rituais, duplo.?'que to-
tas funerárias: nelas reconheceu, assim como nas relíquias, nas
mam o lugar dos ausentese continuai iua existência-tetrenal"
curiosidades, nas image ns,"intermediários entre o aquém e o além,
Poderíamos acrescentar: representações. Entre os koiossoígre-
entre o profana e n sagrados-. l obfétogqiJe fépfeséhtam o distan
gose as eflígiesfunerárias de cera, couro, madeira, dos soberanos te, o esCõhdidó,ó ausente [-.] intermediá rios entre o espectador
francesesou ingleses,asanalogiassãoimpressionantes-- tanto no
que os mira e o invisível de que provêm]-.]'l Nn momento em que
que concerne à forma como no que diz respeito à função .A i:l são stibttãídõÉdõâhbit8 dbs objetos de uso para serem isolados no
sagrada de Cirene previa explicitamente um banquete ritua! com
espaço à parte do túmulo ou dq-.colação, esses ob:fetos se tornam
asestatuetasfunerárias, como o que seria celebradomais tarde no
:'semiófo ros"l portadores de significado.
Quinhentos, en\ Cuzco ou eíll Paras.Em Esperta, informa nos
---yA..jlbst.itlíS.ãq..precedeu a imi111ç.g.gljyp.E!!b!.Gombrich.
Heródnto lvt. 58), quando un] rei morria íla guerra, fazia-seseu
Tanto nos ko/ossoícomonas represerzíaz:cones filneráíiás, o elemen-
simulacro ( ÍÕO}.ov p.queera exibida)então num leito adornado.
to substitutivo prevalecenitidamente sobre o elemento imitativo.
Tal utilização foi comparada por jíean-PierreVernant com aquela
Antes de discorrer sobre esteúltimo, quero salientar que todas as
prevista na lei sagrada de Cirene." Devem ser evitadas aqui as refe-
pesquisasmencionadas até aqui, além de tratarem de temas bem
rências à magia, que não explicam nada." Porém, as observações
diferentes, foram realizadas de maneira independente. As conver-
sobre a ligação entre imagens funerárias e imagens.em geral permi'
gênciasque assinaieise mostram, portanto, ainda mais significati-
[em reler tle um ponta de vista no\o o ensaio de F.nlst Gombrich
vas.Mas como interpreta-las? Devemos associa-las àscaracterísti-
À4editafíons
o?za hobbyhouse,
assimcomo o não menosimportan-
casuniversaisdo sinal e da imagem,ou a uln âmbito cultural
te de Krzysztof Pomian sobre sua coleção. Também Gombrich pari
específico? E, neste último caso, a qual?
tiu da representação. Suas reflexões sõt)re o cavalo de pau como
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9Z
oscilação entre uma perspectiva histórica e uma perspectiva uni-
A alternativa que apenasdelineei estáno centro de um ensaio
versalista,que inspirou as fecundas pesquisasde Vernant, é mais
em que leão-PierreVernant retomou, desenvolvendo-o, o trabalho
que compreensível, tendo em vista a relação de todo especial, um
de Benveníste sobre o kolossós.Vernant mostra que o ko/ossosfazia
misto de distância e filiação, que nossacultura maná:émcom a
parte de um grupo de Lermos("alma". "imagens oníricas , "som grega." Mas no caso da imagem, como em outros, verificou-se
bra: "aparições sobrenaturais") acerca das quais "temos ü direito
í l ente'e nós e os gregos t.tma futura profunda, que deve ser examina-
de falar 1.. de uma verdadeira categoria psicológica, a categoria do
i\ da de perto.
duplo: que pressupõe unia organização mental diferente da
nossa':lContudo, no âm do ensaio,Vernant muda repentinamente
5.Voltemos à consecraíiados imperadores romanos. Floresce
de tom:
Dupont salientou que tal rito implica um paradoxo. Em Romã,

Talvezestejamos abordando aqui um problema que vai muito além


para consagrar um morto é necessário [... ] tira-]o do túmulo de mo-
do casodo kolossóse que corresponde a uma das características
do a insere-lo no espaço sagrado em que se situará seu templo. Isso é
essenciaisdo signo religioso. O signo religioso não se apresenta
impensável,tanto do ponto de vista do morto, que ficaria semsepul
como simples instrumento de pensamento,não visa apenasevocar
tuta, como do ponto de vista do espaçosagrado,que seria horrivel-
na mente dos homens a potência sagrada a que remete, mas quer
mente contaminado calo a presençade um cadáver l-.l. Os [úmu
sempre estabelecer também uma verdadeira comunicação com ela,
los são expulsos para fofa da cidade [-.] é proibido edifica ios no
inserir realmente sua presençano universohumano. No entanto,
chão público em que os templos são erigidos.
procurando assim construir uma ponte ligando ao divino, ele deve
ao mesmotempo ressaltaradistância,revelara incomensurabilida-
Jáseviu como o obstáculofoi superado:
de entre a potência sagrada e tudo a que a manifesta, de um modo
necessariamenteinadequado, aos olhos dos homens. Nessesentido,
Dois corpos possibilitam a presençado !narro em dois espaçosdis-
o kolossós
é um bom exemploda tensãoque existeno interior do
1:tintos, o dos.túmulose o dos templos,nos dois temposincompatí-
signo religioso e que Ihe proporciona sua dimensão própria. Para a
veisdos cultos funerários e dgs cultos públicos. O imperador per-
suafunção operatória e eficaz,o kolossóstem a ambição de estabele-
manece presente entre os homens depois da sua morte de duas
cer. com o além, um cantata real, de realizar sua presençaaqtu.
maneiras diferentes.
Todavia, nessa mesma tentativa, ressalto o qu e o além da morte com-

porta, para o vivo, de inacessível,de misterioso, de fundamental


Essasituação foi subvertida pela vitória do cristianismo. Os
mente diferente."
cemitérios, ascidadesdos mortos, foram inseridos dentro dascida-
des dos vivos. Nessa "abolição milenar da proibição religiosa de
De um lado, a organização menta! dos gregos, que era diferen-
praticar o sepultamento ií?tramuros':JeanGuyon reconheceu"o
te da nossa; de outro, as tensões intrínsecas ao signo religioso, que
sinal de uma verdadeira mutação histórica't': Porém, alguns desses
podemos encontrar tanto na Grécia como em nossosdias. Essa
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damental da escultura e da ourivesaria carolíngia. A )mesmaima-
mortos possuíam um status especialaos olhos dos fiéisi os márti-
ge.!u.desempenha t.in)a fu.nção importante .no .Líder rriílacl!/orl/?l'!
res. Peter Brown insistiu vigorosamente na presença do mártir e,
;a }lcte Ficais.
em geral, do santo, por meio das relíquias.O status.metonímica
Os dois primeiros livros dessetexto hagiográncoforam redi-
quese quisatribuir à im. ggdç!!.]#llPç111gg!.e.!.11omanos
semo«ra,
gidos entre 10 13 e i020 por Bernard d'Angers, um clérigo que estu-
dava ila escola de Chartres. Bernard, devoto fervoroso de santa Fé,
saíra em viagem cona um amigo, um escolar de nome Bernier, com
destino a Conques: as relíquias da santa se encontravam ali fazia
pracseris rnílni/esri s p m grÉilía vfrní llnz l está aqui. inteiro, c(]mn
un] séctllo e meio, isto é, desde quando haviam sido subtraídas de
demonstram milagres de todo tLPolJ
limo basílicaerigida especialnleltte para elasem Agem." Durante a
À função atribuída às relíquias,dossantosnn mundo cristão
peregrinação, Bernard ficotl impressionado com a abundância de
deve ter modi6ícado profuiídamdííte a aiitliã; em relação às ima-
uela anteriormen- estátuas de ouro, prata e outros metais, na região da Auvergne e de
gens. Essa hipótese é um simples corolário daq
Toulouse, que continham relíquias de santos. Para pessoascultas
te for melada, que sugeria a existência de uma relação estreita entre
como ete e seu albino, tratava-se de uma superstição, algo que re-
imagens e o além. Mas as relíquias mesmas faziam parte,de um
cendía a paganismo, se não a cultos diabólicos. Ele havia visto ]lum
âmbito que não conhecemosem suatotalidade." Antes de mais
: altar uma estátua de são Gerando, coberta de ouro e de pedras pre-
nada, há o fenómeno que os polemistas cristãos chamaram de ido:
ciosas,que parecia olhar para os camponeses ajoelhados em prece
latria. Deveríamos leva-lo 6nalmente a sério, admitindo duas coi-
i:om olhos brilhantes. Berllard voltou-se para o amigo e pergun-
sas: que sabemos muito pouco a seu respeito e que esse pouco que
tou !he em latim ( rafírzo scrlnone], co]]] um sorriso malicioso:
é conhecido é de difícil in terpretação.' ' A sobrevivência [ e as meia
'Irmão, o que acha deste ídolo? Júpiter ot,i Malte teriam considera-
morfoses) dos deusesantigos de um ponto de vista artístico foi
do uma estátuacomo esta indigna deles?':As únicas estátuasque
esclarecidafaz tempo por estudiososcomo Fritz Saxl, Erwin
podia admitia,observou,eram os crucifixos. Pintamsantosnuma
Panofsky,meanSeznec,ligados primeiro à Warburg Bibliothek e
parede -- ímagínes fibrose coloratis parietíbus depí(te-- também
depois ao Warburg Instjtute," Mas ainda permanece largamente érãadmissível. N'lasa veneração das estátuas dos santos Ihe parecia
tnexplorada a gama das reações (absorções, ínerami)rroses, rezei
üm abuso inveteraÊjãaçl.génio ig g.gp.!ei.!.ç-çlç.tivesse dito por ali o
) provocadas no plano religioso pelo enconlrl] entre essas
que pensava da estátua de são Gerando, tê-lo-iam tratado como um
nnagens, inclusive as popularescas,e as tendências parcialmente tt'ominoso.
não icânicas, se não explicitamente antiicânicas, arraigados nq :
Trêsdias depois, Bernaíd e Bernier chegaram a Conques.A
tradição hebraico-cristã. . : .:
imagem da santa, denam inada "majestade de santa Fé" (ÀÍa lestas
Parailustrar a complexidade desseencontro basta o exempy
güfzcfeFídís), estava conservada numa saleta, que se encontrava
de santa Fé, que segundo a lenda foi martirizada aos doze anos :d$
êheiã de gente de joelhos. Não podendo imitar o exemplo daquelas
idade, no início do século iv. Sua imagem, conservada no tesoulq
jjêssoas,Bernard exclamou: "Santa Fé, de cujo corpo há um frag-
da igre.ja de Conques ( ilustração 7} é considerada uma obra fun-
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devemser toleradas (per?7zÍrfa/zttír).
Mas o olhar do douto, oriun- :!:

meill:o conservado nesta estátua, ajuda-me no dia em que eu for


jtllgadol':l E, enquanto dizia essaspalavras,olhava para o amigo do de t.lln ambiente bem diferente, como era o do Norte da trança,
com o rabo do olho. Suaspala'\-!-asestavatll carregadasde desprezo permanece indulgentenlente hierárquico.

: pela csltllua rclicarit[ d.] stii]t.i. cnn r) sc eli\ fl)sse um \ilnulacrl) dc


l iVê.nusou de Diana, um ídolo a que sãooferecidos sacriHcios 6. A estátuaciesão Geraldo, que sugerira a Bernard a compa-
Nuasisso tudo pertencia ao passado. No momento em que ração, entre irónica e escalldalizada, com os ídolos de Júpil:er e de .:
escrevia, Bernard disse tet compreendido setaerro, graças aos mila- Nfarte, seperdeu. Entretanto, a restauraçãoda estáttla de santa Fé,
gres de santa Fé descritos na antologia. Conta a história de um tal também coíllparada por Bernard aos ídolos de Vênus e de Diana,
de Ulderico, qtle havia hladt) em tom zombeteiro da estátua de revelou que em fins do séculox o corpo havia sido adaptado a unia
sa1lta Fé. Na íloite seguillte, a santa Ihe apal'eceu agredindo-o com :abeça muito mais antiga, que remontava ao século ix.-ou ao início

t,im porrete: "Por quê, celerado, clusaste insultar minha inlagelan? do século v: a cabeça de aula, coroada de louros, de um imperador
Berllarcl concluiu que a estátuanão podia nem prejudicar a fé cris- romano divinizado. A primeira reaçãode Bernaid d'Aitgels não
tã nem fazer temer uma recaída nos erros dos antigos. Ela havia sido fora, pois, de todo injustificada.
erigida eln honra a Dex.ts, e para conservar a memória da sana:a A cronologia da estátua de Conques e das modificações que
Peter Brown observou qt)e a cólera e a v;ingança manifestadas sofreu foi muito discutida. meanTaralon, qt.tea restaurou, plopõs
por santa Fé são,por assim dizer, a correlação dos sentimentos de uma dataçãoalta. próxima ao fim do séculolx. No âillbito do
justiça da comunidade: "Ela era a voz gravedü grupo'l'* Isso é ine- 'renascimento da escultura tridimensional da era pré-ronlâilica''l a

gável. Cona:udo,os milagres de santa Fé,tratasmitidos pela cultura de sant:aFé seria "a mais antiga estátua do Ocidente que chegou até
ora!, estão encer.Fadosnum texto escrito que contém trechos como nós'ts' Bernard d'Angers informa que as estátuas- relicários de san-
os citados acima, centrados numa série de oposiçõesassimétricas: tos e santaseram muito difundidas na França meridional. As
in(!ivíduos cultos/camponeses; latim/línguas vulgares; pintu- Madonas cona o menino Jesus em majestade podem sel considera-
ra/escultura; Crista/santos; religião/superstição (sem contar a dasvariantes do mesmo tipo.'' Suafunção de relicários nada tem de

oposição, não declaradamas onipresente, entre homens e mulhe- marginal: ao que tudo indica, ela constit {li uma espécie de álibi para

res). Elas podem ser reduzidas a uma dupla oposição, cultural e o retorno à esculturatridimensional." O fragmento do corpo de
social: de um !ado, a oposição entre culttlra escrita(em lati]]]) e cul-: santa Fé,evocado em tom vagamente cínico na prece de Bernard
fura oral (em língua vulgar); de outro, entre cultura escrita e ima- d'Angers, permitia confiar aos camponeses de Conques o in'ç'ólu-
cro qtle encerrava a relíquia: a boneca dourada de olhos brilhantes,
gens." No âmbito dasimagensseinsinua uma l\ova hierarquia, que .:

remonta à tradição j udaíca: asestátuassãomuito mais perigosas do coil] o manto incrustado de pedraspreciosas,representandoa
mártir menina
quer pinEunls.uma vezcineservemde inccntixo í\ ittolarria. "E
verdade que, no fim do capítulo, Bernard reconhece ter se etlganat: Nos contos milagrosos relatados por Bernard d'A.ngers, a ima-
do; a devoção (!os camponeses pelas estátuas de são Gerando e de :gellnde santa Fé apareceenvo][a en] uma anlbiva]ência caracterís-
Fé nada"tillha"de"supersticiosa, logo suas atitudes religiosas tica. De um lado, atraía a hostilidade e o sarcasmo dos detratores;

98 99
!g-
De'vesser feliz, ó douto, por teresvisto o Orgulho não em imagem
de outro, semanifestava nas visões dos fiéis." Os monges a trans-
portavam em procissão para qtLe,segundo o costume, tomasse
[ í/ iaginíllífer], corno destena Ps;r0}7zaquíci.
de Prudêncio, mas na ::
sua autêntica e corpóreo presençalpreseirr aliter corpo/aJitefqtíe
possede un] terreno doado ao mosteiro e inj ustamente ustlrpado .proprie].':
Para a gente de Conques, entre a imagem de santa Fé e a santa pro'
priamente não havia nenhuma diferença. A argumentação propos'
As conotações sacramentais dessetrecho são sem dúvida in-
ta por Bernard d'Angers para evi-taro risco de idolatria -- a ima- voluntárias, e por isson)esmo reveladoras. Havia muito que irriczgo
gelalcomo auxílio para a memória -- podia atingia apenasuma erauma palavra associadaao Evangelho: " Umbra in lego, iillago in
exígua minoria de fiéis E\angetio,ventas in caelestibus"i:asombra na lei, a imagem no
As perplexidades que a imagem de saleta Fé provocavam em E\ angelho. a \erdade nas coisas celestes}, havia escrito santo
Bernard d'Angers desapareciam quando sefalava de Crista no uu' Ambrósio.'; Mas }lo trecho qtle citamos acima, {rrzagoevoca a fic-
ciüixo.A !gredadifunde crtlcifixos esctltpidosott em baixo-relevo, ção, talvez a abstração; em todo caso, uma realidade pálida e
observou Bernard, para }aaanter'\-ivaa memória da Paixão." E no empobrecida. Plebe?ztííl,ao contrário palas!!..llg.llgg:.hé tempos
'\...

entanto, as imagens de Crista também podiataa estar stljeitas a um às rellqplgs. dos $anlos -- , teria sido cada vez mitos associada à
olhar idólatra. Em toda a Europa, de Venezaà lslândía ou à No- eucaristia."
ruega, encontram-se imagens de Crista, em cruz ou em majestade, A oposição enl:re eucaristia e relíquias é explícita no Depigno-
acompanhadasde dísticos latinos como este,que remonta pelo ribz s sanctorz.íni,o tratado sobre relíquias de Guibert cleNogent,
menos ao século x:l: concluído em 1 125." Guibert não selimitava a repelir as falsasrelí-
quias, como o suposto dente de leite do menino Jesusostentado
Hoc De is esí, q&lo{.l imngo [íocel, seúl rlotz Deus ipso pelos rtlonges (!e Saint-Médard. Acreditava que a única memória $

}lattc remotas,
sccltllente caias,q {od certtisin ith. deixad!: pq! Cristo era a eucaristia. Isso o levava a desvalorizar as
(O que a imagem ensina é Deus, mas ela não é Deus relíquias substitu [i\ as ll repraesenfarapiguorcí,te as sinédoques,
Medita sobre a imagem, mas adora em espírito o que vês nela.): como âgura liiigtiística cara aos ignorantes." Vemosdelinear-sé a
tendência que Conduziria, em ] 215, à proclamação do dogma da
Medo das imagens e desval.g$!grão das imagens -- essaatitu; transubstanciação:.
.'
de ambígua]21lev.ãle;1e.ep]..IÇgd%.!14il4E
.!dé(!h.européia. Contudói "A"inlpõftã.ilcia decisiva desse acont:ecilllento na história da
percepção das imagens já foi salienta(ta por outros estudiosos.'
ilPnlgo (cilml) PSlíra) é })ala\ ra de multiplos \ignillcndos.~' Um tre
cho. novamente extraído do .Libermíracuíort nzsíztlcteFiéis, seta M.assuas implicações não são totalmente claras. Tentarei formular
algumasdelasà luz do que fo i dito atéaqui. A descontinuidade pro-
suficiente para darmos uma ideia de uma série de temas aqui apç;
funda entre as idéias que sedistinguem por trás do ko/ossos
grego e
nns esb{)çados. Ao citam exem })in de um c tvaleiro p"Rido p(lr $eu
$ noção de presença real salta imediataiülinte aos olhos. Claro,
orgulho, Bernard d'Angers exclama,dirigindo-se a si mesmo:
trata-se, eh"ãtlibós os casos, dé signos religiosos. Porém, seria
A atlstração também triu h, tlo mesmo período, no âmbito
impossível relacionar à eucaristia o qtle Vernant falotl do ko/ossos,
da teologia e da liturgia política, Na grande pesquisa de Kantoro-
sto é, que, "para a sua função operatória e eficaz, o kolossóstem a
wícz sobre o duplo corpo do rei, as alusões à eucaristia são curiosa
ambição de estabelecer,com o além, um cantata rea!, de realizar
mente marginais." É provamel, porem, que o dogma da transubs-
suapresença aqui"l À luz da formulação do dogma da transubstan- tanciação tenha desen)pensado, nesse processo histórico, uma
ciação não sepode falar simplesmente de "contato'l. mas sim de pre-
ftlnção decisiva. Vota balelimitar a t.im exemplo, retirado da descri-
sençano sentido mais forte do termo. A presençade Cristã na hós- ção das feri nâílias que se realizaram em Saint- Denis por ocasião
tia é. de fato, uma superpresença. Dislate dela, qualquer evocação
.]as exéquias do condestáxe] Bertl'anca du Guesc]in (]3891. O
ou manifestação do sagrado -- relíquias, imagens -- empalidece, monge autor da crónica de Saint-Denis relata uma cena que viu i:l$1

pelo menos cn] iei)ria. (N.\ pnit ici\, ê\bc{)isi\s\ito difererltes. ) com os próprios olhos: o bispo de Autua, que estavacelebrando a
As hipóteses, mais ou m entesousadas, que seguem darão ideia missa,ao chegarao ofertório, saiu do altar colll o rei para ir ao
de alguns possíveis desdobramentos destaspáginas. Depois de encontro de quatro cavaleirosque, na enirada do coro, exibiam as
1215, o medo da idolatria começaa diminuir. Aprende-se a domes- armas do defunto "com a Hllalídade de mostrar, por assim dizer, a $

ticar asimagens,inclusive asda Aintigüidadepagã.Um dos frutos presençacorporea dele l zlt r asi ri ís corpora/em presencíüfride
dessareviravolta histórica foi o retorno à ilusão na escultura e na rnonsírarenrl ".:: As implicações eucartsricas dessa extraordinária
pintura. Semessedesencantamel\todo mundo ãasimagens,não :onlunllão het'abdica e eqliestre (de norma, reservada a barões e
teríamos tido nem Arnolfo di Câmbio, nen] Nicola Pisado, alem pi.íncipes) se exp]icain fàci]n)elite à ]uz da hipótese que proponho-
Giotto. A"ãdéi!,da imlyÊ!!.!omo representaçãoilo sentido moder- É a presençareal, concreta, corpóreo de Clisto no sacramento que
' r\o do lermn",de(lue Canal)r ch fl\lou. ni\sce :\qui possibilita, entre o fim do Duzentos e o princípio do Trezentos,a
Essepl.ocessoteve repercussões sanguinolentas. A ligação cristalização do objeto extraordinário de que parti, até fazer dele o
entre os milagres eucarísticose a perseguiçãodos judeus é bem símbolo concreto da abstração do Estado: a efígie do rei denomi-
conhecida." Supôs-se que a acusação de sacrifício ritual lançada nada represeflração.

contra os judeus a partir da metade do século xi{ tivesseprojetado


para o exterior uma angústia prof\Inda, relacionada à idéia de pre-
sença real vinculada à eucaristia." Alguns elementos da polêmica
antijudaica tradicional assumiram então um novo significado: a
acusaçãode idolatria centrada no conto b íblico do b ezetro de ouro,
ou a de excessoliteral na interpretação da palavra de Deus. O
dogma da transtlbstanciação, na medida em que negavaos dados
sensíveisem nome de uma realidadeprofunda e invisível, pode ser
interpretado (pelo menos por um observador extenso) como um4
vitória extraordinária da abstração.

to3
tas vezesinconsciente, da perspectiva romântica do mito qtle impediu a apreen'
sãodo nexo entre Pedrae o So/isca,que constitui o ponto de partida deste escrito.
136.Cf. em geral, e de outro ponto de vista,W. Rõsier,"Díe Entdeckung der
Fíktionalitât in der Antike'l em Poefica, 12 ( 1980), pp. 283-3 19.
137.Cf. M. Detienne,.L'invenfío?!...,
op.cit., PP.141-4.
138. Cf. sobre essetrecho W. Trimpi, À4tlses...,op cit., PP. 50 ss.
139.Cf. M. Detíenne, l,'irzvention..., op. cit., p. 239(Ateneu, 'ç'l,22 bl -7).
140. Assim, C. Catame, l.e rérit e?tGrêce ancienne. Paria, 1986, p. 155, cit. por
N. Loraux, "'Poluneikes eponumos'; les nome du 6ils d'Oedipe, entre épopée et
tragédie'l em Métanzorphosesdtí tnythe,op. cit., pp. 152-66, que examina o nome
próprio como"enunciado mítico mínimo" (p. 15 1)- (1:f.também G.Nagy, Pie besf.
t#theAchaeans...,op cit. Senão me engano,nenhum dessesestudoscita H. Usene ,.
Gd#ernamen ( 1896). Sobre Usener,ver seuperfil, baseado inclusive em material
inédito, esboçado por J.H. Bremmer em Classicai scholarship: a biograp/zícal end:
clopaedia,org. de W.W. Brigas e W. M. Caldeun(, Nova York, 1990, pp. 462-78.
141.A perspectiva aqui indicada permite reformular em basesum pouco difeT:
rentesa ideia da poesia "nem verdadeira nem falsa" proposta pelos românticos. :
ingleses: cf. M. H. Abrams, The mirror atld the lama, Oxford, 1953, reed. 1974 (ttl
it., l.o spec(hia e !a /empada, ]3olonha. 1976), pp. 320-6
142.Cf. M. Proust, Dti cõtéde chezSwattn, i, Paria, 1954, p. l lO (tr. it., í,a stra'
da di Swan?t,nova ed., Turim, t 978, p. 97). E ct A. Henry, À4étanymfe et métaplgi:
re, Paria, 197 1, pp. 44-fi. Mas também nessecaso Bloco fazia eco às idéias alh.eiaél
NÍaxime Du Camp conta q\te Flaubert, depoisde ter criticado Racine por slH
incorreções lingilísticas, reconhecia-lhe porém "un venséternel, {ant il est s.ubli!
me.., [il] redressait sa haute taille, et de sa voix la Fins cuivrée criait: 'La filme.i!#
Minas et de Pasiphaé!"' {um verso eterno, detão sublime que é... {e]e] endiieitav#
suaelevadaestaturae com sua voz mais sonoraproferia; "A filha de Minas .é.d#
Pasííae!"] ( Souvenírs lfttéraíres, pref. D. Osteí, Paria, 1994, p. 443).

IÊl:ilí

3.XEPKTSENVAÇÃO(PP.85-to3)
A paZat''ra,a ídéía, a coisa

1. R. Chartier,"Le monde comme représentation' em AtltialesESC;l


PP'.1514-5.
2. Parauma denúncia (e ao mesmotempo um sintoma) dessamoda
traí, ver M.-J. Mondzain, /made, ícótle,économie.Z,essourcesbyzantiriê$
I'imagínaíre contem.pafain, Paria, 1996.

z5o 25t
inimigos, que teriam assassinadoo carcereiro em seu lugar: cf. .A,(;ermain, .[ett7e
rlaüiirrn!ara uma discussão sobre u.m proa.lema análogo, ver, deste autor, Sfaría
:JeÀ#atilielde Fíesqileco/lcerlla tf lescíel'nf?res
l rinéesdu roi d'Hllglett?rreEcloilarü{.ll,
Montpellier, t 878; C. Negra,"Uno degli Edoardi in ]ta.lia: hvola o storia?'l em l,a ciüs ü Bloçh e i! l.évi-Stlauss). a, i]]nm, ] 989, PP. .197-8, 205 {cotn as reíerên-
Nuot'a ,Aritología, s.v, v.xcti ( 190 1), PP 403-25; C. P.Ct,!atino-T.W. .Lyman,"'Where 29.E Dupont, L'alzfle mrps..., op cjt., PP.240- 1
s.Edward{l?': eln Spectill.l?JZ,
ul (1958), pp.522-44.Emtodo caso,essascircunstân-
:iasnão explicariamnem o recursoao manequim nem,colll maior razão, seuuso
prolongado
11. T.von Schlosser,"Geschichteder Portrãtsbildnerei in Wachs'l em Jil/irbut:h
del ktlnsf ijstorísche?l Sarn?n/tíngell desa//erhéic/zstenKa iserbatlses,29 ( 19 10- 1), pp
17 1-258, sobretudo as pp. 202- 3 (nova ed.: Fole .B/irke. Geschi(hte der Pari'rãtsbf/d--
rzereíín Wa(hs. Eín. MelstJch,org. de Th. Medicus, Beflim, 1993).
12.Ibid.,pp.8-9
13. R. E. Giesey, ie roi..., op cít., p. 229; ver também pp. 127-8, 1.76,223-43
!4. E. Bickerman, "Die rõmische Kaiserapotheose': em Archfv.$ir Relfgíon-.
swissensrha/t, xxvli ( 1929), PP. 1-34 (id.,"Consecratio, le cure des souverains dons..
..''
I'Empire romain'; em EtltretÍeris de /a .Fondaí'íonl.{ardf, xix, Vandoeuvres-Gen.e-.
bra, 1972, pp. 3 ss.). Cf. também R. E. Giesey) l.e rai --, op. çit., P. 7
15, R. l-lertz, Mé/finges ({e sociologia rellgíeuse et dejolk/are, Paria, 1928. pp; !
98(tr.it., [apre?nittenzíz
deZ/a
destraealtrisaggi,'furam,1994,pp.53-136).Peloquê-
sei,esseensaio n\mca foi utilizado nas discussões sobre os funerais reais, com um.a -
única exceção(infelizmente um tanto super6tcial): R. Huntington-P. MetcalÊ .Cel-.
fbrcnÍon50fdenfh. Cambridge.] 979, pp.] 59ss.i sobre KantorowjczeGiesel':a fes'
peito do débito para com }lertz, cf. p. 13 ).
16. E. Biçkerman, Díe rõmische,op. cit., p. 4.
17. R. Hertz, À4é/atges...,op cit., p. 22
18.F.Dupont, "L'nutre coros de I'empereur'doeu': em l.e fe?zTps
dc Jarlgexióüi fado o volume é importante)
1986,pp. 231-2. O fascículo era consagradoa l,e corosdes Ifeux
19.R. E. Giesey,l.e roi...,op. cit.,p 233.
20. O trecho é citado por Giese» ibid., pp. 228-9.
21. Ibid., PP. 226-7.
22.Ibid., p. 19(relato de Pierre du Chastel).
3.Ibid..pp.253,309-1}
24.ibid.,pp.24a-i
25.F.Pízarro, Relacfón del desc brimíe/tto y conqtíistadeJosreinosdel.Pera,p.fgl
de G. Lohman Villena, Lama, 1978, pp. 89-9B, citado por G. W: Conrad;.AI #li
Demarest, The dynamiçs ofAztec and /nca Cepa?tsíoriísr?i,
Cambridgei.. 198.4.;-É$
Ê Êli- :37 K. Pomian, "Entre .I'invisible et Jevisib.le: la collectíün': em id., Collecrfon-
112-3(agradeço vivamente a Aaron Segalpor ter me indicado estelivro) .Vei.tlig H #gulai amareurs ef clíneux] Paras, 1978, PP. .15-59, O trechti citado se encontra na
bém Relacfón...,op. cit., pp. 51-2.
=6.Ibid., p. 1 13 (que cito quaseliteralmente).
gãl l"S8. 1. R Vernant, Myfbe ptPensée r;iez íes Grecs. Éfudes depsyc:boiogie ;zlsforÍ-
17.R. E. Giesey. l,e ro{..., op cit., PP. 276 ss-
$1llrl. \ ns, l voõ ttr. it. de M. Romanoe B. Bravo,.Mito e.pensielc}
preso i Grerf,

z5z 253.
Turím, 1984,"Figurazionedell'invisit)ile e categoriapsícologicadel 'doppio'; il
ko/assós'lpp. 343-58, em particular as pp- 357-8). R. (;oodenough': em id., Stlidíes f# Jewis/za/zd C/lrlsffapz Hisror7s nT,Leyden, 1986,
39.J.-P.Vernant, Fígtzres,ido/es,masquei,op cit.; id., "Psuché:símulacre du .
corpo ou image du divin?'l em NouvelleRevtiedePsycha?talyse,xi.!v (outono 199 1),
número monográfico Desfins deZ'ímagGpp 223 ss.
40. F.Dupont, i'nutre coros...,op cit., pp. 234-5, 237.
41 . J.Guyon,"La vento des tombei à travers ]'épigraphie de ]a Rime chrétíen=
ne'l em iUélangesd'arc/zéologíeet d'histofre: Alztfquíté, 86 ( 1974), p. 594, citado por.
R Brown, The culí offhe safnts,Chicago, 1982,p. 133, nota 16 (tf. it. de L. Repica
53.J.Taralon,.Z,a
malesfé..
, OPcit.,P.lg.
Cambiante, JJculto deí senti, Turim , 1983).
42. P.Brown, Tbe cz4lt.-, op, çit., pp. 3-4,
43. Muito material em H. Belting, .B{/duttd Kuif, Musique, 1990.
;;'I'.:i
=:;*1';
":."i"":
'''"';'-,",
-,:"«-,
:":.
Recuedei'H n, 1988. P. 15. [ion delimage dons I'art du Haut Moyen Age': em
44.A esserespeito é necessáriopartir da importante documentação recolhida.
56. .übe...,op. cit., í, 1; i, 11; r, 14; r, ]5; i, ] 7; 1,25; 26
poí D. Freedberg, Thepower ofímages,Chicago, 1989 (o embasamento teórico do
livro é pouco convincente). O !ivro de M. Camille, The gothí( idos,Cambridge,. 58.Ibid.,i,]3.

;s:l;
1989,fornece algumas idéias estimulantes, muita obviedade e erros incontáveis .
(ver,p] ex., ascitações latinas àspp. 21, 22, 221, 227 etc.).
45. J. Seznec,.Lasttrvivancedesdieuzxantíqt es,Londres, 1940 (tr. it., .Lasoar :.
fvenzadeglf deí anficAI, Turim, 1980, com uma importante introdução de S. Senil:
tis); F. Saxl, .Lectures,Londres, 1957 (tr. it., Storía della immaginí, nova ed., Bati:l.
..... '
Rama, 1990, com introdução de E. Garin [a I' ed., com o título La sforía dêlie .
inTmagjni,é de 1982] ); E. Panofsky,RePiaissance and re?tascences,
Estocolmo, 1.965::
46. LÍDer miracziíoru?n Sancte Fídís, org. crítim e comentários de L. Robert.mil ::
Spoleto, 1994. Nas pp. 319-20, encontra-se tlmü discussãosobre o termo "scholásj.
ticus": Robertini exclui a possibilidade de Qsigniâcado técnico de mestre de u.ü.i::
escolacatedral. Sobre o texto, ver A. G. Remensnyder,"Un pioblême de cul+urêi:-
ou de culture? La statue-relíquiaire et !es.facade saiote Foy de Conques dan!-.!q
l,iber mfractl/orulrzde Bernard d'Angers'l em Cahíersde Civí/ísaz'íonÀ4édíévc
.lêi
xxxni(1990),pp.351-79.
47.1,íber...,
op cit.,i, ] 3.
48. R Brown, Societyand fhe holy, op. cit., pp. 302-32 (ver principalmente. l!$ .
PP.318-21,330).
49.Eis o título completo: Qldodsanctoíu?ll sfatuepropfer ínvincíbilet? ínge$j!
tamqtie idiotarunt cottsuetudine?tt feri per7ttittantur, preserti?n cu?n tti {! ob. @.ill$!:
retigione depereat, et de celestevittdicta
50. Para um importante comentário ao capítulo de Bernard, cf. B. Sto.ck, ::!Bqi
fmp[icafíons ofZíteracy, Princeton, ] 983, pp. 64-72.
66. M. Cami1le, T7zegofbff fda!, op. cit., P. 2 17
51. DeopiniãodiferenteéA. G. Remensnyder.
Unproblême...,
op cit.Ver.tã$i
bém E. Bickerman, "Sur la théologie de I'art ütguratif Rproposde 11Wll 67.P Brote,"Die Hostienschãndugender Judeuim Mittelalter':em Rõmis(#e
i =:'' """''' yi.rurrnnsrürüe.4/tertumsX:finde undfbr.Kfrc/zengescAfcAte. 34 ( ] 92Õ), .
z54
255
PP 167-97; i({.. 1)iee11c/7aristisr;íc
'lzer+4,,aritíl11figslt'tJtzíler
cãesÀ'farte/alrezs,
ibid., 37
(.1929),PP-137-69
68. S. Leva Del)a Torre,"ll de)isto et,]caristico'l. en] id., .Mosaico. .4í'tua/irà e í-tzaf-

h alità de.(JÍebí'eí,Rama, i992, pp. 105-34; }. Cohen, File Friíils ariúír/te/t?çt's.The


evaliltíot! oft?lecfievalarití.julí(tísF?l,lthaca, 1.982.Ver agora G. T.Langttlttir, "The
tortures of the body of (:hrist'l em Chrisfenílom {t?idits (/ísconteiifs,org. de S
8
Waugh-P. 1).Diehl, Cambridge, 1996, pp. 287-309.
69. E. Kantorowicz, 'Fhe king's fwo boc fas,ot). cit., PP- 196-206
70. Chroníqtledu religieuxde Saint-.De l 's,1,Paras,t 839, p- 600.O autor da crâ
Dica morreu entre 1430 el 435; cf. hT. Nordberg,"Les sources bourguignonnes des

accusaticlns portões centre !i! mémoire de Louis d'Orléa11s': em /{?7?lajesüle Bot/i--


gogne,xxxi(.1959),pp.8.1-98.

4.xccr(PP,io4-2a)
Sobre as raízes ctitttirais da itTtaget?l ííe culto cristã

Apresentei versões precedentes deste ensaio em dois congressos: rconoclasú.


$

.íhe'possibi/fry ofreprese/]íatíon fn religííJtl ( Heidelberg, 9- 14 de fevereiro de l P97;lil


g
em homenagem a b'íoshe.Barasch); e iítiagin !fiori un({ ÇHrklít:llkeft(Frankfurf. 1.4
16 dejunho de 1997) ..Agradeçoaosf)articipantes, em particular a Klaus Reichert.
Estou en\ débito, por outras observaçõescríticas, com Stephen (;reenblatt e,.em:l
particular, com Mana guisaCatoni. Muitas idéiasme ocorreram, como semt)re+
graçasa uma conversacom ]an -\ssmann. A ajuda de Píer CesareBorodurahté
todas as Éascsda pesquisa foi decisiva. Pela versão final sou o única responsáve.

1. As maiúsculas são sempre minhas. Todas as traduções italianas foral


extraídasde l.a BÍbbía df Gera/saiam?me,
Bolinha, 1980 [-\ tradução brasileira.ütii
[izada foi a de ]oão Ferreira de Almeida, eventualmente adaptada em hnçãb..dji
t.eito ita]iailo. (N. T.)] . (vulgata: "Pariet autetn 6llitim.

!esum; ipse enim salvum faciet populum suam a peccatis


totum fãctum estut adimpleretur quod dictuln est a Deo per
et vocabís nomes

tem: 'Ecce virão in útero habebit et pariet 6llíum, et vocabunt nomes:eiq!


üi:q.i
H111
illiliiilil$11illlilll
llll
Êlnmanue!'"l)
i'n F

(l:f. J. Coppens, .L'í?lterprétaí'ion d'ls. VII. í 4 à /a


recentes,em tac ft a \zcritas.FestschnW.#irHlJberf/tJtiker, org. de H.
Mullner, Trier 1961, pp. 31-46. A alternativa napOévoç '
polemicamente por Tritão, o judeu interlocutor de }ustino
43); cf. também P.Prigent, Justfn et I'Anrierz 7êstamefit, Paria, 1964, pp.

z56 257

g
$