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UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE

FACULDADE DE ECONOMIA

DIREITO EMPRESARIAL

Gestão

Contabilidade e Finanças

Elementos de Estudo / Texto de Apoio

Regente
Boaventura Gune

Mestrado em Ciências Jurídicas, pela FDUEM


Mestrado em Ciências Jurídico-Empresariais, pela FDUL

0
Doutor em Direito

1
TEMAS A TRATAR

1. Da expressão “Direito Empresarial”


 Sentidos possíveis;
 Noção;
 Relação do Direito Empresarial com determinados ramos de Direito

1. Da empresa:
 Etimologia da palavra e sentidos actuais
 Noção;
 Classificação;
 Processo de constituição em Moçambique;
 Tipologia e direito aplicável em Moçambique;
 O problema da nacionalidade das empresas;
 Obrigações das empresas

2. Da actividade empresarial
 Actos de comércio;
 Contratos e obrigações mercantis;

3. Da modificação e transformação das empresas

4. Dos problemas jurídicos que podem afectar a actividade empresarial.

5. Da falência e recuperação das empresas

6. Da dissolução e liquidação das empresas.

7. Dos títulos de crédito.

2
TÓPICOS DOS TEMAS

3
Tema 1
Da expressão “Direito Empresarial”

1.1. Sentidos possíveis


A expressão “Direito Empresarial”, comporta dois sentidos, nomeadamente, o normativo ou técnico-
jurídico e o académico. O primeiro reporta-se a normas jurídicas que disciplinam a actividade
empresarial, enquanto que o segundo reporta-se a uma cadeira ou disciplina juscientífica.

1.2. Noção
Do ponto de vista normativo, o Direito Empresarial é um subsistema de normas jurídicas que regulam a
actividade empresarial isto é, a constituição, o funcionamento e a extinção das empresas. Trata-se de um
conjunto de normas de natureza multi-disciplinar, porque umas fazem parte do Direito Económico, outras
do Direito Comercial, outras ainda do Direito do Trabalho, para além daquelas que integram o Direito
Fiscal, o Direito Administrativo, o Direito das Obrigações e o Direito Bancário.

Do ponto de vista académico, o Direito Empresarial deve ser entendido como uma disciplina
juscientífica que se ocupa do estudo daquelas normas relativas à constituição, ao funcionamento e a
extinção das empresas, sejam elas singulares ou colectivas e estas últimas públicas ou privadas.

Da simbiose destes dois sentidos resulta o entendimento de que o Direito Empresarial, entendido como
ramo da ciência jurídica, estuda o Direito Empresarial, entendido como sub-sistema de normas
jurídicas relativas à constituição, ao funcionamento e à extinção das empresas.

1.3. Enquadramento sistemático do Direito Empresarial


Como dissemos, o Direito Empresarial existe como subsistema de normas e como disciplina juscientífica.

Como subsistema de normas jurídicas, o Direito Empresarial filia-se no hemisfério privado, por a maior
parte das suas normas comportar natureza privada, pois, regula as relações entre as empresas e os seus
clientes, no âmbito das actividades económicas.

Como disciplina juscientífica, o Direito Empresarial é parte da ciência jurídica e, neste sentido, uma
ciência social, uma vez que a ciência jurídica, no seu todo, estuda a lei, que é um fenómeno social.

1.4. Relação com certos ramos de Direito

4
O Direito Empresarial, enquanto subsistema de normas jurídicas, tem relação com todos os ramos de
Direito mas está conectado de forma mais particular com o Direito Comercial, com o Direito de Trabalho
com o Direito Fiscal, com o Direito Bancário, com o Direito dos Seguros e com o Direito das Obrigações
e com o Direito Contabilístico.

5
Tema 2
Da empresa

2.1. Etimologia da palavra e sentidos actuais

Sobre a ideia geral de empresa, começamos por analisar a etimologia da palavra e concluímos que o
termo provém do vocábulo latino “imprehensa”, cujo significado original era o que se deu início ou
seja, o que começou. O termo sofreu depois uma certa evolução semântica e passou a significar
actividade, empreendimento ou ainda, mera decisão de fazer alguma coisa, chegando então a
qualificar-se de empreendedor aquele que se empenhasse em realizar alguma actividade.

Modernamente, o termo está associado à ideia de negócio, de fábrica, de estabelecimento ou de


qualquer unidade económica;

2.2. Noção
Passando da etimologia da palavra à delimitação do conceito, chegamos ao entendimento de que este
conceito pode ser construído sob três pontos de vista, nomeadamente o económico, o jurídico e o
sociológico.
 Na vertente económica, a ideia de empresa está associada a uma unidade de produção, uma
unidade de exploração económica ou seja, a qualquer associação de factores humanos, materiais e
financeiros, para a produção de bens e/ ou serviços.
 Na vertente jurídica, entende-se por empresa qualquer pessoa jurídica ou organização dotada de
vida própria, que explora determinado ramo de actividade, com fim lucrativo.
 Na vertente sociológica, entende-se por empresa qualquer comunidade humana e de trabalho
que influi sobre o meio social e é influenciado também por esse mesmo meio1.

NB - Tratando-se de uma cadeira jurídica, naturalmente, que tem interesse o conceito jurídico, pelo que é
esse que deve ser priorizado.

2.3. Classificação de empresas2


A tipologia de empresas pode ser encontrada a partir de determinados critérios, isto nas vertentes
económica e jurídica.

Sob o ponto de vista económico, existe a seguinte tipologia de empresas:


1
Sobre o conceito de empresa, vide Maria Manuel Busto e outros, “Manual Jurídico da Empresa”, 3ª Edição, p. 17 e ss, Almedina, 1998,
2
O presente texto de apoio apresenta apenas as linhas gerais, devendo os conceitos serem aprofundados com outros elementos de estudo.

6
a) Pelo critério dos sectores de actividade
 Empresas do sector primário ou produtivo:
- empresas agrícolas;
- empresas silvícolas;
- empresas pesqueira;
- empresas extractivas.

 Empresas do sector secundário ou transformador:


- empresas industriais;
- empresas de electricidade, de gás e de água;
- empresas de construção e de obras públicas.

 Empresas do sector terciário ou de serviços:


- empresas de comércio;
- empresas de transportes;
- empresas que são armazéns;
- empresas de comunicações;
- empresas bancárias;
- empresas de seguros;
- empresas imobiliárias;
- empresas de outros Serviços.

b) Pelo critério da origem e natureza dos produtos e serviços:


- empresas agrícolas;
- empresas industriais;
- empresas comerciais;
- Outros serviços.

c) Pelo critério da natureza da actividade desenvolvida:


- empresas de produção;
- empresas de comércio;
- empresas de prestação de serviços.

d) Pelo critério da dimensão das empresas:

7
- Micro empresas.
- Pequenas empresas;
- Médias empresas;
- Grandes empresas

e) Pelo critério do número de empresários envolvidos:


- Empresas singulares;
- Empresas colectivas.

Sob o ponto de vista jurídico, existe a seguinte tipologia de empresas:


a) Pelo critério da propriedade dos meios de produção utilizados:
- empresas públicas;
- empresas estatais;
- empresas privadas
- empresas mistas;
- empresas cooperativas.

b) Sob o ponto de vista da natureza das obrigações legais3 e contratuais das empresas:
- empresas singulares;
- sociedades comerciais,
- pessoas colectivas de tipo especial:
- Empresas Públicas;
- Empresas Estatais.

Em Moçambique, a classificação de empresas varia em razão da situação concreta e dos objectivos em


vista. Assim, é comum falar-se tanto de empresas primárias, secundárias e terciárias, ou de agrícolas,
industriais, comerciais e de serviços, como de empresas de produção ou de prestação de serviços, ou de
pequenas, médias e grandes empresas. É ainda usual falar-se tanto de empresas singulares e colectivas, ou
como de empresas públicas, e estatais, ou privadas, mistas e cooperativas. Por exemplo, para efeitos
laborais a classificação adoptada legalmente, (vide artigo 34 da Lei n.º 23/2007) é a de pequenas, médias
e grandes empresas.

2.4. Tipologia de empresas e Direito aplicável em Moçambique

3
Sobre estas classificações, maiores desenvolvimentos em Maria Manuel Busto e outros, op. cit. pp. 21 e ss.

8
No processo da sua constituição, e no exercício das suas actividades, as empresas sujeitam-se a uma certa
disciplina jurídica, no nosso país. Assim:
 as empresas singulares regem-se pelas normas do Código Comercial 4, mais concretamente, pelas
disposições do Livro I deste Código.

 as sociedades comerciais regem-se pelas normas do C. Com, mais concretamente, pelas


disposições do Livro I deste Código e pelas normas correspondentes a cada tipo de sociedade,
para além dos respectivos estatutos e regulamentos e, bem assim, da legislação da área de
actividade.

 as empresas públicas regem-se pela Lei das Empresas Públicas (Lei n.º 17/91, de 3 de Agosto),
para além dos seus estatutos e regulamentos e, bem assim, da legislação da área de actividade.

 as empresas estatais, regem-se pela Lei das Empresas Estatais, (Lei n.º 2/81, de 10 de Setembro),
para além dos seus estatutos e regulamentos e, bem assim, da legislação da área de actividade.

 as empresas cooperativas regem-se pelas disposições pertinentes do C. Com de 1888 e pela Lei
das Cooperativas (Lei n.º 9/79, de 9 de Julho)5 e, bem assim, da legislação da área de actividade.

 Empresas mistas - regem-se pelas normas do C. Com, mais concretamente, pelas disposições do
Livro I deste Código e pelas normas correspondentes a cada tipo de sociedade por elas adoptada,
para além dos respectivos estatutos e regulamentos e, bem assim, da legislação da área de
actividade.

2.5. Da tramitação da constituição de uma empresa em Moçambique


A constituição de uma empresa obedece a uma certa tramitação, consoante tratar-se de uma empresa
privada ou pública.

2.5.1.No caso das empresas privadas, a constituição passa pelas fases6 seguintes:
a) O estudo de viabilidade de que resultará um projecto de investimento que inclui:
 O plano de investimento;
 O plano de financiamento;
4
Abreviadamente designado C.Com,
5
Sobre esta matéria, vide Código Comercial de Moçambique, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 2/2005, de 27 de Dezembro. Sobre as empresas públicas e
estatais vide a legislação pertinente em Sérgio Vasquez, “Legislação Económica de Moçambique”, p. 17 e ss e 35 e ss, Almedina, 2004. Sobre as
Cooperativas, vide a Lei das Cooperativas, na obra anterior, e o Código Comercial de 1888, Capítulo V do Título II, do Livro II.
6
Algumas destas fases podem sobrepor-se, pelo que não há uma sequência rígida.

9
 A força de trabalho;
 Os meios de trabalho;
 O estudo de mercado.

b) A escolha da firma, tendo em conta a natureza da sociedade pretendida e a certidão negativa


obtida da Conservatória do Registo Comercial.

c) Abertura da conta bancária;

d) Elaboração dos estatutos;


 Celebração do pacto social ou contrato de sociedade.
 Registo provisório na Conservatória de Registo Comercial
 Envio dos Estatutos e do pacto social para a publicação no BR.
 Registo definitivo na Conservatória de Registo Comercial.
e) Outros procedimentos
 Obtenção do NUIT;
 Obtenção do NIB;
 Pedido de Alvará,
 Vistoria,
 Obtenção do Alvará,
 Comunicação à Direcção de Trabalho,
 Registo da empresa na segurança social.
 Contratação de trabalhadores,
 Celebração dos seguros colectivos.

2.5.2 Tratando-se de empresas públicas e estatais, a constituição passa pelos seguintes actos:
 Estudo de viabilidade económica;
 Elaboração de Estatutos;
 Elaboração de plano de investimento;
 Elaboração do plano de financiamento;
 Selecção da força de trabalho;
 Reunião de meios de trabalho;

10
 Acto administrativo consubstanciado no Diploma de criação;
 Registo.

2.5.3 Em resumo, as formas de constituição das empresas são:


 Acto unilateral – no caso de empresas individuais.
 Contrato de sociedade – no caso das sociedades.
 Acto administrativo – no caso das emprsas estatais e públicas

2.6. Principas características das empresas


2.6.1 Das principais características das empresas singulares
 Um só membro, que é o proprietário;
 A empresa confunde-se assim com o dono;
 Inexistência de órgãos de gestão porque esta é feita pelo próprio;
 Responsabilidade ilimitada do proprietário, pelas obrigações contraídas no exercício das
actividades;
2.6.2. Dos principais traços característicos das sociedades comerciais
a) Sociedade em Nome Colectivo:
 Responsabilidade subsidiária, ilimitada e solidária dos sócios;
 Influência predominante da confiança e do crédito pessoais;
 Pequeno número de sócios, como regra;
 Participação activa de todos os sócios na administração, como princípio geral
 Tipo perfeito de sociedade de pessoas;
 Número reduzido de membros;
 Existência obrigatória de dois órgãos: assembleia e administração;

b) Sociedade anónima:
 Responsabilidade limitada de cada accionista ao valor das suas acções;
 Concentração de capitais dispersos, permitindo as grandes explorações económicas;
 Participação de um diminuto número de accionistas na administração;
 Tipo perfeito de sociedade de capitais;
 Requisitos especiais para a sua constituição: mínimo de três accionistas, podendo ser um se fôr o
Estado:
 Adopção de uma firma de tipo denominação social, que não seja igual em nenhuma outra
existente nem que seja semelhante de modo que se preste a confusão;
 Existência de três órgãos distintos: Assembleia Geral, Administração, Conselho Fiscal ou Fiscal
Único, podendo existir um quarto órgão;
 Obrigatoriedade de constituição de uma Reserva Legal;

11
 Possibilidade de emissão de obrigações.

c) Sociedade em comandita
 Responsabilidade mista: ilimitada e solidária, quanto aos sócios comanditados ou em Nome
Colectivo e responsabilidade limitada e não solidária, quanto aos sócios comanditários ou
accionistas;
 Legislação aplicável, em geral: a das sociedades em Nome Colectivo, para as sociedades em
comandita simples e a das sociedades anónimas, para as sociedades em comandita por acções;
 Aliança íntima entre o capital (sócios comanditários ou sócios capitalistas) e o trabalho (sócios
comanditados)
 Modalidades
- Sociedade em comandita simples - quando o capital não é representado por acções;
- Sociedade em comandita por acções - quando o capital é representado por acções.

 Misto de sociedades de pessoas e sociedades de capitais

d) Sociedade por quotas


 Responsabilidade limitada, de cada sócio, ao valor da sua quota, se o capital estiver integralmente
realizado; se o não estiver, cada sócio responde ainda pelas prestações que os outros associados
não satisfizeram;
 Espécie de transição entre as sociedades de pessoas e as sociedades de capitais;
 Certas semelhanças com as sociedades anónimas, em nome colectivo, quando constituídas por
poucos sócios, todos ou quase todos participando da gerência da sociedade;
 Requisitos especiais para a sua constiuição: não obrigatoriedade de constituição de uma reserva
legal
 Possibilidade de emissão de obrigações

e) Sociedade por Quotas Unipessoal


 É constituída por um sócio único, pessoa singular ou colectiva, que é titular da totalidade do
capital social.
 A firma desta sociedade deve incluir a expressão “sociedade unipessoal” ou a palavra
“unipessoal”, antes da palavra limitada ou da abreviatura “Lda”

f) Sociedade de Capital e Indústria


 Número reduzido de sócios;
 Admite sócio de capital e sócio de indústria;
 Responsabilidade limitada ao valor das contribuições;
 O sócio de indústria não quinhoa das perdas;

12
 É uma sociedade de capitais;
 Nela há obrigatoriedade de constituição de reserva legal.

2.6.3. Das principais características das empresas estatais


 Ver a Lei n.º 2/81, de 10 de Setembro.

2.6.4. Das principais características das empresas públicas


 Ver a Lei n.º 17/91, de 3 de Agosto.

2.7. Obrigações das empresas:


No exercício das suas actividades, as empresas contraiem obrigações.
As obrigações das empresas desdobram-se em dois grupos, nomeadamente obrigações gerais e
obrigações especiais.

Do ponto de vista geral, as empresas têm as seguintes obrigações:


 Obrigações para com os trabalhadores;
 Obrigações para com os clientes;
 Obrigações para com os credores;
 Obrigações para com o Estado;
- Obrigações fiscais;
- Obrigações ambientais.

 Obrigações para com a Comunidade


- Obrigações ambientais;
- Responsabilidade social.

a) Tem particular interesse clarificar as obrigações para com os trabalhadores.


As empresas ficam obrigadas para com os trabalhadores a pagar pontualmente a retribuição ajustada ou
prevista nas normas corporativas ou legais, para além de observar, durante a duração e a execução do
contrato, todos os outros deveres acessórios que legitimam o facto de o trabalhador estar integrado na
estrutura organizativa desta empresa7.

Deste modo, os donos das empresas ou seus representantes, deverão desenvolver uma colaboração activa
no sentido de criar, dentro das suas instalações, as condições ambientais legalmente exigidas,

7
Vide arts. 15 a 18 da Lei 8/98, de 20 de Julho e a correspondente actualização na Lei n.º 23/2007, de 1 de Agosto.

13
nomeadamente, as que respeitem à higiene e segurança colectivas, fornecendo aos trabalhadores todos os
meios técnico-laborais e possibilitar, assim, o bom exercício das suas tarefas e a aplicação prática das
suas aptidões, competências e habilidades8.

O cumprimento deste dever pelas entidades patronais, representa o exercício dos deveres de cooperação
creditória e de assistência a que se encontram legalmente obrigadas, e permite a realização do direito
constitucionalmente consagrado, de o trabalhador atingir a sua realização humana e social por via do
trabalho, deixando de o perspectivar como algo penoso ou mero meio de garantir a sua subsistência, para
o considerar como um fim em si mesmo, integrado no vasto objectivo da concretização da sua dignidade
humana.

As empresas deverão, assim, contribuir mesmo para a “elevação do nível de produtividade” dos seus
trabalhadores, desenvolvendo o seu aperfeiçoamento profissional9.

Para além de todas as obrigações anteriores, as empresas devem ainda atribuir a categoria profissional a
cada trabalhador, fixar-lhe um horário de trabalho que respeite a lei, permitir-lhe o gozo de férias e não
lhe pagar abaixo do salário mínimo, para além de lhe criar condições de segurança e saúde ocupacional.

Aliás a Constituição10moçambicana estabelece que todos os trabalhadores têm direito à realização do


trabalho em condições de higiene e segurança, cabendo ao Estado assegurar as condições. Assim, a
empresa deve observar regularmente as regras sobre higiene e segurança no trabalho, para que os
trabalhadores executem o trabalho em condições de disciplina, segurança, higiene e moralidade, daí que a
empresa deva apetrechar-se e instalar nela própria os meios técnicos de protecção, sobretudo os que se
relacionam com as fontes de risco e perigo para a vida e a saúde do trabalhador.

A observância destes deveres é igualmente exigível aos trabalhadores, que deverão cumprir com todas as
normas relativas à higiene e segurança dentro das empresas, bem como utilizar, na execução das tarefas,
todos os meios colocados à sua disposição, por forma a prevenir os riscos inerentes às actividades.

Neste domínio, é vedado aos trabalhadores e aos próprios empresários, a exibição ou exposição de
imagens ou objectos que possam ofender a sensibilidade ou formação moral de cada um, bem como a

8
Vide arts. 112, 146 a 165 e 182 e ss da Lei 8/98, de 20 de Julho e a correspondente actualização na Lei n.º 23/2007, de 1 de Agosto.
9
Vide arts. 173 e 176 da Lei n.º 8/98, de 20 de Julho e a correspondente actualização na Lei n.º 23/2007, de 1 de Agosto
10
Recomenda-se a leitura atenta e global da Constituição moçambicana, para uma melhor percepção do seu conteúdo e valor prático.

14
utilização de palavras obscenas ou ainda, o tratamento inurbano entre colegas ou dos superiores
hierárquicos aos subordinados.

Há ainda a considerar as obrigações da segurança social, dentro das empresas, pois, estas podem ser
contribuintes ou não da segurança social. As que são contribuintes, devem pagar pelos trabalhadores a
contribuição na forma e prazo estabelecidos. As entidades patronais que não procederem ao pagamento
das contribuições descontadas nos salários dos trabalhadores incorrem em responsabilidade civil.

Em síntese, as empresas têm para com os trabalhadores as seguintes obrigações11 mais importantes:
 a celebração de contratos de trabalho na forma escrita;
 a atribuição a cada um deles de uma categoria profissional.;
 contribuição na sua formação profissional;
 canalização dos seus descontos para a Segurança Social;
 a melhoria progressiva das suas condições de trabalho e do respectivo ambiente de trabalho;
 a criação das condições de segurança no trabalho, através, também, da celebração de seguros
colectivos;

b) Para além das obrigações laborais, para com os trabalhadores, e os outros acima indicados
como sejam as obrigações para com o Estado, nomeadamente as fiscais, ambientais, bem como as
obrigações para com os clientes e os credores, há outras obrigações, as chamadas obrigações
especiais das empresas, nomeadamente as de:
 Adoptar a firma;
 Fazer a escrituração comercial ou organizar a Contabilidade;
 Fazer o registo dos actos a ele sujeitos;
 Dar balanço e prestar contas.

b1) Firma é o nome com que o comerciante, em nome individual ou sociedadel exerce o seu comércio,
portanto, individualiza-o.

A firma caracteriza-se:
 Pela obrigatoriedade – todo o empresário singular ou colectivo será designado, no exercício do
seu comércio, sob um nome comercial, que constituirá a sua firma.

11
Recomenda-se, para o aprofundamento desta matéria, a leitura atenta da Lei do Trabalho n.º 8/98, de 20 de Julho. Para efeitos comparatísticos, vide António
Lemos Monteiro Fernandes, “Direito do Trabalho”, 11ª Edição, Almedina.

15
 Pela verdade ou sinceridade – a firma deve dar a conhecer não só a pessoa ou pessoas que
exercem o comércio ou o negócio explorado, mas também a responsabilidade que essas pessoas
tomam pelas suas obrigações mercantis.
 Pela exclusividade ou novidade - todo o empresário com legítimo direito ao uso da sua firma,
pode impedir que outro adopte uma igual ou tão semelhante que se preste a confusão;

O modo de constituição da firma é o seguinte:


 Para o comerciante em nome individual, a firma é o nome completo ou abreviado do empresário.
 Nas sociedades comerciais a firma é razão social ou seja, nomes de um ou mais sócios, seguidos
de aditamento explicativo da espécie de sociedade, conforme se trate de sociedade em Nome
Colectivo, comandita ou por quotas: SNC ou Lda
 Ainda nas sociedades comerciais, pode ser uma denominação social ou particular, que é uma
palavra ou conjunto de palavras que dêem a conhecer quanto possível, o objecto da sociedade e o
aditamento Lda, ou SA, conforme se trate de sociedade por quotas ou anónimas.

A firma distingue-se do nome do estabelecimento, da insígnia, das marcas.

Firma é o nome com que o comerciante em nome individual ou sociedade exerce o seu comércio,
portanto, individualiza-o.

O nome do estabelecimento serve para designar e tornar conhecido um estabelecimento

A insígnia do estabelecimento serve também para a identificar ou individualizar um estabelecimento e


torna-lo conhecido.

As marcas industriais servem para o industrial, o agricultor ou artifice assinalar os seus produtos,
distinguindo-os de outros idênticos ou semelhantes.

As marcas comerciais servem para o comerciante assinalar os produtos do seu comércio, ainda que seja
outro o produtor.

c) Regime jurídico da firma - arts. 18 a 41 do C.Com;

d) Regime jurídico da Escrituração - arts. 42 a 57 do C.Com;

16
e) Regime jurídico do registo comercial - arts. 58 a 59 do C.Com;

f) Regime jurídico do balanço e prestaçãp de contas - arts. 60 e 61 do C.Com.

2.8. O problema da nacionalidade das empresas em Moçambique


A empresa constitui, na economia mundial de hoje, a célula base da organização económica, daí que em
cada país operam milhares de empresas, cada uma das quais constituindo uma pessoa e, como tal,
doptada de uma nacionalidade.

Apesar deste trabalho se ocupar da determinação da nacionalidade das empresas e da sua importância,
torna-se necessário falar do vínculo jurídico que liga um indivíduo a um determinado Estado, porque foi
a partir dele que se construiu a ideia do vínculo da empresa ao Estado.

A nacionalidade da empresa é, pois, uma ficção jurídica, criada a partir da nacionalidade de um


indivíduo, porque a própria empresa é uma pessoa fictícia, criada à imagem e semelhança do Homem.
É importante, pois, saber-se o que é nacionalidade, qual a sua relevância na vida das pessoas, quais os
critérios que se adoptam para a determinar e qual a posição da lei moçambicana sobre problema, para
compreender a situação jurídica de cada empresa que existe em Moçambique, por forma a distinguir o
que é nosso do que não é.

Estes são os aspectos que pretendemos abordar neste capítulo.

2.8.1. Noção de nacionalidade12


Comecemos pela noção de nacionalidade.
A nacionalidade é o vínculo jurídico que liga uma pessoa a um determinado Estado, traduzindo-se esse
vínculo nos direitos e obrigações que essa pessoa tem em ralação ao Estado em questão.

Esta noção, que releva em princípio para a pessoa humana, pode ser aplicada mutatis mutandi à pessoa
jurídica ou seja, à organização, como é o caso de uma empresa.

Quer isso dizer que a nacionalidade, usada como elemento13 de conexão determinante do estatuto pessoal
das pessoas singulares, associou-se por comparação à nacionalidade das empresas no geral, como
determinante da lei que se lhes aplica, dando assim lugar ao estatuto pessoal da empresa.

12
Sobre o conceito de nacionalidade e dos elementos de conexão, maiores desenvolvimentos em ANTÓNIO MARQUES DOS SANTOS, Direito
Internacional Privado, Introdução, Vol I, AAFDL, Lisboa, 2001, p. 51 e ss.
13
Cfr José J.G de Proença, in Direito Internaciona Privado, Parte Geral, SPB Editores, 1999, p. 107 e ss.

17
Assim, pode-se entender por nacionalidade de uma empresa o vínculo jurídico que liga essa mesma
empresa a um determinado Estado, traduzindo-se nos direitos e obrigações dessa mesma empresa para
com esse Estado.

Nesta base, a protecção diplomática aplica-se não só ao estatuto pessoal dos indivíduos como também ao
das empresas, reportando-se neste último caso à capacidade, constituição, ao funcionamento e à
competência dos respectivos órgãos, bem como à transformação, à dissolução e à extinção das empresas.

Deste modo, a nacionalidade revela-se fundamentalmente não só em matéria de direito dos estrangeiros e
estatuto pessoal, como também no estatuto jurídico das empresas, o que gera conflitos de leis que
encontram solução em sede de Direito Internacional Privado.

Onde reside a diferença entre o conceito de nacionalidade da empresa e de estatuto pessoal? O que é
estatuto jurídico de uma empresa?

Entendemos que o estatuto da empresa é o conjunto de preceitos que traçam a situação jurídica dessa
empresa e fixa os direitos e os deveres não apenas dos que a originaram ou a constituíram mas ainda de
todos os que nela venham a ingressar posteriormente e visa também disciplinar uma parte das relações
empresariais.

2.8.2. Relevância da nacionalidade na vida da empresa


Sendo a empresa uma pessoa, não pode existir sem identidade, de que a nacionalidade é parte.

A nacionalidade tem enorme relevância para uma empresa.


Como se disse, as empresas que existem em cada país, nascem muitas vezes de investimentos
estrangeiros, combinados ou não com investimentos nacionais, o que não quer dizer que não existam
empresas que nasceram tão só de investimentos nacionais, ou de investimentos estrangeiros.

O alcance prático da nacionalidade14, tanto dos indivíduos como das empresas, verifica-se em três níveis
do sistema jurídico de um Estado:
- No direito dos estrangeiros;
- Nos tratados internacionais e;
- Na protecção diplomática

14
Sobre esta problemárica, vide LUÍS DE LIMA PINHEIRO, Direito Internacional Privado, 2ª ed., Almedina, 2008, pp. 439 e ss.

18
Com efeito, a determinação da nacionalidade de uma empresa permitirá saber:
 Quais são realmente as empresas mocambicanas;
 Quais são as empresas que embora operem no país, não são moçambicanas;
 Quais as obrigações e direitos de empresas nacionais;
 Quais as obrigações e direitos de empresas estrangeiras

Se com relação às empresas que nasceram de investimentos nacionais não se suscita o problema da sua
nacionalidade, porque elas são nacionais sob todos os aspectos, já com relação às empresas nascidas de
investimentos estrangeiros e de capitais mistos, levanta-se o problema de saber a que Estados pertencem
essas empresas.

Tem relevância o esclarecimento desta questão, quer para a fixação do seu regime jurídico, quer para a
fixação dos seus direitos e obrigações, no quadro dos sistemas jurídicos e económicos com que essas
empresas se encontram conectadas.

Por exemplo, uma empresa que seja portuguesa mas operando em Moçambique, tem obrigações e direitos
no quadro do direito português e do sistema económico português, porque está conectada com os
sistemas económico e jurídico daquele país.

2.8.3. Critérios de determinação da nacionalidade de uma empresa


Os critérios que se usam para determinar a nacionalidade de uma pessoa humana são o ius solis e ius
sanguinis15.

Não são válidos para o caso das empresas, daí que a doutrina avança outros, que cumpre aqui apresentar e
analisar.

A determinação da nacionalidade das empresas não é matéria pacífica, pois, nem toda a doutrina admite a
existência da nacionalidade das empresas, havendo a respeito duas correntes de pensamento contrárias:
 Por um lado o pensamento negativista 16, abrangendo teorias que não admitem a existência da
nacionalidade das empresas e,
 por outro, o pensamento positivista que admite a existência da nacionalidade das empresas

15
Cfr ANTÓNIO MARQUES DOS SANTOS, Algumas Reflexões sobre a Nacionalidade das Sociedades em Direito Internacional Privado e em Direito
Internacional Público, Coimbra Editora, 1985, pp. 37 e ss.
16
Cfr Ibidem

19
Para os negativistas
 A nacionalidade de uma empresa é ficção, pois, só a pessoa humana a pode ter ou que;
 A nacionalidade de uma empresa é a dos donos dessa empresa;

Portanto, as correntes negativistas resumem-se fundamentalmente nas teorias da ficção.

As correntes positivistas defensoras da existência da nacionalidade das sociedades triunfaram, sendo hoje
um dado adquirido que as empresas têm nacionalidade, que não se confunde com a dos seus donos nem
com a dos indivíduos.

Na verdade, se pelo que respeita aos indivíduos, os factores determinantes da atribuição da nacionalidade
são relativamente pouco numerosos, - critério solis ou sanguini -, já o mesmo não pode dizer-se
relativamente às empresas, para as quais são concebíveis numerosos vínculos de ligação a diversos
estados, já que as suas conexões com os diferentes ordenamentos jurídicos podem ser muito mais
diversificados.

É assim que autores como A. Machado Villela aponta sete critérios de atribuição da nacionaidade às
sociedades, enquanto que A. Miaja de la Muela propõe oito e por fim H. G. Ângelo indica nada menos
do que treze17.

No entanto, no plano do Direito Comparado e do Direito Internacional, segundo a doutrina dominante


sobre esta problemática, a nacionalidade é atribuída às empresas a partir dos seguintes critérios,
combinados ou isolados;
 o da incorporação;
 o da sede social;
 o centro de exploração;
 o do controle e;
 o do centro de decisão;
 o do capital.

Convém clarificar, explicitando

a) Critério da incorporação18
17
Sobre esta problemática, vide ANTÓNIO MARQUES DOS SANTOS, Algumas...op cit, p. 60 e ss.
18
Seguimos de perto o pensamento do saudoso Prof. ANTÓNIO MARQUES DOS SANTOS, Algumas...op cit, pp. 61 a 108.

20
Segundo a teoria da incorporação, aceite em Inglaterra desde 1724, e posteriormente admitida nos demais
países de common law19, na Suíça, na Itália, na Alemanha, na Espanha e nos países da América Latina, a
empresa tem a nacionalidade de um país se for constituída ou criada segundo o direito desse país.

Portanto, será moçambicana a empresa que se constitui segundo a lei moçambicana.

Significa isto que para um Estado que adopte este critério como único e exclusivo, considera suas
nacionais todas as empresas que nascerem como pessoas jurídicas por força do direito desse Estado,
qualquer que seja o lugar da sede social, do centro de exploração, do exercício da sua actividade
comercial ou industrial, qualquer que seja ainda a nacionalidade dos sócios, dos accionistas ou dos
administradores.

Trata-se de um critério mais simples, mais liberal e conveniente aos países exportadores de capitais.

Como é correctamente afirmado na doutrina, a teoria da incorporação corresponde à consagração do


princípio da autonomia20 da vontade em matéria de atribuição de nacionalidade às empresas.

Portanto, por este critério, são moçambicanas todas as empresas criadas segundo o direito moçambicano,
ainda que os capitais, os donos destes e os administradores tenham nacionalidade distinta da
moçambicana.

Por esta lógica, uma empresa de zambianos ou sul-africanos, administrada por moçambicanos e
angolanos e que se constitui em Moçambique ou no Zimbabwe, segundo o direito moçambicano ou
segundo o direito zimbabweano, pode eventualmente, beneficiar da protecção diplomática moçambicana
ou zimbabweana, independentemente de ter qualquer ligação efectiva com a nossa vida económica ou
com a vida do Zimbabwe.

A teoria da incorporação apresenta, pois, o inconveniente de permitir a atribuição de uma nacionalidade a


uma sociedade que pode ser de todo estranha à vida jurídica e económica do Estado a que pertence essa
nacionalidade.

Além disso, a eventual combinação deste critério com o da sede estatutária permite atribuir
nacionalidades fictícias às empresas.

19
Países de expessão inglesa, pertencentes, portanto, ao sistema jurídico anglo-saxónico.
20
Cfr. art. 405 C.C.

21
Por estas razões, não seria de defender ou de aceitar essa teoria.
Entretanto, por causa da sua simplicidade e do seu liberalismo, e apesar de não corresponder
necessariamente a uma ligação séria entre uma empresa e um Estado, a teoria da incorporação tem sido
defendida, em nome da unificação internacional dos critérios estaduais de atribuição da nacionalidade e
em virtude da aceitação que este critério tem no Direito Internacional geral, tal como foi definido pelo
Tribunal Internacional de Justiça.

Em suma, o critério dominante nos países do common law, é o da incorporação, segundo o qual, uma
empresa tem a nacionalidade de um país, se ela fôr constituída ou criada nos termos do direito desse país.

Assim, para um Estado que adopte este criterio como critério único e exclusivo, torna nacionais todas as
sociedades que nascerem como pessoas juridicas nesse Estado, independentemente do lugar da sede
social, do centro de exploração, do exercicio da sua actividade comercial ou industrial e qualquer que seja
a nacionalidade dos sócios, accionistas ou administradores, ou até mesmo qualquer que seja o lugar onde
a sociedade foi constituída.

Este critério é tido como o mais simples e o mais liberal, pois, consagra o princípio da autonomia da
vontade em matéria de atribuição de nacionalidade às empresas, o que permite que uma empresa possa se
constituir em qualquer país segundo o direito local e beneficiar-se da protecção diplomática local,
independentemente de ter qualquer ligação efectiva com a vida económica desse país.

Como dissemos, este critério permite a atribuição da nacionalidade a uma sociedade que pode ser
totalmente estranha à vida juridica e económica de um Estado, sem contarmos com o facto da eventual
combinação deste critério com o da sede estatutária, o que permite o surgimento de nacionalidades
fictícias, visto existirem empresas que procuram certos países-refúgios, quer com com o intuíto de evasão
fiscal, quer para se beneficiar das vantagens concedidas aos nacionais.

b) Critério da sede social


O critério da sede social considera que são nacionais as empresas que têm a sua sede social num dado
país, isto é, que estejam efectivamente vinculados no território de um certo Estado.

Segundo este critério, uma empresa terá a nacionalidade de um Estado, se nele tiver a sua sede social.

Em certos países, entende-se por sede social a sede estatutária, isto é, a sede que é designada nos
estatutos ou no pacto social, independentemente de a administração principal da sociedade se encontrar aí

22
situada, enquanto noutros países se entende por sede social a não fictícia, a não fraudulenta mas a real,
isto é, onde se encontra e funciona efectivamente a administração principal.

A ideia que está na base deste critério é a de uma vinculação efectiva, de carácter territorial, entre a
empresa e o Estado. A empresa há-de ter a nacionalidade do Estado onde se encontram os seus órgãos
vitais de direcção, onde está implantado o centro do seu sistema de comunicação, isto é, o lugar onde se
tomam as principais decisões, onde está localizada a sua administração principal, onde se situa o seu
cérebro, portanto, onde está a sede real e efectiva, e não a sede meramente estatutária.

A sede estatutária pode consistir numa simples caixa postal ou num pequeno escritório onde se recebe e
envia correspondência, enquanto que a sede efectiva traduz forçosamente uma ligação muito mais estreita
entre a empresa e o Estado.

Este critério da sede social foi também reconhecido pelo Tribunal Internacional de Justiça como
relevante, em Direito Internacional, para o exercício do direito de protecção diplomática, mas ao que
parece, o Tribunal de Haia não tem o mesmo entendimento.

O critério da sede social é, actualmente, o único concorrente sério do critério da incorporação e é


geralmente seguido, embora em termos diversos nos países da Europa continental, como sejam a França,
a Itália, a Espanha, Portugal, Rússia, Alemanha, Bélgica, Holanda, e em alguns países da América latina.

Em suma, o critério da sede social, toma a sede como base da determinação da nacionalidade. Segundo
este critério, uma empresa terá a nacionalidade de um Estado, se nele tiver a sede social, que pode ser
estatutaria, isto é, aquela que é designada nos estatutos ou no pacto social independentemente do local
onde se situa a administração principal da dessa empresa, a sede social ou real que é aquela que não é
fictícia nem é fraudulenta.

A nossa opinião é que a atribuição da nacionalidade a uma empresa deveria assentar no critério da sede
real, que é onde a empresa está efectivamente vinculada ao territorio do Estado ou seja, onde se encontra
a sua sede.

A empresa devia, portanto, ter a nacionalidade do Estado onde se encontram os seus órgãos vitais de
direcção, onde está implantado o centro do seu sistema de comunicação, o lugar onde se tomam as suas
principais decisões, o lugar onde está localizada a sua administração principal.

23
c) Critério de centro de exploração
Pelo critério do centro de exploração, são nacionais de um Estado as empresas que têm o principal centro
de exploração nesse país ou nesse Estado.
Também neste caso se exige uma ligação efectiva, de carácter territorial, entre a empresa e o Estado. A
empresa deve ter o seu centro de exploração, a localização das suas actividades, de carácter comercial ou
industrial, no país que adoptar este critério.

Em suma, o Estado atribui a sua nacionalidade às empresas que exerçem o seu principal comércio, ou que
desenvolvem as suas actividades predominantes de produção ou de troca, dentro das suas fronteiras.

Por este critériom seriam moçambicanas todas as empresas que têm o seu centro de exploração dentro do
território nacional.

O critério apresenta, pois, desvantagens num duplo sentido:


- Por um lado, uma empresa pode desenvolver as suas actividades económicas em vários países,
sendo difícil, na prática, determinar onde se situa o centro de exploração, ou a principal sede da sua
actividade económica. Neste caso, uma empresa teria várias nacionalidades, o que complicaria
sobremaneira o problema da sua protecção diplomática, e daria lugar a conflitos estaduais pelo
controle da mesma

- Por outro lado, no caso de certas indústrias ou de certas actividades económicas, como a construção
civil, as minas, as obras de infra-estruturas, a empresa pode deslocar o seu centro de exploração de
um país para outro com relativa frequência, o que implicaria mudança frequente e permanente da sua
nacionalidade, gerando, de novo, conflitos estaduais.

Este critério do centro de exploração não corresponde ao direito positivo de qualquer Estado e nem é
reconhecido pelo Direito Internacional, pelo que não tem interesse teórico nem prático.
d) Critério do controle
Pelo critério do controle, são nacionais de um Estado as empresas cujo controle está nas mãos de
nacionais, sejam estes indivíduos ou outras empresas.

Exige-se, portanto, o controle da empresa por nacionais do Estado, quer se trate de indivíduos, quer se
trate de outras emprsas.

Por este critério, seriam moçambicanas as empresas que fossem dirigidas por moçambicanos.

24
O controle pode surgir como critério exclusivo de atribuição de nacionalidade, e nesse caso, só as
empresas controladas por nacionais são nacionais.

Mas pode também surgir como elemento necessário, embora não suficiente, de atribuição da
nacionalidade à empresa, neste caso, exige-se frequentemente, que além do controle por nacionais, a
constituição seja segundo o direito do país e/ou a localização da sede social no Estado de cuja
nacionalidade se trata.

Isso significa, portanto, que o critério do controle não tem vocação para ser um critério básico nem
exclusivo de atribuição da nacionalidade das empresas, como sucede com o da incorporação e o da sede
social, pois, estes garantem, - sobretudo o primeiro -, a estabilidade e a certeza do vínculo do
estabelecimento entre a empresa e o Estado,

Pelo contrário, o critério do controle é um factor de instabilidade, de incerteza e de insegurança jurídicas


e, no plano do Direito Intenacional, poderia levar à concorrência de pretensões de protecção diplomática
de uma empresa por parte de diferentes Estados, gerando confitos.

Em suma, este critério não pode ser um criterio básico e muito menos um criterio exclusivo. A ideia
fundamental que lhe subjaz é a da determinação da nacionalidade da empresa a partir das nacionalidades
das pessoas singulares, accionistas, administradores, ou associados que constituem a pessoa colectiva.

Assim, para se determinar se uma empresa está sob controle de um certo Estado, sao tomados
alternativamente em conta, pelos legisladores e pela doutrina, os seguintes elementos:
 Se a maioria simples ou qualificada do capital esteja nas mãos de nacionais, embora também se
possa admitir que uma minoria possa assegurar o controle segundo a teoria publicística de
interesse substancial21;
 Se a maioria dos associados ou dos administradores ser constituída por nacionais originários ou
naturalizados,
 A acumulação ou combinação dos dois aspectos anteriores

O critério de controle foi e continua a ser utilizado pelos legisladores, para garantir um maior grau de
lealdade em certos sectores delicados para os interesses económicos ou politicos dos Estados, tais como,

21
Segundo esta teoria, uma empresa pode ser considerada nacional de um Estado mesmo que seja a minoria de capital que está nas mãos de nacionais, desde
que o interesse substancial esteja sob controlo destes.

25
a defesa nacional, a navegação marítima ou aérea, a imprensa, a rádio, a televisão e a energia atómica, de
entre outros.

e) Critério do centro de decisão


Pelo critério do centro de decisão, são nacionais de um país as empresas cujo centro de decisão se situa
nesse mesmo país.

Segundo a caracterização que dele a doutrina faz, o critério do centro de decisão tende a fazer depender a
nacionalidade de uma empresa do meio político, jurídico e económico no qual são definidas as grandes
linhas da sua acção.

Este critério confunde-se com o da sede efectiva ou real. Pela sua natureza, este critério procura
responder à complexa problemática dos chamados grupos internacionais de sociedades ou multinacionais,
que se caracterizam essencialmente por constituirem uma unidade de direcção economica, não obstante a
pluralidade de individuos que os compõem.

Trata-se de um criterio de dificil aplicação prática, visto que nem sempre a sede estatutária é a sede da
tomada de decisões.

f) Outros critérios
Para além destes critérios que consideramos mais importantes, são de apontar outros de menor relevo mas
que a doutrina faz referência, como sejam:
 o do sistema de autorização;
 o do lugar da constituição;
 o do sistema do país da subscrição,
 o da nacionalidade dos empregados,
 ou o da nacionalidade dos credores,
 o da nacionalidade do país que tem a conexão mais estreita com a empresa.

Estes últimos critérios têm, em certos casos, um reduzido alcance teórico e prático e, noutros, um laço
suficientemente forte e estável a ligar a empresa ao Estado, enquanto que outros ainda são extremamente
vagos e imprecisos, pondo em sério risco a certeza e a segurança jurídicas, por serem juridicamente
obsoletos.

26
2.8.4 A posição da lei moçambicana sobre o problema
O problema da determinação da nacionalidade das empresas em Moçambique não tem uma solução legal,
na medida em que não existem dispositivos legais indicativos de critérios adoptados para o efeito.
Temos assim um vazio legal sobre o assunto, pelo que resta-nos lançar mão à doutrina para resolver este
problema.

Entretanto, verificamos que não existe doutrina nacional a respeito, pelo que não há também solução
doutrinária do caso.

Para determinar essa nacionalidade, só nos podemos socorrer com recurso à doutrina estrangeira, na base
da qual, podemos propor que para determinar a nacionalidade das empresas Moçambique é preciso que o
Estado adopte o criterio da incorporação, segundo o qual, uma empresa tem a nacionalidade de um país
se esta fôr constituída ou criada, nos termos do direito desse país, isto é, incorporada no Direito local.

Se o Estado adoptar este criterio como único e exclusivo, tornará nacionais todas as sociedades que
nascerem como pessoas juridicas no país, independentemente do lugar onde se localiza a sede social, o
centro de exploração, o centro do exercicio da sua actividade comercial ou industrial, qualquer que seja a
nacionalidade dos sócios, accionistas ou administradores ou ate mesmo qualquer que seja o lugar onde a
empresa foi constituída.

Mas o mais conveniente será que o Estado não tome só este critério, será preciso conjugá-lo com o
criterio da sede social, que se baseia-se no facto das empresas estarem efectivamente vinculadas ao
territorio do Estado moçambicano, onde se encontra a sede da empresa, se os seus órgãos vitais de
direcção, bem como onde está implantado o centro do seu sistema de comunicação e que as suas
principais decisoes e a sua administração principal se encontrarem em Moçambique.

27
Tema 3
Da actividade empresarial

3.1. Actos de comércio


Dadas as dificuldades que existem em construir um conceito unitário de acto de comércio, devido à
heterogeneidade dos actos praticados no âmbito da actividade comercial, o que a doutrina tem feito é
recorrer ao conceito económico e completá-lo com a teoria do acessório.

Dessa combinação resulta que são actos de comércio:


 os que são mercantis por natureza, - actos comerciais absolutos -,
 e os que são praticados pelos comerciantes no e para o exercício do seu comércio.
 Porque, mesmo assim não se acha resolvido o problema, o que as legislações fazem é delimitar os
actos que devem considerar-se mercantis a partir da natureza deles próprios, da qualidade do
sujeito que os pratica e do contexto em que são praticados.

Essa delimitação alcança-se por via da enumeração implícita ou explícita. A enumeração implícita
consiste na fixação de uma definição do que são actos de comércio, englobando nela o que o legislador
entende dever qualificar como comercial.

À luz deste critério, serão actos de comércio, assim, todos os que se mostrarem cobertos pela referida
definição legal22.

Em contraposição, o critéwrio da enumeração explícita consiste na alistagem individualizada dos actos


considerados comerciais, o que apresenta o risco de esquecimento ou omissão.

À luz deste critério, não serão asssim actos de comércio todos os que, embora o sejam absolutamente, não
se encontrem tipificados na lei comercial como tais.

Em suma, consoante o critério adoptado, - implícito ou explícito -, serão actos de comércio todos os que
se situam no âmbito da disciplina da lei comercial em questão, ou o serão apenas os que uma dada lei
comercial enumerar taxactivamente como tais23.

22
Cfr. PIRES CARDOSO, op cit, p. 59 e ss
23
Idem, ibidem, p. 59 e ss.

28
Por outras palavras, são considerados actos de comércio todos os que se acharem especialmente
regulados neste Código24, e além deles, todos os contratos e obrigações mercantis dos comerciantes que
não forem de natureza exclusivamente civil, se o contrário do próprio acto não resultar”25
B) Classificação26
A doutrina avança três classificações de actos de comércio, que adiante se apresentam.

Uma das classificações dos actos de comércio em voga, que é doutrinária, é a que distingue os actos de
comércio absolutos dos actos de comércio relativos ou por conexão. É uma classificação que assenta no
conceito económico de comércio, e recorre em regra, à ideia de intermediação, associada à finalidade
lucrativa, para definir a essência mercantil.

Assim, os actos de comércio absolutos são aqueles cuja comercialidade decorre da sua natureza, por
contraposição aos actos de comércio relativos, que são os que se consideram comerciais apenas por serem
acessórios de uma actividade mercantil, isto é, comerciais quando forem praticados por comerciantes no e
para o exercício do seu comércio.

Uma outra classificação, que é legal, é a que distingue os actos de comércio em objectivos e subjectivos.
É uma classificação que assenta no critério da sua previsão legal, qualificando então como objectivos os
que se encontram previstos na lei comercial, sejam ou não comerciantes ou empresários comerciais as
pessoas que os praticam.

Diferentemente, são os actos de comércio subjectivos são aqueles cuja comercialidade decorre da
qualidade do sujeito que os pratica e do contexto em que os pratica, o que significa que não se encontram
previstos na lei comercial como actos de comércio. Estes actos de comércio não são, devido a esta sua
natureza subjectiva, susceptíveis de enumeração.

Convém salientar que a classificação dos actos de comércio em objectivos e subjectivos não coincide
com a de actos de comércio absolutos e relativos.

Na verdade, há actos de comércio que o legislador, levando em linha de conta considerações de ordem
prática em que avulta a sua conexão com a vida dos negócios, os considerou objectivamente mercantis
sem que tenham natureza comercial, como é o caso, por exemplo, das letras, livranças e cheques.

24
Entenda-se, o C.Com de 1888 ou seja, o C.C de Veiga Beirão.
25
Art 2º do C.Com de VEIGA BEIRÃO, aprovado pela Carta de Lei de 28 de Junho de 1888.
26
Sobre a classificação dos actos de comércio e a divergência de entendimentos sobre autores, vide PUPO CORREIA, Direito Comercial, 7ª ed. revista e
actualizada, Lisboa, 2001, pp. 45 e 65; FERRER CORREIA, Lições de Direito Comercial e Direito I, Reprint, Lex, 1994, p. 37 e ss

29
Entretanto, os actos de comércio objectivos são os que o Código Comercial regula especialmente, quer
dizer:
 os actos que ele disciplina exclusivamente e
 os que sendo regulados na lei civil, o são também no Código Comercial,
 para além dos que se encontram regulados em legislação avulsa, aos quais, essa legislação
reconhece natureza mercantil.

A identificação dos actos de comércio objectivos regulados fora do C.Com, portanto, em legislação
avulsa pode ser feita por três vias:
 a dos actos primitivamente regulados no C.Com, que posteriormente passaram a ter assento em lei
avulsa, por derrogação das disposições deste Código que se lhe referiam como, por exemplo, as
letras, livranças e cheques.

 a dos actos de natureza mercantil que não foram contemplados no C.Com mas estão regulados em
diplomas especiais que lhes reconhecem a qualidade mercantil, como é o caso de arrendamentos
comerciais e industriais e propriedade industrial.

 a dos ctos que já eram regulados em outras leis, à data da promulgação do Código e não foram nele
especialmente regulados, mas têm natureza marcadamente mercantil ou oferecem uma estreita
semelhança com os incluídos no seu elenco. Tais actos são objectivos por força da enumeração
implícita contida na definição.

Os actos de comércio subjectivos alcançam a característica mercantil em virtude de terem sido praticados
por empresários comerciais e obedecem a dois requisitos, nomeadamente;
 que não sejam de natureza exclusivamente civil e
 que sejam praticados empresários comerciais, desde que dos próprios actos não resulte provado
serem civis.

É, pois, fundamentalmente em função da lei que os regula que se atribui natureza aos actos jurídicos: se o
acto foi praticado por um comerciante ou empresário comercial mas está regulado exclusivamente na lei
civil é civil. Se está regulado na lei civil e também na lei comercial, ele é comercial se das circunstâncias
da sua prática resultar evidente que no caso concreto, não é civil.

30
Uma terceira classificação é a que distingue os actos de comércio em puros e mistos. É uma classificação
assente na qualidade dos sujeitos envolvidos na prática desses actos.

Se tais sujeitos forem ambos empresários comerciais ou comerciantes, o acto de comércio em questão é
qualificado como puro ou bilateralmente comercial e,

Sirva de exemplo o caso em que um dos sujeitos não é comerciante ou não é empresário comercial, o acto
qualifica-se como misto ou unilateralmente comercial. É o caso da compra feita a um grossista por um
retalhista no primeiro caso e da venda feita ao consumidor por um retalhista no segundo caso.

De todas estas classificações resulta evidente que os actos de comércio têm na sua maioria natureza
contratual, uma vez que são praticados pelos comerciantes no e para o exercício do seu comércio.

3.2. Contratos e obrigações mercantis


A actividade empresarial assenta na celebração permanente de contratos.
 contratos para aquisição de instalações, equipamentos e matérias-primas;
 contratos com pessoas humanas, para serem seus trabalhadores;
 contrato de compra e venda de serviços e de outros bens diversos
 contratos de transporte, de água, de telefone, de energia e outros mais

3.2.1 Noção de contrato


O que se pode entender por contrato? É, antes de mais, um acordo entre duas ou mais pessoas, através do
qual estas trocam direitos e obrigações, no âmbito da realização ou viabilização das suas necessidades e
dos seus interesses27, que não são passíveis de satisfação individual.

Para que um contrato seja juridicamente válido, quer dizer, que seja tomado pelo Estado como relevante,
vinculando assim as partes, é preciso que obedeça aos seguintes requisitos:
a) Livre Acordo das partes – o contrato assinado contra a vontade de uma das partes, portanto, o
contrato celebrado com base na coacção física ou moral de uma das partes ou de ambas, é
juridicamente ineficaz por ser nulo. Devem, pois, as partes assinar o contrato por sua livre e
espontânea vontade.

b) Capacidade de exercício das partes - para a celebração de contratos, a lei exige que os
intervenientes sejam capazes, isto é, que tenham uma certa idade para o efeito, para além da
27
Os conceitos de necessidade e de interesse não se equivalem. Sobre isso, vide José Dias Marques, Introdução ao Direito, qualquer edição.

31
saúde mental, isto se se tratar de pessoas humanas. Se se tratar de uma pessoa fictícia, quer dizer,
de uma organização ou pessoa colectiva, é preciso que esta seja reconhecida pelo Estado, porque
foi constituída legalmente.

As idades que relevam para a celebração de contratos, no caso das pessoas humanas, são:

- 12 - 15 anos para os contratos de trabalho28.


- 18 anos para o exercício de direitos e deveres políticos e militares29.
- 21 anos para contratos civis e comerciais30.

c) Objecto possível – o objecto do contrato deve ser física e legalmente possível. Isto significa que
o mesmo deve ser exequível do ponto de vista físico e o seu conteúdo permitido por lei, para
além de que não deve ofender a moral pública. Por exemplo, um contrato de compra e venda de
estrelas, de doação do sol, ou de transporte do mundo, teria um objecto fisicamente impossível,
quer dizer, não exequível, por isso não passível de ser juridicamente atendível.

Do mesmo modo, um contrato de compra e venda de carne humana, ou de tráfico de pessoas, ou


ainda o de fornecimento de armas aos malfeitores, seria legalmente inválido, embora fisicamente
possível.

d) Forma - a forma dos contratos obedece em regra ao princípio da liberdade das partes. As partes
estão, pois, livres de celebrar os contratos segundo a forma que quiserem. Mas, em certos e
determinados casos, a lei impõe uma determinada forma a ser observada, sendo os contratos nulos
quando celebrados sem respeitar essa forma. É o caso do contrato de compra e venda ou doação
de imóveis: estes contratos devem ser celebrados por escritura pública. Não o sendo, são
ineficazes. Portanto, a eficácia de um contrato pressupõe a verificação cumulativa destes
requisitos31:
- Livre acordo das partes;
- Capacidade de exercício de direitos das mesmas.
- Objecto possível física e legalmente;
- Respeito pela forma legal estabelecida para o tipo de contrato em questão

28
Art. 79 n.º 1 da Lei em vigor de Trabalho, n.º 8/98, de 20 de Julho e arts. 26 n.º 1 e 23 n.º 3 da Lei n.º 23/2007, de 1 de Agosto, que é a nova Lei de
Trabalho.
29
Vide a Constituição, a Lei Eleitoral e a do Serviço Militar Obrigatório;
30
Art. 130º CC e art. 9º do C. Com, respectivamente.
31
Sobre esta matéria, maiores desenvolvimentos em J. Pires Cardoso, Noções de Direito Comercial, 14ª ed., p. 156 e ss, Editora Rei dos Livros.

32
3.2.2. Classificação dos contratos
Os contratos podem ser classificados segundo vários critérios 32. Todos os contratos que as empresas
celebram no exercício das suas actividades classificam-se em várias modalidades33.
A título de exemplo, são de apontar as seguintes classificações34:
a) Contratos típicos e atípicos - A distinção assenta no critério da previsão legal. Os contratos
típicos são todos os que têm uma lei que os regula, enquanto que os atípicos são os que não estão
previstos em nenhuma lei. Assim, são típicos todos os contratos previstos no C. Com., no C. Civil
e em alguma legislação avulsa.

À luz da nossa lei comercial, estão tipificados os seguintes contratos35:


a) Contrato de compra e venda mercantil, previsto no arts. 477 e ss do CCom;
b) Contrato de reporte, previsto no arts. 478 e ss, do CCom;
c) Contrato de escambo ou troca, previsto apenas no art. 496 do CCom;
d) Contrato de fornecimento, previsto no arts. 497 e ss do CCom
e) Contrato de prestação de serviços, previsto no arts. 509 e ss do CCom;
f) Contrato de Agência, previsto no arts. 522 e ss do CCom;
g) Contrato de transporte, previsto no arts. 557 e ss do CCom;
h) Contrato de associação em participação, previsto no arts. 600 e ss do CCom;
i) Contrato de Consórcio, previsto no arts. 613 e ss do CCom

Os contratos aqui indicados, porque estão na lei, designam-se, como se disse, contratos típicos; uns são
formais outros consensuais; uns são sinalagmáticos, outros não; uns são de execução continuada, outros
não; uns são de adesão outros não; uns são gratuitos e outros onerosos.

32
A doutrina jurídica neste domínio está ainda em evolução, pelo que a lista de critérios em interminável.
33
Para o nosso objectivo, tem interesse também clarificar os conceitos de contratos administrativos, contratos laborais e contratos comerciais.
 Contratos administrativos - são os contratos de empreitada e de concessão de obras públicas, os de concessão de serviços públicos e os de
fornecimento contínuo e de prestação de serviços, contratos esses celebrados entre a administração pública e os particulares, para fins de imediata
actividade pública. São exemplos de contratos administrativos o contrato entre o Ministério das Obras Públicas e habitação e uma empresa construtora
de estradas, para reabilitar a Estrada Nacional n.º 1, troço Chissibuca - Xai-Xai ou o contrato entre a UEM e uma empresa privada de construção civil,
para a construção da Biblioteca Central.
 Os contratos laborais são os que vinculam determinados indivíduos a certas empresas, como são os casos dos contratos de trabalho e, de certo modo, os
de prestação de serviços.
 Os contratos comerciais são os celebrados pelas empresas, no âmbito da sua actividade comercial, como por exemplo os de compra e venda de
mercadorias, matérias-primas, de material de escritório, de equipamentos diversos ou de fornecimento de água e energia à fabrica.
34
Sobre esta matéria, maiores desenvolvimentos em Inocêncio Galvão Telles, Manual dos Contratos em Geral, Reprint, 3ª ed., p. 381 e ss, Lex, Lisboa,
1995.
35
Vide Código Comercial de Moçambique, aprovado pelo Decreto - Lei n.º 2/2005, de 27 de Dezembro.

33
Porém, as empresas podem celebrar outros contratos não previstos na lei comercial, desde que não
ofendam as outras leis do sistema. Estes designam-se por contratos atípicos36-37, como são os casos de:
- Locação financeira;
- contrato de empréstimo;
- contrato de cessão de créditos;
- contrato de factoring;
- contrato de franchising;
- contrato de concessão comercial;
- contrato de Know- how;

Estes também, ainda que atípicos, podem filiar-se nas classificações anteriores já estudadas, e noutras não
estudadas.

Um dos contratos que a lei civil moçambicana consagra é o da constituição da sociedade 38, podendo esta
ser civil ou comercial.

b) Contratos formais e consensuais - A distinção assenta no critério da forma de celebração. Os


contratos formais são os que só valem se forem celebrados como a lei impõe, portanto, os que
obedecem à forma exigida por lei, como por exemplo a constituição de uma sociedade em que
estão inclusos bens imóveis que exige a escritura pública, ou a constituição de sociedade que não
envolve bens imóveis, em que a assinatura dos sócios deve ser reconhecida presencialmente, art.
90 n.º1 CCom. Diferentemente, os contratos consensuais ou não formais são os que valem, seja
qual fôr a forma seguida para a sua celebração: gestos, diálogo, escrita particular, escritura pública
ou qualquer outra forma notória de exprimir a vontade – art. 219º do CC moçambicano.

c) Contratos sinalagmáticos e não sinalagmáticos - A distinção assenta no critério da existência ou


não do sinalagma nos mesmos. Contratos sinalagmáticos são os que fixam direitos e obrigações
para cada parte interveniente, como é o caso do contrato de trabalho, do contrato de compra e
venda, do contrato de leasing e do contrato de fornecimento. Diferentemente, os contratos não
sinalagmáticos são os que fixam direitos para um lado e deveres para outro lado, portanto, não

36
Sobre esta matéria, maiores desenvolvimentos em Roberto de Oliveira Murta, Contratos em Comércio Exterior, Edições Aduaneiras, 2004. No memo
sentido, Alexandre Gnocchi, Contratos de Know How & Royaltis no Brasil, Inventa, 1981, Brasil
37
A tipicidade pode ser legal ou social. A tipicidade é previsão legal. A tipicidade social é a sedimentalidade do contrato na vida social. Os contratos
legalmente atípicos, como os alistados aqui podem ser socialmente típicos se forem praticados com frequência.
38
Art. 980º e ss do C.C.

34
comportam um sinalagma, como é o caso do contrato de doação, que fixa deveres para o doador e
direitos para o donatário.

d) Contratos de execução instantânea e contratos de execução continuada - A distinção assenta no


critério do número de operações de execução. Os contratos de execução instantânea são aqueles
cuja viabilização se esgota numa operação, como por exemplo o contrato de troca, de compra e
venda de pão ou de roupa, etc, enquanto que os de execução continuada viabilizam-se através de
várias e sucessivas operações, como é o caso do contrato de fornecimento, de concessão e de
conta corrente.

e) Contratos de adesão e de não adesão – A distinção assenta no critério ou poder de negociação das
partes. Os contratos de adesão são aqueles em que uma das partes se impõe à outra, desenhando
toda a estrutura, a filosofia e o conteúdo do contrato, limitando-se a outra a aderir pela sua
assinatura ou não aderir. É o que sucede com os contratos bancários, contratos de telefone, de
contratos de energia, contrato de água, onde os clientes têm pouco espaço de manobra para
negociar.
Pelo contrário, os contratos de não adesão são aqueles em que ambas as partes discutem as
cláusulas, o conteúdo e a filosofia do contrato em condições de quase equilíbrio. É o que sucede
nos contratos de compra e venda, de transportes, de arrendamento, etc.

f) Os contratos gratuitos e onerosos - os contratos onerosos são os que implicam despesas ou


sacrifícios de ambos os lados, como por exemplo a compra e venda, por contraposição aos
gratuitos, que concentram despesas só numa das partes, como é o caso do contrato de doação.

3.2.3 Princípios dos contratos


A celebração de contratos assenta em determinados princípios
 Liberdade contratual;
 Atipicidade;
 Consensualismo;
 Eficácia inter-partes;
 Boa-fé
 Pontualidade

3.2.4 Garantias dos contratos

35
A celebração de contratos dá lugar à vinculação entre pessoas as pessoas, vinculação em Direito das
Obrigações

Cada parte obriga-se a realizar determinadas prestações e dentro de certos prazos.

Pode suceder que haja de uma parte incumprimento do contrato.


Incumprimento defeituoso do contrato – lesão dos interesses doutra parte

Para acautelar tais interesses existem as chamadas garantias das obrigações e garantias dos contratos.

A primeira garantia é o património da parte faltosa, que funciona como garantia geral das suas obrigações
 As dívidas que contrair são pagas com os seus bens;
 Os prejuízos que causar a outrém são pagos com os seus bens;
 Esta garantia funciona nos casos em que não existe no contrato uma garantia especial, ou quando
esta fôr insuficiente.

A segunda garantia é a especial, que é parte do património do faltoso ou património de terceiros afecto à
dívida.
 Pode ser pessoal ou real, isto é, pode recair sonre os patrimónios de terceiros, como sobre alguns
bens próprios

Portanto, a garantia pessoal é o património doutrém, que fica afecto à dívida de alguém. São exemplos
garantias pessoais:
-
Fiança39;
-
Aval40
-
Abonação ou sub-fiança41;
-
Retrofiança42;
-
Avales do Estado

São exemplos de garantias reais:

39
Cfr. art. 627 CCom.
40
Cfr. art. 733 e 806 CCom.
41
Cfr. art. 630 CC.
42
Cfr. art. … C

36
- A prestação de caução43;
- A consignação de rendimentos44
- Os privilégios creditórios45;
- A Hipoteca46;
- O Penhor47;
- O Direito de retenção48

Verificado o incumprimento da obrigação, ou prejuízo, o credor lança a mão à garantia que se mostrar
ajustada ao caso.
3.2.5. Extinção dos contratos
Os contratos extinguem-se por causas comuns ou especiais.

São causas comuns:


- o cumprimento;
- o termo do seu prazo;
- o acordo das partes

São causas especiais as específicas de cada contrato. Estas são variáveis de contrato para contrato e são
fixadas pelas partes.

43
Cfr. art. 623 e ss CC.
44
Cfr. art. 656 e ss CC.
45
Cfr. art. 733 CCom.
46
Cfr. art. 686 e ss CC.
47
Cfr. art. 666 e ss CC.
48
Cfr. art. 754 CC.

37
Tema 4
Da modificação e da transformação das empresas
4.1. Tipologia
Uma empresa tem um ciclo de vida: constitui-se, evolui e pode extinguir-se. A constituição de uma
empresa obedece à legislação de cada Estado e obedece a três tipos de requisitos, nomeadamente:
requisitos gerais ou comuns, requisitos especiais da área de actividade e requsitos especiais de tipo de
empresa ou sociedade.

Durante a sua vida, uma empresa sofre ou pode sofrer alterações diversas e, nalgum momento, pode-se
extinguir por alguma razão

Essa alterações podem ser de dois tipos, a saber: modificações e transformações.

Nas modificações a empresa permanece a mesma quanto à forma e quanto à estrutura mas nela mudam
alguns aspectos superficiais do seu pacto social ou diploma de criação. Portanto, a empresa permanece
com a mesma estrutura e forma alterando-se apenas alguma ou algumas cláusulas do seu pacto social.

São exemplos as simples alterações, porque estas não perigam interesses de terceiros, não diminuem as
garantias dos credores. Estas são aquelas para cuja efectivação é bastante a vontade dos sócios, por não
poderem vir a prejudicar terceiros, em especial os credores da sociedade. Assim, mudanças da firma
social, do objecto, da sede, de gerência, e bem assim o reforço do capital social e em geral, todas as
aterações ao pacto social, que não possam diminuir as garantias da sociedade, ou dos sócios, em relação
aos seus credores.

A mudança da firma, do objecto, da sede, da administração e aumento do capital são outros exemplos.

A redução do capital social ou do Fundo de Constituição, sendo que não pode ser feita sem a
concordância dos credores. A alteração do pacto que pode influir nas garantias oferecidas pela sociedade,
principalmente em relação aos seus credores. Por isso, a redução do capital não pode efectivar-se quando
a ela se aponham as pessoas que provem ser prejudicadas com tal deliberação.

Prorrogação do prazo de duração da sociedade, desde que a maioria dos sócios aceite

Se a sociedade tem um prazo fixo para a sua duração, terminado esse prazo terá de promover-se à sua
dissolução, salvo se ele fôr prorrogado, mas para se operar a prorrogação, é necessário não haver outro

38
motivo legal de dissolução e concordarem com ela os sócios, ou pelo menos, os que representem dois
terços do capital social.

Nas transformações das empresas temos a considerar a transformação propriamente dita e a cisão.
Transformação propriamente dita é a mudança da forma duma sociedade que, sendo de uma certa espécie
(por exempplo sociedade em Nome Colectivo, passa a ser de outra espécie (por exemplo, sociedade por
quotas). Para a constituição de uma nova sociedade, têm de verificar-se todos os requisitos que a lei
considera indispensáveis.

A transformação propriamente dita pode tomar a forma de fusão propriamente dita, que é a juncão de
duas ou mais sociedades numa só, do mesmo tipo ou de tipos diversos, extinguindo-se aquelas e dando
origem a uma entidade jurídica, ou fusão do tipo incorporação, que é a integração de uma ou mais
sociedades numa outra, extinguindo-se as primeiras e conservando esta última a sua firma e os seus
estatutos.

Para que possa efectuar-se a fusão propriamente dita ou a incorporação é necessária: i) a deliberação dos
sócios de cada uma das sociedades interessadas, em reunião dos seus sócios, publicação em conjunto
dessas deliberações e seu registo provisório e ii) que não haja oposição dos credores no prazo de trinta
dias após a publicação, ou que seja julgada improcedente pelo Tribunal essa oposição.

Para além da transformação propriamente dita, podemos ter a cisão, que pode ser: i) cisão simples -
separação de parte do património duma sociedade, para com ela se constituir uma nova sociedade; ii)
cisão-dissolução: dissolução duma sociedade e divisão do seu património, sendo cada uma das partes
destinadas a constituir uma nova sociedade e iii) cisão-fusão; separação de partes do património duma
sociedade ou divisão deste (dissolvendo-se), em duas ou mais partes, para as fundir com sociedades já
existentes ou com partes do património de outras sociedades separadas por idênticos processos e com
igual finalidade.

39
Tema 5
Dos problemas jurídicos que podem afectar a actividade empresarial

A actividade das empresas pode ser afectada pelos seguintes problemas:


 Gestão ruinosa;
 Condenações judiciais na sequência de impugnação de despedimentos;
 Incumprimento das obrigações para com os forncedores;
 Incumprimento das obrigações para com os clientes;
 Incumprimento dos prazos contratuais;
 Incumrimento das obrigações fiscais;
 Incumprimento das obrigações para com os trabalhadores;
 Concorrência de outras empresas da mesma área;
 Falência.

40
Tema 6
Da Falência49 e recuperação das empresas

 A falência pressupõe a insolvência, que é a situação jurídica em que se encontra uma pessoa cujo
passivo é superior ao activo;
 A falência é requerida e declarada pelo Tribunal;
 Pode ser culposa, dolosa ou casual;
 Pode ser combatida:
- Pelas providências de recuperação;
- Pela concordata.

49
Sobre esta temática, maiores desenvolvimentos na Lei da Falência.

41
Tema 7
Da dissolução e liquidação das empresas

7.1. Causas comuns de dissolução


 Findo o tempo por que foram constituídas, não havendo prorrogação;
 Extinção por cessação do objecto da sociedade;
 Ilicitude superviniente do objecto contratual;
 Falência da empresa;
 Diminuição do capital em metade se se não fizer logo entradas que mantenham, pelo menos em
dois terços o capital social.
 Acordo dos membros nos termos legais e/ou estatutários;
 Fusão com outras empresas.

7.2 Causas especiais de dissolução


A lei estabelece outras causas para a dissolução, aplicáveis apenas a esta ou aquela espécie de empresa e
podem também os membros convencionar outras causas de dissolução, para além das consignadas na lei,
as quais deverão constar de cláusulas do pacto social ou estatutos.

7.3 Actos posteriores à dissolução


a) Liquidação – tem por objecto realizar as operações necessárias para que os bens sociais fiquem em
condições de ser partilhados, isto é, apurar o activo e o passivo e pagar as dívidas da sociedade.

b) Partilha - divisão, pelos sócios, do remanescente apurado depois do pagamento das dívidas. Caso
não tenha restado nada, não há lugar à distribuição.

42
Tema 8
Dos títulos de crédito

A actividade bancária iniciou com a emissão e o manuseamento físico da moeda, no âmbito do comércio
bancário.

Com o tempo, a Humanidade foi inventando e utiizando instrumentos representativos de valores

Hoje, tais instrumentos incorporam diferentes tipos de valores, nomeadamente em documentos e em


valores mobiliários.

Os valores mobiliários situam-se num ramo de Direito próprio, o Direito dos Valores Mobiliários,
enquanto que os valores incorporados em documentos são matéria do Direito Bancário. Estes últimos
formam os chamados títulos de crédito.

Vamos agora estudá-los porque a sua utilização no âmbito da actividade empresarial é inevitável e é
importante.

8.1 Noção
A expressão “título de crédito” não é utilizada aqui com o seu sentido rigoroso de título representativo
de crédito.

Alguns dos títulos representam dinheiro, mas outros representam direitos reais, como por exemplo
mercadorias, enquanto que outros ainda representam serviços.
Vamos assim definí-los como documentos representativos de direitos, que são necessários e suficientes
para o seu portador exercer tais direitos literais e autónomos neles expressos.

8.2 Utilidade e importância


Os títulos de crédito têm uma função económica muito importante. Eles são:
- meios de pagamento;
- meios de financiamento e;
- facilitam a circulação de bens;

8.3. Principais títulos de crédito


a) Cheque;

43
b) Letra
c) Livrança
d) Extracto de factura
e) Conhecimento de depósito ou de carga - representa a propriedade
f) Warranty ou cautela de penhor - representa a posse das mercadorias
g) Acções
h) Obrigações
i) Bilhetes

8.4 Características gerais


Um título de crédito caracteriza-se pelo seguinte:
a) Incorporação;
b) Literalidade;
c) Abstracção;
d) Autonomia;
e) Fácil transmissão

A incorporação significa que cada um daqueles documentos incorpora um direito, passando por isso a
ser um valor em si mesmo, um título.

Em resultado desta fusão do direito com o documento, formando uma unidade, o direito incorporado
passa a chamar-se direito cartular ou direito emergente do título de crédito. Assim, é direito cartular
- o direito de viajar traduzido no bilhete;
- o direito de levantar a mercadoria consubstanciado no conhecimento do depósito;
- o direito de levantar o montante expresso no cheque emitido a favor de alguém.

A incorporação significa que o documento não é apenas um meio de prova, mas também condição
necessária, pela sua emissão, para a existência do direito e para o exercício desse direito.

A literalidade significa que o texto expresso no documento determina o conteúdo os limites e as


modalidades do direito em questão.

Quer dizer, o teor do título determina o direito, portanto, este direito vale exclusivamente em função da
letra ou texto contido neste mesmo documento. Se o título diz que tem a receber “vinte mil meticais” são

44
esses que vai receber e não trinta mil meticais nem 20 mil dólares ou pesetas, não se pode dizer que a
importância nele indicada é superior ou inferior à real, que a coisa a entregar não é a constante do
documento, que a prestação de serviço a efectuar é diferente da que conste do documento.
Em suma, a literalidade significa que o documento só vale pelo que nele está escrito, nada podendo haver
em contrário ou além disso

A abstracção significa que o direito cartular é abstracto ou seja, ele só se exprime pela letra do texto.

Assim, o cheque emitido e entregue para pagar uma compra vale em sí mesmo, independentemente dessa
compra.

A autonomia significa que o direito expresso no título é independente dos negócios que lhe deram
origem relação entre o devedor e o credor.

A pessoa a quem tenha sido transmitido o crédito fica sendo um credor com direito próprio, independente
da que o transmitiu, como se fosse um direito originário, nascido pela primeira vez, não podendo,
portanto, ser oposto a essa pessoa.

A fácil transmissão significa que por ser um documento em regra pequeno, é portátil e facilmente
transmissível.

8.5 Classificação dos títulos de crédito


8.5.1 Critérios possíveis
 Natureza jurídica da entidade emitente;
 Conteúdo do direito cartular ou natureza do direito representado
 Ligacão com o negócio subjacente;
 Modo de emissão;
 Modo de transmissão;
 Função económica
 Efeitos.

a) Pelo critérios de natureza jurídica do emitente ou pessoa do devedor, os títulos classificam-se em:
 Títulos públicos isto é, emitidos por entes públicos;
- Títulos de dívida pública;

45
- Bilhetes de Tesouro.

 Títulos privados isto é, emitidos por entidades privadas ou particulares


- Cheques;
- Letras;
- Livrança;
- Acções;
- Obrigações

b) Pelo critério do conteúdo do direito cartular ou seja, natueza do direito representado ou


incorporado, os títulos classificam-se em:
- Títulos representativos de moeda - quando os bens a entregar pelo devedor, contra a entrega do
título, são constituídos por moeda, como acontece com a letra, as notas de banco, os cheques, as
obrigações emitidas pelas sociedades, os títulos de dívida pública, etc;

- Títulos representativos de direitos sociais - os que atribuem ao seu possuidor direitos de


características diversas, tais como as acções das sociedades comerciais que dão direito a exigir os
dividendos e o capital, bem como a tomar parte nas assembleias gerais.
- Títulos representativos de mercadoria - os que conferem o direito, mediante a sua apresentação,
a receber determinada mercadoria e que dependem, muitas vezes, dum contrato em que se acha
implícita a entrega dessa mercadoria e a sua posterior restituição. É o caso das guias de transporte,
os recibos de depósitos nos armazéns gerais e nos entrepostos, os conhecimentos de embarque.

- Títulos representativos de serviços - aqueles que conferem ao portador o direito de, mediante a
sua apresentação, lhe ser prestado um serviço. É o que sucede com os bilhetes de caminhos de
ferro, os bilhetes dos eléctricos, dos teatro ou os que dão ingresso numa exposição, etc.

a) Pelo critério da ligação com o negócio subjacente

Há várias classificações de títulos de crédito.

46
Títulos causais – os que têm ligação com os negócios que nascem e portanto, facilitam a circulação de
direitos, de mercadorias, de serviços, de obrigações. Com esta característica fica rebatida a noção de
autonomia.

Títulos abstractos – os que não têm ligação com os negócios de que nascem (letras, cheques, livranças)
b) Pelo critério do modo de emissão, os títulos classificam-se
- Títulos emitidos em série ou em massa, os que eram para ser entregues a muita gente
- Títulos emitidos individualmente - os que são para cada um.

c) Pelo critério do modo ou forma de transmissão, os títulos classificam-se em:


- Títulos à ordem - transmissão por endosso.- Este não é mais do que uma simples ordem,
geralmente escrita no verso do documento e expresso nos seguintes termos: “pague-se ao sr. F...
ou à sua ordem”

Os títulos desta natureza, que o uso comercial mais tem generalizado, são as letras, livranças,
cheques, (quando não forem ao portador, conhecimentos de depósito e cautelas de penhor (dos
armazéns gerais), guias de transporte, quando passadas à ordem e conhecimentos de carga do
transporte marítimo, também quando passados à ordem)

- Títulos a portador – os que cuja transmissão é por traditio, isto é, pela sua entrega real. Não é
necessária, pois, qualquer declaração ou outra formalidade: apenas a passagem do título de mão
em mão. Esta entraga do título é também necessária, mas não bastante, pois, a posse do
documento é condição indispens’avel para se exercer o direito que nele se mencione.

São títulos ao portador de uso muito frequente: as notas de banco e, - quando passados ao
portador, os cheques, as acções, as obrigações, os conhecimentos de carga e as guias de
transporte.

- Títulos nominativos – os que cuja transmissão por declaração e averbamento no título e no Livro
porque tem o nome.

47
Estes títulos são emitidos a favor de uma pessoa determinada, perante a qual o emitente se obriga, e
quando aquela os quiser transmitir, bastar-lhe-á fazer uma declaração escrita, da qual conste o nome do
novo possuidor, declaração que será averbada nos livros de registo da entidade que emitiu os títulos.
Exemplos frisantes de títulos desta natureza são as acções e as obrigações (quando nominativas).

- Títulos nominativos mistos - são títulos que, produzindo rendimento (juros ou dividendos) para
os seus detentores (como é o caso de certas acções e de certas obrigações), são nominativas
quando ao capital que eles representam e são ao portador quanto ao rendimento que possam
produzir.

Os títulos a ordem são aqueles que têm mais aceitação. Dado que os títulos ao portador têm o
perigo da perda ou roubo e os nominativos a dificuldade da sua transmissão.

d) Pelo critério da função económica, os títulos podem ser:


- Meios de pagamento – seu exemplo o cheque;
- Meios de financiamento a curto prazo - por exemplo a letra;
- Meios de financiamento a longo prazo - por exemplo obrigações

e) Pelo critérios dos efeitos, os títulos podem ser:


- Títulos com efeitos comerciais;
- Títulos que são valores mobiliários;

f) Pelo critério do momento em que devem ser pagos, os títulos podem ser:
- À vista, se o pagamento deve ser feito no momento em que o título é apresentado ao devedor,
constituem exemplos, o cheque e o conhecimento de depósitos e, por vezes a letra.

- A prazo, se o pagamento deve ser feito em data certa ou em data contada desde certo dia,
mencionado no título: acontece, entre outros, às letras e às livranças;

- Com aviso prévio, quando o reembolso do credor se realiza após o decurso de um prazo,
contado a partir do dia em que se avisa o devedor para efectuar a entrega. Sucede com os títulos
de certos depósitos bancários (os depósitos com aviso prévio) e de alguns empréstimos, nos
quais se estabelece esta condição.

48
O desenvolvimento do crédito nas sociedades modernas deve-se principalmente, à possibilidade de se
dispor de títulos de crédito. Estes, tal como o crédito, podem designar-se por títulos a curto prazo e títulos
a longo prazo. os primeiros são constituídos essencialmente pela letra e, também, pelo cheque. Os
segundos, pelos certificados de renda perpétua do Estado e pelas obrigações emitidas pelas sociedades
anónimas.

8.6. A transmissibilidade e a negociabilidade dos títulos de crédito


No comércio moderno existe a tendência de representar o crédito por um título, a fim de facilitar a sua
circulação e tornar mais simples a sua cobrança.

O crédito só se transmite quando se transmite o título e só é exigível quando se apresenta o título.


Assim, a transmissão dos títulos de crédito nominativos, faz-se por cessão ou averbamento com a
cooperação do devedor, que intervém averbando nos seus livros e no título a transferência realizada.

A transmissão dos títulos de crédito à ordem e ao portador faz-se por circulação, a dos primeiros por meio
dum endosso, é uma inscrição aposta no verso do título, pelo qual o portador o transmite a outra pessoa,
sem a intervenção do devedor, a dos segundos, pela simples entrega de mão em mão (tradição, sendo
dispensada qualquer declaração ou outra formalidade.

8.7. Outras informações sobre títulos de crédito


As acções e as obrigações, sendo títulos de crédito, costumam, também, designar-se por papéis de
crédito, por serem títulos que dão rendimentos.

Os papéis de crédito são negociáveis, compram-se e vendem-se. Representam sempre um valor


monetário. Têm, por isso, preço, no mercado financeiro, sob o nome especial de cotação. Esta pode variar
e situar-se, portanto, no mesmo plano, acima ou abaixo do valor nominal - o que está inscrito no título.

Se a cotação iguala o valor nominal, diz-se que os títulos estão ao par: quando desce a nível inferior ao do
valor nominal, fica abaixo do par e, se atinge valor superior ao do valor nominal, diz-se acima do par.

Aos restantes títulos de crédito monetário não lhes é atribuída cotação.

49
Alguns destes títulos de crédito, como a letra, são, também, objecto de certas operações, algumas das
quais, como a do desconto, podem assemelhar-se a uma verdadeira compra-venda.
De todos os títulos deste segundo grupo, o mais importante é, indiscutivelmente, a letra. Na verdade,
desempenha um largo papel económico como:
- Instrumento de pagamento – assumindo a função de moeda, fiduciária, sem no entanto, ter o
carácter de moeda legal.
- A letra, pelo endosso, pode circular dos devedores para os credores, liquidando dívidas e,
quanto maior for a sua circulação maiores garantias reveste o seu pagamento, dada a
responsabilidade solidária de todos os seus intervenientes.
- Instrumento de crédito a curto prazo - pela operação do desconto.
- Meio de transferência de fundos, quer dentro do país, quer entre países diferentes.

8.8 Categorias de títulos


Os títulos de crédito, no sentido em que os encaramos agora, podem dividir-se em tres categorias.
- Fundos públicos, fundos do Estado ou títulos da dívida pública;
- Acções;
- Obrigações

50
SUPORTE BIBLIOGRÁFICO
1. Obras

1. Alfredo, Benjamim - O regime Jurídico do Processo Disciplinar e Despedimento, 1ª Edição,


Maputo
2. Almeida, Carlos Ferreira - Introdução ao Direito Comparado, 2ª edição, Almedina, Coimbra,
1998
3. Bartinez, Pedro Soares - Manual de Direito Fiscal, qualquer edição
4. Busto, Maria Manuel e Iva Carla Vieira- Manual Jurídico da Empresa, 3ª Edição, 1998
5. David, René, - Os grandes sistemas do Direito Contemporâneo, Martins Fontes, São Paulo, 1998
6. De Abreu, Jorge Manuel Coutinho - Curso de Direito Comercial, Vol II, 2ª, Edição, Almedina,
2007
7. Dinis, Almerinda e Outros – Introdução ao Direito, 12º ano, Texto Editoa, Lisboa, 1998
8. Diniz, Maria Helena - Compêndio de Introdução à Ciência do Direito, 12ª Edição, Editora
Saraiva, Rio de Janeiro, 2000
9. Domingues, Paulo Tarso - Do capital social, Coimbra Editora, 1998
10. Duarte, Maria Luísa - Introdução ao Estudo do Direito: sumários desenvovidos, AAFDL, Lisboa,
2003
11. Fernandes, António Lemos Monteiro - Direito do Trabalho, qualquer edição
12. Henriques, Manuel Leal - Procedimento Disciplinar, 3ª edição, 1997
13. Herkenhoff, João Baptista - Como Aplicar o Direito Forense, Rio de Janeiro, 2ª Edição, 1986
14. Leite de Campos, Diogo - Lições de Direito Fiscal, Coimbra, qualquer edição
15. Leite de Campos, Diogo e outros- Direito das Empresas, Ina, 1990
16. Macedo, Sílvio - Introdução à Ciência do Direito, Forense, Vol.I, Brasil, 1970
17. Marques, J. Dias - Introdução ao Estudo do Direito, 2ª Edição, Lisboa, 1994
18. Mendes, Castro - Introdução ao Estudo do Direito, Lisboa, 1994
19. Moncada, Luís S. Cabral - Direito Económico, 2ª Edição Revista e Actualizada, Coimbra
Editora, 1988
20. Monteiro, Manuel Gonçalves - Elementos de Direito Aduaneiro e de Técnica Pautal, Lisboa,
1964
21. Oliveira Ascensão, José de - O Direito: Introdução e Teoria Geral, 11ª Edição, Almedina, 2001
22. Pires Cardoso, J. - Compêndio de Noções de Direito Comercial, qualquer edição
23. Pita, Manuel António - Curso Elementar de Direito Comercial, Áreas Editora, 2004

51
24. Pizarro, Sebastião Nóbrega - Contratos Financeiros, Coimbra, 1991
25. Pupo Correia, Miguel J. A. - Direito Comercial, 6ª Edição, 1999
26. Reale, Miguel - Lições Preliminares do Direito, 10ª Edição, 1982
27. Teixeira, António Braz - Princípios de Direito Fiscal, Vol I, 3ª Edição,
28. Teixeira, António Braz - Princípios de Direito Fiscal, Vol II, Almedina, Coimbra, 1986
29. Telles, Inocêncio Galvão - Introdução ao Estudo do Direito, Vols. 1e 2, 1ª Edição
30. Telles, Inocêncio Galvão – Manual dos Contratos em Geral, Reprint, Lex, 3ª Edição, Lisboa, 1995
31. Xavier, Alberto - Direito Tributário Internacional, Coimbra, 1997
32. Xavier, Alberto - Manual de Direito Fiscal, 1ª Reimpressão, Lisboa, 1981
33. Xavier, Alberto - Noções Fundamentais de Direito Fiscal, qualquer edição

2. Legislação
1. Constituição da República de Moçambique (1975, 1990 e 2004)
2. Código Comercial de 1888, qualquer edição
3. Código Comercial de 2005, qualquer edição
4. Lei n.º 23/2007, Lei de Trabalho
5. Legislação sobre o sistema de Segurança Social, última edição
6. Código do IVA, última edição
7. Colectânea da Legislação Comercial, última edição
8. Colectânea da Legislação Fiscal, última edição
9. Legislação Económica de Moçambique, última edição
Nota:
1. A literatura jurídica aqui indicada pode ser acrescida de qualquer outra que estiver disponível no
mercado.

2. Também não é obrigatória a consulta de toda esta literatura, ela é apenas uma indicação dos
principais materiais de estudo e de consulta na actividade profissional, nesta área.

FIM

52