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1.

A HOSPITALIZAÇÃO INFANTIL

1. Um breve histórico da instituição hospitalar e a inserção infantil nesse


contexto
Retratar a criança e seu sofrimento subjetivo no contexto dos hospitais,
não se constitui em tarefa fácil, posto que a infância seja vista como
diametralmente oposta: fase das brincadeiras, da alegria, da saúde plena
(RIBEIRO e ANGELO, 2005). Nesse viés, primordial iniciar pela
contextualização do surgimento das instituições hospitalares.
A instituição hospitalar surgiu através da necessidade de cuidar dos
doentes, associada com a prática e aprimoramento da medicina. E isso
representou, à época, um grande avanço, uma vez que, em tempos
imemoriais, nas civilizações mais antigas, o cuidado com os enfermos
acontecia de maneira “mágica” (através de rituais), geralmente realizada em
suas próprias residências (CAMPOS, 1995).
A possibilidade de internação aconteceu na antiguidade, onde as
instituições hospitalares eram consideradas como uma grande espécie de
depósitos. Sua finalidade era mais social do que terapêutica. Seu objetivo era
isolar as pessoas doentes do contato com a sociedade, em lugares distantes,
para que eles não representassem perigo algum para as outras pessoas
(BRASIL, Ministério da Saúde, 2006).
No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o surgimento da
medicina aconteceu por meio do primeiro médico trazido por Pedro Álvares
Cabral em 1500. Mas a medicina só passou a ser valorizada após o
aparecimento de doenças trazidas pelos brancos e pelos negros, durante a
colonização, sendo os primeiros hospitais construídos as Santas Casas, nas
cidades de Santos e São Paulo. Estas instituições estavam associadas à
religião e a caridade, mas a precariedade da liderança, a ausência de médicos
e a falta de medicamentos as transformaram em verdadeiros depósitos de
gente (BRASIL, Ministério da Saúde, 2006).
Durante essa época, os hospitais desenvolviam apenas atividades de
naturezas curativas, quando o corpo passou a ser reconhecido como força de
trabalho e investimento e como tal necessitava de cuidado e recuperação
(CAMPOS, 1995).
A medicina avançou e a Pediatria surgiu como uma de suas
especialidades, provocando uma grande mudança no conceito de criança e
tendo uma preocupação voltada para o seu desenvolvimento e para a
assistência prestada a elas em situação de internação (CAMPOS, 1995). E isso
representou um grande passo na noção que passou a se ter da infância, uma
vez que as crianças, até esse momento, não eram enxergadas em sua fase
peculiar de desenvolvimento, mas eram vistas como “adultos miniaturizados”
(SULZBACH, 2000).
Atualmente, é percebida uma evolução histórica, social, econômica,
tecnológica e científica que faz com que a instituição hospitalar seja mais
completa e organizada. Além de oferecerem assistência profissional
multidisciplinar e leitos para a hospitalização, os hospitais modernos possuem
todo o conjunto de elementos solicitados pelos múltiplos problemas que os
diagnósticos revelam, e são verdadeiros centros de pesquisa e ensino
(ANGERAMI, 1984).
.
2. Hospitalização: conceitos e significados
O processo de hospitalização carrega uma pluralidade de significados
para os mais diversos campos do saber e para as pessoas que estão
submetidas a ele (ROMANO, 1999)
Pode ser compreendido como uma admissão e permanência na
instituição hospitalar, pública ou privada, equipada com todos os recursos para
o tratamento dos enfermos (SILVA, 2001).
Pode representar uma carga positiva: Como caminho para a cura,
esperança, bom tratamento, atenção pela equipe médica e mesmo, para os
menos abastados, a segurança de uma refeição. Ou pode ser sinônimo de dor,
solidão, sofrimento, desesperança (ROMANO, 1999).
Diante da necessidade de internação, nem sempre a pessoa enferma é
acolhida confortavelmente. E esse primeiro contato com a equipe hospitalar é
fundamental e refletirá bastante na aceitação do tratamento e no processo de
hospitalização, pois ao ser hospitalizado, o paciente expressa comportamentos
consequentes de sua percepção e capacidade de ajustar-se a um novo
ambiente (ROSAS, 1998). Em razão disso, se tem trabalhado tão fortemente,
principalmente a partir de 2003, com a Humanização do Sistema Único de
Saúde.
A partir do momento que o indivíduo é internado, ele se vê obrigado a
mudar seu estilo de vida. Geralmente ele é convocado a abrir mão de alguns
valores existenciais e pessoais para adequar-se às rotinas e regras
hospitalares que visam a atender principalmente uma determinação
institucional (ANGERAMI, 1984).
É importante ressaltar que, quando hospitalizado, o paciente
normalmente perde sua individualidade, a liberdade de ir e vir, sua identidade é
transformada em mais um “caso interessante” e tem sua personalidade
reduzida ao número de um leito, enfermaria ou apartamento. Além da perda do
poder de escolha e decisão sobre si mesmo e seu corpo É o chamado
processo de despersonalização do sujeito, onde o paciente deixa de significar
sua essência, para assumir a identidade da doença com que foi diagnosticado
(CHIATTONE, NICOLETTI e ANGERAMI, 2003).
Diante de tudo isso, a hospitalização representa um estímulo negativo,
pois provoca quadro de medos: medo do ambiente hospitalar e dos
equipamentos, medo da morte, da dependência, de sentir dor, de ser cortado,
ser mutilado, perder o autocontrole. Além disso, provoca a separação brusca
de familiares e amigos, do lar, do trabalho, de sua rotina diária e de todas as
pessoas que fazem parte dela, levando o paciente a apresentar
comportamentos desajustados, depressão, isolamento e reações de
inseguranças (ANGERAMI, 1984).
O sofrimento do indivíduo hospitalizado é um estado de desconforto
associado à ameaça à integralidade de sua vida, em consequência da doença
e do processo de hospitalização (SILVA, 2001).
Percebe-se, pois, claramente, que o processo de hospitalização
necessita ser bem trabalhado com o paciente, em razão da grande carga
emocional que simboliza em sua vida, a fim de que não venha a significá-lo de
uma maneira negativa, comprometendo o seu tratamento e contribuindo para a
piora de suas condições orgânicas (ROMANO, 1999).

3. A criança e a compreensão da doença


Entre as várias etapas do desenvolvimento humano, a infância se
destaca, sendo marcada, primordialmente, pela presença de atividades que
requerem esforço físico; nesse sentido, gozar de boa saúde se faz essencial,
não obstante, algumas crianças passam por processos de doença e
hospitalização, os quais são o oposto do considerado uma infância saudável e
feliz (RIBEIRO e ANGELO, 2005).
Aliado ao processo de hospitalização, instauram-se graves crises (à
exemplo das crises familiares), bem como a despersonalização, comum aos
pacientes de todas as idades, posto que é perdido ou reduzido o contato com
seus objetos pessoais, seus lares, seus amigos, familiares, espaços de
socialização (como escola, igreja), ou seja, com os elementos presentes em
suas rotinas de um modo geral, sendo obrigados a usar batas hospitalares,
alimentarem-se de refeições que não agradam seus paladares e terem por
espaço, em muitos casos, apenas o quarto do hospital, e por convivência, a
equipe médica que, por vezes, trata o paciente de modo desumanizado e
impessoal (OLIVEIRA et al, 2009).
A hospitalização é vivenciada de diferentes maneiras, sendo resultante
da soma de diversos fatores, como o nível intelectual do paciente, suas
condições sócio-econômicas, a época e lugar em que vive e até mesmo a
cultura (ROMANO, 1999). Destarte, há um aspecto importantíssimo que deve
ser considerado, em especial, pelo viés que se deseja dar ao trabalho -
enfocando a infância - qual seja a idade como importante influência na vivência
da hospitalização.
A partir da ótica piagetiana, que categoriza o desenvolvimento das
crianças consoante sua idade ( 1º período - Sensório-motor, dos 0 a 2 anos; 2º
período - Pré-operatório, dos 2 a 7 anos; 3º período - Operações concretas,
dos 7 a 11 ou 12 anos; 4º período - Operações formais, dos 11 ou 12 anos em
diante), o entendimento dos conceitos de saúde e doença, relaciona-se ao seu
desenvolvimento cognitivo. Isto é, não apresenta significações estanques,
variando conforme vão ficando mais velhas (PAPALIA, 2010).
No estágio sensório-motor, é difícil compreender a concepção da criança
acerca do seu processo de adoecimento, e dos conceitos de saúde e doença,
pela inexistência ou presença ainda incipiente da verbalização. (PAPALIA,
2010; BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2008).
No período pré-operatório, a criança apresenta pensamento egocêntrico,
concebendo saúde e doença como conceitos separados, acreditando que seus
pais são responsáveis pela saúde e elas pela doença. Assim, crêem que existe
regras que, se desrespeitadas, são passíveis de punição. Assim, se adoecem,
costumam se culpar. Acreditam, pois que a doença tem um cunho “mágico”:
“não fui um bom menino, por isso fui castigado” (PAPALIA, 2010; BOCK,
FURTADO e TEIXEIRA, 2008).
Significam, pois, a doença, em termos circulares, indiferenciados e
mágicos, isto é, prendem-se a atributos exteriores, buscam elucidações
autoculpabilizantes, creem que ficaram doentes porque transgrediram alguma
norma e que, do mesmo modo como adoeceram, irão se curar “magicamente”.
(MOURA, 2004).
No nível operacional-concreto, as crianças já são capazes de diferenciar
os fenômenos internos dos externos, todavia, a ênfase à causa das doenças
permanece no exterior ao seu corpo, principalmente os germes (PAPALIA,
2010; BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2008)
No estágio operatório-formal percebe-se que o pensamento passa a ter
a capacidade de formulação de hipóteses, o que é utilizado para a
compreensão da doença, que passa a ser multicausal e, portanto, passível de
prevenção pelas pessoas (PAPALIA, 2010; BOCK, FURTADO e TEIXEIRA,
2008)
Percebe-se, pois, que o nível de desenvolvimento cognitivo e sócio-
cognitivo irá afetar como a criança irá vivenciar o processo de hospitalização.
(BARROS, 1998).
Assim, torna-se clara a necessidade de se ter conhecimento da
compreensão da doença pela criança nos seus vários estágios de
desenvolvimento, a fim de que se possa auxiliá-la no entendimento do
processo por que passa, aliviando suas angústias e sofrimentos (RIBEIRO e
ANGELO, 2005).

4. A criança e a hospitalização

“Trabalhar com crianças doentes e hospitalizadas é uma experiência


única, inigualável. É viver cada momento como se fosse o último. É
estar junto, sempre. É sorrir, brincar, sofrer. É aprender a viver!”
(Pediatria do Hospital Brigadeiro – SUS).

A internação de uma criança é um dos momentos mais críticos na


hospitalização. Assim como os adultos, a criança possui significações únicas e
singulares diante do adoecimento e da hospitalização. No entanto, Esse
processo é muito mais difícil de ser compreendido por ela do que por um adulto
e, por essa razão, a hospitalização resulta em um momento de crise para a
criança (CHIATTONE, NICOLETTI e ANGERAMI, 2003).
A hospitalização é considerada uma experiência comumente estressante
para a criança, representa sempre um momento de ansiedade e tensão para
ela e seus pais. Se por um lado a internação beneficia o melhoramento da
doença, por outro, ela provoca na criança medo, insegurança, estresse e
trauma. Na maioria das vezes impondo uma ruptura nos vínculos afetivos da
criança com sua família e com o próprio ambiente em que vive. É sem dúvida
um procedimento agressivo na vida dela (ANGERAMI e CHIATTONE, 2003;
NIGRO, 2004).
Nesse sentido, Angerami e Chiattone (2003) ressaltam que diante da
ruptura familiar, a criança hospitalizada apresenta três manifestações: Fase de
protesto, fase de desespero e fase de desligamento. Durante a fase
de protesto, as crianças reagem de maneira agressiva à separação dos pais,
choram, sentem tristeza e seus esforços são limitados, elas recusam a atenção
de qualquer pessoa diferente e ficam inconsoláveis em suas culpas. Na fase do
desespero, o choro para, e a depressão fica evidente, a criança se retrai, isola-
se das pessoas, não tem interesse em brincar e comer e diminui os esforços
em recuperar a mãe. Já na fase de desligamento, a afetividade é diminuída, a
criança aceita ser cuidada por outra pessoa, brinca e até forma novos
relacionamentos, entretanto, este comportamento é o resultado da resignação,
e não um sinal de contentamento.
Isso porque o processo de hospitalização se traduz em interrupção da
rotina da criança, o que desencadeia o surgimento de insegurança e,
conseqüentemente, pânico e tristeza se instauram, em um ambiente que lhe é
completamente estranho (repleto de normas, restrições) e assustador (marcado
por procedimentos dolorosos e invasivos, em muitos casos). Tudo isso ocorre
ao mesmo tempo, mas com intensidades diferentes em cada criança,
dependendo da idade, situação psicológica afetiva, rotinas hospitalares,
personalidade e capacidade de adaptação, motivo e duração da internação,
atitudes da equipe hospitalar. Tal se dá em razão, principalmente, do ócio a
que estão submetidas, não havendo o incentivo a brincadeiras, tarefas
escolares, convívio social, o que resulta em angústia, ansiedade, agressividade
ou mesmo, em casos mais extremos, nas recusas em colaborar com o
tratamento e até em se alimentar. (ANGERAMI e CHIATTONE, 2003; CUNHA,
2007).
Todas as consequências sofridas pela criança quando a hospitalização
se torna necessária (retirada de seu convívio familiar, proibição de ir à escola,
restrição ao brincar, vivência do estranho e do desconhecido, submissão a
rotinas limitadoras, tratamentos dolorosos, sentimentos de morte e sofrimento,
e a própria despersonalização), pode levá-la a um quadro de hospitalismo, isto
é, a um conjunto de sintomas físicos e psicológicos que surgem em crianças,
decorrentes do internamento prolongado em hospitais (CHIATTONE,
NICOLETTI e ANGERAMI, 2003).
Todas essas situações são fatores que podem tornar traumatizante essa
experiência, pois a criança pode associar essa situação a uma forma de
punição e de abandono. Dessa forma o adoecimento e a internação infantil
exigem estratégias de enfrentamento e readaptações diante da nova situação
experimentada por ela e por sua família (NIGRO, 2004).
Esta experiência pode levar a um amadurecimento e maior
desenvolvimento psíquico ou resultar em prejuízo ao desenvolvimento físico e
mental. No modelo biomédico, a equipe de saúde, trata os pacientes como
doença, leito, enfermaria e não como pessoas, gerando uma situação de pouco
contato afetivo, o que propicia um aumento do medo de mutilação e de morte,
bem como das sensações de ameaça e impotência, contribuindo para um
estado de maior sofrimento e angústia, às crianças internadas (CAMON et al
2010).
Mas quando a assistência é humanizada, esta vivência estressante pode
ser suavizada pela possibilidade de alguns direitos, como a presença de
familiares, contato com outras crianças, afeto dos trabalhadores de saúde,
informação, atividades recreativas, entre outras. (LIMA, 1996).
Aderir a esse tipo de assistência permite que a criança seja retirada,
temporariamente, de seu estado passivo de procedimentos invasivos dando a
elas a oportunidade de fazerem suas escolhas, pois em um ambiente
hospitalar, a maioria das decisões é tomada para a criança e não pela criança.
Mesmo quando a criança escolhe não participar de uma determinada atividade,
foi oferecida a ela uma escolha, talvez uma dentre muito poucas escolhas que
ela precisou fazer (ANGERAMI e CHIATTONE, 2003).

5. O tratamento pelo brincar: breve história da Ludoterapia

A partir dos aspectos da hospitalização infantil, a humanização


hospitalar busca melhorar a qualidade do atendimento dos pacientes com base
no conceito de saúde. Faz- se necessário que as pessoas que tenham contato
com a criança, saibam que não se deve tratar somente a doença, mas vê-la
como um todo, com suas necessidades específicas, como o brincar, ou
seja, da maneira que é a mais natural para elas (RIBEIRO e ANGELO, 2005).
Sigmund Freud foi o prógono da Psicologia infantil, seus estudos com
adultos o levaram a pesquisar sobre os acontecimentos ocorridos na infância.
Por meio da observação do jogo de um menino de dezoito meses, ele
descobriu os mecanismos psicológicos da atividade lúdica e, posteriormente,
estruturou a compreensão da linguagem pré-verbal necessária à interpretação
do jogo através do caso de fobia do pequeno Hans (SOBRINHO, 2009).
Segundo Affonso (2012), a ludoterapia é um instrumento de investigação
clínica no qual, por meio de brinquedos, jogos, brincadeiras, entre outros,
organizados ou não, o profissional busca estabelecer um laço terapêutico com
a criança. Ela é muito utilizada como uma técnica projetiva expressiva,
fundamentada nos princípios da associação livre psicanalítica, praticada em
diagnósticos obtidos sem o depoimento verbal ou por meio da autoexpressão
da criança, facilitada pelo contexto clínico lúdico.
A palavra ludoterapia tem sua origem na expressão inglesa play-therapy,
com tradução literal “terapia pelo brincar”. Entretanto, não se trata de um
“brincar por brincar”, podendo-se defini-la como um brincar assistido por
profissional habilitado e treinado com uma finalidade terapêutica (HOMEM,
2009).
No decorrer de toda a história da humanidade, foram diversas as classes
profissionais a abordar a questão do brincar (brinquedos, jogos e brincadeiras),
tão grande sua importância como ferramenta para socialização,
desenvolvimento intelectual e emocional, quais sejam: Historiadores (à
exemplo de Huizinga, Caillois, Ariès, Margolim Jolibert), filósofos (Aristóteles,
Platão, Schiller, Dewey, Spencer, Gross, Stanley-Hall), linguistas (Vazden,
Vygotsky, Weir), antropólogos (Bateson, Schwartzman, Sutton-Smith, Henriot,
Brougèr), escritores (Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Manoel de Barros),
psicólogos (Bruner, Jolly e Sylva, Frein, Claparède, Erickson, Susan Isaacs,
Piaget, Wallon, Vygotsky, Elkonin), educadores (Chateau, Vial, Alain,
Rousseau, Dewey, Froebel), biólogo (Maturana) (KWIECINSKI, 2011).
Na Idade Antiga, Platão atribuía a importância ao brincar como forma de
combate à opressão e à violência, enquanto Aristóteles defendia a utilização de
jogos na educação de crianças, preparando-as para a vida. Mais tarde, por
volta do século XVIII, Rousseau defendeu a ideia de que a infância não se
constituía apenas em uma fase que precedia a idade adulta, mas, como uma
etapa com requisitos especiais (MARQUES, 2011).
Além de Freud e todos os profissionais citados anteriormente, a técnica
da ludoterapia também tem como fundamentos teóricos os trabalhos de
diversos estudiosos da psicanálise como Anna Freud, Melanie Klein, Maud
Mannoni, Winnicout, Arminda Aberastury, enfim, estudiosos que nas
averiguações clínicas do funcionamento psíquico infantil contribuíram para o
trabalho psicanalítico com crianças a partir dos trabalhos realizados por Freud
com os adultos. Esse objeto de pesquisa clínica é quase sempre incluído nas
técnicas expressivas como uma ferramenta através do qual o brincar, tal como
a associação livre, os sonhos e a atuação, permite ao clínico a investigação e o
diagnóstico do desenvolvimento mental da criança (AFFONSO, 2012).
É importante ressaltar que FREUD (1971) não acreditava que o brincar
da criança era equivalente à associação livre do adulto. Ele defendia que as
crianças não tinham capacidade de transformar seus pensamentos em
palavras. E acreditava que a criança não tinha consciência da doença. Por
outro lado, KLEIN (1970) defendia que o brinquedo é a linguagem que a
criança utiliza para se expressar. Diferentemente de Anna Freud, ela acreditava
que as crianças que não conseguiam fazer associação, não a faziam porque a
ansiedade resiste às associações verbais, e o brinquedo passa a ser um
instrumento facilitador. Como ela mesma descreve em sua obra: “A
representação por meio de brinquedos reveste-se de menos ansiedade, logo,
as representações indiretas têm um papel facilitador do acesso ao
inconsciente” (KLEIN, 1970, p.275). ABERASTURY (1991) teve sua
contribuição através do enriquecimento à compreensão da primeira hora do
jogo que o levou a percepção da fantasia de doença e de cura.
Os analistas da época compreendiam o brincar como uma ocupação
inocente; por outro lado, Klein encarava o brincar como uma atividade natural
da simbolização e resolveu aprofundar seus estudos nessa linha de
pensamento. Tanto Anna Freud como Klein, no entanto, fundamentavam-se na
ideia de Freud de que através do brinquedo a criança expressa e descreve sua
aflição (AFFONSO, 2012).
Independente das divergências entre Anna Freud e Klein, o importante é
que foi a partir dessas influências teóricas que se instituiu uma técnica
ludoterapêutica e de diagnóstico infantil dirigido às crianças, com todos os
embasamentos da psicanálise infantil, iniciada com Freud, mais sistematizada
e aprofundada por Klein e seus seguidores (AFFONSO, 2012).
Além da Psicanálise, a ludoterapia também possui uma forte influência
na Terapia Centrada na Pessoa de Carl Rogers. Por meio do desenvolvimento
de seus trabalhos clínicos, ele foi explorando um novo modo de lidar com as
crianças e através de suas experiências, começou a desenvolver uma
abordagem terapêutica não-diretiva, ou seja, o terapeuta é guiado pela criança
e não o contrário. À medida que essa nova proposta de terapia ia se
desenvolvendo, foram sendo confirmados os benefícios que ela proporcionava
a criança. Foi dessa maneira que Rogers iniciou a construção da Ludoterapia
Centrada na Criança (ROGERS, 1994).
Uma das maiores colaboradoras de Rogers, nessa terapia, foi sua aluna
e companheira de trabalho Virginia Mae Axiline. Para ela, a ludoterapia é o
processo que facilita as crianças a se ajudarem e enfatiza que essa abordagem
está fundamentada no fato de que o lúdico é a forma natural de expressão
delas. Por meio do brinquedo e de um ambiente facilitador, a criança torna-se
livre de seus sentimentos e problemas, descobre o seu caminho, mostra sua
personalidade, avalia a si própria, responde por seus próprios atos e conhece
seu verdadeiro eu (AXILINE, 1972).
Retomando aos relatos de Marques (2011), a autora afirma que o
brincar constitui-se, pois, em importante atividade que permite moldar os
modos de interação e relacionamento, bem como converter as dificuldades do
mundo real em fantasias aprazíveis, motivo pelo qual existem, na atualidade,
estudos que buscam compreender o lugar do lúdico na potencialização do
desenvolvimento, seja em escolas, hospitais, consultórios (MARQUES, 2011).
Assim, o brincar é sinônimo de alegria e prazer, sendo responsável por
aguçar a criatividade e a curiosidade, ensinando as crianças a buscarem
soluções para seus problemas de maneira motivada, permitindo-lhes
compreender os diferentes sentimentos, demonstrando por meio da brincadeira
o que não conseguem verbalizar (LINDQUIST, 1993).
O brincar ultrapassa o mero prazer e gasto de energia, constituindo-se
em importante atividade que prepara a criança para enfrentar as dificuldades
que lhe serão apresentadas no transcorrer de suas vidas, além de contribuir
para o seu desenvolvimento intelectual (MARQUES, 2011).
Por meio do brincar é possibilitado à criança conhecer o mundo e as
pessoas que dele fazem parte, permeadas por relações e regras de convívio
social, assimilando os papéis sociais desempenhados pelas pessoas, além da
construção de novos significados. Assim é que, através do faz-de-conta, é
permitido à criança trazer para a sua realidade determinada situação
experienciada, adaptando-a a suas necessidades emocionais (HOMEM, 2009).
Através do levantamento bibliográfico realizado, percebemos que, nas
últimas décadas, a ludoterapia tem sido relativamente pouco explorada. Os
artigos encontrados, relatando estudos realizados sobre o seu
desenvolvimento, referiam-se mais à forma de atendimento utilizada por seus
autores, do que propriamente a pesquisas que tivessem sido por eles
realizadas. Pareceu-nos interessante notar a existência desta falta de
pesquisas no contexto hospitalar, justamente por ser uma técnica que vem se
destacando cada vez mais dentro dessa área da psicologia.

6. Quando o brincar no hospital é diversão e quando é ludoterapia


Nesse contexto, os recursos lúdicos podem ser pensados de duas
maneiras: como uma recreação ou como um instrumento técnico amparado por
um subsídio teórico que tem como principal meta o tratamento do psiquismo de
crianças (LANGE, 2008).
O lúdico como forma recreativa não é científico, um exemplo disso são
as atividades realizadas nas brinquedotecas. No ambiente hospitalar, a
brinquedoteca é um espaço utilizado pelas crianças para brincar com seus
familiares e/ou outras crianças sem comprometer a rotina da instituição e sem
terem sua brincadeira interrompida pelos procedimentos clínicos. Geralmente,
é um espaço aberto que permite qualquer pessoa observar a brincadeira da
criança (BOMTEMPO, ANTUNHA E OLIVEIRA, 2008).
Por outro lado, quando o lúdico é utilizado para fins terapêuticos, ele é
tratamento, ocorre de maneira totalmente diferente da brinquedoteca e é
denominado de ludoterapia. Nesta perspectiva, o brincar faz parte do campo da
ciência da psicologia, onde através dele será possível compreender como a
criança está se sentindo diante do seu diagnóstico, internação e tratamento, ou
seja, o brincar terá um significado (SOBRINHO, 2009).
Muitas crianças hospitalizadas não conseguem expressar seus anseios
e necessidades, frequentemente estão ansiosas e inquietas, padecem da
doença, da separação da família e sentem-se aterrorizadas com o novo
ambiente. Por esses motivos, é de suma importância reconhecer a capacitade
que elas tem de se comunicarem através de atividades lúdicas (LINDQUIST,
1993).
A teoria psicanalítica postula que a ludoterapia seja realizada com uma
caixa de brinquedos exclusivo da criança, simbolizando o lugar ocupado por
conflitos, fantasias e mecanismos de defesa (KLEIN, 1970). No entanto, é
indispensável mencionar que outras abordagens como a terapia centrada na
criança, por exemplo, fazem uso de caixas comuns para pacientes distintos e,
ainda assim, a cientificidade é preservada, na medida em que há uma
contribuição teórica responsável por essa prática e a distancia da recreação
(AXILINE, 1972).
Tratando-se do ambiente hospitalar o setting terapêutico é bem
diferente, um dia a criança pode estar no ambulatório, no outro em
apartamentos e enfermarias ou até mesmo na UTI, e os atendimentos
psicológicos podem ser interrompidos para procedimentos médicos, além da
presença de outras pessoas ao redor como familiares, a equipe e outros
pacientes. Diante dessas alterações, o atendimento pode ocorrer com tempo
reduzido e, muitas vezes, sem a caixa lúdica. No entanto, o papel e a presença
do terapeuta não serão alterados e isso dará a criança à certeza que,
independente da mudança de setting, o terapeuta permanecerá com ele
(SOBRINHO, 2009).
Dentro da instituição hospitalar, o lúdico como diversão é sempre
indispensável, na medida em que serve como suporte para a criança no
enfrentamento da internação e dos procedimentos clínicos invasivos e
dolorosos. Todavia, o lúdico como terapia é o mais indicado, já que está
relacionado ao tratamento para as dificuldades emocionais. Dessa maneira, a
ludoterapia permitirá o acesso ao inconsciente infantil, auxiliando a criança a
elaborar o sofrimento frente ao seu processo de hospitalização (LANGE, 2008).
É interessante perceber que, quando não se tem ainda experiência em
trabalhar com crianças hospitalizadas, muitos terapeutas temem, a priori, que
elas rejeitarão a tentativa de estimulação lúdica, em função do sofrimento físico
e psíquico. Esse temor desaparece quando é percebido que as crianças não
apenas aceitam bem como também se beneficiam muito desses recursos
brincando e se divertindo, o que auxilia na aceitação de todo o tratamento e
elas respondem a internação com menos angústia e padecimentos
psíquicos.(BORGES, 2009; ).
O autor ainda sugere a utilização de materiais da enfermaria como
gazes e esparadrapos, eles ajudarão a criança expor seu sofrimento através da
brincadeira/dramatização da situação traumática em que se encontram. Nesse
setting, o boneco pode ocupar o lugar do paciente e o paciente ocupar o lugar
dos profissionais que fazem cirurgias, curativos e exames, dessa maneira será
mais fácil para a criança compreender a necessidade do tratamento e a
estimulará a se tornar protagonista da sua própria recuperação (BORGES,
2009).
É preciso fazer uso desta capacidade de brincar e desenvolver as
habilidades que as crianças possuem através de atividades que as divirtam,
escolhendo brincadeiras que correspondam à ação terapêutica, sem
necessidade de esforço de pensamento. O brinquedo é utilizado como recurso
capaz de proporcionar às crianças atividades estimulantes e divertidas, mas
que traga calma e segurança. Dessa forma, pode exprimir suas angústias e
medos, tornando-a otimista e colaboradora, capazes de transformar seu
excesso de sofrimento em sentimentos, pensamentos e palavras. (BORGES,
2009; LINDQUIST, 1993 ).

1.A utilização das histórias infantis como recurso lúdico

“Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para
divertir. Mas não é isto. É que elas têm o poder de transfigurar o
cotidiano. Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o
medo em canções. Com isto angústias e medos ficam mais
mansos” (ALVES, 1999, p.5).

Sabe-se que a infância é uma fase muito importante na construção do


ser humano e, toda capacidade, inteligência e talento das crianças devem ser
cultivados com seriedade. ALVES (1993) relata que a história infantil é um meio
que abre as portas da sensibilidade e da potencialidade das crianças para sua
formação e seu desenvolvimento. É, ao mesmo tempo, psicoterapia e
recreação, um importante elemento para o diálogo, mas, acima de tudo é um
recurso de comunicação entre a criança e o adulto (AFFONSO, 2012).
Nessa perspectiva, é fundamental destacar aqui a importância da
biblioterapia como recurso lúdico. OUAKNIN (1996) discorre que “a
Biblioterapia pode ser considerada como uma terapia do diálogo, mediada pelo
livro” (p.152). Biblioterapia é o termo produzido pelo autor para definir a terapia
através dos livros, onde a narração de histórias é utilizada como um auxiliar
terapêutico.
Esse termo tem suas origens na palavra grega “Biblion”, que significa
material bibliográfico ou de leitura e Therapein que designa tratamento, cura ou
restabelecimento (SEITZ, 2005). A palavra “terapia” tem sua gênese no
hebraico significando prevenção e prospecção, no grego. Por sua vez, o
vocábulo “terapeuta” designa “aquele que cuida” (ELLIOTT ET AL, 2011).
O mesmo foi trazido pelo Dorland’s Ilustrated Medical Dictionary,
primeiro dicionário especializado a conter sua significação, no ano de 1941, e
apenas em 1961, a definição foi trazida por um dicionário não especializado, o
Webster’s Third International Dictionary . (SEITZ, 2005)
Todavia, enquanto recurso terapêutico e técnica, somente a partir do
século XX que as praticam biblioterapêuticas iniciaram sua trajetória, nos EUA,
por meio de profissionais das bibliotecas hospitalares (ALMEIDA, 2011). A
Biblioterapia desenvolve-se principalmente nos hospitais e clínicas de saúde
mental, com um propósito curativo e corretivo dos indivíduos com transtornos
emocionais e distúrbios de comportamento (ELLIOT ET AL, 2011).
A utilização da leitura como recurso terapêutico remonta a Idade Antiga
com registros do Faraó Rammsés II, que determinou fosse posta na entrada de
sua biblioteca a frase: “Remédios para a alma”, entretanto, a utilização de livros
como forma de tratamento somente foi ocorrer na Idade Média. Os primeiros
tentames em Biblioterapia foram realizados por médicos americanos, na
primeira metade do século XIX. Não obstante, foi na década de 30 do século
XX que a biblioterapia veio a se constituir efetivamente como um campo de
pesquisa, havendo uma intensificação nos estudos e publicações nas décadas
seguintes (SEITZ, 2009).
Assim é que, desde tempos imemoriais, a contação de histórias tem
assumido um caráter terapêutico, possibilitando a tradução dos sentidos e
significados da existência humana, contribuindo para que as pessoas sejam
capazes de criar um senso de identidade e amadurecer no âmbito pessoal e
cognitivo, tanto que profissionais como psicólogos, profissionais da saúde e
outros têm indicado e utilizado livros para ajudar pessoas a superar seus
problemas, ou seja, como um instrumento de cuidado com o ser (ELLIOTT ET
AL, 201; FERNADES, 2001).
Nesse diapasão, a biblioterapia tem sua utilização nos mais diversos
espaços: prisões, hospitais, asilos, se estendendo de crianças a adultos e
idosos, atingindo deficientes físicos, doentes crônicos e dependentes químicos
(ALMEIDA, 2011).
Atualmente, no contexto dos hospitais, a literatura infantil tem
conquistado espaço, cumprindo as funções de entretenimento, instrução e
mesmo educação das crianças por meio de um vocabulário simples e de
figuras que estimulam a imaginação (MARQUES, 2011).
Consoante os diversos autores, a Biblioterapia pode ser conceituada
como:
Programa de atividades selecionadas, envolvendo materiais
de leitura, planejadas, conduzidas e controladas como um tratamento,
sob a orientação médica, para problemas emocionais e de
comportamento (SEITZ,2005).
Enfim conceituando a biblioterapia de uma maneira mais
ampla, é um processo terapêutico interativo baseado na literatura,
usando técnicas especiais de leitura com materiais diversos, de forma
individual ou em grupo, de forma a facilitar a catarse de sentimentos e
valores, favorecendo o crescimento e o desenvolvimento pessoal
(ELLIOTT ET AL, 2011).
Com a união destes dois termos, leitura e terapia, surgiu a
biblioterapia, definida como um processo dinâmico de interação entre o
leitor, o texto e o ouvinte, ajudando no crescimento emocional e
psicológico (BUENO e CALDIN, 2002).

Diante destas afirmações, considera-se a biblioterapia um método


coadjuvante da cura pelo diálogo através da técnica de leituras, que podem
auxiliar tanto no tratamento quanto na prevenção dos males do físico e da
mente. Portanto, entende-se o porquê é importante à utilização da leitura para
crianças. (essa é a nossa reflexão sobre as citações acima)
O ato de ouvir as histórias implica em um leque de novas possibilidades
na vida do indivíduo, desde a compreensão de seus conflitos próprios no
decorrer de seu processo evolutivo até as dificuldades presentes e mesmo a
eventual solução para todos esses problemas, pois que é possível vivenciar
uma gama de sentimentos e emoções: tristeza, raiva, medo, alegria,
impotência, insegurança, dentre tantas outras que se pode experienciar. São
formuladas novas construções simbólicas, são aprendidas novas palavras.
Reside nessa prática o poder de despertar essas emoções nos enfermos, em
especial nas crianças, já fragilizados pelo adoecimento e processo de
hospitalização, dando novo ânimo para lidar com os procedimentos frios e
invasivos do ambiente hospitalar, proporcionando um novo desejo de lutar e de
viver. Nesse sentido o conto age como um interventor que reorganiza o
emocional e facilita a expressão dos sentimentos e pensamentos da criança
(ELLIOTT ET AL, 2011; FERNANDES, 2001).
A força de uma história é tão grande entre o narrador e o ouvinte que
durante o enredo ocorre uma emoção intensa e recíproca, a ponto de
desvanecer o ambiente real diante da magia das palavras que comovem e
extasiam. A ação progride e a criança e o terapeuta ficam envolvidos
magicamente com os personagens (COELHO, 1990).
Ao se realizar a contação de histórias, aquele que ouve as narrativas é
levado para um mundo de fantasias, onde pode sentir e experienciar o que,
muitas vezes, não lhe é permitido no mundo real. Ocorre sua identificação com
determinados personagens e através deles, é capaz de vivenciar “à uma
distância segura” seus conflitos e problemas, o que o faz compreendê-los e
aceitá-los melhor, dando-lhes novos sentidos (ELLIOTT ET AL, 2011).
A criança é livre para assimilar as histórias da maneira que melhor lhe
aprouver e, assim, a narrativa alcança uma amplitude que não existe na
informação (BENJAMIN, 1994, p.203). No momento em que a criança ouve
uma história, a significação do conto fica conservada nela para mais adiante
ser revelada (ABRAMOVICH, 1997, p.24). Em concordância com essas
reflexões, BETTEHEIM (2007) afirma que os contos de fadas são obras de
artes completamente passíveis de serem compreendidos pelas crianças, como
nenhuma outra forma de arte é. Ele ainda relata que os contos de fadas têm
significados diferentes de uma pessoa para outra e, será diferente também
para uma mesma pessoa em diversos contextos de sua vida. Nesse caso, a
criança extrairá um significado diferente da mesma história infantil ou do
mesmo conto de fada, dependendo de suas necessidades e de seus interesses
do momento. Quando for lhe dada uma oportunidade ela retornará a mesma
história ou conto ampliando os significados ou substituindo-os por novos.
Assim, entendemos que contar histórias é um método que ajuda no
processo da terapia infantil. A literatura infantil, os contos de fadas, as fábulas,
entre outros, são meios que proporcionam às crianças manifestações de
emoções importantes e cooperam no desenvolvimento de uma relação
terapêutica (AFFONSO, 2012).
A partir das acepções dos autores citados, pode-se ressaltar que este
recurso será um agente facilitador no processo terapêutico da criança. Poderá
ser utilizado tanto com crianças que estão vivendo alguma dificuldade
emocional como com aquelas que se encontram traumatizadas. Como bem
enfatiza FRANZ (1984), as histórias infantis podem ajudar na resolução de
problemas interpessoais vivenciados pela criança, em casos de depressão
infantil, na falta de auto-estima e no enfrentamento de situações difíceis,
promovendo saúde para essas crianças através da expressão de seus
sentimentos. É uma maneira particularmente valiosa de terapia infantil, porque
as histórias já são uma parte interessante e saudável na vida de uma criança
(AFFONSO, 2012).
Para que as histórias possam ser realmente facilitadoras na terapia
infantil, é necessário que existam diversos tipos de títulos e assim seja dada a
criança o direito de escolher o livro de acordo com sua vontade própria. Dessa
maneira ela descobrirá histórias com temáticas e situações problemas com as
quais se identifica, ajudando-a a refletir sobre sua identidade e resultando em
soluções positivas e perfeitamente realizáveis (FRANZ, 1984). A criança
experimentará uma intensa amplitude de emoções, descobrirá suas próprias
forças a partir das forças dos personagens e criará uma maneira de lidar
satisfatoriamente com suas questões interiores (BENJAMIN, 1994). O objetivo
é auxiliar a criança a formular novos meios e maneiras de ver seu mundo
interior a partir daqueles utilizados pelos personagens das histórias
apresentadas (OUAKNIN, 1996).
Os personagens imaginários dos livros são expostos na terapia como
tipos de pessoas comuns, com conflitos existenciais “já resolvidos”, similares
aos das pessoas reais com os quais a criança poderá se reconhecer. Isto é
especialmente importante para ela, pois a criança começará a perceber outras
possibilidades na superação de seus problemas, formulando condições de
adaptação por meio da história positiva do personagem, executando na sua
vida real o que foi absorvido na história (PEARCE, 1987).
OUAKNIN (1996) teoriza que existem três etapas para esse processo
terapêutico. A primeira é a etapa da identificação, onde as semelhanças dos
sentimentos, das necessidades e das vontades entre a criança e o protagonista
da história são nítidas. A fase seguinte é a da libertação emocional dos
sentimentos, na qual a criança se identifica com os sentimentos do
personagem e quando este se liberta deles, ela pode se libertar dos dela
também (de forma verbal ou não verbal); e a fase final é a da auto-aceitação,
onde a criança consegue olhar para si própria e consegue assimilar os
aspectos significativos nos personagens aos dela mesma e ganha auto-
conhecimento através dessas semelhanças percebidas. AMATUZZI (1989)
ainda acrescenta que não é necessário que a criança entenda a história como
sendo uma história terapêutica, basta-lhe compreender a mensagem como
algo que foi escrita para ela e que está relacionada com sua própria história
real.
Contar histórias é abrir portas para a fantasia e a criatividade das
crianças, é construir uma ponte para os desejos pessoais, é abrir caminhos
para as possibilidades da vida real (PEARCE, 1987). Neste mesmo
pensamento, PIETRO (1999) diz que contar uma história é descobrir a que
sonhos pertencemos e achar caminhos para a própria vida. BENJAMIN (1994)
conclui que o diálogo com uma história pode mobilizar a criança ao encontro
consigo mesma e seu mundo. Um mundo que é singular, único e pleno de
significados.
E esse contato com o universo literário que permite ser um bom leitor
(aquele com boa capacidade de compreensão do mundo), inicia-se ainda na
infância, seja por meio das historinhas contadas pelos pais, a leitura de textos
de cunho religioso, ou seja, geralmente, o contato inicial com esses textos é
realizado de maneira oral, estimulando seu imaginário, sua capacidade crítica e
de formular ideias. No entanto, para que tudo isso seja proporcionado, a leitura
não pode dar-se de qualquer forma, é preciso que o contador da história crie
uma atmosfera propícia, sabendo dar as pausas nos momentos certos, dando
as entonações corretas, permitindo que a criança construa em sua mente o
cenário de que efetivamente precisa, com monstros, mocinhas, bandidos,
castelos, perigos, e todos os demais elementos que são a projeção de
aspectos da sua vida real e que serão essenciais para ajudá-la a dar novo
sentido a seus conflitos (ELLIOTT ET AL, 2011).
Quando a história infantil é usada como recurso facilitador da terapia, ela
permite que as crianças se distanciem dos elementos dolorosos de sua vida e
lidem com eles por meio das histórias dos personagens (JULIANO, 1999).
Dessa maneira, é que se tem classificado a contação de histórias enquanto
atividade auxiliar da biblioterapia, a qual possui um viés lúdico na medida em
que o contador assume, por vezes, um papel enquanto personagem da história
e, o ouvinte é levado para um universo de fantasia onde, por alguns momentos,
pode deixar de lado a realidade com os problemas enfrentados. O que
distingue, pois, a simples leitura daquela realizada através da biblioterapia, é a
intensidade e os objetivos. Quando se realiza a leitura de um texto literário com
propósito terapêutico há uma nítida aproximação do paciente com a
experiência de sentido, o que é responsável por causar o jogo interpretativo e,
por conseguinte, fazendo com que o leitor assuma outras posições, por meio
do seu desligamento do aspecto racional, sendo-lhe possível galgar mudanças
através do autoconhecimento, ou seja, para servir como recurso terapêutico, a
história precisará assegurar a criança a sua liberdade de produção de novas
percepções e significações (ELLIOTT ET AL, 2011; FERNANDES, 2011).
Portanto, a inserção dos livros infantis como recurso terapêutico é
particularmente útil na execução da psicoterapia infantil, visto que, de todos os
avanços tecnológicos as histórias ainda se constituem em elementos atrativos
para o mundo da criança.

4.O psicólogo como contador de histórias no hospital

O psicólogo contador de histórias estabelece sua atividade na percepção


situacional, dinâmica e aberta constituída pelas relações saúde-doença, cultura
hospitalar, significados da existência, entre outras. O convívio com os
pacientes internados requer não apenas o conhecimento técnico, mas a
capacidade de se emocionar, se comover, criar modelos e providenciar
recursos de atuação profissional próprios da realidade hospitalar (PENNA,
1992).
O cuidado psicológico pode desenvolver no meio hospitalar a promoção
de atividades de caráter criativo e expressivo para os que lá se encontram,
contribuindo na minimização da dor, da ansiedade e do sofrimento
(ANGERAMI, 1984). Nesse viés, Fernandes assinala que:

“No curso das últimas décadas, psicólogos infantis recorreram aos


contos clássicos como veículos terapêuticos privilegiados para ajudar
crianças, através da reflexão sobre os dramas neles encenados, a
buscar alternativas para resolução de seus conflitos, a enfrentar seus
medos e a desembaraçar-se de sentimentos hostis e desejos
danosos” (FERNANDES, 2011, p.97).

O "estar no hospital" para o psicólogo contador de histórias, pode ser


visto como um modo de vínculo, com múltiplas particularidades, exigindo
aspectos comunicativos e de aprendizagem na execução de seu papel. No
ambiente hospitalar, caracterizado por rotinas médicas, procedimentos
curativos e rituais investigativos, a introdução de recursos lúdicos podem
provocar estranheza e uma possível hostilidade. A compreensão, o
reconhecimento e o acolhimento precisarão ser buscados, na maioria das
vezes, sem o apoio institucional que os promovam e sustentem (LANGE,
2008).
A tarefa de contar histórias necessita de condições ambientais para sua
realização. É fundamental a criação de um ambiente vinculado a características
como atenção, silêncio, interesse, curiosidade e descoberta para que a
identificação e a participação do paciente sejam potencializadas. A condução
da narração provoca a criação de laços de cumplicidade, imaginação e
envolvimento entre os participantes. (PENNA, 1992).
Lange (2008) coaduna-se com essa afirmação quando ressalta
que:

“A arte do contador encanta os ‘fantasmas hospitalares’ e os


humaniza, tornando-os reconhecíveis para a consciência subjetiva e
coletiva, fonte de sua geração e transformando-os de desconhecidos
a ‘criaturas culturais’ de um tempo histórico e seus habitantes”
(LANGE, 2008, p. 300).

Contar histórias no hospital pode ser pensado como uma prática de


investigação psicológica que propõe aos pacientes o acesso à formulação de
conflitos e problemas vividos pelos personagens, oferecendo um conjunto de
possibilidades explicativas por meio de uma unidade coerente entre os eventos
(HEIDEGGER, 1998).
O psicólogo, no contexto hospitalar, está sujeito à exposição de eventos
como os sofrimentos intensos e a morte. Ele se depara cotidianamente com
manifestações de medo, angústia, ansiedade, estranhamento, tristezas e
experiências psicossomáticas levando-o a necessidade de estado de atenção e
cuidados constantes. Dessa maneira, o contador de histórias deve está ciente
das circunstâncias ambientais de seu trabalho, preparando-se para o progresso
das relações profissionais no interior do hospital (NOGUEIRA-MARTINS,
2001).
Entre as características desejadas para um psicólogo trabalhar nesse
tipo de situação encontram-se a espontaneidade, criatividade, gostar de
trabalhar com crianças e principalmente, manter aceso o prazer de brincar e
contar histórias. Esses são ingredientes fundamentais para se trabalhar com
crianças. Todavia, para lidar com pacientes infantis hospitalizados, não basta
apenas isso, é fundamental somar a essas qualidades a capacidade do
psicólogo ligar com sua própria angústia, com os sentimentos de
impotência/onipotência e culpa, sem perder a capacidade da interação lúdica e
terapêutica com o paciente infantil (BORGES, 2009).
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