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SEMINÁRIO PRESBITERIANO RENOVADO


ANÁPOLIS-GO

Mestrado em Ministério Pastoral

“Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem


quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos
sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo
de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio
para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em
resgate por muitos” Mc 10:43-45

GILDÁSIO JESUS BARBOSA DOS REIS


2019
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SEMINÁRIO PRESBITERIANO RENOVADO EM ANÁPOLIS-GO

Curso: Mestrado em Ministério Pastoral

Disciplina: Teologia do Ministério

Data: 29 Julho à 01 Agosto de 2019.

Professor: Rev. Dr. Gildásio Jesus Barbosa dos Reis

HORÁRIO

Segunda-feira – 14h às 17h

Terça à Quinta – 8h às 12h

14h às 17:00h

PROPÓSITOS DO CURSO:

1. Estabelecer claramente na mente do aluno a compreensão bíblica do Ministério Pastoral e


suas implicações.

2. Preparar o aluno para que seja um pastor com qualidades de integridade, imitando assim, a
pessoa de Cristo. Isto porque, a liderança baseia-se, primordialmente no caráter, não na
personalidade.

3. Ajudar o aluno a identificar as motivações sadias para o exercício do ministério na igreja do


Senhor.

4. Preparar o aluno para enfrentar os diversos desafios que o trabalho pastoral exige.

5. Preparar o pastor para ser um capacitador de líderes, para que, no exercício de sua vocação,
seja também um grande apoio, eficiente e eficaz, ajudando assim, outros na igreja a
conhecerem e desenvolverem seus dons na igreja local.
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PROGRAMA

Segunda-feira: dia 29.07.2019

Aula 1 (tarde): 1. Informação sobre as atividades

2. Conceituando o ministério pastoral

Tarefa para fazer em casa: Os alunos deverão dedicar um tempo fazendo uma avaliação de si
mesmos e do seu ministério pastoral

Terça-feira: dia 30.07.2019

Aula 2 Manhã (08h às 12h) 1. Dez prioridades básicas e centrais do ministério pastoral

2. As qualidades de um bom pastor

3. Debate: “Rumo ao desastre” Cap. 1 – Obra Vocação perigosa

Aula 3 Tarde (14h às 17h) 1. Enfrentando o desânimo no ministério pastoral

2. Erros relacionais frequentemente cometidos pelos pastores

3. Um padrão observado na queda de pastores (Valdeci Santos)

Quarta-feira: dia 31.07.2019

Aula 4 Manhã (08h às 12h) 1. Aprendendo a lidar com as críticas no ministério pastoral

2. A esposa do pastor e a solidão no ministério

3. Debate: “Olhando nos espelhos curvos do ministério”


Capítulo 11 – Vocação perigosa. Páginas 133-141

Aula 5 Tarde (14h às 17h) 3. O pastor e a preparação de sermão

2. O pastor e o aconselhamento

3. O pastor e a visitação aos lares


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Quinta-feira: dia 01.08.2019

Aula 6 Manhã (08h às 12h) 1. Por que pastores precisam de apoio pastoral?

2. Debate sobre a auto-avaliação feita na segunda-feira.

AVALIAÇÃO

1. Leituras prévias 30% - (declaração de leitura dos textos abaixo)

a) TRIPP. Paul David. Vocação Perigosa. Confrontando os desafios singulares do chamado


pastoral. Editora Cultura Cristã. 2015. São Paulo. SP
b) ARMSTRONG, John. (org.) O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia. Editora Cultura
Cristã. 2007. São Paulo. SP
c) O PASTOR E O DISCIPULADO: UM APELO AOS PASTORES PARA RESGATAREM A
MENTORIA ESPIRITUAL (Fides Reformata - Volume XVIII)
http://cpaj.mackenzie.br/fidesreformata/visualizar.php?id=243

2. Atividades durante a semana de curso 40%

a) O aluno deverá fazer a leitura dos textos indicados pelo professor e fazer algumas
anotações sobre as lições aprendidas para compartilhar em sala de aula. As anotações
devem ser entregues ao professor.

3. Trabalho após o curso 30% (O aluno deverá escrever um paper sobre um dos assuntos
abordados no curso- 7 a 10 páginas). O texto deve seguir as normas acadêmicas
conforme regulamentadas pela ABNT. (Entregar impresso na secretaria do Seminário
até dia 30 de setembro)
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AULA 01
10 PRIORIDADES BÁSICAS E CENTRAIS DO
MINISTÉRIO PASTORAL
Todos estão ocupados. Esta é a realidade da nossa cultura moderna. Há
trabalho que precisa ser feito, uma família para cuidar, uma casa e carro para
zelar, amizades para cultivar, médicos para visitar. Há atividades das crianças
para agendar e convidados a hospedar. Para aqueles de nós que são cristãos,
você pode adicionar à ocupação normal da vida de participação na igreja,
possivelmente voluntariado uma vez por semana. A vida no século XXI parece
uma corrida frenética e sem fim. Nós somente diminuímos o ritmo quando uma
crise ou uma doença nos forçam a fazer uma pausa.
Aqueles que pastoreiam o povo de Deus vivenciam muitas das mesmas
exigências, pressões, demandas e responsabilidades que outros cristãos. E
porque um pastor é chamado para estar envolvido nas vidas das pessoas em
sua congregação, ele também deve aprender a conciliar a sua própria agenda
com os horários ocupados e agitados dos membros de sua igreja. Suas vidas
ocupadas criam tensão adicional no ministério, fazendo com que muitos pastores
falhem, mesmo antes de começarem.
Muitos pastores caem em duas armadilhas aqui…
Em alguns casos, um pastor rapidamente percebe que ele não consegue prover
um cuidado adequado à sua congregação, logo ele não cuida. Mesmo em uma
congregação menor, não é possível estar em cada cirurgia, jogo de futebol,
funeral, visita médica, convite familiar, dia de trabalho na igreja e solicitação de
aconselhamento. Desanimados, alguns param completamente de tentar. Um
pastor pode escolher se concentrar de forma mais ampla na administração de
grandes atividades, gestão de programas ativos e supervisionar o funcionamento
geral da igreja local, deixando a obra do “ministério” para os outros, ou
negligenciá-la completamente.
Por outro lado, alguns pastores resolutos reconhecem que eles não podem fazer
tudo, mas eles se arriscam a passar por sofrimento. Eles colocam uma mão
ávida no arado e esperam que, com esforço suficiente, eles pelo menos
conseguirão agradar algumas pessoas. Mas, esta abordagem tem seus próprios
perigos. O pastor está agora escravizado às exigências e necessidades de sua
igreja. A congregação, direta ou indiretamente, em grande parte determina como
o seu tempo é gasto. Sua fidelidade e frutificação serão baseadas em quão
contente a congregação está com os seus esforços, e enquanto alguns serão
satisfeitos, sempre haverá pessoas que nunca poderão ser satisfeitas. Agradar
as pessoas se torna a sua maneira de medir a fidelidade, mas isso o fará sentir-
se esgotado e vazio.
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O verdadeiro chamado bíblico do pastor


Um pastor não é chamado para executar programas para as multidões. Ele
também não é chamado para fazer tudo e tentar agradar a todos. Deus é aquele
que chama os pastores para o ministério, e as especificidades deste chamado
são claramente delineadas na Palavra de Deus. A única maneira pela qual um
pastor pode evitar essas armadilhas, e permanecer firme ao longo de sua vida e
ministério é saber o que Deus realmente o chamou a fazer, e fazê-lo! O apóstolo
Pedro exorta os anciãos/pastores[1] para apascentarem, isto é, cuidarem do
povo de Deus. Ele escreve:
“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por
força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem
como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao
rebanho. E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa
da glória” (1 Pedro 5.2-4).
A exortação de Pedro para pastores pode ser resumida em uma única frase:
“Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele até que
o Sumo Pastor aparecer”. E no caso de você ainda não ter percebido, Pedro é
bastante claro sobre quem, o que, quando e como é a vocação bíblica de um
pastor.
O que: Apascentai o rebanho de Deus.
Quem: O rebanho que está entre vós, tendo cuidado dele.
Como: Não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de
ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo
de exemplo ao rebanho.
Quando: Até quando o Sumo Pastor, Jesus Cristo, voltar para o seu rebanho
que está colocado sob seu cuidado.
Então, a verdadeira vocação de um pastor é apascentar as almas do povo de
Deus de forma humildade, voluntária e zelosa, e fazer tudo isso em nome do
Sumo Pastor, Jesus Cristo. Isso não mudou desde o tempo que Pedro escreveu
estas palavras até hoje. Embora a nossa cultura tenha mudado e a vida seja
muito diferente hoje do que era no primeiro século, as responsabilidades básicas
do ministério pastoral não mudaram.
A palavra de Deus é suficiente para nos prover um esboço do chamado divino
de um pastor, e é suficiente para instruir um pastor quanto à forma como ele
deve priorizar sua agenda diária. A Palavra de Deus destaca consistentemente
as prioridades dos pastores fiéis e afirma que estas prioridades giram em torno
do chamado essencial: “apascentar o rebanho de Deus que está sob o seu
cuidado”. A Palavra de Deus tem o poder de remover as demandas, pressões e
expectativas que oprimem o espírito do pastor.
Este é o propósito por trás do novo livro, The Pastor’s Ministry. Se você é um
pastor que está lendo este livro, a minha esperança é que, ao estudar e meditar
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sobre a vocação e as prioridades do ministério pastoral você entenderá melhor


o que Deus está realmente pedindo de você e onde ele quer que o seu tempo
seja gasto. O objetivo deste livro é simples: revelar as prioridades que Deus
estabelece para cada pastor. Deus revela essas prioridades ao longo das
Escrituras, ele as estabelece na vida de Israel, as enraíza no todo de seu plano
redentor, e as confirma nas instruções que dá através de Jesus e dos apóstolos.
O livro The Pastor’s Ministry se concentra em dez prioridades-chave que devem
estar no centro do ministério de cada pastor.
1) Proteja a verdade (2Timóteo 1.13-14)
Um pastor deve ser comprometido com a Palavra de Deus e os ensinamentos
dos apóstolos; e dispostos a pregar, ensinar e defendê-los mesmo quando forem
contrários à cultura.
2) Pregue a Palavra (2Timóteo 4.1-2)
Um pastor deve pregar fielmente todo o conselho da Palavra de Deus, explicar
cuidadosamente o significado do texto e aplicá-lo à vida das pessoas sob os
seus cuidados.
3) Ore pelo rebanho (Efésios 6.18)
Um pastor deve ser um intercessor, trazendo as necessidades da sua igreja
diante de Deus e conduzindo a oração, tanto em público quanto em privado.
4) Dê exemplo (1Timóteo 4.12)
Um pastor é um exemplo para o seu rebanho e deve sempre estar ciente de que
os outros estão olhando para ele como um modelo. Enquanto um pastor deve
ser um padrão de comportamento justo, ele também deve ser um modelo em
confissão e arrependimento, reconhecendo que ele também é um pecador e
ensinando o seu povo a como aplicar o evangelho à vida.
5) Visite os doentes (Tiago 5.14)
Os pastores devem visitar aqueles que estão doentes e precisam de cuidados e
encorajamento, e eles devem treinar outros na congregação para ajudar a cuidar
de outras pessoas necessitadas.
6) Console os que sofrem (1Tessalonicenses 4.18)
Diante da morte, um pastor deve chorar com os que sofrem e deve
sensivelmente lembrar a esperança e encorajamento do evangelho àqueles que
estão sofrendo. Isso envolve pregar mensagens centralizadas no evangelho em
cultos fúnebres e cerimonias de sepultamento.
7) Cuide das viúvas (1Timóteo 5.3)
Um ensinamento bíblico muito negligenciado atualmente é que os pastores são
responsáveis pelas viúvas da igreja e devem encontrar maneiras criativas e
formar de prestar assistência às viúvas, envolvendo as suas famílias e outros
membros da igreja no cuidado dessas mulheres especiais.
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8) Confronte o pecado (Mateus 18.15-17)


Os pastores precisam confrontar o pecado e conduzir a igreja no exercício da
disciplina, na esperança de arrependimento e restauração.
9) Encoraje as ovelhas fracas (1Tessalonicenses 5.14)
Embora seja tentador negligenciar as pessoas que são difíceis de serem
mudadas, Deus chama os pastores a serem modelos na paciência e esperança
perseverante ao trabalharem com aqueles que são difíceis, desanimados e
desafiadores.
10) Identifique e treine líderes (2Timóteo 2.2)
A principal responsabilidade dos pastores é identificar, levantar, treinar e indicar
os líderes na igreja. Todo pastor deve ter um plano de como fazer isso em sua
igreja local e deve estar ativamente buscando a próxima geração de líderes.
Todas as prioridades listadas acima são fundamentadas na Palavra de Deus e,
portanto, devem ser praticamente realizadas no contexto da vida e ministério.
Nós precisamos estar biblicamente fundamentados nesses imperativos pastorais
antes que possamos desenvolver as ferramentas práticas para nos dedicarmos
a estas tarefas.
Conclusão:
Por fim, o meu desejo é que cada pastor que sente os fardos e pressões do
ministério, e que lida com as expectativas impossíveis de pastorear pessoas,
sejam libertados da escravidão de sentir-se responsável por satisfazer todas as
necessidades, comprometendo um tempo que não está disponível, tentando
estar em dois lugares ao mesmo tempo e adiando o cumprimento de incontáveis
tarefas angustiantes. Minha esperança é que o poder da Palavra de Deus
revigorará cada pastor para que veja o que Deus deseja para sua vida e
ministério, e para melhor discernir o que ele pode fazer de modo a agradar o
Sumo Pastor.
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AULA 02
QUALIDADES DE UM BOM PASTOR
O pastor é alguém que desempenha uma das funções mais
privilegiadas do planeta. Ele é comissionado a proclamar a Palavra de
Deus, cuidar do rebanho por quem Jesus derramou seu sangue,
conduzir o povo de Deus em adoração e mobilizar a igreja a levar o
Evangelho da salvação aos perdidos em todas as nações. As almas dos
santos foram confiadas a ele (Hb 13.7), o Evangelho da verdade foi
encomendado a ele (2Tm 2.14) e o governo da igreja foi delegado a
ser partilhado entre ele e outros líderes (1Tm 3.15). Todos esses
privilégios são também acompanhados por grande responsabilidade.
Diante disso, é possível compreender melhor a difícil pergunta do
apóstolo Paulo: “Quem, porém, é suficiente para estas coisas?” (2Co
2.16). Certamente o Senhor é quem capacita seus servos para o
desempenho do ministério sagrado.

Considerando a complexidade da tarefa ministerial, quais


seriam as qualidades básicas para avaliar um bom pastor? A Bíblia
possui as qualificações gerais para o presbiterato, mas o que dizer para
aqueles que se dedicam à docência e ao pastoreio do rebanho em
tempo integral? Em outras palavras, o que, de fato, as pessoas
deveriam procurar ou esperar de um pastor? A resposta a essas
perguntas pode variar de acordo com a necessidade do contexto (a
igreja local) ou da perspectiva que alguém tem do ministério pastoral.
No entanto, deve haver consenso quanto algumas virtudes básicas
para o desempenho desse serviço sagrado.

Algumas obras literárias sobre o ministério pastoral


comumente apresentam um conjunto de cinco atributos essenciais
para o ministro do evangelho.[1] É preciso distinguir essas qualidades
daquelas habilidades a serem aprendidas no decurso da experiência
ministerial. As características básicas são implantadas pelo Espírito
Santo naquele que é vocacionado para o ministério. As habilidades
dizem respeito a elementos assimilados com o estudo e a prática
ministerial, tais como: eficácia na comunicação, sabedoria relacional,
prudência administrativa etc. Enquanto um obreiro pode expressar o
desenvolvimento de algumas habilidades em maior ou menor grau,
nenhum pastor deveria exercer o ministério sem as qualidades básicas
para o pastorado.
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Visando melhor memorização dessas qualidades, procurei apresenta-


las como cinco “Cs” essenciais para se avaliar um bom ministro.
Certamente esse recurso pedagógico é importante, mas o essencial é
que consideremos o conteúdo de cada qualidade apresentada.

1. Conversão

Uma das maiores tragédias que podem acometer o ministério pastoral


é o fato dele ser exercido por uma pessoa descrente. Em 1739, o Rev.
Gilbert Tennett, ministro presbiteriano do período do Grande
Avivamento Americano, pregou seu famoso sermão (que depois foi
impresso) com o título “Os riscos de um ministério não
convertido”.[2] Na mensagem ele descreveu os ministros descrentes
como uma maldição sobre a igreja, pois eles se beneficiam da fé e
fidelidade dos crentes. Tennett os identificava como “lagartas que se
esforçam para devorar tudo o que é verde ao redor”. Como é sabido,
as lagartas são incansáveis no intento de consumir a vegetação
disponível.

Na verdade, é possível que alguém que nunca tenha experimentado a


graça transformadora do Evangelho até consiga cumprir todos os
passos exigidos por uma denominação a ponto de ser ordenada ao
pastorado, mas quando isso acontece, é uma desgraça. Não é exercício
de uma tarefa santa por um ministro que o transformará ou santificará.
Como o puritano Richard Baxter escreveu no clássico O pastor
aprovado, “uma santa vocação não salvará um homem que não é
santo”.[3] O fato de Judas ter feito parte do colégio apostólico não fez
dele um convertido e nem a experiência de Demas participando do
ministério evangelístico de Paulo o impediu de ser vencido por suas
paixões. Portanto, é imprescindível que o que prega o Evangelho tenha
sido convertido pelo poder desse Evangelho, experimentando a tristeza
do arrependimento e a alegria da fé salvadora.

2. Caráter Provado

A igreja contemporânea geralmente avalia pastores por suas


habilidades e acaba optando por carisma antes que caráter. Visto de
uma perspectiva humana, não é difícil compreender porque isso
acontece. Todos somos naturalmente atraídos por pessoas de notável
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carisma e talentos excepcionais. Gostamos de ouvir comunicadores


habilidosos e ser conduzidos por líderes talentosos. Além do mais,
acabamos nos convencendo de que o sucesso é uma prova inegável da
bênção de Deus. Nesses casos, os resultados parecem ofuscar a
necessidade de se avaliar o caráter.

O Novo Testamento é enfático ao apontar o caráter como uma das


principais características do pastor. Dentre as qualificações
estabelecidas no Novo Testamento para o pastorado, duas são
relacionadas a habilidades (a que diz respeito ao ensino e ao governo
de sua própria casa) e uma tem a ver com a experiência (ele não deve
ser um convertido recente). O restante de todas as outras qualificações
dizem respeito ao caráter do obreiro. Assim, o que habilita um homem
para o ministério não é primariamente sua capacidade ou realizações,
mas seu caráter reconhecido pela comunidade.

Nesse sentido, duas virtudes de caráter se destacam: humildade e


integridade. Aqueles que conduzem o rebanho de Cristo devem se ver
antes de tudo como servos e não como dominadores. Baxter escreveu
que “ser bispo, pastor ou presbítero não é postar-se como semideus
ante o qual o povo deva prostrar-se, nem viver atendendo aos próprios
desejos e prazeres carnais”.[4] O pastor necessita ser humilde,
reconhecendo sua função como privilégio e não como mérito. Também,
ele necessita evidenciar integridade ao viver aquilo que ele prega e
ensina. Nesse sentido, ele procurará evitar a parcialidade nos
julgamentos e será notado por sua honestidade e veracidade. É
importante lembrar que Deus é servido pela prática da verdade dos
seus servos.

Muitos dos problemas na igreja local e global nos dias atuais são
causados pelo fracasso em atender a este simples princípio. Vários
pastores têm gerado escândalos na igreja pela falha de caráter. Muitos
cristãos poderiam ser poupados de tantos traumas se suas igrejas se
recusassem a colocar na liderança alguém que não possui o caráter
exigido por Deus.

3. Compaixão por Pessoas

Biblicamente falando, o pastor é aquele que cuida do rebanho de Deus


(At 20.28). Assim, é essencial que ele seja compassivo e tenha amor
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pelas ovelhas que lhe foram confiadas. O interesse por servir, ajudar e
cuidar das pessoas é fundamental no exercício da vocação pastoral.

Uma das razões pelas quais compaixão é tão importante no pastorado


é o fato de que o verdadeiro Deus é compassivo. O Salmo 103.13, por
exemplo, afirma: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o
SENHOR se compadece dos que o temem”. Em outra passagem do
Antigo Testamento é dito sobre Ele: “. . . ainda que entristeça a
alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas
misericórdias” (Lm 3.32). Definitivamente, a compaixão de Deus foi
perfeitamente demonstrada na manifestação do seu Filho Jesus Cristo.

Além do mais, era exigido dos sacerdotes no Antigo Testamento que


eles fossem compassivos com os outros. Em Hebreus 5.1-2 temos:
“Porque todo sumo sacerdote, sendo tomado dentre os homens, é
constituído nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens, para
oferecer tanto dons como sacrifícios pelos pecados, e é capaz de
condoer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele mesmo
está rodeado de fraquezas”. O fato de o sacerdote refletir que também
era um pecador fazia com que ele fosse compassivo com outros
pecadores.

Amor e compaixão pelas pessoas é uma qualidade básica da vocação


ministerial. Logo, o pastor irascível, impaciente e desprovido de amor,
falha em seguir o exemplo do Supremo Pastor e contradiz sua vocação.

4. Consagração a Deus

Um dos versos bíblicos mais desafiadores encontra-se em Mateus


14.23, que descreve algo sobre a prática de oração de Jesus: “E,
despedidas as multidões, subiu ao monte, a fim de orar sozinho. Em
caindo a tarde, lá estava ele, só”. Nenhuma pessoa pode ler esse texto
sem considerar que se o próprio Filho de Deus cultivou uma vida de
oração, o menosprezo dessa prática comunica arrogância daquele que
pensa poder crescer espiritualmente sem comunhão com Deus, como
também resulta em falência da vitalidade necessária para a prática
ministerial.

Frequentemente encontramos pastores que se encontram tão


ocupados que já não possuem a prática devocional regularmente. A
atmosfera de constante atividade acaba sufocando o tempo que
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deveria ser dedicado à oração e meditação na Palavra. Todavia, sem


comunhão pessoal com Deus, o pastor não terá eficiência no cuidado
dos remidos do Senhor. As Escrituras ensinam que os obreiros colhem,
mas é Deus quem dá o crescimento; eles pregam, mas é o Espírito
Santo que aplica a mensagem ao coração dos ouvintes; eles conduzem
o culto, mas é Deus quem transforma a vida dos adoradores. Assim,
comunhão com Deus não é um apêndice, mas a base do ministério
pastoral.

A consagração a Deus liberta o pastor do perigo do profissionalismo


ministerial. Sem ela, o trabalho pastoral se torna mecânico e árido.
Certamente é muito mais fácil pregar contra o pecado na vida dos
outros do que procurar mortificá-lo em nosso próprio coração, mas sem
essa mortificação não encontramos a vitalidade necessária para o
crescimento espiritual. O processo da mortificação, porém, só é
possível por meio de contínua consagração a Deus. Como Paulo afirma:
“E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por
espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória,
na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18). Se
alguém almeja o pastorado, deve almejar também a comunhão com
Deus.

5. Confiabilidade

Confiança é um dos principais fundamentos para a estabilidade nos


relacionamentos. Sem ela, as pessoas acabam se distanciando e onde
deveria existir intimidade, prevalecem as interações formais. Além do
mais, confiança é uma dimensão crítica da liderança. Se os seguidores
não confiam no líder, esse certamente não realizará muito. Sem
confiança, é improvável que os indivíduos se comprometam com ações
necessárias para o desempenho de uma missão. O pastor é alguém
com uma função essencialmente relacional e alguém que deve exercer
a liderança. Logo, é necessário que o seu rebanho o perceba como
alguém confiável.

Nos últimos anos, vários fatores têm contribuído ativamente para um


crescente descrédito em relação ao ministério pastoral. Alguns desses
elementos são: notícias sobre falhas morais de pastores, seus
fracassos relacionais, atitudes de arrogância em relação ao rebanho, o
desastre dos envolvimentos contenciosos e o uso vulgar da mídia.
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Essas coisas resultam na erosão social da confiança que as pessoas


deveriam ter naquele que representa o verdadeiro Deus.

Confiabilidade é uma virtude facilmente percebida por meio de atitudes


consistentes. Dentre essas atitudes estão: humildade em relação ao
próximo, a integridade no falar a verdade e aborrecer a mentira, o zelo
para não expor pessoas e suas histórias vergonhosas etc. Enfim,
confiabilidade é o resultado de um procedimento sábio, consistente e
prudente por parte daquele que conduz o rebanho de Cristo. Isso não
é concedido miraculosamente no momento da ordenação, mas
necessita ser parte da pessoa vocacionada para o ministério sagrado.

Concluindo, todos os que desejam ser encontrados fieis no ministério


e que ambicionam ser julgados bons pastores fazem bem em
considerar essas características e cultivá-las na vida diária. Se nos
preocupamos apenas com o periférico ao invés do essencial, a prática
ministerial não será satisfatória para o rebanho e muito menos para
nós, pastores.

- Valdeci Santos

[1] Por exemplo: BAXTER, Richard. O pastor aprovado. São Paulo:


PES, 1989; CROFT, Brian.Prepare them to shepherd. Grand Rapids:
Zondervan, 2014; STILL, William. The work of the pastor. Escócia:
Christian Focus Publications, 1984.

[2] TENNETT, Gilbert. The danger of an unconverted ministry.


Disponível
em:http://www.sounddoctrine.net/Classic_Sermons/Gilbert%20Tenn
ent/danger_of_unconverted.pdf. Acesso em: 15 de maio de 2019.

[3] BAXTER, Richard. O pastor aprovado. São Paulo: PES, 1989, p. 59.

[4] Ibid., p. 116.


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AULA 03
ENFRENTANDO O DESÂNIMO NO MINISTÉRIO
PASTORAL
Pastorear a igreja de Cristo não é uma tarefa fácil, mas também não é impossível!
O apóstolo Paulo afirma que os pastores são dádivas de Deus e expressão de sua
graça sobre a comunidade do povo de Deus, “tendo em vista o aperfeiçoamento
dos santos” (cf. Ef 4.7-12). O problema, porém, parece ser: será que os pastores
olham para a igreja como bênção de Deus para eles?

Essa pergunta é pertinente devido ao crescente número de pastores


desencorajados no exercício do ministério pastoral. Recentemente a mídia cristã
veiculou uma estatística sem grandes detalhes, realizada no contexto americano,
que retratava cerca de 90% dos pastores estão próximos ao ponto máximo de
esgotamento, com bagagem mental e emocional excedente, com problemas
financeiros, sob a esmagadora pressão por terem a “família perfeita”, sem
amigos próximos, insatisfeitos no matrimônio e outras coisas mais. O
interessante é que os dados daquela pesquisa poderiam ser aplicados a qualquer
outra atividade, mas a ênfase recaiu sobre o trabalho árduo e nem sempre
reconhecido que o pastor realiza. Em nenhum de seus itens a estatística
mencionou as alegrias advindas do privilégio de cuidar do rebanho que foi
comprado pelo sangue de Cristo (cf. At 20.28). O problema é que a divulgação
de dados como esses sem a contrapartida das bênçãos ministeriais agrava o
sentimento de vitimização de muitos pastores, bem como não os ajuda a
enfrentar o desânimo corretamente, sem amargura e rancor. Dados como esses
obscurecem dos olhos de muitos ministros a perspectiva de que o ministério
pastoral é uma “santa mordomia”.

Tendo feito a análise acima, não se pode ignorar que, de fato, há inúmeros
motivos para muitos se sentirem desanimados no ministério pastoral. Vivemos
em um mundo caído e diariamente nos relacionamos com pessoas fragmentadas.
Além do mais, em nós mesmos temos a comprovação dos efeitos da queda, pois
nossa inconsistência nos flagela a todo momento. Dessa forma, é de se esperar
que o aspecto relacional do ministério resulte em uma luta contínua contra o
desalento. John Stott certa vez observou que “o desencorajamento é risco
ocupacional do ministro cristão”.[1] Logo, saber lidar com esse fenômeno é
crucial para cada pastor que deseja cumprir cabalmente o seu ministério.

Dos muitos conselhos sábios que tenho recebido sobre esse assunto, o melhor
tem sido: pregue o evangelho para você mesmo! Pastores pregam o evangelho
toda semana. Eles se colocam no púlpito e proclamam as riquezas da graça em
Cristo, o perdão dos pecados, a consolação do Espírito e inúmeras outras
verdades. Todavia, nem sempre se apropriam dos benefícios resultantes desse
evangelho. Dessa forma, pregar o evangelho para si mesmo é uma excelente
maneira de enfrentar os desânimos comuns no ministério pastoral.
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Nesse sentido, um dos textos bíblicos ao qual devemos sempre recorrer é o


capítulo 8 da epístola aos Romanos. Aliás, Romanos 8 contrasta as bênçãos de
Deus com as tribulações experimentadas em um mundo caído. Ali, Paulo afirma
que “os sofrimentos do presente não se podem comparar com a glória que será
revelada em nós” (v18). Todavia, ao longo desse capítulo o apóstolo revela três
importantes verdades do evangelho a serem meditadas e apropriadas nos
momentos de abatimento e desencorajamento.

1. Deus, o Pai, ama você

Na parte final de Romanos 8, o apóstolo lembra os cristãos do imenso amor do


Pai, o qual foi demonstrado na entrega do Filho pela redenção de pecadores.
Paulo afirma que “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas, pelo contrário,
o entregou por todos nós ...” (v32). Em outras palavras, o Pai nos deu quem ele
tinha de melhor: seu Filho bendito! Por essa razão, o apóstolo conclui que nem
morte, nem vida, nem coisas do presente, nem do futuro, nem poderes etc.,
poderão nos separar do amor de Deus! (cf. v38-39). Assim, o fato de sermos
amados pelo Pai é, certamente, imensa fonte de encorajamento para aqueles
que se sentem desalentados, injustiçados, incompreendidos e até odiados por
pessoas ao redor!

A afirmação de Paulo sobre o amor do Pai foi feita em um contexto em que ele
lembrava seus leitores de que “somos entregues à morte todos os dias; fomos
considerados como ovelhas para o matadouro” (v36). Dessa maneira, considerar
o amor de Deus por nós é importante para se perceber a luz nas trevas e a
providência daquele que nos dará, com Cristo, todas as coisas (v 32).

Por essa razão, querido pastor, pregue o evangelho do amor do Pai para você
mesmo! Medite no fato de que o amor de Deus não depende do seu desempenho
diário, mas da graça dele para contigo. Esse amor é a garantia de que o Pai nunca
o desamparará.

2. Deus, o Filho, representa você

O capítulo 8 de Romanos se inicia com a afirmação de que não há mais


condenação para os que estão “em Cristo” (v1). Aliás, a expressão recorrente no
Novo Testamento “em Cristo” é fundamental para se considerar as boas novas
do evangelho. O fato é que perdão, aceitação, retidão e vida eterna são bênçãos
para aqueles que se encontram “em Cristo”. A obediência perfeita de Cristo é o
fundamento das graças recebidas pelo povo de Deus. O crente só pode
permanecer de pé diante do Pai Celestial porque ele foi revestido com a justiça
do Filho Primogênito, e Deus se agrada dos seus filhos adotivos tanto quanto ele
se agrada do Filho Eterno.
17

Paulo contrasta os sofrimentos do presente com a glória a ser revelada por causa
de Cristo. O fato é que sofrimentos e dificuldades não deveriam surpreender o
crente que vive no mundo de aflições. O problema é que ainda que nós pastores
tenhamos consciência dessas verdades, muitas vezes acabamos caindo na
“armadilha do ministério bem-sucedido” e passamos a esperar um pastorado sem
dificuldades e oposições.

Pastores e obreiros cristãos acabam navegando em águas contaminadas com as


propostas do sucesso fácil. Quando se lê a história do plantador de igrejas, a
ênfase parece ser que a comunidade dele cresceu na virada de cada página do
livro. Ao observar o bom pregador, parece que suas mensagens são mais fruto
de “inspiração” do que “transpiração”. A consideração do bom conselheiro parece
não levar em consideração os seus inúmeros casos de fracasso e frustração.
Essas análises desfavoráveis e irreais geram a ideia de que o ministério frutífero
equivale ao sucesso numérico ou a ausência de problemas e pressões. No
entanto, essa perspectiva não possui qualquer correspondência com o ministério
dos servos de Deus nas Escrituras. O fato é que parece que os pastores
contemporâneos estão se deixando levar por outros modelos que não o bíblico.

O pastor deve se lembrar sempre que o fato dele ser representado por Cristo, e
não pelo seu sucesso ministerial, é a base segura de sua aceitação. Em outras
palavras, sua identidade em Cristo é mais importante do que sua aceitação social.

3. Deus, o Espírito, habita em você

Em Romanos 8.15-16, o apóstolo Paulo conecta a obra do Espírito ao novo status


do crente: o Espírito testifica que ele é filho de Deus. Esse é o testemunho do
Espírito sobre a adoção do cristão. Isso é importante porque o Pai não permite
que os seus filhos fiquem na dúvida quanto a sua condição, mas concede a eles
o Espírito de adoção.

Dessa forma, é necessário observar que o ministério do Espírito Santo não


termina com a conversão, mas continua na confirmação de nossa adoção. Além
do mais, ele também não é interrompido nessa confirmação, mas se estende a
ponto de nos socorrer nos nossos momentos de fraqueza (cf. v26-27). Na
verdade, Ele intercede por nós até quando nos encontramos muito fracos para
orar. Por último, a intercessão do Espírito é eficiente, pois ela é sempre segundo
a vontade de Deus.

A habitação do Espírito é mais uma bênção do evangelho que pregamos, mas


nos momentos de aflição facilmente nos esquecemos dela. Todavia, é importante
considerar que o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus dentre os mortos é o que
habita em nós e é poderoso para nos vivificar (v11). Nessa consideração também
devemos lembrar que justificação, adoção, perdão, habitação, enchimento do
Espírito etc., não são apenas conceitos teológicos para serem aprendidos no
seminário, mas benefícios do evangelho por meio dos quais devemos viver e
18

sermos sustentados em nosso labor diário. A habitação do Espírito é uma


realidade poderosa para todo o cristão, inclusive aquele que foi vocacionado para
o ministério pastoral.

Certamente é importante que se reconheça as dificuldades e complexidades do


ministério pastoral. Haverá momentos em que o pastor fiel sentirá a pressão
ministerial e a sua fragilidade pessoal a ponto de pensar em abdicar da igreja
local, de sua atividade e de sua vocação ministerial. Todavia, esses são
precisamente os momentos nos quais o ministro deve se lembrar, de maneira
especial, de pregar o evangelho para si mesmo. Deus não vocacionou ninguém
para o ministério com o propósito de que aquela pessoa se esquecesse do seu
evangelho ou pensasse que o evangelho deve ser apenas pregado para os outros.
Cada pregador das boas novas deve aplicá-las a si mesmo todos os dias, várias
vezes durante o dia, a ponto de permitir que essas verdades governem suas
emoções, pensamentos e ações.

Após considerar as três verdades básicas do evangelho a serem pregadas para


si mesmo, o pastor ainda pode tomar algumas medidas práticas para combater
o desânimo e frustração. Abaixo são colocadas algumas sugestões dessas ações
na esperança de que sejam proveitosas aos pastores que não querem sucumbir
ao desânimo.

a. Ore. Separe alguns momentos para derramar seu coração diante de Deus,
expondo a Ele suas angústias a dores;
b. Lembre-se de que você está engajado em uma batalha espiritual. Alguns
elementos do desânimo podem ter sua origem nas investidas do inimigo, e ele
certamente tenta se aproveitar de nossos desapontamentos;
c. Interceda por aqueles que têm agido de maneira negativa em relação a você.
Jesus nos ensinou a amar nossos inimigos (Mt 5.42-44), o que, por extensão,
deve nos motivar a interceder por aqueles que são acidamente críticos ao nosso
trabalho, a nossa pessoa ou a nossa família;
d. Compreenda que o processo de mudança é, na maioria das vezes, lento.
Certamente desejamos mudanças de uma noite para o dia, mas não é assim que
o Senhor geralmente age. Pois no processo de transformar outros, ele também
nos amadurece; e essas coisas podem levar tempo;
e. Procure encontrar meios de se alegrar e demonstrar o seu amor pela igreja local.
O rebanho precisa ser assegurado do amor do seu pastor. Procure se lembrar
dos pequenos gestos de afeto pelos quais você deve ser grato e motivado a
demonstrar seu amor pelos membros de sua igreja;
f. Cuide de sua saúde física. Algumas vezes justificamos nosso cansaço, mal-estar
e fadiga pelas pressões a que somos submetidos. Todavia, é importante
observarmos que esses mesmos problemas podem ser causados por obesidade,
falta de sono ou péssima alimentação, que fazem parte do estilo de vida de
alguns pastores.

Valdeci Santos

Secretário Geral de Apoio Pastoral da IPB


19

AULA 04
ERROS RELACIONAIS COMUMENTE
COMETIDOS POR PASTORES
Os primeiros dias de um novo pastorado são geralmente acompanhados por alegrias e
expectativas. Depois de uma espera angustiante, orações, contatos e até lágrimas, chega
o momento em que o ministro recebe o convite de uma igreja local ou a nomeação de um
presbitério para o novo campo. No íntimo, ele deseja realizar um bom trabalho. Em sua
mente, há tantas ideias e projetos que envolvem melhorias na Escola Dominical,
vivificação de várias atividades da igreja, o crescimento espiritual e maior firmeza
doutrinária dos membros, bem como um testemunho vibrante dos santos na comunidade.

O problema é que muitos desses entusiasmados ministros, acabam se tornando “pastores


machucados” com o passar dos anos. Alguns colecionam históricos de despensas,
mudanças de campo, situações nas quais eles ficam sem campo ou são até desligados do
ministério. As causas para todos esses problemas certamente são variadas, mas a
responsabilidade pode ser dividida entre a igreja e o pastor. Por certo existem igrejas com
muitos membros não regenerados, que não possuem qualquer compreensão do Evangelho
da graça e cujos líderes acabam se revelando déspotas no tratamento ao obreiro. No
entanto, alguns pastores continuam cometendo erros infantis e parecem nunca aprender
com suas próprias falhas.

Com respeito aos defeitos da igreja há que se considerar que algumas expectativas dos
membros em relação ao ministro são até desumanas. Para alguns, ele não pode demonstrar
qualquer fraqueza e por mais que ele se esforce para realizar um bom trabalho, nunca
conseguirá agradar a todos. Na verdade, o membro da igreja sempre quer encontrar seu
pastor sorridente, disponível e concedendo atenção indivisível, como se ele fosse a única
alma a ser pastoreada. Também, algumas igrejas acreditam terem recebido o “mandato
celestial” para manterem seus pastores humildes e por isso os deixam vivendo em
condições de miséria. O salário nem sempre é dos melhores e reajustes ocorrem somente
mediante imposição de instância superior (o presbitério). Há ainda o jogo de “críticas e
comparações”, pois todos parecem conhecer um pastor que é melhor do que aquele por
quem são cuidados. Haverá sempre um pastor midiático que gostariam de ter ou
geralmente farão referência ao pastor antecessor, deixando claro a rejeição ao atual. Para
piorar, a família do pastor ainda é submetida ao escrutínio dos membros da igreja. Sua
esposa nem sempre é aceita nos grupos femininos e seus filhos serão continuamente
observados e criticados. Nesse contexto, é difícil o pastor não se sentir ferido!

No entanto, o propósito principal desse artigo é refletir sobre alguns erros comumente
cometidos pelos pastores, especialmente no trato com suas ovelhas. Não serão tratados
os pecados grosseiros que geralmente resultam em despojamento, mas aquelas falhas que
ainda que imperceptíveis aos seus autores, acabam afetando a imagem do pastor,
dificultando sua aceitação no campo e ao final, rompendo os laços ministeriais.
20

Infelizmente, a lista abaixo não é exaustiva, mas apenas representativa. Há outros erros
que possuem o mesmo efeito cumulativo que não temos condições de abordar aqui. Por
enquanto, nossa atenção recai sobre estes mencionados abaixo.

1. Se esquecer de que as pessoas difíceis na igreja correspondem ao objetivo da


vocação pastoral.

No texto de Efésios 4.11-12, o apóstolo Paulo afirma que pastores são bênçãos do Cristo
glorificado para a igreja terrena, pois quando ele subiu acima de todos os céus, concedeu
uns para “pastores e mestres”. Todavia, isso foi feito “com vistas ao aperfeiçoamento dos
santos”, ou seja, o objetivo dessa santa vocação é lidar e ajudar irmãos imperfeitos.
Embora algumas situações e pessoas na igreja machuquem o pastor e tornem o seu
ministério mais sofrido e difícil, a existência desses estorvos evidenciam o quanto o
trabalho pastoral é necessário. Deus não enviou pastores para uma igreja glorificada ou
completamente aperfeiçoada. No rebanho terreno o ministro encontra não apenas ovelhas
feridas, mas bodes que chifram e “lobos vorazes que não pouparão o rebanho” (cf. At
20.29). Nesse contexto, o obreiro necessita imensa graça e a convicção de que, de fato,
ele foi vocacionado por Deus para esse ministério de abençoar a igreja consolando alguns,
confrontando outros e amando sacrificialmente aqueles que Cristo lhe confiou.

2. Invocar a autoridade sem primeiro conquistar a credibilidade pastoral.

As Escrituras claramente conferem autoridade ao pastor (cf. Hb 13.17), mas precisamos


considerar também que, na prática, o exercício dessa autoridade implica no
reconhecimento por parte da congregação. Qualquer pastor que precisa lembrar à igreja
de sua autoridade todo o tempo, provavelmente não possui regência sobre o seu rebanho.
Liderança não é imposta, mas é conquistada e cultivada. Somente por relacionamentos
marcados pelo respeito mútuo e amor fraternal poderá a congregação reconhecer a
autoridade que Deus conferiu ao seu pastor. Credibilidade no ministério pastoral é fruto
da expressão de virtudes cristãs na conduta diária do obreiro em relação a suas ovelhas.
Pastores que procuram colher os lucros da autoridade sem quaisquer investimentos na
credibilidade logo serão lembrados do déficit no seu estilo de liderança.

3. Confundir convicções com preferências pessoais.

Convicção se fundamenta na verdade objetiva da Palavra de Deus, enquanto preferência


resulta da escolha subjetiva de alguém. Todos possuem preferências e isso também ocorre
na igreja! Por exemplo, o estilo da música, o horário do culto, o material utilizado na
Escola Dominical, a maneira de vestir ou até de interagir com outros. Pastores também
possuem suas predileções! Todavia, pode surgir um problema quando o ministro insiste
nessas preferências como se elas fossem verdades bíblicas a serem obedecidas por todos.
Ao cometer tal erro, ele se esquece que suas ovelhas também possuem o Espírito Santo,
o acesso às Escrituras e também estudam e ouvem outros pregadores a ponto de
discernirem o que é predileção do obreiro e o que é uma verdade bíblica a ser obedecida.
21

O pastor sábio sempre procurará ser honesto com a igreja, deixando claro o que é um
princípio de fé e o que simplesmente reside no campo de suas opiniões e escolhas. Na
verdade, ele será mais respeitado pelos membros de suas igrejas quando assim o fizer.

4. Manter-se apegado emocionalmente à sua igreja anterior. Assim como não é


agradável para o pastor ouvir os membros de sua congregação tecerem contínuas
comparações entre sua pessoa e o pastor predecessor, também é extremamente indelicado
para os membros da igreja ouvirem seu pastor elogiar somente a igreja anterior. A
mensagem transmitida nessas ocasiões é que ele não gostaria de estar ali e que aquelas
pessoas não são quem ele gostaria de pastorear.
Experiências agradáveis no ministério devem ser entesouradas na memória do pastor e de
sua família. Isso não significa, porém, que eles devam sempre fazer propaganda das
igrejas por onde passaram e se esquecerem de expressar sua alegria pelo novo rebanho
receberam de Deus. O pastor sábio procurará conhecer suas novas ovelhas e procurará
conhecer a dinâmica da nova igreja. Além do mais, ele procurará discernir os pontos
positivos de sua nova realidade e comunicará isso ao seu rebanho.

5.Não conseguir receber críticas e processá-las corretamente. Ninguém gosta de ser


criticado, censurado, diminuído ou ter seus defeitos apontados. Porém, a crítica é
inevitável e, portanto, devemos esperá-la, examiná-la e processá-la. As melhores censuras
vêm daqueles que nos amam, pois “melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto.
Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos”
(Pv 27.5-6). Logo, a primeira coisa a fazer ao receber uma crítica é perguntar pela
intenção do seu autor. Se a boca fala do que está cheio o coração, a crítica não revela
apenas os erros do criticado, mas também os sentimentos e os valores do crítico. Ela
evidencia se o censor é amigo amoroso ou adversário avassalador. Discernir o propósito
da crítica é fundamental para processá-la corretamente.
Outra maneira de processar a crítica é lembrar que se Cristo foi injustamente criticado e
zombado, não seria nenhuma surpresa que algo semelhante acontecesse aos seus servos.
Além do mais, Romanos 8.28-29 ensina que Deus usa todas as circunstâncias para refinar
o crente e conformá-lo à imagem de Cristo, até a censura. Portanto, a crítica, ainda que
injusta, pode ser usada por Deus para apontar algo que necessita ser mudado à fim de
parecermos mais com o Redentor.

6. Usar a ira como instrumento de expressar seu zelo pastoral. De fato, nem sempre é
fácil manter o domínio próprio diante dos desafios do ministério. A insistência de irmãos
na prática do erro que já foi abordado, o surgimento de falsos mestres difundindo heresias
entre as ovelhas, a inércia e apatia de muitos em desenvolver sua salvação e tantas outras
coisas, desafiam a paciência de qualquer líder eclesiástico zeloso. Em um sentido, a ira
em algumas dessas ocasiões é até justificada, pois o Senhor Jesus reagiu com tal zelo pela
casa de Deus que expulsou aqueles que contaminavam o templo com suas negociatas (cf.
Jo 2.15-16). Mas o ministério de Cristo não foi caracterizado pelas explosões iracundas.
É possível que alguns no ministério acabem confundindo ira com zelo santo e, por causa
disso, desejam invocar “fogo do céu” para consumir os opositores (cf. Lc 9.54). Mas
22

provavelmente, esses serão repreendidos pela palavra do Senhor que diz: “vós não sabeis
de que espírito sois” (Lc 9.55). Dessa maneira, diante da tentação de explodir em raiva
em algumas ocasiões do ministério, o pastor deve sempre considerar se sua ira é razoável
(cf. Jn 4.4). Além do mais, devemos sempre lembrar que prestaremos contas de como
tratamos nossas ovelhas ao Supremo Pastor que nos confiou o rebanho (cf. 1Pe 5.1-4).

7.Se esquecer de onde, de fato, reside sua identidade. Uma das maiores bênçãos do
Evangelho da graça está no fato de que a identidade do cristão reside em Cristo. Ou seja,
o que deveria ser mais importante para o crente é como Deus o vê em Cristo, coberto com
a justiça do Redentor, aceito pelos méritos do Salvador e co-herdeiro com o Senhor. No
entanto, nessa terra, facilmente nos esquecemos disso e depositamos nossa identidade
naquilo que as pessoas pensam de nós ou em nossas próprias realizações. Nesse contexto,
o trabalho excessivo, a busca pelo estrelato midiático, o desejo de agradar (ou não
desagradar) pessoas, se tornam tentativas de mantermos nossa identidade em segurança.
O problema, porém, é que todas as vezes que fundamentamos nossa identidade em
elementos tão vulneráveis como a opinião de pessoas ou nossos próprios feitos,
dificilmente estaremos seguros. Assim como acontece com um ioiô pendurado no dedo
do seu possuidor, nossa identidade experimentará altos e baixos dependendo de onde a
“amarramos”. Portanto, se esquecer que o fundamento da identidade do crente se encontra
na aprovação de Deus em Cristo é essencial para o ministro do evangelho continuamente
avaliado pelas pessoas ao seu redor.

8.Deixar de cuidar de si mesmo e pastorear sua família. Há vários textos nas Escrituras
recomendando que líderes eclesiásticos cuidem de si mesmos (cf. At 20.28 e 1Tm 4.16).
No entanto, devido à natureza do ministério, esses mesmos líderes se entregam para servir
outros e se esquecendo do cuidado próprio. Não é incomum encontrar pastores cansados,
emocionalmente fatigados, com dificuldades para dormir, acima do peso e com vários
problemas de saúde. Além do mais, é comum encontrar pregadores que leem a Bíblica
para seus sermões ou para ensinar outros, mas infelizmente já abandonaram a prática de
leitura devocional, para alimentar sua própria alma.

Semelhantemente, enquanto correm para cuidar da igreja, muitos pastores chegam a


deixar suas famílias em segundo plano. Nesse contexto, o culto doméstico se torna uma
raridade na família pastoral, os filhos passam a receber sermões do pai ao invés de terem
diálogos construtivos e a esposa do pastor se consome em meios às pressões domésticas
e expectativas eclesiástica. Ao final, parece que todos os membros da igreja recebem
pastoreio, menos a família do pastor. O pior de tudo, é que ao final, alguns cristãos ainda
poderão censurar a situação doméstica da família pastoral.

Concluindo, há muitos e variados erros que o obreiro local pode cometer em seu
relacionamento com a congregação. Por isso, o final do relacionamento ministerial não
pode ser tributado somente aos membros da igreja local. Algumas das falhas do pastor
podem parecer imperceptíveis, mas possuem efeito cumulativo. Dessa maneira, é
23

importante que o ministro reflita sobre sua própria responsabilidade em prol de um


relacionamento saudável com o seu rebanho.

Rev. Valdeci da Silva Santos


24

AULA 05
UM PADRÃO OBSERVADO NA QUEDA
DE PASTORES
Introdução
Atuar como Secretário Geral de Apoio Pastoral da IPB tem sido uma fonte de alegria e
contentamento, mas algumas vezes esse trabalho resulta em muita tristeza e angústia!
Talvez, nada seja mais difícil nesse sentido do que confrontar um pastor que se desviou
do caminho da santidade, ouvir uma esposa machucada pela atitude do marido e ver filhos
desacreditados por causa do exemplo do pai. Tudo isso sem falar ainda das repercussões
que a queda de um pastor traz à igreja local. De fato, Satanás parece obter enorme
vantagem quando consegue seduzir um líder do povo de Deus, a fim de desanimar o
rebanho comprado pelo sangue de Cristo!

Ao falar sobre a queda de pastores não me refiro aos “pecados corriqueiros”, pois
ninguém espera que um pastor seja imune ao pecado. Todavia, o que dizer dos “pecados
escandalosos”, que roubam a irrepreensibilidade do ministro diante do seu rebanho e da
sociedade (cf. 1Tm 3.2)? O que dizer do adultério, da desonestidade na administração,
das dívidas descontroladas, das atitudes violentas, do abuso doméstico, etc? Certamente,
é possível descrever uma enorme lista que acaba caracterizando o desvio, a queda e a
ruína de muitos pastores na igreja de Cristo.

Recentemente, li um artigo escrito por um dos alunos de Howard Hendricks, ex-professor


do Dallas Theological Seminary, que foi produzido a partir de um estudo compartilhado
pelo Dr. Hendricks sobre algumas semelhanças entre pastores que haviam fracassado
moralmente e se tornaram desqualificados para o ministério pastoral (1Co 9.27). O estudo
foi realizado com 246 ministros que, no período de dois anos, haviam sido despojados do
ministério. Despois de entrevistar cada homem, Hendricks compilou quatro
características comuns de suas vidas:
 Nenhum dos homens estava envolvido em qualquer tipo de prestação de contas à outra pessoa;
 Cada um dos homens tinha quase cessado de ter um tempo diário de oração pessoal, leitura da
Bíblia e adoração pessoal;
 Mais de 80% dos homens se tornaram sexualmente envolvidos com alguma outra mulher,
situação que muitas vezes teve origem nas sessões de aconselhamento;
 Sem exceção, cada um dos 246 estavam convencidos que aquele tipo de queda “nunca
aconteceria com ele”.
Por mais antigo e limitado que o estudo do Dr. Hendricks possa parecer, ele acaba
revelando um padrão comumente observado e testificado entre pastores que se desviam
dos caminhos da santidade.

Refletindo sobre os dados do estudo de Hendricks, um de seus alunos, Garrett Kell[1],


ressaltou algumas lições sobre a queda de alguns pastores que podem ser corretamente
25

classificadas como um padrão nessa área. Compartilho-as, abaixo, a fim de ajudar e


edificar muitos outros que ainda lutam para permanecer firmes no ministério sagrado.
1. O pecado prospera no isolamento
A verdade é que Satanás vive na escuridão e anseia por nos manter nela também. Como
o inimigo é o pai da mentira, o engano também sobrevive melhor na escuridão. É por isso
que Deus, quando nos chama, nos chama para a luz (cf. 1Ts 5.4-5)! Nesse contexto, ele
nos coloca na igreja, que é o Corpo de Cristo.

Deus criou a igreja para ser muitas coisas, incluindo uma comunidade onde as pessoas se
ajudam mutuamente a lutar contra o pecado e a amar melhor o Redentor. Deus nos chama
a relacionamentos nos quais podemos falar a verdade uns aos outros (Efésios 4.15, 25),
confessarmos nossos pecados uns aos outros (Tiago 5:16) e a amar o suficiente àquele
que se desvia (cf. Mateus 18.10-20; Gálatas 6.1-2; Tiago 5: 19-20). Em outras palavras,
a igreja é uma comunidade onde podemos prestar contas uns aos outros e isso é uma
bênção na nossa caminhada com Cristo.

Por isso, pergunto: quem, de fato, é seu amigo? A quem você regularmente presta contas
e compartilha os segredos e angústias da alma? Quem não só tem permissão, mas
atualmente está agindo com essa permissão, para lhe fazer perguntas diretas e penetrantes
sobre o seu andar com Cristo? Em outras palavras, quanto mais você se isolar, mas
vulnerável se torna aos ataques de Satanás e mais tempo pode permanecer cativo das
trevas do prazer pecaminoso.

2. Se você flertar com o pecado, você acabará cedendo a ele


Aqui está uma observação simples: a inclinação do pecado é escorregadia! Quanto mais
você caminhar ao longo da borda do abismo, mais provável será que o seu pé escorregue.
O problema é que ministros da Palavra, mesmo sabendo disso, se colocam em situações
perigosas inúmeras vezes. Eles geralmente ignoraram que o homem íntegro e reto não
apenas teme ao Senhor, mas também foge do mal (Jó 1.1).

Quando alguém cai em pecado, isso é uma prova de que aquela pessoa não guardava o
seu coração (Provérbios 4.23). No caso de líderes, eles também não guardavam o coração
das pessoas que deveriam proteger. Em vez disso, eles se tornaram cegos pelo engano do
pecado (Efésios 4.22; Hebreus 3.13) e foram levados para o fosso da destruição (Mateus
15.14).

Por isso, pergunto: De que maneira você está flertando com o pecado? Que provisões
você está fazendo para a carne em relação à luxúria (Romanos 13.14)? Que detalhes você
está escondendo? Quais os e-mails que você está excluindo? Quais históricos de busca na
Internet você está apagando?

É possível que o pecado esteja agachado em sua porta (Gênesis 4.7) e o tentador
procurando uma oportunidade para atacar (1Pedro 5. 8). Dessa forma, fuja do pecado;
26

não flerte com ele (Gênesis 39.6-12; Provérbios 5-7, Romanos 6.12-13; 2 Timóteo 2.22
e 1 Pedro 2:11).

3. O orgulho nos cega quanto à nossa própria fraqueza


No estudo do Dr. Hendricks, muitos pensaram que nunca seriam vulneráveis aos pecados
escandalosos, até que eles lamentassem seus efeitos mais tarde. O fato é que as Escrituras
advertem: “aquele que pensa estar em pé veja que não caia” (1Coríntios 10.12). Além do
mais, Salomão ensina que a impressão de bem-estar acaba levando os loucos à perdição
(Provérbios 1.32).

Além do mais, se considerarmos alguns personagens da Bíblia ficaremos admirados com


a pecaminosidade do pecado. Por exemplo, Sansão foi o homem mais forte da Bíblia,
Salomão, o homem mais sábio da Bíblia e Davi, o homem segundo o próprio coração de
Deus. Todavia, todos foram superados pela tentação do pecado sexual (Juízes 14-16;
1Reis 11.1-8; 2Samuel 11-12 e Salmo 51). De fato, ninguém está acima da tentação!

O escritor de Provérbios observou que “a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito,


a queda” (Provérbios 16.18). Aquele que não considera suas próprias fraquezas acaba se
achando invulnerável ao pecado e não faz quaisquer provisões contra a tentação. O
problema é que isso já é, em si, um trunfo do tentador.

4. A pureza é cultivada como expressão do amor a Jesus


Em algum lugar ao longo da caminhada, aqueles pastores do estudo de Hendricks
negligenciaram a disciplina da devoção e dedicação a Cristo. As orações se tornaram
menos apaixonadas. O estudo bíblico passou a ser um exercício profissional. As
promessas da Palavra de Deus cresceram empoeiradas. O amor por Jesus se tornou uma
experiência passada, algo a ser lembrado e não vivido. Como resultado, a sedução do
pecado e a loucura em sacrificar o ministério para satisfazer desejos íntimos se tornou
demasiadamente forte para serem resistidos.

A verdade é que a única motivação suficientemente resistente para se fugir do pecado é o


amor e a gratidão por Jesus. Qualquer ordenança humana e determinação pessoal em
obedecer às regras legalistas não têm valor algum contra a sensualidade (Colossenses
2.20-23). Somente quando somos constrangidos intimamente pelo amor de Cristo, nos
consagramos livremente a ele e temos na comunhão com ele o prazer da sua aprovação.

Por isso, insisto: não permita que seu coração fique gelado em relação ao Senhor. Busque-
o diariamente, momento após momento, sabendo que ele é melhor do que qualquer prazer
fugaz que possa atrair seu coração. Não busque o Senhor apenas em dias de desespero,
mas diariamente e sistematicamente. Não despreze sua devocional individual, sua leitura
bíblica, seus momentos de derramar o coração diante do Senhor. Lembre-se de que
comunhão é algo a ser cultivado e o mesmo acontece em nosso relacionamento com o
Redentor.
27

Finalmente, é importante saber que o padrão de queda acima exposto não se aplica
somente a pastores, mas também aos presbíteros, diáconos, pedreiros, encanadores, mães,
jovens e assim por diante. Na verdade, o pecado não faz acepção de pessoas e se o inimigo
percebe que uma estratégia foi bem-sucedida com alguém, ele logo tentará estender o seu
experimento a outros. Por isso, embora esse artigo se dirija a pastores, os princípios aqui
deveriam ser observados por todos os crentes em Cristo.

Rev. Valdeci da Silva Santos

[1] Disponível em: http://garrettkell.com/pattern-among-fallen-pastors-lessons-


us/ Acesso em: 02.07.2017.
28

Aula 06

APRENDENDO A LIDAR COM O CONFLITO

Texto básico: Romanos 12.18


Introdução
Os conflitos entre pessoas são inevitáveis. Eles fazem parte das relações humanas - nos
relacionamentos na igreja, no relacionamento conjugal, no relacionamento no trabalho, entre
familiares, entre amigos e assim por diante. A própria Escritura traz relatos e diversas histórias
contendo conflitos, discórdias, iras. Como exemplo, em Tito 3.3 o apóstolo Paulo diz que uma
das marcas do homem pecador é que eles vivem “em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns
aos outros”. Em Fl 4.2, Paulo aconselha a duas irmãs a encerrarem suas discórdias: “Rogo a
Evódia e a Síntique pensem concordemente no Senhor”. Quer queiramos quer não, os conflitos
fazem parte do nosso dia-a-dia e, por isso mesmo, é importante que aprendamos a lidar com eles.
Mas como podemos definir o conflito?
De acordo com Ernst Jansen, “um conflito é uma disputa que surge sempre que as ações de uma
pessoa interferem nos objetivos de outra. Isso implica ainda em que, se uma parte alcança seu
objetivo, é impossível à outra alcançar o seu”.1 De forma semelhante, para Alfred Poirier, “o
conflito acontece quando meus desejos ou temores, minhas expectativas ou metas entram em rota
de colisão com os desejos, temores, expectativas ou metas de outra pessoa”.2

VANTAGENS DO CONFLITO
Antes de mais nada, precisamos reconhecer que nem sempre o conflito deve ser encarado como
algo ruim. Podemos vê-lo também como um instrumento útil para a nossa vida cristã. A
incapacidade de se resolver o conflito geralmente acontece porque não o aceitamos. Podemos
errar se pensarmos que pelo fato de amar uns aos outros, não podemos ter nossas diferenças. O
conflito não é apenas inevitável, até certo ponto, ele tem suas vantagens.
Vejamos algumas:

1ª.) O conflito revela que há um relacionamento em funcionamento. A intimidade faz as


nossas diferenças parecerem maiores e aumenta a nossa dissensão. Afastamento de
conflitos é essencialmente afastamento de relacionamentos.

1
JANSEN, Ernst Werner. Conflitos: oportunidade ou perigo? A arte de transformar conflitos em
relacionamentos sadios. Editora Esperança. 2007. p. 13,14
2
POIRIER, Alfred. O Pastor Pacificador – um guia bíblico para a solução de conflitos na igreja. Editora
Vida Nova. 2011. p. 31
29

2ª.) O conflito gera oportunidade para servir ao próximo: podemos, através de um


conflito, ajudar alguém a superar suas dificuldades. É uma oportunidade de amar o
próximo.
3ª.) O conflito ajuda a refinar nosso caráter: Alguém já disse que as pessoas com quem
diferimos tornam-se a “lixa de Deus” para alisar as arestas agudas de nossa liderança.
4ª.) O conflito gera a oportunidade para glorificar a Deus: podemos honrar a Deus
imitando-o em uma situação de conflito. Podemos expressar seu caráter, revelando
paciência, amor, longanimidade, humildade, etc.

Mas por que as pessoas têm tanta dificuldade em se entenderem? Por que surgem os conflitos?

ORIGEM E AS CAUSAS DO CONFLITO


Os conflitos interpessoais se manifestam por diversas razões, mas na essência eles revelam a
presença de um aspecto muito comum e bem antigo na história humana - o egoísmo (Fl 2.3).
Tiago pergunta: “de onde procedem guerras e contendas, que há entre vós? De onde, se não dos
prazeres que militam na vossa carne? ” (Tiago 4.1).
Tiago ensina que a raiz dos conflitos está na necessidade de ser notado, de fazer a própria vontade.
Somos egoístas e não queremos ceder. Estamos sempre lutando para satisfazer aos nossos desejos.
Trata-se de um desejo de buscar a autossatisfação custe o que custar.
O coração do conflito
De acordo com Tiago, os conflitos não têm seu início nas situações e sim nas pessoas. São as
pessoas que provocam situações e causam divisões. A boca fala o que já está no coração, o que
contamina o homem não é o que entra e sim o que sai do homem (Mt 15.18,19). A falta de
paciência e amor levam as pessoas a brigarem, dividirem e não conviverem em harmonia.
Mas além desta causa original, podemos pensar em outras quatro razões da presença dos conflitos,
como desdobramentos do egoísmo:
1. Nossos prazeres: Quando lemos a lista das “obras da carne” em Gálatas 5.19-21
constatamos que grande parte dos itens ali presentes dizem respeito aos
problemas de relacionamentos: “inimizades, porfias, ciúmes, dissensões, invejas,
ciúmes, discórdias”.
2. Ressentimento: uma atitude amarga que não consegue perdoar ou tratar de
questões ainda pendentes e mal resolvidas. (Rm 1.29-31; Ef 4.32)
3. Incompreensão ou falha na comunicação: uma das partes pode desconhecer
aquilo que a outra quer dizer e surgir daí a falta de compreensão da outra parte.
(2 Tm 3.2-4; 11,12)
4. Diferenças individuais: Essas diferenças podem estar presentes nos valores,
crenças, atitudes, sexo, idades e experiências. Fazendo com que as várias
situações sejam analisadas de múltiplas maneiras, pelos vários sujeitos, dando
inevitavelmente a situações de divergência de pontos de vista. (Fl 2.2,3)
5. Nosso desejo de exigir: Quando não se consegue o que deseja, a tendência é
começar a exigir. Tiago 4.2 afirma: “Cobiçais e nada conseguis. Matais e
invejais, e não podeis obter, brigais e fazei guerras”
30

Se o conflito é inevitável, a pergunta mais importante agora não é como evitar o conflito, mas é
como lidar com ele de modo que agrade a Deus. Nem sempre podemos escolher se vamos ou não
ter que enfrentar um conflito. No entanto, devemos saber como lidar com ele. Gostaria de sugerir
algumas dicas que podem ser muito úteis.

MANEIRAS BÍBLICAS DE LIDAR COM O CONFLITO


Devemos admitir que nem sempre é possível resolver uma situação conflituosa. No entanto, em
Romanos 12.18, o apóstolo nos orienta: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com
todos os homens”. A expressão “se possível, quanto depender de vós” dá a entender que nem
sempre depende de nós, mas que, quando depender, devemos nos esforçar para viver em paz com
todos os homens.
Então vejamos algumas dicas práticas que podem nos ajudar na solução de conflitos:

1. Tenha por objetivo encontrar a verdade, não ganhar uma discussão.

Nossa primeira reação, e quase instintivamente, é responder defensivamente quando ameaçados


ou confrontados. Esta é sempre a pior resposta. Num conflito, devemos ter como objetivo
encontrar a verdade para solucionar o conflito. Nossa motivação deve ser resolver o problema, e
não ganhar uma discussão.
Precisamos olhar por baixo da superfície e ver além da “ponta do iceberg”. Devemos nos esforçar
para identificar o mais claro possível a real fonte de conflito; isso porque há casos em que o
problema que estamos tratando ou atacando é apenas a ponta do iceberg. Existe algo mais
profundo e antigo que está escondido. Numa situação de conflito é sempre mais fácil criticar,
acusar, julgar e condenar o outro lado. (Mt 7.1-2 e Rm 2.1).

2. Aprenda a assumir sua parcela de responsabilidade no problema. (Mt 7:1-5; Lc 6:42)

Para isso precisamos ser humildes e admitir que o erro pode estar em nós mesmos e não no outro.
Devemos perguntar a nós mesmos: “O que há a meu respeito que está causando esta discórdia”.
Para tomar esta atitude precisamos estar prontos a confessar nosso pecado de egoísmo, ira, inveja,
soberba, autocomiseração, hipocrisia, etc.
Numa crise de relacionamento, costumamos pensar que as coisas só serão resolvidas quando o
outro mudar seu modo de ser. Raramente pensamos que nós também precisamos mudar. Isso me
faz recordar a história de um pai que orava constantemente dizendo: “Deus, muda o coração do
meu filho”. Até que um dia, ele passou a orar: “Deus, muda o coração do pai do meu filho”.
Colocar a culpa sobre os outros é um dos grandes obstáculos à verdadeira solução dos conflitos.
(Lc 6:42). Resistindo a ideia de jogar a culpa no outro, tiramos de foco das pessoas, e buscamos
encontrar a verdadeira razão ou raiz do conflito. Jesus disse que temos que “tirar a trave do nosso
olho, a fim de enxergarmos melhor para tirar o cisco no olho do outro”. Mt 7.3-5
31

3. Procure compreender a outra pessoa. (Hb. 4:15,16)

Eis uma terceira dica. Você precisa se esforçar para compreender o ponto de vista de outra pessoa.
Talvez este seja um passo muito difícil a ser dado, mas ele é muito importante. Caso contrário, o
conflito não poderá ser solucionado. E para compreender o outro, quatro aspectos merecem nossa
atenção:
1) Desejo sincero de compreender. Nunca conseguiremos resolver conflitos
sem “entrar na pele” da outra pessoa. Nossa tendência natural é ver a
situação somente da nossa perspectiva. Precisamos ver as circunstâncias
do ponto de vista da outra pessoa. (Hb 4:15,16).
2) Saber ouvir. Pv 18:13. Um erro que comumente cometemos é que
enquanto uma pessoa fala expondo seu ponto de vista, estamos
formulando mentalmente um ataque ou defesa. Um passo fundamental
para entender o outro e lidar com o conflito é saber ouvir. No processo
de escutar é importante entender os fatos concretos, porém, os aspectos
emocionais, subjetivos não deverão ser desconsiderados.
3) Respeitar a opinião do outro. Compreender não significa que você está
concordando com a outra pessoa, mas a respeita por pensar diferente de
você.
4) Não condene ou julgue. “É preciso resistir à tentação de colocar a culpa
nos outros, de acusar a outra parte, ou de levantar problemas que não
pertencem àquele fórum de discussão.

4. Disponha-se a perdoar. Uma terceira dica na solução de conflitos é tratar com nossos
ressentimentos. A nossa responsabilidade é conceder perdão aos outros assim como Deus
nos perdoou (Ef 4:32), o que envolve não guardar o pecado ou erro da outra pessoa para
depois “jogar na cara” ou usá-lo contra ela. Devemos entregar a ofensa e o ofensor ao
Senhor; pois Ele é o justo juiz (Mt 16:27; II Tm 4:8).

Além de ajudar na solução do conflito, precisamos entender que a atitude de não perdoar prejudica
a nós mesmos. Quando estamos magoados com alguém, é como se estivéssemos presos numa
cadeia.
Ausência de perdão gera tormentos na vida daquele que não quer perdoar. Quem não perdoa está
envenenando seu próprio coração, “destrói a ponte que ele mesmo há de atravessar um dia”.
A primeira pessoa a se beneficiar com o perdão é sempre quem o oferece. Manter a mágoa no
coração é como segurar uma brasa na mão. O estrago pode ser grande.
5. Busque ajuda de um conselheiro. Pv 11.14; 15.22

“Na multidão de conselheiros há segurança" (PV.11.14). Em Mt 5.9, Jesus diz que “bem-
aventurados são os pacificadores”.
O conselheiro ou o pacificador é um cristão maduro que procurará agir como um mediador entre
as partes conflituosas. Ele deve adotar uma atitude neutra e imparcial. Sua principal função é
ouvir as partes e juntos buscarem descobrir as reais causas ou fontes do conflito, procurando os
meios de conciliação.
32

Termino com uma citação de David Powlison,


“Contender é uma característica fundamental dos pecadores. Reflete a
imagem de Satanás: mentiroso, assassino, causador de divisões, agressor.
Promover a paz diz respeito a Deus, em Cristo, e àqueles que estão sendo
renovados à Sua imagem.”3

Conclusão e aplicação
Chegamos ao final de nossa aula de hoje. É bem provável que enquanto a aula foi transcorrendo
você fez uma avaliação sobre como anda os seus relacionamentos. Talvez tenha chegado à
conclusão que existiu ou existe alguém com quem precisa se reconciliar. A título de aplicação,
seguem algumas perguntas para nossa reflexão e ação:

1) Existe hoje em seu círculo de relacionamento alguma pessoa com quem você está tendo
conflito? Quem?
2) Você sabe qual a razão ou os motivos que geraram esta dificuldade de relacionamento?
3) Você consegue identificar algo que você fez ou deixou de fazer que contribuísse para o
desgaste neste relacionamento?
4) Como você tem procurado lidar com este conflito? Sobrepujando, “apaziguando”, evitando,
sentindo-se injustiçado, ou envidando esforços para sua solução?
5) Você sente-se em paz quando tem que se relacionar com esta pessoa?
6) Diante deste artigo, você consegue perceber qual a vontade de Deus para a restauração deste
relacionamento? O que você pretende fazer?

3
POWLISON, Como alcançar o coração do conflito. Coletâneas de aconselhamento bíblico, Atibaia, SBPV,
v.5, p. 100-117, 2006. p.100
33

Aula 07

A Esposa do Pastor e a Solidão Ministerial

Normalmente se reconhece que o pastor é uma pessoa solitária. As


inúmeras atividades da igreja local dificultam o cultivo de amizades
próximas com outros ministros que também se encontram focalizados
em seus afazeres. Também, no geral, quando suas ovelhas se
aproximam dele é com o propósito de apresentar alguma necessidade,
dilema ou assunto a ser decidido. O pastor, na maior parte do tempo,
se vê como um “resolvedor de problemas” e nem sempre tem alguém
para compartilhar sua própria dor ou dilemas. Tudo isso contribui para
que ele se sinta solitário.

Todavia, poucos atentam para o fato de que ao lado do pastor existe


alguém mais solitário do que ele: a sua esposa! O próprio fato de ela
ser identificada apenas como a “esposa do pastor” demonstra que
alguns nem se lembram do seu nome e, provavelmente, desconhecem
sua história, sua habilidades, temores e sonhos. Além do mais, se o
pastor é procurado para ajudar pessoas com os seus problemas, sua
esposa, na maioria das vezes, nem para isso é procurada. De fato, a
esposa do pastor provavelmente é a ovelha mais solitária no rebanho.

Talvez essa seja uma das razões porque o ministério da esposa do


pastor tem sido definido como “o trabalho mais difícil do planeta”.[1] O
irônico é que quando se ingressaram nesse ministério, algumas não
tinham a mínima noção das dificuldades envolvidas. Muitas pensaram
que estavam apenas realizando o sonho do casamento. Todavia, além
do casamento, também estavam se alistando para uma vida repleta de
fatores que contribuiriam para sua solidão. Esse é um assunto que não
é muito discutido ou divulgado. Afinal, a esposa ainda fica temerosa de
atrapalhar o ministério do marido se as pessoas tomarem
conhecimento disso e outras até se culpam por se sentirem assim. Se
o marido está fazendo a “obra do Senhor”, por que elas deveriam
deixar que isso se torne um empecilho?

Pouca atenção havia sido dada a esse fenômeno até que, mais
recentemente, Thom Rainer, pesquisador batista, passou a arquivar e
organizar por temas, testemunhos de algumas esposas de pastores[2].
Além de serem solidárias com as pesquisas, as esposas de pastores
foram muito transparentes quanto ao que contribuía para seu
sentimento de solidão no ministério. Embora a pesquisa originalmente
tenha sido conduzida no contexto americano, os resultados são
elucidativos para a realidade brasileira. Dessa maneira, passo a
ressaltar dez razões mais comuns, das doze apresentadas por Rainer,
que mais refletem a realidade brasileira e explicam algumas causas da
34

solidão das esposas dos pastores. Para tanto, serão utilizadas as frases
de algumas das entrevistadas, pois elas parecem ser representativas
da maioria.

1. Relações superficiais na igreja. “Ninguém nunca me vê como minha


própria pessoa. Eu sou apenas a esposa do pastor. Talvez por isso,
ninguém tenta se aproximar de mim”.
2. Um pastor/marido extremamente ocupado. “Meu marido está sempre
ligado 24 horas por dia. Ele não tem tempo nem para tomar o café-da-
manhã comigo. Geralmente só recebo as sobras do que ele gasta com
a igreja”.
3. Membros maldosos na igreja. “Acho que até me isolei um pouco, pois
não quero continuar ouvindo as coisas horríveis que dizem sobre meu
marido. Eu conheço a dedicação dele, mas algumas pessoas, por não
gostarem do estilo do trabalho dele, acabam me usando para ofendê-
lo”.
4. Serem usadas como um canal para reclamações para chamar a atenção
do pastor. “Na semana passada, alguém me disse que sua família
estava deixando a igreja porque meu marido é um péssimo pregador.
Outra família me disse que o pastor anterior é que sabia, de fato,
pastorear. Essas pessoas parecem não ter a mínima ideia de como isso
me faz sentir!”
5. Confiança quebrada. “Eu desisti de tentar me aproximar dos membros
da igreja. Eu pensei que tinha uma amiga próxima até descobrir que
ela estava compartilhando tudo o que eu dizia com outras pessoas da
igreja. Isso me inibiu emocionalmente”.
6. Mudanças frequentes. “Tenho medo de me aproximar de alguém
agora. Toda vez que desenvolvo um relacionamento mais profundo
com alguém, nossa família muda para outro campo”.
7. Nenhuma noite a sós com o marido. “Não me lembro da última vez em
que meu marido e eu tivemos uma noite juntos. Há programação na
igreja todas as noites e se ele está ausente, as reclamações no
domingo são insuportáveis”.
8. Comentários negativos sobre os filhos. “Eu realmente não tento mais
me aproximar dos membros da igreja. Estou cansada de como eles
dizem que eu devo criar meus filhos. Parece que todos têm filhos
perfeitos, menos eu. Todavia, eu sei como o meu marido tenta ajudar
alguns deles porque não sabem mais o que fazer com seus filhos”.
9. O marido não dá prioridade à esposa. “Francamente, a igreja parece
ser a amante do meu marido. Eu me sinto trocada por outra pessoa;
nesse caso, por muitas outras pessoas. Acho até irônico que ele diga
que a igreja é a ‘noiva do Cordeiro’, pois nesse caso, ele parece em
adultério com aquela que também pertence a outro”.
10. Dificuldades financeiras. “Meu marido ganha muito menos dinheiro do
que a maioria dos membros da igreja. Eu simplesmente não posso me
35

dar ao luxo de ter a vida social que eles têm. Nem roupa para isso eu
possuo. Assim, melhor me afastar”.

É importante que se deixe claro que as esposas de pastores não olham


apenas para o “lado negro” do ministério pastoral. Elas geralmente
reconhecem as bênçãos e alegrias no desempenho do seu papel ao
lado do esposo. Todavia, não se pode ignorar que algumas delas
sofrem com solidão severa. Os testemunhos registrados acima
descortinam uma realidade ignorada por muitos membros da igreja.
Isso deveria motivar os cristãos a intercederem mais pela esposa do
seu pastor, bem como a tratá-la com maior amabilidade e amor cristão.
Também, deveria levar o marido pastor a expressar melhor cuidado
pela sua esposa e organizar sua agenda de tal maneira que ela seja
parte importante do seu dia-a-dia. Afinal, a exortação do apóstolo
Paulo permanece: “Quem ama a esposa a si mesmo se ama” (Ef 5.28).

- Valdeci Santos

[1] WELCH, Ed. A pastor’s wife: The toughest job on the planet.
Disponível em:https://www.ccef.org/pastor-s-wife-toughest-job-
planet/. Acesso em: 03.03.2013; CULLEN, Lisa Takeuchi. Think Your
Job Is Tough? Try Being a Pastor’s Wife. TIME Magazine. Disponível
em:http://business.time.com/2007/03/29/think_your_job_is_tough_t
ry_be/. Acesso em: 29.04.2019.

[2] Rainer, Thom. Twelve reasons pastor’s wives are lonely. Disponível
em:https://thomrainer.com/2014/02/12-reasons-pastors-wives-are-
lonely/. Acesso em: 29.04.2019.
36

Aula 08
Preparando Sermões
NOTA: Este esboço foi condensado a partir de John R. W. Stott, Entre Dois Mundos
(Grand Rapids: Eerdmans Publishing Co., 1982), pp. 211-216.

Por John Stott

I. Escolha seu texto

A. É melhor confiar em estudos expositivos do livro para a sólida dieta de seu


povo, porque isto assegurará de que eles receberão "todo o conselho de Deus".

B. Contudo, o seguinte pode ser ocasiões para sermões especiais:

1. Ocasiões especiais do calendário: Natal, Páscoa, etc.


2. Circunstâncias externas especiais que estão na mente pública.
3. Necessidades especiais discernidas pelo pregador ou por outros.
4. Verdades que têm especialmente inspirado o pregador.

C. Mantenha um caderno para escrever idéias para sermões, percepções,


apreensões, ilustrações, etc. Registre-os imediatamente sempre que eles
vieram à mente, porque você geralmente esquecê-los-á mais tarde.

II. Medite sobre o texto

A. Sempre que possível, planeje os textos semanas ou meses antecipadamente.


Isto dá o benefício da "incubação subconsciente".

B. A "incubação" concentrada deve iniciar pelo menos uma semana antes da


pregação. Deve envolver o seguinte:

1. Ler, re-ler, e re-re-ler o texto.


2. Estar certo de que você compreende o que ele significa. Faça o seu próprio
trabalho interpretativo. Não use comentários até que você tenha formulado as
questões interpretativas específicas que você foi incapaz de responder, ou até
que você tenha completado seu trabalho interpretativo.
3. Considere detenidamente como ele se aplica ao seu povo, à cultura, a você,
etc.
4. Ore a Deus para iluminar o texto, especialmente sua aplicação.
5. Escreva notas de pensamentos, idéias, etc.
6. Solicite as percepções de outros através de fitas, conversando com outros
pregadores, etc.
37

III. Isole o pensamento dominante

(Este é o propósito da seção II.)

A. Seu sermão deve transmitir somente uma mensagem principal. Todos os


detalhes de seu sermão devem ser organizados para ajudar seu povo a captar
esta mensagem e sentir seu poder.

B. Você deve ser capaz de expressar o pensamento dominante em uma curta,


clara e vívida sentença.

IV. Arranje seu material para servir ao pensamento dominante

A. Esculpa e modele seu material. Descarte implacavelmente todo material que


é irrelevante para o pensamento dominante. Subordine o material restante ao
pensamento dominante usando este material para iluminar e reforçar o
pensamento dominante.

B. A estrutura de seu sermão deve ser adaptada ao texto, não artificialmente


imposta. Evite a estrutura que é muito destra, proeminente ou complexa.

C. Decida sobre seu método de pregação para este texto: argumentação,


facetação, categorização, analogia, etc.

D. Escolha cuidadosamente palavras que sejam precisas, simples, claras,


vívidas e honestas. Escreva as seções chaves, frases e sentenças para ajudá-lo
em sua escolha da palavra. Prenda-se às sentenças declarativas e interrogativas
com poucas, se alguma, cláusulas subordinadas.

E. Sugira ilustrações e exemplos que explanem e convençam. Empregue uma


larga variedade: figuras de linguagem, imagens, recontando histórias bíblicas
em linguagem contemporânea, inventando novas parábolas, recontando
histórias verdadeiras e/ou eventos biográficos, etc. Mantenha um fichário
destes, especialmente se eles não lhe vêem facilmente. Evite fazer ilustrações e
exemplos tão proeminentes que eles diminuam o pensamento dominante.
Também, evite aplicá-los inapropriadamente ou exageradamente.

V. Adicione a introdução e conclusão

A. A introdução não deve ser elaborada, mas suficiente para estimular sua
curiosidade, para molhar seus apetites e para introduzir o pensamento
dominante. Isto pode ser feito por uma variedade de meios: explanando o
cenário da passagem, história, o evento ou assunto atual, etc.

B. A conclusão não deve ser meramente recapitular seu sermão - ela deve
aplicá-lo. Obviamente, você deve aplicá-lo durante todo o tempo, mas você
deve guardar algo para o fim que persuadirá seu povo a fazer algo. "Nenhuma
intimação, nenhum sermão". Pregue tanto para a cabeça como para o coração
38

(isto é, vontade). O objetivo do sermão deve ser "atacar a fortificação da


vontade e capturá-la para Jesus Cristo". O que você quer que eles façam?
Empregue uma variedade de métodos para fazer isto:

1. Argumento: antecipe objeções e refute-as.


2. Admoestação: advirta das conseqüências da desobediência.
3. Convicção Indireta: desperte a indignação moral e então a volte para eles (Natã e
Davi).
4. Imploração: aplique as gentis pressões do amor de Deus, o interesse pelo seu bem
estar e as necessidades de outros.
5. Visão: pinte uma figura do que é possível através da obediência a Deus nesta área.

VI. Escreva sua mensagem e ore por ela

A. Escrever seu sermão lhe força a pensar francamente e suficientemente.


Expõe o pensar preguiçoso e o cura. Depois que você estiver perfeitamente
familiarizado com seu esboço, reduza-o a pequenas notas.

B. Ore a Deus para lhe capacitar para "tanto possuir a mensagem, que a
mensagem o possua".
39

Aula 09
O que é um sermão expositivo?
A pregação expositiva não é só um estilo de sermão, mas refere-se
essencialmente ao conteúdo. “A pregação expositiva, em sua essência, é mais
uma filosofia do que um método”. Como alguns teólogos e pregadores, podemos
afirmar que estamos na pista errada se pensarmos na pregação expositiva
simplesmente como um estilo escolhido de uma lista (tópico, devocional,
evangelístico, textual, apologético, profético ou expositivo).

Definição do sermão expositivo

Pregação expositiva é pregar a Palavra de Deus, não sobre a Palavra de Deus.


O texto da Escritura é a fonte da mensagem e a autoridade do mensageiro. O
texto dirige o sermão. O foco, o conteúdo, as idéias, as divisões e a aplicação do
sermão devem ser centrados na passagem bíblica, não nos critérios, nos
pensamentos e nas opiniões dos pregadores ou teólogos. Pregação expositiva
é pregação centrada na Bíblia. “A tarefa do pregador é ajustar seus pensamentos
à idéia real da Escritura. O tema da Escritura torna-se o tema do sermão”.

John H. Leith, ao escrever sobre João Calvino, diz que ele compreendia a
pregação como a explicação da Escritura. ”O sentido da passagem é a
mensagem do sermão. O texto governa o pregador.” A passagem em si é a voz,
o discurso de Deus; o pregador a boca e os lábios, e a congregação, […] o ouvido
em que a voz soa”.

Stephen Olford, um expositor destacado, dá a sua interpretação:


Pregação exposítiva é a explicação e a proclamação do texto da Palavra
de Deus, capacitadas pelo Espírito e com a devida consideração pela
importância histórica, contextual gramatical e doutrinária da passagem
dada, com o objetivo específico de provocar uma reaçao transformadora.

A pregação expositiva não é simplesmente um comentário corrente sobre uma


passagem da Escritura. Nem é uma sucessão de estudos de palavras ligados
frouxamente por algumas ilustrações. Do mesmo modo, tampouco é uma
simples exposição, quanto ao sentido, de um versículo, de uma passagem ou de
40

um parágrafo. Alguns crêem que pregação expositiva é fazer alguns comentários


baseados em uma longa passagem bíblica. Outros definem pregação expositiva
como fazer um sermão sobre uma passagem blblica de muitos versículos. O
sermão deve fazer a conexão entre o texto antigo e os ouvintes contemporâneos.

Alguns consideram o sermão expositivo como o recapitular sem vida, sem


sentido, sem objetivo de uma história bíblica. Lembro-me ainda de um homem
excelente que fez um sermão assim sobre João 10. Ele nos deu todos os
detalhes a respeito do aprisco. Recebemos uma explicação completa quanto às
características das ovelhas. Fomos informados sobre os métodos de um pastor
oriental. Quando a mensagem terminou estávamos ainda nos campos de
pastoreio de lsrael. Não aprendemos absolutamente nada sobre o que João 10
tinha a dizer às necessidades de nossas vidas hoje. lsto não épregação
expositiva.

A pregação expositiva tem como objetivo tornar a Blblia útil e informativa.

Existem ainda outros conceitos sobre a pregação expositiva. Andrew Blackwood,


por exemplo, acredita que o sermão expositivo é diferente do textual,
principalmente no que se refere ao tamanho da passagem bíblica. ”O sermão
expositivo baseia-se em uma passagem bíblica mais longa do que dois ou três
versículos consecutivos”.

Muitos pregadores usaram a pregação expositiva como relatório completo de


todos os comentários que tiveram oportunidade de ler sobre uma determinada
passagem da Escritura. Assim, a pregação expositiva perde a credíbilidade em
muitos lugares, não porque o método seja fraco, mas por ser usado da maneira
errada.

Jerry Vines interpreta:


Nenhuma dessas definições transmite na verdade o sentido do método
expositivo. O sermão expositivo não é determinado simplesmente pelo tamanho
da passagem considerada. O sermão é expositivo de acordo com a maneira pela
qual a passagem é tratada. Este é o sentido vital da exposição: um sermão
expositivo esclarece o que a passagem bíblica diz e dá uma boa aplicação para a
vida dos ouvintes. Pregação expositiva não é simplesmente pregar sobre a Bíblia,
mas, sim, pregar o que a Bíblia diz.
41

Para que o sermão seja expositívo, o seguinte deve ocorrer:

1. O sermão precisa ser baseado em uma passagem da Bíblia;


2. O sentido real da passagem bíblica deve ser encontrado;
3. O sentido da passagem bíblica deve estar relacionado com o contexto imediato
e geral da passagem;
4. As verdades eternas contidas na passagem devem ser esclarecidas;
5. Essas verdades devem agrupar-se em volta de um tema instigante;
6. Os pontos principais do sermão devem ser extraídos dos versículos da Escritura;
7. Devem ser utilizados todos os métodos que tornem possível aplicar as verdades
contidas no versículo;
8. Os ouvintes serão chamados a obedecer a essas verdades e aplicá-las na vida
diária.

Em suma, Jerry Vines dá sua definição formal de um sermão expositivo:


O sermão expositivo é aquele que explica uma passagem da Escritura, organiza-a ao
redor de um tema central e pontos principais e, em seguida, aplica decidídamente a sua
mensagem aos ouvintes.

Alguns elementos são indispensáveis para identificar a pregação expositiva:

1. a mensagem busca na Escritura a sua única fonte;


2. a mensagem é extraída da Escritura mediante cuidadosa exegese;
3. a preparação da mensagem interpreta Corretamente a Escritura em seu sentido
e contexto originais;
4. a mensagem explica claramente o sentido original da Escritura pretendido por
Deus;
5. a mensagem aplica o sentido da Escritura para hoje.

G. Campbell Morgan diz: ”Ao verificar que o nosso texto está na Bíblia,
avançamos para descobrir seu real sentido e, depois, para elaborar a sua
mensagem. O texto tem postulados, implicações, deduções e aplicações”. “Ao
pregar, a exposição é a interpretação detalhada, amplificação lógica e aplicação
prátíca da Escritura”.

Donald Miller dá uma definição útil:


A pregação expositiva é um ato em que a verdade viva de alguma parte da Escritura
Sagrada, compreendida à luz de estudo exegético e históríco sólido, transformada em
uma realidade viva para o pregador pelo Espírito Santo – passa a ter vida para o ouvinte
quando confrontado por Deus em Cristo mediante o Espírito Santo em juízo e redenção.
42

Haddon Robison dá uma das definições mais completas da pregação expositiva.


Ele escreve:

A pregação expositiva é a comunicação de um conceito bíblico,


extraído e transmitido mediante estudo histórico, gramatical e
literário de uma passagem em seu contexto, a qual o
Espírito Santo primeiro aplica à personalidade e experiência do
pregador e depois, através dele, aos seus ouvintes.
Essa definição destaca cinco princípios.

I. A mensagem do sermão expositivo

A passagem governa o sermão, o pensamento do escritor bíblico determína a


substância do sermão expositivo.

II. O conceito

O exposítor comunica um conceito em nossa abordagem da Blblia, não estamos


principalmente interessados no que as palavras individuais significam, mas no
que o escritor bíblico quer dizer com elas.

III. A explicação

Os conceitos são extraídos do texto em seu estudo, o exposítor pesquisa o


sentido objetivo de uma passagem mediante o entendimento da linguagem, o
pano de fundo e cenário do texto; a autoridade subjacente à pregação não reside
no pregador, mas no texto bíblico. Por essa razão o exposítor trata, em grande
parte, da explanação da Escritura, de modo que focalíze a atenção do ouvinte
na Bíblia.

IV. A aplicação ao expositor

O conceito é aplicado ao exposítor: o pregador não pode estar separado da


mensagem. O público não ouve um sermão, ouve um homem. Antes de o
homem proclamar a mensagem da Bíblia a outros, ele deve viver a mensagem
pessoalmente.
43

V. A aplicação aos ouvintes

O conceito é aplicado aos ouvintes a aplicação confere propósito à pregação


expositiva. Como pastor, o expositor relaciona-se com as mágoas, com os gritos
e temores do seu rebanho. O exposítor deve conhecer o seu povo assim como
a sua mensagem. Desse modo, ele deve fazer a exegese tanto da Escritura
quanto da congregação.

Trecho extraído do livro Pregação Expositiva, de Hernandes Dias Lopes.


44

Aula 10
ACONSELHAMENTO BÍBLICO
O discípulo ajudando outros a crescer na vida cristã

“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos


mutuamente em toda a sabedoria ...” Colossenses 3:16

Introdução

Provavelmente você já tenha ouvido o velho ditado: “Se conselho fosse bom, ninguém
dava, vendia”. Bom, isso é um dito popular que acreditamos estar totalmente errado. Na
verdade, o aconselhamento é muito bom. Mais que isso, o aconselhamento é bíblico. Uma
prática que pode, e muito, nos ajudar na prática do discipulado em nossa igreja. Nós, os
cristãos, não estamos imunes aos problemas que a vida trás. Também enfrentamos a
depressão, abuso de álcool e drogas, ansiedade, medo, distúrbios diversos, preocupação
com as finanças, crise no casamento, dificuldades na criação de filhos e uma variedade
de outros problemas que resultam em sofrimento.

Seguramente, irmãos mais experientes e maduros na fé, comprometidos com o Reino de


Deus, poderão, utilizando-se da Escritura Sagrada, ajudar as pessoas a lidarem com seus
problemas e também crescerem na fé e na vida cristã, fortalecendo assim a igreja. Mas o
que é aconselhamento bíblico e como podemos utilizá-lo como instrumento no
discipulado e assim trazer saúde à igreja do Senhor?

O QUE NÃO É ACONSELHAMENTO BÍBLICO?

Primeiramente, precisamos deixar claro o que não é aconselhamento bíblico.

1) Aconselhamento Bíblico não é uma atividade reservada somente para os pastores ou


apenas para os profissionais.

Entendemos que algumas pessoas são chamadas por Deus e capacitadas com dons
específicos para desenvolverem o ministério de aconselhamento numa escala maior e com
mais profundidade (Ef. 4.11,12,16; I Co 12.7,12-27; I Pe 4.10). Não obstante, de acordo
com as Escrituras, todos os cristãos deveriam em alguma medida estarem aptos a
aconselhar em certas situações.4

O ensino das Escrituras é que todo crente pode e deve ser um conselheiro bíblico.
Podemos ver esse ensino à luz de Gálatas 6.1-5: “Irmãos, se alguém for surpreendido
nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te
para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis
a lei de Cristo”. Lemos também em Colossenses 3.16: “Habite ricamente em vós a
Palavra de Cristo; ensinai e aconselhai uns aos outros com toda a sabedoria, e cantai
salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão no coração”.

4
Eyrich, Howard & Hines, Wiliam. Cura para o coração. São Paulo – SP: Cultura Cristã, p. 65.
45

Quando Paulo escreveu aos crentes da igreja de Roma (Rm 15.14) disse: “E certo estou,
meus irmãos, sim, eu mesmo, a vosso respeito de que estais possuídos de bondade, cheios
de todo o conhecimento, aptos para vos admoestardes uns aos outros”. Era a
compreensão do apóstolo que toda a igreja, e não apenas os líderes, admoestasse uns aos
outros, em outras palavras, que se aconselhassem mutuamente.

Lemos em Tito 2.1-6 que o Apóstolo Paulo encarregou homens e mulheres mais velhos
de instruir os homens e mulheres mais jovens, respectivamente. Todo crente é chamado
para que “fale cada um a verdade com o seu próximo” (Efésios 4.25), e ainda: “exortai-
vos mutuamente cada dia” (Hebreus 3.13).

Como fica claro nessas passagens, corrigir, aconselhar, ensinar, não são responsabilidades
restritas aos pastores e oficiais da igreja. O mandamento é para o cristão.

2) Aconselhamento bíblico não é uma atividade opcional para a Igreja. Na Bíblia vemos
em várias situações Deus nos instruindo quanto ao cuidado que devemos ter uns com os
outros. Os chamados "mandamentos recíprocos", aparecem pelo menos 36 vezes no NT.
E são imperativos, ou seja, são mandamentos, são ordens de Deus à sua igreja, e não uma
opção. Por exemplo: "Acolhei-vos uns aos outros" (Rm. 15:7); "Tende igual cuidado uns
pelos outros" (I Co.12:24b-25); "Confessai os vossos pecados uns aos outros" (Tg. 5:16);
"Perdoai-vos uns aos outros" (Ef. 4:31,32).

3) Em terceiro lugar, aconselhamento bíblico não é aconselhamento psicológico. Num


primeiro momento, parece que o conselheiro bíblico e o terapeuta fazem as mesmas
coisas, porém, convém destacar que tratam de atividades distintas. Embora ambos estejam
envolvidos em ajudar as pessoas, existem diferenças entre as duas propostas.

A questão não é se a Psicologia, como ciência que alega ser, é ruim ou não. A questão é
que ela não se utiliza da Escritura Sagrada com a finalidade de conhecer e aconselhar as
pessoas (2 Tm 3.15-17; 2 Pe 1.4). A Bíblia sim, tem sempre a última palavra sobre o
homem, valores e sobre a vida. No aconselhamento bíblico, fazemos uso da Palavra de
Deus e não dos ensinamentos de pensadores como Freud, Adler, Jung, Erickson, dentre
outros. A Bíblia, seguramente, tem orientação para nossa vida, em todas as áreas. A Bíblia
é nossa única regra de fé e prática.

O QUE É ACONSELHAMENTO BÍBLICO?

Quando falamos de “aconselhamento” estamos falando de uma palavra que na língua


Grega (noutecia.), é formada por duas palavras: Ela é formada pelo substantivo grego
“nous” que significa “mente” e pelo verbo “tetéo”, que significa “colocar”. Juntando-se
os dois termos temos: Colocar na mente.

“Habite ricamente em vós a palavra de Cristo, instruí-vos e


ACONSELHAI-VOS mutuamente em toda a sabedoria, louvando a
Deus com salmos e hinos e cânticos espirituais, com gratidão em vossos
corações” Colossenses 3:16

Assim, quando falamos de ACONSELHAMENTO BÍBLICO, estamos falando de


colocar as ESCRITURAS na mente de uma pessoa. O termo noutheteo tem três
significados básicos: admoestar (At 20:31; Rm 15:14; I Co 4:14; I Ts 5:12,14), aconselhar
46

(Cl 3:16) e advertir (Cl 1:28; II Ts 3:15) e sempre dá a ideia de mostrar ao irmão o seu
erro através da Palavra de Deus e auxiliá-lo na correção deste. Pelo menos é isso que
Paulo fala do propósito da Escritura. Diz ele: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e
útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para
que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra." (3.15-16).

Segundo John F. MacArthur, Jr.,

“Aconselhamento é, por definição e inclinação, um ministério de ajuda. Ele


pressupõe um indivíduo que está sendo confrontado por certo grau de confusão,
decepção ou desespero e uma segunda pessoa que se empenha para ajudar
analisando a situação do aconselhamento, procurando desemaranhar as questões
envolvidas, de forma a oferecer conselhos e direções úteis e benéficas”.5

O trabalho do Conselheiro Bíblico, então, é discernir pensamentos e/ou comportamentos


que Deus quer mudar, fazendo uso da Palavra de Deus para mudar os pensamentos e
comportamentos que desagradam a Deus, para o benefício da pessoa que está sendo
aconselhada e para a Glória de Deus. Todo esse trabalho recebe o nome de
ACONSELHAMENTO BÍBLICO.

À luz de algumas passagens do livro de Provérbios, podemos constatar a importância do


aconselhamento bíblico na vida da igreja:

a. Pv 11:14 O aconselhamento traz segurança


b. Pv 12:1 Rejeitar o aconselhamento correto demostra estupidez.
c. Pv 12:15 O aconselhamento traz sabedoria.
d. Pv 15:10 O aconselhamento nos livra do mal e até da morte.
e. Pv 15:22 O aconselhamento traz progresso em nossa vida.
f. Pv 15:31,32 O aconselhamento traz entendimento.

A PALAVRA DE DEUS E O ACONSELHAMENTO.

A Bíblia nos ensina como podemos fugir da corrupção que existe no mundo e em nosso próprio
coração. Ela nos ensina como podemos ser eficientes no ministério cristão; como ser bons
maridos e esposas, pais e filhos; como ser bons cidadãos, como amar a Deus e ao nosso
próximo (2 Pe 1.3,4). A Bíblia também nos ensina como resolver nossos problemas à maneira
de Deus (1 Co 10.13; Rm 8.32-39). Ela nos ensina como ter alegria, paz, mansidão, paciência,
bondade, amabilidade e autocontrole (2 Pe 1.5-7; Gl 5.22,23). A Bíblia nos ensina tantas coisas
preciosas a respeito de Deus, da vida presente e da vida eterna. Na verdade, as Escrituras não
contêm toda a vontade de Deus, mas toda a vontade de Deus que quis que soubéssemos está
contido na Bíblia. (Dt. 29.29; Jo 21.25).6

Veja o que diz a nossa Confissão de Fé de Westminster na Seção VI:


“Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e
para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou
pode ser lógica e claramente deduzido dela”.

5
MACARTHUR, Jr., John F. & Mack , Wayne A. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. São Paulo -
SP: Hagnos, 2004. p. 87.
6
MACK, Wayne. A utilidade das Escrituras no Aconselhamento. Fé para hoje. São José dos Campos,
SP, ano 2004, n. 24, p. 16-19.
47

Em razão disso, o aconselhamento bíblico está fundamentado, de modo consciente e


abrangente, na Bíblia, extraindo dela a sua compreensão a respeito de quem é o homem,
da natureza de seus problemas, dos “porquês” destes problemas e de como resolvê-los.7

Por isso, o conselheiro precisa estar comprometido com a suficiência das Escrituras para
resolver e compreender todas as dificuldades não-físicas, relacionadas ao pecado, que
afetam o próprio indivíduo e seu relacionamento com Deus, com ele mesmo e com o
próximo.

Tomemos como exemplo algumas passagens. O Salmo 19:7-1 enfatiza a suficiência das
Escrituras em duas maneiras:

a. O que a Palavra de Deus é.

1) Lei do Senhor que é perfeita e completa v. 7.


2) Testemunho do Senhor que é seguro e confiável v. 7.
3) Preceitos do Senhor que são corretos e justos v. 8.
4) Mandamento do Senhor que são puros ou claros v. 8.
5) Temor do Senhor que é limpo trazendo sabedoria v. 9.
6) Juízos do Senhor que são verdadeiros v. 9.
7) É desejável como ouro e mel v. 10.

b. O que a Palavra de Deus faz.

1) Restaura a alma v. 7.
2) Torna os simples em pessoas sábias v. 7.
3) Alegra o coração v. 8.
4) Ilumina os olhos v. 8.
5) Produz o temor do Senhor em nós v. 9.
6) traz gozo para a vida v. 10.
7) Concede direção, proteção e recompensa v. 11.

QUALIDADES NECESSÁRIAS DO CONSELHEIRO CRISTÃO

Esse é um ponto muito importante no estudo do nosso tema. As Escrituras nos ensinam
que a igreja local deve ser o instrumento usado por Deus para ajudar as pessoas. Dessa
forma a igreja precisa ter pessoas aptas para realizar o aconselhamento bíblico. (Gl 6.1,2;
Cl 3.16; 1 Ts 5.14,15).

O Conselheiro bíblico não é um profissional que atende a pessoa e a ouve sem


experimentar algum tipo de emoção. Somos pessoas que amamos a Deus, que amamos o
povo de Deus e que servimos ao Senhor servindo a seu povo. Sendo assim, algumas
qualidades do conselheiro bíblico são:

1) O conselheiro bíblico precisa ter relacionamento com o Senhor.

Os conselheiros só serão capazes de ajudar as pessoas, se elas mesmas também estão


experimentando transformação de maneira pessoal. A menos que tenhamos um
7
ADAMS, Jay E. Conselheiro capaz. São José dos Campos: Fiel, 1982. p. 47
48

relacionamento constante com o Senhor, estaremos impossibilitados de ajudar outros a


serem transformados. Paulo, em Gálatas 6.1 escreve: “Vós que sóis espirituais, corrigi-os
com espírito de brandura...”. A não ser que o conselheiro seja alguém espiritual, íntimo
de Deus, o aconselhado não deve colocar sua vida nas mãos de uma pessoa que também
está precisando de ajuda. Jesus alertou: “Pode, porventura, um cego guiar a outro cego?
Não cairão ambos no buraco? ” (Lucas 6:39). Em Mateus 7.5, Jesus ensina: “Tira
primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho
de teu irmão”.

O conselheiro cristão deve ser o primeiro a ter a experiência de ser transformado pela
Escritura Sagrada e de estar sendo moldado, segundo “a mente de Cristo” (1 Coríntios
2.16).

2) O Conselheiro bíblico precisa conhecer as Escrituras.

A pessoa envolvida no ministério de aconselhamento precisa conhecer a Escritura. No


aconselhamento fazemos uso da palavra de Deus e a aplicamos às mais diversas situações.
Por isso, precisamos lê-la, estudá-la, conhecê-la para a aplicarmos, primeiramente na
nossa vida, depois na vida daqueles que queremos ajudar.

A Escritura é a fonte de toda verdade. Paulo escrevendo a Timóteo diz: "Toda a Escritura
é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a
instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para
toda boa obra." (3.15-16).

Não podemos esquecer de que à luz da Escritura Sagrada, a Queda afetou todo ser humano
(Ef 2.1-12). Em razão disso, nossos relacionamentos foram afetados, nossas motivações.
Nosso coração se tornou corrupto. "Porque do coração procedem os maus pensamentos,
mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias." (Mateus 15.19).
Boa parte dos problemas que enfrentamos na vida são meras consequências do nosso
distanciamento de Deus.

A Palavra de Deus tem, portanto, poder para mudar o comportamento. Portanto, o


conselheiro cristão deve saber que a Palavra de Deus é a única ferramenta capaz de
“discernir os pensamentos e os propósitos do coração” (Hebreus 4.12).

3) O conselheiro bíblico precisa ser dedicado à oração.

O aconselhamento secular falha por não depender de Deus e por confiar na sabedoria e
força humanas para alcançar seu objetivo. No aconselhamento bíblico é diferente. A
oração é parte da solução dos problemas do aconselhado. Na oração revelamos nossa total
dependência de Deus para alcançar as mudanças desejadas. (Cl 4.2; I Tes 5.17)

4) O conselheiro bíblico precisa manifestar respeito pelo aconselhado.

Às vezes o aconselhado abre o seu coração contando pecados secretos. Por vezes
podemos até ficar chocados com aquilo que ouvimos. No entanto, precisamos respeitar e
saber que o aconselhado é uma pessoa, criada à imagem de Deus, valiosa aos olhos do
Senhor, que no momento passa por uma crise e veio lhe pedir ajuda. Não a condene. Não
49

dê uma de “amigos de Jó”. Respeite sua confissão e seu desabafo. Aspereza e falta de
humildade minam a bondade, que é essencial para um tratamento correto do irmão faltoso.

Isto não significa aceitar um comportamento errado. É respeitar a pessoa que está
querendo ajuda como pessoa. Paulo em Gálatas 6.1, nos ensina que devemos corrigir com
espírito de brandura, humildade e amor. E lembre-se de que todos nós precisamos de
aconselhamento porque somos também frágeis e propensos a cair.

5) O conselheiro bíblico precisa saber guardar sigilo.

Abrir o coração com alguém não é nada fácil. Muitas vezes é um desnudar da alma, e isso
pode ser doloroso para a pessoa. O que um conselheiro ouve deve morrer com ele. Ele
não deve passar adiante aquilo que ele ouve em um ambiente de orientação espiritual,
nem mesmo para outras pessoas interessadas no assunto.

O conselheiro deve saber que comentar com outras pessoas, sem a devida autorização do
aconselhado, o que lhe foi dito em confiança acabará com a relação conselheiro-
aconselhado. Se isso acontecer, você terá traído quem confiou em você. Poucas coisas
são tão ruins para um conselheiro que ser conhecido como fofoqueiro, como alguém que
passa para frente coisas que ouviu em confidência. Lemos em Provérbios 11.13 “O que
anda mexericando descobre [revela] o segredo, mas o fiel de espírito o encobre”. Em
Provérbios 20:19 lemos que “O mexeriqueiro trai a confiança; portanto, evita o que muito
abre os seus lábios”.

Conclusão e aplicação:

Esperamos que a aula de hoje tenha lhe ajudado a perceber a importância do


aconselhamento bíblico na vida da igreja. Trata-se de um ministério a ser exercido pelo
corpo de Cristo, dentro da dinâmica da igreja local. Cristãos comprometidos, que amam
a Palavra de Deus e que amam a igreja, serão capazes de aplicar os princípios aqui
expostos e assim ajudar a transformar vidas para a Glória de Deus.
50

AULA 11
O MINISTÉRIO DE VISITAÇÃO DO PASTOR

Não é suficiente que, do púlpito, um pastor ensine


todas as pessoas conjuntamente, pois ele não
acrescenta instrução particular de acordo com a
necessidade e com as circunstâncias específicas de
cada caso. (João Calvino)

Conteúdo

1. A Base Bíblica da Visitação.


2. Razões da Visitação
3. O Antes da Visitação.
4. O Durante a Visitação.
5. O Após a Visitação
6. Premissas da Visitação
7. Cuidados Especiais da Visitação
8. Qualidades do Visitador
9. Dicas Gerais da Visitação

Introdução

A prática de fazer visitas aos membros da igreja em seus lares está caindo em desuso.
Podem existir várias razões para isso. Dentre elas, podemos mencionar pelo menos
três: 1ª.) Em razão da vida extremamente dinâmica e agitada da cidade, as pessoas
estão sempre no “corre-corre”, sem tempo para receber pessoas em suas casas; 2ª.) A
falta de interesse dos próprios membros por preferirem viver a vida cristã na
clandestinidade, não permitindo assim, a “intromissão” pastoral; e 3º.) em terceiro lugar,
penso que devemos concordar com Jim Elliff o qual afirmou que “o cuidado com as
almas nas igrejas ortodoxas está em um estado deplorável (e geralmente aumentando)
porque os pastores estão falhando em amar”.8
Além destas razões, outro problema que constatamos é que, mesmo aquelas igrejas
que ainda valorizam a visitação, nem sempre a faz de maneira eficaz e com o propósito
bíblico. A visita para muitos, limita-se a uma conversa informal sobre muitos assuntos,
na maioria das vezes, sem um propósito claro ou objetivo bíblico definido.9
É preciso resgatar a prática da visitação nos lares, bem como corrigir estas distorções.
A visitação é essencial à saúde da igreja. Por isso é importante resgatar esta
compreensão, e todos nós, principalmente, os que estão em posição de liderança na

8
ELLIFF, Jim, A Cura de Almas, in: Armstrong, John. O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia. SP: Editora
Cultura Cristã. 2007. p.152
9
SITTEMA, John. Coração de Pastor – Resgatando a Responsabilidade Pastoral do Presbítero. São
Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2004 p. 198
51

igreja, devemos assumir que a visitação aos membros da igreja é indispensável, caso
queiramos a saúde e o crescimento da igreja.

I. A BASE BÍBLICA DA VISITAÇÃO.

Dirigindo-se aos irmãos da igreja em Éfeso, Paulo diz: “Vocês sabem que não deixei de
pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa
em casa” (At 20:20). Vemos aqui que a preocupação de Paulo era que o Evangelho
fosse ensinado, não apenas publicamente no templo, mas também, de maneira
reservada, de casa em casa.
Ao comentar esta passagem, Calvino diz que Paulo estabeleceu um modelo para o
ministério da Palavra ao ensinar que o ministro não deveria deixar de admoestar tanto
“publicamente” quanto de “casa em casa”:

O que quer que os outros pensem, não consideramos nosso cargo


como algo dentro de limites tão estreitos como se, quando o
sermão estiver terminado, pudéssemos descansar como se nossa
tarefa tivesse terminada. Aqueles cujo sangue será requerido de
nós se os perdermos por causa de nossa preguiça, devem ser
cuidados muito mais de perto e de modo mais vigilante10

Como fica claro nas palavras de Calvino, a visitação por parte da liderança da igreja era
um meio de suplementar a pregação pública. Tinha como objetivo o “cuidado do rebanho
muito mais de perto”. Novamente, diz ele: “Não é suficiente que, do púlpito, um pastor
ensine todas as pessoas conjuntamente, pois ele não acrescenta instrução particular de
acordo com a necessidade e com as circunstâncias específicas de cada caso”.11
Calvino desenvolveu seu pastorado dispensando grande cuidado à visitação dos
enfermos12, e Ronald Wallace nos lembra que Calvino prescreveu em suas Ordenanças
Eclesiásticas, que “ninguém deveria permanecer três dias inteiros confinado à sua cama
sem cuidar para que o ministro seja notificado e quando qualquer pessoa desejar que o
ministro vá à sua casa, deve cuidar de chamá-lo numa hora conveniente para a visita”.13
Esta visão do reformador estava amparada por sua compreensão do ensino da Escritura
sobre este assunto. Vários termos na Bíblia mostram que o ministério de visitação é
para encorajar os desanimados (I Tes 5:11,14), fortalecer os fracos (Gl 6:1), repreender
os desatentos (2 Tm 3:16,17), instruir na sã doutrina (2 Tm 4.2), etc.

10
WALLACE, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP: 2004. p.
147
11
CALVIN, John. Calvin´s Commentaries – The Epistles Of Paul – The Apostle To The Romans And To
The Thessalonians. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishins Company. p. 345
12
LESSA, Vicente Tenudo. Calvino -1509-1564 – Sua Vida e a Sua Obra. São Paulo, SP: Casa Editora
Presbiteriana. p. 119
13
Wallace. Op Cit., p. 148
52

Ao escrever sobre a importância dos lares no ministério de evangelização feito pela


igreja primitiva, Michael Green nos informa que as casas dos cristãos eram úteis em
muitos sentidos. Diz ele:
Atos dos Apóstolos nos mostra como as casas eram usadas para
reuniões de oração (Atos 12.12) para ocasiões de comunhão (Atos 21.7),
para celebrações da Santa Ceia (Atos 2.46) para vigílias de oração, culto
e ensino (Atos 20.7), para reuniões evangelísticas improvisadas (Atos
16.32), para reuniões programadas com o fim de se ouvir o evangelho
cristão (Atos 10.22), para responder perguntas (Atos 18.26), para o
ensino organizado (Atos 5.42).14

II. RAZÕES DA VISITAÇÃO


Além da orientação bíblica, quais seriam as razões práticas que justificam a realização
da visitação aos lares, ainda em nossos dias? Ao meu ver são muitas. Vejamos apenas
algumas:
Ensinar: Pela visitação, podemos ensinar a Palavra de Deus aos membros da igreja.
As Escrituras contêm orientações fartas sobre a função da liderança em ensinar a
Palavra de maneira individual e privada (At 2.46; At 20.20; 2 Tm 2.2; Mt 13.10,11). Ao
se referir ao trabalho do pastor puritano Richard Baxter (1615-1691),15 Cláudio Marra
diz que, “é muito instrutivo observar que, para ele, a instrução dos crentes em particular
não era apenas uma alternativa, um método entre tantos, que poderia ser adotado ou
descartado.16
De fato, em seu livro O Pastor Aprovado, Baxter faz um alerta aos pastores, onde ele
revela a sua preocupação com o ensino das famílias:
Seu objetivo é ser eficiente no ministério com as famílias.
Portanto, procurem informar-se sobre como cada família está
organizada, e como Deus é adorado ali. Visitem as famílias
quando elas estão desfrutando lazer e procurem ver se o chefe da
família ora em seu lar lê as Escrituras, presta culto doutras
maneiras.17
1) Conhecer: Uma segunda razão que mostra a importância da visitação nos lares
é que ela nos ajuda a conhecer melhor os membros da igreja. A visitação trás
este grande benefício ao pastorado.

Conforme lemos em João 10.11-15, diferente do mercenário, Jesus disse conhecer as


suas ovelhas e que era conhecido por elas. Jim Elliff escrevendo sobre o papel do pastor

14
GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. SP: Edições Vida Nova. 1989. p. 262
15
Rev. Richard Baxter, conhecido pastor reformado, viveu na Inglaterra durante o século XVII (1615 -
1691). Ele trabalhou muito para reformar a Igreja da Inglaterra, sendo muitas vezes preso por isso. Dentre
os seus livros mais importantes estão: Manual Pastoral de Discipulado - o clássico O Pastor Reformado
(Editora Cultura Cristã).
16
MARRA, Cláudio. A Igreja Discipuladora. SP: Cultura Cristã. 2007. p. 89
17
BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado, SP: PES. 1989. p. 109
53

em trabalhar para curar almas, analisa este texto de João 10 e mostra a importância da
intimidade que deve existir entre pastor e rebanho:
Jesus, o Bom Pastor, o pastor-modelo, “conhece” suas ovelhas e
as ovelhas o “conhecem”. Se um pastor quiser ser semelhante a
Cristo em seu pastorado, ele deve fazer esforços para conhecer
as ovelhas e permitir que as ovelhas o conheçam. Em outras
palavras, o pastorado não é somente a boa administração das
ovelhas ou o aumento do número de ovelhas ou simplesmente o
ensino das ovelhas. Ele está intrinsecamente ligado ao
conhecimento íntimo das ovelhas. Um homem não consegue –
não pode – pastorear ovelhas sem conhecê-las.18
Se levarmos à sério esta orientação, seremos convencidos de que pela visitação,
podemos conhecer melhor os membros da igreja. E é exatamente este caminho, ou
seja, a intimidade, que Jim Elliff nos aponta como um valioso instrumento para
viabilizarmos este conhecimento entre pastor e ovelhas. Segundo ele,
Deve haver algum planejamento, na maioria das situações, para
garantir que cada uma das ovelhas conheça e seja conhecida pelo
pastor. Esse planejamento pode incluir vários aspectos, mas
deve, pelo menos, incluir uma das mais notáveis características
dos pastores – a hospitalidade (1Tm 3.2). É um curso de ação
razoável que os pastores tenham membros em sua casa com
freqüência. Se é impossível um mostrar hospitalidade àqueles que
estão sob seus cuidados por certo tempo, então não há pastores
suficientes para as ovelhas ou há amor insuficiente no coração do
pastor.19
Richard Baxter desenvolveu um forte e importante trabalho no campo da visitação nos
lares. Ele via a importância da pregação pública, mas também defendia a instrução
particular como um meio eficaz e excelente para o fortalecimento das famílias. Cláudio
Marra acompanha este mesmo raciocínio ao escrever sobre este aspecto na vida deste
notável pregador, disse:
Segundo Baxter, “Você se tornará familiar com todo o seu povo
uma vez que tenha tido oportunidade de conversar com ele em
particular e individualmente. ... a própria familiaridade tende a
suscitar a afeição que abre os ouvidos das pessoas para mais
ensino”. Melhor conhecimento do rebanho promoverá melhor
relacionamento e compreensão, banindo o preconceito. “Quando
os conhecemos melhor, eles se sentem mais encorajados a nos
revelar as suas dúvidas, a buscar soluções para elas e a sentir-se
à vontade conosco de todos os modos.”20
2) Consolar: Uma terceira razão para realizarmos o ministério de visitação é que,
através deste ministério, podemos consolar os membros da nossa comunidade.
Muitas pessoas da igreja enfrentam sérios problemas. Dificuldades financeiras,

18
ELLIFF, Jim, A Cura de Almas, in: Armstrong, John. O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia. SP: Editora
Cultura Cristã. 2007. p.158
19
ELLIFF, Jim, A Cura de Alma. p. 159
20
MARRA, Cláudio. A Igreja Discipuladora. p. 96
54

enfermidades, problemas no casamento, etc. Os pastores, presbíteros e


diáconos são instrumentos de Deus para levarem conforto, alívio espiritual e
esperança aos crentes (2 Co. 1.3-7).

3) Aconselhar: Uma quarta razão para visitarmos nossos crentes é que, pela
visitação, podemos aconselhá-los (Cl 1:28; 3:16; Rm 15:14; I Ts 5:12). O termo
“admoestar”, que aparece nestas passagens, refere-se à atividade de
“aconselhar”; “curar almas”; “orientar espiritualmente”.

Calvino no exercício de seu pastorado, sempre procurou encorajar pessoas


sobrecarregadas, que não conseguiam encontrar consolo mediante sua própria
aproximação de Deus, a procurarem seu pastor para aconselhamento particular e
pessoal. Nas palavras de Ferreira, “Calvino é pastor zeloso e incansável no seu esforço
em favor de suas muitas ovelhas, sofridas e angustiadas por males de toda sorte”.21
4) Corrigir: Através da visitação conseguimos manter um contato mais pessoal
com os membros da igreja. E contato pessoal encoraja as pessoas a se abrirem
e revelarem fraquezas ou pecados secretos. Desta forma, pela visitação,
podemos corrigir as ovelhas (Pv 3:11; 9:8; Tt 2:15; II Tm 4:2; Gl 6:1).

Infelizmente, há muitos irmãos fracos e vivendo em desobediência a Deus. Alguns são


orgulhosos, outros guardam ressentimentos, outros estão envolvidos em práticas
sexuais pecaminosas, e outros e diversas paixões mundanas. Nosso dever, como
líderes espirituais é visitá-los e procurar, através do ensino da palavra, ajudá-los a se
corrigirem (2 Tm 2.25,26).
Em casos assim, em que precisamos fazer uma visita para repreender o irmão por causa
de algum pecado ou dar uma orientação sobre determinado comportamento, John
Sittema oferece algumas dicas muito úteis:22
a) Seja direto: Seja agradável, demonstre bondade, mas não faça rodeios.
Depois de chegar à casa, não deixe passar muito tempo, e vá direto ao
assunto23.

b) Seja positivo: Não seja legalista. Lembre-se sempre de que o propósito


da sua visita não é condenar, mas trazer restauração, graça e ajuda divina.
Mesmo que esteja apontando pecados, mostre o caminho da graça e dê
esperança de restauração no caso de haver arrependimento.

c) Lembre-se de quem você é: Cuidado para não parecer convencido ou


arrogante. Você está visitando para levar a Palavra de Deus àquela família,
por isso, você deve ser também um discípulo de Jesus. “Aquele, pois, que
pensa estar em pé, veja que não caia” (I Co.10.12)

21
CF. FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia. Campinas, SP: LPC. 1985. p.
153.
22
SITTEMA, John. Op Cit., p.226
23
Eu acrescento a esta observação de Sittema, que, o pastor, precisa demonstrar amor e compaixão para
com a pessoa visitada. Embora os pecados precisam ser confrontados e resolvidos, só haverá um resultado
positivo, eficaz, caso a pessoa visitada perceba que o pastor realmente está preocupado com sua vida cristã
(Lc 7.13) (cf. MACK, Wayne. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. Hagnos. 2004. p. 208).
55

d) Ore no início e ao final da visita: Sua oração humilde demonstra sua


dependência daquele que lhe enviou ali. Além disso, transmite a ideia de
que você não tem todas as respostas e que está dependendo do Espírito
Santo.

e) Ao final, faça um breve resumo da sua visita: Não deixe nada pendente.
Ao final, certifique-se de que saibam o que você entendeu. Isso evita
problemas futuros, e ajuda em muito na solução daqueles que existem.

5) Proteger: Finalmente, é preciso dizer que o rebanho, não pode ser deixado ao
acaso. Pela visitação, podemos proteger as ovelhas (Atos 20:20). No contexto desta
passagem de Atos 20, escrita para os líderes da igreja de Éfeso, o apóstolo discorre
sobre a tarefa pastoral. Paulo diz que um pastor amoroso e cuidadoso com seu rebanho,
toma medidas para protegê-lo dos “lobos”, dos predadores espirituais.24 A intenção dos
“lobos vorazes” (At 20.28-31) era a de “arrastar os discípulos atrás deles” (v.30)

Não apenas em Éfeso, mas ainda hoje, quem vive numa grande cidade enfrenta
diversos “lobos vorazes”, tais como misticismo, sincretismo, secularismo, pragmatismo,
relativismo, etc.25 E como disse Pedro, “Satanás anda ao derredor... procurando alguém
para devorar” (1.5.8). Como líderes da igreja, não podemos descuidar-nos e permitir
que nossas ovelhas, mais desatentas, venham a se tornar alvos destes inimigos
modernos.
Novamente, faço uso da influência de Richard Baxter em visitar as famílias de sua igreja.
Ele escreve:
Passamos as segundas-feiras, desde cedo de manhã até
quase o cair da noite, envolvendo 15 ou 16 famílias, toda
semana, nesta obra de catequese. Com dois assistentes
percorremos completamente a congregação, que tem
cerca de 800 famílias, e ensinamos cada família durante o
ano26
Calvino, à semelhança de Baxter, adverte: “não consideramos nosso cargo como algo
dentro de limites tão estreitos como se, quando o sermão estiver terminado,
pudéssemos descansar como se nossa tarefa tivesse terminada” 27
Ricardo Agreste citando Eugene Peterson deixa muito clara a ideia de que o pastor não
deve limitar seu pastorado apenas aos domingos:

24
SITTEMA, John. Op Cit., pp. 61-92.
25
Na parte Dois, seção Um do seu livro Coração de Pastor, John Sittema desenvolve cinco perigos que
rondam a vida do rebanho. Ele chama a estes cinco perigos de “Os Dentes do Lobo”. (confira: SITTEMA,
John.Coração de Pastor. Resgatando a Responsabilidade Pastoral do Presbítero. São Paulo, SP: Ed.
Cultura Cristã. 2004. pp. 61-92)
26
BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. São Paulo, SP: Ed PES. 1989 p.18.
27
Wallace, Op Cit., p 147
56

Assim, como muitos outros pastores, deparo-me com a


realidade de que, apesar do Domingo ser um dia essencial
no serviço pastoral, muito deste ministério precisa ser feito
em meio ao caos de Segunda a Sábado.... Nossas igrejas
estão necessitando de pastores que conduzam suas
ovelhas através de suas limitações e crises, com amor e
paciência na direção da maturidade em Cristo Jesus.
Nossas comunidades precisam de guias que, através da
oração e da Palavra, ajudem as pessoas a caminharem
através de suas crises e a viverem em meio ao caos.28

III. CUIDADOS QUE DEVEMOS TER ANTES DA VISITA

1) Certifique-se de que você sabe o nome de todos os membros da família. A


questão aqui é que, o esforço de aprender os nomes já é um sinal de que você
se preocupa com eles.29
2) Faça a visita de maneira objetiva e planejada. Por isso, tenha em mente ou
anotado em algum lugar, as razões ou motivos que o levaram a visitar aquela
pessoa ou família.
3) Dedique um tempo em oração, pedindo sabedoria a Deus para esta visita (Cl
4.12,13).
4) Esteja preparado para a possibilidade de que sua orientação possa não ser bem
aceita (Mc 10.21). Se estiver preparado para isso, você continuará a amar a
pessoa, mesmo que seu conselho ou sua visita não tenham atingido o objetivo
proposto.

IV. O QUE FAZER DURANTE A VISITA: Para uma boa visita, o pastor ou líder deve
adotar a seguinte postura:

1. Transparente: Procure ser uma pessoa acessível. Aproveite para falar de você,
de sua família e do seu testemunho de fé. Mas cuidado para não ser o centro da
conversa, esquecendo-se assim das razões que o levaram a visitar aquela
família.30

2. Bom ouvinte: Ouça com atenção a pessoa visitada. Em provérbios 18.15 lemos:
“o coração do sábio adquire o conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o
saber”. Procure ouvir compreendendo o que a outra pessoa deseja transmitir,
valorizando a sua fala, seus sentimentos, sua experiência de vida. É importante
que o visitador esteja pronto para ouvir. Assim, ficará mais fácil entender as
necessidades e as carências manifestadas.

3. Empático: Nem sempre as pessoas visitadas conseguem se abrir. Há


mecanismos de defesa que são ativados e muito do que é preciso perceber, não
está na linguagem verbal, mas nos gestos, nas feições, nos temores, na

28
http://www.editorasepal.com.br/sepal/jornal/out_dez2001/pastorear.htm ( capturado em 22/03/04 )
29
SITTEMA, John. Op Cit., p. 222
30
Idem, p. 223
57

hesitação, etc. O pastor ou líder quem estiver realizando a visita deve ter
sensibilidade para observar e analisar a presença destes elementos durante a
visita e assim poder, de maneira mais efetiva, intervir para ajudar a pessoa
visitada.

4. Informalidade: John Sittema faz a seguinte sugestão: “converse com a família


sentados à mesa da cozinha ou na sala íntima – um lugar onde o diálogo é mais
natural”.31

V. O QUE FAZER DEPOIS DA VISITA

Após a visita, faz-se necessário oferecer um acompanhamento. Não basta apenas fazer
a visita e limitar a dar alguns conselhos. É preciso acompanhar a família ou pessoa
visitada durante algum tempo, até que se consiga vê-la superando sua dificuldade.
Para ajudá-lo neste acompanhamento, podemos dar duas pequenas dicas:
1ª.) Sugerimos que se faça anotações da visita realizada. Anote o que foi conversado
(se não for possível fazer estas anotações no momento da visita, faça-as imediatamente
depois para não cair no esquecimento). Anote principalmente aquilo que você precisará
dar mais atenção e uma possível avaliação posterior.32
2ª.) Sugerimos que retorne a visita: Após alguns dias, você deve conferir as anotações
feitas e voltar a visitar aquela família. Ou na impossibilidade de visitá-la, fazer-lhe um
contato telefônico. Esta medida revela que você se importa com ela (Fl 1.8). Este retorno
é muito importante, pois nos dará a oportunidade de rever os pontos anteriores, dúvidas,
os passos que foram dados e o progresso feito por parte da pessoa visitada (lembre-se
de Efésios 4.11,12).33
VI. PREMISSAS DA VISITAÇÃO
1. O pastor ou quem visita é um instrumento nas mãos de Deus, e como tal deve
estar pronto para o serviço que glorifique ao Senhor.

2. A principal pessoa no trabalho de visitação não é o visitador, mas a família


visitada. Portanto, devemos tomar cuidado para não monopolizar as conversas.

3. A pessoa visitada pode mudar, pode ser transformada. Como pressuposto


básico, precisamos aceitar o fato ou a possibilidade de mudanças na vida da
pessoa visitada.
4. A Bíblia possui as respostas para as indagações espirituais e materiais. Jay
Adams afirma este pensamento da seguinte maneira:

Da mesma maneira que o conselheiro cristão sabe que


não existe problema sem par que não tenha sido

31
Idem, p. 225
32
Baxter ao visitar as famílias da sua igreja, fazia anotações com a finalidade de continuar a instrução de
maneira sistemática. (Cf. O Pastor aprovado, p. 18,28)
33
SITTEMA, John. Op Cit., pp. 223, 224
58

claramente aludido nas Escrituras, assim também sabe


que há uma solução bíblica para cada problema.34

Fazendo uso de I Co 10.13b, Adams entende que o conselheiro pode dar esperanças
ao aconselhado (no caso, a pessoa visitada) com base na promessa divina. E que o
papel do conselheiro é entender o problema do aconselhado e buscar respostas na
Escritura para ajudá-lo.35
Nosso compromisso é com a verdade que está contida na Escritura Sagrada. Rev.
George A. Canêlhas, que acumula uma larga experiência pastoral, inclusive neste
ministério de visitação, nos dá um conselho valioso:
Seja sábio e coerente quando os problemas exigem um
estudo mais profundo e um tempo maior para se chegar a
uma conclusão. Não tente resolver tudo na primeira visita
e, também, não tenha vergonha de dizer que não sabe
responder.36

5. Existem problemas cujas causas são espirituais, psíquicas ou até orgânicas. É


preciso saber identificar bem esses aspectos para realizar um bom trabalho de
acompanhamento.É imprescindível reconhecer nossas próprias limitações e
saber quando se deve encaminhar uma pessoa para alguém mais capacitado
em ajudá-la.

6. O pastor precisa tomar cuidado para não ditar o que a pessoa precisa fazer, mas
deve ajudá-la a conduzir sua própria avaliação e decisão.

VII. CASOS ESPECÍFICOS DE VISITAÇÃO:

1. Oportunidade para evangelizar: É muito comum, em algumas famílias da igreja


terem entre seus membros pessoas que ainda não são convertidas. Às vezes,
um cônjuge, um filho, um pai ou mãe, enfim. Neste caso, a visita do pastor ou de
qualquer outro líder da igreja, torna-se uma excelente oportunidade de
compartilhar o evangelho com estas pessoas.

2. Discipular famílias: “Há muitas pessoas no rebanho que, a despeito do tempo


decorrido de participação da igreja, ainda são jovens e fracas, com pouca
proficiência ou força na fé”37. Baxter é de opinião que na visitação temos a
oportunidade de fortalecer os crentes fracos. Na intimidade do lar, podemos tirar
dúvidas, esclarecer passagens bíblicas, exortá-los ao arrependimento, etc.

3. Momentos de Crise: São muitas as situações de crise que alguém possa estar
enfrentando – crise financeira, crise no casamento, crise existencial, crise no
relacionamento com filhos, crise de solidão, crise sentimental, crise de fé, etc.

34
ADAMS, Jay. O Manual do Conselheiro Cristão, Editora Fiel. 2000. p. 35
35
ADMS. Op Cit., p. 35 (veja a nota 6)
36
CANÊLHAS, George Alberto. Apostila de poimênica utilizada no curso do JMC. p. 20
37
BAXTER, Richard. Manual Pastoral de Discipulado. SP: Cultura Cristã. 2008. p.77
59

Em momentos assim, a presença do pastor, presbítero ou líder espiritual se


reveste de grande significado e importância. Precisamos estar preparados para
ouvir atentamente, sensíveis para aconselhar, orientar e consolar.

4. Família Enlutada: Ao longo da vida experimentamos dores. Por vezes, são


dores bem definidas, dores físicas, que se intensificam ou se abrandam, dores
que falam, ou gritam, e logo corremos a atendê-las e, comumente, encontramos
um paliativo ou uma solução para elas.

Mas, existe aquela dor para a qual não há remédio para o alívio imediato. Dentre elas,
temos a dor de quem está vivendo a perda de alguém querido. É uma dor movida por
sentimentos de tristeza, de medo, de abandono, de fragilidade e insegurança. Ao visitar
uma pessoa ou família enlutada, precisamos agir com carinho, compreensão e
compaixão (Mc 3.1-5; João 11.33-35; At 20.31; 2 Co 2.4).
É o momento em que junto com a dor também está o sentimento de culpa pela perda.
Não é momento de críticas ou censura, mas de palavras de consolo e paz. A Palavra
de Deus traz conforto na lembrança de que o Senhor está no controle de todas as coisas
e de que nossas vidas estão em suas mãos.
Wayne A. Mack, escrevendo sobre nosso relacionamento de ajuda ao aconselhado, nos
dá algumas dicas em como podemos desenvolver uma compaixão genuína para com
as pessoas. São quatro dicas:

1ª.) Pense como você se sentiria se estivesse na posição da pessoa.(Mt 9.36;


Hb 4.15)
2ª.) Imagine a pessoa visitada como alguém de sua família. (I Tm 5.1,2)
3ª.) Considere sua própria pecaminosidade. (Gl 6.1)
4ª.) Pense nas formas práticas de demonstrar compaixão. (Lc 6.27,28)38

5. Pessoas Enfermas: As situações de enfermidade exigem uma atenção maior.


Precisamos ser diligentes. Devemos nos preparar para levar conforto e palavras
de encorajamento para o enfermo e familiares. Através da leitura da Palavra
podemos despertar a fé do enfermo, alimentando as suas esperanças e levando-
o a reconhecer que as possibilidades de Deus são infinitas. Devemos tomar
muito cuidado para não cobrar fé. Encorajar não é a mesma coisa que
constranger. Devemos levar a pessoa a uma disposição espiritual para
descansar e confiar em Deus.39

6. Pessoas afastadas da igreja: Tem sido muito comum algumas pessoas, por
razões diversas40, afastarem-se da igreja. Todos nós conhecemos, pelo menos,

38
MACK, Wayne. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. SP: Editora Hagnos. 2004. p.208-209
39
BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado. p.110
40
Segundo uma pesquisa registrada na Revista Enfoque, estima-se que “59% das pessoas decidiram
abandonar a casa de Deus por causa da mudança de situação de vida (transferência de cidade, divórcio,
nascimento de filhos, morte na família etc.). O desencantamento com os membros e pastores foi apontado
por 37% dos entrevistados. A pesquisa também revelou que 19% estavam ocupados demais para participar
60

mais de uma, que no passado chegou a participar por um tempo da vida da


igreja, mas acabaram se afastando.

Um novo fenômeno já pode ser visto nas igrejas evangélicas – os “desigrejados”. Se


tomarmos como exemplo uma igreja com uns 10 anos de existência, podemos arriscar
um palpite, que aproximadamente 100 pessoas já passaram por ela e agora estão
afastadas.41

É bem verdade que há pessoas que se afastam da igreja porque nunca chegaram a se
converter. Aceitaram a religião e não a pessoa do Redentor (I João 2.19). Mas há
aqueles que receberam a Cristo pela fé, são de fato convertidos, mas por “causa das
tentações de Satanás e do mundo, pelo predomínio da corrupção restante neles e pela
negligência dos meios de sua preservação”,42 acabaram caindo e se afastando da igreja
(MT. 26.70-74; II SM 12.9,13; Sl 51. 8-12; Ap 2.4).
O profeta Ezequiel escreveu sobre o cuidado que Deus tem com seu rebanho: “Eu
mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o Senhor Deus. A
perdida buscarei, a desgarrada tornarei a trazer, a quebrada ligarei e a enferma
fortalecerei...” (Ez. 34.15,16).
Através da prática da visitação, podemos imitar o exemplo do Senhor. Podemos “buscar
a perdida” (evangelizar), mas também, “trazer a desgarrada”. O pastor e presbíteros
precisam “sair da sala do conselho” e, a exemplo de Jesus, irem atrás das ovelhas
desviadas. "Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma
delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até
encontrá-la?" - Lucas 15:4.

7. Pessoas idosas: Em geral, o idoso a partir da terceira idade começa a


apresentar diversos problemas: tais como problemas sociais, econômicos,
psicológicos, físicos e biológicos. Não é fácil envelhecer. Como pastores e
líderes não devemos ignorar as inquietações da idade avançada. Precisamos
visitar a estes irmãos e levar-lhes uma palavra de consolo, uma palavra amiga,
uma orientação, etc.

8. Sociabilidade: Este tipo de visita objetiva estreitar vínculos de amizade,


procurar conhecer melhor a pessoa e sua família, etc...

Com relação a este caso para se visitar alguém, vale à pena ressaltar a observação feita
pelo Rev. George Canêlhas:
Tome cuidado com as pessoas que querem lhe fazer de
"babá". Geralmente essas pessoas são carentes e acham
que você está à disposição delas. As pessoas têm que se

das atividades da igreja; já 17% disseram que as responsabilidades da casa e família contribuíram para o
afastamento. O comportamento dos próprios membros representou 17% dos ouvidos. E outros 12%
revelaram dificuldades de envolvimento como maior empecilho.” (extraído:
http://www.fmgospel.com.br/noticia.php?id=1765&situacao=1765, capturado em 21.06.2010)
41
NETO, Sinfrônio J.; JARDIM, Daria Tiyoko. A Reconquista. SP: Editora Vida. 2001. p.21
42
Confissão de Fé de Westminster. Cap. XVII, 3 – Sobre a Perseverança dos Santos.
61

adaptar aos seus horários de visitação e a sua forma de


visitar. Não deixe de mandar as pessoas fazerem "tarefas"
– os interessados no aconselhamento seguirão as regras
e responderão positivamente.43
VIII. QUALIDADES DO VISITADOR:

1. Ter conhecimento da Escritura Sagrada. I Tm 3.16


2. Ser amável e simpático. Cl 4.6; PV 15.23. Ser capaz de pensar como se
estivesse no lugar da pessoa visitada.
3. Ter vida de oração e depender sempre de Deus. Cl 4.12,13. É preciso que seja
um líder consagrado a Deus. Se tiver alguma área da sua vida cristã com
problemas, como algum pecado costumeiro que o está derrotando, é preciso
buscar ajuda para si mesmo, antes de tentar ajudar alguém.
4. Cuidado pessoal e bom gosto com a aparência, usando a roupa adequada.
5. Ser alguém de confiança. Quem visita acaba ouvindo e conhecendo alguns
“segredos” da família. Portanto, se o visitador for alguém que não sabe guardar
confidências, está automaticamente desqualificado para este trabalho.

IX. DICAS GERAIS DA VISITAÇÃO:


1.CHEGADA À RESIDÊNCIA A SER VISITADA:

1. Chegue com atitude agradável, e crendo que Deus pode agir graciosamente na
vida da pessoa ou família a ser visitada.
2. Preste atenção no contexto do local e da família para conhecer as circunstâncias
que envolvem as pessoas a serem visitadas.
3. Faça uma apresentação sua e das pessoas que o acompanham e seja claro
quanto ao verdadeiro propósito de sua visita. Evite ir sozinho, especialmente
quando for visitar uma pessoa do sexo oposto. O conselho do Rev. George
quanto a esta questão é o seguinte:

Tome cuidado! O homem não visita mulher


sozinho! Leve uma senhora, um presbítero, um
diácono – o melhor é que a visitação seja feita
constando de três pessoas: dois homens e uma
mulher, ou vice–versa.44
4. Chame as pessoas pelo nome. Tente gravar os nomes de todos e repeti-los
sempre que for se referir a alguém.

2. NA RESIDÊNCIA:
1. Lembre-se de que você é convidado na casa de outra pessoa. Mostre-se de
maneira amiga e agradável. Cl 4.6
2. Seja paciente para ouvir a todos, em especial as pessoas enfermas e seus
familiares.

43
CANELHAS, George A. apostila de poimênica. P. 20
44
CANELHAS, George Alberto. Apostila de Poimênica. p.20
62

3. Focalize-se na pessoa para quem a visita foi dirigida, mas sempre demonstrando
interesse para com todos os presentes. Tiago 1.19
4. Mantenha a preocupação em conduzir a conversa visando atingir o propósito de
sua visita.

3. NO HOSPITAL
1. Procure estar informado: É muito importante que você tenha informações da
situação do paciente. Se ele operou do estômago, não leve alimentos. Se ele
operou da vista, não leve uma palavra-cruzada. Se ele está com dores de
cabeça, fale pouco e fale baixo.

2. Procure ser breve em sua visita: Evite tornar a sua visita cansativa para o
paciente. Lembre-se que você está visitando um doente e não fazendo uma
festa. Visitas que demorem mais de 30 minutos são desaconselhadas. Lembre-
se que o paciente está hospitalizado e precisa descansar. Alguns pacientes no
pós-cirúrgico dormem muito, várias vezes por dia. Isso pode acontecer em razão
da medicação ou porque o corpo ainda está se recuperando.

3. Cuidado com as histórias: Não fale sobre suas próprias doenças do passado
e não fique contando histórias de quando seu tio fez uma cirurgia e morreu, ou
da vizinha de um conhecido seu que, após uma cirurgia na garganta, nunca mais
voltou a falar. Com certeza a pessoa visitada não está interessada em ouvir
estas histórias de tragédias. Ao contrário, fale ao enfermo sobre a segurança do
amor e cuidado divinos.

4. Não faça diagnósticos médicos: Lembre-se que você não é o médico: Não
tente dizer o que o paciente deveria ou não deveria fazer ou tomar. Não interessa
se você teve experiência semelhante ou não, pois cada caso é um caso, e só o
médico pode saber o que fazer.

5. Cuidado com suas emoções: Procure desenvolver auto-controle de suas


emoções e sentimentos. Evite chorar durante a visita. Isso pode assustar o
paciente ou deixá-lo ansioso quanto ao seu quadro clínico.

6. Centralize sua visita no doente, e não na doença ou qualquer outro assunto


inoportuno. Deixe o paciente falar livremente e seja gentil ouvindo-o com
bastante atenção.

7. Não prometa que Deus irá curá-lo. Em sua sabedoria, Deus algumas vezes
permite que a doença continue.45

Conclusão e aplicação: O que foi dito até aqui teve como objetivo dar alguma
orientação sobre este aspecto tão importante da vida eclesiástica, mas esquecido e
negligenciado por boa parte da nossa liderança. A título de aplicação, quero dar cinco

45
COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. SP: Vida Nova. 1984. p.336
63

dicas para, se implementar ou ajudar a resgatar na igreja, um ministério de visitação nos


lares:

1º) Comece a ensinar este assunto em sua igreja. Mostre a base bíblica e as razões
para a visitação nos lares. Todos os membros precisam ter conhecimento dos benefícios
da visitação para a vida da igreja.
2º.) Forme um grupo de visitação. Além dos pastores, presbíteros, diáconos e líderes,
deve haver outros irmãos interessados em fazer parte de um ministério de visitação.
Distribua entre os membros da igreja um questionário, o qual deve ser preenchido pelos
interessados.
3º) Ofereça um curso de visitação aos interessados. Existem pessoas que querem se
envolver, mas por timidez ou falta de preparo, não se dispõem.
4º) Deixe em algum lugar de fácil acesso e visualização, uma caixinha onde a
membresia da igreja vai poder depositar ali seus pedidos, sugestões e indicações de
pessoas a serem visitadas.
5º.) Publique no boletim da igreja os nomes das famílias ou pessoas que estão sendo
visitadas, bem como os nomes das equipes que estão fazendo as visitas. Isto encoraja
outros a se envolverem.
Esperamos que estas orientações e sugestões sirvam para despertar pessoas e líderes
para dar inicio ou retomar aquilo que estava sendo esquecido. Tenha sempre em mente
e no coração, que visitar as pessoas trará um enorme benefício para nossas igrejas.

Bibliografia consultada

ADAMS Jay E., A Theology of Christian Conseling – More than redemption. Grand
Rapids: Zondervan Publishing Co., 1995.

__________________. O Manual do Conselheiro Cristão, Editora Fiel. 2000.

BAXTER, Richard. O Pastor Aprovado, SP: PES. 1989.

CALVIN, John. Calvin´s Commentaries – The Epistles Of Paul – The Apostle To The Romans And
To The Thessalonians. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans Publishins Company.

CANÊLHAS, George Alberto. Apostila de poimênica utilizada no curso do JMC.

COLLINS, Gary R. Aconselhamento Cristão. SP: Vida Nova. 1984.

Confissão de Fé de Westminster e o Catecismo Maior. SP: Casa Editora Presbiteriana. 1991.

ELLIFF, Jim, A Cura de Almas, in: Armstrong, John. O Ministério Pastoral Segundo a Bíblia. SP:
Editora Cultura Cristã. 2007.

FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia. Campinas, SP: LPC. 1985.
64

GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. SP: Edições Vida Nova. 1989.

LESSA, Vicente Tenudo. Calvino -1509-1564 – Sua Vida e a Sua Obra. São Paulo, SP: Casa
Editora Presbiteriana.

MARRA, Cláudio. A Igreja Discipuladora. SP: Cultura Cristã. 2007.

MACK, Wayne. Introdução ao Aconselhamento Bíblico. Hagnos. 2004.

NETO, Sinfrônio J.; JARDIM, Daria Tiyoko. A Reconquista. SP: Editora Vida. 2001. p.21

SITTEMA, John. Coração de Pastor – Resgatando a Responsabilidade Pastoral do


Presbítero. São Paulo, SP: Ed. Cultura Cristã. 2004

Wallace, Ronald. Calvino, Genebra e a Reforma. Editora Cultura Cristã. São Paulo, SP: 2004.

Sites:

http://www.fmgospel.com.br/noticia.php?id=1765&situacao=1765

http://www.editorasepal.com.br/sepal/jornal/out_dez2001/pastorear.htm

Rev. Gildásio Jesus Barbosa dos Reis


65

AULA 12
POR QUE PASTORES NECESSITAM DE APOIO
PASTORAL?

A Secretaria Nacional de Apoio Pastoral da Igreja Presbiteriana do Brasil, IPB, foi criada
por ocasião da Reunião Extraordinária do SC-E/IPB em 1999, na cidade de Recife, PE.
Aquela decisão também contemplava a criação de secretarias prebiteriais de apoio
pastoral que se encarregariam de “pastorear situações de crise com fundamentação
bíblica, teológica e pastoral”.[1] Desde então, essas secretarias se empenham no cuidado
com os obreiros da denominação a fim de que o ministério seja desempenhado “segundo
Deus quer” (1Pe 5.2).
Todavia, a tarefa de “pastorear pastores” pertence a toda denominação e não apenas
àquele que recebeu o cargo de secretário para essa função. Estudiosos têm demonstrado
que os pastores são, dentre as ovelhas de Cristo, os menos pastoreados no rebanho. O
problema é que as pressões pragmáticas em prol do crescimento da igreja, do aumento da
arrecadação, da exigência por uma comunidade vibrante e as demandas por visitas e
aconselhamentos constantes acabam resultando em desgastes físicos, emocionais,
relacionais e até espirituais desses líderes. Além do mais, as famílias dos pastores
geralmente sofrem os “efeitos colaterais” do ministério, pois o desgaste do pastor acaba
sendo sentido primeiramente por seus familiares e a família do ministro ainda é alvo de
expectativas e demandas que intensificam algumas situações de estresse. Infelizmente,
ademais, os pastores e suas famílias nem sempre recebem o cuidado devido por parte da
igreja.

Conquanto extremamente necessário, o apoio a pastores geralmente encontra


dificuldades, sendo uma das principais a própria conscientização sobre a necessidade em
si, algo comum na forma de pensar tanto da denominação quanto de obreiros que carecem
de ajuda. Por um lado, a denominação tem a tendência de sacralizar seus líderes, como se
eles estivessem acima de quaisquer problemas, aflições ou vulnerabilidades. Por outro
lado, a cultura pastoral facilmente ignora e sublima as evidências de problemas no
ministério, evitando buscar ajuda com medo de expor suas fraquezas.[2] Em meio a tudo
isso, talvez a primeira coisa a fazer seja esclarecer porque pastores necessitam de apoio
pastoral.
Sem a intenção de ser exaustivo, esse artigo submete algumas considerações que podem
ser esclarecedoras quanto à questão levantada acima. Certamente alguns casos precisam
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ser considerados particurlarmente, pois eles possuem nuances próprias de sua natureza.
Dessa forma, os cinco tópicos relacionados abaixo têm o propósito de descrever a
condição real e comum da cultura pastoral em relação à sua necessidade de pastoreio.

1. Porque homens de Deus continuam sendo homens


A expressão “homem de Deus” é, geralmente, usada na cultura evangélica para designar
o pastor e obreiro cristão. Ela comunica o privilégio e a responsabilidade do ministro em
relação à sua consagração ao serviço do Senhor. Biblicamente falando, ela se refere ao
ministério daqueles que eram mensageiros da Palavra de Deus ao povo, tanto anjos como
profetas (cf. Jz 13.6 e 8, 1Re 13.1-21, 17.18 e 24 e 2Re 1.6-13). Nos dias atuais, os
pastores são denominados homens de Deus pelo fato de serem oficialmente consagrados
para o ministério da Palava na igreja do Senhor.

No entanto, a ordenação ou consagração do pastor ao ministério da Palavra não altera sua


natureza humana. Tanto o seu corpo quanto sua alma continuam mantendo as
características comuns de ser humano que vive em um mundo sob a maldição do pecado,
fazendo com que ele continue tendo carências emocionais e espirituais. Além do mais,
seu corpo continua sujeito ao cansaço e às limitações impostas a todo indivíduo nesse
contexto terreno. Nesse sentido, é importante lembrar que até mesmo o Senhor Jesus lidou
com essas limitações e teve que repousar seu corpo após intenso trabalho (cf. Mc 6.31).
De fato, o mais consagrado Servo de Deus nas Escrituras não desprezou nem ignorou sua
natureza humana e nem o pastor nem a igreja contemporânea devem pensar nos “homens
de Deus” da atualidade como se eles estivessem acima dessa condição.

Os cristãos contemporâneos deveriam reconhecer que as vulnerabilidades e fraquezas


humanas dos seus pastores são semelhantes àquelas compartilhadas por outros crentes.
Isso deveria colocar um ponto final nas expectativas irreais que tanto o rebanho quanto
os pastores têm desse ministério. Dessa forma, pastores também lutam contra cansaço,
desencorajamento, incertezas quanto à tomada de decisões, tentações e tantas outas
coisas. Assim como qualquer crente, pastores e seus familiares também são abençoados
por relacionamentos, amizades, momentos de comunhão com outras pessoas nos quais
eles se encontram desobrigados de alguma função ministerial (aconselhar, orientar,
repreender, confrontar etc.). Também, como todo ser humano, pastores carecem de
descanso, férias, refrigério, restauração de projetos e entusiasmo em relação às atividades
ministeriais. Somente pela consideração da humanidade do pastor, ele e sua congregação
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poderão deixar de alimentar expectativas que são irreais e, algumas vezes, até
pecaminosas a respeito do ministério pastoral.

De fato, homens de Deus continuam sendo homens! Nessa condição humana, certamente
pastores precisam de cuidado, ainda que muitos deles não reconheçam isso!

2. Porque pastores também são ovelhas


As Escrituras afirmam que todos nós somos “ovelhas do Supremo Pastor” (cf. 1Pe 5.4).
Na linguagem bíblica, “ovelha” diz respeito àquele que segue o Cordeiro de Deus e faz
parte do rebanho que ele mesmo comprou com o seu próprio sangue (cf. At 20.28). A
ovelha reconhece sua completa dependência do Pastor para provisão, proteção e
propósito. Todavia, se a ovelha se desvia e se afasta do pastor, ela corre riscos de acidentes
e se torna presa fácil de lobos vorazes. Semelhantemente, se pastores esquecem que eles
também são ovelhas do Supremo Pastor, poderão cair em abismos teológicos, ter
comportamentos grosseiros e se tornar presas dos propósitos do maligno.

O ethos do relacionamento entre pastores com o Supremo Pastor é claramente expresso


nas Escrituras. Se os próprios apóstolos, que lançaram o fundamento da igreja, se
apresentaram como ovelhas do Supremo Pastor, os pastores atuais devem se lembrar que
o ministério pastoral só pode ser devidamente exercido quando alicerçado nesse princípio.
Dessa maneira, como ovelhas, pastores compreenderão a necessidade de pedirem ajuda e
se colocarem debaixo do pastoreio de outros.
Um bom exemplo dessa dinâmica pastor-ovelha-pastor pode ser visto no relacionamento
entre Paulo e Timóteo. Quando o apóstolo escreve ao seu “filho na fé”, Timóteo não se
encontrava mais como aprendiz aos pés do mestre, mas ele já pastoreava uma
congregação. Na primeira carta que recebeu, Timóteo foi incumbido de guardar o
Evangelho (1Tm 1.3-7), orar continuamente pelo rebanho (1Tm 2.1), conduzir a
congregação à prática correta do culto público (1Tm 2.8-10), instituir presbíteros e
diáconos segundo o padrão bíblico (1Tm 3.1-13) e zelar por manter o caráter de um
ministro do Evangelho (1Tm 6.11s). Em outras palavras, Timóteo era um pastor que
também era ovelha e, como tal, estava sob a supervisão de outro pastor. O apóstolo Paulo
era igualmente um pastor e uma ovelha que se submetia ao pastoreio do colegiado
apostólico e, em última instância, ao Supremo Pastor.
Sendo ovelhas, pastores também carecem de cuidados, orientações e correções. Eles se
encontram no mesmo processo de santificação que outros crentes e não são
autossuficientes. Todavia, primeiro eles precisam se conscientizar dessa realidade e
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depois, ajudar a igreja a compreender essa verdade. Como ovelhas, tanto os pastores como
seus familiares também carecem de pastoreio.

3. Porque homens santos vivem num mundo caído e maculado


Embora servos do Deus Santo e chamados para viver vida santa, os crentes em Cristo
exercem fé e obediência em um mundo caído e corrompido pelo pecado. Nessa condição,
o mundo é um sistema de princípio e práticas contrários a Deus e aos seus propósitos. Por
isso os apóstolos exortam os crentes a não amarem o mundo e nem a buscarem amizade
com ele (cf. 1Jo 2.15 e Tg 4.4). As dificuldades da vida nesse mundo caído são acentuadas
por João, que afirma: “o mundo jaz no maligno” (1Jo 5.19), ou seja, Satanás usa os
recursos desse mundo como instrumentos contra os servos de Deus.

O mundo caído se tornou um campo de aflições e distrações. Jesus lembrou os apóstolos


que o mundo é um habitat onde se experimenta aflições (cf. Jo 16.33). Essas aflições
podem ter causas gerais (epidemias, desastres, mortes etc.), pessoais (dilemas familiares,
perdas, etc.) e até espirituais (o ódio do inimigo contra os filhos de Deus, cf. Jo 8.44).
Além do mais, por ser a fonte da qual o ser humano extrai sua subsistência material, o
mundo pode, frequentemente, alimentar ansiedade no coração do crente, especialmente
no que diz respeito às necessidades básicas da vida (cf. Mt 6.19s). De fato, não há nesse
mundo caído nenhum “paraíso” que livre o crente de angústias e sofrimentos.

Também, as Escrituras apresentam o mundo atual como centro de distrações. Ninguém


contesta que existem encantos e prazeres nesse mundo. Na verdade, por ser o berço do
nascimento e desenvolvimento humano, o mundo acaba fascinando seus habitantes com
as atrações, a ponto de levá-los ao esquecimento com o mundo vindouro. No entando,
ainda que nos ofereça uma “visão encantadora”, a aparência do mundo passa (cf. 1Co
7.31). Outrossim, o fato de estar sob a maldição do pecado faz com que a apresentação
dos encantos do mundo sirvam à agenda distorcida resultante da queda e que atende às
inclinações da carne e ao propóstos do maligno. Portanto, os amigos do mundo se tornam
inimigos de Deus (cf. 1Jo 2.15) e os prazeres pecaminosos do mundo podem ter
consequências eternas (cf. Mc 10.23). Por essas razões, como embaixadores de Deus, os
interesses dos crentes devem estar acima das distrações do mundo (cf. 2Co 5.17).

Como cidadão do céu e também do mundo terreno, pastores são sujeitos às aflições e
distrações comuns ao mesmo. Dessa maneira, eles necessitam de pastoreio tanto para
serem confortados, quando aflitos, como para serem confrontados, quando se portarem
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como amigos do mundo. O processo de santificação do pastor não será completo nesse
mundo e os efeitos da queda afetam o contexto em que o ministro vive e a maneira como
ele responde a esse habitat.
4. Porque servos de Deus são, muitas vezes, tratados como empregados de homens
Pastores são servos. Aliás, o significado da palavra grega traduzida para o português como
“ministro” é servo ou assistente. Ademais, o termo “servo” é um dos mais importantes e
proeminentes nas Escrituras em referência àqueles que desempenham a liderança sobre o
povo de Deus (cf. 1Co 3.5). O próprio Senhor Jesus se apresentou como aquele que veio
para servir e não para ser servido (cf. Mc 10.45). Portanto, a liderança servidora de Jesus
se torna o padrão para todos aqueles que servem como ministros sobre o rebanho de
Cristo.

O exemplo e o ensino de Cristo indicam quais são as características cruciais de servo que
o pastor deve expressar para representar corretamente o Mestre em meio ao rebanho. Na
cerimônia do lava-pés, em João 13, o Senhor deixa claro que a eficácia do ministro não
deve ser avaliada pelo número de pessoas que ele controla, mas pelas pessoas a quem ele
serve. O líder servo é aquele que está disposto a se humilhar para ensinar outros o caminho
bíblico da expressão do amor fraternal. Além do mais, o próprio Jesus ensina que o servo
está disposto a oferecer sua pronta ajuda aos outros perguntando: “que queres que eu te
faça”? (cf. Mc 10.51). Em outras palavras, um servo deseja sempre ser um instrumento
de bênção para outros. Por último, Jesus ensina que o servo é aquele que diz de si mesmo:
“sou servo inútil, porque apenas fiz o que devia fazer” (cf. Lc 17.10). Dessa maneira, o
Senhor ensinou que o segredo da eficiência do servo é mortificar e crucificar seu próprio
ego! Conquanto difícil, o ministério do pastor como servo exige que ele siga o exemplo
e os ensinamentos do Supremo Pastor.

Todavia, um dos grandes problemas da missão do pastor como servo é o fato de que ele
serve a Deus servindo a igreja. É importante lembrar que a igreja não consiste de pessoas
plenamente santificadas, mas de pecadores redimidos em processo de trasformação.
Nesse contexto, não é raro que muitos membros dessa igreja, bem como outros líderes do
rebanho (co-presbíteros e diáconos), olhem para o ministro não como um “servo”, mas
como um “empregado”. Isso se torna mais fácil ainda pelo fato de que, como líder
docente, o pastor geralmente recebe honorários da igreja. Como geralmente aqueles que
pagam pela realização do trabalho se acham no direito de agirem como patrões dos que
recebem para executá-lo, a prática empresarial mundana acaba substituindo o preceito
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bíblico e alguns pastores sofrem por isso. Há pastores que são vigiados, mal remunerados
e humilhados. Isso afeta não apenas o ministro; sua família também é atingida.

Devido a alguns tratamentos injustos da igreja aos seus pastores, bem como de conflitos
de liderança envolvendo os mesmos, os ministros precisam de ajuda. Conforme o sábio
bíblico, “o coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos” (Pv
17.22). O ânimo de alguns pastores se encontra quase totalmente seco e por isso eles
necessitam de conselhos e orientações (cf. Pv 15.22). Ademais, eles também necessitam
ser exortados quando falham à fim de que caiam em arrependimento.

5. Porque aqueles que pregam o Evangelho também precisam ouvi-lo


Pastores são pregadores do Evangelho e isso é uma enorme bênção. O apóstolo Paulo
considerou esse ministério uma graça divinamente concedida a ele (cf. Ef 3.8). Esse
privilégio era considerado pelo apóstolo também como uma responsabilidade, pois ele
dizia: “ai de mim se não pregar o evangelho” (cf. 1Co 9.16). A alegria e a seriedade de
Paulo com respeito à pregação do Evangelho são explicadas pelo fato de que o “evangelho
é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (cf. Rm 1.16). Dessa maneira,
é apropriado afirmar que o pregador do Evangelho trabalha para a eternidade!

Todavia, no ministério pastoral é comum encontrar aqueles que pregam o Evangelho,


mas, por diversas razões, não o escutam regularmente sendo pregado. As demandas do
ministério são muitas e os ministros devem pregar várias vezes por semana, o que faz
com que muitos pastores reduzam a leitura da a Bíblia para encontrarem textos que serão
usados para a elaboração de sermões e não como alimento pessoal da divina Palavra.
Além do mais, alguns não possuem oportunidades de se sentarem para ouvir a pregação
de outro, pois se encontram sozinhos e em contextos nos quais têm que “fazer tudo e mais
um pouco”. No entanto, a exposição à pregação da Palavra por meio de outra pessoa é
um meio de graça que nenhum crente deveria menosprezar. A Palavra é um espelho
divino e por meio dele percebemos nossas falhas e carências, bem como as áreas nas quais
devemos crescer. Enfim, aqueles que pregam o Evangelho necessitam que o mesmo seja
pregado a eles.

Uma maneira muito factível do pregador receber diariamente as boas-novas sobre Jesus
é pregando-as para si mesmo. A frase “pregar o evangelho para si mesmo” pode ser
recente,[3] mas sua dinâmica é tão antiga quanto o Salmo 42. Nesse salmo, o escritor
exorta a sua alma a não se deixar dominar pelo abatimento, mas esperar em Deus (cf. Sl
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42.5 e 11). De certa forma, ao pregar para si mesmo esperança e dependência no


Altíssimo, o salmista pregava para si a mensagem do Evangelho.
Contudo, pregar o Evangelho para si mesmo é mais do que um jargão. Isso implica em
encarar diariamente seus próprios pecados e, concomitantemente, correr para Jesus em
fé, buscando purificação no seu precioso sangue e viver em dependência daquele sem o
qual nada se pode fazer. São boas-novas de aceitação e transformação para o pecador.
Também, a mensagem do Evangelho conclama o pecador a zelar por viver vida santa
diante de Deus e dos homens, trazendo a promessa da recompensa eterna. Nenhum crente
suporta viver sem essa mensagem bendita, nem mesmo o pastor. Portanto, é necessário
que o ministro do Evangelho pregue para si mesmo diariamente.

Alguns pastores, por se esquecerem da mensagem do Evangelho e deixar de aplicá-las a


si mesmos, acabam desenvolvendo estilos arrogantes e soberbos de vida ministerial. De
alguma maneira eles pensam que o crescimento da igreja ou o sucesso do ministério
depende deles! Por outro lado, alguns, por se esquecerem das exigências do Evangelho,
acabam cultivando o pecado em suas vidas, tornando-se mais amigos do mundo do que
do Deus a quem eles foram vocacionados para servir. O resultado de ambas as atitudes é
trágico para o obreiro, sua família e a igreja de Cristo. Por isso, pastores precisam que o
Evangelho seja pregado a eles! De maneira particular, essa “pregação” ocorre
especialmente quando eles são aconselhados, pois nessas ocasiões, o ministério da
palavra é direcionado ao problema específico que está sendo enfrentado pelos mesmos.

Até o momento foram analisados cinco tópicos que explicam a razão pela qual pastores
necessitam de ajuda. Nenhum ministro pode se dizer acima dessas condições ou imune a
essa carência. Portanto, a melhor pergunta talvez não seja em relação à importância de
pastores serem ajudados, mas qual o melhor modus operandi para se prestar essa ajuda.
Como já foi mencionado acima, nesse processo, toda a igreja e especialmente os
secretários de apoio pastoral devem estar envolvidos.

– Valdeci Santos

[1] ATA da REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA DO SUPREMO CONCÍLIO 1999, p. 12.


Disponível em: http://www.executivaipb.com.br/a-ipb/atas-ce-e-sc/. Acesso em:
31.10.2014.
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[2] TRIPP, D. Paul. Vocação perigosa: Os tremendos desafios do ministério pastoral. São
Paulo: Cultura Cristã, 2014. p. 27-29.
[3] Supostamente atribuída a Jerry Bridges, ela provém dos conselhos sábios de Jack
Miller ao escritor que lhe disse: “Pregue o evangelho a si mesmo cada dia”. BRIDGES,
Jerry. The discipline of grace. Carol Stream, IL: NavPress, 2006. p. 8
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PASTORES AVALIANDO A SI MESMOS

O pastorado é uma vocação desafiadora e que, por vezes, conta com


muitas demandas impostas por pessoas que lutam com problemas e
circunstâncias indesejados. Portanto, é muito importante que o ofício
de pastor seja preenchido por aqueles que são verdadeiramente
vocacionados por Deus para esse ministério. Além do mais, é
imprescindível que essas pessoas tenham deleite no trabalho que
executam. No entanto, alguns pastores, ainda que verdadeiramente
vocacionados, não possuem mais alegria no ministério por terem
perdido o enfoque principal do mesmo. E por essa razão, acabam
dedicando tempo, esforço e habilidades em outras atividades para as
quais não foram vocacionados.

Este artigo é uma tentativa honesta de ajudar os pastores a


focalizarem os aspectos do ministério que sejam mais proveitosos e
benéficos para eles mesmos e para o rebanho que pastoreiam. Por
outro lado, as perguntas seguintes ainda visam a conscientizar e
esclarecer obreiros quanto a aspectos do ministério que carecem maior
atenção.

A EXPERIÊNCIA MINISTERIAL:

Há quanto tempo você é pastor?

Seu ministério é uma posição integral ou parcial?

Você é um pastor titular ou auxiliar?

O que você mais gosta no pastorado?

O que o motiva mais do que qualquer outra coisa no ministério?

O que você não gosta muito no pastorado?

Como Deus o vocacionou para a função de pastor?

Você acredita que as pessoas o vêm como alguém acessível?

A igreja/congregação que você pastoreia tem crescido ou diminuindo


nos últimos 3 anos?

Se está crescendo, quais são, em sua opinião, as principais razões para


esse crescimento?
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Se não está crescendo, quais são, em sua opinião, as principais razões


para esse decréscimo?

Qual área ou assunto necessita melhorias ou mudanças no exercício do


pastoreio?

Você mantém um espírito ensinável como pastor? Sua esposa concorda


com sua avaliação a esse respeito?

Qual é a ênfase principal da sua pregação?

Como você lida com as críticas que recebe? Você já observou a maneira
como você reage às críticas recebidas?

Há pessoas que você ainda não é capaz de perdoar? Se há pessoas que


você ainda não conseguiu perdoar, o que você acha que deveria fazer
a respeito?

Você ama pessoas? Gosta de estar perto delas? Tem prazer em atendê-
las em suas necessidades?

Você tem uma perspectiva clara de onde Deus quer que você conduza
o seu rebanho? Como é o seu relacionamento com as pessoas com
quem compartilha a liderança da igreja?

Qual é a sua atitude em relação ao dinheiro? Você é econômico,


generoso ou gastão?

VIDA PESSOAL E FAMILIAR:

Você tem uma vida devocional regular, ou seja, gastar tempo pessoal
em oração e estudo da Palavra de Deus?

Você tem boas disciplinas em sua vida?

Você sabe quando dizer “sim” e quando dizer “não” para as pessoas?

Se você se deparasse com problemas pessoais, com quem você poderia


conversar mais livremente?

Quão aberto e honesto você é como pessoa?

Você se certifica de passar tempo de qualidade com sua esposa e


filhos?

Você possui algum hobby ou passatempo com o qual possa “refrescar”


a mente? Qual?

Valdeci Santos