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FACULDADE SÃO BASÍLIO MAGNO


CURSO DE FILOSOFIA

IR. MARCO ANTÔNIO PENSAK, OSBM

A CRIAÇÃO EM BASÍLIO MAGNO A PARTIR DO


HEXAEMERON

CURITIBA
2

IR. MARCO ANTÔNIO PENSAK, OSBM

A CRIAÇÃO EM BASÍLIO MAGNO A PARTIR DO


HEXAEMERON

Trabalho acadêmico apresentado à disciplina de


História da Filosofia Medieval, do Curso de
Filosofia, da Faculdade São Basílio Magno.

Prof. Dr. Rogério Miranda de Almeida

CURITIBA
2017
3

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO............................................................................................................... 04
2 NOÇÃO GERAL DE CRIAÇÃO.................................................................................. 06
3 COMENTÁRIO DA HOMILIA I DO HEXAEMERON DE BASÍLIO MAGNO... 09
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................... 14
REFERÊNCIAS.................................................................................................................. 15
4

1 INTRODUÇÃO

Temos neste trabalho acadêmico o objetivo principal de realizar um comentário sobre


a questão da criação a partir da visão de Basílio Magno (330-379), Arcebispo de Cesaréia, na
Capadócia, apresentada no Hexaemeron – uma série composta de nove homilias atribuídas a
Basílio Magno que retratam os seis primeiros dias da criação – mais especificamente, na
Homilia I, cuja temática discorre a partir do primeiro versículo do primeiro capítulo do Livro
do Gênesis, isto é, “No princípio, Deus criou o céu e a terra”1.
Os meios metodológicos que serão utilizados neste trabalho acadêmico para
atingirmos o objetivo acima descrito, serão de cunho teórico-exploratório por meio dos
procedimentos técnicos de pesquisa bibliográfica e estudo de caso, pois a pesquisa
bibliográfica é realizada a partir de materiais que foram elaborados anteriormente, tais como
livros e dicionários. Já o estudo de caso, consiste num estudo intenso de um ou poucos
objetos, para que se obtenha um conhecimento rico em detalhes, sendo aqui representado pela
Homilia I de Basílio Magno.2
O Hexaemeron de Basílio Magno ainda não possui uma versão publicada em língua
portuguesa, por isso, utilizaremos, de maneira geral, a tradução e a divisão utilizada da obra
em língua inglesa3. Porém, devido alguns termos possuírem uma compreensão dificultosa,
vamos nos apoiar também nas traduções francesa e italiana.4
A análise que buscamos neste estudo diz respeito ao momento inicial, isto é, ao
princípio de toda criação, tendo como primeiros elementos, se é assim que podemos os
chamar, o céu e a terra, segundo os escritos de Basílio Magno. Um agente motivador para esta
pesquisa nós encontramos na obra Biblioteca ou também chamada Mirióbiblo de Fócio (c.
820-891), Patriarca de Constantinopla, que recomenda a leitura do Hexaemeron de Basílio
Magno em meio a diversos qualificativos que enfatizam o estilo da escrita de Basílio, isto é,

1
GÊNESIS. In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1973. Cap. 1, vers. 1, p. 31.
2
Cf. GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
3
A tradução em língua inglesa abrange diversas obras de Basílio. A primeira obra de Basílio apresentada é o
Hexaemeron que foi dividido em nove homilias e estas, por sua vez, foram divididas em capítulos. Quando
citarmos esta obra no discorrer deste trabalho acadêmico, vamos indicar o capítulo da Homilia I que a citação
pertence e não a página. A obra se encontra disponível em: Basil. Basil: Letters and Select Works. Edited by
Philip Schaff and Henry Wallace. Religion and Spirituality. New York: Cosimo Classics, 2009. Disponível em:
< https://books.google.com.br/books?id=it9VqktLREEC&printsec=frontcover&hl=pt-
BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 27 jul. 2017.
4
A tradução francesa utilizada por nós foi: Homélies Discours et Lettres choisis de S. Basile-Le-Grand. Traduits
par M. L’abbé Auger. Lyon: Chez F.çoes Guyot, 1827. Disponível em: <
http://www.liberius.net/livres/Homelies,_discours_et_lettres_choisis_de_saint_Basile-le-
Grand_000000468.pdf>. Acesso em: 28 jul. 2017.; e a tradução italiana foi: L'esamerone di san Basilio Magno.
Volgarizzato dall’ab. Jacopo Bernardi. Venezia: Co’Tipi di Gio Cechinni e Comp., 1844. Disponível em:
<https://archive.org/details/bub_gb_3gQxZJ-zqNwC>. Acesso em: 28 jul. 2017.
5

ao mesmo tempo que ele é persuasivo, é também suave. 5 Outro ponto que nos move a
trabalhar sobre este tema é que sua importância foi tamanha para o desenvolvimento da
Filosofia Cristã que, inclusive, outros pensadores o abordaram, como por exemplo, Agostinho
de Hipona (354-430) e Ambrósio de Milão (c. 337-397). Este último sendo fortemente
influenciado por Basílio Magno e possuindo também uma obra intitulada por Hexaemeron.
Há ainda também os escritos de Eustácio de Antioquia, intitulados como Commentarius in
Hexaemeron, que se supõe que sejam acerca da obra de Basílio.
Quanto a importância do tema criação na atualidade e como um grande apoio para a
elaboração deste nosso estudo, podemos citar a Carta Encíclica Laudato Si’6, do Santo Padre
Francisco, em que é possível observar algumas citações da obra – o Hexaemeron – de Basílio
Magno sobre a criação e a sua relação com o ser humano.
Portanto, a partir destas considerações, este trabalho acadêmico será desenvolvido em
quatro seções primárias: introdução; noção geral sobre criação, em que buscaremos, a partir
das definições filosóficas do verbete, discorrer sobre o tema; análise e comentário da Homilia
I de Basílio Magno, em que faremos uma abordagem sobre o conceito de criação, definido na
seção anterior, e qual a sua tratativa em relação à filosofia; e considerações finais, parte em
que apresentaremos as nossas conclusões acerca do tema que foi o objeto da nossa pesquisa.

5
Cf. Photius. The Library of Photius. Translated by J. H. Freese, Volume 1. Translations of Christian Literature.
ser. 1. London, New York: 1920, codex CLXI. Disponível em: <
https://ia601407.us.archive.org/0/items/libraryofphotius00phot/libraryofphotius00phot.pdf>. Acesso em: 12 ago.
2017.
6
Cf. IGREJA CATÓLICA. Papa (2013- : Francisco). Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa
comum. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em:
http://w2.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-
laudato-si_po.pdf. Acesso em: 17 set. 2017.
6

2 NOÇÃO GERAL DE CRIAÇÃO

Neste capítulo apresentaremos a noção geral do termo criação no campo filosófico,


mas, obviamente e somente, naquilo que tange somente ao pensamento medieval do termo, já
que a Filosofia Moderna e a Contemporânea também tratam desta temática.
O conceito de “criação” – em língua grega antiga ποίησις (poiesis) deriva
etimologicamente do termo ποιέω (poiéō) que tem como significado “fazer” – é, de maneira
geral, uma palavra que, independente do idioma, tem um sentido indeterminado, isto é,
simplório, pois indica uma forma qualquer de causalidade produtiva feita pelo criador do
Universo – Deus.7
Quanto a ideia de criação, podemos dizer que ela se refere, de maneira mais
específica, às origens do Universo e do Homem, englobando diversos problemas que são
estudados pela filosofia bem como por outras áreas do conhecimento. De maneira tradicional,
a ideia de criação retrata sobre como Deus criou o mundo e o homem a partir do nada (ex
nihilo), isto é, sem uma matéria pré-existente (ex nihilo subiecti), sendo necessário apenas um
ato livre da Sua vontade de maneira causal.8
Ao tentar especificar a criação como forma particular de causação, Abbagnano retrata
o significado do termo como sendo composto por quatro características:
a) ausência de necessidade do efeito em relação à causa que o produz;
b) ausência de realidade pressuposta no efeito criado, além da realidade da causa
criadora (criação a partir do nada);
c) pelo menor valor do efeito em relação à causa; e
d) pela possibilidade de que um dos termos da relação, ou ambos, estejam fora do
tempo.
Após a apresentação das características, uma breve comparação é feita entre estas pelo
autor, isto é, a primeira e a segunda características distinguem a criação da emanação e ainda
a diferencia das formas comuns de causação. A terceira característica é comum à criação e
também à emanação além de as diferenciar das formas comuns de causação. Por fim, a quarta
característica é sobre a relação próxima que a criação tem da emanação, mas que só é
percebida quando é verificada, fato tal que nem sempre ocorre.9

7
Cf. ABBAGNANO, Nicola. Criação. In: Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.
220.
8
Cf. Criação. In: LOGOS - Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Livro 1. São Paulo: Verbo, 1992, p. 1218.
9
Cf. ABBAGNANO, op. cit., 2007, p. 220.
7

Toda essa explicação se dá de maneira introdutória para que seja possível


compreender o conceito de criação no campo filosófico. Como veremos a seguir, Abbagnano
apresenta a criação dos pontos de vista cristão e grego, abordando as relações que existem
entre estas delimitações de pensamento.
Tendo, no geral, a sua origem como bíblica, a criação é um tema que se aproxima e se
diverge do pensamento grego ao mesmo tempo. Na Sagrada Escritura não são explícitas as
características acima elencadas, mas é explícito que Deus criou o céu e a terra. Porém, esta
afirmação bíblica não permite uma explicação se a criação provém do nada, pois a cultura
semítica não possuía essa concepção devido esta ser tipicamente grega10. Contudo, há de se
levar em consideração a menção que existe no Livro da Sabedoria acerca do orbe da terra ter
sido criado de uma “matéria invisível”.11
No que tange ao pensamento grego, existe certa divergência com o pensamento
cristão, isto é, Platão afirma no Timeu sobre a criação ser um ato voluntário de bondade do
Artífice do Universo não necessário em relação à sua causa. Aqui a criação não é ex nihilo
pelo fato da ação do Criador ser limitada, primeiramente pelos modelos – as ideias, e, em um
segundo plano, pela matriz material. Dado isso, Abbagnano afirma que estes posicionamentos
se aplicam a primeira e a terceira características anteriormente, mas não a segunda, sendo esta
contradita. Quanto a Aristóteles, o Criador é visto como a causa do logos – ordem no mundo,
mas não de seu ser substancial. Referente aos neoplatônicos e a Plotino, a ação criadora de
Deus parte da emanação atrelada à criatividade. Contudo, conceituar criação dessa forma
choca com o Deus visto a partir do ponto de vista semítico e cristão, que cria o mundo
livremente sem encontrar limites à sua ação e não é a sua causa necessária.12
Retomando o pensamento cristão, a Patrística – que tem mais afinidade com os
modelos clássicos – e a Escolástica tiveram a sua noção de criação no mesmo sentido da
elaboração feita por Fílon de Alexandria (20 a.C.-50 d.C) que, em seus escritos, atendia as
exigências das quatro características apresentadas anteriormente e apresentava Deus como o
criador de tudo, embora o chamando ainda como Demiurgo. Foi a partir de Orígenes (185-
254) e João Escoto Erígena (c. 810-c. 870), que foi possível verificar, de fato, o modelo
emacionista e a inseparável combinação entre a criação do mundo por Deus e a eternidade,

10
Cf. PENSAK, Marco Antônio. Criação a partir do nada para acultura semítica. Curitiba, 2017. Notas de aula
da disciplina de História da Filosofia Medieval, professor Dr. Rogério Miranda de Almeida, Bacharelado em
Filosofia, Faculdade São Basílio Magno.

11
Cf. ABBAGNANO, op. cit., 2007, p. 220.
12
Cf. Id.
8

pois Irineu de Lyon (130-202) ainda estava ocupado principalmente em refutar o pensamento
gnóstico.13
Percebemos a importância do tema criação também no Livro X das Confissões de
Agostinho de Hipona que, ao meditar sobre os significados alegóricos da criação, realiza,
primeiramente, uma invocação ao Criador para dar sequência ao registro de seus
pensamentos. De maneira sutil, ele aborda o primeiro versículo do primeiro capítulo do
Gênesis ao mencionar que a terra e o céu foram criados no princípio. Neste momento o autor
ressalta a bondade do Criador e enfatiza que a criação não é equivalente a Ele, mas sim
proveniente dEle – de Sua Sabedoria. Por fim, Agostinho conclui que a criação e a nossa
existência são dom de Deus e frutos do sumo Bem. Os versículos seguintes ao primeiro
também são comentados por Agostinho, porém como o nosso objetivo é a Homilia I do
Hexaemeron de Basílio Magno, vamos nos ater apenas aos comentários pertinentes a temática
desta homilia.14
Diante destas noções apresentadas sobre a criação e da respectiva importância desta
temática no campo filosófico, realizaremos, no próximo capítulo, uma análise da Homilia I do
Hexaemeron de Basílio Magno que versa sobre Deus ter criado o céu e a terra no princípio.

13
Cf. Id.
14
Cf. AGOSTINHO, Santo, Bispo de Hipona, 354-430. Confissões. 16. ed. São Paulo: Paulus, 2003. p. 403-404.
9

3 COMENTÁRIO DA HOMILIA I DO HEXAEMERON DE BASÍLIO MAGNO

Neste capítulo, após termos obtido uma noção do conceito criação no campo
filosófico, vamos ter uma apreciação da Homilia I do Hexaemeron de Basílio Magno sobre a
criação, a partir de um ponto de vista analítico, com a finalidade de termos um melhor
aproveitamento sobre a temática abordada.
Basílio inicia sua homilia sobre a narração da criação abordando que aquela pessoa
que deseja falar acerca deste tema, necessita iniciar de maneira ordenada onde as coisas
visíveis possuam predominância. Ele exorta seus fiéis que esta sua homilia é sobre a criação
do céu e da terra e que, embora alguns imaginaram e afirmaram que esta tenha sido de forma
espontânea, foi, na verdade, uma obra que teve sua origem em Deus. Por se tratar de algo tão
sagrado para Basílio, ele se pergunta sobre a índole, sobre a pureza dos fiéis que estão prestes
a escutá-lo, pois ele dá a entender que é necessário ter uma alma pura para poder conhecer
sobre as verdades divinas – sobre a revelação. Ora, se primeiramente ele faz essa colocação,
num segundo ele sugere que é preciso se atentar e conhecer a respeito daquele que escreveu
sobre a criação – o Escritor Sagrado do Livro do Gênesis, isto é, Moisés, segundo a tradição
da época. Por isso, logo após ele fazer a recomendação, ele descreve inúmeros qualificativos
de Moisés, que foi escolhido por Deus e que, portanto, escreveu palavras de verdade que
buscam salvar aqueles que por elas são instruídos.15
Após essa preparação Basílio, de fato, começa a falar sobre a criação a partir da
citação bíblica “No princípio, Deus criou o céu e a terra”16. Citação esta que será a base de
todo o desenvolvimento de sua primeira homilia do Hexaemeron. Basílio relata um certo
espanto quanto a esta citação, aliás, pensamento, que é como ele a chama, perguntando-se por
onde ele deveria iniciar o seu comentário. É neste ponto que ele faz uma espécie de ataque aos
filósofos gregos que tentaram explicar a natureza em meio a delongas, pois afirma que estes
não foram sólidos em suas colocações e, não sendo inabaláveis, um derrubou o outro
sucessivamente. Basílio ainda se dirige aos seus interlocutores, aconselhando-os que é inútil
refutar os filósofos gregos porque eles têm a suficiência necessária para destruir um ao outro e
que estes ainda não passavam de ignorantes devido o fato de não se submeterem ao
conhecimento de um Deus, mas apenas a princípios materiais, aos elementos do mundo ou até
mesmo aos átomos, que pela união formam a natureza do mundo visível, como a causa
primeira da origem do Universo. Além disso, ele os refuta afirmando que suas teorias são

15
Cf. BASÍLIO. Hexaemeron, I, 1.
16
GÊNESIS, op. cit., 1973, p. 31.
10

fracas e inconsistentes, justamente pelo fato delas não terem a capacidade de demonstrar
como o Escritor Sagrado escrevera outrora, isto é, “no princípio, Deus criou o céu e aterra.”17
porque possuíam um ateísmo inerente cuja capacidade de acreditar em algo que governava o
Universo era totalmente revertida ao acaso.18
Basílio comenta o que o Escritor Sagrado escreveu sobre a criação do mundo e exalta
que tamanha ordem é gloriosa, pois Deus estabeleceu um início demonstrando o tamanho
poder que como Criador ele o tem e, assim, demonstrou-o apenas pelo impulso de sua própria
vontade. É claro que poderíamos nos perguntar sobre quem foi esse criador, por isso, Basílio
diz que Moisés, o Escritor Sagrado, antecipou esse questionamento ao escrever “no princípio,
Deus criou” 19 para que todos aqueles que possuem razão o façam um objeto de amor e
adoração.20
O próximo ponto que Basílio aborda em sua homilia é o tempo. Não é, de fato, o
objeto de estudo deste trabalho acadêmico, mas devido ao contexto vamos nos propor a fazer
um pequeno comentário, pois Basílio faz uso dele como uma introdução para o restante de sua
obra quando explica sobre a criação do dia e da noite em sua segunda homilia.
Ao exortar seus interlocutores que o mundo, de fato, teve um início e pelos estudos da
época terem identificado que os corpos celestes fazem movimentos circulares, mesmo não
sendo possível determinar o início e o final de um círculo devido aos limites de nossos
sentidos e da nossa percepção, devemos, portanto, acreditar no início. Para assegurar esta
afirmação, Basílio se volta para o fato de que “no princípio, Deus criou”21 e que se Ele criou,
possivelmente, haverá um fim. Além disso, Basílio refuta àqueles que tomam como verdade a
coeternidade do mundo com o Criador porque o mundo é matéria e a matéria tem um sentido
conotativo um tanto quanto que negativo, principalmente no que se refere para os gnósticos,
além da matéria ser limitada, visível e até mesmo compreensiva.
Basílio, então critica a sabedoria mundana, pois os que a defendem não buscam
conhecer a verdade. Apenas se interessam em desvendar as coisas em si, sem descobrir que
Deus é o verdadeiro Criador.22 Esse ponto nos faz refletir sobre a posição intermediária entre
a sabedoria cristã e a sabedoria pagã em que Basílio se encaixa, isto é, o caso de Basílio ser
um conhecedor da sabedoria pagã por ter estudado em Atenas, mas também de ser um grande
defensor da sabedoria cristã, lhe dá a autoridade devida para fazer este tipo de crítica.

17
GÊNESIS, op. cit., 1973, p. 31.
18
Cf. BASÍLIO, op. cit., 2.
19
GÊNESIS, loc. cit.
20
Cf. BASÍLIO, op. cit., 3.
21
GÊNESIS, loc. cit.
22
Cf. BASÍLIO, op. cit., 4.
11

Contudo, em seu Discurso aos Jovens – obra magna de Basílio referente a sabedoria pagã e a
sabedoria cristã – Basílio recomenda aos jovens para serem como a abelha em relação aos
livros para, assim, retirar apenas aquilo que se adapta para o crescimento virtuoso deixando,
obviamente, de lado o restante.23
Além dessa questão, observamos o cunho escatológico que Basílio aplica em sua
primeira homilia sobre a criação, pois a partir do momento em que ele qualifica Deus como
justo juiz, ele também fala da nova vida que as almas terão no futuro – numa nova condição e,
a princípio, fora do tempo – mas que dependerá das nossas ações nesta vida.24
Ao retomar sobre o momento da criação do mundo – de seu nascimento – Basílio
aborda o fato deste ter acontecido a partir de uma condição exercida por forças sobrenaturais
que estão além do tempo, do eterno, do infinito e longe da nossa compreensão humana devido
à natureza invisível e intelectual destas forças. Em uma alusão à Carta de Paulo aos
Colossenses, Basílio cita que essas forças seriam os anjos, arcanjos, entre outros, isto é, a
hierarquia celeste como hoje comumente conhecemos e que este mundo, é apenas um lugar
onde as almas são preparadas para a natureza que está por vir após a sucessão do tempo. Se,
portanto, Deus criou o mundo no princípio, obviamente, para Basílio, foi no início do tempo
e, por conseguinte, apenas depois do mundo invisível que o mundo sensorial começou a
existir.25
Para reforçar que o mundo é uma criação boa, Basílio prossegue sua homilia com
vários exemplos destacando que tudo que é bom teve um início. A partir disso, Basílio
acentua após uma explanação acerca do termo “início” e do seu uso, que a criação do mundo
tem a finalidade de ser útil e de grande proveito para os que nele habitam, não sendo,
portanto, uma obra do acaso e sem razão, mas sim um lugar onde os homens podem exercitar
as suas almas a contemplar a Deus em sua realidade invisível. Em seguida, Basílio refuta
aqueles que afirmam que o início é um tempo, dizendo que, se isso fosse verdade, o tempo
então poderia ser dividido. Ele fala isso justamente para enfatizar que a criação foi feita de
maneira instantânea e segundo a vontade de Deus.26
Ainda destacando a beneficência da criação do mundo, mais uma vez Basílio cita
diversos exemplos e reforça que é uma obra de arte do Artesão Supremo. Esse proêmio é, de
fato, para refutar aqueles que predicam sobre o mundo ser coexistencial a Deus, pois seguido

23
Cf. IGREJA CATÓLICA. Papa (2005-2008: Bento XVI). São Basílio (Segunda Catequese). Audiência Geral
de 01 de agosto de 2007. Disponível em: https://w2.vatican.va/content/benedict-
xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-xvi_aud_20070801.html. Acesso em: 17 set. 2017.
24
Cf. BASÍLIO, op. cit., 4.
25
Cf. Ibid., 5.
26
Cf. Ibid., 6.
12

disso, Basílio se mune da afirmação do Escritor Sagrado que utiliza o termo criou para
enfatizar que essa coexistencialidade não existe e que o mundo é apenas o resultado.27
Continuando sua argumentação acerca da criação do mundo, Basílio então faz um
comentário sobre a criação do céu e da terra e de seus intermediários, isto é, do fogo, da água
e do ar. Céu e terra são colocados como extremidades, como os pontos mais opostos28 e é
nesse entre-dois que podemos observar o pensamento de Hesíodo. É claro que em Hesíodo o
entre-dois do dia e da noite é, ao menos para nós, um tanto quanto que mais difícil para ser
compreendido, pois sempre nos remete a aquele exato momento de alternância imperceptível
ao olho nu, isto é, ao intermediário que foge aos nossos sentidos. Nesta visão de Basílio, por
termos uma melhor noção de espaço e tempo, o entre-dois dá a impressão de ser tangível, pois
é possível ver e/ou sentir o que preenche o intermediário do céu e da terra.
Referente a essência de cada um dos elementos, Basílio prefere não comentar, pois
justifica que levaria muito tempo e não seria necessário para a edificação da Igreja. Contudo,
a respeito da essência dos céus ele encontra a resposta na Sagrada Escritura, mais
precisamente no Livro de Isaías que diz que os céus foram feitos como a fumaça29, e com esta
afirmação, ele se dá por satisfeito. Quanto à terra, Basílio é mais cauteloso em afirmar sobre
uma essência, fazendo, assim, uma longa divagação aos seus interlocutores acerca de diversos
questionamentos que podem ser levantados a partir do momento em que se pergunta sobre a
sua essência.30
Um limite aos pensamentos é a orientação que Basílio dá para que não fiquemos
divagando sobre assuntos que tendem ao infinito e requerem maior força para serem
explicados, pois mais uma vez, então Basílio retoma que é necessário nos apoiarmos no
Criador e em seu poder, pois esta é, portanto, uma doutrina infalível.31
Existem, de fato, aqueles que se ocupam com a natureza e questionam acerca da terra.
Ao levantarem seus questionamentos, se extasiam por aquilo que é leve subir em direção aos
céus e aquilo que é leve cair em direção ao centro. Essa pequena análise os faz identificar uma
ordem e é por meio desta ordem que Basílio indica a sabedoria divina na obra da criação,
sendo necessário, então, nos apegarmos a fé e não a razão.32

27
Cf. Ibid., 7.
28
Cf. Id.
29
Cf. ISAÍAS. In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1973. Cap. 51, vers. 6, p. 1446.
30
Cf. BASÍLIO, op. cit., 8.
31
Cf. Ibid., 9.
32
Cf. Ibid., 10.
13

Retomando a questão dos céus, Basílio aplica o mesmo julgamento e apresenta alguns
conceitos que ao final são desprezados para que não possamos cair em igual frivolidade, pois,
justifica Basílio, esses próprios conceitos refutam uns aos outros.33
Não cabe a nós, portanto, preocuparmos com a essência, mas sim glorificar a Deus por
meio de sua criação sabiamente e habilmente realizada e, por fim, Basílio ainda exorta que
nem mesmo a melhor mente alcançará o conhecimento do menor dos fenômenos para explicar
ou para adorar a Deus.34

33
Cf. Ibid., 11.
34
Cf. Id.
14

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao analisarmos a Homilia I do Hexaemeron de Basílio Magno, pudemos observar a


sua preocupação em reforçar o pensamento cristão – a Filosofia Cristã – sem eliminar
completamente os méritos da Filosofia Pagã, embora a critique duramente. Se nesta homilia
Basílio não demostra uma complementariedade entre a Filosofia Cristã e a Pagã, encontramos
em seu Discurso aos Jovens um sentido que dá a entender uma complementariedade dos
pensamentos cristão e pagão, já que ele exemplifica fazendo o uso da analogia da abelha em
relação aos livros.
Temos que levar em consideração que as críticas realizadas ao pensamento pagão em
sua homilia, são em vista do interesse de Basílio em solidificar a sabedoria cristã frente as
dúvidas que iam surgindo, pois a doutrina da Igreja ainda não estava totalmente formatada –
se é que podemos dizer isso dela nos dias de hoje – em meio aos cristãos do quarto século.
Quanto a temática da criação, notamos que, em últimos casos, Basílio recomenda a
não especulação sobre a criação porque facilmente é possível cair em uma sequência de
questionamentos que acabam resultando em um círculo de dúvidas, que não levam a lugar
nenhum a não ser nelas mesmas ou ainda, que acabam levando ao infinito. Essa exortação de
Basílio um tanto quanto que inibe o interlocutor de continuar se indagando sobre a existência,
mas, pelo fato da teoria aqui apresentada ser a do criacionismo, o existencialismo não é
contemplado na delimitação que para este trabalho acadêmico foi realizada.
Em suma, a grande proposição referente a filosofia na obra de Basílio que é defender o
a filosofia cristã é também, ao nosso ver, atrelada ao pensamento grego dos pré-socráticos,
isto é, nós conseguimos verificar que existe uma relação do tema criação com as origens da
filosofia e os primeiros questionamentos dos primeiros filósofos gregos, isto é, da
proveniência das coisas, do ser, da ordem do mundo, entre outros.
15

REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Basil. Basil: Letters and Select Works. Edited by Philip Schaff and Henry Wallace. Religion
and Spirituality. New York: Cosimo Classics, 2009. Disponível em: <
https://books.google.com.br/books?id=it9VqktLREEC&printsec=frontcover&hl=pt-
BR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false>. Acesso em: 27 jul. 2017.

GÊNESIS. In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1973. Cap. 1, vers. 1, p.
31.

GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.

Homélies Discours et Lettres choisis de S. Basile-Le-Grand. Traduits par M. L’abbé Auger.


Lyon: Chez F.çoes Guyot, 1827. Disponível em: <
http://www.liberius.net/livres/Homelies,_discours_et_lettres_choisis_de_saint_Basile-le-
Grand_000000468.pdf>. Acesso em: 28 jul. 2017.

IGREJA CATÓLICA. Papa (2005-2008: Bento XVI). São Basílio (Segunda Catequese).
Audiência Geral de 01 de agosto de 2007. Disponível em:
https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2007/documents/hf_ben-
xvi_aud_20070801.html. Acesso em: 17 set. 2017.

IGREJA CATÓLICA. Papa (2013- : Francisco). Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o
cuidado da casa comum. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em:
http://w2.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-
francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf. Acesso em: 17 set. 2017.

ISAÍAS. In: A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1973. Cap. 51, vers. 6, p.
1446.

L'esamerone di san Basilio Magno. Volgarizzato dall’ab. Jacopo Bernardi. Venezia: Co’Tipi
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