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Título: A infância de Jesus

Autor: J.M. Coetzee

Digitalização e correção: Gaia Inclusiva – Serviço de Leitura Especial da


Biblioteca Municipal de Gaia

Capa

J.M. COETZEE

A INFÂNCIA DE JESUS

ROMANCE

DUAS VEZES BOOKER PRIZE

PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA 2003

D.QUIXOTE

BADANA DA CAPA

J.M. Coetzee nasceu em 1940, na Cidade do Cabo, estudou na África do Sul


e nos Estados Unidos, e atualmente reside na Austrália. Entre as suas
obras destacam-se No Coração desta Terra, À Espera dos Bárbaros, A Vida e
o Tempo de Michael K, Desgraça, O Homem Lento, Diário de Um Mau Ano - um
romance em que o autor dividiu a página em três planos narrativos
distintos, numa ousada experiência entre a ficção e o ensaio -, e Verão,
finalista do Booker Prize de 2009.
Tendo sido o primeiro escritor a vencer por duas vezes o Booker Prize,
Coetzee viu ainda a sua mestria literária ser reconhecida com a
atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 2003.

A Infância de Jesus, obra surpreendente e muito aclamada pela crítica e


pelos leitores, é o seu mais recente romance.

BADANA DA CONTRACAPA

Obras de J. M. Coetzee na Dom Quixote

NO CORAÇÃO DESTA TERRA

À ESPERA DOS BÁRBAROS

A ILHA

A IDADE DO FERRO

O MESTRE DE PETERSBURGO

DESGRAÇA

ELIZABETH COSTELLO

A VIDA E O TEMPO DE MICHAEL K

O HOMEM LENTO

DIÁRIO DE UM MAU ANO

VERÃO

A INFÂNCIA DE JESUS

CONTRACAPA

Depois de cruzarem oceanos, um homem e um rapaz chegam a uma nova terra.


Recebendo ali um nome e uma idade, são alojados num campo do deserto

enquanto aprendem espanhol, a língua do novo país.


Agora chamados Simón e David, dirigem-se ao centro de realojamento da
cidade de Novilla, onde os funcionários são corteses, mas não
necessariamente prestáveis. Simón assume então a incumbência de localizar
a mãe do rapaz. Embora, como todos os que chegam a este novo

país, pareça estar completamente limpo de todos os vestígios de


recordações, tem a convicção de que a reconhecerá quando a vir. E, de
facto, ao passear pelo campo com o rapaz, Simón vislumbra uma mulher que
tem a certeza de tratar-se da mãe dele, persuadindo-a a assumir esse
papel. E será a nova mãe de David a aperceber-se de que esta é uma
criança excecional, um rapaz inteligente e sonhador, com ideias muito
invulgares sobre o mundo. As autoridades académicas, porém, detetam nele
um traço de rebeldia e obstinam-se em que ele seja enviado para uma
escola especial distante. A mãe recusa-se a entregá-lo, e é Simón que
terá de conduzir o automóvel durante a fuga do trio pelas montanhas.

A INFÂNCIA DE JESUS é um belo e profundo romance, sempre surpreendente,


assinado por um esplêndido escritor.

«A qualidade da escrita de Coetzee reside na sua visão interior: sombria,


apaixonadamente compassiva, preocupada com a natureza do homem.»

FINANCIAL TIMES

«Um dos melhores romancistas vivos.»

SUNDAY TIMES

«Um dos melhores autores de expressão inglesa da atualidade.»

THE TIMES

Página de rosto

J. M. Coetzee

A INFÂNCIA DE JESUS

Romance
Tradução de J. Teixeira de Aguilar

D.QUIXOTE

Ficha técnica

Este livro segue o Novo Acordo Ortográfico de 1990.

Título: A Infância de Jesus

Título original: The Childhood of Jesus

J. M. Coetzee, 2013

Por acordo com

Peter Lampack Agency, Inc.

350 Fifth Avenue, Suite 5300

New York, NY10118 USA

Publicações Dom Quixote, 2013

Edição: Cecília Andrade

Revisão: Clara Joana Vitorino

Este livro foi composto em Rongel

fonte tipográfica desenhada por Mário Feliciano

Capa: Rui Garrido

Fotografia do autor: Jerry Bauer

Paginação: Leva, S.A.

Impressão e acabamento: CEM - Artes Gráficas

l.a edição: setembro de 2013

Depósito legal nº 362 478/13

ISBN: 978-972-20-5283-2

Reservados todos os direitos

Publicações Dom Quixote

Uma editora do Grupo Leya


Rua Cidade de Córdova, n.° 2 2610-038 Alfragide - Portugal
www.dquixote.pt wvvvv.leya.com
Capítulo 1

O homem que está ao portão faz-lhes sinal na direção de um edifício baixo


e alongado a meia distância.

- Se se apressarem - diz - podem registar-se antes de eles fecharem por


hoje.

Eles apressam-se. Centro de Reubicación Novilla, diz a tabuleta.


Reubicación: que quer aquilo dizer? Não é uma palavra que ele tenha
aprendido.

O gabinete é amplo e está vazio. Quente, também, mais quente até do que o
exterior. No extremo mais afastado há um balcão a toda a largura da sala,
dividido por chapas de vidro fosco. Encostada à parede há uma série de
gavetas de arquivo de madeira envernizada.

Suspenso por cima de uma das divisórias há um letreiro: Recién Llegados,


com as palavras estampadas a preto num retângulo de cartão. A funcionária
atrás do balcão, uma mulher jovem, saúda-o com um sorriso.

- Bom dia - diz ele. - Somos recém-chegados. - Articula as palavras com


lentidão, no espanhol que com dificuldade aprendeu a dominar. - Estou à
procura de emprego e também dum sítio onde morar. - Pega no rapaz por
baixo das axilas e levanta-o para que ela possa vê-lo como deve ser. -
Tenho uma criança comigo.

A rapariga estende a mão para a dar ao rapaz.

- Viva, miúdo! - diz ela. - É seu neto?

- Não é meu neto nem é meu filho, mas sou responsável por ele.

- Um sítio onde morar. - Ela deita uma olhadela aos papéis. - Temos um
quarto vago aqui no Centro que pode usar enquanto procura coisa melhor.
Não é luxuoso, mas talvez não se importe com isso. Quanto a emprego,
exploraremos isso amanhã de manhã: parece cansado, tenho a certeza de que
quer descansar. A viagem foi longa?

- Passámos a semana inteira na estrada. Viemos de Belstar, do


acampamento. Conhece bem Belstar?

- Conheço Belstar, sim. Eu também vim por Belstar. Foi lá que aprendeu o
espanhol?

- Tivemos aulas todos os dias durante seis semanas.


- Seis semanas? Eu estive três meses em Belstar. Ia morrendo de tédio. A
única coisa que me valeu foram as aulas de Espanhol. Tiveram por acaso a
señora Piñiera como professora?

- Não, tivemos um professor. - Hesita. - Posso levantar outro assunto? O


meu rapaz - deita um olhar ao miúdo - não está bem. Em parte é porque
está transtornado, confuso e transtornado, e não tem comido como deve
ser. Estranhou a comida do acampamento, não gostava dela. Há algum sítio
onde possamos tomar uma refeição como deve ser?

- Que idade tem ele?

- Cinco anos. Foi a idade que lhe deram.

- E diz o senhor que não é seu neto.

- Não é meu neto nem meu filho. Não temos nenhum parentesco. Tome - tira
duas cadernetas do bolso e estende-lhas.

Ela examina as cadernetas.

- Foram emitidas em Belstar?

- Foram. Foi onde eles nos deram os nossos nomes, os nossos nomes
espanhóis.

10

Ela debruça-se sobre o balcão.

- David: é um bonito nome - diz. - Gostas do teu nome, miúdo?

O rapaz olha diretamente para ela mas não responde. Que vê ela? Um miúdo
magro e pálido, de casaco de lã abotoado até ao pescoço, calções
cinzentos a tapar os joelhos, botas pretas de atacadores por cima de umas
meias de lã e um boné de fazenda à banda.

- Não achas essa roupa muito quente? Queres tirar o casaco? O rapaz abana
a cabeça.

Ele intervém.

- A roupa é de Belstar. Foi ele próprio que a escolheu, da que eles


tinham disponível. Afeiçoou-se muito a ela.

- Compreendo. Fiz a pergunta porque ele parecia estar com roupa um


bocadinho quente de mais para um dia como o de hoje. Deixe-me dar-lhe uma
informação: temos um depósito aqui no Centro onde as pessoas doam roupa
que deixou de servir aos filhos. Aos dias de semana está aberto todas as
manhãs. Se quiser, pode servir-se. Vai encontrar mais variedade do que em
Belstar.
- Obrigado.

- Além disso, depois de preencherem todos os impressos, pode levantar


dinheiro com a sua caderneta. Tem um subsídio de instalação de
quatrocentos reais. O rapaz também. Quatrocentos cada um.

- Obrigado.

- Agora deixe-me mostrar-lhe o quarto. - Debruça-se e sussurra qualquer


coisa à mulher que está no balcão ao lado, o balcão assinalado Trabajos.
A mulher abre uma gaveta, esquadrinha-a e abana a cabeça.

- Um pequeno engulho - diz a rapariga. - Parece que não temos a chave do


vosso quarto. Deve ser a encarregada do edifício que a tem. O nome da
encarregada é senhora Weiss. Vá ao Edifício C.

11

Eu faço-lhe um mapa. Quando encontrar a senhora Weiss, peça-lhe para lhe


dar a chave do C-55. Diga-lhe que vai da parte da Ana, dos serviços
centrais.

- Não seria mais fácil dar-nos outro quarto?

- Infelizmente o C-55 é o único quarto vago.

- E comida?

- Comida?

- Sim. Há algum sítio onde possamos comer?

- Fale também com a senhora Weiss. Ela deve poder ajudar-vos.

- Obrigado. Uma última pergunta: há aqui organizações especializadas em


reunir pessoas?

- Reunir pessoas?

- Sim. Com certeza há de haver muitas pessoas à procura de familiares. Há


organizações que ajudem a reunir famílias? Famílias, amigos, amantes?

- Não, nunca ouvi falar de uma organização dessas.

Já porque está cansado e desorientado, já porque o mapa que a rapariga


lhe traçou não é claro, já porque não há tabuletas, leva muito tempo a
encontrar o Edifício C e o gabinete da senhora Weiss. A porta está
fechada. Bate. Não há resposta.

Detém uma transeunte, uma mulher miúda com um rosto afilado de rato, que
enverga o uniforme cor de chocolate do Centro.

- Procuro a senhora Weiss - anuncia.


- Não está - responde a jovem mulher e, como ele não perceba: - Está de
folga. Volte amanhã de manhã.

- Então talvez nos possa ajudar. Andamos à procura da chave do quarto

C-55.

A jovem mulher abana a cabeça.

- Desculpe, mas eu não trato de chaves.

Regressam ao Centro de Reubicación. A porta está fechada à chave. Ele


bate levemente no vidro. Não há sinal de vida lá dentro. Volta a bater.

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- Tenho sede - choraminga o rapaz.

- Aguenta só mais um bocadinho - diz ele. - Vou à procura duma torneira.

A rapariga, Ana, aparece-lhe ao contornar o flanco do edifício.

- Estava a bater? - pergunta. Ele fica mais uma vez impressionado: com a
sua juventude, com a saúde e frescura que se afigura irradiarem dela.

- Parece que a senhora Weiss foi para casa - diz ele. - Não há nada que
possa fazer? Não tem uma... como é que vocês lhe chamam... uma llave
universal para abrir o nosso quarto?

- Llave maestra. Llave universal é uma coisa que não existe. Se


tivéssemos uma llave universal todos os nossos problemas se acabariam.
Não, a senhora Weiss é a única que tem uma llave maestra do Edifício C.
Não tem porventura um amigo que vos possa dar guarida esta noite? Amanhã
de manhã pode voltar e falar com a senhora Weiss.

- Um amigo que nos possa dar guarida? Chegámos a estas paragens há seis
semanas e desde então temos estado a viver numa tenda, num acampamento no
deserto. Como é que espera que tenhamos amigos que nos dêem guarida?

Ana franze o sobrolho.

- Vão até ao portão principal - ordena. - Esperem por mim do lado de fora
do portão. Vou ver o que posso fazer.

Transpõem o portão, atravessam a rua e sentam-se à sombra de uma árvore.


O rapaz aninha a cabeça no ombro dele.

- Tenho sede - queixa-se. - Quando é que vais encontrar uma torneira?

- Chiu - torna ele. - Escuta os pássaros.

Ouvem a estranha canção dos pássaros e sentem o estranho vento na pele.


Ana aparece. Ele levanta-se e acena. O rapaz põe-se também de pé, com os
braços rigidamente caídos ao longo do corpo e os polegares enclavinhados
nos punhos.

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- Trouxe água para o seu filho - diz ela. - Toma, David, bebe. O rapaz
bebe e devolve-lhe o copo. Ela mete-o na mala.

- Foi bom? - pergunta. -Foi.

- Ótimo. Agora sigam-me. É uma boa caminhada, mas podem encará-la como
exercício.

Velozmente, ela vai percorrendo o carreiro que atravessa o parque urbano.


Uma jovem atraente, é inegável, embora a roupa que traz não lhe fique lá
muito bem: uma informe saia escura, uma blusa branca justa ao pescoço e
sapatos rasos.

Sozinho talvez pudesse acompanhar-lhe a passada, mas com o miúdo nos


braços não consegue. Exclama:

- Por favor... Tão depressa não!

Ela ignora-o. A uma distância cada vez maior, ele segue-a pelo parque
fora, atravessando uma rua e atravessando uma segunda rua.

Diante de uma casa acanhada e de aspeto modesto, ela para e aguarda.

- É a minha casa - diz. - Abre a porta da entrada. - Sigam-me. Condu-los


por um corredor sombrio, cruzando uma porta das traseiras e descendo umas
periclitantes escadas de madeira, até chegar a um pequeno quintal
invadido pela relva e pelas ervas daninhas, cercado em dois lados com uma
vedação de madeira e no terceiro com rede de arame.

- Sentem-se - diz ela, indicando uma ferrugenta cadeira de ferro fundido


meio coberta de relva. - Vou buscar-vos qualquer coisa de comer.

Não lhe apetece sentar-se. Ele e o rapaz esperam junto da porta.

A rapariga reaparece com um prato e um jarro. O jarro contém água. O


prato contém quatro fatias de pão barrado de margarina. Foi exatamente o
que lhes deram ao pequeno-almoço no posto de beneficência.

14

- Como recém-chegado é-lhe exigido que more em residência aprovada, ou


então no Centro - informa ela. - Mas não tem mal passar a primeira noite
aqui. Uma vez que eu trabalho no Centro, tem a possibilidade de alegar
que a minha casa se pode considerar residência aprovada.

- É muito simpático da sua parte, muito generoso - observa ele.

- Há algumas sobras de materiais de construção naquele canto. - Aponta


para lá. - Pode construir um abrigo, se quiser. Posso deixá-lo a tratar
disso?

Ele fica a olhar para ela, estupefacto.

- Não estou a perceber lá muito bem - diz. - Onde é que vamos mesmo
passar a noite?

- Aqui. - Ela indica o quintal. - Eu volto daqui a pouco para ver como é
que se está a sair.

Os materiais de construção em causa são meia dúzia de chapas de aço


galvanizado, esburacadas aqui e além, da ferrugem - um antigo telhado,
sem dúvida - e restos de madeira. Será um teste? Pretenderá mesmo ela que
ele e o miúdo durmam ao relento? Espera pelo prometido regresso, mas ela
não vem. Experimenta a porta das traseiras: está fechada à chave. Bate;
não há resposta.

O que se passa? Estará ela atrás das cortinas, a ver como ele reagirá?

Não são prisioneiros. Seria fácil escalar a vedação de rede de arame e


fugir. É isso que devem fazer? Ou deve ele esperar para ver o que
acontecerá a seguir?

Espera. Quando ela reaparece o Sol está a pôr-se.

- Não fez grande coisa - comenta ela, franzindo o cenho.

- Tome. - Estende-lhe uma garrafa de água, uma toalha de rosto e um rolo


de papel higiénico; e, quando ele olha interrogativamente para ela: -
Ninguém o verá.

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- Mudei de ideias - diz ele. - Vamos voltar para o Centro. Deve haver uma
hospedaria onde possamos passar a noite.

- Não pode fazer isso. Os portões do Centro estão fechados. Fecham às


seis.

Exasperado, ele caminha a passos largos até à pilha de chapas de telhado,


puxa duas e encosta-as inclinadas à cerca de madeira. Faz o mesmo com a
terceira e a quarta chapas, construindo um grosseiro alpendre.
- E isto que tem em mente para nós? - pergunta, voltando-se para ela. Mas
ela já ali não está. - É aqui que vamos dormir esta noite - diz ao rapaz.
- Vai ser uma aventura.

- Tenho fome - torna o rapaz.

- Não comeste o teu pão.

- Eu não gosto de pão.

- Bom, terás de te habituar a ele, porque é tudo o que há. Amanhã


encontraremos alguma coisa melhor.

Desconfiadamente, o rapaz pega numa fatia de pão e mordisca-a. Ele repara


que tem as unhas pretas, de terra.

Quando a derradeira luz do dia esmorece, instalam-se no seu abrigo, ele


numa cama de ervas e o rapaz na curva do seu braço. Não tarda que o rapaz
adormeça, com o dedo na boca. No caso dele o sono tarda a chegar.

Não tem casaco; daí a pouco o frio começa a infiltrar-se-lhe no corpo;


principia a tremer.

Não é grave, é apenas frio, não te vai matar, diz de si para si. A noite
há de passar, o Sol nascerá e o dia virá. Oxalá é que não haja insetos
rastejantes. Insetos rastejantes seria de mais.

Adormece.

Acorda de madrugada, entorpecido, dorido de frio. A raiva cresce dentro


dele. Porquê este despropositado tormento? Rasteja para fora do abrigo,
tateia o caminho até à porta das traseiras e bate, primeiro discretamente
e depois mais alto.

16

Abre-se uma janela em cima; ao luar consegue distinguir tenuemente o


rosto da rapariga.

- Sim? - pergunta ela. - Há algum problema?

- Há uma data de problemas - responde ele. - Cá fora está frio. Deixa-nos


entrar em casa, se faz favor?

Há uma demorada pausa. E depois:

- Espere - diz ela. Ele espera.

- Tome - diz a voz dela.

Cai um objeto aos seus pés: um cobertor, não muito comprido, de tecido
grosseiro, a cheirar a cânfora.
- Porque é que nos trata assim? - exclama ele. - Com desprezo?

A janela fecha-se com um ruído surdo.

Ele rasteja de volta ao abrigo e embrulha-se a si e ao rapaz adormecido


no cobertor.

E acordado pelo clamor do canto de pássaros. O rapaz, ainda profundamente


adormecido, está deitado de costas para ele, com o boné debaixo da face.
A roupa dele está molhada, do orvalho. Volta a dormitar. Quando torna a
abrir os olhos a rapariga fita-o de cima.

- Bom dia - diz ela. - Trouxe-lhe pequeno-almoço. Tenho de sair daqui a


pouco. Quando estiverem prontos deixo-os sair.

- Deixa-nos sair?

- Deixo-os sair pela casa. Despache-se, por favor. Não se esqueça de


trazer o cobertor e a toalha.

Ele acorda o miúdo.

- Anda - diz -, está na hora de acordar. Está na hora do pequeno-almoço.

Urinam lado a lado a um canto do quintal.

O pequeno-almoço vem a ser mais pão e água. O miúdo torce o nariz; ele
também não tem fome. Deixa o tabuleiro intacto no degrau.

17

- Estamos prontos para ir - exclama.

A rapariga condu-los pela casa dentro até à rua deserta.

- Adeus - diz. - Podem voltar esta noite, se precisarem.

- E o quarto que prometeu no Centro?

- Se não se encontrar a chave, ou o quarto tiver sido entretanto ocupado,


podem tornar a dormir aqui. Adeus.

- Só um momento. Pode dispensar-nos algum dinheiro? - Até agora não teve


de pedir, mas não sabe a quem mais há de recorrer.

- Eu disse que o ajudaria, não disse que lhe facultaria dinheiro. Para
isso terá de ir aos serviços da Asistencia Social. Pode apanhar um
autocarro para a cidade. Não se esqueça de levar a sua caderneta e o seu
atestado de residência. Nessa altura pode levantar o seu subsídio de
reinserção. Em alternativa pode arranjar emprego e pedir um adiantamento.
Esta manhã eu não vou estar no Centro, tenho reuniões, mas se lá for e
lhes disser que está à procura de emprego e quer un vale, eles perceberão
o que quer dizer. Un vale. Agora tenho mesmo de me despachar.

Acontece que ele e o rapaz se enganam no carreiro através do parque


deserto; quando chegam ao Centro o Sol já vai alto. Atrás do balcão
Trabajos está uma mulher de meia-idade, de rosto severo e cabelo puxado
para trás por cima das orelhas e bem preso na nuca.

- Bom dia - diz ele. - Registámo-nos ontem. Somos recém-chegados e eu


ando à procura de emprego. Segundo me disseram, a senhora pode dar-me un
vale.

- Vale de trabajo - diz a mulher. - Mostre-me a sua caderneta. Ele dá-lhe


a caderneta. Ela examina-a e devolve-lha.

- Vou-lhe passar un vale, mas, quanto ao seu ramo de trabalho, é o senhor


que tem de decidir.

- Por onde é que hei de começar? Tem alguma sugestão? Isto para mim é
terreno desconhecido.

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- Experimente as docas - responde a mulher. - Normalmente andam à procura


de trabalhadores. Apanhe o autocarro número 29. Sai de meia em meia hora
do portão principal.

- Não tenho dinheiro para autocarros. Não tenho dinheiro nenhum.

- O autocarro é gratuito. Todos os autocarros são gratuitos.

- E lugar onde ficar? Posso levantar a questão dum lugar onde ficar? A
jovem que estava de serviço ontem, Ana, é como ela se chama, reservou um
quarto para nós, mas não conseguimos ter acesso a ele.

- Não há quartos gratuitos.

- Ontem havia um quarto vago, o quarto C-55, mas a chave não estava no
sítio. A chave estava à guarda da senhora Weiss.

- Não sei nada sobre isso. Volte logo à tarde.

- Posso falar com a senora Weiss?

- Esta manhã há uma reunião do pessoal mais graduado. A senhora Weiss


está na reunião. Volta à tarde.

Capítulo 2
No autocarro número 29 examina o vale de trabajo que lhe deram. Não passa
de uma folha arrancada de um bloco de apontamentos, na qual está
garatujado: «Portador é recém-chegado. Favor considerá-lo para emprego.»
Não tem selo oficial nem assinatura, mas apenas as iniciais P. X. Parece
tudo muito informal. Será suficiente para lhe arranjar emprego?

São os últimos passageiros a apearem-se. Tendo em conta a sua vastidão -


os molhes estendem-se para montante até aonde a vista alcança -, as docas
são estranhamente desoladas. Apenas num dos cais parece haver atividade:
um cargueiro está a ser carregado ou descarregado e há homens a subir e a
descer uma prancha.

Aproxima-se de um homem alto, de fato-macaco, que parece estar a dirigir


as operações.

- Bom dia - diz. - Ando à procura de trabalho. As pessoas do Centro de


Reinserção disseram-me para vir aqui. O senhor é a pessoa indicada com
quem falar? Tenho um vale.

- Pode falar comigo - declara o homem. - Mas não é um bocado velho para
estibador?

Estibador? Deve ter feito um ar perplexo, porque o homem (o capataz?)


mima o gesto de pôr uma carga às costas e cambalear sob o seu peso.

21

- Ah, estibador! - exclama ele. - Desculpe, o meu espanhol não é bom.


Não, não sou nada velho de mais.

É verdade, o que acaba de ouvir da sua própria boca? Não será mesmo velho
de mais para trabalhos pesados? Não se sente velho, tal como não se sente
novo. Não se sente de nenhuma idade específica. Sente-se sem idade, se
isso é possível.

- Ponha-me à prova - propõe. - Se concluir que eu não estou à altura, eu


largo imediatamente o trabalho, sem ressentimentos.

- Ótimo - responde o capataz. Faz uma bola com o vale e lança-o à água.

- Pode começar imediatamente. O miúdo está consigo? Pode ficar à espera


aqui ao pé de mim, se quiser. Eu olho por ele. Quanto ao seu espanhol,
não se preocupe, insista. Um dia há de deixar de parecer uma língua e
passar a ser a maneira como as coisas são.

Vira-se para o rapaz.

- Ficas com este senhor enquanto eu ajudo a carregar os sacos? O rapaz


faz um aceno afirmativo. Tem outra vez o dedo na boca.

A prancha do navio só tem largura para um homem. Ele espera enquanto um


estivador desce, com um volumoso saco às costas. Depois sobe ao convés e
desce uma sólida escada de madeira até ao porão. Os seus olhos demoram um
pouco a adaptar-se à escuridão. O porão está atulhado de volumosos sacos
idênticos, centenas deles, talvez milhares.

- O que é que os sacos têm? - pergunta ao homem ao seu lado. O homem olha
para ele de uma maneira estranha.

- Granos - responde.

Ele quer perguntar quanto pesam os sacos, mas não há tempo. É a sua vez.

Empoleirado em cima de uma pilha está um sujeito corpulento, de


antebraços musculosos e sorriso rasgado, cujo trabalho é evidentemente
pôr um saco aos ombros do estivador que aguarda na fila.

22

Vira as costas e o saco desce; cambaleia e a seguir agarra-o pelos


cantos, como vê os outros homens fazerem, e dá um primeiro passo e um
segundo. Será mesmo capaz de subir a escada com aquela pesada carga às
costas, como os outros homens fazem? Terá genica para isso?

- Calma, viejo - diz uma voz atrás dele. - Devagarinho.

Ele assenta o pé esquerdo no primeiro degrau da escada. É uma questão de


equilíbrio, diz de si para si, de se manter firme, de não deixar que o
saco escorregue nem o seu conteúdo se desloque. Mal as coisas comecem a
deslocar-se ou a escorregar, estás perdido. Passas de estivador a mendigo
de novo, a tiritar num abrigo de lata no quintal de uma pessoa estranha.

Levanta o pé direito. Está a começar a aprender uma coisa acerca da


escada: que se apoiar o peito contra ela, o peso do saco, em lugar de
ameaçar fazê-lo perder o equilíbrio, o estabiliza. O seu pé esquerdo
encontra o segundo degrau. Há um pequeno rumor de aplausos lá em baixo.
Cerra os dentes. Faltam dezoito degraus (contou-os). Não falhará.

Lentamente, um passo de cada vez, descansando a cada passo, a ouvir o


coração que bate descompassadamente (e se eu tiver um ataque cardíaco?
Que vergonha seria!), vai subindo. Ao chegar mesmo ao cimo, vacila e a
seguir curva-se para diante, de forma que o saco se abata no convés.

Põe-se novamente de pé e aponta para o saco.

- Alguém me ajuda? - pergunta, tentando controlar a respiração acelerada,


tentando parecer despreocupado. Mãos prestáveis levantam o saco e

põem-lho às costas.

A prancha apresenta as suas próprias dificuldades: baloiça levemente de


um lado para outro à medida que o navio se move, não oferecendo o apoio
que a escada dava.
Faz os possíveis por se manter direito ao descer, muito embora isso
signifique que não pode ver onde põe os pés. Fixa os olhos no rapaz, que
está absolutamente imóvel ao lado do capataz, a observar.

23

Que eu não o envergonhe!, diz de si para si. Sem um tropeço, chega ao


cais.

- Vire à esquerda! - grita o capataz. Laboriosamente, ele vira. Uma


carroça está a encostar, uma carroça baixa, de fundo chato, puxada por
dois enormes cavalos de boletos felpudos. Percherões? Nunca viu um
percherão em carne e osso. É envolvido pelo seu fedor, um cheiro urinoso.

Volta-se e deixa cair o saco de cereal na caixa de carga da carroça. Um


homem novo, de chapéu escalavrado, salta agilmente para a carroça e
arrasta o saco para diante. Um dos cavalos solta uma descarga de estrume
fumegante.

- Saia do caminho! - grita uma voz atrás dele. E o estivador que se


segue, o seu colega que se segue, com o saco que se segue.

Volta pelo mesmo caminho ao porão, regressa com uma segunda carga e a
seguir com uma terceira. É mais lento que os colegas (por vezes têm de
esperar por ele), mas não muito mais lento; há de melhorar consoante se
for habituando ao trabalho e o seu corpo for enrijando. Não é demasiado
velho, afinal.

Embora esteja a atrasá-los, não sente animosidade por parte dos outros
homens. Pelo contrário, dirigem-lhe uma ou duas palavras joviais e

dão-lhe uma amistosa palmada nas costas. Se ser estivador é isto, não é
um trabalho assim tão mau. Pelo menos realiza-se alguma coisa. Pelo menos
ajuda-se a movimentar cereal, cereal que será transformado em pão, o
sustento da vida.

Soa um apito.

- Intervalo - explica o homem ao seu lado. - Para o caso de a pessoa


querer... sabe o que é.

Urinam os dois atrás de um barracão e lavam as mãos numa torneira.

- Há algum sítio onde se possa beber um chá? - pergunta ele. - E


porventura comer alguma coisa?

24
- Chá? - pergunta o homem. Parece divertido. - Que eu saiba, não. Se tem
sede pode usar a minha caneca; mas amanhã traga a sua. - Enche a caneca
na torneira e estende-lha. - E traga também um pão, ou meio pão. É um dia
comprido para estar de estômago vazio.

O intervalo dura apenas dez minutos, após o que se retoma o trabalho de


descarga. Quando o capataz apita para o final da jornada, ele transportou
trinta e um sacos do porão para o cais. Num dia inteiro poderia carregar
talvez cinquenta. Cinquenta sacos por dia: duas toneladas, mais ou menos.
Não era grande coisa. Um guindaste pode movimentar duas toneladas de uma
vez só. Porque é que não usam um guindaste?

- É um bom rapazinho, este seu filho - diz o capataz. - Não dá trabalho


nenhum. - Chama-lhe sem dúvida rapazinho, un jovencito, para o fazer
sentir-se bem. Um bom rapazinho que crescerá para vir a ser também
estivador.

- Se se pusesse aqui um guindaste - observa ele -, podia-se fazer a


descarga numa décima parte do tempo. Mesmo que fosse um guindaste
pequeno.

- Pois podia - concorda o capataz. - Mas a que propósito? A que propósito


é que havíamos de fazer as coisas numa décima parte do tempo? Não estamos
propriamente numa emergência, com escassez de comida, por exemplo.

A que propósito? Parece uma pergunta genuína, e não uma bofetada na cara.

- Para podermos dedicar as nossas energias a uma tarefa melhor - sugere


ele.

- Melhor do que quê? Melhor do que fornecer pão ao nosso semelhante?

Ele encolhe os ombros. Perdera uma boa ocasião de estar calado. Não vai
decerto dizer: Melhor do que alancar com grandes pesos como bestas de
carga.

25

- O rapaz e eu precisamos de nos despachar - diz. - Temos de estar de


volta ao Centro às seis, senão teremos de dormir ao relento. Volto amanhã
de manhã?

- Com certeza, com certeza. Saiu-se bem.

- E posso pedir um adiantamento sobre o ordenado?

- Tenho muita pena, mas isso não é possível. O pagador só faz a ronda à
sexta-feira. Mas se está com falta de dinheiro - espiolha os bolsos e
tira de lá um punhado de moedas - tome lá, tire o que precisar.
- Não sei bem de quanto preciso. Sou novo aqui, não tenho ideia dos
preços.

- Tire todo. Pode pagar-me na sexta-feira.

- Obrigado. É muito simpático da sua parte.

É verdade. Por ter olhado pelo teu jovencito enquanto trabalhas e depois,
ainda por cima, emprestar-te dinheiro: não era o que se esperaria de um
capataz.

- Não tem importância nenhuma. Você faria o mesmo. Adeus, rapazinho -


diz, voltando-se para o rapaz. - Até amanhã de manhã cedinho.

Chegam ao escritório no preciso momento em que a mulher do rosto severo


vai fechar. De Ana não há sinal.

- Há alguma novidade quanto ao nosso quarto? - pergunta ele. -


Encontraram a chave?

A mulher franze o sobrolho.

- Siga a estrada, meta na primeira à direita e procure um edifício baixo


e comprido. Chama-se Edifício C. Pergunte pela senhora Weiss. Ela

indica-lhe o quarto. E pergunte à senhora Weiss se pode usar a lavandaria


para lavar a roupa.

Ele capta a insinuação e ruboriza-se. Ao fim de uma semana sem tomar


banho o miúdo começou a cheirar mal; ele cheira sem dúvida ainda pior.

Mostra-lhe o dinheiro.

26

- Pode dizer-me quanto é isto?

- Não sabe contar?

- Quero eu dizer, o que é que posso comprar com isto? Posso pagar uma
refeição?

- O Centro não fornece refeições, só pequenos-almoços. Mas fale com a


senhora Weiss. Explique a sua situação. Ela é capaz de poder ajudá-lo.

O gabinete da senora Weiss, C-41, tem a porta fechada à chave, como


anteriormente. Porém na cave, num recanto debaixo das escadas iluminado
por uma única lâmpada nua, depara com um jovem esparramado numa cadeira a
ler uma revista. Como acrescento ao uniforme cor de chocolate do Centro o
sujeito tem um pequeno chapéu de coco com uma correia por baixo do
queixo, como um macaco amestrado.
- Boa tarde - diz ele. - Ando à procura da esquiva senhora Weiss. Faz
alguma ideia de onde ela esteja? Atribuíram-nos um quarto neste edifício
e é ela que tem a chave, ou pelo menos a chave mestra.

O jovem põe-se de pé, aclara a garganta e responde. A sua resposta é


cortês mas no fim de contas não ajuda nada. Se o gabinete da senhora
Weiss está fechado, provavelmente a senhora foi para casa. Quanto à chave
mestra, se existe alguma deve estar no mesmo gabinete fechado. E a chave
da lavandaria outro tanto.

- Pode ao menos indicar-nos onde fica o quarto C-55? - pergunta ele.

- C-55 é o quarto que nos foi destinado.

Sem uma palavra, o jovem condu-los por um longo corredor fora, passando
pelo C-49, pelo C-50... e pelo C-54. Chegam ao C-55. Experimenta a porta.
Não está fechada à chave.

- Acabaram-se os vossos problemas - observa ele com um sorriso, e

retira-se.

O C-55 é pequeno e desprovido de janelas e está mobilado de uma maneira


extremamente simples: uma cama de solteiro, uma cómoda e um lavatório.

27

Em cima da cómoda há um tabuleiro onde está um pires com dois cubos e


meio de açúcar dentro. Ele dá o açúcar ao rapaz.

- Temos de ficar aqui? - pergunta o miúdo.

- Temos de ficar aqui, sim. É só por uns tempinhos, enquanto procuramos


coisa melhor.

Na outra ponta do corredor localiza um cubículo de chuveiro. Não há


sabonete. Despe o miúdo e despe-se também. Juntos colocam-se debaixo de
um jorro de água tépida enquanto ele faz os possíveis por lavar um e
outro. Depois, enquanto o miúdo espera, ele põe a roupa interior de ambos
debaixo do mesmo jorro (que não tarda a ficar frio e a seguir gelado) e
torce-a. Desafiadoramente nu, com o miúdo ao lado, caminha pelo corredor
vazio de volta ao quarto e fecha a porta à chave. Com a única toalha de
que dispõem, limpa o rapaz.

- Agora mete-te na cama - diz.

- Tenho fome - queixa-se o rapaz.

- Tem paciência. Amanhã de manhã tomamos um grande pequeno-almoço,


prometo. Pensa nisso. - Ajeita-lhe a roupa da cama e dá-lhe um beijo de
boas-noites.
Mas o rapaz não tem sono.

- Para que é que estamos aqui, Simón? - pergunta baixinho.

- Já te disse: estamos aqui só por uma ou duas noites, até encontrarmos


um sítio melhor para ficar.

- Não, o que eu quero dizer é porque é que estamos aqui?. -O seu gesto
abarca o quarto, o Centro, a cidade de Novilla, tudo.

- Tu estás aqui para encontrar a tua mãe. E eu estou aqui para te ajudar.

- Mas depois de a encontrarmos, para que é que estamos aqui?

- Não sei o que dizer. Estamos aqui pela mesma razão pela qual todas as
outras pessoas estão.

28

Deram-nos uma possibilidade de viver e nós aceitámos essa possibilidade.


É uma grande coisa, viver. É a maior de todas as coisas.

- Mas temos de viver aqui?

- Aqui em vez de onde? Não há mais nenhum sítio para estar a não ser
aqui. Agora fecha os olhos. São horas de dormir.

29

Capítulo 3

Acorda bem-disposto, cheio de energia. Têm um lugar onde ficar e tem um


emprego. Está na altura de tratar da tarefa principal: procurar a mãe do
rapaz.

Deixando o rapaz a dormir, sai sub-repticiamente do quarto. Os serviços


centrais acabam de abrir. Ana, atrás do balcão, saúda-o com um sorriso.

- Passou bem a noite? - pergunta. - Já se instalaram?

- Já nos instalámos, sim, obrigado. Mas agora tenho outro favor a pedir.
Talvez se lembre de que eu lhe fiz uma pergunta a respeito da localização
de pessoas de família. Preciso de encontrar a mãe do David. O problema é
que não sei por onde começar. Vocês têm registos das chegadas a Novilla?
Se não têm, há algum registo central que eu possa consultar?
- Nós fazemos o registo de toda a gente que passa pelo Centro. Mas os
registos não servem para nada se não souber o que procura. A mãe do David
há de ter um novo nome. Uma nova vida e um novo nome. Ela está à sua
espera?

- Nunca ouviu falar de mim, portanto não há razão para estar à minha
espera. Mas assim que o miúdo a vir reconhecê-la-á, tenho a certeza.

- Há quanto tempo é que estão separados?

31

- É uma história complicada; não a vou maçar com ela. Deixe-me apenas
dizer que prometi ao David que encontraria a mãe. Dei-lhe a minha
palavra. Por isso, posso dar uma olhadela aos vossos registos?

- Mas sem um nome, em que é que isso o ajuda?

- Vocês guardam cópias das cadernetas. O rapaz reconhecê-la-á a partir


duma fotografia. Ou então eu. Quando a vir, conhecê-la-ei.

- Nem sequer a conhece mas reconhecê-la-á?

- Sim. Em separado ou juntos, ele e eu reconhecê-la-emos. Estou


convencido disso.

- E quanto a essa mãe anónima? Tem a certeza de que ela quer ser reunida
ao filho? Pode parecer cruel dizê-lo, mas a maior parte das pessoas,
quando aqui chegam, já perdeu o interesse pelas ligações antigas.

- Este caso é diferente, palavra. Não posso explicar porquê. Então? Posso
ver os vossos registos?

Ela abana a cabeça.

- Não, isso não posso autorizar. Se tivesse o nome da mãe seria uma
questão diferente. Mas não o posso deixar esquadrinhar os nossos arquivos
à sua vontade. Não é só contra os regulamentos, é absurdo. Temos milhares
de entradas, centenas de milhares, um número sem conta. Além disso, como
é que sabe que ela passou pelo centro de Novilla? Há centros de receção
em todas as cidades.

- Eu admito que não faz sentido. Mesmo assim, peço-lho. O miúdo está sem
a mãe. Está perdido. Já deve ter visto como ele está perdido. Está no
limbo.

- No limbo. Não sei o que isso quer dizer. A resposta é não. Não vou
ceder, portanto não insista. Tenho pena do miúdo, mas esta não é a
maneira correta de proceder.

Há um longo silêncio entre eles.


32

- Eu posso fazê-lo a altas horas da noite - diz ele. - Ninguém saberá.


Serei silencioso, serei discreto.

Mas ela não está a prestar-lhe atenção.

- Olá - diz, olhando por cima do ombro dele. - Levantaste-te agora?

Ele volta-se. A entrada da porta, desgrenhado e descalço, em roupa


interior e com o dedo na boca, ainda meio a dormir, está o rapaz.

- Anda! - diz ele. - Dá os bons-dias à Ana. A Ana vai ajudar-nos na nossa


busca.

O rapaz caminha vagarosamente para eles.

- Eu ajudo-o - diz Ana -, mas não da maneira que pede. As pessoas aqui já
se limparam completamente dos antigos laços. Vocês deviam fazer o mesmo:
limparem-se das antigas ligações e não as perseguirem. - Baixa-se e
revolve o cabelo do rapaz. - Olá, cabeça sonolenta! - diz. - Já estás
completamente limpo? Diz ao pai que já estás completamente limpo.

O rapaz desvia os olhos dela para ele e volta a ela.

- Já estou completamente limpo - murmura.

- Ora aí tem! - diz Ana. - Eu não lhe disse?

Estão no autocarro, a caminho das docas. Depois de um pequeno-almoço


substancial o rapaz está incontestavelmente mais jovial do que na
véspera.

- Vamos ver outra vez o Álvaro? - pergunta ele. - O Álvaro gosta de mim.
Deixa-me usar o apito dele.

- Que bom. Ele disse que o podias tratar por Álvaro?

- Sim, é o nome dele. Álvaro Avocado.

- Álvaro Avocado? Bem, lembra-te de que o Álvaro é um homem ocupado. Tem


uma porção de coisas a fazer além de tomar conta de crianças. Tens de ter
cuidado para não o empatares.

33

- Ele não está ocupado - torna o rapaz. - Está só ali de pé a olhar.


- Pode parecer-te que está só ali de pé a olhar, mas de facto está a
supervisionar-nos, a velar por que os navios sejam descarregados a tempo,
a velar por que toda a gente faça o que deve. É um trabalho importante.

- Ele disse que me ia ensinar a jogar xadrez.

- Que bom. Vais gostar de xadrez.

- Eu vou estar sempre com o Álvaro?

- Não, dentro de pouco tempo hás de encontrar outros rapazes com quem
brincar.

- Eu não quero brincar com outros rapazes. Quero estar contigo e com o
Álvaro.

- Mas todo o tempo, não. Não é bom para ti passares o tempo todo com
adultos.

- Eu não quero que tu caias ao mar. Não quero que te afogues.

- Não te preocupes, eu vou ter muito cuidado para não me afogar,

prometo-te. Podes enxotar pensamentos sombrios como esse. Podes deixá-los


voar para longe como pássaros. Farás isso?

O rapaz não responde.

- Quando é que voltamos?

- Para o outro lado do mar? Não vamos voltar. Agora estamos aqui. É aqui
que vivemos.

- Para sempre?

- De vez. Daqui a pouco começamos a nossa busca da tua mãe. A Ana vai
ajudar-nos. Depois de encontrarmos a tua mãe, nunca mais pensarás em
voltar.

- A minha mãe está aqui?

- Está algures por aqui perto, à tua espera. Está há muito tempo à
espera. Tudo se tornará claro mal a vejas. Hás de lembrar-te dela e ela
há de lembrar-se de ti. Podes pensar que estás completamente limpo, mas
não estás. Ainda tens as tuas recordações, o que estão é enterradas,
temporariamente. Agora temos de nos apear. A nossa paragem é esta.

34
O rapaz tornou-se amigo de um dos cavalos das carroças, ao qual pôs o
nome de El Rey. Embora seja pequeno comparado com El Rey, não tem medo
nenhum. Pondo-se em bicos de pés, estende-lhe punhados de feno, que o
enorme animal se curva preguiçosamente para aceitar.

Álvaro faz um buraco num dos sacos que eles descarregaram, deixando o
cereal escorrer.

- Toma, dá isto a comer a El Rey e ao amigo - diz ao rapaz. - Mas vê lá


não lhes dês comida a mais, senão as barrigas deles vão inchar como
balões e teremos de as furar com um alfinete.

El Rey e o amigo são de facto éguas, mas ele nota que Álvaro não corrige
o rapaz.

Os seus colegas estivadores são bastante simpáticos mas estranhamente


pouco curiosos. Ninguém pergunta de onde eles vêm ou onde estão a morar.
Ele supõe que o imaginam pai do rapaz - ou talvez, como Ana, do Centro,
seu avô. El viejo. Ninguém pergunta onde está a mãe do rapaz nem por que
razão ele tem de passar o dia ali nas docas.

Há um pequeno barracão de madeira no molhe que os homens utilizam como


vestiário. Embora a porta não tenha fechadura, parecem não se importar de
guardar lá os fatos-macaco e as botas. Ele pergunta a um dos homens onde
pode comprar um fato-macaco e umas botas próprios. O homem escreve uma
morada num pedaço de papel.

- Quanto é que custa mais ou menos um par de botas? - pergunta ele.

- Dois reais, talvez três - diz o homem.

- Isso parece muito pouco - torna ele. - A propósito, eu chamo-me Simón.

35

- Eugénio - volve o homem.

- Posso perguntar-lhe se é casado, Eugénio? Tem filhos? Eugénio abana a


cabeça.

- Bem, ainda é novo - diz ele.

- Sim - responde Eugénio, cautelosamente.

Ele está à espera de ser interrogado sobre o rapaz: o rapaz que pode
parecer ser seu filho ou neto, mas de facto não o é. Está à espera de ser
interrogado sobre o nome do rapaz, a sua idade, a razão por que não anda
na escola. Espera em vão.
- David, o miúdo de quem eu tomo conta, ainda é novo de mais para andar
na escola - diz ele. - Sabe alguma coisa de escolas por aqui? Há -
esforça-se por encontrar o termo – un jardín para los ninõs?

- Quer dizer um infantário?

- Não, uma escola para crianças pequenas. Uma escola antes da escola
propriamente dita.

- Desculpe, mas não o posso ajudar. - Eugénio levanta-se. - Está na hora


de voltar ao trabalho.

No dia seguinte, precisamente ao soar o apito para o intervalo de almoço,


aparece um estranho de bicicleta. Com o seu chapéu, fato preto e gravata,
parece deslocado no molhe. Desmonta e cumprimenta familiarmente Álvaro.
Tem as bainhas das calças apertadas com molas de bicicleta, que se
esquece de tirar.

- É o pagador - diz uma voz a seu lado. É Eugénio.

O pagador afrouxa as cintas do porta-bagagens da bicicleta e levanta um


oleado, revelando um cofre de metal pintado de verde, que poisa num
tambor na vertical. Um a um eles avançam, dizem o nome e recebem o
salário. Ele mete-se no fim da fila e aguarda a sua vez.

- O meu nome é Simón - diz ao pagador. - Sou novo, se calhar ainda não
estou na sua lista.

36

- Sim, cá está - diz o pagador, e faz um visto no nome dele. Conta o


dinheiro em moedas, tantas que lhe pesam de mais nos bolsos.

- Obrigado - diz ele.

- De nada. E o que lhe é devido.

Álvaro rola o tambor para fora dali. O pagador volta a prender o cofre na
bicicleta, aperta a mão a Álvaro, põe o chapéu e afasta-se a pedalar pelo
cais fora.

- O que é que tem combinado para a tarde? - pergunta Álvaro.

- Não tenho nada combinado. Posso ir passear com o miúdo; ou, se houver
um jardim zoológico, sou capaz de o levar lá, para ver os animais.

É sábado, ao meio-dia, o final de uma semana de trabalho.

- Quer vir comigo ao futebol? - pergunta Álvaro. - O seu miúdo gosta de


futebol?

- Ainda é um bocado novo para o futebol.


- Alguma vez tem de começar. O jogo principia às três. Encontramo-nos à
porta, digamos, às duas e quarenta e cinco.

- Muito bem, mas que porta, e onde?

- A porta que dá para o campo de futebol. Só há uma porta.

- E onde é o campo de futebol?

- Siga pelo carreiro à beira-rio e não há que enganar. Fica a uns vinte
minutos daqui, calculo eu. Ou, se não lhe apetecer ir a pé, pode apanhar
o autocarro número 7.

O campo de futebol fica mais longe do que Álvaro dizia; o rapaz cansa-se
e molenga; chegam atrasados. Álvaro está à porta, à espera deles.

- Despachem-se - diz -, de um momento para o outro dão o pontapé de


saída.

Passam pela porta para o campo.

37

- Não precisamos de comprar bilhetes? - pergunta ele. Álvaro fita-o com


estranheza.

- É futebol - diz. - É um jogo. Não é preciso pagar para ver um jogo.

O campo é mais modesto do que ele esperava. O terreno de jogo está


delimitado por cordas; a bancada coberta comporta no máximo mil
espectadores. Arranjam lugar sem dificuldade. Os jogadores já estão no
campo, a dar pontapés na bola, em aquecimento.

- Quem é que vai jogar? - pergunta ele.

- São os Docklands, de azul, e os de vermelho são os North Hills. É um


jogo da liga. Os jogos de campeonato são feitos ao domingo de manhã. Se
ouvir as sirenes a tocar num domingo de manhã, quer dizer que se vai
disputar um jogo do campeonato.

- Que equipa é que tu apoias?

- Os Docklands, claro. Quem é que havia de ser?

Álvaro parece bem-disposto, excitado, exuberante até. Ele sente-se


satisfeito com isso, grato também por ser escolhido para o acompanhar.
Álvaro afigura-se-lhe boa pessoa. Aliás, todos os seus colegas
estivadores se lhe afiguram boas pessoas: trabalhadores, simpáticos,
prestáveis.
No primeiríssimo minuto do jogo a equipa de vermelho comete um erro
defensivo simples e os Docklands marcam. Álvaro levanta os braços e solta
um grito de triunfo, após o que se volta para o rapaz.

- Viste aquilo, miúdo? Viste?

O miúdo não viu. Ignorante em futebol, o miúdo não compreende que devia
estar a prestar atenção aos homens que correm para trás e para diante no
campo, e não ao mar de estranhos à volta deles.

Ele levanta o rapaz e põe-no ao colo.

- Repara - diz, apontando -, o que eles estão a tentar fazer é meter a


bola na rede. E aquele homem além, de luvas, é o guarda-redes. Tem de
agarrar a bola. Há um guarda-redes de cada lado.

38

Quando metem uma bola na rede, chama-se golo. A equipa de azul acabou de
marcar um golo.

O rapaz faz um aceno afirmativo, mas a sua mente parece estar noutro
sítio.

Ele baixa a voz.

- Precisas de ir à casa de banho?

- Tenho fome - sussurra o rapaz em resposta.

- Eu sei. Eu também tenho. Temos é de nos habituar a isso. Vou ver se


consigo arranjar umas batatas fritas no intervalo, ou amendoins. Queres
amendoins?

O rapaz diz que sim com a cabeça.

- Quando é o intervalo? - pergunta.

- Daqui a pouco. Primeiro os jogadores têm de jogar mais um bocado e


tentar marcar mais uns golos. Vê.

39

Capítulo 4

Ao regressar nessa noite ao quarto, ele encontra uma mensagem enfiada por
baixo da porta. É de Ana: Você e o David querem vir a um piquenique para
recém-chegados? Encontramo-nos amanhã ao meio-dia, no parque urbano,
junto da fonte. A.

Estão na fonte ao meio-dia. Já faz calor; até os pássaros parecem


letárgicos. Longe do barulho do trânsito, instalam-se debaixo de uma
árvore de copa larga. Passado um bocado chega Ana, trazendo um cesto.

- Desculpem - diz. - Surgiu uma coisa.

- De quantos de nós é que está à espera? - pergunta ele.

- Não sei. Talvez meia dúzia. Esperemos, e logo se vê. Esperam. Não
aparece ninguém.

- Parece que somos só nós - diz Ana por fim. - Vamos começar? Acontece
que o cesto contém apenas um pacote de bolachas, um boião de pasta de
feijão sem sal e uma garrafa de água. Porém, o miúdo devora a sua parte
sem queixas.

Ana boceja, estende-se na relva e fecha os olhos.

- O que é que queria dizer, no outro dia, quando empregou as palavras


completamente limpo? - pergunta-lhe ele. - Disse que o David e eu
devíamos limpar-nos completamente de antigas ligações.

41

Preguiçosamente, Ana abana a cabeça.

- Noutra altura - diz. - Agora não.

No seu tom, no olhar velado que lhe dirige, ele pressente um convite. A
meia dúzia de convidados que não compareceu... seria apenas uma ficção?
Se o miúdo não estivesse aqui ele deitar-se-ia na relva ao lado dela e
talvez pousasse a mão muito ao de leve na dela.

- Não - murmura ela, como se lhe lesse os pensamentos. Perpassa-lhe pela


fronte o fantasma de um franzimento. - Isso não.

Isso não. Como deverá ele interpretar esta jovem, ora cordial, ora fria?
Haverá alguma coisa na etiqueta dos sexos ou das gerações desta nova
terra que ele não consiga perceber?

O rapaz prega-lhe uma cotovelada e aponta para o pacote de bolachas quase


vazio. Ele barra uma bolacha com pasta e passa-lha.

- Ele tem um apetite saudável - diz a rapariga sem abrir os olhos.

- Está sempre com fome.

- Não se preocupe, que ele adapta-se. As crianças adaptam-se depressa.


- Adaptam-se a ter fome? Porque é que ele havia de se adaptar a ter fome
quando não há falta de comida?

- Adapta-se a uma dieta moderada, quero eu dizer. A fome é como um cão na


nossa barriga: quanto mais lhe damos de comer, mais ela exige.

- Soergue-se abruptamente e dirige-se ao miúdo: - Ouvi dizer que andas à


procura da tua mamã - diz. - Tens saudades da tua mamã?

O rapaz acena afirmativamente.

- E como é que se chama a tua mamã?

O rapaz dirige um olhar interrogativo ao homem.

- Ele não a conhece pelo nome - diz ele. - Tinha uma carta com ele quando
embarcou, mas perdeu-se.

42

- O cordel partiu-se - diz o rapaz.

- A carta vinha numa bolsa - explica ele - que estava pendurada ao


pescoço dele com um cordel. O cordel partiu-se e a carta perdeu-se.
Procurou-se por todo o navio. Foi assim que o David e eu nos conhecemos.
Mas a carta nunca se encontrou.

- Caiu ao mar - diz o rapaz. - Os peixes comeram-na. Ana franze o cenho.

- Se não te lembras do nome da tua mamã, podes dizer-nos como ela é? Es


capaz de desenhar um retrato dela?

O rapaz abana a cabeça.

- Portanto a tua mãe perdeu-se e tu não sabes onde a procurar.

- Ana detém-se para refletir. - Então o que é que achavas de o teu


padriño começar à procura doutra mamã por ti, que te ame e cuide de ti?

- O que é um padriño? - pergunta o rapaz.

- Você está sempre a atribuir-me papéis - interrompe ele.

- Eu não sou pai do David, nem sou seu padriño. Estou apenas a ajudá-lo a
reunir-se à mãe.

Ela ignora a repreensão.

- Se arranjasse uma mulher - diz -, ela podia fazer as vezes de mãe dele.

Ele desata a rir.

- Que mulher quereria casar com um homem como eu, um estranho sem nada de
seu, nem sequer uma muda de roupa? - Espera que a rapariga discorde, mas
não acontece tal coisa. - Além disso, mesmo que eu arranjasse uma mulher,
quem é que diz que ela quereria... digamos, um filho adotivo? Ou que aqui
o nosso jovem amigo a aceitaria?

- Nunca se sabe. As crianças adaptam-se.

- Como você não para de dizer. - A raiva ateia-se nele. O que sabe de
crianças esta jovem senhora do seu nariz? E que direito lhe assiste de
pregar-lhe sermões? Nessa altura, repentinamente, todos os elementos do
quadro encaixam.

43

A roupa que não lhe assenta bem, a desconcertante severidade, a conversa


sobre padrinhos. - Você é porventura freira, Ana? - pergunta ele. Ela
sorri.

- O que é que o leva a dizer isso?

- É uma daquelas freiras que deixaram o convento para viver no mundo?


Para ocuparem empregos que mais ninguém quer... em prisões, orfanatos e
hospícios? Em centros de receção de refugiados?

- Que disparate! Claro que não. O Centro não é nenhuma prisão. Nem é uma
obra de beneficência. Faz parte da Assistência Social.

- Mesmo assim, como pode alguém suportar uma torrente contínua de gente
como nós, desamparados, ignorantes e carentes, sem uma fé de alguma
espécie para lhe dar força?

- Fé? A fé não tem nada que ver com isto. A fé significa acreditar no que
fazemos mesmo que não dê frutos visíveis. O Centro não é assim. As
pessoas chegam aqui a precisar de ajuda e nós ajudamo-las. Ajudamo-las e
a sua vida melhora. Nada disso é invisível. Nada disso exige fé cega. Nós
fazemos o nosso trabalho e tudo acaba em bem. É tão simples como isso.

- Nada é invisível?

- Nada é invisível. Há duas semanas você estava em Belstar, Na semana


passada arranjámos-lhe emprego nas docas. Hoje está a fazer um piquenique
no parque. O que há de invisível nisso? São progressos, progressos
visíveis. Seja como for, para voltar à sua pergunta, não, não sou freira.

- Então porquê o ascetismo que prega? Você diz-nos que dominemos a fome,
que deixemos que o cão que temos dentro passe fome. Porquê? O que tem a
fome de mal? Para que servem os nossos apetites senão para nos dizer do
que precisamos? Se não tivéssemos apetites, nem desejos, como viveríamos?

44
Parece-lhe uma boa pergunta, uma pergunta séria, capaz de perturbar a
jovem freira mais instruída.

A resposta dela surge com facilidade, com tanta facilidade e em voz tão
baixa, como se o miúdo não devesse ouvir, que por um momento ele a
interpreta mal:

- E, no seu caso, onde o levam os seus desejos?

- Os meus próprios desejos? Posso ser franco?

- Pode.

- Sem desmerecer em si nem na sua hospitalidade, levam-me a mais que


bolachas e pasta de feijão. Levam, por exemplo, a bife com puré e molho.
E tenho a certeza de que este jovem - estende a mão e agarra no braço do
rapaz - acha o mesmo. Não achas?

O rapaz diz vigorosamente que sim com a cabeça.

- Bife a deitar suco de carne - continua ele. - Sabe o que mais me


surpreende neste país? - Há um tom descuidado que se lhe vai insinuando
na voz; seria mais sensato parar, mas não para. - O facto de ser tão
anémico. Toda a gente que conheço é tão decente, tão amável, tão

bem-intencionada... Ninguém pragueja nem se zanga. Ninguém se embriaga.


Ninguém levanta sequer a voz. Sustentam-se com uma dieta de pão e água e
pasta de feijão e pretendem estar repletos. Como pode isso ser,
humanamente falando? Estão a mentir, até a vocês próprios?

Abraçando os joelhos, a rapariga fita-o mudamente, aguardando o fim da


tirada.

- Temos fome, este miúdo e eu. - Atrai vigorosamente o rapaz a si. -


Estamos sempre com fome. Você diz-me que a nossa fome é uma coisa
estranha que trouxemos connosco, que não tem lugar aqui, que temos de a
submeter matando-a de inanição. Quando tivermos aniquilado a nossa fome,
diz você, teremos provado que conseguimos adaptar-nos e podemos ser
felizes para sempre. Mas eu não quero matar de inanição o cão da fome!
Quero dar-lhe de comer! Não concordas? - Sacode o rapaz. Este acoita-se
no seu sovaco, sorrindo e dizendo com a cabeça que sim. - Não concordas,
meu rapaz?

45

Abate-se um silêncio.

- Está mesmo zangado - diz Ana.

- Não estou zangado, estou é com fome! Diga-me: que mal tem satisfazer um
vulgar apetite? Porque é que os nossos impulsos, fomes e desejos comuns
hão de ser desvalorizados?
- Tem a certeza de que quer continuar com isso diante do miúdo?

- Eu não me envergonho do que estou a dizer. Não há nisso nada de que uma
criança precise de ser protegida. Se uma criança pode dormir ao relento
em cima da terra nua, pode com certeza ouvir uma áspera troca de palavras
entre adultos.

- Muito bem, eu já lhe retribuo a áspera troca de palavras. O que você


quer de mim é uma coisa que eu não faço.

Ele devolve-lhe o olhar, desconcertado.

- O que eu quero de si?

- Sim. Quer que eu o deixe abraçar-me. Ambos sabemos o que isso quer
dizer: abraçar. E eu não o permito.

- Eu não falei nada em abraçá-la. E, aliás, que mal têm os abraços, se


você não é freira?

- Recusar desejos não tem nada que ver com ser ou não ser freira. Não
faço isso, e pronto. Não o permito. Não gosto disso. Não tenho apetite
disso. Não tenho apetite disso e não quero ver o que isso faz aos seres
humanos. O que faz a um homem.

- Que quer dizer com isso, o que faz a um homem'? Ela olha incisivamente
para o miúdo.

- Tem a certeza de quer que eu continue?

- Continue. Nunca é cedo de mais para aprender coisas sobre a vida.

- Muito bem. Você acha-me atraente, que eu bem vejo. Talvez até me ache
bonita. E como me acha bonita, o seu apetite, o seu impulso é abraçar-me.

46

Estou a interpretar corretamente os sinais, os sinais que você me


transmite? Em contrapartida, se não me achasse bonita, não sentiria tal
impulso. Ele mantém-se calado.

- Quanto mais bonita me acha, mais urgente se torna o seu apetite. É


assim que funcionam esses apetites que você considera a sua estrela polar
e aos quais obedece cegamente. Agora reflita. O que tem a beleza que ver
com o abraço a que quer que eu me submeta, faça o favor de me dizer? Qual
é a ligação entre uma coisa e outra? Explique-se.

Ele fica mudo, mais do que mudo. Fica estupefacto.

- Continue. Disse que não se importava de que o seu afilhado ouvisse.


Disse que queria que ele aprendesse coisas sobre a vida.

- Entre um homem e uma mulher - diz ele por fim - brota por vezes uma
atração natural, imprevista, não premeditada. Ambos acham o outro
atraente ou até, para empregar a outra palavra, bonito. A mulher mais
bonita do que o homem, habitualmente. Por que razão uma coisa deve
resultar da outra, a atração e o desejo de abraçar da beleza, é um
mistério que eu não consigo explicar, exceto que sentir atração por uma
mulher é o único tributo que eu, o meu ser físico, sabe prestar à beleza
da mulher. Chamo-lhe tributo porque o considero uma oferenda, e não um
insulto.

Faz uma pausa.

- Continue - diz ela.

- É tudo o que quero dizer.

- É tudo. E como tributo à minha pessoa (uma oferenda, e não um insulto)


você quer agarrar-me com força e enfiar uma parte do seu corpo em mim.
Como tributo, pretende você. Estou desconcertada.

A mim toda a coisa me parece absurda: absurda para você querer executar e
absurda para eu permitir.

47

- Só quando o expressa dessa maneira é que parece absurdo. Não é absurdo


em si. Não pode ser absurdo, uma vez que é o desejo natural do corpo
natural.

- Palavra? E se eu dissesse que a mim não me parece só absurdo, como


também feio?

Ele abana a cabeça, de incredulidade.

- Não pode estar a falar a sério. Eu por mim posso parecer velho e pouco
atraente; eu e os meus desejos. Mas você não há de certamente achar que a
natureza em si é feia.

- Acho, pois. A natureza pode ter algo de belo mas também pode ter algo
de feio. Essas partes do nosso corpo que você recatadamente não menciona,
com o seu afilhado a ouvir: acha-as bonitas?

- Em si mesmas? Não. Em si mesmas não são bonitas. É o conjunto que é


bonito, e não as partes.

- E essas partes que não são bonitas... quer metê-las dentro de mim! Que
hei de eu pensar disso?

- Não sei. Diga-me o que pensa.

- Que toda a sua conversa requintada de prestar tributo à beleza é una


tontería. Se me achasse uma encarnação do bem, não quereria executar
semelhante ato em mim. Então porquê querer fazê-lo se eu for uma
encarnação do belo? Será o belo inferior ao bom? Explique-se.

- Una tontería7. O que é isso?

- Um disparate. Balelas. Ele põe-se de pé.

- Eu não vou pedir mais desculpas, Ana. Não acho que isto seja uma
discussão proveitosa. Não me parece que você saiba do que está a falar.

- Palavra? Acha que eu sou alguma criança ignorante?

- Pode não ser uma criança, mas sim, acho que é ignorante da vida. Anda -
diz para o rapaz, pegando-lhe na mão. - Já fizemos o nosso piquenique, e
agora são horas de agradecer à senhora e ir à procura de alguma coisa
para comer.

48

Ana reclina-se, estica as pernas, entrelaça as mãos no regaço e sorri


zombeteiramente para ele.

- Não gosta de ouvir as verdades, pois não? - diz ela.

Sob um sol ardente, ele atravessa o parque deserto a passos largos, com o
rapaz a trotar ao seu lado a fim de o acompanhar.

- O que é um padriño? - pergunta o rapaz.

- Um padri-no é uma pessoa que faz as vezes do pai quando por qualquer
razão o pai não pode estar presente.

- Tu és meu padriño?

- Não, não sou. Ninguém me convidou para ser teu padriño. Sou só teu
amigo.

- Eu posso convidar-te para seres meu padriño.

- Isso não te cabe a ti, meu rapaz. Não podes escolher um padriño para ti
próprio, como não podes escolher o teu pai. Não há uma palavra adequada
para aquilo que eu sou para ti, como não há palavra adequada para aquilo
que tu és para mim. No entanto, se quiseres, podes-me tratar por Tio.
Quando as pessoas perguntarem: O que é que ele te é? Podes responder: É
meu tio. É meu tio e gosta muito de mim. E eu direi: Ele é o meu rapaz.

- Mas aquela senhora vai ser minha mãe?

- A Ana? Não. Ser mãe não lhe interessaria.

- Vais-te casar com ela?

- Claro que não. Não estou aqui para arranjar mulher, estou aqui para te
ajudar a encontrares a tua mãe, a tua verdadeira mãe.
Está a tentar manter a voz firme e o tom ligeiro; mas a verdade é que o
ataque da rapariga o abalou.

- Estavas zangado com ela - observa o rapaz. - Porque é que estavas


zangado?

Ele para de rompante, pega no rapaz ao colo e dá-lhe um beijo na testa.

49

- Desculpa ter-me zangado. Não estava zangado contigo.

- Mas estavas zangado com a senhora e ela estava zangada contigo.

- Estava zangado com ela porque ela nos trata mal e não percebo porquê.
Tivemos uma discussão, eu e ela, uma discussão acalorada. Mas isso já lá
vai. Não era importante.

- Ela disse que tu querias meter qualquer coisa dentro dela. Ele cala-se.

- O que é que ela queria dizer? Queres mesmo meter uma coisa dentro dela?

- Era só uma maneira de falar. Ela queria dizer que eu estava a tentar
impor-lhe as minhas ideias. E tinha razão. Uma pessoa não deve tentar
impor ideias a ninguém.

- Eu imponho-te ideias?

- Não, claro que não. Agora vamos ver se arranjamos qualquer coisa para
comer.

Exploram as ruas a leste do parque urbano, à procura de qualquer sítio


onde comer. É um bairro de vivendas modestas, com um prédio de
apartamentos aqui e além. Encontram por acaso um único estabelecimento.
NARANJAS, diz o letreiro, em grandes letras. Os taipais de aço estão
corridos, de maneira que ele não pode ver se realmente vende laranjas ou
se Naranjas é apenas um nome.

Detém um transeunte, um homem de idade que passeia um cão pela trela.

- Desculpe - diz -, o meu rapaz e eu andamos à procura dum café ou


restaurante onde possamos tomar uma refeição, ou, não o havendo, uma loja
de mantimentos.

- Num domingo à tarde? - responde o homem. O cão fareja os sapatos e a


seguir as virilhas do rapaz. - Não sei o que sugerir, a não ser que
estejam dispostos a ir à cidade.

- Há autocarro?
50

- Número 42, mas ao domingo não circula.

- Então de facto não podemos ir à cidade. E não há nenhum sítio perto


onde possamos comer. E as lojas estão todas fechadas. Então o que é que
sugere que façamos?

Os traços do homem endurecem. Dá um puxão na trela do cão.

- Anda, Bruno - diz.

De mau humor, ele dirige-se de novo para o Centro. O avanço é lento,


porque o rapaz está constantemente a hesitar e a saltitar para evitar
rachas do pavimento.

- Vamos, despacha-te - diz ele irritado. - Guarda o jogo para outro dia.

- Não. Não quero cair numa racha.

- Isso é um disparate. Como é que um rapaz crescido como tu pode cair


numa racha tão pequena?

- Não é esta racha. Outra racha.

- Que racha? Indica-me a racha.

- Não sei! Não sei qual racha. Ninguém sabe.

- Ninguém sabe porque ninguém pode cair por uma racha no pavimento. Agora
despacha-te.

- Eu posso. Tu podes! Toda a gente pode! Tu não sabes!

51

Capítulo 5

Durante a pausa no trabalho da hora de almoço no dia seguinte, chama


Álvaro de parte.

- Desculpe-me levantar um assunto particular - diz -, mas estou a ficar


cada vez mais preocupado com a saúde do miúdo, e especificamente com a
dieta dele, que, como pode ver, consiste em pão, pão e mais pão.

E na realidade podem ver o rapaz, sentado entre os estivadores a


sotavento do barracão, a mastigar lugubremente o seu meio pão humedecido
com água.
- Quer-me parecer - continua ele - que uma criança que está a crescer
precisa de mais variedade, de mais alimento. Não se pode viver só de pão.
Não é uma comida universal. Não sabe por acaso onde eu posso comprar
carne, sem ter de me deslocar até ao centro da cidade?

Álvaro coça a cabeça.

- Aqui à volta, à volta das docas, não. Há pessoas que apanham ratos, já
ouvi dizer. Não há falta de ratos. Mas para isso precisaria de ter uma
ratoeira, e assim de repente não sei onde arranjaria uma boa ratoeira.
Provavelmente teria de a fazer você mesmo. Podia usar arame, com um
mecanismo de disparo qualquer.

- Ratos?

53

- Sim. Não os viu? Onde há navios, há ratos.

- Mas quem é que come ratos? Você come ratos?

- Não, nem me passaria pela cabeça. Mas você perguntou onde poderia
encontrar carne, e isso é tudo o que eu posso sugerir.

Ele fita demoradamente os olhos de Álvaro. Não vê indícios de que ele


esteja a gracejar. Ou, se é uma piada, é uma piada muito profunda.

Depois do trabalho ele e o rapaz regressam diretamente ao enigmático


Naranjas. Chegam lá quando o proprietário está prestes a correr os
taipais. O Naranjas é efetivamente uma loja, afinal, e vende realmente
laranjas, bem como outras frutas e legumes. Enquanto o proprietário
espera impacientemente, ele escolhe o máximo que os dois conseguem levar:
um pequeno saco de laranjas, meia dúzia de maçãs, cenouras e pepinos.

De volta ao seu quarto no Centro, ele corta a maçã para o rapaz e


descasca uma laranja. Enquanto o rapaz as come, ele corta uma cenoura e
um pepino em finas rodelas e coloca-as num prato.

-Aí tens! -diz.

Desconfiadamente, o rapaz toca no pepino e fareja-o.

- Não gosto - diz. - Cheira mal.

- Que disparate! O pepino não cheira a nada. A parte verde é só a casca.


Prova. Faz-te bem. Vai-te fazer crescer. - Quanto a ele, come metade do
pepino, uma cenoura inteira e uma laranja.

Na manhã seguinte revisita o Naranjas e compra mais fruta - bananas,


peras e damascos -, que leva para o quarto. Agora têm um bom suprimento.
Chega tarde ao trabalho, mas Álvaro não faz qualquer observação a esse
respeito.

Apesar dos bem-vindos aditamentos à sua dieta, a sensação de exaustão


física não o abandona. Em lugar de lhe aumentar as forças, o trabalho
diário de levantar e carregar pesos parece estar a exauri-lo. Começa a
sentir-se uma espécie de espectro; receia desmaiar diante dos camaradas e
passar por uma vergonha. Procura novamente Álvaro.

54

- Não me sinto bem - diz. - Há uns tempos que ando a sentir-me mal. Há
algum médico que me possa recomendar?

- Há uma clínica no Molhe Sete que está aberta de tarde. Vá lá


imediatamente. Diga-lhes que trabalha aqui; assim não terá de pagar.

Ele segue as indicações até ao Molhe Sete, onde há efetivamente uma


pequena clínica, chamada simplesmente Clínica. A porta está aberta e o
balcão desguarnecido. Prime a campainha, mas esta não funciona.

- Olá! - chama. - Há aqui alguém? Silêncio.

Passa para trás do balcão e bate levemente na porta fechada que tem
escrito Cirugía.

- Olá! - chama.

Aporta abre-se e ele confronta-se com um homem corpulento, de rosto


corado, envergando uma bata branca em cuja gola há uma exuberante mancha
daquilo que parece chocolate. O homem sua abundantemente.

- Boa tarde - diz ele. - O senhor é o médico?

- Entre - responde o homem. - Sente-se. - Indica uma cadeira, tira os


óculos e limpa cuidadosamente as lentes com um lenço de papel. - Trabalha
aqui nas docas?

- No Molhe Dois.

- Ah, o Molhe Dois. E em que lhe posso ser útil?

- Há uma semana ou duas que não me sinto bem. Não há sintomas


específicos, exceto cansar-me com facilidade e de vez em quando ter
tonturas. Penso que seja provavelmente por causa da minha dieta, do facto
de a minha dieta ser pouco nutritiva.

55

- Quando é que tem essas tonturas? Em alguma altura específica do dia?


- Não é em nenhuma altura específica. Aparecem quando estou cansado.
Trabalho como estivador, faço cargas e descargas, como lhe disse. Não é
um trabalho a que esteja habituado. Durante o dia tenho de atravessar
muitas vezes uma prancha. Às vezes, quando olho para baixo, para o espaço
entre o cais e o costado do navio, para as ondas que batem contra a
muralha, sinto-me tonto. Sinto que vou escorregar e cair e porventura
bater com a cabeça e afogar-me.

- Isso não me parece desnutrição.

- Talvez não. Mas se me alimentasse melhor seria mais capaz de resistir


às tonturas.

- Já alguma vez teve esses receios, de cair e afogar-se?

- Isto não é uma questão psicológica, doutor. Eu sou um trabalhador. Faço


um trabalho pesado. Transporto cargas pesadas durante horas a fio. O
coração bate-me com força. Estou continuamente no limite das minhas
capacidades. Nada mais natural, certamente, do que estar por vezes à
beira de cair, de me ir abaixo.

- Claro que é natural. Mas se é natural porque é que veio à clínica? O


que é que espera de mim?

- Não acha que devia auscultar-me o coração? Não acha que devia fazer-me
análises para ver se estou com anemia? Não acha que devíamos discutir
possíveis deficiências da minha dieta?

- Vou examinar-lhe o coração, como sugere, mas não lhe posso fazer
análises para ver se está com anemia. Isto não é um laboratório clínico,
é apenas uma clínica, uma clínica de primeiros socorros para os
trabalhadores das docas. Dispa a camisa.

Ele tira a camisa. O médico encosta-lhe um estetoscópio ao peito, dirige


o olhar para o teto e escuta. O seu hálito cheira a alho.

- O seu coração não tem nada - diz por fim. - É um bom coração. Há de
durar-lhe muitos anos. Pode voltar ao trabalho.

56

Ele levanta-se.

- Como é que pode dizer isso? Estou exausto. Não me sinto bem. A minha
saúde geral piora a cada dia que passa. Não era isto que esperava quando
cheguei. Doença, exaustão, infelicidade: não estava à espera de nada
disso. Tenho o pressentimento (não um mero pressentimento intelectual,
mas um verdadeiro pressentimento físico) de que estou prestes a sucumbir.
O meu corpo está a indicar-me, de todas as maneiras que pode, que se está
a ir abaixo. Como é que pode dizer que eu não tenho nada?

Regista-se um silêncio. Cuidadosamente, o médico arruma o estetoscópio no


seu estojo preto e enfia-o numa gaveta. Poisa os cotovelos na secretária,
entrelaça as mãos, assenta o queixo nas mãos e fala.
- Caro senhor - diz ele -, tenho a certeza de que não veio a esta pequena
clínica à espera dum milagre. Se estava à espera dum milagre, ia a um
hospital como deve ser, com um laboratório como deve ser. A única coisa
que lhe posso oferecer é um conselho. O meu conselho é simples: não olhe
para baixo. O senhor tem esses ataques de vertigens porque olha para
baixo. A vertigem é uma questão psicológica, não uma questão médica. É o
olhar para baixo que desencadeia o ataque.

- Isso é tudo o que consegue sugerir: não olhe para baixo?

- É tudo, a menos que tenha sintomas de natureza objetiva que possa


partilhar comigo.

- Não, não tenho sintomas desses. Não tenho qualquer sintoma desses.

- Que tal correu? - pergunta-lhe Álvaro quando ele regressa. - Encontrou


a clínica?

- Encontrei a clínica e falei com o médico. Ele diz que devo olhar para
cima. Desde que olhe para cima, estará tudo bem comigo. Em contrapartida,
se olhar para baixo, posso cair.

57

- Isso parece um bom conselho, ditado pelo senso comum -diz Álvaro. -
Nada de rebuscado. Porque é que não tira o dia de folga e descansa um
pouco?

Apesar da fruta fresca do Naranjas, apesar da garantia do médico de que o


seu coração é saudável e de que não há razão para não viver muitos anos,
ele continua a sentir-se exausto. E as tonturas tão-pouco lhe passam.
Embora siga o conselho do médico de não olhar para baixo ao atravessar a
prancha, não consegue bloquear o som ameaçador que as ondas produzem ao
baterem na muralha oleosa.

- São só vertigens - tranquiliza-o Álvaro, dando-lhe uma palmada nas


costas. - Há imensa gente que sofre disso. Felizmente é só na mente. Não
são reais. Ignore-as, que não tardarão a passar.

Ele não fica convencido. Não acredita que aquilo que o oprime passe.

- Seja como for - torna Álvaro -, se por qualquer razão escorregar e


cair, não se afoga. Alguém há de salvá-lo. Eu salvo-o. Para que servem os
camaradas senão para isso?

- Seria capaz de se atirar e salvar-me?

- Se fosse preciso. Ou lançar-lhe um cabo.

- Sim, lançar um cabo seria mais eficiente.


Álvaro ignora a aspereza da observação, ou talvez não a capte.

- Mais prático - diz.

- É sempre isto que descarregamos: trigo? - pergunta a Álvaro noutra


ocasião.

- Trigo e centeio - responde Álvaro.

- Mas isso é tudo o que nós importamos através das docas: cereal?

- Depende do que quer dizer com «nós». O Molhe Dois é para carregamentos
de cereal.

58

Se trabalhasse no Molhe Sete descarregaria carga mista. Se trabalhasse


no Molhe Nove descarregaria aço e cimento. Nunca andou pelas docas? Ainda
não as explorou?

- Explorei. Mas os outros molhes estavam sempre vazios. Como agora.

- Bem, isso faz sentido, não faz? Não é todos os dias que se precisa duma
bicicleta. Não é todos os dias que se precisa de sapatos novos, nem de
roupa nova. Mas todos os dias temos de comer. Por isso precisamos de
muito cereal.

- Portanto se eu mudasse para o Molhe Sete ou para o Molhe Nove teria uma
vida mais folgada. Podia ter semanas de folga.

- Correto. Se trabalhasse no Sete ou no Nove teria uma vida mais folgada.


Mas também não teria um trabalho a tempo inteiro. Por isso, tudo somado,
está melhor no Dois.

- Estou a ver. Portanto ainda bem, no fim de contas, que estou aqui,
neste molhe, neste porto, nesta cidade, nesta terra. Tudo vai pelo melhor
neste melhor dos mundos possíveis.

Álvaro franze o cenho.

- Isto não é um mundo possível - diz. - É o único mundo. Se isso faz dele
o melhor não é a si nem a mim que cabe decidir.

Ele pensa em diversas respostas, mas abstém-se de as expressar. Talvez,


neste mundo que é o único mundo, seja prudente deixar-se de ironias.

59

Capítulo 6
Tal como prometeu, Álvaro anda a ensinar o rapaz a jogar xadrez. Quando o
trabalho abranda, é vê-los curvados sobre um jogo de bolso em qualquer
lugar à sombra, absortos numa partida.

- Ele acaba de me ganhar - informa Álvaro. - Só duas semanas e já é


melhor do que eu.

Eugénio, o mais literato dos estivadores, lança um desafio ao rapaz.

- Um jogo-relâmpago - diz. - Temos ambos cinco segundos para fazermos a


nossa jogada. Um-dois-três-quatro-cinco.

Rodeados por espectadores, disputam a sua partida-relâmpago. Em questão


de minutos o rapaz consegue encurralar Eugénio. Este dá um piparote no
rei, que tomba de lado.

- Pensarei duas vezes antes de jogar outra vez contigo - diz ele.

- Tens um verdadeiro diabo dentro.

Nessa tardinha, no autocarro, ele tenta falar do jogo e da estranha


observação de Eugénio, mas o rapaz mostra-se reticente.

- Gostavas que eu te comprasse um jogo de xadrez? - propõe.

- Nessa altura poderias praticar em casa.

O rapaz abana a cabeça.

- Eu não quero praticar. Não gosto de xadrez.

- Mas jogas bem.

61

O rapaz encolhe os ombros.

- Se uma pessoa é bafejada com um talento, tem o dever de não o esconder


- insiste ele teimosamente.

- Porquê?

- Porquê? Porque o mundo torna-se melhor, acho eu, se cada um de nós


puder ser excecional em qualquer coisa.

O rapaz olha taciturnamente pela janela.

- Estás incomodado com o que o Eugénio disse? Não devias. Ele não queria
dizer aquilo.

- Não estou incomodado. Não gosto de xadrez, é só isso.

- Bem, o Álvaro vai ficar desapontado.


No dia seguinte aparece um estranho nas docas. É baixo e seco; a sua pele
exibe um bronzeado de uma tonalidade de nogueira escura; tem os olhos
encovados e o nariz adunco como o bico de um falcão. Veste uns jeans
desbotados manchados de óleo de máquinas e umas botas de couro esfoladas.

Tira do bolso do peito um pedaço de papel, estende-o a Álvaro e, sem uma


palavra, fica a observar de longe.

- Certo - diz Álvaro. - Vamos passar o resto do dia de hoje e a maior


parte do de amanhã a descarregar. Quando estiver pronto, ponha-se na
fila.

Do mesmo bolso do peito o estranho retira um maço de cigarros. Sem o


oferecer aos outros, acende um cigarro e aspira uma longa fumaça.

- Não se esqueça - diz Álvaro. - E proibido fumar no porão. O homem não


dá mostras de ter ouvido. Olha tranquilamente em redor. O fumo do seu
cigarro ergue-se no ar parado.

O nome dele, deixa Álvaro que se saiba, é Daga. Ninguém o trata de outra
maneira, nem por «o novo homem» nem por «o tipo novo».

A despeito da sua baixa estatura, Daga é forte. Não cambaleia um


milímetro quando lhe descarregam o primeiro saco nos ombros; sobe as
escada com rapidez e firmeza; desce a prancha a passo largo e levanta o
saco até à carroça que espera sem sinais de esforço.

62

Mas depois retira-se para a sombra do barracão, agacha-se em cima dos


joelhos e acende outro cigarro. Álvaro avança para ele.

- Nada de paragens, Daga - diz. - Continue.

- Qual é a quota? - pergunta Daga.

- Não há quota. Somos pagos ao dia.

- Cinquenta sacos por dia - diz Daga.

- Movimentamos mais que isso.

- Quantos?

- Mais que cinquenta. Não há quota. Cada homem transporta o que pode.

- Cinquenta. Mais, não.

- Levante-se. Se tem de fumar, espere pelo descanso.

As coisas precipitam-se ao meio-dia dessa sexta-feira, na altura em que


estão a receber o salário. Quando Daga se aproxima da tábua de madeira
que faz as vezes de mesa, Álvaro debruça-se e segreda qualquer coisa ao
ouvido do pagador. Este responde com um aceno de cabeça e coloca o
dinheiro de Daga na mesa diante dele.

- O que é isto? - pergunta Daga.

- É o pagamento pelos dias em que trabalhou - responde Álvaro.

Daga pega nas moedas e, com um movimento rápido e desdenhoso, atira-as à


cara do pagador.

- Para que é isso? - pergunta Álvaro.

- Salário de rato.

- É a tarifa. Foi o que você ganhou. É o que todos ganhamos. Quer dizer
que somos todos ratos?

Os homens apinham-se à volta. Usando de discrição, o pagador junta


desordenadamente os papéis e fecha a tampa do cofre.

63

Ele, Simón, sente o rapaz agarrar-se-lhe à perna.- O que é que eles estão
a fazer? - choraminga. Tem o rosto pálido e ansioso. - Vão lutar?

- Não, claro que não.

- Diz ao Álvaro para não lutar. Diz-lhe! - O rapaz puxa-lhe pelos dedos,
puxa e torna a puxar.

- Anda, vamos afastar-nos daqui - responde ele. Arrasta o rapaz para o


paredão. - Olha! Vês as focas? Aquela grande, de nariz no ar, é o macho,
a foca-macho. E as outras, as mais pequenas, são as mulheres dele.

Da multidão solta-se um grito agudo. Há um movimento tumultuoso.

- Estão a lutar! - choraminga o rapaz. - Eu não quero que eles lutem!

Formou-se um semicírculo à volta de Daga, que se agacha, com um ténue


sorriso nos lábios e um braço estendido para diante. Na sua mão brilha a
lâmina de uma navalha.

- Vamos! - diz, e faz um movimento indicativo com a navalha. - Quem é que


se segue?

Álvaro está sentado no chão, dobrado. Parece estar a agarrar o peito. Tem
um fio de sangue na camisa.

- Quem é que se segue? - repete Daga. Ninguém se mexe. Ele põe-se de pé,
dobra a navalha, enfia-a no bolso da anca, levanta a tampa do cofre e
vira-o sobre a tábua. Chovem moedas por todo o lado. - Maricas! -
exclama. Conta o que quer e prega um pontapé trocista no tambor. -
Sirvam-se - diz, e vira as costas aos homens. Vagarosamente, monta na
bicicleta do pagador e pedala dali para fora.

Álvaro põe-se de pé. O sangue que tem na camisa vem da mão, correndo de
um golpe que lhe atravessa a palma.

Ele, Simón, é o homem mais graduado, ou pelo menos o mais velho: deve ser
ele a assumir o comando.

64

- Precisa dum médico - diz a Álvaro. - Vamos. - Faz um gesto ao rapaz. -


Anda: vamos levar o Álvaro ao médico.

O rapaz não se mexe.

- Que foi?

Os lábios do rapaz movem-se, mas ele não ouve palavra alguma. Curva-se
mais para ele.

- Que foi? - pergunta.

- O Álvaro vai morrer? - sussurra o rapaz. Todo o seu corpo está


inteiriçado. Treme.

- Claro que não. Tem um corte na mão, mais nada. Precisa dum adesivo para
estancar o sangue. Anda. Vamos levá-lo ao médico e o médico trata-o.

De facto Álvaro está já a caminho, acompanhado por outro dos homens.

- Ele estava a lutar - diz o rapaz. - Estava a lutar e agora o médico


vai-lhe cortar a mão.

- Que disparate! Os médicos não cortam mãos. O médico vai limpar a ferida
e pôr-lhe um adesivo, ou talvez cosê-la com agulha e linha. Amanhã o
Álvaro estará de volta ao trabalho e já nos teremos esquecido de tudo.

O rapaz fita-o com um olhar penetrante.

- Não te estou a aldrabar - diz ele. - Eu não te aldrabaria. O ferimento


do Álvaro não é grave. Aquele homem, o senor Daga, ou lá como é que se
chama, não queria magoá-lo. Foi um acidente. Escorregou-lhe a navalha. As
navalhas afiadas são perigosas. É essa a lição a recordar: não brincar
com navalhas. Se a pessoa brinca com navalhas pode magoar-se. O Álvaro
magoou -se, felizmente sem gravidade. E o senor Daga deixou-nos, levou o
seu dinheiro e foi-se embora. Não voltará. Este não era lugar para ele, e
ele sabe-o.

- Tu não deves lutar - diz o rapaz.

- E não luto, prometo-te.


65

- É preciso que nunca lutes.

- Eu não tenho o costume de lutar. E o Álvaro não estava a lutar. Estava


só a tentar proteger-se. Tentou proteger-se e cortou-se. - Estende a mão,
a mostrar como Álvaro tentou proteger-se, como Álvaro sofreu o golpe.

- O Álvaro estava a lutar - diz o rapaz, pronunciando as palavras com


solene perentoriedade.

- Proteger-se não é lutar. Proteger-se é um instinto natural. Se alguém


tentasse bater-te, tu proteger-te-ias. Não pensarias duas vezes. Olha.

Desde que estão juntos, nunca tocou com um dedo no rapaz. Agora,
subitamente, levanta uma mão ameaçadora para ele. O rapaz nem pestaneja.
Ele finge dar-lhe uma bofetada. O rapaz não vacila.

- Muito bem - diz ele. - Acredito em ti. - Deixa cair a mão. - Tens
razão. Eu estava errado. O Álvaro não devia ter tentado proteger-se.
Devia ter sido como tu. Devia ter sido valente. Agora vamos até à clínica
ver como ele está?

No dia seguinte Álvaro vem para o trabalho com a mão ferida ao peito.
Recusa-se a falar no incidente. Seguindo-lhe o exemplo, os homens também
não se lhe referem. Mas o rapaz continua a rezingar.

- O senhor Daga vai voltar a trazer a bicicleta? - pergunta. - Porque é


que lhe chamam senhor Daga?

- Não, ele não volta - responde ele. - Não gosta de nós, não lhe agrada o
género de trabalho que nós fazemos, não tem razões para voltar. Não sei
se Daga é o seu verdadeiro nome. Não tem importância. Os nomes não têm
importância. Se ele quer chamar-se Daga, deixá-lo chamar-se assim.

- Mas porque é que ele roubou o dinheiro?

66

- Ele não roubou o dinheiro. Não roubou a bicicleta. Roubar significa


tirar o que não nos pertence quando ninguém está a ver. Nós estávamos
todos a ver quando ele tirou o dinheiro. Podíamos tê-lo impedido, mas não
o fizemos. Optámos por não lutar com ele. Optámos por deixá-lo partir. Tu
concordas com isso, com certeza. És tu que dizes que não devemos lutar.

- O homem devia ter-lhe dado mais dinheiro.

- O pagador? O pagador devia ter-lhe dado o que ele quisesse? O rapaz


acena com a cabeça.
- Não podia fazer isso. Se o pagador pagasse a cada um de nós o que
queríamos, ficaria sem dinheiro.

- Porquê?

- Porquê? Porque todos nós queremos mais dinheiro do que nos é devido. E
da natureza humana. Porque todos nós queremos mais dinheiro do que aquilo
que valemos.

- O que é a natureza humana?

- Quer dizer a maneira como os homens são feitos, tu e eu e o Álvaro e o


senor Daga e toda a gente. Quer dizer a maneira como somos quando vimos
ao mundo. Quer dizer o que todos temos em comum. Gostamos de acreditar
que somos especiais, meu rapaz, todos nós. Mas, rigorosamente falando,
não pode ser assim. Se todos fôssemos especiais, deixaria de haver
qualquer especialidade. No entanto continuamos a acreditar em nós
próprios. Vamos lá para baixo, para o porão do navio, para o calor e a
poeira, pegamos em sacos às costas e trazemo-los cá para cima, para a
luz, vemos os nossos amigos a labutarem como nós, a fazerem exatamente o
mesmo trabalho, que não tem nada de especial, e sentimo-nos orgulhosos
deles e de nós próprios, todos camaradas a trabalharem juntos com um
objetivo comum; e contudo num cantinho do nosso coração, que mantemos
oculto, segredamos cá para nós: Não obstante, não obstante, és especial,
vais ver!

67

Um dia, quando menos esperarmos, ouvir-se-á soar o apito de Álvaro e


seremos todos chamados para nos juntarmos no cais, onde uma grande
multidão estará à espera, e um homem de fato preto e chapéu alto; e o
homem do fato preto mandar-te-á dar um passo em frente, dizendo: Ponham
os olhos neste trabalhador singular, com o qual estamos muito
satisfeitos!; e apertar-te-á a mão e espetar-te-á uma medalha no peito -
Por Serviços Extraordinários, dirá a medalha - e toda agente aplaudirá e
baterá palmas.

«É da natureza humana ter sonhos assim, ainda que fosse avisado


guardarmo-los para dentro. Como todos nós, o senor Daga pensou que era
especial; mas não guardou o pensamento para si. Queria ser
individualizado. Queria ser reconhecido.

Interrompe-se. Não há no rosto do rapaz indícios de que ele tenha


percebido uma palavra. Será um dos seus dias estúpidos ou estará apenas a
ser teimoso?

- O senor Daga queria ser elogiado e receber uma medalha -diz ele. -
Quando não lhe deram a medalha com que sonhava, levou o dinheiro em vez
dela. Levou aquilo que julgava que valia. Mais nada.

- Porque é que não lhe deram uma medalha? - pergunta o rapaz.


- Porque, se todos recebêssemos medalhas, as medalhas não valeriam nada.
Porque as medalhas têm de ser ganhas. Como o dinheiro. Não se recebe uma
medalha só porque se tem vontade de a ter.

- Eu daria uma medalha ao senor Daga.

- Bem, talvez devêssemos pedir-te para seres o nosso pagador. Nessa


altura todos receberíamos medalhas e todo o dinheiro que quiséssemos e na
próxima semana não haveria nada na caixa do dinheiro.

- Há sempre dinheiro na caixa do dinheiro - diz o rapaz. - É por isso que


se chama caixa do dinheiro.

Ele levanta as mãos ao alto.

- Se estás virado para a palermice, não vou discutir contigo.

68

Capítulo 7

Umas semanas depois de se apresentarem pela primeira vez no Centro, chega


uma carta da repartição de Novilla do Ministério de Reubicación a
informá-lo de que lhes foi atribuído um apartamento, a ele e à família,
na Aldeia Oriental, que deverá ser ocupado até ao meio-dia da próxima
segunda-feira.

A Aldeia Oriental, familiarmente conhecida como Blocos Orientais, é um


empreendimento que fica a leste do parque urbano, um aglomerado de blocos
de apartamentos separados por espaços relvados. Ele e o rapaz já
exploraram a zona, como exploraram o seu empreendimento gémeo, a Aldeia
Ocidental. Os blocos que formam a aldeia são de padrão idêntico, de
quatro andares. Em cada andar seis apartamentos dão para uma praça que
contém equipamentos coletivos como um parque infantil, uma piscina para
crianças, um suporte para bicicletas e cordas para estender roupa. A
Aldeia Oriental é geralmente tida por mais desejável que a Aldeia
Ocidental; podem considerar-se felizes por terem sido enviados para lá.

A mudança do Centro para lá processa-se com facilidade, porque têm poucos


pertences e não fizeram amigos. Os seus vizinhos foram, de um lado, um
velho que caminha aos tremeliques de camisa de noite a falar sozinho e do
outro um casal pouco comunicativo que finge não perceber o espanhol que
ele fala.

69
O novo apartamento, no segundo andar, é modesto em escala e esparsamente
mobilado: duas camas, uma mesa e cadeiras, uma cómoda e prateleiras de
aço. Um pequeno anexo contém um fogão elétrico em cima de um suporte e
uma bacia com água corrente. Uma antepara de correr esconde um chuveiro e
uma retrete.

Para o primeiro jantar nos Blocos faz a comida favorita do rapaz,


panquecas com manteiga e geleia.

- Vamos gostar disto aqui, não vamos? - diz. - Vai ser um novo capítulo
da nossa vida.

Depois de avisar Álvaro de que não se sente bem, não tem escrúpulos em
tirar uns dias de folga. Está a ganhar mais do que suficiente para as
necessidades de ambos, há pouca coisa em que gastar dinheiro e não vê por
que razão deveria esgotar-se sem objetivo. Além disso, há sempre

recém-chegados à procura de trabalho ocasional que o podem substituir nas


docas. Por isso, passa algumas manhãs simplesmente a preguiçar na cama,
dormitando e acordando, a gozar o calor soalheiro que entra pelas janelas
da sua nova casa.

Estou a ganhar balanço, diz de si para si. Estou a ganhar balanço para o
próximo capítulo da empresa. Por próximo capítulo entende a busca da mãe
do rapaz, a busca que ainda não sabe onde começar. Estou a concentrar as
energias; estou afazer planos.

Enquanto repousa, o rapaz brinca lá fora, na caixa de areia ou nos


baloiços, ou então deambula por entre as cordas da roupa, cantarolando de
si para si, embrulhando-se como um casulo nos lençóis a secar, para a
seguir girar e se desembrulhar. É uma brincadeira da qual parece nunca se
cansar.

- Não me parece que os nossos vizinhos fiquem satisfeitos ao ver-te


remexer na sua roupa acabada de lavar - diz ele. - O que é que achas de
tão atraente nisso?

70

- Gosto do cheiro que ela tem.

Da vez seguinte que atravessa o pátio, encosta discretamente o rosto a um


lençol e faz uma inspiração profunda. O cheiro é limpo, tépido e
confortante.

Mais tarde nesse dia, olhando pela janela, vê o rapaz estendido no


relvado, com a cabeça encostada à de outro rapaz, maior do que ele.
Parecem estar a conversar com intimidade.

- Vejo que tens um novo amigo - observa ele ao almoço. - Quem é ele?

- É o Fidel. Sabe tocar violino. Mostrou-me o violino dele. Também posso


ter um violino?
- Veremos. Os violinos custam uma data de dinheiro e vais precisar dum
professor, não se pode pegar num violino e começar a tocar assim sem mais
nem menos.

- Ao Fidel é a mãe que o ensina. Ela diz que me pode ensinar também a
mim.

- É bom que tenhas arranjado um novo amigo, fico contente por ti. Quanto
a lições de violino, talvez eu deva ter primeiro uma conversa com a mãe
do Fidel.

- Podemos ir agora?

- Podemos ir mais tarde, depois da tua sesta.

O apartamento de Fidel fica no outro extremo do pátio. Antes mesmo que


ele possa bater, a porta é aberta de rompante e Fidel está diante deles,
robusto, de cabelo encaracolado e sorridente.

Embora não maior que o deles e não tão soalheiro, o apartamento tem um ar
mais acolhedor, talvez devido às suas cortinas garridas com o seu motivo
de flores de cerejeira repetido nas colchas.

A mãe de Fidel avança para o cumprimentar: uma mulher jovem, angulosa,


magra até, de dentes proeminentes e cabelo repuxado para trás das
orelhas. De um modo obscuro ele fica desapontado com esta primeira visão
dela, embora não tenha razão para isso.

71

- Sim - confirma ela -, disse ao seu filho que se pode juntar ao Fidelito
nas lições de música. Mais tarde podemos fazer uma reavaliação e ver se
ele tem aptidão e vontade para continuar.

- É muito simpático da sua parte. Na verdade, o David não é meu filho. Eu


não tenho filhos.

- Onde estão os pais dele?

- Os pais dele... É uma pergunta difícil. Quando tiver mais tempo


explico-lhe. Acerca das lições: ele vai precisar de ter um violino seu?

- Com os principiantes, normalmente começo pela flauta. O Fidel - puxa o


filho mais para si e ele abraça-a afetuosamente -, o Fidel aprendeu
flauta durante um ano e a seguir violino.

Ele vira-se para David.

- Estás a ouvir, meu rapaz? Primeiro aprendes flauta e depois violino.


Combinado?

O rapaz faz uma careta, dirige uma olhadela ao seu novo amigo e mantém-se
calado.
- É uma grande proeza, ser violinista. Não conseguirás êxito se não te
dedicares a isso de alma e coração. - Vira-se para a mãe de Fidel. -
Posso perguntar-lhe quanto é que leva?

Ela endereça-lhe um olhar surpreendido.

- Não levo nada - diz. - Faço-o pela música.

Chama-se Elena. Não é o nome que ele teria imaginado. Ele teria imaginado
Manuela, ou até Lourdes.

Convida Fidel e a mãe para irem de autocarro até à Nova Floresta, um


passeio que Álvaro recomendou («Era uma plantação, mas deixaram-na por
cultivar; vai gostar»). Do fim da linha do autocarro os dois rapazes
correm adiante deles pelo caminho acima, enquanto ele e Elena seguem
atrás, a passo.

- Tem muitos alunos? - pergunta-lhe ele.

- Ah, eu não sou professora de música propriamente dita. Tenho só umas


quantas crianças que ajudo nas bases.

72

- Como é que se governa, se não leva dinheiro?

- Aceito trabalhos de costura. Faço umas coisas. Recebo um pequeno


subsídio da Asistencia. Tenho o suficiente. Há coisas mais importantes
que o dinheiro.

- Refere-se à música?

- À música, sim, mas também à maneira como se vive. Como a pessoa deve
viver.

Uma boa resposta, uma resposta séria, uma resposta filosófica. Por um
momento, remete-se ao silêncio.

- Dá-se com muita gente? - pergunta ele. - Quero eu dizer - enfrenta


corajosamente a dificuldade -, há um homem na sua vida?

Ela franze o sobrolho.

- Tenho amigos. Alguns são mulheres, outros são homens. Não faço
distinções entre eles.

O caminho torna-se mais estreito. Ela vai à frente; ele deixa-se ficar
para trás, a olhar para o baloiçar das ancas dela. Prefere mulheres com
mais carne a cobrir os ossos. Não obstante, gosta de Elena.

- Pela parte que me toca, não é distinção de que consiga abrir mão - diz
ele. - Ou da qual quisesse abrir mão.
Ela afrouxa o passo para o deixar alcançá-la e fita-o com um olhar
direto.

- Ninguém deve abrir mão do que é importante para si - diz. Os dois


rapazes regressam, a ofegar da corrida, irradiando saúde.

- Temos alguma coisa de beber? - pergunta Fidel.

Só quando já estão no autocarro, de regresso a casa, ele tem outra


oportunidade de falar com Elena.

- Não sei como é consigo - diz -, mas o passado não está morto em mim. Os
pormenores podem ter-se tornado indistintos, mas a sensação de como a
vida era dantes continua ainda bem vívida. Os homens e as mulheres, por
exemplo: você diz que ultrapassou essa maneira de pensar, mas eu não.
Ainda sinto que sou um homem, e que você é uma mulher.

73

- Concordo. Os homens e as mulheres são diferentes. Têm papéis


diferentes a desempenhar.

Os dois rapazes, no banco à frente deles, segredam entre si, soltando


risadinhas. Ele toma a mão de Elena na sua. Ela não se liberta. Não
obstante, pelos inescrutáveis meios através dos quais o corpo se exprime,
a mão dela dá uma resposta. Morre no seu aperto como um peixe fora de
água.

- Posso perguntar uma coisa? - inquire ele. - Já deixou de sentir o que


quer que seja por um homem?

- Não é que não sinta nada - responde ela, lenta e cautelosamente. - Pelo
contrário, sinto boa vontade, muito boa vontade. Em relação a si e ao seu
filho. Cordialidade e boa vontade.

- Quando diz boa vontade quer dizer que quer o nosso bem? Tenho
dificuldade em apreender o conceito. Sente-se benevolente em relação a
nós?

- Sim, exatamente.

- A boa vontade, devo dizer-lhe, é aquilo que constantemente encontramos


aqui. Toda a gente quer o nosso bem, toda a gente está pronta a ser
simpática connosco. Somos positivamente transportados numa onda de boa
vontade. Mas tudo isso permanece um pouco abstrato. Poderá a boa vontade
só por si satisfazer todas as nossas necessidades? Não é da nossa
natureza almejar algo mais tangível?

Intencionalmente, Elena retira a mão da sua.

- Você pode querer mais do que boa vontade; mas aquilo que quer é melhor
do que a boa vontade? Era isto que devia perguntar a si próprio. - Faz
uma pausa. - Está sempre a referir-se ao David como «o rapaz». Porque é
que não usa o nome dele?

- David é um nome que lhe puseram no acampamento. Ele não gosta dele, diz
que não é o seu verdadeiro nome. Eu procuro não o usar a menos que tenha
de o fazer.

74

- É bastante fácil mudar de nome, sabe? Vai ao registo civil e preenche


um impresso de mudança de nome. E pronto. Ninguém pergunta nada. - Ela
inclina-se para diante. - E o que é que vocês estão a bichanar? -
pergunta aos rapazes.

O filho devolve-lhe o sorriso e leva os dedos aos lábios, fingindo que


aquilo de que se ocupam é um assunto secreto. O autocarro deixa-os à
entrada dos Blocos.

- Gostaria de os convidar para tomarem um chá - diz Elena -, mas


infelizmente está na hora do banho e do jantar do Fidelito.

- Eu compreendo - diz ele. - Adeus, Fidel. Obrigado pelo passeio.


Divertimo-nos muito.

«Tu e o Fidel parecem dar-se bem - observa ele para o rapaz quando ficam
sós.

- Ele é o meu melhor amigo.

- Então o Fidel sente boa vontade em relação a ti, não sente?

- Muito boa vontade.

- E tu? Sentes também boa vontade?

O rapaz acena vigorosamente com a cabeça.

- Mais alguma coisa além disso?

O rapaz dirige-lhe um olhar intrigado.

-Não.

Ora ali tem, portanto, da boca dos pequeninos e das crianças de peito. Da
boa vontade vêm a amizade e a felicidade, vêm piqueniques sociáveis no
parque urbano ou tardes sociáveis a passear pela floresta. Em
contrapartida, do amor, ou pelo menos do anseio nas suas manifestações
mais urgentes, vêm a frustração e a dúvida e a mágoa. E tão simples como
isso.

E, afinal, onde quer ele chegar com Elena, uma mulher que mal conhece, a
mãe do novo amigo do miúdo? Terá esperanças de a seduzir, porque em
recordações que nele não se perderam completamente seduzir o outro é uma
coisa que os homens e as mulheres fazem? Estará a insistir no primado do
pessoal (desejo, amor) sobre o universal (boa vontade, benevolência)?

75

E por que razão está continuamente a fazer perguntas a si próprio em


lugar de se limitar a viver, como toda a gente? Fará tudo parte de uma
transição demasiado tardia do antigo e cómodo (o pessoal) para o novo e
perturbante (o universal)? Não passará a ronda de autointerrogações de
uma fase da evolução de todos os recém-chegados, uma fase que pessoas
como Álvaro e Elena neste momento já ultrapassaram? Se assim é, quanto
tempo faltará para que ele surja como um homem novo, aperfeiçoado?

76

Capítulo 8

- No outro dia falava-me da boa vontade, da boa vontade como um bálsamo


universal para a nossa vida - diz ele a Elena. - Mas de vez em quando não
dá por si a sentir falta do simples contacto físico de antigamente?

Estão no parque urbano, ao lado de um campo onde se disputa meia dúzia de


desordenados jogos de futebol. Fidel e David foram autorizados a
participar num dos jogos, embora na realidade sejam demasiado jovens.
Zelosamente, correm para um lado e para outro com os outros jogadores,
mas nunca lhes passam a bola.

- A quem quer que crie um filho não falta contacto físico - responde
Elena.

- Quando digo contacto físico quero dizer uma coisa diferente. Quero
dizer amar e ser amado. Quero dizer dormir todas as noites com alguém.
Não tem saudades disso?

- Se tenho saudades? Eu não sou o género de pessoa que sofra de


recordações, Simón. Aquilo de que você fala parece muito distante. E, se
quando fala em dormir com alguém se refere ao sexo, também é bastante
estranho. É uma coisa estranha para a pessoa se preocupar.

- Mas não há certamente nada como o sexo para aproximar as pessoas. O


sexo aproximar-nos-ia mais. Por exemplo.
77

Elena vira-lhe as costas.

- Fidelito! - chama, acenando. - Anda! Agora temos de ir embora!

Estará enganado, ou há um rubor na face dela?

A verdade é que ele acha Elena apenas moderadamente atraente. Não gosta
do seu aspeto escanzelado, do maxilar vigoroso e dos dentes da frente
saídos. Mas ele é um homem e ela é uma mulher e a amizade entre os miúdos
continua a aproximá-los. Assim, apesar das delicadas rejeições
sucessivas, continua a permitir-se moderadas liberdades, liberdades que
parecem diverti-la mais do que indispô-la. Quer queira quer não, ele

vê-se assaltado por devaneios nos quais um ou outro golpe de sorte impele
Elena para os seus braços.

Quando afinal surge, o golpe de sorte assume a forma de uma falta de


eletricidade. As faltas de eletricidade não são infrequentes em toda a
cidade. Normalmente são objeto de aviso com um dia de antecedência e
aplicam-se às moradas de número par ou de número ímpar. No caso dos
Blocos, aplicam-se a edifícios inteiros obedecendo a uma escala.

Na tarde em questão, porém, não há aviso, mas apenas Fidel a bater à


porta, perguntando se pode entrar e fazer os trabalhos de casa, visto que
não há luz elétrica no seu apartamento.

- Já comeste? - pergunta ele ao rapaz. Fidel abana a cabeça.

- Dá um salto a casa - diz ele. - Diz à tua mãe que tu e ela estão
convidados para jantar.

O jantar que ele lhes proporciona não é mais do que pão e sopa (cevada e
abóbora cozidas com uma lata de feijão; ainda não descobriu uma loja que
venda especiarias), mas é suficiente. Fidel termina rapidamente os
trabalhos de casa. O rapaz instala-se a ver livros de desenhos; depois,
repentinamente, como se tivesse levado uma machadada, Fidel adormece.

78

- Tem sido assim desde bebé - diz Elena. - Não há nada que o acorde. Eu
levo-o para casa e meto-o na cama. Obrigado pelo jantar.

- Não pode voltar para aquele apartamento às escuras. Passe aqui a noite.
O Fidel pode partilhar a cama do David. Eu durmo numa cadeira. Já estou
habituado.

É mentira; não está habituado a dormir em cadeiras, e naquela cadeira da


cozinha, de espaldar direito, duvida que seja humanamente possível
dormir. Mas não dá hipóteses a Elena de recusar.
- Sabe onde é a casa de banho. Aqui tem uma toalha. Quando é ele a voltar
da casa de banho, ela está na cama dele

e os dois rapazes dormem lado a lado. Ele embrulha-se no cobertor de


reserva e apaga a luz.

Por momentos há silêncio. Depois, da escuridão, ela fala:

- Se está mal instalado, como decerto há de estar, posso arranjar espaço.

Ele enfia-se na cama com ela. Silenciosa e discretamente, tratam do


assunto do sexo, conscientes da presença dos miúdos a dormir ali bem
perto.

Não é o que ele esperava que fosse. Apercebe-se imediatamente de que ela
não o faz com alma; quanto a ele, a reserva de desejo reprimido com que
contava revela-se uma ilusão.

- Estás a ver o que eu quero dizer? - sussurra ela, no final. Com um


dedo, roça-lhe os lábios. - Não nos adianta, pois não?

Terá ela razão? Deverá ele tomar a experiência a peito e dizer adeus ao
sexo, como Elena parece ter feito? Talvez. Contudo, o simples facto de
ter uma mulher nos braços, ainda que ela não seja uma beldade
estonteante, anima-o.

- Não concordo - murmura ele em resposta. - De facto, acho que estás


completamente enganada. - Faz uma pausa. - Alguma vez perguntaste a ti
mesma se o preço que pagamos por esta nova vida, o preço de esquecer, não
será alto de mais?

79

Ela não responde, mas compõe a roupa interior e vira-lhe as costas.

Embora não vivam juntos, ele gosta de imaginá-los, a ele e a Elena,


depois daquela primeira noite compartilhada, como um casal, ou um casal
em embrião, e por conseguinte nos rapazes como irmãos ou meios-irmãos.
Torna-se cada vez mais habitual jantarem os quatro juntos; aos fins de
semana vão às compras ou fazem piqueniques ou excursões ao campo; e
embora ele e Elena não voltem a passar a noite juntos, uma vez por outra,
quando os rapazes não estão por ali, ela permite-lhe que ele faça amor
com ela. Ele começa a habituar-se ao corpo dela, com os seus ilíacos
salientes e minúsculos seios. Ela tem pouca emoção sexual por ele, isso é
claro; mas ele gosta de encarar a união entre eles como um paciente e
prolongado ato de ressurreição, de devolução à vida de um corpo de mulher
que para todos os efeitos práticos morreu.

Quando ela o convida para fazer amor com ela, é sem o menor coquetismo.
«Se quiseres, podemos fazê-lo agora», diz, e fecha a porta e despe-se.

Essa sem-cerimónia poderia em tempos tê-lo dissuadido, tal como a sua


falta de reação poderia em tempos tê-lo humilhado. Mas decide que não se
deixa dissuadir nem humilhar. Aceitará o que ela oferece, tão pronta e
gratamente quanto pode.

Normalmente ela refere-se ao ato simplesmente como fazê-lo, mas por


vezes, quando quer provocá-lo, usa a palavra descongelar. «Se quiseres,
podes fazer mais uma tentativa de me descongelar.» Foi uma palavra que
ele deixou escapar uma vez num momento de descuido: «Deixa-me
descongelar-te!» A ela, a noção de ser descongelada para voltar ávida
afigurou-se, e afigura-se ainda, ilimitadamente divertida.

Entre os dois vai crescendo, se não intimidade, uma amizade que ele sente
ser bastante sólida, bastante fiável. Se a amizade se teria desenvolvido
entre eles fosse como fosse, com base na amizade entre os miúdos e nas
muitas horas que passam juntos, se fazê-lo contribuiu alguma coisa, não
sabe dizer.

80

Será assim, pergunta a si próprio, que as famílias nascem, aqui, neste


novo mundo: baseadas na amizade em lugar do amor? Não é uma situação com
a qual esteja familiarizado, ser simplesmente amigo de uma mulher. Mas
consegue ver os seus benefícios. Pode até, cautelosamente, gostar disso.

- Fala-me do pai do Fidel - pede a Elena.

- Não me lembro lá muito bem dele.

- Mas ele deve ter tido um pai.

- Claro.

- O pai era de alguma maneira parecido comigo?

- Não sei. Não te sei dizer.

- Considerarias, só hipoteticamente, alguém como eu para teu marido?

- Alguém como tu? Como tu em que aspeto?

- Casar-te-ias com alguém como eu?

- Se essa é a tua maneira de perguntar se eu me casaria contigo, a


resposta é sim, casaria. Seria bom para o Fidel e para o David, para
ambos. Quando é que quererias fazê-lo? Porque o registo civil só está
aberto aos dias de semana. Consegues tirar um dia?

- Tenho a certeza de que consigo. O nosso capataz é muito compreensivo.

Depois desta estranha oferta, e desta estranha aceitação (acerca da qual


ele nada faz), começa a sentir um certo cansaço por parte de Elena e uma
nova tensão nas suas relações. No entanto não se arrepende de ter
perguntado. Está a encontrar o seu caminho. Está a fazer uma nova vida.
- O que é que sentirias - pergunta-lhe ele outro dia - se eu me
encontrasse com outra mulher?

- Com encontrar queres dizer ter relações sexuais?

81

- Talvez.

- E quem é que tens em mente?

- Ninguém em particular. Estou simplesmente a explorar possibilidades.

- A explorar? Não era já altura de assentares? Já não és nenhum jovem.

Ele emudece.

- Perguntas o que sentiria. Queres uma resposta curta ou uma resposta


completa?

- Uma resposta completa. A mais completa.

- Muito bem. A nossa amizade foi boa para os rapazes, nisso podemos
concordar. Criaram intimidade. Veem-nos como presenças guardiãs, ou até
como uma simples presença guardiã. Por conseguinte não seria bom para
eles que a nossa amizade terminasse. E não vejo razão para que isso
aconteça, só porque tu te encontras com outra mulher hipotética.

«No entanto, suspeito que com essa mulher queres fazer o mesmo tipo de
experiência que tens andado a fazer comigo, e que no decurso da
experiência perderás o contacto com o Fidel e comigo.

«Por isso vou expressar por palavras uma coisa que esperava que
compreendesses por ti. Tu queres encontrar-te com essa outra mulher
porque eu não te proporciono aquilo que sentes que precisas, nomeadamente
tempestades de paixão. A amizade só por si não te chega. Sem o
acompanhamento de tempestades de paixão é um tanto deficiente.

«Na minha opinião isso é uma maneira de pensar antiquada. Segundo a


maneira de pensar antiquada, por muito que se tenha, há sempre qualquer
coisa que falta. O nome que optas por dar a esse algo mais que falta é
paixão. Contudo iria apostar que se amanhã te oferecessem toda a paixão
que querias (paixão a rodos), depressa encontrarias alguma coisa nova da
qual sentirias falta, necessidade.

82

Esta permanente insatisfação, esta ânsia de algo mais que falta, é uma
maneira de pensar da qual felizmente nos livrámos, na minha opinião. Não
falta nada. O nada que tu pensas que falta é uma ilusão. Tu estás a viver
numa ilusão.
«Aí tens. Pediste uma resposta completa e eu dei-ta. É suficiente, ou há
ainda mais alguma coisa por que anseies?»

É um dia ameno, este dia da resposta completa. A rádio toca suavemente;


estão deitados na cama do apartamento, completamente vestidos.

- Pela parte que me toca... - principia ele; mas Elena interrompe-o.

- Caluda - diz ela. - Acabou-se a conversa. Pelo menos por hoje.

- Porquê?

- Porque daqui a nada estamos a discutir, e eu não quero. Calam-se,


portanto, e ficam deitados em silêncio lado a lado,

ouvindo ora as gaivotas a grasnar ao circundarem o pátio, ora os rapazes


a rirem-se na sua brincadeira, ora a música da rádio, cuja contínua e
uniforme harmonia dantes o acalmava mas hoje só o irrita.

O que ele quer dizer, pela parte que lhe toca, é que a vida aqui é
demasiado plácida para o seu gosto, demasiado isenta de altos e baixos,
de drama e de tensão: parece-se, aliás, demasiado com a música da rádio.
Anodina: será uma palavra espanhola?

Recorda-se de ter perguntado uma vez a Álvaro por que razão nunca havia
notícias na rádio. «Notícias de quê?», inquiriu Álvaro. «Notícias do que
se passa no mundo», respondeu ele. «Ah», respondeu Álvaro, «passa-se
alguma coisa?» Tal como anteriormente, ele foi lesto a suspeitar de que
fosse uma ironia. Mas não, não era.

Álvaro não pratica a ironia. Nem Elena. Elena é uma mulher inteligente
mas não vê nenhuma duplicidade no mundo, nenhuma diferença entre aquilo
que as coisas parecem e aquilo que são.

83

Uma mulher inteligente e também uma mulher admirável, que com os mais
exíguos materiais - a costura, as lições de música, a lida da casa -
construiu uma vida nova, uma vida na qual pretende - com justeza? - que
nada falta. Passa-se o mesmo com Álvaro e com os estivadores: que ele
consiga detetar, não têm anseios secretos, não têm aspirações a outro
género de vida. Apenas ele é a exceção, o insatisfeito, o inadaptado. O
que se passa com ele? Será somente, como Elena diz, a antiga maneira de
pensar e de sentir que ainda não morreu nele, mas ao invés esperneia e
estremece no seu estertor?

As coisas não têm aqui o seu devido peso: era isso que, afinal, ele
gostaria de dizer a Elena. A música que ouvimos tem falta de peso. A
nossa união sexual tem falta de peso. A comida que comemos, a nossa
lúgubre dieta de pão, tem falta de substância: falta-lhe a
substancialidade da carne animal, com toda a gravidade do derramamento de
sangue e do sacrifício por detrás. As nossas próprias palavras têm falta
de peso, estas palavras espanholas que não vêm do coração.

A música chega ao seu elegante final. Ele levanta-se.

- Tenho de ir andando - diz. - Lembras-te de no outro dia me teres dito


que não sofrias de recordações?

- Disse?

- Disseste, sim. Quando estávamos a ver futebol no parque. Bem, eu não


sou como tu. Eu sofro de recordações, ou das sombras de recordações. Eu
sei que se supõe estarmos todos limpos pela passagem por aqui, e é
verdade que não tenho um grande repertório a evocar. Mas as sombras
permanecem, seja como for. É disso que eu sofro. Com a diferença de que
eu não uso a palavra sofrer. Agarro-me a elas, a essas sombras.

- Isso é bom - diz Elena. - Na variedade é que está a beleza. Fidel e


David entram de rompante na sala, afogueados, suados, a abarrotar de
vida.

84

- Há bolachas? - pergunta Fidel.

- No boião, no armário - responde Elena. Os dois rapazes desaparecem na


cozinha.

- Estão a divertir-se? - grita Elena.

- Hum - diz Fidel.

- Ainda bem - torna Elena.

85

Capítulo 9

- Como vão as lições de música? - pergunta ele ao rapaz. - Estás a


gostar?

- Hum. Sabes uma coisa? Quando o Fidel for grande vai comprar um violino
muito, muito pequenino - mostra como o violino será pequeno: dois palmos
apenas -, e vai usar um fato de palhaço e tocar violino no circo. Podemos
ir ao circo?

- Quando o circo vier à cidade podemos ir, todos. Podemos convidar também
o Álvaro, e talvez também o Eugénio.
O rapaz faz beicinho.

- Eu não quero que o Eugénio venha. Ele diz coisas de mim.

- Só disse uma coisa, que tu tinhas um diabo dentro, e isso foi só uma
maneira de falar. Queria dizer que tu tens uma centelha dentro de ti que
te faz ser bom no xadrez. Um mafarrico.

- Eu não gosto dele.

- Está bem, não convidamos o Eugénio. O que é que andas a aprender nas
tuas lições de música além de escalas?

- Canto. Queres ouvir-me cantar?

- Adorava. Não sabia que a Elena ensinava canto. Ela é uma caixinha de
surpresas.

Estão no autocarro, dirigindo-se da cidade para o campo. Embora haja


muitos outros passageiros, o rapaz não se acanha de cantar.

87

Com a sua voz clara entoa:

Wer reitetso spat durch Dampfund Wind?

Er ist der Vater mit seinem Kind;

Er halt dm Knaben in dem Arm,

Erfuttert ihn Zucker, er ktisst ihm warm.

(Nota: Quem cavalga tão tarde, ao vento e pela treva?

O cavaleiro é um pai, pio filho acompanhado,

Pai que, nos braços seus, o seu filhinho leva,

Cingindo-o muito, a fim de o ter agasalhado.

Do poema de Goethe O Rei dos Álamos, na tradução de Eugénio de Andrade.)

- É tudo. É inglês. Posso aprender inglês? Já não quero falar espanhol.


Detesto espanhol.

- Tu falas muito bem espanhol. E também cantas lindamente. Talvez quando


fores grande venhas a ser cantor.

- Não. Vou ser mágico num circo. O que é que quer dizer Wer reitetso?
- Não sei. Não sei inglês.

- Posso ir para a escola?

- Vais ter de esperar um bocado para isso, até ao próximo aniversário.


Depois podes ir para a escola juntamente com o Fidel.

Apeiam-se na paragem assinalada Terminal, onde o autocarro volta para


trás. O mapa que ele trouxe da estação rodoviária mostra vias e caminhos
que sobem para as colinas; o seu plano é seguir um caminho sinuoso que
leva ao lago, que no mapa tem uma estrela irradiante ao lado,
significando que se trata de um lugar de beleza natural.

São os últimos passageiros a sair e os únicos que seguem a pé pelo


carreiro. O campo por onde passam está deserto. Embora a terra pareça
viçosa e fértil, não há sinais de habitação humana.

- Que serenidade, aqui no campo! - observa ele ao rapaz, embora na


realidade o vazio lhe pareça mais desolado do que sereno. Seria melhor se
houvesse animais que ele pudesse apontar: gado, ovelhas ou porcos, a
ocuparem-se da sua vida animal. Até coelhos serviriam.

88

Aqui e além vêem pássaros em voo, mas distantes de mais e a demasiada


altura no céu para saberem ao certo de que espécie se trata.

- Estou cansado - anuncia o rapaz.

Ele examina o mapa. Estão a meio caminho do lago, calcula.

- Eu levo-te durante um bocado - diz -, até te voltarem as forças. - Põe


o rapaz às cavalitas. - Canta assim que vires um lago. Há de ser de onde
vem a água que bebemos. Canta se o vires.

Aliás, canta se vires alguma água. Ou se vires algum camponês.

Prosseguem a marcha. Mas ou ele leu mal o mapa, ou ele está

errado, porque, depois de subir abruptamente e a seguir descer da

mesma maneira íngreme, o carreiro termina sem aviso num muro

e tijolo com um portão enferrujado invadido pela hera. Ao lado do

portão há um letreiro pintado, comido do tempo. Ele arreda a hera.

- La Residência - lê.

- O que é uma residência? - pergunta o rapaz.

- Uma residência é uma casa, uma casa importante. Mas esta residência em
particular pode não passar de uma ruína.

- Podemos ver?
Experimentam o portão, mas este não se move. Precisamente quando estão
prestes a voltar para trás, surge, trazido pela brisa, ténue som de
risos. Seguindo o som, vão abrindo caminho por entre a vegetação alta e
chegam a um sítio onde o muro de tijolo dá lugar a uma alta vedação de
rede de arame. Do outro lado da vedação há um campo de ténis, e no campo
estão três jogadores, dois homens e uma mulher, vestidos de branco, os
homens de camisa e calças compridas e a mulher de saia até aos pés e uma
blusa e gola subida e um boné com uma viseira verde.

Os homens são altos, espadaúdos e de ancas estreitas; parecem irmãos,


talvez até irmãos gémeos. A mulher faz equipa com um deles contra o
outro.

89

Nota de imediato que são todos jogadores experientes, destros e de pés


ligeiros. O homem que joga como singular é particularmente bom,
aguentando-se bem sozinho.

- O que estão eles a fazer? - pergunta o rapaz.

- É um jogo - responde ele em voz baixa. - Chama-se ténis. Tenta-se bater


a bola para o campo do adversário. É como marcar um golo no futebol.

A bola bate surdamente na vedação. Ao virar-se para a recolher, a mulher


vê-os.

- Olá - diz, dirigindo um sorriso ao rapaz.

Há qualquer coisa que se agita dentro dele. Quem é esta mulher? O seu
sorriso, a sua voz, a sua atitude... Há nela qualquer coisa obscuramente
familiar.

- Bom dia - diz ele, com a garganta seca.

- Vamos, despacha-te! - chama-a o parceiro. - Ponto de jogo! Não se


trocam mais palavras. Aliás, quando um minuto depois o parceiro vem
recolher uma bola, dirige ao par um olhar carregado, como que a
esclarecer que não são bem-vindos, nem sequer para assistir.

- Tenho sede - segreda o rapaz.

Ele oferece-lhe a garrafa de água que trouxe.

- Não temos mais nada?

- O que é que queres? Néctar? - torna ele contrariadamente, para logo se


arrepender da sua irritação. Tira uma laranja da mochila e faz um buraco
na casca. O rapaz chupa avidamente.

- É melhor? - pergunta ele.

O rapaz acena afirmativamente.


- Vamos à Residência?

- A Residência deve ser isto. O campo de ténis deve fazer parte dela.

- Podemos entrar?

- Podemos tentar.

90

Deixando os jogadores de ténis para trás, lançam-se através da vegetação,


seguindo o muro, até desembocarem numa estrada de terra batida que conduz
a um par de altos portões de ferro. Por detrás das grades, através das
árvores, conseguem vislumbrar um imponente edifício de pedra escura.

Embora fechados, os portões não estão trancados. Introduzem-se através


deles e sobem uma via de acesso cheia de folhas secas que lhes dão pelos
tornozelos. Um letreiro com uma seta aponta para uma entrada em arco que
dá para um pátio em cujo centro se encontra uma estátua de mármore, uma
figura em tamanho maior que natural de uma mulher ou talvez um anjo de
vestes ondulantes a olhar fixamente o horizonte e segurando na mão um
archote a arder.

- Boa tarde, senhor - diz uma voz. - Posso ajudá-lo?

Quem assim fala é um homem idoso, de rosto enrugado e costas abauladas.


Veste um uniforme preto desbotado; saiu de um pequeno posto ou casota à
entrada.

- Sim. Acabamos de chegar da cidade. Poderei por acaso dar uma palavrinha
a um dos moradores, uma senhora que está a jogar ténis no campo das
traseiras?

- E a senhora em questão quererá falar com o senhor?

- Creio que sim. Há um assunto importante que preciso de discutir com


ela. Um assunto de família. Mas podemos esperar que o jogo acabe.

- E o nome da senhora?

- Isso não lhe posso dizer, porque não sei. Mas posso descrevê-la. Diria
que tem uns trinta anos, é de estatura mediana e tem cabelo preto, que
usa afastado da cara. Está na companhia de dois jovens. E está toda
vestida de branco.

- Há uma porção de senhoras com esse aspeto geral em La Residência,


senhor, várias das quais jogam ténis. O ténis é um entretenimento muito
popular.
91

O rapaz puxa-lhe pela manga.

- Diz-lhe do cão - segreda.

- Do cão?

O rapaz acena afirmativamente.

- O cão que tinham com eles.

- O meu jovem amigo diz que têm um cão - repete. Pela parte que lhe toca,
não se lembra de cão nenhum.

- Ah! - exclama o porteiro. Retira-se para o seu covil, fechando a porta


de vidro atrás dele. À luz difusa distinguem que ele está a remexer em
papéis. A seguir pega num telefone, marca um número, escuta, poisa o
auscultador e regressa. - Desculpe, senhor. Não atendem.

- Isso é porque ela está no campo de ténis. Não podemos simplesmente ir


até ao campo?

- Lamento, senhor, mas não é permitido. As nossas instalações são vedadas


a visitantes.

- Então podemos esperar até ela acabar de jogar?

- Podem.

- Podemos passear pelo jardim enquanto esperamos?

- Podem.

- Quem é a senhora? - pergunta o rapaz.

- Não a reconheces?

O rapaz abana a cabeça.

- Não sentiste um estranho movimento no peito quando ela falou connosco,


quando disse olá? Uma espécie de tanger das cordas da alma, como se a
tivesses visto antes, noutro sítio qualquer?

Dubitativamente, o rapaz abana a cabeça.

- Pergunto isso porque a senhora pode ser a mesmíssima que procuramos. É


essa, pelo menos, a sensação que tenho.

- Ela vai ser a minha mãe?

- Não tenho a certeza. Teremos de lho perguntar.

92

Completam o circuito do jardim. De regresso à casota do porteiro, ele


bate no vidro.
- Importa-se de ligar outra vez para a senhora? - pergunta. O porteiro
marca um número. Desta vez há resposta.

- Está à porta um cavalheiro para a ver - ouve-o dizer. - Sim... Sim... -


Volta-se para eles. - Disse que era um assunto de família, não foi,
senhor?

- Sim, um assunto de família.

- E o nome?

- O nome não importa.

O porteiro fecha a porta e retoma a conversa. Por fim sai.

- A senhora vai recebê-lo, senhor - diz. - Contudo, há uma pequena


dificuldade. Não são permitidas crianças na Residência. Receio bem que o
seu rapazinho tenha de esperar aqui.

- Isso é estranho. Porque é que não são permitidas crianças?

- Crianças na Residência não, senhor. São as regras. Não sou eu que faço
as regras, limito-me a aplicá-las. Ele tem de ficar enquanto o senhor faz
a sua visita de família.

- Ficas com este senhor? - pergunta ao rapaz. - Eu volto assim que puder.

- Não quero - diz o rapaz. - Eu quero entrar contigo.

- Eu compreendo isso. Mas tenho a certeza de que, mal a senhora saiba que
estás aqui à espera, vai querer vir ter contigo. Por isso, podes fazer um
grande sacrifício e ficar aqui com este senhor, só por um bocadinho?

- E tu voltas? Prometes?

- Claro que sim.

O rapaz cala-se, recusando-se a fitá-lo.

- Não pode abrir uma exceção neste caso? - pergunta ele ao porteiro. -
Ele vai portar-se muito bem, não incomodará ninguém.

- Lamento, senhor, mas não há exceções. Onde iríamos parar se


começássemos a abrir exceções? Não tardaria que toda a gente quisesse
constituir uma exceção e nessa altura deixaria de haver regras, não é?

93

- Podes brincar no jardim - diz ele ao rapaz. E para o porteiro: - Ele


pode brincar no jardim, não pode?

- Claro.

- Vai trepar a uma árvore - diz ele ao rapaz. - Há uma porção de árvores
boas para trepar. Eu não demoro nada.
Seguindo as instruções do porteiro, ele atravessa o pátio retangular,
passa por uma segunda entrada e bate a uma porta que tem escrita a
palavra Una. Não há resposta. Entra.

Está numa sala de espera. As paredes são forradas a papel branco, com um
motivo de uma lira e um lírio em verde-claro. Vinda de candeeiros
ocultos, a luz branca é discretamente dirigida para cima. Há um sofá de
imitação de pele branca e duas poltronas. Numa mesinha junto à porta há
meia dúzia de garrafas e copos de todos os feitios.

Ele senta-se e aguarda. Os minutos passam. Levanta-se e espreita para o


fundo do corredor. Não há sinais de vida. Ociosamente, examina as
garrafas. Xerez doce, xerez seco. Vermute. Teor alcoólico 4%. Oblivedo.
Onde fica Oblivedo?

É então que, de repente, ela aparece, ainda de equipamento de ténis, mais


compacta do que parecia no campo, quase corpulenta. Traz uma travessa,
que poisa na mesa. Sem cumprimentar, senta-se ao lado dele no sofá e
cruza as pernas sob a saia comprida.

- Queria falar comigo? - pergunta.

- Sim. - O coração dele bate com força. - Obrigado por ter vindo. O meu
nome é Simón. Não me conhece, e eu não tenho importância. Venho da parte
doutra pessoa e trago uma proposta.

- Não se quer sentar? - pergunta ela. - Quer comer alguma coisa? Um


cálice de xerez?

Com mão pouco firme, ele serve-se de um cálice de xerez e tira uma das
pequenas sanduíches triangulares muito finas. Pepino.

94

Senta-se diante dela e bebe a doce bebida. Sobe-lhe imediatamente à


cabeça. A tensão afrouxa e as palavras saem-lhe de jacto.

- Trouxe aqui alguém. Na verdade, o miúdo que viu no campo de ténis. Está
lá fora, à espera. O porteiro não o deixou entrar, porque é uma criança.
Quer vir conhecê-lo?

- Trouxe um miúdo para me conhecer?

- Sim. - Ele levanta-se e serve-se de outro cálice do xerez libertador. -


Desculpe. Isto deve ser confuso, estranhos a aparecerem sem se fazerem
anunciar. Mas não lhe posso dizer como é importante. Temos andado...

Sem aviso, a porta abre-se e o rapaz em pessoa está diante deles,


esbaforido, a ofegar.

- Anda cá - faz sinal ao rapaz. - Reconheces agora a senhora?


-Ele vira-se para ela, que tem o rosto petrificado, de alarme. - Ele pode
dar-lhe a mão? - E, para o rapaz: - Anda, dá a mão à senhora.

O rapaz fica imóvel.

Nesta altura é o porteiro que aparece em cena, claramente transtornado.

- Desculpe, senhor - diz -, mas isto é contra as regras, tal como o


alertei. Tenho de lhe pedir que saia.

Ele vira-se para a mulher, num apelo. Ela não tem certamente de se
submeter ao porteiro e às suas regras. Mas ela não pronuncia qualquer
palavra de protesto.

- Tenha dó - diz ele ao porteiro. - Nós vimos de longe. E se nos


retirássemos todos para o jardim? Ainda seria contra as regras?

- Não, senhor. Mas note que os portões fecham às cinco em ponto.

Ele dirige-se à mulher.

- Podemos sair para o jardim? Por favor! Dê-me uma hipótese de explicar.

95

Em silêncio, com o rapaz de mão dada com ele, atravessam os três o pátio
quadrangular até ao emaranhado jardim.

- Isto deve ter sido em tempos um domicílio magnífico - observa ele,


tentando aliviar a tensão, tentando parecer um adulto sensato. - É uma
pena o jardim estar tão desleixado.

- Só temos um jardineiro a tempo inteiro. É demasiado para ele.

- E a senhora? Já mora aqui há muito tempo?

- Há algum. Se seguirmos aquele caminho além, vamos dar a um lago com


peixes dourados. O seu filho é capaz de gostar.

- Na verdade eu não sou pai dele. Cuido dele. Sou uma espécie de tutor.
Temporariamente.

- Onde estão os pais dele?

- Os pais... É essa a razão pela qual aqui estamos hoje. O rapaz não tem
pais, pais como é habitual. Houve um contratempo a bordo, durante a
viagem para cá. Perdeu-se uma carta que podia ter explicado tudo. Em
consequência disso, os pais dele perderam-se, ou, mais rigorosamente, ele
está perdido. Ele e a mãe foram separados e nós andamos à procura dela. O
pai é outra história.

Chegaram ao prometido lago, no qual há de facto peixes dourados, grandes


e pequenos. O rapaz ajoelha à borda, servindo-se de uma folha de junca,
tentando engodá-los.
- Deixe-me ser mais preciso - diz ele, falando baixo e rapidamente. - O
rapaz não tem mãe. Andamos à procura dela desde que desembarcámos. Quer
encarar a possibilidade de ficar com ele?

- Ficar com ele?

- Sim, de ser uma mãe para ele. De ser mãe dele. Fica com ele como seu
filho?

- Não compreendo. Aliás não compreendo absolutamente nada. Está a sugerir


que eu adote o seu rapaz?

- Não é adotar. É ser mãe dele, mãe por inteiro. Só temos uma mãe, todos
nós. Quer ser essa mãe única para ele?

96

Até então ela escutou atentamente. Agora, porém, começa a olhar em volta
um pouco descontroladamente, como se esperasse que alguém - o porteiro,
um dos seus companheiros de ténis, quem quer que seja - venha em seu
auxílio.

- E então a verdadeira mãe dele? - pergunta. - Onde está ela? Ainda é


viva?

Ele pensava que o rapaz estava demasiado absorto nos peixes dourados para
ouvir. Mas então, de repente, ele exclama esganiçadamente:

- Ela não está morta!

- Então onde é que está?

O miúdo mantém-se calado. Durante algum tempo também ele se mantém em


silêncio. A seguir fala.

-Acredite, por favor... Por favor, faça fé no que eu digo... Esta questão
não é simples. O rapaz está sem mãe. O que isso significa não lhe posso
explicar, porque também não consigo explicá-lo a mim próprio. No entanto
garanto-lhe que, se disser simplesmente que sim, sem reflexão prévia, sem
reflexão posterior, tudo se tornará claro para si, claro como água, ou
pelo menos é o que penso. Portanto: aceita este miúdo como seu?

Ela lança uma olhadela ao pulso, no qual não há relógio.

- Está a fazer-se tarde - diz. - Os meus irmãos devem estar à minha


espera. - Vira costas e reencaminha-se velozmente, a passos largos, para
a residência, com a saia a fustigar a relva.

Ele corre atrás dela.

- Por favor! - diz. - Só mais um momento. Tome. Deixe-me escrever o nome


dele. O nome dele é David. E esse o nome por que responde, o nome que lhe
deram no acampamento. E é aqui que vivemos, mesmo à saída da cidade, na
Aldeia Oriental. Pense nisso, por favor. - Enfia-lhe o papelinho na mão.
Nessa altura ela vai-se embora.

- Ela não me quer? - pergunta o miúdo.

97

- Claro que te quer. És um rapaz tão bonito e tão esperto, que quem não
te quereria? Mas primeiro tem de se habituar à ideia. Plantámos-lhe a
semente no espírito; agora temos de ser pacientes e esperar que cresça.
Desde que tu e ela gostem um do outro, há de crescer e florir com
certeza. Tu gostas da senhora, não gostas? Bem vês como ela é simpática,
simpática e meiga.

O rapaz mantém-se calado.

Quando encontram o caminho de volta à última paragem é quase noite. No


autocarro o rapaz adormece-lhe nos braços; tem de o levar ao colo, da
paragem do autocarro até ao apartamento.

A meio da noite é acordado de um sono profundo. É o rapaz, de pé à sua


cabeceira, com as lágrimas a correrem pela cara abaixo.

- Tenho fome! - choraminga.

Ele levanta-se, aquece leite e barra uma fatia de pão com manteiga.

- Vamos viver lá? - pergunta o rapaz, com a boca cheia.

- Em La Residência? Acho que não. Não haveria lá nada para eu fazer.


Tornar-me-ia uma daquelas abelhas que se limitam a esvoaçar em torno da
colmeia à espera da hora de comer. Mas podemos discutir isso amanhã de
manhã. Há tempo de sobra.

- Eu não quero viver lá. Quero viver aqui, contigo.

- Ninguém te vai obrigar a viver onde não quiseres. Agora vamos voltar
para a cama.

Senta-se ao pé do rapaz, afagando-o suavemente até ele adormecer. Quero


viver contigo. E se esse desejo cruelmente se concretizar? Terá ele
capacidade de ser simultaneamente pai e mãe do rapaz, de o criar para o
bem mantendo durante todo o tempo o emprego nas docas?

Amaldiçoa-se interiormente. Se tivesse defendido a sua causa com mais


calma, mais racionalmente! Mas não, tinha de se comportar como um louco,
a crivar a pobre mulher com as suas suplicas e as suas exigências.

98

Fique com este miúdo! Seja a sua mãe única! Seria melhor ter encontrado
maneira de lhe pôr a criança nos braços, corpo com corpo, carne com
carne. Nessa altura poderiam ter sido reanimadas recordações enterradas
mais fundo que todo o pensamento e tudo teria acabado em bem. Mas,
desgraçadamente, viera de repente de mais para ela, este grande momento,
como viera de repente de mais para ele. Explodira sobre ele como uma
estrela e ele falhara-o.

99

Capítulo 10

Acontece, porém, que nem tudo está perdido. Precisamente ao bater do


meio-dia, o rapaz corre pela escada acima, num estado de grande
excitação.

- Estão aqui, estão aqui! - grita.

- Quem está aqui?

- A senhora da Residência! A senhora que vai ser minha mãe! Veio de


carro.

A senhora, que chega à porta envergando um vestido azul-escuro bastante


cerimonioso, um curioso chapelinho com um garrido alfinete de ouro e -
ele não acredita no que os seus olhos vêem - luvas brancas, como se fosse
visitar um advogado, não vem sozinha. Acompanha-a o jovem alto e esguio
que tão competentemente se bateu contra dois adversários no campo de
ténis.

- O meu irmão Diego - explica.

Diego dirige-lhe um aceno de cabeça mas não diz uma palavra.

- Sentem-se, façam favor - diz ele aos hóspedes. - Se não se importam de


usar a cama... Ainda não comprámos mobília. Posso oferecer-lhes um copo
de água? Não?

A senhora de La Residência empoleira-se na cama ao lado do irmão; puxa


nervosamente as luvas e aclara a garganta.

101

- É capaz de nos repetir o que disse ontem? - pergunta ela. - Comece pelo
princípio, pelo princípio de tudo.

- Se eu começasse pelo princípio de tudo, ficaríamos aqui o dia inteiro -


retruca ele, tentando parecer circunspecto, tentando acima de tudo
parecer assisado. - Deixem-me antes dizer o seguinte.
Nós, o David e eu, viemos para aqui, como toda a gente, por uma vida
nova, por um novo começo. O que eu quero para o David, o que o David quer
também, é uma vida normal como a de qualquer outro jovem. Mas, está bem
de ver, para ter uma vida normal ele precisa duma mãe, precisa de nascer
duma mãe, por assim dizer. Digo bem, não digo? - pergunta, virando-se
para o rapaz. - É o que tu queres. Queres a tua própria mãe.

O rapaz acena vigorosamente com a cabeça.

- Eu sempre tive a certeza (não me perguntem porquê) de que conheceria a


mãe do David quando a visse; e agora que a conheci sei que estava certo.
Não pode ter sido o acaso que nos levou a La Residência. Deve ter havido
alguma mão a guiar-nos.

Segundo lhe parece, é Diego que vai ser o osso duro de roer: Diego, e não
a mulher, cujo nome ele não sabe e não quer perguntar. A mulher não
estaria ali se não estivesse pronta a deixar-se influenciar.

- Uma mão invisível - repete ele. - De verdade.

O olhar de Diego trespassa-o. Mentiroso!, é o que diz. Ele toma fôlego.

- A senhora tem dúvidas, bem vejo. Como pode este miúdo que nunca vi na
vida ser meu filho?, pergunta a si mesma. Imploro-lhe: ponha a dúvida de
lado e dê antes ouvidos ao que o seu coração diz. Olhe para ele. Olhe
para o rapaz. O que diz o seu coração?

A mulher não dá resposta, não olha sequer para o rapaz, mas vira-se para
o irmão, como quem diz: Estás a ver?É como eu te dizia. Ouve bem esta
inacreditável, esta louca proposta dele! Que hei de fazer?

Em voz baixa, o irmão fala.

102

- Há algum sítio privado para onde possamos ir, você e eu?

- Claro. Podemos ir lá para fora.

Conduz Diego pela escada abaixo, atravessando o pátio e transpondo o


relvado, até a um banco à sombra de uma árvore.

- Sente-se - diz. Diego ignora o convite. Senta-se ele. - Em que posso


ajudá-lo? - pergunta.

Diego assenta uma perna no banco e inclina-se para ele.

- Para começar, quem é você e porque anda atrás da minha irmã?

- Quem eu sou não importa. Eu não sou importante. Sou uma espécie de
criado. Cuido do miúdo. E não ando atrás da sua irmã. Ando atrás da mãe
do miúdo. Há uma diferença.
- Quem é o miúdo? Onde foi que o recolheu? É seu neto? Onde estão os pais
dele?

- Não é meu neto nem meu filho. Não temos parentesco nenhum.

Encontrámo-nos acidentalmente no barco quando ele perdeu uns documentos


que trazia. Mas que importância pode ter isso? Chegamos aqui, todos nós,
você, eu, a sua irmã, o rapaz, completamente limpos do passado. Calha o
rapaz estar ao meu cuidado. Pode não ser um destino que eu escolha para
mim, mas aceito-o. Com o tempo ele acabou por depender de mim.

Afeiçoámo-nos muito um ao outro. Mas eu não posso ser tudo para ele. Não
posso ser mãe dele.

«A sua irmã (desculpe, não sei o nome dela) é a mãe dele, a sua mãe
natural. Não posso explicar como isso acontece, mas é assim, é tão
simples como isso. E lá no fundo ela sabe-o. Por que razão pensa que ela
aqui está hoje, a não ser por isso? A superfície pode parecer calma, mas
por baixo da superfície percebo que a empolga, esta grande dádiva, a
dádiva duma criança.

- Não são permitidas crianças em La Residência.

- Ninguém se atreveria a separar uma mãe do seu filho, diga o livro das
regras o que disser.

103
Além disso a sua irmã não tem de continuar a viver em La Residência.
Podia mudar-se para este apartamento. É dela. Eu cedo-lho. Arranjo outro
sítio para morar. Curvando-se para diante como que para falar em
confidência, Diego dá-lhe uma súbita bofetada. Sobressaltado, tentando
escudar-se, ele é atingido por outra palmada. Não são pancadas fortes,
mas abalam-no.

- Porque é que faz isso? - exclama, levantando-se.

- Eu não sou nenhum palerma! - brada Diego entre dentes. - Acha que eu
sou algum palerma? - E volta a levantar uma mão ameaçadora.

- Não penso nem mais ou menos que você seja um palerma. -Precisa de
aplacar este jovem, que deve estar transtornado (quem não o estaria?) com
esta insólita intervenção na sua vida. - É uma história invulgar, admito.
Mas pense um pouco no miúdo. As necessidades dele são aquilo que mais
importa.

Os seus rogos não surtem efeito. Diego olha-o tão belicosamente como
antes. Ele joga a sua última cartada.

- Ora vamos, Diego - diz -, consulte o seu coração! Se há boa vontade no


seu coração, não vai certamente privar uma criança da sua mãe!

- Não lhe compete a si duvidar da minha boa vontade - replica Diego.

- Então prove-a! Volte comigo e prove ao miúdo de quanta boa vontade é


capaz. Venha! - E levanta-se e dá o braço a Diego.

Depara-se-lhes um estranho espetáculo. A irmã de Diego está ajoelhada na


cama de costas para eles, cavalgando o rapaz - deitado de barriga para
cima debaixo dela -, com o vestido arregaçado, permitindo um vislumbre
das coxas sólidas, bastante fortes.

- Onde está a aranha, onde está a aranha...? - cantarola ela numa voz
estridente e fina. Os seus dedos correm pelo peito dele abaixo até à
fivela do cinto; faz-lhe cócegas, convulsionando-o de riso desamparado.

104

- Estamos de volta - anuncia ele em voz alta. Ela salta precipitadamente


da cama, de rosto afogueado.

- A Inês e eu estamos a fazer um jogo - diz o rapaz.

Inês! É então esse o nome! E no nome a essência!

- Inês! - diz o irmão, fazendo-lhe secamente sinal. Puxando o vestido


para baixo, ela apressa-se a segui-lo. Vindos do corredor, ouvem-se
sussurros furiosos. Inês torna a entrar, com o irmão atrás.
- Queremos que diga tudo outra vez - diz.

- Querem que eu repita a minha proposta? -Sim.

- Muito bem. Proponho que se torne a mãe do David. Renuncio a qualquer


direito sobre ele (ele arroga-se direitos sobre mim, mas isso é outra
questão). Assinarei qualquer documento que me apresentem a confirmá-lo. A
senhora e ele podem viver juntos como mãe e filho. É uma coisa que pode
acontecer assim que quiser.

Diego emite um assopro exasperado.

- Isto é tudo um disparate! - exclama. - Tu não podes ser a mãe deste


miúdo, ele já tem mãe, a mãe da qual nasceu! Sem autorização da mãe não
podes adotá-lo. Escuta o que te digo!

Ele troca um olhar mudo com Inês.

- Eu quero-o - diz ela, dirigindo-se não a ele, mas ao irmão. - Quero-o -


repete. - Mas não podemos ficar em La Residência.

- Tal como disse ao seu irmão, pode perfeitamente mudar-se para aqui.
Pode ser já hoje. Eu mudo-me imediatamente. Esta será a sua nova casa.

- Eu não quero que te vás embora - diz o rapaz.

- Não vou para longe, meu rapaz. Vou para casa da Elena e do Fidel. Tu e
a tua mãe podem visitar-nos sempre que quiserem.

- Eu quero que fiques aqui - diz o rapaz.

105

- É muito bonito da tua parte, mas eu não posso intrometer-me entre ti e


a tua mãe. A partir de agora, tu e ela vão estar juntos. Serão uma
família. Eu não posso fazer parte da família. Mas serei um ajudante, um
criado e um ajudante. Prometo. - Vira-se para Inês. - Estamos combinados?

- Sim. - Agora que se decidiu, Inês passou a ser bastante imperiosa. -


Voltamos amanhã. Traremos o nosso cão. Os seus vizinhos porão objeções a
um cão?

- Não se atreveriam.

Quando Inês e o irmão regressam na manhã seguinte, ele já varreu o chão,


esfregou os ladrilhos e mudou a roupa de cama; os seus pertences estão
numa trouxa, prontos para a partida.

Diego encabeça o cortejo que entra, trazendo uma grande mala ao ombro.
Deixa-a cair na cama.

- Há mais a caminho - anuncia de modo agoirento. E de facto há: um baú,


ainda maior, e uma pilha de roupa de cama que inclui um largo edredão.

Ele, Simón, não protela a partida.


- Porta-te bem - diz ao rapaz. - Ele não come pepino - diz a Inês. - E
deixe uma luz acesa quando ele se for deitar; ele não gosta de dormir às
escuras.

Ela não dá mostras de o ter ouvido.

- Está frio, aqui - observa, esfregando as mãos. - Está sempre assim tão
frio?

- Vou comprar um aquecedor elétrico. Trago-o amanhã ou depois. - A Diego


estende a mão, que ele aceita com relutância. Depois pega na sua trouxa
e, sem um olhar à retaguarda, sai a passos largos.

Tinha anunciado que ficaria em casa de Elena, mas de facto não é isso que
tem em mente. Dirige-se às docas, desertas ao fim de semana, e arruma os
seus pertences no pequeno barracão junto ao Molhe Dois onde os homens
guardam o equipamento. Depois regressa a pé aos Blocos e bate à porta de
Elena.

106

- Olá - diz -, podemos ter uma conversa? Enquanto tomam chá, esboça-lhe
as novas disposições.

- Tenho a certeza de que o David vai desabrochar, agora que tem uma mãe
para cuidar dele. Não era bom para ele ser criado só por mim. Estava
sujeito a demasiada pressão para se tornar um homenzinho. As crianças
precisam de ter a sua infância, não achas?

- Não posso acreditar no que ouço - responde Elena. - Uma criança não é
como um pintainho que se pode pôr debaixo da asa de uma galinha estranha
para que o crie. Como é que pudeste confiar o David a uma pessoa que
nunca tinhas visto na vida, a uma mulher que provavelmente está a agir
por capricho e que perderá o interesse antes do fim da semana e quererá
devolvê-lo?

- Por favor, Elena, não faças juízos sobre a Inês antes de a conheceres.
Ela não está a agir por capricho; pelo contrário, julgo que está a agir
sujeita a uma força mais poderosa do que ela. Estou a contar contigo para
nos ajudares, para a ajudares. Ela está em território desconhecido; não
tem experiência de ser mãe.

- Eu não estou a fazer juízos sobre essa tua Inês. Se ela pedir ajuda,
dar-lha-ei. Mas ela não é a mãe do teu rapaz e tu devias deixar de lhe
chamar isso.

- Elena, ela é mesmo a mãe dele. Cheguei a esta terra despojado de tudo
menos duma convicção férrea: que conheceria a mãe do rapaz quando a
visse. E no instante em que vi a Inês soube que era ela.

- Seguiste uma intuição?

- Mais que isso. Uma convicção.


- Uma convicção, uma intuição, uma ilusão: que diferença faz, quando não
pode ser questionada? Não te passou pela cabeça que se todos vivêssemos
segundo as nossas intuições o mundo mergulharia no caos?

- Não sei por que razão isso decorre. E que mal faz um pouco de caos de
vez em quando se daí advier algo de bom?

107

Elena encolhe os ombros.

- Não quero entrar em discussão. Hoje o teu filho faltou à lição. Já não
é a primeira a que falta. Se ele vai desistir da música, faz o favor de
me avisares.

- Já não me cabe a mim decidir isso. E, mais uma vez, ele não é meu
filho, eu não sou pai dele.

- Palavra? Estás sempre a negá-lo, mas às vezes fico na dúvida. Não digo
mais nada.

Onde é que vais passar a noite? No seio da tua recém-descoberta família?

-Não.

- Queres dormir aqui? Ele levanta-se da mesa.

- Obrigado, mas já tomei outras disposições.

Tendo em conta que as pombas que fazem ninho no algeroz estão


constantemente a arranhar, a rumorejar e a arrulhar, dorme bastante bem
nessa noite, na sua cama de sacos no pequeno esconderijo. Passa sem
pequeno-almoço, e contudo consegue trabalhar o dia inteiro e sentir-se
bem quando ele chega ao fim, apesar de um pouco etéreo, um pouco
espectral.

Álvaro pergunta pelo rapaz, e ele fica tão emocionado com a preocupação
de Álvaro que por momentos pensa dar-lhe a boa notícia, a notícia de que
encontraram a mãe do rapaz. A seguir, porém, tendo em atenção a reação de
Elena à mesmíssima notícia, refreia-se e diz uma mentira: David foi
levado pela professora a um grande concurso de música.

Um concurso de música, diz Álvaro, parecendo dubitativo: o que é, e onde


é que decorre?

Não faço ideia, responde ele, e muda de assunto.

Afigura-se-lhe que seria pena o rapaz perder contacto com Álvaro e nunca
mais ver o seu amigo El Rey, o cavalo de tiro. Espera que, quando tiver
reforçado os laços com ele, Inês permita que o rapaz vá às docas.

108
O passado está tão envolto em nuvens de esquecimento que ele não pode ter
a certeza de que as suas recordações sejam verdadeiras recordações, e não
meras histórias que inventa; mas sabe, isso sim, que teria adorado, em
criança, que o deixassem sair logo de manhã na companhia de adultos e
passar o dia a ajudá-los a carregar e descarregar grandes navios. Uma
dose de realidade não pode deixar de fazer bem à criança, segundo lhe
parece, desde que a dose não seja demasiado repentina nem demasiado
grande.

Tencionara passar pelo Naranjas para comprar provisões, mas deixou-o para
demasiado tarde: quando lá chega a loja está fechada. Sentindo fome, e
também solidão, volta a bater à porta de Elena. É Fidel que vem abrir, de
pijama.

- Olá, jovem Fidel - diz ele -, posso entrar?

Elena está sentada à mesa, a costurar. Não o cumprimenta e não levanta os


olhos do trabalho.

- Olá - diz ele. - Passa-se alguma coisa? Aconteceu alguma coisa? Ela
abana a cabeça.

- O David não pode vir mais aqui a casa - informa Fidel. - A senhora nova
diz que não pode.

- A senhora nova - diz Elena - anunciou que o teu filho não está
autorizado a brincar com o Fidel.

- Mas porquê?

Ela encolhe os ombros.

- Dá-lhe tempo para se adaptar - diz ele. - Ser mãe é uma coisa nova para
ela. É natural que ao princípio seja um pouco errática.

- Errática?

- Errática nos juízos. Cautelosa de mais.

- Como proibir o David de brincar com os amigos?

- Ela não te conhece a ti nem ao Fidel. Quando vier a conhecer-vos, verá


a boa influência que vocês são.

109

- E como propões tu que ela venha a conhecer-nos?

- É natural que tu e ela se cruzem. No fim de contas, são vizinhas.

- Veremos. Já comeste?

- Não. Quando lá cheguei as lojas já estavam fechadas.


- Queres dizer o Naranjas. O Naranjas fecha à segunda-feira. Eu podia
ter-to dito. Posso oferecer-te uma tigela de sopa, se não te importas de
repetir a de ontem à noite. Onde é que estás a morar agora?

- Tenho um quarto perto das docas. É um bocado primitivo, mas para já


serve.

Elena aquece uma panela de sopa e corta pão para ele. Ele procura comer
devagar, embora de facto esteja com uma fome canina.

- Lamento, mas não podes ficar cá esta noite - diz ela. - Tu sabes
porquê.

- Claro, eu não estou a pedir para ficar. Os meus novos alojamentos são
perfeitamente confortáveis.

- Foste expulso, não foste? Da tua casa. A verdade é essa. Eu bem vejo.
Pobrezinho. Separado do teu rapaz, de que tanto gostas.

Ele levanta-se da mesa.

- Tem de ser - declara. - É a natureza das coisas. Obrigado pela


refeição.

- Vem outra vez amanhã. Eu dou-te de comer. É o mínimo que posso fazer.
Dar-te de comer e consolar-te. Embora pense que cometeste um erro.

Ele despede-se. Devia ir diretamente para o seu novo lar nas docas. Mas
hesita e a seguir atravessa o pátio, sobe as escadas e bate de leve à
porta do seu antigo apartamento. Há uma fresta de luz por baixo da porta:
Inês ainda deve estar a pé. Depois de uma longa espera volta a bater.

110

- Inês? - sussurra. A um palmo de distância do outro lado ouve-a:

- Quem está aí?

- É o Simón. Posso entrar?

- O que é que quer?

- Posso vê-lo? Só por um minuto.

- Ele está a dormir.

- Eu não o acordo. Quero só vê-lo.

Silêncio. Experimenta a porta. Está fechada à chave. Um momento depois a


luz apaga-se.

Capítulo 11
Ao fixar residência nas docas está provavelmente a infringir um
regulamento qualquer. Isso não o preocupa. No entanto, não quer que
Álvaro descubra, porque, com o seu coração bondoso, é natural que Álvaro
pense que tem de lhe oferecer um lar.

Assim, todas as manhãs, antes de sair do barracão, tem o cuidado de

encafuar todos os seus pertences nas traves, onde ninguém os veja.

Andar limpo e asseado é um problema. Vai tomar duche ao ginásio dos


Blocos Orientais; lava a roupa à mão e estende-a nas cordas dos Blocos
Orientais. Não tem escrúpulos em fazê-lo - no fim de contas, ainda figura
na lista de residentes - mas, por prudência, não querendo deparar-se com
Inês, só lá vai depois do anoitecer.

Passa-se uma semana durante a qual consagra todas as suas energias ao


trabalho. Depois, uma sexta-feira, com os bolsos cheios de dinheiro, bate
à porta do seu antigo apartamento.

A porta é aberta de rompante por Inês, sorridente. A cara fecha-se-lhe ao


vê-lo.

- Ah, é você - diz. - Estamos mesmo para sair.

Por detrás dela surge o rapaz. Há qualquer coisa de estranho no seu


aspeto.

113

Não é apenas o facto de vestir uma nova camisa branca (aliás mais blusa
do que camisa - tem o peitilho pregueado e cai-lhe solta sobre as
calças): fica agarrado às saias de Inês, sem corresponder ao seu
cumprimento, fitando-o com aqueles grandes olhos.

Passou-se alguma coisa? Terá sido um erro calamitoso entregá-lo a esta


mulher? E porque tolera ele aquela excêntrica e feminina blusa, ele que
tanto se afeiçoara à sua indumentária de homenzinho, ao casaco, ao boné e
às botas de atacadores? Porque também as botas desapareceram,
substituídas por sapatos: uns sapatos azuis de presilhas em lugar de
atacadores e com botões de latão dos lados.

- Nesse caso foi uma sorte apanhá-los - volve ele, tentando manter um tom
frívolo. - Trouxe o aquecedor elétrico que tinha prometido.

Inês lança uma olhadela dubitativa ao pequeno aquecedor de uma só barra


que ele lhe estende.
- Em La Residência há lareira em todos os apartamentos - declara. - Há um
homem que todas as tardes traz lenha e acende o lume. - Faz uma pausa,
abstratamente. - É encantador.

- Desculpe. Deve ser passar de cavalo a burro, ter de viver nos Blocos. -
Volta-se para o rapaz. - Com que então vais sair à noite. E onde é que
vais?

O rapaz não dá uma resposta direta, erguendo o olhar para a sua nova mãe,
como quem diz: Diz-lhe tu.

- Vamos passar o fim de semana a La Residência - diz Inês. E, como que a


confirmá-la, aparece Diego, todo vestido de branco como se fosse jogar
ténis, transpondo o corredor a passos largos.

- Que bom - observa ele. - Julgava que em La Residência não eram


permitidas crianças. Julgava que a regra era essa.

- E é a regra - diz Diego. - Mas ao fim de semana o pessoal está de


folga. Não há ninguém a controlar.

- Ninguém a controlar - repete Inês.

114

- Bem, eu passei só para saber se estava tudo bem, e talvez para aiudar
nas compras. Tome: trouxe uma pequena contribuição.

Sem uma palavra de agradecimento, Inês aceita o dinheiro.

- Sim, está tudo bem connosco - diz. Aperta o rapaz com força contra o
flanco. - Tivemos uma grande almoçarada e depois fizemos uma sesta e
agora vamos de carro para o pé do Bolívar e amanhã de manhã vamos jogar
ténis e tomar banho.

- Isso parece emocionante - comenta ele. - E também temos uma bela camisa
nova, estou a ver.

O rapaz não responde. Com o dedo na boca, não parou de o fitar com
aqueles olhos grandes. Ele está cada vez mais convencido de que se passa
qualquer coisa.

- Quem é o Bolívar? - pergunta. Pela primeira vez o rapaz fala.

- O Bolívar é um lobo de Assación.

- De Alsácia - esclarece Inês. - O Bolívar é o nosso cão.

- Ah, sim, Bolívar - torna ele. - Estava com vocês no campo de ténis, não
estava? Não quero ser alarmista, Inês, mas os lobos-d'alsácia têm fama de
não ser muito aconselháveis para as crianças. Espero que tenham cuidado.

- O Bolívar é o cão mais meigo do mundo.


Ele sabe que ela não gosta dele. Até este momento, supôs que fosse por
estar em dívida para com ele. Mas não, a antipatia é mais pessoal e mais
imediata do que isso, e por conseguinte mais rebelde. Que pena! O miúdo
vai aprender a encará-lo como um inimigo, o inimigo da beatitude de mãe e
filho de que eles gozam.

- Diverte-te - diz ele. - Talvez volte a passar por cá na segunda-feira.


Nessa altura podes contar-me a história toda. Combinado?

O rapaz acena com a cabeça. -Adeus- diz ele.

- Adeus - diz Inês. De Diego nem uma palavra.

115

Arrasta-se de volta às docas com a sensação de que há qualquer coisa que


expirou em si, sentindo-se um velho. Tinha uma grande tarefa e essa
tarefa foi desempenhada. O rapaz foi entregue à mãe. Como um daqueles
desconsolados insetos machos cuja única função é transmitir a semente à
fêmea, agora bem podia definhar e morrer. Não resta coisa alguma à volta
da qual construir a vida.

Tem saudades do rapaz. Acordar na manhã seguinte com o vazio fim de


semana pela frente é como acordar após uma operação e verificar que lhe
cortaram um membro; um membro ou talvez mesmo o coração. Passa o dia a
andar sem destino, matando o tempo. Vagueia pelas docas vazias; deambula
de um lado para outro pelo parque urbano, onde uma porção de crianças
joga à bola ou lança papagaios.

A sensação da mãozinha transpirada do rapaz na sua está ainda nitidamente


viva em si. Se o rapaz o amava, não sabe, mas o certo é que precisava
dele e confiava nele. As crianças pertencem à mãe; nem por um momento o
negaria. Mas... e se a mãe não for uma boa mãe? E se Elena tiver razão?
Devido a que complexo de carências privadas agarrou esta Inês, de cuja
história não sabe uma linha, a oportunidade de ter uma criança sua?
Talvez haja sabedoria na lei da natureza que dita que, antes de poder vir
ao mundo como um ser vivo, o ser embrionário, o ser-que-há-de-ser, tenha
de se conservar durante um certo tempo no ventre materno. Talvez, à
semelhança das semanas de introversão que a mãe ave passa poisada sobre
os seus ovos, seja necessário um período de retiro e ensimesmamento não
apenas para o animálculo passar a ser humano, mas também para a mulher
passar de virgem a mãe.

De alguma forma, o dia acaba por passar. Pensa em ir a casa de Elena, mas
à última hora muda de ideias, incapaz de enfrentar o importuno
interrogatório que ali o aguarda. Não comeu, não tem apetite. Deita-se na
sua cama de sacos, inquieto, agitado.

116
Na manhã seguinte, ao raiar do dia, está na estação rodoviária, passa uma
hora antes de chegar o primeiro autocarro. Chegado ao fim da linha, sobe
a encosta que leva a La Residência e vai até ao campo de ténis. O campo
está deserto. Instala-se nas moitas, à espera.

Às dez horas o segundo irmão, aquele ao qual ainda não teve o prazer de
ser apresentado, chega vestido de branco e começa a montar a rede. Não
presta atenção ao estranho que está bem à vista a menos de trinta passos.
Passado algum tempo aparece o resto do grupo.

O rapaz vê-o imediatamente. A sua maneira cambada (é um corredor


desajeitado), precipita-se para o outro lado do campo.

- Simón! Vamos jogar ténis! - exclama. - Queres jogar também?

Ele agarra os dedos do rapaz através da rede.

- Não sou grande jogador de ténis - diz. - Antes quero assistir. Estás a
divertir-te? Alimentas-te como deve ser?

O rapaz acena vigorosamente com a cabeça.

- Ao lanche bebi chá. A Inês diz que eu já tenho idade para beber chá. -
Vira-se e grita: - Eu posso beber chá, não posso, Inês? - Depois, sem se
deter, continua impetuosamente: - E dei de comer ao Bolívar e a Inês diz
que eu posso ir passear o Bolívar a seguir ao ténis.

- Bolívar, o lobo-d'alsácia? Tem cuidado com o Bolívar, por favor. Não o


provoques.

- Os lobos-d'alsácia são os melhores cães. Quando apanham um ladrão não o


largam. Queres ver-me a jogar ténis? Ainda não sou muito bom, tenho de
praticar primeiro. - E com isto gira nos calcanhares e volta a correr
para onde Inês e os irmãos estão de pé a conferenciar. - Podemos praticar
agora?

Equiparam-no com uns calções brancos curtos. Por isso, com a blusa
branca, está todo de branco, à exceção dos sapatos azuis de presilhas.

117

Mas a raquete de ténis que lhe deram é grande de mais: mesmo com as duas
mãos mal consegue fazê-la rodar.

Bolívar, o lobo-d'alsácia, atravessa furtivamente o campo e instala-se à


sombra. Bolívar é um macho, com enormes quartos dianteiros e uma gola
negra. No aspeto, não difere grandemente de um lobo.

- Anda cá, grande homem! - exclama Diego. Coloca-se por cima do rapaz,
com as mãos a rodearem as do rapaz, que seguram a raquete. O outro irmão
lança uma bola. Giram em uníssono e acertam-lhe em cheio. O irmão lança
outra bola. Tornam a apanhá-la. Diego recua.

- Não há nada que eu lhe possa ensinar - exclama ele para a irmã. - É um
tenista nato. - O irmão lança uma terceira bola. O rapaz faz girar a
pesada raquete e falha, por pouco não caindo, com o esforço.

- Joguem vocês os dois - grita Inês aos irmãos. - O David e eu vamos


bater bolas.

Com serena competência, os dois irmãos fazem a bola passar para um e


outro lado por cima da rede, enquanto Inês e o rapaz desaparecem atrás do
pequeno pavilhão de madeira. Ele, el viejo, o mudo espectador, é
simplesmente ignorado. Não podia ser mais claro que é indesejável.

118

Capítulo 12

Jurou guardar as suas mágoas para si, mas, quando Álvaro lhe pergunta
pela segunda vez o que é feito do rapaz («Tenho saudades dele, todos
temos saudades dele»), sai-lhe num desabafo a história inteira.

- Fomos à procura da mãe dele e, imagina lá tu, encontrámo-la -diz ele. -


Agora reencontraram-se e estão muito felizes juntos. Infelizmente o
género de vida que a Inês tem em mente para ele não inclui andar nas
docas com os homens. Inclui boas roupas e boas maneiras e refeições
regulares. O que é bastante razoável, acho eu.

Claro que é bastante razoável. Que direito tem ele de se queixar?

- Deve ser um golpe para ti - comenta Álvaro. - O miúdo é especial.


Qualquer pessoa dá por isso. E tu e ele eram muito chegados.

- Éramos chegados, sim. Mas não é propriamente como se eu nunca mais o


visse. E só que a mãe acha que ele e ela reatarão os laços com mais
facilidade se eu sair de cena por uns tempos. O que também é bastante
razoável.

- Pois é - torna Álvaro. - Mas ignora os anseios do coração, não é?

119

Os anseios do coração: quem imaginaria que Álvaro possuísse o dom de se


expressar daquela maneira? Um homem forte e verdadeiro. Um camarada.
Porque não há de ele abrir francamente o seu coração a Álvaro? Mas não:
- Eu não tenho o direito de fazer exigências - ouve a sua própria voz
dizer. Hipócrita! - Além disso, os direitos da criança prevalecem sempre
sobre os direitos dos adultos. Não é um princípio da lei? Os direitos da
criança como precursora do futuro.

Álvaro dirige-lhe um olhar cético.

- Nunca ouvi falar de semelhante princípio.

- Uma lei da natureza, então. Os laços de sangue são mais fortes que
todos os outros. As crianças devem estar com a mãe. Em particular as
crianças mais pequenas. Em comparação, as minhas pretensões são muito
abstratas, muito artificiais.

- Tu tens-lhe amor. Ele tem-te amor. Isso não é artificial. A lei é que é
artificial. Ele devia estar contigo. Precisa de ti.

- É simpático da tua parte dizer isso, Álvaro, mas ele precisa


verdadeiramente de mim? Talvez a verdade seja que sou eu que preciso
dele. Talvez eu me apoie mais nele do que ele em mim. Aliás, quem sabe
como escolhemos aqueles que amamos? É tudo um grande mistério.

Nessa tarde ele tem uma visita surpresa: o jovem Fidel, que chega às
docas na sua bicicleta, trazendo uma mensagem rabiscada: Temos estado à
tua espera. Faço votos por que não haja novidade. Queres vir cá jantar
esta noite? Elena.

- Diz à tua mãe: Obrigado, lá estarei - diz ele a Fidel.

- Isto é o teu trabalho? - pergunta Fidel.

- É, é isto que eu faço. Ajudo a carregar e descarregar navios como este.


Desculpa não te poder levar a bordo, mas é um bocado perigoso. Um dia,
quando fores mais velho, talvez.

- É um galeão?

120

- Não. Não tem velas, de maneira que não se pode classificar como um
galeão. É aquilo a que chamamos um navio a carvão. Quer dizer que queima
carvão para fazer funcionar as máquinas que o movem. Amanhã vão carregar
carvão para a viagem de regresso. Isso vai ser feito no Molhe Dez, e não
aqui. Eu não estou envolvido. Ainda bem. É um serviço tramado.

- Porquê?

- Porque o carvão deixa-nos cobertos de pó preto, até nos cabelos. E


também porque o carvão é muito pesado de transportar.

- Porque é que o David não pode brincar comigo?


- Não é que ele não possa brincar contigo, Fidel. É só que a mãe quer
estar sozinha com ele por uns tempos. Há muito tempo que não o via.

- Eu julgava que tinhas dito que ela nunca o tinha visto.

- É uma maneira de falar. Viu-o nos seus sonhos. Sabia que ele estava
para vir. Estava à espera dele. Agora ele veio e ela não cabe em si de
contente. Tem o coração repleto.

O rapaz fica em silêncio.

- Agora tenho de voltar para o trabalho, Fidel. Logo à noite vou ter
contigo e com a tua mãe.

- Ela chama-se Inês?

- A mãe do David? Chama-se Inês, sim.

- Não gosto dela. Tem um cão.

- Não a conheces. Quando a conheceres vais gostar dela.

- Não vou nada. E um cão feroz. Tenho medo dele.

- Eu já vi o cão. Chama-se Bolívar e concordo, deves evitá-lo.

É um lobo-d'alsácia. Os lobos-d'alsácia tendem a ser imprevisíveis.


Admira-me que ela o tenha trazido para os Blocos.

- Ele morde?

- Pode morder.

121

- E onde exatamente é que estás a morar - pergunta Elena -, agora que


cedeste o teu belo apartamento?

- Já te disse: arranjei um quarto perto das docas.

- Sim, mas onde, exatamente? Numa pensão?

- Não. Não importa onde nem que género de quarto. É suficiente para os
meus fins.

- Tem sítio onde cozinhar?

- Eu não preciso de sítio onde cozinhar. Mesmo que o tivesse, não o


usaria.

- Portanto estás a viver de pão e água. Julgava que estavas farto de pão
e água.
- O pão é o esteio da vida. Quem tem pão não passará privações; para com
o interrogatório, Elena, por favor. Eu sou perfeitamente capaz de cuidar
de mim.

- Duvido. Duvido muito. O pessoal do centro de acolhimento não pode


arranjar-te outro apartamento?

- Tanto quanto o Centro sabe, eu ainda estou convenientemente instalado


no meu antigo apartamento. Não me vão atribuir uma residência secundária.

- E a Inês? Não disseste que a Inês tem casa em La Residência? Porque não
podem ela e o filho ficar lá?

- Porque em La Residência não são permitidas crianças. La Residência é


uma espécie de estância, tanto quanto me é dado perceber.

- Eu conheço La Residência. Já lá fui. Sabes que ela trouxe um cão para


cá? Ter um cão pequeno num apartamento é uma coisa, mas este é um grande
cão de lobo. Não é higiénico.

- Não é um cão de lobo, é um lobo-d'alsácia. Reconheço que também me mete


nervos. Já avisei o David para ter cuidado. E avisei também o Fidel.

122

- Eu não autorizo de maneira nenhuma o Fidel a aproximar-se dele. Tens a


certeza de que agiste como deve ser, entregando o teu miúdo a uma mulher
assim?

- A uma mulher com um cão?

- A uma mulher sem filhos na casa dos trinta. Uma mulher que passa o
tempo a fazer desportos com homens. Uma mulher que tem cães.

- A Inês joga ténis. É uma coisa agradável. Mantém a pessoa em forma. E


só tem um cão.

- Ela contou-te alguma coisa dos seus antecedentes, do seu passado?

- Não. Não lho perguntei.

- Bem, na minha opinião não estás bom da cabeça, entregando o teu miúdo a
uma estranha que, tanto quanto sabes, tem um passado duvidoso.

- Que disparate, Elena! A Inês não tem nenhum passado, nenhum que tenha
valor. Nenhum de nós tem um passado. Aqui começamos tudo de novo.
Começamos com o cadastro limpo, com o cadastro virgem. E a Inês não é uma
estranha. Reconheci-a assim que a vi, o que quer dizer que devo ter um
conhecimento prévio qualquer.

- Chegas aqui sem recordações, com o cadastro limpo, e no entanto


pretendes reconhecer rostos do passado. Isso não faz sentido.
- É verdade: não tenho recordações. Mas as imagens persistem mesmo assim,
tonalidades de imagens. Como isso acontece não sei explicar. Há qualquer
coisa mais profunda que persiste também, a que eu chamo a memória de ter
memória. Não é do passado que eu reconheço a Inês, mas doutro lugar. E
como se a imagem dela estivesse implantada em mim. Não tenho dúvidas
sobre ela, nem rebates. Pelo menos, não tenho dúvidas de que ela é a
verdadeira mãe do rapaz.

123

- Então que dúvidas tens?

- Só espero que ela seja boa para ele.

124

Capítulo 13

Em retrospetiva aquele dia, o dia em que Elena mandou o filho ir ter com
ele às docas, assinala o momento em que ele e ela, que ele imaginara como
dois navios num mar quase sem vento, talvez à deriva, mas à deriva afinal
em direção um ao outro, começaram a derivar cada um para seu lado. Há
muita coisa em Elena de que ele ainda gosta, especialmente a
disponibilidade que ela tem para escutar as suas queixas. Mas o
sentimento de que falta qualquer coisa que teria de haver entre eles
intensifica-se; e se Elena não partilha esse sentimento, se julga que
nada falta, se assim é, não pode ser aquilo que falta na vida dele.

Sentado num banco à entrada dos Blocos Orientais, escreve uma mensagem
para Inês.

Fiz amizade com uma mulher que mora do outro lado do pátio, no Bloco C.
Chama-se Elena. Tem um filho chamado Fidel que se tornou o melhor amigo
do David e exerce uma influência tranquilizadora sobre ele. Para um
jovem, Fidel tem bom coração, verá.

O David tem andado a ter lições de música com a Elena. Veja se consegue
convencê-lo a cantar para si. Ele canta muito bem. A minha sensação é que
ele devia continuar as lições, mas claro que a decisão é sua.

125
O David também se dá bem com o meu capataz do emprego, Álvaro, outro bom
amigo. Ter bons amigos encoraja a pessoa a ser boa também, ou pelo menos
é o que eu acho. Seguir os caminhos do bem: não é isso que ambos
desejamos para o David?

Se houver alguma coisa em que eu possa ajudar (conclui), basta-lhe


levantar um dedo. Estou nas docas, a maior parte dos dias, no Molhe Dois.
O Fidel trará os recados; o David também sabe o caminho.

Mete a mensagem na caixa de correio de Inês. Não espera resposta e de


facto não a recebe. Não tem uma noção clara do género de mulher que Inês
é. Será o género de mulher que está disposta a aceitar conselhos

bem-intencionados, por exemplo, ou será o género que se irrita quando os


estranhos lhe dizem como há de orientar a vida e deita as suas
comunicações ao lixo? Verá sequer a caixa de correio?

Situada na cave dos Bloco F da Aldeia Oriental, o mesmo bloco que aloja o
ginásio comunal, fica um armazém de padaria para a qual ele tem o nome
privado de Manutenção. Está aberta todas as manhãs dos dias úteis das
nove ao meio-dia. Além de pão e de artigos de pastelaria, vende a preços
irrisórios géneros alimentícios básicos como açúcar, sal, farinha e óleo
para cozinhar.

Na Manutenção compra uma provisão de sopa enlatada, que leva para o seu
esconderijo das docas. A sua refeição da noite, quando está sozinho, é
pão e sopa de feijão, fria. Habitua-se à sua monotonia.

Como a maioria dos moradores dos Blocos utiliza a Manutenção, ele imagina
que Inês a utilizará também. Entretém-se com a ideia de ficar por ali uma
manhã na esperança de a ver a ela e ao rapaz, mas depois reconsidera.
Seria demasiado humilhante se ela desse com ele à espreita entre as
prateleiras, a espiá-la.

Não quer tornar-se um fantasma incapaz de largar os seus velhos poisos.

126

Está disposto a aceitar que a melhor maneira de Inês criar confiança com
o miúdo é tê-lo unicamente para si por uns tempos. Mas há um receio
incómodo que ele não consegue dissipar: que o miúdo possa sentir-se só e
infeliz, ansiando por ele. Não consegue esquecer a expressão do olhar do
miúdo quando foi lá a casa, cheia de silenciosa dúvida. Anseia por voltar
a vê-lo como era dantes, com o seu bonezinho de pala e as botas pretas.

De vez em quando cede à tentação e vagueia pelas imediações dos Blocos.


Numa dessas visitas vislumbra Inês a apanhar a roupa do estendal. Embora
não possa ter a certeza, parece cansada, cansada e talvez triste. Será
que as coisas lhe correm mal?

Reconhece a roupa do miúdo no estendal, incluindo a blusa de peitilho


pregueado.
Noutra - e que acaba por ser a última - destas sub-reptícias visitas vê o
trio familiar - Inês, o miúdo e o cão - emergir do bloco e dirigir-se,
pelo relvado fora, na direção do parque. O que o surpreende é que o
rapaz, envergando o seu fato cinzento, em lugar de caminhar, vai num
carrinho de bebé. Que precisão tem um miúdo de cinco anos de andar de
carrinho? Aliás, por que razão ele o permite?

Alcança-os na parte mais bravia do parque urbano, onde uma ponte de


madeira para peões atravessa um curso de água pejado de torrentes.

- Inês! - chama-a.

Inês para e volta-se. O cão volta-se também, afitando as orelhas e


puxando pela trela.

Ele compõe um sorriso ao aproximar-se.

- Que coincidência! Ia a caminho das lojas quando a vi. Como vai? - E a


seguir, sem esperar a sua resposta: - Olá - diz ao rapaz -, vejo que vais
passear. Como um principezinho.

O olhar do miúdo fixa-se no dele e ali fica preso. Invade-o um sentimento


de paz. Está tudo bem. O elo entre eles não se quebrou. Mas tem outra vez
o dedo na boca. Não é um sinal promissor.

127

O dedo na boca significa insegurança, significa um coração inquieto.

- Andamos a passear - diz Inês. - Precisamos de apanhar ar Naquele


apartamento abafa-se.

- Eu sei - volve ele. - Está mal concebido. Eu deixo a janela aberta dia
e noite para o arejar. Quero dizer, costumava deixar a janela aberta.

- Eu não posso fazer isso. Não quero que o David se constipe.

- Ah, ele não se constipa com facilidade. É um sujeito forte... Não és?

O rapaz acena afirmativamente. Tem o casaco abotoado até ao queixo, sem


dúvida para não deixar entrar os germes trazidos pelo vento.

Um longo silêncio. Ele gostaria de se aproximar mais, mas o cão não


afrouxou o seu vigilante olhar raivoso.

- Onde é que arranjou esse - aponta -, esse veículo?

- No armazém familiar.

- O armazém familiar?

- Há um armazém na cidade onde se podem arranjar coisas para crianças.


Também lhe arranjámos um berço.
- Um berço?

- Um berço com grades. Para ele não cair.

- Isso é estranho. Ele dormia numa cama desde que eu me lembro e nunca
caiu.

Ainda antes de terminar, percebe que não devia ter dito aquilo. Inês
aperta os lábios com força, dá a volta ao veículo e afastar-se-ia, não
fosse o facto de a trela do cão se enredar nas rodas e ter de ser
desembaraçada.

- Desculpe - diz ele -, não é minha intenção interferir. Ela não se digna
responder.

Mais tarde, ao relembrar o episódio, pergunta a si mesmo porque será que


não sente nada por Inês como mulher, nem a mais nequena centelha, embora
ela não deixe de ser bonita.

128

Será por ela lhe ser tão hostil e assim ter sido desde o princípio, ou
será que ela não é atraente simplesmente porque se recusa a sê-lo, se
recusa a abrir-se? Será ela realmente virgem, conforme Elena afirma, ou
pelo menos do género virginal? O que ele sabia de virgens perde-se nas
brumas do esquecimento. Será que a aura do virginal reprime o desejo do
homem, ou pelo contrário acicata-o? pensa em Ana, do Centro de
Realojamento, que se lhe afigura uma virgem de uma espécie bastante
feroz. Ana, achava-a ele atraente, sem dúvida. O que tem Ana que Inês não
tenha? Ou deverá a pergunta ser formulada ao contrário: o que tem Inês
que Ana não tenha?

- Ontem encontrei a Inês e o jovem David - conta ele a Elena. - Tu vê-los


muitas vezes?

- Vejo-a a ela aqui pelos Blocos. Nunca nos falámos. Não me parece que
ela queira grandes convivências com os moradores.

- Imagino que, para quem esteja habituado à vida em La Residência, seja


difícil dar consigo a morar nos Blocos.

- Morar em La Residência não a torna melhor do que nós. Todos partimos de


nenhures, do nada. O fator de ela ter ido parar lá é apenas uma questão
de sorte.

- Como achas que ela está a lidar com o facto de ser mãe?

- É muito protetora em relação ao miúdo. Demasiado protetora, na minha


opinião. Vigia-o como um falcão e não o deixa brincar com as outras
crianças. Tu sabes isso. O Fidel não consegue perceber. Sente-se magoado.

- Lamento. Que mais viste?


- Os irmãos vêm visitá-la imenso. Têm carro, um daqueles de quatro
lugares com tejadilho de enrolar, um descapotável, acho que é como se
chama. Saem todos de carro e voltam depois do anoitecer.

129

- O cão também?

- O cão também. Onde quer que a Inês vá, o cão vai. Ele faz-me arrepios.
Parece uma mola sob tensão. Um dia destes ainda ataca alguém. Só rezo
para que não seja o miúdo. Não se pode convencê-la a pôr-lhe um açaime?

- Não há possibilidade disso.

- Bem, eu acho que é uma loucura ter um cão violento com uma criança
pequena em casa.

- Não é um cão violento, Elena, é só um pouco imprevisível. Imprevisível


mas fiel. Isso é o que parece importar mais à Inês. A fidelidade, a
rainha das virtudes.

- Palavra? Eu não lhe chamaria isso. Chamar-lhe-ia uma virtude de média


categoria, como a temperança.

O tipo de virtude que se procuraria num soldado. A Inês também me parece


uma espécie de cão de guarda, sempre a rondar o David, a desviá-lo do
perigo. Por que carga de água escolheste uma mulher assim? Tu eras melhor
pai para ele do que ela é mãe.

- Isso não é verdade. Uma criança não pode crescer sem a mãe. Não foste
tu própria que o disseste: é à mãe que a criança deve a sua substância,
ao passo que o pai se limita a fornecer a ideia? Uma vez transmitida a
ideia, o pai é dispensável. E neste caso eu nem sequer sou o pai.

- Uma criança precisa do ventre da mãe para vir ao mundo. Depois de


deixar o ventre, tanto a mãe enquanto dadora de vida como o pai são
forças gastas. A partir de então a criança precisa é de amor e carinho,
que um homem pode proporcionar tão bem como uma mulher. A tua Inês não
sabe nada de amor e carinho. É uma rapariguinha com uma boneca, uma
rapariguinha invulgarmente invejosa e egoísta que não deixa mais ninguém
tocar no seu brinquedo.

- Que disparate! Tu és muito lesta a condenar a Inês, e no entanto mal a


conheces.

130

- E tu? Até que ponto a conhecias quando lhe passaste o teu precioso
encargo? Não era preciso investigar as suas qualificações
como mãe, disseste tu: podias confiar na intuição. Reconhecerias a mãe
dele num ápice, mal poisasses os olhos nela. Intuição: que espécie de
base é essa para decidir o futuro duma criança?

- Nós já tínhamos discutido isso, Elena. Que mal tem a intuição nata? No
fim de contas, que mais há em que possamos confiar?

- O bom senso. A razão. Qualquer pessoa razoável te teria alertado para o


facto de uma virgem de trinta e um anos habituada a uma vida de
ociosidade, isolada do mundo real, guardada por dois irmãos a atirar para
o rufião, não daria uma mãe de confiança. Além disso, qualquer pessoa
razoável teria procurado informações sobre esta Inês, explorado o seu
passado, avaliado o seu caráter. Qualquer pessoa razoável teria imposto
um período experimental, para se certificar de que eles se davam bem, o
miúdo e a enfermeira.

Ele abana a cabeça.

- Continuas a equivocar-te. A minha tarefa era levar o rapaz à mãe. Não


era levá-lo a uma mãe, a uma mulher que passasse em qualquer teste de
maternidade. Não importa que pelos teus critérios ou pelos meus a Inês
não seja particularmente boa mãe. O facto é que é a mãe dele. Ele está
com a mãe dele.

- Mas a Inês não é a mãe dele! Não foi ela que o concebeu! Não o trouxe
no ventre! Não o deu à luz com sangue e dor! É apenas alguém que tu
escolheste por capricho, tanto quanto eu sei porque te fazia lembrar a
tua mãe.

Ele torna a abanar a cabeça.

- Assim que vi a Inês, soube. Se não confiarmos na voz que fala cá


dentro, a dizer: é esta, então não nos resta nada em que confiar.

- Não me faças rir! Vozes interiores! As pessoas perdem dinheiro nas


corridas de cavalos dando ouvidos às vozes interiores.

131

As pessoas metem-se em casos românticos calamitosos dando ouvidos às


vozes interiores. É...

- Eu não estou apaixonado pela Inês, se é aí que queres chegar. Longe


disso.

- Podes não estar apaixonado por ela mas estás insensatamente fixado
nela, o que é pior. Estás convencido de que ela é o destino do teu miúdo.

Ao passo que a verdade é que a Inês não tem qualquer parentesco, místico
ou não, contigo ou com o teu rapaz. É apenas uma mulher ao acaso na qual
projetaste uma obsessão privada qualquer. Se o miúdo estava predestinado,
como dizes, a juntar-se à mãe, porque não deixaste que fosse o destino a
juntá-los? Porque é que tinhas de te imiscuir no ato?
- Porque não basta ficar quieto à espera de que o destino atue, Elena,
tal como não basta ter uma ideia e a seguir ficar refastelado à espera de
que ela se materialize. Alguém tem de trazer a ideia ao mundo. Alguém tem
de agir por conta do destino.

- É precisamente o que eu disse. Chegas aqui com uma ideia muito tua do
que é uma mãe, que depois projetas numa mulher.

- Isto já não é uma discussão razoável, Elena. O que ouço é só


animosidade, preconceito e ciúme.

- Não é animosidade nem preconceito, e chamar-lhe ciúme é ainda mais


absurdo. Estou a tentar ajudar-te a perceber donde vem essa tua sagrada
intuição, na qual confias mais do que na evidência do teu senso. Vem de
dentro de ti. Tem a sua origem num passado que esqueceste. Não tem nada
que ver com o rapaz nem com o seu bem-estar. Se tivesses algum interesse
pelo bem-estar do rapaz reavê-lo-ias imediatamente. Esta mulher é má para
ele. Confiado a ela, ele está a regredir. Ela está a transformá-lo num
bebé.

«Se quisesses podias recuperá-lo hoje mesmo. Podias simplesmente ir lá


buscá-lo. Ela não tem direitos legais sobre ele. É uma perfeita estranha.

132

Podias reaver o teu miúdo, podias reaver o teu apartamento, e a mulher


poderia voltar para La Residência, que é o seu lugar: para os irmãos e
para os seus jogos de ténis. Ou tens demasiado medo? Medo dos irmãos
dela, medo do cão?

- Para, Elena. Para, por favor. É verdade que os irmãos dela me


intimidam. É verdade que o cão dela me mete nervos. Mas não é por isso
que me recuso a roubar-lhe novamente o miúdo. Recuso-me, e pronto. Que
pensas tu que eu faço neste país onde não conheço ninguém, onde não posso
exprimir os meus sentimentos porque todas as relações humanas se têm de
processar em espanhol de principiantes? Vim aqui para alancar com sacos
pesados, dia após dia, como uma besta de carga? Não, vim aqui para trazer
o filho à mãe, e agora já o fiz.

Elena ri-se.

- O teu espanhol melhora quando perdes a paciência. Talvez devesses


perder a paciência mais frequentemente. Em relação à Inês, fiquemos cada
um na sua. Quanto ao resto, a verdade é que nós não estamos aqui, tu e
eu, para vivermos vidas felizes e realizadas. Estamos aqui por causa dos
nossos filhos. Podemos não nos sentir à vontade com o espanhol, mas o
David e o Fidel sentir-se-ão. Será a sua língua materna. Falá-la-ão como
nativos, do coração. E não escarneças do trabalho que fazes nas docas.
Chegaste a este país nu, sem nada para oferecer que não fosse o esforço
das tuas mãos. Podias ter sido rejeitado, mas não foste: foste bem
recebido. Podias ter sido abandonado ao relento, mas não foste: deram-te
um teto. Tens muita coisa a agradecer.
Ele mantém-se calado. Por fim, fala:

- Isso é o fim do sermão? -É.

133

Capítulo 14

Quatro horas, e os últimos sacos do cargueiro atracado no Molhe Dois


estão a ser empilhados na carroça.

El Rey e a sua companheira estão atrelados, a ruminar placidamente os


seus sacos de ração.

Álvaro abre os braços e endereça-lhe um sorriso.

- Outra tarefa terminada - diz. - Faz-nos sentir bem, não faz?

- Acho que sim. Mas não posso deixar de perguntar a mim mesmo porque é
que a cidade precisa de tanto cereal, semana após semana.

- É comida. Não podemos passar sem comida. E não é só para Novilla. É


também para o interior. É isso que significa ser um porto: ter um
interior para servir.

- Mesmo assim, de que serve tudo, no fim? Os navios trazem o cereal de


além-mar e nós descarregamo-lo dos navios e há outras pessoas que o moem
e cozem, e ele acaba por ser comido e transformado em... como é que lhe
hei de chamar?... em detritos, e os detritos voltam para o mar. O que há
nisso capaz de nos fazer sentir bem? Como é que isso encaixa no quadro
geral das coisas? Não vejo nenhum quadro geral das coisas, nenhum
desígnio superior. É apenas consumo.

- Hoje está de má catadura! Claro que uma pessoa não precisa de um


desígnio superior para justificar que faça parte de vida.

135

A vida é boa em si; ajudar a comida a fluir para que o nosso semelhante
possa viver é duplamente bom. Como pode contestar isso? Seja como for,
que tem você contra o pão? Lembre-se do que o poeta disse: o pão é a via
pela qual o sol entra nos nossos corpos.

- Eu não quero discutir, Álvaro, mas, objetivamente falando, tudo aquilo


que eu faço, e todos os outros trabalhadores das docas fazem, é
movimentar coisas do ponto A para o ponto B, um saco após outro, dia após
dia. Se todo o nosso suor fosse por alguma causa nobre, o caso seria
diferente. Mas comer a fim de viver e viver a fim de comer... isso é a
condição das bactérias, e não dos...

- Não dos quê?

- Dos seres humanos. Do pináculo da criação.

Habitualmente são os intervalos para almoço que se consagram à discussão


filosófica - morremos ou somos interminavelmente reencarnados? Os
planetas mais distantes giram em torno do Sol ou reciprocamente em torno
uns dos outros? Será este o melhor de todos os mundos possível? - mas
hoje, em lugar de irem para casa, vários estivadores vão-se acercando
para ouvir o debate. É para eles que Álvaro agora se vira.

- Que dizem, camaradas? Precisamos dum plano grandioso, como o nosso


amigo exige, ou basta-nos fazermos o nosso trabalho e fazê-lo bem?

Faz-se silêncio. Desde o princípio que os homens o tratam, a Simón, com


respeito. Para alguns deles tem idade para ser seu pai. Mas respeitam
também o capataz, têm até veneração por ele. É evidente que não querem
tomar partido.

- Se não gosta do trabalho que fazemos, se não o acha bom - diz um deles,
no caso Eugénio -, que trabalho é que gostaria de fazer em vez deste?
Gostaria de trabalhar num escritório? Acha que o trabalho de escritório é
um tipo de trabalho melhor para um homem? Ou o trabalho numa fábrica,
porventura?

136

- Não - responde ele. - De maneira nenhuma. Por favor não me interpretem


mal. O que aqui fazemos é em si um bom trabalho, um trabalho honesto. Mas
não era isso que o Álvaro e eu estávamos a discutir. Estávamos a discutir
o objetivo da nossa labuta, o objetivo último. Não me passaria pela ideia
denegrir o trabalho que fazemos. Pelo contrário, ele significa muito para
mim. Aliás - está a perder o fio à meada, mas isso não importa -não há
nenhum sítio onde eu preferisse estar em vez daqui, a trabalhar lado a
lado com vocês. Durante o tempo que passei aqui não senti outra coisa que
não fosse apoio camarada e amor camarada. Animou-me os dias. Tornou
possível...

Impacientemente, Eugénio interrompe-o.

- Então respondeu com certeza à sua própria pergunta. Imagine não ter
trabalho. Imagine ter de passar os dias sentado num banco público sem
nada para fazer, à espera de que as horas passem, sem camaradas à sua
volta para partilhar uma piada, sem boa vontade camarada a apoiá-lo. Sem
trabalho, e a partilha do trabalho, a camaradagem não é possível. Já não
é substancial. - Vira-se e olha em redor. - Não é assim, camaradas?

Há um murmúrio de concordância.
- E o futebol? - retruca ele, tentando outra abordagem, embora sem
confiança. - Havíamos certamente de nos amar e apoiar uns aos outros se
todos pertencêssemos a uma equipa de futebol, jogando juntos, ganhando
juntos, perdendo juntos. Se o amor camarada é um bem último, para que é
que precisamos de movimentar estes pesados sacos de cereal, porque não
jogarmos apenas futebol?

- Porque só de futebol não se pode viver - diz Álvaro. - Para jogar


futebol tem de se estar vivo; e para se estar vivo é preciso comer. Por
intermédio do nosso trabalho possibilitamos que as pessoas vivam. -Abana
a cabeça. - Quanto mais penso nisso, mais me convenço de que o trabalho
não se pode comparar com o futebol, que um e outro pertencem a domínios
filosóficos diferentes.

137

Não percebo, palavra que não percebo, por que razão há de querer denegrir
desta maneira o nosso trabalho.

Todos os olhos estão voltados para ele. Faz-se um silêncio grave.

- Acredite que não é minha intenção denegrir o nosso trabalho. Para


provar a minha sinceridade, amanhã de manhã venho trabalhar uma hora mais
cedo e abrevio também o intervalo para almoço. Movimentarei tantos sacos
por dia como qualquer destes homens. Mas continuarei a perguntar: por que
razão fazemos isto? Para quê?

Álvaro adianta-se e passa-lhe um braço musculoso por cima.

- Não serão precisas proezas de trabalho heróicas, meu amigo -diz ele. -
Nós conhecemos os seus sentimentos, não precisa de provar nada. - E
outros homens vêm também dar-lhe palmadas nas costas ou um abraço. Ele
sorri para toda a gente; vêm-lhe lágrimas aos olhos; não consegue parar
de sorrir.

- Ainda não viu o nosso armazém, pois não? - pergunta Álvaro, ainda a
apertar-lhe a mão.

-Não.

- É uma infraestrutura impressionante, mesmo que seja eu a dizê-lo. Que


tal se fosse visitá-lo? Pode ir agora mesmo, se quiser. - Volta-se para o
condutor da carroça, que estava curvado no assento à espera de que o
debate dos estivadores terminasse. - Aqui o nosso camarada pode levá-lo
ao armazém, não podes? Sim, claro que pode. Vá! - Ajuda-o a trepar para o
lado do condutor. - Talvez dê mais valor ao nosso trabalho depois de ver
o armazém.

O armazém fica mais longe dos molhes do que ele esperava, na margem
esquerda, na curva onde o rio começa a apertar-se. A furta-passo - o
condutor tem um chicote, mas não se serve dele, limitando-se a estalar a
língua para os cavalos de vez em quando a fim de os animar -, levam quase
uma hora a chegar lá, período durante o qual não trocam uma palavra.

138

O armazém ergue-se solitariamente num campo. É extenso, do tamanho de um


campo de futebol, e tão alto como uma casa de dois andares, com grandes
portas de correr pelas quais a carroça carregada passa com facilidade.

O dia de trabalho parece ter terminado, porque não há equipa

para proceder à descarga. Enquanto o condutor manobra a carroça para a


encostar à plataforma de carga e desatrela os cavalos, ele deambula pelo
grande edifício, internando-se cada vez mais nele. A luz que se coa pelos
intervalos entre as paredes e o teto revela pilhas de sacos com metros de
altura, montanhas de cereal sobrepostas que se estendem até aos recantos
escuros. Ociosamente ele tenta fazer os cálculos, mas perde a conta. Um
milhão de sacos, pelo menos, talvez vários milhões. Haverá moleiros
suficientes em Novilla para moerem todo aquele cereal, padeiros
suficientes para o cozerem, bocas suficientes para o consumirem?

Ouvem-se uns estalidos secos debaixo dos seus pés: cereal derramado. Uma
coisa mole choca contra o seu calcanhar e ele prega-lhe involuntariamente
um pontapé. Um guincho; de repente apercebe-se de um sussurro abafado a
toda a sua volta, semelhante ao ruído de água a correr. Solta um grito. O
chão à sua volta fervilha de vida. Ratazanas! Há ratazanas por toda a
parte!

- Há ratazanas por todo o lado! - exclama, voltando apressadamente para


trás, confrontando o condutor da carroça e o porteiro. - Há cereal
espalhado pelo chão todo e têm uma praga de ratos! É aterrador!

Os outros dois trocam um olhar.

- Sim, não há dúvida de que temos a nossa conta de ratazanas -diz o


guarda. - E de ratos também. Nem têm conta.

- E não fazem nada a esse respeito? É insalubre! Eles fazem ninho na


comida, contaminando-a!

O guarda encolhe os ombros.

139

- Que quer que façamos? Onde há cereal há roedores. O mundo é assim. Já


tentámos pôr cá gatos, mas as ratazanas perderam-lhes o medo e de
qualquer maneira são demasiadas.

- Isso não é argumento. Podiam pôr ratoeiras. Podiam fumigar o edifício.


- Não se pode introduzir gases venenosos num armazém de comida... Tenha
juízo! E agora, se não se importa, tenho de fechar.

Logo de manhã levanta a questão a Álvaro.

- Você gaba o armazém, mas alguma vez lá foi? Está cheio de ratazanas.

O que é que temos para nos orgulharmos, a trabalhar para alimentar uma
porção de animais daninhos? Não é só absurdo, é de loucos.

Álvaro concede-lhe um sorriso benigno e enfurecedor.

- Onde há navios há ratazanas. Onde há armazéns há ratazanas. Onde a


nossa espécie medra, medram também as ratazanas. As ratazanas são
criaturas inteligentes. Poder-se-ia dizer que são a nossa sombra. É certo
que consomem parte do cereal que nós descarregamos. É certo que há perdas
no percurso: nos campos, nos comboios, nos navios, nos armazéns, nos
depósitos das padarias. Não vale a pena a pessoa arreliar-se com as
perdas. As perdas fazem parte da vida.

- O facto de as perdas fazerem parte da vida não quer dizer que não as
combatamos! Para quê armazenar cereal às toneladas, aos milhares de
toneladas, em celeiros infestados de ratazanas? Porque não importar
apenas o suficiente para as nossas necessidades, mês a mês? E porque é
que todo o processo de transbordo não há de ser organizado de maneira
mais eficiente? Porque havemos de usar cavalos e carroças quando podíamos
usar camiões? Porque é que o cereal há de vir em sacos e ser carregado às
costas? Porque é que não pode ser simplesmente despejado no porão no
porto de partida e bombeado aqui através de uma canalização?

140

Álvaro reflete demoradamente antes de responder.

- O que acha que seria de todos nós, Simón, se o cereal fosse bombeado a
granel como propõe? Que seria dos cavalos? Que seria de El Rey?

- Deixaria de haver trabalho para nós aqui nas docas - responde ele. -
Admito isso. Mas em lugar disso arranjaríamos emprego a montar bombas ou
a guiar camiões. Todos teríamos trabalho, como antes, só que seria um
tipo de trabalho diferente, que exigiria inteligência e não apenas força
bruta.

- Portanto você gostaria de nos libertar duma vida de trabalho bestial.


Quer que deixemos os molhes e arranjemos outro tipo de emprego, onde já
não poderíamos pôr uma carga aos ombros, sentir as espigas de cereal
deslocarem-se no saco ao tomarem a forma do nosso corpo, ouvi-las
farfalhar, onde perderíamos o contacto com a coisa em si, com a comida
que nos alimenta e nos dá vida.

«Por que razão tem tanta certeza de que precisamos de ser salvos, Simón?
Acha que nós vivemos a vida de estivadores porque nos acharam demasiado
estúpidos para fazer outra coisa, demasiado estúpidos para montar uma
bomba ou conduzir um camião? Claro que não. Por esta altura já nos
conhece. É nosso amigo, nosso camarada. Não somos estúpidos. Se
precisássemos de ser salvos, já nos teríamos salvado por nós. Não, não
somos nós que somos estúpidos, o esperto raciocínio em que você faz fé é
que é estúpido, é que lhe dá as respostas erradas. Isto é a nossa doca, o
nosso molhe, está bem? - Volve os olhos à esquerda e à direita; os homens
emitem murmúrios de aprovação. - Aqui não há lugar para a esperteza, mas
apenas para a coisa em si.

Ele não acredita nos seus ouvidos. Não consegue acreditar que a pessoa
que está a arengar este disparate obscurantista seja o seu amigo Álvaro.
Quanto ao resto do pessoal, parece estar solidamente alinhado com ele:
jovens inteligentes com os quais todos os dias ele discute a verdade e as
aparências, o bem e o mal.

141

Se não gostasse deles virar-lhes-ia simplesmente as costas:

virar-lhes-ia as costas e deixá-los-ia com a sua fútil labuta. Mas eles


são seus camaradas, aos quais ele quer bem, aos quais deve a obrigação de
convencê-los de que seguem o caminho errado.

- Repare bem no que diz, Álvaro - contrapõe ele. - A coisa em si. Acha
que a coisa se mantém sempre igual a si mesma, imutável? Não. Tudo flui.
Esqueceu-se disso quando atravessou o oceano para aqui chegar? As águas
do oceano fluem e ao fluir mudam. Não se pode sulcar duas vezes a mesma
água. Tal como os peixes vivem no mar, também nós vivemos no tempo e
temos de mudar com o tempo. Por mais firmemente que nos comprometamos a
seguir as veneráveis tradições dos estivadores, acabaremos por ser
ultrapassados pela mudança. A mudança é como a maré enchente. Podem
construir-se barreiras, mas ela há de sempre infiltrar-se pelas fendas.

Por esta altura os homens aproximaram-se, formando um semicírculo à volta


de Álvaro e dele. Ele não deteta hostilidade na sua atitude. Pelo
contrário, sente que está a ser mudamente incitado, incitado a fazer
valer o seu ponto de vista.

- Eu não estou a tentar salvar-vos - diz. - Não tenho nada de especial,


não pretendo ser salvador de ninguém. Tal como vocês atravessei o oceano.
Tal como vocês não trouxe história alguma comigo. A história que havia,
deixei-a para trás. Sou simplesmente um homem novo numa terra nova, e
isso é bom. Mas não abandonei a ideia de história, a ideia da mudança sem
princípio nem fim. As ideias estão em toda a parte. O universo está
impregnado delas. Sem elas não haveria universo, pois não haveria
existência.

«A ideia de justiça, por exemplo. Todos desejamos viver num ordenamento


justo, num sistema em que o trabalho honesto tenha a devida recompensa, e
isso é um desejo bom; bom e louvável. Mas o que nós fazemos aqui nas
docas não vai contribuir para criar esse ordenamento.

142

O que aqui fazemos não vem a ser mais que um cortejo de trabalho heróico.
E esse cortejo depende de um exército de ratazanas para se manter,
ratazanas que trabalharão noite e dia a devorar essas toneladas de cereal
que nós descarregamos de forma a arranjar mais espaço no celeiro para
mais cereal. Sem as ratazanas a inutilidade do nosso trabalho ficaria a
descoberto. - Interrompe-se. - Vocês não vêem isso? São cegos? Álvaro
olha em redor.

- É o espírito da ágora - diz. - Quem vai responder ao nosso eloquente


amigo?

Um dos estivadores jovens põe a mão no ar. Álvaro dirige-lhe um aceno


afirmativo.

- O nosso amigo invoca o conceito do real de uma maneira confusa -


declara o jovem, falando fluente e confiantemente, como um aluno
brilhante. - Para demonstrar a sua confusão, comparemos a história com o
clima. O clima em que vivemos, podemos concordar, é superior a nós.
Nenhum de nós pode ordenar qual há de ser o clima. O clima é real porque
tem manifestações reais. Essas manifestações compreendem o vento e a
chuva. Assim, quando chove molhamo-nos; quando o vento refresca os nossos
bonés são levados por ele. A chuva e o vento são realidades transitórias,
de segunda ordem, tal como são acessíveis aos nossos sentidos. Acima
delas na hierarquia do real está o clima.

«Considerem agora a história. Se a história, tal como o clima, fosse uma


realidade superior, a história teria manifestações que nós poderíamos
percecionar através dos sentidos. Mas onde estão essas manifestações? -
Olha em volta. - Qual de nós viu o seu boné levado pela história?

- Faz-se silêncio. - Ninguém. Porque a história não tem manifestações.


Porque a história não é real. Porque a história é apenas uma narrativa
inventada.

- Para ser mais rigoroso - o orador é Eugénio, que ontem queria saber se
ele preferiria trabalhar num escritório -, porque a história não tem
manifestações no presente.

143

A história é meramente um padrão que vemos naquilo que passou. Não tem o
poder de alcançar o presente.

«O nosso amigo Simón diz que devíamos arranjar máquinas para fazerem o
trabalho por nós, porque a história assim ordena. Mas não é a história
que nos manda desistir do trabalho honesto, é a preguiça e a sedução da
preguiça. A preguiça é real de uma maneira diversa da história. Podemos
percecioná-la nos nossos sentidos. Sentimos as suas manifestações sempre
que nos deitamos na relva e fechamos os olhos e juramos que nunca mais
nos levantaremos, nem sequer quando soar a sirene, tão doce é o nosso
prazer. Qual de nós, estendido na relva num dia de sol, dirá: Sinto a
história no corpo a dizer-me para não me levantar? Não: o que sentimos no
corpo é preguiça. É por isso que temos a frase idiomática: Ele não tem um
grama de preguiça no corpo.

A medida que falava Eugénio ia-se entusiasmando cada vez mais. Talvez por
recear que ele nunca mais se cale, os seus camaradas interrompem-no com
uma salva de palmas. Ele para e Álvaro aproveita a oportunidade.

- Não sei se o nosso amigo Simón quer responder - diz. - O nosso amigo
depreciou a nossa labuta aqui como um cortejo, observação que alguns de
nós podem ter achado ofensiva.

Caso a observação tenha sido meramente irrefletida, se pensando melhor


ele quiser retirá-la ou corrigi-la, estou certo de que esse gesto seria
apreciado.

É a sua vez. A maré está contra ele, inconfundivelmente. Tem a força de


vontade necessária para resistir?

- Claro que retiro a minha irrefletida observação - diz - e além disso


peço desculpa por qualquer ofensa que possa ter feito. Quanto à história,
a única coisa que posso dizer é que, se hoje nos é possível recusarmo-nos
a atender a ela, não podemos recusar-nos eternamente. Por conseguinte
tenho uma proposta a fazer.

144

Reunamo-nos de novo neste molhe daqui a dez anos, ou mesmo daqui a cinco
anos, e vejamos se o cereal ainda é descarregado manualmente e guardado
em sacos num celeiro aberto para sustento das nossas inimigas, as
ratazanas. A minha suposição é que não o será.

- E se estiver enganado? - volve Álvaro. - Se daqui a dez anos ainda


descarregarmos o cereal exatamente da mesma maneira que agora, admitirá
que a história não é real?

- Admitirei, pois - responde ele. - Curvarei a cabeça perante a força do


real. Chamarei a isso submeter-me ao veredicto da história.

Capítulo 15

Durante algum tempo, depois do seu discurso contra as ratazanas, ele


observa um clima de constrangimento no trabalho. Embora os seus camaradas
sejam tão simpáticos como sempre, parece fazer-se um silêncio quando ele
está por perto.

De facto, ao relembrar a sua explosão, cora de vergonha. Como pode ter


apoucado o trabalho de que os amigos tanto se orgulham, um trabalho no
qual se sente grato por deixarem-no estar envolvido?

Depois, porém, as coisas vão serenando gradualmente. Durante uma pausa


matinal Eugénio vem ter com ele estendendo -lhe um saco de papel.

- Biscoitos - anuncia. - Tire um. Tire dois. Presente dum vizinho. - E,


quando ele exprime a sua apreciação (os biscoitos são deliciosos, sente
neles o sabor a gengibre e talvez também a canela), Eugénio acrescenta: -
Sabe? Estive a pensar no que disse no outro dia e talvez tenha uma certa
razão. Porque é que havemos de alimentar as ratazanas quando elas nada
fazem para nos alimentar? Há pessoas que comem ratazanas, mas eu nem
pensar. E você?

- Não - responde ele. - Eu também não como ratazanas. Prefiro de longe os


seus biscoitos.

147

No final do dia de trabalho Eugénio volta ao assunto.

- Tenho andado preocupado com o facto de podermos tê-lo melindrado - diz.


- Acredite que não houve essa intenção. Todos sentimos a maior das boas
vontades em relação a si.

- Eu não estou nada magoado - responde ele. - Tivemos uma discordância


filosófica, mais nada.

- Uma discordância filosófica - concorda Eugénio. - Você mora nos Blocos


Orientais, não mora? Eu faço-lhe companhia até à paragem do autocarro.

Assim, para manter a ficção de que mora nos Blocos, ele tem de acompanhar
Eugénio até à paragem do autocarro.

- Há uma questão que tem andado a preocupar-me - observa ele a Eugénio


enquanto esperam pelo autocarro número 6. - Não tem absolutamente nada de
filosófico. Como ocupam vocês os tempos livres, você e os outros homens?
Não me parece que tenham mulher e filhos. Têm namoradas? Vão a clubes? O
Álvaro diz-me que há clubes onde a pessoa se pode inscrever.

Eugénio ruboriza-se.

- Não sei nada sobre clubes. Eu vou mais é ao Instituto.

- Fale-me disso. Já ouvi falar num Instituto, mas não tenho ideia do que
lá se passa.
- O Instituto tem aulas. Tem palestras, filmes e grupos de discussão.
Você devia inscrever-se. Havia de gostar. Não é só para gente nova, há
também uma porção de gente mais velha, e é gratuito. Sabe o caminho para
lá?

-Não.

- Fica na New Street, perto do grande cruzamento. É um grande edifício


branco, com portas de vidro. Provavelmente já lá passou muitas vezes sem
saber. Apareça lá amanhã à noite. Pode juntar-se ao nosso grupo.

- Está bem.

148

Acontece que o curso em que Eugénio está inscrito, juntamente com outros
três estivadores, é de Filosofia. Ele ocupa um lugar na última fila,
afastado dos camaradas, para poder escapulir-se caso se aborreça.

Chega a professora e faz-se silêncio. É uma mulher de meia-idade,


vestida, a seu ver, de uma maneira bastante desleixada, de cabelo
cinzento-aço muito curto e sem pintura.

- Boa noite - diz ela. - Vamos continuar do ponto onde ficámos na semana
passada e continuemos a nossa exploração da mesa: da mesa e da sua
parente próxima, a cadeira. Como devem estar lembrados, estávamos a
analisar os diversos tipos de mesa que existem no mundo, bem como os
diversos tipos de cadeira. Interrogávamo-nos sobre a unidade que existe
por detrás de toda essa diversidade, o que é que faz de todas as mesas,
mesas, e de todas as cadeiras, cadeiras.

Silenciosamente, ele levanta-se e esgueira-se da sala.

O corredor está vazio, à exceção de uma figura com uma comprida túnica
branca que caminha apressadamente na sua direção. Quando a figura se
aproxima ele vê que se trata de Ana, do Centro.

- Ana! - exclama.

- Olá - responde Ana -, desculpe mas não posso parar, estou atrasada. -
Mas depois para mesmo. - Eu conheço-o, não conheço? Esqueci-me do seu
nome.

- Simón. Conhecemo-nos no Centro. Eu tinha um rapazinho comigo. Você

deu-nos amavelmente guarida na nossa primeira noite em Novilla.

- Claro! Como vai o seu filho?

A túnica branca é de facto um roupão de turco branco; está descalça. Uma


estranha indumentária. Haverá uma piscina no Instituto?

Ela repara no seu ar intrigado e ri-se.


149

- Estou a servir de modelo - diz. - Sirvo de modelo duas noites por


semana. Para uma aula de vivo.

- Uma aula de vivo?

- Uma aula de Desenho. Desenho de Modelo Vivo. Eu sou o modelo do curso.


- Estende os braços como se bocejasse. A dobra do roupão junto ao pescoço
abre-se; ele capta um vislumbre dos seios que tanto admirara. - Devia vir
também. Se quer aprender alguma coisa sobre o corpo, não há melhor
maneira. - E a seguir, antes que ele consiga dominar a confusão: -
Adeus... Estou atrasada. Dê saudades ao seu filho.

Ele deambula pelo corredor deserto. O Instituto é maior do que ele


pensara vendo-o de fora. Atrás de uma porta fechada ouve-se música, uma
mulher a cantar lamentosamente, acompanhada por uma harpa.

Ele detém-se diante de um quadro de avisos. Há uma longa lista de cursos


propostos. Desenho de Arquitetura, Contabilidade, Cálculo. Cursos e mais
cursos de Espanhol: Espanhol para Principiantes (dez módulos), Espanhol
Intermédio (cinco módulos), Espanhol Avançado, Redação em Espanhol,
Conversação em Espanhol. Devia ter vindo aqui em lugar de se esforçar
sozinho por aprender a língua. Que ele veja, não há Literatura Espanhola.
Mas talvez a literatura faça parte do Espanhol Avançado.

Não há mais cursos de línguas. Não há Português. Nem Catalão. Nem Galego.
Nem Basco.

Não há Esperanto. Nem Volapuk.

Procura Desenho de Modelo Vivo. Lá está: Desenho de Modelo Vivo, segunda


a sexta-feira das 7 às 9 da noite, sábados das 2 às 4; inscrições por
secção 12; Secção 1 FECHADA, Secção 2 FECHADA, Secção 3 FECHADA.
Claramente um curso muito concorrido.

Caligrafia. Tecelagem. Trabalho de Verga. Arranjos Florais. Olaria.


Marionetas.

150

Filosofia. Elementos de Filosofia. Filosofia: Temas Selecionados.


Filosofia do Trabalho. Filosofia e Vida Quotidiana.

Uma campainha assinala a hora. Os alunos saem para o corredor, primeiro


gota a gota e a seguir numa torrente, não apenas gente nova mas também
pessoas da sua idade e mais velhas, tal como Eugénio disse. Não admira
que a cidade pareça um cemitério ao cair da noite! Toda a gente está aqui
no Instituto, a aperfeiçoar-se. Todos estão ocupados em tornarem-se
melhores cidadãos, melhores pessoas. Todos menos ele.
Uma voz chama-o. É Eugénio, a acenar no meio da maré humana.

- Venha! Vamos comer qualquer coisa! Venha connosco!

Ele segue Eugénio, descendo um lanço de escadas até a uma cafetaria


profusamente iluminada. Há já compridas filas de pessoas à espera de
serem servidas. Ele tira um tabuleiro e talheres.

- É quarta-feira, o que quer dizer macarrão - diz Eugénio. - Gosta de


macarrão?

- Gosto.

Chega a vez deles. Ele estende o prato e um empregado de balcão

espeta-lhe com uma generosa dose de esparguete. Um segundo empregado


junta-lhe um bocado de molho de tomate.

- Tire também uma carcaça - diz Eugénio. - Para o caso de precisar de se


encher.

- Onde é que se paga?

- Não se paga. É de graça.

Arranjam uma mesa e há outros jovens estivadores que vêm juntar-se-lhes.

- Como correu a vossa aula? - pergunta-lhes ele. - Descobriram o que é


uma cadeira?

Pretendia ser um gracejo, mas os jovens olham-no inexpressivamente.

- Sabe o que é uma cadeira? - pergunta finalmente um deles.

151

- Olhe para baixo. Está sentado numa. - Relanceia o olhar pelos


companheiros. Desatam todos a rir.

Ele tenta fazer coro com eles, para mostrar que tem bom perder.

- O que eu queria saber - explica - era se descobriram o que constitui...


Não sei como dizer...

- Sillicidad - propõe Eugénio. - A sua cadeira - faz um gesto na direção


da cadeira - encarna a sillicidad, ou partilha dela, ou concretiza-a,
como gosta de dizer a nossa professora. É assim que se sabe que é uma
cadeira e não uma mesa.

- Ou um banco - acrescenta um companheiro.

- A vossa professora falou-vos alguma vez - pergunta ele, Simón - do


homem que, ao perguntarem-lhe como sabia que uma cadeira era uma cadeira,
deu um pontapé na dita cadeira e disse: É assim, meu caro senhor, que o
sei?

- Não - responde Eugénio. - Mas não é assim que se aprende que uma
cadeira é uma cadeira. Isso é como se aprende o que é um objeto. O objeto
dum pontapé.

Ele cala-se. A verdade é que se sente deslocado naquele Instituto.


Filosofar só o impacienta. Não quer saber para nada de cadeiras e da sua
cadeiridade.

O esparguete não sabe a nada. O molho de tomate é apenas puré de tomate,


aquecido. Procura um saleiro em redor, mas é coisa que não há. Nem
pimenta. Mas pelo menos o esparguete é uma variante. E melhor do que o
eterno pão.

- Então em que cursos tenciona inscrever-se? - pergunta Eugénio.

- Ainda não decidi. Dei uma olhadela à lista. Há uma vasta gama de
oferta. Tinha pensado em Desenho de Modelo Vivo, mas já vi que está
completo.

- Então não vem para a nossa aula. É pena. Depois de você sair a
discussão tornou-se mais interessante.

152

Falámos do infinito e dos perigos do infinito. E se, para além da cadeira


ideal, houver uma cadeira ainda mais ideal, e assim por diante, sem
parar? Mas o Desenho de Modelo Vivo também é interessante. Podia
matricular-se este semestre em Desenho, Desenho comum. Nessa altura teria
preferência para o Desenho de Modelo Vivo no próximo semestre.

- Desenho de Modelo Vivo é sempre muito procurado - explica outro dos


rapazes. As pessoas querem aprender coisas sobre o corpo.

Ele procura a ironia, mas não há tal coisa, como não há sal.

- Se a pessoa quer aprender coisas sobre o corpo, não seria melhor um


curso de Anatomia? - pergunta ele.

O rapaz discorda.

- A anatomia só nos fala das partes do corpo. Se quisermos aprender o


todo precisamos de tirar Desenho de Modelo Vivo ou Modelação.

- Quando diz o todo quer dizer...

- Quero dizer primeiro o corpo como um todo, e depois o corpo na sua


forma ideal.
- A vulgar experiência não nos ensina isso? Quero eu dizer, umas noites
passadas com uma mulher não nos ensinam tudo o que é preciso saber sobre
o corpo como corpo?

O rapaz cora e olha em volta em busca de ajuda. Ele amaldiçoa-se. Estas


suas estúpidas piadas!

- Quanto ao corpo na sua forma ideal - prossegue -, provavelmente teremos


de esperar pela outra vida para chegarmos a vê-lo. - Arreda o esparguete
meio comido. É demasiado para ele, demasiado empanzinamento. - Tenho de
ir - diz. - Boa noite. Vemo-nos amanhã nas docas.

- Boa noite.

Não fazem um esforço para o deterem. E com razão. Que acharão dele, estes
esplêndidos jovens, trabalhadores, idealistas, inocentes? Que podem eles
alguma vez aprender com o amargo miasma que ele liberta?

153

- Como vai o seu miúdo? - pergunta Álvaro. - Temos saudades dele. Já lhe
arranjou uma escola?

- Ele ainda não tem idade para frequentar a escola. Está com a mãe. Ela
não quer que ele passe muito tempo comigo. Os seus afetos ficarão
divididos, diz ela, enquanto houver dois adultos a reivindicarem-no.

- Mas há sempre dois adultos a reivindicarem-nos: o nosso pai e a nossa


mãe. Nós não somos abelhas nem formigas.

- Pode ser. Mas em qualquer caso eu não sou o pai do David. A mãe é a mãe
mas eu não sou o pai. É essa a diferença. Para mim é um assunto doloroso,
Álvaro. Podemos deixá-lo?

Álvaro agarra-o pelo braço.

- O David não é um rapaz vulgar. Pode crer, eu observei-o e sei do que


falo. Tem a certeza de que está a agir para o seu próprio bem?

- Entreguei-o à mãe. Está ao cuidado dela. Porque é que diz que ele não é
um rapaz vulgar?

- Você diz que o entregou, mas ele quer realmente ser entregue? Porque é
que a mãe o abandonou, para começar?

- Ela não o abandonou. Foram separados. Viveram em esferas diferentes por


uns tempos. Eu ajudei-o a encontrá-la. Ele encontrou-a e foram reunidos.
Agora têm uma relação natural, de mãe e filho. Ao passo que ele e eu não
temos uma relação natural. Mais nada.

- Se a relação dele consigo não é natural, o que é?


- Abstrata. Ele tem uma relação abstrata comigo. Uma relação com alguém
que gosta dele em abstrato mas não tem a obrigação natural do encargo
dele. O que quer dizer quando diz que ele não é um rapaz vulgar?

154

Álvaro abana a cabeça.

- Natural, abstrata... Isso para mim não tem sentido. Como é que pensa
que um pai e uma mãe se juntam, para começar, o pai e a mãe da futura
criança? Porque ambos têm uma obrigação natural para com o outro? Claro
que não. Os seus caminhos cruzam-se por acaso e apaixonam-se. O que pode
ser menos natural, mais arbitrário, do que isso? Da sua conjunção
fortuita vem ao mundo um novo ser, uma nova alma. Quem é que, nesta
história, deve o quê a quem? Não sei, e tenho a certeza de que você
também não sabe.

«Eu costumava observar-vos a si e ao seu miúdo juntos, Simón, e bem via:


ele confia inteiramente em si. Ele ama-o. E você ama-o. Sendo assim,
porquê entregá-lo? Porquê separar-se dele?

- Eu não me separei ele. A mãe é que o separou de mim, como é seu


direito. Se eu pudesse escolher, ainda estaria com ele. Mas não posso
escolher. Não tenho o direito de escolher. Não tenho direitos nesta
matéria.

Álvaro cala-se e parece ensimesmar-se.

- Diga-me onde posso encontrar essa mulher - diz por fim. - Gostaria de
lhe dar uma palavrinha.

- Tenha cuidado. Ela tem um irmão que não é flor que se cheire. Não se
meta com ele. Aliás tem dois irmãos, tão antipático um como o outro.

- Eu sei tomar conta de mim - torna Álvaro. - Onde posso encontrá-la?

- Chama-se Inês e ocupou o meu antigo apartamento nos Blocos Orientais:


Bloco B, número 202, no segundo andar. Não diga que fui eu que o mandei
lá porque não seria verdade. Eu não o mando lá. Isto não é nem pouco mais
ou menos ideia minha, é sua.

- Não se preocupe. Eu esclarecer-lhe-ei que a ideia é minha e que você


não tem nada que ver com isso.

155

No dia seguinte, durante a pausa a meio do dia, Álvaro faz-lhe sinal para
ele se aproximar.
- Falei com a sua Inês - diz ele, sem qualquer preâmbulo. - Ela aceita
que você veja o miúdo, só que não por enquanto. No fim do mês.

- Isso é uma esplêndida notícia! Como foi que a convenceu? Álvaro faz um
gesto desdenhoso.

- Não importa como foi. Ela diz que pode levá-lo a passear. Informá-lo-á
de quando. Pediu o seu número de telefone. Eu não o sabia, de modo que
lhe dei o meu. Disse que lhe transmitiria os recados.

- Não sei dizer-lhe como estou agradecido. Faça o favor de lhe garantir
que eu não perturbarei o rapaz... Quero dizer, que não perturbarei a
relação dele com ela.

156

Capítulo 16

O apelo de Inês vem mais cedo do que se esperava. Logo na manhã seguinte
Álvaro chama-o.

- Há uma emergência no seu apartamento - diz. - A Inês telefonou-me


quando eu estava a sair de casa. Queria que eu lá fosse, mas eu disse-lhe
que não tinha tempo disponível. Não se aflija, não tem nada que ver com o
seu rapaz, é apenas a canalização. Vai precisar de ferramenta. Leve a
caixa de ferramentas do armazém. Despache-se. Ela está bastante
transtornada.

Inês recebe-o à porta, envergando (porquê? O dia não está frio) um grosso
casaco comprido. Está efetivamente bastante transtornada, bastante
furiosa. A retrete está entupida. O supervisor do edifício veio
inspecionar, mas recusou-se a fazer o que quer que fosse porque (disse
ele) ela não era a inquilina legal, nunca a vira mais gorda (disse ele).
Ela telefonara aos irmãos para La Residência, mas eles tinham-na
despachado com desculpas, porque eram demasiado niquentos (diz ela
amargamente) para sujar as mãos. Por isso, esta manhã, como último
recurso, contactara o seu colega Álvaro, que, como trabalhador, devia
perceber de canalizações. E agora não aparece Álvaro, mas sim ele.

Fala sem parar, percorrendo iradamente a sala de um lado para outro.

157

Emagreceu desde a última vez que a viu. Tem rugas cavadas aos cantos da
boca. Ele escuta-a em silêncio; mas os seus olhos estão presos no rapaz,
que, sentado na cama - terá acabado de acordar? -, o fita incredulamente,
como se ele tivesse regressado do mundo dos mortos.
Ele dirige um sorriso fugaz ao miúdo. Olá, diz mudamente com os lábios.

O rapaz tira o dedo da boca mas não fala. Deixaram-lhe crescer muito o
cabelo, naturalmente encaracolado. Veste um pijama azul-claro com um
padrão a vermelho de elefantes e hipopótamos às cabriolas.

Inês ainda não parou de falar.

- Aquela retrete tem dado problemas desde que nos mudámos para cá - está
ela a dizer. - Não me admiraria que a culpa fosse das pessoas do
apartamento de baixo. Pedi ao supervisor para ver no andar de baixo, mas
ele nem sequer me deu ouvidos. Nunca vi um homem tão malcriado. Não lhe
importa que o cheiro se sinta desde o corredor.

Inês fala dos esgotos sem acanhamento. Aquilo parece-lhe estranho: se não
é íntima, a questão é pelo menos delicada. Encará-lo-á ela como um
simples operário que veio fazer-lhe um trabalho, alguém que nunca mais
precisa de tornar a ver; ou estará a tagarelar para esconder a
atrapalhação?

Ele atravessa a sala, abre a janela e debruça-se.

O encanamento de descarga da retrete conduz diretamente a um cano de


esgoto que desce pela parede exterior. Três metros mais abaixo fica o
encanamento de descarga do apartamento de baixo.

- Já falou com as pessoas do número 102? - pergunta ele. - Se a


canalização está toda entupida, eles hão de ter o mesmo problema que
você. Mas deixe-me primeiro dar uma olhadela à retrete, para o caso de a
avaria ser alguma coisa evidente. - Vira-se para o rapaz. - Queres dar-me
uma ajuda? Está na hora de te levantares, calaceiro! Ora vê como Sol já
vai alto!

158

O rapaz contorce-se e exibe um sorriso deliciado. Ele sente nascer-lhe


uma alma nova. Como ama este miúdo!

- Anda cá! - diz. - Ainda não és tão crescido que não me possas dar um
beijo, pois não?

O rapaz salta da cama e corre a abraçá-lo. Ele aspira os intensos cheiros


a leite do corpo por lavar.

- Gosto do teu pijama - diz. - Vamos inspecionar?

A retrete está cheia quase até à borda de água e despejos. Na caixa de


ferramentas que trouxe há um rolo de arame de aço. Curva a ponta do arame
de modo a formar um gancho e explora cegamente o gargalo da retrete,
extraindo de lá um maço de papel higiénico.

- Tens um penico? - pergunta ao rapaz.


- Um bacio para o chichi? - inquire o rapaz.

Ele confirma com um aceno de cabeça. O rapaz desaparece a correr e


regressa com um bacio adornado de tecido. Um momento depois Inês entra de
rompante, pega no bacio e sai sem uma palavra.

- Arranja-me um saco de plástico - diz ele ao rapaz. - Vê lá bem que não


tenha buracos.

Extrai um considerável aglomerado de papel do cano entupido, mas o nível


da água não baixa.

- Veste-te e vamos ao andar de baixo - diz ao rapaz. - E, para Inês: - Se


não estiver ninguém no 102, vou tentar abrir a tampa do esgoto do rés do
chão. Se o entupimento for para lá desse ponto, não poderei fazer nada.
Será da responsabilidade das autoridades locais. Mas vejamos. - Faz uma
pausa. - A propósito, isto é uma coisa que pode acontecer a qualquer um.
Não é culpa de ninguém. É apenas azar.

Está a tentar facilitar as coisas a Inês, e espera que ela o reconheça.


Mas ela continua a recusar-se a olhá-lo nos olhos. Está envergonhada e
irritada; se há mais alguma coisa além disso, ele não faz ideia.

159

Acompanhado pelo rapaz, bate à porta do apartamento 102. Após uma longa
espera destranca-se um ferrolho e abre-se uma frincha da porta. À média
luz ele consegue distinguir uma figura sombria, que não sabe se é de
homem ou de mulher.

- Bom dia - diz. - Peço desculpa pela intrusão. Sou do apartamento de


cima, onde temos uma retrete entupida. Por acaso não tem o mesmo
problema?

A porta abre-se mais. E uma mulher, velha e curvada, cujos olhos têm um
cinzento vítreo que dá entender que não vê.

- Bom dia - repete ele. - A sua retrete. Tem algum problema na retrete?
Algum entupimento, atascos?.

Não há resposta. Ela mantém-se imóvel, com o rosto interrogativamente


virado para ele. Além de cega será surda? O rapaz adianta-se.

- Abuela - diz.

A velha estende a mão, afaga-lhe os cabelos e explora-lhe a cara. Por


momentos ele aperta-se confiantemente contra ela; depois irrompe pelo
apartamento adentro. Daí a pouco está de volta.

- Está limpa - diz. - A retrete deles está limpa.


- Obrigado, senora - diz ele, e faz uma vénia. - Obrigado pela sua ajuda.
Peço desculpa de a ter incomodado. - E para o rapaz: - A retrete está
limpa e portanto... portanto quê?

O rapaz franze a testa.

- Aqui, no andar de baixo, a água corre à vontade. Lá, no andar de cima -


aponta para o lanço de escadas -, a água não corre. Portanto quê?
Portanto o esgoto está entupido onde?

- Lá em cima - diz confiantemente o rapaz.

- Boa! Então onde é que devemos repará-lo: no andar de cima ou no andar


de baixo?

- No andar de cima.

- E vamos ao andar de cima porque a água corre em que direção, para cima
ou para baixo?

160

- Para baixo.

- Sempre?

- Sempre. Corre sempre para baixo. E às vezes para cima.

- Não. Para cima nunca. É sempre para baixo. É assim a natureza da água.
A questão é esta: como é que a água chega ao nosso apartamento sem
contradizer a sua natureza? Como é que, quando abrimos a torneira ou
puxamos o autoclismo, a água corre para nós?

- Porque para nós corre para cima.

- Não. Essa resposta não está certa. Deixa-me fazer a pergunta doutra
maneira. Como é que a água chega ao nosso apartamento sem correr para
cima?

- Do céu. Cai do céu para as torneiras. É verdade. A água cai realmente


do céu.

- Mas - diz ele, e ergue um dedo admonitório - como é que a água vai
parar ao céu?

Filosofia natural. Vejamos, pensa ele, quanta filosofia natural há neste


rapaz.

- É porque o céu mete ar para dentro - diz o rapaz. - O céu mete ar para
dentro - faz uma inspiração profunda e retém o fôlego, com um sorriso no
rosto, um sorriso de puro deleite intelectual, após o que expira
teatralmente - e deita o ar fora.

A porta fecha-se. Ele ouve o estalido do ferrolho a ser corrido.


- Foi a Inês que te disse isso? A respiração do céu? -Não.

- Foste tu que o pensaste sozinho? -Fui.

- E no céu quem é que mete ar dentro e deita o ar fora e faz a chuva?

O rapaz fica calado. Tem o sobrolho franzido de concentração. Por fim


abana a cabeça.

- Não sabes?

161

- Não me lembro.

- Não faz mal. Vamos dar as nossas novidades à tua mãe.

As ferramentas que trouxe são inúteis. Apenas o primitivo pedaço de arame


tem algo de promissor.

- Porque é que vocês os dois não vão passear? - sugere ele a Inês. - O
que eu vou fazer não é particularmente apetitoso. Não vejo porque é que o
nosso jovem amigo há de ser exposto a isso.

- Eu preferia chamar um canalizador a sério - diz Inês.

- Se eu não conseguir fazer o trabalho vou à procura dum canalizador a


sério, prometo. De uma maneira ou doutra a sua retrete será reparada.

- Eu não preciso de ir passear - diz o rapaz. - Quero ajudar.

- Obrigado, meu rapaz, fica-te muito bem. Mas isto não é o género de
trabalho em que se precise de ajuda.

- Posso dar-te ideias.

Ele troca um olhar com Inês. Há qualquer coisa tácita trocada entre eles.
O meu filho é tão esperto!, diz o olhar dela.

- Isso é verdade - torna ele. - Tu és bom para ter ideias. Mas


infelizmente as retretes não são recetivas a ideias. As retretes não
fazem parte do domínio das ideias, são apenas coisas brutas, e trabalhar
nelas não é mais do que trabalho bruto. Portanto vai dar um passeio com a
tua mãe enquanto eu faço o trabalho.

- Porque é que não posso ficar? - pergunta o rapaz. - É só cocó. Há um


timbre novo na voz do rapaz, um timbre de desafio que não lhe agrada.
Estes elogios todos estão a subir-lhe à cabeça.

- As retretes são apenas retretes, mas o cocó não é só cocó - diz ele. -
Há certas coisas que não são apenas elas próprias, nem sempre. O cocó é
uma delas.

Inês puxa pela mão do rapaz. Está a corar furiosamente.


- Anda! - diz ela.

O rapaz abana a cabeça.

- É o meu cocó - diz ele. - Quero ficar.

162

- Era o teu cocó. Mas tu evacuaste-o. Libertaste-te dele. Agora já não é


teu. Já não tens direito a ele.

Inês solta uma fungadela e retira-se para a cozinha.

- Quando chega ao cano de esgoto não é o cocó de ninguém -continua ele. -


Nos esgotos junta-se ao cocó de todas as outras pessoas e passa a ser
cocó geral.

- Então porque é que a Inês está zangada?

Inês. É assim que ele lhe chama; nem Mamã, nem Mãe?

- Está envergonhada. As pessoas não gostam de falar do cocó. O cocó


cheira mal. O cocó está cheio de bactérias. O cocó não é bom para as
pessoas.

- Porquê?

- Porquê o quê?

- Também é o cocó dela. Porque é que ela está zangada?

- Não está zangada, está apenas suscetibilizada. Há pessoas suscetíveis,


é a sua natureza, não podes perguntar porquê. Mas não há necessidade de
estar suscetibilizada, porque, como te disse, a partir de um dado ponto
já não é o cocó de ninguém em particular, é apenas cocó. Fala com
qualquer canalizador e ele dir-te-á a mesma coisa. O canalizador não olha
para o cocó e pensa: Que interessante, quem diria que o señor ou a señora
Y tinham um cocó assim! É como o agente funerário. O agente funerário não
pensa: Que interessante!... - Cala-se. Estou a deixar-me entusiasmar,
pensa, estou a falar de mais.

- O que é um agente funerário? - pergunta o rapaz.

- Os agentes funerários são pessoas que tratam de cadáveres. São como os


canalizadores. Encarregam-se do envio dos cadáveres para o lugar certo.

E agora vais perguntar: O que são cadáveres?

- O que são cadáveres? - pergunta o rapaz.

- Cadáveres são corpos que foram atingidos pela morte, que já não nos
servem para nada.
163
Mas não temos de nos preocupar com a morte. Depois da morte há sempre
outra vida. Já viste isso. Nós os seres humanos, nesse aspeto temos
sorte. Não somos como o cocó, que tem de cá ficar e misturar-se novamente
com a terra

- Somos como quê?

- Somos como quê se não somos como o cocó? Somos como as ideias. As
ideias nunca morrem. Hás de aprender isso na escola.

- Mas nós fazemos cocó.

- Isso é verdade. Partilhamos do ideal mas também fazemos cocó. Isso é


porque temos uma dupla natureza. Não sei como exprimi-lo de uma maneira
mais simples.

O rapaz cala-se. Deixá-lo matutar nisto, pensa ele. Ajoelha-se ao lado do


vaso da retrete e arregaça as mangas até onde é possível.

- Vai dar uma volta com a tua mãe - diz ele. - Vai lá.

- E o agente funerário? - torna o rapaz.

- O agente funerário? Ser agente funerário é apenas uma profissão como


outra qualquer. O agente funerário não é diferente de nós. Também tem uma
dupla natureza.

- Posso vê-lo?

- Para já, não. Para já temos outras coisas a fazer. Da próxima vez que
formos à cidade hei de ver se descobrimos uma agência funerária. Nessa
altura podes dar uma olhadela.

- Podemos ver os cadáveres?

- Não, claro que não. A morte é um assunto privado. A profissão de agente


funerário é discreta. Os agentes funerários não mostram os cadáveres ao
público. Agora já chega. - Explora a parte de trás do vaso com o arame.
Tem de arranjar maneira de o arame seguir o S do sifão. Se o entupimento
não for no sifão, deve ser na união lá fora. Se for esse o caso, não faz
ideia de como resolvê-lo. Terá de desistir e arranjar um canalizador. Ou
a ideia de um canalizador.

A água, onde ainda flutuam pedaços do cocó de Inês, cinge-lhe a mão, o


pulso e o antebraço. Ele empurra o arame pela curva em S.

164

Sabão antibacteriano, pensa; vou ter de me lavar com sabão

anti-bacteriano a seguir, esfregando bem por baixo das unhas. Porque o


cocó é apenas cocó, porque as bactérias são apenas bactérias.
Não se sente um ser com dupla natureza. Sente-se um homem à procura de um
entupimento num cano de esgoto, utilizando ferramentas primitivas.

Retira o braço e retira o arame. O gancho da ponta desfez-se. Torna a


formar o gancho.

- Podes usar um garfo - diz o rapaz.

- Um garfo é curto de mais.

- Podes usar o garfo comprido da cozinha. Podes dobrá-lo.

- Mostra-me o que queres dizer.

O rapaz sai, ligeiro, e volta com um garfo comprido que estava no


apartamento quando eles chegaram e do qual ele nunca precisou.

- Podes dobrá-lo se fores forte - diz o rapaz.

Ele dobra o garfo para formar um gancho e mete-o pela curva em S até não
conseguir avançar mais. Quando tenta tirar o garfo, sente resistência.
Primeiro devagar e a seguir mais depressa, a obstrução vem à superfície:
um maço de tecido forrado de plástico. A água da bacia baixa. Ele puxa o
autoclismo. A água limpa brota com um rugido. Espera e puxa novamente o
autoclismo. O cano está desentupido. Está tudo bem.

- Encontrei isto - diz ele a Inês. Segura o objeto, ainda a pingar. -


Reconhece-o?

Ela cora, postada diante dele como uma culpada, sem saber para onde
olhar.

- E o que costuma fazer, deitá-los na retrete? Ninguém lhe disse para


nunca o fazer?

Ela abana a cabeça. Tem as faces ruborizadas. O rapaz puxa -lhe


ansiosamente pela saia.

- Inês! - diz ele. Ela dá-lhe distraidamente umas palmadinhas na mão.

165

- Não é nada, querido - sussurra.

Ele fecha a porta da casa de banho, despe a camisa suja e lava-a no


lavatório. Não há sabão antibacteriano, mas apenas o sabão da Manutenção
que toda a gente usa. Torce a camisa, passa-a por água e volta a torcê-
la. Vai ter de andar com a camisa molhada. Lava os braços, lava os
sovacos e limpa-se. Pode não estar tão limpo como desejaria, mas pelo
menos não cheira a merda.

Inês está sentada na cama com o rapaz agarrado ao peito como um bebé, a
embalá-lo. O rapaz está a dormitar, com um fio de baba a escorrer-lhe da
boca.
- Vou-me embora - sussurra ele. - Telefone-me outra vez se precisar de
mim.

O que o impressiona na visita a Inês, ao refletir posteriormente, é a


estranheza, a imprevisibilidade daquele episódio da sua vida. Quem diria,
no momento em que contemplou pela primeira vez aquela jovem mulher no
campo de ténis, que havia de vir um dia em que teria de lavar do corpo a
merda dela! Como interpretariam isso no Instituto? Teria a senhora do
cabelo cinzento-aço um nome para aquilo: a cocozidade do cocó?

166

Capítulo 17

- Se é alívio que procuras - diz Elena -, se aliviares-te te torna vida


mais fácil, há lugares onde os homens podem ir. Os teus amigos não te
falaram deles, os teus amigos do sexo masculino?

- Nem uma palavra. O que queres tu dizer precisamente com alívio?

- Alívio sexual. Se é alívio sexual que procuras, não tenho de ser eu o


teu único porto de escala.

- Desculpa - volve ele com frieza -, não sabia que o encaravas essa
maneira.

- Não te ofendas. É um facto da vida: os homens precisam de alívio, todos


o sabemos. Estou simplesmente a dizer-te o que podes fazer quanto a isso.
Há sítios onde podes ir. Pergunta aos teus amigos das docas ou, se tens
vergonha, pergunta no Centro de Realojamento.

- Estás a falar de bordéis?

- Chama-lhes bordéis se quiseres, mas pelo que ouço não têm nada de
sórdido, são bastante limpos e agradáveis.

- As raparigas que lá trabalham andam fardadas? Ela fita-o


zombeteiramente.

- Quero dizer, têm alguma indumentária padronizada, como as enfermeiras?


Com roupa interior padronizada?

167

- Isso vais ter de descobrir por ti.

- E é uma profissão aceite, trabalhar num bordel? - Ele sabe que está a
irritá-la com as suas perguntas, mas está outra vez com aquela
disposição, a disposição irrefletida e amarga que o atormenta desde que
entregou o miúdo. - É uma coisa que as raparigas possam fazer e continuar
a andar de cabeça erguida em público?

- Não faço ideia - diz ela. - Vai lá e descobre. E agora tens de me


desculpar, estou à espera dum aluno.

Estava de facto a mentir quando disse a Elena que nada sabia de sítios
onde os homens podiam ir. Álvaro falou-lhe recentemente de um clube para
homens relativamente perto das docas chamado Salón Confort.

Do apartamento de Elena vai diretamente ao Salón Confort. Centro de Lazer


e Diversão, diz a placa gravada à entrada. Horário de funcionamento
14.00-02.00. Encerra às segundas-feiras. Reservado o direito de admissão.
Inscrição mediante candidatura. E em letra mais pequena: Aconselhamento
pessoal. Alívio do stresse. Fisioterapia.

Empurra a porta. Está numa antecâmara vazia. Ao longo de uma parede há um


banco almofadado. A secretária, assinalada com a tabuleta RECEÇÃO, está
vazia, à exceção de um telefone. Senta-se à espera.

Daí a muito tempo aparece alguém vindo de uma sala das traseiras, uma
mulher de meia-idade.

- Desculpe a demora - diz ela. - Em que posso ser-lhe útil?

- Gostava de ser sócio.

- Com certeza. Vou só pedir-lhe para preencher estes dois impressos e a


seguir preciso de prova da sua identidade. - Entrega-lhe uma prancheta e
uma caneta.

Ele deita uma olhadela ao primeiro impresso. Nome, morada, idade,


emprego.

168

- Devem ter marinheiros desembarcados dos navios - observa ele. - Eles


também têm de preencher impressos?

- O senhor é marinheiro? - pergunta a mulher.

- Não, trabalho nas docas mas não sou marinheiro. Falei dos marinheiros
porque só estão uma ou duas noites em terra. Também têm de ser sócios
para cá virem?

- Para usar as instalações é preciso ser aceite como sócio.

- E quanto tempo leva, ser aceite?

- Ser aceite, pouco tempo. Mas depois disso é preciso arranjar uma vaga
para uma terapeuta.
- Eu é que tenho de arranjar vaga?

- Tem de ser aceite na lista duma das nossas terapeutas. Isso pode
demorar. Muitas vezes as nossas listas estão cheias.

- Então se eu fosse um dos marinheiros de que falava, um marinheiro só


com uma ou duas noites em terra, não valeria a pena vir cá. O meu navio
já estaria de novo no alto mar quando conseguisse marcação.

- O Salón Confort não está aqui para proveito de marinheiros. Os


marinheiros hão de ter as suas próprias instalações nos lugares de onde
vêm.

- Podem ter as suas próprias instalações no local de origem, mas não


podem usá-las. Porque estão aqui, e não lá.

- Pois é: nós temos as nossas instalações e eles as suas.

- Compreendo. Se me permite que o diga, a senhora fala como uma


licenciada do Instituto (o Instituto de Estudos Avançados, acho que é
como se chama) da cidade.

- Palavra?

- Sim. Dum dos seus cursos de Filosofia. Lógica, talvez. Ou Retórica.

- Não, eu não sou licenciada do Instituto. Ora bem: Já se decidiu? Vai


inscrever-se? Se vai, peço-lhe que continue a preencher os impressos.

169

Use o espaço abaixo para descrever a sua pessoa e as suas necessidades.

O segundo impresso dá-lhe mais trabalho que o primeiro. Inscrição para


Terapeuta Pessoal, diz o cabeçalho. «Sou um homem vulgar com necessidades
vulgares», escreve ele. «Quer dizer, as minhas necessidades não são
extravagantes. Até há pouco tempo era tutor a tempo inteiro de uma
criança. Desde que entreguei a criança (terminei a tutela) tenho-me
sentido um tanto ou quanto só. Não sei bem em que me ocupar.» Está a
repetir-se. É por estar a usar caneta. Se tivesse lápis e borracha
poderia apresentar-se de forma mais sucinta. «Acho que preciso de um
ouvido amigo, para desabafar. Tenho uma amiga íntima, mas ultimamente ela
tem andado a pensar noutras coisas. Falta verdadeira intimidade à minha
relação com ela. Só em situação de intimidade é que a pessoa se pode
aliviar, acho eu.»

Que mais?

«Estou faminto de beleza», escreve. «Beleza feminina. Um tanto ou quanto


faminto. Anseio pela beleza, que por experiência própria desperta
admiração e também gratidão - gratidão pela sorte de ter uma mulher
bonita nos braços.»
Pensa em riscar todo o último parágrafo sobre a beleza, mas depois não o
faz. Se vai ser julgado, que seja antes pelos movimentos do seu coração
do que pela clareza do seu pensamento. Ou pela sua lógica.

«O que não quer dizer que eu não seja um homem, com as necessidades de um
homem», conclui resolutamente.

Qué tontería! Que balbúrdia! Que confusão moral!

Entrega os dois impressos. A rececionista lê-os atentamente - não finge


que não os lê atentamente - do princípio ao fim. Estão os dois sozinhos
na sala de espera. Não é uma hora muito concorrida. A beleza desperta a
admiração: será que deteta um levíssimo sorriso quando ela chega a essa
proclamação?

170

Será ela uma pura e simples rececionista, ou tem os seus próprios


antecedentes de gratidão e admiração?

- Não assinalou uma caixa - diz ela. - Duração das sessões: 30 minutos,
45 minutos, 60 minutos, 90 minutos. Que duração prefere?

- Digamos o máximo de alívio: noventa minutos.

- Pode ter de esperar um certo tempo para conseguir uma sessão de noventa
minutos. Por motivos de agenda. Apesar disso, vou registá-lo para uma
primeira sessão demorada. Pode alterá-lo mais tarde, se assim decidir. É
tudo, obrigada. Depois contactamo-lo. Escrevemos-lhe, a informá-lo de
quando será a sua primeira sessão.

- Que processo tão complicado! Já percebi por que razão os marinheiros


não são bem-vindos.

- Sim, o Salón não está concebido para transitórios. Mas ser transitório
é já de si um estado transitório. Alguém que é transitório sentir-se-á em
casa no lugar de onde vem, tal como alguém cuja residência é aqui seria
um transitório noutro sítio qualquer.

- Per definitionem - diz ele. - A sua lógica é impecável. Fico à espera


da sua carta.

No impresso deu como morada o apartamento de Elena. Os dias passam.


Informa-se junto de Elena: não há carta para ele. Regressa ao Salón. Está
de serviço a mesma rececionista.

- Lembra-se de mim? - pergunta. - Estive aqui há duas semanas. A senhora


disse que entrariam em contacto comigo. Não me chegou nada.

- Deixe-me ver - diz ela. - O seu nome é...? - Abre um armário de arquivo
e tira de lá uma ficha. - Tanto quanto vejo, não há nenhum problema com a
inscrição em si. O atraso parece ser em casá-lo com a terapeuta certa.
- Curar-me? Talvez eu não me tenha feito entender. Ignore o que eu
escrevi no impresso sobre a beleza e tudo o mais. Eu não estou à procura
de nenhum par ideal, procuro simplesmente companhia, companhia feminina.

171

- Compreendo. Vou ver o que se passa. Dê-me uns dias. Passam-se dias. Não
vem carta nenhuma. Não devia ter usado a palavra admiração. Que rapariga
a tentar ganhar uns reais por fora quereria ver-se a braços com
semelhante responsabilidade? A verdade pode ser uma coisa boa, mas por
vezes é melhor ficar aquém da verdade. Assim: Por que razão pede a sua
inscrição no Salón Confort? Resposta: Porque sou novo na cidade e tenho
falta de contactos. Pergunta: Que tipo de terapeuta procura? Resposta:
Jovem e bonita. Pergunta: Que duração pretende para as suas sessões?
Resposta: Trinta minutos chegam.

Eugénio parece apostado em mostrar que o seu desacordo em relação às


ratazanas, à história e à organização do trabalho portuário não deixou
ressentimentos. Muitas vezes, quando sai do trabalho, dá com Eugénio a
seguir-lhe os passos e tem de repetir a fantochada de apanhar o autocarro
número 6 para os Blocos.

- Já se decidiu a respeito do Instituto? - pergunta Eugénio numa das suas


excursões até à paragem do autocarro. - Acha que se vai matricular?

- Acho que ultimamente não tenho pensado muito no Instituto. Tenho andado
a tentar inscrever-me num centro de diversão.

- Um centro de diversão? Quer dizer como o Salón Confort? Porque é que

há de querer inscrever-se num centro de diversão?

- Você e os seus amigos não o usam? Como resolvem vocês... como é que
lhes hei de chamar... os vossos impulsos físicos?

- Impulsos físicos? Impulsos do corpo? Estivemos a falar deles na aula.


Quer saber a que conclusão chegámos?

- Se faz favor.

- Começámos por registar que os impulsos em questão não têm objeto


específico. Quer dizer, não é para uma mulher específica que nos impelem,
mas para uma mulher em abstrato, o ideal feminino.

172

Por conseguinte quando, para aplacar o impulso, recorremos a um chamado


centro de diversão, denegrimos de facto o impulso. Porquê? Porque as
manifestações do ideal disponíveis nesses lugares são cópias inferiores;
e a união com uma cópia inferior só pode deixar dececionado e triste quem
a procura.
Ele tenta imaginar Eugénio, este jovem sincero com os seus óculos de
mocho, nos braços de uma cópia inferior.

- Você atribui as culpas do seu desapontamento às mulheres que encontra


no Salón - retruca -, mas talvez devesse refletir sobre o impulso em si.
Se é da natureza do desejo procurar aquilo que está além do seu alcance,
devemos admirar-nos se ele não for satisfeito? Não lhe disse a sua
professora do Instituto que a aceitação de cópias inferiores pode ser um
passo necessário na ascensão ao bom, ao verdadeiro e ao belo?

Eugénio cala-se.

- Pense nisso. Pergunte a si mesmo que seria de nós se não houvesse


escadas. Aqui vem o meu autocarro. Até amanhã, meu amigo.

- Haverá alguma coisa de errado em mim de que eu não me aperceba? -


pergunta ele a Elena. - Refiro-me ao clube onde tentei inscrever-me.
Porque é que achas que eles me recusaram? Podes falar com franqueza.

A derradeira luz arroxeada do entardecer estão ambos sentados à janela a


ver as gaivotas picar e mergulhar. Companheirismo: eis o que passou a
haver entre eles, com o tempo. Tornaram-se compañeros por mútuo acordo.
União de facto: se ele a propusesse, Elena consentiria? Viver com Elena e
Fidel no apartamento deles seria certamente mais cómodo do que

remediar-se com o seu solitário barracão das docas.

173

- Não podes ter a certeza de que eles te recusaram - diz Elena. -


Provavelmente têm uma grande lista de espera. Embora me admire que tu
insistas com eles. Porque não tentar outro clube? Ou porque não desistir
simplesmente?

- Desistir?

- Desistir do sexo. Já tens idade para isso. Idade para procurares as


tuas satisfações noutro sítio.

Ele abana a cabeça.

- Ainda não, Elena. Mais uma aventura, mais um falhanço, e depois talvez
pense em reformar-me. Não respondeste à minha pergunta. Há alguma coisa
em mim que aliene as pessoas? A maneira como falo, por exemplo: afasta as
pessoas? O meu espanhol é completamente errado?

- O teu espanhol não é perfeito, mas melhora de dia para dia. Ouço uma
data de recém-chegados cujo espanhol não é tão bom como o teu.

- É muito simpático da tua parte dizer isso, mas o facto é que eu não
tenho bom ouvido. Não percebo o que as pessoas dizem e tenho de recorrer
à suposição. A mulher do clube, por exemplo: julguei que ela estava a
dizer que me queria casar com uma das raparigas que lá trabalham; mas
talvez tivesse ouvido mal. Disse-lhe que não andava à procura de noiva e
ela olhou para mim como se eu fosse doido.

Elena mantém-se calada.

- Com o Eugénio é a mesma coisa - prossegue ele. - Começo a pensar que há


qualquer coisa no meu discurso que me marca como um homem agarrado ao
antigamente, um homem que não esqueceu.

- Esquecer leva tempo - diz Elena. - Quando tiveres esquecido como deve
ser, o teu sentimento de insegurança diminuirá e tudo se tornará muito
mais fácil.

- Aguardo ansiosamente esse dia abençoado. O dia em que serei bem


acolhido no Salón Confort e no Salón Relax e em todos os outros salones
de Novilla.

174

Elena fita-o mordazmente.

- Ou então podes agarrar-te às tuas recordações, se é isso que preferes.


Mas depois não te venhas queixar a mim.

- Por favor, Elena, não me interpretes mal. Eu não dou valor às minhas
estafadas recordações de antigamente. Concordo contigo: não passam dum
fardo. Não, é uma coisa diferente que eu sinto relutância em abandonar:
não são as recordações em si, mas sim a sensação de residência num corpo
com passado, um corpo embebido no seu passado. Percebes isso?

- Uma vida nova é uma vida nova - responde Elena -, e não outra vez uma
vida antiga num ambiente novo. Olha para o Fidel...

- Mas o que tem de bom uma vida nova - interrompe-a ele - se não somos
transformados por ela, transfigurados, como indubitavelmente acontece
comigo?

Ela não lhe dá tempo para dizer mais nada, mas ele já terminou.

- Olha para o Fidel - diz ela. - Olha para o David. Não são criaturas da
recordação. As crianças vivem no presente, não no passado. Porque não
seguirmos-lhes o exemplo? Em lugar de esperarmos por ser transfigurados,
porque não tentarmos ser de novo como as crianças?

175
Capítulo 18

Ele e o rapaz passeiam no parque urbano, na primeira das excursões


sancionadas por Inês. A melancolia abandonou-lhe o seu coração, há vigor
no seu andar. Quando está com o miúdo os anos parecem desertar.

- E como vai o Bolívar? - pergunta.

- O Bolívar fugiu.

- Fugiu! Isso é uma surpresa! Julgava que o Bolívar era afeiçoado a ti e


à Inês.

- O Bolívar não gosta de mim. Só gosta da Inês.

- Mas tu consegues com certeza gostar de mais de uma pessoa.

- O Bolívar só gosta da Inês. É o cão dela.

- Tu és filho da Inês, mas não amas só a Inês. Também me amas a mim. Amas
o Diego e o Stefano. Amas o Álvaro.

- Não amo nada.

- Lamento ouvir isso. Portanto o Bolívar foi-se embora. Para onde pensas
que foi?

- Voltou. A Inês pôs comida lá fora e ele voltou. Agora já não o deixa
sair.

- Tenho a certeza de que só não está habituado à nova casa.

- A Inês diz que é porque lhe cheira a cães senhoras. Quer acasalar com
um cão senhora.

177

- Sim, isso é um das preocupações de ter um cão cavalheiro: ele quer


estar com cães senhoras. E o curso da natureza. Se os cães cavalheiros e
os cães senhoras deixassem de querer acasalar, não nasceriam cães bebés,
e daí a pouco deixaria por completo de haver cães. Portanto é capaz de
ser melhor dar um pouco de liberdade ao Bolívar. E quanto ao teu sono?
Andas a dormir melhor? Os pesadelos foram-se embora?

- Sonhei com o barco.

- Qual barco?

- O barco grande. Onde vimos o homem do chapéu. O pirata.

- É o piloto, não é pirata. O que é que sonhaste?

- Que ele se afundou.


- Afundou-se? E que aconteceu a seguir?

- Não sei. Não me lembro. Vieram os peixes.

- Bem, eu digo-te o que aconteceu. Fomos salvos, tu e eu. Devemos ter


sido salvos, caso contrário, como estaríamos agora aqui? Portanto foi só
um pesadelo. Seja como for, os peixes não comem gente. Os peixes são
inofensivos. Os peixes são bons.

É tempo de voltarem para trás. O Sol está a pôr-se e surgem as primeiras


estrelas.

- Estás a ver aquelas duas estrelas além, para onde eu estou a apontar?
Aquelas duas brilhante? São os Gémeos, assim chamadas porque estão sempre
juntas. E aquela estrela além, logo acima do horizonte, com a coloração
vermelha, é a Estrela da Tarde, a primeira estrela a aparecer quando o
Sol se põe.

- Os gémeos são irmãos?

- São. Esqueci-me do nome deles, mas em tempos foram famosos, tão famosos
que se transformaram em estrelas. Talvez a Inês se lembre da história. A
Inês conta-te histórias alguma vez?

- Conta-me histórias para adormecer.

178

- Isso é bom. Quando aprenderes a ler sozinho, não terás de depender da


Inês nem de mim nem de ninguém. Poderás ler todas as histórias do mundo.

- Eu sei ler, só que não quero. Gosto que a Inês me conte histórias.

- Isso não é um bocadinho imprevidente? Ler abrir-te-á novas janelas. Que


tipo de histórias é que a Inês te conta?

- Histórias do Terceiro Irmão.

- Histórias do Terceiro Irmão? Não conheço nenhuma. São sobre quê?

O rapaz para, aperta as mãos diante do corpo, olha para longe e começa a
falar.

- Era uma vez três irmãos e era de inverno e nevava e a mãe disse: «Três
Irmãos, Três Irmãos, sinto uma grande dor nas minhas entranhas e receio
morrer a menos que um de vocês vá procurar a Feiticeira que guarda a
preciosa erva da cura.»

«Então o Primeiro Irmão disse: "Mãe, Mãe, eu vou à procura da


Feiticeira." E vestiu a capa e saiu para a neve e encontrou uma raposa e
a raposa disse-lhe: "Onde é que vais, Irmão?", e o Irmão respondeu: "Ando
à procura da Feiticeira que guarda a preciosa erva da cura, de maneira
que não tenho tempo para falar contigo, Raposa." E a raposa disse: "Dá-me
comida e eu indico-te o caminho", e o Irmão disse: "Sai-me da frente" e
deu um grande pontapé à raposa e foi para a floresta e nunca mais se
soube dele.

«Então a Mãe disse: "Dois Irmãos, Dois Irmãos, sinto uma grande dor nas
minhas entranhas e receio morrer a menos que um de vocês vá procurar a
Feiticeira que guarda a preciosa erva da cura."

«Então o Segundo Irmão disse: "Mãe, Mãe, eu vou", e pôs a capa e saiu
para a neve e encontrou um lobo e o lobo disse: "Dá -me comida e eu
indico-te o caminho para a Feiticeira", e o Irmão disse: "Sai-me da
frente, Lobo", e deu-lhe um pontapé e foi para a floresta e nunca mais se
soube dele.

179

«Então a mãe disse: "Terceiro Irmão, Terceiro Irmão, sinto uma grande dor
nas minhas entranhas e receio morrer a menos que me tragas a preciosa
erva da cura."

«Então o Terceiro Irmão disse: "Não tenhas medo, Mãe, eu encontrarei a


Feiticeira e trarei a preciosa erva da cura." E saiu para a neve e
encontrou um urso e o urso disse: "Dá-me comida e eu indico-te o caminho
para a Feiticeira. E o Terceiro Irmão disse: "Dar-te-ei gostosamente o
que quiseres, Urso." Nessa altura o urso disse: "Dá-me o teu coração para
eu devorar." E o Terceiro Irmão disse: "Dar-te-ei gostosamente o meu
coração." Então deu o coração ao urso e o urso devorou-o.

«Então o urso mostrou-lhe um caminho secreto e ele foi ter à casa da


Feiticeira e bateu à porta e a Feiticeira perguntou: "Porque é que estás
a sangrar, Terceiro Irmão?" E o Terceiro Irmão disse: "Dei o meu coração
ao urso para ele devorar a fim de ele me indicar o caminho, porque tenho
de levar a preciosa erva da cura que porá a minha mãe boa."

«Então a Feiticeira disse: "Olha, aqui tens a preciosa erva da cura cujo
nome é Escamel, e como tiveste fé e deste o teu coração para ser
devorado, a tua mãe ficará boa. Segue as gotas de sangue na floresta e
encontrarás a tua casa."

«Então o Terceiro Irmão encontrou o caminho para casa e disse à mãe:


"Olha, Mãe, aqui tens a erva Escamel, e agora adeus, tenho de me ir
embora porque o urso devorou o meu coração." E a mãe provou a erva
Escamel e ficou logo boa e disse: "Meu Filho, Meu Filho, vejo que brilhas
com uma grande luz", e era verdade, ele brilhava com uma grande luz e
depois foi levado para o céu.

-E...?

- É tudo. É o fim da história.


180

- Portanto o último irmão transformou-se em estrela e a mãe ficou


sozinha.

O rapaz permanece em silêncio.

- Não gosto dessa história. O fim é muito triste. Seja como for, tu não
podes ser o terceiro irmão e ser levado para o céu como uma estrela
porque és o único irmão e portanto o primeiro irmão.

- A Inês diz que eu posso ter mais irmãos.

- Ah, diz? E donde é que virão esses irmãos? Espera ela que eu lhos leve
como te levei a ti?

- Ela diz que os vai ter pela barriga.

- Bom, nenhuma mulher pode fazer filhos sozinha, há de precisar dum pai
para a ajudar, ela tinha obrigação de o saber. É uma lei da natureza, a
mesma lei para nós que para os cães e lobos e ursos. Mas mesmo que ela
tenha mais filhos, continuarás a ser o primeiro filho, não o segundo ou
terceiro.

- Não! - Há ira na voz do rapaz. - Eu quero ser o terceiro filho! Disse


isso à Inês e ela disse que sim. Disse que eu posso voltar para a barriga
dela e tornar a sair.

- A Inês disse isso?

- Disse.

- Bem, se conseguisses isso seria um milagre. Nunca soube de nenhum rapaz


crescido como tu que voltasse à barriga da mãe, quanto mais que tornasse
a sair. A Inês devia querer dizer outra coisa. Talvez estivesse a tentar
dizer que hás de ser sempre o mais amado.

- Eu não quero ser o mais amado, quero ser o terceiro filho! Ela
prometeu-me!

- O um vem antes do dois, David, e o dois antes do três. A Inês pode


fazer promessas até ficar roxa, mas isso não pode ela mudar. Um-dois-
três. E uma lei ainda mais forte que a lei da natureza. Chama-se a lei
dos números. Seja como for, tu só queres ser o terceiro filho porque o
terceiro filho é o herói dessas histórias que ela te conta.

181

Há montes doutras histórias em que o herói é o filho mais velho, e não o


terceiro. Nem sequer tem de haver três irmãos. Pode haver só um filho, e
não é preciso que o seu coração seja devorado. Ou a mãe pode ter uma
filha, e não filhos. Há muitas, muitas espécies de histórias e muitas
espécies de herói. Se aprendeste a ler hás de descobrir isso por ti.
- Eu sei ler, é só que não quero. Não gosto de ler.

- Isso não é muito inteligente. Além disso, um dia destes vais fazer seis
anos e quando tiveres seis anos terás de ir para a escola.

- A Inês diz que eu não preciso de ir para a escola. Diz que eu sou o
tesouro dela. Diz que posso aprender sozinho em casa.

- Concordo que és o tesouro dela. Ela tem muita sorte em ter-te


encontrado. Mas tens a certeza de que queres estar sempre em casa com a
Inês? Se fosses para a escola conhecerias outras crianças da tua idade.
Podias aprender a ler como deve ser.

- A Inês diz que na escola eu não teria atenção individual.

- Atenção individual! O que quer isso dizer?

- A Inês diz que eu tenho de ter atenção individual porque sou esperto.
Diz que na escola as crianças espertas não têm atenção individual e
depois aborrecem-se.

- E o que é que te leva a pensar que és tão esperto?

- Sei os números todos. Queres ouvi-los? Sei 134 e sei 7 e sei - respira
fundo - 4623551 e sei 888 e sei 92 e sei...

- Para! Isso não é saber os números, David. Saber os números significa


saber contar. Significa conhecer a ordem dos números: que números vêm
antes e que números vêm depois.

Mais tarde significará também saber somar e subtrair números, passar de


um número a outro com um simples salto, sem contar todos os passos
intermédios. Saber o nome dos números não é a mesma coisa que ser esperto
para os números. Podias pôr-te para aí o dia inteiro a dizer o nome dos
números e nunca chegarias ao fim, porque os números não têm fim. Não
sabias? A Inês não te disse isso?

182

- Isso não é verdade!

- O que é que não é verdade? Que os números não têm fim? Que ninguém é
capaz de dizer o nome de todos?

- Eu sou capaz de dizer o nome de todos.

- Muito bem. Tu dizes que sabes 888. Qual é o número a seguir a 888?

- 92.

- Errado. O número a seguir é 889. Qual dos dois é maior, 888 ou 889?

- 888.
- Errado. 889 é maior porque vem a seguir a 888.

- Como é que sabes? Nunca estiveste lá.

- O que é que queres dizer com isso de ter estado lá? Claro que não
estive no 888. Não preciso de ter estado lá para saber que 888 é menor
que 889. Porquê? Porque aprendi como são construídos os números. Aprendi
as regras da aritmética. Quando fores para a escola aprenderás também as
regras e nessa altura os números deixarão de ser tamanha - procura a
palavra -, tamanha complicação na tua vida.

O rapaz não responde, mas fita-o diretamente. Nem por um momento ele
pensa que as suas palavras lhe passem despercebidas. Não, estão a ser
absorvidas, todas elas: absorvidas e rejeitadas. Por que razão é que este
miúdo, tão ansioso por abrir o seu caminho no mundo, se recusa a
perceber?

- Tu visitaste todos os números, segundo disseste - diz ele. - Então

diz-me qual é o último número, o último de todos. Não digas é que é o


Ómega. O Ómega não conta.

- O que é o Ómega?

- Não faças caso. Não digas é Ómega. Diz-me o último número, o último de
todos.

O rapaz fecha os olhos e respira fundo. Franze a testa, concentrado. Mexe


os lábios, mas não pronuncia uma palavra.

183

Um par de pássaros poisa no galho acima deles, murmurando em conjunto,


prontos para se recolherem.

Pela primeira vez ocorre-lhe que este miúdo pode não ser esperto - há
muitos miúdos espertos no mundo - mas outra coisa uma coisa para a qual
neste momento lhe falta a palavra. Estende a mão e abana ligeiramente o
rapaz.

- Basta - diz. - Basta de contar.

O rapaz sobressalta-se. Arregala os olhos e o rosto perde a sua expressão


enlevada e distante e deforma-se.

- Não me toques! - grita numa estranha voz aguda. - Estás a fazer-me


esquecer! Porque é que me estás a fazer esquecer? Odeio-te!

- Se não quer que ele vá para a escola - diz ele a Inês -, pelo menos
deixe-me ensiná-lo a ler. Ele está pronto para isso, há de aprender num
instante.
Há uma pequena biblioteca no centro comunitário dos Blocos Orientais, com
um par de estantes de livros: Aprenda Carpintaria por Si, A Arte do
Croché, Cento e Uma Receitas de Verão, e assim por diante. Mas poisado
sobre a capa, debaixo de outros livros, com a lombada rasgada, está o Dom
Quixote Ilustrado para Crianças.

Triunfantemente, ele exibe a sua descoberta a Inês.

- Quem é Dom Quixote? - pergunta ela.

- Um cavaleiro de armadura, dos velhos tempos. - Abre o livro na primeira


ilustração: um homem alto e escanzelado com uma barbicha, envergando uma
armadura, montado num cavalicoque de aspeto cansado; ao lado dele um
sujeito rechonchudo montado num burro. Diante deles a estrada serpenteia,
perdendo-se na distância. - É uma comédia - diz ele. - Ele vai gostar.
Ninguém se afoga e ninguém é morto, nem sequer o cavalo.

Ele instala-se à janela com o rapaz em cima dos joelhos.

184

- Tu e eu vamos ler este livro juntos, uma página por dia, às vezes duas.
Primeiro eu leio a história alto e depois seguimo-la ambos palavra por
palavra, vendo como as palavras se juntam. Combinado?

O rapaz faz um aceno afirmativo.

- Havia um homem que vivia em La Mancha (La Mancha é em Espanha, donde


veio originariamente a língua espanhola), um homem que já não era novo
mas também não era velho, ao qual um dia se meteu na cabeça tornar-se
cavaleiro. Então pegou na armadura enferrujada que estava pendurada na
parede e vestiu-a, assobiou para chamar o cavalo, que se chamava
Rocinante, chamou o seu amigo Sancho e disse-lhe: Sancho, estou na
disposição de ir em busca de aventuras de cavalaria; queres vir comigo?
Olha, aqui aparece Sancho e aqui aparece outra vez Sancho, que começa por
um S grande. Tenta recordar como é.

- O que são aventuras de cavalaria? - pergunta o rapaz.

- As aventuras dum caballero, um cavaleiro. Salvar donzelas bonitas em


perigo. Lutar contra ogres e gigantes. Hás de ver. O livro está cheio de
aventuras de cavalaria.

«Ora, Dom Quixote e o seu amigo Sancho (estás a ver, Dom Quixote com o Q
de cauda e Sancho outra vez?) ainda não tinham andado muito quando viram,
na berma da estrada, um gigante altíssimo que tinha nem mais nem menos
que quatro braços, que agitava ameaçadoramente para os viajantes.

«Olha, Sancho, a nossa primeira aventura, disse Dom Quixote. Enquanto eu


não vencer este gigante nenhum viajante estará seguro.
«Sancho dirigiu um olhar intrigado ao amigo. Não vejo nenhum gigante,
disse. Tudo o que vejo é um moinho de vento com quatro aspas a girar ao
vento.

- O que é um moinho de vento? - pergunta o rapaz.

- Olha para a figura. Aqueles grandes braços são as quatro velas do


moinho de vento.

185

Quando as velas rodam com o vento, fazem girar a roda, e a roda faz
girar uma grande pedra dentro do moinho, chamada mó, e a mó tritura o
trigo em farinha a fim de que o padeiro possa cozer pão para nós
comermos.

- Mas não é realmente um moinho de vento, pois não? - torna o rapaz. -


Continua.

- Pode ser que seja um moinho de vento que vejas, Sancho, disse Dom
Quixote, mas isso é apenas porque não foste encantado pela feiticeira

Maladuta. Se tivesses os olhos desanuviados verias um gigante com quatro


braços cavalgando a estrada. Queres saber o que é uma feiticeira?

- Eu sei o que são feiticeiras. Continua.

- Dizendo estas palavras, Dom Quixote baixou a lança para o ataque e


meteu esporas aos flancos do Rocinante, arremetendo contra o gigante. Com
um dos seus quatro punhos, o gigante desviou facilmente a lança de Dom
Quixote. Ah, ah, ah, pobre cavaleiro andrajoso, riu-se ele, acreditas
mesmo que podes levar a melhor sobre mim?

«Nessa altura Dom Quixote desembainhou a espada e voltou a atacar. Mas,


com a mesma facilidade, com o segundo punho, o gigante rechaçou a espada,
juntamente com o cavaleiro e o seu corcel.

«O Rocinante pôs-se laboriosamente de pé, mas Dom Quixote, esse, tinha


sofrido uma tão forte pancada na cabeça que estava bastante tonto. Ai de
mim, Sancho, disse Dom Quixote, a menos que me seja aplicado um bálsamo
nos ferimentos pela mão da minha amante, a bela Dulcineia, receio bem não
viver para ver outro dia nascer. - Que disparate, excelência, retorquiu
Sancho, é apenas um alto na cabeça, assim que eu o livrar deste moinho de
vento ficará são como um pêro. - Não é um moinho de vento, mas sim um
gigante, tornou Dom Quixote. - Assim que eu o livrar deste gigante, disse
Sancho.

- Porque é que o Sancho não luta também com o gigante? -pergunta o rapaz.

- Porque Sancho não é um cavaleiro. Não é um cavaleiro e portanto não tem


espada nem lança, mas apenas um canivete para descascar batatas.
186

A única coisa que pode fazer (como veremos amanhã) é montar Dom Quixote
no seu burro e levá-lo até à estalagem mais próxima para descansar e
restabelecer-se.

- Mas porque é que o Sancho não bate no gigante?

- Porque Sancho sabe que o gigante é na realidade um moinho de vento, e


não se pode lutar contra um moinho de vento. Os moinhos de vento não são
coisas vivas.

- Ele não é um moinho de vento, é um gigante. Só é um moinho de vento na


figura.

Ele poisa o livro.

- David - diz -, o Dom Quixote é um livro invulgar. À senhora da


biblioteca que no-lo emprestou parece um simples livro para crianças, mas
na verdade não é nada simples. Apresenta-nos o mundo através de dois
pares de olhos, os olhos de Dom Quixote e os olhos de Sancho. Para Dom
Quixote, é um gigante contra o qual luta. Para Sancho, é um moinho de
vento. A maioria de nós (tu talvez não, mas não obstante a maioria de
nós) concordará com Sancho que é um moinho de vento. Essa maioria inclui
o artista que desenhou uma figura dum moinho de vento. Mas também inclui
o homem que escreveu o livro.

- Quem é que escreveu o livro?

- Um homem chamado Benengeli.

- Ele vive na biblioteca?

- Não me parece. Não é impossível, mas eu diria que é improvável. A


verdade é que não dei por ele lá. Seria fácil de reconhecer. Tem uma
túnica comprida e um turbante na cabeça.

- Porque é que estamos a ler o livro do Bengeli?

- Benengeli. Porque eu o encontrei na biblioteca. Porque me pareceu que


havias de gostar dele. Porque vai ser bom para o teu espanhol. Que mais
queres saber?

O rapaz fica em silêncio.

187

- Vamos parar por aqui e continuamos amanhã com a próxima aventura de Dom
Quixote e Sancho. Amanhã espero que já sejas capaz de identificar Sancho
com S grande e Dom Quixote com Q de cauda.

- Não são as aventuras de Dom Quixote e Sancho. São as aventuras de Dom


Quixote.
188
Capítulo 19

Chegou às docas um dos maiores cargueiros, aquilo a que Álvaro chama um


cargueiro de bojo duplo, com porões a vante e a ré. Os operadores
portuários dividem-se em duas equipas. Ele, Simón, junta-se à equipa do
porão de vante.

A meio da manhã do primeiro dia da descarga, lá em baixo no porão, ouve


um tumulto no convés e a estridência de um apito.

- É o sinal de incêndio - diz um dos seus companheiros. - Toca a sair


depressa!

Sente o cheiro a fumo antes mesmo de começarem a subir precipitadamente a


escada. Solta-se em rolos do porão de ré.

- Todos para fora! - grita Álvaro do seu posto na ponte ao lado do


comandante do navio. - Todos para terra!

Mal os estivadores sobem as escadas, a tripulação do navio fecha os


escotilhões.

- Não vão apagar o fogo? - pergunta ele.

- Estão a abafá-lo - responde o companheiro. - Daqui a uma ou duas horas


estará extinto. Mas a carga vai-se estragar, disso não há dúvida. Mais
vale deitarmo-la aos peixes.

Os estivadores juntam-se no cais. Álvaro principia a fazer a chamada.

189

-Adriano... Agustín... Alexandre... - «Presente... Presente... Presente»,


ouvem-se as respostas. Até chegar a Marciano.

- Marciano... - Silêncio. - Alguém viu o Marciano? - Silêncio. Pelo


escotilhão fechado um penacho de fumo esvoaça no ar parado.

Os marinheiros voltam a abrir os escotilhões. São imediatamente


envolvidos por um denso fumo cinzento.

- Fechem! - ordena o comandante do navio; e, para Álvaro:

- Se o seu homem está lá em baixo, acabou-se tudo para ele.

- Não o vamos abandonar - diz Álvaro. - Eu vou lá abaixo.

- Enquanto eu for o comandante, não vai, não senhor.

Ao meio-dia os escotilhões são momentaneamente abertos. O fumo é tão


espesso como antes. O comandante manda alagar o porão. Os estivadores são
dispensados.
Ele conta os acontecimentos do dia a Inês.

- Quanto ao Marciano, não saberemos com certeza enquanto não esgotarem o


porão, amanhã de manhã - diz.

- O que é que não saberão do Marciano? Que foi que lhe aconteceu? -
pergunta o rapaz, entrando na conversa.

- A minha suposição é que ele adormeceu. Não teve cuidado e respirou


demasiado fumo. Quando a pessoa respira demasiado fumo fica fraca e tonta
e adormece.

- E depois?

- Depois, lamento dizer que não acorda nesta vida.

- Morre?

- Morre, sim.

- Se ele morreu irá para a próxima vida - diz Inês. - Portanto não vale a
pena preocuparmo-nos com ele. Está na hora do teu banho. Vamos.

- Pode ser o Simón a dar-me banho?

Há muito tempo que ele não vê o rapaz nu. Nota com prazer que o corpo
dele está a ficar mais cheio.

190

- Levanta-te - diz ele, e enxagua o resto do sabão e embrulha-o numa


toalha. - Vamos limpar-te rapidamente e depois podes vestir o pijama.

- Não - diz o rapaz. - Quero que seja a Inês a limpar-me.

- Ele quer que seja você a limpá-lo - transmite ele a Inês. - Eu não sou
suficientemente bom.

Deitado na cama, o rapaz deixa que seja Inês a tratar dele, limpando-o
entre os dedos dos pés e na racha entre as pernas. Tem o dedo na boca; os
seus olhos, entorpecidos de prazer omnipotente, seguem-na
preguiçosamente.

Ela põe-lhe pó de talco como se ele fosse um bebé; ajuda-o a vestir o


pijama.

Está na hora de dormir, mas ele não larga a história de Marciano.

- Talvez não esteja morto - diz. - Não podemos ir ver, a Inês, tu e eu?
Eu não respiro fumo nenhum, prometo. Podemos?

- Isso não serve de nada, David. E tarde de mais para salvar o Marciano.
E seja como for o porão do navio está cheio de água.
- Não é tarde de mais! Eu posso nadar debaixo de água e salvá-lo, como
uma foca. Posso nadar seja onde for. Já te disse, sou um artista da
evasão.

- Não, meu rapaz, nadar debaixo de água num porão alagado é demasiado
perigoso, mesmo para um artista da evasão. Podias ficar preso e nunca
mais voltar. Além disso, os artistas da evasão não salvam outras pessoas.
E tu não és nenhuma foca. Ainda nem sequer aprendeste a nadar. Já é tempo
de perceberes que uma pessoa não passa a nadar ou a ser um artista da
evasão só por querer. São precisos anos de treino. Seja como for, o
Marciano encontrou a paz. Provavelmente está neste preciso momento a
atravessar os mares, ansiando pela próxima vida. Vai ser uma grande
aventura para ele, começar de novo, completamente limpo. Nunca mais terá
de ser estivador e carregar com sacos pesados aos ombros. Pode ser um
pássaro. Pode ser o que quiser.

191

- Ou uma foca.

- Um pássaro ou uma foca. Ou até uma enorme baleia. Não há limites para o
que se pode ser na próxima vida.

- Tu e eu vamos para a próxima vida?

- Só se morrermos. E nós não vamos morrer. Vamos viver muito tempo.

- Como os heróis. Os heróis não morrem, pois não?

- Não, os heróis não morrem.

- Na próxima vida teremos de falar espanhol?

- Claro que não. Por outro lado, podemos ter de aprender chinês.

- E a Inês? A Inês virá também?

- Ela é que tem de decidir. Mas tenho a certeza de que se tu fores para a
próxima vida a Inês há de querer ir atrás. Ela ama-te muito.

- Veremos o Marciano?

- Sem dúvida. No entanto, podemos não o reconhecer. Podemos pensar que


estamos só a ver um pássaro, uma foca ou uma baleia. E o Marciano... o
Marciano há de pensar que está a ver um hipopótamo, ao passo que na
realidade serás tu.

- Não, eu quero dizer o verdadeiro Marciano, nas docas. Veremos o


verdadeiro Marciano?

- Assim que esgotarem o porão, o comandante mandará homens recolher o


corpo do Marciano. Mas o verdadeiro Marciano já não estará entre nós.

- Eu posso vê-lo?
- O verdadeiro Marciano, não. O verdadeiro Marciano é invisível para nós.
Quanto ao corpo, o corpo de que o Marciano fugiu, quando chegarmos às
docas já terá sido levado. Os homens hão de fazê-lo ao raiar do dia,
enquanto tu ainda dormes.

192

- Levado para onde?

- Levado para ser enterrado.

- E se ele não estiver morto? E se o enterrarem e ele não estiver morto?

- Isso não acontecerá. As pessoas que enterram os mortos, os coveiros,


têm o cuidado de não enterrar uma pessoa se ela ainda estiver viva.
Verificam se o coração bate. Verificam se há respiração. Se ouvirem nem
que seja o mais pequeno batimento do coração, não o enterram. Portanto
não há necessidade de nos preocuparmos. O Marciano está em paz...

- Não, não estás a perceber! E se a barriga estiver cheia de fumo mas ele
não estiver realmente morto?

- Os pulmões. Nós respiramos pelos pulmões, não é pela barriga. Se entrou


fumo nos pulmões do Marciano, ele terá certamente morrido.

- Isso não é verdade! Tu é que estás a dizer isso! Podemos ir às docas


antes de os coveiros lá chegarem? Podemos ir agora?

- Agora, às escuras? Não, claro que não. Porque é que estás tão ansioso
por ver o Marciano, meu rapaz? Um corpo sem vida não é importante. O
importante é a alma. A alma do Marciano é o verdadeiro Marciano; e a alma
vai a caminho da próxima vida.

- Eu quero ver o Marciano! Quero chupar-lhe o fumo! Não quero que ele
seja enterrado!

- Se pudéssemos trazer o Marciano de volta chupando o fumo dos pulmões


dele, David, os marinheiros já o teriam feito há muito tempo, garanto-te.
Os marinheiros são como nós, cheios de boa vontade. Mas não se pode
devolver uma pessoa à vida chupando-lhe os pulmões, quando ela já está
morta. E uma das leis da natureza. Quando morremos estamos mortos. O
corpo não regressa à vida. Só a alma continua a viver: a alma do
Marciano, a minha alma, a tua alma.

193

- Isso não é verdade! Eu não tenho alma! Eu quero salvar o Marciano!

- Eu não o permitirei. Iremos ao funeral do Marciano, e no funeral terás


oportunidade, como toda a gente, de lhe dar um beijo de despedida. É
assim que vai ser e não se fala mais nisso. Não vou discutir mais a morte
do Marciano.

- Tu não me podes dizer o que fazer! Não és meu pai! Vou pedir à Inês!

- Posso garantir-te que a Inês não vai palmilhar o caminho contigo até às
docas em plena escuridão. Tem juízo. Eu sei que queres salvar as pessoas,
e isso é louvável, mas às vezes as pessoas não querem ser salvas. Deixa o
Marciano em paz. O Marciano foi-se. Lembremos o que ele tinha de bom e
deixemos partir o seu invólucro. Agora anda: a Inês está à tua espera
para te contar a tua história antes de dormires.

Quando na manhã seguinte se apresenta ao serviço, o bombeio do porão de


ré está quase terminado. Daí a uma hora uma equipa de marinheiros pode
descer e passado pouco tempo, enquanto os trabalhadores portuários
observam em silêncio no cais, o corpo do camarada falecido, amarrado a
uma maca, é trazido até ao convés.

Álvaro dirige-se a eles.

- Dentro dum ou dois dias teremos possibilidade de nos despedirmos do


nosso amigo como deve ser, rapazes - diz. - Mas para já é trabalhar como
de costume. O porão está uma desgraça e a nossa tarefa é limpá-lo.

Durante o resto do dia os estivadores mantêm-se no porão, com água pelos


tornozelos, envolvidos pelo cheiro acre da cinza molhada. Não houve um
saco que não rebentasse; a sua tarefa é recolher aquela porcaria pegajosa
em baldes e passá-los de mão em mão até ao convés, de onde são despejados
pela borda.

194
É um trabalho desconsolado, executado em silêncio num lugar de morte.
Quando nessa noite vai ao apartamento de Inês está exausto e maldisposto.

- Por acaso não tem nada que se beba? - pergunta-lhe.

- Lamento, mas acabou-se-me tudo. Eu faço-lhe chá. Esparramado na sua


cama, o rapaz está absorto no livro. Já esqueceu Marciano.

- Olá - saúda-o ele. - Como está hoje Dom Quixote? O que tem ele na
ideia?

O rapaz ignora a pergunta.

- O que é que diz esta palavra? - pergunta, apontando.

- Diz Aventuras, com uma letra A grande. As Aventuras de Dom Quixote.

- E esta palavra?

- Fantástico, com um f!.. Lembras-te da letra Q grande? É Quixote. Podes


sempre reconhecer Quixote pelo Q grande. Julgava que me tinhas dito que
já sabias as letras.

- Eu não quero ler as letras. Quero ler a história.

- Isso não é possível. As histórias são feitas de palavras e as palavras


são feitas de letras. Sem letras não haveria história, não haveria Dom
Quixote. Tens de saber as letras.

- Mostra-me qual é fantástico.

Ele põe o indicador do rapaz em cima da palavra.

- Aqui. - As unhas estão limpas e bem aparadas, ao passo que a sua


própria mão, que antes era macia e limpa, está gretada e suja, com
fuligem profundamente entranhada nas fendas.

O rapaz fecha os olhos com força, retém a respiração e abre muito os


olhos.

- Fantástico.

- Excelente. Já aprendeste a reconhecer a palavra fantástico. Há duas


maneiras de aprender a ler, David. Uma é aprender as palavras uma a uma,
como estás a fazer.

195

A outra maneira, que é mais rápida, é aprender as letras que formam as


palavras. Só há vinte e sete. Depois de as aprenderes, podes pronunciar
palavras estranhas por ti, sem precisares que eu tas diga todas as vezes.
O rapaz abana a cabeça.
- Quero ler da primeira maneira. Onde está o gigante?

- O gigante que era na realidade um moinho de vento? - Vira as páginas. -


Aqui está o gigante. - Coloca o indicador do rapaz na palavra gigante.

O rapaz fecha os olhos.

- Estou a ler com os dedos - anuncia.

- Não importa como lês, com os olhos ou com os dedos como os cegos,
contanto que leias. Mostra-me Quixote, com um Q.

O rapaz espeta o dedo na página.

- Aqui.

- Não. - Desloca o dedo do rapaz para o sítio certo. - Aqui é que está
Quixote, com o Q grande.

O rapaz apodera-se petulantemente da mão dele.

- Isso não é o verdadeiro nome dele... Não sabes?

- Pode não ser o seu nome mundano, o nome pelo qual os vizinhos o
conhecem, mas é o nome que ele escolhe para si e o nome pelo qual o
conhecemos.

- Não é o verdadeiro nome dele.

- Qual é o verdadeiro nome dele? Abruptamente, o rapaz retrai-se.

- Podes ir - murmura. - Vou ler sozinho.

- Muito bem, vou-me embora. Quando caíres em ti, quando resolveres que
queres aprender a ler como deve ser, chama-me. Chama-me e diz-me o
verdadeiro nome do Dom Quixote.

- Não digo. É secreto.

Inês está embrenhada em tarefas culinárias. Nem sequer levanta os olhos


quando ele sai.

196

Passa um dia antes da visita seguinte. Ele dá com o rapaz a examinar o


livro como antes. Tenta falar, mas o rapaz faz-lhe um gesto impaciente -
«Chiu» - e vira a página com um movimento rápido e sacudido, como se
atrás dela houvesse uma cobra que pudesse mordê-lo.

A ilustração mostra Dom Quixote, enfeixado num molho de cordas, a ser


arriado para dentro de um buraco no solo.
- Queres que te ajude? Queres que te diga o que está a acontecer? -
pergunta ele.

O rapaz acena afirmativamente. Ele pega no livro.

- Isto é um episódio chamado A Cova de Montesinos. Tendo ouvido falar


muito da Cova de Montesinos, Dom Quixote resolveu ver por si próprio as
suas famosas maravilhas. Assim, deu instruções ao seu amigo Sancho e ao
douto letrado (o homem do chapéu deve ser o douto letrado) que o
arriassem até ao interior da escura cova e depois esperassem
pacientemente pelo seu sinal para o içarem de novo.

«Durante uma hora inteira Sancho e o letrado esperaram à entrada da cova.

- O que é um letrado?

- Um letrado é um homem que leu muitos livros e aprendeu muitas coisas.


Durante uma hora inteira Sancho e o letrado ficaram à espera, até que por
fim sentiram um puxão na corda e começaram a içar, e assim Dom Quixote
veio subindo até à luz.

- Então o Dom Quixote não estava morto?

- Não, não estava morto.

O rapaz solta um suspiro satisfeito.

- Isso é bom, não é? - pergunta.

- Sim, claro que é bom. Mas porque é que pensavas que ele estava morto?
Ele é Dom Quixote. É o herói.

197

- Ele é o herói e também é um mágico. Amarram-no com cordas e metem-no


numa caixa e quando se abre a caixa ele não está lá, fugiu.

- Ah, julgavas que Sancho e o letrado tinham amarrado Dom Quixote? Não,
se lesses o livro em lugar de ver só as figuras e adivinhar a história,
saberias que eles usaram a corda para o içarem da cova, e não para o
amarrar. Continuo?

O rapaz diz que sim com a cabeça.

- Dom Quixote agradeceu cortesmente aos seus amigos. Depois presenteou-os


com a narração de tudo o que tinha acontecido na Cova de Montesinos. Nos
três dias e três noites passados debaixo de terra, disse ele, tinha visto
muitas coisas espantosas, entre as quais quedas-d'água cujas cascatas não
eram gotas de água, mas sim diamantes a cintilar e procissões de
princesas de vestidos de cetim, e até, a maior maravilha de todas, a
Senhora Dulcineia montada num corcel branco com rédeas cravejadas de
jóias, que parou e lhe falou amavelmente.

«Mas, disse Sancho, vossa mercê está certamente enganado, porque não
esteve debaixo de terra três dias e três noites, mas apenas uma hora, no
máximo.

«Não, Sancho, replicou Dom Quixote gravemente, três dias e três noites
estive ausente; se te pareceu uma hora apenas, foi porque adormeceste
enquanto esperavas e não deste pela passagem do tempo.

«Sancho ia argumentar, mas depois pensou melhor, lembrando-se de como Dom


Quixote podia ser obstinado.

Sim, vossa mercê deve ter razão, disse, olhando para o douto letrado e
piscando o olho: durante três dias e três noites inteiros estivemos ambos
a dormir, até vós regressardes. Mas peço-vos que me conteis mais da
Senhora Dulcineia e do que aconteceu entre ela e vós.

«Gravemente, Dom Quixote olhou para Sancho. Sancho, disse, o amigo de


pouca fé, quando aprenderás, quando aprenderás? E calou-se.

198

«Sancho coçou a cabeça. Não negarei a vossa mercê que é difícil acreditar
que passastes três dias e três noites na Cova de Montesinos quando nos
pareceu uma hora apenas; e portanto não negarei que é difícil acreditar
que haja neste preciso momento exércitos de princesas debaixo dos vossos
pés, e donzelas às cabriolas em corcéis alvos de neve. Ora, se a Senhora
Dulcineia tivesse ofertado a vossa mercê algum penhor da sua verdade,
como um rubi ou uma safira da rédea da sua montada, que pudésseis mostrar
a miseráveis incrédulos como nós, a coisa seria diferente.

«Um rubi ou uma safira, meditou Dom Quixote. Deveria mostrar-te um rubi
ou uma safira como prova de que não minto.

«Por assim dizer, disse Sancho. Por assim dizer.

«E se eu te mostrasse tal rubi ou safira, Sancho? E então?

«Então eu cairia de joelhos e beijaria a mão de vossa mercê e

pedir-vos-ia perdão de alguma vez ter duvidado de vós. E seria vosso fiel
seguidor até ao fim dos tempos.

Fecha o livro.

- E depois? - pergunta o rapaz.

- E depois nada. É o fim do capítulo. Até amanhã não há mais.

O rapaz tira-lhe o livro das mãos, volta a abri-lo na ilustração de Dom


Quixote no molho de cordas e olha fixamente o texto impresso à volta.
- Mostra-me - diz em voz sumida.

- Mostro-te o quê?

- Mostra-me o fim do capítulo. Ele indica o fim do capítulo.

- Olha, aqui começa um novo capítulo, intitulado Don Pedro y las


Marionetas, Dom Pedro e as marionetas. A Cova de Montesinos já ficou para
trás.

- Mas o Dom Quixote mostrou o rubi ao Sancho?

- Não sei. O señor Benengeli não diz. Talvez tenha mostrado e talvez não.

199

- Mas ele tinha realmente um rubi? Esteve realmente três dias e três
noites debaixo de terra?

- Não sei. Talvez para Dom Quixote o tempo não seja o mesmo que para nós.
Talvez aquilo que para nós é um abrir e fechar de olhos seja para Dom
Quixote uma eternidade. Mas se estás convencido de que Dom Quixote saiu
da cova com rubis nos bolsos, talvez devesses escrever o teu próprio
livro a dizer isso. Nessa altura podemos devolver o livro do señor
Benengeli à biblioteca e ler antes o teu. Infelizmente, porém, antes de
poderes escrever o teu livro terás de aprender a ler.

- Eu sei ler.

- Não sabes nada. És capaz de olhar para uma página e mexer os lábios e
inventar histórias na tua cabeça, mas isso não é ler. Para ler de verdade
tens de te cingir ao que está escrito na página. Tens de abdicar das tuas
próprias fantasias. Tens de deixar de ser pateta. Tens de deixar de ser
bebé.

Nunca tinha falado tão diretamente com o miúdo, com tanta rispidez.

- Eu não quero ler à tua maneira - responde o miúdo. - Quero ler à minha
maneira. Era uma vez um gato maltês, e um e dois e dois e três, quando
falava, falava francês e quando dormia, falava dormês.

- Isso não passa duma tolice. Dormês é uma palavra que não existe.

Dom Quixote não é uma tolice. Não podes inventar tolices e fingir que
estás a ler coisas sobre ele.

- Posso, pois! Não é tolice nenhuma e eu sei ler! O livro não é teu, é
meu! - E, franzindo a testa, volta a passar sacudida e furiosamente as
páginas.

- Pelo contrário, é o livro do senor Benengeli, que ele deu ao mundo, e


portanto pertence a todos nós, a todos nós num sentido e à biblioteca
noutro, mas em sentido nenhum só a ti. E para de dar puxões às páginas.
Porque é que estás a tratar tão mal o livro?

200

- Porque sim. Porque se eu não me apressar abre-se um buraco.

- Abre-se onde?

- Entre as páginas.

- Isso é um disparate. Não há buracos entre as páginas.

- Há um buraco. Está dentro da página. Tu não o vês porque não vês nada.

- Vamos lá parar com isso!

Por um instante ele pensa que ela se dirige ao miúdo. Por um instante
pensa que ela despertou por fim para o admoestar pela sua teimosia. Mas
não, é nele que ela assesta um olhar irado.

- Julgava que queria que ele aprendesse a ler - diz ele.

- Não à custa de toda essa implicação. Arranje outro livro. Arranje um


livro mais simples. Este Dom Quixote é demasiado difícil para uma
criança. Devolva-o à biblioteca.

- Não! - O rapaz agarra-se com força ao livro. - Não o vais levar! O


livro é meu!

201

Capítulo 20

Desde que Inês o ocupou, o apartamento perdeu o antigo ar austero. Ficou,


aliás, atravancado, e não apenas com os seus muitos pertences. O pior é o
canto junto à cama do rapaz, onde há uma caixa de cartão a abarrotar de
objetos que ele recolheu e trouxe para casa: pedras pequenas, pinhas,
flores murchas, ossos, conchas, cacos e metal velho.

- Não está na altura de deitar essa porcaria fora? - sugere ele.

- Não é porcaria nenhuma - retruca o rapaz. - São coisas que eu ando a


juntar.

Ele empurra a caixa com o pé.

- É lixo. Não podes juntar todas as coisas que encontras.


- É o meu museu - diz o rapaz.

- Um monte de porcarias velhas não é um museu. As coisas precisam de ter


algum valor antes de terem lugar num museu.

- O que é o valor?

- Se as coisas têm valor isso significa que as pessoas em geral as


apreciam, e são unânimes em achá-las valiosas. Uma velha chávena quebrada
não tem valor. Ninguém a aprecia.

- Eu aprecio-a. O museu é meu, não é teu. Ele vira-se para Inês.

- Isto tem o seu beneplácito?

203

- Deixe-o lá. Ele diz que tem pena das coisas velhas.

- Não podes ter pena duma chávena velha sem asa.

O rapaz fica a olhar para ele, mostrando incompreensão.

- As chávenas não têm sentimentos. Se deitares uma chávena fora, ela não
se importa. Não fica magoada.

Se vais ter pena duma chávena velha, já agora podias ter pena de... -
olha em redor, exasperado - do céu, do ar, da terra debaixo dos teus pés.
Já agora, podias ter pena de tudo.

O rapaz continua a fitá-lo.

- As coisas não são concebidas para durarem eternamente -diz ele. - Todas
as coisas têm o seu prazo natural. Essa chávena velha teve uma boa vida;
agora está na altura de se reformar e dar lugar a uma chávena nova.

Estampa-se no rosto do rapaz a expressão obstinada com a qual ele já se


familiarizou.

- Não! - diz. - Vou guardá-la! Não vou deixar que a leves! É minha!

À medida que Inês se lhe submete em todas as frentes, o rapaz torna-se


cada vez mais teimoso. Não há dia em que não discuta, em que não levante
a voz e bata o pé.

Ele insta-a a pô-lo na escola.

- O apartamento está a tornar-se acanhado de mais para o conter - diz. -


Ele precisa de se confrontar com o mundo real. Precisa de horizontes mais
amplos. - Mas ela continua a resistir.

- Donde vem o dinheiro? - pergunta o rapaz.

- Depende do tipo de dinheiro que tens em mente. As moedas vêm dum sítio
chamado Casa da Moeda.
- E da Casa da Moeda que recebes o teu dinheiro?

- Não, eu recebo o meu dinheiro do pagador nas docas. Tu já viste.

- Porque é que não vais à Casa da Moeda?

204

- Porque a Casa da Moeda não nos dá dinheiro sem mais nem menos. Temos de
trabalhar para o receber. Temos de o ganhar.

- Porquê?

- Porque o mundo funciona assim. Se não tivéssemos de trabalhar para


ganhar dinheiro, se a Casa da Moeda se limitasse a dar dinheiro a toda a
gente, ele deixaria de ter qualquer valor.

Leva o rapaz a um jogo de futebol e paga à entrada.

- Porque é que temos de pagar? - pergunta o rapaz. - Da outra vez não


tivemos de pagar.

- Isto é um jogo de campeonato, o último jogo da temporada. No fim do


jogo os vencedores recebem bolo e vinho. Alguém tem de reunir o dinheiro
para comprar o bolo e o vinho. Se o padeiro não receber dinheiro pelo seu
bolo, não poderá comprar farinha, açúcar e manteiga para o bolo seguinte.
É essa a regra: se a pessoa quer comer bolo, tem de o pagar. E o mesmo se
aplica ao vinho.

- Porquê?

- Porquê? A resposta a todos os teus porquês, passados, presentes e


futuros, é esta: Porque é assim que o mundo funciona. O mundo não foi
feito para nossa comodidade, meu jovem amigo. E a nós que cabe

adaptarmo-nos.

O rapaz abre a boca para responder. Rapidamente, ele leva um dedo aos
lábios.

- Não - diz. - Mais perguntas, não. Cala-te e vê o jogo. Depois do jogo


regressam ao apartamento. Inês atarefa-se no fogão; há no ar um cheiro a
carne esturrada.

- Hora de jantar! - chama ela. - Vai lavar as mãos!

- Vou andando - diz ele. - Adeus, até amanhã.

- Tem de ir? - pergunta Inês. - Não quer ficar a assistir ao jantar dele?

A mesa está posta para uma pessoa, para o pequeno príncipe. Inês
transfere duas diminutas salsichas da frigideira para o prato do rapaz.
No arco à volta delas dispõe as duas metades de uma batata cozida,
rodelas de cenoura e rebentos de couve-flor, em cima das quais verte
molho da frigideira.

205

Bolívar, que estava a dormir ao pé da janela aberta, levanta-se e


aproxima-se com passo abafado.

- Mm, salsichas! - diz o rapaz. - As salsichas são a melhor comida.

- Há muito tempo que eu não via salsichas - observa ele para Inês. - Onde
as comprou?

- Foi o Diego que as arranjou. É amigo de uma pessoa que trabalha na


cozinha de La Residência.

O rapaz parte as salsichas em bocadinhos, corta as batatas e mastiga


vigorosamente. Parece não se perturbar nada com os dois adultos que estão
de pé junto dele, nem com o cão que poisa a cabeça nos seus joelhos,
observando cada movimento seu.

- Não te esqueças das cenouras - diz Inês. - Fazem-nos ver no escuro.

- Como os gatos - diz o rapaz.

- Como os gatos - repete Inês. O rapaz come as cenouras.

- A que é que a couve-flor faz bem? - pergunta.

- A couve-flor faz bem à saúde.

- A couve-flor faz bem à saúde e a carne faz-nos fortes, não é?

- Pois é, a carne faz-nos fortes.

- Tenho de ir - diz ele a Inês. - A carne faz-nos fortes, é verdade, mas


talvez devesse pensar duas vezes antes de lhe dar salsichas.

- Porquê? - pergunta o rapaz. - Porque é que a Inês devia pensar duas


vezes?

- Por causa daquilo que as salsichas levam. O que as salsichas têm nem
sempre faz bem.

- O que é que as salsichas levam?

- Bem, o que é que achas?

206

Carne.
Sim, mas que tipo de carne?

- Carne de canguru.

- Agora estás a ser pateta.

- Carne de elefante. - As salsichas levam carne de porco, não sempre, mas


às vezes, e os porcos não são animais limpos. Não comem erva, como as
ovelhas e as vacas. Comem tudo o que lhes aparece à frente. - Lança um
olhar a Inês. Ela retribui-lhe um olhar enfurecido, apertando os lábios.
- Por exemplo, comem cocó.

- Da retrete?

- Não, da retrete não. Mas se por acaso encontrarem cocó no campo,

comem-no. Sem pensar duas vezes. São omnívoros, o que quer dizer que
comem de tudo. Até se comem uns aos outros.

- Isso não é verdade - objeta Inês.

- Há cocó nas salsichas? - pergunta o rapaz. Poisou o garfo.

- Ele está a dizer disparates, não lhe ligues, não há cocó nas tuas
salsichas.

- Eu não estou a dizer que haja cocó de verdade nas tuas salsichas - diz
ele. - Mas há carne de cocó nelas. Os porcos são animais pouco limpos. A
carne de porco é carne de cocó. Mas isso é apenas a minha opinião. Nem
toda a gente concordará. Tens de decidir por ti.

- Não quero mais - diz o rapaz, afastando o prato. - O Bolívar pode comer
o resto.

- Acaba o teu prato, que eu dou-te um chocolate - diz Inês.

- Não.

- Espero que se sinta orgulhoso - comenta Inês, virando-se para ele.

- É uma questão de higiene. Higiene ética. Se uma pessoa come porco


torna-se semelhante aos porcos. Não completamente, mas em parte. Fica com
algo do porco.

207

- Você está doido - diz Inês. Dirige-se ao rapaz. - Não lhe ligues,
endoideceu.

- Não estou doido. Chama-se a isso consubstanciação. Porque é que pensa


que há canibais? Um canibal é uma pessoa que leva a consubstanciação a
sério. Se comermos outra pessoa encarnamos essa pessoa. É essa a
convicção dos canibais.
- O que é um canibal? - pergunta o rapaz.

- Os canibais são selvagens - responde Inês. - Não precisas de te


preocupar, aqui não há canibais. Os canibais são só uma fábula.

- O que é uma fábula?

- Uma história dos tempos antigos que já não é verdadeira.

- Conta-me uma fábula. Quero ouvir uma fábula. Conta-me uma fábula dos
três irmãos. Ou dos irmãos do céu.

- Não sei nada de irmãos do céu. Acaba lá de jantar.

- Se não lhe conta a história dos irmãos, conte-lhe a do Capuchinho


Vermelho - diz ele. - Conte-lhe como o lobo devora a avó da menina e se
transforma numa avó, uma avó-loba. Por consubstanciação.

O rapaz levanta-se, despeja a comida do prato na tigela do cão e põe o


prato no lava-louça da cozinha. O cão devora as salsichas.

- Vou ser nadador-salvador - anuncia o rapaz. - O Diego vai-me ensinar na


piscina.

- Isso é bom - diz ele. - Que mais tencionas ser, além de

nadador-salvador, artista da evasão e mágico?

- Nada. É tudo.

- Tirar pessoas das piscinas, fugir de caixas e fazer truques de magia


são passatempos, e não uma carreira, um trabalho da vida da pessoa. Como
é que vais ganhar realmente a vida?

O rapaz lança um olhar à mãe, como se procurasse orientação.

208

Depois, encorajado, diz:

- Eu não quero ganhar a vida.

- Todos nós temos de ganhar a vida. Isso faz parte da condição humana.

- Porquê?

- Porquê? Porquê? Porquê? Não é assim que nos conduzimos numa conversa
como deve ser. Como é que vais comer se passares todo o tempo a salvar
pessoas, a libertar-te de correntes e recusando-te a trabalhar? Onde é
que vais arranjar a comida para ficares forte?

- À loja.

- Vais à loja e eles dão-te comida. De graça. -Sim.


- E o que acontecerá quando as pessoas da loja tiverem dado toda a sua
comida de graça? O que acontecerá quando a loja estiver vazia?

Serenamente, com um sorrisinho estranho nos lábios, o rapaz responde:

- Porquê?

- Porquê o quê?

- Porque é que a loja está vazia?

- Porque se tiveres X pães e os deres todos de graça, ficas sem pão


nenhum e sem dinheiro para comprar mais pães. Porque X menos X é igual a
zero. É igual a nada. E igual a vazio. E igual a um estômago vazio.

- O que é X?

- X é um número qualquer, dez ou cem ou mil. Se tens alguma coisa e a


dás, ficas sem ela.

O rapaz cerra os olhos com força e faz uma careta engraçada. Depois
começa a rir. Agarra-se à saia da mãe, encosta a cara à sua coxa e ri-se
até ficar todo vermelho.

- O que é, meu querido? - pergunta Inês. Mas o rapaz não para de rir.

209

- O melhor é ir-se embora - diz Inês. - Está a perturbá-lo.

- Estou a educá-lo. Se o pusesse na escola, não haveria necessidade de


lições em casa.

O rapaz fez-se amigo de um velho do Bloco E que tem um pombal no telhado.


Pelo que está escrito na caixa de correio do átrio chama-se Palamaki, mas
o rapaz chama-lhe señor Paloma, senhor Pomba. O señor Paloma deixa o
rapaz dar de comer aos pombos à mão. Até lhe deu um pombo, uma ave toda
branca a que o rapaz põe o nome de Blanco.

Blanco é uma ave plácida, apática até, que se deixa levar a passear
poisada no pulso estendido do rapaz ou às vezes no seu ombro. Não mostra
inclinação para se afastar muito no seu voo, nem sequer para voar pura e
simplesmente.

- Acho que talvez tenham cortado as asas ao Blanco - diz ele ao rapaz. -
Isso explicaria a razão por que não voa.

- Não - retruca o rapaz. - Olha! - Lança ao ar a ave, que bate as asas


languidamente, descreve um ou dois círculos e depois volta a poisar-lhe
no ombro e alisa as penas com o bico.

- O señor Paloma diz que o Blanco é capaz de transportar mensagens - diz


o rapaz. - Diz que se eu me perder posso atar uma mensagem à pata do
Blanco e o Blanco voa para casa e depois o señor Paloma vem e
encontra-me.

- Isso é muito simpático da parte do señor Paloma. Tens de ter o cuidado


de andar com papel e lápis e guita para poderes atar a mensagem à pata do
Blanco. O que é que vais escrever? Mostra-me o que vais escrever quando
quiseres ser resgatado.

Estão a atravessar o parque infantil vazio. Na caixa de areia o rapaz


agacha-se, alisa a superfície e começa a escrever com um dedo. Ele lê por
cima do seu ombro: O, a seguir E, depois um caráter que não consegue
identificar, a seguir novamente O, depois X e outra vez X

210

O rapaz levanta-se.

- Lê - diz.

- Estou a ter dificuldade. É espanhol? O rapaz diz que sim com a cabeça.

- Não, desisto. O que é que diz?

- Diz: Sigam o Blanco, o Blanco é o meu melhor amigo.

- Ah, sim? Dantes o teu melhor amigo era o Fidel, e antes dele El Rey

- O que foi que aconteceu para o Fidel já não ser teu amigo e o seu lugar
ter sido ocupado por uma ave?

- O Fidel é velho de mais para mim. O Fidel é bruto.

- Nunca vi o Fidel ser bruto. Foi a Inês que te disse que ele era bruto?

O rapaz faz que sim.

- O Fidel é um rapaz perfeitamente manso. Gosto dele e dantes tu também


gostavas. Deixa-me dizer-te uma coisa. O Fidel está magoado porque tu já
não brincas com ele. Na minha opinião estás a tratar mal o Fidel. Aliás,
estás a tratá-lo à bruta. Na minha opinião devias passar menos tempo no
telhado com o señor Paloma e mais tempo com o Fidel.

O rapaz faz festas à ave que tem no braço. A reprimenda é aceite sem
objeção. Ou talvez ele deixe simplesmente as palavras passarem-lhe por
cima.

- Além disso, acho que devias informar a Inês de que está na altura de
ires para a escola. Devias insistir nisso.

Sei que és muito esperto e aprendeste sozinho a ler e escrever, mas na


vida real tens de conseguir escrever como as outras pessoas. Não vale a
pena mandar o Blanco com uma mensagem atada à pata se ninguém conseguir
lê-la, nem sequer o señor Paloma.

- Eu sei lê-la.
- Sabes lê-la porque foste tu que a escreveste. Mas o que interessa nas
mensagens é que as outras pessoas têm de conseguir lê-las. Se te perderes
e mandares uma mensagem ao señor Paloma para ele te ir salvar, ele tem de
conseguir ler a tua mensagem.

211

Caso contrário terás de te atar a ti próprio à pata do Blanco e dizer-lhe


que te leve para casa.

O rapaz dirige-lhe um olhar intrigado.

- Mas - diz. Depois vê que é um gracejo e ambos riem a bom rir.

Estão no parque infantil dos Blocos Orientais. Ele esteve a empurrar o


rapaz no baloiço, tão alto que ele gritava de medo e prazer. Agora estão
sentados ao lado um do outro, a recuperar o fôlego e a absorver o que
resta do crepúsculo.

- A Inês pode ter gémeos pela barriga? - pergunta o rapaz.

- Claro que pode. Pode ser invulgar mas é possível.

- Se a Inês tivesse gémeos eu podia ser o terceiro irmão. Os gémeos têm


sempre de andar juntos?

- Não têm, mas normalmente preferem andar. Os gémeos são naturalmente


amigos, como as estrelas gémeas. Se não fossem, podiam começar a vaguear
em separado e perder-se no céu. Mas o amor que têm uma pela outra

mantém-nas juntas. Continua a mantê-las juntas até ao fim dos tempos.

- Mas elas não estão juntas, as estrelas gémeas, não estão realmente
juntas.

- Não, isso é verdade, não estão encostadinhas uma à outra no céu, há um


pequeno intervalo entre elas. É assim que a natureza funciona. Pensa nos
amantes. Se os amantes estivessem todo o tempo agarradinhos um ao outro
já não precisariam de se amar. Seriam um só. Já não haveria nada para
desejarem. É por isso que a natureza tem intervalos. Se todas as coisas
estivessem agarradas umas às outras, tudo no universo, não existirias tu
nem eu nem a Inês. Tu e eu não estaríamos neste momento a falar um com o
outro, haveria apenas silêncio; unicidade e silêncio.

212

Portanto, em geral, é bom que haja intervalos entre as coisas, que tu e


eu sejamos dois em vez de um.

- Mas podemos cair pelo intervalo. Pela racha.


- Um intervalo não é a mesma coisa que uma racha. Os intervalos fazem
parte da natureza, parte da maneira como as coisas são. Não se pode cair
por um intervalo e desaparecer. É uma coisa que pura e simplesmente não
acontece. Uma racha é muito diferente. Uma racha é uma quebra na ordem da
natureza. É como cortarmo-nos com uma faca, ou rasgar uma página em duas.
Estás sempre a dizer que tens de ter cuidado com as rachas, mas onde
estão essas rachas? Onde é que vês uma racha entre nós os dois?

Mostra-me.

O rapaz fica em silêncio.

- As gémeas do céu são como os gémeos da terra. Também são como números.
- Será tudo isto demasiado difícil para uma criança? Talvez. Mas o rapaz
há-de absorver as suas palavras, ele tem de ter essa esperança, há de
absorvê-las e meditar sobre elas e começar talvez a ver o sentido que
têm. - É como Um e Dois. Um e Dois não são a mesma coisa, há uma
diferença entre eles que é um intervalo mas não uma racha.

É isso que torna possível que contemos, que cheguemos de Um a Dois sem
receio de cair.

- Podemos ir vê-las um dia, as gémeas do céu? Podemos ir num navio?

- Suponho que sim, se conseguirmos arranjar o género de navio adequado.


Mas levaríamos muito tempo a chegar lá. As gémeas estão muito longe.
Ainda nunca ninguém as visitou, que eu saiba. Esta - e bate com o pé no
solo - é a única estrela que os seres humanos alguma vez visitaram.

O rapaz fica a olhar para ele, perplexo.

- Isto não é uma estrela - diz.

- É, pois. Só que muito de perto não parece uma estrela.

- Não brilha.

213

- Muito de perto não há nada que brilhe. Ao longe, porém, tudo brilha. Tu
brilhas. Eu brilho. As estrelas brilham, com certeza.

O rapaz parece satisfeito.

- Todas as estrelas são números? - pergunta.

- Não. Eu disse que as gémeas eram como os números, mas foi apenas uma
maneira de falar. Não, as estrelas não são números. Estrelas e números
são coisas muito diferentes.

- Eu acho que as estrelas são números. Acho que aquela é o Número 11 -


espeta um dedo na direção do céu - e aquela é o Número 50 e aquela é o
Número 33333.
- Ah, queres dizer se podemos dar um número a cada estrela? Isso seria
certamente uma maneira de as identificar, mas uma maneira muito
enfadonha, muito pouco inspirada. Acho que é melhor que tenham nomes
próprios, como Ursa e Estrela da Tarde e Gémeos.

- Não, palerma, o que eu disse é que cada estrela é um número. Ele abana
a cabeça.

- Cada estrela não é um número. As estrelas são como números em alguns


aspetos, mas na maior parte dos aspetos são muito diferentes deles. Por
exemplo, as estrelas estão caoticamente espalhadas pelo céu, ao passo que
os números são como uma frota de navios a navegar ordenadamente, sabendo
cada um o seu lugar.

- Podem morrer. Os números podem morrer. O que é que lhes acontece quando
morrem?

- Os números não podem morrer. As estrelas não podem morrer. As estrelas


são imortais.

- Os números podem morrer, podem. Podem cair do céu.

- Isso não é verdade. As estrelas não podem cair do céu. As que parecem
cair, as estrelas cadentes, não são verdadeiras estrelas. Quanto aos
números, se um número caísse das fileiras, haveria uma racha, uma quebra,
e não é assim que os números funcionam. Nunca falta nenhum número.

214

- Lá está! Tu não percebes! Não te lembras de nada! Um número pode cair


do céu como o Dom Quixote quando caiu pela racha.

- Dom Quixote não caiu por uma racha. Desceu a uma cova, servindo-se de
uma escada feita de corda. Seja como for, Dom Quixote é irrelevante. Ele
não é verdadeiro.

- É, pois! É um herói!

- Desculpa. Eu não queria dizer o que disse. Claro que Dom Quixote é um
herói e claro que é verdadeiro. O que eu quis dizer é que aquilo que lhe
aconteceu já não acontece às pessoas. As pessoas vivem as suas vidas do
princípio ao fim sem caírem em rachas.

- Caem, pois. Caem em rachas e nunca mais as podemos ver porque elas não
conseguem sair. Tu próprio o disseste.

- Agora estás a confundir rachas com covas. Tu estás a pensar é em


pessoas que morrem e são enterradas em sepulturas, em covas no chão. As
sepulturas são feitas por coveiros servindo-se de pás. Não é uma coisa
antinatural como uma racha.

Há um restolhar de roupa e Inês materializa-se na escuridão.


- Estou a chamar há que tempos - diz, iradamente. - Será que nunca
ninguém ouve?

215

Capítulo 21

Da vez seguinte que bate à porta do apartamento, é o rapaz que a abre,


num estado de congestionamento e excitação.

- Sabes uma coisa, Simón? - grita. - Vimos o señor Daga! Ele tem uma
caneta mágica! Mostrou-me!

Ele já quase se esquecera de Daga, o homem que humilhara Álvaro e o


pagador nas docas.

- Uma caneta mágica! - diz. - Isso parece interessante. Posso entrar?

Bolívar aproxima-se dele autoritariamente e fareja-o entre as pernas.


Inês está sentada, curvada sobre a sua costura; ele tem uma inquietante
visão momentânea do aspeto que ela terá quando for velha. Sem o
cumprimentar, ela fala:

- Fomos à cidade, à Asistencia, pedir o abono de família para o miúdo, e


estava lá esse homem, aquele seu amigo.

- Ele não é meu amigo. Nunca troquei sequer uma palavra com ele.

- Tem uma caneta mágica - diz o rapaz. - Tem uma senhora lá dentro, e a
pessoa julga que é um boneco, mas não é, é uma senhora de verdade, uma
senhora muito pequenina, e quando se vira a caneta ao contrário cai-lhe a
roupa e ela fica nua.

- Hum. Que mais te mostrou o senor Daga, além da senhora pequenina?

217

- Disse que não tinha culpa de que o Álvaro tivesse cortado a mão. Disse
que foi o Álvaro que começou. Disse que a culpa foi do Álvaro.

- Isso é o que as pessoas dizem sempre. São sempre os outros que


começaram. A culpa é sempre dos outros. O señor Daga disse-te porventura
o que é feito da bicicleta que levou?

-Não.

- Bem, da próxima vez que o vires, pergunta-lhe. Pergunta-lhe quem tem


culpa de o pagador estar sem bicicleta e ter de fazer a sua volta a pé.
Faz-se silêncio. Surpreende-o que Inês tenha tão pouco a dizer acerca de
homens que chamam rapazinhos de parte e lhes mostram canetas com senhoras
nuas dentro.

- Quem é que tem culpa? - pergunta o rapaz.

- O que queres tu dizer com isso?

- Tu disseste que são sempre os outros que têm culpa. A culpa é do señor
Daga?

- De a bicicleta ter desaparecido? Sim, a culpa é dele. Mas quando eu


digo que a culpa é sempre dos outros estou a falar de uma maneira mais
geral. Quando alguma coisa dá para o torto pretendemos sempre que a culpa
não é nossa. Desde o princípio do mundo que assumimos essa postura.
Parece estar entranhada em nós, fazer parte da nossa natureza. Nunca
estamos dispostos a admitir a nossa culpa.

- Sou eu que tenho a culpa? - pergunta o rapaz.

- És tu que tens a culpa? Não, não és tu que tens a culpa. Tu és apenas


uma criança, como é que podes ter a culpa? Mas acho que devias evitar o
señor Daga. Ele não é um bom modelo para uma pessoa jovem como tu seguir.
- Fala lenta e seriamente; o aviso vai endereçado tanto a Inês como ao
rapaz.

Uns dias mais tarde, ao sair do porão de um navio nas docas, fica
admirado ao ver Inês em pessoa no cais, em grande conversa com Álvaro.
Sente um baque no coração. Ela nunca tinha estado nas docas: só pode ser
uma notícia má.

218

O rapaz desapareceu, diz Inês, roubado pelo señor Daga. Ela chamou a
polícia mas ela não vai ajudar. Ninguém vai ajudar. Álvaro tem de vir;
ele, Simón, tem de vir. Têm de localizar Daga (não há de ser difícil, ele
trabalha com eles) e devolver-lhe o miúdo.

As mulheres são uma visão rara nas docas. Os homens olham com curiosidade
para a mulher enlouquecida, de cabelo desgrenhado e roupa citadina.

Aos poucos ele e Álvaro conseguem que ela lhes conte a história. Na
Asistencia havia uma comprida fila, o rapaz estava irrequieto e por acaso
estava lá o señor Daga, que se ofereceu para comprar um gelado ao rapaz e
quando ela voltou a olhar eles já lá não estavam, como se tivessem
desaparecido da face da terra.

- Mas como é que o deixou ir com um homem daqueles? - protesta ele.

Ela arreda a pergunta com uma sacudidela perentória da cabeça.

- Um rapaz que está a crescer precisa dum homem na sua vida. Não pode
estar todo o tempo com a mãe. E eu pensava que ele era boa pessoa. Pensei
que ele era sincero. O David fica fascinado com o brinco que ele tem.
Quer também ter um.

- Disse-lhe que lho compraria?

- Disse-lhe que ele pode usar um brinco quando for mais velho, mas por
enquanto não.

- Vou deixar-vos com a vossa discussão - diz Álvaro. - Se precisarem de


mim, chamem-me.

- E o seu papel nisto? - pergunta ele, quando ficam sós. - Como pode ter
confiado a sua criança àquele homem? Há alguma coisa que me esteja a
omitir? E possível que você também o ache fascinante, com o seu brinco
dourado e as suas senhoras nuas nas canetas?

219

Ela finge não ouvir.

- Eu fartei-me de esperar - diz. - Depois apanhei o autocarro porque


pensei que eles pudessem ter voltado para casa. Depois como lá não
estavam, telefonei ao meu irmão, e ele disse que ligaria para a polícia,
mas depois voltou a telefonar para dizer que a polícia não ia ajudar
porque eu não sou... porque não tenho os devidos documentos em relação ao
David.

Interrompe-se, olhando fixamente para longe.

- Ele disse-me... - diz. - Ele disse que me daria uma criança. Não me
disse... não me disse que levaria a minha criança. - De repente põe-se a
soluçar desamparadamente. - Ele não me disse... Não me disse...

A ira dele não se extingue, mas apesar disso condói-se da mulher.


Indiferente aos estivadores que assistem, toma-a nos braços. Ela soluça
no seu ombro.

- Ele não me disse...

Ele disse que me daria uma criança. Ele sente a cabeça andar à roda.

- Venha daí - diz ele. - Vamos para um sítio onde possamos falar à
vontade. - Condu-la até à parte de trás do barracão.

- Escute-me, Inês. O David está em segurança, tenho a certeza. O Daga não


se atreveria a fazer-lhe nada. Volte para o apartamento e espere lá. Eu
vou descobrir onde ele mora e faço-lhe uma visita. - Interrompe-se. - O
que queria ele dizer quando disse que lhe daria uma criança?

Ela liberta-se dele. Os soluços param.

- O que é que acha que ele queria dizer? - responde ela, com uma
expressão de dureza na voz.
Meia hora mais tarde ele está no Centro de Realojamento.

- Preciso urgentemente duma informação - diz a Ana.

- Conhece um homem chamado Daga? Dos seus trinta anos, magro, com um
brinco. Trabalhou episodicamente nas docas.

- Porque é que pergunta?

220

- Porque preciso de falar com ele. Tirou o David à mãe e desapareceu. Se


não me ajudar terei de ir à polícia.

- O nome dele é Emilio Daga. Toda a gente o conhece. Mora nos Blocos da
Cidade. Pelo menos é onde está registado.

- Onde ficam exatamente os Blocos da Cidade?

Ela retira-se para a fiada de ficheiros e volta com uma morada num papel.

- Da próxima vez que cá vier - diz ela -, diga-me como localizou a mãe
dele. Gostava de saber, se tiver tempo.

Os Blocos da Cidade são o mais desejável dos complexos administrados pelo


Centro. A morada que Ana lhe deu leva-o a um apartamento no último andar
do bloco principal. Bate à porta. Vem abrir uma mulher jovem e atraente,
com um bocado de pintura a mais, a equilibrar-se precariamente nuns
saltos altos. Afinal não é uma mulher: duvida que ela tenha mais de
dezasseis anos.

- Estou à procura duma pessoa chamada Emilio Daga - diz ele. - Mora aqui?

- Com certeza - diz a rapariga. - Entre. Vem buscar o David? O interior


cheira a tabaco cediço. Daga, de T-shirt de algodão e jeans, descalço,
está sentado de frente para uma ampla janela com vista para a cidade e o
pôr do Sol. Gira a cadeira e levanta uma mão, num cumprimento.

- Vim buscar o David - diz ele.

- Está no quarto a ver televisão - responde Daga. - Você é o tio? David,


está aqui o teu tio!

O rapaz vem a correr do quarto contíguo, numa grande excitação.

- Anda ver, Simón! É o Rato Mickey! Tem um cão chamado Plato e está a
guiar um comboio e os índios estão a disparar setas contra ele. Anda
depressa!

Ele ignora o rapaz e dirige-se a Daga.

- A mãe dele está preocupadíssima. Como pôde fazer isto?


221

Nunca esteve tão próximo de Daga. A cabeleira arrojada, com a sua


profusão de caracóis dourados, é afinal rude e gordurosa. A T-shirt tem
um buraco debaixo do braço. Para sua surpresa, não sente medo do homem.

Daga não se levanta.

- Acalme-se, viejo - diz. - Divertimo-nos um bocado. Depois o jovem fez


uma sesta. Dormiu como uma pedra, como um anjo. Agora está a ver o
programa infantil. Que mal tem isso?

Ele não responde.

- Anda, David! - diz. - Vamos embora. Diz adeus ao señor Daga.

- Não! Eu quero ver o Rato Mickey!

- Podemos ver o Mickey noutra altura - diz Daga. - Prometo. Vamos

guardá-lo aqui só para ti.

- E o Plato?

- E o Plato. Podemos guardar também o Plato, não podemos, queridinha?

- Com certeza - responde a rapariga. - Guardamo-lo fechado na caixa dos


ratos até à próxima.

- Anda - diz ele ao miúdo. - A tua mãe estava preocupadíssima.

- Ela não é minha mãe.

- Claro que é tua mãe. Ela ama-te muito.

- Quem é ela, rapazinho, se não é tua mãe? - pergunta Daga.

- É uma senhora qualquer. Eu não tenho mãe.

- Tens mãe, pois. A Inês é tua mãe - diz ele, Simón.

- Não! Eu não tenho mãe nem tenho pai! Sou, e pronto.

- Que disparate! Toda a gente tem mãe. Toda a gente tem pai.

- Tu tens mãe? - pergunta o rapaz, dirigindo-se a Daga.

- Não - responde Daga. - Eu também não tenho mãe.

- Estás a ver? - torna o rapaz, triunfante. - Eu quero ficar contigo, não


quero ir para a Inês.

222

- Anda cá - diz Daga. O rapaz corre para ele, que o empoleira no joelho.
O rapaz aninha-se contra o seu peito, metendo o dedo na boca. - Queres
ficar comigo? - O rapaz diz que sim com a cabeça. - Queres viver comigo e
com a Frannie, só nós os três? -O rapaz volta a fazer um aceno
afirmativo. - Por ti está bem, querida?... O David vir viver connosco?

- Com certeza - diz a rapariga.

- Ele não é competente para escolher - diz ele, Simón. - Ainda é uma
criança.

- Tem razão. Ainda é uma criança. É aos pais que cabe decidir. Mas, como
ouviu, ele não tem pais. Então o que é que fazemos?

- O David tem uma mãe que o ama tanto como qualquer mãe do mundo. Quanto
a mim, posso não ser pai dele, mas preocupo-me com ele. Preocupo-me com
ele e gosto dele e tomo conta dele. Ele vem comigo.

Daga ouve este pequeno discurso em silêncio e depois, para sua surpresa,
endereça-lhe um sorriso, um sorriso bastante atraente, mostrando os
dentes perfeitos.

- Está bem - diz. - Leve-o de volta à senhora sua mãe. Diga-lhe que ele
se divertiu. Diga-lhe que comigo ele está sempre em segurança. Sentes-te
em segurança comigo, não sentes, meu jovem?

O rapaz faz que sim, ainda com o dedo na boca.

- Muito bem, então talvez esteja na altura de ires com o senhor teu
tutor. - Levanta o rapaz do colo. - Volta em breve. Prometes? Vem ver o
Mickey.

223

Capítulo 22

- Porque é que eu tenho de falar sempre espanhol?

- Temos de falar alguma língua, meu rapaz, a menos que queiramos ladrar e
uivar como os animais. E se vamos falar alguma língua, é melhor que
falemos todos a mesma. Não achas isso razoável?

- Mas porquê espanhol? Detesto espanhol.

- Tu não detestas espanhol. Falas muito bem espanhol. O teu espanhol é


melhor que o meu. Estás só a ser teimoso. Que língua queres falar?

- Quero falar a minha própria língua.

- Não existe a própria língua de ninguém.

- Existe, pois! La lafafayamyingtu tu.


- Isso é só uma algaraviada. Não quer dizer coisa nenhuma.

- Quer, pois. Quer dizer alguma coisa para mim.

- Pode ser que sim, mas para mim não quer dizer nada. A língua tem de
querer dizer alguma coisa tanto para mim como para ti, caso contrário não
conta como língua.

Num gesto que deve ter ido buscar a Inês, o rapaz sacode a cabeça
desdenhosamente.

- La lafafayamying! Olha para mim!

Ele fita os olhos do rapaz. Por um brevíssimo instante vê qualquer coisa


neles. Não tem nome para o designar.

225

É como - é o que lhe ocorre nesse momento -, como um peixe que se


esgueira quando tentamos agarrá-lo. Mas não é como um peixe... não, é
como como um peixe. Ou como como como um peixe. Assim sucessivamente.
Depois o momento passa e ele está simplesmente parado em silêncio, a
olhar.

- Viste? - pergunta o rapaz.

- Não sei. Para um minuto, que estou a ficar tonto.

- Eu consigo ver o que tu estás a pensar! - afirma o rapaz com um sorriso


triunfante.

- Não consegues nada.

- Tu pensas que eu sou capaz de fazer magia.

- Nem pouco mais ou menos. Não fazes ideia daquilo que eu estou a pensar.
Agora presta atenção. Vou dizer uma coisa sobre a língua, uma coisa
séria, uma coisa que quero que leves a peito.

«Todos chegam a este país como estrangeiros. Eu cheguei como estrangeiro.


Tu chegaste como estrangeiro. A Inês e os irmãos já foram estrangeiros.
Viemos de diversos lugares e de diversos passados, à procura de uma vida
nova. Mas agora estamos todos no mesmo barco. Por isso temos de nos dar
uns com os outros. Uma das maneiras de nos darmos é falarmos a mesma
língua. É essa a regra. É uma boa regra e devemos acatá-la. Não só

acatá-la, mas acatá-la com convicção, e não como uma mula que teima. Com
boa intenção e boa vontade. Se recusares, se continuares a ser malcriado
em relação ao espanhol e insistires em falar a tua própria língua, hás de
dar contigo a viver num mundo privado. Não terás amigos. Serás segregado.

- O que é segregado?

- Não terás onde reclinar a cabeça.


- De qualquer modo não tenho amigos.

- Isso mudará quando fores para a escola. Na escola hás de arranjar


muitos amigos. De qualquer modo tens amigos, tens. O Fidel e a Elena são
teus amigos. O Álvaro é teu amigo.

226

- E El Rey é meu amigo.

- El Rey também é teu amigo.

- E o señor Daga.

- O señor Daga não é teu amigo. O señor Daga está a tentar fazer-te cair
em tentação.

- O que é tentação?

- Está a tentar afastar-te da tua mãe com o Rato Mickey e gelados.


Lembras-te de como ficaste maldisposto com todo o gelado que ele te deu
naquele dia?

- Também me deu água de fogo.

- Que queres dizer com isso, água de fogo?

- Ardeu-me na garganta. Ele diz que é remédio para quando a pessoa está
com a neura.

- O señor Daga traz o remédio numa garrafinha prateada no bolso?

- Traz.

- Por favor nunca mais voltes a beber nada da garrafinha do señor Daga,
David. Pode ser remédio para gente crescida, mas não é bom para as
crianças.

Não fala da água de fogo a Inês, mas conta-o a Elena.

- Ele está a conquistar poder sobre o miúdo - diz-lhe. - Eu não posso


competir com ele. Ele usa brinco, anda com uma navalha e bebe água de
fogo. Tem uma namorada bonita. Tem o Rato Mickey em casa numa caixa.

Não faço ideia de como hei de fazer com que o rapaz tenha juízo. Ela
também está enfeitiçada pelo homem.

- Que outra coisa esperas tu? Vê as coisas do ponto de vista dela. Ela
está numa idade em que uma mulher, que nunca teve filhos propriamente
seus, começa a sentir-se ansiosa. E uma questão de biologia. Está num
estado recetivo, biologicamente falando. Admira-me que não sintas isso.

- Eu não penso na Inês dessa maneira: biologicamente.


227

- Tu pensas de mais. Isto não tem nada que ver com o pensamento.

- Não vejo porque é que a Inês havia de querer outro filho, Elena. Tem o
rapaz. Ele surgiu-lhe como um presente, caído do céu, um presente puro e
simples. Um presente assim devia ser suficiente para qualquer mulher.

- Sim, mas não é seu filho natural. Ela nunca se esquecerá disso. Se não
fizeres nada a esse respeito, um dia destes o jovem David vai ter o señor
Daga como padrasto, e a seguir uma ninhada de pequenos meios-irmãos Daga.
Ou, se não for o Daga, há de ser outro homem qualquer.

- Que queres dizer com isso: se eu não fizer nada a esse respeito?

- Se não lhe deres tu próprio um filho.

- Eu? Não me passaria pela cabeça. Não sou do género pai. Fui feito para
ser tio, e não pai. Além disso, a Inês não gosta de homens; pelo menos é
a impressão que me dá. Não gosta do espalhafato, da rudeza e dos pelos
dos homens. Não me espantaria que ela tentasse evitar que o David se faça
homem.

- Ser pai não é nenhuma carreira, Simón. Nem é nenhum destino metafísico.
Não precisas de gostar da mulher, nem ela precisa de gostar de ti. Tens
relações com ela e pronto, nove meses mais tarde és pai. É bastante
simples. Qualquer homem o pode fazer.

- Não pode nada. A paternidade não é só uma questão de ter relações com
uma mulher, tal como a maternidade não é só uma questão de fornecer um
recetáculo para a semente masculina.

- Bem, no mundo real aquilo que tu descreves conta como paternidade e


maternidade. Não se pode entrar no mundo real senão tendo sido iniciado
pela semente de um homem, gerado no ventre duma mulher e tendo descido
pelo canal de nascimento dessa mesma mulher. Tem de se nascer de um homem
e de uma mulher. Não há exceções.

228

Desculpa a minha linguagem terra a terra. Portanto pergunta a ti próprio:


Vai ser o meu amigo señor Daga a colocar a sua semente na Inês, ou vou
ser eu? Ele abana a cabeça.

- Basta, Elena. Podemos mudar de assunto? O David disse-me que noutro dia
o Fidel lhe atirou uma pedra. O que se passa?

- Não foi uma pedra, foi um berlinde. É o que o David tem a esperar se a
mãe não o deixa confraternizar com outras crianças, se ela o encoraja a
imaginar-se um ser superior qualquer. Há de haver outras crianças a

unir-se contra ele. Eu falei com o Fidel e repreendi-o, mas isso não vai
ter nenhum efeito.
- Eles dantes eram muito amigos.

- Eram muito amigos antes de teres metido a Inês ao barulho, com as suas
ideias peculiares sobre a educação das crianças. Essa é outra razão pela
qual deves marcar a tua posição naquela casa.

Ele suspira.

- Podemos falar em privado? - pergunta ele a Inês. - Tenho uma coisa a


propor-lhe.

- Não pode esperar?

- O que é que vocês estão a bichanar? - grita o rapaz do quarto contíguo.

- Não é nada contigo. - E para Inês: - Por favor, podemos ir até lá fora,
só por um minuto?

- Estão a bichanar sobre o señor Daga? - grita o rapaz.

- Isto não tem nada que ver com o señor Daga. É uma coisa privada entre
mim e a tua mãe.

Inês limpa as mãos e tira o avental. Saem ambos do apartamento e


atravessam o parque infantil até à zona ajardinada. Debruçado na janela,
o rapaz mantém-nos sob vigilância.

- O que eu tenho para dizer refere-se ao señor Daga. - Para e respira


fundo. - Consta-me que quer ter outro filho. É verdade?

229

- Quem lhe disse isso?

- O David diz que você lhe vai dar um irmão.

- Eu estava a contar-lhe a história para adormecer. Foi uma coisa que


surgiu de passagem; foi apenas uma ideia.

- Bem, as ideias podem tornar-se realidade, como a semente se pode tornar


carne e osso. Eu não quero embaraçá-la, Inês, de maneira que deixe-me
apenas dizer-lhe, com o maior respeito, que se está a pensar em ter
relações com um homem para efeitos de engravidar, pode ter-me em conta.
Estou disposto a desempenhar o papel. A desempenhar o papel e retirar-me
a seguir, embora continuando a ser seu protetor, a sustentá-la a si e a
quaisquer filhos seus. Pode chamar-me padrinho deles. Ou, se preferir,
tio. Eu esquecerei o que se tenha passado entre nós os dois. Será apagado
da minha memória. Será como se nunca tivesse acontecido.

«Pronto. Já disse. Por favor, não responda já. Reflita.

Em silêncio, na escuridão que se vai adensando, voltam ao apartamento.


Inês vai à frente, a passo rápido. Está manifestamente zangada, ou
transtornada: nem sequer olha para ele. Ele culpa Elena por tê-lo
obrigado àquilo e culpa-se a si próprio também. Que maneira rude de uma
pessoa se oferecer! Como se estivesse a oferecer-se para arranjar a
canalização!

Alcança-a, agarra-a pelo braço e fá-la voltar-se para ele.

- Isto foi imperdoável - diz. - Lamento muito. Desculpe-me, por favor.

Ela não fala. Fica ali postada como uma coisa esculpida na madeira, de
braços caídos ao longo do corpo, aguardando que ele a largue. Ele afrouxa
o aperto e ela afasta-se aos tropeções.

Da janela lá de cima ele ouve o rapaz chamar:

- Inês! Simón! Venham! O señor Daga está aqui! O señor Daga está aqui!

Ele pragueja baixinho. Se ela estava à espera de Daga, porque não o


avisou? O que vê ela no homem, em qualquer caso, com o seu pretensioso ar
superior, o seu cheiro a brilhantina e a sua voz monótona e nasalada?

230

O señor Daga não veio sozinho. Com ele está a bonita namorada, envergando
um vestido branco com folhos de um vermelho chocante e uns pesados
brincos com a forma de rodelas que oscilam quando se mexe. Inês
cumprimenta-a com gélida reserva. Quanto a Daga, parece perfeitamente
descontraído no apartamento, reclinando-se na cama e nada fazendo para
pôr a rapariga à vontade.

- O senor Daga quer que vamos dançar - anuncia o rapaz. - Podemos ir


dançar?

- Esta noite ficámos de ir a La Residência. Tu sabes isso.

- Eu não quero ir a La Residência! É uma maçada! Quero ir dançar!

- Não podes ir dançar. Ainda és muito novo.

- Eu sei dançar! Não sou nada muito novo! Eu mostro-te. -E rodopia pelo
soalho, pisando levemente e com alguma graciosidade com os seus macios
sapatos azuis. - Olhem! Estão a ver?

- Não vamos dançar - diz Inês com firmeza. - O Diego vem buscar-nos e
vamos com ele para La Residência.

- Então o señor Daga e a Frannie têm de vir também!

- O senor Daga já tem as suas combinações. Não podes esperar que ele
largue as suas combinações e venha connosco. - Fala como se Daga não
estivesse na sala. - Além disso, como estás farto de saber, em La
Residência não são autorizadas visitas.

- Eu sou uma visita - objeta o rapaz. - A mim autorizam-me.


- Sim, mas tu és diferente. Tu és o meu filho. És a luz da minha vida.

A luz da minha vida. Que coisa surpreendente para dizer diante de


estranhos!

Nessa altura aparece Diego, e o outro irmão também, o tal que nunca abre
a boca. Inês fala-lhes com alívio.

231

- Estamos prontos. David, vai buscar as tuas coisas.

- Não! - diz o rapaz. - Não quero ir. Quero fazer uma festa. Podemos
fazer uma festa?

- Não há tempo para festas e eu não tenho nada para oferecer aos nossos
hóspedes.

- Isso não é verdade! Temos vinho! Na cozinha! - E num abrir e fechar de


olhos trepa até ao armário da cozinha e alcança a prateleira de cima. -
Olhem! - exclama, exibindo triunfantemente a garrafa. - Temos vinho!

Vermelha como um tomate, Inês tenta tirar-lhe a garrafa.

- Não é vinho, é xerez - diz, mas ele esquiva-se-lhe.

- Quem quer vinho? Quem quer vinho? - entoa David.

- Eu! - diz Diego; e «Eu», diz o irmão silencioso. Estão a rir, ambos, da
atrapalhação da irmã. O señor Daga faz coro com eles: «E eu!»

Não há copos suficientes para os seis, de maneira que o rapaz corre o


círculo com a garrafa e um copo, servindo xerez a cada um deles e
esperando solenemente que o copo fique vazio.

Vai até Inês. Franzindo o sobrolho, ela faz um gesto para rejeitar o
copo.

- Tens de beber! - ordena o rapaz. - Esta noite sou o rei e ordeno que
tens de beber!

Inês bebe um gole senhoril.

- Agora eu - anuncia o rapaz, e antes que alguém possa impedi-lo leva a


garrafa aos lábios e bebe um generoso trago. Por um instante circunvaga
triunfantemente o olhar pelo grupo. Depois engasga-se, tosse e deita
perdigotos. - É horrível! - exclama, ofegante. A garrafa cai-lhe da mão;
destramente, o señor Daga salva-a.

Diego e o irmão desatam a rir.

- O que vos molesta, nobre rei? - exclama Diego. - Não aguentais a


bebida?
O rapaz recupera o fôlego.

232

- Mais! - exclama. - Mais vinho!

Se Inês não vai agir, está na altura de ele, Simón, intervir.

- Já chega! - diz. - Já é tarde, David, está na hora de os nossos


hóspedes se irem embora.

- Não! - torna o rapaz. - Não é nada tarde! Quero jogar um jogo. Quero
jogar ao Quem Sou Eu.

- Quem Sou Eu? - pergunta Daga. - Como é que isso se joga?

- Tens de fingir que és alguém e depois toda a gente tem de adivinhar


quem és. Da última vez eu fingi que era o Bolívar e o Diego adivinhou
logo, não foi, Diego?

- E qual é o castigo? - pergunta Daga. - Que castigo é que tens se


adivinharmos?

O rapaz parece perplexo.

- Como nós jogávamos nos velhos tempos - diz Daga -, quando a pessoa
adivinha tem de contar um segredo, o segredo mais bem guardado.

O rapaz fica em silêncio.

- Temos de ir, já não há tempo para jogos - diz Inês debilmente.

- Não! - protesta o rapaz. - Eu quero jogar outro jogo. Quero jogar


Verdade ou Consequência.

- Isso parece melhor - comenta Daga. - Diz-nos lá como é que jogas o


Verdade ou Consequência.

- Eu faço uma pergunta e vocês têm de responder e não podem mentir, têm
de dizer a verdade. Se não disserem a verdade têm de ter um castigo. Está
bem? Começo eu. Diego, tens o rabo lavado?

Faz-se silêncio. O segundo irmão fica muito vermelho e a seguir explode


num grande sopro de riso. O rapaz ri-se, deliciado, e põe-se a rodopiar
numa dança.

- Vamos! - exclama. - Verdade ou Consequência!

- Só uma volta - concede Inês. - E não há mais perguntas grosseiras.

233
- Sem perguntas grosseiras - concorda o rapaz. - É novamente a minha vez.
A minha pergunta vai - olha à volta da sala, passando de um rosto a outro
-, a minha pergunta vai para... a Inês! Inês, de quem é que gostas mais
no mundo?

- De ti. É de ti que eu gosto mais.

- Não, eu não! De que homem é que gostas mais no mundo para fazer um bebé
na tua barriga?

Cai um silêncio. Inês aperta os lábios.

- Gostas dele, dele, dele ou dele? - pergunta o rapaz, apontando à vez


para os quatro homens presentes na sala.

Ele, Simón, o quarto homem, intervém.

- Nada de perguntas grosseiras - diz. - Isso foi uma pergunta grosseira.


Uma mulher não faz um bebé com o irmão.

- Porquê?

- Não faz, e pronto. Não há porquê.

- Há um porquê! Eu posso fazer as perguntas que quiser! É do jogo. Queres


que o Diego faça um filho dentro de ti, Inês? Ou queres o Stefano?

Por conta de Inês, ele intervém de novo.

- Já chega! Diego levanta-se.

- Vamos - diz.

- Não! - volve o rapaz. - Verdade ou Consequência! De quem é que gostas


mais, Inês?

Inês mantém-se calada.

- A Inês não quer nada com homens - diz Diego. - Pronto, aí tens a tua
resposta. Ela não quer nenhum de nós. Quer ser livre. Agora vamos.

- Isso é verdade? - pergunta o rapaz a Inês. - Não é verdade, pois não?


Tu prometeste que eu podia ter um irmão.

Mais uma vez, ele intervém.

234

- É só uma pergunta a cada um, David. A regra é essa. Já fizeste a tua


pergunta e tiveste a tua resposta. Como o Diego diz, a Inês

não quer nenhum de nós.

- Mas eu quero um irmão! Não quero ser filho único! É uma maçada!
- Se realmente queres um irmão, vai tu à procura dum. Começa pelo Fidel.
Toma o Fidel como irmão. Os irmãos não têm de vir do mesmo ventre. Funda
a tua própria irmandade.

- Eu não sei o que é uma irmandade.

- Admira-me ouvir isso. Se dois rapazes concordam em chamar irmão um ao


outro, fundaram uma irmandade. É tão simples como isso. Podem reunir mais
rapazes e fazê-los também irmãos. Podem jurar lealdade uns aos outros e
escolher um nome: a Irmandade das Sete Estrelas ou a Irmandade da Caverna
ou qualquer coisa assim. Até a Irmandade de David, se quiseres.

- Ou pode ser uma irmandade secreta - observa Daga. Brilham-lhe os olhos


e exibe um sorrisinho. O rapaz, que mal o escutou a ele, Simón, parece
agora absolutamente paralisado. - Podes fazer um juramento de fidelidade.
Ninguém precisa de descobrir alguma vez quem são os teus irmãos secretos.

Ele quebra o silêncio.

- Basta por hoje, David, vai buscar o pijama. Já fizeste o Diego esperar
que chegasse. Pensa num bom nome para a tua irmandade. Depois, quando
voltares de La Residência, podes convidar o Fidel para ser o teu primeiro
irmão. - Volta-se para Inês. - Concorda? Aprova?

235

Capítulo 23

- Onde está El Rey?

A carroça está parada no cais, vazia, pronta para ser carregada, mas o
lugar de El Rey foi ocupado por um cavalo que eles nunca tinham visto, um
animal castrado preto com uma marca branca na testa. Quando o rapaz se
aproxima de mais, o novo cavalo rola nervosamente os olhos nas órbitas e
dá patadas no solo.

- Eh! - chama Álvaro pelo carroceiro, que está sonolentamente instalado


no seu assento. - Onde está a égua grande? O miúdo veio especialmente
para a ver.

- Está doente, com gripe dos cavalos.

- O nome dele é El Rey - diz o rapaz. - Não é uma égua. Podemos ir vê-lo?

Álvaro e o carroceiro trocam um olhar circunspecto.

- El Rey está de volta ao estábulo, a descansar - diz Álvaro. - O


veterinário vai dar-lhe um remédio. Podemos ir vê-lo assim que estiver
melhor.
- Eu quero vê-lo agora. Eu posso fazê-lo melhorar. Ele, Simón, intervém.

- Agora não, meu rapaz. Vamos falar primeiro com a Inês. Depois, talvez
amanhã possamos os três fazer uma viagem ao estábulo.

237

- O melhor é esperar uns dias - diz Álvaro, dirigindo-lhe um olhar fugaz


que ele não sabe como interpretar. - Vamos deixar El Rey ter tempo de se
restabelecer devidamente. A gripe dos cavalos não é para brincadeiras, é
pior que a gripe humana. Quando se está com febre dos cavalos, precisa-se
de repouso e sossego, e não de visitas.

- Ele não quer visitas - volve o rapaz. - Quer-me a mim. Eu sou amigo
dele.

Álvaro chama Simón de parte.

- O melhor é não levar o miúdo ao estábulo - diz; e, como ele continue a


não compreender: - A égua é velha. Já deu o que tinha a dar.

- O Álvaro acaba de receber uma mensagem do veterinário -transmite ele ao


rapaz. - Decidiram mandar ElRey para a quinta dos cavalos a fim de poder
curar-se mais depressa.

- O que é uma quinta dos cavalos?

- Uma quinta dos cavalos é onde os cavalos novos nascem e os cavalos


velhos vão descansar.

- Podemos ir lá?

- A quinta dos cavalos fica na província, não sei bem onde. Vou-me
informar.

Quando os homens largam o trabalho, às quatro horas, ninguém sabe onde


para o rapaz.

- Foi na última carroça - diz um dos homens. - Julguei que sabia.

Ele parte imediatamente. Quando chega ao armazém do cereal o Sol está a


pôr-se. O armazém está deserto e as grandes portas encontram-se fechadas.
Com o coração a bater aceleradamente, ele procura o rapaz. Encontra-o
atrás do armazém, numa plataforma de carga, agachado ao lado do corpo de
El Rey, a afagar-lhe a cabeça e a enxotar as moscas. A forte correia de
couro que deve ter sido usada para içar a égua ainda lhe cinge a barriga.

Ele trepa para a plataforma.

238
- Coitadinho do El Reyl - murmura. Repara então no sangue que coagulou na
orelha do cavalo e no escuro buraco de bala por cima e cala-se.

- Não faz mal - diz o rapaz. - Ele vai ficar bom daqui a três dias.

- Foi isso que o veterinário te disse? O rapaz abana a cabeça.

- Foi El Rey.

- Foi o próprio El Rey que te disse isso: três dias? O rapaz acena
afirmativamente.

- Mas não é só gripe dos cavalos, meu rapaz. Tu bem vês, com certeza. Foi
abatido a tiro, para o poupar. Devia estar a sofrer. Estava a sofrer e
decidiram ajudá-lo, aliviar-lhe a dor. Ele não vai melhorar. Está morto.

- Não está nada. - As lágrimas rolam pelas faces do rapaz. - Vai para a
quinta dos cavalos para ficar melhor. Foste tu que o disseste.

- Vai para a quinta dos cavalos, sim, mas não para a quinta dos cavalos
daqui; vai para outra quinta dos cavalos, noutro mundo. Num sítio onde
não vai ter de usar arreios nem puxar uma carroça pesada e pode andar a
passear pelos campos ao sol a comer ranúnculos.

- Não é verdade! Ele vai para a quinta dos cavalos para se pôr bom. Vão
pô-lo na carroça e levá-lo para a quinta dos cavalos.

O rapaz curva-se e chega a boca às amplas narinas do cavalo.


Precipitadamente, ele agarra o rapaz pelo braço e afasta-o.

- Não faças isso! Não é higiénico! Ficas doente!

O rapaz liberta-se dele à força. Chora desabaladamente.

- Vou salvá-lo! - soluça. - Quero que ele viva! Ele é meu amigo! Ele
obriga o rapaz que se debate a ficar quieto e aperta-o com

força.

- Minha querida criança, às vezes aqueles que amamos morrem e nós não
podemos fazer nada a não ser esperar pelo dia em que todos nos voltaremos
a encontrar.

239

- Eu quero fazê-lo respirar! - soluça o rapaz.

- É um cavalo, é grande de mais para que possas soprar-lhe vida.

- Então podes tu soprar para dentro dele!

- Isso não resulta. Não tenho o tipo de sopro certo. Não tenho o sopro da
vida. A única coisa que posso fazer é ficar triste. A única coisa que
posso fazer é chorá-lo e ajudar-te a chorá-lo. Agora depressa, antes que
escureça, porque é que não vamos até ao rio procurar umas flores para pôr
em El Rey? Ele há de gostar. Era um cavalo meigo, não era, apesar de ser
um gigante? Há de gostar de chegar à quinta dos cavalos com uma grinalda
de flores à volta do pescoço.

Assim, convence o rapaz a afastar-se do cadáver e condu-lo até à

beira-rio, ajuda-o a colher flores e a fazer uma grinalda com elas.


Voltam; o rapaz enfia a grinalda por cima dos olhos fixos e inanimados.

- Pronto - diz ele. - Agora temos de deixar El Rey. Ele tem uma longa
viagem a fazer, até à grande quinta dos cavalos. Quando chegar, os outros
cavalos olharão para ele com a sua coroa de flores e dirão uns aos
outros: «Ele deve ter sido um rei, do sítio donde veio! Deve ser o grande
El Rey de que ouvimos falar, o amigo do David!»

O rapaz dá-lhe a mão. À luz da lua cheia que se ergue no céu, percorrem
pesadamente o caminho de volta às docas.

- Achas que El Rey se está a levantar agora? - pergunta o rapaz.

- Está a levantar-se, está a sacudir-se e está a soltar aquele relincho


que tu conheces, está a começar a andar, clop-clop-clop, em direção à
nova vida. Não se chora mais. Acabou-se o choro.

- Acabou-se o choro - diz o rapaz, e anima-se, exibindo até um sorrisinho


de contente.

240

Capítulo 24

Ele e o rapaz partilham o aniversário. Quer dizer, como chegaram no mesmo


barco no mesmo dia, foi-lhes atribuída como data de nascimento a data da
sua chegada conjunta, a sua entrada conjunta numa nova vida. Ao rapaz foi
avaliada a idade em cinco anos porque parecia ter cinco anos, tal como a
dele foi avaliada em quarenta e cinco (é o que diz o seu cartão) porque
era esse o aspeto que tinha nesse dia. (Ele ficara melindrado: sentia-se
mais novo. Agora sente-se mais velho. Sente-se com sessenta; há dias em
que se sente com setenta.)

Como o rapaz não tem amigos, nem sequer um amigo cavalo, não faz sentido
fazer-lhe uma festa de aniversário. Não obstante, ele e Inês combinaram
que o dia devia ser adequadamente comemorado. Assim, Inês faz um bolo,
cobre-o e enfia-lhe seis velas e ambos lhe compram presentes em segredo,
ela uma camisola (o inverno está à porta) e ele um ábaco (está preocupado
com a resistência do rapaz à ciência dos números).
A comemoração do aniversário é ofuscada por uma carta que chega pelo
correio, a recordá-lo de que, a partir dos seis anos, David deve ser
matriculado no sistema de educação pública, sendo a responsabilidade da
matrícula do(s) pai(s) ou tutor(es).

241

Até agora Inês encorajou o rapaz a crer que é demasiado esperto para
precisar de escolaridade, que pode receber em casa o pouco acompanhamento
de que possa necessitar. Mas a sua obstinação com o Dom Quixote, os seus
protestos de que sabe ler, escrever e contar, quando manifestamente não o
sabe, até no espírito dela semearam dúvidas. Talvez fosse melhor, admite
agora, ele ter a orientação de um professor diplomado. Por conseguinte
compram-lhe um terceiro presente conjunto, um estojo de couro vermelho
com a inicial D gravada a dourado a um canto, contendo dois lápis novos,
um apara-lápis e uma borracha. Oferecem-lho, juntamente com o ábaco e a
camisola, no dia dos anos. O estojo, dizem-lhe, é o seu presente
surpresa, a acompanhar a feliz e surpreendente notícia de que em breve,
talvez já na próxima semana, ele vai para a escola.

O rapaz acolhe a notícia com frieza.

- Eu não quero ir com o Fidel - diz. Eles tranquilizam-no: como é mais


velho do que ele, Fidel deve ficar noutro ano. - E quero levar o Dom
Quixote comigo - diz ele.

Ele tenta dissuadi-lo de levar o livro para a escola. E pertença da


biblioteca do Bloco Oriental, diz; caso se perdesse, não faz ideia de
como o substituiriam.

Além disso, a escola deve ter a sua própria biblioteca, com o seu próprio
exemplar do livro. Mas o rapaz não quer saber disso para nada.

Na segunda-feira ele chega cedo ao apartamento para acompanhar Inês e o


rapaz à paragem onde ele apanhará o autocarro que há de levá-lo ao
primeiro dia de escola. O rapaz veste a camisola nova, leva o estojo
vermelho com a inicial D e segura o maltratado Dom Quixote do Bloco
Oriental debaixo do braço. Fidel já está na paragem de autocarro,
juntamente com meia dúzia de outras crianças dos Blocos. Ostensivamente,
David não o cumprimenta.

Como querem que ir para a escola pareça fazer parte de uma vida normal,
eles combinam não pressionar o rapaz para lhes contar coisas das aulas; e
ele, por seu turno, mantém-se silencioso, o que é invulgar nele.

242

- A escola correu bem hoje? - atreve-se ele a perguntar, no quinto dia.

- Hã-hã - responde o rapaz.


- Já arranjaste novos amigos? - O rapaz não se digna responder.

Durante três, quatro semanas, assim se mantêm as coisas. Nessa altura


chega uma carta pelo correio, com a morada da escola no canto superior
esquerdo. Sob o cabeçalho «Comunicação Extraordinária», convida o(s)
pai(s) do aluno em causa a contactar a secretária escolar na primeira
oportunidade para marcar uma reunião com o professor relevante a fim de
debater certas questões que surgiram em relação ao seu/à sua filho/a.

Inês telefona para a escola.

- Eu estou todo o dia livre - diz. - Marque uma hora e eu lá estarei.

A secretária propõe as onze da manhã do dia seguinte, durante o período


livre do señor León.

- Será melhor o pai do rapaz vir também - acrescenta ela.

- O meu filho não tem pai - responde Inês. - Eu peço ao tio para ir
também. O tio interessa-se por ele.

O señor León, o professor do primeiro ano, vem a ser um jovem alto e


magro de barba escura e um olho só. O olho morto, feito de vidro, não se
move na órbita; ele, Simón, pergunta a si mesmo se as crianças não
acharão aquilo perturbante.

- Temos pouco tempo - diz o senor León -, e portanto vou falar com
franqueza. Acho que o David é um rapaz inteligente, muito inteligente. É
esperto; apreende imediatamente novas ideias. Contudo, está a ter
dificuldade em adaptar-se às realidades das aulas. Está sempre à espera
de levar a sua avante. Talvez seja por ser um pouco mais velho que a
média da aula.

243

Ou talvez esteja habituado em casa a levar a sua avante com demasiada


facilidade. Em qualquer caso, não é uma evolução positiva.

O señor León faz uma pausa, encosta os dedos de uma mão aos dedos da
outra, ponta com ponta, e aguarda a resposta deles.

- As crianças devem ser livres - diz Inês. - As crianças devem poder


gozar a sua infância. Eu tive as minhas dúvidas quanto a pôr o David na
escola tão novo.

- Com seis anos não é novo para andar na escola - torna o señor León. -
Pelo contrário.

- No entanto ele é novo e está habituado à sua liberdade.

- As crianças não perdem a liberdade pelo facto de irem para a escola -


contrapõe o señor León. - Não perdem a liberdade por estarem sentadas no
seu lugar. Não perdem a liberdade por ouvirem o que o professor diz. A
liberdade não é incompatível com a disciplina e o trabalho aturado.

- O David não fica sentado no seu lugar? Não escuta o que o senhor diz?

- É desassossegado e desassossega também as outras crianças. Sai do lugar


e começa a passear. Sai da sala sem autorização. E não dá atenção ao que
eu digo, não.

- Isso é estranho. Em casa não se põe a passear. Se na escola o faz, há


de haver uma razão para isso.

O olho solitário crava-se em Inês.

- Quanto ao desassossego - esclarece ela -, ele sempre foi assim. Não


dorme o suficiente.

- Uma dieta moderada curará isso - diz o señor León. - Nada de


especiarias. Nada de estimulantes. Agora passo aos pormenores. Na
leitura, infelizmente, o David não fez quaisquer progressos. Há outras
crianças naturalmente menos dotadas que lêem melhor do que ele. Muito
melhor. Há qualquer coisa na atividade da leitura que ele parece incapaz
de apreender. O mesmo se aplica aos números.

244

Ele, Simón, intervém.

- Mas ele tem amor aos livros. O senhor deve ter visto isso. Anda com o
Dom Quixote para onde quer que vá.

- Apega-se ao livro porque tem imagens - replica o señor León. - Não é


geralmente boa prática aprender a ler com livros ilustrados. E o Dom
Quixote, além de tudo o que se possa dizer sobre ele, não é livro para
leitores principiantes. O espanhol falado do David não é mau, mas ele não
sabe ler. Nem sequer consegue pronunciar as letras do alfabeto. Nunca me
deparei com um caso tão extremo. Gostaria de propor uma consulta com um
especialista, um terapeuta. Tenho a impressão (e os colegas que consultei
partilham essa impressão) de que é capaz de haver um défice.

- Um défice?

- Um défice específico ligado às atividades simbólicas. Ao trabalho com


palavras e números. Ele não sabe ler. Não sabe escrever. Não sabe contar.

- Em casa lê e escreve. Passa horas nisso todos os dias. Embrenha-se na


leitura e na escrita. E conta até mil, um milhão.

Pela primeira vez o señor León sorri.

- Ele consegue recitar todo o tipo de números, sim, mas não pela ordem
correta. Quanto às marcas que faz com o lápis, podem chamar-lhes escrita,
e ele pode chamar-lhes escrita, mas não é escrita tal como geralmente se
entende. Se têm ou não algum significado privado, não sei avaliar. Talvez
tenham. Talvez indiciem um talento artístico. O que seria uma segunda
razão, mais positiva, para ele ser visto por um especialista. O David é
uma criança interessante. Seria uma pena perdê-lo. Um especialista talvez
seja capaz de nos dizer se há algum fator subjacente ao défice, por um
lado, e à inventividade, por outro.

A campainha toca. O señor León tira um bloco de apontamentos do bolso,


rabisca qualquer coisa nele e arranca a página.

245

- Têm aqui o nome da especialista que eu proponho e o número de telefone


dela. Ela vem uma vez por semana à escola, de maneira que podem
encontrar-se aqui com ela. Telefonem e marquem uma consulta. Entretanto,
o David e eu continuaremos os nossos esforços. Obrigado por terem vindo
falar comigo. Tenho a certeza de que haverá um efeito favorável.

Ele procura Elena e conta-lhe a entrevista.

- Conheces o señor León de algum lado? - pergunta. - Foi professor do


Fidel? Acho as queixas dele inverosímeis. Que o David é desobediente, por
exemplo. Pode ser por vezes um bocado teimoso, mas desobediente não,
falando por experiência própria.

Elena não responde, mas chama Fidel à sala.

- Fidel, querido, fala-nos do señor León. Parece que o David e ele não se
entendem e o Simón está preocupado.

- O señor León é fixe - declara Fidel. - E severo.

- É severo em relação às crianças falarem fora da sua vez?

- Suponho que sim.

- Porque achas tu que o David e ele não se entendem?

- Não sei. O David diz coisas malucas. Talvez o señor León não goste
disso.

- Coisas malucas? Que espécie de coisas malucas?

- Não sei... Diz coisas malucas no recreio. Toda a gente acha que ele é
maluco, até os rapazes crescidos.

- Mas que espécie de coisas malucas?

- Que consegue fazer desaparecer coisas. Que consegue fazer-se


desaparecer a ele próprio. Diz que há vulcões em toda a parte que nós não
conseguimos ver, só ele.

- Vulcões?
- Não são vulcões grandes, são vulcões pequenos. Que ninguém consegue
ver.

246

- Será que ele assusta as outras crianças com as suas histórias?

- Não sei. Ele diz que vai ser mágico.

- Há muito tempo que ele anda a dizer isso. Disse-me que tu e ele um dia
vão atuar no circo. Ele vai fazer truques de magia e tu vais ser palhaço.

Fidel e a mãe trocam um olhar.

- O Fidel vai ser músico, nem mágico nem palhaço - declara Elena. -
Disseste ao David que ias ser palhaço, Fidel?

- Não - responde Fidel, agitando-se, constrangido.

A entrevista com a psicóloga tem lugar nas instalações da escola. São


conduzidos à sala bem iluminada e bastante antisséptica onde a señora
Otxoa dá as suas consultas.

- Bom dia - diz ela, sorrindo e estendendo a mão. - Os senhores são os


pais do David. Eu já conheço o vosso filho. Tivemos uma grande conversa,
várias conversas. Que jovem interessante!

- Antes de irmos ao assunto - interrompe ele -, deixe-me esclarecer-lhe


quem sou. Embora conheça o David de longa data, e em tempos tenha sido
uma espécie de tutor dele, não sou seu pai. Contudo...

A señora Otxoa levanta a mão.

- Eu sei, o David disse-me. O David diz que nunca conheceu o verdadeiro


pai. E também diz - nesta altura vira-se para Inês -que a senhora não é a
sua verdadeira mãe. Vamos analisar estas convicções dele antes de tudo o
resto. Porque, embora possa haver fatores orgânicos em ação, a dislexia,
por exemplo, a minha impressão é que o comportamento instável do David
nas aulas provém de uma situação familiar (para uma criança)
desorientadora: da incerteza de quem é, de onde vem.

Ele e Inês trocam um olhar.

247

- A senhora usa o termo verdadeiro - diz ele. - Diz que nós não somos a
verdadeira mãe e o verdadeiro pai. O que quer dizer ao certo com a
palavra verdadeiro? Não se trata com certeza de nenhuma sobrevalorização
do fator biológico.

A señora Otxoa aperta os lábios e abana a cabeça.


- Não sejamos demasiado teóricos. Concentremo-nos antes na experiência do
David e na compreensão que o David tem do verdadeiro. O verdadeiro, eis
onde pretendo chegar, é aquilo de que o David sente falta na vida.

A experiência de ter falta do verdadeiro inclui a experiência de não ter


pais verdadeiros. O David não tem nenhuma âncora na vida.

Daí o seu ensimesmamento e o seu refúgio num mundo de fantasia onde se


sente com mais controlo.

- Mas ele tem uma âncora - diz Inês. - Eu sou a âncora dele. Eu amo-o.
Amo-o mais que ao mundo. E ele sabe-o.

A señora Otxoa acena com a cabeça.

- Pois sabe. Ele disse-me quanto a senhora o ama, quanto ambos os


senhores o amam. A vossa boa vontade fá-lo feliz; em troca, ele sente a
maior boa vontade relativamente a ambos os senhores. Não obstante,
continua a haver qualquer coisa que falta, qualquer coisa que a boa
vontade ou o amor não podem proporcionar. Porque, embora um ambiente
emocional positivo conte muito, não pode ser suficiente. Foi para
falarmos dessa diferença, dessa falta duma verdadeira presença parental,
que eu quis ter esta reunião. Porquê, perguntam os senhores? Porque, como
disse, sinto que as dificuldades de aprendizagem do David provêm duma
confusão relativamente a um mundo do qual os seus verdadeiros pais
desapareceram, um mundo ao qual ele não sabe como chegou.

- O David chegou de barco, como toda a gente - objeta ele. - Do barco


para o acampamento, do acampamento para Novilla. Nenhum de nós sabe mais
do que isso sobre a sua origem.

248

A nossa memória foi limpa, mais ou menos. O que há de tão especial no


caso do David? E que tem tudo isto que ver com ler e escrever, com os
problemas do David nas aulas? A senhora falou em dislexia. O David sofre
de dislexia?

- Referi a dislexia como uma possibilidade. Não fiz testes nesse sentido.
Mas se ela estiver de facto presente, a minha impressão é que se trata
apenas de um fator contributivo. Não, para responder à sua pergunta
principal, eu diria que aquilo que há de especial no David é que ele se
sente especial, anormal, até. Claro que ele não é anormal. Quanto a ser
especial, ponhamos de lado essa questão de momento. Em lugar disso,
façamos todos um esforço por ver o mundo através dos seus olhos, sem lhe
impor a nossa maneira de ver o mundo. O David quer saber quem é
verdadeiramente, mas quando o pergunta recebe respostas evasivas como: «O
que queres tu dizer com verdadeiro?», ou: «Nós não temos história, nenhum
de nós, foi toda limpa.» Podem censurá-lo se ele se sente frustrado e
rebelde e a seguir se refugia num mundo privado onde é livre de inventar
as suas próprias respostas?
- Está a dizer-nos que as páginas ilegíveis que ele escreve para o señor
León são histórias sobre o lugar de onde ele vem?

- Sim e não. São histórias para si próprio, e não para nós. É por isso
que ele as escreve numa escrita privada.

- Como é que a senhora sabe, se não as consegue ler? Ele interpretou-as


para si?

- Para que a relação do David comigo se desenvolva é importante que ele


saiba que eu não revelo o que foi dito entre nós, señor. Até as crianças
devem ter direito aos seus pequenos segredos. Mas das conversas que o
David e eu tivemos, sim, creio que na sua cabeça ele está a escrever
histórias sobre si próprio e a sua verdadeira filiação. Que, por
consideração para convosco, mantém ocultas, não vão vocês ficar
aborrecidos.

249

- E qual é a sua verdadeira filiação? Donde acha ele que vem


verdadeiramente?

- Isso não me compete a mim dizer. Mas há a questão duma determinada


carta. Ele fala duma carta que contém os nomes dos seus verdadeiros pais.
Ele diz que o senhor tem conhecimento dessa carta. É verdade, señor?

- Uma carta de quem?

- Ele diz que tinha uma carta com ele quando chegou no barco.

- Ah, essa carta! Não, está enganada, a carta perdeu-se antes de


chegarmos a terra. Perdeu-se durante a viagem. Eu nunca a vi. Foi por ele
ter perdido a carta que eu tomei a responsabilidade de o ajudar a
encontrar a mãe. Caso contrário ele ficaria desamparado. Ainda estaria em
Belstar, no limbo.

A señora Otxoa escreve uma vigorosa anotação para si própria no bloco.

- Chegamos agora - diz, poisando a caneta - ao problema prático do


comportamento do David nas aulas. Da sua insubordinação. Da sua falta de
progressos. Das consequências dessa falta de progressos, e dessa
insubordinação, para o señor León e as outras crianças da aula.

- Insubordinação? - Ele espera que Inês junte a sua voz à dele, mas não,
ela deixa que seja ele a falar. - Em casa, señora, o David é sempre
educado e bem-comportado. Custa-me crer nesses relatórios do señor León.
O quer ele dizer exatamente com insubordinação?

- Quer dizer desafiar continuamente a sua autoridade como professor. Quer


dizer recusar-se a seguir as suas indicações. O que me leva ao ponto
essencial. Gostaria de propor que tirássemos o David do ensino regular,
pelo menos para já, e o inscrevêssemos antes num programa de ensino
adaptado às suas necessidades individuais. Onde possamos avançar ao seu
próprio ritmo, dada a sua difícil situação familiar. Até ele estar pronto
para voltar à sua aula. O que estou convencida de que conseguirá, uma vez
que é uma criança inteligente e esperta.

250

- E esse programa de ensino...?

- Este programa que eu tenho em mente é ministrado no Centro de Ensino


Especial, em Punto Arenas, relativamente perto de Novilla, na costa, num
cenário muito atraente.

- Relativamente perto é quanto?

- Cinquenta quilómetros, mais ou menos.

- Cinquenta quilómetros! Isso é uma grande tirada para uma criança


pequena fazer todos os dias, para lá e para cá. Há autocarro?

- Não. O David ficará a residir no Centro de Ensino, vindo passar fins de


semana alternados a casa, se quiser. A experiência mostra-nos que resulta
melhor se a criança estiver a residir lá. Isso permite uma certa
distância da situação doméstica que possa estar a contribuir para o
problema. Ele e Inês trocam um olhar.

- E se declinarmos? - pergunta ele. - E se preferirmos que ele fique na


aula do señor León?

- E se preferirmos tirá-lo desta escola, onde não está a aprender nada? -


entra nessa altura Inês, levantando a voz. - Onde, seja como for, ele é
novo de mais para andar? E essa a verdadeira razão pela qual ele tem
dificuldades. É novo de mais.

- O señor León já não está na disposição de ter o David na sua aula, e


depois de proceder às minhas investigações percebo porquê. Quanto à
idade, o David está na idade escolar normal. Seor, señora, eu dou o meu
conselho tendo em mente os interesses do David. Ele não está a progredir
na escola. É uma influência perturbadora. Tirá-lo da escola e devolvê-lo
a um ambiente doméstico que ele manifestamente acha perturbante não pode
ser a solução. Por conseguinte temos de tomar uma medida alternativa,
mais arrojada. É por isso que recomendo Punto Arenas.

251

- E se nós recusarmos?

- Gostaria que não o pusesse nesses termos, señor. Pode crer no que lhe
digo, Punto Arenas é a melhor opção que se coloca.
Se o señor e a señora Inês quiserem visitar previamente Punto Arenas,
posso providenciar nesse sentido, a fim de que possam ver com os vossos
próprios olhos que se trata de uma instituição de primeira classe.

- Mas se visitarmos essa instituição e continuarmos a recusar-nos, o que


é que se passa?

- O que é que se passa? - A señora Otxoa abre as mãos num gesto de


desamparo. - O senhor disse-me, no início desta entrevista, que não é pai
do rapaz. Não há nada nos documentos dele sobre a filiação, a sua
verdadeira filiação. Eu diria... eu diria que as suas qualificações para
determinar onde ele deve ser educado são extremamente débeis.

- Então vai tirar-nos o miúdo.

- Por favor não encare as coisas dessa maneira. Não estamos a tirar-lhes
o miúdo. Os senhores vê-lo-ão regularmente, de quinze em quinze dias. A
vossa casa continuará a ser a casa dele. Em todos os aspetos práticos
continuarão a ser os pais dele, a menos que ele decida que quer ser
separado de vós. O que ele não dá a entender de modo algum. Pelo
contrário, gosta imenso de vós ambos: gosta de vós e tem-vos afeição.

«Repito que Punto Arenas, na minha opinião, é a melhor solução para o


problema com que nos defrontamos, e aliás é uma solução generosa. Pensem
nisso. Não se apressem. Visitem Punto Arenas, se quiserem. Depois, em
conjunto com o señor León, podemos discutir os pormenores.

- E entretanto?

- Entretanto, sugiro que o David volte para vossa casa. Não lhe está a
fazer bem nenhum estar na aula do señor León e também não está a fazer
bem nenhum aos colegas.

252

Capítulo 25

- Porque é que vamos para casa mais cedo? Estão no autocarro, os três, de
regresso aos Blocos.

- Porque foi tudo um erro - diz Inês. - Eles são crescidos de mais para
ti, aqueles rapazes da tua aula. E aquele professor, aquele señor León,
não sabe ensinar.

- O señor León tem um olho mágico. Consegue tirá-lo e metê-lo no bolso.


Um dos rapazes viu-o.

Inês cala-se.
- Amanhã volto para a escola?

- Não.

- Para ser explícito - intervém ele -, não vais voltar para a escola do
señor León. A tua mãe e eu vamos falar duma escola diferente para ti.
Possivelmente.

- Não vamos falar de mais escola nenhuma - afirma Inês. - A escola foi
uma ideia triste desde o princípio. Não sei porque foi que o permiti.

O que estava aquela mulher a dizer sobre dislexia? O que é a dislexia?

- É não conseguir ler as palavras pela ordem correta. Não conseguir ler
da esquerda para a direita. Qualquer coisa assim. Não sei.

- Eu não tenho dislexia - diz o rapaz. - Não tenho nada. Vão mandar-me
para Punto Arenas? Eu não quero ir.

253

- Que sabes tu de Punto Arenas? - pergunta ele.

- Tem arame farpado e temos de dormir num dormitório e não podemos ir a


casa.

- Ninguém te vai mandar para Punto Arenas - declara Inês

- Enquanto eu for viva.

- Vais morrer? - pergunta o rapaz.

- Não, claro que não. É apenas uma maneira de falar. Tu não vais para
Punto Arenas.

- Esqueci-me do meu caderno. Do meu caderno de exercícios. Podemos voltar


para o ir buscar?

- Não. Agora não. Eu vou lá buscá-lo qualquer dia.

- E o meu estojo.

- O estojo de lápis que eu te dei nos anos? -Sim.

- Eu vou buscá-lo também. Não te preocupes.

- Querem mandar-me para Punto Arenas por causa das minhas histórias?

- Não é bem quererem mandar-te para Punto Arenas - diz ele.

- É mais não saberem como hão de lidar contigo. Tu és uma criança


excecional e eles não sabem lidar com crianças excecionais.

- Porque é que eu sou excecional?


- Isso não é pergunta que se faça. És excecional e pronto, e terás de
viver com esse facto. Por vezes isso facilitar-te-á as coisas, outras
vezes dificultá-las-á. Este é um dos casos em que as dificulta.

- Eu não quero ir à escola. Não gosto da escola. Posso aprender sozinho.

- Não me parece, David. Acho que ultimamente tens andado a aprender


sozinho em demasia. Isso é metade do problema. Um pouco mais de
humildade, um pouco mais de disponibilidade para aprender com os outros,
é o que é preciso.

- Tu podes ensinar-me.

254

- Obrigado. É muito simpático da tua parte. Como talvez estejas


recordado, prontifiquei-me várias vezes no passado a ensinar-te e fui
rejeitado. Se me tivesses deixado ensinar-te a ler, a escrever e contar
duma maneira normal, ter-se-ia evitado esta trapalhada toda.

A força da sua explosão apanha manifestamente o rapaz desprevenido:


lança-lhe um olhar de magoada surpresa.

- Mas isso já lá vai - apressa-se ele a acrescentar. - Vamos virar a


página, tu e eu.

- Porque é que o señor León não gosta de mim?

- Porque também ele está demasiado cheio da sua importância - diz Inês.

- O señor León gosta de ti, sim senhor - intervém ele. - Só que tem uma
aula inteira para ensinar e não tem tempo para te dar atenção
individualizada. Ele espera que as crianças de vez em quando trabalhem
por si sós.

- Eu não gosto de trabalhar.

- Todos nós temos de trabalhar, de maneira que o melhor é habituares-te.


O trabalho faz parte do destino do homem.

- Eu não gosto de trabalhar. Gosto de brincar.

- Sim, mas não podes passar todo o tempo a brincar. A altura de brincar é
depois de terminares o trabalho diário. Quando chegas às aulas, de manhã,
o señor León espera que tenhas trabalhado. É perfeitamente razoável.

- O señor León não gosta das minhas histórias.

- Ele não pode não gostar das tuas histórias, visto que não as pode ler.
De que espécie de histórias é que ele gosta?

- Histórias de férias. Sobre o que as pessoas fazem nas férias. O que é


que são férias?
- Férias são dias de folga, dias em que não se trabalha. Hoje deram-te
férias durante o resto do dia. Já não tens de estudar mais.

255

- E amanhã?

- Amanhã vais aprender a ler, escrever e contar como uma pessoa normal.

- Vou escrever uma carta à escola - diz ele a Inês -, a notificá-la de


que vamos tirar formalmente o David de lá. Que nos encarregaremos
pessoalmente da sua educação. Concorda?

- Sim. E, já agora, escreva também ao señor León. Pergunte-lhe o que anda


ele a fazer, a ensinar criancinhas. Diga-lhe que isso não é trabalho para
um homem.

«Prezado señor León», escreve ele.

Obrigado por nos apresentar à señora Otxoa.

A señora Otxoa propôs-nos que o nosso filho David fosse transferido para
a escola especial de Punto Arenas.

Após madura reflexão, concluímos que discordamos dessa mudança. O David


é, em nosso entender, demasiado novo para viver longe dos pais. Duvidamos
também que ele seja objeto da devida atenção em Punto Arenas. Por
conseguinte, passaremos a ensiná-lo em casa. Confiamos plenamente que as
suas dificuldades de aprendizagem em breve serão coisa do passado. Ele é,
como o senhor reconhece, uma criança inteligente que aprende depressa.

Agradecemos-lhe os esforços que fez por ele. Juntamos uma cópia da carta
que enviámos ao diretor notificando-o de que o vamos tirar da escola.

Não recebem resposta. Em vez disso, aparece pelo correio um impresso de


três páginas a preencher para a admissão em Punto Arenas, juntamente com
uma lista de roupas e artigos pessoais (escova de dentes, pasta
dentífrica, pente) que os novos alunos devem levar e um passe de
autocarro. Eles ignoram tudo aquilo.

256

A seguir há uma chamada telefónica, nem da escola nem de Punto Arenas,


mas, tanto quanto Inês percebe, de uma qualquer repartição administrativa
da cidade.

- Decidimos não mandar mais o David à escola - esclarece ela à mulher do


outro lado da linha. - Ele não estava a colher quaisquer benefícios do
ensino. Vai estudar em casa.
- Só é permitido educar uma criança em casa se o pai ou a mãe foram
professores credenciados - diz a mulher. - A senhora é professora
credenciada?

- Sou a mãe do David e sou eu e mais ninguém quem decide como ele é
educado - replica Inês, e desliga o telefone.

Uma semana depois chega nova carta. Com o cabeçalho «Notificação


Judicial», cita os «pai(s) ou tutor(es)» não identificados para
comparecerem perante uma comissão de investigação no dia 21 de fevereiro
às 9 da manhã a fim de apresentarem justificação para o facto de a
criança em questão não ser transferida para o Centro de Aprendizagem
Especial de Punto Arenas.

- Recuso-me - diz Inês. - Recuso-me a comparecer perante esse tribunal.


Vou levar o David para La Residência e mantê-lo lá. Se alguém perguntar
onde estamos, diga que fomos para a província.

- Pense bem, por favor, Inês. Se fizer isso, tornar-se-á uma fugitiva.

Há de haver alguém em La Residência (aquele porteiro intrometido, por


exemplo) que a denunciará às autoridades. Vamos comparecer perante essa
comissão, você, o David e eu. Deixemo-los ter uma oportunidade de ver que
o rapaz não tem chifres, que não passa de um vulgar miúdo de seis anos,
demasiado novo para ser separado da mãe.

- Isto já não é um jogo - alerta ele o rapaz. - Se não convenceres aquela


gente de que estás disposto a aprender, eles mandam-te para Punto Arenas
e para o arame farpado. Vai buscar o teu livro. Vais aprender a ler.

- Mas eu sei ler - diz pacientemente o rapaz.

257

- Só sabes ler à tua maneira disparatada. Eu vou-te ensinar a ler como


deve ser.

O rapaz sai rapidamente da sala e regressa com o Dom Quixote abrindo-o na


primeira página.

- Num lugar de La Mancha - lê, lenta mas confiantemente dando a cada


palavra o seu peso próprio -, de cujo nome não me quero lembrar, vivia um
fidalgo que tinha um cavalo magro e um cão.

- Muito bem. Mas como é que eu sei que não aprendeste esse trecho de cor?
- Escolhe uma passagem ao acaso. - Lê.

- Deus sabe se existe ou não Dulcineia no mundo - lê o rapaz -, se é


imagiária ou não imagiária.

- Imaginária. Continua.
- Isto não são coisas cuja averiguação se possa levar até ao fim. Nem eu
gerei ou dei à luz a minha senhora. O que é gerei?

- Dom Quixote está a dizer que não é pai nem mãe de Dulcineia. Gerar é o
que o pai faz para ajudar a fazer o bebé. Continua.

- Nem eu gerei ou dei à luz a minha senhora, mas venero-a como se deve
venerar uma dama que tem virtudes que a tornam famosa entre todas as do
mundo. O que é venerar?

- Venerar é adorar. Porque é que não me disseste que sabias ler?

- Mas eu disse-te. Tu é que não quiseste ouvir.

- Tu fingiste que não sabias. Também sabes escrever?

- Sei.

- Pega no lápis. Escreve o que eu te vou ditar.

- Não tenho lápis. Deixei os meus lápis na escola. Tu ficaste de ir lá


buscá-los. Prometeste.

- Eu não me esqueci.

- Quando fizer anos posso ter um cavalo?

- Queres dizer um cavalo como ElRey?

- Não, um cavalo pequeno que possa dormir comigo no meu quarto.

258

- Tem juízo, miúdo. Não se pode ter um cavalo num apartamento.

- A Inês tem o Bolívar.

- Sim, mas um cavalo é muito maior que um cão.

- Eu posso ter um cavalo bebé.

- Um cavalo bebé há de crescer e ficar um cavalo grande. Vamos combinar


uma coisa. Se te portares bem e mostrares ao señor León que tens lugar na
aula dele, damos-te uma bicicleta.

- Eu não quero uma bicicleta. Numa bicicleta não se pode salvar pessoas.

- Bem, não vais ter nenhum cavalo, portanto não se fala mais nisso.
Escreve: «Deus sabe se existe ou não Dulcineia no mundo.» Mostra.

O rapaz mostra-lhe o caderno de exercícios. Deos sabe si hay Dulcinea o


no en el mundo, lê ele: a linha das palavras avança uniformemente da
esquerda para a direita; as letras estão regularmente espaçadas e
perfeitamente desenhadas.
- Estou impressionado - diz ele. - Só há um pequeno reparo a fazer: em
espanhol o nome de Deus escreve-se Dios, e não Deos. Fora isso, muito
bem. De primeira categoria. Portanto sempre sabias ler e escrever,
estavas só a pregar uma partida à tua mãe, a mim e ao señor León.

- Não estava a pregar nenhuma partida. Quem é Deus?

- Deus sabe é uma expressão. É uma maneira de dizer que ninguém sabe.

- Deus e ninguém é a mesma coisa?

- Não mudes de assunto. Deus e ninguém não é a mesma coisa, mas Deus mora
demasiado longe de nós para que conversemos com ele ou tenhamos contactos
com ele. Agora se ele repara em nós, Dios sabe. O que é que vamos dizer à
señora Otxoa? O que é que vamos dizer ao señor León?

259

Como é que lhes vamos explicar que tu estavas a fazer-te de tolo com
eles, que sempre soubeste ler e escrever? Inês, venha cá! O David tem uma
coisa para lhe mostrar.

Passa-lhe o caderno de exercícios do rapaz. Ela lê.

- Quem é Dulcineia? - pergunta.

- Não importa. É uma mulher por quem Dom Quixote está apaixonado. Não é
uma mulher real. É um ideal. Uma ideia na cabeça dele. Veja como ele fez
bem as letras. Sempre sabia escrever.

- Claro que sabe escrever. Ele sabe fazer tudo... Não sabes, David? Sabes
fazer tudo. És o menino da tua mamã.

Com um sorriso rasgado e (parece-lhe a ele) bastante satisfeito consigo


próprio, David trepa para a cama e estende os braços para a mãe, que o
envolve no seu abraço. O rapaz fecha os olhos e refugia-se na

bem-aventurança.

- Vamos voltar à escola - anuncia ele ao rapaz -, tu, a Inês e eu. Vamos
levar o Dom Quixote connosco, para mostrar ao señor León que sabes ler.
Depois de fazermos isso, vais dizer-lhe que pedes muita desculpa por ter
causado todo este estardalhaço.

- Eu não vou voltar para a escola. Não preciso. Já sei ler e escrever.

- A escolha já não é entre ir para a escola do señor León e ficar em


casa. A escolha é entre a escola do señor León e a escola do arame
farpado. Além disso, a escola não é só para ler e escrever. É também para
aprender a conviver com os outros rapazes e raparigas. E para a pessoa se
tornar um animal social.

- Na aula do señor León não há raparigas.


- Sim. Mas encontras raparigas nos intervalos e a seguir às aulas.

- Eu não gosto de raparigas.

- Isso é o que todos os rapazes dizem. Depois, de repente, apaixonam-se e


casam-se.

260

- Eu não me vou casar.

- Isso é o que todos os rapazes dizem.

- Tu não és casado.

- Sim, mas eu sou um caso especial. Sou velho de mais para me casar.

- Podes-te casar com a Inês.

- Eu tenho uma relação especial com a tua mãe, David, que tu és novo de
mais para perceber. Não vou dizer mais nada sobre isso a não ser que não
é uma relação para casar.

- Porquê?

- Porque dentro de cada um de nós há uma voz, por vezes chamada a voz do
coração, que nos diz que género de sentimento temos por uma pessoa. E o
tipo de sentimento que eu tenho pela Inês é mais boa vontade do que amor,
o género de amor de casar.

- O señor Daga vai-se casar com ela?

- É isso que te preocupa? Não, duvido que o senor Daga queira casar-se
com a tua mãe. O señor Daga não é da raça de casar. Além disso, já tem
uma namorada perfeitamente satisfatória.

- O señor Daga diz que ele e a Frannie fazem fogo de artifício. Diz que
fazem fogo de artifício ao luar. Diz que eu posso lá ir ver. Posso?

- Não podes, não. Quando o señor Daga fala em fogo de artifício não quer
dizer fogo de artifício de verdade.

- Quer, pois! Ele tem uma gaveta cheia de fogo de artifício. Diz que a
Inês tem uns seios perfeitos. Diz que são os seios mais perfeitos do
mundo. Diz que se vai casar com ela por causa dos seios e que vão fazer
bebés.

- Ah, ele diz isso? Pois bem, a Inês há de ter ideias próprias sobre o
assunto.

- Porque é que não queres que o señor Daga se case com a Inês?

261
- Porque se a tua mãe quisesse realmente casar-se podia arranjar melhor
marido.

- Quem?

- Quem? Não sei. Não conheço todos os homens que a tua mãe conhece. Ela
deve conhecer uma porção de homens em La Residência.

- Ela não gosta dos homens de La Residência. Diz que são velhos de mais.
Para que é que servem os seios?

- As mulheres têm seios para poderem dar leite aos seus bebés.

- Há leite dentro dos seios da Inês? Eu também vou ter leite nos seios
quando for crescido?

- Não, tu quando cresceres vais tornar-te um homem e os homens não têm


seios propriamente ditos. Só as mulheres é que dão leite pelos seios. Os
seios dos homens são secos.

- Eu também quero ter leite! Porque é que não posso ter leite?

- Já te disse: os homens não produzem leite.

- O que é que os homens produzem?

- Os homens produzem sangue. Se um homem quiser dar alguma coisa do seu


corpo, dá sangue. Vai ao hospital e dá sangue a pessoas doentes e pessoas
que têm acidentes.

- Para elas ficarem melhor?

- Para elas ficarem melhor.

- Eu vou dar sangue. Posso dar sangue daqui a pouco tempo?

- Não. Tens de esperar até seres mais velho, até teres mais sangue no
corpo. Agora há outra coisa que tenho andado para te perguntar. O facto
de não teres pai, como as outras crianças, de me teres só a mim,
dificulta-te as coisas na escola?

- Não.

- Tens a certeza? Porque a señora Otxoa, lá da escola, disse-nos que


podias estar preocupado por não teres um pai a sério.

- Eu não estou preocupado. Não estou preocupado com nada.

262

- Ainda bem. Porque, sabes, os pais não são muito importantes, comparados
com as mães. Uma mãe traz-nos do seu corpo ao mundo. Dá-nos leite, como
disse. Dá-nos colo e protege-nos. Ao passo que um pai pode muitas vezes
ser mais ou menos errante, como Dom Quixote, não estar sempre presente
quando precisamos dele. Ajuda a fazer-nos, logo ao princípio, mas depois
segue o seu caminho. Quando a pessoa vem ao mundo já ele pode ter
desaparecido no horizonte em busca de novas aventuras. É por isso que
temos padrinhos, bons padrinhos, velhos e estáveis, e tios. Para que
quando o pai está fora haja alguém a ocupar o seu lugar, alguém a quem
recorrer.

- Tu és meu padrinho ou meu tio?

- Ambas as coisas. Podes considerar-me o que quiseres.

- Quem é o meu verdadeiro pai? Como é que se chama?

- Não sei. Dios sabe. Estava provavelmente na carta que tu trazias, mas a
carta perdeu-se, comida pelos peixes, e não é por derramar lágrimas que
ela voltará. Como disse, acontece muitas vezes não sabermos quem é o
nosso pai. Nem sequer a mãe o sabe sempre com certeza. Ora bem: estás
pronto para ir falar com o señor León? Pronto para lhe mostrares como és
esperto?

263

Capítulo 26

Durante uma hora esperam pacientemente à entrada do edifício da escola,


até soar a última campainha e a última sala ficar vazia. Nessa altura o
señor León passa, de pasta na mão, a caminho de casa. Manifestamente, não
fica satisfeito ao vê-los.

- Só lhe roubamos cinco minutos, señor León - alega ele. - Queremos


mostrar-lhe os progressos que o David fez na leitura. Por favor. David,
mostra ao señor León como lês.

O señor León aponta-lhes a sua aula. David abre o Dom Quixote.

- Num lugar de La Mancha, de cujo nome não me quero lembrar, vivia um


fidalgo que tinha um cavalo magro...

O señor León atalha-o perentoriamente:

- Não estou disposto a ouvir uma recitação. - Atravessa a sala a passo


largo, abre um armário, volta de lá com um livro e abre-o diante da
criança. - Lê-me isso.

- Leio onde?

- Lê o princípio.

- Juan e Maria vão ao mar. Hoje Juan e Maria vão ao mar. O pai diz-lhes
que os seus amigos Pablo e Ramona podem ir com eles. Juan e Maria ficam
entusiasmados. A mãe faz sanduíches para a viagem. Juan...
265

- Alto! - diz o señor León. - Como é que aprendeste a ler em duas


semanas?

- Ele passou uma porção de tempo com o Dom Quixote - intervém ele, Simón.

- Deixe o rapaz falar por si - torna o señor León. - Se há duas semanas


não sabias ler, como é que hoje sabes?

O rapaz encolhe os ombros.

- É fácil.

- Muito bem, se ler é assim tão fácil, diz-me o que é que estiveste a
ler. Conta-me uma história do Dom Quixote.

- Ele cai num buraco no chão e ninguém sabe onde ele está.

- Sim?

- Depois escapa. Com uma corda.

- E que mais?

- Prendem-no numa gaiola e ele faz cocó nas calças.

- E porque é que fazem isso, prendê-lo?

- Porque não acreditam que ele seja Dom Quixote.

- Não. Fazem-no porque Dom Quixote é uma pessoa que não existe. Porque
Dom Quixote é um nome inventado. Querem levá-lo para casa a fim de que
ele recupere o juízo.

O rapaz lança um olhar dubitativo a Simón.

- O David tem a sua própria leitura do livro - diz ele ao señor León. -
Tem uma imaginação muito fértil.

O señor León não se digna responder.

- Juan e Pablo vão à pesca - diz ele. - O Juan pesca cinco peixes.
Escreve isso no quadro: cinco. O Pablo pesca três peixes. Escreve isso
por baixo do cinco: três. Quantos peixes pescam ao todo, o Juan e o
Pablo?

O rapaz imobiliza-se diante do quadro, fechando os olhos com força, como


se estivesse à escuta de uma palavra distante. O giz não se move.

266
- Conta. Conta um-dois-três-quatro-cinco. Agora conta mais três. Quanto é
que isso te dá?

O rapaz abana a cabeça.

- Não os consigo ver - diz, numa voz sumida.

- Não consegues ver o quê? Não precisas de ver peixes, só precisas de ver
os números. Olha para os números. Cinco e depois mais três. Quanto é?

- Desta vez... desta vez... - diz o rapaz com a mesma voz sumida,
inanimada - são... oito.

- Muito bem. Traça uma linha por baixo do três e escreve oito. Portanto
andaste a fingir quando dizias que não sabias contar. Agora mostra-nos
como escreves. Escreve: Conviene que yo diga la verdad, convém que eu
diga a verdade. Escreve. Conviene.

Escrevendo da esquerda para a direita, desenhando as letras claramente,


embora devagar, o rapaz escreve: Yo soy la verdad, eu sou a verdade.

- Está a ver? - diz o señor León, voltando-se para Inês. - Era com isto
que eu tinha de lidar dia após dia quando o vosso filho estava na minha
aula. Eu digo que só pode haver uma autoridade na aula, não pode haver
duas. Discordam disto?

- Ele é uma criança excecional - diz Inês. - Que espécie de escola dirige
o senhor se não é capaz de lidar com uma única criança excecional?

- A recusa a dar ouvidos ao professor não significa que a criança seja


excecional, significa apenas que é desobediente. Se fazem questão de que
o rapaz tenha um tratamento especial, deixem-no ir para Punto Arenas.
Eles lá sabem lidar com crianças excecionais.

Inês fica ereta, de olhos coruscantes.

- Só por cima do meu cadáver é que ele vai para Punto Arenas -diz. -
Anda, meu querido!

267

Meticulosamente, o rapaz volta a pôr o giz na caixa. Sem olhar para a


direita nem para a esquerda, sai da sala atrás da mãe.

Chegada à porta, Inês volta-se e lança um último dardo ao señor León:

- O senhor não é competente para ensinar crianças! O señor León encolhe


os ombros com indiferença.

Com o passar dos dias, a sensação de afronta de Inês só recrudesce. Passa


horas ao telefone com os irmãos, fazendo e refazendo planos para
abandonar Novilla e iniciar uma nova vida noutro sítio, fora do alcance
das autoridades educativas.
Quanto a ele, refletindo sobre o episódio da sala de aula, tem mais
dificuldade em sentir-se destratado. Não gosta do autocrático señor León;
concorda com Inês que ele não devia ter crianças pequenas a seu cargo.
Mas porque resiste o rapaz à educação? Será apenas um espírito de
rebelião inato que nele flameja, atiçado pela mãe, ou terá a animosidade
entre aluno e professor uma causa mais específica?

Chama o rapaz de parte.

- Eu sei que o señor León às vezes é muito severo - diz - e tu e ele nem
sempre se entenderam bem. Estou a tentar perceber porquê. O señor León
alguma vez te disse qualquer coisa desagradável que tu não nos tenhas
contado?

O rapaz dirige-lhe um olhar intrigado.

- Não.

- Como já disse, não estou a censurar ninguém, estou só a tentar


perceber. Há alguma razão para não gostares do señor León, além do facto
de ele ser severo?

- Ele tem um olho de vidro.

- Eu sei disso. Provavelmente perdeu-o num acidente. Provavelmente

sente-se melindrado com isso. Mas não se faz das pessoas inimigos só
porque têm olhos de vidro.

268

- Porque é que ele diz que não há nenhum Dom Quixote? Há um Dom Quixote.
Vem no livro. Ele salva pessoas.

- É verdade que há um homem no livro que se intitula Dom Quixote e salva


pessoas. Mas algumas das pessoas que ele salva não querem realmente ser
salvas. São felizes como estão. Ficam zangadas com Dom Quixote e gritam
com ele. Dizem-lhe que não sabe o que está a fazer, que está a perturbar
a ordem social. O señor León gosta da ordem, David. Gosta de calma e
ordem na sua aula. Gosta de ordem no mundo. Isso não tem mal nenhum.

O caos pode ser muito perturbante.

- O que é o caos?

- Já te disse noutro dia. O caos é quando não há ordem nem leis a que as
pessoas se agarrem. O caos é apenas as coisas a girar por aí. Não o
consigo descrever melhor.

- É como quando os números se abrem e caímos?

- Não, não é nada disso. Os números nunca se abrem. Com os números


estamos seguros. Os números são aquilo que mantém o universo inteiro.
Devias tornar-te amigo dos números. Se fosses mais amigo deles, eles
seriam mais teus amigos. Nessa altura não terias de recear que eles
cedessem debaixo dos teus pés.

Fala com a maior seriedade que pode e o rapaz parece ouvir aquilo.

- Porque é que a Inês estava a discutir com o señor León?

- Não estavam a discutir. Irritaram-se um com o outro, o que


provavelmente ambos lamentam, agora que tiveram tempo para refletir. Mas
isso não é a mesma coisa que uma discussão. Usar palavras duras não é
discutir. Há alturas em que temos de tomar a defesa daqueles que amamos.
A tua mãe estava a tomar a tua defesa. É aquilo que uma boa mãe, uma mãe
corajosa, faz pelos filhos: tomar a sua defesa, protegê-los, enquanto
tiver um sopro de vida. Devias estar orgulhoso por ter uma mãe assim.

- A Inês não é minha mãe.

269

- A Inês é tua mãe. É uma verdadeira mãe para ti. É a tua verdadeira mãe.

- Eles vão-me levar?

- Quem é que te vai levar?

- As pessoas de Punto Arenas.

- Punto Arenas é uma escola. Os professores de Punto Arenas não raptam


crianças. Não é assim que o sistema de ensino funciona.

- Eu não quero ir para Punto Arenas. Promete que não deixas que me levem.

- Prometo. A tua mãe e eu não vamos permitir que ninguém te mande para
Punto Arenas. Já viste a fera que a tua mãe é quando se trata de te
defender. Ninguém lhe passa por cima.

A audiência tem lugar na sede da Repartição de Educação de Novilla. Ele e


Inês chegam à hora aprazada. Depois de uma curta espera são conduzidos a
uma câmara enorme, cheia de eco, com filas e mais filas de assentos
vazios. Lá à frente, num banco elevado, estão dois homens e uma mulher,
juízes ou examinadores. O señor León já está presente. Não há
cumprimentos.

- Os senhores são os pais do rapaz David? - pergunta o juiz do meio.

- Eu sou a mãe - diz Inês.

- Eu sou o padrinho - declara ele. - Ele não tem pai.

- O pai faleceu?

- O pai é incógnito.
- Com qual dos senhores ele vive?

- O rapaz vive com a mãe. A mãe e eu não vivemos juntos. Não temos uma
relação conjugal. Não obstante, somos os três uma família. Mais ou menos.
Temos ambos afeto pelo David. Eu vejo-o todos os dias, quase.

270

- Segundo sabemos o David frequentou a escola pela primeira vez em


janeiro e foi colocado na aula do señor León.

Depois, passadas algumas semanas os senhores foram ambos chamados para


uma entrevista. Está correto?

- Está.

- E o que lhes comunicou o señor León?

- Disse que o David estava a fazer poucos progressos académicos e também


que era insubordinado. Recomendou que ele fosse tirado da aula.

- É assim, señor León?

O señor León acena afirmativamente.

- Eu analisei o caso com a señora Otxoa, a psicóloga da escola.


Concordámos que o David beneficiaria se fosse transferido para a escola
de Punto Arenas.

O juiz olha em redor.

- A señora Otxoa está presente?

Um funcionário judicial segreda-lhe qualquer coisa ao ouvido. O juiz


fala:

- A señora Otxoa não pode estar presente mas apresentou um relatório


que... - folheia os seus papéis - que, como diz, señor León, recomenda a
transferência para Punto Arenas.

A juíza da esquerda toma a palavra.

- Señor León, pode explicar por que razão pensa que é necessária essa
mudança? Parece-me uma medida muito severa, mandar uma criança de seis
anos para Punto Arenas.

- Eu tenho doze anos de experiência de ensino, señora. Em todo esse tempo


nunca tive um caso parecido. O rapaz David não é estúpido. Não é
deficiente. Pelo contrário, é dotado e inteligente. Mas não aceita as
orientações e não quer aprender. Dediquei-lhe muitas horas, em detrimento
das outras crianças da aula, tentando levá-lo a aprender os rudimentos da
leitura, da ortografia e da aritmética. Ele não fez progressos. Não
apreendeu coisa nenhuma.
271

Ou melhor, fingiu não apreender nada. Digo fingiu porque de facto quando
foi para escola já sabia ler e escrever.

- Isto é verdade? - pergunta o juiz presidente.

- Ler e escrever, sim, intermitentemente - responde ele, Simón.

- Tem dias bons e dias maus. No caso da aritmética está a ter algumas
dificuldades, dificuldades filosóficas, chamo-lhes eu, que lhe travam os
progressos. Ele é uma criança excecional. Excecionalmente inteligente e
excecional noutros aspetos também. Aprendeu a ler sozinho com o livro Dom
Quixote, numa versão abreviada para crianças. Só muito recentemente tomei
conhecimento disso.

- O que está em causa - diz o senor León - não é se o rapaz sabe ler e
escrever, ou quem lho ensinou, é se ele pode ter lugar numa escola
vulgar. Eu não tenho tempo para lidar com uma criança que se recusa a
aprender e que pelo seu comportamento perturba o curso normal da aula.

- Ele ainda mal fez seis anos! - explode Inês. - Que espécie de professor
é o senhor que não consegue controlar uma criança de seis anos?

O señor León empertiga-se.

- Eu não disse que não conseguia controlar o seu filho. O que eu não
consigo é cumprir as minhas obrigações para com as outras crianças
enquanto ele estiver na aula. O vosso filho precisa de um tipo de atenção
especial que nós não podemos providenciar numa escola vulgar. É por isso
que recomendo Punto Arenas.

Faz-se um silêncio.

- Tem mais alguma coisa a dizer, señora? - pergunta o juiz presidente.

Inês abana iradamente a cabeça.

- Señor? -Não.

272

- Nesse caso pedir-vos-ia que se retirassem (o señor León também) e


aguardassem a nossa decisão.

Retiram-se para a sala de espera, os três juntos. Inês não consegue, por
mais que se esforce, olhar para o señor León. Passados uns minutos voltam
a chamá-los.

- A decisão deste tribunal - diz o juiz presidente - é que a recomendação


do señor León, secundada e apoiada pela psicóloga da escola e pelo seu
diretor, seja confirmada. O rapaz David será transferido para a escola de
Punto Arenas, devendo a transferência ter lugar o mais brevemente
possível. É tudo. Obrigado por terem comparecido.

- Meritíssimo - diz ele -, posso perguntar se temos direito a recorrer?

- Podem submeter a questão aos tribunais civis, claro, têm esse direito.
Mas o procedimento de recurso não pode ser usado como meio de suspender
esta decisão do tribunal. Quer isto dizer que a transferência para Punto
Arenas terá efeito quer os senhores recorram aos tribunais, quer não.

- O Diego vem buscar-nos amanhã ao fim da tarde - diz Inês. - Está tudo
combinado. Só tem de arrumar uns assuntos pendentes.

- E para onde é que tenciona ir?

- Como hei de eu saber? Para algures fora do alcance desta gente e das
suas perseguições.

- Vai mesmo deixar que um bando de administradores escolares a corra da


cidade, Inês? Como é que vão viver, você, o Diego e o miúdo?

- Não sei. Como os ciganos, imagino. Porque é que não ajuda, em vez de
levantar objeções?

- O que é que são ciganos? - intervém o rapaz.

273

- Viver como os ciganos é só uma maneira de falar - diz ele. - Tu e eu


fomos uma espécie de ciganos enquanto vivemos no campo de Belstar. Ser um
cigano quer dizer que não se tem uma casa como deve ser, um poiso. Ser
cigano não é lá muito divertido.

- Vou ter de ir à escola?

- Não. As crianças ciganas não vão à escola.

- Então quero ser cigano com a Inês e o Diego. Ele volta-se para Inês.

- Gostava que tivesse discutido isto comigo. Pretende mesmo dormir


debaixo de sebes e comer bagas enquanto se esconde da lei?

- Isso não tem nada que ver consigo - replica glacialmente Inês. - A si
não lhe importa que o David vá para um reformatório. A mim importa-me.

- Punto Arenas não é um reformatório.

- É um vazadouro de delinquentes; delinquentes e órfãos. O meu filho não


vai para esse sítio, nunca, nunca, nunca.

- Concordo consigo. O David não merece que o mandem para Punto Arenas.
Não por ser um vazadouro, mas porque é novo de mais para ser separado dos
pais.
- Então porque é que não resistiu àqueles juízes? Porque é que vergou a
espinha e disse Sí señor, sí señor? Não acredita no rapaz?

- Claro que acredito nele. Acredito que ele é excecional e merece um


tratamento especial. Mas aquelas pessoas têm a lei por trás e nós não
estamos em posição de desrespeitar a lei.

- Mesmo quando a lei é má?

- Não é uma questão de bom ou mau, Inês, é uma questão de poder. Se você
fugir mandam a polícia atrás de si e a polícia apanhá-la-á. Será
declarada mãe inapta e a criança ser-lhe-á retirada. Ele será enviado
para Punto Arenas e você ver-se-á a braços com uma batalha só para
recuperar a guarda dele.

274
- Eles nunca me tirarão o meu filho. Mais depressa morrerei.

-O seu peito arfa.

- Porque é que não me ajuda, em lugar de tomar sempre o partido deles?

Ele estende a mão para a aplacar mas ela repele-o e afunda-se na cama.

- Deixe-me em paz. Não me toque! Você não acredita realmente no miúdo.


Não sabe o que significa acreditar.

O rapaz debruça-se sobre ela e afaga-lhe os cabelos. Baila-lhe um sorriso


nos lábios.

- Pronto - diz ele -, pronto. - Deita-se ao lado dela; leva o dedo à


boca; os seus olhos adquirem uma expressão vítrea, ausente; daí a minutos
adormece.

275

Capítulo 27

Álvaro reúne os estivadores.

- Amigos - diz -, há um assunto que precisamos de discutir. Como estarão


lembrados, o nosso camarada Simón propôs que deixássemos de fazer a
descarga à mão e recorrêssemos antes a um guindaste mecânico.

Os homens acenam com a cabeça. Alguns lançam olhares na sua direção.


Eugénio dirige-lhe um sorriso.

- Ora bem, hoje tenho novidades para vocês. Um camarada da Manutenção


Rodoviária disse-me que há um guindaste no armazém deles que está inativo
há meses. Se o quisermos por empréstimo para experiência, diz ele,
podemos usá-lo.

«Que devemos fazer, amigos? Aceitamos a oferta? Vamos ver se, como
pretende o Simón, um guindaste vai mudar as nossas vidas? Quem quer falar
primeiro? Tu, Simón?

Ele é apanhado completamente de surpresa. Tem a mente ocupada com Inês e


os seus planos de fuga; há semanas que não pensa em guindastes nem em
ratazanas nem na economia do transporte de cereal; aliás, acabou por se
tornar dependente da invariável rotina do trabalho para ficar exausto e
obter a dádiva de um sono profundo e sem sonhos.

- Eu não - diz ele. - Eu já disse o que tinha a dizer.


277

- Quem mais? - pergunta Álvaro. Eugénio toma a palavra.

- Eu digo que devemos experimentar o guindaste. O nosso amigo Simón tem


uma boa cabeça. Quem sabe, pode ser que tenha razão. Talvez devamos mesmo
acompanhar os tempos. Se não experimentarmos nunca saberemos ao certo.

Há um murmúrio de concordância por parte dos homens.

- Então vamos experimentar o guindaste? - pergunta Álvaro. - Dizemos ao


nosso camarada da Manutenção Rodoviária que o traga?

- Sim! - diz Eugénio, e põe a mão no ar.

- Sim! - dizem os estivadores em coro, pondo a mão no ar. Até ele, Simón,
põe a mão no ar. A votação é unânime.

O guindaste chega no dia seguinte, na caixa de carga de um camião. Já foi


pintado de branco, mas a tinta descascou e o metal está enferrujado. Dir-
se-ia que passou muito tempo à chuva no exterior. Além disso é mais
pequeno do que ele esperava. Desloca-se sobre ruidosas lagartas de aço; o
operador está numa cabina por cima das lagartas, a manejar os comandos
que fazem rodar a lança e o guincho.

Levam quase uma hora a descarregar a máquina da caixa de carga do camião.


O amigo de Álvaro da Manutenção Rodoviária está impaciente por se ir
embora.

- Quem é que o vai operar? - pergunta. - Para eu lhe explicar rapidamente


os comandos, que depois tenho de ir embora.

- Eugénio! - chama Álvaro. - Tu foste a favor do guindaste. Queres operá-


lo?

Eugénio olha em redor.

- Se mais ninguém quiser, pode ser.

- Ótimo! Então ficas tu.

Eugénio aprende depressa. Daí a pouco anda a correr para trás e para a
frente ao longo do cais, fazendo girar a lança, na qual o gancho oscila
alegremente.

278

- Ensinei-lhe o que posso - comunica o operador a Álvaro. - Ele que tenha


cuidado durante os primeiros dias, e safar-se-á.

A lança do guindaste tem exatamente o comprimento bastante para chegar ao


convés do navio. Os estivadores trazem os sacos um a um do porão, como
anteriormente; mas agora, em lugar de os transportarem pela prancha,
deixam-nos cair numa linga de precintas de lona. Quando a linga fica
cheia pela primeira vez, dão um grito a Eugénio. O gancho engata na
linga; o cabo de aço retesa-se, a linga passa por cima da balaustrada do
convés e, com um movimento floreado, Eugénio faz a carga girar e descer
descrevendo um extenso arco. Os homens aplaudem; mas os seus aplausos
transformam-se em gritos de alarme quando a linga embate no cais e começa
às voltas e aos solavancos descontrolados. Os homens dispersam, todos
exceto ele, Simón, que está demasiado absorto a ver o que se passa ou é
demasiado vagaroso para se mexer. Tem um vislumbre de Eugénio a olhar
para ele, na cabina, a formar palavras que não consegue ouvir. Depois a
carga oscilante atinge-o na zona do diafragma e arremessa-o para trás.
Ele cambaleia de encontro a um balaústre, tropeça num cabo e cai no
espaço entre o cais e o costado de aço do cargueiro. Por um momento fica
ali preso, tão apertado que sente dores ao respirar. Tem a vívida
consciência de que basta o navio deslocar-se uns centímetros para que ele
seja esmagado como um inseto. Depois a pressão afrouxa e ele cai de pé na
água.

- Socorro! - arqueja. - Ajudem-me!

Uma bóia de salvação, pintada às listas vermelho-vivo e brancas, embate


na água ao seu lado. Lá de cima vem a voz de Álvaro:

- Simón! Escuta! Aguenta, que já te tiramos daí. Ele agarra-se à bóia;


como um peixe, é arrastado pelo cais fora até à água desobstruída. Mais
uma vez a voz de Álvaro:

- Aguenta firme, vamos-te içar!

279

Porém, quando a bóia começa a subir, a dor é repentinamente grande de


mais. Falham-lhe as forças e volta a cair na água. Tem óleo a toda a sua
volta, nos olhos, na boca. É assim que tudo se acaba? pergunta a si
próprio. Como um rato? Que ignomínia!

Mas agora Álvaro está ao seu lado, a gingar na água, com o cabelo colado
ao couro cabeludo, do óleo.

- Descontrai-te, velho amigo - diz Álvaro. - Eu agarro-te. Gratamente,


ele descontrai-se nos braços de Álvaro.

- Puxem! - grita Álvaro; e, num abraço apertado, são ambos içados para
fora da água.

Volta a si confundido. Está deitado de costas, a olhar para um céu vazio.


Há figuras indistintas à sua volta e o murmúrio de conversas, mas não
consegue distinguir uma palavra. Fecham-se-lhe os olhos e desmaia
novamente.

Torna a acordar com um ruído surdo. O ruído parece vir de dentro dele, de
dentro da sua cabeça.
- Acorda, viejo! - diz uma voz. Ele abre um olho e vê um rosto gordo e
suado por cima. Eu estou acordado, gostaria de dizer, mas a sua voz
morreu.

- Olhe para mim! - dizem os lábios gordos. - Consegue ouvir-me? Se


consegue ouvir-me pisque os olhos.

Ele pisca os olhos.

- Otimo. Vou dar-lhe uma injeção para as dores e depois vamos tirá-lo
daqui.

Para as dores? Eu não tenho dores, quer ele dizer. Porque é que havia de
ter dores? Mas seja o que for que fala por ele, hoje recusa-se a falar.

Como está filiado no sindicato dos estivadores - uma filiação de que não
tinha conhecimento -, tem direito a um quarto particular no hospital.

280

É tratado no quarto por uma equipa de enfermeiras simpáticas, a uma das


quais, uma mulher de meia-idade chamada Clara, de olhos cinzentos e
sorriso tranquilo, se afeiçoa bastante nas semanas que se seguem.

O consenso parece ser que, no meio do acidente, teve sorte, partiu três
costelas. Uma esquírola de osso tinha perfurado um pulmão e houve que
proceder a uma pequena intervenção cirúrgica para a remover (queria ele
guardar o osso para recordação? -está num frasquinho à sua cabeceira).
Tem cortes e equimoses na face e na parte superior do corpo e perdeu
alguma pele, mas não há indícios de danos cerebrais. Uns dias em
observação, mais umas semanas levadas com calma, e deve voltar à
normalidade. Entretanto, a primeira prioridade será controlar a dor.

A sua visita mais constante é Eugénio, que está carregado de remorsos


pela sua incompetência com o guindaste. Ele faz os possíveis por consolar
o seu colega mais novo - «Como é que se podia esperar que dominasses uma
máquina nova em tão pouco tempo?» -, mas Eugénio não se consola. Quando
vem à tona dos seus sonos leves, é quase sempre Eugénio que flutua na sua
visão, a velá-lo.

Álvaro também vai vê-lo, tal como outros camaradas das docas. Álvaro
falou com os médicos e traz a notícia de que, apesar de se esperar que
ele recupere totalmente, seria pouco avisado da sua parte, com a idade
que tem, voltar à vida de estivador.

- Talvez possa ser operador de guindaste - alvitra ele. - Não havia de


fazer pior que o Eugénio.

- Se quer ser operador de guindaste terá de passar para a Manutenção


Rodoviária - responde Álvaro. - Os guindastes são demasiado perigosos.
Não têm futuro nas docas. Os guindastes foram sempre má ideia.
Ele espera que Inês vá vê-lo, mas ela não aparece. Ele teme o pior: que
ela tenha levado avante o seu plano de pegar no rapaz e fugir.

281

Confia as suas preocupações a Clara.

- Tenho uma amiga - diz - de cujo filho gosto muito. Por razões que não
vêm ao caso, as autoridades educativas têm ameaçado tirar-lho e mandá-lo
para uma escola especial. Posso pedir-lhe um favor? Poderia telefonar-lhe
e saber se houve mais alguma evolução?

- Com certeza - diz Clara. - Mas não quererá falar pessoalmente com ela?
Posso trazer-lhe um telefone à cama.

Ele liga para os Blocos. Quem atende o telefone é um vizinho, que sai,
regressa e informa que Inês não está em casa. Ele telefona mais tarde,
novamente sem êxito.

Na manhã seguinte, bem cedo, no espaço inominável entre o sono e a


vigília, tem um sonho ou visão. Com invulgar nitidez vê uma biga de duas
rodas a pairar nos ares aos pés da cama.

A biga é de marfim ou de qualquer metal com incrustações de marfim e é


puxada por dois cavalos brancos, nenhum dos quais é El Rey. A segurar as
rédeas com uma mão e levantando a outra num gesto real, está o rapaz,
completamente nu à exceção de uma tanga de algodão.

Como cabem a biga e os dois cavalos no pequeno quarto do hospital é para


ele um mistério. A biga parece estar suspensa no ar sem qualquer esforço
da parte dos cavalos ou do condutor. Longe de estarem imobilizados, de
vez em quando os cavalos dão patadas no ar ou agitam as cabeças e
resfolgam. Quanto ao rapaz, não parece cansar-se de ter o braço no ar. A
expressão do seu rosto é familiar: satisfação consigo próprio, talvez
mesmo triunfo. A certa altura o rapaz fita-o diretamente. Lê os meus
olhos, parece dizer. O sonho, ou visão, dura dois ou três minutos. Depois
some-se e o quarto volta a ser como antes.

Ele conta aquilo a Clara.

282

-Acredita na telepatia? - pergunta. - Tive a sensação de que o David


estava a tentar dizer-me qualquer coisa.

- E o que era?

- Não sei bem. Talvez que ele e a mãe precisam de ajuda. Ou talvez não. A
mensagem era... como hei de dizer?... Obscura.
- Bom, lembre-se de que o analgésico que está a tomar é um opiáceo. Os
opiáceos provocam sonhos, sonhos de ópio.

- Não foi um sonho de ópio. Foi a realidade.

Daí em diante recusa os analgésicos e sofre em conformidade. As noites


são o pior: o mais pequeno movimento provoca-lhe uma pontada no peito.

Não tem nada que o distraia, nada para ler. O hospital não tem
biblioteca, facultando apenas exemplares antigos de revistas populares
(receitas, ocupações de lazer, modas femininas). Queixa-se a Eugénio, que
reage trazendo-lhe o livro do seu curso de Filosofia («Eu sei que você é
uma pessoa séria»). O livro, tal como ele receava, é sobre mesas e
cadeiras. Coloca-o de lado. «Desculpe, mas não é o meu género de
filosofia.»

- Que género de filosofia preferiria? - pergunta Eugénio.

- O género que nos abana. Que muda a vida da pessoa. Eugénio dirige-lhe
um olhar intrigado.

- Então há alguma coisa errada na sua vida? - pergunta. - Para além dos
seus ferimentos.

- Há qualquer coisa que falta, Eugénio. Eu sei que não devia ser assim,
mas é. A vida que tenho não me basta. Queria que alguém, um salvador,
descesse dos céus e agitasse uma varinha mágica e dissesse: Olha, lê este
livro e todas as tuas perguntas serão respondidas. Ou: Olha, eis uma vida
inteiramente nova para ti. Não percebe este género de conversa, pois não?

- Não, não posso pretender que perceba.

- Não faz mal. É apenas um estado de espírito passageiro. Amanhã voltarei


a ser a mesma pessoa.

283

Ele devia planear as coisas para quando tiver alta, diz-lhe o médico. Tem
algum sítio onde ficar? Há alguém que cozinhe para ele, que trate dele,
que o ajude a governar-se enquanto sara? Estaria disposto a ir falar com
uma assistente social?

- Nada de assistentes sociais - responde ele. - Deixe-me discutir o


assunto com os meus amigos e ver o que se pode arranjar.

Eugénio oferece-lhe um quarto no apartamento que partilha com dois


camaradas. Ele, Eugénio, dormiria de bom grado no sofá. Ele agradece a
Eugénio, mas declina.

A seu pedido, Álvaro informa-se sobre lares. Os Blocos Orientais,


comunica ele, têm instalações que, embora concebidas para cuidar de
idosos, também aceitam convalescentes. Ele pede a Álvaro que ponha o seu
nome na lista de espera das instalações.
- É um pouco vergonhoso de dizer - diz ele -, mas espero que não tarde
muito a haver uma vaga.

- Se não há má vontade no teu coração - tranquiliza-o Álvaro -, isso pode


considerar-se uma esperança permissível.

- Permissível? - inquire ele.

- Permissível - confirma Álvaro.

Depois, repentinamente, todas as suas angústias se dissipam. Vindas do


corredor, ouvem-se sons de alegres vozes jovens. Clara aparece à porta.

- Tem visitas - anuncia.

Afasta-se para o lado e Fidel e David entram de rompante, seguidos por


Inês e Álvaro.

- Simón! - exclama David. - Caíste mesmo ao mar?

O coração dá-lhe um salto. Cautelosamente, estende os braços.

- Anda cá! Sim, tive um pequeno acidente. Caí à água, mas mal me molhei.
Os meus amigos tiraram-me de lá.

O rapaz trepa para a cama alta, atirando-se a ele e provocando-lhe


pontadas de dor em todo o corpo. Mas a dor não é nada.

284

- Meu querido rapaz! Meu tesouro! Luz da minha vida! O rapaz liberta-se
do abraço.

- Fugi - anuncia. - Eu disse-te que fugiria. Passei pelo arame farpado.

Fugiu? Passou pelo arame farpado? Fica confundido. De que está o rapaz a
falar? E a que se deve aquela estranha indumentária nova: uma justa
camisola de gola alta, calças curtas (muito curtas) e sapatos com
pequenas peúgas brancas que mal lhe cobrem os tornozelos?

- Obrigado por virem, todos vocês - diz ele -, mas donde é que fugiste,
David? Estás a falar de Punto Arenas? Levaram-te para Punto Arenas? Inês,
deixou que o levassem para Punto Arenas?

- Não fui eu que os deixei. Apareceram quando ele estava a brincar lá


fora. Levaram-no num carro. Como havia eu de os impedir?

- Nunca sonhei que as coisas chegassem a isso. Mas fugiste, David? Conta
lá. Diz-me como fugiste.

Mas Álvaro intervém.

- Antes de tratarmos disso, Simón, podemos falar da sua mudança? Quando é


que pensa que poderá andar?
- Ele não anda? - pergunta o rapaz. - Não andas, Simón?

- Só por uns tempinhos, vou precisar de ajuda. Até me passarem as dores


todas.

- Vais andar de cadeira de rodas? Posso empurrar-te?

- Sim, podes empurrar a minha cadeira de rodas, desde que não andes muito
depressa. O Fidel também pode empurrar.

- A razão por que eu pergunto - diz Álvaro - é que contactei outra vez
com o lar. Disse-lhes que contava restabelecer-se completamente e não
precisava de cuidados especiais. Nesse caso, disseram eles, podem

admiti-lo imediatamente, desde que não se importe de partilhar o quarto.


O que é que acha disso? Resolveria uma porção de problemas.

285

Partilhar o quarto com outro idoso. Que ressona de noite e cospe para o
lenço. Que se queixa da filha que o abandonou. Que está cheio de
ressentimentos contra o recém-chegado, o invasor do seu espaço.

- Claro que não me importo - diz. - É um alívio ter um sítio certo para
onde ir. E tirar um peso dos ombros de muita gente. Obrigado, Álvaro, por
tratar disso.

- E será o sindicato a pagar, claro - diz Álvaro. - A estada, as


refeições, todas as suas necessidades enquanto lá estiver.

- Isso é bom.

- Bem, agora tenho de voltar ao trabalho. Vou deixá-lo com a Inês e os


rapazes. Tenho a certeza de que têm uma porção de coisas para lhe contar.

Estará a imaginar coisas, ou Inês lança um olhar furtivo a Álvaro quando


este sai? Não me deixes sozinha com ele, este homem que estamos prestes a
trair! Encafuado num quarto antisséptico nos distantes Blocos Orientais,
onde não conhece vivalma. A criar bafio. Não me deixes com ele!

- Sente-se, Inês. Conta-me a tua história do princípio ao fim, David. Não


omitas nada. Temos imenso tempo.

- Fugi - diz o rapaz. - Eu bem te disse que fugiria. Passei pelo arame
farpado.

- Recebi um telefonema - diz Inês. - Duma pessoa completamente estranha.


Uma mulher. Disse que tinha encontrado o David a vaguear pelas ruas, sem
roupa.

- Sem roupa? Fugiste de Punto Arenas sem roupa, David? Quando foi isso?
Ninguém tentou impedir-te?
- Deixei a roupa no arame farpado. Eu não te prometi que fugiria? Posso
fugir donde quer que seja.

- E onde é que essa senhora te encontrou, a senhora que telefonou à Inês?

- Encontrou-o na rua, às escuras, cheio de frio e nu.

286

- Eu não tinha frio. Nem estava nu - diz o rapaz.

- Não tinhas roupa vestida - torna Inês. - Isso quer dizer que estavas
nu.

- Deixe lá isso - interrompe ele, Simón. - Porque é que foi a senhora que
a contactou, Inês? Porque não a escola? O óbvio era certamente isso.

- Ela detesta a escola. Toda a gente a odeia - diz o rapaz.

- É um sítio assim tão terrível?

O rapaz acena vigorosamente com a cabeça. Fidel fala pela primeira vez.

- Bateram-te?

- Para nos baterem temos de ter pelo menos catorze anos. Quando temos
catorze anos, se formos insubordinados podem bater-nos.

- Conta aquilo do peixe ao Simón - diz Inês.

- Obrigam-nos a comer peixe todos os dias. - O rapaz estremece


teatralmente. - Eu detesto peixe. Têm uns olhos como o señor León.

Fidel solta uma risadinha. Daí a pouco ambos os rapazes estão a rir
incontrolavelmente.

- Além do peixe, que mais havia de tão horrível em Punto Arenas?

- Obrigavam-nos a andar de sandálias. E não deixavam a Inês ir ver-me.


Diziam que ela não era minha mãe. Diziam que eu era um tutelado. Um
tutelado é alguém que não tem pai nem mãe.

- Isso é um disparate. A Inês é tua mãe e eu sou teu padrinho, o que é


tão bom como um pai, às vezes melhor. O padrinho cuida de nós.

- Tu não cuidaste de mim. Deixaste-os levarem-me para Punto Arenas.

- Isso é verdade. Fui um mau padrinho. Pus-me a dormir quando devia ter
estado vigilante. Mas aprendi a lição. De futuro vou tomar melhor conta
de ti.

287
- Lutas contra eles, se eles voltarem?

- Sim, o melhor que puder. Vou pedir uma espada emprestada. Direi: Tentem
roubar o meu rapaz outra vez e terão de se haver com Dom Simón!

O rapaz fica radiante de prazer.

- O Bolívar também - diz ele. - O Bolívar pode proteger-me de noite. Tu


vens viver connosco? - Volta-se para a mãe. - O Simón pode vir viver
connosco?

- O Simón tem de ir para um lar a fim de recuperar. Não pode andar. Não
pode subir escadas.

- Pode, pois! Podes andar, não podes, Simón?

- Claro que posso. Normalmente não posso, por causa das dores. Mas por ti
posso fazer o que quer que seja: subir escadas, montar a cavalo, tudo e
mais alguma coisa. Só tens de dizer a palavra.

- Que palavra?

- A palavra mágica. A palavra que me há de curar.

- Eu sei a palavra?

- Claro que sabes. Di-la.

- A palavra é... Abracadabra!

Ele arreda o lençol (felizmente tem o pijama do hospital vestido) e passa


as enfraquecidas pernas por sobre a borda da cama.

- Vou precisar de ajuda, rapazes.

Apoiando-se nos ombros de Fidel e David, põe-se precariamente de pé, dá


um primeiro passo vacilante e depois outro.

- Estás a ver? Sabes mesmo a palavra! Inês, pode pôr a cadeira de rodas
aqui mais perto? - Deixa-se cair na cadeira. - Agora vamos dar um
passeio. Gostava de saber como é o mundo, depois de todo este tempo
enclausurado. Quem quer empurrar?

- Não vens para casa connosco? - pergunta o rapaz.

- Por enquanto, não. Só quando recuperar as forças.

- Mas nós vamos ser ciganos! Se ficares no hospital não podes ser cigano!

288

Ele volta-se para Inês.

- O que é isto? Julgava que tínhamos desistido disso dos ciganos.


Inês empertiga-se.

- Ele não pode voltar para aquela escola. Eu não deixo. Os meus irmãos
vêm connosco, ambos. Vamos no carro.

- Quatro pessoas naquela caranguejola? E se tem uma avaria? E onde é que


vão ficar?

- Não importa. Fazemos biscates. Apanhamos fruta. O señor Daga

emprestou-nos dinheiro.

- Daga! Com que então está por detrás disto!

- Bem, o David não vai voltar para aquela escola terrível.

- Onde os obrigam a andar de sandálias e a comer peixe. A mim não me


parece assim tão terrível.

- Há lá rapazes que fumam e bebem e andam com navalhas. É uma escola para
criminosos. Se o David voltar para lá ficará marcado para o resto da
vida.

O rapaz fala.

- O que é que isso quer dizer, marcado para o resto da vida?

- É só uma maneira de falar - responde Inês. - Quer dizer que a escola


vai exercer um mau efeito sobre ti.

- Como uma ferida?

- Sim, como uma ferida.

- Eu já tenho montes de feridas. Tenho-as do arame farpado. Queres ver as


minhas feridas, Simón?

- A tua mãe queria dizer outra coisa. Ela quer dizer uma ferida na tua
alma. O tipo de ferida que não sara. É verdade que os rapazes da escola
andam com navalhas? Tens a certeza de que não é só um rapaz?

- É uma data de rapazes. E têm uma mãe pata e patinhos e um dos rapazes
pisou um patinho e as entranhas saíram-lhe pelo rabo e eu quis tornar a
pô-las lá dentro mas o professor não me deixou, disse que eu devia deixar
o patinho morrer, e eu disse que queria soprar para dentro dele, mas ele
não me deixou.

289

E tínhamos de fazer jardinagem. Obrigavam-nos a cavar todas as tardes a


seguir às aulas. Eu detesto cavar.

- Cavar faz bem. Se ninguém estivesse disposto a cavar, não teríamos


colheitas, nem comida. Cavar torna-nos fortes. Cria-nos músculos.
- Podem-se fazer germinar sementes em mata-borrão. O nosso professor
mostrou-nos isso. Não é preciso cavar.

- Uma ou duas sementes, sim. Mas se quisermos uma colheita como deve ser,
se quisermos cultivar trigo suficiente para fazer pão e alimentar
pessoas, a semente tem de ser posta na terra.

- Eu detesto pão. O pão é uma maçada. Gosto de gelados.

- Eu sei que gostas de gelados. Mas não se pode viver de gelados, ao


passo que se pode viver de pão.

- Pode-se viver de gelados. O señor Daga vive.

- O señor Daga só finge que vive de gelados. Em privado tenho a certeza


de que come pão como toda a gente. Seja como for, eu não tomaria o señor
Daga por modelo.

- O señor Daga dá-me presentes. Tu e a Inês nunca me dão presentes.

- Isso é mentira, meu rapaz, mentira e crueldade. A Inês ama-te e cuida


de ti, e eu também. Ao passo que o señor Daga, lá no fundo, não te tem
amor nenhum.

- Ele tem-me amor, sim! Quer que eu vá viver com ele! Disse isso à Inês e
a Inês disse-mo a mim.

- Estou certo de que ela nunca concordará com isso. O teu lugar é ao pé
da tua mãe. É por isso que temos andado todo este tempo a lutar. O señor
Daga pode parecer-te sedutor e emocionante, mas quando fores mais velho
compreenderás que as pessoas sedutoras e emocionantes não são
necessariamente boas pessoas.

290

- O que é sedutor?

- Sedutor quer dizer usar brincos e andar com uma navalha.

- O señor Daga está apaixonado pela Inês. Vai fazer bebés na barriga
dela.

- David! - explode Inês.

- É verdade! A Inês disse que eu não devia dizer-te, que tu ficavas com
ciúmes. É verdade, Simón? Tens ciúmes?

- Não, claro que não tenho ciúmes. Não tenho nada que ver com isso. O que
estou a tentar dizer-te é que o señor Daga não é boa pessoa. Pode
convidar-te para casa dele e dar-te gelados, mas no fundo não tem em
conta os teus melhores interesses.

- Quais são os meus melhores interesses?


- O teu primeiro interesse é vir a ser um bom homem. Como a boa semente,
a semente que entra bem fundo na terra e cria raízes fortes, e quando
chega a altura brota à luz e dá numerosos frutos. É assim que deves ser.
Como Dom Quixote. Dom Quixote salvava donzelas. Protegia os pobres dos
ricos e poderosos. Toma-o a ele por modelo, e não o señor Daga. Protege
os pobres. Salva os oprimidos. E honra a tua mãe.

- Não! A minha mãe é que tem de me honrar a mim! Seja como for, o señor
Daga diz que Dom Quixote está fora de moda. Diz que já ninguém anda a
cavalo.

- Bem, se tu quisesses podias facilmente mostrar que ele está enganado.


Montar no teu cavalo e erguer a tua espada ao alto. Isso calaria o señor
Daga. Montar El Rey.

- El Rey está morto.

- Não está nada. El Rey está vivo. Tu sabe-lo.

- Onde? - sussurra o rapaz. De súbito marejam-se-lhe os olhos de


lágrimas, os lábios tremem-lhe e mal consegue pronunciar a palavra.

- Não sei, mas El Rey está algures à espera de que tu chegues. Se


procurares, estou certo de que o encontrarás.

291

Capítulo 28

É o dia de receber alta do hospital. Despede-se das enfermeiras. A Clara,


diz:

- Não esquecerei facilmente a maneira como me tratou. Gostaria de


acreditar que houve mais que boa vontade por detrás disso.

Clara não responde; mas pelo olhar direto que lhe endereça ele sabe que
acertou.

O hospital disponibilizou um automóvel com motorista para o levar à nova


casa nos Blocos Ocidentais; Eugénio prontificou-se a acompanhá-lo e
assegurar-se de que ele fica convenientemente instalado. Uma vez em
andamento, porém, ele pede ao motorista para fazer um desvio pelos Blocos
Orientais.

- Não posso - responde o motorista. - Está fora da minha incumbência.

- Por favor - insiste ele. - Tenho de ir lá buscar roupa. São só cinco


minutos.

De má vontade, o motorista consente.


- Falou de dificuldades que tem tido com a escola do miúdo -diz Eugénio
ao meterem pelo desvio para leste. - Que dificuldades são essas?

- As autoridades escolares querem tirar-no-lo. Pela força, se preciso


for. Querem mandá-lo para Punto Arenas.

293

- Para Punto Arenas! Porquê?

- Porque construíram uma escola em Punto Arenas especialmente para


crianças que se aborrecem com histórias de Juan e Maria e do que eles
fizeram na praia. Que se aborrecem e mostram o seu aborrecimento.
Crianças que não acatam as regras da adição e da subtração ditadas pelo
professor. As regras artificiais. Dois mais dois ser igual a quatro e
coisas assim.

- Isso é mau. Mas porque é que o seu rapaz não soma da forma que o
professor lhe diz?

- Porque havia de o fazer, quando há uma voz dentro dele que lhe diz que
a forma do professor não é a forma verdadeira?

- Não estou a perceber. Se as regras são verdadeiras para si e para mim e


para toda a gente, porque é que não hão de ser verdadeiras para ele? E
porque é que lhes chama regras artificiais?

- Porque dois e dois podia muito bem ser igual a três ou cinco ou noventa
e nove, se assim tivéssemos decidido.

- Mas dois e dois é igual a quatro. A menos que atribua um estranho


significado especial a ser igual. Pode contar por si: um, dois, três,
quatro. Se dois e dois fosse realmente igual a três, tudo soçobraria no
caos. Estaríamos noutro universo, com outras leis físicas. No universo
existente dois e dois é igual a quatro. É uma regra universal,
independente de nós, não é artificial coisa nenhuma. Mesmo que você e eu
deixemos de existir, dois e dois continuará a ser igual a quatro.

- Sim, mas que dois e que dois é igual a quatro? Muitas vezes, Eugénio,
acho que o rapaz não compreende pura e simplesmente os números, tal como
um gato ou um cão não os compreendem. Mas de vez em quando tenho de me
interrogar: há alguém na terra para quem os números sejam mais reais?

«Enquanto estava no hospital sem mais nada para fazer, tentei, como
exercício mental, ver o mundo pelos olhos do David.

294
Põe-se-lhe uma maçã à frente e o que vê ele? Uma maçã: não uma

maçã numeral, mas apenas uma maçã artigo indefinido. Põem-se-lhe duas
maçãs à frente. O que é que ele vê? Uma maçã e uma maçã: não duas maçãs,
não a mesma maçã duas vezes, apenas uma maçã e uma maçã. Vem então o
señor León (o señ or León é o professor da aula em que ele anda) e
pergunta: Quantas maçãs, pequeno? Qual é a resposta? O que são maçãs?.
Qual é o singular cujo plural é maçãs?. Três homens num automóvel a
caminho dos Blocos Orientais: quem é o singular cujo plural é homens:
Eugénio ou Simón ou o nosso amigo motorista cujo nome não sei? Somos
três, ou somos um e um e um?

«Você levanta as mãos ao ar, de exasperação, e eu percebo porquê. Um e um


e um faz três, diz você, e eu inclino-me a concordar. Três homens num
automóvel: simples. Mas o David recusa-se a seguir-nos. Ele não segue os
passos que nós seguimos ao contar: um passo dois passo três. É como se os
números fossem ilhas a flutuar no grande mar negro do nada, e lhe
estivessem a pedir de todas as vezes que fechasse os olhos e se lançasse
no vazio. E se eu caio?, é o que ele pergunta a si próprio. E se eu caio
e continuo eternamente a cair? Deitado na cama a meio da noite, também eu
por vezes iria jurar que estava a cair, a cair sob o mesmo feitiço que se
apossa daquele rapaz. Se passar de um a dois é tão difícil, perguntava eu
a mim mesmo, como conseguirei alguma vez passar de zero a um? De nenhures
a algures: dir-se-ia que de cada vez exigia um milagre.

- O rapaz tem sem dúvida uma imaginação fértil - medita Eugénio. - Ilhas
flutuantes. Mas com a idade há de passar-lhe. Deve ter origem em
sentimentos de insegurança muito antigos. Uma pessoa não pode deixar de
notar como ele é nervoso, como fica agitado sem qualquer razão. Sabe se
há alguma história por detrás disso? Os pais discutiam muito?

- Os pais dele?

- Os verdadeiros pais. Ele tem alguma marca, algum trauma do passado?


Não? Não importa.

295

Quando começar a sentir-se mais seguro no ambiente que o cerca, quando


começar a aperceber-se de que o universo (não apenas o reino dos números,
mas tudo o resto também) é regido por leis, que nada acontece por acaso,
há de tomar juízo e assentar.

- Foi o que disse a psicóloga da escola. A señora Otxoa. Quando ele


assentar os pés no mundo, quando aceitar quem é, as suas dificuldades de
aprendizagem desaparecerão.

- Estou certo de que ela tem razão. É só uma questão de tempo.

- Talvez. Talvez. Mas se formos nós que estamos enganados e ele que tem
razão? E se entre um e dois não houver nenhuma ponte, mas apenas espaço
vazio? E se nós, que tão confiantemente damos o passo, estivermos de
facto a cair no espaço, e só não o sabemos porque insistimos em ter a
venda posta? E se o rapaz é o único entre nós com olhos para ver?

- Isso é como dizer: E se os loucos forem na realidade sãos e os sãos


forem na realidade loucos? Trata-se, desculpe que lhe diga, Simón, de
filosofias de colegial. Uma maçã é uma maçã é uma maçã. Uma maçã e outra
maçã fazem duas maçãs. Um Simon e um Eugénio fazem dois passageiros num
automóvel.

Uma criança, uma criança vulgar, não acha afirmações dessas difíceis de
aceitar. Não as acha difíceis porque são verdadeiras, porque nós estamos
de nascença, por assim dizer, sintonizados para a sua veracidade. Quanto
a ter medo dos espaços vazios entre os números, já fez notar ao David que
o número de números é infinito?

- Mais de uma vez. Não há um último número, disse-lhe eu. Os números


continuam eternamente. Mas que tem isso que ver com o assunto?

- Há infinitos bons e infinitos maus, Simón. Já uma vez falámos de maus


infinitos, lembra-se? Um infinito mau é como darmos connosco num sonho
dentro dum sonho dentro doutro sonho ainda, e assim sucessivamente, sem
parar.

296

Ou darmos connosco numa vida que é só um prelúdio para outra vida que é
só um prelúdio, etc. Mas os números não são assim. Os números constituem
um infinito bom. Porquê? Porque, sendo infinitos em número, preenchem
todo o espaço do universo, tão apertados uns contra os outros como
tijolos. Portanto estamos seguros. Não há por onde cair. Explique-o ao
rapaz. Isso tranquilizá-lo-á.

- Assim farei. Mas tenho cá a minha impressão de que ele não se vai
sentir confortado.

- Não me interprete mal, meu amigo. Eu não estou do lado do sistema de


ensino. Concordo que parece muito rígido, muito antiquado. Na minha
opinião, não se perdia nada com uma maneira mais prática, mais vocacional
de ensino. O David podia aprender a ser canalizador ou carpinteiro, por
exemplo. Para isso não é precisa alta matemática.

- Ou para ser estivador.

- Ou para ser estivador. Ser estivador é uma ocupação perfeitamente


honrada, como ambos sabemos. Não, concordo consigo: o seu jovem está a
ser tratado com demasiada severidade. Não obstante, os professores dele
têm uma certa razão, não têm? Não se trata só de acatar as regras da
aritmética, mas de aprender a acatar as regras em geral. A señora Inês é
muito simpática, mas estraga o filho com mimos, toda a gente o vê. Quando
se fazem continuamente todas as vontades a um miúdo e se lhe diz que é
especial, quando se permite que ele vá criando as suas próprias regras,
que espécie de homem virá ele a ser? Talvez um pouco de disciplina nesta
fase não faça mal nenhum ao jovem David.

Embora ele sinta a maior boa vontade em relação a Eugénio, embora tenha
ficado sensibilizado com a sua disponibilidade para se tornar amigo de um
camarada mais velho e bem assim com as suas muitas amabilidades, embora
não o culpe de modo algum pelo acidente nas docas - enfiado à pressa aos
comandos dum guindaste, ele próprio não faria melhor -, nunca conseguiu
gostar realmente do homem.

297

Acha-o empertigado, tacanho e presunçoso. A crítica que ele faz a Inês


provoca-lhe irritação. Não obstante, conserva a calma.

- Há duas escolas de pensamento, Eugénio, quanto à educação das crianças.


Uma diz que devemos moldá-las como barro, fazendo delas cidadãos
virtuosos. A outra diz que só somos crianças uma vez, que uma infância
feliz é a base duma futura vida feliz. A Inês pertence a esta última
escola; e, como é a mãe dele, como os laços entre uma criança e a mãe são
sagrados, eu sigo-a. Por conseguinte não, não creio que mais disciplina
da sala de aulas seja boa para o David.

Prosseguem o trajeto em silêncio.

Nos Blocos Orientais ele pede ao motorista que espere enquanto Eugénio o
ajuda a apear-se do carro. Juntos, sobem lentamente a escada. Ao chegarem
ao corredor do segundo andar, depara-se-lhes uma visão descoroçoante.

À porta do apartamento de Inês estão duas pessoas, um homem e uma mulher,


de idêntica farda azul-escura. A porta está aberta; do interior vem a voz
de Inês, aguda e irada:

- Não! - diz ela. - Não, não, não! Não têm o direito!

O que impede os estranhos de entrarem - repara ele quando se aproximam -


é o cão, Bolívar, que está acaçapado na soleira da porta, de orelhas
fitas e dentes arreganhados, a rosnar baixinho, atento a todos os seus
movimentos, pronto a saltar.

- Simón! - chama-o Inês. - Diga a esta gente que se vá embora! Querem


levar o David de volta para aquele horrível reformatório. Diga-lhes que
não têm o direito!

Ele respira fundo.

- Os senhores não têm direitos sobre o rapaz - diz, dirigindo-se à mulher


uniformizada, pequena e esmerada como um pássaro, a contrastar com o
companheiro, bastante robusto.

298
- Fui eu que o trouxe para Novilla. Sou o tutor dele. Sou, para todos os
efeitos que importam, pai dele. A señora Inês - aponta para Inês - é para
todos os efeitos a mãe dele. Os senhores não conhecem o nosso filho como
nós. Não há nele nada de errado que precise de ser corrigido. É um rapaz
sensível que tem certas dificuldades com o programa escolar, nada mais do
que isso. Vê armadilhas, armadilhas filosóficas, onde uma criança vulgar
não as veria. Não podem castigá-lo por uma discordância filosófica. Não
podem arrebatá-lo à casa e à família. Não o permitiremos.

A sua fala segue-se um longo silêncio. Por detrás do cão de guarda, Inês
assesta belicosamente o olhar na mulher.

- Não o permitiremos - repete por fim.

- E o senhor? - pergunta a mulher, dirigindo-se a Eugénio.

- O señor Eugénio é um amigo - intervém ele, Simón. - Teve a amabilidade


de me trazer do hospital. Não faz parte deste imbróglio.

- O David é uma criança excecional - diz Eugénio. - O pai é muito


afeiçoado a ele. Vi-o com os meus próprios olhos.

- Arame farpado! - diz Inês. - Que espécie de delinquentes têm os


senhores na vossa escola que precisem de arame farpado para eles não
saírem?

- O arame farpado é um mito - volve a mulher. - Uma perfeita fabricação.


Não faço ideia do que lhe terá dado origem. Em Punto Arenas não há arame
farpado. Pelo contrário, temos...

- Ele passou pelo arame farpado! - interrompe Inês, tornando a levantar a


voz. - Fez-lhe a roupa em farrapos! E os senhores têm o descaramento de
dizer que não há arame farpado!

- Pelo contrário, temos uma política de portas abertas - insiste


corajosamente a mulher. -As nossas crianças são livres de entrar e sair.
Nem sequer há fechaduras nas portas. Diz-nos lá sinceramente, David, há
arame farpado em Punto Arenas?

299

Agora que olha mais de perto, vê que o rapaz esteve presente durante esta
altercação, meio obscurecido por detrás da mãe, a escutar solenemente,
com o dedo na boca.

- Há realmente arame farpado? - repete a mulher.

- Há arame farpado - diz lentamente o rapaz. - Eu passei pelo arame


farpado.

A mulher abana a cabeça e exibe um sorrisinho de descrédito.


- David - diz baixinho -, tu sabes e eu sei que isso é uma peta. Em Punto
Arenas não há arame farpado. Convido-os todos a irem ver por vós. Podemos
meter-nos no carro e ir lá agora mesmo. Não há arame farpado nenhum.

- Eu não preciso de ver - retruca Inês. - Eu acredito no meu filho. Se


ele diz que há arame farpado, é porque é verdade.

- Mas é verdade? - torna a mulher, dirigindo-se a David. - É arame


farpado real, que possamos ver com os nossos próprios olhos, ou é o tipo
de arame farpado que só determinadas pessoas podem ver e tocar,
determinadas pessoas com uma imaginação fértil?

- É real. É verdade - afirma o rapaz. Faz-se um silêncio.

- Portanto a questão é esta - diz finalmente a mulher. -Arame farpado. Se


conseguirmos provar-lhe que não há arame farpado, señora, que a criança
está apenas a inventar histórias, deixa-a ir?

- Nunca poderão provar isso - torna Inês. - Se a criança diz que há arame
farpado eu acredito nela, há arame farpado.

- E o senhor? - pergunta a mulher.

- Eu também acredito nele - responde ele, Simón.

- E o senhor?

Eugénio parece constrangido.

- Eu teria de ver com os meus próprios olhos - diz por fim.

- Não podem esperar que eu me comprometa sem ver.

- Bem, parece que estamos num impasse - diz a mulher.

300

- Deixe que lhe diga, señora. Tem duas opções: ou acata a lei e nos

entrega a criança, ou somos obrigados a chamar a polícia. Como é que vai


ser?

- Só o levam por cima do meu cadáver - responde Inês. Vira-se para ele. -
Simón! Faça qualquer coisa!

Ele devolve-lhe desamparadamente o olhar.

- Que hei de eu fazer?

- Não vai ser uma separação permanente - declara a mulher.

- O David pode vir a casa em fins de semana alternados.

Inês fica resolutamente calada. Ele faz um último apelo.


- Reflita, por favor, señora. O que está a propor vai despedaçar o
coração duma mãe. E para quê? Temos aqui uma criança que por acaso tem
ideias próprias sobre, imagine-se, aritmética (não história, nem língua,
mas a humilde aritmética), ideias que dentro de pouco tempo muito
provavelmente lhe passarão. Que género de crime é uma criança dizer que
dois e dois são três? Como é que isso vai abalar a ordem social? No
entanto, é por isso que os senhores querem arrebatá-la aos pais e
encerrá-la atrás de arame farpado! Uma criança de seis anos!

- Não há arame farpado - repete pacientemente a mulher.

- E a criança não foi transferida para Punto Arenas por não saber somar,
mas porque precisa de cuidados especiais. Pablo - diz, dirigindo-se ao
seu silencioso companheiro -, espera aqui. Quero ter uma conversa
particular com este senhor. - E, para ele:

- Señor, posso pedir-lhe que venha comigo?

Eugénio dá-lhe o braço, mas ele repele o seu jovem colega.

- Não é preciso nada, obrigado, desde que não tenha de me apressar. - À


mulher explica: - Acabo de sair do hospital. Um acidente de trabalho.
Ainda estou um pouco dorido.

Ele e ela estão sozinhos no vão das escadas.

- Señor - diz a mulher em voz baixa -, compreenda, por favor, que eu não
sou uma qualquer funcionária que ande à caça de gazeteiros.

301

Por formação, sou psicóloga. Trabalho com as crianças em Punto Arenas.


Durante o breve tempo em que o David esteve connosco, antes de fugir,
empenhei-me em observá-lo de perto.

Porque, concordo consigo, ele é muito novo para estar longe de casa e
preocupava-me que ele pudesse sentir-se abandonado.

«O que vi foi uma criança amável, muito honesta, muito direta, sem medo
de falar dos seus sentimentos. Vi também outra coisa. Vi a rapidez com
que ele conquistou os outros rapazes, particularmente os mais velhos. Até
os mais violentos. Não exagero ao dizer que eles o adoravam. Queriam
fazer dele a sua mascote.

- A sua mascote? O único tipo de mascote que eu conheço é o animal que se


coroa com uma grinalda e se traz pela arreata. Que orgulho se pode ter em
ser uma mascote?

- Ele era o preferido deles, o preferido universal. Eles não percebem


porque foi que ele fugiu. Estão desfeitos. Todos os dias perguntam por
ele. Porque é que lhe estou a dizer isto, señnor?. Para que possa
perceber que o David encontrou desde o princípio um lugar para si na
nossa comunidade de Punto Arenas. Punto Arenas não é uma escola normal,
onde as crianças passam umas horas por dia a absorver instrução e a
seguir vão para casa. Em Punto Arenas os professores e os alunos e os
conselheiros estão unidos por laços muito estreitos. Então porque fugiu o
David, poderá o senhor perguntar? Não foi por ser infeliz, posso
garantir-lhe. Foi porque tem coração de manteiga e não podia suportar a
ideia da señora Inês cheia de saudades dele.

- A señora Inês, a mãe dele - diz ele. A mulher encolhe os ombros.

- Se ele esperasse uns dias podia vir de visita a casa. Não pode
persuadir a sua mulher a deixá-lo?

- E como é que acha que eu devia persuadi-la, señora? A senhora viu-a.

302

Que fórmula mágica acha que eu possuo capaz de fazer uma mulher assim
mudar de ideias? Não, o seu problema não é como retirar o David à mãe.

A senhora tem esse poder. O seu problema é que não pode mantê-lo lá.
Quando ele decidir voltar para casa, para junto dos pais, virá. A senhora
não tem meios para o impedir.

- Ele continuará a fugir enquanto acreditar que a mãe está a chamá-lo. É


por isso que lhe peço para falar com ela. Persuada-a de que é para bem
dele que deve vir connosco. Porque é para o bem dele.

- A senhora nunca persuadirá a Inês de que tirar-lhe o miúdo é para bem


dele.

- Então pelo menos persuada-a a deixá-lo ir sem ameaças nem choro, sem o
transtornar. Porque, duma maneira ou doutra, ele terá de vir. A lei é a
lei.

- Pode ser que sim, mas há considerações superiores ao cumprimento da


lei, imperativos superiores.

- Há mesmo? Olhe que não sei. A mim, obrigada, basta-me a lei.

303

Capítulo 29

Os dois funcionários foram-se. Eugénio foi-se. O motorista, cumprida a


sua incumbência, foi-se também. Ele fica com Inês e o rapaz, a salvo para
já atrás da porta fechada do seu velho apartamento. Bolívar, desempenhada
a sua missão, regressou ao seu posto diante do radiador, donde observa e
aguarda gravemente, de orelhas fitas para o próximo intruso.
- Vamo-nos sentar e discutir calmamente a situação, os três? -alvitra
ele.

Inês abana a cabeça.

- Não há tempo para mais discussões. Vou telefonar ao Diego e dizer-lhe


que nos venha buscar.

- Vir buscar-vos e levar-vos para La Residência?

- Não. Vamos seguir de carro até estarmos fora do alcance desta gente.

Nem plano de longo prazo nem engenhoso esquema de fuga, até aí é claro.
Sente genuína simpatia por ela, esta mulher impassível e sisuda cuja vida
de festas de ténis e receções ao pôr do Sol ele virou de pernas para o ar
ao dar-lhe um filho; cujo futuro se restringiu agora a conduzir sem
destino por estradas secundárias até os irmãos se aborrecerem ou se lhes
acabar o dinheiro e ela não ter outro remédio senão regressar e abrir mão
da sua preciosa carga.

305

- O que é que achavas, David - diz ele -, de voltar a Punto Arenas, só


por uns tempos, de voltar e mostrar-lhes como és esperto passando a ser o
melhor aluno? Mostrar-lhes que sabes fazer somas melhor que ninguém, que
sabes cumprir as regras e portar-te bem. Quando eles virem isso, hão de
deixar-te vir, garanto-te. Nessa altura podes tornar a viver uma vida
normal, a vida dum rapaz normal. Quem sabe, talvez um dia possam até pôr
uma placa em tua honra em Punto Arenas: O famoso David esteve aqui.

- E porque é que eu serei famoso?

- Teremos de esperar para ver. Talvez venhas a ser um mágico famoso.


Talvez um matemático famoso.

- Não. Eu quero ir com a Inês e o Diego no carro. Quero ser um cigano.

Ele volta-se para Inês.

- Peço-lhe por tudo, Inês, pense bem. Não leve este estouvado passo
avante. Há de haver uma maneira melhor.

Inês assume uma postura ereta.

- Tornou mais uma vez a mudar de ideias? Quer que eu ceda o meu filho a
estranhos, que ceda a luz da minha vida? Que tipo de mãe é que julga que
eu sou? - E, para o rapaz: - Vai fazer a tua mala.

- Já a fiz. O Simón pode empurrar-me no baloiço antes de irmos?

- Não sei bem se consigo empurrar alguém no baloiço - diz ele, Simón. -
Já não tenho a força de antigamente, sabes?

- Só um bocadinho. Por favor.


Vão até ao parque infantil. Esteve a chover; o assento do baloiço está
molhado. Ele limpa-o com a manga.

- Só uns empurrões - diz.

Só consegue empurrar com uma mão; o baloiço mal se mexe. Mas o rapaz
parece feliz.

- Agora é a tua vez, Simón - diz ele. Aliviado, ele senta-se no baloiço e
deixa o rapaz empurrá-lo.

306

- Tu tiveste um pai ou tiveste um padrinho, Simón? - pergunta o rapaz.

- Tenho quase a certeza de que tive um pai, e ele empurrava-me no baloiço


como tu me estás a empurrar. Todos nós temos pais, é uma lei da natureza,
como já te disse; infelizmente, alguns deles desaparecem ou perdem-se.

- O teu pai empurrava-te muito alto?

- Mesmo até ao cimo.

- Tu caías?

- Não me lembro de alguma vez ter caído.

- O que é que acontece quando se cai?

- Depende. Se a pessoa tiver sorte, fica apenas com um inchaço. Se tiver


azar, muito azar, pode partir um braço ou uma perna.

- Não, o que é que acontece quando se cai?

- Não percebo. Queres dizer, quando se está a cair pelo ar?

- Sim. É como voar?

- Não, nem pouco mais ou menos. Cair e voar não é a mesma coisa. Só as
aves podem voar; nós, os seres humanos, somos pesados de mais.

- Mas só por um bocadinho, quando se está lá no cimo, é como voar, não é?

- Imagino que sim, se esquecermos que estamos a cair. Porque é que


perguntas?

O rapaz mostra um sorriso enigmático.

- Porque sim.

Nas escadas deparam com Inês, de rosto fechado.

- O Diego mudou de ideias - diz. -Já não vamos. Eu sabia que isto ia
acontecer. Diz que temos de ir de comboio.
- Ir de comboio? Para onde? Para o fim da linha? Que farão vocês quando
lá chegarem, você e o miúdo sozinhos? Não. Telefone ao Diego. Diga-lhe
para trazer o carro. Eu assumo o comando. Não imagino para onde vamos,
mas vou convosco.

307

- Ele não vai concordar. Não abrirá mão do carro.

- O carro não é dele. Pertence a vocês os três. Diga-lhe que já o teve


durante tempo suficiente e que agora é a sua vez.

Uma hora depois Diego aparece, mal-humorado, morto por uma discussão. Mas
Inês atalha-lhe a resmunguice. De botas e casaco comprido, ele nunca a
viu portar-se de maneira tão imperiosa. Enquanto Diego assiste, de mãos
enfiadas nos bolsos, ela põe uma pesada mala em cima do tejadilho do
carro e prende-a. Quando o rapaz aparece trazendo consigo a sua caixa de
objetos achados, ela abana firmemente a cabeça.

- Três coisas, mais não - diz. - Coisas pequenas. Escolhe.

O rapaz escolhe uma máquina de relógio estragada, uma pedra com um veio
branco, um grilo morto num boião de vidro e o esterno ressequido de uma
gaivota. Calmamente, ela segura o osso entre dois dedos e atira-o fora.

- Agora deita o resto no caixote do lixo. - O rapaz fica a olhar,


estupefacto. - Os ciganos não andam ajoujados com museus -diz ela.

O carro fica por fim carregado. Ele, Simón, entra cautelosamente para o
assento de trás, seguido pelo rapaz, seguido por Bolívar, que se instala
aos pés deles. Conduzindo a uma velocidade francamente excessiva, Diego
toma o caminho de La Residência, onde, sem pronunciar palavra se apeia,
fecha a porta com força e se afasta a passos largos.

- Porque é que o Diego está tão zangado? - pergunta o rapaz.

- Está habituado a ser o príncipe - responde Inês. - Está habituado a


levar a sua avante.

- E agora sou eu o príncipe?

- Sim, és tu o príncipe.

- E tu és a rainha e o Simón o rei? Somos uma família? Ele e Inês trocam


olhares.

308

- Uma espécie de família - diz ele. - Os espanhóis não têm um termo para
aquilo que somos exatamente, portanto intitulemo-nos assim: a família do
David.
O rapaz volta a recostar-se no assento, parecendo satisfeito consigo
próprio.

Conduzindo devagar - sente uma pontada de dor cada vez que mete uma
mudança - ele deixa La Residência para trás e começa a procurar a estrada
principal para norte.

- Para onde é que vais? - pergunta o rapaz.

- Para norte. Tens alguma ideia melhor?

- Não, mas não quero viver numa tenda, como naquele outro sítio.

- Belstar? De facto, não é má ideia. Podemos ir para Belstar e apanhar um


barco de regresso à antiga vida. Nessa altura acabar-se-iam todas as
nossas preocupações.

- Não! Eu não quero uma vida antiga. Quero uma vida nova!

- Estava só a brincar, meu rapaz. O capitão do porto de Belstar não deixa


ninguém apanhar o barco de volta para a antiga vida. É muito rigoroso a
esse respeito. Não há regresso. Portanto é uma nova vida ou então a vida
que temos. Alguma sugestão, Inês, quanto a onde encontrar uma vida nova?
Não? Então continuemos para ver o que aparece.

Localizam a autoestrada para norte e seguem por ela, atravessando


primeiro os subúrbios industriais de Novilla e depois esparsos terrenos
cultivados. A estrada começa a serpentear pelas montanhas.

- Preciso de fazer cocó - anuncia o rapaz.

- Não pode esperar? - pergunta Inês. -Não.

Acontece que não há papel higiénico. Que mais, na sua pressa de partir,
se terá Inês esquecido de trazer?

- Temos o Dom Quixote no carro? - pergunta ele ao rapaz.

309

O rapaz acena afirmativamente.

- Cedes uma página do Dom Quixote?. O rapaz abana a cabeça.

- Então vais ter de ficar com o rabo sujo. Como os ciganos.

- Pode usar um lenço - diz severamente Inês.

Param; depois seguem viagem. Ele começa a gostar do carro de Diego. Pode
não ter grande aspeto e é pesadão de conduzir, mas o motor parece
bastante robusto, bastante solícito.

Dos montes descem para uma região ondulada de vegetação rasteira com
residências dispersas aqui e além, muito diferente dos ermos arenosos a
sul da cidade. Durante largos trechos o deles é o único automóvel na
estrada.

Chegam a uma cidade chamada Laguna Verde (porquê? Não há lagoa nenhuma),
onde atestam o depósito. Passa uma hora, cinquenta quilómetros ao todo,
antes de alcançarem a cidade seguinte.

- Está a fazer-se tarde - diz ele. - Devíamos procurar um sítio para


pernoitar.

Percorrem a rua principal. Não se vê nenhum hotel. Param numa estação de


serviço.

- Onde é que podemos encontrar o próximo sítio para ficar? -pergunta ele
ao funcionário.

O homem coça a cabeça.

- Se querem um hotel, terão de seguir até Novilla.

- Nós vimos precisamente de Novilla.

- Então não sei - diz o funcionário. - Normalmente as pessoas acampam ao


ar livre, e pronto.

Regressam à autoestrada, à noite que se vai adensando.

- Vamos ser ciganos esta noite? - pergunta o rapaz.

- Os ciganos têm caravanas - responde ele. - Nós não temos nenhuma


caravana, apenas esta carripana atafulhada.

- Os ciganos dormem debaixo das sebes - diz o rapaz.

310

- Muito bem. Quando vires uma sebe, diz-me.

Não têm mapa. Ele não faz ideia do que haja mais adiante na estrada.
Prosseguem a marcha em silêncio.

Ele olha por cima do ombro. O rapaz adormeceu, abraçado ao pescoço de


Bolívar. Ele fita o cão nos olhos. Guarda-o, diz, embora não pronuncie
uma palavra. Os glaciais olhos cor de âmbar devolvem-lhe o olhar, sem
pestanejarem.

Ele sabe que o cão não gosta dele. Mas talvez o cão não goste de ninguém;
talvez gostar esteja para além do alcance do seu coração. Mas afinal que
importância tem gostar, amar, em comparação com ser fiel?

- Está a dormir - diz ele a Inês, falando baixinho. E depois: - Lamento


ter de ser eu a vir convosco. Preferia o seu irmão, não preferia?

Inês encolhe os ombros.


- Eu sempre soube que ele me deixaria ficar mal. Deve ser a pessoa mais
egocêntrica do mundo.

É a primeira vez que ela critica um dos irmãos com ele a ouvir, a
primeira vez que alinha ao lado dele.

- Em La Residência uma pessoa torna-se muito egocêntrica -continua ela.

Ele fica à espera de mais - sobre La Residência, sobre os irmãos - mas


ela já disse o bastante.

- Nunca me atrevi a perguntar - torna ele. - Porque é que você aceitou o


rapaz? No dia em que nos conhecemos, pareceu antipatizar imenso connosco.

- Foi demasiado repentino, uma surpresa grande de mais. Vocês surgiram do


nada.

- Todas as grandes dádivas surgem do nada. Você devia sabê-lo.

Será verdade? As grande dádivas surgem mesmo do nada? O que foi que o
possuiu para dizer aquilo?

311

- Acha mesmo - pergunta Inês (e ele não pode deixar de ouvir o sentimento
que há por detrás das suas palavras) -, acha mesmo que eu não ansiava por
ter um filho meu? Como é que julga que era, viver continuamente encafuada
em La Residência?

Agora ele consegue dar nome ao sentimento: amargura.

- Não faço ideia de como era. Nunca percebi La Residência nem como você
foi lá parar.

Ela não ouve a pergunta, ou não acha que valha a pena responder-lhe.

- Inês - diz ele -, deixe-me perguntar-lhe pela última vez: tem a certeza
de que é isto que quer fazer, fugir da vida que conhece, e tudo porque o
miúdo não se entende com o professor?

Ela mantém-se calada.

- Isto não é vida para si, uma vida em fuga - insiste ele. - Nem serve
para mim. Quanto ao rapaz, só pode ser um foragido durante algum tempo.
Mais tarde ou mais cedo, quando crescer, vai ter de se reconciliar com a
sociedade.

Ela aperta os lábios. Crava furiosamente o olhar em frente, na escuridão.

- Pense nisso - conclui ele. - Pense maduramente. Mas, seja o que for que
decida, eu - interrompe-se, resistindo às palavras que querem sair -, eu
segui-la-ei até aos confins da terra.
- Não quero que ele acabe como os meus irmãos - diz Inês, falando tão
baixo que ele tem de fazer um esforço para a ouvir. - Não quero que ele
venha a ser funcionário ou professor como o señor León. Quero que ele
seja alguém na vida.

- Estou certo de que há de ser. É uma criança excecional, com um futuro


excecional. Ambos o sabemos.

Os faróis incidem sobre um letreiro pintado na berma da estrada. Cabanas


5 km. Pouco depois há outro letreiro: Cabanas 1 km.

As cabanas em questão ficam afastadas da estrada, mergulhadas em completa


escuridão.

312

Localizam o escritório; ele apeia-se e bate à porta. Vem abrir uma mulher
de roupão com uma lanterna na mão. Há três dias que falta a eletricidade,
informa-os ela. Não há eletricidade, de maneira que não há cabanas para
alugar. Inês toma a palavra.

- Temos uma criança no carro. Estamos exaustos. Não podemos continuar


toda a noite na estrada. Não tem velas que possamos usar?

Ele volta ao carro e sacode a criança.

- Hora de acordar, meu amor.

Num único movimento fluido, o cão levanta-se e sai do carro, arredando-o


com as robustas espáduas como se ele fosse uma palha. O rapaz esfrega os
olhos, sonolento.

- Já chegámos?

- Não, ainda não. Vamos passar aqui a noite.

À luz da lanterna a mulher mostra-lhe a mais próxima das cabanas. Está


parcimoniosamente mobilada mas tem duas camas.

- Ficamos com ela - diz Inês. - Há algum sítio onde possamos comer?

- Nas cabanas pode-se cozinhar - responde a mulher. - Têm ali um fogão a


gás. - Agita a lanterna na direção do fogão. - Não trouxeram mantimentos?

- Temos um pão e fruta para a criança - diz Inês. - Não tivemos tempo
para ir às compras. Podemos comprar-lhe comida a si? Talvez umas
costeletas, ou salsichas. Peixe não. A criança não come peixe. E fruta. E
os restos que tenha para o cão.

- Fruta! - diz a mulher. - Há muito tempo que não vemos fruta. Mas venha,
vamos ver o que se arranja.
As duas mulheres afastam-se, deixando-os às escuras.

- Eu como peixe - diz o rapaz -, só não como os olhos.

Inês regressa com uma lata de feijão, uma lata daquilo a que o letreiro
chama salsichas de cocktail em salmoura e um limão, bem como uma vela e
fósforos.

313

- E o Bolívar? - pergunta o rapaz.

- O Bolívar vai ter de comer pão.

- Pode comer as minhas salsichas - diz o rapaz. - Eu detesto salsichas.

Fazem uma refeição frugal à luz da vela, sentados na cama lado a lado.

- Lava os dentes, e depois cama - ordena Inês.

- Eu não estou cansado - volve o rapaz. - Podemos jogar um jogo? Podemos


jogar o Verdade ou Consequência?

É a vez de ele recusar.

- Obrigado, David, mas para um dia já tenho consequências que cheguem.


Preciso de descansar.

- Então posso abrir o presente do señor Daga?

- Que presente?

- O señor Daga deu-me um presente. Disse que eu devia abri-lo em tempos


de aflição. Agora é tempo de aflição.

- O señor Daga deu-lhe um presente para ele trazer - diz Inês, evitando
os seus olhos.

- É tempo de aflição, portanto posso abri-lo?

- Isto não é propriamente tempo de aflição, o verdadeiro tempo de aflição


ainda está para vir - diz ele -, mas sim, abre-o lá.

O rapaz vai ao carro a correr e volta com uma caixa de cartão, que abre,
rasgando-a. Contém um vestido comprido de cetim preto. Tira-o da caixa e
desdobra-o. Não é um vestido comprido, mas sim uma capa.

- Tem um cartão - diz Inês. - Lê-o.

O rapaz leva o papel para mais perto da vela e lê: Eis a capa mágica da
invisibilidade. Quem a vestir andará invisível pelo mundo.

- Eu bem vos disse! - exclama, dançando, de entusiasmo. - Eu bem vos


disse que o señor Daga sabe magia! - Enrola-se na capa. E enorme para
ele. - Consegues ver-me, Simón? Estou invisível?
314

- Não propriamente. Ainda não. Não leste o cartão todo. Escuta.


Instruções para o utilizador.

Para alcançar a invisibilidade, o utilizador deve vestir a capa diante


dum espelho e a seguir deitar fogo ao pó mágico e pronunciar a fórmula
secreta. Depois disso o seu corpo terreno desaparecerá no espelho,
deixando apenas atrás o espírito sem rasto.

Ele volta-se para Inês.

- O que acha, Inês? Deixamos o nosso jovem amigo vestir a capa da


invisibilidade e pronunciar a fórmula secreta? E se ele desaparece no
espelho e nunca mais volta?

- Podes vestir a capa amanhã - diz Inês. - Agora já é muito tarde.

- Não! - exclama o rapaz. - Vou vesti-la agora! Onde está o pó mágico? -


Esquadrinha a caixa e tira de lá um boião de vidro. - O pó mágico é isto,
Simón?

Abre o boião e cheira o pó prateado. Não cheira a nada.

Há um espelho de corpo inteiro, salpicado de borradelas de mosca, na


parede da cabana. Ele coloca o rapaz diante do espelho e abotoa-lhe a
capa no pescoço. Cai-lhe em pesadas dobras até aos pés.

- Toma: segura a vela com uma mão. Segura o pó mágico com a outra. Estás
preparado com a fórmula mágica?

O rapaz diz que sim com a cabeça.

- Muito bem. Espalha o pó sobre a chama da vela e pronuncia a fórmula.

- Abracadabra - diz o rapaz, e espalha o pó, que cai ao chão numa chuva
breve. - Já estou invisível?

- Ainda não. Experimenta pôr mais pó.

O rapaz mergulha a chama da vela no boião. Há uma enorme erupção de luz,


a que se segue uma completa escuridão. Inês solta um grito; ele próprio
retrai-se, ofuscado. O cão começa a ladrar como uma coisa possuída.

- Conseguem ver-me? - ouve-se a voz do rapaz, sumida, insegura. - Estou


invisível?

315

Nenhum deles fala.

- Não vejo nada - diz o rapaz. - Salva-me, Simón.


Ele vai às apalpadelas até junto do rapaz, levanta-o do chão e afasta a
capa para o lado com um pontapé.

- Não vejo nada - diz o rapaz. - Dói-me a mão. Estou morto?

- Não, claro que não. Nem estás invisível nem morto. - Tateia no chão,
encontra a vela e acende-a. - Mostra-me a mão. Não vejo que tenhas nada
na mão.

- Dói-me. - O rapaz chupa os dedos.

- Deves tê-la queimado. Vou ver se a senhora ainda está acordada. Talvez
ela nos possa dar manteiga para tratar a queimadura.

- Empurra o rapaz para os braços de Inês. Ela beija-o, deita-o na cama e


começa a arrulhar baixinho para ele.

- Está escuro - diz o rapaz. - Não vejo nada. Estou dentro do espelho?

- Não, meu querido - diz Inês. - Não estás dentro do espelho, estás com a
tua mãe, e isso já passa. - Vira-se para ele, Simón.

- Chame um médico! - sussurra.

- Deve ter sido pó de magnésio - diz ele. - Não percebo como é que o seu
amigo Daga deu um presente tão perigoso a uma criança. Mas verdade seja -
deixa-se dominar pela malícia - que há muita coisa que eu não percebo na
sua amizade por esse homem. E faça o favor de calar o cão... Estou farto
desse ladrar desvairado.

- Pare de se queixar! Faça alguma coisa! O señor Daga não lhe diz
respeito. Despache-se!

Ele sai do barracão e segue o caminho iluminado pelo luar até ao


escritório da señora. Parecemos marido e mulher, diz com os seus botões.
Nunca fomos para a cama um com o outro, nem sequer nos beijámos, e
contudo discutimos como se estivéssemos casados há anos!

316

Capítulo 30

O miúdo dorme a sono solto, mas quando acorda é evidente que a vista
continua afetada. Descreve raios de luz verde a atravessarem o seu campo
visual, cascatas de estrelas. Longe de estar perturbado, parece encantado
com estas manifestações.

Ele bate à porta da señora Robles.

- Ontem à noite tivemos um acidente - diz-lhe. - O nosso filho precisa de


ir ao médico. Onde fica o hospital mais próximo?
- Em Novilla. Podemos chamar uma ambulância, mas teria de vir de Novilla.
Será mais rápido levá-lo o senhor.

- Novilla fica bastante longe. Há algum médico aqui perto?

- Há uma clínica em Nueva Esperanza, a uns sessenta quilómetros daqui.

Eu arranjo-lhe a morada. Pobre criança. O que foi que aconteceu?

- Estava a brincar com material inflamável. Aquilo incendiou-se e o


clarão cegou-o. Julgávamos que recuperaria a vista durante a noite, mas
não recuperou.

A señora Robles emite uns estalos de solidariedade com a língua.

- Deixe-me ir lá dar uma vista de olhos.

Encontram Inês ansiosa por partir. O rapaz está sentado na cama, com a
capa preta vestida, de olhos fechados e com um sorriso extasiado no
rosto.

317

- A señora Robles diz que há um médico a uma hora de carro daqui -


anuncia ele.

A señora Robles ajoelha-se rigidamente diante do rapaz.

- O teu pai diz que não vês, querido. É verdade? Não me consegues ver?

O rapaz abre os olhos.

- Consigo vê-la - diz ele. - Tem estrelas a sair do cabelo. Se fechar os


olhos - fecha os olhos - consigo voar. Consigo ver o mundo inteiro.

- Isso é maravilhoso, conseguir ver o mundo inteiro - diz a señora


Robles. - Consegues ver a minha irmã? Mora em Margueles, perto de
Novilla. Chama-se Rita. É parecida comigo, só que mais nova e mais
bonita.

O rapaz franze a testa, de concentração.

- Não consigo vê-la - diz por fim. - Tenho a mão demasiado magoada.

- Ontem à noite queimou os dedos - explica ele, Simón. - Estive para lhe
ir pedir manteiga para pôr na queimadura, mas era tarde e não quis
acordá-la.

- Eu vou buscar a manteiga. Experimentaram lavar-lhe os olhos com sal?

- É o tipo de cegueira com que se fica olhando para o Sol. O sal não
adianta. Estamos prontos para sair, Inês? Quanto lhe devemos, senora?.

- Cinco reais pela cabana e dois pelos mantimentos de ontem à noite.


Querem tomar um café antes de partirem?
- Obrigado, mas não temos tempo.

Ele pega na mão do rapaz, mas este liberta-se com um puxão.

- Eu não quero ir - diz. - Quero ficar aqui.

- Não podemos ficar. Precisas de ir ao médico e a señora Robles precisa


de fazer a limpeza da cabana para os próximos hóspedes.

318

O rapaz cruza os braços com força, recusando-se a mover-se.

- Vamos fazer assim - diz a señora Robles. - Vão ao médico e no regresso


tu e os teus pais podem ficar outra vez comigo.

- Eles não são meus pais e nós não vamos regressar. Vamos para a nova
vida. Quer vir connosco para a nova vida?

- Eu? Não me parece, querido. És muito simpático em me convidar, mas


tenho demasiadas coisas para fazer aqui, e de qualquer maneira enjoo de
carro. Onde é que vão encontrar essa nova vida?

- Em Estell... Em Estrellita del Norte.

A señora Robles abana a cabeça dubitativamente.

- Não me parece que vão encontrar alguma coisa que se veja de nova vida
em Estrellita. Tenho amigos que se mudaram para lá e dizem que é o lugar
mais aborrecido do mundo.

Inês intervém.

- Anda - ordena ao rapaz. - Se não vens, temos de levar-te ao colo. Vou


contar até três. Um. Dois. Três.

Sem uma palavra, o rapaz põe-se de pé e, levantando a bainha da capa,


arrasta-se pelo caminho até ao carro. Fazendo beicinho, ocupa o seu lugar
no assento traseiro. A seguir o cão salta agilmente lá para dentro.

- Aqui está a manteiga - diz a senora Robles. - Espalha-a nos dedos


magoados e enrola um lenço à volta. A queimadura não tardará a passar.
Além disso, tens aqui uns óculos escuros que o meu marido já não usa.
Põe-nos até melhorares dos olhos.

Ela põe os óculos ao rapaz. Ficam-lhe muito grandes, mas ele não os tira.

Dizem adeus e tomam a estrada para norte.

- Não devias dizer às pessoas que nós não somos teus pais -observa ele. -
Em primeiro lugar, não é verdade. Em segundo lugar, podem pensar que te
raptámos.
- Não me importa. Eu não gosto da Inês. Não gosto de ti. Só gosto de
irmãos. Quero ter irmãos.

319

- Hoje estás maldisposto - diz Inês.

O rapaz não lhe dá ouvidos. Através dos óculos escuros da señora olha
para o Sol, que já subiu acima da linha de montanhas azuis ao longe.

Surge uma tabuleta à vista: Estrellita del Norte 475 km, Nueva Esperanza
50 km. Ao lado da tabuleta está um jovem a pedir boleia, envergando um
poncho verde-azeitona e com uma mochila aos pés, parecendo muito sozinho
na paisagem vazia. Ele afrouxa.

- O que é que está a fazer? - observa Inês. - Não temos tempo para
recolher estranhos.

- Recolher quem? - pergunta o rapaz.

Pelo retrovisor ele vê o jovem que pediu boleia a correr em direção ao


carro. Culposamente, acelera, afastando-se dele.

- Recolher quem? - torna o rapaz. - De que é que estão a falar?

- Era só um homem a pedir boleia - diz Inês. - Não temos espaço no carro.
E não temos tempo. Precisamos de te levar ao médico.

- Não! Se não pararem, vou saltar do carro! - E abre a porta mais próxima
de si.

Ele, Simón, trava bruscamente e desliga o motor.

- Nunca mais faças isso! Podes cair e morrer.

- Não me importa! Quero ir para a outra vida! Não quero estar contigo e
com a Inês!

Faz-se um silêncio atordoado. Inês tem o olhar cravado na estrada à sua


frente.

- Não sabes o que dizes - sussurra ela.

Ouve-se o restolhar de passos e aparece um rosto barbado junto da janela


do condutor.

- Obrigado! - arqueja o estranho. Abre de rompante a porta traseira. -


Olá, jovem! - diz, para depois se imobilizar quando o cão, estendido no
assento ao lado do rapaz, levanta a cabeça e solta uma rosnadela grave.

320

- Que cão tão grande! - diz ele. - Como é que se chama?


- Bolívar. É um lobo-d'alsácia. Calado, Bolívar! - Passando os braços à
volta do cão, o rapaz fá-lo sair do assento. Relutantemente, o cão
instala-se no chão aos pés dele. O estranho ocupa o seu lugar; de repente
o carro enche-se do cheiro acre a roupa suja. Inês abre a janela.

- Bolívar - diz o jovem. - É um nome invulgar. E tu, como é que te


chamas?

- Não tenho nome. Ainda vou ter de arranjar um.

- Então vou-te chamar señor Anónimo - torna o jovem. - Saudações, señor


Anónimo, eu sou o Juan. - Estende a mão, que o rapaz ignora. - Porque é
que estás de capa?

- É mágica. Torna-me invisível. Eu sou invisível. Ele interrompe.

- O David teve um acidente e vamos levá-lo ao médico. Lamento, mas só lhe


podemos dar boleia até Nueva Esperanza.

- Não faz mal.

- Queimei-me na mão - diz o rapaz. - Vamos buscar remédios.

- Está em ferida?

- Está.

- Gosto dos teus óculos. Gostava de ter uns óculos assim.

- Podes ficar com eles.

Depois de uma viagem de manhã cedinho na caixa de uma camioneta que


transportava madeira, o passageiro sente-se satisfeito com o calor e
comodidade do carro. Graças à sua tagarelice vem a saber-se que trabalha
numa tipografia e vai a caminho de Estrellita, onde tem amigos e onde, a
acreditar no que se ouve, há muito onde trabalhar.

No desvio para Nueva Esperanza ele para a fim de deixar sair o

recém-chegado.

- Estamos no médico? - pergunta o rapaz.

321

- Ainda não. É aqui que nos separamos do nosso amigo. Ele vai continuar a
sua viagem para norte.

- Não! Ele tem de ficar connosco! Ele dirige-se a Juan.

- Podemos deixá-lo aqui ou pode vir até à cidade connosco. A escolha é


sua.

- Vou com vocês.


Encontram a clínica sem dificuldade. O Dr. Garcia está a fazer um
domicílio, informa-os a enfermeira, mas podem ficar à espera.

- Vou ver se arranjo pequeno-almoço - diz Juan.

- Não, não deve ir - diz o rapaz. - Ainda se perde.

- Eu não me perco - diz Juan. Tem a mão no puxador da porta.

- Fique, ordeno-lhe! - vocifera o rapaz.

- David! - censura ele, Simón, o rapaz. - O que foi que te deu esta
manhã? Não se fala assim com um estranho!

- Ele não é um estranho. E não me chames David.

- Então como é que te devo tratar?

- Deves tratar-me pelo meu verdadeiro nome.

- E qual vem ele a ser? O rapaz emudece. Ele dirige-se a Juan.

- Explore à sua vontade. Encontramo-nos aqui.

- Não, eu acho que fico - diz Juan.

Aparece o médico, um homem baixo e corpulento, de ar enérgico e com uma


abundante cabeleira grisalha. Olha para eles com fingido alarme.

- O que é isto? E ainda por cima um cão! Que posso eu fazer por todos
vocês?

- Queimei-me na mão - diz o rapaz. - A senhora pôs-lhe manteiga, mas


ainda está em ferida.

- Deixa-me ver... Sim, sim... Deve fazer-te doer. Vem ao consultório e


veremos o que se pode fazer.

322

- Senhor doutor, não é por causa da mão que aqui estamos -diz Inês. - A
noite passada tivemos um acidente com lume e o meu filho não vê bem.
Examina-lhe os olhos?

- Não! - exclama o rapaz, erguendo-se para confrontar Inês. O cão


levanta-se também, atravessa a sala e toma o seu lugar ao lado do rapaz.
- Já lhes disse uma porção de vezes que vejo, vocês é que não me podem
ver por causa da capa mágica da invisibilidade. Ela torna-me invisível.

- Posso dar uma vista de olhos? - pergunta o Dr. Garcia. - O teu guarda
deixa?

O rapaz poisa uma mão repressora na coleira do cão. O médico levanta os


óculos escuros do nariz do rapaz.
- Consegues ver-me agora? - pergunta.

- É muito pequenino, como uma formiga, e está a agitar os braços e a


dizer: Consegues ver-me agora?

- Ah, já percebi o esquema. Tu és invisível e nenhum de nós pode ver-te.


Mas também tens uma mão ferida, que por acaso não é invisível. Por isso,
vamos ambos até ao consultório e deixas-me ver a tua mão, ver a parte de
ti que é visível?

- Está bem.

- Entro também? - pergunta Inês.

- Daqui a bocadinho - diz o médico. - Primeiro o jovem e eu temos de ter


uma conversa particular.

- O Bolívar tem de vir comigo - diz o rapaz.

- O Bolívar pode vir contigo desde que se porte bem - diz o médico.

- Afinal o que foi que aconteceu ao vosso filho? - pergunta Juan, quando
ficam sós.

- O nome dele é David. Estava a brincar com magnésio, aquilo incendiou-se


e o clarão cegou-o.

- Ele diz que o nome dele não é David.

323

- Ele diz muita coisa. Tem uma imaginação fértil. David foi o nome que
lhe deram em Belstar. Se ele quer assumir outro nome, que assuma.

- Vieram por Belstar? Eu também vim por Belstar.

- Então sabe como funciona o sistema. Os nomes que usamos são os nomes
que nos deram lá, mas também nos podiam ter dado números. Números,
nomes... São igualmente arbitrários, igualmente aleatórios, igualmente
pouco importantes.

- Na verdade, não há números aleatórios - torna Juan. - O senhor diz,


«Pense num número aleatório», e eu digo, «96513», porque é o primeiro
número que me vem à cabeça, mas não é realmente aleatório, é o meu número
da Asistencia ou o meu antigo número de telefone ou coisa que o valha. Há
sempre uma razão por detrás dum número.

- Com que então você é outro místico dos números! Você e o David deviam
criar uma escola juntos. Você pode ensinar as causas secretas por detrás
dos números e ele pode ensinar as pessoas a passar de um número a outro
sem cair por um vulcão abaixo. Claro que não há números aleatórios sob o
olhar de Deus. Mas nós não vivemos sob o olhar de Deus. No mundo em que
vivemos há números aleatórios e nomes aleatórios e acontecimentos
aleatórios, como ser recolhido por um carro aleatório em que seguem uma
mulher e um homem e uma criança chamada David. E um cão. Qual acha que
foi a causa secreta por detrás desse acontecimento?

Antes que Juan possa responder à sua perorata, abre-se a porta do


consultório.

- Entrem, façam favor - diz o Dr. Garcia.

Ele e Inês entram. Juan hesita, mas a clara voz jovem do rapaz ergue-se
do interior:

- Ele é meu irmão, deve entrar também.

324

O rapaz está sentado na borda do sofá do médico, com um sorriso de serena


confiança nos lábios e os óculos escuros encavalitados na cabeça.

- Tivemos uma bela e longa conversa, o nosso jovem amigo e eu - diz o

Dr. Garcia. - Ele explicou-me como é que acontece ser invisível para nós
e eu expliquei-lhe por que razão lhe parecemos insetos a agitar as
antenas no ar enquanto ele voa lá no alto. Disse-lhe que preferiríamos
que ele nos visse como realmente somos, não como insetos, e em
contrapartida ele disse-me que quando voltar à visibilidade gostaria que
o víssemos como realmente é. Achas isto um relato fiel da nossa conversa,
jovem?

O rapaz faz um aceno afirmativo.

- O nosso jovem amigo diz ainda que o senhor - olha expressivamente para
ele, Simón - não é o seu verdadeiro pai, e a senhora - vira-se para Inês
- não é a sua verdadeira mãe. Não lhes peço para se defenderem. Eu tenho
uma família minha, sei que as crianças são capazes de dizer coisas
tremendas. Não obstante, há alguma coisa que queiram dizer-me?

- Eu sou a verdadeira mãe dele - declara Inês - e estamos a salvá-lo de


ser mandado para o reformatório onde farão dele um criminoso.

Tendo dito o que tinha a dizer, cerra os lábios e dirige-lhe um olhar


raivoso e desafiador.

- E os olhos dele, senhor doutor? - pergunta ele, Simón.

- Ele não tem nada nos olhos. Fiz um exame físico e analisei-lhe a visão.
Como órgãos da visão os olhos dele são perfeitamente normais. Quanto à
mão, fiz-lhe um penso. A queimadura não é grave. Dentro de um ou dois
dias apresentará melhoras. Agora deixem que lhes pergunte: devo
preocupar-me com a história que este jovem me conta?

Ele lança um olhar a Inês.


325

- Deve atender devidamente ao que o rapaz diz. Se ele diz que quer ser
retirado de nós e devolvido a Novilla, devolva-o a Novilla. Ele é seu
doente, está ao seu cuidado. - Volta-se para o rapaz. - É isso que
queres, David?

O rapaz não responde, mas faz-lhe sinal para se aproximar mais. Pondo a
mão em concha, o rapaz segreda-lhe ao ouvido.

- Senhor doutor, o David informa-me de que não quer regressar a Novilla,


mas quer saber se o senhor está disposto a vir connosco.

- Para onde?

- Para norte, para Estrellita.

- Para a nova vida - diz o rapaz.

- E os meus doentes aqui em Esperanza, que dependem de mim? Quem cuidará


deles se eu os deixar só para tratar de ti?

- Não precisa de tratar de mim.

O Dr. Garcia lança um olhar perplexo a Simón. Respira fundo.

- O David está a sugerir que o senhor abandone a sua clínica e venha para
norte connosco encetando uma vida nova. Seria por si, e não por ele.

O Dr. Garcia levanta-se.

- Ah, compreendo! É muita generosidade tua, meu jovem, incluir-me nos


teus planos. Mas a vida que tenho aqui em Esperanza é feliz e
suficientemente satisfatória. Não há nada de que eu tenha de ser salvo,
obrigado.

Estão de novo no carro, rumo a norte. O rapaz acha-se num estado de


espírito ebuliente, esquecida a mão magoada. Tagarela com Juan e luta com
Bolívar no assento de trás. Juan associa-se também, embora tenha receio
do cão, que ainda tem de se habituar a ele.

- Gostaste do Dr. Garcia? - pergunta ele, Simón.

326

- É fixe - responde o rapaz. - Tem pelo nos dedos, como os lobisomens.

- E porque querias que ele viesse connosco para Estrellita?

- Porque sim.

- Não podes pôr-te a convidar todos os estranhos que encontramos para


virem connosco - diz Inês.
- Porquê?

- Porque não há espaço no carro.

- Há espaço, pois. O Bolívar pode ir ao meu colo, não podes, Bolívar?. -


Uma pausa. - Que vamos fazer quando chegarmos a Estrellita?

- Ainda falta muito para chegarmos a Estrellita. Tem paciência.

- Mas o que é que vamos mesmo fazer lá?

- Vamos procurar o Centro de Realojamento e vamos apresentar-nos ao


balcão, tu, Inês, eu e...

- E o Juan. Não disseste o Juan. E o Bolívar.

- Tu e a Inês e o Juan e o Bolívar e eu, a vamos dizer: Bom dia, somos


recém-chegados e estamos à procura dum sítio onde ficar.

- E depois?

- Mais nada. À procura dum sítio onde ficar, para começarmos a nossa nova
vida.

327

FIM