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13/07/2019 O que dá para concluir dos diálogos vazados da Lava Jato - Nexo Jornal

EXPRESSO (HTTPS://WWW.NEXOJORNAL.COM.BR/EXPRESSO/)

O que dá para concluir dos diálogos vazados


da Lava Jato
Matheus Pimentel e Conrado Corsalette 08 Jul 2019 (atualizado 08/Jul 20h01)

Divulgação de conversas feitas de 2015 a 2018 entre Moro, Dallagnol e outros


procuradores coloca pressão política sobre o atual ministro da Justiça e sobre a
força-tarefa em Curitiba

FOTO: ADRIANO MACHADO/REUTERS - 03.07.2019

 O MINISTRO DA JUSTIÇA, SERGIO MORO, EM CERIMÔNIA NO LADO DE FORA DO PALÁCIO DO PLANALTO

A publicação de diálogos privados da Operação Lava Jato completa um mês nesta terça-feira (9). As conversas
vazadas começaram a vir a público a partir de reportagens (https://theintercept.com/series/mensagens-lava-
jato/) do site The Intercept Brasil em 9 de junho de 2019 e mostram diálogos no aplicativo Telegram
atribuídos a:

Sergio Moro, hoje ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e na época das conversas juiz
responsável pelos processos da Lava Jato na primeira instância em Curitiba

Deltan Dallagnol, procurador que chefia a Lava Jato em Curitiba

outros procuradores da força-tarefa


https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 1/10
As mensagens abrangem o período total
13/07/2019 O que de 2015
dá para a 2018.
concluir O sitevazados
dos diálogos afirmadater recebido
Lava Jato - NexooJornal
material de uma pessoa
cuja identidade permanece em sigilo — pela Constituição, jornalistas não são obrigados a revelar a identidade
das suas fontes. Não está claro como o material foi obtido. Moro e agentes do Ministério Público dizem que
seus telefones celulares foram alvo de ataques de hackers; os jornalistas do Intercept negam que tenham
recebido os diálogos de hackers.

As reportagens começaram com o Intercept, mas o site posteriormente fechou parcerias com o jornal Folha de
S.Paulo, com a revista Veja e com o jornalista Reinaldo Azevedo, da rádio BandNews FM. Esses veículos de
comunicação também atestaram a autenticidade das mensagens e passaram a fazer apurações conjuntas com
o Intercept.

O Nexo resume abaixo quais são os trechos mais importantes dos diálogos vazados pelo Intercept e seus
parceiros. As conversas sugerem uma atuação enviesada do ex-juiz, de modo próximo com o lado da acusação
— algo que ele nega.

O mais importante dos diálogos

MORO SUGERE TESTEMUNHA


Em 7 de dezembro de 2015 (https://theintercept.com/2019/06/12/chat-sergio-moro-deltan-
dallagnol-lavajato/), Moro sugere a Dallagnol uma possível testemunha que poderia falar
com os procuradores no âmbito de apurações preliminares sobre o ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. O então juiz chega a dizer que “a fonte é séria”. Dallagnol agradece e diz que fez
contato com a pessoa, que teria se recusado a falar.

MORO E AS FASES DA LAVA JATO


Em 21 de fevereiro de 2016 (https://theintercept.com/2019/06/12/chat-sergio-moro-deltan-
dallagnol-lavajato/), Moro fala com Dallagnol e diz: “Olá. Diante dos últimos
desdobramentos talvez fosse o caso de inverter a ordem das duas planejadas”, uma possível
referência ao planejamento de operações. No dia seguinte a essa mensagem, foi deflagrada a
23ª fase, nomeada Operação Acarajé, que prendeu o marqueteiro João Santana
(http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/02/policia-federal-cumpre-23-fase-da-
operacao-lava-jato-em-tres-estados.html), responsável por propagandas presidenciais
petistas. A operação seguinte, em 4 de março, foi a que resultou na condução coercitiva de
Lula (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/03/05/Perguntas-e-respostas-sobre-
a-fase-da-Lava-Jato-que-tem-Lula-como-alvo) à Polícia Federal em São Paulo.

MORO E AS NOVAS OPERAÇÕES


Em 31 de agosto de 2016 (https://theintercept.com/2019/06/12/chat-sergio-moro-deltan-
dallagnol-lavajato/), Moro cobra a realização de novas operações ao enviar para Dallagnol a
seguinte mensagem: “Não é muito tempo sem operação?”. O procurador concorda e diz que a
força-tarefa estava concentrada em preparar a denúncia criminal contra o ex-presidente Lula
no caso do apartamento tríplex
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/04/05/Entenda-o-caso-do-apartamento-
tr%C3%ADplex), apresentada duas semanas depois.

DESEMPENHO DE PROCURADORA
Em 13 de março de 2017 (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/06/21/Os-
di%C3%A1logos-dos-acusadores-da-Lava-Jato-sobre-Laura-Tassler), Moro envia a Dallagnol
a seguinte mensagem: “Prezado, a colega [procuradora da Lava Jato] Laura Tessler de vocês
é excelente profissional, mas para inquirição em audiência, ela não vai muito bem. Desculpe
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 2/10
dizer isso, mas com discrição, tente dar
13/07/2019 O queuns conselhos
dá para a diálogos
concluir dos ela, para o próprio
vazados da Lava bem dela.Jornal
Jato - Nexo Um
treinamento faria bem. Favor manter reservada essa mensagem”. Dallagnol então afirma
“ok” e passa a combinar com outro procurador um modo de lidar com o tema. No dia da
mensagem de Moro havia ocorrido uma audiência com o ex-ministro Antonio Palocci, preso
pela Lava Jato.

MENÇÃO A FHC
Em 13 de abril de 2017 (https://theintercept.com/2019/06/18/lava-jato-fingiu-investigar-
fhc-apenas-para-criar-percepcao-publica-de-imparcialidade-mas-moro-repreendeu-
melindra-alguem-cujo-apoio-e-importante/), Moro pergunta a Dallagnol: “tem alguma coisa
mesmo séria do FHC [ex-presidente Fernando Henrique Cardoso]? O que vi na TV pareceu
muito fraco”. O então juiz então questiona se as suspeitas contra o tucano, que se referiam a
fatos de 1996, já não teriam prescrito. O procurador afirma que o caso foi enviado à Justiça
Federal de São Paulo sem se analisar a prescrição, “talvez para passar recado de
imparcialidade”. Moro então diz: “ah, não sei. Acho questionável pois melindra alguém cujo
apoio é importante”.

MENÇÕES AO SUPREMO
Em vários momentos, os diálogos apontam menções de Moro ou de procuradores a ministros
do Supremo Tribunal Federal. Por exemplo, Dallagnol diz a um grupo de procuradores em 13
de julho de 2015 (https://veja.abril.com.br/politica/dallagnol-vibrou-por-encontro-com-
ministro-aha-uhu-o-fachin-e-nosso/): “caros, conversei 45 minutos com o [ministro do
Supremo Edson] Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso”. Em outubro de 2015
(https://veja.abril.com.br/brasil/moro-retardou-inclusao-de-prova-que-levaria-caso-para-o-
stf/), Moro pediu que a Polícia Federal demorasse para anexar a um processo um arquivo que
tiraria o caso de Curitiba e o remeteria ao Supremo, nas mãos do então ministro Teori
Zavascki. Em 22 de abril de 2016
(https://twitter.com/TheInterceptBr/status/1138950243549175810), Moro diz a Dallagnol
após este relatar uma conversa com o ministro Luiz Fux: “in Fux we trust” (“confiamos em
Fux”).

MORO NO DIA DO DEPOIMENTO DE LULA


Em 10 de maio de 2017 (https://theintercept.com/2019/06/14/sergio-moro-enquanto-
julgava-lula-sugeriu-a-lava-jato-emitir-uma-nota-oficial-contra-a-defesa-eles-acataram-e-
pautaram-a-imprensa/), logo após Lula depor a Moro
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/05/11/O-depoimento-de-Lula-a-Moro-na-
Lava-Jato-em-12-t%C3%B3picos) em Curitiba pelo caso tríplex, o então juiz sugere ao
procurador Carlos Fernando Lima, que trabalhava na Lava Jato naquela época, que a força-
tarefa envie uma nota à imprensa apontando “as contradições do depoimento” do ex-
presidente e afirma que a defesa do petista havia feito um “showzinho”. Moro também
pergunta a Lima o que ele achou da audiência.

MORO ANTECIPA DECISÃO


Em 11 de maio de 2017 (https://theintercept.com/2019/06/12/chat-sergio-moro-deltan-
dallagnol-lavajato/), Moro diz a Dallagnol: “tranquilo, ainda estou preparando a decisão, mas
a tendência é indeferir mesmo”. Ele se referia a um pedido do Ministério Público Federal em
um processo, antecipando, nessa mensagem, uma decisão judicial que ainda tomaria.

DELAÇÃO DE LÉO PINHEIRO

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 3/10
Mensagens
13/07/2019 trocadas em diferentes momentos
O que dá parade 2016
concluir dos diálogos vazados da Lava Jato - Nexo Jornal

(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/06/lava-jato-desconfiou-de-empreiteiro-pivo-
da-prisao-de-lula-indicam-mensagens.shtml) entre procuradores da Lava Jato indicam que
eles viam com desconfiança o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, que estava tentando
negociar um acordo de delação premiada. Segundo os diálogos atribuídos a eles, o
empresário “falava pouco”, não estava “valendo a pena” e dizia que não havia crime no caso
tríplex, envolvendo Lula. As negociações foram congeladas em agosto daquele ano. Já em
abril de 2017, Léo Pinheiro depôs nesse processo e incriminou Lula, mencionando
pagamento de propina numa conta clandestina em troca de benefícios da Petrobras — ou
seja, mudou a versão. Esse depoimento foi crucial para basear a condenação do ex-
presidente. O Ministério Público Federal então pediu a redução da pena do empresário, o que
veio a ser concedido por Moro depois. Léo Pinheiro nega ter alterado a versão
(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/em-carta-empreiteiro-que-incriminou-lula-
trata-de-triplex-e-sitio-leia-integra.shtml) por pressão da Lava Jato em incriminar Lula e
reafirma o teor do seu depoimento no caso tríplex. A delação do empresário segue parada
(https://epoca.globo.com/por-que-ninguem-quer-ouvir-que-leo-pinheiro-tem-dizer-
23782865) na Procuradoria-Geral da República.

DELAÇÃO DE EDUARDO CUNHA


Em 5 de julho de 2017 (https://veja.abril.com.br/brasil/dialogos-revelam-que-moro-era-
contra-a-delacao-de-eduardo-cunha/), diante de rumores de um acordo de delação premiada
entre a Lava Jato e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), que já estava
preso por suspeitas de corrupção e havia sido central no processo de impeachment de Dilma
Rousseff, Moro diz o seguinte a Dallagnol: “espero que não procedam”. E complementa:
“como sabem sou contra”. Isso seria sinal de direcionamento por parte do juiz sobre o que o
lado da acusação deveria fazer.

MORO E A VENEZUELA
Em 5 de agosto de 2017 (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/lava-jato-e-moro-
atuaram-para-expor-dados-sigilosos-sobre-venezuela-mostram-mensagens.shtml), Moro diz
a Dallagnol: “talvez seja o caso de tornar pública a delação da Odebrecht sobre propinas na
Venezuela. Isso está aqui [em Curitiba] ou na Procuradoria-Geral da República?”. O
procurador então concorda, mas afirma que haveria críticas e que a medida violaria as regras
do acordo com a empreiteira, que havia relatado esquemas em 11 países estrangeiros,
inclusive a Venezuela. Após a sugestão de Moro, procuradores discutem a possibilidade em
um grupo interno do Telegram. Seria uma forma de expor politicamente o governo de Nicolás
Maduro, embora sem validade jurídica da Lava Jato sobre autoridades do país vizinho. Em
outubro daquele ano, tornou-se público o depoimento sigiloso de um ex-diretor da Odebrecht
implicando o governo venezuelano — a origem desse vazamento ainda está sendo
investigada.

PROCURADORES SOBRE MORO MINISTRO


Entre 31 de outubro e 1º de novembro de 2018 (https://theintercept.com/2019/06/29/chats-
violacoes-moro-credibilidade-bolsonaro/), dias após a eleição presidencial e quando Moro
era cotado para aceitar o convite de Bolsonaro para ser ministro da Justiça, procuradores de
dentro e de fora da Lava Jato de Curitiba criticam em grupos internos a iminente ida de Moro
para o governo. Para eles, a entrada de Moro na política poderia manchar a imagem pública
da Lava Jato, dando força às críticas de que a operação é enviesada. Dallagnol foi um dos que
não criticaram Moro.

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 4/10
A força da Lava Jato
13/07/2019 O que dá para concluir dos diálogos vazados da Lava Jato - Nexo Jornal

A Lava Jato é a maior operação contra a corrupção da história brasileira. A principal e primeira força-tarefa
foi montada em Curitiba, com o Ministério Público e a Polícia Federal, inicialmente para apurar esquemas
ligados à Petrobras — existem operações apelidadas de Lava Jato em outras cidades, como Rio de Janeiro e
São Paulo.

Ao expor grandes empresários e os maiores partidos do Brasil, a Lava Jato criou um desgaste público com
figuras tradicionais e incentivou um clima antipolítica na sociedade brasileira, ajudando o Congresso
Nacional a ter um alto índice de renovação (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/com-reeleicao-
abaixo-de-50-camara-tera-renovacao-recorde.shtml) em 2018.

Iniciada em março de 2014, a Lava Jato de Curitiba condenou até aqui cerca de 160 pessoas
(https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/apos-5-anos-lava-jato-soma-controversias-2294-anos-de-
penas-e-159-condenados.shtml), entre empresários, políticos sem mandato e operadores financeiros. Foram
mais de 400 denúncias criminais.

O principal condenado foi o ex-presidente Lula, preso em Curitiba desde abril de 2018 por corrupção passiva
e lavagem de dinheiro no caso tríplex (https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/04/05/Entenda-o-
caso-do-apartamento-tr%C3%ADplex). Quem condenou o petista na primeira instância foi Moro, uma
decisão confirmada depois pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) na segunda instância e pelo
Superior Tribunal de Justiça. Lula é o ex-presidente brasileiro que mais cumpriu tempo preso
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/04/06/Lula-o-mais-longo-tempo-de-um-ex-presidente-na-
cadeia) em toda a história do país.

Desde o começo, a Lava Jato é questionada por políticos, advogados e juristas que enxergam nela um uso
indevido e excessivo de estratégias como a delação premiada
(https://www.nexojornal.com.br/explicado/2015/12/11/Dela%C3%A7%C3%A3o-o-instrumento-que-mexe-
com-a-Rep%C3%BAblica), vazamentos de informações
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/06/10/Como-vazamentos-ajudaram-e-agora-emparedam-
a-Lava-Jato) à imprensa ou mesmo uma suposta seletividade, representada por um direcionamento das
investigações contra o PT, em detrimento de outros partidos.

O que dizem Moro e os procuradores


O agora ministro de Bolsonaro tem reafirmado em declarações públicas que não teve nenhuma conduta
irregular quando era juiz de casos de corrupção na Lava Jato, que os diálogos foram obtidos de modo
criminoso por hackers e que o conteúdo pode ter sido adulterado.

Segundo o ministro, que tem recebido apoio público do presidente, trata-se de uma tentativa de anular
condenações criminais de corrupção. Outro ponto do discurso de Moro
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/06/19/Di%C3%A1logos-vazados-como-mudou-a-
rea%C3%A7%C3%A3o-de-Moro-e-procuradores), já usado em mais de uma oportunidade, é pôr em dúvida a
credibilidade jornalística do Intercept, chamando-o de “sensacionalista
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/03/Como-Moro-investe-contra-quem-revelou-
di%C3%A1logos-da-Lava-Jato)”.

A força-tarefa em Curitiba, formada por procuradores e policiais federais, também não reconhece
(http://www.mpf.mp.br/pr/sala-de-imprensa/noticias-pr/lava-jato-procuradores-prestam-esclarecimentos-
sobre-publicacao-de-revista) a veracidade das conversas divulgadas, diz que a Lava Jato mirou partidos
diversos e de posições distintas no espectro ideológico, defende a isenção e reafirma que as decisões judiciais

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 5/10
da operação foram revalidadas por outras
13/07/2019 O que dáinstâncias
para concluir da
dos Justiça, com da
diálogos vazados independência e sem que a posição
Lava Jato - Nexo Jornal

acusatória do Ministério Público prevalecesse sempre. Afirma ainda que foram vítimas de uma invasão
criminosa de aparelhos e isso deve ser esclarecido.

Duas análises sobre o que foi divulgado até aqui


A respeito do conteúdo dos diálogos, das consequências práticas dos vazamentos e do que o episódio indica
sobre as leis e o estado da Justiça no Brasil, o Nexo ouviu duas especialistas em direito:

Eloísa Machado de Almeida, professora de direito constitucional da FGV (Fundação


Getúlio Vargas) de São Paulo

Luiza Nagib Eluf, advogada, ex-procuradora do Ministério Público do Estado de São


Paulo, foi secretária nacional dos Direitos da Cidadania no governo FHC, é atualmente
filiada ao PSB

Em um mês de vazamentos de diálogos da Lava Jato, o que é possível concluir


sobre a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro? Qual a consequência prática de suas
atitudes para o resultado dos processos?
ELOÍSA MACHADO DE ALMEIDA Os diálogos divulgados mostraram que Moro orientou os membros do
Ministério Público Federal na Operação Lava Jato. Há conversas nas quais Moro indica quais provas
deveriam ser usadas, quando as provas deveriam estar disponíveis, qual o momento de atuação dos
Procuradores, chegando até a indicar testemunhas, quem deveria fazer as perguntas, quais casos recorrer.
Isso tudo é um escândalo. Moro atuou como acusador e os procuradores o auxiliaram nessa manobra
inconstitucional e ilegal. Pelas conversas divulgadas até agora, é possível afirmar que Moro não foi imparcial,
como era sua obrigação.

O direito à ampla defesa depende, obviamente, de um juiz capaz de analisar com imparcialidade os
argumentos e as provas de cada uma das partes. Se o juiz se alia a um dos lados, a defesa prévia, a
contestação, a inquirição de testemunhas, as perícias, as alegações finais, tudo é reduzido a mera encenação.
O conluio entre juiz e acusador, ao final das contas, tornou o caso impossível de ser ganho pela defesa. O
devido processo legal foi uma farsa e à defesa foi relegada a missão impossível de convencer um juiz que, em
verdade, era acusador.

Por isso, deveria ser reconhecida a suspeição de Moro em casos nos quais agiu em conluio com a acusação. Na
prática, isso significa anular os atos de Moro como juiz no caso – desde despachos de produção de provas até
sentenças.

LUIZA NAGIB ELUF Sergio Moro alega “montagem” dos diálogos. Não sabemos se houve manipulação, mas o
conjunto das conversas aliado aos fatos indicam o firme propósito de punir. A parcialidade fica evidente.
Estou analisando friamente, sem me deixar levar por interesses político-partidários. O PT fez uma festa com o
dinheiro do povo brasileiro e não acho que os fins justificam os meios, mas os juízes têm por obrigação a
imparcialidade. Quem quer ser parcial deve prestar concurso para o Ministério Público e, mesmo assim,
quem fala em nome de toda a sociedade deve ser “parte imparcial”, o que pode parecer um contrassenso, mas
não é.

As orientações dadas por Moro aos procuradores da República, segundo os


diálogos, indicam que Moro tinha uma agenda específica contra Lula e o PT? Isso
pode anular o caso tríplex e libertar o ex-presidente?
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 6/10
13/07/2019MACHADO DE ALMEIDA
ELOÍSA Até oO momento as conversas
que dá para concluir divulgadas
dos diálogos mostram
vazados da Lava Moro
Jato - Nexo Jornalagindo como

acusador no caso de Lula, mas outras conversas podem ser reveladas indicando a parcialidade de Moro em
outros casos. Por exemplo, já foram divulgadas conversas nas quais Moro orienta os membros do Ministério
Público Federal a não investigarem o ex-presidente Fernando Henrique (PSDB) e outra em que sugere um
não acordo de colaboração com Eduardo Cunha, na época do PMDB. Há conversas entre Procuradores
relacionando os feitos da Operação com uma agenda política anti-PT.

A seletividade sempre foi apontada como uma fragilidade da Lava Jato, em razão do direcionamento
buscando a criminalização de um partido político. Com as conversas, abre-se a suspeita de que tenha sido
uma forma pensada de interferir na política nacional e obter um determinado resultado. Quando o juiz que
faz isso se torna Ministro, tudo fica ainda mais grave.

Mas não estamos falando apenas de seletividade. No caso da condenação de Lula, sobre o tríplex no Guarujá,
as conversas mostram uma interferência direta e decisiva de Moro, colaborando com a acusação.

LUIZA NAGIB ELUF Moro, ao que tudo indica, não era simpático ao PT, e reconheço que o PT de fato errou
muito, muito. Mas juiz não pode tomar partido e não deve orientar os membros do Ministério Público. Apesar
de tudo, as decisões de Moro foram baseadas em fatos reais, não houve “prova inventada”. Além disso, as
sentenças de Moro foram confirmadas pelos tribunais superiores.

Como os vazamentos impactam o instituto da delação premiada, levando em


conta os casos de Léo Pinheiro, da OAS, e Eduardo Cunha, ex-deputado? Como
classifica a posição de Moro nesses dois casos?
ELOÍSA MACHADO DE ALMEIDA A colaboração premiada é um instituto jurídico recente [criada por lei federal
de 2013 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12850.htm)]. Os tribunais ainda
estão estabelecendo os seus limites. Foram feitas críticas ao uso excessivo de prisões provisórias que estariam
sendo usadas por Moro como um instrumento de coerção para a colaboração de acusados, às vantagens
oferecidas, aos constantes vazamentos. As conversas divulgadas envolvendo informações sobre as delações de
Cunha e Leo Pinheiro mostram o que as colaborações não podem ser: instrumentos de seletividade da justiça
ou de maquiagem processual.

LUIZA NAGIB ELUF Ao aceitar as delações premiadas, Moro agiu dentro da lei. Essa novidade (a delação), que
não existia em nosso direito, mas foi copiada das leis americanas recentemente, permite desvendar crimes
que, sem ela, nunca seriam descobertos. Entendo que Moro agiu dentro dos limites da lei brasileira e não há
motivos para temer uma anulação geral da prova produzida. Moro atendeu ao clamor do povo ao demonstrar
a importância de se colocar o Brasil no caminho da seriedade.

As mensagens sugerem uma busca da Lava Jato por aliados no Supremo e uma
tentativa de evitar que processos saíssem das mãos de Moro. Como isso pode
influenciar as futuras decisões do Supremo sobre a Lava Jato?
ELOÍSA MACHADO DE ALMEIDA Há dois pontos a serem enfrentados aqui. O primeiro se refere à competência
de Moro versus Supremo. Uma das decisões iniciais da Operação Lava Jato, enquanto Teori Zavascki ainda
era o ministro relator, determinou que o Supremo deveria avaliar, a cada caso, a existência ou não de foro por
prerrogativa de função de investigados. Pela decisão de Teori, caso os juízes de primeira instância
encontrassem qualquer menção a possíveis investigados com foro, deveriam enviar tudo ao Supremo. Foram
constantes os embates entre Teori e Moro. No episódio da divulgação da interceptação da conversa telefônica
entre Lula e Dilma, ainda Presidente da República, Teori alertou que Moro, ao agir onde não poderia,
colocava a Lava Jato em risco.

Um segundo ponto se refere à competência de Moro em razão dos processos envolvendo Petrobrás, sempre
alvo de crítica pela falta de comprovação de nexo em muitos dos casos. Hoje, com as conversas divulgadas é
possível perceber que havia um complô para manter casos com Moro, mesmo ele não sendo o juiz
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/08/O-que-dá-para-concluir-dos-diálogos-vazados-da-Lava-Jato 7/10
competente.
13/07/2019 Isso é muito grave, poisOrompe com
que dá para o princípio
concluir dovazados
dos diálogos juiz natural e mostra
da Lava Jato interesse descabido do
- Nexo Jornal

juiz.

LUIZA NAGIB ELUF Sabemos que os tribunais superiores sempre foram procurados pelas partes nos processos
(advogados e procuradores) e que os ministros costumam ouvir as teses de cada um. Isso é necessário para
formar o convencimento dos julgadores. Na verdade, não seria o caso de considerá-los “aliados “ no Supremo,
mas sim pessoas convencidas da adequação das medidas tomadas pela Operação Lava Jato e da necessidade
de ser recuperada a nossa dignidade nacional. Até o momento, não vejo possibilidade de anulação de
processos sem que se provoque uma insurreição de sérias consequências.

Como avalia a atuação de Moro após os vazamentos, das reações públicas à


notícia de que a Polícia Federal pode estar investigando o jornalista Glenn
Greenwald, cofundador do Intercept?
ELOÍSA MACHADO DE ALMEIDA Moro está se defendendo e tem todo o direito de fazê-lo. O problema será
fazer isso sendo ministro da Justiça e usando as instituições públicas para proveito pessoal. Se ficar
comprovado que Moro demandou atuação da Polícia Federal e da Receita Federal contra a pessoa que o
incomoda, estaremos diante de um episódio infame para a República.

LUIZA NAGIB ELUF Moro é ministro da Justiça. A Polícia Federal é subordinada a ele. A existência de uma
apuração sobre determinado fato é prevista em lei e não fere direitos. Quando há investigação é porque há
suspeita de alguma irregularidade que precisa ser verificada. Investigar é conduta lícita, mantidos os limites
da lei e dos direitos constitucionais.

A Justiça brasileira, como um todo, sai abalada desse episódio enquanto


instituição?
ELOÍSA MACHADO DE ALMEIDA A Justiça brasileira não precisaria sair abalada. Poderia reagir dentro das
regras jurídicas e reduzir este grande escândalo à má conduta de um juiz. O Ministério Público poderia fazer o
mesmo. Mas tanto Judiciário como Ministério Público parecem preferir esconder os seus próprios erros e
proteger os seus corporativamente. Com isso, o episódio deixa de se referir à má conduta pessoal de juízes e
procuradores e passa a ser um defeito institucional. Um tipo de covardia institucional.

LUIZA NAGIB ELUF A Justiça brasileira sai fortalecida do episódio Lava Jato. Acredito que aprendemos muito
sobre o que fazer e como fazer. E podemos ter esperança de um futuro melhor.

VEJA TAMBÉM

EXPRESSO

(HTTPS://WWW.NEXOJORNAL.COM.BR/EXPRESSO/)

Como Moro investe contra quem revelou


diálogos da Lava Jato
(https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/07/03/Como-
Moro-investe-contra-quem-revelou-
di%C3%A1logos-da-Lava-Jato)
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RECUPERAR-A-CREDIBILIDADE-SEGUNDO-ESTA-PESQUISADORA).

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13/07/2019 O que dá para concluir dos diálogos vazados da Lava Jato - Nexo Jornal

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13/07/2019 O que dá para concluir dos diálogos vazados da Lava Jato - Nexo Jornal

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