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CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO ANDREW JUMPER

S.T.M. EM TEOLOGIA SISTEMÁTICA

NOMES PARA A SANTIFICAÇÃO NA ESCRITURA

Artigo apresentado ao Centro Presbiteriano de Pós


Graduação Andrew Jumper, em cumprimento
parcial às exigências para a obtenção do Grau de
Mestre em Teologia na área de Teologia
Sistemática, na disciplina A Vida Eterna e Salvação.

Orientador: Prof. Dr. Heber C. de Campos

POR

EWERTON BARCELOS TOKASHIKI

São Paulo, 2014


2

NOMES PARA A SANTIFICAÇÃO NA ESCRITURA

NOMES APRESENTADOS DE UMA FORMA NEGATIVA

DESPOJAMENTO DO VELHO HOMEM (Ef 4:22)

“... no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se
corrompe segundo as concupiscências do engano.”

O apóstolo Paulo adverte da instabilidade que viviam os cristãos da igreja de


Éfeso. A sua conduta não deveria retroceder ao seu antigo estilo de vida sem Cristo.
A santificação é um processo contínuo e pecados como furto, mentira, o modo torpe
de falar e a mágoa, deveriam ser abandonados. É neste sentido que João Calvino
adverte que “aquele cuja vida não faz diferença alguma da vida dos incrédulos, na
verdade nada aprendeu de Cristo; pois este conhecimento não pode ser dissociado da
mortificação da carne”.1 Eles deveriam rejeitar pensamentos pecaminosos, que
obscureciam o entendimento e produziam dureza de coração. George Stoeckhardt
explica que
o velho homem, como temos afirmado no comentário de Rm 6:6, é o corrupto e
pecaminoso ego, que herdamos de Adão, algo inato, a moral maliciosa do habitus, a
disposição e caráter depravado. O velho homem é a totalidade de todas as possíveis
imoralidades e vícios humanos, que em sua união e interação constitui uma completa
entidade humana, um homem considerado como um responsável ser ético. Este velho
homem, este agente ético, é o characteristicum de todo ser humano nascido neste mundo.
O homem como ele é no presente constituído pelo nascimento não é somente em parte,
ou apenas em um aspecto defeituoso ou pecaminoso, ele é totalmente depravado e
corrupto, em todos os seus pensamentos, ambições, anseios, esforços, desejos são
contra Deus, direcionados para as vaidades deste mundo.2

A nossa antiga disposição pecaminosa, aqui chamada de velho homem, não pode ser
fortalecida. Desconsiderar o perigo dos vícios e da sedução do pecado é um erro
gravíssimo que trará vergonha e sofrimento.
Eles foram suficientemente ensinados na verdade. A instrução no contexto
antecedente era de que os cristãos de Éfeso não deveriam viver de modo inconstante,
dominados pela vaidade de seus próprios pensamentos (4:17), obscurecidos de
entendimento, alienados da vida de Deus (4:18), insensíveis pelo pecado, ou
comprometidos com impurezas sexuais (4:19), porque antes de sua conversão era
assim que eles eram (2:1-3). Eberhard Hahn relaciona o assunto afirmando que
em Rm 13.12 Paulo fala de “despir-se das obras das trevas”, que são listadas em Cl 3.8:
ira, rancor, maldade, maledicência, palavras obscenas. O afastamento resoluto desse tipo

1
João Calvino, Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses – Série Comentários Bíblicos (São José dos Campos, Editora
Fiel, 2010), p. 321.
2
George Stoeckhardt, Concordia Classic Commentary Series – Ephesians (St. Louis, Publishing House, 1987), p. 215.
3

de atitude é possível porque uma transformação fundamental ocorreu antes: “porque


vos despistes do velho ser humano com seus feitos” (Cl 3.9).3

A inconstância espiritual não deve uma característica dos cristãos. Eles não devem
voltar às práticas do período anterior à sua conversão, não concordar com
pensamentos ímpios, nem se associarem as abomináveis práticas pagãs dos gentios
que viviam dominados pela escravidão do pecado e influência de demônios.

DESPOJAMENTO DO CORPO DA CARNE (Cl 2:11)

“Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no


despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo.”

Deus corta as amarras da escravidão do pecado. O termo fostes circuncidados nos


noticia o benefício da obra expiatória de Cristo. Eles não eram mais estranhos a
aliança, de modo que sabiam do que Paulo falava. Os cristãos de Colossos estavam
posicionalmente nele, isto é, em Cristo, porque “estáveis mortos pelas vossas
transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele,
perdoando todos os vossos delitos” (2:13). O perdão obtido por meio de Cristo lança
fora o pecado.
A expressão não por intermédio de mãos revela a unilateralidade da salvação
realizada. É Deus quem estabeleceu e realizou a aliança da graça. As normas da aliança
não foram legisladas pela parte beneficiária. Não foram eles que buscaram propor
uma relação pactual para a comunhão com o santo Deus. Deus na antiga aliança
delineou as exigências, promessas, a punição, os beneficiários e etc., assim, a
circuncisão como sinal da antiga aliança, que se estende até Cristo, era realizada por
mãos humanas e de modo simbólico, mas na nova aliança, em Cristo há a realidade da
manifesta graça.
Deus realizou esta aliança em Cristo a nosso favor. F.F. Bruce observa que a
expressão no despojamento do corpo da carne refere-se à “morte de Cristo, a expressão é
legivelmente inteligível, especialmente à luz da menção anterior ‘do corpo de sua
carne’ em conexão com a sua morte em 1:22.” Assim, os benefícios que Cristo obteve
para os membros desta aliança foi de “apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e
irrepreensíveis”. A linguagem usada por Paulo aponta para um aspecto de
continuidade entre a antiga e nova aliança. Temos somente um Mediador e somos a
comunidade da aliança que deve viver a santidade, sem acusações e sem motivo de
vergonha.
A circuncisão de Cristo aponta para obra do Redentor a favor de seu povo. Ele nos
escolheu, satisfez as exigências da lei, sofreu a nossa condenação, fazendo-se o nosso
mediador e redentor. Como beneficiários da aliança, morremos na morte do testador,
e com ele ressuscitamos, estamos com ele no céu, e dele recebemos os benefícios de

3
Eberhard Hahn, Carta aos Efésios – Comentário Esperança (Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 2006), p. 56.
4

sua intercessão. É por isso que ele pode nos apresentar perfeitos, mesmo enquanto
vivemos imperfeitos no presente tempo.

MORTE DA NATUREZA TERRENA (Cl 3:5)

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva,
desejo maligno e a avareza, que é idolatria.”

O apóstolo ordena que os cristãos de Colossos mortificassem a sua insatisfação


quanto ao prazer. Os seus prazeres quando desorientados tornam-se pecaminosos e
causam escândalos. O prazer pode induzir ao vício e tornar-se num ídolo. É esta a
denúncia que encontramos contra os cristãos colossenses.
Deus em sua bondade nos dá recursos que nos ajudam a obedecê-lo. Ele
poderia apenas ordenar, e seria nosso dever cumprir. Mas o Senhor em sua bondade
nos concede motivos adicionais além do dever, Ele nos dá o prazer de obedecer. Os
dois instrumentos de prazer mencionados por Paulo é o sexo e as riquezas.
Entretanto, os pecados citados distorcem estes instrumentos. Tanto o sexo como as
riquezas não são maus em si, pelo contrário, Deus os criou para satisfazer as nossas
reais necessidades e serem meios de conduzir-nos a glorifica-lo.
Não devemos negar os nossos desejos sexuais legítimos. O sexo não é em si
pecaminoso. Ele foi criado por Deus para ser usufruído dentro do casamento e
promover a comunhão, a satisfação e prover uma descendência legítima. O problema
é o desvio, o uso indevido e fora do casamento, desequilibrado, distorcido e ofensivo
destes anseios sexuais. Quando o sexo é uma fonte dominante de prazer pecamos por
idolatria porque ele se torna uma fonte imunda de prazer que nos faz desviar do
propósito original que Deus estabeleceu para o seu uso.
Devemos mortificar os desejos lascivos para que a satisfação seja saudável. Por
amor de Cristo devemos odiar a idolatria do prazer. A mortificação começa pelo
discernimento do modo como o pecado está corrompendo o sexo e as riquezas, e
deve produzir um desprezo pelas motivações distorcidas, e premeditar e reeducar-nos
em nossa obediência ao Senhor Deus.
Deus quer vivamos o prazer com domínio próprio evitando e vencendo as
constantes tentações. Devemos reeducar o nosso entendimento do sexo na vida cristã
para que haja um correto usufruir desta dádiva de Deus aos casais. Quanto mais
satisfeitos no sexo e nas riquezas, no seu santo uso e propósito, de modo que sejamos
motivados a obedecer ao Senhor, nisto Deus será mais glorificado!

CRUCIFICAÇÃO DA CARNE (Gl 5:24)

“E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e


concupiscências.”
5

A primeira declaração de Paulo tem a intenção de provocar a distinção dos


verdadeiros e dos falsos cristãos nas igrejas daquela região. Ele diz os que são de Cristo
Jesus pressupondo que estes reconhecem o puro evangelho, pelo testemunho do
Espírito como filhos e discernindo o poder do evangelho na suficiência de Cristo.
Eles discernem a falsa liberdade resultante do legalismo dos judaizantes, que negava a
graça de Deus. Os cristãos da Galácia conheceram o amor de Cristo, e entenderam o
quão destrutivo e odioso é o pecado. Pela união com Cristo eles romperam com a
escravidão do pecado. William Hendriksen conclui que
eles sejam o que de fato são. Que sejam na prática o que são em princípio, uma vez que
em princípio já crucificaram sua velha natureza, juntamente com seus anseios
pecaminosos, sejam eles considerados de forma mais passiva como paixões
(provavelmente os impulsos pecaminosos que agiam em seu subconsciente) ou de
forma ativa como desejos (os anseios malignos que eles conscientemente apoiam e
animam).4

O legalismo não tem eficácia contra os impulsos pecaminosos. Por isso, eles deveriam
se identificar com Cristo, e nele crucificados, pois somente a expiação pode cancelar o
poder do pecado. Odiar o pecado que os escravizava e que levou à crucificação o
Redentor. Por isso, Johannes Wigard comenta que
assim, como aqueles que foram amarrados e pregados, forçados a ficarem dependurados
e não terem liberdade de usar seus membros, do mesmo modo a depravação da carne
também precisa ser pregada, capturada e forçada, pois essa é a chave para resolver o
problema do pecado. Portanto, crucificar a carne significa amarrá-la pelo Espírito Santo,
impedindo-a de nos levar a pecados ímpios.5

Por este motivo, os cristãos da Galácia deveriam entender que o seu pecado não era
normativo e sim acidental. O pecado não era mais uma norma de suas vidas, porque
ele foi crucificado, isto é, condenado e expiado em Cristo. Noutro lugar Paulo declara
que “porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o
seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado
com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não
sirvamos o pecado como escravos” (Rm 6:5-6).

ABSTENÇÃO DAS PAIXÕES CARNAIS (1 Pe 2:11)

“Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das
paixões carnais, que fazem guerra contra a alma”.

A peregrinação indica que não podemos nos apegar as coisas deste mundo. Os
destinatários da epístola eram de fato, peregrinos e forasteiros, mas a instrução de

4
William Hendriksen, Galátas – Comentário do Novo Testamento (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 1999), p. 326.
5
Johannes Wigand citado em Timothy F. George, org., Comentário Bíblico da Reforma – Gálatas e Efésios (São
Paulo, Editora Cultura Cristã, 2013), p. 234.
6

Pedro se refere ao seu caráter espiritual. O apóstolo descreveu estes cristãos


estrangeiros como “vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de
propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos
chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2:9). Os estrangeiros não têm
costumes dos nativos. Simon Kistemaker nota que
eles não têm os mesmos privilégios e direitos que os cidadãos do país onde moram (Gn
23:4; Sl 39:12; Hb 11:9, 13; 1 Pe 1:17). São ‘forasteiros’ em um mundo que lhes é
estranho; vivem na terra apenas por um breve período; sabem que sua cidadania está no
céu (Fp 3:20).6

É usando esta metáfora que Pedro recorda que a nossa pátria não é este mundo caído
no pecado. Uwe Holmer interpreta que eles deveriam cuidar da “sua própria vida
espiritual esteja ordenada, que vocês não sejam governados pelos desejos.
Preconceitos tolos ou malévolos do contexto gentílico poderão ser superados da
forma mais eficaz por meio de uma boa conduta.”7 A conduta pecaminosa que
modelava a cultura pagã não deveria ser imitada pelos peregrinos cristãos.
A Escritura exorta-nos a abstenção das paixões carnais. O apóstolo não
recomenda um isolacionismo cultural, nem separatismo das pessoas. Ao invés disto,
ele os instrui que se abstenham dos “desejos pecaminosos” da cultura pagã e de
pessoas que vivam desordenadamente. Os cristãos não estavam em guerra com os
povos que os recebiam, mas sim, com a sua própria pecaminosidade. O paganismo
apenas tornava propício o contexto da tentação.
Há uma inimizade declarada com a nossa alma que deve ser vencida. Eles não
são apenas forasteiros, mas soldados em guerra. Pedro revela que as paixões carnais
fazem guerra contra a alma. Ele não se refere a um conflitante dualismo do corpo e
alma. A expressão paixões da carne significa “os apetites desordenados relacionados
com o corpo”.8 Assim, neste texto as palavras carne e alma podem ser entendidas como
representando a velha e a nova disposição do cristão, ou seja, as duas inclinações
interiores que lutam por se impor dentro da pessoa. Paulo similarmente declara aos
gálatas que “a carne milita contra o espírito” (Gl 5:17). Os cristãos são combatentes
que peregrinam enquanto são conduzidos para a sua pátria eterna.

NOMES APRESENTADOS DE UMA FORMA POSITIVA

REVESTIMENTO DO NOVO HOMEM (Ef 4:24; Cl 3:10)

“... e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão
procedentes da verdade.”

6
Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento – Epístolas de Pedro e Judas (São Paulo, Editora Cultura
Cristã, 2006), p. 131.
7
Uwe Holmer, Primeira Carta de Pedro – Comentário Esperança (Curitiba, Editora Evangélica Esperança, 2008), p.
35.
8
J.N.D. Kelly, The Epistles of Peter and of Jude (New York, Harper & Row Publishers, 1969), p. 104.
7

Lemos no início da epístola que os cristãos de Éfeso se tornaram conhecedores


do evangelho da salvação e foram selados com o Espírito da promessa (1:13). A
oração de Paulo era que eles recebessem a iluminação dos olhos do coração, dilatando
a percepção da sua posição em Cristo (1:18-23), e se tornassem sabedores que todas
as coisas estão debaixo de seus pés, tendo Cristo enchido tudo e todos (1:20-23).
Podemos concordar com Thomas R. Schreiner quando afirma que “o ‘novo homem’
é Cristo (Ef 2:15, cf. Cl 3:11), e tanto gentios como judeus formam um corpo em
Cristo. Em Ef 4:24 Paulo convoca aos crentes para que se tornem o que eles são em
Cristo, enfatizando a graciosa e redentora obra de Deus.”9A instrução de Paulo aos
seus leitores não era para que se convertessem, porque elas eram pessoas
transformadas pelo evangelho. Ele esperava que estes cristãos continuassem se
santificando a partir do revestimento recebido. O apóstolo ordena que eles buscassem
uma contínua manutenção da justiça e retidão procedentes da verdade em suas vidas que foi
iniciada na conversão.
O revestimento do novo homem não era um evento espiritual a parte da
conversão. Nem era o ensino de que deveriam esperar por outra experiência superior
e instantânea, que viesse posterior à conversão. Heinrich Bullinger comenta que
“aqueles que têm uma vida santa foram renovados pelo Espírito e se revestiram do
novo homem, ou Cristo, o Senhor, e restauraram a imagem de Deus ao que era
quanto foram criados. Somos recriados em Cristo para que possamos viver diante dele
como pessoas santas e justas.”10O revestir do novo homem é um processo de
restaurar a imagem de Deus. Este revestimento ocorre através da santificação
enquanto somos conformados à imagem de Cristo. É por isso que Eberhard Hahn
interpreta que
quando recebemos a Cristo pela fé, revestimo-nos do novo ser humano; porque “Cristo
foi feito, da parte de Deus, para nós… santificação e redenção” (1Co 1.30). Toda
expressão visível dessa santificação, toda boa obra foi preparada previamente para nós
por Deus (Ef 2.10). Apesar disso o “novo ser humano” é ao mesmo tempo alguém com
características individuais e inconfundíveis, pois cada cristão é convidado pelo
mandamento de Deus a obedecer-lhe de forma bem pessoal. [...] O “novo ser humano”
foi “criado segundo Deus, em verdadeira justiça e retidão”. Cl 3.10 explica: o novo ser
humano é renovado “para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o
criou”. A imagem de Deus, porém, é Cristo, que o crente (diferentemente do israelita na
velha aliança: Êx 33.20) é capaz de contemplar; mais que isso: em direção da qual ele é
até mesmo transformado (2Co 3.18; Rm 8.29).11

Notemos que na expressão “novo homem” há um contraste com a anterior


“velho homem”. A ideia não é revestir o novo sobre o velho homem, mas sim de
despir do velho, referindo-se ao pecado, para que sejamos cobertos pela santidade de
Cristo. Wolfgang Musculus observa que Paulo
compara a aparência externa de nossa vida com uma roupa que, bem ou mal, cobre
nosso corpo e na qual vivemos e nos movemos aos olhos das pessoas. [...] O cheiro das

9
Thomas R. Schreiner, New Testament Theology – Magnifying God in Christ (Grand Rapids, Baker Academic, 2008),
p. 102.
10
Heinrich Bullinger citado em Timothy F. George, org., Comentário Bíblico da Reforma – Gálatas e Efésios, p. 376.
11
Eberhard Hahn, Carta aos Efésios – Comentário Esperança, p. 57.
8

nossas roupas é bom, mas perto delas há o fedor pútrido da nossa vida, que dificilmente
é compatível com nossas alegações de que somos cristãos.12

Não se deve preservar a velha veste sob a nova para que não apodreça o novo. Se o
novo homem refere-se a imagem de Cristo que está se formando nos salvos, então,
manter a velha veste seria o mesmo que continuar com o fedor e a imundícia do
pecado tendo sobre si a identidade de cristão. Este novo homem “é o oposto exato
do velho homem; de fato, ele é o novo ego moral, o habitus moral nascido na
regeneração, a mente em harmonia com a vontade de Deus.”13
A imagem de Cristo vem pelo evangelho que é fértil em produzir uma conduta
justa. Charles Hodge explica que “verdade é conhecimento espiritual, aquele
conhecimento que é a vida eterna, que não somente ilumina o entendimento, mas
santifica o coração.”14 Hodge ainda comenta que
o Evangelho é chamado de palavra da verdade como a objetiva revelação da qual o
conhecimento divino que é subjetivamente é o princípio da vida espiritual. Aceitando a
palavra neste sentido, a passagem tem estreita coincidência com a passagem paralela de
Cl 3:10. Aqui a imagem de Deus é descrita como consistindo na justiça e santidade da
verdade; ali a imagem de Deus é descrita consistir em conhecimento. “O novo homem é
renovado em conhecimento à imagem dele que o criou.” Estas passagens diferem
apenas no fato de ser uma mais concisa do que a outra.15

F.F. Bruce afirma que este revestimento do novo homem é “a vida e poder de Cristo
em que está constantemente renovado, como o Espírito de Deus reproduz mais e
bmais da semelhança de Cristo na vida do crente.”16Somos novos homens, mas não
completamente novos, pois, embora esta novidade de vida foi inaugurada, ela ainda
não está consumada. Simultânea à justificação fomos espiritualmente adotados como
filhos de Deus, mas “também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente
gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso
corpo” (Rm 8:23). Assim, neste inaugurado, mas não consumado, continuamos sendo
revestidos do novo homem enquanto somos santificados conforme à imagem de
Cristo.

RENOVAÇÃO DA MENTE (Rm 12:1-2)

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo
por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos

12
Wolfgang Musculus citado em Timothy F. George, org., Comentário Bíblico da Reforma – Gálatas e Efésios, p.
377.
13
George Stoeckhardt, Concordia Classic Commentary Series – Ephesians (St. Louis, Publishing House, 1987), p.
218.
14
Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Ephesians (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Publishing Co.,
1994), p. 266.
15
Charles Hodge, Commentary on the Epistle to the Ephesians, p. 266.
16
E.K. Simpson & F.F. Bruce, Commentary on the Epistles to the Ephesians and the Colossians (Grand Rapids, Wm.
B. Eerdmans Publishing, 1957), p. 272.
9

conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente,
para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

O apóstolo inicia esta nova parte de sua epístola com um apelo apostólico. Ele
diz “rogo-vos” o que certamente despertaria a atenção para algo de suma importância
para os seus leitores. R.C. Sproul observa que “agora que mostrou a seus leitores o
verdadeiro evangelho – a justificação, a santificação, as doutrinas da graça na eleição, a
perseverança e o doce cuidado da providência de Deus – Paulo quer que seus leitores
considerem as implicações e aplicações disso.”17Após expor Rm 1-11 tão longa seção
de complexas doutrinas ele faz a transição nestes dois primeiros versículos para a
aplicação prática na vida cristã. As misericórdias recebidas são o motivo para
andarmos em novidade de vida e, são elas a alegria da salvação na nossa vida.
A santa mudança ocorre pela misericórdia de Deus. Paulo sabe muito bem que
todo querer e fazer começa e se desenvolve pela vontade de Deus.
O nosso comportamento deve ser uma oferta de adoração. A linguagem de
sacrifícios, de que ele deveria ser “vivo, santo e agradável”, é uma metáfora do culto
da antiga aliança, onde animais e aves eram como oferta de gratidão a Deus. F.J.
Leenhardt esclarece que o assunto
trata-se, pois, não da condição, mas dos efeitos do sacrifício. A morte com Cristo abre o
acesso a uma vida nova (8:13): o Espírito pervade a oferenda como outrora o fogo a
consumia sobre o altar; dá-lhe vida nova e a santifica. Como o cheiro do holocausto é
agradável a Deus (Êx 29:18; Lv 1:9, 13, etc.), assim, a oferenda do “corpo” vivificado e
santificado pelo Espírito Santo.18

O valor que nos torna aceitáveis diante de Deus não é inerentemente nosso. Somente
somos recebidos pelos méritos de Cristo e os benefícios aplicados pelo Espírito
Santo. Assim, a nossa vida como adoração é oferecida pela intercessão interna do
Espírito e pela mediação externa do Redentor que nos torna oferta agradável a Deus.
A santificação abrange toda a personalidade. Ela não é apenas um exercício
espiritual. Paulo exorta que os cristãos deveriam “apresenteis o vosso corpo” e não
apenas o seu espírito. John Murray observa que
a santificação deve trazer o corpo em seu âmbito. Havia a necessidade dessa forma de
exortação, não apenas devido à depreciação do corpo, mas também devido ao fato de
que a satisfação do pecado, intimamente associado ao corpo, era tão prevalecente e
tendia a ser desprezada na avaliação dos requisitos éticos. É à luz dessa situação prática
que a exortação do apóstolo deve ser apreciada. Paulo era realista e tinha consciência de
que, se a santificação não envolvesse a parte física de nossa personalidade, seria anulada
desde o princípio.19

A vida é uma adoração e toda a adoração se estende por toda a vida. A


implicação disso é que todos os nossos atos devem ser examinados diante de Deus,
porque é Ele quem os avalia como aceitáveis ou ofensivos. A Escritura diz “aborreço,
desprezo as vossas ofertas e com as vossas assembleias solenes não tenho nenhum

17
R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos (São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2011), p. 369.
18
F.J. Leenhardt, Epístola aos Romanos – comentário exegético (São Paulo, ASTE, 1957), p. 309.
19
John Murray, Comentário Bíblico Fiel – Romanos (São José dos Campos, Editora Fiel, 2003), p. 474.
10

prazer” (Am 5:21). Assim, quando nos reunimos de modo solene para adorá-Lo no
Dia do Senhor, se a nossa vida nos demais dias foram incoerentes com a Palavra de
Deus, não será o culto solene que tornará aceitável a nossa vida, se o nosso coração
não vive diariamente na Sua santa presença.
A vida em todas as esferas deve expressar uma inteligente adoração a Deus. A
adoração como o ato mais importante do cumprimento do nosso propósito de
“glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre” estabelece inteligência em tudo o que
fazemos. O pecado não somente nos separa, nos colocando sob a ira de Deus, como
também nos afeta tornando-nos irracionais. O pecado é essencialmente sem sentido,
nos insensibiliza e torna a nossa vida insensata. Viver a misericórdia é usufruir uma
vida cheia de significado e do amor de Deus. O culto racional é uma vida dominada
por uma cosmovisão bíblica, que é a mente de Cristo, que forja todas as nossas
convicções e modela cada comportamento motivado pela glória de Deus (1 Co 10:31).
O inconformismo cristão rejeita o secularismo. A ideia de com este século refere-se
a transitoriedade de uma estrutura pecaminosa. João menciona algo similar ao
escrever que “o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que
faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 Jo 2:17). A rejeição do secularismo
não é simplesmente uma questão de usos e costumes, isto seria um errôneo
reducionismo da vontade de Deus para algo trivial. A ética cristã não pode ser
formulada pensando em questões meramente culturais, mas “precisamos ter padrões
permanentes, padrões de zelo que estão de acordo com a era vindoura.”20
O objetivo da vida cristã consiste numa radical transformação. Não podemos
viver conformados e dominados pela ética anticristã, nem viver na mediocridade de
um moralismo do senso comum. Não podemos nos contentar em apenas cumprir as
leis da sociedade para cumprirmos a ordem e sermos decentes como as pessoas
esperam que sejamos. A ideia de transformação é viver numa forma além deste
mundo sem Deus. Sproul observa que “ninguém é transformado sem ter o coração
mudado. Deus nos criou de tal modo que a via de acesso ao coração é a mente.”21 A
renovação da mente implica assumir uma cosmovisão coerentemente cristã aplicada a
todas as esferas da vida e da sociedade. Somos chamados a pensar a partir da
Escritura, sob a autoridade de Cristo e para a glória de Deus!
A renovação da mente é um compromisso com a santificação progressiva.
Murray esclarece que
a santificação é um processo de transformação revolucionária naquilo que é o âmago de
nossa consciência. Isto ressoa uma nota fundamental na ética bíblica – o pensamento de
progressão – e combate a estagnação, a complacência e o orgulho de realização, que tão
frequentemente caracteriza os cristãos.22

A vontade de Deus para a nossa vida seja guiada pela ética revelada (Rm 8:29).
Paulo não está se referindo a vontade de decreto, mas sim a de preceito. Devemos
modelar a nossa vida e decisões com a Palavra de Deus. Paulo anteriormente afirmou
nesta epístola que “a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom” (Rm 7:12). A

20
John Murray, Comentário Bíblico Fiel – Romanos, p. 477.
21
R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, p. 374.
22
John Murray, Comentário Bíblico Fiel – Romanos, p. 477.
11

vontade preceptiva revelada na Escritura, como lei e evangelho, nos revela a vontade
preceptiva de Deus. John Murray afirma que
a ética se origina da união com Cristo e, por conseguinte, da participação na virtude
pertencente a Ele e exercida por Ele, na qualidade de Redentor crucificado, ressurreto e
assunto aos céus. A ética que se harmoniza com a sublime chamada de Deus em Cristo
por si mesma faz parte da aplicação da redenção; pertence à santificação.23

Estamos em Cristo, somos dele, para sermos conforme a sua imagem. Por isso,
devemos viver nele, com ele e tendo-o como paradigma. Mas, descobrir a vontade de
Deus para situações específicas ainda assim é algo, às vezes, muito difícil. Por isso,
carecemos de discernimento, e para isto a nossa mente deve nutrir-se com a
preceptiva vontade de Deus, que é a Escritura Sagrada. Sproul comenta que
não importa qual o nosso trabalho ou com quem nos casamos ou em que cidade
moramos. Se não estamos crescendo em santificação, buscar a vontade de Deus sobre
essas coisas é inútil. A vontade de Deus para cada um de nós é que cresçamos em
maturidade espiritual, e que a nossa mente seja transformada. Depois disso, seremos
capazes de dizer o que agrada a Deus. Então, seremos capazes de saber o que ele quer
que façamos – sua boa, agradável e perfeita vontade.24

Assim, ao buscarmos descobrir a vontade de Deus seguindo a ordem correta se


cumpre a promessa de Cristo “busquem, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e a
sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6:33, NVI).

FORMAÇÃO DE CRISTO EM NÓS (Gl 4:19)

“meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em
vós.”

Paulo usa para si a metáfora de uma mulher em dores de parto. Entretanto, a


figura indica uma longa angústia de esforço e persistência. Donald Guthrie nota que
nesta declaração “o seu propósito é claramente demonstrar que esta sua preocupação
com seus convertidos supera em muito a atitude dos judaizantes.”25 Aqueles que
subiram para as igrejas da Galácia a fim de levar uma doutrina legalista não tinham o
amor que o apóstolo possuía por eles. De fato, ele os amava comprometida e
intensamente.
O problema dos desvios doutrinários é que eles são uma ilusão. E, era isto que
os judaizantes no seu zelo sem entendimento de uma obediência cega da lei estava
causando. O desvio doutrinário induziu aqueles crentes a uma falsa liberdade.
Acreditar que pela obediência da lei se alcançaria a aceitação de Deus, é subestimar os
efeitos do pecado.

23
John Murray, Comentário Bíblico Fiel – Romanos, p. 473.
24
R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, p. 374.
25
Donald Guthrie, Gálatas – introdução e comentário (São Paulo, Edições Vida Nova, 1988), p. 155.
12

O sofrimento experimentado por Paulo se estenderia até a formação da


santidade de Cristo neles. William Hendriksen comenta que
o que especialmente causava dor e anseio em Paulo era o fato de que os gálatas
pudessem estar abraçando o legalismo, contudo dificilmente estaria ausente de seu
pensamento o perigo da libertinagem (imoralidade), uma vez que no capítulo seguinte
ele exorta os gálatas seriamente a que não convertam sua liberdade em oportunidade
para a carne (5:13, 16-24; cf. 6:7-8). Assim, nessa relação ampla, pensando na situação
dos gálatas em sua totalidade, ele afirma: até que Cristo seja formado em vocês, ou seja,
até que todo o seu ser interior proclame a pessoa e os caminhos de Cristo, de tal forma
que confiem plenamente em seu Salvador, até serem semelhantes a Ele em seus
pensamentos, desejos e aspirações, e projetem sua imagem em sua linguagem diária, na
vida diária e em suas relações para com os seres queridos; em poucas palavras: em toda a
gama de sua existência e atividade entre os homens.26

O esforço de Paulo era de conduzi-los a uma santificação aplicada a todas as esferas


da vida. Neste sentido ele havia declarado que “logo, já não sou eu quem vive, mas
Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de
Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2:20). Os benefícios da
expiação de Cristo produzindo santidade nos pensamentos, desejos e emoções, de
modo que, tudo neles se forme e conforme a semelhança de Cristo.

VIDA NO ESPÍRITO (Gl 5:25)

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.”

Somos vivificados no Espírito Santo. De modo retórico o apóstolo apela para o


“se”, pois, num autoexame, aqueles crentes deveriam saber que ter vida no Espírito
implicaria em responsabilidades inevitáveis. Ele é a fonte da motivação para uma
conduta santa. William Hendriksen comenta que “se a fonte de nossa vida é o
Espírito, ao Espírito também deve-se permitir dirigir nossos passos, de maneira que
cresçamos, avançando passo a passo para o alvo de uma plena consagração ao
Senhor.”27Assim, cultivando o fruto do Espírito, na sua dinâmica dependência,
podemos gradativamente derrotar o poder destrutivo do pecado em todas as esferas
da vida.
Somos peregrinos numa longa caminhada de santificação. Ninguém que alegue
andar com Cristo, poderá caminhar em pecado. William Perkins denuncia que
essa passagem acaba com as desculpas de diversas pessoas dos nossos dias, que
professam ser filhos de Deus, mas levam vidas culposas, pois vivem não segundo o
Espírito, mas segundo a carne. Essas pessoas, independentemente do que digam,
enganam a si mesmas em atos e, na verdade, e não possuem o Espírito de Deus. Isso
porque, se vivessem no Espírito, andariam no Espírito.”28

26
William Hendriksen, Galátas – Comentário do Novo Testamento, p. 254.
27
William Hendriksen, Galátas – Comentário do Novo Testamento, p. 326.
28
William Perkins citado em Timothy F. George, org., Comentário Bíblico da Reforma – Gálatas e Efésios, p. 234.
13

A santificação é uma evidência do fruto do Espírito. Os que são de Cristo tem o


Espírito que neles produz o seu fruto. Os que são habitados pelo Espírito tem a vida
e andam em santidade sendo transformados de dentro para fora.
Paulo pressupõe que há uma relação de dependência entre “viver” e “andar”.
James Dunn observa que “o implícito contraste entre as duas partes é evidente que há
entre princípio e empenho, ou entre o começo e a continuação”.29 Mas, também há
uma diferença entre as duas ações. Embora a segunda seja resultado da primeira ação,
infelizmente é possível não haver coerência prática entre elas. Guthrie nota que
o crente cristão tem um tipo de vida diferente daqueles que estão sob o domínio da
carne. Mas a aplicação prática desta nova vida não é automática. Requer perseverança,
assim como uma criança está aprendendo a andar precisa de persistência. A metáfora é
sugestiva, porque o mesmo Espírito que dá vida dá também forças e orientação no
decurso da viagem da vida.30

Assim, a implicação deste raciocínio seria que se o Espírito é a fonte de nossa vida,
então, que ela seja persistentemente santificada!

29
James D.G. Dunn, The Epistle to the Galatians (Peabody, Hendriksen Publishers, 1993), p. 317.
30
Donald Guthrie, Gálatas – introdução e comentário, p. 182.

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