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Publicações da

Conferência de Economistas
Socialistas

PROCESSO DE TRABALHO
E ESTRATÉGIAS DE CLASSE
Colaboradores
Mario Tronti
Raniero Panzieri
Sergio Bologna
Alfred Sohn-Rethel
Christian Palloix
�, Aprese.ntação da edição brasjieira
FABIO STEFANO ERBER·:
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Tradução:
WALTENSIR DuTRA

Revisão de texto:
SÉRGIO TADEU DE NrnMAYER LAMARÃo
mestrando da COPPE-UFRJ e pesquisador do
Centro de Pesquisa e Documentação, FGV

Revisão Técnica:
GEORGES E. KORNIS
mestre em economia pela UNICAMP
e pesquisador econômico do JsGE

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BIBLIOTECA DE CI!NCIAS SOCIAIS


Economia

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Publicações da
Conferência de Economistas
Socialistas

PROCESSO DE TRABALHO
E ESTRATÉGIAS DE CLASSE
r
Colaboradores:
Mario Tronti
Raniero Panzieri
Sergio Bologna
Alfred Sohn-Rethel
Christian Palloix
Apresentação da edição brasileira
FABIO STEFANO ERBER
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Tombo: 23967

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Rio de Janeiro
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Título original: The Labour Process & Class Strate,gies

Traduzido da primeira edição inglesa, de 1976,


publicada e distribuída para a Conferência de Economistas
Socíalistas por Stage 1, Londres, Inglaterra.

Copyright © 1976 by The Conference of Socialist Economists


Ali rights reserved

Di;reitos reservados.
Ai reprodução não autorizada desta publicação,
no todo ou em parte, constitui violação do copyright (Lei 5.988)

Cana: ÉR1co
DEDALUS - Acervo - FFLCH-FIL
335.4 Processo de trabalho e estrategias de classe.

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1982

Direitos para a língua portuguesa adquiridos por

1
ZAHAR EDITORES S. A.
C. P. 207 (ZC-00) Rio de Janeiro
que se reservam a propriedade desta versão

Impresso no Brasil
1
[1 A Importância do Estudo do
Processo de Trabalho - Uma Introdução*
li
( FABIO STEFANO ERBER
Doutor em Economia pela Universidade de Sussex, Inglaterra
Pesquisador e Professor do Instituto de Economia da UFRJ

Os ensaios apresentados neste livro têm nas obras de Marx sua


principal fonte de inspiração. Embora um leitor de Marx não
possa deixar de ter sua atenção despertada pela minúcia com que
trata de detalhes técnicos, notadamente aqueles pertinentes à or­
ganização do trabalho, das relações que se estabelecem entre os
trabalhadores, destes com as máquinas e com os patrões, a impor­
tância desses aspectos para o esquema analítico de Marx passou
freqüentemente desapercebida até que o recente renascimento dos
estudos sobre o processo de trabalho viesse a colocá-los novamente,
em foco.
O descaso pela tecnologia e pelo processo de trabalho não
p<je ser imputado ao próprio Marx. Ao contrário, em inúmeras
ooras, como decorrência de suas posições filosóficas mais gerais,
ele enfatiza a importância do estudo do progresso técnico pois "a
tecnologia revela o modo como o homem lida com a natureza, o
processo de produção pelo qual ele sustenta sua vida e, assim,
põe a nu o modo de formação de suas relações sociais e das idéias

• Este artigo tem por base as discussões do Grupo de Estudos do Pro­


cesso de Trabalho (José Ricardo Tauile, Liliana Acero, Maria Valéria
Junho Pena, Paulo Vieira da Cunha, Vera Maria Cândido Pereira e o
autor) e o documento que preparamos em 1980 para o VIII Encontro
Nacional de Economia, "O estudo do processo de trabalho: notas para
discussão", publicado mais tarde em Literatura Econômica, vai. 3, n.0 2,
março/abril de 1981. Hubert Schmitz, José Ricardo Tauile e Paulo Vieira
da Cunha fizeram valiosos comentários a urna versão preliminar deste
li trabalho. Nenhuma das pessoas acima mencionadas tem, no entanto, res­
ponsabilidade pelo que segue.

i
APRESENTAÇÃO

que fluem destas" . 1 A tecnologia, para Marx, não apenas medeia


a relação entre o homem e o mundo externo mas é o centro da­
quelas atividades especificamente humanas, pelas quais "o homem,
ao agir sobre o mundo exterior, modificando-o, ao mesmo tempo
modifica sua própria. natureza". 2
No mesmo parágrafo do qual a última citação foi retirada,
Marx lamentava a inexistência de uma história dos "órgãos pro­
dutivos do homem", de uma história da tecnologia semelhante
àquela feita por Darwin para a "tecnologia da Natureza". No en­
tanto, a sua própria obra constitui uma importante contribuição
a esse trabalho histórico, especialmente sua análise da manufatura
e da passagem desta à grande indústria, em que destaca as modifi­
cações ocorridas no processo de trabalho, cujas principais etapas
podem ser sintetizadas em:
1) a subordinação de grande número de trabalhadores a um ca­
pitalista, sem alterar os meios de produção anteriormente utiliza­
dos e mantendo o controle da técnica de produção nas mãos dos
trabalhadores, quer seja na forma de putting out quer seja reu­
nindo os trabalhadores no mesmo local de trabalho;
2) o processo de trabalho passa a ser subdividido e as tarefas
individuais simplificadas e sistematizadas, ao mesmo tempo que
desenvolvem-se instrumentos especiais para cada operação;
3) finalmente, os instrumentos manuais são substituídos por
máquinas ( mais tarde também fabricadas por meio de outras má­
quinas}, que vão servir de elemento organizador da produção,
transformando o trabalhador num "apêndice e servidor da má­
quina".
Este movimento não se dá, como assinala Marx e o confir­
mam estudos setoriais posteriores, sincronicamente em todas as
indústrias nem nas demais atWidades. Não obstante, para Marx
o tipo de organização do trabalho característico do estágio da
grande indústria constitui a forma específica e adequada ao modo
de produção capitalista que, ao mesmo tempo o distingue dos
precedentes e funda seu desenvolvimento e suas contradições.
Com efeito, para Marx, não é qualquer tecnologia que serve
ao modo de produção capitalista - este é caracterizado por "um
modo de produção tecnológico bem específico, que transforma a
natureza e as condições de trabalho. . . De um lado, constituído

1 K. Marx, Le Capital, vol. I, cap. XV, p. 915, in K. Marx, Oeuvres,


Biblioth.eque de La Plêiade, vol. I, Editions Gallimard, Paris, 1963.
2 Ibidem.

ii

...... --·--------------------------
APRESEN1'AÇÃO

na sua especificidade, o modo de produção capitalista cria um


novo tipo de produção material; de outro lado esta transformação
material constitui a base do desenvolvimento do sistema capita­
lista, cuja forma adequada corresponde, conseqüentemente, a um
nível determinado de crescimento das forças produtivas do tra­
balho''. 3
Dentro da fábrica, das unidades de produção, esta especificida­
de é vista por Marx sob vários aspectos. Nos meios de produção
utilizados ( máquinas e matérias-primas), cuja tendência é aumentar
seu desempenho ( potência, velocidade, precisão etc.), sua dimensão
unitária e a quantidade utilizada em conjunto, tendendo a elevar
a participação do capital constante no capital total, apesar das eco­
nomias de escala no uso desse capital constante. Nas relações
entre homens e máquinas no processo produtivo, em que os pri­
meiros têm que se adaptar às condições de trabalho das segundas,
intensificando o ritmo de trabalho e reduzindo os períodos ociosos
( a "porosidade") do tempo de trabalho, adaptação justificada por
uma lógica técnica que encobre os aspectos de exploração e do­
minação dos trabalhadores. Nas relações entre os trabalhadores no
processo produtivo, em que o trabalho individual é absorvido pelo
trabalho coletivo, pela divisão e simplificação de tarefas e pela
produção em larga escala, ao mesmo tempo em que novas pro­
fissões são criadas e outras são "requalificadas". A divisão entre
trabalho manual e intelectual, mais precisamente entre as tarefas
de execução e concepção, torna-se mais profunda, concentrando-se
o trabalho "mental" nas mãos de técnicos, que passam a fazer­
uso sistemático de conhecimentos científicos, e relegando os traba­
lhadores às tarefas manuais e de execução. Ao mesmo tempo
acentua-se o controle hierárquico do processo de trabalho, em que
não só as tarefas e sua distribuição são rigidamente definidas,
como sua execução severamente controlada por administradores
profissionais. Em conseqüência, as relações entre trabalhadores e
capitalistas são profundamente alteradas, passando o processo de
acumulação capitalista a contar mais com a mais-valia relativa, fruto
da intensificação do ritmo de trabalho, do que com a mais-valia
absoluta, resultado da extensão da jornada de trabalho, transfor-
,, mando assim a subordinação formal dos trabalhadores, caracterís­
tica dos estágios anteriores, em subordinação real, típica do ca­
pitalismo maduro.
As características do processo de trabalho têm r epercussões
além dos limites da unidade produtiva, presentes, politicamente,
3 K. Marx:, Matédau:x pour L'Économie, p. 379, in K. Marx, Oeuvres.
Bibliotheque de La Pléiade, vol. II, Editions Gallimard, Paris, 1968.
iii
APRESENTAÇÃO

no fetichismo das mercadorias e das máquinas e na consciência da


classe trabalhadora. Do ponto de vista econômico, irão afetar as
relações entre empresas dentro do mesmo ramo, elevando a escala
mínima de produção e eliminando ou marginalizando a produção ar­
tesanal e manufatureira; bem como as relações entre indústrias,
sujeitando um número cada vez maior de setores à lógica da grande
indústría.
Assim, a análise do processo de trabalho é uma passagem
obrigatória na construção do esquema teórico que Marx desen­
volve para distinguir o modo de produção capitalista de outros
modos anteriores e subseqüentes bem como para analisar a sua
dinâmica, uma demarche que se reflete nos ensaios de Panzieri e
Palloix a seguir reproduzidos.
Marx, é bom lembrar, não foi o único entre os economistas
clássicos a destacar a importância do processo de trabalho. Entre
seus predecessores, Smith confere à divisão de trabalho um pa­
pel fundamental na explicação da riqueza das nações, começando
por ela seu famoso livro. No entanto, ao contrário de Marx, e
abrindo uma tradição que iria perpetuar-se entre os economistas
"burgueses", Smith não via essa divisão pela ótica do valor e
destacava apenas os aspectos técnico-econômicos que levavam ao
aumento da produtividade, omitindo suas conseqüências políticas,
que implicavam a subordinação dos operários aos patrões. Dessa
lacuna não se pode acusar, porém, Ure, que, celebrando em 1835
a introdução de uma máquina têxtil que eliminara a "opressão
dos fiandeiros sobre os patrões", concluía que "esta invenção con­
firma a grande doutrina já proposta que, quando o Capital en­
lista a Ciência a seu serviço, à refratária mão do Trabalho será
ensinada docilidade". 4
Escrevendo à mesma época, Babbage ( hoje talvez mais co­
nhecido por suas tentativas de fazer uma máquina de calcular,
a precursora dos computadores) mostrava que a divisão do tra­
balho podia ser aplicada também ao trabalho intelectual, com as
mesmas economias de tempo, características da divisão de tra­
balho manual. Esta, argumentava Babbage, tivera um de seus
principais aspectos descuidado por Smith e outros predecessores:
dividindo e simplificando as tarefas que cada trabalhador exe­
cutava, o capitalista evitava pagar a um trabalhador qualificado
por tarefas simples que podiam ser executadas por um operário

4 A. Ure, The Philosophy of Manufactures, 1835', citado in D. Dickson,


Alternatíve Technology, Fontana Books, Londres, 1974.

iv
APRESENTAÇÃO

menos qualificado, reduzindo assim seus custos e adquirindo ape­


nas a força de trabalho necessária. 5
Considerando essa egrégia árvore genealógica, é surpreen­
dente que o estudo do processo de trabalho tenha sido descurado
por tanto tempo. Já foi sugerido, por Rosenberg 6 , que o descaso
dos economistas pela tecnologia seria devido a uma ambição de
status intelectual - desejosos de serem considerados "cientistas",
os economistas relutariam em conviver com os engenheiros, cuio
"cachet" intelectual seria menor. Além disso, o estudo do pro­
cesso de trabalho requer familiaridade com um infindável número
de detalhes técnicos que o próprio Marx, ao seguir aplicadamente
cursos de mecânica para operários, confidenciava a Engels achar
muito difícil de dominar. Mesmo assim, é provável que esse
descaso tenha sido, acima de tudo, causado pelo longo predo­
mínio do paradigma neoclássico, onde o progresso técnico erai
um dado para a empresa e a sociedade, que escolheriam entre as
técnicas disponíveis as mais apropriadas ao sistema de preços
vigente, segundo critérios de racionalidade técnico-econômica des­
tituída de considerações políticas.
Essa visão não seria abalada sequer pelo interesse recente,
no segundo após-guerra, pelos problemas de in:::vação e difusão
de técnicas, explicados pela concorrência interc::ipitalista e pela
intervenção do Estado, entrando os trabalhadores apenas como
receptores e instrumentos desses processos de transformação téc­
nica. Da mesma forma, a análise dos efeitos do progresso técnico
sobre a quantidade e o tipo de empregos, embora tivesse uma
longa tradição que remonta, pelo menos, a Ricardo, tão pouco
considerava que esses efeitos poderiam ser fruto de uma neces­
sidade de controlar a mão-de-obra tão importante quanto a de
aumentar sua produtividade, servindo, inclusive, uma à outra.
Os sociólogos também estudaram pouco o processo de tra­
balho, embora mais que os economistas. Com freqüência ou ne­
garam pura e simplesmente a noção de classe, reduzindo os tra­
balhadores à sua condição individual, especialmente como consu­
midores, ou adotaram uma concepção global de classe, conside­
rada como uma realidade em si, independente das condições con­
cretas de produção. No entanto, corno mostra o ensaio de Bo-

6 C. Babbage, On the Economy of Machinery and Manufactures, 1835.


in H. Braverman; Trabalho e Capital Monopolista, Zahar, Rio, 1977.
� N. Rosenberg, "Problems in the Economist's Conceptualization of
Technological Innovation" in N. Rosenberg, Perspectives on Technology:
Cambridge University Press, Londres, 1976.

V
, ....... - -

APRESENTAÇÃO

logna a seguir publicado, as condições de produção têm um papel


crucial a desempenhar no processo de organização da classe tra­
balhadora, na sua diferenciação interna e na sua estratégia de luta.
Paradigmas teóricos como o neoclássico excluíam do seu cam­
po de indagações os problemas do processo de trabalho, mas como
explicar o abandono do tema por aqueles que se pautavam por
um paradigma que, ao contrário, requeria seu exame: os mar­
xistas? A explicação levantada por Sweezy7 - de que a brilhante
análise de Marx intimidava seus seguidores, além de "quase" es­
gotar o tema - parece pouco convincente quando se pensa na
quantidade de tinta escolástica vertida por autores ma rxistas em
torno de outros temas. Mais provável é que o entusiasmo de
Lênin e outros dirigentes soviéticos pelas técnicas e métodos de
,gestão ocidentais ( especialmente o Taylorismo) tenham contri­
buído a inibir a análise do processo de trabalho nos dois lados.
Com efeito, é em torno da crítica aos processos de trabalho na
Europa Oriental que Bettelheim8 e outros iriam mais tarde mon­
tar sua denúncia do caráter capitalista daqueles regimes, levan­
tando uma vez mais a difícil questão da neutralidade política
da técnica e do seu papel em sociedades em transição.
Se os cientistas sociais por longo tempo não deram atenção
ao estudo do processo de trabalho, o mesmo não ocorreu, natu­
ralmente, entre os que estavam diretamente envolvidos nele: de
um lado administradores de empresas ( aí incluídos psicólogos e
sociólogos) e engenheiros e, de outro, os trabalhadores.
O enfrentamento cotidiano entre operários e administrado­
res, traduzido muitas vezes em movimentos de resistência explí­
cita às pressões do processo de trabalho capitalista e outras vezes
em reações como sabotagem e absenteísmo, levaram a uma grande
modificação na teórÍa da administração, cujos métodos de con­
trole passaram, em algumas indústrias, da brutal explicitude da
administração científica de Taylor, para quem era útil que o tra­
balhador tivesse "a inteligência de um boi » , aos métodos mais
indiretos e "humanos » da "escola de relações humanas" e da
"tecnologia de grupo".
Embora os métodos mais modernos mantivessem inalterado o
,controle do processo de trabalho nas mãos do capital, prometiam
'( e com freqüência alcançavam) uma redução dos atritos no seio
da produção. A isso sc0mou-se, nos países capitalistas centrais, uma

7 No prefácio ao livro de H. Braverman, op. cit.


·8 C. Bettelheim, Calcul économique et formes de proprieté, François Mas·
:J>ero, Paris, 1971.

vi
APRESENTAÇÃO

elevação da renda real dos trabalhadores e uma estratégia sin­


dical orientada primordialmente para aumentos salariais e a trans­
ferência para a periferia de muitos dos piores processos de tra­
balho, como a montagem de produtos eletrônicos. Assim, para
algu ns autores dos países centrais, a combinação do "welfare
state" com a "soulfull corporation" prefigu rava uma sociedad<;
"pós-industríal '', sem conflitos de classe.
Os movimentos de 1968 viriam a demonstrar quão ilusória,
era essa paz, assinalando a insatisfação generalízada com as con­
dições de trabalho no seio do capitalismo, inclusive pela denún-.
eia da "proletarização" do trabalho intelectual e das profissões
liberais e pela perda relativa de controle dos sindicatos sobre
as massas operárias. A crise dos anos setenta, com o seu <lesem·
prego, viria a pôr uma pá de cal sobre esse discurso.
No bojo do questionamento do capitalismo e suas institui:..
ções ( aí incluídos as burocracias sindicais e os partidos) viu-se:,
nos países centrais, um revigoramento do interesse pelo marxis­
mo e, mais especificamente, o despertar do estudo do processo
de trabalho. Esse estudo, alimentado na Itália por profundas
divergências na esquerda quanto à estratégia política a ser segui­
da ( Panzieri e Bologna, autores de dois dos ensaios a seguir,
estiveram associados a publicações que se opunham à linha do
PCI), nos países de língua inglesa foi muito estimulado pela
publicação em 1974, nos Estados Unidos, do livro de Braverman,
Trabalho e capital monopolista9 , e, na Inglaterra, pela atividade
da Conferência de Economistas Socialistas, responsável pela or­
ganização original do presente volume, entre outros.
No entanto, ao retomar a rica tradição marxista num con­
texto econômico e político substancialmente diferente daquele
vigente à época de Marx, esta literatura confronta-se com pro­
blemas teóricos importantes, cujas implicações políticas e econô­
micas são relevantes. A título de exemplo, indaga-se se as carac­
terísticas do processo de trabalho capitalista, tal como Marx o
estudou, notadamente a divisão entre trabalho manual e inte­
lectual, a tendência à simplificação de tarefas e o controle hie­
rárquico da produção, ainda permanecem ou haveria um "quarto
estágio" na organização do trabalho que, preservando as carac­
terísticas capitalistas, representasse uma nova forma de processo
de trabalho, "específica" e "adequada" ao capitalismo atual, ca­
racterizado pela produção oligopolista e pela internacionaliza­
ção da produção industrial? Que implicações têm para o processo

11 Op. cit.

vii

--- ----------------
r-..�- --·-

APRESENTAÇÃO

de trabalho - e através deste para outras dimensões do desen­


volvimento capitalista - as modificações em curso da base téc­
nica do sistema, notadamente o progresso da indústria eletrô­
nioo, que já rompeu o vínculo anteriormente existente entre au­
tomação e produção em larga escala10 , estendeu a gama de pro­
cessos contínuos e permitiu a manipulação de informações a
escala mundial? Serão os sindicatos nas suas formas atuais ade­
quados para conduzir as lutas dos trabalhadores, face a essas
modificações nos processos de trabalho? E que reivindicações
serão possíveis quanto às condições de trabalho? A resposta a
essas e outras questões passa por um longo trabalho de investi­
gação teórica e empírica, combinado à prática política, ainda a
,serem feitos.
Embora não esgotem as ramificações do estudo do processo
de trabalho, os ensaios aqui reunidos atestam a relevância desse
estudo, discutindo temas como o caráter político da organização
do trabalho e a influência da base técnica de produção sobre as
formas políticas de organização dos trabalhadores e seus objeti­
vos de curto e longo prazos.
Embora os estudos a seguir apresentados estejam voltados
para as condições dos países centrais, freqüentemente numa pers­
pectiva histórica, os temas de que tratam e a forma como os
tratam são atuais e relevantes para as condições econômicas e
políticas do Brasil no momento presente. Não obstante, a espe·
cificidade das condições brasileiras, capitalistas e periféricas. su­
gere que são muito necessários estudos diretamente dirigidos a

10 Em sua análise da Grande Indústria, Marx divide as máquinas em


três partes essenciais: motor, transmissão e mecanismo de operação, pri­
vilegiando as transformações ocorridas neste último. Tradicionalmente,
apenas as máquinas usadas para produção em larga escala, dotadas de um
mecanismo operacional especializado, tinham um sistema de controle auto­
matizado. A especificidade desses sistemas e o custo de sua modificação
estabelecia um vínculo entre produção em larga escala e automatização.
No entanto, inovações eletrônicas introduzidas no segundo após-guerra nos
sistemas de controle das máquinas (notadamente o controle numérico em
máquinas-ferramenta) permitem utilizar automaticamente os mesmos ins­
trumentos operacionais para vários tipos de produtos, fabricados em pe­
quenos lotes. Marx, como se sabe, apontava a fabricação de máquina:,.
por máquinas como uma das características da Grande Indústria. A im­
portância da inovação acima citada para a produção em pequena escala.
especialmente pa·ra a fabricação de máquinas, tradicionalmente produzidas
em pequenas quantidades, é comparável à da introdução da cadeia r'
montagem para a produção em larga escala. A esse respeito veja-se o
,ensaio de Palloix a seguir e R. Bel!, Changing Technology and Manpower
Requirements in the Engineering Industry, Sussex University Press, 1972.

viii
APRESENTAÇÃO

essa realidade. Uma breve revisão dos estudos já feitos no Brasil 11


sugere que estes têm se concentrado nos seguintes aspectos:
" (a) caracterização da organização técnica e social do capital;
(b) estrutura da força de trabalho e formas assumidas pelo mo­
vimento operário e (e) aspectos jurídicos das relações capital/tra­
balho".
O mesmo trabalho aponta que os resultados desses estudos
têm permitido ver sob nova luz questões como a heterogeneidade
estrutural da indústria brasileira e o papel que o Estado assume
na regulação das relações trabalho/capital, ao mesmo tempo que
têm chamado a atenção para questões antes pouoo estudadas,
como as formas de organização de trabalhadores sediadas sobre
o processo de trabalho, com relativa independência do movi.
mento sindical. No entanto, tais estudos além de não esgotarem
esses temas, antes propondo-os para debate, têm tratado pouco
de outros temas que deveriam ser analisados sob a ótica do
processo de trabalho, como, por exemplo, os efeitos no Brasil
da implantação de processos de trabalho desenvolvidos no ex­
terior, quer em subsidiárias de firmas estrangeiras quer em fir­
mas nacionais. É de se esperar que a difusão desses estudos e a
publicação de trabalhos como os que seguem venham a estimular
a realização de novos estudos sobre os processos de trabalho
no Brasil.

11 Grupo de Estudos do Processo de Trabalho, "O estudo do processo


de trabalho: notas para discussão", op. cit.
ix
-
índice

Nota sobre os colaboradores 7

Introdução .... .. . . . . .. . .. . ... .. . .. . . .. . .. . . ......... 9


A Situação Atual 10
Publicações da Conferência de Economistas Socialistas
sobre o Processo de Trabalho 11

Mais-valia e Planejamento:
Notas sobre a Leitura de "O Capital" 13
RANIERO PANZIERI

Mais-valia e Planejamento na Produção Direta 17


A Tendência Histórica do Capitalismo
de Superar a Concorrência 25
Planejamento Capitalista na Produção Social Geral 32

A Economia Dual da Transição 4,2


ALFRED SOHN-RETHEL

A Importância Fundamental do
Processo de Trabalho da Produção 43
Socialização Estrutural do Trabalho 46
Crítica da Administração Científica 53
O Fascismo de Hitler: Um Exemplo 62

O Processo de Trabalho: Do Fordismo ao Neofordismo 69


CHRISTIAN PALLOIX

Introdução 69
O Desenvolvimento Histórico do Processo de Trabalho 72
O processo de trabalho e a produção de produto excedente 73
Diferentes processos de trabalho como marcos na
História do Capitalismo 76
As Formas Complexas da Organização dos Processos de
Trabalho \Ilº Capitalismo Contemporâneo 84
Processo de tràbalho e produção em massa 84
O processo de trabalho e o controle das relações de mercadoria 89
O problema da valorização do trabalho: neofordismo 93

A Composição de Classe e a Teoria do Partido na Origem


do Movimento dos Conselhos de Trabalhadores . . . . . . . 98
SERGIO BoLOGNA

A Discussão Teórica no Movimento Internacional


dos Trabalhadores 111
Guerra e Revolução 125

Operários e Capital . . . . . . .... � . . . . . . ............. 131


MARIO TRONTI
A Era Progressista 131
A Era de Marshall 134
A Social-democracia Histórica 139
As Lutas de Classe nos Estados Unidos 147
Marx em Detroit 156
Sichtbar Machen 170

----------····--- ·--·· -- ----�----· -· ·-- . .. ·- �


Nota Sobre os Colaboradores

RANIERO PANZIERI: Secretário Cultural do Partido Socialista Ita­


liano, quando esse artigo foi escrito, em 1957. Posteriormente,
foi um dos principais responsáveis pela influente revista Qua­
derni Rossi, na qual publicou numerosos artigos. Uma cole­
tânea póstuma de seus trabalhos foi recentemente publicada
na Itália.
ALFRED SoHN-RETHEL: Professor visitante da Universidade de Bre­
men; publicou numerosos artigos sobre a teoria materialiSlta
do conhecimento e da ciência, a divisão entre trabalho intelectual
e manual, o fascismo e a teoria econômica da transição do
capitalismo avançado para o socialismo.
CHRISTIAN PALLOIX: do Instituto de Pesquisa e Planificação Eco­
nômica, Departamento de Industrialização e Desenvolvimento,
Universidade de Ciências Sociais, Grenoble; autor de vários
trabalhos sobre a divisão internacional do trabalho e a dinâ­
mica do desenvolvimento capitalista.
SERGIO BoLOGNA: Professor de História da Classe Operária no
"Instituto Vermelho", da Universidade de Pádua, editor da
publicação Primo Maggio, editor e colaborador de Classe
Operaie.
MARIO TRONTI; Professor de Ciência Política da Universidade de
Siena, autor de Operários e Capital, do qual o artigo aqui
incluído era originalmente um post-scríptum. Membro do Par­
tido Comunista Italiano desde 1971.

�·
/

...__
Introdução

"É evidente que nenhum trabalho, nenhuma capa.


cidade produtiva, nenhuma engenhosidade e nenhuma
arte podem atender às esmagadoras exigências do juro
composto. Mas toda poupança é formada a partir da
receita do capitalista, de modo que na realidade essas
exigências são constantemente feitas, e na mesma pro­
porção a capacidade produtiva do trabalho se recusa a
satisfazê-las."
De "O trabalho defendido contra as pretensões
do capital", por Um Trabalhador, T. Hodgs·
kin, 1825

No processo de trabalho, a natureza é transformada para


atender às necessidades humanas. Mas essa tranformação deve pro,
cessar-se dentro de certas relações sociais que podem ser vistas no
próprio processo produtivo, e que definem não só as condições de
trabalho e a distribuição do produto, mas também a configuração
geral das classes e a divisão do trabalho entre diferentes atividades.
O capitalismo c-aracteriza-se por separar os trabalhadores dos
meios de produção. Inicialmente isso pode significar simplesmente
que o capitalista, como proprietário dos meios de produção, se
apropria das mercadorias produzidas pelos trabalhadores assalariados,
da mesma forma que no est;ágio de produção de base artesanal -
que Marx chamou de manufatura - no qual o capital depende da
cooperação mútua dos trabalhadores. Mas o capital tem de eliminar
a base artesanal da produção, não apenas porque ela impõe limites
técnicos à acumulação de capital, mas também porque permite ao
trabalhador artesanal independente resistir à disciplina do capital.
Assim, no desenvolvimento pleno do modo capitalista de produção,
o capital luta por estabelecer seu controle direto sobre o processo
10 INTRODUÇÃO

de trabalho, o qual transforma num terreno crucial para a luta de


classes. A acumulação de capital depende da capacidade de o ca­
pital afirmar seu controle sobre a divisão do trabalho na produção.
Para Marx, a análise do processo de trabalho tem ainda uma
outra significação. Sua análise da possibilidade de transição do ca­
pitalismo para o socialismo e, finalmente, para o comunismo baseia­
se em grande parte na tese de que as modificações provocadas no
processo de trabalho produzem novas formas de organização e de
luta de classes, que acabarão por desafiar a existência da socieda­
de de classes. A desqualificação e a fragmentação do trabalho que
o capital procura introduzir na produção podem eliminar o poder
do trabalhador individual, mas ao mesmo tempo criam o que Marx
chama de "trabalhador coletivo", o proletariado que torna possível,
e exige, a derrubada do capitalismo. Ele proclama, então, a existên­
cia de uma conexão vital entre a natureza do processo de trabalho e
a natureza da luta de classes.

A situação atual
A crise atual não pode ser compreendida apenas em termos de
luta por salários, ou de uma tendência inerente da taxa de lucro
a decrescer. Para que ocorra acumulação de capital, este deve ganhar
a batalha pelo controle da produção.
Na Grã-Bretanha, por exemplo, amplos setores da classe operá­
ria organizada têm desafiado, com freqüência e êxito, o poder que o
capital detém de introduzir a "racionalização", ou a "fordização",
como o preço a ser pago pela elevação dos salários. Nos setores onde
a racionalização foi introduzida, estas condições de trabalho en­
contraram resistência numa escala que, ecoando por todos os paí­
ses industriais avançados, prejudicou seriamente a acumulação de
capital. Grupos que antes eram considerados alheios ao movimento
da classe operária - enfermeiros, professores, trabalhadores de
escrioório, entre outros - uniram-se a essa resistência, à medida que
suas condições de trabalho foram sendo cada vez mais "proletari­
zadas". Esse dado provocou o fim do "surto de prosperidade" do
pós-guerra e colocou em questão o " fordismo" e o "keynesianismo",
que constituíam sua base.
O capital não pode reagir a esse desafio apenas com políticas
de redução de salário; deve promover uma reorganização da classe
trabalhadora, de modo a aumentar a mais-valia e diminuir a opo­
sição ao seu funcionamento regular em todos os níveis. Daí os di­
versos e variados esquemas de "valorização do trabalho" e de "par­
ticipação" apresentados juntamente com as demissões, os cortes e

---
INTRODUÇÃO 11

os ataques ideológicos e legais à organização dos trabalhadores. Na


Grã-Bretanha, o governo Heath aprendeu, por experiência própria,
que um ataque direto, frontal, era perigoso; os ministros trabalhis­
tas procuraram combinar o ataque com uma acomodação aparente,
à procura de uma estratégia para uma nova fase do desenvolvi­
mento capitalista. Uma estratégia socialista para essa situação deve
ter como objetivo conhecer ( tão bem quanto o capital) as formas
de luta que se desenvolvem dentro de diferentes processos de tra­
balho e reconhecer a reação do capital, de modo a permitir o ime­
diato aproveitamento de novas possíbilidades.

Publicações da Conferência de
Economistas Socialistas sobre o
Processo de Trabalho
A Conferência de Economistas Socialistas estimulou o desenvol­
vimento do estudo do processo de trabalho através de grupos lo­
cais, de "escolas diurnas" e de projetos de orabalho para sua reu­
nião anual de 1976 (realizada em Coventry, nos dias 10 a 12 de
julho), que foi inteiramente dedicada ao processo de trabalho e
às suas ramificações:
a . As condições de trabalho determinadas pelo capital aos
trabalhadores para a produção de um produto excedente;
b. A luta dos trabalhadores sob as condições de explora­
ção e contra estas condições;
e. A oposição entre trabalhadores e capital no processo de
trabalho na história do desenvolvimento capitalista ( do ponto de
vista da reprodução ampliada do capital);
d. A oposição entre trabalhadores e capital no processo de
trabalho na história do movimento da classe operária ( do ponto
de vista da organização de classe);
e. O crescimento do proletariado no seio do desenvolvimen­
to capitalista, e a transição para o socialismo.
Uma série de publicações de trabalhos nessa área encontra-se
em preparação. Este volume contém artigos bastante inovadores,
que se relacionam com diferentes dimensões do assunto, enquanto
as próximas publicações focalizarão aspectos específicos.
Os artígos publicados aqui se enquadram em dois grupos. Os
camaradas Panzieri, Sohn-Rethel e Palloix analisam o desenvol­
vimento da divisão capitalista do trabalho no local de trabalho e
suas implicações para a reprodução geral do capital. Panzieri e
Sohn-Rethel usam suas análises para investigar as bases de uma
transição para o socialismo criada pela socialização do capital den.
12 INTRODUÇÃO

tro das esferas de produção e circulação, enquanto Palloix utiliza


sua análise para situar a recente iniciativa de "humanização do
trabalho" dentro da atual fase de desenvolvimento capitalistia.
Os camaradas Bologna e Tronti analisam a resposta dos tra­
balhadores às condições de luta criadas pelo capital em seu desen­
volvimento. Bologna investiga as formas de organização dos tra­
balhadores na indústria alemã na passagem do século, antes da de­
finição taylorísta do trabalho e da produção fordista em massa,
como um meio de localizar os debates que ocorreram no movimento
operário internacional da época sobre a teoria do partido. Tronti
analisa os demorados ciclos de luta entre as formas de organização
adotadas pelo capital e pelo trabalho em relação ao processo de
trabalho que definiram as principais fases da história da sociedade
capitalista desde 1870, a fim de avaliar as necessidades estratégi­
cas do movimento operário de hoje.
Apresentamos esta coletânea de trabalhos não porque conte­
nha resultados sólidos e inabaláveis, mas por representar explora­
ções sérias de um terreno crucialmente importante e ainda mal com­
preendido: o ponto de encontro, no processo de trabalho, das for­
ças e das relações sociais de produção.

Janeiro de 1976
R.G., T.P.

)
R.ANIERO PANZIER1

MaisNValia e Planejamento:
Notas Sobre a Leitura de "O Capital"

Dois temas centrais do pensamento marxista encontram destaque


nos trabalhos de juventude de Lênin. O primeiro é a unidade do
funcionamento social do capitalismo durante toda a sua evolução -
desde o capital mercantil e usurário até o capitalismo industrial. Este
último é ". . . a princípio tecnicamente bastante primitivo, e não
difere de modo algum dos velhos sistemas de produção; em seguida,
ele organiza a manufatura - que ainda se baseia no trabalho tna·
nual e nas indústrias artesanais predominantes, sem a ruptura do
elo entre o trabalhador assalariado e a terra - e completa seu de­
senvolvimento com a indústria mecanizada em grande escala" . 1 Lênin
vê claramente que se a produção mercantil for tomada como a forma
mais geral de produção, ela só é completada na produção capitalista,
onde a forma de mercadoria adotada pelo produto do trabalho é,
precisamente, "universal". Isso significa que" ... não só o produto do
tr.abalho, mas o próprio trabalho, isto é, a força de trabalho humana,
assume a forma de uma mercadoria".2 Lênin lança, portanto, uma
base sólida para sua polêmica com os populistas ( os Narodnikr).
"A contraposição da situação russa ao capitalismo, uma contrapo­
sição que cita o atraso técnico ( ... ) o predomínio da produção
manual etc. ( ... ) é absurda", argumenta ele, "porque existe ca­
pitalismo tanto com um baixo nível quanto com um alto nível de
desenvolvimento técnico" . 3

1 V. I. Lênin, Collected Works (citado a seguir como CW), Editora em


Línguas Estrangeiras, Moscou, 1963, I, p. 438.
2 Jbid., p. 437.
s Ibid., p. 438.
14 RANIERO PANZIERI

Um segundo tema central no jovem Lênin é o ataque ao "r0-


mantismo econômico" dos populistas. Nesse ataque, Lênin recupe­
ra a polêmica de Marx com as interpretações "subconsumistas"
do capitalismo, e as explicações "subconsumistas" da crise, em
partícular. Como Sismondi, os populistas separam o consumo da
produção, afirmando que esta depende de leis naturais, ao passo
que o consumo é determinado pela distribuição, que por sua vez
depende da vontade humana. Mas o tema da economia política

não é, de modo algum, "a produção de valores materiais",


como se pretendeu com freqüência ( ... ) mas as relações so­
ciais entre os homens na produção. Somente interpretando
"produção" no primeiro sentido é possível separar dela a
"distribuição", e, quando isso é feito, o "departamento" da
produç:ío não encerra as categorias das formas de economia so­
cial historicamente determinadas, mas categorias que se re­
lacionam com o processo de trabalho em geral: habitualmen­
te, essas banalidades vazias servem mais tarde para obscurecer
as condições históricas e sociais. { Veja-se, por exemplo, o
conceito de capital.) Se, porém, considerarmos, coerentemen­
te, "produção" como relações sociais na produção, então a
"distribuição" e o "consumo" perdem toda a significação in­
dependente. Uma vez explicadas as relações de produção, tan­
to a parcela do produto apropriado pelas diferentes classes
quanto, em conseqüência, a "distribuição" e o "consumo" são
desse modo explicados. E vice-versa, se as relações de produ­
ção permanecerem inexplicadas (por exemplo, se o processo
de produção do capital social agregado não for compreendi­
do), todas as discussões sobre consumo e distribuição se
transformam em banalidades, ou em desejos inocentes e
românticos.4

Naturalmente, Lênín aceita a análise marxista da acumulação.º

4 CW, II, pp. 202-3.


õ Cf., por exemplo, "The Economic Content of Narodism", op. cit., I.,
p. 498, onde Lênin dirige sua polêmica contra "a opinião ingênua de que
o propósito do capitalista é apenas o consumo pessoal e não a acumulação
de mais-valia", e contra a "idéia errônea de que o produto social se
divide em v + m (capital variável + mais-valia), como foi ensinado por
Adam Smith e todos os economistas políticos antes de Marx, e não em
c + v + m (capital constante, meios de produção .e, depois, salários e
mais-valia), como Marx mostrou". Da mesma forma, em op. cit. II ("A
Characterization of Economic Romanticism"), ver todo o parágrafo sobre

�-------------------------- ----- ··- , . -


MAIS·VALIA E PLANEJAMENTO 15

É precisamente a análise científica da acumulação e da rea.


lização do produto que possibilita a explicação da crise não como
sendo determinada pela insuficiência do consumo, mas antes pela
" ... contradição entre o caráter social da produção ( socializada
pelo capitalismo) e modo privado, individual, de apropriação" .6 É
a essa altura que L�nin apresenta uma explicação, extremamente
esquemática, das crises capitalistas em termos da "anarquia da
produção" .7
Lênin chega assim a dois resultados importantes. Primeiro,
ele vê os movimentos da sociedade capitalista e do capital como
urna evolução das rehi.ções sociais de produção; em segundo lugar,
usa essa base para rejeitar as várias utopias reacionárias que flores­
ceram espontaneamente na Rússia em fins do século XIX, em res­
posta ao impetuoso desenvolvimento do capitalismo. 8 Lênin insiste
muito em seus argumentos contra a "crítica sentimental" do capita­
lismo, comerindo ênfase especial à necessidade histórica e ao caráter
progressista do capital; contudo, sua análise do processo de soda.
lização provocado pelo desenvolvimento capitalista frente à "de-­
sintegração" da economia artesanal-camponesa (isto é, do capital
em sua fase mercantil) permanece unilateral e limitada. Ele parece
ver a "natureza antagônica" do desenvolvimento apenas como uma
relação entre a socialização da produção e a anarquia da circula­
ção, identificando as contradições no interior do processo de socia­
lização como simples reflexo da anarquia. O mercado capitalista,
isto é, a troca generalizada, ". . . une os homens, forçando-os a
um intercâmbio mútuo" . 9 No final de O desenvolvimento do capi­
talismo na Rússia, Lênin analisa o crescimento das forças produti­
vas do trabalho social e da socialização do trabalho. Focaliza a
formação de um "imenso mercado de trabalho", em lugar da "frag-

a acumulação nas sociedades capitalistas, em particular sua afirmação de


que "para ampliar a produção (para 'acumular' no significado categórico
da palavra) é necessário em primeiro lugar criar os meios de produção,
e para isso, conseqüentemente, é necessário expandir o departamento de
produção social que manufatura os meios de produção, sendo também
necessário atrair para ele trabalhadores que apresentem imediatamente uma
demanda de artigos de consumo. Portanto, o "consumo" se desenvolve
a partir da "acumulação", ou da "produção" ( ... ) Assim, as taxas de
desenvolvimento desses dois departamentos da produção capitalista não
têm de ser proporcionais; pelo contrário, devem ser inevitavelmente des·
proporcionais" (p. 155; grifos de Unín).
6 CW, II, p. 167.
7 lbid., p. l67; cf. também p. 172 e em geral todo o trecho sobre "A
Crise", op. cit., pp. 166-174.
s Cf. op. cit., especialmente pp. 172-3; 197ss.; 204ss.; 219ss.
8 Op. cit., p. 219.
16 RANIERO PANZIERI

mentação" típica das pequenas unidades econômicas da economia


natural, e como a mobilidade geral da força de trabalho destrói a
dependência patriarcal dos produtores, criando grandes unidades de
trabalhadores assalariados livres. 10 Esses processos se ongmam
diretamente da indústria mecanizada: "[a] indústria mecanizada
marca um progresso gigantesco na sociedade capitalista, não só
porque desenvolve enormemente as forças produtivas e socializa o
trabalho por toda a sociedade, mas também porque destrói a divi­
são manufatureira do trabalho, obriga os trabalhadores a passar de
um tipo de ocupação para outros, completa a destruição das relações
patriarcais atrasadas, conferindo - pelas razões apresentadâs e
como conseqüência da concentração da população industrial - um
grande impulso ao progresso da sociedade. " 11
Evidentemente, Lênin não ignora os efeitos do uso capitalista
das máquinas sobre as condições da classe operária, mas não vê
como as leis do desenvolvimento capitalista, na era da livre con­
corrência, surgem como planejamento na esfera da produção direta,
ao nível da fábrica. O primado da lei da mais-valia relativa, nesse
período, faz do capital individual a mola propulsara do desenvolvi­
mento do capital social e, ao mesmo tempo, provoca a intensifica­
ção do planejamento na fábrica. Mas o reconhecimento, por Marx,
de que a base do plano despótico do capital reside na apropriação
capitalista da técnica científica está ausente na análise que Lênin
faz da fábrica. Assim, o significado mais profundo do desenvol­
vimento das forças produtivas na indústria capitalista em grande
escala é ignorado por ele. Como não consegue ver que o planeja­
mento capitalista, com sua concomitante socialização do trabalho,
é uma forma fundamental de produção direta, Lênin só pode com­
preender a tecnologia e o planejamento capitalistas como total­
mente alheios às relações sociais que os dominam e modelam. Ele
conclui que a anarquia da produção é a expressão essencial da leí
da mais-valia e será essa anarquia que decidirá o destino histórico
do capitalismo. Na verdade, Lênin rejeita explicitamente a hipótese
de um "amálgama dos processos de trabalho de todos os capitalis­
tas num único processo de trabalho social" como um absurdo, por
ser incompatível com a propriedade prívada. 12 Essa incapacidade
de avaliar a importância do planejamento leva-o a ver urna abs0-
luta incompatibilidade entre a integração do processo de trabalho
social e o fato de que cada ramo da produção é dirigido por um

10 CW, III, pp. 5S5ss.


11 CW, 11, p. 187.
12 CW, II, pp. 102ss.
MAIS-VALIA E PLANEJAMEN'I'O 17

caoitalista individual e lhe dá o produto social como a sua proprie­


dade privada. 13

Mais-Valia e Planejamento na Produção Direta


Vamos examinar agora alguns dos pontos fundamentais da aná­
lise do processo direto de produção, contidos na Parte IV do Vo.
lume I de O Capital ( deixando de lado os conhecidos textos de
Marx e Engels, como a Introdução a Uma Contribuição à Crítica
da Economia Política, Anti-Dübring etc, que parecem apoiar a
ínterpretação de Lênin) .
Para começar, devemos ressaltar que a socialização do traba­
lho não se enquadra numa esfera socialmente neutra, mas surge
na estrutura do desenvolvimento capitalista desde o seu início. A
base do processo capitalista é a transformação do trabalho em
mercadorias, durante a qual o trabalhador cede ao capitalista o
uso de sua força de trabalho individual. Isso ocorre seja qual for
a escala em que a força de trabalho é vendida e comprada: "O
capitalista paga o valor das ( ... ) forças de trabalho independen­
tes, mas não paga a força de trabalho combinada" dos trabalhado­
res envolvidos. 14 A relação enlire os trabalhadores, a cooperação
entre eles, só aparece depois da venda de sua força de trabalho,
que envolve a relação simples entre trabalhadores individuais e ca­
pital. Em Marx, portanto, a relação entre o processo de trabalho
e a criação da mais-valia é bastante mais íntima e complexa no nível
da produção direta do que no nível do processo produtivo como
um todo. "A cooperação só começa com o processo de trabalho, mas
eles ( os trabalhadores) deixaram de pertencer a si mesmos. Ao en­
trar nesse processo, incorporam-se ao capital. Como colaboradores,
como membros de um organismo trabalhador, são apenas modos es­
peciais de existência do capital. Portanto, a força :produtiva desen­
volvida pelos trabalhadores, quando trabalham em cooperação, é
a .força produtiva do capital". rn
É aí que surge a mistificação fundamental da economia polí­
tica; como a força produtiva social do trabalho "nada custa ao
capital, e como, por outro lado, o próprio trabalhador não a desen­
volve antes que seu trabalho pertença ao capital, ela aparece como
uma força de que o capital é dotado pela Natureza - uma capaci-

1a CW, I, p. 177.
14 Karl Marx, Capital (Charles H. Kerr & Co., Nova York, 1906), l,
p. 365.
15 Ibid.
18 RANIERO PANZIERI

dade produtiva imanente ao capital". 16 Marx adotou uma análise


histórica das formas de cooperação simples, a fim de ressaltar suas
peculiaridades sob o modo capitalista de produção.
No modo capitalista de produção, a cooperação é a forma jun­
damental. A cooperação é a base para o desenvolvimento da pro­
dutividade social do trabalho. A cooperação, em sua forma capita­
lista, é portanto, a primeira expressão, a expressão básica da lei de
valor (mais-valia). Podemos ter uma idéia melhor das característi­
cas da lei se acompanharmos os passos de Marx e examinarmos a
cooperação de um ponto de vista sócio-econômico. "Quando nu­
merosos operários trabalham lado a lado, seja num mesmo e único
processo, ou em processos diferentes mas correlatos, diz-se que
eles ;ooperam, ou trabalham em cooperação" . 17 A partir da coope­
ração, o capital assume o comando de um processo de trabalho pla­
nejado. O planejamento surge imediatamente ao nível da produção
direta, não em contradição com o modo capitalista de operação,
mas coroo um aspecto essencial do desenvolvimento do capital.
Portanto, não há incompatibilidade entre o planejamento e o ca­
pital pois, ao tomar controle do processo de trabalho em sua for­
ma cooperativa ( realizando, assim, sua "missão histórica"), o ca­
pital, ao mesmo tempo, se apropria da característica fundamental
e específica do processo, que é o planejamento.
Com efeito, a análise marxista pretende mostrar como o ca­
pital utiliza o planejamento em níveis cada vez mais complexos do
processo produtivo - desde a cooperação simples até a manufa­
tura e a indústria em grande escala - para fortalecer e ampliar
seu domínio sobre a força de trabalho e obter um controle cada
vez maior sobre ela. Além disso, a análise procura demonstrar como
o uso crescente do planejamento na fábrica pelos capitalistas é a
resposta do capital aos efeitos negativos dos movimentos e cho­
ques caóticos dos capitais individuais na esfera da circulação, e
aos limites legislativos impostos à exploração em grande escala da
força de trabalho.
O primeiro aspecto em que o planejamento capitalista incide
é sobre as funções de direção, controle e coordenação, isto é,
aquelas "funções gerais que têm sua or�gem na seção do organis­
mo combinado, que se distingue da ação dos órgãos em separado", 1�
que são, evidentemente, características do traballio cooperativo.
Assim, o controle da força de trabalho e a função de direção se

l6 lbid.
1T lbid., p. 35·7.
18 lbid., p. 363.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 19

cruzam e combinam num mecanismo objetivo, que se coloca em


oposição aos trabalhadores.

A cooperação dos trabalhadores assalariados é totalmente pr0-


vocada pelo capital que os emprega. Sua união num único
corpo produtivo e o estabelecimento de uma ligação entre
suas funções individuais constituem uma questão externa
a eles, não um ato seu, mas do capital que os reúne e os
mantém juntos. Daí a conexão existente entre os seus vários
trabalhos aparecer-lhes, idealmente, sob a forma de um plano
preconcebido do capitalista, e, na prática, sob a forma da von­
tade poderosa de outrem, que sujeita a atividade dos trabalha­
dores aos seus objetivos. Portanto, se o controle do capita­
lista é, em essência, duplo, em virtude da dupla natureza do
próprio processo de produção - que é, de um lado, um
processo social de produção de valores de uso, e, do outro,
um processo de criação de mais-valia - na forma esse controle
é despótico. 19

O mecanismo de planificação do capital tende a estender-se e aper­


feiçoar sua natureza despótica durante a evolução do capital. Ele
tem de controlar uma massa crescente de força de trabalho com
o aumento concomitante da resistência dos trabalhadores, enquanto,
os meios ampliados de produção exigem um maior grau de inte­
gração da matéria-prima viva".
Como observa Marx, a base técnica da divisão do trabalho no
período da produção manufatureira continua sendo o trabalho ar­
tesanal. "O trabalhador coletivo, formado pela combinação de vários
trabalhadores individuais , é o mecanismo especialmente característico
do período da manufatura".2-0 Mas o trabalho combinado dos tra­
balhadores individuais, herdado da produção artesanal, não é sufi­
ciente para atingir a verdadeira unificação técnica, que só entra em
cena com o advento da indústria mecanizada. Não obstante, nessa
fase a "objetivação" ( capitalista) do processo produzido em relação
ao trabalhador - o antagonismo entre a divisão do trabalho no pro­
cesso de manufatura e a divisão social do trabalho - já foi gene­
ralizada. Na esfera da produção direta, "o trabalhador individual
não produz mercadorias. É apenas o produto comum de todos os
trabalhadores individuais que se torna uma. mercadoria" .21 Se, de
19 lbid., p. 364.
20 Ibid., p. 383.
21 Ibid., p. 390; cf. também pp. 395-96: "A manufatura propriamente­
dita não só sujeita os trabalhadores antes independentes à disciplina e à

"'=-----·-------···-"-" . . -·· - . ·-·


20 RANIERO PANZIERI

um lado, "dentro da oficina a lei férrea da proporcionalidade sujeita


um número determinado de trabalhadores a funções definidas",
do outro "o acaso e o capricho têm livre influência na distribuição
dos produtores e seus meios de produção entre os vários ramos da
produção" .22
E na esfera da produção que a autoridade do capital se mani­
festa diretamente, e é pela imposição despótica da proporcionali­
dade sobre as várias funções do trabalho que o equilíbrio do sis­
tema é mantido. No nível social, no entanto, a tendência para o
equilíbrio não resulta de atos conscientes de previsão e decisão, mas
é "natural e espontânea", de tal maneira que as suas leis prodomi­
nam mesmo em relação à vontade dos produtores individuais: "O
sistema a priori em que se realiza a divisão do trabalho na fábrica,
torna-se, na divisão do trabalho dentro da sociedade, uma necessi.
dade a posteriori, imposta pela natureza, controlando o capricho
sem lei dos produtores, e sendo perceptível na flutuação baromé­
trica dos preços de mercado" .23
Como já se pode ver, é essa a forma geral pela qual o capita­
lismo concorrencial funciona durante a fase da manufatura: anar­
quia na divisão social do trabalho, despotismo (plano) na divisão
do trabalho ao nível da fábrica. A essa relação típica do capitalismo
concorrencial corresponde um determinado esquema de "valores
sociais". "O mesmo espírito burguês que louva a divisão do traba­
lho na fábrica, a vinculação permanente do trabalhador a uma opera-

autoridade do capital como, além disso, cria uma gradação hierárquica


entre os próprios trabalhadores. Enquanto a cooperação simples não mo­
difica, em sua maior parte, o modo de trabalho do indivíduo, a manufa­
tura o revoluciona totalmente, e controla a força de trabalho pelas suas
próprias raízes. Transforma o trabalhador numa monstruosidade aleijada,
forçando sua habilidade fragmentada às custas de um mundo de capacidades
e instintos produtivos, tal como nos países do Prata abatem um animal
inteiro apenas para tirar-lhe o couro, ou o rabo. Não só o trabalho frag­
mentado é distribuído a pessoas diferen�s. como o próprio indivíduo é
transformado no motor automático de uma operação fragmentada, e a fá­
bula absurda de Menenio Agripa, que faz do homem um simples fragmento
de seu próprio corpo, então se realiza. Se, a princípio, o trabalhador vende
sua força de trabalho ao capital, porque lhe faltam os meios materiais para
produzir uma mercadoria, sua própria força de trabalho não recusa seus
serviços, a menos que tenha sido vendida ao capital. Suas funções só podem
ser exercidas num ambiente que existe na oficina do capitalista depois
da venda. Incapaz, por natureza, de fazer qualquer coisa independente­
mente, o trabalhador de manufatura desenvolve a atividade produtiva como
simples apêndice da oficina do capitalista".
22 lbid., p. 390.
23 Jbid., p. 391.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 21

ção parcial e sua completa sujeição ao capital como sendo uma


organização do trabalho que aumenta sua produtividade - esse mes­
mo espírito burguês denunciou com ígual vigor toda tentativa cons­
ciente de controlar e tegular socialmente o processo de produção,
como uma incursão contra os direitos sagrados da propriedade, da
liberdade e do livre jogo de interesses, em benefício do capitalista
individual. .E. muito característico o fato de que os apologistas en­
tusiastas do sistema fabríl não possuam nada mais forte contra a
organização geral do trabalho da sociedade do que o argumento de
que ela transformará toda a sociedade numa imensa fábrica". 24 Essa
apologia é peculiar à era do capitalismo concorrencial.
O próprio Marx admite uma relação esquemática entre o des­
potismo na fábrica e a anarquia na sociedade. "Podemos dizer ( ... )
como regra geral que quanto menos a autoridade domina na
divisão do trabalho na sociedade, mais a divisão do trabalho se
desenvolve na fábrica, e mais está sujeita à autoridade de uma
única pessoa. Assim, a autoridade na fábrica e a autoridade na
sociedade, no que se relaciona com a divisão do trabalho, estão em
razão inversa entre si" .25
A manufaturn, portanto, implica em um nível bem mais alto
Je alienação entre o trabalhador e seus instrumentos de trabalho,
concentrando as capacidades intelectuais do processo material de
produção no próprio capital. Essas capacidades são contrapostas aos
trabalhadores como algo que não lhes pertence e como um poder
que os domina - poder que já atingiu um certo grau de "evidên­
cia técnica" e que, dentro de certos limites, surge como tecnica­
mente necessário.
Restam, naturalmente, os limites impostos pelas origens ar­
tesanais do processo produtivo, que ainda se fazem sentir nas
formas mais desenvolvidas de manufat:ura: em conseqüência, a alie­
nação dos trabalhadores com relação ao conteúdo de seu trabalho
ainda não foi aperfeiçoada. Somente com a introdução de máqui­
nas em grande escala é que as "capacidades intelectuais" fortalecem
o domínio do capitalista sobre o trabalho no seu mais alto grau,
pois é então que a ciência se coloca a serviço do capital. Somente
a esse nível desaparecem os resíduos da autonomia da classe tra­
balhadora dentro da produção de excedente, e a natureza mercantil
da força de trabalho se evidencia sem quaisquer outras restrições
"técnicas" .26 A objetividade capitalista do mecanismo produtivo
com relação aos trabalhadores encontra sua base ótima no princípio

24 lbid.
215 lbid., p. 392.
20 Ibid., pp. 403-4; cf. também p. 415 e p. 421.

- . . .. .. -·----------------------=
22 RANIERO pANZIERI

ltécrtico da máquina: a velocidade tecnicamente determinada, a


coordenação das várias fases e o fluxo ininterrupto da produção
são impostos à vontade dos trabalhadores como uma necessidade
"científica", e correspondem perfeitamente à determinação do capi­
talista de obter o máximo rendimento da força de trabalho. A re­
lação social capitalista é disfarçada pelas exigências técnicas da
maquinaria, e a divisão do trabalho parece ser totalmente inde­
pendente da vontade do capitalista. Pelo contrário, parece ser o
resultado simples e necessário das condições da "natureza" do tra­
balho.27
Na fábrica mecanizada, o planejamento capitalista do processo
produtivo atinge seu nível de desenvolvimento mais alto. Ali, a
lei da mais-valia parece funcionar sem limites já que, "por meio
de sua transformação num autômato, o instrumento de trabalho
se apresenta ao trabalhador, durante o processo de trabalho, sob
a forma de capital, dt! trabalho morto, que domina e bombeia a
força de trabalho viva", e, além disso, "a competência especial, indi­
vidualizada em cada trabalhador, desaparece como uma quantidade
infinitesimal ante a ciência, a gigantesca força física, e a massa de
trabalho materializada no mecanismo fabril, e junto com esse me­
canismo, constitui, 'o Mestre' ". 28
A essa altura, o planejamento surge como a base do modo ca­
pitalista de produção. E a lei geral da produção capitalista é uma
certeza normal do resultado; o "código fabril no qual o capital for­
mula, como um legislador privado e à sua vontade, sua autocracia
sobre seus trabalhadores, desacompanhada daquela divisão de res­
ponsabilidade, em outras questões tão aprovada pela burguesia, e
acompanhada pelo sistema representativo, ainda mais elogiado, esse
código é apenas a caricatura capitalista da regulamentação social do
processo de trabalho ". 29
No período inicial de sua introdução, as máquinas produzem
mais-valia, não só desvalorizando a força de trabalho, mas também
porque transformam o trabalho empregado pelo proprietário da ma­
quinaria "em trabalho de um grau superior e de eficiência maior,
elevando com isso o valor social do artigo produzido acima do seu
valor individual, e permitindo com isso que o capitalista substitua o
valor da força de trabalho empregada em um dia por uma porção
menor do valor do produto do dia". 30 Nessa situação os proprietá­
rios capitalistas das máquinas obtêm lucros excepcionalmente altos

21 lbid., pp. 440 e 504.


28 lbid., p. 462.
29 lbid., pp. 463-4.
30 lbid., p. 444.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 23

( e podemos dizer que é precisamente a perspectiva desses lucros


exorbitantes que dá o primeiro e necessário impulso à produção me­
rnnizada). A magnitude do lucro obtido "aumenta seu apetite de
mais lucro " 81 e o resultado é uma extensão da jornada de traba­
lho.
Quando as máquinas invadem todo um ramo de produção , "o
valor social do produto desce ao seu valor individual, e se afirma
a lei de que a mais-valia não aumenta com a força de trabalho subs­
tituída pela máquina, mas com a força de trabalho real.mente em­
pregada em fazer funcionar as máquinas. " 82 O aumento de pro­
dutividade resultante da introdução da máquina aumenta o traba­
lho excedente à custa do trabalho necessário, mas s6 obtém esse
resultado "diminuindo o número de trabalhadores empregados por
um determinado volume de capital ".33 Contudo, o aumento na taxa
Jc mais-valia através da maior produtividade parece incapaz de
compensar a queda na mais-valia decorrente da diminuição do
número relativo de trabalhadores explorados: a contradição resul­
tante é resolvida por um aumento na mais-valia absoluta, isto é,
através do prolongamento da jornada de trabalho. 34
Na verdade esse esboço só é válido para um período histori­
camente limitado do capitalismo, isto é, o primeiro período carac­
terizado pelo uso generalizado da maquinaria. Muitas das mons­
r ruosas conseqüências da exploração da força de trabalho pela in­
dústria capitalista em grande escala são explicadas segundo esse
esquema. Mas o processo correspondente à relação capital-máquina
não termina aqui. Como conseqüência da resistência da classe ope­
rária, os efeitos negativos de um prolongamento indefinido da
jornada de trabalho provocam "uma reação da parcela da sociedade
cuja vida está am�açada em suas raízes, de modo que ela decreta
uma limitação legal da ;ornada normal de trabalho". 86 A nova si­
tuação força o capital a ampliar outro aspecto da exploração ine­
rente ao uso da maquinaria, a intensificação do trabalho.
Marx refere-se aqui, muito claramente, a uma "rebelião da
classe operária na esfera "política", que força o Estado a "impor
um-a redução do tempo de trabalho". Essa "rebelião" contra o sis­
tetna provoca uma reação que representa, simultaneamente, tanto
um desenvolvimento capitalista do sistema da máquina, como uma

31 Ibid.
32 Iõid.
:1s lbid.
:i, Ibid., p. 445.
35 Ibid., p. 447.
24 RANIERO pANZIERI

consolidação de seu domínio sobre a classe operária. A situação


muda,

no entanto, tão logo ocorre a redução compulsória das horas


de trabalho. O imenso impulso que isso dá ao desenvolvimento
da capacidade produtiva e à economia dos meios de produção
impõe ao trabalhador um maior dispêndio de trabalho num
determinado tempo, um aumento na tensão de sua força de
trabalho e uma utilização completa dos espaços ociosos da
jornada de trabalho, ou condensação do trabalho a um
grau só alcançável dentro dos limites da jornada de trabalho
reduzida ( ... ) Além de uma medida de sua extensão, isto
é, duração, o trabalho adquire a.gora uma medida de sua in­
tensidade, ou do grau de sua condensação ou densidade.36

É a essa altura que surgem ·os fenômenos típicos da indústria ca­


pitalista em grande escala.

Tão logo a redução passa a ser compulsória, a maquinaria se


torna, nas mãos do capital, o meio ob;etivo empregado sis­
tematicamente para extrair mais trabalho num determinado
tempo. Isso se realiza de duas maneiras: aumentando a veloci­
dade da máquina, e dando ao trabalhador mais máquinas para
operar. 37
Evidentemente, a esse nível, a relação entre a inovação tec­
nológica e a produção de mais-valia torna-se ainda mais íntima.
Isso é necessário para exercer maior pressão sobre os trabalhadores,
e ocorre "espontaneamente" lado a lado com a intensificação do
trabalho já que o limite imposto à jornada de trabalho obriga o
capitalista a uma economia mais rigorosa dos custos de produção.
É nisso que reside a passagem da subordinação formal do trabalho,
sob o comando do capital, para a sua subordinação real. E o traço
marcante da verdadeira subordinação do trabalho é, precisamente,
a "necessidade técnica".
Quando o uso da maquinaria se generaliza em grande escala
e em todos os ramos da produção, o capitalismo, ao nível da pro­
dução direta, é o despotismo exercido em nome da racionalidade.
O velho sonho "científico" do movimento perpétuo - isto é, do
movimento conseguido sem o dispêndio de trabalho - parece rea­
lizar-se com uma exploração máxima da força de trabalho e a sub·
an lbid., p. 488; cf. também pp. 520-1, 524-26.
37 lbid., p. 450.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 25

m1ssao maxuna do operário ao capitalista. A lei da mais-valia en,


contra sua expressão na unificação da exploração e da submissão.
O despotismo do capital surge como um despotismo da raciona­
lidade, já que o capital funde suas partes constantes e variáveis
na sua operação mais eficiente e parece constituir-se numa neces­
sidade técnica.
Ao nível da produção direta, Marx considera o capitalismo
como planejamento com base num desenvolvimento ilimitado
das forças produtivas. Temos aí a expressão fundamental da na­
tureza antagôníca da produção capitalista. As "contradições ima­
nentes" não se encontram nos movimentos dos capitais individuais,
isto é, não são internas ao capital; o único limite ao desenvolvi­
mento do capital não é o próprio capital, mas a resistência da clas­
se operária. O princípio de planejamento, que para o capitalista
significa "previsão", "certeza do resultado" etc, é imposto ao
trabalhador apenas como uma superpoderosa "lei natural".38 No
sistema fabril, o aspecto anárquico da prod1.1çào capitalista reside
apenas na insubordinação da classe operária, na sua rejeição da
"racionalidade despótica".
Frente à interligação de tecnologia e poder realizada pelo
capital, a perspectiva de um uso alternativo (pela classe operária)
da maquinaria não pode, evidentemente, basear-se numa derruba­
da, pura e simples, das relações de produção ( de propriedade),
nas quais estas sejam consideradas como uma casca destinada a
desaparecer, a um certo nível de expansão produtiva, simplesmente
porque se tornou demasiado pequena. As relações de produção
estão dentro das forças produtivas, e estas foram "moldadas ,. pelo
capital. É isso que permite a perpeúuação do desenvolvimento ca­
pitalista, mesmo depois de a expansão das forças produtivas ter
atingido seu nível mais alto. A esse ponto, a regulação social do
processo de trabalho surge imediatamente, como um tipo de pla­
nificação diferente do planejamento capitalista, ou a ele contra­
posto.

A Tendência Histórira do Capitalismo de Superar a Concorrência


Parece, portanto, que em O Capital a oposição entre despo­
tismo (plano) na fábrica e anarquia na sociedade é a forma geral
de expressão da lei do valor. Vimos também como as principais
"leis" do desenvolvimento capitalista, formuladas por Marx, estão
rigorosamente ligadas a essa fórmula, uma fórmula que parece ser

\
38 Ibid., p. 533.

j �------�---�--. --· ··•.··


26 RANIERO p ANZIERI

idêntica à estrutura de O Capital, de tal modo que essa obra pode


ser lida como uma interpretação do capitalismo concorrencial, vá.
lida apenas para essa forma de capitalismo. De qualquer maneira,
o desenvolvimento "ortodoxo" da teoria marxista reafirmou essa
perspectiva negando ao sistema capitalista qualquer outra forma
"plena" de desenvolvimento, fora da que lhe foi assegurada pelo
modelo concorrencial, e definindo o capitalismo monopolista-oli­
gopolista regulado como o último, e "putrescente" estágio do
capitalismo. Por outro lado, o revisionismo moderno acaba por
perder de vista a continuidade do sistema em sua passagem de
uma fase histórica para a outra, pois também ele baseou sua ex­
pressão da lei do valor na mesma interpretação. Na realidade, po­
rém, o modelo oferecido em O Capital não é fechado. O incessante
movimento de avanço do capital não se confina, de modo algum,
aos limites da concorrência, sendo o "comunismo capitalista" 39
alguma coisa mais do que um movimento automático do capital
social total que resulta da operação cega do sistema.
Numa carta a Engels, datada de 2 de abril de 1858, Marx
apresenta um primeiro esboço de O Capital. Outros estudiosos do
marxismo já observaram que, nesse esboço, os vários níveis do
sistema ainda estão divididos de acordo com critérios empíricos,
e não unificados em torno do núcleo das leis da economia política.
O plano geral da obra é dividido em seis livros. "1) Capital; 2)
Propriedade Agrária; 3) Trabalho Assalariado; 4) Estado; 5) Co­
mércio Internacional; 6) Mercado Mundial".40 Essa maneira não­
sistemática de apresentar as leis materiais mostra o caminho una­
ginado por Marx para o movimento da acumulação capitalista. Isso
se torna claro quando ele passa a uma exposição mais detalhada do
plano para o primeiro livro (Capital), que "contém quatro seções:
a) Capital em geral ( ... ) ; b) Concorrência, ou as ações dos mui·
tos capitais uns sobre os outros; e) Crédito, em que o capital
surge como o elemento geral em oposição aos capitais individuais;
d) Capital acionário, como a forma mais perfeita, ( que leva ao co­
munismo) juntamente com todas as suas contradições" . 41
30 Cf. a carta de Marx a Engels, 30 de abril de 1868: "O que a con­
corrência entre as várias massas de capital - compostas e investidas de
maneiras diferentes em diferentes esferas da produção - está lutando
para produzir é o comunismo capitalista, ou seja, que a massa de capital
pertencente a cada esfera da produção consiga uma alíquota da mais-valia
total proporcional à parte do capital social total que ela forma". K. Mar;,;
e F. Engels, Selected Correspondence, Progress Publishers, Moscou, 1965,
p. 206 (grifos do autor).
40 K. Marx e F. Engels, op. cit., p. 104 .
.n Ibid. (grifos do autor).
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 27

É importante notar como Marx ressalta que as passagens su­


cessivas de uma categoria para a seguinte são "não apenas dialéti­
cas, mas [também] históricas":12 Já no Grundrísse Marx falava
sobre o capital em ações como a "forma pela qual o capital desen­
volveu-se até a sua forma final, na qual é postulado não só em
si mesmo, em sua essência, mas também em sua forma, como pro­
duto e poder social" . 43
Na exposição lógico-sistemática de O Capital, essa etapa da
acumulação capitalista posterior à concorrência parece coexistir com
as formas concorrenciais dominantes, naturalmente sem poder re­
conciliar-se com elas. Não obstante, em O Capital, a fase superior
que expressa a tendência geral da acumulação capitalista também
é considerada como o estágio do capital em ações, que é a forma
de capital social total que já não expressa simplesmente a cega in­
terligação dos capitais individuais ( isso é amplamente demons­
trado no capítulo sobre a "Lei Geral da Acumulação Capitalista",
no Livro I).
No caso, o tipo de "concentração que nasce diretamente da
[acumulação], ou melhor, é idêntico a ela", surge como a base do
sistema concorrencial. Na verdade,

Primeiro: a crescente concentração dos meios sociais de pro­


dução nas mãos dos capitalistas individuais é, em igualdade de
condições, limitada pelo ,grau de aumento da riqueza social.
Segundo: a parcela do capital social existente em cada esfera
particular de produção é dividida entre muitos capitalistas,
que se enfrentam como produtores independentes de merca­
dorias, em mútua concorrência. A acumulação e a concentra­
ção que a acompanham estão, portanto, distribuídas por mui­
tos pontos, mas o aumento de cada capital em operação é
limitado pela formação de novos capitais e pela subdivisão
dos antigos. A acumulação, portanto, apresenta-se, de um lado,
como a crescente concentração dos ineios de produção e do
comando sobre o trabalho; do outro, como repulsão mú­
tua dos muitos capitais individuais. 44

Mas essa afirmação, que parece coincidir precisamente com a esfera


da concorrência, é apenas um lado da lei geral da acumulação capita-

42 Jbid. (grifos do autor).


43 Karl Marx, Grundrisse (Penguin Books, 1973), p. 530 (grifos do
autor).
44 Karl Marx, Capital, l, pp. 685-86.
28 RANIERO PANZIERI

lista. O outro lado, que age contra a dispersão do capital social total,
consiste na atração mútua entre as suas frações. Nas palavras de
Marx: "Esse processo difere do primeiro [isto é, da acumulação
simples] porque pressupõe apenas uma modificação na distribuição
do capital já existente e em funcionamento: seu campo de ação não
está, portanto, limitado pelo crescimento absoluto da riqueza
social, pelos limites absolutos da acumulação ( . .. ) É a centraliza­
ção propriamente dita, distinta da acumulação e da concentração" .45
A seguir Marx desenvolve suas opiniões sobre o sistema de crédito,
que, primeiro, "se insinua como um modesto colaborador da acumu­
lação", para tornar-se "uma nova e formidável arma na luta concor­
rencial ( ... ) transformando-se finalmente num imenso mecanismo
social para a centralização dos capitais" .40
O outro lado da lei geral da acumulação capitalista surge como
um processo de desenvolvimento ilimitado com relação à fase de
concorrência. "A centralização numa certa linha de indústria teria
atingido seu limite extremo se todos os capitais individuais nela
investidos tivessem sido combinados num único capital. Esse limite
não seria atingido em nenhuma sociedade particular até que a tota­
lidade do capital social fosse reunida nas mãos de um único capita­
lista ou de uma única empresa".47
Marx não deixa de perceber que a centralização e seus meca­
nismos partiiculares, embora distintos da autêntica acumulação, cons­
tituem uma função desta última, e possibilitam a realização, numa es­
cala social, da revolução introduzida pela indústria capitalista. "Em
toda parte, o maior volume de estabelecimentos industriais forma
o ponto de partida para uma organização mais global do trabalho
cooperativo de muitos, para um desenvolvimento mais amplo de
seus poderes materiais, isto é, para a transformação progressiva de
processos de produção isolados, realizados das maneiras habituais,
em processos de produção socialmente combinados e cientificamente
administrados" .48 Mas é só com a centralização que se chega à
aceleração, que depende não só do "agrupamento quantitativo das
partes integrais do capital social", mas também do fato de que ela
"amplia e apressa ( ... ) as revoluções na composição técnica do ca­
pital".49 Quando massas diferentes de capital se unem pela centra­
lização, aumentam mais rapidamente do que outras, "tornando-se
assim novas e poderosas alavancas da acumulação social" . 50
46 lbid., p, 686.
46 Ibid., p. 687.
47 Ibid., p. 688.
48 lbid.
49 lbid., pp. 688-9.
60 lbid., p. 689.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 29

A análise da centralização revela uma íntima relação entre a


esfera da produção direta e a circulação, embora essa relação seja
obscurecida se atentarmos apenas para o elo entre a produção di­
reta e a concorrência. Essa perspectiva permite-nos ver as conexões
não estabelecidas em O Capital, relegando, por conseguinte, muitas
de suas "leis" gerais a uma fase do desenvolvimento capitalista. Po­
rém, ela comprova o princípio metodológico fundamental de O
Capital: o modo de produção domina o processo de circulação.
A lei da acumulação capitalista é novamente examinada no
Capítulo XXVII do Livro III de O Capital, onde Marx analisa
"o papel do crédito na produção capitalista". Ali, estamos dire­
tamente ao nível máximo do desenvolvimento do capital por ações.
Marx ressalta que, nesse nível, a concentração social dos meios
de produção e de força de trabalho correspondem -à forma do ca­
pital social, em oposição à forma do capital privado. Deriva daí
a criação de firmas que são mais sociais do que privadas. Diz
Marx: "É a abolição do capital como propriedade privada dentro
da estrutura da própria produção capitalista" . 61 Por sua vez, a
personificação ativa do capital, o capitalista, isto é, "o capitalista
que realmente funciona", se torna "um simples gerente, adminis­
trador do capital de outras pessoas". Por sua vez, os proprietários
do capital se transformam em "simples capitalistas monetários" . 62
Podemos dizer que aqui começa a completa "autonomização" do
capital. O próprio lucro total, que inclui os juros e o ganho do
empresário, "só é recebido na forma de juros", isto é, "como sim­
ples compensação pela propriedade de capital que agora está total­
mente divorciado da função no processo real de reprodução, tal
como esta função, na pessoa do gerente, está divorciada da proprie­
dade do capital". 58
Nessas condições, continua Marx:

. . . o lucro aparece ( não mais aquela parte dele, o juro,


que tem sua justificativa como o lucro obtido pelo tomador
do empréstimo) como simples apropriação do trabalho ex­
cedente dos outros, surgindo da conversão dos meios de
produção em capital, isto é, da alienação destes meios em rela­
ção ao produtor real, de sua antítese como propriedade alheia
em relação a todos os que realmente trabalham na produção,
desde o gerente até o último trabalhador por jornada. Nas

51 Karl Marx, Capital, III, p. 436.


52 lbid.
tl3 lbid., 436-7.
30 RANIERO PANZIERI

sociedades por ações a função é divorciada da propriedade


que o capital tem dos meios de produção e do trabalho ex­
cedente.54

A separação absoluta entre o trabalho e a propriedade do capital


surge como:

. . . uma fase transitória necessana para a reconversão do


capital em propriedade dos produtores, embora não mais
como a propriedade privada de produtores individuais, mas
antes como a propriedade de produtores associados, como
propriedade diretamente social. Por outro lado, a sociedade
por ações é uma transição para a conversão de todas as fun­
ções, do processo de reprodução que ainda continuam ligadas
à propriedade capitalissta em simples funções dos produtores
associados, em funções sociais. 55

A essa altura, parece que o próprio Marx comete o erro de


confundir o processo de trabalho com o processo geral de criação
de valor. O nexo entre a esfera da produção direta e a maneira
pela qual o capital coletivo opera parece ter sido esquecido,
reaparecendo o esboço simplificado que contrasta o desenvolvi­
mento das forças produtivas com as relações de produção. Assim,
Marx afirma que "a abolição do modo capitalista de produção, no
interior do próprio modo de produção capitalista - que é carac­
terística desse nível do desenvolvimento da acumulação capitalista
- é "uma contradição autodiluidora, que representa, prima facie,
uma simples fase de transição para uma nova forma de produção". 66
Mas, na análise marxista, a fase do capital por ações, que é
"a abolição da indústria privada capitalista com base no próprio
sistema capitalista", implica uma profunda modificação no mecanis­
mo capitalista.

Como o lucro assume, aqui, a forma pura de juro, só serão


possíveis os empreendimentos que proporcionarem juros e
esta é uma das causas da queda da taxa geral de lucro, já
que esses empreendimentos, nos quais a proporção <lo capital

64 lbid., p. 437.
6(; lbid.
66 lbid.• p, 438.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 31

constante em relação ao variável é tão grande, não entram


necessariamente na perequação da taxa geral de lucro. 57

Marx aponta aqui um autêntico "salto" entre diferentes ní­


veis no desenvolvimento do capitalismo. Mas a análise não pode
derer-se na simples identificação dos diferentes níveis da acumu­
lação capitalista. Ela deve também evitar a tentação de sucumbir,
num determinado ponto, a uma descrição em termos de simples
ajustes e correções com relação a uma determinada fase "modelo",
cuja essência é considerada imutável. Esses trechos de Marx con­
têm o embrião da análise da fase de monopólio e, mais do que
isto, trazem à luz elementos que se situam além dos limites até mes­
mo da primeira fase do capitalismo monopolista. 68

57 Ibid., p. 437.
58 Essa relação entre o sistema e suas leis de desenvolvimento foi mos­
trada com muita clareza por Giulio Pietranera, em sua introdução a
Rudolf Hilferding, li Capita/e Finanr.iario, Milão, 1961: "O aumento na
composição orgânica do capital ( ... ) ocorre ( ... ) através de um pro­
cesso irreversível de concentração da produção sobre determinadas unida­
des produtivas singulares (e, portanto, diferentes entre si); também ocorre
através da abolição da concorrência e, portanto, de suas próprias catego­
rias. A transformação monopolista se estabelece através da abolição da
taxa geral de lucro, isto é, através do surgimento de taxas particulares,
não competitivas, que se segue ao parcelamento monopolista do merca­
do ( ... ) Num certo momento, o aumento continuado na composição or­
gânica do capital leva a um tal decréscimo (tendencial) na taxa geral de
lucro que a estrutura capitalista reage com um 'salto', isto é, com tal
aumento na composição orgânica que da livre concorrência se passa ao 'mo­
nopólio'. E, a partir desse ponto, já não ternos uma taxa geral de lucro
( ... ) O estabelecimento de sociedades por ações constitui, originalmente,
uma das causas antagônicas para a queda da taxa geral de lucro (isto é,
para o aumento continuado da composição orgânica do capital); mas tam­
bém contribui para a centralização do 'sistema de crédito', e estimula
definitivamente a concentração monopolista do mercado (daí o 'salto' para
o monopólio). Assim, o surgimento das sociedades por ações contribui pa­
ra a abolição da taxa geral de lucro, substituindo-a pelas taxas monopo­
listas particulares". A importância excepcional desse salto no sistema não
escapa a Pietranera: "Devemos observar que o aumento registrado na
composição orgânica do capital, que leva à situação monopolista, é - na
verdade - uma reação à queda da taxa geral de lucro; mas é urna reação
historicamente única, porque, a partir daquele momento, os termos qualita­

tivos e concepcionais do problema se modificam - e, com isso, também
o curso histórico do desenvolvimento capitalista" (pp. liv-lv).
32 R.ANIERO PANZIERI

Planejamento Capitalista na Produção Social Geral


Para Marx, a esfera da circulação é ao mesmo tempo o resultado das
relações capitalistas de produção e a sua mistificação: como "uma
forma especial de mercadoria, o capital tem seu modo peculiar de
alienação"."º Na fórmula D-M-D, a fórmula do capital mercantil,
"há pelo menos a forma geral do movimento capitalista". De fato,
o lucro reaparece "apenas como lucro derivado da alienação; mas
é visto, de qualquer modo como produto de uma relação social,
não como produto de uma simples coisa". 00 Mas todos os traços
de uma relação social no movimento do capital desaparecem, com
o capital que produz juros, cuja fórmula, D-D, expressa apenas
uma "relação de .grandezas". No caso, o capital tem apenas uma
relação quantitativa consigo mesmo: "o capital aparece como tal
( ... ) como um valor que se expande diretamente para todos os
capitalistas ativos, quer operem com capital próprio ou com ca­
pital emprestado". 61
Assim, parece que temos "a fórmula primitiva e geral do ca­
pital reduzida a uma condensação sem sentido". 62 Com o desen­
volvimento do capital produtor de juros como a formação social
dominante, a mistificação inerente às relações capitalistas de pro­
dução parece ser levada ao seu nível mais alto. Os processos de
produção e circulação são afastados do quadro: "A coisa ( dinheiro,
mercadoria, valor) é agora capital, mesmo sendo uma mera coisa,
e o capital surge como uma simples coisa".63 Temos assim a ex­
pressão mais geral do fetichismo capitalista: "A relação social se
consuma na relação de uma coisa, dinheiro, consigo mesma" .64.
O modo de produção capitalista consegue disfarçar totalmente
sua origem e seu movimento real quando o capital produtor de
mais-valia surge apenas como capital monetário. "Enquanto o juro
é apenas uma parcela do lucro, isto é, da mais-valia, que o capita­
lista ativo arranca do trabalhador, ele aparecerá agora, pelo con­
trário, como o produto típico do capital, como a matéria principal
e o lucro, na forma de h.:cro da empresa, como um mero acessório
e subproduto do processo de reprodução. Temos assim a forma
fetiche do capital e a concepção do capital fetiche" . 66 Dessa ma-

60 Karl Marx, Capital, III, p. 348.


60 lbid. p. 391.
111 Ibid.
62 Jbid.
63 Jbid., p. 392.
64 Jbid.
6� Ibid.; cf. também p. 341.

:...
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 33

ne1ra, a natureza especificamente social do capital é fixada sob a


forma ("coisa") de propriedade do capital, uma forma que em
si mesma contém a capacidade de dominar o trabalho e dar frutos
na forma de juros. Em conseqüência, a parte da mais-valia devida
ao capitalista ativo, ao empresário, "deve surgir necessariamente
como derivada não do capital enquanto tal, mas do processo de
produção, separado de seu atributo social específico, cujo modo
distinto de existência já é expresso pela designação de juros sobre
o capital. Porém, separado do capital, o processo de produção é
simplesmente um processo de trabalho. Portanto, o capitalista
industrial, separado do proprietário de capital, não surge como
capital em atividade, mas como um funcionário, que também não
possui capital, ou como um simples agente do processo de traba­
lho em geral, como um trabalhador, e na verdade como um traba­
lhador assalariado" .'66
A relação entre o capital e o trabalho é, assim, totalmente
"esquecida". "No juro, portanto, nesse aspecto específico do lucro
no qual o caráter antitético do capital assume uma forma indepen­
dente, isso se faz de tal maneira que a antítese é totalmente apa­
gada e abstraída".67 No "trabalho" do capitalista empresarial, a
função gerencial implícita pelo trabalho social associado recebe
seus traços específicos da relação capitialista. Aqui, Marx resume,
parcialmente, a análise da Seção IV do Livro I.
Segundo Marx, o processo se completa com o desenvolvimen­
to máximo das sociedades por ações quando, de um lado, "o pró­
prio capital-dinheiro assume um caráter social com o adiantamento
do crédito, estando concentrado nos bancos e sendo emprestado
por eles, em lugar de seu proprietário original", e, do outro, "o
simples administrador, que não possui capital a título algum, nem
através de empréstimo nem de qualquer outra forma, realiza todas
as funções reais que são atributos do capitalísta ativo como tal".

66 lbid., p. 382; cf. também pp. 382-3: "Devido ao fato de o caráter


alienado do capital, da sua antitese com o trabalho, ser relegado a um lugar
fora do processo real de exploração, ou seja, ao capital que produz juros,
esse processo de exploração surge, em si, como um simples processo de
trabalho no qual o capitalista ativo apenas desempenha um tipo diferente
de trabalho do exercido pelo trabalhador, de tal modo que o trabalho do
explorador e o trabalho do explorado surgem ambos idênticos enquanto
trabalho. O trabalho do explorador é tanto trabalho quanto o trabalho
do que é explorado. A forma social do capital corresponde ao juro, mas
é expressa de uma forma neutra e indiferente. A função econômica do
capital corresponde ao lucro da empresa, mas abstraída do caráter capi.
talista específico dessa função".
67 Jbid., p. 3S2.

�----------------- --
34 RANIERO PANZIERI

Nesse nível, "permanece apenas o funcionário e o capitalista desa­


parece do processo de produção, como supérfluo" .08
A análise da "autonomização" do capital está resumida nas
conhecidas páginas da "fórmula trinitária".69 Todas as formas so­
ciais associadas ao capital mercantil e à circulação do dinheiro pro­
vocam uma mistifícação, "que transforma as relações sociais, para
as quais os elementos materiais da riqueza servem como portadores
na produção, em propriedades dessas mesmas coisas (mercadorias)
e, ainda mais acentuadamente, transforma a relação de produção
numa coisa (dinheiro) ( ... ) no modo capitalista de produção e
no caso do capital, que constitui sua categoria dominante, sua
relação de produção determinante, esse mundo encantado e per­
vertido se desenvolve ainda mais" .70
A relação capitalista surge claramente, primeiro, quando o
capital "suga" a mais-valia absoluta, prolongando a jornada de
trabalho. Mas, como já vimos, com o desenvolvimento da mais­
valia relativa, ou melhor, com "o modo de produção específicamente
capitalista, desenvolvem-se as forças produtivas do trabalho so­
cial e essas forças produtivas, bem como as inter-relações sociais do
trabalho, no processo direto de trabalho, transferem-se do traba­
lho para o capital".71 Assim, o capital já se tornou um "ser muito
místico". O conteúdo específico desse "ser" é a forma, capitalistí­
camente planejada, do processo social de produção da socialização
capitalista do trabalho. Na passagem da realização do valor e da
mais-valia para a esfera da circulação, "parece que a restituição do
valor adiantado na produção e, particularmente, a mais-valia con­
tida nas mercadorías, não são simplesmente realizadas na circula­
ção, mas na realidade surgem dela" .72 Sobretudo dois fatores con­
firmam esta " aparição" : o lucro através da alienação, e a taxa de
circulação, que "parece ser uma base tão definida como o próprio
trabalho e introduzir um elemento determinante que é independen­
te do trabalho e que resulta da natureza do capital" .73
A transformação da mais-valia em lucro e, em proporções ain­
da maiores, a transformação do lucro em lucro médio, e dos valo­
res em preços de produção, "obscurecem cada vez mais a verda-

68 Ibid., p. 388.
69 Karl Marx, Capital, III, pp. 814ss., especialmente o trecho III, pp.
817ss.
70 Ibid., p. 826-7.
71 Ibid.
72 lbid.
73 lbid., p. 828.
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 35

deira natureza da mais-valia e, com isso, o mecanismo real do


capital".74
Finalmente, para Marx, a "ossificação" da forma da mais-valia
é finalizada na divisão do lucro em juro e lucro empresarial: "Por­
tanto, também a fórmula capital-juro, como terceiro elemento do
trinômio terra-renda e trabalho-salários, é muito mais consistente
do que a fórmula capital-lucro, já que no lucro ainda resta uma
lembrança de sua origem, que não apenas desaparece no juro, mas
também é colocada numa forma que constitui uma antítese total
a essa origem".75
Ao final desse trecho, Marx faz uma afirmação muito impor­
tante, que citamos integralmente porque acreditamos ter sido ela
insuficientemente ressaltada por outros comentaristas.

Em nossa descrição do modo como as relações de produção


são transformadas em entidades e se tornam independentes
com respeito aos agentes da produção, não analisamos a
maneira pela qual as inter-relações, devido aos preços do
mercado mundial, aos períodos de crédito, aos ciclos indus­
triais e comerciais, às alternâncias de prosperidade e crise,
chegam a parecer leis naturais esmagadoras, que se impõem
irresistivelmente como uma necessidade cega. Deixamos isso

74 lbid.; eis como Marx resume a teoria dos preços de produção: "Um
complicado processo social ocorre aqui, o processo de perequação de capi­
tais, que separa os preços médios relativos das mercadorias de seus valores,
bem como os lucros médios nas várias esferas de produção (totalmente à
parte dos investimentos individuais do capital em cada esfera particular de
produção) da exploração real do trabalho pelos capitais particulares. Não
apenas parece ser assim, como é certo, na verdade, que o preço médio das
mercadorias difere de seu valor, e portanto do trabalho realizado nelas, e o
lucro médio de um determinado capital difere da mais-valia que esse capital
extraiu dos trabalhadores que emprega. O valor da mercadoria surge, direta­
mente, apenas na influência da produtividade flutuante do trabalho sobre a
ascensão e queda dos preços de produção, sobre seu movimento e não sobre
seus limites finais. O lucro parece ser determinado apenas secundariamente
pela exploração direta do trabalho; na medida em que esta permite ao capi­
talista realizar um lucro que se desvia do lucro médio aos preços regulado­
res de mercado, que aparentemente predominam independentemente de tal
exploração em condições favoráveis, excepcionais, parece determinar apenas
os desvios do lucro médio, e não esse lucro em si" (pp. 828-9).
75 lbid. p. 829. Marx reconhece, aqui, "o grande mérito da economia clás­
sica, em ter destruído essa falsa aparência e ilusão": o "mundo modificado,
deformado, de cabeça para baixo, no qual Monsieur /e Capital e Madame
la Terre fantasmagoricamente passeiam como personagens sociais e ao
mesmo tempo, diretamente, como simples coisas" (p. 830).
36 RANIERO PANZIERI

de lado porque o movimento real da concorrência está além


de nosso campo e devemos apresentar apenas a orgarúzação
interna do modo capitalista de produção, em sua média ideal,
por assim dizer_7'6

A "objetivização" do capital na fórmula trinitária surge, as­


sim, apenas no mais alto nível de desenvolvimento capitalista
previsto por Marx. A socialização máxima do capital encontra-se
sob a forma do capital financeiro. Na expressão geral do modelo
capitalista, a concorrência é colocada de lado, mas a regulação do
processo geral de produção na esfera da circulação só é examinada
através da teoria dos preços de produção, que ainda representam
um mecanismo que opera cegamente em relação aos agentes indi­
viduais da produção, e não como um dos mecanismos reguladores
do sistema. O capitalista empresarial tornou-se "supérfluo"; em
seu lugar, encontramos funcionários produtivos, enquanto o ban­
queiro encarna a figu ra do capitalista coletivo.
Segundo Marx, historicamente falando, há uma coesão cres­
cente no sistema, que passa por várias etapas; do predomírúo do
capitalista individual, ao predomínio do capitalista como simples
acionista do capital, passando através dos preços de produção até
o aparecimento do capital social na forma financeira e a divisão
do lucro em juro e lucro empresarial. Evidentemente, em cada uma
dessas várias fases de desenvolvimento, as formas específicas as­
sumidas pela niaís-valia ( isto é, as leis do movimento do capital
roma um todo) são distintas.
Quando a lei da mais-valia funciona como um planejamento
apenas no nível da fábrica, a luta política da classe operária as­
sume essencialmente a forma de uma luta contra a anarquia na
sociedade. Como, nes1,e nível, as contradições internas do capita­
lismo na esfera da circulação ( anarquia nos movimentos recíprocos
do capital individual etc.) são estimuladas, a luta do proletariado
se realiza nessa esfera e assume, essencialmente, a forma de uma
"política de alianças".* A luta na esfera da produção direta des­
tina-se a permanecer dentro da órbita da luta "econômica", e o sin­
dicalismo é sua forma típica. Nessa perspectiva, o modelo da socie­
dade socialista é identificado com o planejamento, enquanto a�
relações sociais na esfera da produção direta, na fábrica, ficam in­
determinadas. É essa a posição do jovem Lênin que examinamos.

76 lbid., p. 831.
• A história dos vários partidos comunistas ocidentais ilustra esse ponto.
(Nota dos org.)

---
MAIS-VALIA E PLANEJAiv1ENTO 37

A própria análise que Marx faz da fábrica e da produção direta


no capitalismo é bastante rica para oferecer componentes para a
formulação de uma perspectiva socialista que não se fundamente
na base ilusória e mistificada de sua identidade com o planeja­
mento tomado em si mesmo, isto é, abstraído das relações sociais
que podem encontrar expressão em suas várias formas.
Em sua análise, Marx destrói a base de qualquer mal-enten­
dido em relação à incapacidade de planejamento do capitalismo.
Ele mostra que, pelo contrário, o sistema tende a reagir a qual­
quer contradição ou limitação de sua própria manutenção e de­
senvolvimento, aumentando seu grau de planejamento. É esse
ponto que a lei de mais-valia basicamente expressa. Marx reco­
nhece explicitamente que a abolição da velha divisão do trabalho
não é automaticamente preparada pelo desenvolvimento capita­
lista. Tudo o que é preparado, na forma antagônica do plano capi­
talista, são os "fermentos revolucionários". A caricatura capitalista
do processo de trabalho regulado não é um simples envoltório,
que se desfaz para revelar as formas da nova sociedade, já pronta
e preparada, pois o plano capitalista não é um legado que a classe
operária possa aproveitar do capital.
Não obstante, em Marx, ou pelo menos no Livro I de O Ca­
pital, predomina a dicotomia entre o planejamento na fábrica e a
anarquia na sociedade. Sempre que Marx se refere explicitamente
ao conteúdo dessa relação, ele obscurece os aspectos do domínio
capitalista derivados do uso capitalista da racionalidade, e em lu­
gar disso ressalta, e muito, a "devastação que resulta da anarquia
social". O planejamento parece deter-se no umbral da fábrica, que
continua sendo o reino fechado do processo social de produção. O
planejamento não é considerado como operativo ao nível do pro­
cesso geral; ao contrário, a esfera da circulação é seu correlato si­
métrico: a anarquia na circulação cresce com o crescimento do pla­
nejamento ao nível da produção direta. As leis que regulam o mo.
vimento dos capitais individuais e determinam o desenvolvimento
do capital social global são conhecidas pelos agentes da produção
apenas a posteriori. Elas se chocam, portanto, com as leis "racio­
nais" do planejamento. Assim, há. um nível ( a fábrica, produção
direta) no qual o capitalismo incorporou ciência e tecnologia ao
seu modo de produção, ao passo que há um outro nível (a socie­
dade como um todo) no qual o capitalismo se apresenta como
um modo de produção "inconsciente" e anárquico, à mercê dos
movimentos incontrolados da concorrência. Somente nesse segundo
38 RANIERO pANZIERI

nível o capital não pode regular os efeitos dos usos capitalistas


das máquinas. O desemprego tecnológico, os movimentos cíclicos
e as crises são fenômenos que o capital não controla, pois o mo­
vimento global do capital social é considerado apenas como o re­
sultado da interligação dos capitais individuais.
O Livro I de O Capital sugere uma identificação do socialis­
mo com o planejamento, hoje desenvolvida, teórica e praticamente,
acima e além de quaisquer rnnsiderações sobre a relação social em
que opera o planejamento. Portanto, a perspectiva de socialismo
que surge é ambígua. De um lado, o crescente comando do plane­
jamento sobre o trabalho pode levar a um confronto direto entre
o capital e a classe operária - como Marx sugere - através da
suspensão da identificação do desenvolvimento máximo das for­
ças produtivas (produção à máquina, automação, socialização do
trabalho) com o uso capitalista da tecnologia. Nessa interpretação
do desenvolvimento socialista, as partes do processo de trabalho
compatíveis com a regulação social devem ser criticamente separa­
das do nexo capitalista de tecnologia e poder. Mas, por outro
lado, a ênfase de Marx sobre a anarquia social como característica do
processo total de reprodução capitalista tende a reconsiderar o
próprio plano como um valor essencial do socialismo no choque
com o sistema capitalista.
Em O Capital, além disso, a ênfase sobre os movimentos do
capital na circulação é diferente nos diferentes estágios de desen.
volvimento. Os fenômenos típicos dessa esfera ( anarquia, flutua·
ções cíclicas etc) nunca são considerados como "catástrofes", mas
essencialmente como modos de desenvolvimento do capital. A dinâ­
mica do processo capitalista é substancialmente dominada pela lei
da concentração e centralízação. E essa dinâmica leva àquilo que
constitui, para Marx, a mais alta fase de desenvolvimento da "auto­
nomização" do capital, isto é, a fase do capital financeiro. O plane­
jamento na esfera da produção direta surge, então, como a expressão
geral (historicamente permanente e cada vez mais dominante), ao
passo que a concorrência anárquica é apenas uma fase transitória
do desenvolvimento capitalista. Assim, a maneira "ortodoxa" de
examinar a relação entre o planejamento e a anarquia é ambígua. No
entanto, o pensamento de Marx contém todos os elementos necessá·
rios à superação dessa ambigüidade.
Marx defende, em muitas ocasiões, uma teoria da "insusten­
tabilidade" do capitalismo em seu nível máximo de desenvolvimen­
to, quando as forças produtivas ''superabundantes" entram em con­
flito com a "base restrita" do sistema, e a medida quantitativa do
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 39

trabalho se torna um evidente absurdo.17 Mas essa perspectiva OO!I


remete ímediatamente a outra questão. O desenvolvimento do capi­
talismo em sua forma avançada atesta a capacidade que o sistema
possui de autolimitação, de reprodução das condições de sua sobre·
vivência pelas intervenções conscientes e de planejamento, e os li­
mites desse desenvolvimento (por exemplo, planejando o nível de
desemprego). Dessa forma, voltamos ao problema fundamental da
fase capitalista que Marx não previu, em seu nível moderno ( além
do capital financeiro), em seus pontos mais avançados. É mesmo
uma banalidade óbvia dizer que o capitalismo dos monopólios e
oligopólios não pode ser explicado pelo predomínio do capital fi.
nanceim O capitalismo planificado se desenvolve a partir do capi­
talismo não-oligopolista.
À luz desses desenvolvimentos, a "objetivização" evidente na
fórmula trinitária surge como uma forma bem menos perfeita do que
Marx pensava. Já que com o planejamento generalizado, o capital
estende a forma fundamental mistificada da lei da mais-valia da
fábrica para toda a sociedade, todos os traços das origens e raízes do
processo capitalista parecem, então, realmente desaparecer. A indús­
tria reintegra em si mesma o capital financeiro e projeta então no
nível social a forma assumida especificamente pela extorsão da mais­
valia. A ciência burguesa chama essa projeção de desenvolvimento
neutro das forças produtivas, racionalidade, planejamento. Assim,
a tarefa dos economistas apologéticos se torna um tanto mais fácil.
Como já observamos, o,; aspectos mais evidentes e irrefutáveis
da sociedade capitalista à época de Marx exerceram uma certa tira­
nia sobre seu pensamento, mas todos os aspectos contingentes do
pensamento marxista devem ser postos de lado, se quisermos apren­
der algumas de suas vigorosas sugestões com relação à dinâmica do
desenvolvimento capitalista. Acima de tudo, certos esquemas rígi­
dos, inclusive as características oriundas da noção de anarquia na
circulação, devem ser excluídos do quadro. No pensamento de Marx,
continua sendo de fundamental importância o fato de que o sistema
capitalista tem a capacidade de reagir às conseqüências destrutivas
de certas "leis", introduzindo novas leis que se destinam a garantir
sua continuidade com base na lei da mais-valia. Considerado dessa
i'
forma, O Capital oferece um modelo dinâmico geral do modo capi­
talista de produção no qual, em toda fase, contratendências que pa­
reciam estar subordinadas a outras tendências predominantes no pe­
ríodo anterior podem inverter a situação e se transformar em ten-

77 Cf. Marx, Grundrisse, op. cit., pp. 692-706. Nessas páginas, Marx exa­
mina a possib•lidade de uma passagem direta do capitalismo ao comunismo.
\ '
40 RANIERO PANZIERI

dências dominantes na nova situação. Nesse modelo dinâmico, a


única constante é a tendência ao domínio crescente do capital sobre
a força de trabalho.
Marx reconhece diferentes etapas no desenvolvimento do ca­
pitalismo. Há estágios que a análise deve distinguir sem cair no
erro "sistemático" de fixar a representação de qualquer momento
com suas leis transitórias particulares, como o "modelo fundamen­
tal" a que o desenvolvimento posterior do sistema só poderia fazer
correções mais ou menos marginais.
Na yerdade, no pensamento marxista depois de Marx houve
um momento em que o ponto de inflexão no sistema, marcado
pelo aparecimento do capitalismo monopolista em torno da década
de 1870, foi reconhecido. ( Isso nos parece, agora, ter sido um pe­
ríodo de transição com relação ao verdadeiro "ponto de inflexão",
que começou na década de 1930 e ainda continua.) Mas a análise
e a representação da nova e nascente fase foram imediatamente re­
lacionadas com as leis que esta tendia a superar, e foi portanto
interpretada como a "última fase".
A mitologia da "última fase" do capitalismo está presente em
Lênin e Kautsky - embora com funções ideológicas diferentes,
e até mesmo opostas. No caso de Lênín, serve para legitimar o
rompimento do sistema nos seus pontos menos avançados de de­
senvolvimento; no caso de Kautsky, serve para sancionar um adia­
mento reformista da ação revolucionária até "a plenitude dos tem­
pos". Como a revolução de 1917 não teve continuidade na revo­
lução nos países mais avançados, ela recuou aos conteúdos que
eram imediatiamente realizáveis ao nível do desenvolvimento da
Rússia. Parece haver em Lênin uma falta de clareza em relação à
possibilidade de as relações sociais capitalistas se encontrarem pre­
sentes no planejamento socialista. Essa falta de clareza facilitaria
mais tarde a repetição das formas capitalistas nas relaçõe�- de pro­
dução, tanto no nível da fábrica como no nível da produção
social geral - tudo isso, atrás da cortina ideológica da identifica­
ção <lo socialismo com o planejamento e da possibilídade <la exis­
tência do socialismo etn um único país.
O próprio marxismo torna-se, assim, uma forma apologética
de pensamento, ligada a uma visão formalista que se movimenta à
superfície da realidade econômíca e deixa de apreender a totali­
dade e a variabilidade interna do funcionamento do sistema.
Desse modo, as modificações no capitalismo são percebidas
em nível empírico, mas, quando se procura chegar ao nível "cien­
tífico", há um retorno aos modelos explanatórios que fazem abs-

---------------------------------------
MAIS-VALIA E PLANEJAMENTO 41

tração da situação histórica ( e, portanto, repetem paradoxalmente


o esquematismo da economia "racional" eternamente válida). Em
suma, o pensamento marxista não percebeu a característica funda­
mental do capitalismo moderno,7 8 que reside em sua capacidade de
recuperar a expressão fundamental da lei da mais-valia, isto é, o
planejamento, tanto no nível da fábrica como no nível social.

78 O planejamem.:> autoritário como expressão fundamental da lei da mais­


valia (bem como sua tendência a estender-se à produção social geral) é
intrínseco ao desenvolvimento capitalista. Na fase atual, esse processo sur­
ge com maior clareza, como traço distinto das sociedades capitalistas, e em
formas irreversíveis. É claro que isso não significa que a "última fase" do
capitalismo esteja sendo realizada hoje. Entre outras coisas, a proporciona­
lidade controlada entre a produção e o co nsumo é ainda efetuada com ins­
trumentos de aproximação; e o que é mais importante, ainda é feita num
contexto nacioHal ou num contexto internacional limitado, e pelos países
mais avançados com base na produção de bens de consumo duráveis. Em
outras palavras, é feita dentro de limites insuficientes.
/ ALFRED SOHN-RETHEL

A Economia Dual da Transição

Considero enganosa a opinião habitual de que o mundo de hoje


está dividido entre o "campo capitalista" e o "campo socialista",
com o Terceiro Mundo indeciso e dividido entre eles. Acho que
todas as partes do mundo atual são sociedades em transição, tanto
os países capitalistas avançados como os países socialistas e os
outros, embora a transição esteja em diferentes fases e se processe
sob diferentes formas. Pretendo, ne�te trabalho, concentrar-me
principalmente no capitalismo avançadç,', onde o processo de tran­
sição originou-se. Referindo-se ao capitalismo monopolista, Lênin
afirma o seguinte, em seu estudo sobre o imperial.ismo: esse "novo
capitalismo tem as características óbvias de algo transitório. Surge
naturalmente a pergunta: a que está levando esse capitalismo novo,
'transitório'? No entanto, os estudiosos burgueses têm medo de
levantar essa questão". Eu a retorno, e tts:ntarei levá-la além do
ponto em que Lênin a deixou.
Por sociedades em transição entendo sociedades sob o impacto
de duas leis econômicas diferentes e heterogêneas. Não fab de uma
"economia mista", na qual elementos contrastantes como a concor­
rência e o monopólio, a empresa privada e a públirn, o setor pla­
nificado e o não-planificado, etc., são considerados como coexis­
tindo sob uma lei da teoria econômica. Falo da economia dual,
acreditando, por conseguinte, que a sociedade capitalista em sua
fase avançada encontra-se sob a ação simultânea de duas leis eco­
nômicas contrastantes e incompatíveis - uma lei e uma contra-lei
-, sendo uma delas a lei econômica da apropriação privada, e a
outra a lei econômica produzida pela crescente socialização do tra­
balho num ponto definido de seu desenvolvimento.
Essa dualidade econômica marca uma modificação crucial nas
condições do capitalismo, em comparação com o sistema clássico de
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 43

livre concorrência. Creio que nessa época o processo de reprodução


do capital podia ser considerado como idêntico ao processo de re­
produção da própria sociedade. A modificação em questão ocorreu
em conseqüência da sobrevivência do capitalismo, que resistiu à
Grande Depressão ( 1874/5-1895/6), ocasião na qual, em benefí­
cio da sociedade, deveria ter sido abolido. A partir da passagem do
século, em termos gerais, a socialização progressiva do trabalho en­
trou em conflito econômico com o sistema da apropriação privada
que Marx e Engels haviam previsto e que Lênin destacou.
Neste ,�rabalho, defendemos a tese de que
( a) no capitalismo monopolista a reprodução do capitai se
separa da reprodução da sociedade e prejudica, cada vez mais, a
sobrevivência dessa sociedade;
( b) a lei econômica específica de um modo socialista de pro­
dução já opera dentro do capitalismo, talvez de uma forma adulte­
rada e irreconhecível;
( c) essa nova lei econômica tem raízes no processo de tra­
balho da moderna produção mecanizada de massa, e
(d) pode ser definida com precisão suficiente para nos aju·
dar a compreender a dialética da transição na qual a sociedade
atual está convulsionada.

1. A Importância Fundamental do Processo de Trabalho da


Produção
Marx, em sua crítica da economia política, vê a produção capita­
lista sob dois aspectos distintos: o do seu processo de trabalho
( Arbeitsprozess), representando a relação prática entre o homem
e a natureza como determinada pela fase específica do desenvolvi­
mento das forças produtivas; e o do seu processo de obtenção de
lucro para o proprietário capitalista (Verwertungsprocess). 1 O
segundo aspecto relaciona-se com a economia capitalista enquanto
sistema de relações de produção requerido pelas condições do pro­
cesso de trabalho. Sob o seguinte aspecto, a própria economia da
apropriação privada, através de sua natureza concorrencial intrín­
seca, se vofoa sobre as condições de produção impondo-lhes um
desenvolvimento no sentido de uma crescente socialização do tra­
balho. No curso dessa interação, as relações sociais de produção se
modificam, dando lugar às necessidades emanadas da evolução
progressiva do processo de trabalho da produção. Assim, os impul-
1 Uso a palavra "luc,o" em lugar da expressão correta, "mais-valia", com
o único propósito de urna redação mais conveniente. No contexto deste
trabalho, tal inexatidão não tem irnpo<rtância.
;/
1

44 ALFRED SoHN-RETHEL

sos básicos e decisivos à mudança social devem ser considerados


como oriundos, não da economia do processo de obtenção de lucro,
mas dos desenvolvimentos do processo de trabalho sob o impacto do
processo de obtenção de lucro; ou oriundos, na verdade, da eco­
nomia da obtenção do lucro, mas apenas indiretamente, e através
de modificações que ocorrem no processo de trabalho da produ­
ção. Com esse método marxista de compreensão materialista da
história, aprendemos a ver a modificação forçosa do sistema capi­
talista de apropriação privada em sua "transição para alguma
outra coisa". Em outras palavras, aprendemos a ver a "crítica da
economia política" como um processo vivo na história que cons­
titui um processo essencial, st1bjacente às aparências desorientado­
ras dos "fatos".
De modo geral, a teoria econômica se desenvolve nos dois
níveis, como parte da essência e como parte da aparência. Vista
como a economia das relações sociais de produção determinadas
pelas condições materiais do processo de trabalho, ai economia
constitui a "base econômica" da sociedade, sua economia formans,
por assim dizer. Mas como economia operada pelos apropriadores
privados que visam ao lucro, agindo segundo as necessidades da
economia formans, a economia constitui, pelo contrário, uma
mera economia formata, a parte mais enganosa das aparências. Se,
portanto, ao estudar o capitalismo monopolista e o imperialismo, a
causalidade subjacente, empiricamente não-evidente, das modifica­
ções no processo de trabalho for negligenciada e posta de lado,
levando a economia da obtenção de lucro a assumir então o lugar
de causalidade primária, podemos ser vítimas das aparências da
economia formata.
Na superfície das coisas, as duas leis econômicas distintas,
cuja operação dual está subordinada ao estado transitório da socie­
dade, são evidentes na forma da economia de mercado tradicional
da apropriação privada, de um lado, e da chamada "administração
científica", do outro. A administração cientJífica constitui um exem­
plo flagrante da economia formata pelo fato de que o seu propó­
sito é a subordinação do moderno processo de trabalho aos requi­
sitos da obtenção privada de lucro, de tal forma que a simples
possibilidade de haver alguma coisa essencialmente diferente em
sua matéria de estudo não fa2 parte de sua visão. Para detectar a
economia formans encerrada no moderno processo de trabalho, é
necessário remontar às origens das novas disciplinas administrati­
vas e estudar a obra de Frederick Winslow Taylor, que é reco­
nhecido como o seu fundador. A fim de podermos dispor de duas
expressões converúentes para falar dos sistemas econômicos duais
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 45

que coexistem no capitalismo avançado de hoje, escolhi o termo


"economia de planta" - planta no sentido de fábrica etc, como
unidade de produção - em oposição à "economia de mercado"
como o sistema da apropriação privada.2
O primeiro trabalho de F. W. Taylor foi A Piece Rate Sys­
tem, being a step towards partia! solution of the labour problem,
lido em 1895 perante a American Society of Mechanical Engi­
neers.8 Foi a primeira apresentação pública da importante obra à
qual ele se dedicava, e cujos resultados só surgiram em 1906, sob
o título de The Art of Cutting Metais, publicação muito meticulosa,
dividida cm 1198 parágrafos e suplementada por 24 diagramas e
imerecidamente esquecida. Os únicos escritos de Taylor ainda
mencionados são seus dois livros mais populares, Shop Manage­
ment ( 1903) e Principles of Scientific Mana,gement (1911). A
investigação pioneira de Taylor deve ser compreendida no contexto
em que nasceu, nas condições específicas da Grande Depressão,
da "faminta década de 1880", fruto de mais de 20 anos de impasse
e de estagnação econômica quase ininterruptos, de desemprego em
massa comparável ao da década de 1930, de marchas e manifesta­
ções provocadas pela fome, de motins e greves, de crescente agita­
ção revolucionária, momento em que o socialismo tornou-se, pela
primeira vez, a palavra-chave de amplos movimentos políticos que
resultaram na fundação dos primeiros partidos socialistas e social­
democráticos de massa, acompanhados pela organização dos tra­
balhadores não-qualificados e semi-qualificados num novo tipo
de sindicato. Parecia que os traços mais sombrios do quadro que
Marx pintou da iminente "expropriação dos expropriadores" se
tornaram realidade, destacando-se a queda paralisante da taxa de
lucro, causa básica de todo o problema, experimentada mais aguda­
mente nas indústrias pesadas, como as do ferro e aço, onde Taylor

2 A expressão "economia política" é inadequada para meus objetivos por­


que só se aplica ao sistema clássico da economia capitalista, tal como foi
definido. Somente adotando o diferente âmbito metodológico da ''economia
pura" desde a década de 1870, o pensamento econômico burguês segue o
exemplo da transformação histórica e desiste da pretensão de validade social
objetiva que marcou o sistema clássico dos fundadores.
� 1

a Nesse mesmo ano ocorreu a reveladora conversa de Ceei! Rhodcs com


Wickham Stead, citada por Lênin em seu "Imperialismo", e que, pela signi­
ficação do paralelo, desejo lembrar aqui: "Eu estava no East End, cm Lon­
dres, ontem, e compareci a uma reunião de desempregados ( ... ) os discur­
sos violentos ( ... ) eram apenas um grito de 'pão', 'pão', 'pão', e ao voltar
para casa refleti sobre a cena e senti-me mais convencido do que nunca da
importância do imperialismo (. .. ) Se vocês querem evitar a guerra civil,
têm de se tornar imperialistas".
46 ALFRED SoHN-RETHEL

trabalhava. Havia uma necessidade manifesta e imperativa de duas


coisas: primeiro, expansão dos mercados e abertura de novos ter­
ritórios, isto é, uma saída para o imrerialismo posto em prática
pelas ricas n11ções credoras européias; e, segundo, um aumento
substancial na taxa de exploração do trabalho no processo de pro­
dução das indústrias nas metrópoles, saída essa que se fazia ainda
mais necessária num país na situação dos Estados Unidos, na época
ainda uma nação devedora, mas em pleno processo de industria­
lização e onde predominava o mais alto nível salarial do mundo.
No curso subseqüente dos acontecimentos, essas duas providências
combinadas mostraram-se indispensáveis para manter o capitalismo
vivo, particularmente depois da Primeira Guerra Mundial, quando
os Estados Unidos se transformaram na mais importante potência
capitalista credora e os debilitados países europeus sentiram-se
pressionados a adotar os métodos de produção mecanizada de mas­
sa, sobretudo a Alemanha que, devido à derrota na guerra, foi
transformada em país devedor. Entretanto, mesmo quando postas
em prátlica em conjunto e apesar de ambas terem a mesma impor­
tância essencial na constituição do capitalismo monopolista, as
duas linhas d<." desenvolvimento - a dinâmica externa do imperia­
lismo e a pressão interna da exploração do trabalho - possuem
significados e conseqüências econômicas e políticas distintas, e
atraíram graus de atençfo muito diferenciados da parte dos pen­
sadores marxistas. Enquanto o imperialismo foi estudado por nu­
merosos autores, a começar por Hilferding, Rosa Luxemburg e
Lênin, seguidos de Fritz Sternberg e Henryk Grossmann, até Paul
Sweezy e Harry Magdoff, o estudo do avanço correspondente da
exploração capitalista do processo de trabalho ficou quase que to­
talmente a cargo dos especialistas burgueses e dos estudiosos da
"administração científica".

2. Socialização Estrutural do Trabalho


A pedra angular da administração científica é o estudo das opera­
ções sob o ponto de vista de tempo e de movimento, técnica usa­
da pela primeira vez, e institucionalizada, por Taylor. Diz ele: "O
que o autor deseja ressaltar em especial é que todo esse sistema se
baseia no estudo preciso e científico de unidades de tempo, que
são, de longe, o elemento mais importante na administração cientí­
fica" (Shop Management, p. 58 ). O estudo do tempo e do mo­
vimento cria um princípio metódico e definido a ser usado na prá­
tica, subjacente à tendência secular de socialização crescente do
trabalho na produção capitalista. Certas operações manuais são
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 47
analisadas e decompostas em seus menores e mais simples elemen­
tos de movimento. Gilbreth, um dos assistentes de Taylor, levou
esse princípio ao limite máximo, defendendo a existência de algo
semelhante a um átomo de trabalho manual, o "therblig", um
fragmento absolutamente simplificado do trabalho, a partir do qual
se poderia construir as formulações elementares das operações reais,
por meio de uma "contagem sintética do tempo". Essa colocação
não tinha maior importância prática, mas pretende mostrar que
a essência de toda a técnica tinha por objetivo encontrar uma ma­
neira de quantificação econômica direta do tempo de trabalho hu­
mano. "Economia de tempo: é nisso que se baseia, em última aná­
lise, toda a economia", diz Marx no Grundrisse ( ed. Dietz-Verlag,
p. 89). Os padrões de medida do tempo de trabalho humano no
taylorismo são derivados da parte mecânica e tecnológica das ope­
rações em questão. Sempre que uma tarefa de estudo do tempo e
do movimento é realizada com êxito, o resultado é uma fusão de
tecnologia e trabalho, de tal modo que os movimentos da máquina
são medidos em termos de trabalho, e os movimentos do trabalho
em termos da máquina. O princípio operativo do estudo do tempo
e do movimento é a unidade da medida do trabalho e da maqui­
naria em sua aplicação produtiva. É o princípio da socialização es­
trutural do trabalho, o que significa que a socialização do trabalho,
partindo de uma simples gradação em menor ou maior, ganhou a
qualidade de uma nova lei econômica. Isso aconteceu em conse­
qüência do fato d.e a socialização do trabalho ter atingido um
ponto em que a reintegração do trabalho atomizado nos processos
de produção segue leis econômicas próprias, não resultantes dos
padrões de valor da troca de mercadorias.
A atomização medida do trabalho deu origem à organização
da produção em massa nas linhas de fluxo contínuo.4 Díferentes
recursos técnicos podem servir a esse objetivo, e um dos mais
simples, a correia de transmissão, pode ser usado para demonstrar

• "A máquina coletiva (die kombinierte Arbeitsmachine), hoje um sistem11


organizado de vários tipos de máquinas isoladas, e de grupos de máquinas,
' 1 torna-se cada vez mais perfeita à medida que o processo, como um todo,
se torna contínuo, isto é, quanto menos a matéria-prima é interrompida na
passagem da primeira para a última fase". . . (Capital I, p. 376, Moore/
Aveling, 1943). Seria interessante verificar por que e onde esse conceito
marxista da produção capitalista como um processo contínuo difere do pro­
cesso contínuo da produção em massa iniciada por Ford em 1922, e por que
este último, e não o primeiro, implica a operação de uma nova lei econômi­
ca calculada para, a princípio, pertuTbar e, finalmente, suplantar o sistema
da economia de mercado.
48 ALFRED SOHN-RETHEL

os princ1p10s que se aplicam a todos os demais. Uma correia de


transmissão opera entre diversas máquinas-ferramentas colocadas
em linha, de acordo com a seqüência das operações parciais realiza­
das na manufatura de uma série de produtos do mesmo tipo. A
contribuição essencial feita pela correia de transmissão é a fixação
de um padrão comum de ritmo a todas as operações parciais, ou
a seus elementos manuais. As diferentes operações manuais em
questão se tornam, com isso, comensuráveis, exceto pelos padrões
difere.rtes para elas estabelecidos pelas máquinas em que são exe­
cutadas. Essa diferença é eliminada pela introdução da correia de
transmissão, impondo a subordinação da velocidade de trabalho
de cada máquina ( que deve ser planejada de forma a permitir essa
subordinação) ao seu próprio ritmo uniforme. Em conseqüência,
a correia de transmissão proporciona um denominador comum para
a eficiência econômica das operações parciais. A razão da significa­
ção econômica inerente à sua função reside na combinação de má­
quina e trabalho efetuada pela correia, na ligação das funções ma­
nuais dos trabalhadores com as funções da máquina, com base na
unidade de medida de ambas. É claro que esse efeito não é imagi­
nado teoricamente antes de ser colocado em prática. Muito pelo con­
trário. O lugar da correia de transmissão é estabelecido de uma forma
pragmática, puramente fatual, sujeita à tentativa e ao erro. Em
comparação com as operações parciais realizadas separadamente,
independentemente da correia de transmissão e antes de sua intro­
dução, por assim dizer, o ritmo dos melhores é demasiado rápido
para alguns, demasiado lento para outros, aleatoriamente justo para
uns poucos. A igualdade de ritmo imposta pela correia recai sobre os
trabalhadores como um fato consumado.
Atribuo grande importância a essa imposição como fato con­
sumado porque ela é da mesma na,oureza que tem a função do pro­
cesso de troca de mercadorias, em efetivar uma medida do trabalho
gasto na feitura dessas mercadorias. Esse trabalho, em contraste com
o trabalho socializado na moderna produção de massa, é individual,
realizado separadamente em processos de produção que não se
relacionam mutuamente. Para que a sociedade seja operativa numa
base de produção como essa, a falta de elos na produção tem de
ser compensada por algum sistema de comunicação, cm termos de
propriedade, entre todas as pessoas enquanto proprietários priva­
dos. Aqui, a socialmente indispensável quantificação e medida do
trabalho e do tempo de trabalho ocorrem indiretamente e não em
termos do trabalho, mas em termos da enigmática categoria do
valor, que em si mesma é uma criação do processo de troca em
sua capacidade socialmente sintética. Tudo isso, em suas implica-

J
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 49

ções e conseqüências de grande alcance, foi explicado e explorado


por Marx. Minha sugestão, aqui, é que, como resultado do grau
de socialização do trabalho provocado pela concorrência capitalista,
a produção moderna recebeu, sob a mera instigação do interesse no
lucro privado, uma organização que tem uma conformidade estru­
tural com o trabalho socializado. Essa estrutura é, em muitos casos,
caracterizada por métodos de produção em fluxo contínuo, mas
permite também ambos os procedimentos de organização. Funda­
mental a essa estrutura é uma direta quantificação e mensuração
do trabalho efetuado no processo de trabalho da produção, e em
seus próprios termos. É uma medida não do trabalho em si, mas
do trabalho em conjunto com a tecnologia - e dela dependente -
com a qual se combina na produção, e em resposta à fórmula da
unidade de medida das funções humanas e tecnológicas em sua
aplicação produtiva combinada. Essa fórmula permite o uso da au­
tomação. Desde que as seções automatizadas se correlacionem -
como necessariamente deve ocorrer - com os processos combina­
dos de trabalho e maquinaria, dentro de um âmbito maior de pro­
dução, as seções automatizadas partilham da medida de tempo co­
mum a todas. Essa medida de tempo comum, que serve de base
à organização da produção moderna pelo trabalho socializado, tem
a força de uma lei econômica. De fato, ela é sua lei econômica. O
âmbito dessa lei está ainda limitado a fábricas isoladas, ou a com­
plexos de fábricas sob um mesmo controle financeiro. Mas não há
razão para que não sirva também de base econômica reguladora
da organização de toda a produção social dentro das linhas da so­
cialização do trabalho, pelo simples fato de que sua abstração total
- implicando pouco mais do que a unidade da síntese dos acon­
tecimentos no tempo - poderia aplicar-se a objetivos de uma ex­
tensão praticamente ilimitada. Essa aplicação, porém, pressupõe a
abolição do sistema capitalista, ou de qualquer outro sistema de
economia de mercado, que obedeça ao padrão de valor da comen­
surabilidade do trabalho. Os dois padrões são mutuamente exclu­
sivos e não podem ser aplicados, lado a lado aos mesmos fenômenos.
Uma fábrica organizada segundo os princípios do fluxo con­
' J
tínuo deve seguir regras próprias de desenvolvimento. Quaisquer
desigualdades, paralisações e engarrafamentos no fluxo da produ­
ção prejudicam seu funcionamento econômico. Se ela for adminis­
trada como empresa privada, o gerente de produção dirá ao diretor
que o capital investido na fábrica está sendo desperdiçado. Para a
maximização do lucro, é necessário obter dinheiro para eliminar as
desigualdades. Em conseqüência, a capacidade de produção da fá­
brica aumentará. Como essa fábrica ainda opera no capitalismo, o
50 ALFRED SOHN-RETHEL

valor do produto depende de sua comercialização. Mas entre o au­


mento da produção e a capacidade dos mercados não existe uma
correlação intrínseca, já que são governados por leis econômicas
de natureza heterogênea, uma relacionada com o trabalho socia­
lizado e a outra, por sua origem, com o trabalho individual; uma
como uma lei do processo Je trabalho, e a outra como uma lei das
relações de propriedade. Se a capacidade do mercado for inadequa­
da, o proprietário capitalista da fábrica corre o risco de perder na
economia de mercado o que ganhou na economia de produção.
Para evitar isso, tem de reduzir o preço, ou limitar a produção de
sua fábrica modernizada. Evidentemente, a primeira solução não
lhe evitará a perda, como também não a evitará a segunda, pois
encontramos no caso as peculiaridades da economia da nova fábrica
Quanto mais uma fábrica moderna for utilizada abaixo de sua ca­
pacidade, maiores serão os custos unitários de sua produção, e
isso coincide com a necessidade de reduzir os preços e diminuir os
custos para atender a uma demanda insuficiente, ou em retração,
no mercado. A economia da fábrica moderna tornou a prodm;ião
madaptável aos postulados da economia de mercado. Eis, em sín­
tese, o efeito da coexistência das duas . teorias econômicas hetero­
gêneas. A economia de mercado perdeu sua capacidade de regular
a produção social, mas_ a continuação de sua existência impede que
a moderna lei de produção se torne o elemento regulador da eco­
nomia social. Em conseqüência, o aspecto econômico da reprodu­
ção social fica sem qualquer regulador efetivo, ou, em outras pa­
lavras, a sobrevivência social está ameaçada. A discrepância entre os
novos aspectos econômicos da produção e os velhos aspectos eco­
nômicos das necessidades do mercado deve ser solucionada por
meios artificiais. Ê isso que está na raiz do planejamento privado
como uma estratégia indispensável da empresa moderna de grande
porte. É um remédio que não erradica a discrepância subjacente;
ao contrário, apenas permite que ela aumente. Inclino-me a consi­
derar a dualidade dos dois aspectos econômicos como a raiz do
capitalismo monopolista, desde seu início. A produção que não
pode, por motivos estruturais, obedecer às regras do mercado sem
uma perda indevida, deve, necessariamente tentar obter o controle
dos mercados. A inadaptabilidade e a inflexibilidade da estrutura
de custos da produção desenvolveram-se gradualmente, talvez len­
tamente a princípio, muito antes de ter chegado à fase marcada
pelo taylorismo e pela produção mecanizada de massa, analisada
anteriormente. Desenvolvem-se, tal como Lênin descreveu, como
uma função da crescente composição orgânica do capital.

J
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 51

Examinando a natureza transitória da moderna sociedade capi­


talista do ângulo de uma perspectiva histórica mais ampla, e con­
trastando a substância das duas teorias econômicas em questão, de­
vemos ter uma visão em maior profundidade. Elas devem ser vistas
como formas diferentes de síntese social. Trata-se de um conceito
metodológico relacionado com a conexão existente entre a base eco­
nômica de uma determinada sociedade, sua economia formans, e as
formas de comciência a que dá origem. 5 A palavra síntese é usada
aqui livre de todas as implicações de harmonia. Até mesmo a anar­
quia capitalista da livre concorrência e das relações de classes anta­
gônicas requer um elemento de coerência funcional como precondi­
ção de sobrevivência social. A operação de funções socialmente sin­
téticas constitui seu nexo. O conceito de síntese social serve sim­
plesmente para indicar esse elemento formativo, sendo indispensá­
vel para se identificar na produção de mercadorias ( simples ou c a,
pitalista) a raiz genéoica e formativa da separação entre trabalho
intelectual e trabalho manual.
Em termos gerais, as formas socialmente necessárias de pen­
samento de qualquer época são deduzíveis das funções da sínte·se
social dessa época. Até mesmo as sociedades alienadas, baseadas
na produção de mercadorias, criam, por meios sinuosos mas c lara,
mente perceptíveis, seus modos de pensar socialmente necessáríos,
modos de um pensamento que funciona corretamente, mas com uma
falsa consciência.6 Dado que a síntese social na produção d e mer­
cadorias ocorre não pela ordem do processo de trabalho, mas em
conseqüência de uma atividade distínta e separada dele ( a ativi­
dade de troca enquanto apropriação recíproca do produto do traba­
lho de outros), o pensamento socialmente necessário encontra-se
por sua própria constituição, irremediavelmente separado da at1v1-
dade física. Chegamos assim à distinção fundamental entre sacie-

5 Para maiores,detalhes, remeto o leitor ao meu livro Geistige und korper­


liche Arbeít, zur Theorie der gesellschaftlichen Synthesis, Suhrkampf, 2.ª ed.,
1972.
6 Tendo raízes na síntese social, as formas necessárias de pensamento são
sociais; de fato, são formas de socialização do pensamento. A medida de
socialização determina a independência lógica do pensamento, sua relação
com a verdade objetiva. Mas a independência é a do pensamento individual!
É exatamente porque a constituição do pensamento é social (determinada
pela síntese social predominante) e não individual (não determinada pela
partícula com que o indivíduo contribui para o produto social) que o pen­
samento encerra autoridade lógica: está investido no ego cogito. Partindo
desse paradoxo, pode-se avaliar a profundidade e complexidade da falsa
consciência que necessariamente se deve associar às formas de pensamento
numa sociedade que cega o indivíduo quanto à sua origem.
52 ALFRED SoHN-RETHEL

dades de apropriação e sociedades de produção, dependendo de a


sua síntese basear-se em atos de apropriação ( que, por sua vez,
podem ser recíprocos ou unilaterais) ou no processo de trabalho da
produção. Desde o desaparecimento do comunismo primitivo { que
é um conceito de realidade problemática) a humanidade vivenciou
1
:,
\i'
uma variedade inesgotável de sociedades de apropriação. Todas elas
são sistemas de exploração econômica, de antagonismo social, e de
divisão entre trabalho intelectual e manual. O capitalismo é a úl-
tima delas, sua forma superior. 7 As sociedades de produção, pelo
contrário, são sociedades sem classes, baseadas numa ordem de
cooperação comunal de seus membros na produção social, mas exi-
gem necessariamente a unidade indivisível do trabalho intelectual
e manual. Essa unidade só pode ocorrer se o trabalho manual atin-
gir um grau e uma estrutura de socialização tal que possa encontrar
um nível comum com o trabalho intelectual, em termos da socia-
lização universal. Se bem entendida, a fórmula da unidade de me-
dida do trabalho e maquinaria em sua aplicação produtiva apre-
senta exatamente essa promessa de uma comunidade de termos com
a ciência, da gual toda a maquinaria ao estilo moderno é, afinal
de contas, a formulação tecnológica.
Todavia, essa fórmula, e a lei econômica que emana da socia­
lização esnrutural do trabalho, é apenas uma condição necessária,
e não suficiente, para que se torne possível uma sociedade sem
classes. As fábricas e usinas do trabalho socializado ainda estão
firmemente sob controle capitalista, e operam tendo em vista o lu­
cro privado. Vista de um ângulo burguês, sob as categorias da eco­
nomia capitalista de mercado, a economia fabril do trabalho socia­
lizado assume o aspecto de "administração científica" ou de "ciên­
cia econômica administrativa". De um ponto de vista socialista, é

7 É essencial compreender a dependência em que o capitalismo se encon­


tra da divisão entre cabeça e mão, além da propriedade privada dos meios
de produção. Um controle capitalista da produção seria uma impossibilidade
total, se o domínio da tecno[o,gia da produção fosse proporcionado pelos tra­
balhadores. O capitalismo pressupõe um conhecimento fidedigno da natureza
a partir de fontes outras além do trabalho manual. Kant perguntou como
esse conhecimento· era intrinsecamente possível, e respondeu de uma ma·
neira que postula a necessidade inalterável da divisão entre cabeça e mão
(como variante da divisão econômica de classes). Isso fez dele o fundador
da epistemologia filosófica. Sua resposta (e todas as respostas epistemológi­
cas) é, porém, insustentável também no terreno ló gico. Só o marxismo pode
oferecer uma resposta correta. Na realidade , a teoria materialista da síntese
social é calculada criticamente para suplantar a teoria idealista da 5íntese
transcendental, suplantando com isso o conceito fetichista e pistemológ ico do
"conhecimento" pelo conceito histórico da divisão entre cabeça e mão. ._:,
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 53

necessária uma crítica da administração científica para a nossa época


de transição, não diferente da crítica feita por Marx da economia
política para a época clássica do capitalismo.

3. Crítica da Administração Científica


Dentro dos limites de um breve artigo, a administração científica
capitalista só pode ser examinada nuns poucos aspectos de signifi­
cação essencial. A exposição mais clara encontra-se nos principais
escritos do próprio F. W. Taylor. Porém, seu testemunho pode
ser posto de lado pelos porta-vozes atuais da matéria, sob a alega­
ção de que o taylorismo é um sistema do passado, há muito supe­
rado por diversos métodos e princípios e de que as ciências da fi­
siologia, psicologia, sociologia, etc., passaram a influir na adminis­
tração para torná-la verdadeiramente científica, especialmente em
sua preocupação pelo "fator humano", ignorado e negligenciado por
Taylor. Essa colocação é correta: em sua concepção básica, inspi­
rado pela preocupação aberta e indisfarçada de aumentar o máxi­
mo possível a taxa de exploração do trabalho, o taylorismo desper­
tou a oposição e a aversão dos trabalhadores em proporções que
ameaçavam, pelo menrn; a longo prazo, derrotar seus próprios ob­
jetivos. O taylorismo teve de sofrer consideráveis modificações e
uma cuidadosa moderação para se tornar realmente viável. Mas o
sistema aplicável era e continua sendo taylorismo, se o entender­
mos tal como é definido pelos princípios expostos nos seguintes
trechos de seus escritos, em primeiro lugar de sua obra principal,
The Art of Cutting Metals.

No outono de 1880 os mecamcos na pequena oficina mecâ­


nica da Midvale Steel Company, em Filadélfia, que em sua
maioria trabalhavam por tarefa, torneando rodas de locomo­
tivas, eixos de carros e diversas peças forjadas, combinaram
fazer apenas um certo número de peças por dia, em cada tipo
de trabalho. O autor, que era o novo supervisor da oficina,
compreendeu ser possível aos homens fazerem, em todos os
casos, muito mais trabalho por dia do que estavam fazendo.
Verificou, porém, que seus esforços para levar os homens a
aumentar a produção estavam bloqueados pelo fato de que
seu conhecimento da combinação de profundidade de corte,
alimentação e velocidade de corte que poderia realizar, em
cada caso, o trabalho no mais curto tempo era muito menos
preciso do que o dos mecânicos que se haviam organizado
contra ele. Sua convicção de que os homens estavam fazendo

(
54 ALFRED SOHN-RETHEL

a metade do que deviam, porém, era tão grande que obteve


permissão da administração para realizar uma série de expe­
r; �ndas para investigar as leis do corte de metal com o obje.
tivo de obter um conhecimento pelo menos comparável ao
dos mecânicos que estavam sob sua direção_ Esperava que
essas experiências não durassem mais de seis meses.

Em lugar de seis meses, porém, sua investigação exigiu-lhe 26


fil10S

Um estudo das recomendações feitas neste artigo ilustram


o fato de que propomos retirar todas as decisões e planeja­
mentos importantes que afetam vitalmente a produção da ofi­
cina das mãos dos trabalhadores e centralizá-los nuns poucos
homens, especialmente treinados na arte de tomar essas de­
cisões, e fazer com que sejam executadas, tendo cada um de­
les uma função particular na qual é especialista, e não inter­
ferindo com as funções dos outros homens ( seção 124).

Embora as experiências tenham resultado em muitas desco­


bertas e invenções valiosas ( por exemplo, os aços auto-endureci­
dos e novos desenhos para as máquinas-ferramentas), "conside­
ramos de longe como mais valiosa aquela parte de nossas expe­
riências e de nosso trabalho matemático que resultou no desen­
volvimento da régua de cálculo", que permite aos capatazes, sem
consultar os trabalhadores, "fixar uma tarefa diária com uma mar­
gem de tempo definida para cada trabalhador que se ocupa de
uma máquina-ferramenta, e pagar aos homens um prêmio pelo tra­
balho rápido" ( seção 51 ) - uma régua de cálculo que " serve
para determinar os efeitos que cada uma de 12 variáveis tem so­
bre a escolha da velocidade de corte e alimentação" ( seção 6), e
aínda: "a vantagem dessas réguas de cálculo é muito maior do
que a de todos os outros melhoramentos combinados, porque atin­
ge o objetivo original dessas experiências iniciadas em 1880, isto
é, retirar o controle da oficina das mãos de muitos trabalhadores,
e colocá-lo totalmente nas mãos da administração, substituindo
.assim a "regra prática" pelo "controle científico" ( seção 5 2 ) . "Pe­
lo nosso sistema, o trabalhador é minuciosamente informado do
que deve fazer, e como fazer; e qualquer melhoramento que faça
em relação às ordens é fatal para o êxito" ( seção 118) _
No final de seu trabalho, Taylor ressalta que "não foi subes­
timada a dificuldade do ( e a resistência ao) uso das réguas de
cálculo. Acrescenta, porém, que considera a administração das tare-
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 55

fas como tão importante, tanto para os trabalhadores, cujos salá­


rios aumentam, tornando com isso as greves e os problemas traba­
lhistas desnecessários, como para os industriais, porque intensifica
e barateia a produção", que dedicou o restantJe de seus dias a aju­
dar a colocar em prática sua concepção da administração ( seção
1.197).
A vantagem e a novidade cruciais que ele reivindicou para seu
sistema de administração consistiam em tornar o aumento dos lu­
cros para o industrial compatível com um aumento dos salários
para os trabalhadores. Segundo suas próprias palavras, "os altos
salários e o baixo custo do trabalho não só são compatíveis, como
na maioria dos casos estão mutuamente condicionados" (Shop Ma­
na,gement, pp. 21-22). E por isso que ele viu no seu sistema "uma
solução parcial do problema do trabalho", e em 189 5 expressou
até mesmo a esperança de que contribuísse para a eliminação do
ciclo econômico, libertando assim o capitalismo de seus <lois piores
males. Quando Ford desenvolveu ainda mais o taylorismo no pro·
cesso contínuo de produção mecanizada em série, essas reivindica­
ções ressoaram por todo o mundo capitalista, no apressado impulso
de racionalização da Grande Prosperidade de 1921-1929. Mas seria
injusto culpar apenas o taylorismo por essas exuberâncias. A argu­
mentação coerente, em seu trabalho de 1895, se faz em termos da
economia dos custos fixos ou indiretos e da inflexibilidade resul­
tante de uma alta composição orgânica do capital, isto é, a causa
básica do capitalismo monopolista. "As despesas indiretas igualam
ou excedem os salários pagos diretamente" e "permanecem apro­
ximadamente constantes quer seja a produção ( ... ) grande ou pe­
quena"; portanto, o fator econômico operacional é "o efeito que
o volume da produção tem sobre o custo" (seção 37, A piece rate
system ... , cf também o debate entre F. A. Halsey e Taylor). Em
outras palavras ,. a consideração determinante tem como foco o grau
de utilização da capacidade de uma determinada fábrica, e não os
índices salariais. Os salários são avaliados em relação à produção,
isto é, como salários de incentivos. Até mesmo "os salários extra­
ordinariamente elevados" reduzirão o custo do trabalho, se estimu­
larem um aumento de produção. Os exemplos dados por Taylor em
Shop Management mostram aumentos na produção dos trabalhado­
res até de 300% e mesmo 400%, em relação a um aumento sala­
rial de 60% ! Sendo a inflexibilidade dos custos também o princi­
pal elemento em favor do monopolismo, torna-se evidente a razão
pela qual o taylorismo tem suas raízes no capitalismo monopolista.
A casualidade não termina aqui. O taylorismo age também sobre o
monopolismo, como a situação do próprio Taylor mostra. Depois
56 ALFRED SOHN-RETHEL

de três ou quatro anos de trabalho na Midvale Steel Co., ele trans­


feriu sua atividade para a Bethlehem Steel Co., onde reorganizou
totalmente o sistema de administração; posteriormente esta última
forçou uma fusão com a primeira, surgindo daí a United Steel Co.,
a maior do gênero nos Estados Unidos. Assim, o taylorismo contri­
buiu para intensificar o estímulo ao monopo1ismo.
Em seu livro Shop Management, Taylor oferece ainda um ou­
tro ponto de interesse ao ressaltar que seu sistema "visa a estabele­
cer uma divisão nova, e 6::istante clara, entre o trabalho intelectual
e manual, em todas as fábricas". A unidade entre cabeça e mão,
através da qual o trabalhador realizava anteriormente sua ativi­
dade, segundo seu próprio critério e sua capacidade, é decomposta
com a introdução da "ciência" em lugar da atuação prática. Tudo
o que o trabalhador tem a fazer agora é a simples execução física
das instruções preparadas pelos especialistas e às quais se chegou
através de recursos puramente mentais. "Qualquer melhoria que
ele ( o trabalhador) fizer, é fatal para o êxito." O conhecimento
do especialista é obtido "sem consulta ao trabalhador". Perdura,
porém, um fio de ligação entre o conhecimento dos especialistas e
o desempenho manual dos trabalhadores: as instruções administra­
tivas dadas a eles são "baseadas no estudo pl'eciso do tempo e mo­
vimento da tarefa de cada trabalhador, isoladamente". Lembramos
a citação feita no início do item 2, em que Taylor "deseja ressal­
tar, particularmente, que esse sistema se baseia no estudo preciso
e científico das unidades de tempo". Essa ligação tem uma signi­
ficação essencial para se chegar a uma decisão crítica quanto à na­
tureza genuína ou espúria da nova divisão entre trabalho intelectual
e manual, que Taylor pretende estabelecer no processo de trabalho
do capital monopolista.
A "Critica da administração científica", a que esses trechos de
Taylor pretendiam servir, ocupa-se das contradições surgidas do
fato de que os aspectos econômicos do ·orabalho socializado e, poten­
cialmente, do socialismo têm origem dentro do capitalismo sob a
forma da mais intensificada e sofisticada extração de mais-valia já
empregada em relação aos trabalhadores, significando na verdade
a transformação da extração da mais-valia numa "ciência". A apa­
rência desfigura totalmente sua essência e a torna praticamente ir­
reconhecível. A uma concepção e análise formal do que chamamos
de socialização estrutural do trabalho, isso se apresentará fatalmen­
te como pura metafísica. E assim deve ser, pois seu pensamento
se limita a um entendimento burguês das realidades destinadas a
supe1·ar o mundo burguês. A discussão dos motivos pelos quais os
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 57

rrabalhadores, em sua grande maioria, também são cegos quanto à


essência dessas aparências, reveste-se de maior interesse e importân­
cia. E a tarefa crítica aqui concebida pretende sobretudo responder
a essa pergunta.
A contradição vital já está contida na f6rmula estrutural do
trabalho socializado, isto é, a unidade de medida das funções do
trabalho e maquinaria na produção. Essa fórmula permite a sujeição
total do trabalho ao domínío tecnocrático da maquinaria, em sua
manipulação administrativa, mas também permite o controle do tra­
balho sobre a tecnologia e sua aplicação produtiva. Em outras pa­
lavras, permite uma relação que leva ao comunismo.
Tal conclusão poderia parecer absurda, se não fosse entendida
à luz das implicações envolvidas. No primeiro caso - isto é, a su­
jeição tecnocrata dos trabalhadores à maquinaria complexa da pro­
dução moderna - temos o trabalho humano em suas formas ex­
tremas de alienação, o trabalho manual isolado de todo elemento
do trabalho intelectual, até mesmo do controle mental do trabalha­
dor em relação aos seus próprios movimentos, um controle transferi­
do para a máquiwi que funciona sob o comando da administração.
As condições do capitalismo sob as quais surgiram e se desenvolve­
ram a economia do trabalho socializado são, é claro, o diametral
oposto das condições exigidas para fazer dessa economia a base do
socialismo. Conseguir essa inversão equivaleria a uma derrubada do
capitalismo, resultando no controle, pelos trabalhadores, do pro­
cesso e da organização da produção, de modo que a alienação do
trabalho hoje existente poderia ser reduzida através de um processo
gradual ( e árduo) de unificação do trabalho manual e inteletual.
Para os objetivos de nossa exposição teórica, a condição contras­
tánte do trabalho socializado sob o socialismo, ou sob o capitalismo,
pode ser definida pela diferença de estarem ou não os trabalhado­
res na posse da socialização de seu trabalho. Se examinarmos o sis­
tema de administração de Taylor do ponto de vista dessa alterna­
tiva, torna-se claro, imediatamente, que ele encerra todos os ele­
mentos essenciais que estabelecem a relação capitalista, e de que
maneira isso ocorre.
Taylor propõe (seção 124) "retirar todas as decisões e plane­
jamentos importantes, que afetam de forma vital a produção da
oficina, das mãos dos trabalhadores". Isto é, ele propõe retirar dos
trabalhadores o controle sobre a soma total das funções que consti­
tuem a socialização do trabalho, "e centralizá-las nuns poucos ho­
mens ( ... ) especialmente treinados," etc, isto é, localizar esse con­
trole, firme e incliscutivelmente, na administração. Com essa trans­
ferência de controle, a socialização do trabalho se torna o instru-
58 ALFRED Sor-rN-RETHEL

menta da dominação do capital sobre o trabalho. Evidentemente.


essa alienação dos trabalhadores em relação ao caráter social de seu
trabalho não é nova. Tem raízes profundas nas relações capitalistas
de produção como tal, e forma uma das normalidades inextírpáveis
da sociedade burguesa. A alienação em relação ao caráter social de
seu trabalho deixa o trabalhador na condição de uma força de tra­
balho individual. É o resultado necessário da apropriação do con­
trole pelo capital. Marx descreve a relação básica da seguinte forma:

O trabalhador é o dono de sua força de trabalho até ter rea­


lizado a negociação para a sua venda com o capitalista; e ele
não pode vender mais do que tem, isto é, sua força de traba­
lho individual, isolada. Esse estado de coisas não é modifica­
do pelo fato de que o capitalista, em lugar de comprar a força
de trabalho de um homem, compra a de 100, e realiza contra­
tos separados com 100 homens isolados, e não com um. Ele
tem a liberdade de colocar 100 homens para trabalhar, sem
deixar que cooperem. Ele paga pela força de trabalho com­
binada dos cem. Independentes entre si, os trabalhadores são
pessoas isoladas, que estabelecem relações com o capitalista,
mas não entre si. Essa cooperação só começa com o processo
de trabalho, mas nesse momento eles deixaram de pertencer
a si mesmos. Ao ingressar nesse processo, incorporam-se ao
capital. Como cooperadores, como membros de um organis­
mo operativo, eles são apenas modos especiais de existência
do capital. Assim, o poder produtivo desenvolvido pelo tra­
balhador quando trabalha em cooperação é o poder produtivo
do capital ( ... ) e surge como um poder de que o capital
foi dotado pela Natureza - um poder produtivo imanente
ao capit.tl" ( Capital I, p. 323).
O emprego simultâneo de grande número de trabalhadores
assalariados num mesmo e único processo ( ... ) forma o
ponto de partida da produção capitalista. Esse ponto coincide
com o nascimento do próprio capital. Se, portanto, de um
lado, o modo capitalista de produção se nos apresenta histo­
ricamente, também por outro lado essa forma social do pro­
cesso de trabalho se apresenta como um método empregado
pelo capital para a exploração mais lucrativa do trabalho, au­
mentando a produtividade desse trabalho ( ibid. p. 326).

As relações descritas por Marx desenvolveram-se ainda roais


no capitalismo monopolista. O capitalista que na época clássica do
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 59

capitalismo era, em geral, entre outras coisas capitalista e empre­


sário, tornou-se um "capitalista financista", enquanto parte das fun­
ções empresariais passou para administração; essa evolução pro­
gride junto com a socialização do trabalho, no sentido de seu clímax
estrutural. Ao ser atingido este clímax, a administração é aperfei­
çoada para se transformar numa "ciência". Torna-se um sistema, o
sistema da "administração funcional", como o chama Taylor. Ao
transferi-lo das mãos dos trabalhadores para o controle da adminis­
tração, o complexo funcional de uma socialização de trabalho em
alto grau se divide numa variedade de funções separadas, cada qual
realizada por um especialista, constituindo uma complicada hierar­
quia burocrática de divisões funcionais que criam novas divisões
encarregadas de manter unidas as outras e que exigem um tipo es­
pecial de gênio administrativo, com os mais altos salários executi­
vos. Chega-se a afirmar que uma boa parte da "ciência" de que a
administração moderna está tão repleta é necessária para se ver
através do nevoeiro que ela mesma cria. Embora isso possa ser ver­
dadeiro em relação à cúpula, na base toda a estrutura se funda­
menta naquele "estudo preciso e científico das unidades de tempo"
que Taylor considerava "de longe o mais importante elemento da
administração científica".
Esse elemento é também um passo adiante da relação descrita
por Marx. Ele diferencia o contrato de trabalho entre o capitalista
e o operário, que se faz em termos de "trabalho morto" materiali­
zado no valor, do processo de trabalho onde o "trabalho vivo" está
em operação. No estudo do tempo e movimento, porém, os padrões
quantificadores que têm raízes na esfera das relações de trabalho
morto passam a ser aplicados diretamente ao trabalho vivo. Este
é colocado sob o microscópio, por assim dizer, e reduzido a "uni­
dades de tempo", isto é, ao volume de tempo preciso absorvido
pelos menores elementos que compõem o tipo de trabalho em ques­
tão, como um desempenho rigorosamente repetitivo do trabalha­
dor, despido de qualquer desperdício. Todos os tipos qualitativa­
mente diferentes de trabalho vivo que ocorrem num determinado
processo de trahalho são assim expressos como unidades comensu­
ráveis em termos de determinado processo de trabalho podendo ser
identificados como capazes de pi-oduzir o máximo, matematicamen­
te calculável, de produção por unidade de tempo, digamos, uma
hora. As unidades de cálculo servem como base para calcular as
taxas salariais a. serem pagas a cada trabalhador com.o o incentivo
necessário pata que ele realize a sua tarefa "no tempo fixado". E
60 ALFRED SOHN-RETHEL

para a administração em geral o cálculo das unidades comensura·


veis de trabalho vivo serve como a "base rigorosamente científica"
para organizar e administrar a produção como uma entidade empre­
sarial lucrativa. Trata-se, é claro, de uma construção idealizada da
concepção de Taylor de que nenhuma administração poderia col0-
car em execução, e que foi hoje substituída por réplicas mais adap­
tadas e praticáveis. Mas, para nossos objetivos, é interessante exa·
minar o sistema de Taylor em seu aspecto mais rigoroso.
:e evidente que essa conversão de um desempenho de traba­
lho vivo num isolado administrativo metodológico também conver­
te o próprio trabalhador numa unidade psicológica em busca de seu
salário máximo. Foi uma das intenções conscientes de Taylor. Ele
sonhou mesmo em ter uma taxa diferente de pagamento fixada
para cada trabalhador individual na oficina, de modo a eliminar
qualquer comunidade de interesse entre eles. Também esse aspecto
não é mais adotado hoje por nenhuma administração "moderna e
esclarecida" da maneira pela qual saiu da imaginação de Taylor.
Mas, como princípio regulador, não é totalmente afastado, pois
constitui o correlato essencial da alienação dos trabalhadores em
relação à socialização de seu trabalho que é, e certamente continua
sendo, a base da instituição mesma da administração capitalista.
Também a justificativa econômica do esquema de Taylor, ou seja,
a preponderância do volume de produção sobre as taxas salariais
em empresas com uma alta inflexibilidade de estruturas de custo,
conserva ainda sua validade. Ela está intimamente ligada à tendên­
cia para a crescente capacidade de produção potencial, resultante
das leis estruturais da socialização do trabalho. Falo da produção
potencial porque sob os cálculos do "pomo de nivelamento"
( "break-even point") dos investimentos abuais, a crescente capaci­
dade de produção já não pode fazer sentir seus plenos efeitos, como
ocorria no auge da década de 1920, antes da grande recessão que
terminou na economia de guerra de Hitier, salvadora do capitalis­
mo monopolista. Essa economia de guerra tornou-se, desde então,
endêmioo, e suas causas ainda estão bastante vivas.
Entre os aspectos essenciais da concepção d e Taylor temos
ainda o estabelecimento da "nova divisão entre trabalho intelectual
e manual" já mencionada. Ela visava introduzir uma cunha insu­
perável no processo de trabalho e isolar o trabalho vivo dentro de
seu próprio setor da administração da produção por uma divisão
em termos. Se essa divisão fosse autêntica, tornaria impossível a
posse, pelos trabalhadores, da socialização de seu trabalho. Mas
será ela autêntica? Mostrou-se que os termos em que se baseia a
ciência administrativa devem, primeiro, ser extraídos do trabalho
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 61

vivo, antes de se tornarem a posse meatal da administração. Os


próprios homens dedicados ao estudo do tempo, que fazem essa
extração, não descem de uma esfera do intelecto puro, como espí­
ritos platônicos, para as regiões inferiores do processo de trabalho
a fim de enquadrá-lo em suas medidas inconversíveis. Esses homens
dedicados ao estudo do tempo são homens simples como os traba­
lhadores, e para fazerem seu trabalho de maneira adequada, sem
serem enganados pelos trabalhadores, devem estar habilitados para
fazer os trabalhos que estão a estudar e obter com estes uma ex­
periência pes�oal. Mas por maior que seja a sua experiência e por
mais compet'er:..te que seja a sua análise, as pessoas mais experi­
mentadas e mais competentes para realizar o trabalho seriam os
próprios operários. Há muitas razões que explicam por que os tra­
balhadores não o fazem, embora entre elas não se encontre a razão
epistemológica da divisão entre cab eça e mão. Nas mãos dos traba­
lhadores, mesmo que eles tomassem a si a tarefa, sua função e seus
métodos seriam totalmente transformados. Feito pelos próprios tra­
balhadores, o estudo se voltaria para os aspectos econômicos de seu
trabalho socializado, visto de acordo com os seus termos e no seu
nível adequado, e o conhecimento obtido se incorporaria às funções
ora alienadas e usurpadas pela administração. Evidentemente, po­
rém, essa transformação pressupõe a derrubada do capitalismo e o
estabelecimento bem-sucedido da ditadura do proletariado. De fato,
a apropriação intelectual e funcional, pelos trabalhadores, da sociali­
zação de seu trabalho descreve a ditadura do proletariado como
extensiva à produção e à economia social. E também descreve o
processo formativo do homem socialisttl.
Entretanto, dentro das relações sociais do capitalismo, os tra­
balhadores precisam de um esforço enorme para combater as limi­
tações de sua condição de mão-de-obra assalariada, situação que é
hoje mais impotente, dentro do processo de produção, do que em
qualquer outra época do capitalismo; em nenhum outro momento
o desempenho individual de um trabalhador foi reduzido a tais
fragmentos e frações de fragmentos de uma tarefa, como é a sua
contribuição para o processo de trabalho altamente socializado da
atualidade. Ao mesmo tempo, a produtividade de seu trabalho au­
mentou mil vezes, em comparação ao trabalho realizado nas oficina�
por um só homem na Idade Média. Mas a produtividade não é sua
em termos de seu trabalho individual, e tomando as suas opera­
ções individuais como um padrão de julgamento a produtividade é
do capital, a cujo serviço ele trabalha, e depende da eficiência da
administração. Dai o fetichismo administrativo que predomina em
nossa sociedade. a crença aceita por todos de que os modernos es-
62 ALFRED SOHN·RETHEL

fa.bdecimentos industriais, ou mesmo os grandes estabelecimentos


de qualquer tipo, não podem ser administrados sem a sua hierarquia
de administradort:s que controlam todos os detalhes da produção e
da organização, em particular, é claro, os trabalhadores. Esse feti­
chismo aumenta a socialização do trabalho pelo fato de estar em
mãos erradas, de ser exercido pela administração a serviço do ca­
pital e para a explori.'ção do trabalho, em lugar de constituir a base
para o poder da classe operária numa sociedade de produção. A
razão do caráter fetichista da administração não reside em sua
"ciência" e menos ainda no fato de essa ciência estar além da com­
preensão dos trabalhadores. Não só toda ela se baseia no estudo
do trabalho manual, como também tudo o que essa ciência pode
lograr é fazer com que os trabalhadores individuais o denominem,
entretanto não como o vêem, presos que estão ao subpadrão de sua
situação individual. \listas desse ângulo, as funções e condições de
seu próprio trabalho socializado assumem aparência de um objeto
da natureza a eles estranho, a ser estudado, desenvolvido e a eles
imposto por agentes separados.
Essas poucas observações não-sistematizadas sobre a questão
da "administração científica" são as que tive tempo e espaço para
registrar neste trabalho. Por mais gerais e abstratas que sejam, vi­
sam defender a crítica da administração científica como uma dis­
ciplina programática, que pode ser levada aos detalhes da luta de
classes na própria fábrica. Essa forma de crítica, como arma para
neutralizar todos os movimentos da administração, é uma necessi­
dade vital para qualquer partido que lidere essas lutas e que tenha
um objetivo revolucionário a longo prazo.

4. O Fascismo de Hitler: um Exemplo


(A título de prefácio das observações que se seguem, devo dizer
que abordarei exclusivamente os aspectos econômicos do fascismo
de Hitler e sua ascensão ao poder.)
Na Alemanha de 1924-1930, como nos Estados Unidos de
1921-1929, a nova economia do processo de trabalho pôde desen­
volver-se plenamente num enorme surto de investimento, em que
o evangelho da "racionalização" levou à concentração intensiva do
capital ( por mei0 de fusões e pela trustificação) e a uma ampla
centralização e reorganização da produção segundo as linhas da pro­
dução mecanizada em massa. hso ocorreu sem problemas em quase
todos os ramos da produção industrial, independentemente de se­
rem indústrias "novas" ( elétrica, química, automobilística etc.),
ou "tradicionais" (ferro e aço, carvão, algodão). De fato, nas in-
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 63

dústrias do ferro e do aço, a racionalização fora ainda mais total


do que nas outra$ indústrias. A racionalização provocou a formação
do truste do aço em 1926 (Vereinigte Stahlwerke A. G.: "Ves­
tag") através da fusão de quatro ou cinco empresas ( Thyssen,
Stinnes, Otto Wolff, Phoenix), com uma capacidade global esti­
mada em 10 miJhões de toneladas de ferro gusa e 9 ,5 milhões de to­
neladas de aço bruto ( eqüivalendo a 40% do total da produção ale­
mã) .8 Trabalhando a plena capacidade o truste deu emprego a
cerca de 200.000 pessoas. A Vestag era a maior firma individual
da Europa. O novo processo de trabalho era do tipo "Verbund­
wirtschaft" ( combinação de fábricas ) , baseado na utilização de gás
de saída do alto-forno como combustível e fonte de energia para
toda a fábrica; operava com um mecanismo de tempo que deter­
minava que pratit:amente nenhuma seção do complexo podia operar
independentemente das outras. Toda a enorme fábrica principal da
Thyssen em Hamborn, por exemplo, era efetivamente controlada
de uma mesa ceritral por um engenheiro-chefe, com dois assistentes.
A base financeira do truste foi um empréstimo em dólares a longo
prazo, no valor de 80 milhões de marcos alemães, de dcbêntures
contra um capital acionário de 750 milhões de marcos ( sob a
égide do Danatbank, o primeiro dos cinco grandes bancos da Ale­
manha a desmoronar, em junho de 19 31 ) . O complexo principal
do Truste do Aço tinha uma margem absurdamente limitada de
elasticidade; não podia dividir seu processo de produção, e nem
reduzi-lo a menos de 66-70% (parece-me que o número exato era
68%) de sua capacidade estimada. A organização como um todo
era a última palavra em "administração e racionalidade científica",
e o principal economista industrial (Betriebswissenschaftler) da
Alemanha, prof. Ernst Schmalenbach, foi contratado como consul­
tor da Vestag. 9

8 A partir de 1923 e até 1929 a produção de aço bruto aumentou 13,6%


na Grã-Bretanha, 83.2% na França e 158,1 % na Alemanha.
9 No outono de 1931, quando o desastre começou a tomar forma, ele
divulgou um memorando no quàl chegava à conclusão de que as fábricas
gigantescas da moderna produção industrial só seriam um benefício para a
sociedade se operadas na moldura de uma economia nacional planificada. O
memorando provocou tal indignação da parte dos grandes industriais ale­
mães que eles pediram ao então Ministro da Economia Nacional do Reich
que apreendesse e destruísse o trabalho, o que foi feito. No inverno de
1932 o segundo homem no comando do Truste do Aço, em meio a uma
conversa na qual ousei fazer referência à ciência, explodiu: "Não men­
cione essa palavra! Temos sido alimentados apenas de ciência, e não temos
ouvido falar senão de ciência - planejamento científico disso, cálculo
t científico daquilo - e para onde isso nos levou?!"
64 ALFRED SOHN-RETB:EL

Em 1930-31, à medida que a recessão se fazia sentir, o capital


monopolista alemão ( suas principais seções) dividiu-se em dois
campos claramente delineados. De um lado estavam as grandes
indúst rias de exportação ( Siemens & AEG, I. G. Farben, Merce­
des & Opel, engenharia pesada e ligeira como M.A.N., Demag,
Julius Berger etc.), financeiramente sólidas e bastante fortes para
agir segundo as regra� tradicionais da economia de mercado ( com
o objetivo de restabelecer o equilíbrio por meio de uma deflação
impiedosa), e que por isso se colocaram ao lado do Governo Bru­
ning. Mas a deflação não constituía uma política viável nas circuns­
tâncias então predominantes internacionalmente e ainda mais agra­
vadas no caso da Alemanha, pela sua condição de país devedor.10
O apoio aos princípios da economia de mercado revelou-se uma
causa de fraqueza política e de vacilação. No outro campo ocorria
o oposto, a d"'bilidade econômica se combinava com a força polí­
tica. Ali estavam os chamados "autarquistas ", representando prin­
cipalmente as indústrias pesadas, tendo como ponta de lança o
Truste do Aço, e defendendo processos de recuperação totalmente
diferentes. Em outubro de 1931 esse segundo campo passou ao
ataque e agrupou.se na "Frente Harzburg", ou "Natopp" (Front
der Nationalen Opposition, também apelidado, muito oportuna­
mente, de "Fronde der Grossbankrott-eure"), sob a liderança po­
lítica de Hugenberg, Dr. Schacht, Hitler e Seldte ( pelo "Stahlhelm"),
partidários inequívocos do rearmamento e da expansão militar na
Europa. Um de seus principais slogans era "Grossraumwirtschaft",
defendendo a necessidade de produção mecanizada em série para
os mercados de massa de grandes dimensões, como, digamos, os

10 A adesão aos princípios da economia de mercado constituiu urna causa


de debilidade e de vacilação políticas. No outro campo, aconteceu o oposto:
a debilidade econômica combinou-se com a força política. Nesse campo
estavam os chamados "autarquistas", que representavam principalmente a
falta de haveres em moeda estrangeira para essas indústrias, favoráveis à
apreciação do progresso científico, de modo a poderem pelo menos receber
"royalties" pelas suas patentes, caso não pudessem manter as próprias
ofertas. Por isso, quando em 1933 os cientistas judeus foram expulsos
da Alemanha e os norte-americanos e britânicos conseguiram atrair não
só esses cientistas, mas com freqüência também os seus laboratórios, as
firmas exportadoras mandaram Max Planck, a grande figura da ciência
alemã, até Hitler, para dizer-lhe o que esse êxodo representava para a
Alemanha. Hitler voltou-se para ele, levantando as mãos: "Prezado
Geheimrat, qual será a grande perda para a Alemanha se o país não
tiver, durante urna geração, físicos destacados? Há, para mim, questões
maiores em jogo! A pureza da raça alemã tem prioridade, no meu en­
tender!"
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 65

EUA ou a URSS. A autarquia que planejavam destinava-se a essa


Grossraum, digamos, "Mitteleuropa", e não ao Reich, com as
fronteiras então vigentes. Essa oposição fez um agitado apelo à
massa crescente de desempregados, e mais especificamente aos mi­
lhões de pequenos comerciantes e a todos aqueles a quem a reces­
são ameaçava estrangular e que constituíam o principal reserva­
tório de votos de Hitler; embora esses fossem os elementos atra­
sados e superados da economia alemã, as potentes pontas de lança
de movimento eram, pelo contrário, alguns dos elementos mais mo­
dernos e mais representativos da indústria mecanizada. Entre esses
dois campos, umas poucas firmas particulares poderosas, como a
Krupp, ficavam a cavaleiro entre os dois grupos e participavam
ativamente no esforço de estabelecer uma plataforma para uma
nova concentração de capital monopolista alemão como um todo,
dentro das linhas traçadas pela Frente Harzburg. Esses esforços
acabaram tendo êxito, colocando Hitler no poder em princípios de
1933.
O estabelecimento desse governo significou o término da re­
cessão para a Alemanha, término esse que pela primeira vez na his­
tória não representou, e nem pretendeu representar, um estado de
equilíbrio econômico. Foi um regime preparado, em termos polí­
ticos e econômicos, essencialmente para o rearmamento e para a
guerra, sem agir em defesa própria, e sem qualquer possível pre­
tensão de defesa própria, exceto contra a mítica "ameaça judaica".
Seu processo de desenvolvimento, essa enfática economia do não­
equilíbrio implicou, a partir de 1936/7, a corrida armamentista
para a Segunda Guerra Mundial que envolveu toda a economia
mundial. Hoje há um consenso de opinião razoavelmente unânime
entre os economistas de que sem essa intervenção da economia de
guerra a recessão teria, com toda probabilidade, se estendido ao
capitalismo mundial. Há atualmente também uma convicção gene­
ralizada entre os economistas de que o capitalismo avançado de
hoje não pode dispensar facilmente o "setor militar-industrial" de
suas atividades, sem correr o risco de uma depressão não muito
diferente d., ocorrida na década de 1930. Portanto, é importante
focalizar que mecanismo econômico preciso localizava-se na raiz de
acontecimento� que teriam conseqüências tão sérias para a Ale­
manha e para o capitalismo como um todo.
Esse mecanismo equivale apenas ao fato, nem mais nem me­
nos complicado ou controverso do que as inflexibilidades das mo­
dernas estruturas industriais, a sua incapacidade de reagir aos pos­
tulados da economia capitalista de mercado, ou, numa formulação
inversa, ao fato de serem essas estruturas dotadas de determinadas

----------------�-��- �-�--··
66 ALFRED SoHN-RETHEL

necessidades econômicas dos mercados. Desejo reportar-me à con,


versa, muito interessante, que tive com o vice-chefe do Truste do
Aço alemão, citada na nota 10. A situação à qual o truste havia
sido levado no inverno e na primavera de 1932 foi a de uma al­
ternância de uma quinzena de operação e uma quinzena de para­
lisação na gigantesca fábrica de Hamborn, e em outros locais. As
encomendas, gue mesmo no auge da prosperidade não excediam
os 80% da capacidade de produção, haviam caído para 60% em
1930, para menos de 40% em fins de 1931, e para cerca de 20%
em 1932, e evidentemente não se distribuíam de maneira igual
pelas centenas de itens produzidos; alguns produtos recebiam
umas poucas encomendas, ouvros mais e a maioria nada. Durante
muito tempo a Vcstag produziu para estocar, sufocando ainda mais o
mercado, até nã0 haver senão a escolha, bastante ruinosa, de para­
lisações totais regulares por quinzena. É desnecessário dizer que
os elevados custos gerais prosseguiram, sem nenhuma produção
para cobri-los, o mesmo acontecendo com o custo de manutenção,
que era considerável. Quando o trabalho era reiniciado após a para­
lisação, um dia ou dois eram perdidos em ajustes até que as má­
quinas estivessem novamente em condições de operar. Esse regime
não só levou à perda de lucros, como também acumulou dívidas e
consumiu, de maneira incessante, o capital da firma. Pelos padrões
da economia de mercado, o Truste do Aço estava falido e deveria ter
sido liquidado, mas isso era politicamente inimaginável. Restava,
portanto, apenas uma solução para salvar o Truste e outras firmas
em situação igual: recolocar as fábricas em regime de produção a
toda escala, a despeito dos mercados. Se a produção de bens co­
mercializáveis era impossível, então teriam de ser produzidos bens
não-comercializáveis, valores que não se reproduziam; em outras
palavras: armas. A necessidade econômica dessa saída impôs-se
de maneira quase coerciva, embora seja difícil ou talvez impossível
dizer se num outro país, com uma tradição e uma ideologia difo.
rentes, essa saída teria sido adotada com uma disposição semelhan­
.te e com todas as suas conseqüências. Devo salientar também que
.só lanço mão do caso do Truste do Aço alemão como um paradigma
•com finalidades demonstrativas. Há outros fatores econômicos de
natureza semelhante, e igualmente constrangedores, que apontam
na mesma direção, como, por exemplo, o fato de o tluste I. G.
Farben ter sido !iUtpreendido na mesma época ( no verão e outono
de 1932) num empreendimento de pesquisa e desenvolvimento
envolvendo riscos de uma magnitude colossal, que ele procurou
atribuir ao Estado; porém, era preciso primeiro se criar um Estado
disposto a aceitar tal risco, de acordo com o Truste do Aço. Esse
A ECONOMIA DUAL DA TRANSIÇÃO 67

caso também é de evidente significação paradigmática, à luz da


fusão atual dos armamentos com Pesquisa e Desenvolvimento, sob
a tutela do Estado.
Minha argumentação, no caso, relaciona-se com o duplo as­
pecto econômico existente nessa situação: economia de fábrica
versus economia de mercado. Ao escolher o caminho fascista, os
capitalistas abriram mão de seu interesse na economia de mercado
para satisfazer as exigências de sua economia de fábrica. Os lucros
obtidos com urna economia de guerra eram todos fictícios, a me­
nos ( e até) que a Alemanha ganhasse a guerra. Eles romperam
também com tod�. a moralidade do passado, ao colocar em risco o
objetivo de reprodução social como o fim da economia. E entre­
garam sua sorte e sua iniciativa ao Estado. A economia desse sis­
tema exigia uma divisão hermética em duas esferas, a economia
dos valores reprodutivos e a economia dos valores não-reprodutivos,
nenhuma dela� se estendendo à outra. Para manter a nação em
funcionamento era necessário alimentá-la e vesti-la ( novos conjuntos
residenciais e consertos nos já existentes raramente foram auto­
rizados em todos os anos de Hitler), e para tal foi fixado um
nível salarial que pouco excedia a assistência ao desemprego du­
rante a recessão. Os salários e preços foram congelados sob uma
"paralisação de salários e preços" que só em 1938 e 1939 mos­
trou indícios de ceder. Nenhuma renovação, e apenas as substitui­
ções mais essenciais eram autorizadas para o equipamento produ­
tivo das indústrias de bens de consumo. Inversamente, só o dis­
pêndio nos bens de consumo essenciais deveria sair dos lucros ob­
tidos no setor de armamentos, de modo que todos os equivalentes
monetários dos valores não-reprodutivos produzidos pudessem ser
mantidos no circuito, elevando-se até o total ascendente dos gastos
em armamentos. Em setembro de 1939 - segundo o próprio Hitler
- esse total chegava a 90 bilhões de marcos alemães. Dentro des­
sa moldura totalitária, a economia estava na realidade totalmente
estatizada, administrada pelo Estado para a iniciativa privada. Po­
deríamos comparar a divisão da economia nas duas esferas e o iso­
lamento da esfera civil com os esforços, bastante tímidos e inse­
guros, de uma política de rendas daqueles dias, embora a diferen­
ça de grau seja tão grande que talvez constitua uma diferença de
essência. No Alemanha de Hitler, ela estava ligada a uma carteli­
zação compulsória da indústria, dos bancos, do comércio e mesmo
da agricultura ( concebida como um "Agrar-Kartellierun,g" estatal
pelos seus inventores industriais originais), levando tudo isso ao
Estado Corporativo. As relações gerais entre o Estado e o Parúdo
Fascista podem ser melhor compreendidas pela analogia da relação
68 ALFRED SOHN-RE'I'HEL

entre capital e administração na moderna firma industrial. A em­


presa pertence ao capitalista, mas é controlada pela administração
em nome e em benefício do capitalista. O capital é dependente da
administração na operação do negócio, mas a administração de­
pende do capital. tem de ser usada e empregada pelo capital, para
assegurar sua posição de controle sobre os trabalhadores. Essa de­
pendência mútua não propicia uma relação harmoniosa entre a
administração e o capital, e entre o partido e o Estado. Pelo con­
trário. Cada um deles trabalha com a ilusão de que poderia ser, e
deveria ser, capaz de passar sem o outro e tomar todo o poder e
todo o lucro para si; mas, se tenta fazê-lo, descobre seu engano.
Toda a história das relações entre o partido e a classe capitalista na
Alemanha de H�ler, uma história de incessantes atritos e tensões,
se enquadra nessa analogia, e por bons motivos.
CHRISTIAN PALLOIX

O Processo de Trabalho:
Do Fordismo ao Neofordismo

Introdução
A análise da desenvolvimento histórico do processo de trabalho
e das complexas formas de sua organização atual, bem como qual­
quer tentativa de prever a evolução futura, ou imaginar evoluções
alternativas, pres5upõe uma definição inicial do processo de tra­
balho além de uma exposição de sua posição no sistema produtivo
e no movimento do capital.

a) Definição
O processo de trabalho pode ser definido como o processo pelo
qual matérias-primas, ou outros insumos, são transformados em
produtos com valor de uso. Esse processo é uma combinação de
três elementos:
- atividade humana, ou trabalho, que é posto a funcionar como
força de trabalho;
- o objeto (matérias-primas, produtos não-acabados etc. ) sobre
os quais o tr.ibalho atua;
os meios ( 05 meios em geral, habitualmente na forma de fer­
ramentas ou maquinaria cada vez mais complexa) através dos
quais o trabalho atua.

b) Posição do Processo de Trabalho


A história do processo de trabalho está ligada ao desenvolvi­
meato do sistema produtivo ( ou modos de organização da produ-

1 O autor agradece a colaboração de B. Coriat, J. Perrin, R. Tibcrghien


na preparação desse texto.
70 CHRISTIAN PALLOIX

ção) e ao movjmento do capital (movimento de acumulação e mo­


vimento de valorização do capital); e também com a ascensão de
formas de divisão do trabalho, seja na coletividade dos trabalhado­
res ( trabalho simples/trabalho complexo, divisão do trabalho em
diferentes tipos de atividade etc.), ou dentro das relações sociais
( trabalho intelectual, trabalho manual et.c.)
A primeira cCJisa a esclarecer é que só podemos compreender
o processo de trabalho se compreendermos a relação entre o sis­
tema produtivo e o movimento do capital. Por sistema produtivo
entendemos as formas pelas quais a produção de valores de uso
e de mercadorias é organizada. Essa organização ocorre no con­
texto de forças e relações de produção que são consideradas como
divididas em categorias, de duas maneiras distintas: primeiro, nos
diferentes departamentos da produção; e, segundo, nos diferentes
ramos da indústria. O sistema produtivo é a tradução material, no
processo de trabalho, das exigências do movimento do capital.
A análise do movimento do capital mostra que se trata, na
realidade, de um movimento com dois aspectos ( que correspon­
dem às duas maneiras de dividir o sistema produtivo: departamen­
tos/ramos}. Esse duplo movimento pode ser observado no pro­
cesso de valorização do capital e no processo de acumulação de ca­
pital. Na noção de valorização do capital está incluído o efeito da
exigência de lucratividade, tanto na combinação como na orga­
nização dos elementos constituintes de cada capital individual, e
também na conduta do movimento de realização desses capitais in­
dividuais. A valorização designa as condições de eficiência produ­
tiva e de lucratividade dos capitais .investidos nos vários ramos do
sistema produtivo.
A noção de acumulação do capital refere-se às exigências atri­
buídas às condições de produção em virtude do fato de que elas de­
vem resultar num produto excedente, exigências que são expressas
pelo fato de que o capital deve ser usado para produzir nevas con­
dições (intensivas ou extensivas) de produção de excedente. Quando
discutimos as condições de produtividade estamos tratando da
acumulação de capital.
A valorização do capital corresponde a uma divisão do sistema
produtivo em ramos de indústria que produzem "mercadorias". A
acumulação de capital corresponde a uma divisão do sistema pro­
dutivo em departamentos de produção, que produzem "bens" (bens
de produção, bens de consumo), do ponto de vista da formação
do produto excedente.
A produção do produto excedente, como a produção de mer­
cadorias, combina os processos de acumulação e valorização com
o processo de trabalho. Dependendo da ênfase - seja sobre a
o PROCESSO DE TRABALHO 71

acumulação, seja sobre a valorização - um ou outro aspecto do


processo de trabalho será ressaltado. O processo de trabalho ocupa
uma posição central em relação ao sistema produtivo e ao movi­
mento do capital, com os quais está intimamente ligado e que
ajuda a definir. O sistema produtivo e o movimento do capital
são dirigidos deliberadamente para o processo de trabalho, que é
o "coração" real da economia, e, portanto, para os elementos cons­
titutivos desse processo e suas formas particulares de combinação.
Todas as formas de produto excedente pressupõem uma certa com­
binação de elementos do processo de trabalho e sua integração nu
sistema produtivo e no movimento do capital. Por exemplo, qual­
quer produção de excedente, de forma extensiva, envolve um pro­
cesso de trabalho caracterizado por um prolongamento do tempo
de trabalho dedicado à produção ( extensão da duração do tempo
de trabalho, aumento na intensidade de trabalho,) que traz conse­
qüências para a estrutura do sistema produtivo e para o movi­
mento do capital. Da mesma forma, a produção de excedente na
forma intensiva implica um processo de trabalho caracterizado por
aumentos na produtividade do trabalho, que acarretam importan­
tes modificações no sistema produtivo e no movimento do capital.
Isso pode ser comprovado em qualquer processo de trabalho ba­
seado no princípio de automação.
Como constitui o "coração" da economia, o processo de tra­
balho, em seu envolvimento com o sistema produtivo e o movi­
mento de capital, não está isolado da totalidade das relações so­
ciais. Seu própri.o desenvolvimento é um corolário necessário da
divisão de trabalho no sistema capitalista.
O famoso eyemplo da fabricação de alfinetes, dado por Adam
Smith, sublinha a necessidade capitalista do princípio da divisão
do trabalho e a fragmentação de tarefas dentro da produção ca­
pitalista. Esse princípio de especialização dentro do sistema capi­
talista, porém, estendeu-se a todas as atividades sociais, dando
origem a uma divisão social do trabalho e, notadamente, a uma
divisão do sistema produtivo em ramos nos quais os processos de
trabalho concretos específicos diferem entre si. A combinação de
especialização na produção de mercadorias e divisão social do tra­
balho em ramos industriais que produzem diferentes mercadorias e
envolvem diferentes processos de trabalho dá origem a uma "se­
paração" ( mais social do que econômica) entre o trabalho com.
plexo e o trabalho simples.2 Essa separação torna-se a base de uma

2 Cf. Ramon Tortajada, "La Réduction du Travail Complexe en Travail


Sirnple", tese inédita, Universidade de Grenoble, 1974.
72 CHRISTIAN PALLOIX

hierarquia do trabalho dentro do processo de trabalho e, portanto,


de uma hierarguia de salários, e também a base do princípio hie­
rárquico dentro da empresa, isto é, a base do próprio processo de
trabalho.
A crescentt> diferenciação entre as camadas sociais e a forma­
ção de classes é uma função do desenvolvimento da divisão do
trabalho; no caso do sistema capitalista, a existência de classes so­
ciais diferenciada� pressupõe uma divisão de trabalho claramente
definida, uma divisão de trabalho articulada com o processo de
trabalho.
Além disso, a int�ração do processo de trabalho na lógica do
sistema capitalista exige não apenas uma divisão do trabalho na
atividade produtiva e uma divisão social, mas também uma divisão
do trabalho nas relações sociais, envolvendo a separação entre tra­
balho intelectual e trabalho manual,3 que complementa e apófa a
separação entre trabalho simples e complexo, com efeitos impor­
tantes sobre o treinamento e a desqualificação dos trabalhadores:

"O trabalho intelectual e o trabalho manual na divisão tecno­


lógica do trabalho, estão sujeitos à mesma lei geral de extração
de um máximo de trabalho excedente do maior número possí­
vel de forças de trabalho individuais, mas essa mesma lei
produz efeitos contraditórios sobre o trabalho intelectual e o
trabalho manual: enquanto busca produzir a máxima desqua­
lificação da proporção máxima de trabalhadores manuais, pro­
cura produzir a qualificação máxima no menor número pos­
sível de trabalhadores intelectuais" ( Y. Mai,gnien, p. 6 7).

1. O Desenvolvimento Histórico do Processo de Trabalho


O desenvolvimento do processo de trabalho foi marcado por um
certo número de fases, ligadas a formas específicas da produção de
excedente; coopçração, manufatura, maquinaria e fábrica. O apare­
cimento da fábrica levou ao taylorismo e ao fordismo, e também à
automação,4 que constitui hoje o ponto de partida para uma pos­
sível evolução do processo de trabalho no capitalismo contempo­
râneo.

3 Cf. Yannick Maignien, La Division du Travai/ Manuel et lntelectuel,


Maspero, Paris, 1975.
4 Michel Freyssenet (Le Processus de Déqualification-Surquali/ication de
la force de travai!, Paris, C. Sill, 1974) também estabelece essa mesma
distinção das quatro fases históricas importantes da "divisão do trabalho";
ele confunde ''processo de trabalho" e "divisão do trabalho" (p. 26).
o PROCESSO DE TRABALHO 73

No entanto, seria errôneo descrever o desenvolvimento do pro­


cesso de trabalho à parte de sua relação com as formas de produ­
ção de produto excedente na acumulação extensiva ou na intensiva.

1.1 O Processo de Trabalho e a Produção de Produto Excedente


Duas formas específicas de produto excedente surgiram no desen­
volvimento do sistema capitalista. Embora essas formas tenham
existido combinadas, sucessivas fases históricas foram marcadas
pelo predomínio alternado de uma e de outra forma, ou seja, pelo
excedente extensivo seguido do excedente intensivo,5 corresponden­
do, é claro, às fases extensiva e intensiva da acumulação de capital.

1.1.1 A Produção de Excedente Extensivo e


Consideremos T como a duração evidente do trabalho, ou tempo de
produção; tn o tempo necessário à reconstituição da força de tra­
balho; tv o tempo de trabalho social abstrato dedicado à produção.
A aplicação da força de trabalho ao processo de trabalho en­
quanto processo de valorização do capital, pode ser esquematizada
da seguinte maneira:

1--- - - - - - - - T------- ---l

.- - - tn · - - _J1
L1 - - - - - - - - - - - - - tv - - - - -i

O trabalho excedente, ou excedente, é igual a tv - tn. O ren­


dimento sobre a força de trabalho seria:

tv tn
e
tn

A diferença entre T e tv expressa uma certa "porosidade" no


1: processo de trabalho, tal com explica Jesus lbarrola:

5 O excedente extensivo refere-se à mais.valia absoluta, e o excedente,


intensivo à mais-valia relativa.
G Devo a notação aqui apresentaria à tese de Michel Aglietta, "La Ré­
gulation du Mode de Productiori Capitaliste dans le Longue Période. Exem­
ple des Etats.-Unis", tese de doutorado, Paris, I, novembro de 1974, 738 pá�
ginas.
74 CHRISTIAN PALLOIX

A jornada de trabalho per.'11aneceu por longo tempo relativa­


mente porosa, constituída, é claro, de alguns períodos parti­
cularmente intensos, mas também de períodos de inatividade
{ por exemplo, ao fim de um processo de trabalho ou quando
de seu reinício, ou durante o trabalho de manutenção). É
da natureza da maquinaria eliminar sistematicamente a poro­
sidade.7

A introdução de maquinaria tem como objetivo inicial a inten­


sificação do trabalho ( aumento de tv) e não o aumento da produti­
vidade pela redução de tn.
O tempo T - tv gasto pela força de trabalho sem criar qual­
quer excedente não pode ser separado da produção desse excedente
nem da organização do processo de trabalho. Qualquer modificação
nas condições de produção busca transformar o processo de traba­
lho a fim de expandir o rendimento da força de trabalho, isto é, a
taxa de excedente. Isso pode ser feito:
reduzindo tn,
aumentando tv, seja sem modificar a relação entre tv e T {isto
é, prolongando T, o que envolve o prolongamento de tv), ou
modificando a relação entre tv e T ( isto é, aumentando a razão
entre tv e T).
A redução de tn representa o método de produção de um ex­
cedente intensivo, ao passo que o aumento de tv representa o mé­
todo de produção de um excedente extensivo.
Historicamente, a produção de excedente como excedente ex­
tensivo foi obtida estendendo-se 2 duração evidente do trabalho, T,
notadamente na primeira metade do século XIX. Devido à orga­
nização da classe operária e ao resultado da luta de classes ao longo
do tempo, as modificações nas condições de produção já não tomam
fundamentalmente a forma de um prolongamento da duração evi­
dente do trabalho.
Atualmente, a forma dominante de produção de excedente ex­
tensivo é obtida através de modificações na relação entre tv e T,
visando um aumento de tv/T. A maneira pela qual o processo de
trabalho é organizado para conseguir esse resultado toma a forma
de uma intensificação do trabalho, implicando a subordinação das
forças de trabalho ao movimento mais ou menos contínuo dos sis­
temas de maquinaria, seja pela organização fordísta da produção em

7 Jesus Ibarrola, "Histoire du Travai! et des Mouvements sociaux", con­


ferências mimcogrnfadas, 1974-5, Universidade Je Grenoble, vol. I, pp.
120-121.
o PROCESSO DE TRABALHO 75

massa e sua evolução contemporânea ( recomposição do trabalho in­


dustrial) ou pela produção automatizada em massa, embora hoje a
organização do processo de trabalho evolua no sentido de uma
combinação dessas duas formas principais de organização da pro­
dução.
A intensificação do trabalho envolve a redução do volume de
tempo durante o qual a força de trabalho não produz valor,8 pro­
movendo assim a produção de um excedente extensivo. Mas essa
forma de produção de um excedente extensivo, ligada à produção
em massa, está necessariamente relacionada à produção de um ex­
cedente intensivo. Não obstante, os limites à produção de um exce­
dente extensivo são determinados pela resistência da classe operária
à intensificação do ritmo de trabalho.

1.1. 2 A Produção de Excedente Intensivo


Num modo de produção capitalista plenamente desenvolvido,
a produção de excedente intensivo através da redução do tempo de
trabalho necessário à reconstituição da força de trabalho, (redução
de tn) depende basicamente da produção de mercadorias pelo de­
partamento de produção de bens de consumo destinadas à manu­
tenção da força de trabalho, dependendo portanto da relação, den­
tro do processo de acumulação de capital, entre os departamentos
que se ocupam da produção de bens de produção e bens de con­
sumo. Por conseguinte, isso envolve o aumento da produtividade
do trabalho através do desenvolvimento das forças produtivas (me­
canização do trabalho) com um conseqüente aumento da compo­
sição orgânica do capital e tudo o que isso implica para os meca­
nismos da acumulação e as relações entre os departamentos I e II.
De fato, as economias na força de trabalho que entra na produção
( redução de tn) se refletem num aumento da composição orgânica
. do capital, que 5e expressa em variações na composição técnica.
Isso, por sua vez, promove a necessidade de produzir meios ma­
teriais de produção e dá origem ao predomínio do departamento I.
Mas o departamento que produz bens de consumo é, sozinho, dire­
tamente responsável pela manutenção da força de trabalho, e por
esse motivo o sistema capitalista precisou desenvolver - embora
dentro de um desenvolvimento desigual - o departamento que
produz bens de consumo, com as conseqüentes contradições que

s Cf. Michel Aglietta, op. cit., p. 23: "A aceleração na velocidade de


trabalho de cada trabalhador está ligada à simplificação dos movimentos
de trabalho precisos que ele tem de fazer e a uma melhor coordenação
do trabalho da coletividade de trabalhadores."
76 CHRISTIAN PALLOIX

surgiram entre os dois departamentos. Paradoxalmente, o consume


de massa está intimamente relacionado com economia no uso da
força de trabalho ( redução de tn) para a produção de excedente
intensivo. Isso forçou o capitalismo a optar, de maneira decisiva,
por esse método de produção de excedente, com todas as conse­
qüências daí decorrentes para a acumulação nos meios de produção
e para a acumulação nos meios de consumo; assistimos hoje, por­
tanto, a uma crise exemplar de acumulação oriunda do desenvolvi­
mento desigual dos departamentos de produção.

1. 2 Diferentes Processos de Trabalho


como Marcos na Hist6ria do Capitalismo
As duas primeiras formas - cooperação e manufatura - caracte­
rizaram o processo de trabalho na época da transição do feudalismo
para o capitalismo. Somente com a mecanização e automação o pro­
cesso de trabalho foi plenamente integrado na organização capita­
lista do sistema produtivo e no movimento do capital.

1 .2. 1 Cooperação (simples)


M. Freyssenet nos oferece a seguinte definição:

A reunião, por um proprietário de capital, de artesãos priva­


dos de seus meios de produção, mas cuja força de trabalho
conserva o seu valor. O trabalhador perde o controle do pro­
resso de produção . . . 9

O princípio de cooperação reside na coordenação dos proces­


sos de trabalho baseados nos ofícios ("ofício" é usado, aqui, tanto
na acepção sofril como no sentido técnico), processos coordena­
dos 10 sob o controle do proprietário do capital, 11 que detém em
suas próprias mãos o poder de selecionar e determinar valores de
uso particulares. Essa coordenação dos processos de trabalho ba­
seados nos ofícios reproduz, de maneira modificada, a organização
produtiva hierárquica da produção artesanal, caracterizada pela

9 Michel Freyssenet, op. cit., p. 26.


10 Essa coordenação pode tomar duas formas:
- reunindo o trabalho numa oficina;
- pela subempreitada, ou semi-integração, que deixa o trabalho dl�
perso pelas diferentes oficinas, ficando cada uma delas mais ou menos
sob o controle de uma pessoa.
11 Capital comercial, não industrial.
o PROCESSO DE TRABALHO 77

:relação entre o mestre artesão e os diaristas ( relação primária) e


entre o aprendiz e os trabalhadores adultos ( relação secundária).
A cooperação, um processo de trabalho transitório, existiu
dentro do quadro da pequena produção de mercadorias.
Do ponto de vista da força de trabalho, a cooperação abre ca­
minho ( mas apenas abre) à formação do trabalhador coletivo, no
qual cada trabalhador individual é apenas parte do todo e uma função
do tempo de trabalho social ( trabalho concreto/ trabalho abstrato).
Nessa forma do processo de trabalho, porém, estamos apenas na pri­
meira etapa da existência social do trabalho concreto, base da produ­
ção artesanal.

l .2.2 Manufatura ( ou cooperação avançada)


O princípio da manufatura equivale a uma extensão do princípio da
�ooperação simples, com uma dissolução inicial do processo de tra­
balho anterior, baseado nos ofícios. A cooperação simples é, efetiva­
.mente, uma justaposição e uma coordenação dos processos de tra­
balho baseados nos ofícios ou artesanatos, que na realidade não
modifica os próprios processos. Com a manufatura, as várias ati­
vidades de trabalho centralizadas nos ofícios são decompostas e
reorganizadas, introduzindo com isso uma divisão do trabalho e
uma fragmentaçfo das tarefas, embora o artesanato continue sendo
a base do trabalho. Nesse processo, vários tipos de trabalho, basea­
dos em velhos ofícios agora reorganizados, tornam-se interdepen­
dentes, surgindo daí o trabalhador coletivo a quem o trabalhador
individual se torna subordinado. O artesão transforma-se num
trabalhador, o que acarreta, conseqüentemente, profundos efeitos so­
bre as relações sociais que surgem do processo de desqualificação
técnica e de hiperqualificação da força de trabalho dentro da manu­
fatura como resultado da fragmentação das tarefas.
Esse processo de desqualificação/hiperqualificação na manufa.
tura é descrito por M. Freyssenet da seguinte forma:
1) O início da "desqualificação" do trabalho da maioria.
Isso é provocado:
- pela redução do campo no qual os trabalhadores qualifi­
cados podem ser usados e desenvolvidos;
- pela supressão progressiva da parte da atividade dos tra­
balhadores relativa ao preparo e à organização do trabalho
ao seu modo;
- pela eliminação da sua compreensão da totalidade do pro·
cesso de trabalho e, em conseqüência, pela eliminação de seu
controle concreto do processo de trabalho.
78 CHRISTIAN PALLOIX

2) O início da hiperqualificação de uma pequena minoria.


Nessa fase de desenvolvimento, as atividades tomadas do tra­
balhador ( seja pela redução do âmbito de seu trabalho, seja
pela retirada do controle direto da organização de seu traba­
lho) são transferidas pelo capitalista a um pequeno número
de assalariados que, por sua vez, são também divididos em
diferentes categorias e estão sujeitos ao controle do capita­
lista.
As responsabilidades desses grupos de trabalhadores consistem
em:
a) sistematizar a fragmentação do trabalho,
b) adaptar cada ferramenta, anteriormente usada para mui­
tas finalidades, a usos novos e limitados, de modo a aumentar
sua eficiência. 12
Essa decomposição e recomposição do trabalho baseado no
artesana:ro visa fundamentalmente a aumentar o excedente, crian­
do uma maior intensidade de trabalho ( uma primeira forma, mais
mercantil do que capitalista, de excedente extensivo); esse au­
mento na intensidade do trabalho é obtido transformando forças
de trabalho essencialmente baseadas no artesanato em trabal-bo
coletivo, recompondo, reorganizando, ".hierarquizando" assim os
processos individuais de trabalho que a partir de então são frag­
mentados, e cujo produto social é levado ao máximo, dado o nível
das forças produtivas ( ferramentas, qualificações).
Entretanto, a manufatura acaba por enfrentar não apenas a
estreiteza de sua base produtiva, mas também, e acima de tudo, o
processo contraditório da reprodução da força de trabalho, que
continua organizado em torno dos ofícios. Esse dado faz com que
ainda seja necessária a existência de uma ampla camada de traba­
lhadores qualificados, treinamento prolongado (aprendizado) e au­
tonomia dessa camada de artesãos ( que se transformaram em
trabalhadores de manufatura, mas cuja origem social se localiza
nas artes e ofícios do passado). Tudo isso ocorre num período em
que é necessário, dmultaneamente, desvalorizar essa força de tra­
balho, agora que o processo de fragmentação e desqualificação está
em andamento. Isso é obtido, em última análise, pela introdução
da maquinaria e da fábrica moderna.
1. 2. 3 O Trabalhador Coletivo: a Mecanização e a Fábrica.
Os dois pontos fracos da manufatura, do ponto de vista do capital,
- a fábrica e a mecanização - foram parcialmente superados:
12 Michel Freyssenet, op. cit., pp. 35-36.
O PROCESSO DE TRABALHO 79

- pela ampliação da base produtiva, e


- pela erosão da autonomia da reprodução da força de tra-
balho, que a partir de então fica sujeita ao capital.
A aplicação do princípio de mecanização na fábrica substituiu
o conceito de ferramenta pelo de máquina. A máquina é composta
de três elementos básicos:
- o motor ( ou fonte mecânica de energia),
- a transmissão,
- o equipamento de operação ( várias ferramentas).
Por mecanização entende-se a operação de várias ferramentas
( que agora independem da destreza manual dos trabalhadores) por
meio de mecanismos de transmissão; em outras palavras, uma fonte
mecânica em lugar da energia humana.
A ferramenta integrada ao sistema da maquinaria torna-se
uma máquina-ferramenta, uma máquina que incorpora relações so­
ciais. A maquinaria não é neutra porque a máquina incorpora, no
seu modo de operação, a destreza e a habilidade do trabalhador in­
dividual, que fica a partir de então privado de sua qualificação e
subordinado, <lo ponto de vista da produção social, à máquina à
qual ele pode apenas servir, colocar em movimento e regular.

O que queremos mostrar, pelo contrário, é que o próprio de­


senho das máquinas é determinado pelo uso capitalista que
lhes é dado, em outras palavras, pelo modo de exploração da
força de trabalho. A separação entre as partes intelectual e
manual do trabalho é materializada nas próprias máquinas,
aparecendo aos trabalhadores como uma força externa, intan­
gível.10
O desenvolvimento capitalista da maquinaria na fábrica con­
tribui, de um Indo, para uma desqualificação maciça dos trabalha­
dores na produção, juntamente com uma perda de autonomia na
reprodução da força de trabalho, e, do outro, para uma "superqua­
lificação" de um pequeno número de trabalhadores responsáveis
pela inovação, organização, regulação e reparo. Esse processo de
desqualificação e hiperqualificação é, a partir de então, caracte­
rístico das formas práticas de reprodução da força de trabalho.
1a Michel Freyssenet, op. cit.• p. 40. Sobre o mesmo tema, ver Stephen
Marglin, "Origines et Fonctions de la Parcellisation des Tâches", in A.
Gorz (org.), Critique de la Division du Travai!, Paris, Seuil, 1973, pp.
41-81. "Não foi a máquina a vapor que nos deu o capitalismo: foi o ca-­
pitalismo que nos deu a máquina a vapor." (p. 81)
80 CHRISTIAN PALLOlX

A maquinaria, em seu uso capitalista, tem como objeto essen-·


cial o crescimento do excedente numa base extensiva ( aumento de in­
tensidade), através de uma integração ainda maior da reprodução da
força de trabalho com os processos de valorização e acumulação do
capital. Em relação às formas de aparecimento do excedente, a me­
canização conduz a um importante aumento na intensidade do
trabalho, aumentando o tempo de trabalho social abstrato dedicado
à produção ( tv), de modo que o trabalhador coletivo se torna um
obstáculo cada vez maior à liberdade de manobra do trabalhador
individual. Dessa forma, a produção de um excedente extensivo
tem como corolário uma fragmentação drástica das tarefas, que são
coordenadas, de maneira autoritária e hierárquica, no trabalho co­
letivo. Essa fragmentação encontra correspondência numa desqua­
lificação da força de trabalho e na perda de controle sobre seu
próprio treinamento e reprodução. A força de trabalho torna-se ex­
clusivamente uma "mercadoria", obrigada a vender-se a si mesma.
Ao substituir o trabalho vivo pelo trabalho morto ( emboru
ainda exigindo o primeiro para a movimentação das máquinas, o
abastecimento de matéria-prima e a manutenção), a mecanização
eleva simultaneamente a produtividade do trabalho, reduzindo o
valor da força de trabalho ( tn). A desqualificação e a desvalori­
zação da força de trabalho complementam-se num mecanismo de
produção e reprodução que, a partir daí, encontra-se ainda mais
sujeito à produção de excedente extensivo e intensivo, em outras
palavras, sujeito ao capital. A administração da força de trabalho
transforma-se num imperativo capitalista.
S6 em princípios do século XX a mecanização - enquanto meio
de sujeitar o processo de trabalho ao capital - culmina no taylo­
rismo e no fordismo, nos quais os elementos do processo de tra­
balho são completamente desmontados e recoordenados no tra­
balho da linha de monta.gero, incluindo as primeiras formas de
automação. O principal resultaílo da mecnnização, e da acelerada
desqualificação do trabalhador é um novo tipo de trabalhador, o
trabalhador não-qualificado da linha de montagem, produto da divi­
são caritalista do trabalho.

1.2.4 O Trabalhador Coletivo e a Automação


Na produção me-canizada, o trabalhador na máquina é cercado por
muitas outras operações necessárias, como o preparo da tarefa, a ali­
mentação da máquina, a regulagem de sua operação e a verificação do
produto. Portanto, o trabalhador só pode servir a um número
limitado de máquinas. Isso dá or.igem a uma certa "porosidade"
no uso das máquinas e no grau de coordenação entre as diferentes.
Ü PROCESSO DE TRABALHO 81

máquinas, dentro <ln totalidade do sistema mecanizado, prioridade


essa que afeta a taxa de lucro. A automação, em seu uso capitalista,
visa a eliminar toda intervenção manual pelo trabalhador, por meio
de técnicas eletrônicas, de modo que a intervenção do trabalhador
passa a limitar-se à supervisão e ao controle geral. Integrando a
maquinaria num sistema de máquinas que elimina essa "porosida­
de", a automação assegura o máximo giro de capital para a produção
de um excedente intensivo, ao mesmo tempo em que leva a "des·
qualificação" do trabalho produtivo ao seu ponto mais extremo.
Para fazermos uma análise precisa das conseqüências da auto­
mação para o processo de trabalho, temos de distinguir dois tipos
de aplicação: (a) de forma descontínua, na produção de bens de
produção e bens d!'! consumo duráveis por meios mecânicos, ( b)
de forma contínua, na produção de bens intermediários ( aço, pro­
dutos petroquímicos e químicos, energia) através de uma transfor­
mação físico-química.
a) Descontínua: podemos discernir nos processos mecânicos e ele­
tro-mecânicos dois tipos de aplicação da automação aos departa­
mentos de bens de produção e de consumo, envolvendo, de um
lado, a generalização das máquinas transfer mecânica para a pro­
dução em massa, e, do outro, o uso geral de máquinas de controle
numérico para a produção em séries pequenas e médias.
A máquina transfer reduz uma série de máquinas-ferramentas,
que realizam uma série de operações especializadas, a um todo au­
tomatizado. O movimento do produto não-acabado de uma má·
quina-ferramenta para outra é realizado automaticamente, sem que
tenha de ser retirado e remontado a cada operação. A totalidade
constitui uma linha de fluxo (flow line). As linhas de fluxo são
interligadas por correias transportadoras automáticas que funcio­
nam como depositários dos produtos não-acabados. A máquina
transfer, que se desenvolveu primeiramente na indústria auto­
mobilística, foi introduzida em muitas áreas de produção, ligada
à produção de massa.
As máquinas de controle numérico automatizam as diferentes
fases da produção ( até mesmo, em certos casos, preparando o
trabalho e controlando a qualidade) na produção de séries pe­
quenas ou médias de componentes mecânicos. O mecanismo de
controle numérico é uma máquina-ferramenta na qual a série de
movimentos necessários à operação da máquina é dirigida e con­
trolada por um programa predeterminado e não pelo operador.
Esse tipo de máquina-ferramenta, embora requeira menor uso de
mão-de-obra, ao mesmo tempo reduz ainda mais as qualificações
82 CHRISTIAN PALLOIX

técnicas do trabalhador, ao ponto que as próprias qualificações desa­


parecem crescentemente.
As novas necessidades de mão-de-obra associadas às máqui­
nas de controle numérico incluem engenheiros treinados no con­
trole numérico e em programas e pessoal de manutenção diversi­
ficado em eletricidade e mecânica. A força dt> trabalho capacitada
em operações mecânicas é substituída pela força de trabalho ocupa­
da em programação e controle, qualificada em eletrônica.
Distinguindo máquinas-ferramentas convencionais, máquinas
transfer e mecanismos de controle numérico, é possível resumir as
qualificações funcionais exigidas nas operações do processo de
trabalho da seguinte maneira: 14

máquinas­ máquinas­ máquihas máquinas de


ferramentas: ferramentas transfer controle numé­
convencionais (produção em rico (pequena e
série) média produção)
operações:
--------
abastecimento qualificado/não­ automação + 1 não-qualificado
qualificado não-qualificado
---------------1
regulagem hiperqualifica­ hiperqualifica­ computador +
do/qualificado do/ qualificado não-qualificado
----'-----------·---- ---- -------- ---

preparo da qualificado/ não­ 1 não-qualificado computador +


produção qualificado não-qualificado
1

supervisão/con­ qualificado qualificado /não­ hiperqualifica­


trole qualificado do/qualificadol5
-------· ------·----------··-· ..
H A notação nesse diagrama baseia-se numa tradução muito aproximada
da classificação francesa:
TAQ - Trabalhador altamente qualificado (ouvrier hautement qua-
fifié).
TQ - Trabalhador qualificado (ouvrier professivnel).
TNQ - Trabalhador não-qualificado (ouvrler specialisé).
E.�sa última categoria inclui todos os que trabalham diretamente na
linha de montagem, inclusive trabalhadores semiqualificados. A categoria
TQ inclui os que dispõem de certo grau de treinamento ou qualificação
técnica, administrativa ou em engenharia.
Ui O alto grau de preparo exigido para essas operações de supervisão
Q PROCESSO DE TRABALHO

As máquinas-ferramentas já asseguraram o crescimento do tra­


balhador não-qualificado e semi-qualificado, isto é, produziram a
"desqualificação" dos trabalhadores: a automação, usando máqui­
nas transfer e em seguida máquinas de controle numérico, faz do
trabalhador não-qualificado a norma; 16 essas máquinas generalizam
a: desintegração da atividade operacional e a fragmentação das ta­
refas.
Por caráter descontínuo da produção entendemos, de um lado,
a produção automática de grande série de componentes, e, do outro,
o ajustamento e montagem desses componentes.
A utilização capitalista do princípio da automação na coorde­
nação das operações de ajustamento e montagem { o que é prova­
velmente possível no futuro em itermos tecnológicos) por meio de
linhas de montagem agrupadas e integradas umas nas outras por
transportadores automáticos, possibilitaria a realização de processos
contínuos de transformação mecânica. No momento, porém, fábricas
totalmente automat.izadas só existem na produção de bens inter­
mediários, na qual as transformações materiais são de nature-�
físico-química.
b) Contínua: A aplicação do princípio de automação aos processos
contínuos só foi desenvolvida na produção de bens intermediários
( aço,17 petroquímicos, cimento, energia), em que o processo de
transformação predominante é o físico-químico, e não o mecânico.
A tendência é no sentido de a unidade de produção ser simples­
mente um sistema integrado e automatizado, no qual as funções
dos trabalhadores estejam essencialmente limitadas às de manuten­
ção e controle geral.
A fábrica automatizada ( a fábrica onde apenas se apertam bo­
tões) tem suas atividades produtivas articuladas para a produção
em massa. Nesse caso, a desqualificação dos trabalhadores é extre-
e controle pemutiu que se argumentasse, um tanto teologicamente: "as.
perspectivas da produção em pequena série, nos próximos dez anos, são
surpreendentes: o trabalhador da pequena oficina se tomará muito mais
raro do que o operador da máquina-ferramenta, ou o técnico de manu·
tenção" (Ronald Indédale, Les Liens avec l'usine de demain, CECIMO -
Comité Européen de Cooperation des Industries de la Machine-Outil, 1975,
p. 4).
16 Cf. Usine Nouvelle, junho de 1975, p. 135. "Para a produção em
pequena série, o controle numérico também nos oferece urna solução para
o problema da mão-de-obra altamente treinada, cada vez mais difícil de
recrutar na indústria de engenharia. Pode-se, de fato obter o grau de
precisão necessário usando operadores com um nível de preparo inferior
ao que seria necessário para as máquinas-ferramentas convencionais."
17 De fato, os processos descontínuos ainda são usados na produção do­
aço.
84 CHRISTIAN PALLOIX

ma, chegando mesmo ao ponto do desaparecimento total de etapas


do processo nas quais se faz necessária a intervenção do trabalha­
dor.
2. As Fonnas Complexas d:i Organização dos
Processos de Trabalho no Capitalismo Contemporâneo
De um lado, há um processo de trabalho dirigido para a produção
em massa, isto é, para a produção de excedente intensivo ( mais­
valia relativa) através da redução do valor de troca da força de
trabalho. Paralelamente, há um processo de trabalho dirigido para
a reprodução da hegemonia das camadas dominantes, uma hegemo­
nia que se baseia no controle das relações de mercadoria ( controle
da inovação e "design" [concepção], da realização das mercadorias,
da organização da produção, da administração da força de traba­
lho etc.)
2. 1 Processo de Trabalho e Produção em Massa
Devemos ter sempre em mente que os métodos "técnicos" envol­
vidos nos diferentes processos de trabalho - ou métodos de ma­ 1

nufatura - foram progressiva e historicamente formados pelas


condições nas quais o capital se realizou ( pela mise-en-valeur do
capital), e também pelos processos pelos quais o capital foi acumu­
lado. Eles foram, e continuam sendo, as forças motoras na evolu­
ção do processo de trabalho a esse nível, e podem, por si mesmos,
explicar as modificações ocorridas, nesse processo, nos diferentes
ramos e departamentos da produção social. Conseqüentemente, na­
da se pode dizer sobre a evolução dos processos de trab(tlho
sem formular várias hipóteses ( talvez implícitas) sobre as moJifi­
cações ocorridas nos processos de valorização e acumulação do ca­
pital. Portanto, devemos resumir rapidamente as tendências gerais
relacionadas com a valorização e a acumulação do capital ( que po­
dem ser identificadas com base em um século de prática capita­
lista) - tendências que também afetaram a evolução do processo
de trabalho. Em seguida, podemos formular certas hipóteses sobre
os fatores que podem agir sobre essas tendências gerais, modifi­
cando-as.
a) Nos últimos cem anos os principais elementos que caracte­
rizaram as condições da valorização do capital relacionaram-se com
as condições da produção-reprodução de um mercado de trabalho
dual com:
- de um lado, uma força de trabalho relativamente qualifi­
cada, capaz de negociar altos níveis salariais, mas representando
uma fração decrescente da força de trabalho agregada;
o PROCESSO DE TRABALHO 8)

- do outw, uma força de trabalho não-qualificada ( recru­


tada inicialmente em modos de produção pré-capitalistas), que pode
ser obtida por salários baixos e até mesmo muito baixos.
Esse duplo mercado de trabalho, encontrado a princípio em forma­
ções sociais capitalistas avançadas { relacionado com as condições
de valorização e acumulação), tende, cada vez mais, a ser formado
apenas em nível internacion,il.
Por exemplo, nos Estados Unidos em fins do século XIX, os
trabalhadores qualificados, aqueles que tinham um treinamento ar­
tesanal ou de ofício, juntamente com os imigrantes que tinham
experiência de sindicatos e atividades políticas, empenharam-se nu­
ma luta política que foi suficientemente generalizada para consti­
tuir um obstáculo à valorização e acumulação do capital. Ao mesmo
tempo, chegava da Europa uma massa de imigrantes camponeses
que não podiam ser incorporados, nas condições em que se encon­
travam, ao processo de produção. Os processos de trabalho tive­
ram, portanto. de ser modificados. De um lado, tiveram de ser
adaptados a fim de possibilitar a desqualificação dos trabalhadores
"artesanais", e, do outro, tiveram de ser adaptados a fim de per­
mitir o emprego de trabalhadores não-qualíficados, ou que podiam
ser facilmente transformados em não-qualificados. O taylorismo e
o fordismo constituíram uma solução: apresentaram um tipo par­
ticular de processo de trabalho adequado ao e mprego de tipos defi­
nidos de força de trabalho.
A reconstituição desse duplo mercado de trabalho, que ocor­
reu necessariamente em conjunto com dois processos de trabalho
em interação constante, é uma necessidade para o sistema capita­
lista, necessidade que se expressa, em relação à classe operária,
num duplo movimento do capital:
- tendência à equalização
- tendência à diferenciação.
Ai condições para a reprodução desse duplo mercado de tra·
balho, historicamente ligado às formas pré-capitalistas internas de
produção nos países avançados, estabeleceram-se rapidamente a rú­
vel internacional, e isso teve um efeito sobre o processo de interna­
cionalização e a divisão internacional do trabalho, isto é, teve um
efeito sobre as diferenças que se estabeleceram em todo o mundo,
em relação às eondíções de produção e reprodução da classe ope·
rária. 18

18 Cf. R. Barnett e Ronald E. Mul!er, Global Reach, ihe Power of Mul­


tinational Corporations, Nova York, Simon & Schuster, 1974.
86 CHRISTIAN PALLOIX

b) O duplo mercado de trabalho, juntamente com as novas


formas de valorização do capital, com o emprego na produção de
novos conhecimentos científicos (energia nuclear, cibernética, au­
tomação etc.), com o uso em grande escala de novos materiais
(80% produzidos na " periferia", 80% consumidos no "centro"),
tudo isso, em conjunto, deu origem a um modo de valorização do
capital baseado na produção em massa ( ou, em outras palavras, na
"produção de mais-valia em grande escala", onde esta é obtida
através de produtos manufaturados em grande número). Essa pro­
dução em massa depende da dominação do capital. Este já não en­
frenta lírrútes técnicos no âmbito e grau de sua dominação; os úni­
cos limites são os sociais.
c} No contexto desse duplo mercado de trabalho, os dois prin­
cipais tipos de processo de trabalho tomam as seguintes formas:
- processos descontínuos: organização taylorista e fordista
do trabalho ( trabalho de linha de montagem); trabalho repetitivo
e fra,gmentado, envolvendo um grande número de trabalhadores
não-qualificados fornecidos pela imigração ou pelas transferências
internas de mão-de-obra (camponeses, mulheres,. camadas margina­
lizadas da população); a indústria automobilística, eletrônica, arti­
gos eletrodomésticos, têxteis tradicionais etc;
- processos descontínuos: organh:ação taylorista e fordista
volvendo um investimento muito grande de capital constante ( e
fixo), e poucos, muito poucos trabalhadores, alguns dos quais rela­
tivamente qualificados ( petroquímica, quírrúca, têxteis sintéticos),
nas esferas de regulagem e controle, e outros totalmente não-quali­
ficados.
d) E possívd fazer certas observações relacionadas à localiza­
ção desses diferentes processos de trabalho.
No que se refere aos processos organizados nas linhas de mon­
tagem taylorista e fordista, houve historicamente duas tendências
sucessivas:
- num período inicial, enquanto continuou a expropriação
rural nos países imperialistas centrais, a reprodução do duplo mer­
cado de trabalho foi assegurada ( embora fosse suplementada, na
medida das necessidades, pela importação dos trabalhadores da pe­
riferia); nesse período, os países imperialistas conservaram a ma­
nufatura e a transformação de produtos dentro de suas próprias
fronteiras, permitindo aos países subdesenvolvidos apenas o traba­
lho de extração de produtos naturais ( matérias-primas, energia, cer-

_____ J
o PROCESSO DE TRABALHO 87

tos produtos agrícolas); essa divisão internacional do trabalho che­


gou ao auge na década de 1970;
- num segundo período, as precondições políticas e sociais
para a reprodução do mercado de trabalho, em relação com o sis­
tema produtivo, já não eram asseguradas nos centros imperialistas;
a periferia começa a modificar seu caráter, em conseqüência de um
certo deslocamento do processo de trabalho e do processo de pro­
dução. Certos tipos de manufatura são transferidos, passando a se
localizar em formações sociais subdesenvolvidas, com os centros im­
perialistas reservando para si os procesios que exigem um certo
know-how, um certo conhecimento tecnológico, e uma força de tra­
balho qualificada
Por cons�uinte, podemos observar, nos centros imperialistas,
um crescimento das indústrias que exigiam elevado nível de conhe­
cimentos ( engenharia da produção, pesquisa e desenvolvimento),
enquanto os países periféricos adquirem rapidamente um -novo ca­
ráter específico com o aparecimento de indústrias de produção em
massa ( carros, aparelhos eletrodomésticos, rádios transistores, câ­
meras, têxteis).
Quanto à produção autom,ática em massa, ela continua, em
grande parte e em geral, localizada nos países imperialistas centrais,
ou em certos países intermediários, embora essa tendência geral se
complique por certos fatores: pela necessidade de financiamento
( hbje em dia, os petro-dólares estão envolvidos), problemas de
poluição ( petroq u í.mica, aço), inexistência de mão-de:obra qualifi"
cada· em número suficiente { que ameaça impedir o processo de re­
distribuição na escaJa prevista em certos países, como, por exemplo,
na França).
e) Devemos ressaltar que o fordismo, que ainda caracteriza o
ptpcesso de trabalho de hoje, não é a mesma coisa que o tayloris­
mo·: é uma inovação real. Como observa B. Coriat, 19 Ford usou
aigons aspectos essenciais do taylorismo ( separação entre projeto e
inovação e execução, divisão e subdivisão das tarefas, permitindo
a cada movimento um tempo específico), mas também foi além,
inti,-oduzindo dois outros princípíos:
- um novo método de controle da força de trabalho;
- a introdução do princípio da linha de fluxo ( correias trans-
portadoras) na forma concreta da linha de montagem.
10 Alguns desses pontos foram extraídos de um trabalho mimeografado
de B. Coriat, "Un dévelopment Créateur du Taylorisme: le Fordisme",
janeiro de 1975, p. 21.
88 CHRISTIAN PALLOIX

Quanto à linha de montagem, as inovações Jo fordismo podem ser


resumidas da seguinte maneira:

O fluxo das partes é, na medida do possível, realizado por


máquinas ( transmissores, transportadores, estruturas móveis
de montagem) e está sempre separado do trabalho de monta­
gem propriamente dito. Os trabalhadores da montagem não
têm, assim, n�cessidade de se movimentar pela fábrica, e es­
tão fixos em suas posições de trabalho; uma conseqüência
disso é o fato de que a velocidade de movimento do produto
não-acabado ( e, portanto, o ritmo de trabalho) é controlado
mecanicamente, e não pelos próprios trabalhadores, aos quais
é imposto.
Os princípios do fordismo deram origem a <luas proposições
contraditórias:
- de um lado, estabeleceu-se um sistema mecânico baseado
no movimev.to coordenado e na circulação das peças, ferra­
mentas e material;
- do outro, toda essa circulação é planejada de modo a "fi­
xar" o trabalhador em sua posição de trabalho, para que ele

'
não tenha de afastar-se dela um. passo.:)()
Quanto aos métodos de controle do trabalho, Ford introduziu
o salário diário ( em lugar do trabalho por tarefa), possibilitando 1
com isso "regular" o controle da força de trabalho imposto de
fora. O famoso "Dia de Cinco Dólares" (DCD) foi um acréscimo
necessário ao novo processo de trabalho. Sem entrarmos em deta­ l
lhes, podemos dizer que o DCD tinha, como método de controle
da força de trabalho, as seguintes funções:

Assegurar ao capital uma oferta ininterrupta de mão-de-obra;


impedir a ocorrência de rebeliões de trabalhadores em grande
escala, que ocorreram regularmente na Europa do século XIX,
"desinfetando" a população trabalhadora, e treinando inspe­
tores para controlá-la;
e assegurar com isso o rápido avanço da produção em massa
e da acumulação de capital.31
f) Os processos de internacionalização do capital e da produ­
ção, a base do desenvolvimento das empresas multinacionais, deu
origem em escala crescente à produção automática em massa de
20 B. Coriat, op. cit., pp. 5-6.
21 B. Coriat, op. cit., p. 20.
o PROCESSO DE TRABALHO 89

âmbito mundial. O.,; processos de trabalho passaram a ser definí­


veis somente em escala internacional, surgindo daí um novo traba.
lhador, ou seja, o trabalhador de massa,22 ligado às vicissitudes das
multinacionais, isto é, aos movimentos da internacionalização do
capital.

2. 2 O Processo de Trabalho e
o Controle das Relações de Mercadoria

A reprodução das relações capitalistas de produção toma a forma


da produção de "metcadorias "; o conceito de mercadoria é de im·
portância central para o sistema capitalista. O controle da reprodu­
ção, do ponto de vista das camadas hegemónicas, ocorre através do
controle da mercadoria, não só em relação às condições da produção
de mercadorias ( organização do processo de trabalho na produção
eiri série) mas também em relação à reprodução das relações de
mercadorias (isto é, a reprodução da dominação das camadas hege­
mónicas).
Devido a essa necessidade, o processo social de produção de
mercadoria é dividido em três etapas distintas ( divisão que é fonte
de uma crescente'! contradição) ;
: - o processo de "concepção" das mercadorias, limitado às
fü�as de engenharia do produto, departamentos de pesquisa, em­
presas de desenvolvimento de produtos etc; :;3
- o processo de "produção" de mercadorias, implicando uma
determinada organização do processo de trabalho para a produção
cm massa;
- o processo de "realização » de mercadorias, através do ato
de circulação, implicando não só a atividade produtiva do trans·
porte, mas também as empresas e departamentos especializados em

:.i2 Cf. S. Bologna, P. Carpignano e A. Negri, Crisi e Organiu.az.ione Ope­


raia, Milão, Feltrinelli, 1974, 199- pp.; A. Scrafini, L'Operaio Multinai:.io­
nale in Europa, Milão, Feltrínelli, 1974, 244 pp.; S. Bologna, C. P. Rawick,
f: M. Gobiní, A. Negri, L. Ferrari-Bravo e F. Gambino, Operai e Stato,
Milão, Feltrinelli, 1973. 236 pp.; L. Ferrari-Bravo, imperialismo e Classe
Operaia Multinazionale, Milão, F0ltrinelli, 1975, 362 pp.
23 Cf. pesquisa realizada pelo Departamento de Industrialização e Desen­
volvimento, IREP, em particular os estudos dirigidos por Jacques Perrin;
Place et Fonclion de l'Ingénierie dons /e Systeme Industrie/ Français, Gre·
noble, 1973, 2 vols.; Les Entreprises d'lngériierie. Les Besoins en Formation
Supérieure, Grenoble, fevereiro de 1974.
90 CHRISTIAN PALLOIX

transportes/4 firmas comerciais, firmas especializadas em cotrier­


cialização, etc.
E interessante notar que, na literatura profissional, o campo
da engenharia do produto e da produção é considerado como , re­
sultado do taylorismo e do fordismo ( isto é, como produto do de­
senvolvimento capitillista do processo de trabalho, com uma subdi­
visão do trabalho sempre crescente).

"Sob a influência do taylorísmo começaram a aparecer, entre


as duas guertas mundiais, a prática de vender o know-how
tecnológico e a negociação de contratos para a venda de- - fá­
bricas totalmente prontas. Os planejadores da produção co­
meçaram por ensinar aos gerentes das fábricas como reduzir
o tempo exigido pelos vários movimentos dos trabalhadores.
e em seguida como dispor as máquinas na fábrica. Em se­
guida, na busca de maior eficiência, eles passaram a fazer es­
tudos sobre a construção de fábricas inteiras, a partir do nada.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os países que precisa­
vam ser reconstruídos, e os que estavam em processo de
desenvolvimento, começaram a encomendar indústrias inte"i­
ras ",2ú

O controle da mercadoria na reprodução das relações de pro­


dução situa-se basicamente nas fases de concepção e de realização,
o que levou a um desenvolvimento do sistema capitalista no sentido
da chamada "terch1rização" da economia. Mas a sí,gnificação dessa
famosa " terciarização" só pode ser percebida em relação às exigên­
cias da luta de classes do ponto de vista das camadas hegemônicas.
De fato, confrontadas com um aumento na intensidade da luta de
classe do proletariado na produção, e não dispondo as camadas
dominantes capitalistas de uma solução econômica ou política para
essa luta, as tradicionais alianças de classe ficaram ameaçadas. Era
essencial não só que a hegemonia da dominação capitalista pudesse
se exercer atravé� do controle da mercadoria ( concepção e realiza­
ção), mas também que novas camadas sociais formassem alianças
de classe, ampliando as camadas da sociedade que pudessem ser
levadas a funcionar ideologicamente dentro do "bloco histórico"

u Pesquisa em Tealização pelo Departamento de Industrialização e Do­


senvolvimento, "Sur l'Evolution du Systeme de Transport, les Transítaires
auxiliaires ... "
211 "Transfert des Techniques et Usines Clefs en Mains", Te/onde, n.• l,
1975, p. 42. Para uma análise crítica, cf. P. Judet e J. Perrin, �nu 'Clef
en Main' au Produit en Main", Grenoble, IREP, maio de 19-15, 12 pp.
o PROCESSO DE TRABALI [O 91

dominante ( d. Cadernos do Cárcere, de Gramsci, sobre esse con­


ceito).
A terciarização dá origem aos famosos trabalhadores white
collar, que foram tão mal compreendidos pelo infeliz S. Mallet e
por outros sociólogos, isto é, por planejadores, administradores,
técnicos, pesquisadores etc, que participam da reprodução da mer­
cadoria no sistema capitalista, ou seja, da reprodução das camadas
hegem.ômcas da burguesia, e que são utilizados pela burguesia para
disfa1'çar as contrarl.ições que se desenvolvem ao nível da produção
e da organização do processo de trabalho da produção em massa.
O sistema capitalista promove uma ofensiva ideológica maciça
para convencer esses trabalhadores da lógica da reprodução da mer­
cadoria, através, pot exemplo, de escolas de comércio, de institutos
de administração, da mística dos computadores etc. Não obstante,
o capitalismo é forçado a organizar o processo de trabalho da pro­
dução de mercadoria na umca maneira adequada, com um sistema
hierárquico e com a fragmentação do trabalho de concepção e de
realização. A mesma organização do processo de trabalho da pro­
dução em massa de mercadorias se estende gradualmente aos pro­
cessos de trabalho de concepção e realização de mercadorias, embo­
ra um peso crescente da ideologia, ao lado dos aspectos específicos
da produção de tipos particulares de força de trabalho envolvidos
nesses processos, tenham uma influência na determinação das rela­
ções de classe dentro das chamadas esferas terciárias. A recente
greve dos bancáríos franceses contra a organização do trabalho tes­
temunha a crise na reprodução das relações capitalistas de produção,
do ponto de vista central da reprodução de mercadoria.
M. Bel e J. Perrin observaram a crescente complexidade da
divisão do trabalho na engenharia do produto e da produção:

"Podemos ver, portanto, que a engenharia do produto e da


produção, embora seja função autônoma de concepção e de
realização de investimentos, reflete um dos processos de divi­
são do trabalho existentes na atualidade. Devemos acentuar,
porém, que esse processo da divisão do trabalho está se tor­
nando mais complexo, e que se desenvolve de maneira não­
Jinear" . 211

Isso se reflete na desqualificação de uma grande parcela de


trabalhadores e na hiperqualificação de um pequeno número.

26 Cf. M. Bel e J. Perrin, Les Entreprises d'lngénierie, les Besoins en


Formations Supérieure�, Grenoble, IREP, fevereiro de 1974, p. 83.
92 CHRISTIAN PALLOIX
l
Todavia, é necessário levar em conta as medidas, muito divul- J
gadas, da burguesia ( ao mesmo tempo políticas e econômícas) pelas
quais até certo ponto, o controle da produção de mercadorias foi
l
relaxado, mantendo-se camadas hegemónicas. Há um risco de que
as reivindicações de cotttrole por parte dos trabalhadores ( ou auto­
administração - autogestão) sejam ilusórias se forem limítadas às
reivindicações de controle da produção e não confrontarem direta-
mente o controle da reprodução de mercadoria.
O problema das fases distintas ( concepção, produção, realiza­
ção) da produção de mercadorias suscita a questão da análise do
trabalho produtivo e improdutivo.27
Por não terem percebido a existêncía desses dois processos
distintos de trabalho - um centralizado na produção de um produ­
to excedente através da produção em massa, o outro centralizado
no controle capitalista da reprodução das relações de mercadoria
- alguns autores ( Stephen Marglin, A. Gorz, Dominique Pignon,
Jean Querzola etc.) procuraram argumentar que a fragmentação e
a subdivisão do trabalho não têm nenhuma relação com a extração
de um excedente, mas são plenamente explicadas com referência à
domínação de classe, à reprodução das camadas hegemónicas:

"A fragmentação e a especialização do trabalho, a separação


entre o trabalho intelectual e manual, a monopolização da
ciência pelas elites, o gigantismo das fábricas e a centra_liza­
ção do poder daí resultante - nada disso é necessário à pro­
dução eficiente. Tais coisas são antes necessárias à perpetua­
ção do domínio do capital".28

Perpetuação do domínio do capital, sem dúvida (por meio do


·controle das relações de mercadoria) , mas isso se faz através da
produção de um produto excedente, isto é, pelo desenvolvimento

27 Cf. Michel Freyssenet, Les Rapports de Production: Travai/ Productif


et Travai/ lmproductif, Paris, CSU, 1971, 50 pp.; I. Nagels, Travai/ Col­
fectif et Travai/ Production, Editions de l'Université de Bruxelles, 1974,
324 pp.; A. Berthoud, Travai/ Productif et Productivité du Travai/ chet
Marx, Paris, Maspero, 1974; Jacques Gouverneur, Le travail "Productif"
en Regime Capi/a/íste, Louvain, Universidade Católica de Louvain, Instituto
de Ciências Econômicas, janeiro de 1975, 68 pp.
28 André Gon, Critique de la Division du Travai!, Paris, Seuil, 1973, p.
112. Gorz também diz: "os trabalhadores técnicos e científicos têm ex.a­
tamente no centro de seu papel técnico, igualmente o papel de reproduzir
as c.ondições e as formas de dominação do capital sobre o trabalho" (ibid.,
p. 254).
Ü PROCESSO DE TRABALHO

das condições de produção, e da inevitável revolucionarização do


processo de trabalho no contexto da produção em massa.
Uma outra revolucíonarização do processo de trabalho parece
existir, à primeira vista, nos vários esquemas de "valorização do
trabalho", tanto na produção industrial ( recomposição do trabalho
industrial ) como no setor de serviços ( pela "motivação do traba­
lho").

2. 3 O Problema da Valorização do Traba!ho: neofordismo


A crítica do taylorismo e do for<lismo, que freqüentemente se segue
às lutas práticas nas quais a atual organização do trabalho é ques­
tionada, desenvolveu-se muito desde os trabalhos pioneiros de G.
Friedman.� 9 A crítica torna, em geral, a seguinte forma:

"A organização científica do trabalho leva à introdução do


trabalho de linha de fluxo, da qual o trabalho na linha de
montagem é a forma mais limitadora; é um trabalho que não
exige inteligência, responsabilidade ou criatividade; é uma
fonte de descontentamento e degradação da personalidade. O
preço pago é um alto índice de absenteísmo e substituições,
uma grande margem de desperdício e rejeições, e um aumento
nas paralisações e sabotagem. As contradições do trabalho
fragmentado são mai� agudas à medida que o nível de edu­
cação dos trabalhadores aumenta".30

Essa formulação do problema ignora, porém, os temas da ex­


ploração e da reprodução das camadas hegemônícas. Só questiona
o taylorismo e o fordismo do ponto de vista humanista ( trabalho
que não exige inteligência, responsabilidade ou criatividade, fonte
de descontentamento e de degradação da personalidade), obser­
vando apenas seu� efeitos sobre a lucratividade do capital ( altos
índices de absenteísmo e substituição/desperdício/ rejeições/ sabo­
tagem).

29 Georgcs Fricdrnan, Problemes Humains du Machinisme Jndustriel, Pa­


ris, Gallirnard, l 956, 419 pp.; Alain Touraine, L'Evolution du Travai/
Ouvrier aux Usines Renault, Paris, CNRS, 1955, 202 pp.; Ph. Bernomi:,
D. Motte e J, Saglio, Trais Ateliers d'OS, Paris, Les Editíons Ouvrieres,
1973, 215 pp.; "Conditions du Travai!, le taylorisme en Question", Socio­
logie du Travai/, n.º 4, outubro-dezembro de 1974; A. Wisner, A. Laville
e E. Richard, Les conditions de Travai/ des Femmes OS de la Construction
Électronique, Paris, CNAM, 1973.
:io Oaude Duran, "Les Politiques Patronalcs d'Enrichissement des Tâches�.
Sociologie du Travai/, n? 4, 1974, p. 366.
94 CHRISTIAN PALLOIX

Daí a pergunta: não será a valorização do trabalho31 uma


adaptação do taylorismo e do fordismo às novas condições de luta
na produção, com o objetivo de preservar a lucratividade do capital,
e não uma revolução radical do processo de trabalho?
Por valorização do trabalho entende-se uma modificação no
processo de trabalho que questiona o taylorismo e o fordísmo em
relação à fragmentação do trabalho. Isto envolve o reagrupamento
de várias operaçõe:: de txabalho do mesmo tipo básico, como antes,
mas agora com maior variedade em cada fase de trabalho ( em lugar
� número muito limitado de operações em cada fase, numa linha
de montagem típica} de modo a aumentar a duração da unidade
de trabalho ( de meio minuto para mais de 15 minutos); e também
permitindo aos trabalhadores controlar seu próprio trabalho ( eles
assumem um número limitado de operações de regulagem, controle
de qualidade e manutenção). A valorização do trabalho levaria à
aboliç.-ão da linha de montagem.
Experiências nesse sentido foram realizadas nos Estados Uni­
dos em algumas grandes empresas multinacionais, como a Texas
Instruments, Polaroid, Corning Glass, IBM, Chrysler, Ford e Ge­
neral Motors.32 Na Europa, houve tentativas, por exemplo, na
Volvo, ICI, Philips, Olivetti e Fiat.
Os grupos semi-autônomos são apenas uma extensão da idéia
de valorização do trabalho, e pressupõem pequenas equipes de tra­
balho que têm liberdade de organizar e planejar seu próprio tra­
balho; desnecessário dizer que essa liberdade se exerce dentro dos
limites estabelecidos pelas quotas gerais de produção.
Numa análise bastante sutil, Mauríce de Montmollin desmas­
carou a base da valorização do trabalho: trata-se, na realidade, de
um neotaylorismo, e não de um antitaylorismo, com a função ideo­
lógica de permitir a sobrevivência do taylorismo e do fordismo em
novas condições de controle da força de trabalho ( em particular,
novas condições de controle de um mercado dual de trabalho).

"Esse movimento deve receber um novo nome. Com a impor­


tante exccçfo dos grupos semi-autônomos, o antitaylorismo

31 Sobre o problema da valorização do trabalho, ver: Socio/ogie du Tra­


vai/, n.º 4, .1974; Relatório Delamotte, "Rechcrches en Vue d'une Orga­
nisation plus Luminaire du Travail Industriei", La Documentation Fran­
çaise, março de 1972.; John R. Maher, New Perspectives in Job Enrichment,
Nova York, Van Nostrand Reinhold, 1971.
Uma crítica da valorização do trabalho é feita por Dominique Pignon
e Jean Querzola em "Dictature et Democratie dans la Production", i'n
A. Gorz (org.), op. cit., pp. 103-159.
s.2 Cf. D. Pignon e J. Querzola. op. cit., p. 127.
Ü PROCESSO DE TRABALHO 95

é, na verd>tde, um neotaylorismo. Por que só agora surgiu


esse movimento? Na verdade, não é um movimento novo.
Porque o neotaylorismo é, com efeito, a reação do taylorismo
às novas condições do mercado de trabalho, mas não é, na
verdade, tal realidade. É uma adaptação interessante, mas não
acaba com os métodos mais antigos de organização. Seu sú­
bito aparecimento não é assim tão súbito. Ele não tem os
antecedentes profundos de uma revolução, precedida durante
muito tempo por tensões submersas, mas surge no cenário
com a calma e a oportunidade de uma reforma" . 83

De fato, a recomposição das tarefas não chega nunca a ques­


tionar realmente a divisão do trabalho ( trabalho manual e intelec­
tual, hierarquia) porque introduz no funcionamento dos pequenos
grupos de trabalho o fato de serem eles parte subordinada dos tra­
balhadores coletivos.
Quanto aos grupos semi-autônomos, um estudo de P. Bernoux
e J. Ruffier só conseguiu chegar à conclusão de que:

Parec� impor-se uma distinção entre os grupos de trabalha­


dores gue têm consciência de que vendem sua força de tra­
balho sob a condição de mostrar uma obediência passiva à
empresa, e os que acreditam tratar-se apenas de uma troca
( o produto de seu trabalho por um preço) ( ... ) Enquanto
para os primeiros, os grupos semi-autônomos podem resultar
numa alienação adicional ( na medida em que exigem uma
dedicação ainda maior ao trabalho que, apesar de tudo, con­
tinua repetitivo e monótono), para os outros os grupos semi­
autônomos podem conferir maior significação ao trabalho,
possibilitando a recuperação de um certo senso da atividade
consciente de produção. Contudo, parece que, qualquer que
seja o caso em relação aos sentimentos de alienação para
qualquer desses grupos, a noção de exploração, tanto como
realidade objetiva quanto como uma maneira de os produto­
res representarem as coisas para si mesmos, continua inaI-
., terada. 34

Na indústria automobilística, por exemplo, a recompos1çao d as


tarefas não passa de u1n::1 adaptação do fordísmo, baseada cm novos

as Maurice de Montmollin, ''Taylorisme et anti-taylorisme", Sociologie du


Travai/, n.º 4, 1974, p. 382.
ii, Ph. Bernoux e J. Ruffier, "Les groupes Semi-autonomes de Production",
Sociologie du Travai!, li.º 4, 1974, pp. 400-1.
96 CHRISTIAN PALLOlX

métodos de organizar o fluxo dos componentes e dos produto� não·


acabados, como ressaltou Yves Debost, em relação ao caso da .,,,
Renault:

Na década de 1970 a linha de montagem elevada foi dividida


em partes; foram construídas sublinhas ao longo da linha
de montagem principal, a fim de que os motores e as caixas
de mudança pudessem ser desligados da linha e ficar nos pon­
tos de trabalho. Assim, os motores e as caixas de mudança
são levados ao longo da linha, desligados nos pontos de sub-­
montagem, onde são realizadas as várias operações de monta­
gem, e em seguida recolocados pelo trabalhador na linha prin­
cipal, que os leva a outro ponto de trabalho. Nesses subcir­
cuitos há, portanto, vários motores ou caixas de mudança
que aguardam sua vez e o próprio trabalhador controla q
ritmo elas várias operações que tem de realizar. Assim, encon­
tram-se várias disposições de linha nos diferentes departa.
mentas da Renault e ela Fiat, com técnicas variadas para
transportar o trabalho para os pontos de trabalho, criar esto­
ques-tampões e organizar os diferentes aspectos do trabalho
( trabalhadores divididos em subgrupos podem escolher se
cada um ddes realiza todas as diferentes operações de monta­
gem num motor ou se cada um deles realiza tarefas espeCÍ·
ficas).
Inovações como estas foram feitas na fábrica de motores de
Termoli, na fábrica de caixas de mudança de Cléon, na fábrica
de motores de Douvrins ( ... ) Em Le Mans, numa oficina
de montagem de sistema de suspensão, as experiências come­
çaram em 1972, resultando no aumento da duração do ciclo
unitário de trabalho para 15 minutos; a experiência deve es,
tender-se a toda a fábrica. 3"

Na fábrica Volvo, em Kalmar, Suécia, a expenencia de re­


•c:omposição de tarefas baseia-se no uso de novos tipos de vagões,
·.que substituem a linha de montagem na montagem do Volvo 164:

35 Yves Debost, "L'évolution de la manutention dans ['industrie automo­


bile", in Yves Debost e Bernard Real, Les Rapports des industries de la
Manutention avec l'évolution des processus de productio11 et des moyens
de transport dans le cours de l'i11ternationalisation du capital, Grenoble,
IREP, março de 1975, p. 130.
0 PROCESSO DE TRABALHO 97

( Os vagões] desempenham três funções ao mesmo tempo:


- transnútem informação às fábricas a partir dos compu­
tadores;
- transportam carrocerias e chassís;
- as bancadas mecânicas são montadas neles. 36

Por conseguinte, a recomposição das tarefas e a valorizaçãa


do trabalho industrial parecem ser apenas uma adaptação de pro­
cessos de trabalho na produção em massa ( taylorismo e fordismo )i
a novas condições de controle da força de trabalho, a novas con­
dições de reprodução da dominação do capital em relação às con­
dições para a reprodução do produto excedente, e constituem uma
nova prática capitalista: o neofordísmo.
O neofordismo é uma tentativa puramente formal de abolir o
trabalhador coletivo, levando em conta as tensões sociais que exi­
gem a instauração de um despotismo absoluto na coordenação dos
processos de trabalho, baseado na automação de vários grupos de
trabalhadores, aparentemente autônomos, mas na realidade força­
dos a se submeterem à lógica do trabalhador coletivo.

86 Le Monde, 19 de junho de 1974.


SÉRGIO BOLOGNA

A Composição de Classe e a Teoria do


Partido na Origem do Movimento dos
Conselhos de Trabalhadores ,:,

Os trabalhadores altatnente especializados na índústria produtora


de máquinas constituíam uma parcela substancial dos líderes fabris
no movimento alemão dos conselhos de trabalhadores. Como essa
figura profissional adquiriu uma dimensão social e política em 1918,
é legitimo indagar se a estrutura da indústria alemã de antes da
guerra criou esse tipo de força de trabalho, e se a posição desses
trabalhadores na produção estava diretamente ligada à sua partici­
pação política no sistema dos conselhos de trabalhadores.
A indústria alemã de máquinas anterior à guerra não havia
atingido ainda um nível de concentração e racionalização semelhante
ao dos setores de mineração, aço e eletricidade. Consistia principal­
mente em estabelecimentos de tamanho médio, empregando entre
1.000 e 5.000 trabalhadores, distribuídos nos centros tradicionais do
industrialismo alemão: Renânia-Vestfália, Württemberg, Saxônia,
região de Berlim, região de Hamburgo, Oldenburg e Baviera. Era
,o mais novo setor industrial alemão. Seus produtos mais importan­
tes eram bicicletas, motocicletas, máquinas de escritório, máquinas
•de costura, ferramentas e automóveis. A especialização não estava
muito adiantada. De fato, quase todos os principais fabricantes
de bicicletas e, mais tarde, de motocicletas, também produziam má­
quinas de escritório e máquinas de costura. Apenas a filial alemã d'.t
Singer em Hamburgo, tornou-se, mais tarde, uma firma produtora
exclusivamente de máquinas de costura e isso porque era subsidiária

* Esse artigo foi publicado originalmente em Operai e Stato (Milão, 1972),


pp. 13-46.
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 99

de. uma empresa norte-americana que já havia conseguido uma posi­


ção monopolista. A indústria de automóveis ainda não adquirira
a importância que teria mais tarde. ( Nos Estados Unidos, isso
aconteceu em torno de 1910-12, mas na Alemanha só ocorreri a em
1924, com a Opel.) A produção de carros era realizada em escala
limitada, em estabelecimentos de porte pequeno e médio. A indústria
auxiliar da manufatura de motores experimentou um desenvolvimento
mitável e ganhou autonomia, concentrando-se e racionalizando-se
rapidamente. Foi nesse setor, especificamente na produção de meca­
nismos de ignição, que Robert Bosch fez fortuna. Em 1913 ele já
empregava 4.700 trabalhadores em Stuttgart e em outros estabele­
cimentos menores. Esse setor, que permitiu à indústria alemã de má­
quinas de antes da guerra atingir uma posição de liderança, dispunha
de uma força de trabalho excepcionalmente qualificada. Empregava
muitos técnicos especializados, fazi.a despesas com pesquisa e de­
senvolvimento superiores a qualquer outra indústria, promovendo
uma política de comercialização extremamente dinâmica. Em con­
seqüência, os salários eram mais elevados. A Bosch foi a primeira
empresa alemã a adotar a jornada de trabalho de oito horas em
1906 e o sábado livre em 1910, como concessões do empregador.
Foi ;nessa época que .a Alemanha testemunhou .o desenvolvimento
de setores industriais como o de maquinaria leve, de instrumentos
de precisão, o ótico, e o eletromecânico. Se seguirmos a história das
empresas ligadas a esses setores, veremos que elas dão notáves saltos
à frente: foram elas que criaram a reputação internacional de óti­
ma qualidade para os produtos alemães e conseguiram enfrentar
com êxito concorrência britânica e ·norte-americana, financeiramen­
te mais fortes. Isso não se deveu necessariamente à habilidade em­
pres11úal dos capitalistas alemães individualmente. Foi antes resul­
tado da notável capacidade profissional de uma força de trabalho
qualificada, que trabalhava com a mais avançada tecnologia e com
ferramenta, especiais, e se interessava diretamente pela modifica­
ção dos sistemas de trabalho. Nesse setor, a figura predominante
era a do trabalhador-inventor, ou mesmo do trabalhador que cola­
borava intimamente com os técnicos e os engenheiros da planifi­
cação. O resultado dessa situação na Alemanha foi o êxito da in­
dústria de ferramentas e de máquinas. Assim, enquanto a agricul­
tura e a indústria têxtil alemãs atravessavam recessão e crise, a
:Alemanha produzia a melhor maquinaria agrícola e têxtil no mundo.
Vamos examinar os trabalhadores empregados nesses setores
{lltamentr dinâmicos: O trabalho em metal exigia a mais alta pre­
císão e eles participavam diretamente na modificação da estrutura
do produto e na transformação de suas próprias técnicas. Foi isso
100 SERGIO BoLOGNA

que provocou o êxito, entre outros setores, da indústria de avia.­


ção alemã, que em 191.3 era considerada a primeira do mundo.
Assiro, parecia natural se encontrar nesses setores toda wna série
de iniciativas paternalistas e políticas de empresa, como salários
mais altos, menos horas de trabalho e até mesmo participação nos
lucros (reivindicações dos trabalhadores que os empregadores da
Alemanha Ocidental viriam a reintroduzir entre 1950 e 1965).
Os capitalistas individuais foram obrigados a pagar, a fim de man­
ter estáveis forças de trabalho qualificadas' e especializadas. Esses
capitalistas favoreciam a cristalização de aristocracias profissionais
e procuravam reduzir, tanto quanto possível, a mobilidade de sua
força de trabalho, especialmente dentro do mesmo setor. Mais
tarde, algumas dessas indústrias foram mdi.to estimuladas pela
guerra. Por exemplo, a Zeiss de lena e a outra grande empresa de
instrumentos de ótica, Leitz, cresceram em conseqüência dos con­
tratos governamentais para a produção de todos os instrumentos
de mira, enquanto a Bosch crescia em função da produção de gera­
dores e de equipamento eletromagnético necessário aos armamen­
tos modernos. As indústrias óticas estavam localizadas principal­
mente em Württemberg e na Saxônia, enquanto as indústrias ele·
tromecânicas e de máquinas leves se . concentraram gradualmente
em torno de Berlim.
Não foi por uma simples coincidência que o movimento dos
conselhos de trabalhadores adquiriu características poli ticas e ad­
ministrativas mais acentuadas precisamente nessas três regiões, onde
as indústrias eletromecânicas, óticas e de máquinas-ferramentas esta­
vam mais concentradas, isto é, onde trabalhadores altamente
especializados predominavam na força de trabalho.1 Esses traba­
lhadores altamente especializados da indústria de máquinas . e
ferramentas, com um alto nível de capacidade profissional,
dedicados a um trabalho de precisão, perfeitamente familia.
rizados com as ferramentas ( manuais ou mecânicas) e cola­
borando com técnicos e engenheiros para modificar o processo de
trabalho, eram materialmente mais sensíveis a um projeto organi­
zacional-político como os conselhos de trabalhadores, isto é, a auto­
administração da produção pelos trabalhadores. O conceito de auto­
administração dos trabalhadores não poderia ter exercido a atra.
ção que teve no movimento dos conselhos de trabalhadores sem
a presença de uma força de trabalho inseparavelmente ligada à

1 Não devemos esquecer a região de Hamburgo, o outro centro focal do


movimento dos conselhos de trabalhadores, onde o mesmo tipo de traba­
lhador predominou na indústria naval que mais tarde se tornou uma in­
dústria de guerra.
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 101

tecnologia do processo de trabalho, possuidora de altos valores pro­


fissionais e naturalmente inclinada a ressaltar sua funçfto como
"produtores". O conceito de auto-administração retratava o tra­
balhador como um produtor autônomo, e a força de trabalho da
fábrica como auto-suficiente. Via apenas a relação entre os traba­
lhadores e empregadores individuais ou empresas, e desco.nfiava da
"política" no sentido amplo, isto é, a relação entre a organização
e o poder, o _partido e a revolução. Essa relação entre estruturas
ocupacionais e a determinação de atitudes político-ideo1ógicas é
bem conhecida., e deve ser ressaltada porque a Alemanha propor­
ciona seu exemplo mais substancial, e porque serve ele advertência
para os que gostam de discussões confusas e inconclusivas sobre a
"consciência de classe", como se esta fosse um fato espirítual e
cultural. O elemento auto-administrativo, embora fosse o mais
significativo, não esgota o fenômeno dos conselhos alemães como
uma práxis e um planejamento revolucionários. Constituí apenas
seu aspecto mais típico.
Outro aspecto do movimento alemão, ligado diretamente ao
primeiro, foi a quase total participação dos técnicos. Também
nesse caso, a posição material da força de trabalho dentro da in­
dústria d� máquinas levou a uma escolha política específica. Na­
quela época, técnicos e engenheiros ainda não eram funcionários da
organização científica da exploração, já que o taylorismo só foi ado­
tado na Alem�nha no período do pós-guerra. Não obstante, as
empresas alemãs em geral tinham uma forma de organização admi­
nistrativo-burocrática de alto nível. O surto industrial alemão que
precedeu à Primeira Guerra Mundial foi resuhado, principalmente,
de duas condições objetivas: o emprego de tecnologia e pesquisa
mais avançadas ( o número de patentes acumuladas foi enorme),
e a extrema eficiência da máquina burocrático-administrativa. I5sO
foi possível graças à existência de infra-estruturas básicas, como uma
organização de educação profissiona.I muito mais adiantada e bem
a,rticulada que a de outros países, uma conexão íntima entre a
pesquisa universitária e as aplicações industriais, uma tradição de
eficiência administrativa típica da burocracia prussiana - tanto
antes como depois de Bismark - que durante o período de surto
industrial imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial esten­
deu-se ao nível elas empresas. Com base em relatórios escritos por
engenheiros para o movimento dos conselhos de trabalhadores e
publicados pela sua imprensa, sabemos que a organização buro­
crático-administrativa das companhias alemãs era muito eficiente.
No mesmo período, ocorreu um maior aumento no emprego dos
trabalhadores « de gravata" ( white-collar) do que dos trabalhado­
res "de macacão" ( blue co!lar).
102 SEilGIO BOLOGNA

Tradicionalmente, a burocracia alemã foi uma fiel executora


das ordens vindas de cima. Isso também era válido na posição exe­
cutiva da força de trabalho técnico-administrativa, tecnicamente
condicionada. Além de sua posição material, a indústria de má­
quinas da época produziu um tipo de homogeneidade em toda a
força de trabalho das empresas que, no momento adequado ( e
por curto tempo), transformou-se numa unidade poütica. Dentro
do tipo de empresa descrito, é absurdo procurar uma classe admi­
nistrativa com poderes de decisão, localizada entre os proprietários
e a classe trabalhadora. Embora extremamente dinâmica, desse pon­
to de vista a indústria de máquinas alemã tinha uma estrutura
"atrasada" com relação à fase de desenvolvimento industrial e
tecnológico representada pelo fordismo, isto é, pela indústria de
produção em massa de bens de consumo. Uma força de trabalho
caracterizada por altos valores profissionais e empresas com estru­
tura técnica avançada não constituíam absolutamente a vanguarda
da organização industrial capitalista. Um testemunho bastant� au­
torizado nos é dado pelo próprio Henry Ford, que, em sua auto­
biografia, despreza aquele tipo de empresa fabricante de máquinas,
dizendo que, quando pensava em introduzir a correia de trans­
missão e a linha de montagem, a indústria de máquinas represen­
tava o setor mais estático, atrasado e insensível às modificações
que ocorriam na organização do processo produtivo e na compo­
sição orgânica do capital. Resistindo às inovaçõe s de Ford, a in­
dústria alemã de máquinas adotou a defesa integral de um tipo
particular de força de trabalho e, portanto, de um tipo particular
de "aristocracia do trabalho". Essa resistência foi efetuada igual­
mente pelos empregadores individuais, tanto técnicos como ope­
rários. Essa empresa fabricante de máquinas, de tamanho médio,
que continuava a apresentar novos produtos e, depois de períodos
mais ou menos longos de experimentação e planejamento, estava
começando a produção em série ( mas não a produção em massa),
seria varrida pelo fordismo precisamente em seu componente de
trabalho fundamental. As inovações de Ford não equivaleram a
simples modificações qualitativas de maquinaria mas a longo prazo
significaram a extinção progressiva do tipo de trabalhador preso
à máquina, à fábrica e ao ofício. O trabalhador altamente qualificado
de indústria de máquinas daria lugar ao trabalhador não-qualificado,
sem raízes, altamente móvel e intercambiável, da moderna linha
de montagem. Assim, é importante ter presente que antes que a
"aristocracia do trabalho" alemã se transformasse na "vanguarda
revolucionária", antes que ela fosse posta à prova, já tinha sido
objetivamente condenada à extinção pelas vanguardas capitalistas_
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 103

O fordismo não só substituiu o artesão, ou a "aristocracia do


trabalho ", pelo trabalhador da produção em massa, transformando
profundamente a natureza interna da força de trabalho, como tam­
bém modificou consideravelmente a estrutura e a concepção traba­
lhista ( e capitalista) dos salários. Enquanto para Taylor os salá­
rios eram incentivos diretamente ligados à posição do trabalhador
isolado na empresa, de acordo com a abordagem individualista e
atomista típica da filosofia tayloriana, para Ford os salários torna­
ram-se a taxa geral de renda a ser usada em conjunto com a dinâ­
mica do sistem<1. Eles passaram a constituir a taxa geral de capital
a ser injetado numa estrutura de desenvolvimento planejado. Em
1911, porém, as idéias de Ford se limitavam a brilhantes inova­
ções de um único empresário. Foi necessária a ameaça de uma der­
rubada geral das relações de poder na fábrica, isto é, a ameaça dos
conselhos de trabalhadores contra o capital coletivo, para que elas
se tornassem a estratégia desse capital, ou a "revolução das ren­
das" keynesiana. Essa ameaça não resultou do fato de os projetos
concretos de uma nova ordem industrial estarem particularmente
avançados, ou de o movimento dos conselhos de trabalhadores
basear-se principalmente na aristocracia do trabalho, provocando o
fracasso da planejada integração de classe no sistema. A ameaça
era conseqüência do fato de se tratar de um movimento de classe
internacioDal, de que a classe operária, como um todo; tentava pela
primeira ve7 na história inverter a tendência no processo de de­
senvolvimento capitalista tanto nos setores atrasados quanto nos
avançados, na fábrica e no nível social. Não foi o seu caráter or­
ganizacional, político-ideológico ou sociológico, mas sua natureza
internacional, que constituiu o aspecto revolucionário do movimen­
to dos conselhos de trabalhadores. Era um 1905 mundial, no qual
apenas o elo mais fraco se partiu.
Para reconstituir politicamente o movimetno dos conselhos
de trabalhadores devemos seguir o ciclo de lutas internacionais dos
trabalhadore:s bem como a composição de classe no capitalismo. Vol­
temos ao exemplo alemão. O estudo da estrutura da força de tra­
balho tecnicamente qualificada e sua distribuição geográfica é to­
., talmente inadequado e corre o risco de tornar-se incorreto e en­
1'
ganoso, se não investigarmos primeiro a composição política de
classe na Alemanha. O atraso do capital não significa necessaria­
mente atraso de classe operária. Se ao analisar as lutas polLticas
mantivermos a distinção habitual entre países capitalistas avança­
dos ( Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha) e países capitalistas
atrasados ( Rússia, Itália), corremos o risco de provocar confusão
e esquematismo. Do ponto de vista da organização subjetiva, a
104 SERGIO BOLOGNA

natureza das lutas na Rússia é tão adiantada quanto em outros lu­


gares, ou talvez mais. Nos períodos de 1904-6, 1911-13 e 1917-20
apesar d� observarmos um capital altamente desequilibrado em
áreas adiantadas e atrasadas, testemunhamos uma atividade políti­
ca de classe extremamente homogênea em todos os países. Assim,
podemos falar de uma série de ciclos de luta internacionais no pe­
ríodo de 1904-6. Os traços específicos desse primeiro ciclo são
muito claros, mesmo que seja difícil localizá-lo cronologicamente.
É a greve de massa, resultando em ações violentas e insurrecionais.
Isso é melhor exemplificado nos Estados Unidos. A partir de 1901,
uma série de violentas greves de massa abala toda a estrutura in­
dustrial norte-americana. Tendo seu centro, seu pólo de classe, iden­
tificado com os mineiros das Montanhas Rochosas, essas lutas se
distribuem principalmente entre os traballiadores na siderurgia, nas
indústrias de têxteis e no setor de transportes, mas acima de tudo
entre os trabalhadores na construção. Em 1905, no auge do ciclo,
enquanto os sovietes começavam a surgir na Rússia, nos Estados
Unidos era criada a Industrial Workers of the World (IWW),
a mais radical organização proletária já surgida nos EUA, a única
organização de classe revolucionária antes da ascensão do movi­
mento afro-americano. Hoje, há muito a se dizer sobre a IW\Y/ e
a aprender com ela. Embora muitos de seus militantes fossem
anarquistas, e anarco-sindicalístas emigrados da Europa Oriental e
Ocidental, a IWW não pode ser considerada como o paralelo norte­
americano do anarco-sindicalismo francês.
O que havia de tão extraordinariamente moderno na IWW?
Embora ela se baseasse num velho núcleo de classe, a Federação
dos Mineiros do Oeste, o mérito da IWW foi ter tentado organi­
zar o proletariado norte-americano respeitando suas características
intrínsecas. Em primeiro lugar, tratava-se de um proletariado imi­
grante, e, portanto, apresentava uma mistura de grupos étnicos que
só poderiam ser organizados de certa maneira. Em segundo, era um
proletariado móvel, pois não só era totalmente contrário à identi­
ficação com qualquer tarefa ou habilitação específicas, como tam­
bém contra qualquer ligação com as fábricas individuais ( mesmo
que fosse apenas para ocupá-las). A IWW conseguiu individua­
lizar concretamente o conceito de fábrica social, procurando assim f 1

explorar o extraordinârio nível de comunicação e coordenação per­


mitido por uma luta baseada na mobilidade. A IWW' conseguiu
criar um tipo absolutamente original de ativista, não mais alguém
que procurava penetrar, durante décadas, num estabelecimento ou
numa área proletária, mas sim um tipo de ativista que nadava com
a corrente das lutas operárias que se deslocava de um extremo ao
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 105

outro do imenso continente norte-americano e calculava a onda


sísmica da luta, conseguindo aS-sim superar os limites estadmüs e
singrando os mares antes de organizar convenções para fundar or­
ganizações irmã.1.. A ,preocupação dos membros da IWW com os
trabalhadores em transporte e os estivadores, sua disposição cons­
tante de atacar o capital como um mercado internacional, sua per­
cepção do proletariado móvel - hoje empregado, amanhã desempre­
gado - como um vírus de insubordinação social, como o agente
da "inquietação social". Tudo isso fez a IWW uma organização de
classe precursora das atuais formas de luta, e ainda assim total­
mente indepeDdente das tradições da Segunda e da Terceira Inter­
nacionais. A IWW é o elo direro entre a Primeira Internacional
de Marx e a era pós-<:omunista.
A violência e a continuidade das greves nos EUA durante as
duas primeiras décadas do século mostram como a intuição de
Marx, 30 anos antes, de transferir a sede de "sua" Internacional
para Nova York estava politicamente correta. É difícil localizar o
ponto culminante dessas lutas. Não obstante, a trajetória desse
ciclo é aproximadamente análoga à do proletariado europeu e rus­
so. Foi memorável a luta de 1905 de 5.000 cocheiros de Chicago,
que resultou em choques com a polícia, ao custo de 20 mortos e
400 feridos_ Em 1904 ocorría a primeira greve geral na Itália.2
A 3 de janeiro de 1905, os trabalhadores da fábrica Putilov entra­
ram em greve, e a revolução russa de 1905 tinha início.3 Durante
os primeiros meses daquele ano, a grande greve dos mineiros ale­
mães irrompeu na mina de Bruchstrasse e estendeu-se pelo Ruhr.
Antes dessa luta haviam ocorrido na Alemanha greves dos traba­
lhadores têxteis e da indústria de papel, em 1903 e 1904. Entre
eles estavam os operários com as piores condições de trabalho e
que recebiam os salários mais baixos. Na indústria do papel havia
a mais alta percentagem de trabalhadores incapacitados por aci­
dentes de trabalho. Os renomados sindicatos alemães estavam
praticamente ausentes desses dois ramos, cujos trabalhadores só
obtiveram seu primeiro contrato em 1919, após a derrubada da

2 Para uma excelente exposição sobre o assunto, ver o artigo de Giuliano


Procacci em Revista Storica del Socialismo, p. 17.
3 Para uma análise magistral dessa luta, ver Rosa Luxemburg, "The
Mass Strike, the Political Party and the Trade Unions", in Mary Alice
Waters (org.), Rosa Luxemburg Speaks (Nova York, 1970), pp. 155-218;
e o discurso comemorativo de Lênin (Zurique, 1917) "Lecture on the
Russian Revolution of 1905", em Collected Works (Moscou, 1964), vol. 23,
pp. 236-253, além dos escritos contemporâneos e os que se seguiram ime­
diatamente aos acontecimentos, com as primeiras notas relacionadas com
a guerrilha urbana.
106 SERGIO BoLOGNA

monarquia. A greve surgiu espontaneamente, da mesma maneira


que a greve dos mineiros de 1901.
Na composição de classe da Alemanha anterior à guerra, os
miReiros do Ruhr representavam o setor mais avançado. Esse nú­
cleo da classe operária era talvez o único capaz de colocar em mo­
vimento toda a estrutura social, quando entrou na luta. Sob esse
aspecto, fora típica a súbita e espontânea greve de 1889, que se
transformou imediatamente numa greve de massa. No último mo­
mento, os sindicatos se movimentaram. O Kaiser e Bismark tiveram
de intervir diretamente para pôr fim à luta, frente à incapacidade
contratual e organizacional dos sindicatos, e da teimosa resistência
dos barões do carvão. Os mineiros tinham forçado os empregadores
a aceitar todas as suas exigências, exceto a mais importante, isto é,
a jornada de trabalho de oito horas, incluindo o tempo de viagem de
ida e volta aos túneis. De faro, a luta de 1905 começou precisa­
mente com essa exigência. Em conseqüência da extração constante,
as minas se haviam rornado cada vez mais profundas, e o tempo
necessário para descer e voltar à superfície, havia duplicado. , .
A crise da mineração havia obrigado cerca de 9 .000 mineiros
a deixar o distrito, as doenças profissionais haviam aumentado e,
acima de tudo, os mineiros não toleravam a presença de patrões.
Depois dos grandes abalos de 1889, que foram especialmente one­
rosos em nível organizacional ( apenas 40 % dos mineiros eram
sindicalizados), o sindicato tentou, inicialmente, localizar a luta.
Mas a greve estendeu-se rapidamente: em dez dias, 220.000 de um
total de 270.000 mineiros estavam parados naquele distrito. As
exigências haviam sido rejeitadas pelos barões com a sua arrogância
habitual. O que eles não toleravam era que fosse posto em ques­
tão o princípio de que "aqui eu sou o patrão" (Herr-im-Hause
Stai,dpunkt). A greve dos mineiros alemães determinou o ritmo
para as grandes lutas do período dos conselhos de trabalhadores.
Dois aspectos se destacam: a não-violência da luta ( até mesmo a
imprensa burguesa elogiou o comportamento ordeiro dos trabalha­
dores) e as reivindicações relacionadas com as relações de poder
no local de trabalho. A extrema sociabilidade da luta na Rússia,
Itália e nos EUA correspondeu a reivindicações ainda dirigidas aos
capitalistas individuais, ou a grupos de rnpitalistas de um determi­ \•1
nado setor, o que significava que os mineiros alemães tiveram
de, em primeiro lu,gar, desafiar o poder de classe principalmente
no local de produção; vale dizer, até no pólo de classe mais avan­
çado encontrarnos as mesmas características de relacionar a ativi­
dade subversiva com o local de produção. É interessante observar
que, mais uma vez, a verdadeira contrapartida e.ra o governo, re-
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 107
presentado pdo Secretário de Estado Conde von Posadowsky. Fiel
seguidor de Bismark e do seu "socialismo estatal", o conde imedia­
tamente fez aprovar medidas legí slativa� que atendiam substancial­
mente às reivindicações dos mine.iras rcbcíonados com as horas de
trabalho e cri.warn "comissões de trabalho" nas minas com mais de
100 empregados. Esse instituição antecedeu, por pouco tempo, os
"comitê� internos" na Itália. No comportamento do governo como
um todo é fácil distinguir as características que reaparecem mais
tarde. Na 1\.lemanha, os interesse� do capital coletivo eram protegidos
pelo Estado ou, em 1918, pela social-democracia. Em 1905, o capital
tomou a iniciativa de introduzir a representação operária na fábrica.
Essa iniciativa estava muito longe de qualquer coisa semelhante à
co,administração: eram simplesmente órgãos destinados a �olucionar
disputas locais, a fim de impedir que se transformassem em lutas
abertas que poderiam levar, eventualmente, a uma luta geral. Da
mesma forma, sob pressões revolucionárias, o governo social-demo­
crata de coalisão, em 1920, interviria contra projetos de socialização
que visavam ,1 entregar todo o poder nas fábricas aos conselhos de
trabalhadores com a lei do Betriebsraete. 4
A greve do Ruhr não encerrou o período de greves de massa
na, Alemanha Em janeiro de 1906 uma greve política geral para­
lisava as fábricas e o porto de Hamburgo - uma greve que Luxem­
burg definiu como "a prova geral da insurreição" .5 Nos anos que

4 As prerrogativas do Betriebsraete podem ser comparadas aos comitati


paritetici, introduzidos na indústria italiana de máquinas depois dos· con­
tratos de 1966.
5 Focalizamos, com algum detalhe, a greve dos mineíros para indicar o
pólo de classe mais avançado na Alemanha de antes da guerra. Infeliz­
mente, não nos foi possível usar estatísticas relacionadas com setores in­
dustriais específicos, a fim ele reconstituir toda a composição de classe
alemã em relação aos movimentos na luta. Alguns números absolutos so­
bre as greves podem pelo menos confirmar a afirmação de que o período
de 1904-6 representa um ciclo distinto de lutas: em !903 houve 1.347 gre­
ves, 86.000 grevistas, com 7.000 fábricas envolvidas; em 1904 houve 1.870
greves, com I 13.000 grevistas e 10 .000 fábricas envolvidas; em 1905 houve
2 .400 greves, com 400. 000 grevistas afetando 14. 000 fábricas; em 1906
o número de greves foi de 3.000, o número de grevistas, 270.000, e as
fábricas atingidas, 16.000; em 1907 houve 2.200 greves, com 190.000 gre­
vistas e 13 .000 fábricas atingidas. No ano seguinte, todos esses números
foram reduzidos em 2/3. É interessante observar a situação em 1905-6:
em comparação com 1905, 1906 não inclui a sólida massa de 200.000 gre­
vistas do Ruhr não obstante, o número de greves aumentou em 30% e o
número de fábricas atingidas em aproximadamente 13%. Da mesma forma,
em 1907: em comparação com 1905, o número de grevistas diminuiu em
aproximadamente 52%, o número de greves diminuiu em apenas 8% e o
número de fábricas envolvidas também diminuiu em 8-9%. Isso significa
108 SERGIO BoLOGNA

se seguiram a 1905. porém, numerosos setores experimentaram


grande expansão, e a presença esmagadora dos 200.000 mineiro�
do Ruhr foi contrabalançada sobretudo pela criação de compactos
�entro, industriais na região de Berlim, no triângulo de Leipzig
Dre.sden.Chemítz, em Württemberg, bem como nas proximidades
dos portos de Hamburgo, Kiel e Bremen. Assim, no terceiro ciclo
crucial de lutas do período de 1917·20, esses outros pólos de classe
começariam a luta, primeiro Berlim e os portos, depois a Saxônia
e, finalmente, o Ruhr.
Passando da composição política de classe para a estrutura da
força de trabalho, devemos ressaltar que os mineiros do Ruhr e
os operários qualificados da indústria de máquinas partilharam de
um elemento comum muito importante, especialmente em termos
dos problemas da modificação da composição orgânica do capital
e dos processos inovadores necessários ao desenvolvimento capÍ·
talista. O trabalho das minas não podia ser mecanizado facilmente.
Era inimaginável que, num breve período, uma solução técnica
como a mecanização pudesse transformar drasticamente a estrutura
ocupacional da mineração, a longo ou curto prazo. Em outras pa­
lavras, os barões do carvão e do aço compreenderam que tinham
de viver com aqueles trabalhadores, pois,. devido à situação de ple­
no emprego, não podiam substituí-los por trabalhadores de tipo
diferente: assim, uma solução fordista nas minas e na indústria
do aço não era facilmente aplicável. Da mesma forma, os emprega­
dores da indústria de máquinas queriam manter seus empregados
e se inclinavam a soluções paternalistas, para criar ilhas de privi­
légio, tanto do ponto de vista normativo como do salarial. Os auto­
ritários e arrogantes barões do setor do carvão e aço, bem como os
esclarecidos e paternalistas empregadores do setor de máquinas,
não podiam planejar, a curto ou longo prazo, uma política traba­
lhista diferente daquela que estavam seguindo. Em outras palavras,
o nível de desenvolvimento dos dois setores criava limitações mui­
to rígidas que condicionavam grandemente a liberdade de mano­
bra dos capitalistas. Esses empregadores poderiam ter modificado
todos os outros aspectos da política capitalista, como melhorar a

que a luta se difundiu do grande pólo de classe representado pelos mi­


(,'
neiros do Ruhr para as fábricas de tamanho médio, afetando com isso
toda a estrutura social do capital alemão. Foi o impulso inicial, dado
pelos mineiros, que colocou em movimento o mecanismo de luta mesmo
nas fábricas de máquinas da aristocracia do trabalho e do paternalismo.
A presença esmagadora de 200. 000 mineiros do Ruhr na composição po­
lítica de classe alemã e a presença esmagadora do setor de carvão e aço
na geografia industrial da Alemanha podem ser comparados à posição da
Fiat na Itália.
A CüMPOSIÇÃtl DE CLASSE 109

estrutura hnanceira de suas empresas, acelerar a concentração,


meJhorar a estrutura técnica e as tecnologias usadas, encon­
trar novos mercados, criar novos produtos, cooperar com os
sindicatos e o governo, mostrar maior dínamismo empresarial, fa.
vorecer ou opor-se a uma colaboração externa social-Jemocrática
com o governo etc. Mesmo que tivessem feito tudo isso, porém,
não poderiam ter realizado modificações substanciais na natureza
estrutural da força de trabalho. Isso é muito importante, porque
atesta como a rigidez do sistema industrial alemão foi um dos ele­
mentos que tornaram a força de trabalho em seu conjunto uma
variável independente, de modo a constituir, através de sua sim­
ples permanência objetiva, uma séria ameaça a um posterior desen­
volvimento capitalista na Alemanha.
O que acabamos de expor tem o objetivo de corngir a lilter­
pretação que, partindo do caráter reformista do projeto de auto­
administração dos conselhos, busca negar a real importância revo­
lucionária das lutas, exceto em termos de uma revitalização do
c!esenvolvirnento capitalista. Se o argumento for teoricamente exa­
to, e se for possível tirar conclusões a partir dele em relação às
lutas dos trabalhadores, as correções históricas ou, melhor, a de­
termínação histórica desse argumento nos leva a concluir que o
movimento de pós-guerra teve um caráter subversivo. Uma orga­
nização trabalhista que simplesmente reiterasse a estrutura da força
de trabalho coletiva na fábrica, tratasse com os trabalhadores ape­
nas em relação à sua posição e função como produtores, buscasst
mantê-los como estavam dentro da fábrica com suas exigências
globais, teria sido uma organização mortal para o capital alemão:
em última análise, teria bloqueado sua possibilidade de manobra,
retirando ao sistema o elemento de flexibilidade tão fundamental­
mente necessário para salvar o desenvolvimento capitalista através
.de uma modificação da composição orgânica do capital. Foi pre­
cisamente es5e tipo de estrangulamento que o capitalismo italiano
,enfrentou antes do fascismo, quase nas mesmas condições. Assim,
.a importânda revolucionária de um movimento deve ser calculada
,com base na fase, historicamente determinada, de desenvolvimento
numa situação específica. A impossibilidade em que o capital ale­
mão se encontrava de modificar, num curto período de dez ou
20 anos, a estrutura da força de trabalho, a estrutura dos salários
e a composição orgânica do capital, colocava-o ante uma falta dé
opções e alternativas que se traduzia numa incapacidade de encon­
trar soluçôes políticas alternativas antes mesmo da onda revolu­
cionária de 1918, ou melhor, soluções obtidas através de simples
meios econômicos de desenvolvimento, ou através de uma canse-
110 Smwrn BoLoGNA

qüência reformista da luta dos trabalhadores. Por que mesmo um


resultado organizacional social-democrático como os conselhos de
trabalhadores se revela impossível na Alemanha? Por que a social­
democracia alemã foi incapaz de encontrar uma solução reformista
para a crise política do sistema, e teve de apresentar-se como sim­
ples instrumento de repressão das lutas e das organizações dos con­
selhos de trabalhadores? Por que em 1918 a social-democracia ale­
mã teve de abandonar Kautsky e escolher Noske? A combinação
de social-democracia e repressão, isto é, a solução social-fascista, foi
a resposta adequada a esse alto nível de luta subversiva. Para es­
clarecer as coisas, examinemos as soluções adotadas pela classe do­
minante norte-americana depois da crise provocada pelas lutas de
1904-5. Um dos elementos que favoreceram muito a resposta vito­
riosa do capitalismo nos Estados Unidos foi a transformação radi­
cal na estrutura ocupacional e da força de trabalho. A partir de
1905 e até 1914 os Estados Unidos receberam nada menos de 10
milhões de imigrantes. B fácil imaginar o que essa massa de sub­
proletários significou em termos de reserva de mão-de-obra e de
estruturas ocupacionais. O meio milhão de trabalhadores estran­
geiros presentes na Alemanha ( principalmente italianos e polo­
neses) é insignificante em comparação com aquele total. Podemos
ver, no caso norte-americano, a importância do gênio de Ford, bem
como o resultado estratégico de seus projetos sobre mecanização
avançada, e sobre a organização dos salários em relação ao consumo.
Mas a solução fordista apenas tornou desnecessária a contra-revolu
ção violenta nos Estados Unidos como a única saída. Através de
uma modificação maciça na composição orgânica do capital, o
fordismo foj também capaz de provocar uma grande modificação
na estrutura ocupacional da força de trabalho. O trabalhador da
linha de montagem na Ford era muito diferente do trabalhador
qualificado na .i ndústria alemã de máquinas. Sua mobilidade (podia
ser um italinno recém-desembarcado e ainda incapaz de dizer "sa­
lário" em inglês) o levava a desprezar esse apego à fábrica indi­
vidual, aind::i típico da figura social que na Alemanha deu vida ao
movimento dos conselhos de trabalhadores, supondo que a auto-
administração era suficiente para criar a sociedade socialista. As- t·
sim, na Alemanha a situação era diferente. A rigidez do sistema re-
duziu a tal ponto as margens de manobra, que até mesmo a social­
democracia de Bernstein representava um perigo objetivo antes da
guerra. Esse úJtimo aspecto, e não o "autoritarismo" do Kaiser,
foi a razão pefo qual o movimento dos conselhos de trabalhadores
não foi integrado pelo governo antes da guerra. Esses estrangula-
mentos dentro do sistema forçaram o capital alemão a intensificar
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 111

a tendência já inerente à expansão a,gressiva em mercados externos


a fim de superar a crise, dando lugar aos conflitos intercapitalistas
tão bem descritos por Lênin em seu folheto sobre o imperialismo.
Se o SPD quisesse participar do governo teria de rejeitar qualquer
solução intermediária e aceitar totalmente o social-imperialismo.
Isso ocorreu em 1914, com a aprovação dos créditos de guerra pelo
grupo social-democrata. IV1esmo nessa circunstância as coisas não
são tão simples como a historiografia oficial do movimento dos
trabalhadores leva a crer, com o tema da "traição" social-democrá­
tica.6
A Discursão Teórica no Movimento Internacional dos
Trabalhadores
A década da passagem do século foi um período de intenso e
apaixonado debate teórico dentro do movimento internacional dos

6 Depois dessa análise sumária de 1905 com referência aos aspectos-chave


da classe operária internacional, pouco resta a dizer sobre o ciclo de lutas
do período de 1911-13. Os mesmos núcleos iniciam a luta e colocam em
movimento a classe operária nos vários países. Lembremos algumas datas:
1911, greve dos mineiros elo carvão na Virgínia Ocidental, e a memorável
luta dos trabalhadores têxteis em Lawrence (nessa ocasião desencadeou-se
uma onda de repressão contra os militantes da IWW); 4 de abril de 1912,
massacre dos mineiros de metais preciosos de Lena, na Rússia; em junho
daquele ano, Lênin escreveu um artigo sobre a "renovação revolucionária"
russa; em 1912, a terceira greve de massa dos mineiros do Ruhr, na Ale­
manha.
Dessa vez, a luta ocorreu num momento de grande atividade, depois
de os barões do aço e carvão terem firmado um acordo comprometendo
o capitalista individual a negar emprego, durante quatro anos, a qualquer
trabalhador que houvesse sido despedido por motivos político-disciplinares
por outros empregadores no mesmo setor. Na Alemanha houve 155 .000
grevistas em 1910, 400.000 em 1912 e 250.000 em 1913. É nesse período
que os trabalhadores fazem o uso máximo dos sindicatos. O :1úmero de
sindicalizados salta de 1.800.000 em 1910 para 2.300.000 em 1912. Foi
o número mais elevado desde a passagem do século. Mas os trabalhadores
usaram o sindicato sem transformar a organização num fetiche. Como
ilustração. 133 .000 trabalhadores do aço eram membros do sindicato so­
cialista (um aumento de 40.000 em relação a 1910). Em 1912, porém
o número de membros que abandonaram o sindicato foi de 67 .000, isto é;
uma mobilidade negativa de 75%. Cerca de 3/4 dos membros eram novos.
Esses números devem ser citados para acabar com a lenda do fetichismo
dos trabalhadores alemães para com a organização: para cada membro que
ficou, três deixaram o sindicato. Além disso, com 133. 000 membros, o
sindicato dos trabalhadores no aço org,mizou apenas 25% da força de
trabalho empregada no setor, quando em 1905 ele organizou 7%. Se exa­
minarmos o grande número de greves naqueles mesmos anos, compreende­
remos logo que a grande maioria dessas lutas foi espontânea.
112 SERGIO BOLOGNA

trabalhadores. Obviamente, é impossível tratar aqui de todos seus


temas centrais. Isolaremos apenas uns poucos, em particular os.
relacionados com a discussão e o planejamento político do movi­
mento dos conselhos de trabalhadores: a relação entre espontanei­
dade e liderança, entre tática e estratégia, e a relação entre os
sindicatos e o partido. São esses os temas em torno dos quais se
travou a batalha entre as três grandes correntes do movimento
dos trabalhadores: a revisionista, a revolucionária e a anarc0-sin­
dicalista. Por terem focalizado principalmente as lutas na Rússia,
Alemanha e Estados Unidos, mencionaremos apenas o pensamento
de Bernstein, Rosa Luxemburg, Daniel DeLeon e Lênin. Devemos
lembrar que quase todos os trabalhos fundamentais sobre esses.
problemas foram escritos ames da revolução russa de 1905.
Numa série de artigos em Neue Zeit e em seu principal tra­
balho, Socialismo Evolucionário, Bernstein examinou uma questão
muito importante. Ele afirmava que o ch oq ue entre o capital e o
trabalho tinha de ser considerado em termos da relação entre sa­
lários e lucro. A partir dessa observação correta, ele estabeleceu
uma série de conseqüências que levaram o movimento dos traba­
lhadores a perder a perspectiva de classe em relação à tomada do
poder. É impossível compreender por que seus trabalhos provoca­
ram tanta reação, se não nos lembrarmos de que seu ponto de
partida era correto. Bernstein chegou a duas conclusões; ( 1) que
as lutas dos trabalhadores, concebidas como lutas econômicas, domi­
navam as lutas políticas de modo que os sindicatos estavam acima
do partido e as formas de luta tinham de excluir as manifestações
de massa, para operar dentro do domínio das negociações concretas;
e ( 2) que a luta política tinha de tratar exclusivamente do cresci­
mento do poder econômico da força de trabalho e devia limitar-se
à criação de uma estrutura institucional para esse crescimento. A
posição de Bernstein perdia de vista a meta final do socialismo e
deixava intactas as estruturas de poder existentes. Não obstante,
ia além do fatalismo, do determinismo e do mecanicismo típicos
das posições da Segunda Internacional. A posição de Bernstein era
o "economidsmo" como uma teoria geral do movimento de classe.
Precisamente por isso, porém, ela encerrava um dinamismo e uma
possibilidade de aplicação imediata que foram percebidos imedia­
tamente pelos líderes das grandes organizações operárias alemães,
que dela se apropriaram, contornando as hesitações do sumo sacer­
dote do partido ( Kautsky) e suas reservas ante o abandono da
ortodoxia. Devido ao peso que as organizações alemãs tinham na
Segunda Internacional, essa aceitação imediata pelos sindicatos con­
feriu às doutrinas de Bernstein uma popularidade e difusão ime--
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 11.3

diatas, embora em certos países os sindicatos fossem mais influen­


ciados pelas teorias anarco-sindicalistas que, de qualquer modo,
partilhavam com o bernsteinismo a rejeição da organização do "'par­
tido", ou a sua superação. A separação oficial entre os sindicatos
alemães e a social-democracia ocorreu em 1903. Na realidade, li­
mitou-se a uma declaração dos sindicatos de que se consideravam
autônomos em relação ao partido. Evidentemente, para os revolu­
cionários, o elemento político ou a importância do fator "politi­
zação" nas lutas dos trabalhadores tornou-se fundamental no ques­
tionamento de Bernstein. Foi necessário reintroduzir uma visão es­
tratégica e ao mesmo tempo formular um tipo de organização ou
um . centro de decisão que pudesse manter firmemente unidas a
tática e a estratégia. Isso, porém, tinha de ressaltar a espontanei­
dade como um desafio às possibilidades institucionais de os sindi­
catos controlarem o processo de luta nas ações individuais ( tática
diária) e em sua linha geral. Contudo, mencionar a espontaneidade
equivalia a recorrer a um termo que havia sido o grito de batalha
do anarco-sindicalismo. Era necessário libertar a palavra "espon­
taneidade'' de seu conteúdo anárquico e a palavra "política" de sua
conotação burocrática e não-militante. Naquele momento, não só
os:,líderes sindicais, mas também os líderes do partido social-demo­
crático estavam começando a aceitar a perspectiva de Bernstein.
Acima de tudo, era necessário falar sobre os trabalhadores não como
força de trabalho, mas como classe política autônoma. Era difícil
ganhar esse debate teórico-político em termos das maiorias nas or­
ganizações partidárias, ou em termos de melhores argumentações
polêmicas. Era necessário um acontecimento político crucial ( Fatto
di classe) que pendesse a balança para o outro lado; e para todos
os revolucionários o ano de 1905 foi precisamente isso: a perspecti­
va da vitória sobre o revisionismo.
As primeiras respostas revolucionárias a Bernstein foram da­
das antes de 1905. Começaram com Luxemburg e seu folheto de
1898, "Reforma ou Revolução?", que define, de uma vez por todas,
o campo de atividades específico dos sindicatos e seu domínio ins­
titucional. Segundo Rosa Luxenburg, essa atividade "limita-se essen­
dalmente a esforços [ que visam] regular a exploração capitalista",
de acordo com as condições do mercado, e "não podem, de maneirn
alguma, influenciar o processo de produção em si" .7 Mas ela ressalta
como a atividade econômica <los sindicatos podia levar a uma su­
focação do desenvolvimento capitalista, lançando com isso as pre­
missas de uma crise do sistema. É nesse ponto que a luta de classe

7 Mary Alice Water (org.), Rosa Lu:xemburg Speaks. op. cit., p. 50.
114 SERGIO BüLOGNA

política e socialista deve ser retomada com renovado vigor. Sobre


a relação entre salários e lucros, Luxemburg diz o seguinte: O fato
é que os sindicatos são os menos capazes de criar uma ofensiva
econômica conrra o lucro. Os sindicatos são apenas uma defesa or­
ganizada da força de trabalho contra os ataques do lucro. Eles ex­
pressam a resistência oferecida pela classe trabalhadora à opressão
da economia capitalista. 8 A luta entre salários e lucros «não ocorre
num vazio. Ocorre dentro da estrutura bem definida da lei dos
salários. Essa lei não é destruída, mas sim aplicada, pela atividade
sindical" . 0
Por mais importante que fosse o argumento de Luxemburg
para a desmistificação e o desmascaramento das teorias de Berns­
tein, comu todo argumento puramer1te desmisdficador, deixava
muita coisa de fora: era essencialmente negativo e não reconstru­
tivo. Rosa compreendia que o bernsteinismo havia precipitado nu­
ma crise tanto a linha revolucionária como a teoria do partido. Uni
dos slogans mais bem-sucedidos de Bernstein foi o de que "o par­
tido não é nada, o movimento é tudo". No contexto em que se
desenvolveu, essa frase significava o abandono de um partido rigi­
damente estruturado, em favor de um partido de opiniões. Mas
a frase tinha o mérito de forçar a organização a enfrentar o proble­
ma de reexaminar sua relação com os movimentos de massa, aban­
donando os desvios fetichistas provocados pela vid;.. interna do
partido. Bernstein introduziu um elemento dinâmico na vida par­
tidária e no planejamento burocrático de um crescimento organi­
zacional auto-suficiente. Outro de seus slogans favoritos era "viva
a ciência econômica, morra a política", que lembrava muito o
slogan anarco-sindicalista francês, "méfiez-vous des politiciens!"
Rosa Luxemburg achou que sua crítica da linha do SPD e dos sin­
dicatos poderia servir de apoio às teorias que visavam à eliminação
do partido, ou de qualquer partido, velho ou novo. Embora bem
disfarçada, teria sido uma versão rc\'isionista da noção anarco­
sindicalista do espontaneísmo. Por outro lado, ela não desejava
renunciar à sua crítica da burocracia ou à sua avaliação positiva da
espontaneidade. Mns sua polêmica antiburocrática não parecia
apoiar os que criticavam a organização do partido e a política como

6 Ibid., p. 71.
9 Ib!d., p. 71. Outro ponto importante focalizado por L L:i:cmburg re­
fere-se à relação entre a luta pDlítica e a luta pela democracia: "o movi­
mento socialista dos trabalhadores é o único apo;o àquilo que não é a
meta do movimento sociaíista - - a democracia ( ... ) O movimento socia­
lista não está ligado à democracia burguesa, pelo contrário, o destino da
democracia está ligado ao movimento socialista." lbid., p. 76.
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE ll.5

tal? Sua avaliação positiva da espontaneidade não parecia apoiar o


cspontaneísmo anárquico?
Considerações desse tipo levaram Luxemburg a propor uma
solução intermediária, aproximando-a daquilo que Lénin definiu
como a teoria da "organização-como-um-processo", e da "tática-como
-um processo". De fato, em seu artigo de 1904, "Problemas de
Organização da Social-Democracia Russa", ela reiterou a idéia de
que as massas vão além do partido,1° ressaltando ao mesmo tempo
que nem tudo na velha organização deveria ser rejeitado. 11 Ao
desenvolver sua linha polítíco-organizacional, Luxemburg teve de
levar em conta as condições dentro das quais uma corrente revo­
lucionária teria de se movimentar na Alemanha, isto é, um enfoque
de "infiltração" no SPD. Assim, seus esforços sociológicos visam a
localizar os quadros básicos do partido que, devido à sua origem
e preparo, poderiam aprender melhor a lição da espontaneidade e
compreender as tendências e direções das lutas que ocorriam fora
da organização, ou independentemente dela. Só uma nova explo­
são revolucionária teria resolvido a situação dentro do partido.
De fato, não foi por acaso que algumas das restrições presentes em
sua posição de 1904 são abandonadas em 1906, o ano em que es­
creve "A Greve de Massa, o Partido Político e os Sindicatos", na
qual apresenta sua análise das greves de massa russo-polonesas de
1905. Rosa levanta o importante problema da direção e da orga­
nização dessas greves. Suas propostas, porém, ainda são demasiado
gerais.13 São, essencialmente, normas para a manutenção de uma

io lbid., p. 121: "o papel insignificante desempenhado pela iniciativa dos


órgãos centrais do partido na elaboração da política tática efetiva pode
ser observado hoje na Alemanha e em outros países. Em geral, a política
tática da social-democracia não é algo que possa �er 'inventado'. É o pro­
duto de uma série de grandes atos criativos da luta de classes, freqüente­
mente espontânea, buscando seu caminho para frente. O inconsciente vem
antes do consciente. A lógica do processo histórico vem antes da lógica
subjetiva do ser humano que participa do processo histórico. A tendência
é no sentido de os órgãos dírigentes do partido socialista desempenharem
um papel conservador."
11 lbid., p. 128: "a social-democracia já contém um forte núcleo pro­
letário, politicamente educado, e com suficiente consciência de classe para
ser capaz, como até agora na Alemanha, de arrastar consigo os elementos
que não pertencem a nenhuma classe e os pequenos burgueses que se unem
ao partido.
12 Assim ela escre,,e: "os social-democratas são chamados a assumir a
liderança política no meio do período revolucionário." Em Rosa Luxemburg
Speaks, op. cit., p. 189. E: "as táticas dos social-democratas são decididas
segundo sua disposição e acuidade, e nunca ficam abaixo do níveJ exigido
pelas relações reais de forças, mas nunca se elevam acima dele: é essa a
116 SERGIO BOLOGNA

relação correta com a espontaneidade. Não incluem indicações pre­


cisas sobre como organizar e dirigir a espontaneidade. Mais uma
vez, ela se vê colhida entre a sociologia da organização e a teoria
do partido. 13 A direção ainda fica com os quadros partidários ba­
seados na fábrica. De fato, em sua análise das greves russas, ela
cita com ênfase o relatório dos sindicatos de Petersburgo como um
modelo de organização e direção. Essas limitações do pensamento
de Luxemburg não devem ob,;curecer o fato de que quase todos os
dirigentes operários e jovens que deram vida aos conselhos de tra­
balhadores encontraram orientação prático-teórica fundamental em
seus trabalhos. Para os trabalhadores e intelectuais da nova geração,
que haviam ingressado recentemente no partido, a experiência russa
de 1905 foi crucial. A "esquerda" do SPD exerceu forte influência
sobre eles, através da liderança exercida por Karl Liebknecht na
organização da juventude - que mais tarde tornou-se um centro
de dissensão e teve de ser dissolvida - e através da destacada po­
sição de Rosa na escola central de formação de quadros.
Outro ponto importante dos ensaios que Luxemburg escreveu
em 1906 é a análise final que ela faz da composição de classe alemã
que, não por acaso, começou com os mineiros, isto é, com o que
chama de a miséria dos mineiros. Ao ressaltar a socialidade da luta
nas greves de massa, ela observa a importância da unificação po
lítica entre a classe trabalhadora, o proletariado pobre e o subpro­
letariado. Como para Lênin a espontaneidade era o nível mais baixo
( e não, como no caso de Luxemburg, o nível mais alto) da luta, a
partir do qual se pudesse iniciar uma discussão sobre a organização
política, o autor de O Que Fazer? já se encontrava além de toda
uma série de problemas nos quais Rosa Luxemburg continuava
emaranhada. Sem fazermos aqui uma análise detalhada do folheto
de Lênin, delinearemos apenas alguns pontos essenciais necessá­
rios à compreensão da profunda diversidade entre o bolchevismo
e o movimento dos conselhos de trabalhadores.
A) Como toda discussão organizacional está subordinada
à linha política, Lênin começa pedindo uma reavaliação da teoria,
a fim de contornar as armadilhas do "ativismo empiricista ". Por
isso traça da forma mais precisa possível, a linha de demarcação

tarefa mais importante do órgão dirigente num período de greves de


massa.
13 Assim ela escreve; "a resolução e a determinação dos trabalhadores
também desempenham um papel, e, na verdade, a iniciativa e a direção
mais ampla recaem naturalmente sobre o núcleo mais organizado e mais
esclarecido do proletariado." lbid., p. 188.
A CoMPOSIÇÃO DE CLASSE 11 ;

entre o bernsteinismo ou econorrucismo e a hipótese revolucioná.


ria. Finalmente, ataca o problema da relação entre a liderança e a
espontaneidade e acusa o economicismo de submeter.se às lutas
espontâneas.
B) Seguindo a formulação de Kautsky, ele vê os intelectuais
burgueses com a tarefa de provocar, de fora, a consciência social.
democrática, já que esta não surge espontaneamente entre as mas·
sas trabalhadoras, cuja tendência natural é para o síndicalismo. 14
C) A partir da definição de Engels das lutas econônúcas e
sindicais como uma "resistência contra o capitalismo", Lénin de·­
lineia os 1inútes institucionais entre o sindicato e o partido. O sin­
dicato deve lutar contra o capitalista individual num determinado
setor, enquanto "a social.democracia representa a classe trabalha­
dora não em sua relação com um determinado grupo de emprega·
dores, mas em sua relação com todas as classes na sociedade mo·
derna, com o Estado como uma força política organizada" .1-5 Assim,
as tarefas de agitação e denúncia política devem ser estendidas não
só à luta econômica dos trabalhadores, mas também a todos os cam­
pos possíveis.
D) O terrorismo é também um erro, já que não contribuí de
modo algum para a organização e a direção política da espontanei·
dade, mas, pelo contrário, renuncia explicitamente a elas.
E) Lênin parece ocupar.se mais detalhadamente dos aspectos
técnicos da organização clandestina e do "primitivismo" da social­
democracia r ussa. Ele ressalta principalmente o que considera como,
o aspecto político específico, em contraposição à agitação e à inter­
venção nas lutas dos trabalhadores, que são apenas partes dele -
mesmo que sejam as mais "essenciais" - e sugere um tipo de ati-­
vidade partidária articulada e multifacetada, semelhante à social.de­
mocracia alemã.

14 Escreve Lênin: "Estamos convencidos de que o erro fundamental co--­


metido pela 'nova tendência' na social-democracia russa reside em sua
subserviência à espontaneidade ( ... ) O levante espontâneo das massas na
Russia ocorreu (. .. ) com tal rapidez que os jovens e despreparados so­
cial-democratas não estiveram à altura das gigantescas tarefas que lhes fo­
ram confiadas ( ... ) Os revolucionários, porém, ficaram atrás desse levante
das massas, tanto em suas 'teorias' como em sua atividade prática; eles
não conseguiram estabelecer uma organização ininterrupta, tendo continui·
dade com o passado, e capaz de liderar a totalidade do movimento." Cf..
Lênin, What is to be done? (Nova York, 1943), p. 52.
15 Cf. V. I. Lênin, op. cit., p. 56.
118 SERGIO BOLOGN A

F) A relevância de O Que Fazer? está na extrema franqueza


com que Lênin atacou problemas como a função dos intelectuais e
e dos trabalhadores.l 6 Embora ele não afirme explicitamente em
seu trabalho, o mais notável é a grande distância teórica e o atraso
histórico das correntes revolucionárias da Europa central em rela­
ção à experiência russa. No breve esboço da história do Partido Bol­
chevique que escreveu em 1920 em Esquerdismo, Doença Infantil
do Comunismo, Lênin mostra como já em 1902 ele e seus amigos
observavam, com um certo distanciamento, as primeiras formuhi­
ções de uma nova esquerda européia ainda às voltas com ques­
tões que a experiência russa já havia superado. O apoio tático dado
a Luxemburg não pode disfarçar as diferenças sérias relacionadas
principalmente com a concepção do partido e a relação entre lide­
rança e espontaneidade. Até 1918 Lênin limitou-se a enfrentar o
oportunismo bernsteiniano. Mais tarde, depois da consolidação do
poderio soviético, ele foi capaz de lidar com Pannekoek, Daeumig
e, indiretamente, com a teoria de organização-como-um-pro.cesso,
de Luxemburg, considerando-a mais uma vez como uma sujeição à
espontaneidade, como a identificação do partido com os movimen­
tos espontâneos e como a confusão entre trabalhadores politizados,
trabalhadores em luta e quadros revolucionários profissionais.
G) Uma coisa era particularmente dara, isto é, que não
bastava, por exemplo, um trabalhador ter uma visão correta· da
luta de fábrica, ou da luta que ele organizava materialmente, a fim
de se tornar um revolucionário profissional. Não bastava inverter
a função social que o sistema atribui ao indivíduo na produção,
tornando-se uma minoria atuante e produzir um quadro bolche­
vique. Por outro lado, a organização luxemburguiana representava
uma rede coutdenada de minorias atuantes, que eventualmente po-

16 Cf. V.I. Lênin, op. cit., pp. 122 e 124: "Não só os revolucionários
em geral, mas também os revolucionários da classe operária, ficam atrás
do despertar espontâneo das massas trabalhadoras ( ... ) Nosso primeiro e
mais imperativo dever é ajudar a treinar os revolucionários da classe ope­
rária que estarão no mesmo nível em relação à atividade partidária como
revolucionários intelectuais ( ... ) Um trabalhador que é talentoso e 'pro­
missor' não deve trabalhar onze horas por dia numa fábrica. Devemos
fazer com que seja sustentado pelo partido ( ... ) O pecado que cometemos
é não estimular suficientemente os trabalhadores a seguirem esse caminho
comum a eles e aos intelectuais de formação revolucionária profissional,
e muito freqüentemente deixá-los para trás com os nossos discursos tolos
sobre o que 'pode ser compreendido' pela massa dos trabalhadores, ou
pelo 'trabalhador médio' etc."
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE ]19

derra ser capaz de derrubar a liderança reformista nas organizações


de classe.
Mas será apenas essa a diferença entre Lênin e Rosa? Até
agora, reduzimos essa diferença aos seus termos formais mais bá­
sic..:J, e não nos foi possível perceber outro elemento-chave da
posição de Lênin, isto é, que a distinção entre uma rede de mino­
rias atuantes e uma rede de revolucionários profissionais é simples­
mente uma questão de considerar as fases históricas da luta de
dasses e, portanto, os diferentes níveis de desenvolvimento da es­
pontaneidade. Não é uma questão de negar a função das minorias
atuantes para favorecer a dos quadros profissionais. Ambos devem
ser vistos como expressões do nível de crescimento do movimento,
estando as primeiras mais atrasadas do que os profissionais. Se
assim for, haverá leis que determinam o crescimento do movimen­
to? Será possível formular uma teoria científica do partido? A
resposta de Lênin a essas perguntas foi a de que a natureza cien­
tífica dessa teoria é uma função do grau de correção na análise
das relações de poder entre as classes, num determinado momento
histórico. A questão não é preferir uma cristalização organizacional
em detrimento de outra, mas avaliar o nível exato alcançado pela
luta e a fase de desenvolvimento do partido. A própria distinção
entre greve de massa, greve política e greve insurrecional é um
exemplo prático desses três díferentes níveis de espontaneidade,
de organização da luta e de relações de poder entre classes. E se
houver leis, elas se encontram na experiência histórica do prole­
tariado: nas revoluções malsucedidas. Como a construção de di­
ques, que se baseia nos mais altos níveis atingidos pela maré, a
ciência do partido deve compreender teoricamente todos os níveis
de luta e organização atingidos até então, a fim de alcançá-los e
superá-los concomitantemente. Cada novo nível de luta, mais avan·
çado, tem correspondência numa reorganização do sistema capita­
lista como uma resposta dialética ao confronto de classes. Assim, a
ciência do partido deve ser sempre medida pelos níveis históricos
atingidos pela organização capitalista. A hipótese revolucionária
busca prever, teoricamente, as fases da luta que devem ser provo­
cadas praticamente. Não obstante, mesmo as melhores hipóteses
são superadas pelos níveis imprevistos da luta. Era essa a situa­
ção em que Lênin se encontrava em 1905, com a ascensão dos
soviets, durante a fase soviética do desenvolvimento do partido,
quando a classe operária apresentou-se como um "poder". Muito se
disse sobre a polêmica entre Lênin e Rosa Luxemburg quanto ao
problema da centralização e do direito de discordância da minoria;
=-

120 SERGIO BoLOGNA

na historiografia do movimento dos trabalhadores, Luxeroburg é


acusada de democratismo regressivo, ou exaltada pelos grupos anti­
stalinistas por ter previsto a luta contra as burocracias repressivas
e oportunistas. Essa polêmica foi usada principalmente de uma ma­
neira contra-revolucionária pelos socialistas esquerdistas. Talvez toda
essa historiografia deva ser rejeitada para melhor se compreender o
significado das posições de Luxemburg. Embora limitada acentua­
damente à experiência russo-polonesa, ela se viu frente ao problema
de criar uma facção revolucionária dentro de um partido de massa
cheio de possibilidades como o SPD. Rosa compreendeu a impossi­
bilidade de arrancar a direção das lutas dos trabalhadores da política
oportunista do SPD recorrendo apenas aos meios políticos e minori­
tários, sem inverter a relação entre classe e sindicatos. Compreendeu
também que dentro de urna sociedade cheia de conflitos como a Ale­
manha do Kaiser \'v'ilhelm isso não podia ser feito com os meios
defendidos por Lênin. Além disso, tinha perfeita consciência da dís­
,tância cada vez maior que se abria entre "trabalhadores e política":
entre o proletariado em luta e os políticos profissionais. Era um fe­
nômeno que não se lirrútava apenas ao anarco-sindicalismo francês.
Na convenção de criação da IWW, Heywood gritara: "Todos na
IWW! Fora com os políticos!" Rosa Luxemburg compreendeu que
a organização política dentro da classe operária se materializava
apenas nos quadros operários do partido e que, na luta subversiva,
somente estes poderiam ter impedido um rompimento completo en­
tre o obreirismo tout court e uma direção de tipo político. Somente
esses quadros poderiam ter derrotado o gradualismo sindicalista e o
oportunismo dos parlamentares e dos funcionários assalariados. Mas
provavelmente Rosa não compreendeu que, àquela altura, o pro­
blema teria sido sujeitar os sindicatos, e não o partido.
Da mesma forma que Lênin e todos os políticos europeus à
época da Segunda Internacional, Rosa considerava os sindicatos co­
mo sagrados, tendo repetido, ad nauseam, que até mesmo os sindi­
catos europeu:. mais oportunistas eram, apesar de tudo, organiza­
ções da "classe operária", e não um grupo de gangsters como o sin­
dicato de Gompers, nos Estados Unidos. Assim, a facção que Rosa
queria criar era essencialmente uma rede de quadros políticos ope­
rários, intimamente ligados às lutas das fábricas e relacionados de
maneira ambígua com os sindicatos. À palavra de ordem de Lênin,
"primeiro o partido, depois a revolução", ela respondia, "primeiro
o controle do partido pelos trabalhadores, depois a revolução". O
que para ela era uma problema de composição social do partido,
para Lênin era um problema de política do partido. Para ele, a

--------------·--- ·- · ...
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 121

direção revolucionária dos trabalhadores devia ser alcançada com


a adesão dos militantes a esse pro.grama, disciplinando-os assim até
a centralização. Rosa e Lênin falavam a dois tipos diferentes d<i clas­
se trabalhadora, falavam contra dois tipos diferentes de reformismo.
As condições para a organização de um movimento político dos
trabalhadores nos Estados Unidos eram bastante diferentes. É a
essa luz que devemos avaliar a posição de DeLeon, e a prática da
IWW. Antes de tudo, porém, deve ser esclarecida a relação entre
ele e a IWW. Embora fosse considerado o ideólogo do movimento
e, até certo ponto, quem previu a organização dos conselhos de
trabalhadores, DeLeon na realidade tinha uma posição minoritária
dentro da IWW. Três anos após sua fundação, foi expulso da
•1
1,
organização sob a acusação de ser líder de um partido político .
Em Detroit, fundou outra IWW, cedendo cada vez mais às rea­
":1 lidades do movimento - acima de tudo, em relação aos problemas
da luta política, - e afastando-se gradualmente de qualquer tipo
de abordagem eleitoral. Sua fama entre os líderes revolucionários
europeus, que lhe valeu uma homenagem de Lênin depois da re­
volução, deveu-se provavelmente à maior afinidade de sua abor­
dagem com a situação européia. Não obstante, suas principais con­
tribuições "teóricas" foram feitas precisamente quando ele rejeitou
a abordagem e as tradições da Segunda Internacional a fim de en­
frentar a formidável realidade da luta de classes nos Estados Unidos.
É impossível comparar a maturidade da classe empresarial
norte-americana e sua fase de organização produtiva com as eu·
ropéias. Os Estados Unidos contavam com um gigantesco insumo
de força de trabalho no trabalho diretamente produtivo. Os maio­
res esforços eram concentrados na organização do trabalho: todos
os instrumentos técnicos para uma produção eficiente já existiam.
Pretensões humanitárias e arrogância autoritária eram totalmente
estranhos à classe capitalista norte-americana. Era um processo de
massa que não se limitava a apenas umas poucas ilhas industriais.
A sociedade parecia livre de qualquer resíduo de atraso produtivo
ou institucional. Ao contrário da situação européia, a luta entre

,
trabalhadores e proprietários, entre a classe operária e os proprie­
tários sociais, não estava separada por uma barreira de instituições
políticas. Um nível extremamente alto de cooperação social, uma
abordagem global da divisão social do trabalho, uma capacidade
inesgotável de transformar o conflito em racionalização e desenvol­
vimento, um controle da força de trabalho exercido diretamente
pelo mecanismo produtivo, livre da mediação do sindicalismo, um
uso político da mobilidade de massa: tudo isso conferia ao sistema
norte-americano características notáveis, capazes de rel�gar a Eu­
ropa ao papel de uma província importuna. A redução de todas as

. --�-- --- . ------------------------------


122 SERGIO BoLOGNA

liberdades políticas e civis a uma única liberdade capitalista - a


liberdade de trabalho - levou a uma identificação total entre fá­
brica e sociedade. Em conseqüência, houve uma grande redução do
espaço político, compreendido no sentido tradicional de represen­
tação e mediação. E tudo isso ocorreu sob a pressão de uma luta
frontal dos trabalhadores.
O primitivismo, a superficialidade ou a obvíedade dos escri­
tos de DeLeon, tão diferentes do caráter pretensioso de tantos lí­
deres europeus, constituem uma deformação européia. DeLeon, e
antes dele os agitadores "operários" que lideravam a IWW, com­
preendeu muito bem como, naquela situação, uma linha política
e uma organização revolucionáría deveriam ter características es­
pecíficas de massa e que, portanto, a institucionalização de uma
vanguarda era algo totalmente questionável. Ainda menos prática
era uma direção centralizada, entendida como uma organização mi­
litar que baixa ordens através de canais hierárquicos. De fato, a
relação entre a direção e a espontaneidade foi invertida, já que
era uma questão de permitir ao ;trabalhador coletivo agir automa­
ticamente ou, melhor, autonomamente. Isso explica a grande ên­
fase na luta e o desprezo pela ideologia. Isso explica o programa
relacionado com a luta como a única organizadora coletiva, em­
penhada numa gigantesca revolução cultural baseada nuns poucos
princípios: salário e horas de trabalho, greves irregulares, nenhuma
negociação, ação violenta e direta da massa, nenhuma restrição à
agitação ou à mobilidade dos agitadores, e igualitarismo.
Talvez a diferença entre o "europeísmo" de DeLeon e os
líderes da IWW resida unicamente em sua ( de DeLeon)
desesperada busca de um nível "político", acima e além da luta de
massa pura e simples. Sob tal aspecto ele provavelmente estava à
frente dos outros. Juntamente com todos os intelectuais socialistas
concebera inicialmente esse nível em termos de eleições. Mas um
membro da IWW lhe responderia que isso era conversa burguesa
para pessoas de óculos e barbichas. Para ele, que era apenas um
proletário, a política era uma relação de poder com o patrão. Ne­
nhum membro da IWW jamais deu-se ao trabalho de pensar em
como seria a sociedade futura. Esse ponto, porém, tinha grande
interesse para DeLeon - um intelectual que queria saber qual
seria sua função depois da tomada do poder: por isso, ele fanta­
siava tanto sobre a sociedade futura baseada nos sindicatos. É por
isso que Gramsci o considerou, inexatamente, como um precursor
dos conselhos de trabalhadores
Palavras como partido, ideologia e utopia que eram as senhas
para a Segunda Internacional e, mais tarde, para a Terceira, são
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 123

totalmente estranhas à luta de classes nos EUA. Elas surgem em


DeLeon apenas como elementos secundários, esmagados pela reali­
dade da luta social, imposta e desejada pelos numerosos agitadores
anônimos que colocavam em movimento todas as camadas do prole­
tariado norte-americano. Em DeLeon testemunhamos essa perda
gradual da autonomia da teoria: a extinção de um certo nível po­
lítico. E, sem dúvida, a análise dos seus escritos, dos escritos de
um teórico, nos dá menos do que a descrição das lutas da IWW.
Além de rejeitar a negociação, o que há de mais notávd na
experiência da IWW é a rejeição de qualquer institucionalização
do conflito, a recusa em firmar contratos de modo a periodizar a
luta e em considerar esta como uma questão fabril, buscando prin­
cipalmente desenvolver as possibilidades de comunicação social
da luta. O resultado foi uma organização que, semelhante às Ca­
mere del Lavara italianas, baseava-se em princípios territoriais.
Mas tudo isso é fundamentalmente semelhante às lutas européias
e ao enfoque dos conselhos de trabalhadores. Esse princípio co­
mum reside no fato de que a luta e a organização encontraram
sua base na transformação da condição material em que o capital
coloca o proletariado: na Europa, pela transformação das aristo·
cracias de trabalhadores em vanguardas políticas; e, nos Estados
Unídos, transformando a mobilidade num vetor da organização dos
trabalhadores. Por que a vadiagem era a principal acusação para
colocar os quadros da IWW na cadeia? Por que o estilo de traba­
lho dos seus agitadores era modelado pela existência de um prole­
tariado móvel, trabalhando hoje na construção, desempregado ama­
nhã, no outro dia trabalhando numa colheita sazonal, depois ope­
rário têxtil ou garçom de trens? Os organizadores dos trabalhado­
res sazonais os acompanhavam em suas migrações da fronteira me­

1
xicana até o Canadá. Assim, a noção fordiana de um salário social
se origina nessa abordagem proletária da renda que não cristaliza
as divisões setoriais, mas tem uma abordagem igualitária da renda.
Portanto, os dois pilares da organização da IWW são o in­
ternacionalísmo e o igualitarismo. O que lhe é totalmente estranho
é o que chamamos de poder de fábrica, precisamente porque uma
fábrica que não fosse a fábrica social era estranha ao mundo da
IWW. Também lhe é estranha qualquer relação com as qualifica­
ções. Assim, antes de a massificação do trabalho ser introduzida
pela linha de montagem, o trabalhador de massa era uma realidade
subjetiva, modelada pelos agitadores da IWW. A organização de­
fendia um programa de confronto total com a fábrica social e o
capital social. Ao contrário de todos os exemplos europeus, a
história das lutas norte-americanas é provavelmente a única na qual
124 SERGIO BoLOGNA

o movimento dos trabalhadores não busca uma remodernização das


estruturas produtivas ou uma organização das forças produtivas
mais atrasadas do que as forças produtivas do próprio capital, em
determinada fase de desenvolvimento. Provavelmente, o poder dos
trabalhadores projetado pelos membros da IWW procurava deixar
a administração do negócio aos patrões, conferindo à classe traba­
lhadora a determinação do tempo de trabalho socialmente necessá­
rio e da renda. É por isso que, em vez de preparar uma lista de
reivindicações para ser discutida na mesa de negociações, eles fi.
xavam unilateralmente os salários e as horas de trabalho, anota­
vam-nos num pedaço de papel colocado nos portões das fábri­
cas e deixavam aos patrões o trabalho de vir tomar nota dessas
exigências e respeitá-las, executando assim as ordens dos trabalha­
dores. Quantos trabalhadores europeus, aconselhados por intelec­
tuais que se diziam seus amigos e seduzidos pela idéia de sentar
atrás de uma mesa e mandar os funcionários de escritório para
1trabalhar nas oficinas, viram-se sentados em carteiras de escolas
noturnas depois de oito horas de trabalho numa fábrica, arrepen­
didos de não terem empunhado armas, ou de terem deixado que
esses mesmos intelectua is as tirassem de suas mãos? Além da ideo­
logia antiigualitária do trabalho, as principais diferenças entre o
mundo da IWW e o dos quadros dirigentes bolcheviques europeus
residem principalmente na relação entre luta, revolução e poder.
O que faltava na IWW é precisamente a concepção da revolução
como um ato de administração do poder: a substituição de uma
máquina estatal por outra. Em outras palavras, a ditadura do pro­
letariado e do partido proletário sobre a sociedade.
Quando o modelo comunista passa a predominar sobre a or­
ganização do tipo de IWW? Devemos observar que homens como
Foster, futuro secretário do Partido Comunista Norte-Americano,
vieram da IWW, e que ali ele começou sua luta de facção, moti­
vada pelo debate sobre a centralização. Mas esse não era ainda o
ponto-chave. A questão essencial era se a IWW devia ter conti­
nuado sua prática antiinstitucional, ou se devia ter aceito o terreno
específico da negociação, das normas contratuais e, portanto, de
uma organização mais estática e estável. Em outras palavras, a
questão era se a IWW devia tornar-se um sindicato tradicional,
como primeiro passo para uma convergência com a American Fe­
deration of Labor { AFL), criando assim a premissa para uma or­
ganização unificada do itrabalho nos Estados Unidos e deixando
aberta a porta para uma organização partidária específica. À medi­
da que se enfraqueceu o ciclo de lutas, surgiram problemas de
defesa da repressão, de modo que a resistência teve prioridade so-

- ···- ··-- · - · ·-·---


A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 125

bre o ataque, e o modelo comunista surgiu como a umca alterna­


tiva possível. O Partido Comunista Norte-Americano conseguiu
ficar com boa parte do legado da IWW e integrá-lo na formação
da Confederation of Industrial Organizations (CIO) do período de
Roosevelt.
Um último problema, mas extremamente importante, é o da
relação entre a IWW e os negros norte-americanos. Talvez seja
necessário, quanto a isso, remontar ao período entre a era da
"plantatíon" e o fim da guerra civil, à procura de uma vanguarda
que tenha provocado as primeiras lutas nos Estados Unidos. A
figura social no centro desse primeiro ciclo de insubordinação é o
negro fugido e, mais tarde, o mineiro negro do Sul e o trabalhador
negro nas primeiras grandes usinas de aço de Birmingham, junta­
mente com os brancos que cumpriam penas de prisão. Nem os
Knights of Labor ( Cavaleiros do Trabalho) nem a AFL aproxi­
maram-se dessas camadas proletárias, muito menos das massas ne­
gras reduzidas à condição de peões pela crise da "plantation". A
repressão capitalista, na passagem do século, visou precisamente
a essas camadas. A IWW nunca contratou essas massas precisa­
mente porque a força de trabalho negra nunca fora uma força de
trabalho social livre. Continuava presa à pobreza do Sul e até a
Segunda Guerra Mundial não pôde fluir para as grandes artérias
industriais do Norte e do Leste. Se um negro trabalhasse numa
mina de carvão na Pensilvânia, no Alabama, ou em Kentucky, ele
se filiaria à United Mine Workers. A Western Federation of Labor,
de onde nasceu a IWW, era constituída dos mineiros de cobre e
ferro de Utah, Arizona e Montana. Portanto, os dez milhões de
imigrantes que a IWW tentou, com êxito, organizar, representam
para o capital norte-americano o rio de carne humana que separava,
e tinha de manter separados, os negros sulistas das fábricas do
Norte. Um dique de dez milhões de proletários brancos impedia
os negros de atacar a exploração metropolitana. A IWW está his­
toricamente ligada a esse colossal esforço de defesa da parte do
capital branco. Isso explica a função da iniciativa revolucionária
da IWW dentro desse plano tático-estratégico do capital norte­
americano.

Guerra e Revolução
Em agosto de 1914, a guerra imperialista dividiu o movimento
dos trabalhadores em três grandes correntes: os social-democratas,
que defendiam o patriotismo e a colaboração de classe como uma
passagem tática para uma administração final da sociedade no pe­
ríodo de reconstrução; os padficistas revolucionários, inclusive o
126 SERGIO BoLOGNA

movimento Zimmerwald, em seu conjunto, que cerraram fileíl'às


�obre as questões da resistência de classe à guerra e à superexplo­
ração; e os bolcheviques, ou melhor, Lênin e uns poucos, que pre­
viam a possibilidade de transformar a guerra imperialista numa guer­
ra civil. O militante bolchevique teve seu papel militar específico
na insurreição. Sempre se falou da traição social-democrática. Na
realidade, ela foi um plano, lúcido e cínico, de co-administração en­
tre o capital e os sindicatos, entre o Estado burguês e o partido
social-democrático. Pouco depois de ter votado a favor dos créditos
de guerra, os "representantes dos trabalhadores" na Alemanha cria­
ram uma série de órgãos conjuntos, nas fábricas e em níveis mais
gerais, como um primeiro elo da cadeia que, com o Arbeitsgemeins­
chaft de 1918, deveria chegar até a garganta da classe operária, a
fim de sufocar o movimento dos conselhos de trabalhadores. A
guerra precisava da colaboração dos trabalhadores, e os social-demo­
cratas tornaram-se ainda mais patrióticos e insistentes visando se
apresentar como um grupo político alternativo. Não é possível ex­
plicar de outra forma a pressa e a determinação com que os empre­
gadores e o partido social-democrático agiram depois de 1918, nem
o violento ressentimento anti-sindical dos quadros dos conselhos de
trabalhadores: durante a guerra, os sindicatos haviam administrado
e assegurado a superexploração nas fábricas e denunciado à polícia
os trabalhadores insubordinados. No período de pós.guerra, a or­
ganização tradicional é atacada por uma violenta vingança dos tra·
balhadores, precisamente em seu papel de grupo político de fun­
cionários. A ideologia do movimento dos conselhos de trabalhado­
res, sua denúncia genérica do "político profissional", a justaposição
da figura social dos que viviam de salários e dos funcionários do
partido, isto é, do intelectual na política, acabou abarcando tanto
a direita como a esquerda, e Rosa Luxemburg não p6de nem mesmo
participar da primeira convenção dos conselhos de trabalhadores.
Só depois de uma longa batalha sua presença foi permitida, como
observadora. A autonomia dos trabalhadores havia criado o pro­
blema da relação entre eles e o dedicado grupo de revolucionários
profissionais. Não sabemos se o destino de Luxemburg - expulsa
da convenção desses grupos de trabalhadores para cuja criação seus
escritos haviam contribuído muito - e de Lênin deveria depender
da questão da relação entre a direção e a espontaneidade, ou até
que ponto estava ligado ao fato de que Lênin e seu grupo tinham
armado os trabalhadotes, enquanto o grupo espartaquista conti­
nuara a ver a organização como coordenação e resistência, e a re­
cusa ao trabalho como a única arma adequada do trabalhador. A
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 127

essência do leninismo passa da relação entre a espontaneidade e


o partido para a relação entre o partido e a insurreição.
Na Alemanha, o ponto-chave é constituído pela presença da
formação ambígua e contraditória representada pelo USPD; o par­
tido social-democrático independente, que incluía os líderes kauts­
kianos e dos conselhos de trabalhadores, tanto centristas como es­
partaquistas. Ao contrário do que dizia Liebknecht, a ambigüidade
do USPD não residia em sua participação no Parlamento ( já em
1915 o líder espartaquista havia insistido na necessidade de "ação
<le massa extraparlamentar", na Spartakusbriefe), mas sim na sua
mistificação da autonomia dos trabalhadores. Os dirigentes sindi­
cais dos metalúrgicos, que organizaram as primeiras greves contra
a guerra em janeiro de 1918, estavam à sombra do USPD, e foi
dentro desse partido que a batalha ideológica sobre o movimento
dos conselhos se desenvolveu.
O programa é bem conhecido: transformação da autonomia
dos trabalhadores em poder contrabalançador, isto é, na organi­
zação democrática dos trabalhadores assalariados, e concepção dos
conselhos de trabalhadores como órgãos do poder democrático dos
trabalhadores baseados na representação direta. O significado da
socialização de Kautski era precisamente o seguinte: o esquema
formal da democracia burguesa aplicado à autonomia dos trabalha­
dores. A concepção de Daeumig era em essência a seguinte: o
controle da produção pelos trabalhadores, a auto-administração, a
construção do poder alternativo que de fato privaria o Estado de
seu poder, uma concepção do poder da classe operária apenas em
termos da aceitação ou recusa do trabalho, isto é, em termos da
chantagem dos trabalhadores. Lênin atacou Daeumig violentamen­
te, precisamente como o teórico da mera autonomia dos trabalha-­
dores. Na realidade, Daeumig foi o único, entre os líderes dos con­
selhos, que quis reintroduzir uma perspectiva política, isto é, uma
tática que visava a determinar a passagem específica das relações de
poder.
É um erro considerar o movimento dos conselhos de traba­
lhadores como uma crítica dos operários às formas de poder ins­
titucional burguês. Essa pode ter sido a sua forma, ou seu as­
pecto ideológico. O verdadeiro caráter revolucionário da fase dos
conselhos de trabalhadores na Alemanha está no poder que os tra�
balhadores tinham de provocar crises e congelar o desenvolvimen­
to capitalista. Isto foi bem compreendido pelas velhas raposas de
Versalhes. A imposição "daquele" tratado à Alemanha foi prati­
camente ditada pela necessidade de privar a classe trabalhadora das
bases materiais de sua própria existência. Os que redig,iram as
---- -··---··-·-·-- ..

128 SERGIO BoLOGNA

cláusulas pumtivas contra a Alemanha operaram preds,amente den·


tro do domínio da existência dual da classe operária, isto é, como
força de trabalho inseparavelmente ligada ao processo material de
acumulação e como classe irredutivelmente antagônica àquele de­
senvolvimento. Naquela época, Keynes era o estrategista que via
mais longe e não o político tático que desejava, acima de tudo,
acertar as contas com a classe operária na ofensiva. Em Versalhes,
o capital internacional enfrentou uma situação delicada e correu o
risco de deter o processo de acumulação em sua área mais fraca:
a Alemanha. Bloqueou o processo de desenvolvimento de sua com­
posição orgànic.:a a fim de impedir o crescimento do componente de
mão-de-obra; aceitando o desafio do caráter dual da mercadoria
força de trabalho. Nesse sentido, o capital penetrou no campo de
batalha da luta dos trabalhadores que o movimento dos conselhos
de trabalhadores havia ajudado a promover.
O próprio capital destruiu a forma monetária das relações de
troca; a inflação alemã tomou o poder, na forma de salários, das
mãos da classe. Foi a pr imeira vez na história que a crise capita­
lista não teve o caráter cíclico, mas congelou o desenvolvimento
geral. Foi a primeira crise capitalista determinada pelo impacto
dos trabalhadores sobre o processo de criação de valor. As futuras
possibilidades do movimento dos conselhos de trabalhadores es·
tavam todas ali. Versalhes e a NEP foram, em última análise, dois
movimentos paralelos: o primeiro foi uma decisão do cérebro ca­
pitalista, com o objetivo de sustar o desenvolvimento a fim de
sufocar o crescimento da classe; o segundo foi uma decisão do
cérebro dos trabalhadores para estimular o desenvolvimento, a
fim de reconstituir a base material para o crescimento de classe.
Por isso, a defesa da instituição dos conselhos de trabalhado­
res foi o véu que cobriu essa luta de morte entre o capital e o
trabalho. Não era difícil à burocracia sindical conduzir essa defesa
em 1termos da democratização dos sindicatos. A democracia sindical
era contra a autonomia dos trabalhadores, mas fazia parte dela. A
capacidade de "díreção" dos políticos profissionais social-demo­
cráticos era impressionante. Assim, Noske, por exemplo, primeiro
liderou o movimento de insubordinação militar-operário de Kiel
aceitando a ideologia dos conselhos de trabalhadores, e em seguida
foi para Berlim organizar os Guardas Brancos. O movimento dos
conselhos viu-se na defensiva ai partir de dezembro de 1918. Mal
foram criados, os conselhos tiveram de ser "defendidos": a pres­
são do poder dos trabalhadores e a crítica de massa contra a "po­
lítica" eram atitudes essencialmente defensivas. O SPD lançou no
movimento dos conselhos - o movimento das novas representações
A COMPOSIÇÃO DE CLASSE 129

- todos os seus funcionários sindicais e do partido, especialistas em


moções, convenções e no jogo parlamentar. Os conselhos retomaram,
mais uma vez, o tema da ação direta, depois de terem perdido a
batalha das maiorias. A polínica reformista sobrepujou a recusa ao
trabalho. Velhos teóricos do partido, como Kautsky, Hilferding e
Bernstein, ficaram no USPD para semear a confusão no campo da
autonomia dos trabalhadores. Foram deixados em paz para construir
a utopia da democracia dos trabalhadores, da mesma maneira que o
capital deixou Rathenau fantasiar sobre utopias semelhantes. O que
faltou, durante todo o período dos conselhos, foi o poder armado da
classe operária, que não era apenas uma autodefesa, já que durante a
guerra os quadros revolucionários no exército haviam simplesmen­
te pr�gado a resistência à guerra ou o pacifismo contra o militaris­
mo, e ao término da guerra haviam simplesmente pedido a abo­
lição das hierarquias. Na Rússia, por outro lado, os bolcheviques
haviam empreendido a tarefa de formar um Exército Vermelho.
Quando os líderes sindicais e os grandes empregadores for­
maram uma aliança, ao final de 1918, já tinham à sua frente o qua­
dro completo da mecânica da revolução na Rússia, Assim, a sua
primeira preocupação foi organizar e administrar a desmobilização.
Os trabalhadores tinham de entregar as armas - disseram eles -
e voltar o mais rápido possível ao trabalho. Um programa espe­
cífico de desarmamento contra-revolucionário foi organizado com
a mesma ideologia ,pacifista, sob as mesmas alegações antimilitaris­
tas da Segunda Internacional e, em grande parte, pelos participan­
tes do movimento Zimmerwald. Admitiam-se greves de massa, mas
não a insurreição.
Assim, o movimento dos conselhos de trabalhadores falhou,
não devido ao controle do trabalho produtivo pelos operários, mas
devido à relação entre greve de massa e insurreição, ou entre a re­
cusa ao trabalho e a insurreição. Ouvimos dizer, com freqüência,
que a determinação, pelos trabalhadores, da crise de 1918 a 1923
prolongou a recusa ao trabalho como um movimento que se arras­
tava, sem criar o partido. Não obstante, sem a determinação de
criar a crise e sua luta contra o desenvolvimento, o partido não é
revolucionário. O fracasso dos movimentos dos conselhos de traba­
lhadores não adiou o problema da relação entre autonomia e o par-
- tido dos profissionais, mas o da relação entre a luta contra o desen­
volvimento e insurreição, de um lado, e o poder dos trabalhadores
armados, do outro. Vimos, na história mais recente, quantas vezes
a insurreição foi a premissa para um reinício do desenvolvimento.
O leninismo talvez seja o limite extremo atingido pelo nível in-
130 SERGIO BOLOGNA

surrecional e pela classe como autonomia, on<le o partido é ainda


uma minoria atuante.
O pensamento maoista foi mais longe, concebendo a classe
como o partido, o partido como a maioria do povo, o partido como
maioria social, e transferindo o terreno da insurreição do golpe de
Estado rápido para a guerra a longo prazo. Com o maoísmo, a
insurreição transformou-se num termo espontaneísta.
MARIO TRONTI

Operários e Capital*

A Era Progressista
Depois de Marx, a classe operária pode ser abordada historicamente
de duas maneiras. Uma delas é cronológica, e reconstrói os grandes
ciclos da luta dos trabalhadores a partir da década de 1870, seguidos
de uma série de fatos que constituem sua história: a história do
trabalho na indústria, a história da indústria no capital, a história
do capital na política e nos acontecimentos políticos, e simultanea­
mente a grande teorização - aquilo que já se chamou história das
idéias -, a primeira sociologia, a última forma sistemática assumida
pela ciência econômica, e o nascimento de uma nova disciplina
científica - a teoria da realidade tecnológica como ciência do tra­
balho, inimiga do trabalhador. A historiografia tradicional coloca-a
entre 1870 e 1914. Num ato de generosidade e procurando evitat
a constante perturbação dos hábitos mentais do intelectual médio,
seria até mesmo possível incluir o primeiro grande bloco de fatos
nessa época da "sua" história e a partir daí aproximá-lo de nós e
das novas lutas operárias que constituem o verdadeiro drama po­
lítico da nossa versão dos acontecimentos - mesmo que apenas em
seu início. A outra abordagem consiste em movimentar-se através
dos grandes fatos históricos, detendo-se em grupos macroscópicos
de fatos ainda não abrangidos pela consciência crítica do pens21.mento
operário e, portanto, excluídos de uma compreensão de classe que
permita uma utilização política de suas conseqüências. Esses acon­
tecimentos, quando relevantes, isolam um aspecto fundamental da
sociedade capitalista, estabelecendo um corte transversal que vai

• Este artigo foi publicado o·riginalmente como "Proscritto di Problemi"


em Operai e Capita/e, segunda edição (Turim, 1971), pp. 267-311.

-·-�-a---------------------
132 MARIO TRONTI

de uma série de lutas a uma série de soluções político-institucionais,


cientfficas ou organizativas. Quando podemos isolar esse aconteci­
mento típico sob circunstâncias propícias, encontramo-nos ante um
modelo histórico, um período privilegiado de pesquisa e uma terra
prometida de fatos, pensamentos e ações a serem explorados. O
que se pode aprender é muito superior a qualquer relato cronológi­
co passivo de acontecimentos passados e indiferentes. A alternativa
está entre uma narrativa que encerra uma interpretação ( isto é, a
velha pretensão de objetivismo histórico) e seu contrário, a inter­
pretação que encerra uma narrativa ( isto é, o novo caminho da
pesquisa política do ponto de vista do trabalho). A escolha se faz
entre história e política, dois horizontes legítimo s, porém cada um
para uma classe diferente.
Há nisso um perigo e, ao mesmo tempo, uma aventura do
pensamento a celebrar: relacionar e ver em conjunto coisas dife­
rentes, que os especialistas nos convenceram a manter sempre sepa­
radas. O aparelho conceptual neo-sintético do ponto de vista do
trabalho, dificilmente pode evitar essa tentação. Por exemplo, é
incrível que a própria história do trabalho e das lutas operárias
tenha sido, e continue sendo, tratada por especialistas diferentes.
Isto é tão inacreditável quanto a maneira pela qual a teoria
econômica é separada do pensamento político, como se na realidade
fossem duas doutrinas, dois departamentos ou duas disciplinas
acadêmicas diferentes. É inacreditável que a sociologia industrial
- a única que vale a pena considerar -, separada dos problemas
macroscópicos da socialização provocada pela industrialização capi­
talista, se reduza em última instância a uma microanálise da fábrica.
Não é difícil relacionar Haymarket Square com os "Knights of
Labor", o canhão de Homestead, na Pensilvânia em 1892, e a
greve na "company town" de Pullman em 1894 com o nascimento
da American Federation of Labor ( AFL) - Lawrence, Massachu­
setts em 1912 e Paterson, New Jersey em 1914 - com o lema
dos "Wobblies" ( membros da IWW), "o sindicato é a nossa força".
Luta e organização se assemelhavam de tal modo que até mesmo
os cegos poderiam vê-las unidas. Richard Hofstadter, em seu The
Age of Reform, aproxima o progressismo norte-americano dos anos
1890-1920 ao pseudoconservadorismo, um tanto excêntrico, de
nossa época. "As relações entre capital e trabalho, as condições elas
massas nos cortiços, a exploração do trabalho das mulheres e crian­
ças, a necessidade de estabelecer certos padrões mínimos de decên­
cia social - todos esses problemas causaram grandes preocupações
aos progressistas, quer porque eles tinham um interesse sincero pelo
bem-estar das vítimas da industrialização, quer porque temiam que
OPERÁRIOS E CAPITAL 133

negligenciar tais fatos pudesse provocar a desintegração da socie­


dade e a catástrofe final" .1 A história recente da iniciativa capita­
lista começa quando, ao contrário do tratamento dado pelo p.re­
sidente Hayes às greves ferroviárias de 1887, ou pelo presidente
Cleveland à questão de Pullman, em 1902, Theodore Roosevelt so­
luciona a grande greve dos trabalhadores de antracito, não pelo
envio de soldados federais, mas por meio de uma arbitragem bem­
suced.ida. No mesmo ano ele toma medidas legais contra a Northern
Security Company, de J. Pierpont Morgan, para mostrar à opinião
pública que o país era governado por Washington e não por Wall
Street. Nesse momento, começa a não longa história da iniciativa
capitalista, já não como mero progressismo político que visa à con­
servação social - algo tão antigo como a própria sociedade humana
- mas como uma nova forma de relação entre gestão política das
relações sociais e propriedade privada dos meios de produção,
novo ponto de ligação e de oposição entre os interesses gerais e o
lucro dos capitalistas individuais, entre o governo da res publica e
a produção para o capital. "Para compreender a importância da mo­
dificação nos Estados Unidos, basta pensar no clima de oposição no
qual a greve de Pullman e a greve de Homestead se desenrolaram
e compará-lo com a atmosfera na qual a organização sindical se
desenvolveu desde a era progressista. Houve, é claro, violência e
derramamento de sangue, mas o preço pago em sangue e violência
pela construção de um poderoso movimento sindical no século XX
foi, para a classe trabalhadora norte-americana, de longe inferior
ao que foi pago simplesmente para fazer funcionar as máquinas da
indústria norte-americana no período de 1865 a 1900 ".2 A Progres­
siva Era, em seus dois aspectos de violência operária e reformismo
capitalista, é o primeiro grande acontecimento histórico a ser tra­
tado. Nela, a relação entre as lutas e a organização dos trabalhado­
res e a iniciativa do capital segue um caminho típico. Ela atingirá,
mais tarde, nfveís superiores através de experiências superiores, mas
só depois de longas pausas que envolverão continuamente o proble­
ma nas névoas do passado. Evidentemente, para encontrar a revolu­
ção em ação não precisamos ír aos Estados Unidos. Não obstante,
as lutas de classes nos EUA são mais sérias do que as européias,
porque conseguem mais resultados com menos ideologia. Mais
adiante voltaremos ao assunto. No momento, devemos lembrar as
Dissertations de Mr. Dooley, de 1906. Mr. Dooley (Finley Peter
Dunne) foi considerado um dos mais argutos comentaristas daquela

1 R'chard Hofstadter, The Age of Reform (Nova York, 1955), p. 238.


2 Ibid., p. 244.
134 MARIO TRONTI

época, que compreendeu muito bem seu caráter quando disse: "O
barulho que ouvem não é o primeiro tiro da revolução. É apenas
o povo dos Estados Unidos batendo um tapete".3

'i
A Era de Marshall
Aquilo que nos Estados Unidos surge como a relação entte luta
operária e política do capital, reaparece durante o mesmo período
na Inglaterra como a relação entre movimento das lutas e resposta 1
capitalista ao nível da ciência. A resposta norte-americana do capital
tende sempre a tratar institucionalmente essas questões dentro do
terreno da iniciativa política assumida pelo chefe do Estado, nas
raras e preciosas ocasiões em que esse chefe supera subjetivamente
a inteligência mais moderna objetivada no sistema de produção. Ao
contrário da opinião comum, a Inglaterra oferece uma alta síntese
teórica da luta operária do ponto de vista capitalista. Não é correto
fixar para sempre na Alemanha o momento da máxima auto-cons­
ciência do capital, só porque lá esteve uma vez o filósofo Hegel.
Se a economia é a ciência por excelência das relações de produção,
troca e consumo das mercadorias como capital ( e, portanto, do
trabalho, e das lutas operárias como desenvolvimento do capital),
então não será possível encontrar uma elaboração mais elevada
dessa ciência do que o pensamento econômico inglês. Quando
Marshall disse: "está tudo em Smith", obrigou os que vieram depois
dele a dizer: "está tudo em Marshall". De acordo com Schumpeter,
seu grande feito "é a conquista clássica do período, isto é, a obra
que encerra, de maneira mais perfeita do que qualquer outra, a
situação clássica surgida em torno de 1900" .4 Ora, o que é clássico
naquela situação não é apenas a descoberta da teoria dos equilíbrios
parciais; nem são os momentos singulares, em partes separadas da
investigação que depois, todos em conjunto, formam um novo siste­
ma de modo a pensar em termos econômicos a noção de elasticida­
de da demanda, a introdução dos fatores de "curto prazo" e "longo
prazo" na análise econômica, a definição de uma situação de concor•
rência perfeita, o conceito de "mercado especial" de uma empresa,
e muitas outras coisas, como a utilidade marginal de Jevon, o
equilíbrio geral de Walras, o princípio de substituição de von Thue­
nen, as curvas da demanda de Cournot e a renda dos consumidores
de Dupuit, que ele tomou emprestado de outros mas que pareciam
novos porque ele os sistematizou ao seu jeito. Keynes, talvez no

8 Citado em The Age o/ Reform, ibid., p. 22.


" Joseph A. Schumpeter, History of Economic Analysis (Nova York,
1954), p. 384.
ÜPERÁRfóS E CAPITAL 1.35

mrus belo de seus Essays in Biography - o dedicado a Marshall -


escreveu uma frase que não é apenas sobre a personalidade estuda,
da, mas também sobre o autor: "Uma verdade fundamental, à qual
ele se apegou firmemente, era que as pessoas dotadas de um gênio
especial para o assunto e de uma poderosa intuição econômica fre.
qüentemente terão mais razão em suas conclusões e pressupostos

r
implícitos do que em suas explicações e afirmações explícitas. Isto
é, suas intuições estarão à frente de sua análise e terminologia. "5
A situação clássica da Inglaterra dos fins do século é dada de
modo que as intuições antes das análises, os conceitos antes das
palavras, ligam-se diretamente com o fato de classe: o dado, o mo­
mento e o nível da luta de classes. É sempre clássico para nós o
modelo de uma condição histórica na qual a luta se liga à política,
à teoria e à organização. O 1889 inglês não é um raio isolado e
inesperado. Ele surge depois de pelo menos duas décadas de con­
tinuados confrontos individuais que, embora atrasados, foram muito
conscientes, ativos e cada vez mais sindicalizados, envolvendo mi­
neiros, ferroviários, marítimos, trabalhadores das companhias de gás,
das indústrias têxteis e do aço. Após 1880 os salários reais aumen­
tam constantemente, a curva de preços cai, o emprego é geralmente
estável e há uma sindicalização crescente, salvo em 1893. A situação
da classe operária inglesa não deve ser procurada em estudos como
o então famoso Li/e and Labor of the People of London, de Charles
Booth, que denuncia a miséria dos trabalhadores, que acompanha,
sem antecipar ou provocar, a greve dos portuários. Cole escreveu:
"Os apelos que despertaram os trabalhadores nas décadas de 30 e
40 não teriam tido qualquer efeito sobre seus sucessores da segun­
da metade do século. Embora ainda houvesse, mesmo em 1900,
muitos milhares de trabalhadores explorados e sem esperanças
( ... ) eles não eram típicos da classe operária organizada ou orga­
nizável. Nas grandes indústrias, os trabalhadores haviam deixado de
ser uma multidão andrajosa e faminta, facilmente excitável seja por
um Feargus O'Connor ou por um James Rayner Stephens, ou por
algum dos muitos n messias" que surgiram nos primeiros anos do
século".6 Já não havia levantes de massa e revoltas súbitas provo­
cadas pelo desespero e pela fome: as greves eram ordenadas, pre­
,. paradas, esperadas, dirigidas e organizadas. A própria propaganda
socialista, para obter resultados, teve de apelar para a razão, e não
mais despertar os instintos. Se "O'Connor fora quente como o

5 John Maynard Keynes, Essays in Biography (Nova York, 1933), p. 232,


rwta.
6 G.D.H. Cole A Short History oj the British Working-class Move­
ments, 1789-1947 · (Londres, 1948), pp. 269-270.
136 MA.RIO TRONTI

inferno, Sidney Weeb era sempre fresco como um pepino".7 Em


1889, os estivadores pediam um salário de seis pences a hora, paga­
mento das horas extras, abolição da subempreitada e do trabalho
por tarefa, e um período mínimo de trabalho fixo de quatro horas.
Eram dirigidos por Ben Tillet - um trabalhador das docas de Lon­
dres -, Tom Mann e John Burns, operários metalúrgicos, todos
eles expoentes do "novo sindicalismo" que lutava contra os sindi.
catos especializados e as sociedades de assistência mútua, ao mesmo
tempo em que procuravam promover uma organização de massa de
toda a classe trabalhadora, travando uma luta baseada na solidarieda­
de de classe para alcançar uma série de objetivos capazes de desafiar
o sistema capitalista. A vitória dos trabalhadores das docas foi a
vitória do novo sindicato. A década de 1890 serviu de palco a
poucas lutas mas bastante avançadas: os tecelões de algodão do
Lancashire contra as reduções de salários, os 400.000 mineiros con­
tra a escala móvel e por um salário mínimo garantido, os ferroviá­
rios contra os horários, e os metalúrgicos por uma semana de 48
horas. A organização dos operários não-qualificados processou-se em
meio aos comentários céticos dos velhos líderes. Os estivadores,
trabalhadores nas companhias de gás e mineiros organizaram sin­
dicatos sem mais limitações de ofício. Uma nova época se abria nas
relações já históricas entre operários e trabalho. Não é a relação
entre trabalho e capital que marca aqui um passo à frente; ao con­
trário, no plano político, essa relação fica estagnada, não encontran.
do no plano teórico a sede de uma nova consciência que a exprima,
depois de a ter desenvolvido. Da mesma forma, os bons fabianos
não podem ser considerados como os virtuosos intérpretes da época.
Antes de falarmos de um ataque frontal ao capitalismo, devemos
tratar da composição interna da classe trabalhadora. É o que ocor­
rerá quase sempre na Inglaterra, onde não encontraremos estraté­
gias para a dermbada do poder existente, modelos de organização
política alternativa, nem sequer desenvolvimentos não-utópicos do
pensamento operário. Acima de tudo, do ponto de vista do capital,
essa não é a fonte de renovação das grandes iniciatívas. A nível do
Estado, o momento político não tem margem de autonomia para
impor seu próprio padrão às relações sociais. Como diria V. L.
Allen, o governo nunca é mais do que um conciliador e um árbitro.
Da Lei de Conciliação vitoriana de 1896 até a Lei dos Preços e
Rendas, 70 anos depois ( que os auxiliares de Wilson tiveram de
tratar através de decisões formais), há toda uma história tipica­
mente inglesa de uma ausência de política capitalista em relação ao

7 Ibid., p. 270.
ÜPERÁRIOS E CAPITAL 137

trabalho. Assim, o nível político não era independente das necessi­


dades imediatas do capital - o único caminho que até então levava
a uma derrota estratégica dos trabalhadores. Daí resulta que o papel
de apoio dinâmico na gestão real do poder a longo prazo é assumida
pela elaboração científica, pela consciência teórica do problema ope­
rário traduzido em termos de conceptualização burguesa. A auto­
nomia da política em relação ao desenvolvimento capitalista apre­
senta-se aqui como a autonomia da ciência: ciência não como tecno­
logia, mas como teoria, não como análise do trabalho, mas como
economia do capital. Não devemos buscar nos mais altos pontos do
pensamento econômico um tratamento direto das lutas operárias:
quanto mais alto o nível de elaboração, mais abstrato o movimento
das categorias e mais difícil se torna reconhecer a existência de
lutas nesse pensamento. Isso ocorre não porque o pensamento esteja
afastado da realidade, mas porque lhe é vizinho de uma maneira
complexa, não refletindo passivamente as relações de classe, mas
antes expondo-as bem temperadas e elaboradas numa dieta sabo­
rosa de conceitos. Devemos aprender a ler a linguagem científica
do capital para além desses conceitos, por detrás da lógica da dis­
ciplina, entre as linhas de "seus" tratados que sistematizam "seu"
saber. Não devemos aceitar sem discussão o que dizem. Os hieró­
glifos culturais devem ser decifrados, o jargão científico deve ser tra­
duzido na nossa linguagem vulgar de classe. No confronto com a
grande descoberta científica pelo capitalista, é necessário repelir a
atitude que esta assume para com a realidade: não refletir o que é,
mas elaborar para compreender e compreender aquilo que realmen­
te é.
Em sua aula inaugural em Cambridge em 1885, Marshall de­
clarou: "Entre os resultados negativos da estreiteza da obra dos.
economistas ingleses do infcio do século XIX, talvez o mais infelfa
tenha sido a oportunidade dada aos socialistas de citar e aplicar in­
devidamente os dogmas econômicos" . 8 Como se pode ver pelo seu
"Prefácio" a Industry and Trade, de 1919, as obras dos socialistas
exerciam sobre ele ao mesmo tempo atração e repulsão porque lhe
pareciam privadas de contato com a realidade. Ele observou "de­
senvolvimentos admiráveis na capacidade da classe trabalhadora" e
lembrou como, cerca de dez anos antes, acreditara que as chamadas
propostas "socialistas" eram as que mais valiam a pena ser estuda­
das. Eram os anos entre 1885 e 1900, durante os quais costumava
passar seus fins-de-semana com líderes operários como Thomas

s A.C. Pigou (org.), Memorial of Alfred Marshall (Londres, 1925).


p. 156.
138 MARIO TRONTI

Burt, Ben Tillet, Tom Mann e outros novos sindicalistas, os líderes


portuários vitoriosos de 1889, ano em que, depois de 20 anos de
trabalho, Marshall concluiu o que Keynes chamaria de um "universo
de conhecimento": seus Principies of Economics. Aqui - como ocor­
re com todo produto clássico do pensamento econômico - tudo o
que acontece no interior da classe operária parece acontecer também
no interior do capital. Do seu ponto de vista, a ciência burguesa se
recusa, acertadamente, a conceder aos trabalhadores, e portanto às
suas lutas, qualquer autonomia. A história é sempre a história do
capital. Como trabalho ou como salários, como um mecanismo com­
plexo e vivo ou corno energia natural simples, como função do sis­
tema ou como contradição da produção, a classe operária desem­
penha sempre um papel secundário, não gozando de luz própria
e refletindo o movimento do ciclo do capital. Nosso ponto de vista
é exatamente o oposto: nele qualquer descoberta de uma ciência
social objetiva pode e deve ser traduzida na linguagem das lutas.
O mais abstrato problema teórico terá o mais concreto significado
de classe. Em setembro de 1862, depois de ter enviado à Associa­
ção Britânica urna Notice of a General Mathematical Theory of
Política! Economy, com o primeiro esboço do conceito de utilidade
marginal, Jevons escrevia ao irmão: "Estou realmente muito curioso
de saber que efeito minha teoria terá sobre meus amigos e o público
em geral. Irei observar a questão como um artilheiro observa o vôo
de uma granada ou de uma bala, para ver se seus efeitos corres­
pondem às suas intenções. "11 Se as previsões são as da Theory de
Jevons de 1871, os efeitos encontram-se nos Principies de Marshall.
O nosso problema é, precisamente, seguir o vôo dessa granada du­
rante esse período da história da luta de classes. A não ser que
estejamos enganados, deveria estar exatamente aí o nó histórico a
ser desatado. Reside precisamente aí o nível clássico da questão
concernente à relação lutas-ciência, lutas operárias-ciências do capi­
tal, uma relação que terá subseqüentemente uma longa históría,
ainda hoje não concluída. Se bem entendemos, deve haver, subja­
cente àquela época, uma forte corrente que leva essa relação a
uma primeira formalização como modelo. Devemos cavar para en­
contr1-la. A maneira pela qual o problema é apresentado oferece
uma indicação metodológica também valiosa em outras investiga­
ções. Como afirmou Keynes, "Jevons viu a chaleira ferver e grítou
com a voz satisfeita de uma criança; Marshall também a viu ferver,
mas preparou-se silenciosamente para construir um império" . 10

9 Letters and Journal of W. Stanley Jevons (Londres, 1896), p. 169


10 Keynes, op. cit., p. 188.
OPERÁRIOS E CAPITAL 139

A Social-Democracia Histórica
Em seu Demokratie und Kaisertum, de 1900, Friedrich Naumann
definiu o império de Bísmark como uma república trabalhista. A
monarquia social dos dois Guílhermes merece esse r6tulo parado­
xal. Da mesma maneira que a tradição profundamente alemã do
Machstaat revelara-se a mais frágil entre todas as instituições polí­
ticas do capital moderno, a bête noir dos íunkers reacionários se
torna a mais larga estrada para o desenvolvimento de um certo tipo
de movimento operário democrático. Sem Bismarck, talvez nunca
tivesse havido a social-democracia alemã em sua forma clássica:
"Sem Maomé, Carlos Magno seria inconcebível". Por outro lado,
embora operando a partir da incômoda perspectiva do socialismo
agrário, Rudolf Meyer estava certo em argumentar que sem a social­
democracia a indústria alemã não se teria desenvolvido. Todas essas
passagens l6gicas estão cheias de significação histórica. O tema da
organização política da classe operária encontra na Europa Central
de língua alemã seu domínio próprio para uma experiência final­
mente bem-sucedida. Convém verificar aqui a relação entre lutas e
organização, ainda que seja apenas para localizar o ponto de partida
de um arco de longo alcance. Hoje esse arco não deve ser reto­
mado ao passo lento da prática; deve apenas ser submetido ao olhar
mortífero da teoria operária que, em suas atuais indicações estra­
tégicas, vai bem além do que havia na época e posteriormente. Não
obstante, devemos acrescentar desde já que, pelo menos na Alema­
nha, nada tem importância igual à força de choque do modelo polí­
tico da social-democracia clássica, desde a Offenes Antwortschreiben
lassalliana de 1863 até 1913 - um ano de muitas lutas, com
5.672.034 jornadas de trabalho perdidas em greves. Frente a essa
primeira forma histórica do partido político da classe operária, todas
as outras experiências de organização foram forçadas a apresentar-se
como respostas, como alternativas, como uma forma de imagem con­
trária àquilo que não era desejado, uma repetição negativa do que
era considerado uma passividade má. O sindícalismo revolucionário
do século XIX, a esquerda luxemburguista histórica, as várias ex­
periências de conselho da Baviera e do Piemonte e os primeiros
grupos minoritários que surgiram ( os partidos comunistas recém­
nascidos) todos eles eram, em essência, respostas à questão do
partido, colocada pela social-democracia às vanguardas operárias,
pelo menos na Europa. O modelo bolchevique não foge a essa de­
terminação anti-social-democrática. Explode na cabeça de Lênin tão
logo, fora da Rússia, ele entra em contato com as experiências do
movimento operário europeu. A Alemanha oferece assim o terreno
político clássico da luta dos trabalhadores, que se torna um ponto
140 MARIO TRONTI

de referência obrigatório para todo o desenvolvimento do problema


da organização. Estranhamente, porém, adaptando o jovem Marx à
idade provecta do capital, o partido da classe operária acaba sendo
o herdeiro não da filosofia, mas da social-democracia alemã clássica.
Esse fato, como de resto todos os fatos, também tem um lado
historiográfico. O movimento operário alemão, como aliás, toda a
luta de classes na Alemanha, parece ter apenas uma história exclu­
sivamente política, um único desenvolvimento do nível de organi­
zação, um fato sempre de alto nível, uma história de congressos do
partido. A partir de Mehring, a historiografia marxista foi vítima
fácil dessa falsa ótica. Em nenhum país é tão difícil alcançar o
nível das lutas como na Alemanha. Não porque elas sejam poucas,
mas porque são pouco visíveis, mal aflorando à superfície, submer­
sas nas conseqüências organizativas, que rapidamente provocaram.
Não é por acaso que o sindicato cresceu nesse contexto com tama­
nha dificuldade, competindo e freqüentemente lutando com o par­
tido, seguindo cronologicamente, de maneira estranha, o desenvol­
vimento deste. Não é por acaso que o militante intelectual médio
está familiarizado com o nome, politicamente insípido, dos dois
Liebknechts, embora talvez nunca tenha ouvido falar de um Karl
Legien. Durante 30 anos, até sua morte em 1921, esse "Samuel
Gompers alemão" - como Perlman costumava chamá-lo - esteve
à frente do sindicato e, portanto, de suas lutas e das greves operá­
rias. Antes que o junker von Puttkamer começasse a aplicar, com
mão firme de policial, as leis bismarckianas contra eles, os socialis­
tas tiveram tempo suficiente para se dividir. Ideólogos eisenachianos
à la Bebe! e os seguidores de von Schweítzer, o Realpolitiker prus­
siano que era ao mesmo tempo operário e barão, haviam se sepa­
rado, mas também tiveram tempo para se reunificar em seguida�
cantando em coro os versos do programa de Gotha, cujo destino
ninguém teria podido imaginar se não tivesse caído sob as barras.
afiadas do velho, em Londres. Era uma época. de lutas excepcional­
mente violentas, próximas de levantes, mas que terminavam sempre
em derrota. As greves eram locais, isoladas, mal organizadas, mal
dirigidas, e só conseguiam unificar os capitalistas. Ainda assim, as
Erwachungstreiks de fins da década de 1860 tiveram seu efeito:
entre 1871 e 1872 as lutas se estenderam dos trabalhadores do aço
de Chemnitz aos mecânicos de Cramer-Klett em Nuremburg e aos
16.000 mineiros do Ruhr, que saíram às ruas reivindicando oito
horas de trabalho e um aumento de 25% nos salários. Em 197>
uma violenta crise atingiu a economia alemã, e os trabalhadores
se defenderam ferozmente contra o desemprego e as reduções de
salário, "cada vez com maior rebeldia e indisciplina" - como diz
ÜPERÁRIOS E CAPITAL 141

a lei aprovada pelo Reichstag. Theodor York, presidente dos tra­


balhadores em madeira, aproveitou o ensejo para lançar a idéia,
antilocalísta, de centralização da organi21ação sindical. Mas estamos
na Alemanha: a centralização procurada nos sindicatos deve ser en­
contrada no nível político. O congresso de Gotha afirmava ser
"dever dos trabalhadores manter a política longe dos sindicatos",
mas sustentava ser também sen (deles) dever inscrever-se no par­
tido, porque só este poderia melhorar as condições políticas e eco­
nômicas dos trabalhadores. Por isso, Gradilone concluiu, com acerto,
que "a data de 1875 continua sendo um marco, não só por ter
registrado o nascimento do primeiro partido europeu da classe tra­
balhadora, mas também porque: influenciou indiretamente o desen­
volvimento de partidos semelhantes no continente ( ... ) tendo
todos eles surgido mais ou menos através da influência direta ou
indireta do partido alemão". Devemos dar à social-democracia o
crédito por ter deduzido objetivamente a forma política do partido
do conteúdo das lutas, por ter elevado a relação entre lutas e orga­
nização ao nível de política governamental e, portanto, por ter
usado essas lutas para crescer como poder alternativo, como poder
institucional negativo, provisoriamente, como algo oposto ao gover­
no à espera de assumir o poder estatal. Paradoxalmente, foi Lênin­
quem deu à social-democracia uma teoria do partido. Antes dele
havia apenas uma prática política quotidiana. Somente dentro do
grupo bolchevique, na redação do Jskra, podemos encontrar uma
sistematização do princípio de funcionamento do partido histórico
da classe operária. Até mesmo as formas mais clássicas de social­
democracia só indicam o programa estratégico e o caminho tático
do partido, mas não as leis dinâmicas de seu aparelho; não se colo­
cavam a pergunta bem leninista: "de que tipo de organização pre­
cisamos?" Contrapondo os dois tipos de organização, Lênin desen­
volveu a teoria de ambos. Tinha de fazê-lo, porque seu raciocínio
era totalmente político. Ele não partiu, nem queria partir, das lutas.
Sua lógíca baseava-se num conceito de racionalidade política total­
mente independente de tudo, independente até mesmo do interesse
de classe, porventura comum às duas classes. Seu partido não era
o anti-Estado; antes mesmo da tomada do poder, era o único Estado
verdadeiro da sociedade real. Não devemos considerar a luta operá­
ria antes de Lênin como uma causa de sua teoria do partido. Isso
não diminui, antes só engrandece, a importância de sua experiência.
Embora não tenha sido estimulado pela luta dos trabalhadores,
Lênin compreendeu perfeitamente as leis da sua ação política. Assim,
a noção burguesa clássica de autonomia da política é reconstituída
do ponto de vista operário. Dentro dessa estrutura referencial, o
142 MARIO TRONTI

destino histórico da social-democracia é bastante diferente. Sua for­


ma partidária não inventou nada e, em sua prática diária, apenas
refletiu um nível teórico bastante elevado do ataque operário ao
sistema. Anteriormente à social-democracia alemã, à ciência eco­
nômica inglesa e à iniciativa capitalista norte-americana, existe, por
sua vez, o início de uma longa tipologia que, quanto mais se apro­
xima de nossos dias, mais especifica o caráter do combate entre os
salários dos trabalhadores e o lucro do capital. Não é por acaso que
a história operária do capital começa aqui. Isso já pode ser de­
monstrado com as lutas que se desenrolam.
Vamos abrir o terceiro volume da obra monumental de
Kuczynski, Geschichte der Lage der Arbeiter in Deutschland von
1789 bis zur Gegenwart (primeira parte de uma obra que, na
segunda parte, compreende a análise sobre as condições de trabalho
na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França). Despido de sua
conceptualização e terminologia criptomarxista, esse trabalho é uma
mina de informações sobre a classe operária. O ano-chave é 1889.
É o ano do nascimento da Segunda Internacional, a filha legítima do
capital e da social-democracia alemães. Ambos os lados do canal da
Mancha estavam em greve: os trabalhadores portuários ingleses e
os mineiros alemães. Depois da luta dos 25.000 pedreiros e car­
pinteiros de Berlim, exigindo a passagem "de dez para nove horas
de trabalho, de 50 para 60 pfennigs de salário", houve uma explo­
são daquela vanguarda histórica que os mineiros sempre foram:
13.000 no Sane, 10.000 na Saxônia, 18.000 na Silésia, 90.000 na
Vestfália. Quando todos os mineiros pararam de trabalhar, o exér­
cito foi enviado contra eles e houve cinco trabalhadores mortos e
nove feridos. Engels e Rosa Luxemburg escreveram a esse respeito,
o Reichstag foi tomado pela discussão do problema e os líderes do
movimento, Schroeder, Bunte e Spiegel, foram até ao Kaiser. Com
a rapidez de um relâmpago as conseqüências se fizeram sentir no
ano seguinte, 1890. Em 20 de fevereiro, os candidatos social-de­
mocratas tiveram um milhão e meio de votos, 20% do total,
660.000 mais do que haviam recebido cm 1887. Em 20 de março
Bismarck deixava o poder. A 1. 0 de outubro, as leis de exceção
contra os socialistas eram revogadas. Nas palavras de Mehring, foi
o início de um novo período na história do Reich alemão e na
história da social-democracia alemã. Hoje, é necessário introduzir
essa nova forma de periodização histórica em nossa elaboração teóri­
ca, e encontrar novas datas como ponto de partida da resposta
social, seja de grandes instituições coletivas seja do grande pensa­
mento individual. Segundo Walter Galenson, há na Alemanha um
período entre 1890 e 1913 da história do partido e da história das
OPERÁRIOS E CAPITAL 143

lutas cuja combinação leva às premissas apresentadas pelas experi­


ências anteriores à sua conclusão clássica. Entre novembro de 1890
e setembro de 1891, houve cerca de 30 greves nas quais participa­
ram 40.000 operários: na primeira fila, os tipógrafos - os "ingle­
ses" do movimento sindical alemão, com sucesso legal em relação
aos horários. Entre 1892 e 1894 houve 320 greves, pequenas e
difusas, com a participação de 20.000 trabalhadores. Em 1895, e
sobretudo em 1896, houve outra grande onda em Berlim, no Sarre
e no Ruhr. A percentagem dos conflitos com resultados favoráveis
para os trabalhadores passou de 58 ,5 % para 74, 7 % . Havia um ar
de vitória operária. A greve dos portuários de Hamburgo em 1896
fez renascer a idéia de uma lei antigreve. Chegamos ao Zuchtbaus
Vorlage de 1899, que caiu através de meios parlamentares. A greve
de Crimmitschau, de 1903, porém, teve um resultado diferente. Du­
rante cinco meses, 8.000 trabalhadores têxteis permaneceram em
greve, exigindo salários mais altos. O resultado foi o surgimento
de um forte movimento associativo dos patrões. Foi o início de um
longo processo que, imediatamente depois da Primeira Guerra
Mundial, resultou na corrente antioperária, e portanto contra-revo­
lucionária, do Vereinigung der deutschen Arbeítgebeverbande. Os
anos entre 1903 e 1907 conheceram uma intensidade de luta seme­
lhante à sua extensão quantitativa: o ponto alto foi em 1905, quan­
do os trabalhadores em greve chegaram a meio milhão, e houve
uma perda de 7.362.802 jornadas de trabalho. Em 1910 havia ainda
370.000 trabalhadores em greve e 9.000.000 jornadas de trabalho
perdidas. A situação permaneceu mais ou menos a mesma até 1913.
Isso explica um fato que surpreende historiadores alemães contem­
porâneos como Vermeil: de 1890 a 1912 os votos dados aos social­
democratas aumentaram de 1.427.000 para 4.250.000, e os lugares
por eles ocupados no Parlamento passaram de 35 para 110. Entre­
tanto, segundo Zwing, de 1891 a 1913 houve um decréscimo no
número de federações de sindicatos de 63 para 49, enquanto havia
uma explosão do número de seus membros, de 277. 659 para
2.573.718. Depois da guerrilha, com o acordo de Mannheim, a paz
e a harmonia desceram entre o partido e o sindicato. É uma história
cheia de luzes contraditórias - que se acendem e apagam - per­
mitindo a visão das forças orientadoras do processo, mas também o
resultado negativo que fatalmente o espera. Na Segunda Interna­
cional só se viu, em geral, aquilo que se quis ver. É como se tuido
tivesse sido solucionado pelo debate teórico, tudo escrito em Neue
Zeit, tudo dito no Bernstein-Debatte, e nada restasse a dizer depois
das discussões entre intelectuais beligerantes em torno da Zusam­
mt?nbruchstheorie. A social-democracia alemã clássica se havia trans-
144 MARIO TRONTI

formado num episódio histórico da teoria do movimento operano.


Não obstante, a verdadeira teoria - a alta ciência - não estava no
interior do campo socialista, mas sim fora e contra ele. Essa ciência
totalmente teórica, essa teoria científica, tinha como conteúdo,
como objeto e como problema a realidade da política. A nova teoria
de uma nova política surgiu subitamente, tanto no grande pensa­
mento burguês como na prática subversiva dos trabalhadores. Lênín
estava mais próximo da "Politik als Beruf" de Max Weber do que
das lutas operárias alemãs, sobre as quais se erguia - como um
colosso com pés de barro - a social-democracia clássica.
Durante o período de Weimar, quando ainda falava aos qua­
dros do partido da Volkshochschu!e de Berlim, o social-democrata
Theodor Geiger escrevia: "Chamamos Die Masse o grupo social que
tem uma meta revolucionária e destruidora." Um ano antes, ao
revelar a essência da "tática social-democrática" segundo a qual o
proletariado deveria fazer concessões à burguesia, Lukács havia visto
corretamente que, como a verdadeira revolução ainda está muito
distante e suas precondições ainda não existem, "quanto mais as
precondições subjetivas e objetivas da revolução social estiverem
presentes, mais 'puramente' o proletariado será capaz de realizar
seus objetivos de classe. De tal maneira que o compromisso na
prática apresente, como reverso da medalha, um grande radicalis­
mo, uma vontade de absoluta "pureza" dos princípios em relação
aos "fins últimos. " 11 Essa é a verdadeira, a clássica e histórica so­
cial-democracia. Não é certo que a meta revolucionária tenha sido
abandonada nesse ponto. Faz-se, por vezes, confusão com alguma
das fórmulas do revisionismo bernsteiniano. O trabalho-chave da
social-democracia era precisamente manter taticamente em conjun­
to as duas faces da moeda - ambas como possíveis políticas do par­
tido: uma prática quotidiana de ações mencheviques e uma ideo­
logia de princípios subversivos puros. Eis porque afirmamos que
ela constitui historicamente uma solução organizacional sem igual
para a luta operária a nível político. O modelo bolchevique e o
movimento comunista que se segue não vão tão longe, ou melhor,
chegam a algo de qualitativamente diferente. Tentemos explicá-lo
em outras palavras. Durante esse período, a forma clássica do par­
tido social-democrático na Alemanha refletiu, passivamente, um
nível de espontaneidade operária que encerrava em si, isto é, em
suas lutas, a ambigüidade, a contradição e a duplicidade entre a
exigência de melhores condições capitalistas de trabalho, e a recusa
"socialísta" de todas essas condições. A situação não era tão atra-

11 Georg Lukács, Lenin (Londres, 1970), p. 80.


OPERÁRIOS E CAPITAL 145

sada que impedisse as explosões cíclicas das lutas econom1cas, nem


tão avançada a ponto de afastar propostas alternativas para a gestão
formal do poder. Continua sendo verdade que, desde o início, o
contato entre as lutas dos trabalhadores e o partido social-democrá­
tico foi tão direto e a relação tão íntima que impediu até mesmo
uma mediação em nível de sindicato. O sindicalismo estava total·
mente ausente da tradição operária alemã. Assim, toda a discussão
sobre a perspectiva política revela uma ausência impressionante de
mt:diações conceptuais, apanhadas de surpresa e arrancadas ao cam­
po adversário. Esse milagre de organização da social-democracia
alemã teve, como reverso, um nível médio de mediocridade inte­
lectual, uma aproximação científica e uma miséria teórica que
só podiam produzir os dados que produziram: o tratamento esco­
lástico da verdade marxista que, mesmo após Lênin, ainda temos
de perder tempo a combater. Nesse meio tempo, a alta ciência do
capital crescia sozinha, inquestionada e sem rival. Aí está a verda­
deira ilusão da qual o horizonte tático social-democrático é sempre
prisioneiro: um tipo de visão otimista do processo histórico que
avança através de seu próprio desdobramento gradual, e não atra­
vés de um combate violento à parte contrária. Assim, ela encontra
em si, em última análise, uma reafirmação e um julgamento cômodo
de um Deus justo e bom. Max Weber - um exemplo da alta
dência do capital - formulou subseqüentemente, e de forma cor­
reta, a questão alternativa: " (a) se o valor intrínseco da conduta
ética - a 'vontade pura' ou a 'consciência' como costumava ser cha­
mada - é suficiente para a sua justificação, seguindo a máxima
,dos moralistas cristãos: 'o cristão age corretamente e deixa a Deus
as conseqüências de suas ações'; ou (b) se a responsabilidade pelas
conseqüências previsíveis da ação devem ser levadas em considera­
ção" .12 Foi essa a maneira pela qual a antítese entre Gesinnung­
sethik e Verantwortungsethik foi mais tarde formulada em seu en­
·saio «a significado da neutralidade axiológica nas ciências socio­
lógicas e econômicas": "Todas as atitudes políticas revolucionárias,
em particular o 'sindicalismo' revolucionário, têm seu ponto de par­
tida no primeiro postulado; toda Realpolitik, no segundo". Mas
um ano depois, em sua conferência sobre "A Política como Voca­
ção", Weber diria que as duas éticas não são absolutamente anti­
téticas, mas se complementam mutuamente. De fato, "só cm unísso­
no" elas "constituem um homem autêntico - um homem que pode

12 Max Weber, The Methodology of the Social Sciences (Nova York,


1949), p. 16.
146 MARIO TRON'l'I

ter a vocação da política" . 13 O homem político, isto é, aquele que


tem "nas mãos a fibra nervosa dos acontecimentos historicamente
importantes", deve possuir três qualidades altamente decisivas:
paixão, "no sentido de uma dedicação naturalmente apaixonada a
uma 'causa' "; responsabilidade em rel ação a essa causa como "a
estrela-guia da ação » ; e visão ampla, como "sua capacidade de deixar
que as realidades se façam sentir sobre ele com concentração e
calma interiores. Daí sua distância das coisas e dos homens". H :f:.
com base nisso que, segundo Gerhard Maser, a sociologia do poder
de Weber se torna uma sociologia do poderoso. Na medida em que
a aspiração do poder é o instrumento indispensável de trabalho
político, o instinto de poder ( Machtinstinkt) é na realidade uma
qualidade normal do homem político. Nas reuniões dos conselhos
de trabalhadores e soldados de Heidelberg, de que Weber partici­
pou em 1918, ele bem poderia ter proposto, e desenvolvido, as leis
proletárias da política de poder. "A velha problemática sobre a
melhor forma possível de governo teria sido rejeitada por ele como
irrelevante. A luta entre classes e indivíduos, pelo poder ou pelo
domínio, parecia-lhe ser a essência, ou se quisermos, o dado cons­
tante da política". Não, não estamos falando de Lênin, mas ainda
de Max Weber, "o herdeiro de Maquiavel ( ... ) e contemporâneo
de Nietzsche" - como Raymond Aron o definiu com exatidão,
precisamente no contexto acima citado. Mas o político de que fala
Weber se chama Lênin. Não se encontram a paixão ardente e a
fria previsão do "sangue e juízo precisamente misturados" que
Lukács atribui ao seu Lênin? 15 E o senso de responsabílídade não
coincide com a prontidão permanente de Lênin? A verdade é que
o conceito weberiano de ação única e exclusivamente política só
poderia ser completamente aplicado do ponto de vista operário.
Isso não significa que se deva permanecer como vítimas passivas,
mesmo da mais alta espontaneidade operária, como ocorria com o
oportunismo sério da social-democracia clássica. Significa, pelo con­
trário, mediar ativamente a complexidade da situação concreta em
sua totalidade. Nesse contexto, a luta dos trabalhadores nunca é
o determinante único, mas sempre está interligada à solução política
do capítal, aos mais recentes resultados da ciência burguesa e aos
níveis atingidos pelas organizações do movimento operário. Nesse
sentido, a luta operária se encontra mais por detrás da social-demo­
cracia do que do leninismo. Mas também é verdade que o leninismo

1a Max: Weber, "Politics as a Vocation", in H.H. Gerth e C. Wright


Mills, (orgs.), From Max Weber (Nova York. 1958), p. 127.
14 lbid., p. 115.
15 Georg Lukács, op. cit., p. 95.
OPERÁRIOS E CAPITAL 147

está politicamente à frente de ambas, país prevê, ou melhor, pres­


creve, que seu nexo hístórico - a relação entre lutas e social-demo­
cracia - é a premissa prática para uma derrota dos trabalhadores.
E pode prever e prescrever porque conhece e aplica as escassas leis
da ação política sem as ilusões dos ideais morais. Lênin não havia
lido o Discurso de Freiburg ( 1895), de Weber. Ainda assim, agiu
como se conhecesse e interpretasse aquelas palavras em sua práxis
diária: "Para o sonho de paz e de felicidade humana, está escrito
no alto da porta do futuro desconhecido: 'perdei todas as esperan­
ças."' É essa a grandeza de Lênin. Mesmo quando não estava em
contato direto com o grande pensamento burguês, era capaz de lidar
com ele, já que o deduzia diretamente das coisas, isto é, reconhe­
cia-o em seu funcionamento objetivo. Compreendera, muito cedo,
aquilo, que hoje somos obrigados a reaprender em meio a dificul­
dades imensas; ou seja, a máxima de Weber, no mesmo Discurso,
que devemos aceitar corajosamente como um programa partidário:
"Nossos descendentes nos considerarão responsáveis ante a história,
não pelo tipo de organização econômica que lhes deixarmos como
herança, mas antes pela margem de movimento que tivermos con­
quistado e transferido."

As Lutas de Classe nos Estados Unidos


Vamos começar com uma hipótese de trabalho já impregnada de
pesadas conotações políticas: a de que a luta operária atingiu seu
mais alto nível absoluto entre 1933 e 1947 nos Estados Unidos.
Houve lutas avançadas, lutas vitoriosas, lutas operárias de massa
e mesmo simples lutas contratuais. Tomemos qualquer experiência
revolucionária da velha Europa, confrontemo-la com esse ciclo par­
ticular de lutas operárias nos EUA, e descobriremos nossas limita­
ções e nossas derrotas. Na melhor das hipóteses, compreenderemos
nosso atraso subjetivo e, na pior delas, nossa pretensão absurda de
ser vanguarda sem movimento, generais sem exército, sacerdotes da
subversão sem qualquer conhecimento político. Devemos hoje re­
chaçar a pretensão daqueles que vêem os operários europeus a
reboque de situações mais atrasadas, porém mais revolucionárias. Se,
no terreno da luta de classe, a vitória for medida pelo que se
ganhou, e pelo quanto se ganhou, então os trabalhadores europeus
encontram à sua frente, como o mais avançado modelo de compor­
tamento para suas necessidades presentes, a maneira de vencer, ou
se quiserem de derrotar o adversário, adotada pelos trabalhadores
norte-americanos da década de 1930.
148 MARlO TRONTI

Existiram ricas premissas de luta. Uma onda tinha surgido du­


rante os anos da guerra transformando, à sua maneira, a guerra na­
·cional, não em guerra civil, mas em luta de classe. Devido à falta
.de coragem científica, ou ao medo de conhecer a situação real, o
,comportamento dos operários norte-americanos durante as duas
guerras é um capítulo de história contemporânea ainda por ser
escrito. Dizer que os trabalh11dores lucram com a guerra é uma ver­
,dade amarga que gostaríamos de apagar da história. A luta operária
no interior da guerra capitalista é um grande fato político de nossa
época. Não é por acaso que o vamos buscar, por estar ausente na
Europa, no coração norte-americano do sistema capitalista interna­
cional. Em 1914 e 1915 o número de greves foi de 1.204 e 1.593;
em 1916, o número salta para 3.789 e, em 1917, para 4.450, com
1.600.000 e 1.230.000 trabalhadores em greve, respectivamente. À
parte o fabuloso ano de 1937, temos de ir a 1941 para encontrar
outra vez 4.288 greves num ano, envolvendo 2.360.000 trabalhado­
res, 8,4% da força de trabalho empregada, exatamente como em
1916, porcentagem só atingida em 1945, se excluirmos o outro
.ano fabuloso, 1919. Nos anos de 1943, 1944 e 1945 há um cresci­
mento impressionante: o número de greves passa de 3.752 para
4.956 e 4.750; os trabalhadores em greve, de 1.980.000 para
2.120.000 e 3.470.000. A intensidade da luta operária durante a
guerra só é superada num caso, no período imediatamente posterior
:à guerra, durante a primeira reconversão das indústrias de guerra
para indústrias de paz e de bem-estar civil. Dir-se-ia que os traba­
lhadores se abstiveram de criar dificuldades a esse empreendimento
tão humano. Vamos examinar esse fato. Em 1946 houve 4.985
greves, envolvendo 4.600.000 trabalhadores, ou 16,5% de toda a
força de trabalho empregada. Em 1919 houve 3. 630 greves, com
4.160.000 grevistas, ou 20,2% de todos os trabalhadores emprega­
dos.16 Do ponto de vista dos operários, a guerra foi uma grande
oportunidade para conseguir muito, enquanto a paz era uma grande
oportunidade para pedir mais. Assim, a Junta Nacional do Traba­
lho de Guerra, que adotou as políticas do New Deal antes mesmo
do New Deal, não encontrava melhor maneira de solucionar os con­
flitos trabalhistas do que deixar que os trabalhadores vencessem.
Direito de organização, negociação coletiva através da representação
sindical, contratos com empregados sindicalizados ou não, igualdade
de salário para as mulheres, salários mínimos, foram essas as con­
quistas do primeiro período de guerra. Consolidada a organização,

1.6 Cf. Robert Ozanne, Wages in Practice and Theory (Madison, Wisc., �
1968), "Appendix C", pp. 141-143.
OPERÁRIOS E CAPITAL 149

explorando as necessidades nacionais do adversário de classe ( em


1918 os sindicatos tinham mais de 4 núlhões de membros ), no
período de pós-guerra o combate se desviou para os salários. Para
o militante revolucionário, 1919 significa a guerra civil na Rússia
bolchevique, a República Soviética da Bavária, a Terceira Interna­
donal e Bela Kun, da mesma maneira que para o militante italiano
�ignifica a Turim da Ordine Nuovo, e os Conselhos antes da ocupa-
1:ão das fábricas. Entretanto Seattle é um nome totalmente desco­
nhecido, e seus mecânicos navais, guiados por James A. Duncan,
qnc arrastou 60.000 trabalhadores a uma greve geral durante cinco
dias, nunca são mencionados. Não obstante, aquele foi um ano-chave
para a luta de classes nos EUA, que, em termos do destino posi-
1 i vo da revolução mundial, foi provavelmente mais importante do
q11c todo o resto dos acontecimentos "euro-asiáticos" em conjunto.
1 [ouve a greve dos policiais de Boston, organizados no sindicalismo
do Boston Social Club, que quis filiar-se à AFL - coisas que lem­
bravam o maio francês, embora talvez tenham sido um pouco mais
�(rios, já que ocorreram meio século antes e não incluíam em seus
programas "foot-ball aux foot-balleurs." Mas houve também greves
dns mecânicos e ferroviários, trabalhadores têxteis e estívadores,
operários das indústrias alimentícias e das do vestuário. A situação
d Jcgou a um combate decisivo no terreno da produção de materiais
básicos para qualquer outro tipo de produção: aço e carvão. Cerca
ele 350.000 operários da siderurgia exigiam um contrato coletivo.
,·om um aumento de salários e uma jornada de trabalho de oito
lint'as. A United States Steel Corporation respondeu que não tinha
a intenção de negociar com eles. Os dias do New Deal da guerra
haviam terminado. Todas as autoridades e forças militares locais,
l'staduais e federais estavam do lado dos capitalistas. Uma "caça às
hmxas" anti-operária, o isolamento das suas organizações em rela­
.;�o à operação pública, cerca de 20 mortes. Estavam derrotados.
Foster R. Dulles escreveu que se os operários da siderurgia tives­
-�cm ganho, toda a história do movimento operário na década
seguinte 1920-1930 teria seguido um curso totalmente diferente.
Quando os trabalhadores siderúrgicos recuaram, 425.000 mineiros
entraram no campo de batalha. Sua organização era melhor e, por­
tanto, as reivindicações eram mais fortes: aumentos salariais de
60% e semana de trabalho de 36 horas. Conseguiram metade do·
que queriam em salários, mas nenhuma redução no horário. Wilson,
o neurótico e idealista 28. 0 presidente dos Estados Unidos, conse­
guiu uma ordem do poder judicial para suspender a greve. John L.
Lewis, presidente da United Mine Workers, e que logo se tornaria
famoso por outros feitos, repetiu a ordem ao nível da organização

" ---· -------------------------


150 MARIO TRON1'I

-operária. Os mineiros não ouviram nenhum dos dois presidentes e


<:ontinuaram a luta até conseguir o que lhes foi possível, naquelas
<:ondições. Podia-se ler nos jornais da época: ''Nenhuma minoria
organizada tem o direito de lançar o país no caos ( ... ) Uma auto­
.cracia operária é tão perigosa quanto uma autocracia capitalista''.
Eram essas as regras metodológicas que o capital estava começando
a estabelecer, a partir do duro combate com os trabalhadores, a
filosofia social que deveria triunfar na década feliz que se abria. A
.década de 1920 nos EUA é uma era de paz social, de grande pros­
peridade, "a idade das idiotices maravilhosas", do capítalismo do
hem-estar social, de altos salários obtidos sem luta e sem a iniciativa
política do capital, mas saídos como por acaso, pela escolha econômi­
ca do capitalista individual. Pela primeira vez na história surgem os
"grilhões dourados", o índice de sindicalização cai assustadoramente
entre os trabalhadores, nasce uma nova forma de sindicato con­
trolado pelos patrões, as indústrias com operários não-sindicalíza.
.dos vencem, enquanto a organização científica do trabalho avança
a passos gigantescos. Diz-se que a grande depressão ocorreu subita­
mente para despertar a todos do "sonho americano". Uma das ra·
2ões pelas quais o capital não compreendeu que estava à beira do
abismo foi o espantoso silêncio por parte das massas trabalhadoras
que se seguiu à derrota dos 400.000 ferroviários em 1922 e durou
até mesmo depois de 1929. As lutas operárias são um instrumento
insubstituível de autoconsciência do capital: sem elas, o capital não
reconhece seu próprio adversário e, em conseqüência, não se conhece
a si mesmo. Quando a contradição explode entre as componentes
internas do mecanismo de desenvolvimento capitalista, os trabalha­
dores não recomeçam a lutar ativamente, não procuram acelerar a
,crise, nem resolvê-la de alguma forma. Sabem que nada têm a ga·
nhar como classe particular, se o desenvolvimento geral nada mais
tem a oferecer. É óbvio dizer que os trabalhadores não quiseram a
.crise. Menos óbvio, e na realidade um pouco escandaloso, é pre­
tender que a crise não foi produto das lutas operárias, mas sim da
passividade do trabalho, da recusa maciça em fazer greve, com rei­
vindicações, proposições, lutas e organização. Atenção! Não quere­
mos dizer que a causa daquela crise se localiza na atitude do traba­
lho para com o capital. Queremos dizer que essa atitude foi a única
que poderia ter revelado a existência da crise, a única que, se ex­
pressa em lutas, poderia ter criado a possibilidade de sua previsão.
Por outro lado, é fácil compreender a flexão da curva das greves
na década da prosperidade geral. Mas por que houve uma passivi­
<lade do trabalho no coração da crise? Por que não houve tentativa
<le buscar uma solução revolucionária numa situação objetivamente
OPERÁRIOS E CAPITAL 151

revolucionária que dificilmente poderia ter sido mais revolucionária?


Por que não houve um 1917 em 1929? Os trabalhadores não apre­
sentam reivindicações e não as impõem pela luta em duas únicas
ocasiões: quando conseguem aquilo que pedem, e quando sabem que
nada têm a ganhar. Assim, a ausência de grandes lutas de 1922 a
193.3 tem duas causas diferentes nos dois períodos diferentes, entre
1922 e 1929, e entre 1929 e 193.3. No primeiro período, as mar­
gens objetivas de lucro capitalista estendem-se espontaneamente aos
trabalhadores. No segundo período não há margens para nenhuma
das duas partes, é inimaginável a participação dos salários operários
no lucro do capital. Desaparecem as próprias fronteiras entre as
classes: há apenas uma crise para todos. Por que dar-se ao trabalho
de lutar, quando é impossível obter concessões? Para tomar o
poder? Não devemos nunca confundir as duas coisas. A classe ope·
ráría norte-americana não é o partido bolchevique russo. Devemos
respeitar os fatos, mesmo quando problemáticos. Quando Roosevelt
tentou enfrentar a crise, os trabalhadores norte-americanos, nova­
mente em formação de combate, resumiram classicamente os pre­
cedentes imediatos de sua história política: lutaram agressivamente
durante a guerra e ganharam, defenderam-se violentamente depois
da guerra e foram derrotados, beneficiaram-se sem escrúpulos dos
"grilhões dourados" da década de felicidade, e não reagiram em
defesa própria, nem contra seu adversário, durante a crise. Parece
uma dança abstrata, à qual falta qualquer conteúdo significativo.
Mas, como uma fórmula matemática fechada em si mesma, a lógica
desses movimentos é impecável. Hoje, os operários norte-america­
nos são a face oculta da classe trabalhadora internacional. Para
decifrar a face dessa esfinge que a história contemporânea coloca
à nossa frente, devemos fazer primeiro um exame completo do
trabalho em todo o planeta. A noite norte-americana parece escura
porque olhamos o dia com os olhos fechados.
O parágrafo 7 .º do National Industrial Recovery Act, compre­
endendo o direito dos operários de "se organizarem e negociarem
coletivamente por meio de representantes de sua própria escolha"
e a proibição, para os patrões, de toda e qualquer "interferência,
restrição ou coerção" ,17 garantindo o princípio do salário mínimo
e da duração máxima de trabalho permitido, foi aprovado em junho
de 193.3, juntamente com o conjunto da lei. Na segunda metade
daquele ano, o número de greves foi igual ao total do ano anterior,
e o número de trabalhadores grevistas foi três vezes e meia superior

17 Citado por Arthur M. Schlesinger, Jr., The Coming of rhe New Deal
(Nova York_ 196S), p. 137.
152 MARIO TRONTI

ao de 1932. Em 1934 houve 1.856 greves com 1.500.000 trabalha­


dores, mais de 7% de todos os empregados. Apesar de o número
de conflitos não ser alto, eles envolveram as grandes indústrias e
as principais categorias: os trabalhadores da siderurgia e da indús­
tria automotora, os estivadores da costa do Pacífico, os trabalha­
dores em madeira do Noroeste, e na linha de frente, com a voz
mais alta, quase 500.000 operários têxteis com ex .gências de sema­
na de traoalho de 30 horas, salário mínimo de 13 dólares, a solução
do problema da intensificação do ritmo de trabalho e o reconheci­
mento da United Textile Workers. Quando, como já havia ocorrido
com o Clayton Act de 1914 e a Lei Norris-LaGuardía de 1923, o
parágrafo 7.º sofreu a reação combinada do capitalist.1 individual e
da jurisprudência ainda burguesa, os trabalhadores já o haviam utili­
zado para os fins que valiam a pena: para alargar o campo de ação
para novas reivindicações elevadas agora ao nível da organização. A
palavra de ordem era "organizar os desorganizados ", isto é. criar
sindicatos nas grandes indústrias de produção de massa só se tor­
nou possível quando a consciência coletiva do capital abriu a fábrica
a 11ma moderna força de trabalho que contrabalançaria o atrasado e
antiquado poder dos patrões. O ano de 1935 viu o nascimento e
o êxito do Wagner Act e da CIO. Isso prova, mais uma vez, um
nó indissolúvel entre a iniciativa política do capital e a organização
avançada dos operários, um nó impossível de desatar, mesmo se o
quisermos. Um National Labor Relations Board exerce fiscalização
para gue os proprietários não empreguem "práticas de trabalho in­
justas" e não se oponham à negociação coletiva com procedimentos
desleais; ordena o "cease and desist" unicamente para os indus­
triais, nunca para os trabalhadores, abole os sindicatos patronais,
desvincula o sindicato dos ofícios e pela primeira vez coloca-o nas
mãos do operário comum. Não se trata, portanto, de um 6rgão de
mediação política entre duas partes igualmente contrapostas: Frank­
lin Delano não é Theodore Roosevelt. Trata-se de um órgão admi­
nistrativo com funções judiciais, uma espécie de medida exatamente
contrária a toda a tradição norte-americana - uma medida para que
o capital e os capitalistas deixem espaço à autonomia de organização
operária. E mais: esta junta permite, no interior da parte operária,
uma escolha em favor dos setores de ponta da nova produção, a
identificação da figura do novo operário - massa, nas grandes in­
dústrias do aço, do automóvel, da borracha e do rádio. Isso explica
por que, embora a CIO tivesse apenas dois anos e a AFL já existisse
há cerca de meio século, em fins de 1937 a primeira já possuía
mais membros do que a segunda, e "as unidades adequadas de ne­
gociação" estabelecidas em 1935 eram administradas de acordo com
OPERÁRIOS E CAPITAL 15.3

a maioria, em favor do novo sindicalismo industrial. Se as escolhas


.avançadas do capital favoreciam as organizações operárias mais
avançadas, estas, por sua vez, apoiavam o capital, de modo que as
novas ·preferências predominaram sobre as velhas resistências. A lei
sobre os Fair Labor Standarts - continuação lógica do National
Labor Relations Act - data de 1938. Ela fixou um salário mínimo
de 25 centavos por hora, que subiria para 40 centavos depois de
sete anos, uma semana de trabalho de 44 horas antes do término de
1939, de 42 horas antes do final de 1941, e de 40 horas posterior­
mente. Mas entre o reconhecimento constitucional da Lei Wagner
e sua conseqüência lógica houve 19 3 7. Esse ano presenciou o mais
elevado número de greves já registrado { 4.740 ), um movimento
ampliado do sindicalismo, que se estendia das áreas de grande con­
centração aos nós vitais da produção, com formas de lutas inéditas
e instrumentos de pressão de eficácia até então desconhecida. Esse
movimento teve início com a criação da Comissão Organizadora dos
Trabalhadores da Siderurgia e, em virtude do êxito dessa organiza­
ção, a grande indústria do aço, a fortaleza inexpugnável da U.S.
Steel, foi obrigada a conceder aumentos salariais de 10%, uma jor­
nada de trabalho de oito horas, uma semana de 40 horas. Em se­
guida, foi a vez das companhias menores: 75 .000 trabalhadores
viram-se obrigados a uma luta duríssima contra elas. Houve o "Mas­
sacre do Memorial Day", em Chicago e, portanto, uma derrota tem­
porária do proletariado, gue só quatro anos depois seria compensada
pela intervenção do aliado político que manobrava as alavancas do
governo. Mas o ponto alto do combate ocorreu na indústria auto­
mobilística, entre o mais poderoso sindicato do país ( a United Auto­
mobile Worker - UAW) e as mais fortes empresas do capital
( Ford, General Motors, Chrysler). A "greve sentada" ( a "sit-down
strike") fez sua aparição e durante 44 dias a produção da General
Motors foi bloqueada em Flint, Cleveland e Detroit. Houve uma
ordem judicial para a evacuação das fábricas, mas foi ignorada.
Houve uma tentativa da polícia de retomar as fábricas, mas foi
rechaçada. "Solidariedade para sempre" era o lema que unia os
operários dentro das fábricas ocupadas, e a população do lado de
fora. Depois, foi a vitória: a negociação coletiva com a UAW coma
representante oficialmente reconhecida dos trabalhadores. Essa for.
ma norte-americana de ocupação de fábricas estendeu-se, e dentro
em pouco também a Chrysler teve de ceder. Só a Ford resistiria mais
quatro anos antes de seu primeiro contrato coletivo, mas teria de
fazer maiores concessões: aceitar a exigência de só admitir trabalha,
dores sindicalizados. A extensão quantitativa do número de greves
cresceu ,a partir de 1937, passando a envolver os trabalhadores nas
154 MARIO TRONTI

indústrias de borracha, vidro, têxteis, equipamentos de ótica e apa­


relhos elétricos. Roosevelt e seus "intelectuais" acompanhavam o
movimento com uma certa preocupação, utilizando-o, por outro
lado, na sua batalha interna com o capital. As leis de 19 38 sobre
"a igualdade de condições de trabalho" foi uma resposta política
avançada que só essas lutas poderiam ter obtido. A luta dos tra­
balhadores orientava cada vez mais a seu favor a opinião pública,
tão logo percebeu que essa opinião pública era forçada a ceder
devido às suas próprias necessidades. Chegamos à guerra com uma
relação de forças violentamente inclinada em favor do trabalho. O
que nunca havia acontecido tornou-se naquele momento possível;
a solução da crise deu poder aos .trabalhadores, retirando-o dos ca­
pitalistas. A ação que se seguiu foi também lógica e coerente. Já
não era mais a velha convocação socialista para a luta contra a
guerra, mas sim a mais moderna e subversiva reivindicação de
classe concebível: a participação operária nos lucros de guerra. Em
1941, antes mesmo de Pearl Harbor, a luta centralizou-se mais uma
vez em torno dos salários, abrangendo operários da indústria auto­
mobilística, da construção naval, motoristas, trabalhadores da cons­
trução civil e da indústria têxtil, e também do ponto vital da pro­
dução de guerra que eram as "minas cativas" ligadas à indústria do
aço, sempre com Lewis à frente de 250.000 mineiros. Num ano, o
salário médio aumentou 20%. Durante a Segunda Guerra Mundial,
os mineiros norte-americanos escreveram um capítulo especial na
história da luta de classes que devia ser estudado cuidadosamente.
O War Labor Board nada pôde fazer contra eles, e o próprio Roose­
velt teve de usar a dura máscara de inimigo dos operários ao tratar
com eles. Em 1943 os trabalhadores juntaram sua força organizada
maciça às milhares de greves espontâneas que explodiram em todo
o país contra o governo e sem os sindicatos. Daí parte um novo
crescendo de lutas que se estenderam pelos dois últimos anos da
guerra e pelo imediato pós-guerra. O ano de 1946 é como 1919.
Há quase 5.000 greves, envolvendo cerca de 5.000.000 de traba­
lhadores, 16,5% de todos os empregados, 120 milhões de jornadas
de trabalho perdidas. O National Wage Stabilization Board não
pôde conter o movimento. Uma reivindicação teve precedência sobre
todas as outras: salário de paz igual a o salário de guerra. Encontra­
mos então as palavras de ordem que reapareceriam um quarto de
século mais tarde, nas ruas da Europa: "sem contrato não há tra­
balho", "52 para 40", e uma forma norte-americana de controle
• . . "examinem-se os livrais". Os Pontos altos localizaram-se, mais
uma vez, na General Motors, entre os siderúrgicos, entre os minei­
ros e ainda entre os ferroviários. O aumento no custo de vida,
OPERÁRIOS E CAPITAL 155

1 tp1co da época de guerra, foi seguido por uma corrida desenfreada


do salário nominal, que quase o alcançou, Foi o início da história
contemporânea da relação de classes entre salários e preços, o des­
dobramento daquela enfermidade mortal com a qual nosso capital
aprendeu a viver, doença que, nos diagnósticos dos economistas, é
Lhamada de processo inflacionário oriundo do custo do trabalho.
f,: o início da dinâmica do desenvolvimento como movimento de
lutas que decidirão o destino do capital moderno: quem terá de
geri-lo, e quem será capaz de usá-lo. O ano de 1947 chegou aos
Estados Unidos sob o signo do "grande medo" operário que abalara
o país no ano anterior. É inacreditável, mas a lei Taft-Hartley pro­
punha, em última análise, recolocar o poder contratual dos capi­
talistas em pé de igualdade com o dos operários. Isso revela tudo
o que havia acontecido nos EUA a partir de 1933. A perequação
tla capacidade contratual das duas classes em luta - a exigência
clássica de direitos iguais habitualmente apresentada pela parte mais
fraca contra a mais forte - foi levada avante pela primeira vez,
pelos capitalistas, e conquistada, ou reconquistada, no interior do
�eu Estado. Um episódio revelador de uma história que ainda hoje
é atual, e em que é falso que uma classe sempre domine e a outra
seja sempre dominada, mas em que, de tempos em tempos, na rela­
ção de forças sempre mutável, o poder de uma se sobrepõe ao da
outra. Isso pode ocorrer independentemente das formas instítuCÍO·
nais de poder, e independentemente do nome sobre o qual a estru­
tura formal da sociedade é vista de fora ( quer ela se chame capita­
lista ou socialista), segundo a linguagem tradicional que remonta às
origens de nossa ciência. Um episódio historicamente rico de uma
vigorosa síntese de fatos fundamentais do passado, de elementos
decisivos até então acumulados desordenadamente pela luta de clas­
se, politicamente carregado de um futuro ainda não atingido pelos
ataques de um movimento operário que havia conseguido chegar
àquele ponto, mas ainda não fora capaz de sair dele. Esses 14 anos
compreendidos entre 1933 e 1947 constituem, nos Estados Unidos,
um fato histórico do capital que é, ao mesmo tempo, uma ação po­
lítica operária. Tudo o que havíamos encontrado separadamente em
diferentes períodos e em diversos países antes dessa época, vamos
encontrar aqui, mais uma vez, unificado numa rede única e com­
plexa de fatos e pensamentos: a relação entre as lutas e a iniciativa
política do capital, entre as lutas e a ciência, entre as lutas e a orga­
nização operária, isto é, a Progressiva Era, a época de Marshall, a
época da social-democracia, confluem e se fundem, reconhecendo-se
mutuamente como partes separadas de um todo, precisamente du­
rante os anos nos quais assistimos à conclusão, nos Estados Unidos,

----- . - ·--------------------------�
156 MARIO TRONTI

de uma fase clássica da luta de classes, que vai do pós-Marx à


primeira das nossas possibilidades reais de movimento. Partir das
lutas operárias para compreender os vários níveis de desenvolvi­
mento socíal, como o Estado, a ciêncía e a organização, é algo que
aprendemos de forma definitiva com esses acontecimentos. Em se­
guida, a luta operária será sempre somada a esses níveis tomados
em conjunto. Aí reside o nosso verdadeiro ponto de partida, tanto
para a análise como para a atividade de classe. Mas vamos desen­
volver de maneira mais detalhada esses conceitos, cuja obscuridade
não é apenas aparente.

Marx em Detroit
Na realidade, apena.s uma vez tivemos grandes iniciativas do capital,
e não foi por acaso, que ela ocorreu depoi s da maior crise de seu
sistema, e no meio das lutas operárias mais avançadas da sua his­
tória. Talvez seja um exagero pretender, como Rexford G. Tugwell,
que em 4 de marÇ<;> de 1933 a alternativa se colocava entre uma
revolução ordeira, "uni afastamento pacífico e rápido dos métodos
seguidos no passado'.', 18 e uma revolução violenta contra a estru­
tura capitalista. Talvez seja mais certo dizer que havia apenas um
caminho muito original que, em comparação com as míseras vicissi­
tudes institucionais• .da sociedade contemporânea, adquire hoje o
aspecto de uma verdadeira "revolução capitalista". Não é uma revO·
lução contra as estruturas do capital, mas dessas estruturas, pot
parte de uma iniciativa política que as controlava - ou que tentou
controlá-las - do alto de uma nova estratégia. H. G. Wells escre­
veu o seguinte sobre Roosevelt: "Ele é continuamente revolucioná,
rio sem nunca chegar a provocar uma crise revolucionária comple­
ta. " 19 E C. G. Jung definiu-o simplesmente como "uma força" .2°
Em sua caminhada do Hyde Park, às margens do Hudson, até a
Casa Branca, o "feliz guerreiro" costumava escolher o terreno de
sua batalha. Não é preciso provar que Roosevelt representava o
interesse do capital .mais avançado, num determinado momento.
Desnecessário dizer. também que, para ele, a política era uma me·
diação de pressões opostas no interior de sua classe, entre os new
dealers moderados e os extremados, embora pudéssemos desenvol.
ver melhor, do ponto de vista do trabalho, a traíetória dessa revo­
lução do capital que cresce entre 19 3 3 e 19 3 8 e então começa a

18 Ibid., p. 22.
19 [bid., p. 588.
:?O /bid., p. 576.
OPERÁRIOS E CAPITAL 157

, !«·cair. O que se deve examinar criticamente, porém, é a relação


,·111re as lutas de classes nos EUA e o neonacionalismo econônú­
, , 1 <le cunho progressista, bem como a relação entre o isolacionismo

l11stórico das lutas dos operários norte-americanos e a auto-suficiên­


' i;1 nacional key nesiana, aplicada ao primeiro New Deal. De modo
1 :('ral, devemos compreender que, nesse caso, a forma revolucionária
, l:1 iniciativa capitalista tem um conteúdo de classe operária e que
rs�a forma existe em virtude desse conteúdo. Além disso, através
, I,· suas lutas, os trabalhadores conseguiram jogar o capital contra
, 1:, capitalistas, e o Estado, formalmente de todos, contra o interesse
'"ª! de uns poucos. Por conseguinte, a conquista pelos trabalhado­
n·s de seu próprio terreno organizacional se faz à custa do adversá­
rio de classe. Todos esses problemas devem ser tratados numa in­
vestigação que parte da história, passa pela teoria e chega à política.
1 >e fato, uma política nacional do trabalho chega bastante tarde ao
i11terior do New Deal. Ocupado com o Emergency Banking Act,
rnm a Lei de Ajustamento Agrícola, e com o Tennessee Valley
/\uthority Act, durante os famosos Cem Dias o governo não se
, 1cupou da indústria ou dos operár.ios. A centelha foi, evidente­
rncnte, o parágrafo 7, mas foram necessárias as grandes lutas de
1933 e 1934, foi preciso Mínneapolis, San Francisco, Toledo, e a
l'ompany town de Kohler, Geórgia, e o conflito armado em Rhode
lsland, para estimular a primeira lei trabalhista do capital, em que
os operários já não se apresentavam na posição jurídica de classe
subalterna. A lei foi chamada de "injusta" porque estipulava as
obrigações dos empregadores, mas não dos trabalhadores. A resposta
do senador Wagner a essa observação foi a seguinte: "Ninguém
j11lgaria injusta uma lei de trânsito que regulasse a velocidade dos
:mtomóveis mas não a dos pedestres. "21 Roosevelt e os new dealers
haviam compreendido, mais ou menos claramente, que uma socie­
dade economicamente avançada não pode ser politicamente atrasa­
da. Se continuar atrasada, haverá uma crise, o bloqueio do mecanis.
1110 de funcionamento do sistema e uma situação revolucionária ge·
ralmente anticapitalista. Segundo Leuchtenburg, "Os new dealers
<"stavam convenddos de que a Depressão era resultado não simples­
mente de um colapso econômico, mas de um colapso político; por
isso, buscaram novos instrumentos políticos".22 E ainda: "Os re­
formadores da década de 1930 abandonaram a velha esperança
t'mersoniana de reformar o homem, procurando simplesmente trans-

n Ibid., p. 404
:'.2William E. Leuchtenburg, "The Roosevelt Recpnstruction", in Leuch­
tcnburg (org.), Pr1J11klin D. Roose11elt: A Personal 'Profile (Nova York,
1967). pp. 247-248.

--- -- -----------------------
158 MA.RIO TRONTI

formar as instituições". Nesse sentido, a experiência de Roosevelt foi


"revolucionária" no significado burguês tradicional de adaptação do
aparelho estatal às necessidades de desenvolvimento da sociedade,
de atualização institucional com relação ao crescimento econômico.
Não obstante, há uma diferença importante. Já não temos a pre­
sença dominante da ideologia como o nexo interno da política prá­
tica. Os new dealers se preocupavam em promover o poder aquisi­
tivo como a mola propulsara de maior desenvolvimento, pediam
projetos de bem-estar social, medidas de conservação da força de
trabalho, falavam do trabalho para os desempregados, dos mercados
para os agricultores, do comércio internacional para os industriais,
das finanças nacionais para os banqueiros. Eram conservadores ao
expressarem indignação moral contra as injustiças somadas às in­
justiças. O "corajoso e tenaz experimentalismo" de Roosevelt não
deve ser confundido com a tradição progressista norte-americana,
jeffersoniana e jacksoniana, posteriormente retomada por Theodore
Roosevelt e Wilson. Temos, no caso, um salto político, uma trans­
formação pragmática que se aproxima conscientemente do cinismo,
um esforço antiideológíco e uma carga agressiva anti-humanitária,
atrás da qual se pode ver a mão do trabalho puxando os fios.
Thurman Arnold foi responsável pelo programa antitruste. Sua po­
lêmica desenvolvia-se precisamente contra o progressismo de leis
que, a partir do Sherman Act, e na forma daquilo que Andrew
Shonfield chamou de·" uma religião nacional", visavam à "ilegalida­
de" das organizações industriais e não à busca de objetivos econômi­
cos. O folclore do capitalismo era, assim, uma luta puramente ideo­
lógica contra o poder do império industrial. "A simples prédica
contra ele não conseguiu melhor resultado do que uma contra-pré­
dica ( ... ) Os reformistas estavam prisioneiros das mesmas crenças
em que assentavam as instituições que tentavam reformar. Obceca­
dos por uma atitude moral para com a sociedade, pensavam em ter­
mos utópicos. Estavam interessados pelos "sistemas" de governo: a
filosofia era para eles mais importante do que a política diária, e
por isso, no final seus sucessos limitavam-se à filosofia, não à po·
lítica" .23 Richard Hofstadter escreveu: "Esses homens respeitáveis,
animados de ideais humanitários, tinham cometido, segundo Arnold,
o erro típico de ignorar o fato de que não é a lógica, mas a or­
ganização, que governa uma sociedade organizada' "?4 A luta du­
rante o New Deal havia forçado o capitalismo a colocar as cartas
2a Hofstadter, op. cit., p. 321.
24 Thurman Arnold, The Folklore o/ Capitalism, citado em Hofstadter.
op. cit., p. 322.
OPERÁRIOS E CAPITAL 159

"ª mesa. Depois de a crise ter forçado o capitalismo a se tornar


1,oliticamente moderno, a luta operária em terreno avançado o for­
\'OU a revelar seu caráter de classe, até mesmo exteriormente. Isso
11i10 é de todo irrelevante, se o objetivo for atingir o verdadeiro
,uJversário e não a sua sombra ideológica. Novamente Thurman
Arnold alega, em The Symbols of Government, que os líderes das
11rganizações industriais, ignorando os princípios jurídicos, humani­
t:írios e econômicos, "construíram seus próprio s erros, sua ação foi
oportunista, fizeram experiências com material humano e com pouca
rnnsideração pela justiça social. Não obstante, elevaram o nível da
,·:1pacidade produtiva além dos sonhos dos seus pais".25 A grande
iniciativa capitalista foi uma vitória operária precisamente por nos
1,crmitir um conhecimento cru do inimigo, em seu mais alto ponto
histórico. Depois disso, é inútil condená-lo; para nós, será mais
vantajoso usá-lo.
No verão de 1933, Keynes publicou um artigo no Daily Mail
�;Db o título "Presidente Roosevelt is Magnificently Right". O raio
viera dos Estados Unidos: não haveria estabilização do valor-ouro
do dólar. "Keynes congratulava [Roosevelt] ( ... ) por arrancar as
teias de aranha com tal ousadia. A mensagem, disse Keynes, foi "um
desafio para nós, para decidirmos se nos propomos a seguir os ve­
lhos e infortunados caminhos, ou explorar caminhos novos, novos
para estadistas e banqueiros, mas não para o pensamento ... "20 Ele
('stava se referindo, na realidade, a si mesmo. Sua longa luta contra
0 padrão-ouro, esse príncipe arruinado pertencente aos conceitos de
11n tes da guerra. esse "resíduo dos Bourbons ", finalmente encon­
trava uma voz autorizada disposta a seguir os seus conselhos. A
"volta ao ouro" pela Inglaterra havia sido a chave que lhe permi­
tira prever duas grandes desgraças para o capital: a crise inglesa de
1926 e a depressão mundial de 1929. A decisão de valorizar a
1 ihra em 10% significava "reduzir em dois xelins por libra" o sa-
1:írio dos trabalhadores. As Conseqüências Económicas de Winston
C:hurchill estavam 1)8 greve política que, partindo dos mineiros, se
ampliaria a toda classe trabalhadora inglesa, apenas um ano depois
das profecias de Keynes: "Não é lícito esperar que as classes tra­
balhadoras compreendam melhor do que o conselho de ministros o
tjuc está acontecendo. Quem primeiro sofre a redução do salário
tem de aceitar uma redução de seu padrão de vida, porque o custo
d<.: vida só diminuirá quando todos os outros forem igualmente
111 ingidos; é, portanto, justificável que se defendam.. . Os traba-
�6 Hofstadter, op. cit. p. 321.
�11 Schlesinger, op. cit.: p. 223.

--�-----------------""""· ..... ,-�


· ..•. ""'- ..
160 MARIO TRONTI

lhadores terão, pois, de resistir enquanto puderem, havendo guerra


aberta enquanto os economicamente mais fracos não forem ven­
cidos" .27 A outra profecia, de conseqüências bem mais aterroriza­
doras, teria de esperar apenas uns poucos anos para se tornar reali­
dade: "O padrão-ouro, confiado como está ao simples acaso, com
sua fé nos 'ajustes automáticos' e sua indiferença geral pelo aspecto
social, é o símbolo fundamental, o ídolo dos que se sentem na cabi.
ne de comando. Acho que são muito temerários em sua indiferença,
em seu otimismo vago, em sua fé cômoda de que nada realmente
sério ocorrerá algum dia. Nove vezes em dez, nada de verdadeira­
mente sério acontece. ( ... ) Mas se continuarmos a aplicar os prÍn·
cípios de uma ciência econômica elaborada com base nas hipóteses
do laissez-faire e da livre concorrência a uma sociedade que aban­
dona rapidamente essas hipóteses, corremos o risco da décima vez".28
Essas palavras foram escritas em 1925: o velho princípio foi man­
tido e "o décimo caso" verificou-se. Foi uma grande depressão.
"Ninguém nos enganou. Mas hoje envolvemo-nos numa confusão
colossal, tendo errado no controle de uma máquina delicada cujo
funcionamento não compreendemos" .2ll Ameaçada, a alta ciência do
capital mostra uma coragem comparável à grande iniciativa política
dos Estados Unidos. Keynes chega aos Estados Unidos em junho
de 1931, voltando aos EUA em junho de 1934. Enquanto isso, em
31 de dezembro de 1931, o New York Times publicou sua carta
aberta a Roosevelt, onde o presidente era apresentado como o de­
positário de "uma experiência racional dentro da estrutura do sis­
tema social existente ". 30 Se essa experiência não tiver êxito, o pro­
gresso nacional ficará bloqueado, e encontraremos a ortodoxia e a
revolução a lutar entre si. "Mas se conseguir, novos e mais ousa­
dos, métodos serão tentados em toda parte, e podemos datar o pri­
meiro capítulo de uma nova era econômica" .31 As opiniões dos dois
são idênticas. Keynes descreveria minuciosamente a forma das mãos
do presidente. Roosevelt escreveria a Felix Frankfurter: "Tive uma
longa conversa com K. e gostei muito dele". 32 Um dos dois deve
ter dito - como Napoleão com Goethe - "voilà un homme!"
Harrod nos diz que houve desacordo quanto à influência direta das

27 John Maynard Keynes, Essays in Persuasion (Nova York, 1932).


pp. 247-248.
28 lbid., p, 262.
29 lbid., pp. 135-6.
30 Citado por Ray Ferbes Harrod, The Life o/ John Maynard Keynes
(Nova York, 1951), p. 447.
Sl Jbid.
32 lbid., p. 448.
OPERÁRIOS E CAPITAL 161

t('ori.i s de Keynes sobre as ações de Roosevelt: "Sugeriu-se que


1--: t:ynes lhe tenha incluido a coragem par a realizar as operações
cm grande escala. Keynes teria, sem dúvida, insistido nesse ponto.
Mas seria de imaginar que os próprios instintos do Presidente o
reriam levado na mesma direção".ªª É mais provável que a influên­
<"ia de Keynes sobre os acontecimentos nos EUA se processasse
,11 ravés de canais um pouco diferentes, "não através de Roosevelt,
mas através dos seus inteligentes assistentes, que mau tinham os
ouvidos colados no chão". 34 Mas não é esse o ponto de discussão.
Não há dúvida de que, através de um canal ou de outro, Keynes
chegou aos Estados Unidos. O que se deve mostrar, em lugar disso,
é que a situação política da economia norte-americana e a luta de
classes nos EUA influenciaram a formação do núcleo central do pen­
samento de Keynes muito mais do que admitem explicitamente
aqueles que vêem nessa perspectiva um perigo científico. Escreven­
do sobre Keynes, Paul A. Samuelson disse que, como o capital, a
ciência cresce por acréscimos graduais, feitos pelos cientistas indivi­
duais. Como o capital, a ciência não tem limites. Sabemos sempre
de que cérebro materno nasce a descoberta, mas a verdadeira iden­
tidade do pai continua obscura e misteriosa para quem traz no
corpo a nova criatura. As sementes são muitas, porque a estrutura
factual histórica é complexa. Lorde Keynes, a quem E. A. G. Ro­
binson chamou de "um produto de Cambridge, de alto a baixo" -
o que é imediatamente evidente a todos - é na realidade um eco­
nomista norte-americano. Já se perguntou se teria havido uma Ge­
neral Theory sem Keynes, e a resposta foi não. Não era essa a
pergunta. O "Prefácio" à edição inglesa original da General
Theory é datado de 1.3 de dezembro de 1935, o mesmo ano
fabuloso que já havia produzido o Wagner Act e a CIO. Não
obstante, é na década anterior que os elementos da "revolução
keynesiana" amadurecem e explodem. Já em 1924, num artigo em
The Nation sobre o debate iniciado por Lloyd George em relação a
um programa de obras públicas como remédio para o desemprego,
Keynes mostrava o caminho para uma nova concepção da economia
política. Dois anos depois, em "The End of Laissez-Faire", deli­
neou de forma brilhante conceitos fundamentais para o futuro.
"Precisamos de uma nova ordem de idéias que seja o fruto natu­
ral de um exame sincero de nossos sentimentos íntimos em relação,
à realidade externa". ª5 Não obstante, "a Europa não dispõe dos

33 lbid., p. 449.
34 Ibid., p. 450.
35 Keynes, Essays in Persuasion, op. cit. p. 322.

--- -- -------------------
162 MARIO TRONTI

meios, e os EUA não possuem a vontade de agir" .8G Desde os


artigos de 1926 sobre a indústria do algodão no Lancashire, até o
folheto de princípios de 1929, "C(m Lloyd George Do It?", e
"The Means of Prosperity", de 1933, o pensamento de Keynes é
uma contínua reflexão em voz alta sobre as mesmas coisas, tentan­
do ver se algo se move nos outros. Só quando se torna evidente
que os Estados Unidos estão dispostos a começar, é que temos
finalmente a exposição programática da teoria. A ciência começa
a mostrar suas descobertas numa seqüência lógica, fixando-se e ob­
jetivando-se num novo texto clássico dedicado a uma concep­
tualização totalmente anticlássica da ciência econômica. A per­
gunta realmente séria é a seguinte: poder-se-ia ter uma Gene­
ral Theory sem a grande iniciativa capitalista, e com tudo o que
havia para trás, a crise, as lutas e os Estados Unidos - a terra das
crises e das lutas. Keynes costumava dizer: "A bateria não está
funcionando, como poderemos dar a partida?" Caso fosse possível
ter uma nova teoria ou economia política sem as primeiras ações
práticas do capital moderno, no terreno operário mais avançado,
quem chegou primeiro, Roosevelt ou Keynes? A questão é saber se
as novas idéias poderiam ter obtido um sucesso tão rápido sem a
lição destrutiva dos acontecímentos, lição que varrera o caminho
dos dogmas mais resistentes da teoria clássica: "a dificuldade não
reside nas novas idéias, mas em evitar as antigas". O Treatise on
Money, esse sim, era produto de um grande especialista em pro­
blemas monetários, o último dos economistas de Cambridge desde
Malthus, da mesma maneira que vimos a Inglaterra vitoriana exibir
a pompa científica nos Principies de Marshall. Por detrás da Ge­
neral Theory ampliam-se os horizontes. Isso não poderia ter sido
produzido pela grande ciência inglesa do passado, porque foi pro­
duzido precisamente contra ela. Além disso, a história inglesa da
l, época já havia perdido qualquer ambição de produzit outra ciência.
Estamos, portanto, longe de um fruto isolado e dentro de um ver­
dadeiro oceano de influências longínquas. Poderíamos chamá-la de
produto da situação mundial do capital, mas seria uma outra forma
genérica de dizer especificamente que ela foi produto da situação de
classe dos anos 1930 nos Estados Unidos. Só dessa maneira pode­
mos reconstruir a relação entre lutas e ciência num nível elevado de
desenvolvimento. Não devemos buscar superficialmente em Keynes
os termos explícitos da questão operária. Em How to Pay for the
War, ele afirma que nunca procurou tratar diretamente do proble­
ma dos salários. Sua abordagem foi, sobretudo, indireta. Na época
de Marshall, a alta ciência do capital podia ainda namorar ideologi-
ss lbid.
OPERÁRIOS E CAPITAL 16.3

camente as boas qualidades, não reconhecidas, das classes trabalha­


doras. A esta altura, isso já não é possível. Chegamos agora à
essência, não importando como traduzir o trecho de A Short View
of Russia relativo ao "proletariado rústico" contraposto ao burguês
e ao intelectual, que são a "qualidade da vida" .37 Certa vez, Keynes
escrevera que não há estado de espírito mais doloroso do que a
dúvida constante, embora a habilidade de manter esse estado fosse
por ele considerada como indicação de habilidade política. Keynes
não tinha dúvidas sobre sua posição social, e não tinha intenção de
demonstrar isso. Mas, ao contrário do que se pensa habitualmente,
era melhor político do que muitos profissionais da política. Aplicava
na prática, pessoalmente, seu lema de 19.3.3, dirigido inicialmente
aos reformistas da época, segundo o qual um doutrinário, quando
entra em ação, deve esquecer sua doutrina. Se Keynes pudesse ter
dirigido politicamente a "revolução capitalista" como o teórico do
New Deal, teria sido um Lênin norte-americano.
Na época do. primeiro grande recrutamento no sindicalismo in­
dustrial, já se podia ler nos manifestos da CIO: "O Presidente
Roosevelt quer que você ingresse no sindicato." Também são bem
conhecidos os esforços pessoais de Roosevelt para restabelecer a
unidade sindical depois da histórica cisão de 19.35. A "grande inicia­
tiva" necessitava de um interlocutor do lado do trabalhador para
poder manobrar dentro do capital. Mais do que isso, porém, neces­
sitava de um novo interlocutor. Sem o New Deal, não teria havido
a CIO - ou ela só teria surgido muito depois. Não obstante, o
êxito da nova política capitalista exigia a urgente atualização dos
instrumentos da organização dos trabalhadores, e acima de tudo, ne­
cessitava da extensão de seu controle à nova classe trabalhadora,
nas sempre crescente indústrias de produção de massa. Mas a
recíproca era também verdadeira. O imediato e impressionante su­
cesso da CIO só pode ser explicado pela atmosfera política geral
que havia começado a predominar, pela debilidade dos capitalistas
individuais, e pelas inadequações da velha organização operária. Os
novos líderes sindicais sabiam disso, e é por esse motivo que usa­
ram o nome do presidente dos Estados Unidos em suas campanhas
de recrutamento. A palavra de ordem, "organizar os desorganiza.
dos", era aceitável tanto para o capitalismo moderno como para o
novo sindicato. Na história recente, há momentos de afinidade eleti­
va entre as duas classes nos quais, cada uma em seu próprio campo,
elas se vêem internamente dividida se devem resolver simultanea­
mente problema de localização estratégica e de reestruturação or-

31 Keynes, Essays in Persuasion, op. cit., p. 300;


164 MARIO TRONTI

ganizacional. Nessa situação, vemos que a parte mais avançada <lo


capital estende a mão à parte mais -avançada da classe operária e
- ao contrário do que se poderia pensar de um ponto de vista
sectário - a classe operária não rejeita a oferta e a relação ilícita,
mas a explora com euforia, em seu proveito. Assim, os interesses
das duas classes opostas podem coincidir ocasionalmente, fora do
sentido tradicional do interesse político formal, quando todos lutam
juntos pela conquista da democracia. O conteúdo do interesse adqui­
re agora uma dimensão material: já não se apela pelo direito que
se tem, mas pelos deveres dos outros. Quando se referiu aos operá­
rios reivindicando uma voz na determinação da política industrial,
John L. Lewis argumentou que o trabalho "quer um lugar na mesa
do conselho quando são tomadas decisões que afetam a quantidade
de comida que a família de um trabalhador pode consumir, a educa­
ção de seus filhos, o tipo e quantidade de roupas que eles usarão,
os poucos prazeres que podem desfrutar". 88 Bradava ele: 30 mi­
lhões de trabalhadores querem o estabelecimento de uma democra­
cia do trabalho, mas reclamam também "sua participação em seu�
frutos concretos". Através desse caminho e com essas palavras, a
massa de operários não-qualificados, imigrantes, negros e mulheres,
acorreu ao novo sindicalismo industrial. Pelling escreveu que "em
1933 a APL parecia ser pouco mais do que associações de agências
funerárias, como seus críticos a chamavam, - um grupo de socie­
dades de auxílio mútuo administradas por homens antiquados, cuja
única preocupação era conservar a amizade da administração".39 :8
o quadro clássico de qualquer organização antiga. E aqui, por outro
lado, temos a face de uma típica organização nova em seu início.
Schlesinger escreve: "Na esteira do impulso da CIO, um fervor
quase evangélico começou a varrer grandes setores operários nos
EUA. O despertar de 1936 teve, na verdade, muitos dos aspectos
' de um renascimento. Os organizadores trabalhavam sem descanso e
!,. enfrentavam perigos desconhecidos, como missionários; os trabalha­
dores amontoavam-se nas salas de reunião para ouvir o novo evan­
gelho; surgiam novas seções locais de união para passar adiante a
boa-nova ( ... ) foi um hino geral, um movimento coral".40 Can­
tando "Mammy's Little Baby Love a Union Shop", em fins de 1937
a CIO possuía .3.700.000 membros, contra os 3.400.000 da AFL.
Incluía 600.000 mineiros, 400.000 operários da indústria automo­
bilística, .3 75.000 da indústria do aço, 300.000 das indústrias têx.

38 Citado em Schlesinger, op. cit., p. 418.


39 Henry Pelling, American Labor (Chicago, 1960), p. 178,.
40 Schlesinger, cp. cit., p. 416.
OPERÁRIOS E CAPITAL 165

teis, 250.000 da indústria do vestuário, e 100.000 trabalhadores


agrícolas e outros de indústrias correlatas. A CIO tinha uma orga­
nização para cada indústria, sem distinções de qualificação ou de
categoria. Era essa a importância política objetiva, contida na forma
sindical do instrumento organizativo. Quando Hilhnan, juntamente
com Dubinsky, "um socialista ao estilo norte-americano", diz:
"Nosso programa não era apenas para o trabalho", ele não dá o
significado político cor.reto da atuação da nova organização. Quando
Lewis, através da direção da CIO, contribuiu para a formação do
Partido Trabalhista Norte-Americano em Nova York, e de uma Liga
Operária Apartidária para apoiar a reeleição de Roosevelt, não con­
seguiu com isso uma saída política real que pudesse brotar coeren­
temente do nível das lutas nos EUA. A chave política para a re­
composição de classe no interesse operário s6 foi encontrada quan­
do o Steel Workers Organizing Committee foi reconhecido como o
agente organizado para a negociação coletiva com todas as fábricas
da U.S. Steel Corporation, quando, com exceção da Ford, a "sit
down-sh'ike" abalou os gigantes do automóvel, quando nova figura
do operário-massa - o trabalhador não-qualificado - ingressou
no domínio fundamental da organização e, por isso, se viu como
uma alternativa para o resto da sociedade. Sob esse aspecto, a
história da CIO, como experiência da organização política dos tra­
balhadores norte-americanos, é muito instrutiva - mesmo que seja
substancialmente ambígua e de duração muito breve. Em 19.38,
quando o Comittee for Industrial Organization modificou seu nome
para Congress of Industrial Organization (CIO), o período her6i­
co, a era agressiva e a época do rompimento radical com a tradição
já haviam passado. Não é por acaso que, no mesmo ano, depois do
Fair Labor Standart Act, o New Deal começa a declinar, abandona
o galope de sua carga inovadora. Já realizara sua função histórica. A
ambigüidade de uma solução política que não vai além dos sindi­
catos é típica não só da CIO, mas também da organização operária
norte-americana em seu conjunto. Se procurarmos nela o partido,
não encontraremos mais do que "grupos" de intelectuais cultivando
�eus próprios jardins. Mas, se examinarmos os resultados, veremos
que as conquistas do novo sindicalismo industrial dentro do New
Deal nunca foram obtidas por nenhum partido político da classe
operária. Os trabalhadores norte-americanos vivem ainda à sombra
dos resultados dessas conquistas históricas. Isso escandaliza os sa­
cerdotes da revolução: a classe operária melhor remunerada do
mundo venceu no passado, e deu-se ao luxo de gozar dos frutos da
vitória. A primeira CIO foi a mais avançada experiência de orga­
nização política operária até então empreendida nos Estados Uni-
166 MARIO TRONTI

dos. Ter êxito onde os "Cavaleiros do Trabalho", Eugene Debs, o


Sindicato Americano, dos Ferroviários, a IWW, DeLeon e os co­
munistas haviam falhado, não era uma tarefa fácil. O primeiro sin­
dicalismo industrial teve êxito e impôs, dentro de urna situação
específica, um nível de organização perfeitamente adequado à luta
de classes. Uma organização não deve ser julgada em termos de
evolução a longo prazo, mas em termos de sua função política no
momento de seu nascimento. A relação entre lutas e organização
dentro da fase de ascen�ão do New Deal s6 podia ser postulada em
termos políticos. O novo sindicato era um fato político por três
razões: porque provinha de lutas operárias, autênticas e avançadas,
porque atendia às necessidades de uma nova organização para uma
nova classe operária, e porque se chocava com uma grande iniciativa
do capital. Não devemos continuar prisioneiros dos nomes dados
às coisas. Um partido pode intitular-se "organização política da
classe operária" e ser na realidade uma associação de auxílio-fune­
ral, ou uma sociedade de socorro mútuo, como era o caso da AFL
em 1933, enquanto um sindicato pode limitar seus programas aos
interesses operários imediatos e, precisamente por isso, desempenhar
a função de um partido, uma tarefa política de combate ao siste­
ma. Em nenhum outro momento a classe operária é tão livre e
menos preconceituosa como no terreno da organização. Sabe que
esta nunca pode vencer sozinha, mas somente quando tem a ajuda
do capital. Sabe que deve dirigir-se a uma camada específica de
operários da indústria, precisamente aqueles que puxam a corda das
lutas naquele momento. Sabe que essas lutas têm de partir das con­
dições de trabalho na fábrica e mergulhar na distribuição social da
riqueza nacional. Nesse sentido, a tradição de organização dos tra•
balhadores norte-americanos é a mais política do mundo, porque o
impacto de suas lutas está mais próximo da derrota econômica do
!. adversário, mais próximos não da conquista do poder para cons­
truir no vazio uma outra sociedade, mas da explosão do salário, e
da transformação do capital e dos capitalistas, em subalternos den­
tro dessa mesma sociedade. Adolph Strasser costumava dizer que
eles não tinham metas para o futuro, mas agiam somente na luta
cotidiana pelos objetivos imediatos. Samuel Gompers reivindicaria
uma parcela crescente do produto do trabalho, enquanto John L.
Lewis preocupava-se com a organização. Para quem sabe ler, há
uma trajetória, do primeiro ao último dos três. Do Cigar Maker's
Union à APL e à CIO, a organização dos trabalhadores norte-ame·
rkanos nos deve levar não a condená-los, como vimos fazendo,
mas a esclarecer um de nossos problemas. Por trás da escolha de
uma organização particular pode estar oculta a resposta contempo-

i
____..J,
OPERÁRIOS E CAPITAL 167

rânea à pergunta de sempre: falando em termos gerais, o que é a


classe operária?
Tendo formulado assim o problema, é aqui que a abordagem
da ortodoxia marxista se revela profundamente inadequada. Por
vezes nos apercebemos do caráter primitivo e anárquico de nossas
articulações lingüísticas, que prendem nossos pensamentos a condi­
ções de expressão demasiado elementares para que possamos apre.
ender a complexidade das relações sociais modernas. Ainda estamos
às voltas com todo um aparato conceptual que não progrediu com
o tempo, que não foi renovado nem transformado com o crescimento
das lutas, que não foi utilizado em termos de acontecimentos poli.
ticos, que continuou empenhado em descrever as condições pré­
históricas de nossa classe, mesmo quando já quase se pode dizer que
sua história acabou. Hoje, é praticamente impossível ler a luta de
classes nos EUA através de Marx. Há uma tarefa importante a
ser realizada, há uma nova história ou de uma nova teoria: escrever
um capítulo sobre o destino de Marx nos Estados Unidos. O que
aconteceu nos Estados Unidos é o oposto do que ocorreu na Eu.
ropa Ocidental. Nos EUA, a iniciativa política do capital, sua
ciência e suas organizações operárias sempre viram Marx indireta.
mente, através da mediação da luta de classes.
Na Europa Ocidental, vimos sempre a luta de classes através
da mediação do marxismo, A situação norte-americana foi objetiva.
mente marxista. Durante pelo menos meio século, até o segundo
pós-guerra, Marx podia ser lido nas coisas, isto é, nas lutas, e nas
respostas provocadas pelas suas exigências. Não devemos procurar
nos livros de Marx uma interpretação das lutas operárias norte.
americanas. Podemos, isso sim, encontrar nessas lutas a interpreta.
ção mais exata dos mais avançados textos de Marx. Recomenda-se
uma leitura "americana" de O Capital e do Grundrisse aos que
têm o gosto ou gênio da descoberta crítica. Na Europa, Marx teve
de mediar a perspectiva estratégica avançada do capital com situa­
ções atrasadas, que eram diferentes para cada nação. Na Europa,
Marx teve de ser lido ideologicamente, e aplicado taticamente, de
modo a se poder unir os pontos avançados e atrasados do sistema.
É por isso que só houve uma evolução criativa do marxismo onde
a organização operária preencheu o vácuo da atividade prática, de
política, que é sempre a relação entre o que avança sozinho, e o
que segue apenas na medida em que é obrigado a fazê-lo. Marx e
o partido parecem ter compartilhado do mesmo destino e da mesma
função. A classe operária norte·americana passou sem ambos. Mas
não passou sem as suas ferramentas organizacionais próprias, nem
168 MARIO TRONTI

sem a sua ciência própria. Há uma história norte-americana de or­


ganizações que, embora não sendo partidos, são autênticas organi.
zações operárias, Da mesma forma, existe um filão norte-americano
de pensamento que, embora não sendo marxista, é um verdadeiro
pensamento operário. Uma dasse operária forte não é tão ciosa de
sua própria autonomia quanto os grupos subalternos que buscam um
resultado revolucionário para sua própria situação desesperada. Uma
classe operária forte é capaz de utilizar, como forma de sua própria
organização, a organização capitalista do trabalho industrial, é capaz
<le valer-se dos resultados do pensamento dos intelectuais do capi•
tal que simpatizam com os operários como forma de sua própria
ciência. Há uma citação de John Roger Commons, encontrada em
Labor and Administration, livro de 1913, que vale a pena ser trans­
crita por extenso. Dois anos antes, Taylor havia publicado os Prin­
ciples of the Scientific Orgcmization of Labor, e em 1912 expusera­
os à comissão especial do Congresso. Commons entusiasmou-se por­
que, finalmente, a psicologia dos operários foi analisada através de
experiências tão precisas quanto as realizadas na química com dife­
rentes tipos de carbono; " ... Nasce uma nova profissão de enge­
nharia que tem na psicologia industrial sua ciência subjacente.
Essas tentativas para canalizar as forças da natureza humana para
a produção da ríqueza são maravilhosas e interessantes." 41 Os pionei­
ros nesse campo podem ser comparados aos grandes inventores da
turbina e do dínamo, visto que procuram reduzir os custos, ao
mesmo tempo em que multiplicam a eficiência. "Ao procederem
desse modo, fazem exatamente as coisas que forçam o trabalho a
tomar consciência de classe. Enquanto o homem conserva a indivi­
dualidade, ele está mais ou menos isento dos sentimentos de classe.
Ele é autoconsciente. . . Mas quando sua individualidade é cientifi­
camente medida em partes alíquotas e cada parte é ameaçada de
substituição por partes idênticas de outros homens, então seu senso
de superioridade desaparece. Ele e seus companheiros trabalhadores
competem entre si, não como homens inteiros, mas como unidades
de produção. Estão, assim, maduros para reconhecerem sua solida­
riedade e para concordarem em não competir. E isso é o essencial
no conflito de classes" . 42 Ainda não atingimos o verdadeiro institu­
donalismo da escola de Wisconsin. Mas já ultrapassamos uma cons­
ciência precisa das conseqüências políticas que a organização cien­
tífica do trabalho provoca na luta de classes no seio do capital. Há

41 John R. Commons, Labor and Admínistration (Nova York, 1913),


p. 74.
42 lbid., p. 75.
OPERÁRIOS E CAPITAL 169:

uma longa linha de pensamento e experimentação prática, que vai


desde a Sozialpolitik alemã até a técnica norte-americana de Indus­
trial Government. Valeria a pena seguir o caminho, desde a "velha"
escola histórica de Kar1 Knies até a "jovem" escola histórica de
Gustav Schmoller, até o seu transplante para os EUA feito por
Richard T. Ely, através da rica e penetrante obra de Veblen, até
a "Wisconsin Theory" dos institucionalistas, Adams, Commons,
Selig Perlman, e talvez mesmo Tannenbaum. :É dentro dessa linha
de investigação sobre a classe operária que explode, e deve até certo
ponto explodir, o estudo do trabalho. O Task management e, em
geral, a Industrial Engineering - a tecnologia da produção indus­
trial como organização científica do trabalho - constituem o outro
lado da articulação realista, da abordagem pragmática do momento
da luta dos operários, ou, como se diz, do momento de conflito,
como base das várias formas de organização de classe. Assim, pode­
mos compreender melhor o princípio de "look and sce", a reela­
boração dos conceitos veblenianos de "efficiency" e "scarcity" bem
como sua possível construção através do corretivo da "ação cole­
tiva". New dealers avant la lettre, os institucionalistas sentiram.se
prontos não só a aceitar, mas também a teorizar, o programa de
Roosevelt. Em seu artigo "The Principle of Collective Bargaining",
publicado em 1936, Perlman argumentou que o contraro coletivo
era menos interessante para a álgebra estatística das tendências
econômicas do que a disciplina organizativa e a formação dos ge­
rentes. A "job consciousness ", ou o "comunismo das ocasiões eco­
nômicas", o pessimismo econômico natural dos grupos operários,
a divergência absoluta entre mentalidade operária e mentalidade po­
lítico-ideológica, não são apenas definições brilhantes - o fruto
brilhante de intelectos brilhantes. São também observações factuais
preciosas daquilo que foi a condição histórica de uma classe operá·
ria concreta no país do capital generalizado. Todos nós temos em
nosso passado o pecado original de ter considerado a classe operária
como "uma massa abstrata em busca de forças abstratas". A recusa
polêmica que destruiu, ao nascer, a figura do intelectual marxista, e
que sempre o impediu de intervir nas lutas reais do movimento
operário norte-americano, é uma das raras tradições do passado que
devemos considerar nossas no futuro imediato. Onde quer que o
operário se apresente como "senhor de ideais", o sábio das coisas
do trabalho não poderá envergar as vestes de mestre da moral revo­
lucionária, nem mesmo querendo. Perlman escreve que Commons
estava totalmente livre do mais insidioso tipo de esnobismo, a de
pôr, com condescendência, seu cérebro superior a serviço da causa
dos humildes.

··-··· - - - -----
1 1
170 MARIO TRONTI

Sichtbar tnachen
Sichtbar machen significa tornar visível, dizer claramente, a fim de
ser compreendido, coisas obscuras, mesmo correndo o risco de não
interpretar muito bem. Apesar do título difícil, esta seção é a mais
fácil de todas. Devemos evitar a tentação de tratar os problemas em
termos dogmáticos. Hoje, é melhor ressaltar os termos críticos da
situação, fixando inicialmente a estrutura dos problemas em aberto
dentro da qual a investigação deve ser empreendida. É inútil pro­
curar trilhas fáceis e atalhos. Hoje, para compreender, devemos
pa.rtír dos pontos mais difíceis, de modo a explicar as coisas simples
através das mais complexas. Como já dissemos, a investigação apre­
senta para um marxista contemporâneo um ponto depois do qual
não se pode voltar. É ele essa esfinge moderna, esse enigma obscuro,
essa coisa-em-si social que sabemos existir mas que não podemos
<::onhecer: a classe operária norte-amerícaan. Temos de focalizar nossa
visão para ver. Existe uma forma de eurocentrismo limitado que
deve ser condenada: a de se referir apenas a experiências revolucio­
nárias européias sempre que procuramos, ou mencionamos, modelos
de comportamento correto na luta. A noção de que a história da
classe operária teve seu epicentro na Europa e na Rússia é uma
lenda a ser destruída. É uma visão do século XIX que permaneceu
até hoje em virtude daqueles últimos e esplendorosos raios do mo­
vimento operário do século XIX que, na Europa Ocidental, são re­
presentados pelos anos imediatamente posteriores à Primeira Guer­
ra Mundial e pelo início da década de 1920. Falamos de dois gran­
des filões do movimento operário: a social-democracia e o comu­
nismo, mas qualquer dos dois, na sua aparente e irredutível diver­
sidade, acabam por se unir num único bloco, se comparados ao
movimento operário norte-americano. Para aproximar a situação da
classe operária inglesa ou alemã da situação da classe operária italia­
na ou francesa, precisamos apenas contrapor todas elas à situação
da classe operária norte-americana. São essas as duas tendências
principais na história das lutas operárias, os dois pontos de vista
particulares que são possíveis para o futuro, dentro do ponto de
vista operário em geral. Não é uma questão de se estabelecer uma
hierarquia de nobreza, nem de preencher uma ficha de preferências
por um ou por outro. Devemos ver como funcionam, respectiva­
mente, em nosso contexto da luta de classes, se contribuem para
nosso entendimento dos fatos, e se avançam, sugerem, ou excluem
os instrumentos de organização de base, na fábrica. Devemos vê-los
em relação ao seu possível efeito sobre o poder estatal. A partir
desse ponto de vista, as desvantagens tradicionais da situação de
OPERÁRIOS E CAPITAL 171

classe nos EUA se transformam em oportunidades ute1s para nós.


O que é diferente nas lutas operárias norte-americanas é precisa­
mente o que resta a ser feito no velho continente. Não, não que­
remos reiterar o conceito marxista do ponto mais avançado que
explica e delineia o mais atrasado. Seria fácil demais. Indicamos,
em outro lugar, como essa explicação encerra o perigo de oportu­
nismo político e se revela uma manifestação daquela espera passiva
dos acontecimentos, que desarma politicamente o lado operário,
colocando-o a reboque da história. Se quisermos partir das lutas
operárias nos EUA, devemos encontrar outras razões. A análise
marxista não nos deixou nem um esquema das principais lutas, nem
um modelo de como julgar os principais acontecimentos. Embora
isso pareça ter sido uma grave desvantagem para investigação, numa
análise mais profunda pode revelar-se como uma vantagem. Não
ocultamos a realidade sob véus ideológicos. Esses véus seriam os
mais difíceis de rasgar, já que é fácil criticar a ideologia do adver­
sário, ao mesmo tempo em que é difícil e ocasionalmente impos­
sível criticar nossas próprias ideologias. A história da classe operá­
ria européia está literalmente submersa sob as idéias dos intelectuais
marxistas. Mas a história da classe operária norte-americana ainda
está nua, sem que ninguém jamais a tenha pensado. Quanto menos
necessária é a crítica da ideologia, mais fácil é estimular as desco­
bertas científicas. Quanto menor é a contribuição da cultura de
esquerda, mais se faz avançar a riqueza de classe de uma realidade
social dada. Hoje, as lutas operárias precisam de um novo padrãJ
de medida, porque o velho já não é adequado nem útil. Um novo
padrão de julgamento deve ser aplicado aos dados operários de uma
situação determinada. Precisamos de um padrão que seja o lixo do
presente, em movimento e, assim, uma medida que se integre no
tipo político de realidade industrial que marque os passos, o ca­
minho e o desenvolvimento da sociedade contemporânea. Devemos
evitar medir o presente pelo passado, as lutas operárias pelos mo­
vimentos proletários, Não devemos confundir a realidade de hoje
com a "glória" anterior a que estamos sentimentalmente ligados.
Devemos também evitar julgar o presente com o metro do futuro,
e rejeitar o convite da gestão moderna para considerar as lutas
operárias como uma espécie de cibernética - um automatismo psi­
co-industrial a serviço do lucro coletívo. Devemos, hoje, afastar-nos
de duas tentações fáceis: a tradição histórica e a previsão tecnoló­
gica.
Em seu Economics, Samuelson abre o capítulo sobre salários
competitivos e negociação coletiva com uma citação do Novo Testa·

-----------------�·--· · · ·-·-·
172 MARIO TRONTI

mento - "O trabalhador vale seu sa lário" 43 e concluí com um


parágrafo sobre os problemas não solucionados do trabalho, greves,
custos ascendentes, e desemprego estrutural. Segundo ele, a utili­
zação hábil da greve permite obter aumentos salariais maiores do
que aumentos na produtividade física. Evitar as greves onerosas
através do arbitramento voluntário ou imposto leva a aumentos sa­
lariais semelhantes. Continuando, Samuelson diz que nos anos de
pós-guerra, em alguns países, foram feitas tentativas para introduzir
um elemento novo na negociação coletiva e na política macroeconô­
mica, a fim de manter os aumentos gerais de salários e de outras
rendas monetárias dentro de um índice compatível com o aumento
da produtividade e com a estabilidade dos preços. Mas, com relação
ao controle dos vários tipos de dinâmica salarial, a economia mista
estabilizou-se em torno de um nível de planejamento imperfeito.
Se, efetivamente, se pudesse encontrar uma política de rendimentos
que impedisse a inflação das vendas por pressão de custos, o bloco
de gelo do desemprego estrutural poderia ser dissolvido através
de uma crescente demanda coletiva, reforçada por programas de
retreinamento e recolocação. Mas o problema é que cada ponto do
ciclo econômico "parece ter ( .. ) uma tendência perturbadora". Isso
nada tem de novo no desenvolvimento capitalista. Toda base des­
cendente do ciclo é provocada, precedida ou seguida por um nível
elevado das lutas operárias. Essa tendência descendente é repre­
sentada por um momento particular da luta de classes, sendo difícil
expressar por que um certo fato ocorreu, como se desenvolveu e,
acima de tudo, qual das duas classes pode ser considerada, em última
análise, como vencedora. O economista diz que cada ponto do ciclo
econômico tem muitas tendências que o desenvolvem e uma que
o perturba. No melhor dos casos, o empresário se volta para o
economista a fim de saber qual é a tendência perturbadora. '' O
tempo da cavalaria acabou ... " O que outrora parecia absoluta­
mente certo tornou-se apenas relativamente econômico. O que estará
mais perto daquela verdade de classe, que coincide em cada mo­
mento, com um interesse particular de classe: a reivindicação uni­
versal do trabalhador a um salário justo, ou a distribuição de renda
num determinado país, de acordo com "curva de Lorenz"? Isso
deve ser decidido preliminarmente. Em seu alto nível de desenvol­
vimento, o capital já substituiu a aproximação imperfeita dos ideólo­
gos pi·ofissionais pelo trabalho de precisão dos computadores. A

43 Paul H. Samuelson, Economics (Nova York, 1970), p. 547. As cita·


ções subseqüentes foram omitidas de edições posteriores da obra de Sa­
muelson.
OPERÁRIOS E CAPITAL 173

"curva de Philíps" para os Estados Unidos é decidídamen te "má",


porque corta o eixo da estabilidade de preços apenas a um alto nível
de desemprego. A pressão dos custos tornou-se um problema ins­
titucional porque o controle capitalista dos salários ainda não existe.
O Prêmio Nobel Samuelson, na sua alta ciência, após observar a
experiência holandesa, britânica, italiana, canadense e norte-ameri­

1
cana, deixou toda a questão em aberto.
Entretanto, não devemos definir, comodamente, como insolúvel
todo e qualquer problema que o capital encontra no caminho de seu
desenvolvimento. Não devemos dizer logo: você não pode resolvê-lo,
só nós podemos resolvê-lo para você. Um problema do capital é,
antes de mais nada, um terreno para a luta operária. Seu terreno
econômico é o nosso terreno político. Enquanto o capital busca
uma solução, nós estamos interessados apenas em aumentar nossa
força organizada. Sabemos que, um após outro, todos os problemas
econômicos do capital podem ser resolvidos. Sabemos também que
aquilo que parece ser aqui uma contradição insolúvel, em outro
lugar pode já ter sido superaúo, ou pode ter-se transformado numa
outra contradição. Do ponto de vista operário, a premissa de uma
luta de classe vigorosa e eficiente, movimentando-se no sentido de
uma violência positiva, é representada pelo conhecimento específico
da contradição específica para o capital num dado momento, numa
determinada situação. Uma vitória operária obriga o patrão atrasado

11
1
a procurar compensar, de várias maneiras, o simples acréscimo de
rendimento que o trabalho conquistou. Por vezes, isso acontece por
falta de margem econômica, outras vezes por falta de inteligência
política. Essa não é, porém, a questão verdadeira quando a vitória
operária é transformada numa derrota. De fato, essa resposta gros­
seira dos capitalistas apenas promove a repetição de um ciclo de
lutas no mesmo nível do ciclo anterior, acrescido de uma carga
maior de espontaneidade e, portanto, uma menor necessidade de
organização. Desse modo, o movimento das lutas é mais fácil, a mo­
bilização é ao mesmo tempo grande e simples, e o nível de genera­
lização é imediato. Mas o novo conteúdo e as novas formas do
ataque operário não crescem; se esse obstáculo maciço a um choque
frontal num terreno atrasado não for podado antes, subjetivamente,
pelas forças de classe, não haverá novas lutas operárias. Em outros
casos, porém, a resposta dos patrões pode ser antecipada. Depois de

;
uma derrota parcial, o capital, mesmo em conseqüência de uma
simples batalha contratual, é violentamente pressionado a enten­
der-se consigo mesmo, isto é, a reconsiderar precisamente a quali­
dade de seu desenvolvimento, a recolocar o problema da relação
com o adversário de classe, não de forma direta, mas mediada por

---.. ----·�=�====�-·
�i
174 MARIO TRONTI

um tipo de iniciativa geral que envolve a reorganização do processo


produtivo e a reestruturação do mercado, a racionalização na fábrica
e o planejamento da sociedade. O capital busca então a ajuda da
tecnologia e da política, novos modos de consumo do trabalho, e
novas formas de exercer a autoridade. Aqui reside o grande perigo
de uma possível derrota operária. Os trabalhadores venceram a
batalha contratual, e precisamente por isso podem perder a guerra
da luta de classes durante um período histórico ocasionalmente
longo. É por isso que os EUA podem ensinar à Europa. Eles
podem perder a guerra se o nível de organização não progredir
rapidamente, com base no novo conteúdo das novas lutas, se a
consciência do movimento, isto é, a estrutura de classe já organi­
zada, deixar de perceber imediatamente o significado da próxima
iniciativa capitalista. Os que chegam atrasados perdem. Não se
trata de apressar os preparativos para uma resposta aos lancei: dos
patrões. Em primeiro lugar, trata-se de prever esses lances e em
certos casos até mesmo de sugeri-los. Mas trata-se sempre de pre­
vê-las com as formas de nossa própria organização, de modo a
torná-la politicamente não só improdutiva para as metas capitalistas,
mas também produtiva para as metas operárias. De nossa parte, a
única resposta necessária é quanto à necessidade que o trabalho
tem de uma nova organização em todos os níveis do combate. O
lance do capital, sua iniciativa atual, tanto no nível produtivo como
no terreno da política formal, deve ser, em si mesmo, a resposta.
Deve ser a tentativa de resistir sempre às formas diferentes assumi.
das pelo ataque do trabalho, imperceptivelmente reconhecido e,
portanto, pela sua natureza histórica e pela escolha política, im­
previsfvel do ponto de vista organizativo.
Lênin dizia que há diferentes tipos de espontaneidade. Hoje,
dizemos que há diferentes tipos de organização. Mas mesmo ante$
disso, devemos dizer: há diferentes tipos de lutas. Uma tipologia
completa das lutas operárias, com comentários marginais adequa­
dos, é um manual para o sindicalista perfeito que não desejamos
colocar em circulação. No contexto último do combate de classes
no mundo ocidental, a luta operária isolou alguns tipos fundamen­
tais que continuamente reaparecem, levantando sempre a questão
do significado dos conteúdos e da dimensão das forças colocadas
em movimento. Temos o grande acontecimento contemporâneo da
luta pelos contratos de trabalho. Para nós, é uma realidade vivida,
é um novo tipo de acontecimento temporal que já se havia intro­
duzido, pela força, na existência normal do trabalhador médio, nos
cálculos do economista, nos projetos do político e no mecanismo
de funcionamento material de toda a sociedade. Quando, após um
OPERÁRIOS E CAPITAL 175

longo e incerto caminho, o capital chegou à idéia de negoc1açao


coletiva com sua força de trabalho, garantida pelas leis, uma época
da luta de classes termina e outra tem início. A negociação coletiva
serve para discriminar diferentes níveis históricos do desenvolvi­
mento do capitalismo. Sob esse aspecto, ela é mais relevante do
que o nascimento do capital financeiro, as várias "etapas" do im­
perialismo, e as chamadas "eras" dos monopólios. Eis um exemplo
da história operária do capital que é a sua verdadeira história, e
ante a qual tudo mais é lenda ideológica, sonho de visionários,
capacidade inconsciente de enganar, ou vontade deliJ...,.,.11da de errar
da parte de débeis intelectuais subalternos. "A new way of settling
labor disputes", segundo o título de um velho artigo de Commons,
é o que força o capital a saltos qualitativos em sua existência ma­
dura. A dinâmica das relações sociais de classe encontra no contrato
coletivo uma forma de estabilização periódica. O preço do trabalho
é fixado, e continua fixo por um certo período de tempo. Um novo
sistema de jurisprudência industrial e um novo mecanismo de re­
presentação dos interesses dos trabalhadores começam a funcionar.
Segundo a trajetória de Dunlop, a negociação coletiva é seguida por
um sistema de relações industriais com três atores: os administra­
dores, pelas empresas; os sindicatos, pelos trabalhadores; e vários
meios de meditação institucional, pelo governo. Mas a realidade
mutável, crítica e contraditória da luta contratual não pode ser
captada no esquema de um subsistema abstrato de corte parsoniano.
� essa a questão. O contrato é, acima de tudo, uma luta pelo con­
trato. A dimensão coletiva da negociação redescobriu a natureza
coletiva da luta. A medida que passamos da fábrica isolada para
todo o setor industrial, e deste para a categoria, o número de par­
ticipantes aumenta e a luta das massas exclusivamente operárias
passa para o primeir o plano. Não é um detalhe sem importância.
Durante muito tempo, e mesmo hoje, as lutas operárias e de massa
foram consideradas como realidades mutuamente exclusivas. Como
parte do povo em geral, as massas trabalhadoras poderiam ter re·
incorporado em si a minoria atuante dos grupos de vanguarda, mas
não se identificaram com suas ações, dissolveram suas justificações
específicas em soluções de exigências políticas formais e transferi­
ram o centro do combate da fábrica para as ruas, não contra o
Estado de sempre, mas contra o governo do momento. Mesmo que
não seja o mito de Sorel da greve geral, mas, no sentido de Rosa
Luxemburg, uma luta que antecede e promove a organização, a
Massenstreik termina sempre como um acontecimento para o mo­
vimento não diretamente ligad� à classe. Só adquire um caráter
de classe quando a luta operária assume dimensões de massa e o
f!(
176 MARIO TRONTI

conceito concreto de massa operária em luta nasce nas relações


sociais reais, e não nos textos sagrados da ideologia. No caso, o
conceíto de massa não reside .na acumulação quantitativa de muitas
unidades individuais sob a mesma condição dita de exploração, por­
que, de outro modo o termo "classe" seria suficiente, em seu
significado habitual de estatística social, que lhe foi atribuído pela
tradição marxista. Trata-se aqui de um processo de massificação da
classe operária, de um processo de crescimento da classe dos operá­
rios e de homogeneização interna da força de trabalho industrial.
Se política é para nós a luta operária que sobe a níveis de qualidade
cada vez mais altos, e história é o capital que atualiza, nesta base,
suas estruturas tecnológicas e produtivas, sua organização do tra­
balho, seus instrumentos sociais de controle e manipulação, substi·
tuindo, por sugestão objetiva do adversário de classe, as partes
cada vez mais obsoletas do seu mecanismo de poder, então a polí­
tica antecede sempre a história. Não há processo possível de mas.
sificação de classe sem se ter chegado primeiro ao nível de luta de
massa. Em outras palavras, não há autêntico crescimento de classe
dos operários sem a luta operária de massa. A negação coletiva se
situa precisamente entre a massificação da luta e a massificação da
classe. Não partimos da classe, chegamos a ela. Ou melhor, che­
gamos a um novo nível de composição de classe. Começamos com
a luta. Inicialmente, a luta terá as mesmas características que pos·
teriormente serão atribuídas à classe. Não que antes da luta operá·
ria de massa não exista classe trabalhadora. Havia uma classe tra­
balhadora diferente, num nível inferior de desenvolvimento, dotada
sem dúvida de um menor grau de intensidade em sua composição
interna, e com uma trama menos profunda e menos complexa de
organização. É errado formalizar um conceito de "classe" válido
para todas as épocas da história humana. Erra também quem quer
definir a classe de uma vez para sempre na sociedade capitalísta
em desenvolvimento. Trabalhadores e capital são não apenas classes
contrapostas, mas realidades econômicas, formações sociais e orga­
nizações políticas sempre mutáveis. Há problemas metodológicos
a serem recordados, aqui, no corpo da investigação. Todavia não
é esse o ponto a ser ressaltado. Como já indicamos, passamos da
luta para a classe, da luta de massa para a massificação da classe,
mas através da nova realidade, da nova descoberta, do novo con­
ceito capitalista de contrato coletivo. A luta operária já assumira
características de massa quando o capital a forçou a se transformar
em luta contratual. A negociação coletiva é uma forma de controle,
é uma tentativa de institucionalizar, não a luta operária em geral,
mas aquela forma específica que engloba, liga e unifica os interes-

il
_______ J
ÜPERÁRIOS E CAPITAL 177

ses mater1a1s imediatos de um núcleo compacto de categorias de


trabalho dentro do setor correspondente da produção capitalista.
Quando no conteúdo das reinvindicações, na forma de mobilização
e nos modelos de organização, ela assume características de massa,
a luta operária corre o risco de perder a sua especificidade de classe
operária. As lutas proletárias originais, e mesmo certos tipos de
lutas operárias do século XIX realizadas em nosso próprio século,
não só correram esse risco, como foram vítimas dele. Quando a
luta operária começa a assumir características de massa sem deixar
de ser operária, isto é, quando a luta de massa consegue tornar-se
operária sem deixar de ser massificada, é esse o momento de um
novo período político e, portanto, de urna nova história. Em outras
palavras, é esse o ponto de origem, não muito distante, de uma
possível política nova operária e, portanto, da primeira nova ciência
econômica real do capital.
A política nova do trabalho foi articulada pelas lutas operárias
norte-americanas na década de 1930. Em seu horizonte quantitativo
mais limitado, as lutas italianas da década de 1960 são o reflexo
adequado desse sol vermelho que vem do ocidente. Colocam-se,
aqui problemas teóricos muito importantes. Ainda não estamos su­
ficientemente amadurecidos para sermos capazes de prefigurar a
solução de um longo e lento trabalho de investigação crítico-hístÓ·
rica. Por exemplo, é possível abandonar uma definição "objetiva"
<le classe operária? É possível definir como "classe operária" todos
os que lutam subjetivamente nas formas típicas da classe operária
,contra o capital, dentro do processo de produção social? É possível
-separar, finalmente, o conceito de classe operária do conceito de
trabalho produtivo? E, nesse caso, ficaria ainda, ligado aos salários?
O problem_a é encontrar novas definições de "classe operária", mas
sem abandonar o domínio da análise objetiva e sem voltar a cair
nas armadilhas ideológicas. Fazer desaparecer a materialidade obje­
tiva da classe operária em puras formas subjetivas das luta,; antica­
pitalistas é um erro novamente ideológico do neo-extremismo. E
não é só isso. Ampliar as fronteiras sociológicas da classe operária
para nela incluir todos os que lutam contra o capitalismo no seu
interior, até atingir a maioria quantitativa da força de trabalho
social, ou mesmo da população ativa, é uma grave concessão à
tradição democrática. Por outro lado, limitar demasiadamente essas
fronteiras, ao ponto de contar como trabalhadores "os poucos que
contam", pode levar à perigosa teorização da "minoria atuante".
Devemos nos afastar cautelo·samente de ambos os extremos. Nesse
caso, a análise das fronteiras deve ser uma observação dos fatos. As
conseqüências virão mais tarde. A classe operária não termina onde
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178 MARIO TRONTI

começa o capital. O livro do qual esse artigo é um post-scriptum


tende a ver operárfos e capital dentro do capital. A discussão que
acrescentamos com este post-scriptum tende a ver trabalhadores e
capital dentro da classe trabalhadora. A tendência mais recente é,
portanto, complicar conscientemente o domínio da investigação, na
esperança de que assim se abra caminho à solução mais simples. A
sociedade do capitalismo avançado nos oferece hoje o espetáculo,
nos proporcionando todos os instrumentos para a participação nesse
jogo, onde não há apenas autonomias formais entre a esfera política
e o mundo econômico, a ciência e o interesse da produção capitalista
a curto prazo, entre a organização do trabalho e a classe. As sim­
plificações exageradas do economicismo - estrutura e superestru­
tura - só se aplicam à primeira fase do capitalismo, que se asseme­
lha demais às sociedades pré-capitalistas para ser levada politica­
mente a sério. E o voluntarismo da política pura - revolução a
qualquer preço - encontra-se, se isso é possível, ainda mais atrás,
continua a ser um socialismo utópico, milenarista, uma heresia me­
dieval moderna, admitida pelo Papa, como a igreja de classe. O
capitalismo maduro é um a sociedade complexa, estratificada e con­
traditória. Essa sociedade tem mais de um centro que pretende ser
a fonte do poder, e esses centros lutam entre si pela supremacia,
embora essa luta nunca possa ser resolvida definitivamente dentro
desta sociedade. É isso que o passado imediato nos diz. Vale a
pena estudá-lo, ainda que seja apenas para encontrar o que temos
de estudar em seguida, isto é, agora. Não devemos, efetivamente,
confundir os dois níveis. A situação política norte-americana de
ontem é o presente histórico do Ocidente Europeu. Temos de
saber, entretanto, que estamos vivendo acontecimentos já vividos,
mas sem quaisquer resultados preconstituídos e sem conclusões se­
guras. Na Europa, estamos realmente na encruzilhada entre uma
elevação do capital ao poder, acima de tudo e de todos, e possibi­
lidades ilimitadas para a classe operária. Ê esse, digamos, o plano
de ação política. Não é por acaso que tratamos flgora desses tópicos.
Mas há o outro nível. Os Estados Unidos de hoje são o problema
teórico para o futuro de todos. Já sugerimos isso. Vale a pena
reiterá-lo. Hoje há um tipo de sensação, uma idéia mais sentida
do que experimentada, de termos chegado ao limite final da época
clássica da luta de classes. Apesar de tudo o que dissemos, as lutas
operárias nos EUA talvez tivessem de ser primeiro traduzida em
linguagem européia para que o ponto de vista operário tomasse
verdadeira consciência delas. Essa tomada de consciência é, acima
de tudo, destrutiva de uma tradição. Para construir, é necessário
deixar para trás nosso presente de lutas operárias clássicas, e entrar,
OPERÁRIOS E CAPITAL 179

com a antecipação da pesquisa, numa nova época pós-clássica ao


fim da qual, se a história do capital tiver qualquer utilidade, não
fica excluída a possibilidade de CJ.Ue tenhamos a centelha de uma
"teoria geral" da parte opeíária. "Eles" serão necessariamente for­
çados a marchar na direção de novas formas de "Industrial Go­
vernment ". "Nós" devemos rejeitar a tentação de escrever Die
Froehliche Klassenkampft. Devemos inventar na prática, num prazo
provisório estrategicamente longo, técnicas de uso político da má­
quina econômica capitalista pela classe operária até hoje nunca ex­
perimentadas.

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