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José Crisóstomo de Souza

SOBRE PRÁTICA E PONTO DE VISTA PRÁTICO EM MARX

José Crisóstomo de Souza*

O texto aborda as noções de prática e materialismo prático em Marx em uma relação de


aproximação e distinção com as concepções do pragmatismo clássico norte-americano, a partir
das Teses ad Feuerbach e da Ideologia Alemã, de Marx, e de formulações de Peirce, James e
Dewey. De um lado, destaca a fecundidade da noção marxiana de prática e realidade como
atividade sensível para uma interpretação renovada de noções como realidade, objetividade e
conhecimento, e, de outro, chama a atenção para possíveis elementos essencialistas e
transcendentalizantes no pensamento de Marx, que marcariam negativamente o conjunto de
sua obra.
PALAVRAS-CHAVE: Materialismo prático. Pragmatismo. Atividade sensível. Realidade. Conhecimento.

Com a expressão filosofia da práxis refiro-me dade prática sensível por uma aproximação de seu
não só ao marxismo ocidental mas também
ao pragmatismo norte-americano. Habermas materialismo prático (em que ocupa lugar central)
ao pragmatismo, com o qual, segundo meu enten-
dimento, ele guarda pontos de contato tanto quan-
Neste texto, examino a centralidade e a uti- to diferenças essenciais que constituiriam seu viés
lização da noção de atividade prática nas Teses ad transcendentalizante.
Feuerbach, de Marx, de 1845, com alusões tam- Como proponho, o materialismo prático-
bém à Ideologia Alemã, de 1845-46, onde ele trata normativo de Marx, nas Teses (e na Ideologia Ale-
dessa noção junto com outras, correlatas, que a mã), pode ser lido como compreendendo seis
cercam. Chamo o ponto de vista de Marx a respei-
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momentos que se interpenetram e articulam, sem-
to, nessas duas fontes, de materialista prático- pre em torno da noção de prática e realidade como
normativo, enquanto ele próprio prefere “materia- atividade sensível: 1) uma recusa do “empirismo
lismo prático” e, como sinônimo, “comunismo” dogmático”, “positivista”, intuicionista-passivo,
(sic) – dois aspectos que justamente procuro com- mentalista-cartesiano, bem como do alegadamente
binar na denominação por mim sugerida. Enten- impotente idealismo subjetivo; 2) uma superação
do que é esse ponto de vista que Marx (1818-1883) da concepção do mundo e do sujeito como estáticos,
sustenta na sua concepção histórica geral, bem exteriores um ao outro, e, logo, possivelmente, o aban-
como na sua crítica da economia política, embora dono do ponto de vista do “espectador” e de fixação
eu não vá aqui me ocupar de nenhuma das duas objetivista-representacionista do real; 3) uma
detidamente. Neste texto, escolhi esclarecer e co- desqualificação do indivíduo “abstrato” da percep-
mentar as implicações da noção marxiana de ativi- ção empirista britânica como “robinsonada”: a ficção
*Doutor em Filosofia. Professor do Depto. de Filosofia da do indivíduo como dissociado – descontextualizado
Universidade Federal da Bahia. – do “conjunto das relações sociais” e de uma “for-
Estrada de São Lázaro, 197. Federação. 40240-730. Sal-
vador, Bahia – Brasil. jose_crisostomo@uol.com.br ma de vida social determinada” ou “modo de vida”

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(Lebensweise); 4) uma crítica do real social como Uma das especificidades desse pragmatismo com
essencialmente cindido, hierarquizado e atomizado relação a posições “pós-metafísicas” concorrentes,
pelas “más” relações e práticas sociais imperantes, dos nossos dias, é justamente o seu caráter franca-
fundantes ou fundamentais, em que os homens mente construtivo, razoável, além de, por suposto,
são postos por sua prática, que acarretariam o des- prático – citerior, diesseitig, destranscendentalizante.
dobramento ou duplicação do mundo também no Nem por isso, entretanto, um ponto de vista des-
plano do conhecimento e do pensamento, na reli- provido de potencial normativo, crítico, aparecen-
gião e na filosofia; 5) essa crítica é sustentada jus- do como relativista, subjetivista e utilitarista es-
tamente pela dedução ou construção de um fun- treito tão somente para mau entendedor. Nessa li-
damento forte, de fundo, intramundano mas nha, quando falo em pragmatismo, penso nas suas
“essencializado”, que determina, por necessidade, expressões que, de um modo ou de outro, permi-
o rumo da supressão prática da contradição e a res- tem articular ação e conhecimento a sensibilidade
tauração (reconciliação) da unidade-solidariedade social e comunidade democrática, o leitmotiv do
social “perdida”, com o fim da “autoalienação do que meu interesse por essa corrente.
homem” – para além do ponto de vista da Socieda- O que me disponho a chamar de pragmatismo
de Civil Burguesa de hoje, rumo à Sociedade Hu- de Marx, isto é, do lado pragmatista de seu materi-
mana, Comunista, de amanhã, pela necessidade e alismo prático normativo, são posições expressas,
pelo “imperativo categórico” de sua realização. de modo muito condensado, principalmente nas
Tudo isso é atravessado por um desafio de Teses ad Feuerbach (1845), onde ele trata de modi-
“epistemologia política”, de congruência de pon- ficar, justamente por uma acentuação prático-
tos de vista “epistemológicos” sobre conhecimen- ativista, social-comunista, o humanismo-materia-
to e desconhecimento, com posições político-eco- lismo feuerbachiano – que também guarda afini-
nômico-sociais práticas, com que Marx pretende dades com o pragmatismo.1 São posições, as de
refutar o ponto de vista liberal e sustentar seu ponto Marx, já aí comprometidas, porém, com elemen-
de vista comunista. Com relação a isso, entendo tos não pragmatistas que eu chamaria de
que, não obstante procurar assumir integralmente transcendentalizantes (como possivelmente os
um ponto de vista prático-relacional, Marx perma- pontos 4 e 5 acima), além de cartesianos e
nece ainda preso a elementos subjetivistas, subjetivistas, que, infelizmente, teriam acabado por
mentalistas-solipisistas, representacionistas (mate- acentuar-se e prevalecer na sua obra. Elementos
rialistas burgueses, séc. XVIII, se se quiser), por que podem acarretar consequências piores para as
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um subjetivismo magnificado, numa hipertrofia da práticas nela inspiradas (pelo menos como avalia-
figura do sujeito, com recurso às categorias do ide- das desde esse nosso começo de séc. XXI), mais
alismo transcendental alemão. Aqui, entretanto, especificamente para a democracia como a comu-
por razões de espaço, só poderei me ocupar mais nidade que queremos.2
diretamente dos primeiros pontos acima listados.
1
A filosofia de Feuerbach é um humanismo não apenas
Tomo o pragmatismo, com o qual proponho em sentido ético (enquanto voltada ao altruísmo), mas
pôr Marx em diálogo, como uma posição no interi- também por pretender superar os vícios da filosofia an-
terior por uma redução ao “humano” – o humano sen-
or de um conjunto de posições aparentadas, carac- sível, afetivo, comunitário. O teuto-britânico Ferdinand
Schiller (1864-1937), um dos pais-fundadores do
terísticas da filosofia contemporânea. Isto é, como pragmatismo, também caracterizou sua filosofia como
humanismo, invocando a conhecida máxima
um caso interessante de virada pós-metafísica, de protagoriana de que o homem é a medida de todas as
transformação anticartesiana, antissolipsista, não coisas, enquanto William James repetia que “o rastro da
serpente humana está em todas as coisas”.
fundacionista, da filosofia. Ou ainda, para não fi- 2
As Teses ad Feuerbach aparecem aqui traduzidas por mim
car apenas em expressões negativas, como um tipo do original alemão, Thesen über Feuerbach, publicado em
Marx; Engels. Thesen über Feuerbach. In: MARX, Karl;
de virada prática e social da filosofia, conciliada ENGELS, Friedrich. Werke. v.3. Berlim: Dietz Verlag, 1958.O
texto original de Marx aparece na p.5 do volume, e a ver-
com o tempo, o devir e a contingência no mundo. são modificada por Engels, na p. 533.

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Desse modo, meu tratamento de Marx quer de interlocução e elaboração filosóficas contempo-
ser aqui, a um só tempo, de interpretação, recupe- râneas. Não só porque os próprios “pragmatistas
ração e crítica das formulações que trago à discus- clássicos” (Peirce, James, Schiller, Dewey e Mead)
são, que se constituem num germe filosófico con- apresentaram-se, de saída, tanto relacionados como
traditório, além de, por suposto, nas Teses, não consideravelmente diferenciados entre si (“uma
desenvolvido.3 Formulações das quais Marx teria casa dividida contra si mesma”, dizia Peirce), como
se afastado, para longe de valiosos insights dos também porque assim se apresentam seus mais
começos do seu não contemplativo materialismo recentes “filiados” (como Quine, Rorty, Putnam,
prático-histórico. E digo valiosos porque, de outro Wellmer ou Habermas), na interlocução que man-
lado, não obstante perdidos por Marx e pelo mar- têm uns com os outros e com aquela herança co-
xismo, poderiam apresentar vantagens com rela- mum. O pragmatismo poderia, então, ser conside-
ção a algumas das posições filosóficas que hoje se rado como um terreno para o qual têm convergido
reivindicam ou são reconhecidas como – justamente por uma “virada pragmatista” – ex-
pragmatistas. Isto é, com relação a formulações do pressões relevantes da elaboração filosófica con-
“pragmatismo clássico”, mas principalmente com temporânea, de diversa procedência, em confron-
respeito a algumas de suas expressões mais recen- to e diálogo, como um verdadeiro work in progress,
tes (v. g. Habermas e Rorty). E acredito que o mes- em um campo vivo e aberto.5
mo pode valer para formulações semipragmatistas Para agregar respaldo ao que digo, posso
de autores como Quine ou Wittgenstein, aparente- invocar alguns testemunhos respeitáveis, em rápi-
mente enredadas ou limitadas (do meu ponto de das pinceladas, cedendo momentaneamente ao que
vista), seja por certa ideia de ciência natural como Peirce (1839-1914) chamaria de método de autori-
paradigma de todo conhecimento, seja por uma dade. Com efeito, Jürgen Habermas, que procede
“linguistificação” do ponto de vista prático, seja do marxismo e da filosofia clássica alemã, entende
pelas duas coisas.4 que o pragmatismo é, nos nossos dias, uma “pon-
Trato de me concentrar no exame das Teses te transatlântica [entre a Europa e a América] para
em razão de seu caráter sintético, filosoficamente um vivo intercâmbio intelectual.” Segundo ele (que
programático, de suas qualidades de germe e cerne, já se considera em posição de corrigir, de um pon-
como um conjunto de elementos suscetíveis de to de vista mais pragmatista, o neopragmatismo de
interpretação e desenvolvimento. Sobretudo por Rorty),6 é no pragmatismo que desembocam hoje
tais elementos constituírem-se, nessa forma, num nada menos que os processos conjugados de

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poderoso entrelaçamento, numa só concepção, de autocrítica de kantismo e hegelianismo.7 O que não
formulações básicas sobre ação, conhecimento, deveria soar tão estranho, pois o pragmatismo,
realidade, subjetividade e normatividade (ou Habermas defende (tal como eu), deita raízes tam-
idealidade). É também meu pressuposto que o bém “no idealismo alemão e no próprio Marx,”
pragmatismo pode ser tomado, hoje em dia, não podendo, em certos casos, ser considerado “uma
apenas como uma determinada corrente ou tradi- variante democrática do jovem hegelianismo e da
ção norte-americana, mas também como um “ter- 5
O pragmatismo de Habermas é assumido abertamente
reno” (do qual trato justamente de aproximar Marx) em Verdade e Justificação (2004). Quanto a Albrecht
Wellmer (2004). Registrando a mesma virada pragmatista,
ver Bernstein (2010). Quanto a Hillary Putnam (1995).
Minha alusão ao pragmatismo como “terreno” pode ser
3
Não obstante isso, é nas Teses que se encontra, para ainda interpretada como referência ao seu caráter citerior,
Engels, o embrião de toda a “genial” concepção madura destranscendentalizado, isto é, à sua terrenalidade.
6
de Marx. “O verdadeiro herdeiro do pragmatismo é Habermas” (em
4
Apesar de sua consideração pela ciência experimentalista, comparação com Rorty), conclui Claude Piché (2003, p.25).
não creio que o pragmatismo, como tradição, deva ser Sobre isso, ver também Aboulafia; Bookman; Kemp (2002).
7
caracterizado como “cientificista” (nem circunscrito como Esse é o entendimento de Habermas (1989). O pragmatismo,
“epistemologia”), ao modo do neopositivismo ou do acredito, é onde bem poderia desaguar igualmente a
empirismo lógico, nem, por outro lado, deva ser “tragado” autocrítica do marxismo – aliás, o próprio Habermas
pela virada linguística derivada do campo desses últimos. pode ser considerado como uma versão disso.

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filosofia da práxis.” Observe-se, com relação a isso, temos aqui elementos para uma noção do que pode
que Peirce, ao tempo em que reconhece suas pos- ser pragmatismo e para tentar um diálogo crítico
teriores convergências com Hegel, admite “ter che- com o ponto de vista das Teses a partir dele.
gado à filosofia através da porta de Kant,” enquan- O que dizem afinal as Teses ad Feuerbach
to Dewey e Mead formaram-se inicialmente como sobre a ação? Onde está seu pragmatismo? Bem,
hegelianos, e William James em contato direto com numa palavra: aquilo que Marx, como bom
o ambiente filosófico da Alemanha e da França do pragmatista, faz, nas Teses, é justamente, ao seu
seu tempo.8 modo, introduzir o agir (bem como propósitos e
Do lado da filosofia analítica, Hyllary avaliações humanos) “dentro” do conhecer e do
Putnam, em convergência com Habermas, tem com- “ser”. Para começar, nosso socialista científico,
preendido o pragmatismo como “uma questão em quando constrói seu materialismo prático-
aberto,” como “um modo de pensar de duradoura normativo (prático-crítico), e trata de falar não
importância,” e, finalmente, “uma opção para o escolástica ou metafisicamente, mas praticamente,
pensamento filosófico de hoje.” Antes dele, Willard de realidade e conhecimento, não faz (nas Teses)
Van Quine, outro analítico que contribuiu para a alusão expressa a “ciência” ou “científico” (não,
virada “antidogmática” do empirismo numa dire- em todo caso, em sentido “positivista”), nem pare-
ção pragmatista, tratou de acolher o que seriam ce, de início, inclinado a apresentar as coisas como
seus dois melhores achados: 1) que o significado elas seriam “em si mesmas”, segundo uma con-
de uma asserção é a disposição de agir de acordo cepção tradicional de objetividade.10 Ele insiste,
com ela, e 2) que a verdade é, pelo menos em certa em vez disso, em noções como prática e atividade
medida, criada, e não simplesmente descoberta, humana sensível (Praxis e sinnliche Tätigkeit), além
pelos homens. Enquanto Putnam, com quem de, em consequência, perspectiva ou posição
Habermas compartilha um pragmatismo (Standpunkt, ponto de vista) e interpretação práti-
kantianizado, adota expressamente, da tradição cas, parecendo desinflar, com isso, a noção de te-
pragmatista, entre outras coisas, a rejeição dos oria. Outro traço que sugere que o materialismo
dualismos tradicionais da filosofia moderna, em prático das Teses procura fugir do ponto de vista
favor da ideia de “interpenetração de fato, teoria, realista-empirista tradicional é também seu recur-
valor e interpretação,” que corroeria tanto o “rea- so reiterado a expressões como “apreender” ou
lismo metafísico” como os “pós-modernismos” e “captar” (fassen), “conceber” (begreifen), “conside-
“antirrealismos da moda.” Por fim, Habermas (que rar” (betrachen), além de “entender” (verstehen),
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admite sua filiação e de Karl-Otto Apel a Charles “interpretar” (interpretieren) e “querer” (will). Pois,
Peirce) ainda caracteriza apropriadamente o embora isso por si só não caracterize uma pers-
pragmatismo não só como uma via cosmopolita, pectiva prático-ativa, de centralidade da ação prá-
contemporânea, de “destranscententalização” e de tico-sensível, sublinha um papel ativo para o su-
superação da “filosofia da consciência” e da “razão jeito que conhece, ainda que seja dele apenas como
centrada no sujeito,” como também pela “atitude
antielitista e democrática, igualitária, [que] penetra Hegel são reconhecidas por Peirce (1983); do mesmo
modo que por Robert Brandom, para Kant (Brandom,
o trabalho de todos os pragmatistas”.9 Com o que já 2011), e por Robert Stern, para Hegel (Stern, 2011).
10
Marx tem pela ciência apreço semelhante ao do
8 pragmatismo, mas a noção de ciência predominante no
A influência “continental” certamente não exclui aque- marxismo tendeu antes para um positivismo dogmático
la britânica, empirista e utilitarista, socialmente progres- magnificado (com recursos alemães), do que para aquela
sista, de Alexander Bain e Stuart Mill. De outro lado, o hipotética, experimentalista, falibilista, de Peirce, Dewey
pragmatismo de Ferdinand Schiller traz a marca de um ou James. Em “As Três Espécies de Excelência” (op. cit.,
parentesco nietzschiano, como atesta G. Stack (1982) p.39), Peirce acentua que “todas as ideias da ciência vêm
9
Para as afirmações de Habermas – e outras do gênero – através da abdução, [que] consiste em estudar os fatos e
ver “Filosofia, Pragmatismo e Democracia” (p. 38 ss.), inventar uma teoria para explicá-los; sua única justifica-
introdução ao meu livro, 2005. Para as de Putnam ver ção é que, se for para entender as coisas, deve-se fazer
1995. Sobre o que diz Quine, ver p. ex. De Waal (2005, p. assim.” Peirce chega a dizer que a abdução é “a questão
148-149). A influência de Kant e a convergência com do pragmatismo” (p. 57).

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mente ou consciência. Por fim, nas Teses, Marx, tal prio Peirce, segundo a qual, bem entendida, a con-
como vários pragmatistas, parece aproximar fato e cepção adequada de um objeto é a dos seus “efei-
valor, realidade e normatividade, descrição e pres- tos de alcance prático.” Pois boa parte do desen-
crição, ser e dever ser, recusando, quanto a isso, o volvimento da tradição pragmatista pode ser com-
dualismo rígido de parte da filosofia anterior. preendida como envolvendo derivações dessa
Antes de passarmos diretamente a uma olha- máxima (com diferentes versões já em Peirce), que,
da pragmatista às Teses, fique claro que não se trata como “corolário” da definição de Bain, implica “tra-
de medi-las com um metro exterior, previamente duzir” nossas concepções, tanto em termos do com-
fixado. Mesmo porque, está visto, não concebo o portamento das coisas em relação a nós, como do
pragmatismo (tampouco Marx) como um pensa- nosso em relação a elas, dois lados de uma mesma
mento uniforme, nem vou enveredar pela a abstra- moeda. Por sobre isso, enfim, há ainda não apenas
ção de um núcleo mínimo comum seu, como sua a implicação recíproca de ação, conhecimento e pro-
essência. Prefiro, quanto a isso, invocar uma pósitos humanos, como duas outras relacionadas,
wittgensteiniana semelhança de família, que ten- mais difíceis de esclarecer aqui: a de conhecimento
tarei justamente estender a Marx: aquela decorren- com interpretação e intersubjetividade, e a de ação
te de fontes e motivos comuns, além de eventuais e conhecimento com normatividade.12
cruzamentos, o que permite que organizadores de Nas Teses, na primeira delas (depois, na
coletâneas e introduções ao pragmatismo saibam, quinta), Marx entende que a realidade (Wirklichkeit)
mesmo com alguma variação, quem nelas incluir.11 deve ser apreendida, não contemplativa ou passi-
Nesse sentido, o texto sugere uma leitura das Teses vamente, não apenas como “objeto sensível” ou
desde um ponto de vista pragmatista que adquire “intuição (Anschauung) sensível,” como no
contornos na sua própria exposição, num duplo empirismo ou “materialismo anterior.” Não deve
movimento de aproximação e crítica, no qual auto- ser captada – a própria realidade, o “mundo sensí-
res pragmatistas e suas formulações sobre a ação vel” (Sinnlichkeit) tomado como sinônimo – nem
poderão ser invocados de modo ilustrativo, sem que mesmo como matéria ou natureza, mas como “ati-
isso signifique que estou operando ecleticamente, vidade humana sensível,” como “prática”. E isso
por sobreposição. significa que ela deve ser apreendida também como
Mesmo assim, como ajuda adicional ao lei- “subjetiva” (intersubjetiva, preferiríamos hoje).13 Ao
tor não especializado, agrego ao que já foi dito o mesmo tempo objetiva (sensível, material) e subje-
que pode ser considerado um ground zero do tiva (humana, histórica), a realidade é, para Marx,

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pragmatismo, sobre sua ênfase na ação e na práti- a atividade prático-social dos homens, que, de outra
ca. Para começar, há a definição de crença, do es- parte, constitui seu próprio meio (sensível, mate-
cocês Alexander Bain, como – bem sucedido – rial, mas histórico, não natural, não dado, não se-
hábito de ação, como um juízo “com base no qual parado deles): o contexto onde coisas e fenôme-
se está disposto a agir” – juízo prático, portanto. 12
As caracterizações do pragmatismo têm frequentemente
recorrido a sugestivas imagens, mesmo quando a preocu-
Pois tal definição aparece como artigo de fé, invoca- pação é defendê-lo como científico. De Waal (2005, p. 175
do com igual aprovação por uma variedade de ss) fala dele como “uma doutrina inquieta,” que “nega
apaixonadamente que possamos ser meros espectadores,”
pragmatistas, desde Richard Rorty, num extremo, a uma filosofia com a “mentalidade pioneira” do Novo
Mundo, onde “as velhas regras não mais funcionavam,”
Charles Sanders Peirce, no outro; uma definição da com a mentalidade de que “nós fazemos nosso mundo,”
ainda que sempre de modo “realista”. Marx, na Ideologia
qual, ademais, esse último diz ser o pragmatismo Alemã, declara que os Estados Unidos foram constituí-
“pouco mais do que um corolário.” O que nos con- dos “pelos indivíduos mais avançados do Velho Mundo”
e “pelas formas mais avançadas de interação”. Teria ele,
duz à chamada máxima do pragmatismo, do pró- nas Teses, se aberto a esse espírito “novo mundo” em
proveito de seu ativista materialismo prático?
11 13
A título de bons exemplos, ver, além da introdução já Onde se dizem práticas, para Marx, dizem-se também as
indicada, de De Waal, também as de Jean-Paul Commetti relações que nelas se estabelecem. Ele, entretanto, pre-
(1995, 2010); de J. Murphy (1990), e a coletânea de fere prática no singular e com maiúscula: a produção
Rosenthal; Hausman; Anderson (1999). econômica.

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nos humanos devem inteiramente caber. Observe-se pações semelhantes, de trazer a filosofia para o
que, também para o pragmatista John Dewey, a reali- mundo sem abrir mão do ideal, William James
dade pode ser prática e subjetiva, e que sua crítica da entende seu pragmatismo como uma terceira via
concepção de experiência do empirismo clássico (ou via mediana) entre empirismo e racionalismo,
aproxima-o dessas posições de Marx nas Teses.14 entre realismo e idealismo. Tal como Marx, James
A Ideologia Alemã refere-se a essa realidade em quer nos oferecer um ponto de vista que tenha a
devir também como História e Processo Vital, que asso- marca do espírito realista prático da Modernidade,
cia ainda a noções como “modo de vida” (Lebensweise) e que, ao mesmo tempo, não exclua, antes susten-
e “modo de produção” (Produktionsweise), seu nú- te, a dimensão do ideal. E ele faz isso invocando,
cleo duro, que dão a ideia de um contexto não só contra a alternativa de sublimação racionalista
em devir, mas também desdobrado, estruturado, metafísica do mundo (como no leibniziano “me-
pois, na prática, os homens estabelecem relações lhor dos mundos possíveis”), a “rua” (o mundo
– até aqui fixadas – entre si. Essas são noções que, real, vivido, contraditório, da finitude humana) e,
ademais, aproximam-se de uma concepção materi- principalmente, a crueza da questão social, na for-
alista de cultura, de uma ideia de “espírito objeti- ma da fome, do desemprego e do drama da vida
vo” e de “substância social”, que apontam para a dos trabalhadores de Cleveland.16
superação do dualismo rígido sujeito–objeto (no O fato é que, envolvido, ao mesmo tempo,
plano da realidade como do conhecimento), na sua com os fatos e com o ideal, por sua noção de prá-
forma mais classicamente moderna, cartesiana. A tica, o novo materialismo de Marx permite enten-
primeira seção da Ideologia Alemã chega a definir o der o contexto dos homens como em devir e como
real e o homem como uma coisa só, justamente como história (das relações entre eles), com uma referên-
atividade sensível, duas faces de um só Processo cia forte de futuro, o que faria dele algo como um
Vital (em última análise a Produção e as relações pragmatismo histórico. Isso, entretanto, em termos,
que ela estabelece) – o que parece dissolver, num pois a história de Marx (veja-se novamente A Ideo-
grande Curso Real, toda particularidade e empiria. logia Alemã) é, antes, um processo presidido por
Esse é o materialismo prático introduzido uma certa necessidade que também circunscreve o
pelas Teses como superação, informada pelo idea- futuro, e onde, não obstante a centralidade da prá-
lismo transcendental alemão, do empirismo tica, a admissão da contingência deve ser supera-
intuicionista-representacionista, cartesiano- da pelo reconhecimento consciente de uma neces-
lockeano, robinsonista, que Marx chama de mate- sidade racional-dialética prevalente, ao tempo em
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rialismo anterior, este atrelado ao que, para Dewey, que quer ser a moldura que dá a cada evento parti-
é o “ponto de vista do espectador” – de um ho- cular seu significado propriamente histórico. Por
mem exterior ao mundo, de um mundo exterior isso, na consagrada concepção materialista da his-
ao homem, e de ambos como “fixados” por suas tória, a prática, a ação, a atividade humana sensí-
relações. O ponto de vista da intuição sensível é o vel, orientada para o futuro, não encontra propria-
do isolamento, o da atividade sensível é o das re- mente um campo de possibilidades abertas, nem
lações.15 De modo análogo às Teses, e com preocu- parece realizar uma criação digna do nome, como
posições pragmatistas tradicionalmente gostariam.
14
Ver, de Dewey, o ensaio “Does reality possess practical
character?”, republicado em Goodman Ed. (1995). Para a Em compensação, Marx consegue, com ela,
crítica deweyana da concepção de experiência do prover os juízos de valor com uma força incompa-
empirismo, ver p. ex. Dewey (1917). Ainda sobre a no-
ção de experiência em Dewey o no pragmatismo ameri-
cano, ver Jay (2004).
15
Marx, em outros textos, usa o termo “robinsonada” (em Teses Seis e Sete). Aqui trato de estender o uso crítico
alusão ao personagem Robinson Crusoé), para denunciar dessa metáfora ao individualismo epistemológico (possi-
a ilusão da economia política e da teoria social burguesas velmente próprio também a Marx), como se verá melhor
dos sécs. XVIII e XIX, de conceber os indivíduos (no mais adiante.
16
interior da economia e da sociedade) como realidades “in- Veja-se a primeira conferência de James The present
dependentes” e “anteriores” à sociedade e à história (vide dilemma in philosophy (1995).

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rável, pela definição e garantia de um Telos, Ideal da na especificidade de sua dimensão humana de
ou Bem (absoluto, porque incontrastável), a Socie- interação dos homens entre si enquanto sujeitos
dade Humana ou Humanidade Social, que deve de intersubjetividade. Creio que há, no entanto,
dar sentido último às ações dos homens. Coisa um problema mais relevante a destacar, desde um
também sustentada, de outra forma, em versão mais ponto de vista pragmatista, na compreensão
fraca, apenas como esperança razoável, no marxiana da realidade como prática ou atividade
pragmatismo de Peirce. A moldura histórica (de sensível, nas Teses. O problema é que, depois de
sucessão de modos de produção) de Marx pode definir o real como objetivo-subjetivo, enquanto
ser flexibilizada para além das poucas etapas e do atividade humana sensível, prática, e de parecer
determinismo rígido em que Stalin a encaixou, mas flexibilizar, por essa via, oposições binárias e
não ao ponto de perder seu sentido transcendental dualismos estritos da velha filosofia, a Tese Primei-
de permitir ajuizar valorativamente, com força de ra faz uma acentuada distinção de valor, e começa a
necessidade, de modo geral binariamente, as posi- construir uma oposição e uma hierarquia, entre dois
ções e ocorrências no seu interior, em especial as tipos de atividade prática. De um lado, uma ativi-
do presente, que é o que mais interessa a Marx.17 dade superior, legítima, universal; de outro, uma
Em qualquer caso, o que cabe assinalar é princi- atividade não “genuinamente humana”, que traz a
palmente que marxismo e pragmatismo são mo- marca da separação e da particularidade – ao que
dos de pensar que tratam de introduzir, no pensa- parece, a atividade da maioria dos homens.
mento filosófico, não só um senso prático-ativo, Essa segunda é a atividade deles como parte
mas igualmente um senso prático-normativo. Ape- da sociedade civil burguesa (bürgerlich Gesellschaft),
nas, no caso de Marx, não é simplesmente a “His- em sua dispersão e mútua oposição, determinadas,
tória” que tem proeminência nesse papel, mas, em em última análise, pela divisão do trabalho (ou da
associação com ela, nas Teses, a ideia de uma “es- prática), tomada como um mal e uma perversão das
sência” do homem que teria seu lugar nas relações coisas. É essa segunda prática, que Marx vai consi-
sociais em desenvolvimento, aquelas em que jus- derar como falsa e corrompida, que as Teses cha-
tamente a atividade prática (produtiva) os intro- mam de “suja” e “judaica” (egoísta, no feuerbachês
duz. Coisa que Marx retorna no Capital, creio eu, da Essência do Cristianismo), além de “fixada”,
de modo “cientificamente” reelaborado, com re- “fenomênica”, “forma aparente” (Erscheinungsform)
sultados “normativo-transcendentalizados” ainda – em oposição à outra, que é “essencial” e “genui-
mais fortes – mas isso é outra história. namente humana” (echt menschliche).18

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A atividade sensível, prática, social, dos Em última análise, é à esfera da prática or-
homens, subjetiva, mas também objetiva, vai ser dinária que pertence, Marx nos diz mais adiante,
entendida por Marx como Produção (sua “Prática nas Teses Nove e Dez, o materialismo intuicionista-
das práticas”), como trabalho humano sobre a na- sensível, supostamente não-prático, próprio da
tureza; ou seja, alegam seus críticos, como ação perspectiva (Standpunkt) da Sociedade Civil. As
instrumental apenas, e não devidamente aprecia- Teses ad Feuerbach se dispõem a caracterizar, tanto
17
Com relação à história de Marx, ver Souza (2006b). essa concepção materialista-empirista como aque-
Quanto a Peirce, ele sustenta a ideia de uma comunidade
ilimitada de investigação como verdadeiro sujeito do la atividade prática estreita, que também criticam,
conhecimento, orientada pelo ideal imanente de um como do nível da aparência, da superfície; enquan-
consenso final; uma comunidade real, onde cada um
age como membro de uma comunidade ideal, ou como to a outra, por oposição, seria de fundo e essenci-
membro de sua comunidade idealizada. Entretanto, aqui
me refiro a outra coisa: à noção peirceana de um Telos al, e, de certo modo, teórica e crítica. Isso no sen-
último, absoluto, de um Ideal admirável, “que reside no
próprio processo evolutivo,” como “amor evolucionário,”
18
e que deve ser referência ética para todo ato voluntário Quando Marx ou Feuerbach referem-se a “humano”
(op. cit., p. 5 a 38 passim; também Evolutionary Love, (menschlich), o adjetivo, em geral, tem sentido
em The Monist, v. 3, n. 1, p. 188). Para Dewey, “é a valorativo, de humano verdadeiro, com alcance ético,
democracia o Ideal supremo, ético, da humanidade“ (apud oposto a “egoísta”, etc. O termo alemão menschlich pode
Anderrson 1993, p.383). ser traduzido também por humanitário.

111
SOBRE PRÁTICA E PONTO DE VISTA PRÁTICO EM MARX

tido de conforme à razão, iluminada e justificada mente – social do trabalho. Algo que só se exibirá
pela “teoria”, análoga, assim, à atividade intelectu- e realizará segundo sua verdade e às claras, num
al (idealizada, naturalmente): desinteressada e uni- outro contexto, o da futura produção social comu-
versal. Marx teria aqui a oportunidade de associar nista, uma vez abolidas a divisão do trabalho e a
a suposta universalidade e racionalidade dessa boa particularista sociedade civil burguesa.
prática à ampla interação – política – entre os ho- Marx, por outro lado, não parece conside-
mens, e à autoridade de uma intersubjetividade rar que, enquanto a atividade prática “menor” é
agonística, no âmbito da esfera pública, mais do orientada pelo interesse particular, a “maior”, como
que à sua teoria “transcendental”. As Teses, po- prático-crítica e revolucionária, não estaria orien-
rém, têm suas razões para evitar esse caminho, o tada apenas pela e para a transformação e
que, para Marx, representaria justamente um per- autotransformação virtuosas dos homens, no sen-
der-se no nível da superfície e das aparências do tido da universalidade, mas também para a toma-
mundo sensível (ao fim e ao cabo, o mundo das da do poder, sendo ainda passível de converter-
trocas mercantis), que é o nível do fetichismo, e se, adiante, em atividade burocrática de Estado,
deixar – enquanto na busca de um ponto de vista separada e acima da sociedade, como portadora
mais cabalmente prático – o verdadeiramente críti- ideológica do suposto interesse humano – ou pro-
co e revolucionário de lado. letário – geral.
De qualquer modo, as Teses aqui parecem Por essas e outras, uma posição mais efetiva-
isolar e inferiorizar, em bloco, como alienada, uma mente prática (ou pragmatista) talvez não devesse
esfera que parece incluir a Alltagsleben, a prática desqualificar as práticas do comum dos homens,
ordinária do comum dos homens, orientada para bem como as concepções que lhes correspondam,
a realização de fins particulares, privados, justa- em nome de outra prática inteiramente superior e
mente a que mais se poderia conceber como mun- distinta, estabelecida pela teoria ou pela ciência e
dana, citerior, diesseitige. Já a outra prática, supe- prescrita pela própria realidade no seu nível mais
rior, melhor denominada pela palavra grega e ale- profundo. Nem deveria enfrentar, para isso, o risco
mã Praxis (com maiúscula, naturalmente), poderia de assumir, sob nova forma, o dualismo essência e
ser entendida como o trabalho dos homens en- aparência da filosofia tradicional, contemplativa, em
quanto socialmente concebido, enquanto ativida- que Marx vai cada vez mais se enredar, até sua
de cooperativa e universalizada, como seria sua culminância no Das Kapital. Como entendo, O
suposta natureza, de fundo. Mas é, na verdade, Capital se empenha em consolidar a separação das
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em primeiro lugar, a denominada atividade revo- Teses entre fundo e superfície, essência e aparên-
lucionária, aquela generosa, idealista, iluminada cia, não recuando, para isso, em propor a figura
teoricamente, sancionada filosoficamente.19 Uma de uma aparência real, a do nível da circulação,
atividade que, como me parece ser a ideia de Marx, onde os homens comuns enganosamente “imagi-
de algum modo “mimetiza” a atividade produtiva, nam-se” livres. É aí “o Paraíso dos direitos do ho-
cooperativa, dos homens, enquanto socialmente mem, onde unicamente imperam a Liberdade, a
orientada, uma atividade que “replica” o caráter Igualdade, a Propriedade e Bentham,” diz Marx
essencialmente – embora, nas condições da divi- ironicamente.20 De todo modo, as Teses partem de
são (antagonista) do trabalho, oculta e alienada- uma concepção de realidade como atividade sen-
19
sível, como concepção que corresponde às neces-
Sob esse aspecto, Feuerbach é menos essencialista e
mais pragmatista do que Marx. Para o primeiro, a prática sidades de transformação radical da sociedade e a
humana positiva é, sobretudo, afetiva, não depende da
teoria, e encontra base nos comportamentos afetivos e potencialidades postas pela dinâmica dessa reali-
solidários dos homens no interior da própria sociedade
existente. Para ele, deixada a religião para trás, a fraterna dade nova, a Modernidade, como lida “teoricamen-
essência humana não pode ser de novo separada dos
homens e posta para muito longe deles e de sua existên-
20
cia presente. Sobre isso, ver Souza (2006a). Sobre isso, ver Souza (2004b).

112
José Crisóstomo de Souza

te” (dialético-hegelianamente) por Marx. E é o ins- interior do qual, como atividade sensível, afinal
trumental teórico a partir daí desenvolvido, seu de contas tudo se dá. Marx imagina encontrar essa
materialismo prático-normativo (Marx, já dissemos, feliz e absoluta coincidência (Zusammenfallen)
oferece “comunismo” como sinônimo, na Ideolo- justamente num tipo especial de atividade huma-
gia Alemã), um materialismo histórico-dialético, que na, na superior “prática revolucionária crítica”
vai, aos poucos, nos parecer cada vez menos sim- como “racionalmente entendida” – guiada aparen-
plesmente materialista e prático, e cada vez mais temente por sua própria Teoria.
essencial-transcendentalizante. A Terceira Tese refere-se à “doutrina materi-
Logo adiante, na Tese Terceira, Marx vai, alista” de reformadores sociais do tempo de Marx,
entretanto, investir ele próprio contra uma divisão que têm, na cabeça, a Ideia de uma sociedade
semelhante àquela que faz entre práticas, acredi- humanizada e de um homem social ou socializa-
tando poder prevenir sua consumação justamente do, e tratam de agir para realizá-la – pela “educa-
pelas virtudes de sua noção de atividade revoluci- ção” e pela “transformação das circunstâncias” dos
onária prático-crítica (introduzindo, aqui, sua homens. Marx crê que, nesse esforço, aquela dou-
tematização epistemológico-política). Marx fala, aí, trina, ainda que materialista e, de algum modo,
do problema trazido à realidade e à prática por prática, acaba por “separar a sociedade em duas
uma forma equivocada de pensamento (e não o partes”: de um lado, os que sabem, os agentes,
contrário, como pretende fazer a maior parte do formadores (como o Rei Filósofo de Platão, o Colé-
tempo). Numa crítica à permanência de vícios da gio dos Sábios de Saint-Simon, ou outro tipo de
filosofia anterior, mesmo numa “doutrina materi- Clero ou Sacerdócio qualquer), e, de outro lado,
alista” voltada para a transformação da realidade e os homens comuns, o povo, os leigos, envolvidos
dos homens, a Tese Três entende que os nas atividades e negócios humanos e na
reformadores materialistas, que pensam “transfor- materialidade prático-empírica do mundo. Uma
mar as circunstâncias” para “transformar” e “edu- doutrina assim acabaria mesmo por colocar uma
car” os homens, acabam por colocar-se acima de- das partes (os “transformadores da sociedade”)
les, tomados, então, como simples objetos ou pro- acima da outra, mais exatamente “acima da socie-
dutos. Quando deveriam atentar para o fato de que, dade” toda (!), constituindo-a como uma espécie
se os homens são transformados pelo meio, “são de nova e científica Teocracia, como governo dos
eles próprios que o transformam,” e que os educa- detentores do acesso à Teoria e ao Ideal. Caso em
dores precisam ser igualmente transformados. que ocorreria coisa comparável ao que Marx con-

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Embora Marx aqui pareça aceitar uma pro- dena como mais próprio da condição (ruim) dos
blemática divisão, paternalista, de papéis (educa- homens no Capitalismo: uma instância (no caso,
dores, de um lado, e educandos, de outro, mesmo possivelmente, o Estado) faz-se grande Sujeito, fren-
que para concluir com a famosa tirada de que “o te aos homens, reduzidos assim a não sujeitos,
educador deve ser educado,” socializado), ele acre- objetos ou coisas passivas. É notável que Marx
dita poder resolver o problema dessa denuncie, nessa Tese Terceira, uma divisão e
hierarquização, fazendo coincidir três dimensões hierarquização da sociedade em dois estamentos,
da atividade prática sensível: 1) a prática de “trans- que não aquela decorrente da propriedade priva-
formação das circunstâncias” (entenda-se, a inter- da e da exploração econômica, mas de um saber
venção dos “reformadores”), e 2) “a atividade hu- como propriedade privada, que não só não teria a
mana” (a atividade espontânea dos homens, ou, ver com a dominação econômica capitalista, mas
pelo menos, dos trabalhadores), com 3) o movi- decorreria de um esforço por sua eliminação.
mento de “autotransformação” da realidade (que, Se, na Terceira Tese, fica visto que não é
para Marx, já tem objetivamente o sentido de cons- uma sociedade assim hierarquizada que Marx gos-
tituir os homens como plenamente sociais) – no taria de promover (um despotismo esclarecido ou

113
SOBRE PRÁTICA E PONTO DE VISTA PRÁTICO EM MARX

uma “estatização” da iniciativa social, aos quais o “revolutionäre Praxis,” pela aparentemente mais
pragmatismo é francamente avesso), não fica cla- modesta umwälzende (reviradora, subversora)
ro, porém, se seu novo e corrigido materialismo Praxis.21
prático normativo, comunista, poderia afastar seu Enfim, depois de uma tomada de posição
ideal social inteiramente da vicissitude que criti- com relação à “natureza” da realidade (prática, mas
ca. Pois parece que Marx logo encontrará para sua desdobrada em duas), e da nossa relação com ela
teoria uma posição muito acima das – e até opos- (nosso autor fala de práticas e posições, não de uma
ta às – percepções dos homens comuns; uma vi- realidade “em si”), Marx se volta, nas Teses (dois e
são superior das coisas, que, por definição, lhes cinco), para a questão da verdade e do conhecimen-
escaparia. Frente a uma verdade tão acima do co- to, e, para tanto, já preparou o terreno na Tese Um.
mum dos homens e de suas práticas, eles ficari- Se a realidade é atividade humana sensível22 e nós
am em condição semelhante à que são relegados também o somos, então estamos, enquanto conhe-
por Platão, na Alegoria da Caverna: considera- cedores (mas não só), nela “já sempre” envolvidos,
dos pelo “homem teórico” como ignorantes, alie- pela ação como pelos sentidos23, pelo pensamento
nados da verdadeira realidade e de si mesmos, (pois seria tolice imaginar uma prática sem pensa-
que tomam por verdade a simples aparência (dos mento, do mesmo modo que um pensamento
sentidos), a qual é o inverso do verdadeiro real, dissociado dela) como pela linguagem.24 Não somos
inteligível. Marx, porém, de seu lado, tem suas exteriores à realidade, nem ela exterior a nós, nem
razões para alegar que não incorre nesse erro, nós uns aos outros, como indivíduos abstratos, sem
justamente por ter em vista a ambicionada coin- relações, como mentes individuais desencarnadas,
cidência da intervenção transformadora (sobre especulares. De outro lado, a realidade humana sen-
as “circunstâncias”) e da atividade espontânea sível, como subjetiva (ou intersubjetiva), já sempre
(da massa dos homens), com a dinâmica objeti- está impregnada de atividade humana; logo, de pen-
va (como autotransformação) do próprio Real samento, conhecimento, crenças e propósitos hu-
(teoricamente apreendida e explicada), no que manos. Feuerbach, diz Marx nas Teses (tese cinco),
ele denomina de “prática revolucionária” (como
21
A social democracia alemã, já era então um movimento
verdadeiro fazer da História, como por Marx con- político desenvolvido, que não sabia como lidar com anti-
cebida). hierárquicos “espontaneísmos” e “anarquismos” no in-
terior do movimento operário e da sociedade. Quanto a
As Teses supõem, assim, que seu materia- nós, teríamos desejado que Marx simplesmente enten-
desse que uma transformação da sociedade seria verda-
lismo prático-normativo dá conta, como teoria, do deira Autotransformação por via de uma democracia mais
efetiva e radical, e que unicamente assim ela seria, como
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que seria o movimento (dotado objetivamente de ele sugere, “racionalmente [rationell] compreendida.”
Sentido) da própria Realidade, na direção (positi- 22
A ênfase de Marx no sensível parece encontrar eco no
texto anticartesiano de Peirce (1975), onde Peirce insis-
va) que Marx decifraria “cientificamente”, e supõe te, não somente em consequências práticas (practical
que a prática nele inspirada apenas trata de objeti- bearings), como também em “resultado sensível“, “efei-
tos sensíveis“, “características sensíveis“. Mais tarde,
vamente coincidir com tal movimento. Com efeito, Peirce agregará que se trata de considerar as consequências
práticas “resultantes da verdade da concepção“ (pref. às
Marx, no início do capítulo II do Manifesto Comu- Conferências, p.7). É essa referência sensível, prático-
material, que acredito foi desconsiderada no desenvolvi-
nista, declara que “as proposições teóricas dos co- mento “linguístico” do pragmatismo.
munistas não repousam em ideias descobertos por 23
Esse envolvimento, concreto, dos homens com o mun-
do é também necessariamente estético – tanto quanto
este ou aquele melhorador do mundo; são apenas operativo, cognitivo etc. – como entendem, por exem-
plo, Dewey e Nietzsche. Mas Marx não dá, nas Teses
expressões gerais do movimento histórico diante dos qualquer atenção a esse estético, como tampouco ao
nossos olhos.” É, entretanto, significativo que criativo. E o pragmatismo de Habermas decididamente
tampouco o faz.
Engels, quando retocou as Teses décadas depois, 24
A inseparável imbricação do pensamento com a realida-
tenha, na Tese Três, suprimido a “espontânea” de humana ou contexto enquanto atividade social sen-
sível dá-se também na linguagem e pela linguagem –
Autotransformação, que integrava o tripé propos- para Marx, na Ideologia Alemã, o pensamento real, prá-
tico, “aquele que existe também para os outros homens.”
to por Marx, e trocado a expressão, mais nobre, Cf. Marx; Engels (1958).

114
José Crisóstomo de Souza

“descontente com o pensamento abstrato,” quer afir- não a uma realidade “em si” – a supostos dados
mar a realidade do sensível como irredutível ao imediatos ou certezas autoevidentes.27 Pois pode-
pensamento. Por isso “apela à [verdade da] intui- mos entender que, para Marx e seu materialista
ção [sensível]”: porque “quer objetos sensíveis, re- ativo, não se trata simplesmente de tomar a prática
almente distintos dos objetos pensados”, ou seja, como critério da verdade, mas de dar à verdade
quer objetos não reduzidos a representações, a ima- um sentido prático, recuperando-a para dentro do
gens em nossas mentes. Do ponto de vista de Marx, horizonte da atividade humana sensível (ou con-
no entanto, como nos parece, Feuerbach não deixa- texto prático-sensível) e de lhe dar uma tradução
rá completamente para trás o mentalismo- sensível, nas práticas e condutas que sustenta.28
representacionismo subjetivo – logo, tampouco, seu Desse modo, trata-se de associar o valor de verdade
veneno idealista-robinsonista, herdado pelo “mate- de um pensamento ao seu poder para realizar algu-
rialismo anterior” –, se não abandonar inteiramen- ma coisa, no trato ativo, prático-sensível, com o
te, do mesmo modo, o sensacionismo-intuicionismo mundo – como ferramenta, em vez de retrato men-
e se não passar a apreender o real como prática tal da realidade. “É na prática que o ser humano
humano-sensível, incluindo aí as relações que nela deve demonstrar a verdade de seu pensamento.”
se estabelecem (das quais o próprio sujeito conhe- Na Ideologia Alemã, Marx refere-se aos des-
cedor participa). vios não práticos, contemplativos (anschauungen),
Disso tudo decorreria a posição de Marx a não apenas do materialismo anterior, mas também
respeito de conhecimento e verdade (tese dois), do “platonismo” da filosofia tradicional em geral,
posição que ele caracteriza de “anti-escolástica” pondo sua origem na divisão de classes das socie-
(não intelectual-verbalista, não teoricista, suponho), dades hierárquicas, pré-modernas, de modo se-
segundo a qual a pergunta pela verdade ou não melhante ao que fará Dewey no Reconstrução em
verdade objetiva do pensamento humano é Filosofia.29 Marx vê a separação social entre trabalho
respondível apenas “na prática”.25 Pois “verdade” intelectual, da aristocracia dominante, e trabalho prá-
(Marx poderia dizer “verdade objetivo-subjetiva”) tico-mundano, dos homens comuns, por trás das
é apenas um nome para “efetividade” (Wirklichkeit, concepções filosóficas do conhecimento verdadeiro
realidade efetiva), “poder” (Macht) e “terrenalidade” como inteligível puro, como acesso a essências
(Diesseitigkeit, citerioridade) do pensamento “na suprassensíveis, pelo “homem teórico” (como filó-
prática” (prática sensível-social, podemos enten- sofo, padre ou sacerdote). E, de outro lado (do lado
der). E essa seria a compreensão materialista práti- “de baixo”), relegado à superfície e ao inessencial, o

CADERNO CRH, Salvador, v. 25, n. spe 02, p. 105-118, 2012


ca de verdade e objetividade do pensamento, uma “falso conhecimento” dos homens comuns, o “im-
compreensão anticética e realista,26 ao mesmo tem- puro” conhecimento prático-sensível, envolvido nos
po não comprometida por problemas de negócios humanos e na materialidade do mundo.
correspondentismo e representacionismo, por per- 27
Correspondentismo aqui se refere à tradicional defini-
plexidades mentalistas céticas sobre o acesso ou ção de verdade como correspondência entre o pensa-
mento e a coisa, ou entre os juízos (pedacinhos de lin-
guagem) e os fatos (pedacinhos de realidade) a que se
25
No pragmatismo, frequentemente se prefere a noção de referem, uma noção (que o pragmatismo procura evitar)
crença para o que aqui se chama de pensamento. Crença que se bate com a dificuldade de “igualar” duas coisas
é o que temos boas razões, razões aceitáveis, para sus- tão heterogêneas, como também com o problema de ofe-
tentar; aquilo segundo o que estamos dispostos a agir e recer a posição (exterior) desde a qual ela (a correspon-
efetivamente agimos. É o melhor conhecimento que dência) pudesse ser verificada.
28
temos, embora, por princípio, falível e provisório. Marx recorre apenas uma vez, nas Teses, ao termo con-
26
O campo pragmatista, sustentando uma noção prático- duta (Verhalten, comportamento), quando se refere, na
social de conhecimento (em distinção ao “empirismo primeira tese, ao comportamento teórico que Feuerbach
dogmático” e ao “realismo metafísico”), deve enfrentar aprova, em contraposição à prática, tomada como
o desafio de estabelecer outro realismo. Creio que a no- subjetivista, egoísta. O critério da prática, e da “tradu-
ção de realidade como atividade sensível oferece uma ção” em comportamento, parece ter, nas Teses como no
pista para isso – para fora do velho realismo dogmático pragmatismo, também um caráter “terapêutico” para o
tanto quanto do relativismo do recente contextualismo pensamento, na eliminação de dilemas mentalistas e de
linguístico. Isso faz parte do que estaremos tratando de nebulosos desvios especulativos.
29
ver com o projeto ora proposto. Ver cap. I em Dewey (1959).

115
SOBRE PRÁTICA E PONTO DE VISTA PRÁTICO EM MARX

Por essa divisão é que o pensamento (na filosofia) – de tipo existencial, para quem as sustenta.32
teria podido imaginar-se “emancipado” do mun- Do lado do marxismo tradicional, o mais
do, separado da atividade prática dos homens, te- comum é retrucar que, enquanto, para o
ria “passado à formulação da Teoria pura e da Fi- pragmatismo, o que funciona é verdadeiro, para
losofia pura” e à construção sobre ideias de per- Marx, aquilo que é objetivamente verdadeiro fun-
manência e essência, sobre noções transcendentais ciona (além de que, claro, não se deveria deixar de
de verdade e razão. Dewey critica de maneira se- perguntar para quem funciona). O que, entretan-
melhante o “paradigma grego” de conhecimento to, deixaria ao materialista prático a tarefa de dar
não experimentalista, não prático, condenando conta prático-materialistamente da distinção entre
também o modelo da filosofia tradicional, de siste- as duas coisas, de estabelecer a verdade objetiva
ma, e sua noção contemplativa de razão. Tudo isso em isolamento da prática – isto é, de fora do hori-
correspondendo, para Dewey, à “situação pré-de- zonte do trato com o mundo e com os homens. De
mocrática do mundo,”, aquela de sociedades está- qualquer maneira, o fato é que ambos, pragmatismo
ticas hierárquicas, como também, nas sociedades e materialismo prático-ativo, falam de pensamen-
modernas, à remanescente cultura intelectualista, tos e ideias não como simples asserções desliga-
sem sentido experimental-transformador. das da vida, mas como crenças que nos orientam
A Tese Dois, junto com a Onze, final, que na prática (e que podem ser verificadas por outros
conclama a “transformar o mundo”, constitui aquilo ou justificadas para eles) – como juízos práticos
que aparece, para qualquer leitura superficial, como ou guias para a ação. E falam, por isso, de dúvidas
a expressão mais pragmatista de Marx, como e divergências quanto à verdade e ao significado
Bertrand Russell a invocou no debate com o de um pensamento como decidíveis socialmente,
experimentalismo e instrumentalismo de Dewey no debate (Streit), além de definíveis apenas na
(para quem o conhecimento é, sobretudo, uma prá- prática e postas na prática e pela prática.33 A ques-
tica e uma ferramenta).30 Ela, de fato, lembra, ao tão é ver quão consequente cada um deles,
relacionar verdade com poder e efetividade de um pragmatismo e materialismo prático, consegue ser
pensamento, as opiniões mais comuns acerca da por essa via, mas não teremos para isso, aqui, uma
noção de verdade no campo do pragmatismo, em resposta conclusiva.
geral aquela atribuída a William James.31 Mas tam-
bém aquela do próprio Dewey: verdade e conheci-
mento como o que resolve problemas, o que funci- Recebido para publicação em 16 de outubro de 2012
Aceito em 04 de novembro de 2012
CADERNO CRH, Salvador, v. 25, n. spe 02, p. 105-118, 2012

ona na prática, o que dá certo, com que se obtém


sucesso. Verdade como aquilo que é útil ou expedi-
ente, ou mesmo, no extremo, como a qualidade de
uma crença (no caso das mais gerais, não 32
De outro lado, é também característica do pragmatismo
verificáveis) de ter consequências subjetivamente a noção de verdade como afirmabilidade garantida ou
justificada, com base nas evidências disponíveis e acei-
boas – agradáveis, confortadoras ou interessantes tas, para a audiência concernida. Ou como a afirmação
para a qual necessariamente convergem, “lá na frente”,
os integrantes de uma comunidade de investigação.
30
Acho filosoficamente mais sofisticado associar as Teses 33
A noção pragmatista de crença tem um sentido em
de Marx ao anticartesianismo do pragmatismo, que mui- parte próximo da noção prático-materialista de ideolo-
tos não se dão ao trabalho de conhecer. Em todo caso, gia, ambas tomando o pensamento por seu conteúdo
Dewey, um crítico contumaz da noção abstrata de expe- prático, social, orientador da ação e interessado. Mas,
riência, do empirismo passivo-intuicionista, presta-se sintomaticamente, para ideologia acabou prevalecendo a
de pronto, por seu pragmatismo socialmente engajado, implicação de conhecimento distorcido ou falso, em
de esquerda, a uma aproximação a Marx – bem feita por oposição à verdade honesta da ciência. A propósito da
Georges Novack (1975). identificação marxiana de verdade com força e efetividade
31
Ver James (1979). A respeito do que ele diz da verdade, práticas, parece-me que, uma vez estabelecida a realida-
difundiu-se até hoje mais preconceito do que conheci- de como atividade humana sensível, o conhecimento
mento. Para uma apreciação justa da posição de James, tenderia mesmo a adquirir um sentido predominante de
ver, de Putnam, The permanece of William James, no know-how (de competência para lidar com) - não apenas
livro já referido. simplesmente de um pensamento verificado na prática.

116
José Crisóstomo de Souza

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117
SOBRE PRÁTICA E PONTO DE VISTA PRÁTICO EM MARX

ON PRACTICE AND PRACTICAL A PROPOS DE LA PRATIQUE ET DU POINT


STANDPOINT IN MARX DE VUE PRATIQUE CHEZ MARX

José Crisóstomo de Souza José Crisóstomo de Souza


Based on Marx’s Theses ad Feuerbach and Le texte parle des notions de pratique et de
German Ideology, and on views of Peirce, James matérialisme pratique chez Marx dans une relation
and Dewey, the paper critically examines the de rapprochement et de distinction avec les
notions of practice and practical materialism in conceptions du pragmatisme classique nord-
Marx, in relation to their convergence but also américain à partir des thèses de Feuerbach et de
difference with classical North-American l’Idéologie Allemande de Marx ainsi que des
pragmatism, On one side, it highlights the virtues formulations de Peirce, James et Dewey. D’une part,
of Marxian notion of practice and reality as il met en évidence la fécondité de la notion marxienne
sensuous activity, for a renewed understanding of de pratique et de réalité come activité sensible pour
notions such as reality, objectivity and knowledge, une interprétation renouvelée de notions telles que
and, on the other, calls attention to possible la réalité, l’objectivité et la connaissance et, d’autre
essentialist and ‘transcendentalizing’ elements in part, il attire l’attention sur de possibles éléments
Marx’s thought that may have marked negatively essentialistes et transcendantalisants dans la pensée
his whole mature theory. de Marx qui marqueraient de manière négative
l’ensemble de son œuvre.

KEY-WORDS: Practical materialism. Pragmatism. MOTS-CLÉS: Matérialisme pratique. Pragmatisme.


Sensuous activity. Reality. Knowledge. Activité sensible. Réalité. Connaissance.
CADERNO CRH, Salvador, v. 25, n. spe 02, p. 105-118, 2012

José Crisóstomo de Souza - Doutor em Filosofia. Pós-doutorado em Filosofia. Professor do Depto. de Filosofia
da UFBA. Principais áreas de interesse: filosofia contemporânea, pragmatismo, neo-hegelianismo, Marx,
crítica da modernidade, filosofia política e social, democracia. Publicações recentes: Teses de Marx: para uma
Crítica ao (Não-)Pragmatismo de Marx. Cognitio, São Paulo, PUCSP, v.13, p.115-144, 2012; A virada prático-
histórica da filosofia: Hegelianismo, Pragmatismo, Pluralismo, Democracia. Salvador: Edufba, 2012. v.1.
154p

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