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TRAJETÓRIAS DO CORPORATIVISMO NO BRASIL: TEORIA SOCIAL,

PROBLEMAS ECONÔMICOS E EFEITOS POLÍTICOS


Vera Alves Cepêda

Este trabalho tem como objeto de reflexão as trajetórias do corporativismo no


Brasil, concebido enquanto uma ideia e um fenômeno plural, dotado de mais de uma faceta e
momento de existência na vida pública nacional. Ao longo do texto, tentarei demonstrar
alguns pontos importantes sobre a forma e funções específicas do corporativismo adaptado ao
nosso contexto e que, exatamente em sua recepção aplicada, promoveu uma trajetória
particular que só ganha sentido se percebida em seus nexos com a teoria social do “atraso
brasileiro” e com a identificação das disfunções do liberalismo econômico (primário-
exportador) e político (elites oligárquico-regionais). A hipótese é que aqui o corporativismo
encontrou terreno fértil para sua adoção, sintonizada com o debate da interpretação sobre a
formação nacional, com o problema de sua insuficiência social e com sua consecutiva
evolução para a insuficiência econômica (como sua recepção em Alberto Torres, Oliveira
Vianna, Azevedo Amaral, Roberto Simonsen, entre outros autores coetâneos 1) e que,
exatamente por esse cenário particular, forjou um corporativismo sui generis. Essa hipótese só
pode ser sustentada no campo de análise do pensamento social e político, observando a
incorporação do modelo corporativista (uma ontologia social, somada a um projeto político e
pautada em meios específicos de ação) na trajetória do debate intelectual nacional.
Assim, o corporativismo, tão destacado como base conceitual e programática dos
anos de 1930/1945, tem raízes anteriores a esse momento em uma linhagem que foi
acentuando-se e ganhando contornos novos – o idealismo orgânico. Essa linhagem origina-se
na teoria social sobre os dilemas de formação do Brasil anterior à Revolução de 1930,
caracterizada por visão negativa da nossa sociedade apreendida como frágil, amorfa ou
inconclusa. Esse diagnóstico afastaria, racionalmente, a opção pela arquitetura política liberal
alheia e muito distante de nossa realidade – como provariam as disfunções e o desvirtuamento
atribuído às instituições da Primeira República, gerando um primeiro elemento de
aproximação entre um debate nacional –, pelo tema e pela lógica do argumento – com o
corporativismo mundial.
Problemas específicos exigem resoluções específicas, assim, o corporativismo que
se aplicou no Brasil foi diverso daquele original. O ajuste de uma trajetória longa e o
cinzelamento de um momento pleno da linhagem do idealismo orgânico também deixariam
1
Como Plínio Salgado, Miguel Reale, Gustavo Barroso, intelectuais do grupo integralista da AIB.
um legado incorporado em momentos posteriores de ressignificação dessa linhagem – como o
desenvolvimentismo que emerge no Brasil exatamente ao final do ciclo comumente associado
ao corporativismo de 1930/1945 e que durou, pelo menos, mais três décadas.2
O trabalho está articulado em quatro seções, além desta introdução e das
considerações finais: a primeira procura isolar uma definição mínima de corporativismo; a
segunda mostra sua aplicação ao caso brasileiro, de maneira factual e ampla, com destaque
para a centralidade da obra de Alberto Torres e Oliveira Vianna; a terceira investiga os nexos
do corporativismo com as teses da formação nacional como déficit e seu ajuste na passagem
para a teoria do subcapitalismo (subdesenvolvimento), com destaque para a produção seminal
de Roberto Cochrane Simonsen; e na quarta, são apresentados como instrumentos de filiação
à teoria corporativista a representação classista e a estratégia do planejamento estatal,
finalizando com uma breve reflexão sobre a permanência da ratio do corporativismo na
posterior fase nacional-desenvolvimentista.

Corporativismo: entre o conceito e o fato histórico

O corporativismo foi tese e experimento político importante na trajetória política


brasileira, geralmente associado ao período varguista de 1930-1945, sendo indicado como seu
auge a implantação do Estado Novo em 1937. No entanto, o corporativismo moderno, de
formulação europeia e exponencial no fascismo, assumiu no contexto da história brasileira
contornos próprios e aplicados às demandas e gramática política do período de sua
emergência. Para exame da forma sui generis do corporativismo no Brasil, é necessário
primeiro entender o que se denomina, de forma ampla e geral, por corporativismo,
enfrentando de saída a questão de sua trajetória histórica longeva, sua ressignificação no
contexto moderno (i) e sua dupla conotação enquanto arranjo teórico (uma ontologia social) e
enquanto modelo de organização sociopolítica (ii).
Corporativismo corresponde a um conceito de duração longa, tendo sua origem,
enquanto sistema socioeconômico, atrelado às Corporações de Ofício da Idade Média.
Naquele momento, sua natureza era a da organização de grupos sociais ligados ao trabalho
(ofícios), em especial aqueles que operavam algum tipo de expertise ou conhecimento diverso
da técnica agrária, orientada para produção de manufaturas e geradora de uma situação
societal diversa do dualismo servo-senhor (expressão da dimensão agrário-terratenente).
2
Sobre a duração, permanências e metamorfoses do desenvolvimentismo enquanto interpretação social e projeto
político, ver: CEPÊDA, Vera Alves. Inclusão, democracia e novo desenvolvimentismo – um balanço histórico.
Revista de Estudos Avançados, São Paulo, v. 26, p. 77-90, 2012.
Funcional e sociologicamente, o corporativismo apareceria associado a uma visão de mundo
organicista baseada na sociabilidade estabelecida pela complementaridade da divisão do
trabalho social com predomínio do “coletivo sobre as partes”. Historicamente, o
corporativismo clássico pertenceria às formas tradicionais de sociedade e de concepção
orgânica da ordem política, distante das formas modernas.
Visto dessa maneira, sintética e generalizante, o corporativismo clássico estaria
condenado a desaparecer quando da passagem para a fase moderna, marcada pela valorização
crescente do individualismo, pela ideia da política enquanto construção (pautada na potência
da liberdade individual, no jusnaturalismo e no primado da inovação decisória estabelecida
pelo contratualismo), pela ordenação das distintas formas da divisão do trabalho definidas
pelo Mercado (apagando e diluindo a consciência dos papéis sociais e reciprocidade humana
na organização do trabalho – orientados agora pelo princípio do preço como articulador da
produção e das trocas, na preciosa afirmação da “lei da oferta e da procura” do economista
Jean-Baptista Say) e pela liberação da organização do trabalho via os princípios do laissez
faire e do laissez passeur.
O capitalismo, a filosofia e as instituições liberais construiriam uma nova
representação de mundo onde a ordem do coletivo estaria subsumida à ordem do individual e,
muito importante, onde a sociabilidade e as decisões políticas seriam arranjos ex post das
demandas e decisões racionais do indivíduo possessivo:
a) Crente das virtudes do progresso explicado pelo postulado smithiano dos
“vícios privados, benefícios públicos”.
b) Incorporando o paulatino afastamento da política dos princípios do “bem
comum” ou da “vontade geral” em direção à “vontade da maioria” ou felicidade geral dos
utilitaristas.
c) Subsequentemente, até a versão competitiva entre as elites postulada
exemplarmente na teoria schumpeteriana.3
Nessa nova engenharia social, pouco espaço foi deixado para princípios
coletivistas em função da avalanche do ethos individualista em todas as frentes da
organização da vida social – na economia, na filosofia e na política – e a radicalização do
interesse próprio como base do mercado político (e disruptivo do telos da res publica).
No entanto, e curiosamente, um novo corporativismo surge em várias frentes de
resistência à modernidade capitalista, fortemente ressignificado. O corporativismo moderno
3
Introdutora de uma nova tensão no processo político com o surgimento de novas categorias de atores: elites
(capacitadas a exercerem o poder para proteção de seus interesses) versus as massas (alienadas de seu interesse
bem compreendido e dirigidas pelas elites).
retoma duas características do modelo clássico: a articulação social via posições do mundo do
trabalho e a ideia de uma vida pública de bases coletivas, centralizada em categorias amplas e
abstratas como nação, povo, Estado, no primado do nós, e não do eu. Em sua tônica de
coletivismo (papéis sociais de produção, circulação e consumo, como forma simultânea do
social, do econômico e do político), essa percepção aparece associada a várias versões do
socialismo e, muito especialmente, de conotações religiosas. Como exemplo dessas
conotações estão as correntes do cristianismo como o fabianismo, o gildismo e, mais
fortemente, a posição declarada da Igreja Católica quanto à “questão social” da contenção da
miséria e resposta às demandas dos trabalhadores diante da expansão e do agravamento da
exploração do capitalismo. A atuação católica, nesse aspecto, parte da proposição do
ordenamento da vida social pela articulação de “entes orgânicos” como família, Estado e
Igreja, ancorada em uma visão societal hierárquica, fraterna e submissa a um coletivismo
avesso ao hedonismo e às disfunções plutocráticas. A posição da Igreja Católica,
modernizadora e ressignificadora de um corporativismo de tipo moderno (já incluindo a
tensão capital/trabalho, mas de base religiosa, caritativa e de bem comum), é explicitada nas
duas Encíclicas Papais: a Rerum Novarum (1891) e a versão ampliada da Encíclica
Quadragesimo Anno (1930).
Em outra direção, o corporativismo seria configurado como um projeto racional e
laico centralizado no Estado e orientado pela pressão oriunda das tensões de classes à
expansão do capitalismo (em fase monopolista e imperialista).
Em sua tônica de arranjo sociopolítico, tanto o corporativismo comunitarista-
religioso quanto a versão laica reconheciam o novo contexto da vida moderna marcada pela
luta de classes, pelos efeitos disruptivos do mercado autorregulado e pela progressiva
aceleração da competitividade defendida pelo liberalismo – quer dentro das nações, quer entre
as nações. O corporativismo, em termos mundiais e entre o final do século XIX e o final da
Segunda Guerra Mundial, pautaria o fortalecimento da centralização da vida pública no eixo
estatal, com destacada presença dos problemas econômicos e gerando mais de um modelo
político ou vertente política.
Em termos limítrofes, o corporativismo moderno responde à recusa de dois
campos dos quais pretende afastar-se: o marxismo de um lado e o liberalismo de outro. Tendo
que reconhecer o ”trabalho moderno” e suas demandas, acaba propondo, como corpos
intermediários da engenharia social e política, as organizações sindicais de trabalhadores e de
patrões, articuladoras de um novo tipo de solidariedade orgânica, coletiva, cooperativa e
nacional. Somente na Europa, no período do entreguerras, o corporativismo esteve presente
nas encíclicas católicas, no fascismo italiano, na proposta de Manoilesco e nas versões
autoritárias.4
O conjunto de elementos subsumidos no tipo/modelo corporativismo é ainda
muito amplo e inclui questões como: papel e organização do trabalho; as fronteiras entre
Estado e sociedade5; o tipo, as encarnações e os objetivos do nacionalismo6; os obstáculos
indicados como base do problema nacional; o ancoramento mais forte ou fraco com a
economia (interna ou externa) ou com a política (interna ou externa). Estes são elementos que
farão muita diferença na expressão particular do corporativismo em cada trajetória e contexto
nacional. Assim, reforça-se a consideração de Fernando Rosas7 de que “o estudo do
corporativismo, considerado enquanto fenômeno histórico e categoria conceptual histórica,
social e política [...] só entendível no contexto histórico que o produziu”.8
Podemos associar ao corporativismo moderno um conjunto de vetores complexos
como: a) ser uma categoria conceitual, na medida em que expressa uma teoria ou tese social
e/ou política, que configurou uma escola ou paradigma; b) que nessa condição circulou
internacionalmente enquanto uma ideia-força, sendo recebida, apropriada e ressignificada em
contextos sociais específicos; e c) ser um fenômeno histórico, entendido enquanto fato,
arranjo ou momento histórico real, originado em situações nacionais concretas.

Corporativismo(s) no Brasil

4
Costa Pinto nos diz que o corporativismo surge nas primeiras décadas do século XX caracterizado pelo arranjo
e pela integração de instituições “de interesses organizados (principalmente sindicatos independentes) no Estado,
quanto como um tipo ‘orgânico-estatista’ de representação política alternativa à democracia liberal” (PINTO,
António Costa. O corporativismo nas ditaduras da época do Fascismo. Varia Historia, Belo Horizonte, v. 30, n.
52, janeiro/abril, 2014. p. 17).
5
Onde o apagamento das fronteiras entre uma dimensão e outra tenderiam à configuração de outros modelos
como totalitarismo (Estado forte, sociedade inexistente ou assimilada) ou liberalismo de Estado Mínimo (Estado
fraco diante de uma Sociedade ou Mercado forte).
6
Ernest Gellner, em sua tipologia dos nacionalismos, aponta a existência de um modelo que configura a nação
como “resultado”, e não causa. O tipo clássico seria aquele em que um povo, dotado de nacionalidade
preexistente, almeja, luta e constrói uma forma política soberana de representação (Estado-Nação) que a
exprima. Em outro modelo, a nação faz-se em movimento, em direção a algo que seja não apenas um resultado,
mas o modus operandi de sua própria consubstanciação (como veremos adiante, penso que seja este a grande
função exercida pelo nacionalismo no caso brasileiro) (GELLNER, Ernest. Nações e nacionalismos. Lisboa:
Gradiva, 1993).
7
Cf. trabalho de Rosas no capítulo 1 deste livro.
8
Conformar o corporativismo como uma ideia-força capaz de assumir expressões distintas em diferentes
contextos nos impõe como tarefas de análise identificar um conjunto ou unidade conceitual no termo e, na
sequência, adequá-lo às circunstâncias particulares de sua configuração. Esse método, de historicizar e
contextualizar os conceitos, teses e paradigmas, é importante para dar conta da multiplicidade de conformações
que uma percepção em sua unidade conceitual desdobra-se no fluxo diacrônico e na variação sincrônica. Ao
invés de enfraquecer o conceito, essa opção de ressignificação contextual o dinamiza e possibilita trabalhá-lo
como uma linhagem ou trajetória, multiplicada e fortalecida em sua existência social e política concreta nas
adequações que recebe de sua apropriação.
O corporativismo no Brasil, tomando como recorte desta análise o período nuclear
dos anos de 1930-1945, apresenta, de saída, um conjunto adicional de características
diferenciais. Em uma análise ampla dessa fase da história social e política brasileira, podemos
indicar como aspectos que precisam ser levados em consideração no esforço de compreensão
da forma assumida aqui pelo corporativismo:
1. O processo de centralização política e o aumento exacerbado dos poderes do
Estado, em especial com a diminuição das capacidades da sociedade civil, com correlata
fragilização dos aspectos de autorrepresentação e controle do poder político por parte dos
grupos sociais e partidos, bem como a tendência ao exercício de um poder autocrático –
portanto com clara identificação com modelos autoritários e distantes do liberalismo. Nos
quinze anos do recorte temporal, os arranjos políticos assumiriam configurações diversas, a
maioria associada a mecanismos de concentração de autoridade como momento
revolucionário, governo provisório, interregno constitucional (com parte da representação
política cabendo a representações orgânico-corporativistas como os deputados classistas) e a
ditadura varguista do Estado Novo. Essa fase aliaria ao fortalecimento do poder do governo
federal o surgimento de uma poderosa aparelhagem da burocracia pública e dos monopólios
estatais fundamentais (solo, recursos naturais, tributação e justiça federalizadas, controle
cambial e de empréstimos internacionais, segurança, primeiras inversões em indústria de base
e infraestrutura). Desse contexto de centralização e hipercapacitação do aparelho de governo
central emergiria a face do Leviatã brasileiro, dotado de gramática própria ethos.9
2. Seu enraizamento e vínculo com o agravamento da disputa de poder
envolvendo o controle hegemônico das oligarquias primário-exportadoras sobre a esfera
política e a emergência de um novo projeto nacional orientado para a modernização
econômica de tipo urbano-industrial sequioso de assumir o controle político. Essa contradição
expressava uma radicalização e crescente aumento na pressão pelo fim do monopólio político
das oligarquias regionais do ultrafederalismo que caracterizava a Primeira República (1889-
1930), em especial o período posterior ao Convênio de Taubaté de 1906. A fórmula do
corporativismo no Brasil desse período deve muito à sua adoção como estratégia de

9
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República. Uma
interpretação. In: FAUSTO, Boris (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo III, v. 9, São Paulo:
DIFEL, 1985; GOMES, Ângela de Castro. Regionalismo e centralização política. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1980; SALLUM, Brasílio. Metamorfoses do Estado brasileiro no final do século XX. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, ANPOCS-RBCS, 2003, v. 18, n. 52, p. 35-54; DRAIBE, Sônia.
Rumos e metamorfoses. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985; PAIVA, Carlos Henrique Assunção. A burocracia no
Brasil: as bases da administração pública nacional em perspectiva histórica (1920-1945). História, São Paulo,
2009, n. 28, v. 2, p. 775-796; NUNES, Edson. A gramática política do Brasil: clientelismo, corporativismos e
insulamento burocrático. Rio de Janeiro: Garamond, 2010.
enfrentamento de um capitalismo (ou subcapitalismo, como diria Simonsen) agrário-
exportador, obstáculo ao desenvolvimento e gerador de tensões sociais gravíssimas por sua
capacidade de impor a “socialização das perdas do café”.
3. Um movimento progressivo de deslocamento do paradigma econômico da
vocação agrária, perfilada à tese do laissez-faire e das vantagens comparativas do liberalismo
clássico de Adam Smith e David Ricardo, para a vocação industrial, apoiada em elementos
difusos no entorno do surgimento do problema do desenvolvimento econômico retardatário.
Na Europa, autores como Georg List10 e Manoilescu11 promoviam, desde a segunda metade do
século XIX, duras críticas sobre a eficiência dos princípios liberais na promoção do progresso
das nações retardatárias, sobre as contradições e desigualdades de expansão do capitalismo
mundial e também sobre os processos artificiais de aceleração ou proteção necessários ao
desenvolvimento nacional. Na periferia pós-colonial, a América Latina produziria uma teoria
própria, mais avançada que os take off de Rostow e Nurske, denominada Teoria do
Subdesenvolvimento e elaborada pelo grupo cepalino. Desse esforço participaram, em
momentos e fases distintas, autores como Roberto Simonsen (com trabalhos precursores na
década de 1930), Rául Prebisch em seu Manifesto dos Periféricos (publicado em 1949 como
marco fundador da linha de reflexões da recém-criada CEPAL) e Celso Furtado (com a
produção da segunda metade dos anos de 1950 em diante). As “inquirições” sobre a promoção
da riqueza das nações nesse contexto esboçavam uma percepção inédita sobre o peso que as
situações retardatárias, ou de assimetria de posição no Comércio Internacional, implicavam
para o processo real de promoção da riqueza econômica nessa situação
4. A presença de argumentos da ordem da ontologia social, entendendo a
estratégia do corporativismo como instrumento de superação de uma forma de atraso e
condensada em variadas teses sobre a interpretação da formação social brasileira elaboradas
por autores como Alberto Torres, Oliveira Vianna, Azevedo Amaral, Francisco Campos e o
próprio Getulio Vargas12). Nessa chave, o corporativismo é apresentado como uma forma de
10
List em Sistema de Economia Nacional, obra publicada originalmente em 1848.
11
MANOILESCU, Mikail. O século do corporativismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938; MANOILESCU,
Mikail. Teoria do protecionismo e da permuta internacional. São Paulo: Escolas Profissionais do Lyceu Coração
de Jesus, 1931.
12
A percepção de Vargas é examinada a partir da compilação de seus discursos e textos em: VARGAS, Getulio.
A nova política do Brasil. Da Aliança Liberal às realizações do primeiro ano de Governo (1930-1931). v. 1. Rio
de Janeiro: José Olympio, 1938; VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. O ano de 1932 – A Revolução e o
Norte – 1933. v. 2. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938; VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. A
realidade Nacional de 1933 – retrospecto das realizações do Governo, em 1934. v. 3. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1938; VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. Retorno à terra natal – confraternização sul-
americana – A Revolução Comunista – novembro de 1934 a julho de 1937. v. 4. Rio de Janeiro: José Olympio,
1938; VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. O Estado Novo – 10 de novembro de 1937 a 25 de julho de
1938. v. 5. Rio de Janeiro: José Olympio,1938; VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. Realizações do
Estado Novo – 1 de agosto de 1938 a 7 de setembro de 1939. v. 6. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940;
transformação social capaz de superar a inorganicidade, os déficits estruturais e a herança da
formação histórica nacional em direção à constituição de uma sociedade autônoma, moderna,
autossuficiente e capaz. O corporativismo, aqui, é mais que um arranjo político: é a chave da
construção nacional.
5. O corporativismo aparece em duas Constituições Federais, a de 1934 e a de
1937, com características e funções bastante distintas. A Constituição Federal de 1934,
resultante de um complexo processo de elaboração que abrigou o Anteprojeto do Itamaraty, a
realização de eleições e a instalação de um Congresso Constituinte até a promulgação da
Carta final, é entendida no contexto constitucional brasileiro (malgrada sua curtíssima
duração) como um pacto com forte inclinação para os direitos sociais e como expressão de um
ajuste político inédito: aquele expressivo de uma agenda de contradições e demandas
modernas que surgiram com base nas profundas transformações sociais e econômicas nas
primeiras décadas do século XX no Brasil (expansão urbana, aumento das atividades
industriais, crescimento do contingente de trabalhadores assalariados, multiplicação das
frações burguesas com o enfraquecimento da vocação agrária, por exemplo). Seu momento
histórico modernizava muito a Constituição Federal de 1934 em relação à primeira
Constituição republicana, de 1891, no que concerne à agenda de problemas, atores, interesses
e compreensão do papel do Estado. Muitos estudiosos indicam que os arranjos referentes aos
direitos do trabalho, à questão social e, muito especialmente, à adoção da representação
profissional (como contrapeso ao retorno da representação eleitoral pela via da organização e
competição partidária clássica) definiriam a filiação corporativista como essencial nessa Carta
Magna.13 No caso da Constituição de 1937 – conhecida como Polaca e que desenha os
contornos do Estado Novo de Vargas –, autores também a definem como corporativista, mas o
pacto político nela contido, especialmente no que tange a direitos civis e políticos, democracia
e função do Estado central, é completamente diverso daquele encontrado na Constituição de
1934. Se a esta última se associa o epíteto de “social-democrata” por sua filiação à
Constituição de Weimar de 1919 e aos direitos previstos pelas diretrizes da Organização

VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. No limiar de uma nova era – 20 de outubro de 1939 a 29 de junho
de 1940. v. 7. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940; VARGAS, Getulio. Diário. 2 volumes. São Paulo: Siciliano;
Rio de Janeiro: FGV, 1995.
13
LIMA, R. Pinheiro. A representação profissional no Brasil (Discursos). Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1934;
CAVALCANTI, Themístocles Brandão. Anotações. In: BONNARD, Roger. Sindicalismo, corporativismo e
Estado corporativo. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1938, p. 112-126; CEPÊDA, Vera Alves. Contexto político e
crítica à democracia liberal: a proposta da representação classista na Constituinte de 1934. In: MOTA, C. G.;
SALINAS, N. (Orgs.) Os Juristas na formação do Estado-Nação brasileiro: de 1930 aos dias atuais. São Paulo:
Saraiva, Fundação Getúlio Vargas, 2010, p. 195-222.
Internacional do Trabalho (OIT)14, à Polaca associa-se um radical formato autoritário, próximo
da fórmula do fascismo: tutto nello Stato, niente contra lo Stato, null al di fuori dello Stato.15
Com esse breve apanhado de elementos 16 de contextualização histórica e
conceitual, podemos perceber a multiplicidade de enfoques e dimensões assumidas pelo
corporativismo na experiência política brasileira, oscilando, conforme pretende-se como foco
de análise neste trabalho, entre a interpretação do atraso (I), os obstáculos à modernização e
construção da nação (II), permeadas ambas pela questão econômica e pelo papel atribuído ao
Estado (III) como determinações da trajetória brasileira. As marcações entre parêntesis (I, II e
III) correspondem à indicação das balizas de pesquisa que entendo como apropriadas para a
análise das teses corporativistas no caso brasileiro.
Como hipótese central, penso que a principal característica do corporativismo
brasileiro, e que o distingue do paradigma17 europeu18, foi a de funcionar como instrumento de
construção da modernidade nacional (econômica, em especial) em forte orientação para a
superação do passado colonial em seu desdobramento nas formas oligárquicas da Primeira
República – lembrando que as bases das oligarquias da I República estavam alicerçadas em
sua hegemonia econômica, derivada do latifúndio exportador como precondição de seu
monopólio político, por debaixo do republicanismo da época (uma ideia ou uma instituição
fora de lugar como já queriam assinalar seus críticos à época 19). Assim, ao invés do
questionamento dos excessos ou desvios do capitalismo, com ênfase nas disfunções do
mercado de concorrência imperfeito (monopolista e/ou imperialista), das tensões oriundas da
14
OIT, 1919.
15
”Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado” Síntese do modelo político fascista italiano
apresentado por Mussolini no famoso discurso no Scala de Milão.
16
Ressalvo que poderíamos incluir aqui as diversas matrizes ideológicas que se filiaram ao grande campo do
corporativismo. Não adentrei, por exemplo, à leitura do integralismo, movimento político fundamental no
período e que produziu, inclusive, um constructo teórico próprio, de forte inclinação autoritária.
17
Para Reinhard Bendix, em Construção Nacional e cidadania, não é apenas o paradigma “moderno” que é
europeu, mas também as formulações teóricas que o acompanham e procuram decifrá-lo e que foram estendidos
para o mundo: “As mudanças sociais e políticas das sociedades europeias forneceram o contexto no qual os
conceitos da moderna sociologia foram formulados. Quando nos concentramos atualmente nos problemas de
desenvolvimento no mundo não ocidental, empregamos conceitos que possuem derivação ocidental (BENDIX,
1999, p. 36).
18
Na versão de O século do corporativismo, seu tradutor, Azevedo Amaral, insere a crítica à associação imediata
entre entes corporativos do trabalho e o fascismo como um equívoco. Para Amaral, no fascismo a cooperação
positiva dos corpos orgânicos à vida social teria sido substituída por uma absorção e coordenação excessiva do
Estado.
19
A esse respeito, ver o conjunto de artigos compilados em À margem da história da República organizado por
Vicente Licínio Cardoso e publicado em 1924, contendo análise de importantes intelectuais (ou que viriam a sê-
lo) como Carneiro Leão (Os deveres das novas gerações brasileiras), Celso Vieira (Evolução do pensamento
republicano no Brasil), Gilberto Amado (Instituições políticas e o meio social no Brasil), José Antônio Nogueira
(O ideal brasileiro desenvolvido na República), Oliveira Viana (O idealismo da Constituição), Pontes de
Miranda (Preliminares para a reforma constitucional), Ronald de Carvalho (Bases da nacionalidade brasileira;
uma síntese histórica), Tasso da Silveira (A consciência brasileira), além de outros trabalhos de Jonathas
Serrano, Nuno Pinheiro, Tristão de Ataíde e do próprio Vicente Licínio Cardoso.
luta de classes ou no individualismo liberal-capitalista, no caso brasileiro as questões e os
obstáculos a serem enfrentados eram de outra natureza. Impediam a formação da nação
brasileira o individualismo político, ancorado nas disfunções de uma democracia partidarizada
pelos grupos regionais vinculados à hegemonia do café e que pediam um outro arranjo estatal,
distante do ultra federalismo.
Desde o final da década de 1920, outro elemento se somaria a esse cenário: o
reconhecimento que os limites estruturais da economia agrária, monocultora e dependente dos
mercados internacionais impunham à constituição de uma nação soberana. Nesse diapasão
emergiriam as críticas ao latifúndio, ao partidarismo regionalista e ao modelo mercantil-
exportador como expressões de um passado a ser superado, de onde provinham males como a
visão localista, redutivista e patrimonialista de política, com excessos personalistas e
formação da cultura do povo-massa, por um lado, e de elites não modernas (não racionais e
pautadas pelo ethos do trabalho) de outro. Essa crítica surge por diferentes ângulos e grupos,
desde a evolução do projeto político do movimento tenentista (atingindo a formulação mais
avançada e clara no Esboço do Programa Revolucionário de Reconstrução Política e Social
do Brasil, de 1932) à crítica das instituições em Alberto Torres 20, nos limites da formação
social e no idealismo constitucional de Oliveira Vianna 21, no contraponto ao liberalismo e na
nova concepção de democracia/autoridade em Azevedo Amaral22, nos autores que
problematizaram e pensaram a proposta da representação classista 23, bem como a guinada
para a internalização do argumento econômico e de um novo papel para a centralização
política aberta pela obra de Roberto Simonsen.24 Como sintetizado por Caio Prado25, essas
disfunções ocorriam como parte da formação do sentido da colonização – produtor de uma
forma simultaneamente moderna/não moderna herdada do processo colonial.
A exigência de uma interpretação sobre a formação histórica autóctone, pautada
na percepção de um modelo diferencial, diverso da trajetória da modernização e da
estruturação dos estados nacionais europeus (tido como o “modelo” original e,
posteriormente, somado ao modelo norte-americano), apontava na elaboração de duas
20
TORRES, Alberto. A organização nacional. São Paulo: Editora Nacional, 1978; TORRES, Alberto. O
problema nacional brasileiro: introdução a um programa de organização nacional. 3. ed. São Paulo: Cia. Editora
Nacional; Brasília: INL, 1978.
21
Populações Meridionais do Brasil (1920), Evolução do povo brasileiro (1924), O idealismo na Constituição
(edições de 1927 e 1939)
22
AMARAL, Azevedo. A aventura política do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1935; AMARAL,
Azevedo. O estado autoritário e a realidade nacional. Brasília: UNB, 1981.
23
AMADO, Gilberto. Eleição e representação. Rio de Janeiro: Oficina Industrial Gráfica, 1931.
24
SIMONSEN, Roberto. As crises no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora, 1930; SIMONSEN, Roberto. As
finanças e a indústria. São Paulo: São Paulo Editora, 1931; SIMONSEN, Roberto. Ordem econômica, padrão de
vida e algumas realidades brasileiras. São Paulo: São Paulo Editora, 1934.
25
PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000.
importantes novidades: uma de natureza conceitual e outra de natureza aplicada. No campo
teórico, a gestação de uma explicação ajustada aos dilemas da periferia pós-colonial estaria no
centro da fabricação de uma versão histórica particular, na qual elementos como ocupação,
transplante de raças e sua simbiose, clima e geografia, instituições, cultura e ethos surgiriam
como elementos centrais da constelação de uma sociedade artificialmente constituída. Aqui o
contato da Expansão Ultramarina traria, como salientou Caio Prado Jr., forças sociais e
econômicas avançadas (do núcleo mercantilista e pré-industrial) que moldariam as estruturas
sociais da extensão colonial, complementares de interesses e dinâmicas, originadas no centro
e impositoras de arranjos na periferia. Nota importante de ressalva é que essa mescla entre
uma energia moderna em associação com a “fabricação” das colônias geraria um tipo singular
de sociedade. Nesta última, a terra (sua propriedade e ocupação, por exemplo) não assumiria a
condição de um problema típico de passado pré-moderno, feudal (como na evolução europeia
e parte do desenho do Áncien Regime). Ao contrário, sua condição seria, desde o advento da
Descoberta, a implementação da ação do cálculo capitalista, empresarial e racional, de um
desdobramento diferencial do capitalismo mercantil pela imposição do papel de economia
complementar e fadada a produção de bens primários para exportação. A evolução dessas
economias, na forma dos “ciclos” descritos por Furtado26, promoveria, na periferia de
economia reflexa, uma forma limitada e subalterna de capitalismo, incapaz e impeditivo de
evolução para as formas de capitalismo avançado (industrial, tecnológico) e de constituição de
nações autônomas econômica e politicamente. Estas seriam as condições do
subdesenvolvimento27 ou de modelos híbridos e limitados de Revolução Burguesa.28
Nas economias periféricas e agrário-exportadoras, a propriedade da terra aparece
como concentrada, monopolizada, porém sua lógica não é estamental ou de produção de
subsistência. Ao contrário, o latifúndio significa a terra como uma mercadoria e um ativo
econômico, capaz de produzir riqueza, constituindo na sua propriedade e realização
econômica um tipo político especial: uma burguesia agrária, dependente e colonial. 29 A
burguesia agrária em situação primário-exportadora é dotada de uma lógica social adversa do
tipo esperado na evolução capitalista, à qual pertence pela inserção na divisão do trabalho
internacional que acarretaria no modelo de revolução liberal-burguesa. Ao invés de configurar
o clássico (e tipo ideal) modelo de grupo social pautado no trabalho, no cálculo racional, na
acumulação e defesa de um mercado nacional sob o controle do Estado30), a burguesia
26
Formação Econômica do Brasil, editado pela primeira vez em 1959.
27
FURTADO, Celso. Dialética do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964.
28
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Guanabara, 1975.
29
Cf. tipologia de Poulantzas (1975).
30
Cf. categoria formulada por: TILLY, Charles. Coerção, capital e Estados europeus. São Paulo: EDUSP, 1996.
colonial e agrária exportadora modelaria uma forma social de isolamento rural, práticas e
cultura política personalista e patrimonialista, acrescida da baixa propensão ao cálculo
racional (em especial pelo longo ciclo de exploração da mão de obra escrava).31
Reproduz-se no caso brasileiro uma mesma tensão entre passado e futuro, mas não
sob a oposição entre o pré-moderno (feudal) versus moderno (urbano industrial). Há, sim,
uma situação de antagonismo entre a estrutura do modelo primário-exportador (vocação
agrária e herança colonial) e passagem para formas avançadas de economia e sociedade
(industriais, urbanas, com mercado interno e capaz de constituir as bases reais de um Estado
nacional soberano). A ressignificação de temas como liberalismo, tradicionalismo,
democracia, luta de classes e desenvolvimento residiu, em grande medida, no reconhecimento
das condições próprias e específicas da periferia. Nesse contexto, as grandes expressões da
teoria social, econômica e política sofreriam um giro semântico na sua apropriação local. Para
Christian Lynch:

Os males crônicos do continente se enraízam nesse passado colonial, caracterizado


pela exploração metropolitana pelo patrimonialismo, pelo escravismo, pelo
latifúndio. O passado, portanto, se erige em verdadeiro espantalho da nacionalidade,
que precisa ser exorcizado e superado para que o país alcance aquele patamar de
desenvolvimento compatível com um padrão civilizatório dos países centrais, como
os Estados Unidos, a França e a Inglaterra.32

Não é apenas o corporativismo que, enquanto ideia-força, pede esse tratamento.


Como seria possível imobilizar em uma definição única termos como direitos, democracia,
liberalismo, autoritarismo, conservadorismo, Estado, desenvolvimento, entre outros temas que
foram sendo relapidados e atualizados como resposta às exigências concretas da variação
histórica e das particularidades de cada contexto de sua utilização? Importante lembrar que o
corporativismo na Europa, em período próximo à experiência brasileira dos anos de 1930,
inclinou-se para um arranjo contrário à democracia liberal devido aos excessos e às crises
provocadas pela trajetória do capitalismo, em forte conexão com o fascismo e o totalitarismo,
apoiado na tensão provocada pela agudização da luta de classes. 33 Na condição tardo
periférica brasileira, o corporativismo, como crítica ao liberalismo, amparou-se no
reconhecimento deste último, no campo político e econômico, como o obstáculo à
31
A esse respeito conferir: NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial 1777-1805.
São Paulo: Hucitec, 1995; FRANCO, Maria Sylvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São
Paulo: Kairós, 1983.
32
LYNCH, Christian C. O pensamento conservador ibero-americano na Era das Independências (1808-1850).
Lua Nova, São Paulo, 2008, nº 74, p. 59.
33
Cf. PINTO, António Costa. O corporativismo nas ditaduras da época do Fascismo. Varia Historia, Belo
Horizonte, v. 30, nº 52, janeiro/abril, 2014, p. 17.
modernização capitalista, e não sua regulação ou superação. Tratou-se, portanto, de uma
forma particular de arranjo político para implantação do capitalismo industrial e de estratégia
de implosão da organização oligárquica regional e primário-exportadora.
O cerne do modelo de corporativismo brasileiro expressa uma articulação entre
uma ontologia social, produzida como resposta intelectual ao problema do passado,
particularmente marcada pelo problema da identidade e do apontamento da nacionalidade
como algo por construir, com a adoção de instrumentos para correção dessa rota e invenção
do futuro. O fortalecimento do Estado como ente capaz de produzir os nexos de solidariedade
social ainda inexistentes e de acelerar a constituição de um projeto nacional apartado dos
desvios do liberalismo à brasileira34 serão as condições de absorção e ressignificação do
corporativismo. A aliança entre setores produtivos, a geração de espaços paraestatais (mix
entre aparelho público e organizações/representações da sociedade civil), adoção de conceitos
de democracia de tipo “não liberal-competitiva” e o fortalecimento de conceitos genéricos
como povo e nação como base do compromisso social constituem-se como meios de
desmanche do legado da I República e sua conformação oligárquico-agrária. Nesse
projeto/processo, todas as variáveis-chave da equação da modernidade deveriam ser
flexionadas:
 No ajustamento dos códigos teóricos e intelectuais às condições concretas da
experiência histórica nacional, recusando cânones ou ressignificando-os quando necessário.
Essa seria a tarefa de uma geração – aquela dos homens que nasceram com a República e que
nunca viram o Imperador ou um escravo35, mas que vivenciaram toda a transformação
nacional das primeiras décadas do século XX e sobre a qual recaía a exigência de pensar e
agir sob as novas condições sociais.
 Na busca de uma via própria, inovadora e específica, ajustada ao nosso cenário
social, econômico e mental, distante do bacharelismo, do mimetismo e da cópia de modelos e
das experiências estrangeiras, que até esse momento apenas assimilaram os pressupostos
liberais (claro que adaptados à forma colonial).
 No primado da construção, da mudança orientada da sociedade brasileira,
elegendo, como motor principal dessa mudança, um ator diverso do espontaneísmo e
autorregulação do mercado econômico e político (nem o progresso como resultado dos vícios
privados, nem a política como concorrência competitiva entre indivíduos) – a esfera estatal e,
34
Cf. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia da Letras, 1992; SANTOS, Wanderley
Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
35
Cardoso, À margem da história da República. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981 (primeira
edição 1924).
nesta, valorizada a ideia de projeto (prognóstico) e de atuação consciente e racional de elites
esclarecidas.
 No delineamento de uma fórmula nacional própria para revisão dos pontos
nevrálgicos do conflito social em nosso contexto, fora do formato da luta de classes,
permitindo (ou exigindo) a conformação de uma saída com pactuação e aliança entre os
grupos ligados ao trabalho, entre capital e trabalho diluídos no semióforo da nação e
mediados/articulados pelo Estado e pela ideia de progresso. Essa pactuação proporia a
transferência do conflito da ordem privada para a ordem pública, por meio do direito, mas
associado ao surgimento de canais de participação direta desses interesses organizados em
corpus políticos, tais como os sindicatos (percebidos como a forma social mais avançada que
indivíduos e partidos) e os Conselhos Técnicos. Sobre a regulação estatal, Vianna afirmaria
como positiva essa intermediação, capaz de dirimir o “conflito das disputas sociais”:
O Estado tutelar transforma em funções técnico-jurídicas as relações mercantis,
apresentando-se a suma ratio da sociedade civil. A sociedade e o mercado de
trabalho em particular são recobertos pela legislação, com o fim de solidarizar seus
componentes num todo orgânico, incapazes isoladamente de conviverem em
harmonia. Tudo que é privado se reveste de um caráter público, conformando um
ramo do direito que se pretende autonomizar das relações mantidas pela sociedade
civil. Com isso, impede-se a percepção da sociedade como um mercado, embora
legitime-se o indivíduo possessivo.36

Na próxima seção, passo a analisar duas dimensões do corporativismo brasileiro:


sua adequação ao debate em curso na reflexão intelectual e política da Primeira República até
o período Vargas de 1930-1945, apoiada no argumento do amorfismo social e crítica ao
liberalismo e, na sequência, na sua permanência no projeto de enfrentamento das oligarquias
primário-exportadoras e apoio ao projeto industrialista.

A teoria social do atraso, subcapitalismo e a recepção do corporativismo no debate


intelectual brasileiro

A estrutura argumentativa da interpretação da formação social brasileira anterior à


década de 1930 pautou-se na investigação das causas das debilidades, insolidarismo e
insuficiências societais que impediriam a realização da nação e do progresso entre nós. Por
outro lado, geraria uma confluência intelectual propensa a fortalecer os projetos políticos de
construção social e nacional filiados ao idealismo orgânico, com centralização política e

36
Vianna, 1976, p. 29.
protagonismo do Estado, e que se inclinariam, pari passu, à boa recepção obtida pelo modelo
de organização corporativa da sociedade.
Essa trajetória intelectual adquire clareza conceitual com as obras de Alberto
Torres e Oliveira Vianna, perpassando as formulações do período Vargas com Azevedo
Amaral e o próprio projeto defendido publicamente por Getulio Vargas.37 A partir da década
de 1930, a tese sobre o atraso na formação histórica brasileira passaria a invocar a questão
econômica como base explicativa, com a contribuição original e seminal do empresário, líder
empresarial e intelectual Roberto Simonsen. Com Simonsen ocorre uma ressignificação
radical na tese da fragilidade e do déficit nacional: a matriz do atraso é resultado do passado
colonial na estruturação econômica, e somente a partir da superação da vocação agrária as
condições da nação estariam asseguradas. Na tese simonsiniana, a ação centralizada do Estado
como instrumento de transformação social, a recusa dos pressupostos liberais e a associação
concertada entre capital e trabalho (na síntese do progresso e da paz social) são pontos
centrais e inclinam sua teoria para a gramática do corporativismo.
Em boa medida, as concepções de Oliveira Vianna e Roberto Simonsen podem ser
entendidas como próximas, especialmente quando avaliamos que o ponto original de ambos é
a associação entre um problema estrutural da formação social brasileira (uma insuficiência), o
que exige a elaboração de uma estratégia ou projeto próprio para sua superação. Nas teses dos
dois autores também está presente uma crítica acerba aos automatismos sociais e econômicos
de extração liberal, com enfática defesa de um projeto de transformação social artificial,
racional e dotado de vontade política com aspiração nacional, radicada na ação do Estado.
Essas duas características colocam Vianna e Simonsen no campo do idealismo orgânico (uma
sociedade ou Mercado fraco versus um Estado hipertrofiado e forte) e que associadas a uma
percepção de aliança necessária entre capital e trabalho, leia-se sindicatos de empresários e de
assalariados em prol da realização do objetivo do alcançamento do progresso e da autonomia
nacional, expressariam o vínculo com as formulações do corporativismo, ajustado ao contexto
brasileiro.
No entanto, recuperando a hipótese anteriormente assinalada da injunção entre a
interpretação dos males do Brasil à adoção e ressignificação da gramática do corporativismo
no entorno dos anos de 1930/1940, a diferença entre os dois autores residiria exatamente no
ponto de origem dessa articulação teorico-prática: originada na formação social ou na
formação econômica.

37
A Nova Política do Brasil, 9 volumes.
No caso de Oliveira Vianna, é bom lembrarmos que sua produção intelectual
remonta a uma linhagem com existência longa no debate nacional, pretérito à própria reflexão
desse autor, estruturada no inventário das causas do atraso e dos dilemas da identidade
brasileira que assinalava como temas das debilidades da sociedade o clima, o meio, a raça, a
mentalidade ou o translado e o perfil das instituições políticas. Comum a esse campo seria o
reconhecimento de que por variados caminhos da história colonial, da inserção e ocupação do
meio, do surgimento dos tipos humanos e da cultura social e política a eles associados,
brotaria uma sociedade amorfa, insolidária, descapacitada para o reconhecimento da
individualidade (entendida como self moderno) e para a construção de arranjos coletivos.
Essa agenda de problemas é ampla e longa, mas em Oliveira Vianna ganha uma
configuração síntese de um diagnóstico do passado somada a um projeto de futuro. Vianna, a
partir de Populações meridionais38, apontava que a inorganicidade societal, o insolidarismo e
a impossibilidade de agregação coletiva haviam sido herdados da ocupação do insulamento
rural e do patriarcalismo da formação colonial. Nos textos subsequentes, vai avançando na
delimitação de instrumentos de mudança social, paulatinamente políticos, estatais e
organicistas. Essa inclinação para a perspectiva corporativista, friso, possui, como virtudes e
especificidades, o reposicionamento do amplo debate originado no século XIX sobre a relação
entre costumes e instituições, ajustando uma tese sociológica (a interpretação) à elaboração de
estratégias políticas de transformação (ação). Dois elementos dignos de nota são a migração
evolutiva do campo da teoria social para a dimensão política (vide esforço hercúleo presente
em Instituições Políticas no Brasil) e o momento de fortuna, que permitiram que a discussão
vianniana, em especial no redesenho das funções do Estado e no ajuste fino do corporativismo
“à brasileira”, transformasse-se em propostas com capacidade efetiva de realização histórica.
Vianna pertenceria ao grupo de intelectuais capazes de intervenção em processos reais,
habilitados a se comportarem como state makers, intelectuais públicos ou do Estado, ou como
intelligentsia.
A possibilidade de compreender a obra de Vianna como uma síntese da trajetória
intelectual pregressa remonta ao cenário aberto pela discussão sobre o papel dos costumes e
das condições sociais e culturais brasileiras na opção pela forma liberal ou conservadora do
Estado, ainda no Império. Segundo Ferreira39, podemos localizar o momento de tensão entre
as “linhagens” políticas liberal versus conservadora no debate entre Tavares Bastos e
38
VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil: história, organização, psicologia. 7. ed. Belo
Horizonte: Itatiaia; Niterói, EdUFF, 1987.
39
FERREIRA, G. N. A relação entre leis e costumes no pensamento político e social brasileiro. In: CEDEC et al.
I Relatório Científico do projeto temático “Linhagens do pensamento político-social brasileiro”. São Paulo,
apresentado à FAPESP em fevereiro de 2009.
Visconde de Uruguai, em 1860, que partiria da problemática tocquevilliana em A democracia
na América40, texto que aponta os nexos indissociáveis entre formação da sociedade, valores e
definição de suas instituições políticas. Para Tavares Bastos, as leis teriam precedência sobre
os costumes, enquanto para Uruguai os costumes teriam precedência sobre as leis, separando
o liberalismo41 do primeiro e o centralismo unitário do Estado do segundo. Esse problema de
adequação entre a natureza da sociedade e a natureza das instituições seria relegado ao
segundo plano com a instauração da República, mas não despareceria da agenda da reflexão,
sendo progressivamente retomada e aprofundada, em especial a partir da década de 1910, com
destaque para a obra de Alberto Torres.

Torres e eu, o que um e outro fizemos – em relação ao conhecimento científico da


nossa evolução e formação social, do ponto de vista especialmente da evolução das
instituições políticas e da estrutura do Estado – consistiu aqui, nesta objetividade
metodológica: considerar os problemas do Estado ou, melhor, os problemas políticos
e constitucionais do Brasil, não apenas simples problemas de especulação
doutrinária ou filosófica – como então se fazia e como era o método de Rui; mas
como problemas objetivos, vinculados à realidade cultural do povo e,
consequentemente, como problemas de comportamento do homem brasileiro na
sociedade brasileira.42

O vínculo entre a produção intelectual de Torres e de Vianna é muito estreito e


ventilado francamente pelo último. Pesa nessa conexão, muito fortemente, o método adotado,
a partir do qual toda forma de posicionamento político origina-se da análise das condições
sociais reais. O conhecimento sociológico não pode ser absenteísta, uma “investigação pela
investigação”, mas deve, sim, perseguir o objetivo da “orientação pragmática, como um
processo de coleta de dados concretos, sobre os quais se deveria apoiar a solução objetiva e
realística dos problemas nacionais”43, imperativos para o desenvolvimento social e de clara
natureza política aplicada:

Torres era antes de tudo um “político”, entendida essa palavra não no baixo sentido
de “político de partido”; mas, no alto e nobre sentido que ela comporta; digamos: no
seu sentido aristotélico. Daí, para ele, no que concerne à metodologia científica,
todas as investigações, estudos e observações da nossa realidade social deveriam ser
conduzidas para este fim superior: encontrar neles a chave para a solução de todos
os problemas da nossa organização social e econômica e da direção política e
administrativa do país. Ele punha, assim, a Ciência Social a serviço da Ciência
40
TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América. São Paulo: Editora Nacional, 1969.
41
Para Tavares Bastos “boas leis seriam capazes de produzir a boa sociedade”, em uma monarquia federativa
(apud FERREIRA, G. N. A relação entre leis e costumes no pensamento político e social brasileiro. In: CEDEC
et al. I Relatório Científico do projeto temático “Linhagens do pensamento político-social brasileiro”. São
Paulo, apresentado à FAPESP em fevereiro de 2009).
42
VIANNA, Oliveira. Problemas de política objetiva. Rio de Janeiro: Record, 1974. p. 64.
43
VIANNA, Oliveira. Problemas de política objetiva. Rio de Janeiro: Record, 1974.
Política.

Há nesse aspecto uma curiosa contradição: a percepção original dos


condicionantes concretos inclinaria as teses de Torres e Vianna para um realismo pragmático,
no entanto, o resultado da formulação desses dois autores assume a feição do idealismo
orgânico. Examinemos essa questão com mais vagar. Em O idealismo da Constituição,
Oliveira Vianna44 indica as duas “espécies” de idealismo político no Brasil: o de tipo utópico e
o de tipo orgânico. Seria utópico “todo e qualquer sistema doutrinário, todo e qualquer
conjunto de aspirações políticas em íntimo desacordo com as condições reais e orgânicas da
sociedade que pretende reger e dirigir”45; e seriam orgânicos aqueles que “nascem da própria
evolução orgânica da sociedade e não são outra coisa senão visões antecipadas de uma
evolução futura”.46 A grande distinção seria o reconhecimento dos dados da experiência
concreta e real de um povo, um meio, uma trajetória, exigências para a tomada de decisões
políticas e criação de instituições eficazes, não quimeras transplantadas do mimetismo de
tradições e ideias exógenas.47 Vianna afirma que a história brasileira teria sido marcada pelo
idealismo utópico48, o que teria constituído a razão única de nossa debilidade por não permitir
“realizar a definitiva organização social e política do nosso povo”.49
A contradição seria derivada de um profundo respeito às condições do real, na
formação específica e particular da realidade nacional e, ao mesmo tempo, a adoção de atos
da vontade política que reinventariam ou promoveriam a mudança social. Talvez por esse
motivo, do cruzamento entre um realismo analítico com um projeto político orientado de
transformação social, Oliveira Vianna tenha adotado o termo “idealismo” como base para
dois modelos distintos – o utópico e o orgânico. Para o autor, as ideias ou ideais são
fundamentais, pois o mundo político move-se por idealismos, como atos de vontade política.
Assim, o problema que separaria os idealismos seria sua finalidade distinta:

44
Utilizamos aqui as três versões do tema do idealismo constitucional de Oliveira Vianna: da coletânea
organizada por Vicente Licínio Cardoso (1924), na primeira edição/versão de O idealismo da Constituição
(1927) e a segunda edição/versão de O idealismo da Constituição (1939).
45
VIANNA, Oliveira. O idealismo na Constituição. São Paulo: Editora Nacional, 1939, p. 10.
46
VIANNA, Oliveira. O idealismo na Constituição. São Paulo: Editora Nacional, 1939, p. 11.
47
“Não há uma só instituição no Brasil, como também, provavelmente, em quase todas, senão em todas, as outras
repúblicas sul-americanas, que se assente sobre bases próprias, para um crescimento evolutivo e regular”
(TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro: introdução a um programa de organização nacional. 3. ed.
São Paulo: Cia. Editora Nacional; Brasília: INL, 1978. p. 44).
48
A nossa elite intelectual vive “entre duas ‘culturas’: uma – a do seu povo, que lhes forma o subconsciente
coletivo; outra – a europeia ou norte-americana, que lhes dá as ideias, as diretrizes do pensamento, os
paradigmas constitucionais, os critérios do julgamento político” (VIANNA, Oliveira. Instituições políticas
brasileiras. v. 2. São Paulo: EDUSP; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1974, p. 19).
49
VIANNA, 1939, p. 13.
a) De imposição à sociedade um modelo incapaz de cumprir sua função política
precípua de ferramenta pela autonomia nacional, pela realização de seu progresso – tipologia
do o idealismo utópico, ajustado apenas à vontade de uma elite alheia aos interesses nacionais
e coletivos.
b) Pela adoção de um modelo que respeitando as condições práticas da sociedade
brasileira, detectando suas mazelas e problemas, tenha como objetivo a superação dessa
situação pela adoção de instrumentos políticos apropriados a essa condição – tipologia do
idealismo orgânico.
Nesse ponto penso que o elemento mais importante de separação entre os dois
idealismos resida na tensão entre conservar/dominar (utópico)50 versus
transformar/autonomizar (orgânico).
A tendência de atrelamento de situações históricas singulares, função/destino
social do conhecimento e o uso de estratégias políticas na concretização de trajetórias
diferenciais dos Estados Nacionais não era uma invenção nossa, assim como a crítica à
hegemonia dos pressupostos liberais e aos limites do capitalismo autorregulado. Esses temas
compunham uma agenda intelectual e política pautada na ideia de crise que circulava na
produção mundial e que gerou uma gama vasta de alternativas e arranjos sociopolíticos
distintos.
No Brasil, esses elementos surgiram em contexto próprio e, no interregno do
governo Vargas, ganharam um formato centralizador e corporativista que foi, em grande
medida, associado ao autoritarismo. Tomando como exemplo a obra de Vianna, Amaral,
Torres e Campos, esse formato foi entendido como um autoritarismo instrumental 51 ou como
uma vocação autoritária stricto senso.52 Para este último, o complexo intelectual formado por
esses autores delineava o “pensamento político autoritário”, uma ideologia calcada nos
superpoderes atribuídos ao Estado diante da sociedade e do Mercado, no enorme papel
atribuído às elites técnicas, em uma visão paternalista e autoritária do conflito social,
internalização da mediação social para as arenas estatais. Desse conjunto surgiria um Leviatã
Benevolente, ventríloquo e condutor da sociedade civil amesquinhada e apequenada em sua
vitalidade, com a substituição dos conflitos sociais (de classes, da regulação do mundo do
trabalho e de antagonismos setoriais) pelo paternalismo autoritário legitimado em sua ação na
realização da “verdadeira” liberdade: a liberdade civil.
50
Conceito de Utopia muito diverso da tese de Karl Mannheim, para quem a Utopia tem significado oposto.
51
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Ordem burguesa e liberalismo político. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
52
LAMOUNIER, Bolívar. Formação de um pensamento político autoritário na Primeira República. Uma
interpretação. In: FAUSTO, Boris (Org.). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo III, v. 9, São Paulo:
DIFEL, 1985.
Tensionando as duas proposições, a linhagem do idealismo orgânico, muito
especialmente a produzida nas três primeiras décadas do século XX, pode ser compreendida
em outra chave ou ajuste: na fórmula específica e pragmática da formação nacional.
Independentemente de ser meio ou instrumento para alcançamento de um progresso nacional,
a ontologia social que baseia a gramática corporativa no Brasil indica ser esta a via possível e
necessária para a realização da sociedade. Segundo o raciocínio de Alberto Torres, o problema
brasileiro era o de desorganização, de uma penúria estranha a uma nação possuidora de vasto
território, porém incapaz de produzir o necessário para subsistência de seu povo, sem ethos do
trabalho e miserável situação educacional, com proprietários “irregulares” e que no conjunto
perderia feio na comparação com outros países. Um país a que faltam tais requisitos

não é uma nação, e não é mesmo uma soberania, senão no rótulo jurídico. Nós
carecemos de organização, e precisamos nos reorganizar, não como instituição
jurídica, segundo os modelos de outros, mas como nacional, como corpo social e
econômico, não devendo copiar nem criar instituições, mas fazê-las surgir dos
próprios materiais do país: traduzir em leis suas tendências, dando corretivo a seus
defeitos e desvios de evolução.53

Assim, o problema brasileiro residiria em uma nacionalidade

[...] dispersa, amorfa, em estado quase líquido, sem elementos de condensação e


resistência; um composto de admiráveis caracteres individuais, moralmente unidos,
sem caráter social; um conjunto de raças e de tipos, sem modelo nacional; uma
nação, sem nacionalidade (grifos do original).54

Contribuiriam para explicação desse quadro a dispersão e forma de organização


produtiva, elites reprodutoras de ideias e padrões exógenos, instituições inadequadas, lutas
partidárias sectárias e sem sentido, falta de propósito comum e inexistência de formas de
solidariedade social e política. A vida pública seria, assim, a contrapartida de uma sociedade
plástica e hipossuficiente:

A separação da política e da vida social atingiu, em nossa Pátria, o máximo da


distância. A política é, de alto a baixo, um mecanismo alheio à sociedade,
perturbador da sua ordem; governos, partidos e políticos sucedem-se e alternam-se,
levantando e combatendo desordens, criando e destruindo coisas inúteis e
embaraçosas. Os governantes chegam à situação de perder de vista os fatos e os
homens, envolvidos entre agitados e enredos pessoais.55
53
TORRES, Alberto. A organização nacional. São Paulo: Editora Nacional, 1978. p. 167.
54
TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro: introdução a um programa de organização nacional. 3. ed.
São Paulo: Cia. Editora Nacional; Brasília: INL, 1978. p. 127.
55
TORRES, Alberto. O problema nacional brasileiro: introdução a um programa de organização nacional. 3. ed.
São Paulo: Cia. Editora Nacional; Brasília: INL, 1978. p. 88.
O método e boa parte dos argumentos de Torres são retomados por Vianna,
modificando a “nossa gente” para o “povo-massa”, aprofundando a análise da ocupação
(descritiva e antropogeográfica), a formação de caráter cultural e a organização econômica e
institucional. Na tese do regime do clã, sua origem e inevitabilidade está na “extrema
miserabilidade das nossas classes inferiores”, já que o campônio não possuiria força
pecuniária, material e social que lhe permitisse “reagir contra o arbítrio que o ataca, ou o
expropria, ou o oprime”.56 De outro lado, mesmo seu arranjo mais moderno ou evoluído ainda
conformaria uma debilidade, pois o Brasil seria um país descontínuo, ganglionar e de
isolamento de grupos societais:

O que eu vejo nele, no seu conjunto, é uma série numerosa e variada de núcleos
orgânicos ou gânglios regionais, distintos, pela formação e estrutura social, uns dos
outros e que, por sua vez, se subdividem em núcleos menores, separados (insisto em
frisar este traço) por enormes espaços desertos, “lacunas intermediárias”, como diria
La Blanche. Núcleos estes praticamente destituídos de circulação material e
espiritual e vivendo, por isto mesmo em regime de insulamento. Insulamento que
tende a particularizá-los cada vez mais em grupos culturais próprios, pela sua quase
ausência de contatos com os outros grupos e os centros civilizadores do litoral.57

Adicionado a esses problemas estruturais de formação colonial, matriz do


amorfismo social, do insolidarismo, do aparecimento de elites descoladas da realidade social
(incapazes, também, de dirigir a sociedade para a autonomia nacional), produtoras de um
conjunto de valores e práticas sociais que acentuariam o atraso e a distância de outros
exemplos mundiais, haveria ainda o desajuste grave das nossas instituições, na constituição do
Estado e nas possibilidades da democracia. Quanto às instituições, o maior problema era a
distância entre o “país real” e o “país legal”, pelo transplante de cânones adversos às práticas
costumeiras e comuns que oscilavam entre o regime de clã, o povo-massa, o insulamento
ganglionar e a cegueira das elites.58 Quanto à organização administrativa e política chamada
Estado, esta aqui formou-se alheia ao processo americano, caracterizado por emergir da
decisão consciente dos indivíduos. Entre nós, ao contrário, era uma espécie de

carapaça disforme, vinda de fora, importada. Vasta, complexa, pesadíssima, não está
pela enormidade da sua massa, em correspondência com a rarefação e o tamanho da
56
VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil: história, organização, psicologia. 7. ed. Belo
Horizonte: Itatiaia; Niterói, EdUFF, 1987. p. 145.
57
VIANNA, Oliveira. Instituições políticas brasileiras. v. 1. São Paulo: EDUSP; Niterói: Universidade Federal
Fluminense, 1974. p. 79.
58
Cf. teses presentes em O idealismo na Constituição, versões 1927 e 1939, e na análise mais madura de Vianna,
em Instituições políticas brasileiras (1949).
população que subordina. Perfeitamente adequada a uma sociedade que possuísse o
grau de condensação e de complexidade de qualquer sociedade europeia, em fase
adiantada de evolução, é flagrante a sua disparidade com uma sociedade, como a
brasileira do período colonial, de fisionomia ganglionar, rarefeita, dispersa, em
estado de dissociação intensa.59

Da mesma forma que as instituições precisariam de um giro de adaptação para as


condições reais, e não quiméricas, da forma social brasileira, a democracia na experiência
brasileira teria que assumir como ponto vital não o sufrágio “liberalizado a todo mundo”, mas

a garantia efetiva do homem do povo-massa, campônio ou operário, contra o arbítrio


dos que “estão de cima” – dos que detêm o poder, dos que “são governo”. Pouco
importa, para a democracia no Brasil, sejam estas autoridades locais eleitas
diretamente pelo povo-massa ou nomeadas por investidura carismática: se elas
forem efetivamente contidas e impedidas do arbítrio – a democracia estará
realizada.60

O conjunto da seleta de pontos das obras de Torres e Vianna – ressaltando o tema


nevrálgico da necessária adequação funcional entre as condições sociais reais, caracterizadas
por variados elementos de amorfismo, insulamento geográfico e econômico, insolidarismo e
formas singulares da dominação por elites e clãs, e a natureza e as tarefas esperadas das
instituições políticas de transformação desse cenário – pretende reforçar o argumento de que,
para esses autores, a adoção da saída corporativista e da centralidade do papel do Estado
dificulta não só sua identificação imediata enquanto uma ideologia autoritária, mas também
torna mais complexa a compreensão de seu caráter instrumental. Uma saída para esse
imbróglio reside na compreensão do elo intrínseco entre a interpretação, enquanto expressão
da particular ontologia social brasileira, e a definição pragmática de arranjos políticos
específicos para essa situação histórica diferencial. Assim, na construção de uma modernidade
própria e particular, a via de construção da nação autônoma seria pavimentada por um modelo
autóctone – no qual a recepção do corporativismo seria incorporada e ressignificada.
Adotar a hipótese da proximidade e funcionalidade do corporativismo no debate
intelectual e político brasileiro no entorno da década de 1930 facilita compreender como ele
pode aparecer em programas ideológicos tão distintos dos integralistas, dos state makers do
staff varguista e do nascituro projeto industrialista. Nesse diapasão, destaco a permanência do
corporativismo na produção intelectual de Simonsen, bastante distante do arcabouço

59
VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil: história, organização, psicologia. 7. ed. Belo
Horizonte: Itatiaia; Niterói, EdUFF, 1987, p. 245.
60
VIANNA, Oliveira. Instituições políticas brasileiras. v. 2. São Paulo: EDUSP; Niterói: Universidade Federal
Fluminense, 1974, p. 174.
conceitual do pensamento de Alberto Torres, Oliveira Vianna e outros intelectuais próximos
ao que Lamounier convencionou chamar de ideólogos do pensamento autoritário.
A interrogação sobre o atraso, identificado como um processo específico da
formação histórica nacional, é elemento das trajetórias de Torres e Vianna e que permanece na
obra de Roberto Simonsen, abraçando agora uma explicação de tipo econômico, tanto para a
formação colonial que nos coloca em situação de atraso (subcapitalismo) quanto para os
obstáculos da fase 1930/1945, em que o planejamento, a força centralizadora do Estado e o
arranjo de pactuação entre as classes seriam fundamentais para o progresso e a constituição de
um projeto nacional autossuficiente.61
Roberto Simonsen62 foi pioneiro na afirmação da condição estrutural do atraso em
nossa economia, condição inicial da qual todos os demais problemas sociais seriam
derivações. Percebe-se, analisando a cronologia e o conteúdo de seus trabalhos, uma
progressão analítica que tenta abarcar o sentido desse problema primeiro como pobreza,
depois como pauperismo e, por último, como subcapitalismo (versão embrionária de
subdesenvolvimento). É também no pensamento simonseano que encontramos a passagem
conceitual do antigo protecionismo industrial para o planejamento econômico.
O estudo sobre as condições da pobreza brasileira surge na agenda de reflexão de
Simonsen desde o texto de 1930, em que afirma que a questão da carestia de vida e seu
vínculo com o “inexistente” protecionismo eram uma miragem – mesmo porque, a rigor,
nunca houve protecionismo no Brasil (pelo menos despendido de fato à indústria). Simonsen
conclama os espíritos lúcidos ao real problema da sociedade brasileira, o seu baixo poder
aquisitivo, diferente aqui daquele do estágio mais primitivo descrito por List (o da agricultura
de subsistência) ou aquele imerecido pelo agravamento do processo de concentração e
espoliação do capital (como o que ocorre nos países com desenvolvimento industrial mais
antigo e onde a posição gananciosa e irascível dos patrões leva os indivíduos ao embate de
classes).

Verifica-se, porém, que a origem da existência desses baixos níveis é bem diversa do
61
O reconhecimento da originalidade da tese do subcapitalismo e do afastamento da vocação agrária é relevante,
dada a visão de conjunto da posição do autor, já que Simonsen, na primeira fase de sua obra (1918/1928), parece
ser um liberal, submisso à vocação primário-exportadora. Na década seguinte, Simonsen torna-se um keynesiano
ou algo mais avançado – um desenvolvimentista – de qualquer forma, um antiliberal do ponto de vista
econômico, um defensor radical do planejamento e do projeto de industrialização.
62
SIMONSEN, Roberto. As crises no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora, 1930; SIMONSEN, Roberto. As
finanças e a indústria. São Paulo: São Paulo Editora, 1931; SIMONSEN, Roberto. Ordem econômica, padrão de
vida e algumas realidades brasileiras. São Paulo: São Paulo Editora, 1934; SIMONSEN, Roberto. Aspectos da
política econômica nacional. São Paulo, 1935; SIMONSEN, Roberto. A indústria em face da economia
nacional. São Paulo: Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1937.
que se constata em alguns grandes países de densa população, de fartos recursos
econômicos e de grande progresso material. Ali, muita vez, existe a miséria
imerecida, proveniente da má distribuição dos proventos do trabalho; aqui, apura-se
que, em larga escala, a pobreza decorre da insuficiência da produção, do atraso e da
instabilidade do meio. O problema do salário está indissoluvelmente ligado ao da
produção. Todos ansiamos – patrões e empregados do Brasil – que aqui se
estabeleça uma justa remuneração do trabalho, que todos possam viver a vida digna
[...] mas se a retribuição do homem é fixada em grande parte pela própria produção;
se esta é de pequeno valor em relação ao volume de mão de obra disponível, como
obter um elevado quociente se o divisor é fraco e o dividendo cresce
continuadamente? O nosso grande mal, atingindo todas as classes, principalmente a
dos trabalhadores, é a insuficiência de ganho.63

Esse argumento permeia toda a produção simonseana até seu último trabalho, mas
em nenhum de seus textos a questão foi tão clara e cruamente exposta quanto no trabalho
apresentado ao plenário da Assembleia Constituinte, em 1934, quando assevera que o Brasil é
um país pobre com uma população pobre. A afirmação, nada simpática, vinha acompanhada
de um apanhado de dados e indicadores preocupantes, apresentados a uma plateia
representativa de todos os interesses nacionais (talvez o mais seleto e importante grupo de
ouvintes a que Simonsen já tivera acesso):

Ernest Wagemann, presidente do Departamento de Estatística e do Instituto para o


Estudo de Conjuntura da Alemanha, na classificação dos povos, que adotou, inclui o
Brasil na zona neocapitalista, de acordo com determinados índices econômicos.
Nessa mesma zona estão compreendidas a Austrália, a África do Sul, a América
Central, a América do Sul e parte do Canadá. Como índices de ordenação, tomou a
densidade da população por quilômetro quadrado, o valor do consumo de máquinas
por habitante, a extensão das vias férreas, o número de trabalhadores industriais em
percentagem da população economicamente ativa e o valor do comércio exterior por
habitante. Esses índices médios, para toda a zona neocapitalista, em conjunto, foram
encontrados como sendo de: densidade de população: 3,1 hab. por km 2; consumo de
máquinas: 32$000 por hab.; extensão das vias férreas: 21,8 km2 por 10.000 hab;
existência de vagões: 27; percentagem de operários industriais: 19; índice do
comércio exterior: 684$000 por hab. Para o Brasil, especialmente, esses índices
seriam os seguintes: densidade de população: 5,2 hab. por km 2; consumo de
máquinas: 16$000 por hab.; extensão das vias férreas: 7,5 km2 por 10.000 hab;
existência de vagões: 10 por 10.000 hab.; percentagem de operários industriais: 10;
índice do comércio exterior: 185$000 por habitantes.64

Pelos indicadores utilizados pelo Instituto alemão, o Brasil, mesmo fazendo parte
da denominada zona neocapitalista, uma vez estabelecidos os valores médios encontrados em
todo o conjunto de países que faziam parte desse vasto grupo, está provavelmente colocado na
fímbria dessa classificação. Além dos indicadores quantitativos, Simonsen qualifica a pobreza
brasileira não só em termos de uma baixa renda per capita, mas também em relação aos

63
SIMONSEN, Níveis de vida e a economia nacional. São Paulo, sem editora 1940, p. 14.
64
SIMONSEN, Roberto. Ordem econômica, padrão de vida e algumas realidades brasileiras. São Paulo: São
Paulo Editora, 1934. p. 16.
indicadores da baixa escolaridade e participação política da população. As rendas do Estado
brasileiro acompanhavam a insuficiência do ganho e, com um quadro já tão adverso, parecia
ainda pior o prognóstico do futuro:

O Brasil está classificado entre os países em que a creação de novos capitais é


inferior às necessidades da amortização de suas dívidas sendo, portanto, forçado a
cobrir o deficit por importação de capitais ou lançamentos de empréstimos no
exterior. Calcula-se que essa diferença necessária corresponde a 6% do rendimento
nacional. Todos esses elementos, Sr. Presidente, denunciam esta dura realidade: o
Brasil é um país pobre, habitado por uma população pobre.65

Ou seja, o ritmo da geração de riqueza do país era inferior ao tamanho de sua


dívida, e esta distância aumentaria ainda mais pelo tradicional método de cobrir o déficit com
novo endividamento. A afirmação de Simonsen, ao fundo desse cenário, é que não somente o
país era pobre como tendia a ser cada vez mais pobre – provém daí o teor imperativo de sua
cruzada contra o pauperismo. A afirmação de Simonsen criou, naquele momento, uma
celeuma no plenário, desembocando nos apartes feitos sobre a riqueza inata do país. Simonsen
era acusado, indiretamente, de desprezar as condições naturais e mesológicas que davam
sustentação e uma perspectiva de futuro para a economia nacional. Não só a discordância de
Simonsen devia-se à convicção de que o desenvolvimento econômico só poderia ser gerado a
partir do crescimento das atividades industriais e do desenvolvimento interno, como a questão
da pobreza brasileira funcionava como uma peça estratégica da crítica ao modelo vigente,
responsável pelos indicadores do período, e como uma recusa ao argumento de uma “natureza
potencial” que colocaria de lado os três problemas que o autor queria realçar: a crítica do
modelo vigente, a necessidade de mudança e a importância da vontade de implementar as
transformações necessárias longe de uma perspectiva espontânea ou natural.
Ao longo desse extenso debate (mais de dez páginas transcritas nos anais da
Constituinte), Simonsen apontaria sempre a mesma condicionante: um país pobre e com uma
tendência a empobrecer mais; e uma única saída: apostar no desenvolvimento de uma
economia de base industrial. O único consolo que apresenta aos ouvintes é que nossos males
resultavam do atraso do país que ainda não adentrara ao modelo industrial. Se esse atraso era
lamentável, pelo menos nos habilitaria a ingressar na era do desenvolvimento sem conviver
com a mesma quantidade de problemas que marcara a evolução sombria de outros povos –
“crescemos menos, erramos menos”.

65
SIMONSEN, Roberto. Ordem econômica, padrão de vida e algumas realidades brasileiras. São Paulo: São
Paulo Editora, 1934. p. 18.
O conjunto da reflexão apresentada no plenário da assembleia incidia em alguns
pontos importantes para o projeto industrial: evidenciava uma situação de pobreza crônica,
devido as suas características, originária dos momentos anteriores da economia; condenava o
custo dos direitos sociais que incidiriam nas atividades produtoras; pregava o crescimento da
economia primeiro e a distribuição de riquezas depois; acentuava as defasagens sociais
(ausência de educação, de condições de higidez e de acesso a bens e serviços básicos por parte
da maioria da população brasileira); apresentava como dado a estagnação do ritmo das
exportações e apontava, ao contrário, a aceleração da tendência ao endividamento; incitava as
elites a abandonarem suas ideias exóticas e a aferrarem-se aos verdadeiros problemas
nacionais; colocava o estímulo ao desenvolvimento do comércio e da indústria como caminho
para sair da condição de pobreza.
O conhecimento acumulado sobre a experiência histórica de outras nações nos
indicava um caminho mais seguro para trilhar, desde que tivéssemos a sábia atitude de não
repetir os erros nelas praticados e de não importarmos modelos sem a preocupação de
verificar a validade e aplicabilidade deles ao quadro brasileiro.

A situação de hoje em dia é esta: nação nova, tem de ser protegida, pois não dispõe
dos aparelhamentos econômicos dos países adiantados, e os países fracos, os que
não dispuserem de tais aparelhamentos, fatalmente terão de perecer na concorrência
internacional. Assim, temos de compensar a fraqueza das nações novas com
proteção apropriada.66

Nesse aspecto, a proposição de protecionismo à indústria e sua necessidade diante


da competição internacional revelam a influência das teses de Manoileco (que Simonsen
havia lido e que é citado em algumas de suas obras).
Outra contribuição original encontrada em As crises no Brasil67 é uma percepção
crítica sobre a dinâmica do desenvolvimento capitalista. Tomando como tipo original de
sucesso econômico o modelo inglês e a revolução tecnológica norte-americana (destacando o
forte protecionismo que marcou esses sólidos exemplos da economia liberal), Simonsen é o
primeiro a apontar a existência de um descompasso entre economias já desenvolvidas e as
subcapitalizadas, não podendo as primeiras servir de modelo eficiente para as segundas. A
cópia do padrão de economia natural (escola clássica) não poderia garantir êxito em
economias atrasadas, especialmente em razão da função essencial da inovação. Para
Simonsen, mesmo os Estados Unidos não transladaram a estrutura da economia inglesa, mas

66
ANNAES da Assembleia Nacional Constituinte de 1933, v. VII, 1935, p. 117.
67
SIMONSEN, Roberto. As crises no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora, 1930.
diferenciaram-se dela pela inovação tecnológica, pela administração racional do processo
produtivo e pela modificação da estrutura do seu parque industrial. Outro exemplo sobre a
diversidade econômica era o caso alemão, no qual a “vantagem competitiva” fundamental
fora a ação interventora do Estado como ente que forçara racionalização extrema, tanto da
produção empresarial quanto da econômica enquanto um sistema integrado (modelo da
economia nacional proposto por Georg List).
Em síntese, Simonsen traça um quadro diferente para as deficiências brasileiras,
alinhadas ao problema da vocação agrária e da conformação de nossa inserção subalterna na
divisão internacional do trabalho. A razão do nosso atraso é econômica, presa a uma pobreza
resultante de nossa baixa capacidade de produção. Nesse cenário, a adesão ao liberalismo
econômico fora parte da formação do atraso, e sua permanência um meio rápido para o
colapso social. Seria necessária a construção de um projeto nacional, acima dos interesses
particulares e capaz de promover a riqueza nacional – ponto de partida para uma melhor
divisão da elevação da produtividade (movimento primário) no conjunto dos grupos sociais
que a produziram (movimento secundário).
O projeto de desenvolvimento simonsiniano brota, como as demais ideologias
corporativistas brasileiras do período, do reconhecimento de uma causa estrutural de nossas
insuficiências e na proposição de uma vontade organizada e condutora da construção
nacional. Nessa proposição, o livre mercado, o individualismo político, os sectarismos
partidários deveriam ser subsumidos a um pacto ou compromisso social, articulado entre
trabalhadores e empregadores – as forças vitais da nação – e coordenado pelo Estado, a partir
de um conhecimento científico e racional, planejador da mudança social. Simonsen, nesses
termos, é um intelectual da linhagem do idealismo orgânico. Não é à toa que em sua trajetória
de constituição da ideologia do industrialismo em condições de subcapitalismo tenha se
aproximado e, paulatinamente, participado das estratégias corporativistas adotadas por Vargas
– a quem se opusera em momentos anteriores, como na Aliança Nacional Libertadora, na
Revolução de 1930, na guerra paulista de 1932 e, menos abertamente, nos trabalhos da
Constituinte de 1933/1934 (em que chegara na condição de deputado classista).

A engenharia corporativista em ação – as estratégias de Vargas

Os ideólogos do corporativismo interpretaram os males do Brasil tecendo um


grande rol de problemas que anelavam a dimensão social com as disfunções institucionais.
Meio, raça, vínculos de solidariedade social, insulamento regional, organização das atividades
produtivas e unidades terratenentes produziam corolários políticos como patrimonialismo,
elitismo desenraizado, Estado fraco e nação fragilizada. Essas interpretações, geradas antes ou
logo depois da Revolução de 1930, aparecem no fundo de tela das ações do governo Vargas,
mais acentuadamente nos desdobramentos do governo provisório, momento constitucional e
Estado Novo, com destaque para a crítica da estrutura partidária, a arquitetura do Estado e
suas funções na Primeira República. Durante esses quinze anos houve um movimento de
fortalecimento progressivo da proposta corporativista como único meio de solução dos
problemas nacionais, envolvendo as capacidades do Estado de agir em prol da realização do
projeto nacional e, nessa tarefa, impedindo que os distúrbios do partidarismo oligárquico, das
elites sem responsabilidade social, de um capitalismo sem direção e acelerador de tensões
sociais ou mesmo do revival das energias da Primeira República pudessem abortar as metas
instauradas pela revolução de 30. A leitura dos discursos de Vargas em A nova política do
Brasil revela o altíssimo nível de adesão à gramática do corporativismo, à constituição de uma
democracia econômica e organicista em oposição ao liberalismo, tanto econômico quanto
político. Essa evolução em direção a novas bases da organização política e da vida pública
nacional fora obra da Revolução, na preservação de seu caráter original, exigente de
superação das sequelas ainda renitentes de um federalismo mal compreendido e mal
executado na República.68
A revolução não fora obra de um partido, e sim um amplo movimento de opinião,
difuso e complexo, sem ter para “guiar-lhe a ação reconstrutora, princípios orientadores, nem
postulados ideológicos definidos e propagados”69 . Seu caráter heterogêneo, compósito de
inúmeras correntes e energias sociais de “difícil aglutinação” impulsionou o governo
provisório a “colocar-se acima das competições partidárias ou facciosas, para não trair os
compromissos assumidos com a Nação”70, integrando o país nas “concepções do Estado
moderno, onde as preocupações partidárias ocupam lugar subalterno”.71
Para escapar das cisões facciosas dos partidos da Primeira República, Vargas
invocaria a visão antinômica da cooperação das classes, das mediações dos Conselhos
Técnicos e de uma nova forma de articulação da representação política de molde orgânico,
baseado nos corpos representativos das classes produtoras (empregados e empregadores) – a
representação classista, utilizada no processo eleitoral de 1933 para composição do colegiado

68
VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. O ano de 1932 – A Revolução e o Norte – 1933. v. 2. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1938. p. 149.
69
ANNAES da Assembleia Nacional Constituinte de 1933, v. VII, 1935, p. 52.
70
ANNAES da Assembleia Nacional Constituinte de 1933, v. VII, 1935, p. 117.
71
VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. A realidade Nacional de 1933 – retrospecto das realizações do
Governo, em 1934. v. 3. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938.
que definiria a nova Constituição Brasileira. Em discurso proferido na instalação da
Assembleia Constituinte de 1933, Vargas declarava como fato incontroverso:

a decadência da democracia liberal e individualista e a predominância dos governos


de autoridade, em consequência do natural alargamento do poder de intervenção do
Estado, imposto pela necessidade de atender a maior soma de interesses coletivos e
de garantir estavelmente, com o recurso das compreensões violentas, a manutenção
da ordem pública, condição essencial para o equilíbrio de todos os fatores
preponderantes no desenvolvimento do progresso social. A chave de toda
organização política moderna é a segurança e eficiência desse equilíbrio. Onde ele
falta, há perturbação, entrechoques e dispersão de energias. Se é verdade, como se
afirma, que o princípio de coexistência social evoluiu, deslocando-se do indivíduo
para a coletividade, o máximo que se deve aspirar, nos momentos conturbados e
incertos do mundo atual, é a ordem para o trabalho e o respeito para o cidadão,
visando conciliar, no interesse de todos, a liberdade com a responsabilidade (grifos
meus).72

Nessa empreitada, surge como necessário encontrar uma nova forma social capaz
de concertar e equilibrar as tensões econômicas e sociais, com base no “princípio orgânico e
justo da colaboração e da cooperação” 73, e, por outro lado, afastar a ameaça do retorno das
artimanhas políticas dos grupos e partidos vencidos em 1930. Nesse ponto, Vargas
demonstrou um segundo caráter para a adoção das estratégias do corporativismo: funcionar
acima das classes, dos grupos, dos regionalismos e da forma tradicional do liberalismo em
seu formato nacional – alinhado às forças retrógradas do passado do amorfismo social, das
elites a serviço das tiranias das oligarquias mercantil-exportadoras, da desagregação política.
Trata-se de uma adaptação do corporativismo, em seu projeto nacional e modus operandi
orgânico distinto do privatismo individualista, ajustado aos conflitos políticos modernos,
porém aqui ressignificado pelos contornos específicos de nossa trajetória – tema
exaustivamente tratado pelos intelectuais da linhagem orgânica na interpretação social da
formação brasileira. Essa adaptação corresponde exatamente ao desafio indicado
explicitamente por Vargas de governar a partir de um projeto nacional, maior e mais amplo

72
VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. O ano de 1932 – A Revolução e o Norte – 1933. v. 2. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1938. p. 149.
73
Que para realizar-se exigiria “desprezo aos preconceitos, desapegos dos bens materiais, em suma, espírito de
sacrifício social, tudo isso impondo uma grande transformação de mentalidade” (VARGAS, Getulio. A nova
política do Brasil. Da Aliança Liberal às realizações do primeiro ano de Governo (1930-1931). v. 1. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1938. p. 147).
que os grupos e movimentos sociais que o geraram. 74 Apoiou-se, fortemente, em duas
estratégias: a representação profissional e os Conselhos Técnicos.
A proposta da representação classista criava novos atores políticos, concorrentes
das elites tradicionais por estarem fora dos partidos e dos interesses regionais e setoriais
(como as elites latifundiárias, exportadoras e da economia do café), funcionando em uma
lógica diversa: da diferença e complementaridade das classes laborais: trabalhadores
assalariados, industriais ou comerciais, empresários industriais e comerciantes e o
funcionalismo público). Seu objetivo era o de

[...] congregar todas as classes, em uma colaboração efetiva e inteligente. Ao direito


cumpre dar expressão e forma a essa aliança capaz de evitar a derrocada final. Tão
alevantado propósito será atingido quando encontrarmos, reunidos numa mesma
assembleia, plutocratas e proletários, padrões e sindicalistas, todos os representantes
das corporações de classe, integrados, assim, no organismo político do Estado.75

Com a criação dos Conselhos Técnicos, grupos de apoio do governo federal (que
eram nomeados metade pelo governo e metade pela associação dos trabalhadores das diversas
profissões), Vargas implementou mais uma instância funcional orgânico-corporativista,
trazendo para dentro do Estado a representação, a participação e a competência de influenciar
a agenda governamental grupos sociais ligados diretamente ao mundo da produção, investidos
agora de uma capacidade política não liberal-competitiva, de tipo eleitoral ou partidário.
Outro fato importante é que o critério de legitimidade desses atores advinha de um saber
técnico, de uma expertise necessária em um modelo político que pretende dirigir a mudança
social a partir do Estado e de suas instituições. Conselhos Técnicos e o surgimento de uma
burocracia pública funcional com a criação do DASP transferiam, paulatinamente, a dinâmica
do poder político da articulação e competição da sociedade civil e dos partidos para dentro das
arenas estatais, sob a égide da racionalidade econômica. Soma-se à engenharia corporativista
de Vargas, acelerada com a implantação do Estado Novo, o papel fundamental da estrutura
econômica enquanto um problema (origem de tensões sociais graves, de disrupturas perigosas
como a luta de classes), o reconhecimento da autonomia econômica como condição necessária
da autonomia e soberania política nacional e, por último, como estratégia de resolução dos
74
A revolução não fora processo demorado e apoiada nas “forças vivas da nacionalidade. A chamada Aliança
Liberal não foi um partido político, no conceito comum da expressão. Nela entraram vários agrupamentos
partidários de programas diferentes e, sobretudo, avolumou-se a corrente de opinião pública brasileira, fora dos
partidos e acimas deles, em cujo espírito se arraigara o ideal renovador dos velhos moldes da política nacional”
(VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. Da Aliança Liberal às realizações do primeiro ano de Governo
(1930-1931). v. 1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938. p. 82).
75
VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. Da Aliança Liberal às realizações do primeiro ano de Governo
(1930-1931). v. 1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938. p. 118.
problemas do amorfismo social (apontado por Torres, Vianna, Amaral) e do subcapitalismo
(apontado por Simonsen – de quem Vargas se aproximaria muito, após a implementação dos
Conselhos Técnicos e na guinada industrialista pós-1935/1937, como base do modelo de
desenvolvimento nacional).
A democracia de tipo liberal clássica, de partidos e eleições, no caso brasileiro,
não cabia mais nos imperativos de uma sociedade em ebulição76 e em nova configuração:

Quando os partidos políticos tinham objetivos de caráter meramente político [...] as


suas agitações ainda podiam processar-se à superfície da vida social, sem perturbar
as atividades do trabalho e da produção. Hoje, porém, quando a influência e o
controle do Estado sobre a economia tendem a crescer, a competição política tem
por objetivo o domínio das forças econômicas, e a perspectiva da luta civil, que
espia, a todo o momento, os regimes dependentes das flutuações partidárias, é
substituída pela perspectiva incomparavelmente mais sombria da luta de classes. 77

O progressivo aprofundamento da perspectiva corporativista no governo Vargas


avançaria da crítica do liberalismo da Primeira República, apoiada na tese de condições
particulares de nossa formação e da criação de um quadro político e institucional adequado a
essa particularidade, passando pelas estratégias de enfrentamento da herança do regime de
derrocado em 1930, até um projeto nacional robusto, pautado pela questão da industrialização
e modernização econômica como base da questão nacional. Em todos esses momentos, de
perfil não liberal, estariam presentes elementos da gramática política do corporativismo, em
especial na versão nacionalizada dos elementos do conflito social (em parte moderno, porque
capitalista; e em parte de modernidade híbrida em função do legado econômico, social e
político da formação colonial), o nacionalismo voltado para o futuro, como projeto social, e a
cooperação entre as classes produtoras em arranjo singular da promoção artificial do
desenvolvimento econômico via planejamento e condução estatal.
Esse repertório, com a significativa modernização conceitual promovida por
Roberto Simonsen, é que permitiria que os elementos do corporativismo permanecessem,
adiante, nas elaborações do nacional-desenvolvimentismo – forma expressiva e ressignificada
da linhagem do idealismo orgânico em outro contexto: o da passagem acelerada para a
industrialização.

76
“Na hora presente, os homens de responsabilidade pública não podem nem devem esquecer que as questões de
natureza econômica e os imperativos da ordem social sobrelevam às preocupações meramente políticas”
(VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. Retorno à terra natal – confraternização sul-americana – A
Revolução Comunista – novembro de 1934 a julho de 1937. v. 4. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938. p. 197).
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VARGAS, Getulio. A nova política do Brasil. O Estado Novo – 10 de novembro de 1937 a 25 de julho de
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