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20/07/2019 “As universidades podem falir”, diz ex-ministro sobre plano do MEC - Época

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“AS UNIVERSIDADES PODEM FALIR”, DIZ EX-MINISTRO SOBRE


PLANO DO MEC

Renato Janine Ribeiro, ex-titular da pasta de Educação, afirma que projeto Future-se provoca
instabilidade para o orçamento das instituições

Paula Ferreira
19/07/2019 - 11:16 / Atualizado em 19/07/2019 - 12:57

O ex-ministro da Educação Renato Janine Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo

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20/07/2019 “As universidades podem falir”, diz ex-ministro sobre plano do MEC - Época

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Lançado na última quarta-feira pelo governo federal, o plano Future-se , que


pretende incentivar as federais a captarem recursos privados, recebeu elogios,
mas também muitas críticas. Renato Janine Ribeiro está entre os que
engrossaram o coro contra o programa.

Ex-ministro da Educação, ele permaneceu no cargo por cinco meses, entre abril
e setembro de 2015, no governo de Dilma Rousseff. Em entrevista a jornal O
Globo , Janine afirmou que o projeto do MEC pode acabar “quebrando” as
universidades e disse que o governo precisa ouvir as instituições antes de impor
um plano.

Segundo Janine, a estratégia adotada pelo MEC pode gerar insegurança ao


orçamento das instituições e acabar desidratando áreas do conhecimento que
não têm interesse de mercado. O plano do MEC prevê R$ 102,6 bilhões em
incentivos para captação de recursos privados. Esse valor não será anual, mas
administrado para gerar receitas que serão usadas no financiamento de diversas
atividades das instituições, de acordo com necessidades específicas e a
apresentação de resultados.

O valor é composto por recursos de patrimônios imobiliários da União, de


Fundos Constitucionais, de leis de incentivos fiscais, de recursos da Lei Rouanet
e de Fundos Patrimoniais.
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Na quarta-feira o governo apresentou o projeto Future-se. Qual sua


opinião sobre o plano apresentado pelo governo para as
universidades federais?

É um projeto preocupante, porque se concentra somente em certos setores da


vida universitária, que são aqueles setores que podem ter repercussão
empresarial. O projeto é silencioso sobre setores que não têm impacto nesse
âmbito, como as ciências humanas e as ciências básicas. Há uma ingenuidade
nesse projeto de achar que uma ligação maior com as empresas vai ser perfeita.
Muita gente pensa: “Vamos parar com a pesquisa pura e fazer pequisa aplicada”.
Acontece que para chegar lá temos de ter muita ciência básica e pura. Além
disso, muitas questões estão vagas. O MEC vai definir certos padrões que serão
adotados pelas universidades que aderirem, mas não existe nenhum
compromisso sobre quais serão os padrões, é um cheque em branco. O
ministério não pode negociar desse jeito com instituições que têm vocação
própria, instituições como universidades — assim como o Poder Judiciário, as
Forças Armadas, a diplomacia —, só existem à medida que têm autonomia muito
forte. Não dá para politizar tudo isso, estabelecer regras cambiáveis, têm de ser
regras muito negociáveis, não podem ser impostas. Um terceiro ponto que achei
complicado no projeto é toda a ideia de que as universidades vão especular na
Bolsa, que haverá uma série de coisa para as universidades, por causa de
aplicações e Fundos Imobiliários, deixa muito inseguro o orçamento delas. Elas
precisam ter segurança de que vão poder pagar os salários, a conta de luz, ter
dinheiro para comprar reagentes, livros, realizar congressos, convidar
professores. Se isso tudo vai depender de especulação na Bolsa, você não tem
menor ideia de quais recursos as universidade vão ter efetivamente. As
universidades podem falir, e aí destrói-se um patrimônio construído por
décadas, gerações.

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O projeto pode afetar negativamente a área de pesquisa no Brasil?

Uma área importante, que é a das ciências agrárias, tem muita ciência aplicada,
nas engenharias também. Mas ciência aplicada não é tão simplista assim, ela
requer uma pesquisa básica por trás. Precisamos tê-la, não podemos
simplesmente comprar essa pesquisa básica. Sempre houve quem dissesse para
comprarmos dos Estados Unidos, mas há elementos que têm a ver com
condições nossas. Por exemplo, se olharmos mundialmente para a área agrária,
o produto mais importante é o trigo. Uma pesquisa sobre trigo vai ter mais
impacto do que uma sobre soja, mas o Brasil planta muito mais soja do que
trigo. Então é preciso fortalecer a pesquisa básica sobre a soja. Nós
provavelmente pesquisamos melhor a soja.

Leia mais: Escola sem Partido anuncia suspensão de atividades, e criador do


movimento desabafa: 'Esperávamos apoio de Bolsonaro'

A produção de pesquisas de interesse público está ameaçada por esse


projeto?

Com toda certeza. Tem todo um dinheiro que foi investido pela sociedade
brasileira na universidade pública, um século de investimento pelo menos e esse
dinheiro já criou o sistema que está pronto. Está se comprando muito barato um
patrimônio que custou muito caro. É preciso ver onde há pontos de interesse
convergentes.

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O senhor acredita que há risco de, com a apresentação desse projeto,


o MEC reduzir o orçamento que repassa às universidades?

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Com certeza há a intenção de gastar menos dinheiro com educação, está visível,
é possível ver isso nas declarações desse governo o tempo todo. É complicado.
Nos países que se desenvolvem, como Coreia, Cingapura, Xangai, nesses lugares
todos têm uma preocupação em aumentar investimento e não em reduzir. Existe
uma desresponsabilização do Estado pela pesquisa e pela educação, o resultado
disso só pode ser ruim, não tem como ser bom.

Qual seria a saída para resolver o problema de financiamento das


universidades e preservar sua função para a sociedade?

Antes de mais nada o ministério deveria ter discutido com as universidades, e


não chegar com um projeto pronto depois de falar muito mal das universidades.
O ministério deveria ter a modéstia de discutir e entender que está chegando
agora e conhece muito pouco. E que tem gente que conhece muita coisa e está
trabalhando nisso há muito tempo. Toda vez que uma pessoa minimiza seu
adversário, corre risco de cometer erros. Tem muita coisa que já está sendo
realizada há muito tempo. O diálogo não pode ser uma imposição, não pode ser
o governo achando que tem razão e dizendo que é tudo ou nada.

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O governo falou que o projeto pretende dar autonomia às


universidades, mas, ao mesmo tempo, tem feito intervenções nessas
instituições.

É um contrassenso. Eles fazem um uso muito curioso da palavra liberalismo.


Eles entendem como liberalismo a retirada do papel do Estado, mas só em certas
coisas. Nos costumes eles querem uma intervenção radical do Estado. Querem
que o Estado esteja lá para reprimir trans, por exemplo. O que não querem é que
o Estado intervenha para equilibrar o poder econômico. A democracia é uma
tentativa de equilibrar o poder religioso e o poder econômico. Na época da
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Revolução Francesa, fazer democracia era limitar o poder religioso. Depois,


passou a ser limitar o poder econômico. Mas, para eles não é isso. O liberalismo
é uma concepção de que o ser humano tem uma liberdade que faz cada um de
nós diferentes. O MEC não deve interferir, deve respeitar a autonomia das
universidades. Quando vai no sentido de limitar a liberdade das universidades,
ele faz um trabalho ruim.

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