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O outro e o tempo: François Hartog e o espelho da história

Fernando Nicolazzi1

“É preciso atravessar; e o que me


interessa é ter o diário dessas
travessias”.
François Hartog,
La chambre de veille, 2013.

O historiador como viajante


Um certo gosto pelas viagens, pelo gesto de atravessar variadas fronteiras, eis uma
maneira fácil e cômoda para se tentar definir os significados mais vastos da obra de
François Hartog, que poderia, assim, ser considerada como o diário de suas inúmeras
travessias. Ele próprio não deixou de considerar vários dos historiadores sobre os quais
escreveu como viajantes, de Heródoto a Michel de Certeau. E não se trata tão somente de
um diagnóstico do intérprete que se dispõe a acompanhar a produção historiográfica do
autor, mas sim das suas próprias palavras: “esse gosto das viagens, essa atração por um
alhures, esse desejo de não permanecer no mesmo lugar, de se deslocar, de não ser
atribuído a um só lugar, a um só período, a uma só disciplina, a uma só corporação são
muito presentes em mim”.2
De fato, a viagem teve lugar marcante na formação intelectual de Hartog,
desempenhando um papel que ainda o acompanha ao longo dos anos. No início, as leituras
e o anseio por escrever um romance o levavam, em meados da década de 1960, à ilha
Ouessant, situada no noroeste da França, entre o Golfo da Biscaia e o Canal da Mancha.
Três décadas depois, o périplo do viajante o colocava flanando pelas ruas de uma Berlim
recém-unificada, em amplo processo de reconstrução. Entre a ilha e a cidade, uma viagem
marítima ao redor do mundo durante um ano como bolsista da fundação Singer-Polignac,
logo após os primeiros estudos na École Normale, levou-o de Marselha até o Pacífico,
possibilitando o fascínio causado pela estada prolongada na Indonésia. Além dessas,
outras incontáveis viagens fizeram do historiador este andarilho por diversas paisagens e

1
Professor do Departamento de História da UFRGS e bolsista do CNPq. Este ensaio, cujo tema atravessa
minhas preocupações intelectuais há já algum tempo, não teria sido possível sem a generosa paciência dos
estudantes que acompanharam a disciplina Problemas de historiografia antiga e moderna, ministrada junto
ao Departamento de História da UFRGS no segundo semestre de 2017, toda ela voltada para uma reflexão
sobre a obra de François Hartog. Agradeço igualmente aos organizadores Alexandre Avelar e Julio
Bentivoglio pelo amigável convite para participar desta coletânea.
2
HARTOG, François. La chambre de veille. Paris: Flammarion, 2013, p. 32.

1
inúmeras cidades ao redor do globo, trazendo-o, inclusive, ao Brasil no início dos anos
1990 para ministrar um curso na USP e, logo em seguida, seguindo os passos de Jean de
Léry e Claude Lévi-Strauss, descobrir a baía da Guanabara no Rio de Janeiro. Para os
trópicos voltaria, então, ainda outras tantas vezes, mantendo uma importante rede de
amizade e de relações intelectuais com diversos pesquisadores e pesquisadoras brasileiros
de variadas áreas de atuação.
O transitar entre continentes e o vagar pelos oceanos, no entanto, não foram as
únicas formas de travessia realizada por ele. Os trajetos percorridos também envolveram
uma cartografia de outra natureza, fazendo da viagem uma forma de deslocamento
propriamente intelectual: da imagem especular de Heródoto, tema de sua tese defendida
em 1979, até os traços peculiares de Ernest Renan, objeto da mais recente obra publicada
em 2017, as distâncias percorridas o levaram da interpretação cultural da antiguidade
Grega até as hipóteses mais amplamente difundidas sobre a experiência contemporânea
do tempo. Entre o mundo antigo e este em que habitamos, os mapas ainda mantêm os
traçados das rotas realizadas com os primeiros modernos, de Montaigne e alguns autores
do classicismo francês, como Charles Perrault, até aqueles da modernidade própria à
historiografia disciplinada, coetâneos de Renan no século XIX: Jules Michelet e Fustel
de Coulanges são das regiões mais longamente percorridas. Ventos e marés permitiram
ainda o navegar entre autores do pensamento cristão, com os quais o autor vem agora
viajando em busca de outras modalidades de se experienciar o tempo.
É longa, portanto, a viagem do historiador. Além dessas, suas travessias foram
também um constante transitar por fronteiras de outra natureza, cujo cruzamento se
mostrou igualmente necessário para a realização dessa obra de viajante. Assim, do campo
da historiografia, com Pierre Vidal-Naquet, Michel de Certeau e Pierre Nora, passamos
pelas vastas paragens da antropologia, tanto aquela de Claude Lévi-Strauss como a de
Marshall Sahlins, seguindo também em longos períodos de caminhada por sobre o próprio
limite entre um e outro espaço, como o da antropologia histórica praticada por Jean-Pierre
Vernant. As extensas planícies da reflexão filosófica foram igualmente percorridas, com
figuras constantes na caminhada, Paul Ricoeur e Michel Foucault entre elas. Finalmente,
para que esse roteiro não se alongue em demasia, cabe mencionar que as terras literárias,
com seus vales onde prospera uma mata cerrada ou suas zonas montanhosas de onde se
enxerga ao largo do território, foram sempre destinos permanentes da viagem, sem os
quais, desconfio, o próprio gesto de viajar perderia sentido. Aqui, os exemplos são muitos
e variados para serem simplesmente nomeados.

2
Eis, portanto, ainda que brevemente traçadas, algumas das travessias realizadas
por François Hartog ao longo das mais de quatro décadas em que se desdobra seu diário
convertido em obra historiográfica. Nascido em 1946, ele faz parte de uma geração que
cresceu sobre os escombros que, junto com o manto do silêncio, cobriram a França no
imediato pós-guerra. Mesmo que sua infância tenha se passado em uma cidade
(Albertville, no departamento de Savoie, região leste da França) onde as marcas dos
conflitos eram pouco visíveis, a memória destes anos traz ainda a lembrança das casernas
incendiadas nas proximidades de sua casa. Filho de uma família burguesa em declínio,
que “percorreu as rotas do êxodo” em razão da guerra, o pai foi prisioneiro de guerra
libertado um ano antes de seu nascimento, trazendo na bagagem aquele silêncio dos
combatentes sobre o qual escreveu Walter Benjamin. Quanto a isso, Hartog oferece hoje
sua própria interpretação: “a vontade de deixar para trás (laisser tomber) este passado tão
próximo ou tão distante, mas colocado fora do tempo, era evidente”.3 Nos seus textos,
todavia, não se percebe o mesmo anseio e esforço de Austerlitz, o notório personagem de
W. G. Sebald, que saiu em busca dos ecos não pronunciados daqueles momentos de
origem pessoal.4
Na década seguinte, a guerra da Argélia foi um episódio marcante, espécie de
primeira formação política, para aquela geração que podia acompanhar, por exemplo, os
contundentes posicionamentos assumidos por intelectuais do porte de Vidal-Naquet em
sua denúncia contra a tortura e o assassinato do jovem professor argelino Maurice Audin
pelas forças militares francesas. 5 Os momentos de preparação e, finalmente, entrada na
École Normale, no Quartier Latin de Paris, foram igualmente importantes para a
formação pessoal de Hartog: “não estando envolvido, até então, em toda essa agitação
intelectual-política, eu entrava bruscamente, embora timidamente, em um mundo onde se
passava muitas coisas”.6 Lévi-Strauss, Michel Foucault, Jacques Lacan, Roland Barthes,
o cinema de vanguarda e o Nouveau Roman fizeram parte das constantes descobertas
deste contexto, feitas antes fora do que dentro dos espaços regulares de ensino.

3
Ibid., p. 33.
4
Benjamin, um tanto de passagem, e Sebald, mais longamente interpretado, são discutidos em Crer na
história, de 2013. Ali, sobre Sebald, Hartog escreveu: “será sua razão de ser escritor: reencontrar a memória
que ele não tem e preencher esse vazio com os relatos de testemunhos confiáveis”. HARTOG, François.
Croire en l’histoire. Paris: Flammarion, 2013, p. 200 (edição brasileira, p. 155).
5
Posteriormente, Hartog escreveu longamente sobre o affaire Audin em seu livro sobre o historiador e
amigo. HARTOG, François. Vidal-Naquet, historien en personne. L’homme-mémoire et le moment-
mémoire, Paris: La Découverte, 2007.
6
HARTOG, François. La chambre de veille, op. cit., p. 37.

3
Em seguida, um momento de inflexão intelectual: “os anos que vão do fim da guerra
da Argélia até 1968 são marcados, para nós, por uma perda de crença naquilo que nossos
mestres nos ensinavam”.7 Os episódios de maio de 68 se situam justamente nesse contexto
geracional, descrito por Hartog como de “desencantamento em relação ao mundo que era
o nosso”.8 Isso explica, em partes, a opção de se tomar certa distância em relação ao
presente e a certa realidade institucional, seja ingressando em um grupo de teatro, ou
ainda, à maneira de Vernant, iniciando seus estudos sobre o mundo antigo,
particularmente sobre a Odisseia. Assim, se o anseio por se tomar certa distância no
tempo, além da leitura dos trabalhos de Georges Dumézil, foram fundamentais para a
escolha pela antiguidade, o contato com Vidal-Naquet foi determinante para o caminho
que o conduziu aos estudos sobre o poema homérico na ocasião das pesquisas de
mestrado, cujo objeto foi uma “leitura estrutural” dos feácios como um povo fronteira
entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses.9
Essa primeira e definidora partida para a Grécia se consolidou igualmente por meio
do contato estabelecido com Moses Finley, de quem Hartog, em 1973, traduziu para o
francês o livro Early Greece: the bronze age and the archaic ages (1970), e para quem
dedicou a obra de 2005, Evidência da história. O tema da identidade grega emerge dessa
conversa com o historiador norte-americano, então exilado na Inglaterra em função das
perseguições politicas nos Estados Unidos durante o macartismo. A tese de doutorado
sobre Heródoto e a representação do outro, começa, então, a ganhar forma. Em 1975,
Hartog passa a ensinar história antiga na Universidade de Strasbourg, ali permanecendo
durante uma década, quando se transfere para a Universidade de Metz em 1985. Entre um
e outro deslocamento, em 1979 tem lugar, na Universidade de Besançon, o júri, presidido
por Jean-Pierre Vernant, que acompanhou a “sustentação” da tese publicada pela
Gallimard no ano seguinte com o título O espelho de Heródoto: ensaio sobre a
representação do outro. A tese teve como diretor de estudo o historiador Pierre Lévêque,
e foi arguida ainda por Vidal-Naquet, por Michel de Certeau, pela egiptóloga Françoise
Dunand e pelo filólogo, professor na Escola Normal de Pisa, Giuseppe Nenci.
Com uma primeira recepção ambígua por parte da corporação de historiadores
(encarado como pouco histórico e excessivamente teórico ou mesmo literário), o longo
trabalho sobre Heródoto teve como consequência, entre outras coisas, colocar o nome de

7
Ibid., p. 39.
8
Ibid., p. 32.
9
Sobre os feácios, ver HARTOG, François. “O retorno de Ulisses”. In: A memória de Ulisses. Narrativas
sobre a fronteira na Grécia antiga [1996]. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004.

4
Hartog em certa evidência no ambiente dos estudos sobre a antiguidade clássica. Mesmo
se o percurso para se encontrar um posto permanente como professor não tenha sido
imediato, o fato é que em 1987 é eleito, com o importante apoio de Vernant e Vidal-
Naquet, para uma cátedra na École des Hautes Études en Sciences Sociales/EHESS de
Paris, intitulada por ele Historiografia antiga e moderna, onde ainda hoje atua
profissionalmente. Trata-se aqui de uma mudança importante, uma vez que trouxe Hartog
novamente para Paris, o centro da vida intelectual e universitária francesa, colocando-o
em contato direto com os colegas do Centre Louis Gernet, fundado em 1964 por Vernant,
cuja principal característica eram os estudos comparados e multidisciplinares sobre a
Grécia antiga, e tornando possível a concretização de um projeto intelectual notadamente
voltado para a investigação sobre a própria historicidade do conhecimento histórico.
Hartog reconhece que uma forma de abordagem mais ligada à historiografia só teria
sido plenamente realizável no ambiente institucional da EHESS, marcado, em suas
palavras, pela “total liberdade” de atuação, tanto no ensino como na pesquisa, e pela
abertura internacional que caracteriza a instituição. Como sugere o autor, “estar na
EHESS é poder estar disponível para acolher e tratar das interrogações que surgem. Poder
estar aberto ao kairos, à ocasião que se apresenta e que demanda algo de você”.10 Este
kairos, tempo que torna oportuna a ação, ampliou enormemente os mapas das viagens de
Hartog, sempre alimentadas justamente por aquelas interrogações que fizeram da história,
para ele, a questão de uma vida.

A história como questão de uma vida


Em 2005, Hartog publica o livro Evidência da história. O que veem os
historiadores, no qual insere um epílogo como espécie de homenagem a outro historiador
que faz parte das “gens du voyage”, Michel de Certeau. Sua morte, um ano antes de
Hartog assumir o posto na EHESS, provocou em nosso autor “essa experiência de uma
primeira releitura no primeiro silêncio, tão penoso, da ausência”, justamente daquele que
não cessou de se indagar sobre as ausências da história. Hartog expõe, assim, em tom de
confissão: “escrever que ele me ensinou a questionar a evidência ou as evidências da
história seria uma formulação redutora, quase técnica. Ele seria, antes, aquele no contato
de quem eu comecei a compreender que a história ia se tornar a questão de uma vida”.11

10
Ibid., p. 81.
11
HARTOG, François. Évidence de l’histoire. Ce que voient les historiens. Paris: Éditions de l’EHESS,
2005, p. 237 (ed. bras. p. 253).

5
Os primeiros traços da formulação desta questão, então, podem ser percebidos em
seu primeiro livro, escrito sobre aquele que a tradição ocidental acabou por eleger, desde
os primórdios da era cristã pelo menos, como o pai da história.12 Em uma visada
retrospectiva escrita na forma de prefácio à segunda edição, de 1991, Hartog reconheceu
o papel decisivo de Certeau na forma pela qual procurou interpretar os sentidos das
narrativas elaboradas por Heródoto no século V a.C. Se o que se tratava ali, naquele
momento, era de uma “experiência de leitura”, a narrativa era percebida enquanto texto,
a partir de seus jogos próprios de enunciação. Para isso, como reconhece Hartog, foi
imprescindível que alguns anos antes tivesse aparecido o Escrita da história, que Certeau
publicara em 1975. Assim, segundo a palavras do autor,

“a tarefa de um historiador da cultura pode, a partir daí, consistir em dar a ler esses textos,
reconstruindo – para falar como a hermenêutica – a questão à qual eles respondem,
redesenhando os horizontes de expectativa em que, desde seu primeiro dia até os nossos
(ainda que no modo de ausência), eles vieram inscrever-se, recalculando as apostas que
fizeram e significaram, apontando os quiproquós que sucessivamente provocaram. Essa
historicização não significa modernizá-los ou atualizá-los, mas sobretudo fazer ver sua
inatual atualidade”.13

Nesse sentido, a maneira pela qual a questão da história foi sempre colocada por
Hartog envolve tratá-la justamente em sua dimensão narrativa, como um texto, mesmo
que sua forma de enunciação tenha sido marcada fundamentalmente pela oralidade, como
foi o caso de Heródoto. Assim, sua interpretação está bem distante de uma forma de
história da historiografia que é convertida em um discurso laudatório da disciplina
historiográfica, em seus desígnios de cientificidade e com toda sua memória disciplinar
(e disciplinada) difundida, sobretudo, a partir do século XIX. No limite, para tentar definir
com poucas palavras (que não são as dele), a história para Hartog é, antes de tudo, o
produto de um gesto que será aqui denominado de gesto historiográfico.
Todo gesto envolve uma forma de ação daquele que o realiza. Não é preciso recorrer
à filosofia da linguagem para considerar que narrar é, antes de mais nada, fazer algo. A

12
Tradição ironicamente contestada por Hartog, quando aponta as múltiplas formas de escrita sobre feitos
do passado produzidas muito antes dos gregos, como, por exemplo, na Mesopotâmia, cerca de dois milênios
antes de Cristo, e pelos relatos que conformaram o Antigo Testamento. Para ele, “alojados em seus estreitos
territórios nas bordas do Oriente, não foram eles [os gregos] os ‘últimos a chegar’; eles, justamente, que
uma longa tradição não parou de constituir em ‘primeiros a chegar’?”. HARTOG, François. “Primeiras
figuras do historiador na Grécia: historicidade e história” [1998]. In: Os antigos, o passado e o presente.
Brasília: Editora da UNB, 2003, p. 13.
13
HARTOG, François. “Prefácio. O velho Heródoto” [1991]. In: O espelho de Heródoto. Ensaio sobre a
representação do outro. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1999, p. 16.

6
partir daí, não há também como desvencilhar a história do historiador, o ator do gesto
daquilo que foi por ele (pelo gesto) concretizado. O que não significa, muito pelo
contrário, considerar que a primeira, a história, possa ser plenamente explicada a partir
do segundo, o historiador. Trata-se de uma forma de relação um tanto mais ampla e
complexa, uma vez que leva em consideração o próprio ambiente em que o gesto se
realiza e os destinatários a quem ele é endereçado. Se, por exemplo, Heródoto narrou suas
histórias para um determinado público que, embora seja hoje difícil de definir com
precisão, se situa no plano da cultura grega do quinto século antes de nossa era, Pierre
Nora organizou um modelo distinto de apreensão do passado e de escrita da história a
partir das demandas que uma determinada experiência de tempo, situada a partir dos anos
1970 e chamada por Hartog de presentista, colocou aos historiadores e historiadoras. E é
justamente entre um e outro que as viagens do nosso historiador são realizadas.
Considerando, portanto, essa particularidade do modelo interpretativo assumido por
Hartog, resta trazer as formas pelas quais a questão da história é desdobrada em suas
travessias. Se acompanharmos o conjunto de seus escritos é possível perceber que, mesmo
de forma fragmentada, embora com reconhecível coerência, as formas da história
assumidas pela cultura ocidental foram abordadas pelo seu olhar inquiridor, desde os
esboços contidos nos poemas homéricos, quando a própria figura do historiador ainda não
existia, até os dias mais recentes, momento em que a crença na história perde toda sua
evidência. Neste percurso historiográfico, realizado como a historicização das formas
assumidas pelo gesto historiográfico no Ocidente, diversos são os historiadores que lhe
serviram de referência intelectual, dos quais eu destaco três que me parecem fundamentais
e que ocupam não um lugar de modelo, mas sim, conforme suas palavras, o de “figuras
inspiradoras”.
Em primeiro lugar, Pierre Vidal-Naquet, ele mesmo interessado nas dimensões
teóricas e históricas da historiografia, nos usos contemporâneos da antiguidade, cuja
mobilidade entre presente e passado, entre antigos e modernos, encontrou eco na própria
maneira pela qual Hartog pratica história e se reconhece como historiador. Em segundo
lugar, Arnaldo Momigliano, que conheceu justamente por intermédio de Vidal-Naquet e
por quem não poucas vezes manifestou intensa admiração pelo saber enciclopédico, pela
erudição detalhista e pelo amplo leque de interesses que mantinha em relação à
historiografia: “ele leu tudo, e ele entrava em discussões sobre pontos precisos com os

7
trabalhos de múltiplos autores, dos quais ele dava conta com um ardor infatigável”.14
Finalmente, Reinhart Koselleck, com cuja obra teve um contato mais intenso na década
de 1990 e que forneceu, no plano da semântica histórica dos conceitos e da reflexão sobre
o tempo histórico e a experiência temporal em distintos contextos, elementos importantes
para Hartog apreender a experiência da história ocidental, notadamente a partir do
conceito de historia magistra vitae, do conceito de tempo e de história elaborados na
modernidade (pelo menos a modernidade koselleckiana, iniciada no século XVIII), além
das meta-categorias de “espaço de experiência” e “horizonte de expectativas”,
organizadoras da reflexão do autor francês.
Assim, estabelecendo uma reflexão que concilia epistemologia e historiografia,
como forma de “abordagem atenta aos conceitos e aos contextos, às noções e aos
ambientes e sempre mais cuidadosa de suas articulações, preocupada com a cognição e
com a historicização, mas vigilante em relação às sereias dos reducionismos”, 15 Hartog
oferece algumas pistas importantes para a compreensão dos sentidos e significados
assumidos pela história na cultura ocidental. Em primeiro lugar, o contexto de emergência
da figura subjetiva do historiador com Heródoto. Trata-se, no entanto, não de uma origem
essencial e fundante do saber histórico no Ocidente, mas sim, bem ao gosto da genealogia
foucaultiana, de um começo no já começado.16 Afinal, havia, antes da historíe tomar corpo
no relato dos confrontos entre gregos e bárbaros produzido por Heródoto, os poemas
épicos que projetaram sua sombra sobre tudo aquilo que viria lhes suceder. Ou, nas
palavras do autor, “Heródoto quis rivalizar com Homero e, ao cabo das Histórias, tornou-
se Heródoto”.17
A cena inaugural é conhecida e traz de volta os feácios estudados por ele em suas
pesquisas de mestrado. Ao final de seu périplo, Ulisses desembarca, náufrago e sozinho,
nas terras daquele povo-fronteira, localizadas nos limites entre o humano e o não-humano,
entre seres mortais e imortais, entre o tempo próprio dos homens e o tempo dos deuses,
onde é recebido com toda a hospitalidade pelo rei Alcínoo.18 No banquete oferecido por

14
HARTOG, François. La chambre de veille, op. cit., p. 82.
15
HARTOG, François. Évidence de l’histoire, op. cit., p. 232 (ed. bras., p. 248).
16
Lembrando aqui, mesmo que não explicitamente formulados por Hartog, os sentidos dados por Michel
Foucault a sua genealogia como uma abordagem oposta “ao desdobramento meta-histórico das
significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da ‘origem’”. FOUCAULT,
Michel. “Nietzsche, a genealogia e a história”. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal,
1979, p. 16.
17
HARTOG, François. “Primeiras figuras do historiador na Grécia: historicidade e história”, op. cit., p. 15.
18
Sobre os habitantes da Feácia, escreveu Hartog: “esses homens dos limites são sim mortais, mas gozam
de um estatuto um pouco particular: encontram-se ainda próximos dos deuses e conservaram certos traços
da idade de ouro”. HARTOG, François. “O retorno de Ulisses”, op. cit., p. 35.

8
ele ao até então desconhecido herói grego (uma vez que Ulisses preservava o anonimato),
o aedo Demódoco é chamado para entreter os convivas. A certa altura, Ulisses pede-lhe
que cante os feitos realizados pelos gregos em seus combates contra os troianos, ao que é
prontamente atendido pelo poeta cego. Não tarda para que a sua própria memória seja
despertada pelo canto de Demódoco que, sem saber quem é aquele forasteiro para quem
a festividade é dedicada, menciona a figura de Ulisses como se ele ali não estivesse. Pior,
narra como se a existência do herói coubesse apenas em algum outro tempo que não
aquele compartilhado no banquete, um tempo outro marcado pela não presença e, talvez
mesmo, pela morte daqueles que o habitam. Neste ponto, Ulisses chora.
As lágrimas do herói grego representam aquilo que Hartog chamou de “descoberta
dolorosa” da historicidade, da “não-coincidência de si consigo mesmo”. Afinal, mesmo
presente, Ulisses ouvia a narrativa dos fatos de que participara na incômoda posição de
um ausente, de quem apenas lá estava e, portanto, não está mais ali. Entre o lá, espaço da
morte, e o cá, lugar próprio dos vivos, neste recorte tão caro à formulação da história
oferecida por Certeau, desdobram-se os sentidos dados por Hartog para a noção de
historicidade, encarada como o jogo ambíguo e constante entre presença e ausência, entre
identidade e alteridade, entre passado e presente. Dois pontos são importantes de serem
notados aqui. O primeiro deles é a referência ao conceito de história tal como descrito por
Hannah Arendt algumas décadas antes, quando situou nesta mesma cena na corte dos
feácios o início poético da história.19 O segundo é o desvio realizado por Hartog em
relação tanto à fenomenologia quanto à hermenêutica alemãs e suas formulações sobre a
ideia de consciência histórica e de historicidade: para ele, trata-se antes de uma
compreensão poética, ou literária, do que propriamente filosófica.20
Assim, se a historicidade permanece como uma ideia difusa e como algo não
nomeado nos poemas épicos, há ali outro personagem que terá importância para a
construção do conceito de história: o histôr. Para Hartog, trata-se de uma “palavra-
cruzamento” (mot carrefour) que designa tanto a dimensão da visão atribuída para a
testemunha de um feito (segundo suas origens etimológicas estudadas por Émile
Benveniste), quanto a instância decisória do árbitro como garantidor daquilo que se

19
ARENDT, Hannah. “O conceito de história. Antigo e moderno” [1954]. In: Entre o passado e o futuro.
São Paulo: Perspectiva, 1979, p. 74.
20
Em La chambre de veille, longa entrevista concedida a Felipe Brandi e Thomas Hirsch, publicada em
2013, Hartog simplesmente descarta essa discussão oriunda da filosofia sobre o conceito de historicidade
(“sans entrer dans des débats philosophiques sur l’historicité”) para manter sua abordagem a partir do
poema grego. Não obstante isso, Paul Ricoeur, filósofo francês e atento leitor de Heidegger e Gadamer,
será referência importante para a compreensão deste tema na obra de Hartog.

9
concretizou em um fato (conforme aparece na Ilíada). O histôr, testemunha e árbitro,
oferecerá, portanto, os elementos conceituais e lexicais para a formulação realizada por
Heródoto de sua historia: “esta primeira entrada no campo lexical de historia leva, mais
extensamente, a reconhecer na epopeia uma forma de ‘pré-história’ da história”.21 E nessa
pré-história, a visão emerge como gesto inaugurador da história.
O recorte que vai da épica homérica até a história de Heródoto é o mesmo que
separa o saber oriundo das musas divinas, de quem o poeta é simples mensageiro, daquele
saber produzido por um homem mortal que se constitui subjetivamente como historiador.
Se o poeta, seja Homero ou Demódoco, não necessitava da visão para oferecer os seus
cantos, bastando a inspiração divina para isso (“Canta-me a Cólera – ó deusa...”, evoca
em seu começo a Ilíada, enquanto que a Odisseia principia com “Musa, reconta-me os
feitos do herói astucioso...”), Heródoto, no gesto que institui sua historia, coloca-se
dependente daquilo que seus olhos e ouvidos – sobretudo os primeiros – puderam
perceber. É a autópsia humana, mais do que a inspiração divina, o que caracteriza este
começo grego da história para Hartog. Para ele, olho e ouvido são operadores da crença
naquilo que está sendo narrado: o fazer-crer do relato está totalmente interligado com o
fazer-ver do gesto que institui o relato. Desde 1979, ainda no contexto da tese, até mais
recentemente, em sua nova partida para a Grécia no livro de 2015 (Partir pour la Grèce),
essa postura interpretativa se mantém: “o olho ou, sobretudo, a autópsia. Com efeito,
trata-se do olho como marca de enunciação, de um ‘eu vi’ como intervenção do narrador
em sua narrativa para provar algo”.22 A interpretação feita de Heródoto, dessa maneira,
que será prolongada em seguida com a leitura de Tucídides,23 atribui ao gesto
historiográfico, pelo menos neste contexto inicial, uma dimensão física incontornável: o
olho que vê, o ouvido que ouve, o corpo que se desloca, tudo isso aparece então como
elementos imprescindíveis para a realização efetiva do gesto.
Dos antigos aos modernos muita água correu nos rios da historiografia,
transformando substancialmente os traços constitutivos daquele gesto. Mesmo entre os
antigos as coisas já pareciam se transformar. Políbio, o terceiro entre os grandes

21
HARTOG, François. “D’oú vient l’histoire?”. In: Partir pour la Grèce. Paris: Flammarion, 2015, p. 75.
Para uma formulação mais abrangente sobre o personagem, remeto a DARBO-PESCHANSKI, Catherine.
“Histôr: juge de première instance”. In: L’historia. Commencements grecs. Paris: Gallimard, 2007, p. 41-
66.
22
HARTOG, François. O espelho de Heródoto. Ensaio sobre a representação do outro [1980], op. cit., p.
273.
23
HARTOG, François. “L’oeil de Thucydide et l’histoire ‘véritable’”. In: Évidence de l’histoire, op. cit.,
p. 75-88 (ed. bras., p. 77-92).

10
historiadores gregos, alguns séculos depois de Tucídides, transformou o campo da visão
dos historiadores: da autópsia, gesto físico por excelência, passou para a sinopse
(sunopsis), ou seja, a “capacidade de ‘ver em conjunto’, de abranger em um só golpe”
todos os elementos que unificam uma história, no caso a “história universal de Roma”.24
Obviamente, essa modalidade sinóptica de visão não está ligada ao olho enquanto órgão
corpóreo, mas sim à capacidade, teórica por assim dizer, do historiador costurar os fatos
no sentido de criar, ao final, a imagem de conjunto almejada. Políbio, em uma espécie de
resposta à crítica aristotélica da história, vale-se para isso do termo sumploke, que remete
justamente à ideia de tecelagem, “de entrelaçar a cadeia e a trama”, próximo ao muthos
definido por Aristóteles na Poética.25 Assim, essa visão transcendente que tenta abarcar
no mesmo olhar um grande espaço e uma variedade de tempo, faz também com que
passemos do corpo do historiador, como realizador físico do gesto historiográfico, para o
corpo da história, como a forma própria realizada pelo gesto: “o corpo é valido, portanto,
como ‘forma do conteúdo’ da história e, ao mesmo tempo, como ‘forma de sua forma’”.26
Ou seja, na história traçada por Hartog, o longo caminho que segue de Homero a
Políbio, passando por Heródoto e Tucídides, delimita os traços gerais de um tipo de
conhecimento que acaba por se tornar um gênero discursivo e, muitos séculos depois,
uma disciplina científica institucionalizada. E neste salto forçosamente rápido, que é
também um golpe de olhar, deixamos Políbio no século II a.C. para chegarmos ao
momento de definição do conceito moderno de história, na virada do século XVIII para
o XIX, acompanhando “os vários regimes historiográficos que, desde a Antiguidade até
nossos dias, prevaleceram no que se tornou a tradição europeia”. A isso, à busca pelos
“caminhos da evidência da história”, Hartog denominou “uma arqueologia do olhar do
historiador”.27
Essa história moderna é composta pelos mais variados componentes, como as artes,
as ciências, as religiões, bem como por elementos políticos, econômicos e sociais. O
gênero ganha em consistência e em complexidade. O século XIX francês é por Hartog
acompanhado desde a geração liberal das primeiras décadas, nascida no calor da

24
HARTOG, François. “Voir depuis Rome. Polybe et la première histoire universelle”. In: Évidence de
l’histoire, op. cit., p. 102 (ed. bras., p. 107). Sobre Políbio, ver ainda o prefácio escrito para a edição Quarto
da História: HARTOG, François. “Préface”. In: POLYBE. Histoire, édition publiée sous la direction de
François Hartog. Paris: Gallimard (Quarto), 2003.
25
Ibid., p. 101 (ed. bras., p. 106).
26
Ibid., p. 102 (ed. bras., p. 107).
27
HARTOG, François. “L’oeil de l’historien et la voix de l’histoire”. In: Évidence de l’histoire, op. cit., p.
135 (ed. bras., p. 143).

11
Revolução, até os autores que atuaram na segunda metade e que presenciaram os
tumultuosos eventos do século e o advento da terceira República em 1870.28 Ao longo do
período, “colocados na fronteira do visível e do invisível, os historiadores puderam se
apresentar como os mestres da verdade, tornarem-se mestres de escola, por vezes também
provedores de cegueira e funcionários do apagamento, pretendendo-se se hoje
decifradores do presente”.29 O saber histórico converte-se, assim, em um saber disciplinar
e disciplinado, com seus lugares específicos de produção, as instituições, e seus
produtores legitimados, os historiadores, que são alçados ao posto de guardiões das
identidades sociais (a nacional antes de todas). A história, no século da história, torna-se
um saber evidente por ele mesmo, constituindo-se como um meta-conceito que a
transforma no conhecimento sobre ela própria.
E se o século XX surge trazendo, junto com os combates pela e em nome da história,
o próprio questionamento desta evidência, pensada em determinado momento como “o
produto mais perigoso que a química do intelecto já produziu”,30 o século XXI ainda traz
as marcas fortes do que é pensado por Hartog como a falência da crença no conhecimento
histórico, alimentada por um discurso sobre a crise da história que passa ser constante a
partir da década de 1980.31 Na compreensão do autor, voltando-se notadamente para o
contexto europeu e, dentro dele, para o ambiente francês em particular, uma experiência
de tempo distinta tem lugar quando o silêncio inicial do pós-guerra cede espaço para a
emergência de uma sonora voga memorialística, que parece deslocar a história de seu
pretenso monopólio de enunciação sobre o passado, dividindo o espaço do historiador
com tantos outros atores (a testemunha, o juiz, o literato, o jornalista, a vítima) cujas vozes
não cessam de dizer, de forma distinta e por vezes incômoda, outros passados. Já não
estamos mais acompanhados pela historia de Heródoto; daqui por diante, Pierre Nora e
seus lugares de memória serão as companhias privilegiadas.
Para tentar dar conta dessa situação, Hartog passa a se dedicar ao mundo
contemporâneo, a esse tempo presente que não se converte para ele em objeto de pesquisa
(ele nunca se nomeia um “historiador do tempo presente”), mas sim em pretexto para a

28
Ver sobre isso os ensaios iniciais da segunda parte de Évidence de l’histoire, op. cit., p.133-162 (ed. bras.,
p. 143-172); a primeira parte, particularmente voltada para a obra de Fustel de Coulanges de O século XIX
e a história. O caso Fustel de Coulanges [1988]. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2003, p. 31-180; e, mais
recentemente, o livro todo dedicado à vida e à obra de Ernst Renan, La nation, la religion, l’avenir. Sur les
traces d’Ernest Renan. Paris: Gallimard, 2017.
29
Ibid., p. 136 (ed. bras., p. 144).
30
VALÉRY, Paul. Regards sur le monde actuel. Paris: Gallimard, 1945, p. 35.
31
Entre os indícios mais significativos, ver NOIRIEL, Gérard. Sur la “crise” de l’histoire. Paris: Gallimard,
1996.

12
reflexão sobre o tempo.32 Trata-se de uma forma de reflexão que se desdobra em duas
preocupações fundamentais e complementares: a investigação sobre a alteridade (e as
modalidades para sua representação) e o pensamento sobre a historicidade (e os modos
pelos quais se experienciam formas temporais distintas). O outro e o tempo constituem-
se, portanto, como eixos norteadores de toda a obra do historiador francês. A história,
tornada a questão de uma vida, implica também a questão das diferenças no/do tempo,
bem como do(s) tempo(s) das diferenças.33

Alteridade e experiências de tempo


Se aceitarmos a formulação de François Hartog a respeito de sua própria trajetória,
notamos que aqueles dois eixos são constitutivos de todos os espaços em que atua. Ele
sugere três espaços em particular: a pesquisa sobre o mundo antigo e o tema das fronteiras
culturais; a investigação sobre a história da história e as múltiplas formas de escrita e de
usos do passado; finalmente, a indagação sobre os variados regimes de historicidade e
distintas experiências temporais existentes no Ocidente. Em todos eles alteridade e
temporalidade, mesmo que nem sempre enunciados claramente, funcionam como
operadores de inteligibilidade privilegiados pelo historiador.
A escrita da tese é um momento inaugurador nesse sentido, quando o espelho
colocado diante de Heródoto faz ver igualmente a imagem especular da história como um
discurso sobre o outro. O contexto dos anos 1970 foram fundamentais para isso: além da
formulação contundente de Certeau sobre a escrita da história,34 indiciam isso tanto o
“olhar distanciado” propiciado pela antropologia histórica de Vernant e pelos jogos
temporais de Vidal-Naquet, quanto as preocupações de Lévi-Strauss sobre as diferentes
temperaturas das sociedades e de Foucault sobre as margens e os marginais da história.
O espelho de Heródoto, portanto diz respeito ao gesto de

ver como os gregos da época clássica representaram para si os outros, os não-gregos, de


fazer aparecer a maneira ou as maneiras pelas quais eles praticavam a etnologia, em

32
Sobre isso, ver as considerações, tomadas com certo distanciamento da obra de Hartog, feitas por Henri
Rousso em La dernière catastrophe. L’histoire, le présent, le conteporain. Paris: Gallimard, 2012.
33
Nas palavras do autor, “as questões que não cessam de retornar são em pequeno número (a alteridade, o
tempo, a alteração do tempo e no tempo)”. HARTOG, François. La chambre de veille, op. cit., p. 46.
34
“O outro é o fantasma da historiografia [...] ‘A única pesquisa histórica do ‘sentido’ permanece, com
efeito, a do Outro’, porém, este projeto contraditório pretende ‘compreender’ e esconder com o ‘sentido’ a
alteridade deste estranho ou, o que vem a ser a mesma coisa, acalmar os mortos que ainda frequentam o
presente e oferecer-lhes túmulos escriturários”. CERTEAU, Michel de. L’écriture de l’histoire. Paris:
Gallimard, 1975, p. 8

13
resumo, de esboçar uma história da alteridade, com seu ritmo, seus tempos fortes e suas
rupturas, se for possível cercá-los de algum modo.35

Daí a ênfase em um Heródoto viajante, cuja narrativa tem por intenção realizar o
ato de tradução da diferença, tornando-a inteligível dentro dos limites do saber grego
compartilhado na época. A história do primeiro historiador é lida por Hartog, então, como
um discurso sobre o outro e, especialmente, como uma “retórica da alteridade”.
A coletânea de ensaios publicada originalmente em 1996, Memória de Ulisses.
Narrativas sobre a fronteira na Grécia antiga, situa-se exatamente sob esse registro da
fronteira, dos limites entre um e outro, entre o mesmo e o seu diferente. O que se buscava
ali eram as experiências de algumas figuras inaugurais no Ocidente, Ulisses sendo a mais
notável entre elas, que se constituíram como primeiros viajantes, espécie de
atravessadores entre o lá e o cá que Hartog aprendeu a ler, entre outros lugares, nas
páginas de Certeau sobre Jean de Léry.36 Em suas palavras,

esses viajantes inaugurais deslocam-se até as fronteiras, são eles próprios marcos de
fronteira, embora móveis. Vão e estão, por assim dizer, dos dois lados das fronteiras,
grandes ou pequenas: ao mesmo tempo dentro e fora, intermediários, barqueiros,
tradutores.37

Interessa ao historiador, assim, indagar sobre as formas pelas quais as viagens se


tornam experiências de conhecimento e os mecanismos pelos quais, no mundo antigo,
esses viajantes operavam um complexo sistema de tradução cultural que articulava aquilo
que era visto com o que poderia ser sabido, de acordo com os princípios de visibilidade
que guiavam seus olhares e dentro dos quadros epistemológicos nos quais estavam
inseridos. Por isso, Hartog afirma que não era apenas a materialidade da viagem o objeto
de suas reflexões, “mas a viagem como operador discursivo e esquema narrativo: a
viagem como olhar e como resolução de um problema – ou resposta a uma questão”.38
O que se destaca disso é que, no plano da viagem e assim como já havia sido
analisado em Heródoto no contexto da tese, o ver e o dizer, embora não totalmente
justapostos, ocupam uma posição de complementaridade nos esquemas interpretativos de

35
HARTOG, François. O espelho de Heródoto. Ensaio sobre a representação do outro [1980], op. cit., p.
37.
36
CERTEAU, Michel de. “Ethno-graphie. L’oralité, ou l’espace de l’autre: Léry”. In: L’écriture de
l’histoire, op. cit., p. 215-248.
37
HARTOG, François. “Introdução. Viajantes e homens-fronteira”. In: A memória de Ulisses. Narrativas
sobre a fronteira na Grécia antiga, op. cit., p. 15.
38
Ibid., p. 18.

14
Hartog. Experiência e linguagem funcionam como dados correlatos, e não antagônicos,
utilizados pelo autor. É possível aqui sugerir que os textos de Foucault e Certeau foram
centrais para este tipo de elaboração desde a década de 1970 e, duas décadas depois, o
contato com a obra de Reinhart Koselleck ajudou a lapidar melhor a reflexão.39
Na década seguinte à da publicação de Memória de Ulisses, outra obra traz ainda
novos elementos para se pensar as relações entre tempo e alteridade na obra de Hartog.
Em 2005 é publicado o livro Antigos, modernos, selvagens, que traz artigos e ensaios
escritos em diferentes contextos entre 1992 e 2001. Dedicada a Pierre Vidal-Naquet,
“historiador da cidade antiga e moderna”, a coletânea se debruça sobre os jogos entre
antigos e modernos, atravessados pela inesperada presença dos selvagens que passaram a
habitar a paisagem intelectual europeia desde o século XVI. O livro vinha justamente na
sequência daquela que talvez seja a obra mais conhecida de Hartog, Regimes de
historicidade. Presentismo e experiência de tempo, publicada originalmente em 2003, e
que ofereceu às reflexões sobre o tempo duas categorias que se tornaram incontornáveis
neste debate, ou seja, regime de historicidade e presentismo. Sobre elas uma atenção
maior deve aqui ser concedida.
O livro nasce, como o próprio autor reconheceu, sob o signo da viagem. Seja sua
própria viagem, quando em 1994 passou um período em Berlin e suas caminhadas pela
cidade lhe deram a impressão de uma “cidade para historiadores, onde, mais do que em
outros lugares, podia aflorar o impensado do tempo”.40 Seja a famosa viagem do Capitão
Cook pelas ilhas do Pacífico sul, no século XVIII, estudadas dois séculos depois por
Marshall Sahlins e publicadas em 1985, no livro de significativo título Ilhas da história.
Assim, acompanhando o percurso realizado por nosso historiador-viajante, é possível
perceber a forma pela qual aquelas duas categorias que versam sobre o tempo foram
sendo, elas mesmas, talhadas lentamente no tempo.41

Regimes de historicidade e presentismo

39
Em 1990 apareceu na França a tradução da obra Futuro passado e, em 1997, uma coletânea de textos do
historiador alemão intitulada L’experience de l’histoire.
40
HARTOG, François. Régimes d’historicité. Présentisme et expériences du temps. Paris: Seuil, 2003, p.
20 (ed. bras., p. 29). Ainda sobre Berlin, Hartog afirmará que “lá, mais do que em outros lugares, o tempo
era um problema, visível, tangível, ineludível. Quais relações se manter com o passado, os passados, mas
também, e fortemente, com o futuro? Sem esquecer o presente ou, inversamente, arriscando não ver mais
do que ele: como, no sentido próprio do termo, habitá-lo? O que destruir, o que conservar, o que reconstruir,
o que construir e como?”.
41
As páginas seguintes servem como complemento ao artigo que dediquei à esta parte da obra de Hartog,
publicado em 2010: NICOLAZZI, Fernando. “A história entre tempos: François Hartog e a conjuntura
historiográfica contemporânea”. In: História: Questões & Debates, n. 53, 2010.

15
Em 1983, quando ainda era professor na Universidade de Estrasburgo, Hartog
publicou na revista Annales uma breve nota crítica sobre uma conferência ministrada por
Marshall Sahlins, em dezembro do ano anterior, na American Anthropological
Association. 42 No mesmo número, Lévi-Strauss publicou seu último texto no periódico,
o segundo com o título “História e etnologia”, no qual esboçava uma pergunta
incontornável para os historiadores: “em quais condições e sob quais formas o
pensamento coletivo os indivíduos se abrem para a história?”.43 No caso de Hartog,
tratava-se do primeiro momento em que utilizou a expressão regime de historicidade, que
se tornou muitos anos depois uma das mais significativas noções para se tentar oferecer
uma resposta à indagação de Lévi-Strauss. Neste contexto, ela ainda carregava certa
imprecisão, por vezes sendo utilizada como sinônimo de história, por vezes intercambiada
pela expressão “regimes históricos”. Em certa passagem, regimes de historicidade se
referem a “ordens culturais” que entram em contato provocando quiproquós. Esta mesma
ambivalência é notada por ele em relação ao antropólogo norte-americano:

é, apesar de tudo, embaraçoso para a leitura (mas este embaraço não é, ele mesmo,
desprovido de interesse) constatar que ao longo do texto a mesma palavra ‘história’ toma
sentidos diferentes. História designa, alternativamente, o regime de historicidade (regime
heroico), as maneiras de viver e de pensar (consciência histórica), a historiografia, enfim,
europeia ou ocidental, ligada ela mesma aos nossos próprios modos de historicidade.44

A esta falta de precisão no uso do termo história pelo antropólogo Hartog dará,
não sem certa hesitação, um sentido positivo que caracterizará a sua própria construção
da categoria aqui perscrutada. Não por acaso, parte considerável do interesse de Hartog
pela conferência reside nas relações propostas por Sahlins entre acontecimento e estrutura
que, para o antropólogo, definem o sentido próprio do evento histórico e das formas pelas
quais as sociedades utilizam os condicionantes estruturais para transformar a si mesmas.45
Em 1989, mesmo ano da queda do muro de Berlin (evento significativo para
Hartog, como veremos), nosso autor publica, novamente na revista Annales, outro texto

42
HARTOG, François. “Marshall Sahlins et l’anthropologie de l’histoire”. In: Annales E.S.C., n.6, 1983.
A conferência de Sahlins, posteriormente acrescentada ao livro de 1985, era intitulada “Other times, other
customs: the anthropology of history”, apareceu originalmente em American Anthropologist, tomo 85, n.
3, 1983.
43
LÉVI-STRAUSS, Claude. “Histoire et ethnologie”. In: Annales E.S.C., n.6, 1983, p. 1218.
44
HARTOG, François. “Marshall Sahlins et l’anthropologie de l’histoire”, p. 1261.
45
A isso, Sahlins deu o nome de “mitopráxis”. Cabe lembrar que este era um debate caro à tradição
historiográfica francesa, sobretudo ligada à revista Annales, que no início da década de 1980 ainda sentia
ressoante a presença de Fernand Braudel. Além disso, é digno de nota o fato de que, em 198, no plano das
Conférences Marc Bloch, organizadas pela EHESS, Sahlins havia proferido a conferência “Supplément au
voyage de Cook, ou le calcul sauvage”.

16
sobre Sahlins. Desta vez, em texto ainda mais enxuto, Hartog resenha a tradução francesa
para o Ilhas da história, publicada naquele mesmo ano. Embora sejam algumas poucas
páginas, o que chama a atenção é que ali a expressão regime de historicidade não é
utilizada em nenhum momento. Talvez seja possível sugerir, para este período, certa
hesitação no uso e na formulação da categoria. O fato é que, em 1993, ou seja, dez anos
depois da primeira formulação, ela já ocupa uma posição central nas preocupações de
Hartog. Nessa oportunidade, o historiador seguiu acompanhado por um antropólogo,
Gérard Lenclud, na elaboração de um texto a quatro mãos sobre o que ambos entendem
por regime de historicidade. Uma prévia intitulada “Os regimes de historicidade e os
modelos de temporalidade” havia sido por eles apresentada no ano anterior em um
colóquio internacional, sem que, na opinião de Hartog, tivesse despertado o interesse de
alguém.46
A proposta de Hartog e Lenclud é tornar a noção de regime de historicidade um
instrumento compartilhado entre antropólogos e historiadores para a formulação de
problemas que envolvam a questão da temporalidade e os pontos de contatos entre as duas
disciplinas. O que é possível destacar é que neste momento ainda a dimensão da
historicidade era pensada levando em consideração sobretudo o tempo passado, ou a
maneira pela qual uma sociedade mantém relação com seu passado, enfatizando,
notadamente, a abertura desta discussão para o espaço público:

“É suficiente observar, para nossa proposta, que se a significação da relação mantida por
uma sociedade com seu passado deve ser procurada, através do fio da sua consciência de
si, na história vivida (agida), a expressão de regime de historicidade é introduzida para
religar indissociavelmente imagem subjetiva do sujeito histórico e estado ‘objetivo’ de
existência nas circunstâncias temporais [...] a expressão de regime de historicidade
designará, então, a modalidade de consciência de si de uma comunidade humana [...] Deste
ponto de vista, uma discussão sobre os regimes de historicidade abre diretamente sobre
aquela que tratará do ‘espaço público e dos lugares do político’”.47

Assim, considerando que para Hartog esta será uma categoria propícia para se
lidar com momentos de crise nas formas pelas quais o tempo é experienciado, não é

46
Em entrevista posterior, Hartog reconhecerá isso chamando a atenção para o fato de que a pessoa
encarregada de comentar a apresentação resolveu falar sobre outros assuntos e sequer comentou sobre a
categoria. A pessoa era o historiador Carlo Ginzburg, que em 1984, num apêndice à tradução italiana do
livro O retorno de Martin Guerre, havia feito duras críticas à interpretação oferecida por Hartog em sua
tese sobre Heródoto. Ver GINZBURG, Carlo. “Provas e possibilidades”. In: O fio e os rastros. Verdadeiro,
falso, fictício. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
47
HARTOG, François; LENCLUD, Gérard. “Régimes d’historicité”. In: DUTU, Alexandre; DODILLE,
Norbert (textes réunis par). L’état des lieux en sciences sociales. Paris: L’Harmattan, 1993, p. 28-29.

17
despropositado sugerir que a própria historiografia é pensada em suas formas de
intervenção pública. Daí a correlação estabelecida pelos autores entre duas noções que,
embora muito próximas, não se justapõem plenamente: regimes de historicidade e
regimes historiográficos. A colocação é feita, então, na forma de um questionamento:

“O regime de historicidade definiria uma forma culturalmente delimitada, convencional


então, de relação com o passado; a historiografia seria uma destas formas e, enquanto
gênero, um elemento sintomático de um regime de historicidade englobante [...] A
diversidade de regimes historiográficos ocidentais, supondo que de fato existam, traduziria
diretamente uma pluralidade de relações social e culturalmente determinadas com o
passado?”.48

A ideia de variados regimes historiográficos que se relacionam com experiências


variadas de tempo, ideia bastante rica e promissora de significados teóricos, no entanto,
não foi objeto de uma reflexão mais detalhada por parte de Hartog. Gérard Lenclud chega
a mencionar uma de suas variantes (“regimes de historiografia”) em um denso artigo
sobre a obra de Hartog, mas ela permanece ainda carecendo de desdobramentos mais
aprofundados.49 De todo modo, não há como recusar a importância da indagação sobre as
relações entre regimes de historicidade e regimes historiográficos em diferentes
contextos, o que significa perguntar sobre as relações entre experiências de tempo e
formas de escrita da história: até que ponto e como as primeiras delimitam e prescrevem
as segundas? Adiantando um questionamento que será central na obra de Hartog dali em
diante, que historiografia é possível ou mesmo desejável em um contexto presentista?
O texto escrito em conjunto com Lenclud abriu para Hartog uma dimensão
importante em sua obra, criando condições para que seu olhar inquiridor, e o próprio gesto
historiográfico que a ele se liga, pudesse se voltar cada vez mais para a situação
contemporânea da história. Um evento histórico e uma obra historiográfica foram, sem
dúvidas, centrais para isso. Em primeiro lugar a obra. Em 1984 Pierre Nora inicia a
publicação dos três tomos da obra Os lugares de memória, que se estenderá até a
divulgação do sétimo e último volume, em 1993. Escrita sob o signo da “aceleração da
história” e das transformações por que passou a sociedade francesa no século XX (do
predomínio rural ao mundo urbano), Nora estabelece um diagnóstico destinado a ter

48
Ibid., p. 26-27.
49
LENCLUD, Gérard. “Traversées dans le temps”. In: Annales HSS, n. 5, 2006. Tentei explorar as
possibilidades de uso da noção, ainda que de forma bastante limitada e pontual, em NICOLAZZI, Fernando.
“A história e seus passados: regimes historiográficos e escrita da história”. In: BENTIVOGLIO, Julio;
NASCIMENTO, Bruno César (orgs.). Escrever história. Historiadores e historiografia brasileira nos
séculos XIX e XX. Vitória: Editora Milfontes, 2017.

18
repercussões que ultrapassaram o contexto francês: a história, a partir da segunda metade
do século XX, seria escrita sob a sombra do predomínio da memória, pensada como
antagônica a ela, e da imponência da do contemporâneo, tornando o tempo presente
preponderante ao passado. Nas suas palavras, “é o modo mesmo da percepção histórica
que, com a ajuda da mídia, dilatou-se prodigiosamente, substituindo uma memória
dobrada sobre a herança da sua própria intimidade a película efêmera da atualidade”.50
A obra serve a Hartog em um duplo sentido. Ela é tanto o indício de uma nova
modalidade de escrita da história nacional, elabora agora a partir dessa noção pouco
precisa de “lugares de memória”, quanto o produto de uma outra experiência de tempo
que não mais obedece aos padrões do regime moderno de historicidade. Tal posição
aparece em um texto publicado originalmente em 1995 na revista Annales, em uma seção
significativamente intitulada “O tempo desorientado”. Trata-se de um texto fundamental
neste retrospecto aqui esboçado, pois é onde Hartog oferece os contornos mais explícitos
para a categoria de regime de historicidade, articulando-a pela primeira vez à noção de
presentismo. A primeira categoria é definida ali, então, como “uma formulação erudita
(savante) da experiência do tempo que, em retorno, modela nossas maneiras de dizer e de
viver nosso próprio tempo”. Em seguida, o autor complementa: “um regime de
historicidade abre e circunscreve um espaço de trabalho e de pensamento. Ele ritma a
escrita do tempo, representa uma ‘ordem’ do tempo à qual se pode subscrever ou, ao
contrário (e mais frequentemente), querer escapar, procurando elaborar uma outra”.51
Trata-se, portanto, de uma categoria heurística pensado com o intuito de tornar
inteligíveis as formas pelas quais as sociedades se relacionam com o tempo, sobretudo
em tempos de crise ou de desorientação temporal. É neste ponto que assume centralidade
o mencionado evento histórico que emerge concomitante à obra de Pierre Nora já referida.
Entre a publicação do primeiro e do último volume de Os lugares de memória, a queda
do muro de Berlim em 1989 ocupou uma posição central para a compreensão do
contemporâneo e da própria história. Momento em que, inclusive, diagnósticos pouco
fundamentados, mas com ampla ressonância, atestaram o “fim da história”. Para Hartog,
o ano de 1989 serve como marco cronológico importante, que lhe permite recortar a

50
NORA, Pierra. “Entre Mémoire et Histoire. La problématique des lieux” [1984]. In: NORA, Pierre (sous
la direction de). Les lieux de mémoire, I. Paris: Gallimard (Quarto), 1997, p. 24.
51
HARTOG, François. “Temps et histoire. Comment écrire l’histoire de France?”. In: Annales HSS, n. 6,
1995, p. 1220 (o artigo foi traduzido para o português e publicado em Anos 90, n. 7, 1997. A citação conta
ali na p. 8).

19
distinção entre dois regimes de historicidade, o moderno que já mostrava há algum tempo
sinais de esgotamento, e um outro, nomeado por ele como presentismo.
Se a modernidade foi vivida como um contexto cuja referência temporal
preponderante era o futuro, condicionando uma perspectiva histórica em que o tempo,
como sujeito dele mesmo, era representado como uma linha que, de forma processual e
progressiva, encaminharia a humanidade para um tempo vindouro sempre melhor e mais
desenvolvido que o passado (o trem da história), o último quartel do século XX dilacerou
as fendas, ou brechas, que já apareciam nessa estrutura de pensamento desde o ambiente
das duas grandes guerras no início do século. A isso, Krzysztof Pomian, referência
importante para Hartog, chamou já em 1980 de “crise do futuro”.52 Tal a desordem do
tempo que se manifestava naquele contexto que, no mesmo ano em que se publicava o
último livro da coletânea organizada por Nora, Claude Lévi-Strauss, outro autor
imprescindível para se compreender a obra de Hartog, achou relevante rever sua famosa
distinção temporal entre sociedades frias e quentes para sugerir que, desprovidas da
capacidade de projeção de futuro, as outrora sociedades quentes passavam por um
processo intenso de resfriamento.53
Para Hartog, apoiado sobretudo em referências literárias, a crise do regime
moderno de historicidade trazia para o primeiro plano uma nova experiência de tempo
que tinha no presente seu principal ponto de referência. O presentismo é, para ele, um
regime de historicidade em que o presente funciona “para si mesmo, [como] seu próprio
horizonte. Sem futuro e sem passado, ou gerando, quase diariamente, o passado e o futuro
de que necessita quotidianamente”.54 No contexto mais amplo da obra do autor, portanto,
regime de historicidade e presentismo passaram a habitar a mesma rede semântica que
caracteriza hoje as principais formas de apropriação dessa obra. O que cabe destacar é o
processo que aqui se tentou reconstituir a passos largos: a ideia de presentismo, como
categoria precisa para se analisar um contexto histórico específico – aquele que grosso
modo se consolida em 1989 – só se tornou pensável quando havia já uma categoria
bastante mais vasta e flexível como a de regime de historicidade, cujas possibilidades de
uso são variadas no sentido de se articular uma reflexão sobre alteridades e
temporalidades. O momento culminante disso, vinte anos depois de iniciado o percurso,
é a publicação da obra Regimes de historicidade. Presentismo e experiência de tempo.

52
POMIAN, Krzysztof. “La crise de l’avenir”. In: Le Débat, n. 7, 1980.
53
LÉVI-STRAUSS, Claude. “Un autre regard”. In: L’Homme, n.126-128, 1993.
54
HARTOG, François. “Temps et histoire. Comment écrire l’histoire de France?”, op. cit., p. 1224 (ed.
bras. p. 13).

20
O livro de 2003, uma coletânea organizada em duas partes intituladas “Ordem do
tempo 1” e “Ordem do tempo 2”, com cinco capítulos que seguem desde as ilhas da
história de Marshall Sahlins e o regime heroico de historicidade, passando por Ulisses,
Santo Agostinho e Chateaubriand (primeira parte), até o momento presentista do século
XX com a voga memorialista e seu corolário patrimonial e identitário. A introdução
apresenta a maneira pela qual Hartog compreende as duas noções principais e o livro se
encerra com uma reflexão sobre a dimensão ética e política do presentismo.55 Uma
segunda edição foi publicada em 2012, onde Hartog acrescenta um prefácio no qual
responde parcialmente as críticas recebidas e busca precisar melhor o uso das categorias,
reforçando sua pertinência após a crise mundial de 2008. Esta edição foi traduzida para o
português, possibilitando uma difusão mais ampla da obra que já era bastante conhecida
no contexto brasileiro e alimentando um debate feito de aproximações e distanciamentos
em relação à perspectiva do autor.56
Regimes de historicidade e presentismo, portanto, fazem parte daquele referido
esforço de se elaborar uma historiografia epistemológica, atenta a conceitos e contextos,
e contribuindo para o pensar e o repensar a prática historiográfica e sua relação com as
formas de experiência de tempo. Mais do que isso, são instrumentos teóricos importantes
que alimentam um debate em torno das diferentes compreensões de temporalidade,
situando-se plenamente na perspectiva em que o tempo e o outro fazem parte de uma
mesma reflexão intelectual. Uma reflexão que, em grande medida, traz para o primeiro
plano as condições para se fundamentar, hoje, a legitimidade do conhecimento histórico
em outras bases, questionando, sobretudo, os fundamentos atuais que sustentam a crença
na história.

55
Não há espaço nos limites deste texto para retomar as consequências da reflexão e as críticas recebidas
pelo autor, por isso remeto ao texto anterior onde menciono e comento algumas delas, NICOLAZZI,
Fernando. “A história entre tempos: François Hartog e a conjuntura historiográfica contemporânea”, op.
cit.
56
Apenas para citar alguns poucos casos recentes e significativos: a produção historiográfica de
Temístocles Cezar, cujo doutorado foi feito sob supervisão de Hartog entre 1998 e 2001, é um exemplo de
um uso livre, mas reflexivo, das categorias e formas de abordagem do historiador francês no Brasil. Em
2015, João Paulo Pimenta publica uma resenha da tradução brasileira em que questiona criticamente suas
bases teóricas e empíricas (Revista de História, n. 172, 2015). No ano seguinte, Francie Iegelski dedica um
capítulo importante de seu livro sobre Lévi-Strauss ao tema da experiência de tempo, onde Hartog ocupa
posição central (A astronomia das constelações humanas. Reflexões sobre Claude Lévi-Strauss e a história.
São Paulo: Humanitas, 2016). Finalmente, procurando adentrar no debate a partir do desenvolvimento da
noção de “atualismo”, Mateus Henrique de Faria Pereira e Valdei Lopes de Araujo discutem a abordagem
de Hartog enquanto uma “sintomatologia do contemporâneo”, apontando as consequências e os limites
dessa abordagem, bem como sua pertinência de uso para contextos não europeus (“Reconfigurações do
tempo histórico: presentismo, atualismo e solidão na modernidade digital”. In: Revisa da UFMG, vol. 23,
n. 1 e 2, 2016.

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A inquietude da história
As considerações propostas por François Hartog a respeito do tempo histórico e
da experiência temporal contemporânea o conduzem a uma percepção aguda sobre o
estatuto atual da historiografia: “ainda cremos em História?”, indaga-se ele em seu livro
Crer em história, publicado originalmente em 2013, ou seja, dez anos após a obra
destinada aos regimes de historicidade e à experiência presentista do tempo.57 No fundo,
a indagação sobre a crença na história e a interpretação de como a temporalidade é
experienciada contemporaneamente podem ser encarados como correlatas de uma mesma
intenção: pensar formas propícias para se habitar o tempo, buscando outras modalidades
de articulação entre experiências passadas e expectativas de futuro, bem como formas
variadas para se representar esta articulação.
Se hoje é possível de se realizar, em uma mesma obra, tanto o questionamento
sobre a falência na crença na história quanto a indagação a respeito da perda de sua
evidência, é porque o próprio estatuto desta forma de saber se transformou. Podemos
falar, talvez, em um profundo deslocamento do olhar que determina as condições
propícias para a realização do gesto historiográfico. Pois em Hartog, tanto a crença na
história quanto sua evidência estão intimamente conectadas aos olhos e, mais
profundamente, à experiência do olhar. Isso traz para o primeiro plano, novamente, a
dimensão corpórea do gesto. Em um contexto presentista, em que o peso da atualidade se
impõe e o olhar, enquanto ato físico, é sempre filtrado pelas múltiplas camadas de
opacidade que as virtualidades digitais nos colocam, que tipo de experiência demanda ser
vista e que tipo de história pode ou deve ser escrita?
Assim, não deixa de ser correlata à pergunta sobre a crença na história uma outra
pergunta, que havia sido por ele colocada alguns anos antes: “o que ver quando se pode
tudo ver?”.58 Ver o tempo, portanto, equivale para Hartog a torná-lo habitável, um pouco
na esteira do que Paul Ricoeur colocou em suas reflexões filosóficas sobre tempo e
espaço:

“Certamente, meu lugar é lá onde está meu corpo. Mas se colocar e se deslocar são
atividades primordiais que fazem do lugar algo a ser procurado. Seria assustador não
encontrá-lo. Nós estaríamos devastados. A inquietante estranheza ligada ao sentimento de
não estar em seu lugar, mesmo em sua própria casa, nos assombra, e isso seria o reinado
do vazio. Mas existe uma questão do lugar porque o espaço tampouco está cheio, saturado.
57
HARTOG, François. Croire en l’histoire, op. cit., p. 9 (ed. bras., p. 9).
58
HARTOG, François. Évidence de l’histoire, op. cit., p. 15 (ed. bras. p. 16).

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Para dizer a verdade, é sempre possível, e frequentemente urgente, deslocar-se, com risco
de ser esse passageiro, esse caminheiro (randonneur), esse flanêur, esse errante que a
cultura contemporânea estilhaçada põe em movimento e ao mesmo tempo paralisa”.59

Tão assustador, então, como é a situação de perder de vista o lugar que se procura
para habitar o corpo, é não enxergar senão ele, encerrando o corpo e o olhar nos limites,
por vezes demasiadamente estreitos, que o próprio lugar nos coloca. Daí as possibilidades
de se encarar a história pelo viés da estranheza que ela proporciona, pela inquietude
mesma que ela alimenta. Nas palavras de Hartog, “esta palavra inquietude, no sentido
primeiro, inquies, aquele que não pode permanecer em repouso, imóvel, ao contrário
daquele que adormece, se instala na disciplina e suas rotinas, onde a curiosidade baixa e
a vigilância se enfraquece”. 60 Inquieto, vigilante, talvez mesmo um pouco
“indisciplinado”,61 o historiador pode ser pensado, a partir desta leitura aqui proposta,
como aquele em constante deslocamento, no vai e vem entre o lá e o cá, cruzando limites
entre espaços e atravessando fronteiras do saber. De todo modo, sempre como esta figura
diante do espelho da história, situada entre o outro e o tempo.

59
RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire, l’oubli. Paris: Gallimard, 2000, p. 185.
60
HARTOG, François. La chambre de veille, op. cit., p. 203-204.
61
Remeto aqui, embora tenham sido pensadas a partir de outras referências, às pertinentes provocações de
AVILA, Arthur Lima de. “Indisciplinando a historiografia: do passado histórico ao passado prático, da crise
à crítica”. In: Revista Maracanan, n. 18, 2018.

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