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APOSTILA COMPLEMENTAR COM RESUMO DAS AULAS

A FORMAÇÃO LITERÁRIA
DA CRIANÇA

Prof. Rafael Falcón


2/4/2015

Apostila completar ao curso “A formação literária da criança” ministrado pelo Prof. Rafael Falcón
em Abril de 2015 e distribuida exclusivamente para os alunos.
A FORMAÇÃO LITERÁRIA DA
CRIANÇA

AULA I - O QUE É EDUCAÇÃO LITERÁRIA?

I. As instruções dadas neste curso não devem ser seguidas cegamente; devem ser entendidas
como exemplos de aplicação dos princípios pedagógicos tradicionais. Podem e devem sofrer
variações de acordo com as circunstâncias de cada aluno. Porém, só se pode adaptar um método
quando se compreende seu objetivo. Só pode escolher um atalho quem sabe aonde quer chegar.
O que deve ficar absolutamente claro, portanto, é o resultado que pretendemos atingir.

II. O conceito moderno de educação literária é confuso e pouco tem a ver com o que se
praticava na pedagogia até dois ou três séculos atrás. Na perspectiva da educação clássica, a
formação literária não é uma disciplina, mas um nível que abrange várias disciplinas – “nível”
no mesmo sentido em que dizemos “Ensino Fundamental”, “Ensino Médio” e “Ensino
Superior”. As disciplinas envolvidas são muitas: história, geografia, astronomia, matemática,
ciências naturais etc.

O que separa a educação literária de outros níveis não é o seu conteúdo, mas a sua função e o
modo como o conteúdo é apresentado. De fato, o assunto da literatura é tudo o que existe, e
também o que não existe, contanto que possa ser imaginado ou concebido. Isso quer dizer que,
sob certa perspectiva, todas as ciências estão subordinadas à literatura. De modo geral, a
formação literária é um meio para alcançar o conhecimento das coisas; é um modo ou grau de
todas as ciências, e não uma ciência específica.

III. A educação literária tem a função de preparar a inteligência humana para receber os
conhecimentos mais específicos e mais abstratos.

Até uma certa idade – 6 ou 7 anos – a criança deve ser alimentada de contos de fada, pois estes
atuam diretamente na imaginação. A imaginação das crianças é sintética: cada aspecto de uma
história é percebido como símbolo de algo muito maior. Os adultos ainda possuem a capacidade
de captação sintética, mas, o mais das vezes, essa capacidade está atrofiada, o que dificulta a
passagem aos graus superiores de conhecimento.

IV. Como a literatura versa sobre qualquer coisa, também pode tocar em coisas ruins. A
diferença é que a grande literatura trata de temas universais – e não de picuinhas subjetivas e
datadas. O mal também é universal: a guerra, o pecado, a traição, tudo isso é parte da vida
humana, e seria irresponsabilidade sonegar à criança um tratamento correto dessas coisas.
“Jogar lixo no lixo” não é um tema universal, mas “assassinar um inocente” é.
A ideia de que mostrar uma maldade equivale a ensinar uma maldade é perversa. O homem faz
maldades mesmo que ninguém lhe mostre nenhuma; na verdade, ele tende a fazer mais
maldades quando ninguém nunca lhe falou a respeito. Conhecer e confrontar o mal é requisito
para praticar o bem. Isso não é opinião do professor: é o que toda a humanidade fez em todos os
tempos e lugares, exceto no brilhante século XXI – em que crianças não podem ouvir uma
estória que tenha mortes, mas por algum motivo crescem e ateiam fogo a mendigos.

Quem acha que narrar maldades é o mesmo que ensiná-las, nunca fale de Jesus Cristo a seus
filhos. Afinal, que história é mais cheia de crueldades e malícia do que a história de Deus sendo
traído e assassinado pelo povo que veio salvar? Quem quer que creia nisso, não deve jamais ler
coisa alguma que preste, pois em todos os grandes romances e mitos sempre encontrará
acontecimentos escabrosos.

V. O gênero que sempre foi utilizado na educação infantil é o gênero épico, que visa a mostrar
os valores heróicos de homens e deuses. A ideia por trás disso é que todas as crianças deveriam
ser criadas para serem heróis. Além disso, a imaginação da criança é melhor formada por ações
grandiosas, pois a grandeza torna mais evidentes os valores morais, mesmo que depois eles só
sejam aplicados em escala menor. Isso quer dizer que, também do ponto de vista moral, a
literatura é o primeiro grau de conhecimento.

MÃOS À OBRA: ESCOLHA O TEXTO LITERÁRIO DE BASE

1. Antes de aprender a compor textos complexos, a criança precisa ler muito. E ela deve ler o
melhor que sua cultura tem a oferecer, desde o começo.
2. Nos anos formativos (até a adolescência), a criança só deve ler obras de alto nível
linguístico. Traduções, excetuadas as feitas por escritores conceituados, estão excluídas.
3. Podemos dividir a leitura da criança entre leitura de entretenimento e leitura de estudo. A
leitura de estudo não precisa (nem deve) ser fácil. O professor é o intermediário que eleva a
criança ao nível do texto, e possibilita que ela o compreenda. Se ela fosse capaz de ler
sozinha, não precisaria de professor, e não existiria educação.
4. Todas as dificuldades do texto podem ser superadas com outros materiais auxiliares.

Obras sugeridas: Luís de Camões, Os Lusíadas (versão comentada de Francisco da Silveira


Bueno); Ovídio, As Metamorfoses (tradução de Bocage, comentada por Rafael Falcón:
https://editoraconcreta.com.br/crowdpublish/campaigns/ovidio-metamorfoses-seleta-bilingue-
de-bocage/ ).
AULA II – A PREPARAÇÃO DAS AULAS

O trabalho com o texto antes da aula equivale a 90% do esforço de ensino.

Esse trabalho exige uma dedicação superior ao de passar os olhos pelas palavras – a palavra “ler”
não tem aqui o sentido mecânico de decodificação dos grafemas. É preciso compreender o texto em
todos os seus níveis.

Material de apoio: dicionários, enciclopédias, atlas, globo terreste etc.

Exemplos e sugestões: Dicionário Caldas Aulete; Encyclopedia Britannica, Enciclopédia Larousse


ou Delta-Larousse; Dicionário de Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal.

INTRODUÇÃO

Antes da leitura da obra em si mesma, é preciso apresentá-la. Isso inclui um tratamento da biografia
do autor e do contexto em que a obra surgiu. Essa introdução deve ser simples, envolvendo apenas
as informações mais interessantes e os dados essenciais sobre o autor e sua época.

I. Estudar a biografia do autor da obra utilizada. Nas edições mais antigas dos textos clássicos havia
sempre uma boa biografia do autor no começo do livro.

II. Não confundir as circunstâncias de produção da obra com seu objetivo artístico. Quando
dizemos que “Camões escreveu Os Lusíadas para cantar a glória dos portugueses”, estamos falando
do tema, não do objetivo da obra; também quando dizemos que foi “para o rei de Portugal”,
estamos falando da dedicatória, não do objetivo artístico. Não podemos passar a impressão, em
hipótese alguma, de que o autor era um homem mesquinho e de que a obra tem um propósito vil ou
desprezível. Isso seria desautorizar o livro e, portanto, a nossa própria escolha de material didático.

III. Estudar o contexto histórico da época da obra. Uma busca na enciclopédia deve ser suficiente.

IV. Depois disso, é necessário definir o tema da obra. Por exemplo: Os Lusíadas; tema geral: as
grandes navegações, a glória de Portugal; tema mais específico: o grupo de Vasco da Gama.
Precisamos saber quem foi Vasco da Gama, o que isso tem a ver com Portugal etc. Mais uma vez,
uma busca na enciclopédia resolve o problema.

V. Cada parte estudada na introdução pode ser aprofundada de acordo com o interesse da criança.
Daí a importância de fazer-se uma introdução resumida, que se desenvolva de acordo com as
inclinações de cada aluno.

VI. Depois disso é preciso ler oralmente a obra.


LEITURA

I. É preciso ler o poema algumas vezes em voz alta. Para isso, deve-se ter alguma ideia de como
funciona a métrica. Métrica é o modo como o poeta monta os versos; ela não é uma técnica
arbitrária, pois seu fundamento é a sonoridade da língua.

No caso da língua portuguesa, por exemplo, a métrica é baseada principalmente no tempo que se
leva para ler um verso. Todos os versos têm a mesma duração aproximada: leva-se o mesmo tempo
para pronunciar cada um deles.

II. Para aprender a pronunciar corretamente um poema, é preciso saber escandir seus versos, isto é,
reconhecer a métrica por trás deles. A técnica básica para fazer isso é ensinada em qualquer
gramática da língua portuguesa. Quem quiser aprofundar-se pode consultar o verbete sobre
versificação portuguesa que Manuel Bandeira escreveu para a Delta-Larrousse, e que está anexo no
material desta aula. Quem, depois de ler o material supracitado, quiser chegar à parte mais avançada
do assunto deve consultar o tratado de versificação de Olavo Bilac e Guimarães Passos, anexado a
esta aula também.

III. Os elementos estruturais da sonoridade poética são o tempo, o ritmo e o tom, nessa ordem de
importância. A leitura ideal respeita sempre esses três elementos, e quem tentar fazê-lo perceberá
que isso exige prática e reflexão. Para aprender a ler corretamente é preciso um professor, ou uma
insistência na prática até que se desenvolva uma sensibilidade aos sons.

A presença dessas dificuldades sonoras é um dos principais motivos pelos quais o texto de base da
formação literária deve ser poético. O som é um elemento muito importante do aprendizado da
língua e da formação humana em geral, e a poesia exige o domínio completo desse elemento, o que
capacita a criança a falar e ouvir do modo correto. Sem educação poética, a comunicação humana
regride quase que ao nível dos quadrúpedes; e devido justamente a esse fator, a formação literária é
também uma introdução à matemática e à música.

IV. Depois de resolver os problemas de leitura, começam as questões de semântica, ou seja,


dificuldades para descobrir o significado do texto. O primeiro desses problemas é o próprio
vocabulário. Esse problema é resolvido com o uso do dicionário, buscando o sentido que é mais
provável no contexto. Anote os termos raros, difíceis ou problemáticos, e durante a aula explore
essas palavras com a criança, de modo que ela adquira familiaridade com o idioma e domínio sobre
os vários sentidos do mesmo vocábulo.

V. Em seguida vêm os problemas de sintaxe, isto é, de organização das orações e frases. Como a
sintaxe é um processo combinatório e, portanto, difícil de catalogar, o modo mais fácil de resolver
frases difíceis é possuindo uma edição comentada – que as reordena e explica para nós. O modo
mais trabalhoso é estudar sintaxe por meio de gramáticas e depois tentar aplicar o que aprendeu no
texto literário.

De qualquer modo, a criança deve ser capaz de decifrar as frases difíceis sozinha, e para isso
precisamos ensinar-lhe como se reconhece o sujeito, o objeto, o adjunto e como isso se articula na
hora de compreender uma oração. Porém, o melhor modo de estudar gramática é sempre a partir da
literatura, de modo que a análise sintática só entre em jogo porque precisamos dela. Estudá-la de
modo abstrato e depois tentar aplicá-la num caso concreto é mais difícil.

VI. O próximo elemento estudado deve ser o estilo. Nem sempre o uso de vocabulário raro ou de
sintaxe requintada vêm da estrutura da língua: muitas vezes o autor fez uma escolha, e essa escolha
tem algum motivo oculto. Descobrir esse motivo, em cada caso, é parte fundamental do processo de
leitura.

Algumas palavras e expressões não toleram uma interpretação literal, ou mesmo que a tolerem, ela
parece absurda ou pelo menos improvável. Nesses casos, sabemos estar diante de figuras de
linguagem. Sempre que aparecerem essas palavras ou expressões, deve-se pedir que a criança as
interprete de algum modo razoável. Não é preciso ter certeza de que a resposta encontrada é a
“verdadeira”, mas deve-se fazer o exercício de tentar entender a figura e chegar a alguma hipótese
que faça sentido no contexto.

Nunca deixe a impressão de que o estilo do autor é apenas uma maneira difícil de dizer algo
simples. Isso é deseducação literária. Se você está lendo um clássico da literatura, tome por regra
que ele sempre tinha algum motivo para falar deste ou daquele jeito. Cabe-nos encontrar o motivo.

INTERPRETAÇÃO

I. Existem cinco graus de interpretação: literal, figurada, alegórica, estrutural e simbólica. O sentido
literal é aquele que acessamos com o apoio do dicionário e das faculdades básicas de leitura; o
figurado é aquele que sugere alguma coisa, sem dizê-la com todas as letras; o alegórico é uma
codificação, que precisa ser decifrada; o estrutural é o significado relacional de um elemento no
conjunto do texto; o simbólico é o que supera o texto, do qual se vale apenas como um meio de
contato superficial, e por fim abarca a mais alta filosofia.

II. Os níveis superiores dependem dos inferiores, e sem um não se chega corretamente aos outros. É
a partir do sentido literal, por exemplo, que se pode entender o texto figurativamente – quando o
sentido literal não parece razoável por si só, e pede que detectemos uma sugestão mais ampla.

Do mesmo modo, quando lemos uma narrativa que, em si mesma, não parece ter propósito, e que
oferece algum sinal de que quer ser lida como um código, devemos recorrer à leitura alegórica. Nas
fábulas, ocorre precisamente isso: como seu propósito é ensinar sobre a vida humana, cada
elemento delas corresponde a um elemento da vida humana. Textos assim são propositalmente
alegóricos, e portanto os chamamos alegóricos em sentido estrito; mas praticamente qualquer
narrativa pode receber uma interpretação alegórica “à força”, quando o leitor deseja. Nesse caso, a
narrativa não é alegórica em si mesma, mas está sendo usada alegoricamente.

III. O nível da interpretação simbólica é onde está a crítica literária propriamente dita, e só é feito
com perfeição por profissionais talentosos. Não temos a obrigação de elevar-nos a essas alturas, se
não sentirmos em nós essa vocação, mas seria importante que a criança soubesse da existência dessa
“última fronteira” e percebesse algo da natureza dela.

A essência da interpretação simbólica é tomar o poema como o início de uma escalada filosófica. O
significado da história, dos personagens e de todos os elementos do texto é, em última instância,
encontrado numa escala existencial, e abrange muitos conhecimentos elevados e distintos entre si.

Por exemplo, o que será que a ação dos portugueses, em Os Lusíadas, significa de um ponto de
vista maior? Podem eles ser a imagem da espécie humana? Sua viagem pode significar toda e
qualquer travessia que o homem deve fazer ao longo da vida, e mais especialmente, a vida em si,
que é uma travessia cujo porto é a morte. Qual é o papel da divindade nessa jornada? O que
significa cada um dos atos dos heróis, nessa perspectiva mais ampla? Aqui há material para muitos
livros e horas de aula.

AULA III – O MODO DE ENSINAR

I. As instruções a seguir pintarão um quadro ideal de como deve ser uma aula. Lembre-se, porém,
de que o único modo de aproximar-se desse ideal é pelo esforço contínuo. Não é preciso acertar de
primeira, muito menos obter perfeição. Uma aula ruim é melhor do que aula nenhuma, e certamente
muito melhor do que uma anti-aula, que é o que normalmente encontramos nas escolas.

II. Em primeiro lugar, recite o trecho que será estudado. É pouco prático dar à criança instruções
teóricas sobre como recitar poesia, por isso ela deve, no começo, imitar o professor. Isso implica
que devemos aprender a recitar poesias para que as crianças tenham um exemplo correto. Na hora
de recitar e de corrigir a imitação feita pela criança, preste atenção no tom, nas pausas, na
pronúncia, na velocidade e no ritmo.

III. Depois da correção da recitação, pode-se fazer uma seleção de trechos para memorização. O
método mais eficaz para a memorização é consultar o texto e recitá-lo várias vezes até que se
memorize. A dificuldade em memorizar desse modo é, ela mesma, sinal de falta de educação
literária; com o treino, vai ficando mais fácil. Concentre-se, em particular, em palavras e trechos
que a criança parece esquecer sempre, pois ali estão os “pontos cegos” da atenção dela.

IV. O melhor modo de ensinar é o socrático: em vez de dizer, perguntar. Ensine por meio de
perguntas: O texto é sobre o quê? Por que o poeta escolheu essa palavra? O que aquela personagem
fez? Force a criança a fazer um esforço mental próprio. Caso ela não consiga responder a uma
pergunta, você pode subdividi-la em perguntas menores e mais fáceis. Um assunto complexo pode
começar com uma pergunta ampla: o que o autor quis dizer com “armas” em “as armas e os barões
assinalados”? Em seguida, subdividimos as perguntas: essa história tem algo a ver com armas? etc.

V. Mesmo que a criança dê uma resposta factualmente errada, é possível corrigi-la por meio de uma
pergunta. Nesse caso, pergunte para ela qual é a fonte da informação equivocada – provavelmente
não haverá fonte alguma, o que em si já é sinal de que a informação não é confiável. Conforme a
criança cresce e domina os meios de pesquisa, é possível diferenciar uma fonte primária de uma
fonte secundária, e classificar a autoridade dos diferentes tipos de fonte.

VI. O estudo da sintaxe é feito, principalmente, pela prática de reordenar as palavras dos poetas,
colocando-as em ordem natural.

VII. Sempre observar o peso ou carga da palavras: diferenciar palavras chulas, religiosas, solenes
etc. Notar a diferença do sentido literal para o figurado, e em tudo apontar a adequação da
linguagem ao contexto, à personagem e ao assunto.

VIII. O fim do trabalho diário é a revisão: faça a criança recitar o trecho novamente, de modo
correto e fluente, e refaça as principais perguntas da lição. Quando a criança acertar as respostas de
cada pergunta, exija que ela refaça o caminho da resposta: como você chegou nisso? É
importantíssimo ser capaz de repetir o caminho do conhecimento, passo a passo, pois ele é mais
importante do que a resposta em si.

IX. Sempre que a criança memorizar um trecho do texto, exija a recitação do trecho memorizado,
também no dia seguinte, antes da próxima aula. Caso ela tenha esquecido, faça ela memorizar tudo
novamente antes de começar uma nova lição. Um traço fundamental da educação clássica é que não
se aprende nada que não se deva lembrar.

TEMPERAMENTOS

I. Há quatro temperamentos tradicionalmente usados para descrever o homem: colérico, sanguíneo,


melancólico e fleumático. Eles correspondem aos quatro elementos cosmológicos, respectivamente:
fogo, ar, terra e água. O colérico é ardente e incontrolável; o sanguíneo é agitado, curioso e
disperso; o melancólico é sério, firme, mas também é covarde e teimoso; o fleumático é adaptável e
simpático, mas tende à inação.

II. Observe as inclinações da criança para interessá-la no conhecimento e nos textos literários. O
colérico admira a grandeza, a coragem, a força; o sanguíneo quer saber tudo e estar em toda parte; o
melancólico deseja preparar-se para as dificuldades e fortalecer-se; o fleumático tenta agradar a
todos e ser feliz.

III. Assim, o fleumático deve perceber, em cada caso, o valor do conhecimento para a vida humana,
e como ele torna as pessoas mais felizes e unidas. Sua atenção deve ser chamada para o sofrimento
das personagens literárias, e como os heróis vencem o sofrimento por meio do trabalho e da
paciência, ou em alguns casos da ousadia e coragem etc.

IV. O melancólico notará rapidamente que o conhecimento é útil, e muitas vezes buscará adquiri-lo
por meios próprios, mas ocasionalmente pode ser necessário persuadi-lo de que certo estudo vale a
pena – isso sempre será feito com o argumento da preparação para a dificuldade e da superação das
fraquezas. Nas personagens literárias, ele valorizará acima de tudo aquelas que mostram resiliência,
prudência, sabedoria, austeridade e paciência.

V. O sanguíneo consegue aprender rapidamente e se interessa por todos os assuntos, mas tende a
não meditar as novas informações e abandoná-las rapidamente em favor de outras mais novas. Por
isso, devemos proporcionar-lhe uma sólida experiência em descobrir coisas novas em lugares
velhos, de modo que ele se habitue à ideia de que para ver as coisas não basta olhar uma única vez.
A memorização e a revisão são práticas especialmente benéficas para o sanguíneo.

VI. O colérico “puro” dificilmente gostará do estudo, mas deve ser disciplinado e incentivado pelo
exemplo de grandes homens e pela ideia de que precisará desse treinamento para fazer grandes
coisas no futuro. Sua ênfase sempre será na ação, por isso admirará especialmente os heróis e
homens corajosos, que se sacrificam pela glória e pelo bem dos outros.

AULA IV – A PRODUÇÃO TEXTUAL CRIATIVA

I. A criança deve começar a produzir textos quando já estiver razoavelmente treinada na técnica de
leitura. Isso quer dizer que ela já sabe se entende ou não um texto e, no caso de não tê-lo entendido,
ela também sabe o que precisa fazer para entendê-lo. Lembre-se que o critério mais seguro não é a
idade, mas o grau de familiaridade que a criança tem com a interpretação de textos. Repito: para o
bom funcionamento desses exercícios, é fundamental que a criança tenha grande experiência de
leitura de textos clássicos em língua portuguesa.

Quando o estudante demonstra grande talento nestes exercícios de composição, fica claro que tem
vocação para as humanidades, ou seja, que deve prosseguir para a educação retórica.

II. Os exercícios de composição precisam de acompanhamento intenso. A princípio, o professor


deve estar ao lado da criança, e praticamente ditar os primeiros textos de cada gênero. Não devemos
esperar que ela compreenda o que queremos só porque nós “explicamos” o que fazer. Precisamos
mostrar do que estamos falando com exemplos completos.

III. Quando a criança começa a escrever sozinha, devemos criticar detalhadamente suas
composições. Cuidemos, porém, para que não passemos a impressão de condenar a criança, em vez
de condenar apenas os defeitos de seu texto. Reconheçamos sempre alguma qualidade do texto
antes de corrigir seus vícios. Lembremos que o mais importante num texto não é estar livre de
defeitos. A verdadeira virtude da escrita consiste em produzir textos cheios de inspiração, mesmo
que tenham alguns defeitos menores. Nossas críticas devem ajudar a criança a ver modos melhores
de expressar-se, mas devem sempre vir acompanhadas de grande esperança no seu talento.

IV. Vamos descrever 3 gêneros de exercícios de composição: a fábula, a máxima (e/ou anedota
moral) e a narração. A fábula é uma história com uma estrutura bastante simples e se parece com
exercícios que a criança já fez oralmente, ao ler contos de fadas e outras histórias – daí ser o
primeiro exercício de escrita. A máxima, por sua vez, é uma frase que possui sentido útil para a
vida; mas enquanto a máxima é uma frase solta, a anedota moral possui um componente humano –
é uma pequena história que envolve personagens e um contexto.

V. O primeiro exercício consiste em escrever uma fábula contada anteriormente pelo professor.
Explique a fábula, como já demonstramos nas aulas anteriores e, em seguida, peça que a criança
reconte a fábula oralmente e, logo depois, que ela a parafraseie por escrito. Então, os passos são os
seguintes: leitura, memorização, explicação, paráfrase oral, paráfrase escrita (que deve ser
criticada). Sugestão de material: Fábulas de La Fontaine, traduzidas para o português por poetas, da
editora Melhoramentos.

VI. O vocabulário da fábula deve ser simples, cotidiano, mas formal e sem o uso de gírias. Critique
o uso de palavras com tom solene, profundo, filosófico ou rude. Deve-se evitar o requintado e o
chulo, igualmente. A fábula não pode ser escrita conforme foi memorizada: deve-se memorizar em
poesia e escrever em prosa (se a criança começar a demonstrar talento poético, deve ser
posteriormente encaminhada a um tutor especializado).

VII. Adicionalmente, em vez de contar à criança a moral da fábula, podemos omiti-la, e pedir que a
própria criança descubra a moral e a escreva. Essa moral também deve ser criticada posteriormente.

IX. Na próxima etapa, ao lidar com as máximas e anedotas morais, pode-se usar o seguinte
exercício introdutório: faça a criança recontar a máxima ou anedota algumas vezes, comentando,
explicando e justificando o conteúdo moral. Posteriormente, as anedotas, que são mais longas,
podem ser parafraseadas, inclusive por escrito.

X. Pode-se aproveitar a paráfrase para praticar tópicos gramaticais, pedindo que o texto contenha
uma frase no discurso indireto, ou que se troque o singular pelo plural e vice-versa, e outras coisas
semelhantes. A criança pode também escrever a história trocando todas as palavras por sinônimos, o
que fortalece o vocabulário.

XI. Uma fonte de máximas é o livro dos Provérbios das Sagradas Escrituras; para anedotas, a Nova
Floresta, de Manuel Bernardes, é uma obra muito interessante e de elevado nível literário.

XII. Em seguida deve-se comentar a máxima ou anedota. “Comentar” quer dizer redigir uma
dissertação sobre o texto e o princípio que ele expressa. Um bom parâmetro para guiar o comentário
é que ele deve encontrar no texto o Bom, o Verdadeiro, o Belo e o útil. Não é aceitável produzir
uma simples paráfrase do texto, tampouco apenas afirmar que ele é bom, belo etc. A forma literária
do comentário deve ser trabalhada e ele deve argumentar em favor do texto, usando argumentos e
exemplos históricos ou literários. A máxima pede uma dissertação simples, analisando seu princípio
moral; mas no caso de uma anedota, o comentário deve envolver uma análise das personagens
envolvidas e do contexto.

XIII. A próxima tarefa é a narração de mitos e outras histórias fantásticas. Depois de trabalhar com
um poema narrativo, pede-se para a criança recontar a história em prosa. O texto pode ser
aprimorado e embelezado de diversos modos, e expandido ou resumido para praticar diferentes
estilos.