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Saúde Mental na França e Escola de Psicanálise Francesa

Maria Laura Ghirardi


Psicanalista

A história da saúde mental na França remonta, como em diversos outros


centros europeus, ao obscurantismo medieval e esteve, como de costume, mesclada
às crenças religiosas sobre possessões demoníacas ou influências de bruxarias. Logo
depois da Revolução de 1789, notadamente através dos esforços de Xavier Bichat na
estruturação da clínica médica francesa, nasceram os novos códigos reguladores das
relações entre o que se convencionaria como doença e o sujeito. O sujeito tornar-se-ia
um “doente” quando acometido de algum distúrbio, no qual se nomearia, então, uma
“doença” em seu aspecto universal. O sintoma ganharia seu status de elemento
significante, permitindo a construção das vastas nosologias que serviriam como base
para programas de luta contra a angústia e o mal-estar.
Advém deste novo paradigma uma consciência médica, prognóstica,
normativa, coletiva, fundada no higienismo, que progressivamente substitui a noção de
que a doença vivida pelo sujeito é enviada por Deus ou pelo demônio. O Estado toma
para si a responsabilidade pela saúde coletiva, tornando-a um interesse público e
leigo. A saúde deixa de ser definida apenas como um estado antagônico ao da doença
e ambos os termos desaparecem progressivamente do discurso médico para dar lugar
a uma representação de sujeito, de corpo e de sociedade centrada na alternância
entre norma e patologia, representação vigente até os dias atuais.
Sabe-se, atualmente, da vontade fanática de “higienizar” e homogeinizar os
corpos e as consciências, projeto que parece novamente nos remeter ao sombrio
desejo da erradicação da diferença, que tem por objetivo o controle, não mais da
saúde física, mas da dita “racial” ou “mental”, atentando contra a singularidade das
subjetividades.
A psiquiatria, ciência nascida no século XIX, teve sob a influência do médico
Phillipe Pinel uma abordagem racional do fenômeno da loucura. Ele retirou o louco de
seu status de possesso para fazer dele um alienado, habitado por um traço de razão.
O médico alienista tornou-se, assim, herdeiro do padre exorcista, e seu papel consistiu
em “consolar” o doente, trazendo-lhe apoio e compaixão. Porém, a essa arte de
consolar somava-se a de classificar as diferentes formas de loucura através das
grandes nosologias, as quais permitiam definir uma clínica e propor um tratamento.
Em outras palavras, o psiquiatra da nova ordem médica, oriundo da Revolução, devia
criar classificações que não fossem apenas codificações comportamentais, mas
maneiras de integrar o alienado, enquanto sujeito de direito, ao espaço jurídico oriundo
da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
No final do século XIX, na ausência da psicofarmacologia, a internação asilar
era vista como único recurso para tratar a dita loucura. A longa duração da
permanência no hospício tornara-se então, como o é atualmente a camisa-de-força
química, para a psiquiatria, o único tratamento possível de todas as doenças mentais.
O historial francês com relação à "loucura" é, portanto, singular, sendo este o território
em que primeiramente se instaurou um olhar científico e jurídico sobre o tema,
afastando-o da perspectiva religiosa e esotérica, sendo possível, a partir de então,
uma observação controlada dos fenômenos, bem como a efetivação de
recenseamento de dados a este respeito, possibilitando o nascimento da psiquiatria,
ciência cujo enfoque privilegiaria o funcionamento mental com bases biológicas.
Cem anos depois de Pinel, o médico Jean Marie Charcot recorria à hipnose
para evidenciar que a histeria, mal que afligia boa parte dos doentes da época, era
uma afecção funcional e não apenas uma simulação, como vinha sendo considerada
até então, e que ela deixava entrever o fato de que a mente era também provida de
estados inacessíveis à consciência.
Influenciado pelo pensamento de Charcot e pela cultura francesa, Freud iniciou
sua jornada de exploração da mente lançando mão de novos e inauditos paradigmas
que resultariam no surgimento da Psicanálise, práxis controvertida e polêmica, que
revolucionaria o pensamento sobre a condição humana a partir do final do século XIX.
Freud construiria sua ciência sob a influência de Pinel, na importância dada à escuta
criteriosa do discurso neurótico, pois ele conteria, já segundo o famoso médico
francês, elementos que fundamentariam a causa do sofrimento psíquico.

A França

Aproximando-nos da trajetória da Psicanálise na França encontraremos,


certamente, caminhos controvertidos e passionais. Percebemos claramente esta
realidade quando nos deparamos com o fato de que sua implantação em solo francês
se deu mais tardiamente do que em outros países, como a Grã-Bretanha e os Estados
Unidos da América. Sua difusão e consolidação ocorreu ali de forma mais definida a
partir de 1926, data historicamente distante do surgimento oficial da Psicanálise em
1900, com a “Interpretação dos Sonhos”. Este fato nos sugere que a França foi, sem
dúvida, um dos países que mais resistiu em receber as idéias de Freud, apresentando
uma postura de reserva, alicerçada em ideais nacionalistas. Paradoxalmente, foi
também lá que, ao longo dos anos, reuniram-se as condições mais favoráveis à

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expansão da Psicanálise nos mais diversos setores da sociedade cultural e médica. A
ciência freudiana tem, na França, um de seus mais importantes centros, estando
sempre presente nas discussões sócio-político contemporâneas daquela comunidade.
A partir da década de 20, portanto, a Psicanálise ganha força em território
francês. Figuras influentes da intelectualidade da época como Artaud1, Queneau2 e
Georges Bataille3 buscam analisar-se. No ano de 1926 foi criada a primeira
associação psicanalítica francesa, a Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP),
composta por doze membros, entre eles René Laforgue4, Marie Bonaparte5 e Rudolph
Loewenstein6. No entanto, nenhum deles, ao contrário do que havia ocorrido em
países como a Hungria e a Inglaterra, conseguiu produzir contribuições teóricas
inovadoras à nova ciência, não sendo, tampouco, capazes de unificar o movimento em
torno de uma política, de uma filiação ou ensino. Esta tarefa coube, portanto, à
segunda geração francesa de psicanalistas, a saber, Sacha Nacht7, Daniel Lagache,
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Jacques Lacan e Françoise Dolto.

1
Antonin Artaud nasceu no dia 4 de setembro de 1896, em Marselha. Escritor, ator, dramaturgo, poeta maldito e
visionário, nos anos 30 concebeu um teatro onde não haveria nenhuma distância entre ator e platéia, todo seriam
atores e todos fariam parte do processo, ao mesmo tempo. Artaud foi encontrado morto em 4 de março de 1948, em
seu quarto do hospício de Ivry, bairro de Paris. Estava aos pés da cama com um sapato na mão. Depois da morte
passou a ser festejado como o homem que fez explodir os limites da vanguarda ocidental e até hoje ninguém o
superou em seus conceitos e em sua loucura. A mesma violência agressiva que o prejudicou e o afastou de seu tempo
produziu o sucesso póstumo de suas idéias e sua atual influência no teatro contemporâneo.

2
Raymond Queneau, célebre escritor francês, nascido em 1903 e falecido em 1976, influenciou
fortemente a cultura francesa e ocidental. Após um contato inicial com os surrealistas, Queneau procede
uma ruptura com este grupo e segue em sua notável trajetória literária, tendo um de seus livros sido
transformado em filme (Zazie) por Louis Malle da Nouvelle Vague. Escritor dotado de grande erudição,
Queneau interessa-se pela escrita em “novo Francês”, dando ao idioma uma roupagem mais coloquial em
seus textos.
3
Georges Bataille, ensaísta e novelista francês, nascido em 1897 e falecido em 1962, frequentemente
chamado de “metafísico do mal”, tinha profundo interesse por sexo, morte, obscenidades e degradação.
Rejeitava a literatura tradicional e considerava que a finalidade de toda a atividade intelectual, artística ou
religiosa deveria ser a aniquilação do indivíduo racional em num ato transcendente e violento de
comunhão. Roland Barthes, Julia Kristeva e Phillipe Sollers escreveram entusiasticamente sobre sua obra.
4
Psicanalista francês (1894-1962) será um dos primeiros a promover a psicanálise naquele país. Depois
de alguns anos integrou ao seu pensamento alguns conceitos esotéricos e foi se distanciando
gradualmente do freudismo.
5
Marie Bonaparte (1882-1962) única psicanalista do grupo francês a se analisar com Freud, transformou-
se, a partir de 1926 em um dos pilares da Psicanálise na França. É sempre lembrada por dois fatos
particularmente marcantes, ter sido a guardiã da correspondência Freud-Fliess e por ter sido a responsável
pela saída de Freud da Áustria em 1939.
10 Rudolph Lowestein (1898-1976) teve um percurso rico e complexo. De origem polonesa, fez seus
estudos médicos em Zurique e analisou-se em Berlim com Hans Sachs. Este poliglota desempenhou um
importante papel na difusão da psicanálise francesa, tendo depois se mudado para os Estados Unidos,
tendo se tornado um dos pioneiros da Psicologia do Ego.
7
Sacha Nacht (1901-1977) é frequentemente descrito como um tipo de ditador no seio da Sociedade
Psicanalítica de Paris. Marie Bonaparte o considerava uma espécie de gângster. De fato, Nacht muitas
vezes deixou sua marca nas funções administrativas que desempenhou. Presidente, por longo tempo da
SPP, Nacht sempre defendeu de forma vigorosa uma visão extremamente médica da formação e da
prática psicanalítica. Neste sentido, ele foi o centro da ruptura de 1953 que conduziu Lacan e Lagache a

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Françoise Dolto

Françoise Marette Dolto (1908-1988) foi, ao lado de Jacques Lacan, um dos


importantes referenciais da Psicanálise Francesa. Oriunda da grande burguesia
parisiense, recebeu uma educação severa, impregnada pelo catolicismo rigoroso. Será
fortemente marcada pela morte de sua irmã mais velha no início da adolescência e
pelos dramas da Primeira Guerra Mundial. Logo no início de sua prática, Dolto orienta-
se para o trabalho com crianças. Dividirá, desde então, seu tempo entre o trabalho no
meio hospitalar, sua clínica particular e seus seminários. Torna-se célebre por sua
tendência a conferir à linguagem uma importância fundamental em seu pensamento e
sua prática e desenvolverá, pouco a pouco, uma técnica muito pessoal embasada nas
palavras e permitindo-se grande liberdade de criação.
Quando da ruptura de 1953 com a Sociedade Psicanalítica de Paris, Françoise
Dolto posicionou-se ao lado de Lagache e Lacan e participou da aventura da
Sociedade Francesa de Psicanálise que se concluiu devido aos choques existentes
entre as Instituições Internacionais, não somente em relação às práticas de Lacan,
como também com relação à presença de Dolto no grupo dos didatas. Ela seguirá,
então, Lacan em 1964, na criação da Escola Freudiana de Paris. Dolto deixa um
legado único no pensamento teórico e nas ilustrações clínicas da análise de crianças,
bem como sobre a controvertida temática da sexualidade feminina.

Jacques Lacan
Jacques-Marie Émile Lacan, médico psicanalista francês, nascido em 1901 e
falecido em 1981, em Paris. Foi ele o único desta geração a conseguir criar e
disseminar um sistema de pensamento original, alicerçado tanto na Psicanálise
freudiana como na Filosofia hegeliana, na Lingüística Moderna de Ferdinand de
Saussure e no Estruturalismo antropológico proposto por Claude Lévi-Strauss, fontes
de onde importaria conceitos que se tornariam centrais em sua cadeia de pensamento.
Propõe um retorno ao sujeito do Inconsciente, resgatando elementos centrais da teoria

criar a Sociedade Francesa de Psicanálise, em oposição às propostas de Nacht sobre a formação dos
analistas.
8
Daniel Lagache (1903-1972). Universitário rigoroso, egresso da Filosofia, doutor em Medicina e médico
do Hospital Psiquiátrico até 1935, Lagache abandona a psiquiatria para se tornar professor na Faculdade
de Letras. Professor de Psicologia Geral e de Psicologia Social na Sorbonne, chega finalmente ao cargo
de Diretor dos Estudos em Psicologia da Sorbonne. No meio institucional psicanalítico, Lagache apoiou-
se naqueles que não toleravam nem a conduta opressiva de Nacht, nem o comportamento imprevisível de
Lacan. Em 1964 seu grupo separa-se de Lacan para formar a Associação Psicanalítica da França. Lagache
deixou uma obra pouco conhecida do grande público, atraindo preferencialmente os especialistas. Foi ele
o iniciador do célebre Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis.

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de Freud, em contraponto à ênfase dada ao ego e à consciência pela Psicologia do
Ego que se expandia em solo norte-americano.
De Hegel, Lacan assimila a idéia da relação com o outro, a dialética do desejo
e do olhar; de Saussure, a ênfase na forma da estruturação da linguagem, tomando-a
como matriz da constituição do inconsciente. Ainda a influência do estruturalista
Claude Lévi-Strauss fez-se marcante na rede de pensamento lacaniano, servindo-lhe
como base para a codificação de seus conceitos, sobretudo no que diz respeito às
estruturas de parentesco e trocas entre tribos aborígenes.
Juntamente com Dolto e Lagache, e em oposição ao modelo preconizado pela
IPA, sobretudo no que diz respeito à necessidade da formação médica como pré-
condição para a carreira de analista, Lacan, em 1935 funda a Sociedade Francesa de
Psicanálise (SFP), centro no qual as idéias de Freud ganharam enorme impulso em
solo francês. Foi também neste período que surgiu o lacanismo, considerada como a
verdadeira escola francesa do freudismo.
Além de formar alunos e novas gerações de analistas, Lacan forjava também
conceitos que o imortalizariam como um grande mestre do pensamento, muito
controvertido, amado e também odiado. A marca fundamental de Lacan em sua
retomada do pensamento freudiano foi a ênfase dada à linguagem e ao discurso na
constituição do inconsciente tanto em seu aspecto simbólico como estrutural,
posicionando o discurso e seus lapsos (furos na cadeia de significantes) como a única
via possível de acesso ao inconsciente. Para Lacan o inconsciente é um saber que o
sujeito veicula, mas ignora. No entanto, é este mesmo saber que, através dos
trocadilhos, leva o sujeito a dizer a coisa certa na hora exata, sem se dar conta do
porquê. Além da característica de um saber, o inconsciente possui também a da
repetição. Produz-se um saber e garante-se que ele se repita, em diferentes
momentos, revestido de diferentes formas. As diferentes formas nos remetem ao
conceito de um significante inicial, conhecido como significante Um (S1), que pode ser
refratado em inúmeros outros significantes adjacentes, que remeterão sempre de volta
ao significante Um. Desta maneira organizar-se-ia o caráter repetitivo do movimento
inconsciente, que terá importância capital para a compreensão posterior do conceito
de gozo na obra de Lacan.
Por acreditar que o inconsciente se estrutura como uma linguagem, Lacan crê
que esse esteja povoado por signos. Signos são sinais lingüísticos que contêm uma
parte sonora, acústica, que seria o significante e uma parte que remete ao conceito ou
à idéia veiculada por esta forma, que seria o significado. Um mesmo significante pode
remeter a diferentes significados, por isto a importância dada à questão dos
deslizamentos, da metáfora e da metonímia na teoria lacaniana, pois eles nos

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indicariam o caminho pelo qual se estruturaram as cadeias significantes no
inconsciente.
A metáfora é um recurso lingüístico utilizado para dar uma idéia ilustrativa
daquilo que se quer expressar. É a substituição de um significante por outro
significante, é a absorção entre significantes. A metonímia sugere uma aproximação
por relação de atributos. É o deslizamento milimétrico do sentido entre significantes
justapostos que, ao final do encadeamento remeterão a um significado que
transcenderá o próprio encadeamento.

Falta como elemento estruturante

Como já nos demonstrava Freud, desde 1885, em seu Projeto para uma
Psicologia Científica, o psiquismo busca equilibrar-se descarregando seu acúmulo de
energia. O represamento de energia torna-se, depois de um tempo, insuportável para
o aparelho que o qualifica como desprazer. O psiquismo busca, portanto, a repetição
dos momentos de prazer e a evitação do desprazer. Lacan ampliará bastante esta
concepção freudiana ao introduzir o conceito de gozo, diferente do conceito de prazer
e ainda mais distante do sentido que lhe atribui o senso comum de sinônimo de
volúpia.
Lacan postula que do momento mítico e inaugural do contato com um outro,
não percebido, então, como alguém diferente e separado de si, há sempre a
experiência de um estado de completude total. Na verdade, seguindo o pensamento
freudiano, a escola francesa também acredita que o eu é, antes de tudo, um eu
corporal, onde as fronteiras do psíquico e do somático não estão completamente
delimitadas desde o início de sua existência. A expectativa do ser que nasce é,
portanto, experimentar a plenitude, a completude total. Um estado de não-falta, de
não-necessidade. Esta expectativa está na origem do que Lacan conceituará como o
Imaginário, um de seus axiomas que formará uma tríade, junto aos conceitos de
Simbólico e de Real.
A experiência da falta adviria exatamente do contato com a realidade da não
plenitude, da impossibilidade de uma completude perene. A maneira pela qual o
sujeito for apresentado à falta lançará os alicerces daquilo que será sua estrutura
psíquica. Pela perspectiva da escola francesa de psicanálise a criança tomará
inicialmente "como empréstimo" o psiquismo materno e sua maneira de lidar com a
falta como matriz para seu próprio alicerce. Vemos este postulado ganhar vida quando
nos deparamos com mães que vivem a ilusão de completude, de que nada lhes falta e
que possuem tudo para suprir as necessidades que do bebê. Teremos aqui, por

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conseqüência, a transmissão de uma maneira de funcionar que negará a
incompletude, a falta, o não saber. Ao ter que enfrentar a falta, este psiquismo
reproduzirá, precocemente, o mecanismo da exclusão (Verwerfung), também
chamada de foraclusão no jargão lacaniano. São mães, ou cuidadores, que se
acreditam fantasiosamente completos e que encapsulam seus filhos em uma relação
diádica e simbiótica, que não lhes reconhece nem autoriza uma singularidade,
reconhecendo-os apenas como uma extensão de si mesmos. Serão pessoas sempre
sujeitas ao olhar e ao desejo da mãe (que na vida posterior será representada pelo
Outro), incapazes de se tornar indivíduos que se pensam autonomamente. Ante a
perspectiva de separação produzir-se-á uma experiência insuportável de angústia,
sem perspectiva de qualquer mediação simbólica, expressos nos quadros de angústia
psicótica.
A ilusão de completude e a certeza de estar sendo cuidado por alguém capaz é
essencial no princípio da existência. No entanto, há um determinado momento em que
a incapacidade de fornecer ao bebê e de receber dele todo o necessário para a
plenitude faz-se presente. É neste momento, em que se percebendo incompleta,
deparando-se com sua própria falta, a mãe abre espaço nesta díade para a entrada de
um terceiro que, grande parte das vezes, é representado pelo pai. Apresenta-se aqui,
então, de maneira clara, a importância dada ao terceiro e à função paterna na
psicanálise francesa. Será este terceiro o portador da notícia que tem força de Lei, a
saber, fica proibida e relação incestuosa entre mãe e bebê. A completude fantasiada
não existe e o bebê será apresentado, então, à sua condição humana de ser faltante
que deverá submeter-se à Lei, à Lei da linguagem.
Vale dizer que a entrada do terceiro, que é o portador da Lei interditora do
incesto, inaugura aquilo a que Lacan denomina como a esfera do Simbólico. A saída
do Imaginário pelo advento da interdição situa o ser no nível Simbólico. O sujeito que
reconhece a interdição, a impossibilidade do gozo pleno, situa-se estruturalmente
dentro do campo das neuroses. O destino psíquico dado ao desejo de fusão e de
posse plena da mãe será o recalcamento (Verdrängung). A idéia incestuosa que agora
é proibida pela Lei passará a fazer parte do Inconsciente, mas o afeto desejante não é
recalcado, ele sai em busca de alguma outra representação a que possa se ligar.
Algumas vezes o afeto desligado da idéia original ligar-se-á ao corpo, dando origem ao
que conhecemos como histeria de conversão. O corpo será o representante simbólico
de algo que está sob ação do recalcamento.
Em outros casos o afeto desligado investirá a cadeia de significantes do pensamento,
criando os quadros de neurose obsessiva. Nestes casos o pensamento é investido de
maneira intensa, sendo-lhe conferido uma importância e um poder quase que

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mágicos. O pensar passa a equivaler ao agir, por isto tantos obsessivos recorrem a
rituais sistemáticos para garantir que aquilo que existe em sua esfera de pensamento
não ocorra de fato no real. Há ainda, no campo das neuroses, a histeria de angústia,
também chamada fobia, onde a interdição pela Lei ocorre, no entanto, a mãe
permanece em um lugar muito poderoso, onde deve ser mantida. A dificuldade do
fóbico, portanto é conseguir separar-se do objeto sem o receio de que, fazendo-o, vá
tirá-lo do lugar de importância em que precisa ser mantido, irá destruí-lo, perderá o
objeto amado. Entretanto, mantendo-se próximo demais o fóbico crê que poderá ser
novamente tragado para a esfera da indiferenciação existente nos momentos de
primazia do Imaginário.
Dentro do funcionamento onde está presente a Lei e o Simbólico, há, na
verdade, mais comumente, uma mescla de características. Não há aquilo a que
idealmente se designa de estrutura pura. A partir da defesa básica do recalcamento,
várias maneiras de enfrentar a angústia decorrente dele poderão se fazer presentes
em uma mesma pessoa em diferentes momentos da vida.
A ausência da Lei, devido a uma falta real, tanto desta inscrição no psiquismo
materno, quanto de uma figura real que fizesse o corte simbiótico, poderá ser
percebida sobretudo no delírio de perseguição tão comum aos paranóicos. Temem
sempre estar sendo perseguidos por forças externas que virão impor-lhes situações
terríveis e de muito sofrimento. Têm delírios de grandeza, com divindades, grandes
personagens históricos, políticos, monstruosidades...todos eles estariam ocupando,
através da realidade do delírio, o espaço que a Lei e o Simbólico falharam em ocupar
em momento precoce de sua estruturação.
Lacan nos propõe ainda uma terceira possibilidade de defesa ante a
experiência da falta. É aquela em que o sujeito, ao ser apresentado à Lei, não a
reconhece como potência interditora, não se submetendo a ela. Lança mão do recurso
da desmentida (Verleugnung), como forma última para não ter que se deparar com a
falta. Tentará ignorar e burlar a Lei e a interdição em todas as suas formas, a fim de
garantir a si mesmo o gozo pleno, sem barreiras. Em alguns momentos do quotidiano
poderá apresentar um perfil um tanto invejoso, sempre acreditando que aos outros
tudo foi dado de maneira simples, mas que a ele, por lhe ter sido negado algo a que
tinha direito, resta viver uma vida de privações e amargura. Sente-se um credor da
humanidade.

Falamos já de dois elementos da tríade lacaniana, o Imaginário e o Simbólico. E


quanto ao terceiro?

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O terceiro elemento da tríade lacaniana é o mais complexo dentro desta
estrutura conceitual. O Real diz respeito exatamente ao não conceituável da
experiência. É tudo o que já estava determinado anteriormente a nós e que nos
ultrapassa, o que não podemos simbolizar através de nenhum significante. É o que
nos suplanta na nossa condição humana e nos evidencia em nossa fragilidade. A
finitude e a diferença anatômica entre os sexos são dados que não podemos definir
em signos, mas que experimentamos em diversos momentos da vida como o impacto
advindo de uma morte inesperada ou de um cataclismo natural.
A tríade conceitual lacaniana, que o acompanhará durante toda sua trajetória de
produção psicanalítica, é também chamada de nó borromeano, a que Lacan
representará graficamente da seguinte maneira

A nomenclatura nó borromeano existe pelo fato deste símbolo, os três círculos


entrelaçados, estar presentes no brasão de uma família italiana, os borromeanos. A
palavra borromeano, por sua vez, tem sua origem na devoção da fé católica a São
Carlo Borromeo, influente bispo milanês que fez com que se executassem as
determinações do Concílio de Trento, no sentido de normatizar a conduta de padres e
bispos. São Carlo Borromeo teria, através de sua intervenção, trazido a lei e a
interdição ao caos reinante no clero da época. A idéia de Lacan em organizar desta
maneira as instâncias psíquicas foi no sentido de esclarecer que as três estão
constantemente interligadas e não é possível alterar uma delas sem que as outras
duas sofram também alterações.

O discurso como paradigma

A escola de psicanálise francesa, de inspiração lacaniana, parte do paradigma


onde o psiquismo se funda somente a partir do contato com o discurso do outro e que
o discurso será a pedra angular de fundação do Inconsciente. Esta escola de

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psicanálise acredita que haja, desde este momento, uma sujeição do psiquismo que
se funda ao psiquismo já fundado. Esta sujeição será traduzida pela tentativa daquele
que chega em ocupar sempre o lugar de objeto de desejo daquele outro que já estava
lá e que ele acredita seja pleno e capaz de lhe conferir a felicidade eterna. Ocorre,
como se pode ver, um processo de sujeição constante ao desejo do outro e a busca
da plenitude. A clínica que preconiza a escola francesa de psicanálise privilegia a
emersão do Sujeito do Inconsciente (Je), em contraponto a este outro eu que se forja
a partir do olhar e do desejo do outro, sendo-lhe sempre servil.

Através do manejo da relação transferencial pelo analista e do papel que este


ocupa, poder-se-á proporcionar ao analisando a possibilidade de que este se torne
independente e responsável por seu desejo. A relação analítica poderá propiciar um
abandono da busca pelos ideais do Imaginário e a convivência criativa com a falta e
com o imponderável. A prática clínica está, portanto, orientada para a autonomia do
desejo, transpassado pela responsabilidade que traz a castração, ou a Lei.

Sob influência do pensamento lacaniano, mas fortemente arraigada na


metapsicologia composta por Freud, a França contemporânea viu florescer
importantes pensadores como Piera Aulagnier (1923-1990), que se graduou como
médica em Roma, após ter vivido alguns anos no Egito, durante a Segunda Guerra
Mundial. Foi, no entanto, em Paris que ele desenvolveu sua carreira e se analisou com
Jacques Lacan. Piera Aulagnier seguiu Lacan nas diversas rupturas que marcaram a
história da Psicanálise na França e ela já havia conquistado um lugar prestigioso no
seio da Escola Freudiana de Paris quando em 1969, rompe com este movimento para
fundar, juntamente com Jean Paul Valabrega e François Perrier o “Quarto Grupo”. Seu
pensamento era absolutamente independente e sua preocupação estava
constantemente voltada para a questão da formação dos analistas. É notável o fato de
que Piera Aulagnier concebeu sua obra em uma espécie de extraterritorialidade
institucional e ideológica e mantinha relações positivas com os outros grupos, tanto
lacanianos como ipeístas.

A obra de Piera Aulagnier se articula em torno de uma noção de Eu, conceito


que transcende o eu freudiano e o Sujeito lacaniano. A questão da identidade é
proposta de maneira radical, à luz de sua clínica das psicoses e não é de surpreender
que, dentro de tal contexto, a questão relativa ao pensamento e sua origem permeiem
todo conjunto de sua obra. Piera Aulagnier propõe algumas extensões à

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metapsicologia freudiana, principalmente agregando o originário às organizações do
primário e do secundário.

Outros autores como Laplanche e sua Teoria da Sedução Generalizada,


Pontalis, com seus questionamentos a cerca da passagem do tempo e seu registro
pelo psiquismo, Leclaire com seu lirismo analítico compõem parte do rico arsenal do
pensamento psicanalítico francês. A cada um deles seria meritório dedicar-se um
espaço em particular.

A comunidade psicanalista francesa atual, em grande parte capitaneada pela


figura de Elizabeth Roudinesco, ocupa-se em pensar o papel do analista na
contemporaneidade, a formação do analista e a ingerência do Estado como órgão
regulador desta formação.
Ficam, entretanto, aqui, algumas notícias iniciais sobre a evolução do
pensamento e da técnica de Freud neste país que os acolheu e que tem contribuído
de maneira decisiva pela sua manutenção e renovação ao longo dos tempos.

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