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i\S°ffRIO DO EXiRc,
""'" '"o
SECRETARIA GERAL DO EXÉRCITO

~ .--
FRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

A GUERRA DO PARAGUAY
NA

MEDALHISTICA BRASILEIRA

These
approvada unanimemente na 5." sessão plenaria do
PRIMEIRO CONGRESSO DE NUMISMA TICA BRASILEIRA
(24 de Março - 2 de Abril de 1936)

Edição do Autor

SÃO PAULO
TYP. SIQUEIRA - Rua Libero Bndar6, 557
1937
A

GUERRA DO PARAGUAY
NA

MEDALHISTICA BRASILEIRA
-~ í· . . i. !

. ''

SEPARATA dos ' ·Annaes do Primeiro Congresso


de N urnismatica Brasileira"
Do Aulor:

"MEDALHISTAS BRASILEIROS", conferencia


realisa da em 27 de Março ele 1936, no Instituto Histo-
rico e Geog rnphico ele São. Paulo, por occasião DO
PRIMEIRO CONGRESSO DE NUMISMATICA
BRASILEIRA.
PARECER
do DR. ALVARO DA VEIGA COIMBRA
sobre a these

"A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BRASILEIRA"

Convidado que fui, num momento de inconsciencia bondosa


do Illustre Presidente do l.° Congresso de Numismatica Brasileira,
para dar o meu parecer technico sobre a these apresentada pelo
nosso não menos illustre collega, Snr. Francisco Marques dos Santos,
quero ·desempeuhar-me desta missão á altura da responsabilidade
que assumi, em acceitar o cargo de critico de um dos mais bellos tra-
balhos apresentados neste Congresso.
Inconsciencia bondosa, disse ha pouco, porque, Snr. Presidente,
ha nesta casa pessoas de maior representação na Numismatica
Brasileira e que, portanto, com maior acerto, poderiam esboçar um
parecer ·sobre um trabalho que, alem de ampliar o brilho deste Con- - ·
gresso, vem rememorar factos historicos da vida Brasileira, no
heroísmo incandescente de seus homens.
A optima coordenação de idéas ligadas aos mais importantes
factos da Historia Brasileira na guerra do Paraguay, é, em summa,
o trabalho com que se apresenta, neste Congresso, o Sm;. Francisco
Marques dos Santos . Illustrado com as mais variadas medalhas
mandadas cunhar naquella época, para serem offerecidas aos nossos
her6es ou para representar uma serie de heroísmos Brasileiros, o
trabalho do illustre Congressista é, acima de tudo, uma . cooperação
onde se espelha o seu amor á nobre arte da Numismatica e uma
valiosíssima peça historica; somente a b8a vontade e os conhe-
cimentos do autor da these, poderiam realisar tão bello trabalho .
O meu parecer é que o Congresso de Numismatica Brasileira
felicite o Snr. Francisco Marques dos Santos pela sua bellissima
idéa e o tenha entre os que, com as varias especies de cooperações,
collocaram este Congresso num nível elevado de cultura, para gloria
de S . Paulo, na gloria maior ainda do Brasil.

S. Paulo, 1 de Abril de 1936.

Alvaro da Veiga Coimbra


Estamos convencidos de que, sobre um determinado
assumpto, jamais se escreve definitivamente. No entantc';,
esperamos ter sido minucioso nesta Memoria - A Guer-
ra do Paraguay na llfedalhiJ"tica BraJ'ileira, - que apre-
sentamos ao Primeiro Congresso de Numismatica Bra-
sileira.

Rio d~ Janeiro, Dezembro de 1935.

Francisco Marques dos Santos


A' MEMORIA DE DOM PEDRO II,
AOS HEROES BRASILEIROS,
AO BRASIL DE TODOS OS TEMPOS!
O Imperador Dom P edro II fardado de Voluntario da Patria
A GUERRA DO PARAGUAY
NA MEDALHISTICA BRASILEIRA

Com a presente Memoria, especialmente elaborada para o Primeiro Con-


gresso de N umismatica Brasileira, descrevemos as ultimas medalhas militares
conferidas no Imperio e relativas á Guerra do Paraguay.
Essas medalhas, como as demais, pendiam das fardas sem que os Decretos
determinassem a f6rma. Geralmente, os agraciados prendiam cada medalha ao
uniforme por meio de uma fivella dotada de alfinete na parte inferior.
Os officiaes generaes usavam medalhas de duplo diametro pendentes do
pescoço por fitas mais largas, presas atraz da g6la dos fardões, por colchetes ou
chapas de ouro.
As datas dos Decretos creando medalhas não coincidem com as dos respe-
ctivos feitos militares. A resolução de conferil-as apparecia, ás vezes, muito
tempo depois.
Por via de regra, taes insígnias eram usadas do lado esquerdo do peito.
Fizeram excepção: a Medalha de Bravura, cunhada e não distribuida, que _ qe.
veria pender do lado direito; a l\1edalha de Uruguayana foi usada do lado
direito pelas. patentes mais graduadas. A' esquerda usavam-na as praças de
prêt e outros agraciados, conforme se lê adiante.
Cumpre frisar que as recompensas aos bravos não consistiam apenas na
concessão de Medalhas Militares. Os mais destacados, officiaes, soldados ou
marujos, eram promovidos ou agraciados com as Ordens Honorifiças do Imperio :
- de Christo, de A viz, da, Rosa, e .do Cruzeiro. (vide diploma reproduzido
na pagina 73)
Muitas patentes do Exercito, da Marinha, da Guarda Nacional e dos Vo-
luntarios da Patria obtiveram postos nobiliarchicos por serviços de guerra.
Por exemplo :
Luiz Alves de Lima e Silva, Marquez de Caxias, foi elevado ao titulo ma-
ximo, de Duque, e fez jús ás gran-cruzes da Rosa (effectiva), do Cruzeiro e de
Pedro I, pelos serviços prestados na Guerra do Paraguay.
Manoel Luis Osorio teve Baronato e Viscondado, com grandeza, e o titulo
de Marquez do Herval. E com que bravura fez jús a tão nobres galardões l
Manoel Marques de Sousa, Visconde, com grandeza, de Porto Alegre, foi
elevado a Conde do mesmo titulo.
Joaquim José Ignacio fez jús aos titulas de Barão e Visconde, com grande-
za, de Inhaúma, em recompensa de serviços.
Francico Manuel Barroso, o immortal heroe de Riachuelo, foi, por c;irta
imperial de 13 de Janeiro de 1868, agraciado com o titulo de Barão do Amazonas,
14 FRANC ISCO MARQUES DOS SANTOS

com as honras de grandeza. A Ordem do Dia n. 0 3, do Visconde de Tamandaré,


datada de 7 de Março de 1866, de bordo do "Apa", em Corrientes, transcreve
parcialmente a referida carta. Nella o Imperador declarava que, tendo em con-
sideração os relevantes serviços prestados por Barroso na Campanha do Estado
Oriental e na que se iniciava contra o Governo. do Paraguay, e querendo di~­
tinguil-o e honral-o, havia por bem fazer-lhe mercê do titulo nobiliarchico aeima.
~'E Ouer e manda que o dito chefe de divisão Francisco Manuel Barroso, da-
quella data em diante se chame Barão do Amazonas, e que com o referido titulo
g6ze de todas as honras, privilegios, liberdades, isenções e franquezas que hão
e tem e de que usam e sempre usarão os Barões com Grandeza, e que de direito
lhes pertencem". Em consequencia, S. Ex. o Snr. chefe de divisão Francisco
Manuel Barroso assignou até á morte : Barão do Amazonas 1
Angelo Muniz da Silva Ferraz, Ministro da Guerra, foi agraciado com o
titulo de Barão, com grandeza, de Uruguayana, por ter acompanhado o Impe-
rador ao Sul, em 1865, assistindo á rendição daquella praça.
Francisco Xavier Calmon da Silva Cabral, tenente general, ajudante de cam-
- pode Dom Pedro II, acompanhou-o na viagem ao Sul; dahi o seu titulo de Barão
de Itapagipe.
Antonio Augusto de Barros e Vasconcellos, da Guarda Nacional da Pro-
vincia do Maranhão, veio do Paraguay commandando uma bri~ada de Volun-
tarios, e lhe foram concedidas as honras de brigadeiro honorario e o titulo dE;
'Barão de Penalva.
Francisco Antonio Lourenço de Araújo, nascido no engenho de Sergy,
em Santo Amaro (Bahia), com o seu batalhão, o 16 de Voluntarios da Patria,
tomando parte em muitas batalhas; ostentou o titulo de Barãp de Sergy.
José da Cunha Lustoza, commandante superior da Guarda Nacional de
Paranaguá (Piauhy), foi para o Paraguay com.mandando um bata,lhão de Volun-
tarios e foi agraciado com o titulo de Barão de Parahim.
O Dr. José Maria Barreto, commandante superior da Guarda Nacional
de São Luiz (Maranhão), commandou uma brigada de Voluntarios, .tendo "ªº
regressar mercê do titulo de Barão de Anajatuba.
Victorino José Carneiro Monteiro, marechal de Campo, foi o Barão de Sã-o
Borja. Os coroneis da Guarda Nacional do Rio Grande, Vasco Alves Pereira,
João Nunes da Silva Tavares e Bento Martins de Menezes foram nomeados
brigadeiros honorarios e agraciados, respectivamente, com o titulo de Barão
de Sant'Anna do Livramento, de Itaqui e de Ijuhy.
Acima citámos alguns nomes, '}Jorgue extensa é a relação dos bravos agra-
ciados com títulos nobiliarchicos.
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BRASILEIRA 15

PRIMEIRA PARTE

Medalhas militares brasileiras da Guerra do Paraguay :


Forte de Coimbra ·
Creada por Decreto 3492 de 8 de Julho de 1865.
Rendição de _Uruguayana
Decreto 3515 de 20 de Setembro de 1865.
Combate Naval do Riachuelo
Decreto 3529 de 18 de Novembro de 1865.
Bravura, "Aos mais bravos"
Decreto 3853 de 1. 0 de Maio de 1867.
Ma tto Grosso
Decreto 3926 de 7 de Agosto de 1867.
Passagem de Humaytá
Decreto 4118 de 14 de Março de 1868. -
Merito Militar
Decreto 4131 de 28 de Março de 1868.
Geral da Campanha
Decreto 4560 de 6 de Agosto · de 1870.
V

SEGUNDA PARTE

Medalhas militares uruguayas e argentinas conferidas ás tropas


brasileiras, na guerra do Paraguay :
Yatay
Uruguaya, conferida ás nossas tropas e de uso autorizado pelo Aviso
do Ministerio do lmperio de 19 de Dezembro de 1865.
Corrientes
Argentina, cujo uso foi permittido ás nossas tropas pelo Aviso
do Min isterio do Imperio de 9 de Março de 1867.
Argentina e Uruguaya, ambas decorrentes do Protocollo do .Rio de Janeiro
de 13 de Maio de 1888, como adiante se lerá.

TERCEIRA PARTE

Distinctivo de Voluntario da Patria e Medalhas Commemorativas


Brasileiras cunhadas em razão da Guerra do Paraguay.
Commemorativa da Rendição de Uruguayan'a (1865).
Chegada de Dom Pedro II á Corte, vindo de Uruguayana, em 9 de Novembro de 1865.
Medalha dedicada ao Exercito e á Armada (1866).
Terminação da Guerra do Paraguay, 1 de Março de 1870.
Medalha offerecida ao Conde d'Eu pelos empregados da Casa da Moeda, 1871.
PRIMEIRA PAR TE

MEDALHAS MILITARES BRASILEIRAS


DA GUERRA DO PARAGUAY
MEDALHA DO FORTE DE COIMBRA

Dando inicio á descripção e historico das medalhas da Guerra do Paraguay


trataremos em primeiro lagar da conferida aos valorosos defensores do Forte
de Coimbra.
O Forte de Coimbra ufana-se de bella Historia 1 (1)
Pelo Sul de Matto Grosso, começou a, invasão paraguaya, dirigida pelo
Cel. Resquin.

Medalha
de
Official Superior

O Forte era a chave da Provincia. Nenhum nav10 poderia subir o Rio


Paraguay, na parte brasileira, sem lhe dar combate e vencel-o.
A Provincia achava-se inteiramente desguarnecida. Em toda a sua exten-
são existiriam 1300 soldados. A força naval existente, commandanda pelo Ca-

(1) - O Presidio e Fórte de Nova-Coimbra foi fundado em 1775 pelo C apitão Mathias Ri-
beiro da Costa, governando a Capitania de l'vlatto Grosso o C ap itão-General Dom Luiz
de Albuquerque de .l\'lello Pereira e C aceres.
Dois annos depois, um incendio destruía os ranchos e quarteis, salvando-se apenas o
paiol da polvora. Em começo do anno de 1791, os indios Guaycurús atacam Coimbra,
victimando grande parte da guarnição .
Em 1797, ao tempo em que Matto Grosso era governada pelo C apitão-General Cae-
tano Pinto de Miranda Montenegro, ha reconstrucção, pelo engenheiro militar, Tte-
CeL Ricardo Franco de Almeida Serra .
Em 1801 o Fórte foi acommettido por uma esquadrilha hespanhola, sob o commando
de Dom Lazaro Ribera, Governador do Paraguay. Commandava-o o Tte-CeL Ri.c ardo
Franco de Almeida Serra, que ultimava as obras . Ribera enviou ao commandante afre-
20 FRANCISCO MARQUE ' DOS AN.TOS

pitão de Fragata Castro Menezes, constava dos navios "Anlzambahy", "Cuya-


ba,,, , "J,auru,,, , " n"lpna
I ))
e "Corum ba,,, , t o d os sem art ilhana,
. apenas o primeiro
. .
armado com duas peças de 32. A guarnição total andava por 100 marinheiros 1
Cerca de 230 soldados da Guarda Nacional f8ram mobilizados, e os vapores
. auru'" , "Cuya ba"' e "Corum ba'" tº·1veram ord em d e es t acionar
''J, . . t·o ao F or t e.
JUn
Commandava a pequ~na guarnição da fronteira o Coronel Hermenegildo
de Albuquerque Porto Carrero.
A divisão Barrios atacou o Forte de 26 a 28 de Dezembro de 1864, sendo repel-
lida pela guarnição, auxiliada pelo "Anltambah,y", o nosso unico navio arti1hadoe

Medalha do
Forte de CoimLra,
conferida aos C a[litães e
Suba 1ternos, e respectiva
miniatura , feitas pelo
joalheiro Victor Resse.

tripulado por 34 homens, na maioria meninotes da Companhia de Aprendizes


Marinheiros. A actuação desse navio foi entretanto apreciavel, pois num disparo
matou o tenente Gregorio Benitez, com.mandante do navio inimigo "Yporá".
Os paraguayos dispunham de 54 peça!? de artilharia, e guarnições adextra-
das, nos navios "Rio Branco", "Yporá", 'Taquary", "Igurey", . "Paraguary"
e mais embarcações com que atacaram esse porto da fronteira.
O Forte era guarnecido por 10 officiaes, 1 cirurgião, 99 praças, 10 indios,
4 vigias da Alfandega, 4 civis e 17 presos.

vida intimação, datada de 17 de Setembro, de bórdo da goleta "No.r.ra Scnfzora do Carmo".


Sua frota constava de duas goletas e quatro sumacas de dois canhões por banda, e 20
canôas tripuladas po r 600 homens.
Repellida com dignidade a intimação, o inimigo tentou apoderar-se do F6rte durante
uma semana, retirando-se finalmente, com grandes perdas l Na "Historia de Matto
Grosso" o Barão de Mel~aço diz que a guarnição do Fórte era de llÓ homens, tendo
s6 uma peça de artilharia.
O professor Antonio Leoncio Pereira Ferraz publicou na "Revista do Instituto Histo-
rico e Geographico Brasileiro", em 1930, um valioso trabalho, ".Memoria sobre as Forti-
ficações de Matto Grosso", onde se acham reunidos, em detalhe, utilissimos· informes
sobre o F6rte de Coimbra, que desde o seu inicio, estava faQado a ser baluarte de he-
ro1smo.
A GuERRA no P AR AGUAY NA l\1EDALTII S TICA BRA, TLEmA 21

A canhoneira "Anhambahy", quando a flotilha paraguaya dese~barc.ava


t ~ opas de ataque, postou-se no meio do canal, acima do Forte, e rompeu fogo
cerrado, occasionando ao inimigo sensiveis perdas.
O assalto começára ao meio dia de 27 e durou até a noite. A 28 o inimigo
recomeçou o assalto, sem effeito decisivo, embora os tiros de seus canhões v isassem
a abertura de uma brecha nas muralhas do Forte e o a rrombamento do portão
principal, renovando-se as tentativas frustradas de escalar os paredões. A'
noite o gene~al Barrios ordenou a retirada. O coronel Porto Carrero mandou
proceder a reconhecimento.
Fizeram-no o Capitão Augusto Conrado e o Tenente Oliveira Bello, os quaes
voltaram trazendo espingardas e feridos. No espaço que percorreram contaram
uma centena de cadaveres.
As munições escasseavam. O C el. Porto Carrero -reuniu um Conselho de
Guerra em que tomou parte o l. 0 Tte. Balduino de A guiar, bravo commandante
do "Anhambahy".
No primeiro dia do ataque havia 12.000 cartuchos para a infantaria, mas na
resi stenc:ia do dia immediato fôram gastos 9.000. Durante a noite de 27 as fa-

,-

Desenho da medalha do Fórte de Coimbra, approvado pelo Ministro da Guerra, Angeló


Muniz da Si lva Ferraz (Archivo a cional).
22 F RANCISCO M AR QU E S DOS S AN TOS

milias dos officiaes trabalharam na fabricação de 6.000 cartuchos. No dia 28


restavam 1.000, e toda a tropa estava exhausta.
A opinião do Conselho foi de que se ab.andonasse o Forte, retirando-se a
guarniç'ão para Albuquerque e Corumbá, transportada na "Anham.bahy". Em
caminho encontrou o "Jaurú", que havia subido o Rio em busca de reforços.
Nos ataques contra o Forte de. Coimbra os paraguayos perderam cerca
de 400 combatentes.
Por decreto 3492, de 8 de Julho de 1865, referendado pelo Ministro da
Guerra Angelo Muniz da Silva Ferraz, sua Majestade o Imperador Dom Pedro
II concedeu o uso de uma medalha á guarnição defensora do Forte, attendendo
ao valôr e intrepidez com que se houve na resistencia opposta ao ataque dos
paraguayos.
Conforme desenhos e ~strucções baixadas com o Decreto, todas as praças
de linha e Guarda Nacional da Guarnição do Forte usa riam a medalha pen-
dente de uma fita da largura de dois dedos, ou 31 mms., com tres listas iguaes,
preta a do centro e encarnadas as extremas.
Os officiaes superiores trariam medalhas de ouro de 16 linhas de niodulo.
Os capitães e subalternos, de prata, com 11 linhas. As praças de pret, de uma
liga de cobre e estanho do mesmo modulo. Essas medalhas eram ovaes, me-
dindo 25 X 20 mms.
As medalhas seriam, para todos os agraciados, usadas do lado esquerdo
do peito. Representavam no anverso : entre dois ramos de louro a legenda :
Valor I e I L ealdade. No reverso, em sete linhas, os dizeres: 26, 27, 28 j de 1
Dezembro 1Forte 1de1Coimbra l 1864. Foi executada pelo Sr. Victor Resse que
em 13 de Novembro de 1874 offereceu um exemplar de prata ao m edalheiro da
Casa da Moeda.
Os individuas a quem fosse concedido o uso da medalha, não podiam tro-
car as de um pelas de outro gráo, mas sempre e em fodo o tempo usariam
aquella que fosse corr:espondente ao posto ou praça que occupavam na época
da defesa do Fórte de Coimbra.
Por Decreto 4158 de 21 de Abril de 1868, referendado pelo Ministro da
Marinha, Affonso Celso de Assis Figueiredo, foi a medalha concedida aos offi-
ciaes e praças da frotilha de Matto Grosso, attendendo ao valôr e denodo de
que déram provas na resistencia opposta ao ataque dos paraguayos nos dias
26, 27 e 28 de Dezembro de 1864.
A GUERRA DO p ARAGUAY NA l\1EDALHIST ICA B RASILEIRA 23

MEDALHA DA RENDIÇÃO DE URUGUAYANA

Nosso enthusiasmo em colleccionar medalhas militares não consiste na


posse de frios discos de metal 1 Ellas transcendem. 1 Têm a grandeza dos
monumentos de praça publica. _ Evocam-nos os surtos de bravura~dos patriotas.

Medalhas da Rendição de Uruguayana. A l.", feit a n a Casa da Moeda .


A 2.• e a miniatm·a, feitas pot• Victor R esse.

O Imperador, em 30 de Junho de 1865, reumu o Conselho de Estado e


decidiu partir para o Rio Grande do Sul. Recebera, naquella data, o M agna-
nimo, pelo transporte de guerra "Oyapock", a noticia da invasão paraguaya na
fronteira de São Borja. Em compensação, trouxera aquelle navio as noticias
do e:xito de Riachuelo.
A 10 de Julho, a 1 hora da tarde, pelo vapor "Santa llf.aria", partiu d. Pe-
dro II da C8rte, acompanhado do genro, · o Dugue de Saxe, do Ministro da
Guerra, dos Generaes Marquez de Caxias e Cabral, seus ajudantes de campo,
24 F RANcrsco MA1iQuEs nos SAN'ros

do General Beaurepaire Rohan, do chefe de esquadra Almirante Joaquim Ray-


mundo de Lamare, designado pelo Imperador para acompanhar o Duque de
Saxe, dos senhores Pinto de Mello e Lisbôa, do Cirurgião Mór da Armada e
de um dos medicas da Casa Imperial, Dr. Meirelles, e demais personagens,
auxiliares da comitiva.
Chegou ao Rio Grande a 16 de Julho, onde fez a seguinte proclamação :

"Viva a Nação Brasileira 1


Rio Grandenses 1

"Sem a menor prov ocação, é por. ordem do Governo do Paraguay invadido


segunda vez o territorio de nossa Patria. Seja vosso unico pensamento o vin-
gardes tamanha afronta, e todos nos ufanaremos cada vez mais dos brios e
denodo dos brasileiros.
"A rapidez das communicações entre a Capital do Imperio e a vossa Pro-
víncia permitte a mim e a meus genros, meus novos filhos, presenciar vossos
nobres feitos.
"Rio Grandenses 1 Falo-vos como pae, que zela a honra da Familia Brasi-
leira; estOu certo de que pr·ocedereis como irmãos, que se amam ainda mais
quando qualquer delles soffre.
"Palacio do Rio Grande do Sul, 16 de Tulho de 1865 . Dom Pedro II, Im-
perador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil".

Disse o historiador Pereira da Costa, em sua bella obra sobre a Guerra do


Paraguay : "A viagem de Sua Majestade foi tão forçada e feita debaixo de
tempo tão rispido, que os proprios soldados rio-grandenses que iam com S. M.
mal resistiam. O Imperador reconhecia a necessidade urgentissima de chegar
a Uruguayana a tempo de dirigir as operações. Os grandes sacrificios que
fizeram, as verdadeiras privações que o Imperador e os principes soffreram, a
ponto de passarem 24 horas sem tomar alimento, são factos que o paiz sabe e
que jamais ·olvidará".
A 4 de Agosto, ao cabo de penosa viagem de m<:iis de 400 leguas a cavallo,
durante 56 dias, a comitiva imperial chegou ao acampamento do nosso Exer-
cito na manhã do dia 11 de Setembro de 1865.
Segundo o Tratado de Alliança, cada potencia tinha a direcção suprema
das tropas que operavam no seu territorio ; e, quando entrasse em territorio
inimigo, teria o Presidente da Republica Argentina por generalissimo. Em
Uruguayana exercia o commando em chefe do Exercito Alliado sitiante o Gene-
i:al Barão de Porto Alegre.
A G UERRA no P ARAGU.A.Y N A l\llEnALH ISTI CA BRASILE IB.A. 25

O Barão, no dia 16, tinha pensado em fazer avançar a nossa artilharia e


infantaria ao alcance das trincheiras inimigas, para lhes dar combate. Passára-
se um mez desde a peleja de Restauraci6n, e ainda não se havia dado contra
Uruguayana um unico tiro de canhão l
Deveria realizar-se o a taque no dia 17, mas, por procrastinação dos nossos
Alliados, ficára decidido fazel-o a 18. Neste dia, pela manhã, eram grandes
os aprestos para o combate ao inimigo. Ao meio dia, o Exercito Alliado ali-
nhava-se a léste da Villa.
Antes, porém, do ataque, foi pela ultima vez enviado um emissario pro-
pondo a rendição sem condições, e dando a Estigarribia o praso de duas horas.
Fizera este uma contra-proposta, ou sejam as condições que recusara 18 dias
antes : que os officiaes conservassem as espadas e pudessem domiciliar-se onde
quizessem, ficando s6 as praças de pret prisioneiras de guerra.
O Imperador conferenciou, então, com os Chefes Alliados, juntamente
com o nosso Ministrá da Guerra, o Barão de Porto Alegre e o Visconde de
Tamandaré. Exigiu-se que officiaes e soldados se rendessem sem armas.
O Ministro Ferraz foi levar ao inimigo estas condições.
Ap6s algum tempo, apresentaram-se ao Imperador Estigarribia e o padre ·
Duarte, mentor da expedição, ambos fazendo -se recommendar á clemencia im-
perial.
Antes de entrar na cidade, os nossos generaes resolveram que o Impe-
rador veria desfilar sem armas o exercito inimigo. E os chefes alliados tomaram
Jogares ao lado de Dom Pedro II ; dando-se inicio ao desfile de 5.000 soldados
e officiaes.
A medalha de Uruguayana lembra uma acção nobilíssima de exercito:;;
conscientes, cheios de virtudes e glorias marc1aes. Tres chefes de Estado, o
Consolidador de um Imperio, o Unificador de uma grande Republica e o Pre-
sidente de uma Republica pequena, porém, grandiosa nos seus ideaes l Tal
era a estirpe em volta de Uruguayana.
A elevação dos sentimentos irmanados de altas figuras que se vincularam
em Triplice Aliiança, é claro, não desejava fazer jorrar sangue de gente brava,
embora fanatisada por espírito doentio.
E Uruguayana se rendeu sem baptismo de sangue l Dom Pedro II e seus
Alliados, seus Estados Maiores, assistiram ao desfile daquella multidão desar-
mada. Exemplo de guerra humanitaria, poupando e protegendo vencidos,
impondo-lhes unicamente submissão e disciplina. Sete regimentos de infan-
taria e um corpo de cavallaria do Exercito Paraguayo depuzeram as armas,
sem um tiro, ás quatro horas da tarde do dia 18 de Setembro de 1865.
26 FRA. CISCO MARQUES DO . SA N TOS

Os Brasileiros e seus Alliados alcançaram, naquella bucolica região do


Rio Grande do Sul, tão ii;icruenta quão brilhante victoria, sobre um corpo do
Exercito Paraguayo que tinha penetrado pelo passo de S. Borja, e foi posto
em cerco com o seu comrnandante Estigarribia.
Diz o Conde d'Eu, na "Viagem Militar ao Rio Grande do Sul", in Rev .
do lnst. Hist. e Geogr. Brasileiro", _;ol. 139, pag·. 224 : "Mas o que sobretudo
parecia o cumulo do ridículo á vista da tropa paraguaya, era a lembrança das
respostas que por mais de uma vez déra Estigarribia ás nossas propostas de ren-
dição, sobretudo aquella em que elle dizia textualmente que, si 600 espartanos
tinham morrido nas Therrnopylas pela honra de sua Nação, 6.000 paraguayos
não deixariam cefazer outro tanto em Uruguayana, e que, quanto á nossa arti.,
lharia, lhes era favoravel, porque o fumo que fizesse os abrigaria dos raios do
· sol".
Não foram só estes os louros de Uruguayana. Quatro dias depois, a 22,
pelas 4 horas da tarde, chegava áquella cidade, procedente de Buenos Aires,
Sir Edward Thornton, Ministro de Sua Majestade a Rainha da Inglaterra,
acompanhado do Secretario Barreto, (1) em logar do Ministro F. Octaviano,
enfermo na occasião.
O diplomata britannico, chegando a Uruguayana, escreveu uma carta ao
Ministro da Guerra Angelo Muniz da Silva Ferraz, dando conta da missão
especial, esperando que Dom Pedro II lhe marcasse dia e hora para apresen-
tação de credenciaes.
Silva Ferraz dirigiu-se ao acampamento do nosso monarcha e respondeu
por escripto que S. M. rnarcára o dia 23 ao meio dia para recepção.
A noite de 22 passou Sir Edward hospedado pelo Almirante Visconde de
Tamandaré, no "Onze de Junho", lindo vapor comprado para transporte de
tropas, e momentaneamente sob o pavilhão de Tamandaré.
A' s 11 1/2 da manhã o plenipotenciario inglez, envergando fardão diplo-
ma fico, com a commenda da Ordem do Banho, acompanhado do Ministro da
Guerra, dirigiu-se em carruagem, escoltada por um esquadrão de cavallaria,

(1) - Jarbas Muniz Barreto - Secretario da Missão Especial do lmperio junto ás Repub licas
do Prata, amigo particular .de Mr. Thornton, cunhado do Ministro Francisco Octaviano.
Barreto casou com clistincta senhora argentina, ainda viva, com 90 e poucos annos. Dei-
xou filhos que, argentinos de nascimento, conservam acendrado amor á terra de seu Pae
e aos p a rentes que t~m no Brasil. Não podemos deixar de citar, entre elles, a Antonio
Muniz Barreto, nosso estimado Amigo, que, quando vem ao Rio, vae a Itaborahy -visi-
tar o antigo solar dos Duque Estrada s, dos Furtados de Mendonça . Vae a Columbandê,
vêr, na capeUa setecentista da Fazenda, os tu=ulos dos parentes Ribeiro de Magalbães,
faUecidos no seculo passa do . '
A GUERRA DO PAH.AGUAY NA JYIEDALH ISTICA BRASILEIRA 27

ao acampamento imperial, onde fôra armada uma barraca, com velas e bandei-
ras dos navios da esquadra.
Serviu de introductor o ajudante de campo, General Cabral.
Dom Pedro II collocára-se ao fundo da tenda, trajando grande uniforme,
com a grã-cruz do Cruzeiro : placa ao lado esquerdo do peito, largo fitão a ti-
racollo da direita para a esquerda, pendente a insignia da Ordem. Ao lado os
principes Conde d'Eu e Duque de Saxe, a~ompanhados da comitiva imperial,
e os commandantes de todos os corpos do Exercito e Ma rinha, cada um ves-
tindo o melhor possivel e ostentando condecorações.
Introduzido com as formalidades protocollares, depois de tres reverencias
de estylo, pronunciou Sir Edward Thornton um discurso em francez, entre-
gando em seguida ao Imperador a Carta da Rainha Victoria.
Félram palavras do embaixador da Inglaterra: "O Governo de S. M. a
Rainha Victoria negava de maneira a mais solemne toda a intenção de offender
a dignidade do Imperió do Brasil, e a mesma Rainha acceitava completamente
e sem reservas a decisão de S . M . o Rei dos Belgas, Leopoldo I, e se sentiria
feliz em designar um Ministro para o Brasil logo que Dom Pedro II estivesse
prompto a renovar as relações diplomaticas".
Dom Pedro II, com gravidade, em resposta, disse : "Vejo com satisfação
renovadas as relações diplomaticas entre o Governo do Brasil e o da Grã-Bre-
tanha" . E accrescentou : "A circumstancia de tão feliz acontecimento reali-
zar-se onde o Brasil e seus leaes e valentes Alliados acabam de mostrar que
sabem unir a moderação á defesa do direito, augmenta o meu prazer, e prova
que a politica do Brasil continuará a ser inspirada pelo espirita de harmonia
justa e digna com todas as outras nações".
Depois de ter falado ó Imperador, ao findar a grande ceremonia de que foi
theatro a Villa de Uruguayana, todos se perfilaram 1 Ouvio-se o God J'ave lhe Queen,
executado pela banda da "Nictheroy", que Tamandaré passára para o "Onze
de Junho" .
Em seguida, outras bandas tocaram o nosso glorioso hymno nacional,
cujos accordes evocam grandes victorias do passado.
Assim findava a questão Christie, relativa ás violencias praticadas pelos
navios da estação ingleza no Rio de Janeiro, em Janeiro de 1863, (1) motivo da
ruptura de relações diplomaticas entre o Brasil e a Grã Bretanha.

(1) - No dia 5 de J a neiro de 1863, depois de se verifica r a noticia de que os cruzadores de guerra
jnglezes "Stromboli" e " Curlew" haviam apresado navios de propriedade brasileira,
q Imperador, dirigindo-se, pelas seis hora s da tarde, ao Paço da Cidade, onde se reunia
o Conselho de Ministros, viu-se cercado por uma multidão que o a cclamava. Commo-
v ido, fallou ao ajuntamento : Era, - disse, - primeiro que tudo, brasileiro, e mais
28 FRANCIS CO MARQUES DOS SAN 'l'OS

Na mesma tarde, Mr. Thornton veiu á paisana, com o Ministro da Guerra,


ao acampamento, afim de conhecer o primo do Rei Consorte da Inglaterra, o
Duque de Saxe, . e o Conde d"Eu.
Mr. Thornton deixou Uruguayana na tarde de 24, acompanhado pelo
secretario Barreto.
A 23 de Outubro chegava ao Rio Mr. Thornton, e dirigia-se ao Ministro
de Portugal, Snr. Mathias de Carvalho e Vasconcellos, pedindo que o acom-
panhasse na primeira visita ao Ministro das Relações Exteriores, Cons. José
Antonio Saraiva. Com esse convite ao ministro portuguez, o diplomata inglez
desejava patentear ao Imperio quanto o seu Governo reconhecia o valor da
mediação de sua Majestade Fidelissima no reatamento das relações entre a
Inglaterra e o Brasil. Muito emb6ra se achasse ausente o Imperador, Saraiva
recebeu Mr. Thornton no caracter . de Ministro .
Em 14 de· Novembro Mr. Thornton apresentou ao Imperador credenciaes
de Ministro acreditado na C8rte do Rio de Janeiro.
O Brasil reenviou para a Côrte Ingleza o antigo Ministro, Francisco Igna-
cio Carvalho Moreira, recem agraciado com o titulo de Barão de Penedo.
Thornton permaneceu E.O R io até 1869, quando foi designado embaixador
em São Petersburgo .
Por Decreto n .º 3515 de 20 de Setembro de 1865, firmado pelo Ministro
da Guerra, Senador do Imperio, do Conselho de S . M., Angelo Muniz da Silva
Ferraz, no Palacio da Villa de Uruguayana, houve por bem Dom Pedro II
conceder uma medalha a todos os officiaes, soldados, ma.gisfrados, empregados
e pessoas de sua comitiva que assistiram e tomaram parte na rendição do Exer-
cito da Republica do Paraguay que occupava a Villa de Uruguayana.
Juntas ao Decreto iam as instrucções :
"Art. 1. º - Todas as praças de linha e Guarda Nacional, das forças bra-
sileiras e alliadas, os empregados e as pess8as que assistiram e tomaram parte
no rendimento da Divisão do Exercito da Republica do Paraguay que occupava
a Villa de Uruguayana, usarão das medalhas dos desenhos juntos, pendentes
de urna fita com tres listas de largura igual, sendo a dos lados azul celeste, e
verde a do centro.

do que ninguem, empenhado em manter illezas a dignidade e a honra da Nação; e,


assim como confiava no enthusiasmo de seu Povo, confiasse o Povo nelle e no seu Go-
verno, porque procederia como as circumstancÍ3.s requeriam, de modo que não fosse
aviltado o nome brasileiro.
Esse episodio hi~torico foi fixado por Victor Meirelles de Lima, em esboço de quadro
(Vide o n°. 56 do 'C atalogo Geral d~s Obras expostas no Palacio da Academia Imperial
das Bellas Artes, em 19 de Fevereiro de 1865).
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BRASILEIRA 29

"Art. 2. 0 -Os Membros da Familia Imperial, o Ministro da Guerra e


os officiaes Generaes usarão da medalha de ouro do Lado direito do peito ; os
outros officiaes, paisanos empregados na Secretaria da Guerra, Magistrados e
pessôas de distincção a usarão de prata do rnesfno lado direito ; as praças de
pret, outros empregados, as pessé\as não comprehendidas acima a usarão de
uma liga de zinco e antimorno ao fado uquerdo do peito ; devendo todas as
medalhas ter oito linhas de modulo.
"Ai:t. 3. 0 - Os indivíduos a quem é concedido o uso desta medalha não
poderão trocar as de urna pelas de outro gráo, mas sempre em todo o tempo
usarão daquella que fé\r correspondente ao pôsto ou praça que occupavam na
época em que se deu o referido feito".
Todas as medalhas deveriam medir 8 linhas de modulo, ou sejam 16 mms.
Conhecemos dois cunhas :
No primeiro, da Casa da Moeda, l@-se no anverso : a palavra Uruguayana,
dentro de uma corôa de fumo e café . . O ramo de fumo tem 12 folh~s e o de
café 19.

Desenho da Medalha de Uruguayana, apprcvado pelo Ministro da


Guerra, Angelo Muniz da Silva Ferraz (Archivo Nacional).
30 FRANCISCO MARQUES DOS SAN'rüS

No reverso: a data de 18 de Setembro de 1865 dentro de uma coréJa for-


mada por dois ramos de louro, tendo cada um 24 folhas grupa das de tres a
tres.
No segundo cunho, da J ;alheria Victor Resse, lê-se no anverso : em ca-
ractéres maiores, dentro de uma coréJa de fumo e café, a palavra U ruguayana.
O ramo de fumo tem 11 folhas e o de café 16.
No reverso : dentro de uma coréJa formada por dois ramos de louro, um-
dos na parte interior por um laço, a data 18 de Setembro de 1865. Cada ramo
tem 16 folhas dispostas duas a duas.
Nesta ultima medalha, de cunho mais artistico, observa-se em cada ramo
as nervuras das folhas. No reverso, o ramo de café ostenta 4 grãos em cada
intersecção das folhas e o ramo de fumo termina com tres flores de tabaco.
,~ Julius Meili, o notavel colleccionador e estudioso da nossa numismatica,
em seu catalogo de medalhas ~rasileiras e extrangeiras referentes ao Brasil,
reproduz um exemplar de prata com 23 rnms. de diametro, sem argola para
fita. O commandante Pinto Guilnarães, colleccionador contemporaneo, tambem
possúe um exemplar analogo, que, como o de Meili, se nos afigura um estudo
da medalha.
Conforme determinava o Decreto 3.515 de 20 d e Setembro de 1865, as
forças Alliadas receberiam a medalha de Uruguayana. Terminada a guerra foi
cumprida a determinação.
Damos abaixo o Decreto da Nação Argentina relativo á distribuição dessa
medalha aos agraciados do· seu Exercito : ~

DECRETO

Departamento de Guerra y Marina


Buenos Aires, Octubre de 1871.

Siendo oportuno proceder á la distribucion de las medallas,


que á consecuencia de la toma de Uruguayana decret6 el Exmo.
gobierno del Brasil, comprendido en general á los ejércitos aliados,
que tomaron parte en aquel hecho memorable, Y. habiendo sido
recibidas las que corresponden al Ejército Argentino, con los diplo-
mas respectivos,
El Vice presidente de la Repü.blica, em ejercicio del poder eje-
cutivo, acuerda y '
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BtiASILEffiA 31

Decreta
Artículo 1. - La distribucion se hará sobre la base de las listas
0

que hizo levantar al efecto el General en Jefe del Ejército aliado


á solicitud del Gobierno dei Brasil, y que, orijinales han sido devuel-
tas por este. .
Art. 2. 0 - Los gene rales y coroneles recibirán las medallas y
diplomas de manos del Ministro. ·
Art. 3. 0 - Por la Commàndencia General de Armas se hará
la distribucion de las que correspondeu á los demás jefes, oficiales
é individuos de tropa, comprendidos en el articulo 1. 0 •
Art. 4. 0 -'Los hijos, las esposas y los padres de los que hubie-
ran fallecido, con opcion á dicha medalla, tendrán derecho á reci-
birla en la forma indicada.
Art. 5. 0 - Comuníguese, publíquese é insértese en Registro
Nacional.
Alúna
171artin de Gainza
(Registro Nacional de la República Argentina)

75~~~"7~~,,{
q~~~/~ªª~3t:fr,~~~~ d~~g
,,/~~,./~tf'S~~#?JV~u4 Z~?ZJ.f"7J;~ ~o,a?~
,,.nu>z,__,-~ -
~~~0<;y~4~~G7~~
~~ r,,_~~ddt;,f'.
~ ()~ 'J'vtJ~r:_., ~o..M ww-

J.1~
Diploma de ..;oncessão da medalha de Uruguayana, a um official do Exercito Argentino
32 F RANCISC O M ARQUES DOS S ANTO!?

MEDALHA DO COMBATE NAVAL DE RIACHUELO

Neste capitulo vamos tratar da medalha conferida aos combatentes de


11 de Junho de 1865, no Rio Paraná, ao sul do arroio que, nascendo na lagoa
Maloya, é designado pelo diminutivo de "Riachuelo". .
Aquella batalha naval recorda-nos o Almirante Barão de Teffé, por quem,
desde menino, tinhamos grande admiração. Este titular, recern-fallecido, foi
o ultimo sobrevivente da grande batalha e, invariavelmente, tornava parte nas
~ommemorações de 11 de Junho . Com garbo guerreiro, a viver passadas glo~
rias, comparecia ás grandes paradas commemorativas da data. Envergando
a farda dos almirantes dos ultimos tempos, ostentava ~od~s as suas condeco-
rações : o fitão de gran-cruz de São Bento de A viz a tir;wollo, da direita para
a esquerda; a placa correspondente no peito esquerdo, acompanhada da placa
de offi:cial da Ordem do Cruzeiro; a Commenda de Isabel a Çatholica, de Hes-
panha; as medalhas de Corrientes ·e da Campanha Geral, argentinas; a meda-
lha uruguéllya da Campanha ; as nossas : da Campanha Geral, com passador de
prata .: a do Merito ; a de Riachuelo, em .prata, official-commandante que fôra
da canhoneira "Araguary".
O almirante Teffé proporcionava-nos a reconstituição da historia do lmpe-
no, com os seus titulares e o seu apparato.
Passavam-nos pela mente figuras de generaes e almirantes do Imperio. No
porte heral<lico, nas condecorações, no vulto marcial, o heróe parecia-nos sahido
de antigo quadro a oleo.
A .,ultima vez que vimos o Barão de Teffé, foi a 11 de Junho de 1926,
em Nictheroy, onde passára em revista um batalhão escolar, a convite do pre-
sidente do Estado do Rio, Feliciano Sodré. Collecciona9.or de medalhas e con-
decorações, tantas encontravamos em casas de joias e antiguidades, que por
pouco as julgavamos reliquias fanadas ou quasi imaginarias.
O Ministro da Marinha Francisco de Paufa Silveira Lobo, em relatorio
sobre o combate do Riachuelo, entre outras ponderações, fez a seguinte : "O
combate de Riachuelo, acto de bravura, · ousadia e intelligencia de um chef{;
veileravel e de alguns jovens comrnandantes, mereceu descripção minuciosa,
e a critica profissional dos 'primeiros jornaes da Europa. Jámais se vira, desde
o emprego do vapôr nas evoluções navaes (e em theatro tão singular), esquadra
contra esquadra disputando a victoria.
"Foi um facto nos annaes da marinha a vapôr, que veiu mostrar, em gran-
de parte, o magnifico quadro do des.e jado conflicto, que até entãO apenas se
A GUERRA DO PARAGUAY NA ~ÍEDALFIISTICA BRASILEIRA 33

dera em pelejas parciaes, sem resolver definitivamente a questão. Tivemos


a opportunidade de resolvel-a, acceitando o combate de muitos vapores. O
exemplo dado serve hoje de thema a novas apreciações, e pretende-se que muito
vale na arte da guerra. ·

Medalhas de Riachuelo . As duas primeiras são da Casa da Moeda, e a ultima da


Joalheria de Victor Resse.

\
34

"Nas ·s uas atrevidas evoluções, dictadas pelo bravo chefe B a:rroso, e bri-
lhantemente executad as p elo pra tico argentino Bernardino Gustavi:o'o,, (1)' o
"Amazona.r" decid e o pleito destruindo, protegendo, tomando ·parte em toda
as peripecia s do combate. N ã o tira com isso a nenhum outro n a vio o quinhão
· de gloria que effectivamente lhes co'ube, naquelle dia de honra p ara o paiz, ~
de renome para a Marinha N acio~al". ,.
A Revista Maritiuia Franceza, de Setembro de 1865, dedicou a o á.ssumpto
notaveis paginas~ d.a ndo singular realce á Armada do Brasil.
Riachuelo foi a maior batalha naval, em todos os tempos, na AmePica do
Sul 1 Commemorada annualmente, é ainda hoje no Rio de Janeiro uma festa,
sem o appa rato e a inconveniencia de dia feriado. Em razão de velho habito,
assistimos á parada desse dia, procurando, sem a la rido, .revigorar o amor Patrio
em tempos de utilitarismo e descrença . Assistindo ao desfile da maruja evo-
camos as scenas de verdadeiro heroismo que se desenrolaram durante aquelle
Domingo da Santíssima Trindade de Onze de Junho de 1865. Este nosso en-
_thusiasmo vem da meninice, pelo effeito que nos causou a leitura das " ll1emo-
ria.r'' de Teffé. Nessa data, para maior satisfação intima, trazemos no bolso
nossa medalha de ouro, q~e bem quizeramos ter possuído no tempo da sua dis-
tribuição. Perdôe-nos o leitor estas minucias despretenciosas, antes ingenuas.
/ O Decreto creando a medalha do Combate Naval de Riachuelo tem o
/ numero 3.529, e data de 18 de Novembro de 1865. O Imperador, no t exto do
Decreto, esclarece que a concede aos officiaes e praças da Armada Nacional
como prov a de consideração, pelo valôr e denodo revelados naquelle memora vel
feito.
Referendou o Decreto o Ministro e Secretario de Estado dos Negocios ·da
Marinha, Francísco de Paula da Silveira Lobo. .
As instrucções constavam dos tres artigos seguintes :
. l.º - Todas as praças da Armada e classes annexas que fizeram parte d?
esquadra em operações no Combate de Riachuelo, nas aguas do Rio Paraná
contra a Republica do Paraguay, usarão da medalha, conforme os desenhos
juntos,. sendo á. fita branca com duas listas verdes lateraes da lar.gura de seis
millimetros, ficando a orla igualmente branca, com dois millimetros de)argura.
2. 0 - Os officiaes generaes trarão pendente ao pescoço a medalha, que
será de ouro, e de trinta e sete millimetros de modulo, e os officiaes supe-

'( l) - Hav ia 10 annos que servia . á esqua dra . Os pra ticas dos nossos navios eram
ex h an ge ir os e a grande maioria p ortou-se digna mente. Fora m contra cta dos para a
m a rinha em Buenos Ai res. E ram mes tres de gole tas, enca rregados do transporte de
la ranj as e h erv a m a He elo Pa ragu a'y e os unicos v a quea nos d o Rio P a raná .
A GUERRA no PARAGt1AY NA MEnALHISTICA BRASILEI1U 35

riores, subalternos e praças de marinhagem, Corpo d~ lmperiaes 1'v1ar~riheiros


e Batalhão Naval ao lado esquerdo do peito, sendo as dos primeiro~ do referido
~etal, as dos segundos de prata,, e as dos ult~os de bronze, com vinte e cinco
millimetros de modulo.
3. 0 -Os individuos a quem é concedido o uso desta medalha, não poderão
trocar as de um pelas de butro gráo, mas -sempre e em todo o tempo usarão
daquella- que fôr correspondente ao posto ou praça que occuparam na época
em que teve lugar o Combate de Riachuelo.
O Decreto n. 0 3.548 de 29 de Novembro de 1865, referendado pelo Minis-
tro da Guerra, Angelo Muniz da Silvq. Ferraz, Barão de Uruguayana, fez exten-
siva's aos officiaes e praças de pret do Exercito que tomaram parte no Combate
Naval de Riachuelo as disposiç,õ es do Decreto de 18 do mesmo mez. .
. Descripção da medalhà: anvers~, P~fru.r II D. G. Con.rf. Imp . ef Perp.
Bra.r. De}. 1865. No campo, cabeça do imperador á esquerda, entre dois ramos,
um de fumo e outro de café.
Reverso: Combate NafJaL do Ria.chuelo. No campo, entre um ramo de
carvalho e uma palma, uma ancora e uma peça de artilharia em cruz. Sobre
ellas e ao centro, um escudete com a inscripção: li .de .!unho de 1865. Sobre
a medalha ª · corôa imperial, articulada e encimada por uma argola para a fita.
Podemos assegurar com absolU:ta certeza que os exemplares de 37 mms. de
diametro, dos 0fficiaes gen~raes, não foram feitos em ouro, mas em prata dou-
rada, devido ao peso excessivo. Possuimos dois ~xemplares desta medalha:
Egualmente a possúem o Museu Historico Nacional e o Dr. Guilherme Guinle.
Os Srs. Santos Leitão & Cia. venderam um exemplar, da collecção Cunha, para
a Argentina, ha tres annos. São todos os que _conhecemos. ·
Ouanto aos exemplares em ouro de 25 mms. de modulo, dos officiaes su-
periores, c0nhecemos o do Dr. Guilherme Guinle e o nosso. Os exemplares em
prata dos subalternos e praças de marinhagem são um tanto raros. Os de bronze
de .imperiaes marinheiros e Batalhão Naval, igualmente. ·
Da medalha de Riachuelo, de 25 mms: conhecemos dois cunhes. O da Casa
da Moeda e o 'da Joalheria do Barão de São Victor, que é raro. A gravura deste
é feita com ligeiras differenças, e é mais elegante. Distinguem-se no seguinte ;
Na medalha cunhada na Casa da Moeda o ramo de fumo do anverso tem 7 folhas
e o de café 11. A medalha de Resse tem 8 folhas de fumo e 15 de café. No
reverso, a medalha da Casa da Moeda tem a palma mais estreita do que a que
se v@" na medalha do ·famoso joalheiro.
O cunho ~a medalha . dos officiaes generaes foi feito na Casa da Moeda.'
A miniatura é muito ra ra.
36 FRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

MEDALHA "AOS MAIS BRAVOS"

O Governo Imperial, com a creação desta medalha, recompensaria os offi-


ciaes e praças de pret mais bravos das forças em operações contra o governo
do Paraguay.
Em todos os combates eram os bravos agraciados com condecorações da
Rosa, de Christo e do Cruzeiro . (vide documento á pag. 73) A medalha supra
seria um galardão especial, porque aquellas condecorações poderiam ser ganhas
por quaesquer outros motivqs alheios á guerra, e medalha "Aos mais bravos"
evidenciaria, particularisaria a bravura dos combatentes.
A medalha de bravura, ou /ÍoJ' mai.J hra"oJ', foi creada para o Exercito e
Marinha pelos Decretos 3.853 e 3.85.4 de 1. 0 de Maio de 1867, referendados
pelos respectivos ministros João Lustosa da Cun.1:a Paranaguá e Affonso Celso
de Assis Figueiredo.
A seguir, damos os sete artigos de que constavam as instrucções acerca da
concessão da medalha : .
"1. 0 ) - A medalha de bravura será de ouro para os officiaes e de prata
para as praças de pret, com a f6rma e dimensões designadas no desenho junto.
Será usada sem distincção de posto, ao lado dire~to do peito e pendente de uma
fita encarnada com orlas verdes.
2. 0 ) - Esta medalha será usada pelos officiaes e praças de pret das forças
em operações, que, no fim da guerra actual, forem designadas em Decreto espe-
cial como os mais distinctos por actos de notavel bravura.
3. 0 ) - No fim de cada acção de guerra, qualquer que seja, em ordem do
dia, o General em Chefe Commandante das forças em operações deverá decla-
rar os no~es dos mais bravos da mesma acção, relacionando-os por ordem de
merecimento, e mencionando circumstanciadamente os actos que os tornaram
recommendaveis.
4 .0 ) - Depois da publicação do presente Decreto, o General em Chefe
organizará, segundo as partes officiaes e Ordens do Dia já publicadas, e remu-
nerações já obtidas, relações por ordem de merecimento dos individuas que se
t~m distinguido por actos de notavel bravura nas diversas acções . da guerra
actual contra o Governo da Republica do Paraguay, que já tiveram lugar ;
devendo as mesmas relações especificar taes actos e ser immediatamente publi-
cadas pelo referido General em Chefe.
5. 0 ) - Se alguem se julgar offendido em seu direito, por omissão de seu
nome nas Orde:O:s do Dia de que hatam os artigos antecedentes, '_Poderá, dentro
de um mez, dirigir SU!l reclamação ao General Commandante em Chefe das
A GUERRA DO P ARAGUAY NA MEDALIIISTICA BRASILEIRA 37

forças em operações, guardando-se as ordens estabelecidas na direcção dos


requerimentos militares. Para os individuos que não estiverem no: Exercito,
quando f8rem publicadas as Ordens do Dia, o prazo de um mez será contado
desde que semelhante publicação tiver lugar nas Provincias em que elles se
acharem.
O General em Chefe,· achando fundada a reclamação, mandará publicar
as convenientes declarações na primeira Ordem do Dia que se offerecer, fazendo
as necessarias emendas nas relações que já tiver publicado . .
6 .0 ) - Logo que f8r terminada a guerra, o Governo Imperial nomeará uma
Commissão de tres officiaes generaes, que será presidida pelo General em Chefo

Medalha "Aos Mais Bravos" de autoria do !l'ravador Roberto D epatLx.

das Fo:r.ças em Operações contra o Governo do Paraguay, para, á vista das


Ordens do Dia, reclamações e esclarecimentos transmittidos pelo mesmo Go-
verno Imperial, fazer uma apuração e escolher os indivíduos que, por actos de
notavel bravura, devam ser propostos como merecedores da medalha de bra-
vura.
7.0 ) - A dita medalha e fita serão fornecidas pelo Governo Imperial. Os
agracia'd os receberão um titulo assignado pelo Ministro e Secretario de Estado
dos Negocios da Guerra, se pertencerem a corpos arregimentados; a medalha e
titulas lhes serão entregues pelos respectivos Commandantes na frente dos Cor-
pos; se fôr~m de Corpos Especiaes, lhes serão entregues pelo Ajudante-Gene-
ral na Côrte, e pelos Commandantes das Armas nas Provincias".
38 FRANcrsco MAH.QUES nos SAN'.ros

A medalha foi executada fóra da Casa da Moéda. Devemos esta infor-


mação a um ourives contemporaneo, o Snr. VianÍla, que, emquanto existiu a
Casa Luiz de Rezende, Mra o chefe das suas officinas. Figura de medalha, ma-
gro, esbelto, . cavaignac branco, muito bem penteado, este nosso amigo, não
obstante os janeiras, tinha prodigiosa memoria.
Ha uma bôa dezena de annos, quando iniciámos nossa collecção, tínha-
mos avidez pelas minucias da nossa medalhistica. 4ssim, os ourives antigos
constituiam fontes preciosas de nossas indagações . Certa vez, na visita. que,
habitualmente, f~ziamos á Casa Luiz de Rezende, obtivemos, em palestra com
o Snr. Vianna, a informaçã.o de que alg1:1rnas medalhas militares não haviam
sido feitas ·na Casa da Moeda, inclusive a llfedalha Ao.r llfai.r Bravo.r. Foi essa
medalha·_ executada pelo gravador francez Roberto Depaux, tambem exceliente
abridor · e~ pedras finas e metaes. Esse gravador, que, por signal, era fanhoso,
tinha' officina á Ruá. Uruguayana, num sobradinho, proxirno ao antigo Largo
da Sé.
Assim, mercê da informação de ourives contemporaneo, o nosso boníssimo
Vianna, é-nos dado o prazer de divulgar aos amadores de medalhas militares
o nome do autor da medalha "Aos Mais Bravos" l
A medalha em questão é rarissirna. O unico exemplar em ou ro que conhe-
cemos pertence ao Museu Historico Nacional. Foi do Museu de Marinha, pas-
sou para collecção particular (1) e depois . . reverteu ao Estado 1
Os exemplares em prata são, egualmente, muito raros.
A medalha representa no anverso: cabeça de Dom Pedro II á esquerda,
dentro de dois ramos de louro, unidos na parte inferior por um laço. Sob o cór-
te, quasi invisiveis á vista desarmada, as iniciaes R (oberto) D (epaux). Re-
verso : Ao.r / maú / bravo.r, dentro de dois ramos de louro, unidos por laço. Na
orla, da direita para a esquerda; Campanha do Paraguay. No exergo, a data
1867. Pende a medalha de u ma fita encàrnada com orlas verdes, mais rara qu,e
a medalha. Dimensões: 25x20 mms.
Não havia colleccionador que possuísse essa fita, muito embora a Legação
Brasileira em Paris, por officio de 22 de Julho de 1867, tivesse commum-
cado a remessa de 199 metros.
Certa vez, visitando um antiquaria na Rua de São José, · 65,
deparámos um saquinho de flanella de calça, càni' llllc1aes tôscamente
feitas a linha azul. E' claro que a curiosidade de um frade de pedra
seria attrahida para tal raridade l Comprámol-o depressa. Continha fitas
de medalhas militares, e lá estava um respeitavel pedaço da Ao.r
llfaú Bravo.r. Grande colleccionador fallecido, o commandante Andrade Pin-
to, muito da_nossa estima, exultou com a cbmpr~ 1 Foi a fita dividida em tres
A G U ERRA DO PARAGUAY N A MEDALHISTICA BRASILEIRA 39

pedacin_hos: Um coube á medalha do nosso amigo (hoje recolhida ao Museu


do Instituto Historico, juntamente com as preciosidades que, pouco antes da
;rnorte, doara áquella casa de tradição) ; outro para a medalha do Museu His-
torico ·Nacional, e outro para o exemplar de prata da nossa collecção 1
No folheto "Medalhas Militares ins.t ituidas no Brasil", Rio ·de ] aneiro 1
1919, o Barão Smith de Vasconcellos, por descuido, reprod~ esta medalh~
com uma füa da Jfledalha de Jfl erito.
No recente livro "Medalhas e Condecorações Brasileiras", do nosso amigo
Cel. Laurenio Lago, encontra-se a informação de que esta medalha não foi
concedida a pessôa alguma. Esposamos tal opinião, pois, ha annos, junta-
m.e nte com o saudoso Andrade Pinto, folheámos Almanaclrn de Làemmert de
1870 a 1889, e não conseguimos encontrar um s6 condecorado com,.-a _referida
i;nedalha.
Difficil se tornou a distribuição desta medalha, imaginamos. Uma guerra
de cinco annos. Pelejas incessantes. Exercito, marinha, corpos de voluntarias,
empregados civis 1 Difficillima a tarefa de distinguir OJ' maiJ' braCJOJ', sem com-
metter injustiça 1 Dahi a razão de ter sido ella creada e não concedida 1 O Go.,..
verno Imperial fez muito bem em creal-a, emb6ra não a distribuisse 1
A Medalha de Merito, com os seus passadores, já destacava, com Jus-
teza, OJ' maÍJ' braCJOJ'.

MEDALHA DE MATTO-GROSSO

E' tambem designada por .i!fedalha de ConJ'fancia e Valor. E' antagonica


á de Uruguayana. Custou aos seus detentores sangue e dôr, miseria e peste.
E' a medalha dolorosa da Campanha do . Paraguay 1 Ao fital-a, p a ssam-nos
pela memoria paginas do livro do tenente Alfredo de Escragnolle T a unay, o
futuro Visconde, com grandeza, de Taunay.
Enche-nos o coração saber que a adversidade jámais enfraquece~ o patrio-
tismo dos nossos soldados 1 Constancia e Valôr 1 Sacrificio e abnegação 1 Não
faltaram áquelles bravos nos momentos de durissima provação 1
Na parte referente ás forças em operações ao Sul de Matto .Grosso, ou ao
~orte do Paraguay, excusamo-nos de qualquer commentario. Na "Retirada
da Laguna", o Visconde de Taunay exaltou a abnegação das armas brasileiras.
"Foi grande arrojo, operar no Sul da Província em expedição que não poderia
contar com recursos certos, mas com azares de toda a ordem 1
. E~altemos a ll1edalha de ConJ'iancia e Valor, afim de que scintille com'o
symbolo de redempção 1 A Patria, esquecida ou agradecida, jámais recompe~~
sará bastante o sacrificio de seus filhos . Foi _grande - e desinteressado _. - o
40 FRANCI SCO M ARQUES DOS SAN TOS

holocausto dos heróes 1 F aça o Estado fundir quanto antes o nunca inaugurado
monumento aos Heróes da Laguna 1
Nosso passado m ilitar não fulge só nos grandes monumentos citadinos, re-
brilha no metal de nossas medalhas, Os heróes nacionaes acham-se perpe-
tuados no bronze e na legenda da medalhística brasileira.

::::: ·-

l
l

M edalhas de M a tto-Grosso,
da C asa d a Moed a, de
Victor Resse e
respectiva minia tu ra.

As forças em operações no Sul de Matto-Grosso compunham-se: do 17. 0


Batalhã o de Voluntarios de Minas, sob o commando do Tte. Coronel Antonio
Enéas Gustavo Galvão; do 21. 0 de Infantaria de M inas, commandado pelo
Major José Thomaz Gonçalves; do 20. 0 , composto de praças de Goyaz, com-
mandado pelo Capitão Joaquim Ferreira de Paiva ; do Corpo de Caçadores,
de praças de São Paulo, Goyaz e Matto-Grosso, sob o commando do Capitão
Pedro José Rufino.
Gloria 1 Eterna Gloria aos Heróes 1
A GUERRA no PARAGUAY NA l\1imALHISTICA BRASILEIRA 41

Por Decreto 3.926 de 7 de Agosto de 1867, referendado pelo Ministro da


Guerra João Lustoza da Cunha Paranaguá, o Imperador, attendendo á con-
stan_cia e ao val8r com que, não obstante as privações soffridas, se houveram as
Forças Expedicionarias em Operações ao Sul de Matto Grosso, houve por bem
conceder-lhes o uso da "medalha de Con,yfancia e Valor."
Por Decreto de 6 d~ Junho de 1868 foi a medalha concedida ás forças que
marcharam da Capital da Provincia afim de operar contra Corumbá, que, sem
defesa, fôra abandonada pela população em 2 de Janeiro de 1865 e occupada
pelas forças paragua,yas. •
Corumbá foi retomada dois annos depois, a 13 de Junho de 1867. As for-
ças de Cuyabá cobriram-se de gloria, assaltando e pondo fóra de combate quasi
toda a guarnição, e tomando 6 canhões e duas bandeiras ao inimigo.
Foi o Dr. Couto de Magalhães, (1) então presidente de Matto Grosso,
quem organizou, em Cuyabá, as forças que deveriam expellir os invasores.
Compunham-se de 2.000 homens e um parque de artilharia, com 17 boccas de
fogo. Couto de Magalhães aprestou a flotilha de cinco vapôres com 14 boccas
de fogo. Auxiliavam o transporte de tropas um vaporzinbo e algumas lanchas,
Não teve, portanto, a expedição a Corumbá o mallogro da do Sul da Pro-
vincia, pois tudo fgra providenciado, com referencia a viveres e munições.
A 13 de Junho, de madrugada, o Tte. Coronel Antonio Maria Coelho mar-
chou com 100 homens, desembarcando nas proximidades de Corumbá, sem ser
presentido. Ào mesmo tempo, o Capitão João de Oliveira Mello, com 200
homens, dirigiu-se ao porto, atacando com facilidade os vapores inimigos "Llpa"
e "Llnhambahy", que, depois de renhido fogo, se puzeram em fuga.
Em fins de Maio de 1867 achavam-se reunidos em Dourados os 2.000 ho-
mens com as 17 boccas de fogo, e a flotilha dos 5 vaporezinbos com 14 canhões.
Com o grosso da força, o commandante Antonio · Maria Coelho atacou,
com tanto vigôr, as trincheiras, por diversos sectores, que, depois de uma hora
de combate, estava senhor da praça. A victoria foi cqmpleta. A retomada de
Corumbá veio neutralizar a má impressão produzida pela heroica, mas infeliz,
Retirada da Laguna.
A expulsão de Corumbá diminuiu a activi(J.ade dos paraguayos, que fica-
ram no Forte de Coimbra, cruzando os seus navios o Rio Paraguay.
Matto-Grosso ficára livre da invasão paraguaya depois da Passagem de
Humaytá, effectuada por Delphim Carlos de Carvalho com os nossos encou-
raçados, tres dos quaes chegaram a Assumpção a 24 de Fevereiro de 1868. Viu-

(1) - Nomeado brigadeiro honorario do Exercito, pela organização de forças e recursos de


Guerra na Província.
42 FRANCISCO M ARQUES DOS S AN'l'Oi;i

se Lopez na contingencia ºde recolher todas a s suas forças ao territorio para-


guayo.
A Medalha de "Con.rtancia e Valor" pendia do lado esquerdo do peito por
umà fita de dois-dedos de largura, com quatro · listas, sendo de c8r azul as dos
extremos e verde e am'a rella as do centro. A referida fita foi encommen;i
dada á Legação de Paris, eín 21 de Agosto de 1867.
Dessa medalha ha dois cunhos: o da Casa da Moeda e o do Sr. Victoi;
Resse. O ultimo differe bastante do ·primeiro : a cor8a de louros e muito di.f-
ferente e os dizeres : "Matto Grosso - 1867" são em caractéres mais · alto~
e mais grossos.
Os desenhos da Medalha de Matto Grosso não ficaram juntas a©
Decreto; foram remettidos pelo Ministerio da Guerra ao joalheiro Victor
Resse, autor da maioria das medalhas.
Seria .de ouro para officiaes superiores, _de prata para Capitães e subalter-
nos, e de uma liga de cobre e estanho (bronze) para as praças de pret. N9>
enta;nto, foram feitas em estanho. Todas da mesma fórma e dimensões.
Como de costume, os agraciados não poderiam trocar a medalha de um
pela de outro gráu, màs usar unicamente aquella que fosse· correspondente ao
posto ou praça que occupavam na época em que a receberam. r .

MEDALHA DA PASSAGEM DE HUMAYTA'

Conforme terá o leitor observado, todas as medalhas descriptas er,q.~


concedidas originariamente ao Exercito, e, posteriormep.te, estendidas á Mari-
nha, e vice-versa.
No entanto, a Medalha de H~maytá é exclusivamente da Marinha 1 Hu:
maytá, na nossa vida naval, é um feito de grall:de lleroisrno. Mereceu na ,época
as mais honrosas referencias dos entendidos na arte bellica, no extrangeiro.
Por Decreto·'n. 0 4.118 de 14 de Março. de. 1868, referendado pelo -Ministro
da Marinha, Affonso Celso de Assis Figueiredo, cr~ou Õ Governo Impe-rial
"Uma Medalha Commemorativa':, ou mais propr~amente ·dizendo, uma me ~
dalha militar ou condecoração, que houve . por berri, cc;mforme linguagem clas-
sica, ~onceder aos offiçiaes e praças que fizeram parte ,da tripulaçã9. dos sei~
.p equenos encouraçados q~e, commandados por Delphim Carlos de Carvalho,
por esse motivo agraciado com o titulo de Barão ·da Passagem, forçaram as
baterias do Passo de Humaytá, no- Rio Paraguay, a 19 de Feverei~o de 1868_.
Essa victoria desvaneceu as ' esperanças · de Lopez. Vencida a _ ma~s
potente fortaleza paraguaya, JormidaPel Seba.Ytopol, como · se dizia~ na época,
A GUERRA DO PARAGUAY N A MEDALHISTIC.A. B RASILEIRA 43

para. realçar uma grande resistencia, Delphim Carlos de Carvalho, continuando


rio acima, levando de vencida o inimigo, ancorou em Assumpção a 24 de F eve-
reiro, depois de percorrer sessenta leguas.
Pendia esta medalha do lado direito do peito da brav a gente maruja, sen-
do d e ouro para os officiaes superiores, de prata para os subalternos e de bron-
ze para as praças, muifo emb6ra no Art.- 2. 0 das "Instrucções" se leia : de uma

M edalha de Humayf:á,
conferida á Marinha,
unicamente

liga de zinco e anlimonio. Felizmente, não foram feitas de tal liga 1 Má foi
a idéa da ctinha gem de medalhas nessa liga precarissima, que não resiste á acção
do tempo.
No artigo 3. 0 , ha a imposição seguinte: "Os individues a quem o uso desta
medalha f&r concedido, são obrigados a trazel-a sempre que estiverem fardados,
e da categoria a que pertenciam ao recebel-a".
O artigo 4 .0 consignava que "não se poderia trazer a fita sem a meda-
lha". Naturalmente, para haver maior imposição no uso da medalha, muito
embora no tempo do Imperio não f&sse commum O c uso das fi fas sem as conde-
corações.
A medalha de Humaytá foi feita f6ra da Casa_ da Moeda, segundo infor-
mações de um ourive.s contemporaneo, o Snr. Vianna~ da Casa Luiz de Rezende.
Attribuia ao gravador Roberto Depaux . . No emtau.to, si foi este grayadon
44 FRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

que a fez, não está assignada, como succede com a medalha "Ao.r Mai.r
Bravo./'.
O cunho desta medalha, ha 10 annos passados, era de propriedade de
funccionario aposentado do Arsenal de Marinha, morador em Paula Mattos, no
Morro de Santa Thereza. Este homem, durante muitos annos, cunhava a me-
dalha de Humaytá em estanho e punha-a á venda num "ferro velho" da Rua
do Lavradio. Replica que está muito espalhada entre os colleccionadores.
Comprávamos inutilidades nesse ferro velho, até conseguirmos obter do dono
da casa o endereço do homem, que, "havia muito, não levava mais medalhas
para serem vendidas". Obtido o endereço em Paula Mattos, passámos uma
tarde inteira em indagações, ladeiras abaixo e acima, no Morro, mas foi em
vão! Não houve venda ou quitanda, lavadeira ou menino de collegio que pu-
desse dizer onde morava o tal homem do Arsenal!
Anverso : no campo, vista do Rio Paraguay com os encouraçados brasi-
leiros sob o canhoneio da fortaleza de Humaytá, que se - vê á direita.
No exergo: XIX de Fevereiro de l!1DCCCLXVIII. Reverso: no campo :
Ao.r / da/ Pa.r.ragem / de/ Humaytá, dentro de uma corôa de louro. Dia-
metro : 34,5 mms.
A medalha tem na parte superior um rectangulo com pequenos orificios,
onde é cosido o laço de fita, de tres listas, azul a do centro e escarlates as
lateraes. Sobre o rectangulo, está soldada urna corôa Imperial, fixa.
Nunca vimos um exemplar em ouro. Igualmente, os exemplares em pra-
ta são raríssimos, e muito raros os de cobr~.
Referindo-nos aos agraciados com a bella medalha de Humaytá, aos heróes -
dessa immortai batalha, vem a pêllo lembrar que não fôrarn condecorados só-
mente os nossos homens do mar! Condecorados tambern foram seus navios!
Com effeito, o Decreto 4.117, de 14 de Março de 1868, determinou que, da-
quella data em diante, a bórdo do vapôr "Amawna.r", capitanea da força na-
val vencedora em Riachuelo, e nos encouraçados "Barro.ro", "Tamandaré" e
"Bahia", nos monitores "Alagôa./', "Pará" e "Rio Grande", navios que effe-
ctuaram a Passagem de Humaytá, se içasse no mastro de prôa a fita azul celeste
da Ordem do Cruzeiro. Nunca seria arriada, ainda quando no mesmo mastro
se tivesse de hastear qualquer bandeira ou distinctivo de chefe. O Decreto
determinava ainda que na roda do leme fosse affixada a placa ou venera de
official da referida Ordem.
No antigo Museu de Marinha, transferido para o Museu Historico Nacio-
nal, está guardada a roda do leme da fragata Amazona.r. As rodas dos demais
navios condecorados não foram, infelizmente, guardadas com o mesmo ca·
rinho, mas nem tudo se perdeu ...
A GUERRA no P ARAGUAY NA l\ifunALHISTICA. BRASILEffiA 45

MEDALHA DE MERITO
Por Decreto n.º 4131 de 28 de Março de 1868, foi creada uma Medalha de
Merito para os que se distinguiram por bravura em qualquer acção de guerra.
O Imperador queria dar uma publica demonstração de quanto apreciava o
valôr das praças das forças em operações contra o Governo do Paraguay.
Era commandante em chefe do Exer'cito em operações o Marechal Marquez
de Caxias, que, no Imperial Nome, fazia concessão da Medalha aos que se
mostrassem dignos pela bravura em qualquer acção de guerra.
Em vista da retirada de Caxias, por Decreto de 16 de Março de 1869
o Imperador autorisou o Marechal de Campo Guilherme Xavier de Souza,
commandante em chefe interino das forças em operações cont~a o Governo
do Paraguay, a conceder a Medalha de Merito, em seu Imperial nome.
Em seguida, com a escolha do Conde d'Eu para dirigir a Guerra, por
Decreto de 24 de ·Março de 1869 o Imperador o autorisou a proseguir na
côncessão.
Esses Generaes regulamentavam-se na distribuição da medalha de
accordo com as instrucções baixadas com o Decreto acima citado :
"Art. l.º - A medalha será conforme o desenho junto, de brorize, e pen-
dente do peito esquerdo por uma fita de dous dedos de largura e de tres listas
iguaes, escarlate a do centro, e verde as extremas.

Medalha de Merito, com passadores de prata, de 6, 11, 25 e 27 de Dezembro de 1868.


Cunho da Casa da Moeda, com a data do _Decreto errada; 23 em lugar de 28 de Março.
46 F RANCIS CO MARQU'.!TIS DOS S AN TOS.

Art. 2 .0 - A medalha será igual para todos os individuas galardoados, sem


?istincção de postos.
Art. 3. 0 - A medalha será conferida pelo commandante eµi chefe das
forças em operações, logo depois de qualquer feito de bravura, e a seu juizo.
A~t. 4 . 0- O individuo agraciado com a Medalha do Merito terá na fita
tantos passadores de prata, quantas forem as vezes em que tiver sido galar-
doado com a mesma medalha; em cada passador haverá inscripta a época do
feito meritorio .
Art. 5. 0 - Os nomes dos agraciados serão publicados em Ordem do Dia
do Exercito, com declaração das vezes em que tiver sido remunerado com a
medalha.
Art. 6 .0 - A medalha, fita e passadores serão fornecidos pelo Governo
Imperial.
Os agraciados receberão um titulo assignado p elo Commandante em Chefe
das Força em Operações".
Referendava o Decreto o Ministro dos Negocios da Guerra, João Lustoza
da Cunha Paranaguá.
Por Decreto n. 0 4143 de 5 de Abril de 1868, referendado pelo Ministro e
Secretario dos Negocios da Marinha, Affonso Celso, tornou-se extensiva á Ar-
mada a ll1edalha de ll1erito, ·sendo autorizado o cornmandante em Chefe da Es-
quadra em Operações contra o Governo do Paraguay, vice-almirante Visconde
de Inhaúma, a concedel-a aos que se mostraram dignos pela sua bravura em
qualquer acção de .guerra.
No decorrer da luta eram agraciados pelo commandante em chefe do
Exercito os nossos guerreiros e os nossos Alliados contra o Paraguay. Da bella
obra sobre medalhas militares, Hi.rioria de fo,y Premio.J .!l1ilitaru, publicada
em 1910 pelo Ministerio da Guerra da Republica _Argentina, reproduzimos o
diploma junto, no qual o Conde d'Eu confére a medalha ao Cel. Luiz Maria
Campos, chefe da 2. "' Divisão de Infantaria Argentina, pela notavel bravura
demonstrada no combate do dia 12 de Agosto de 1869, arroj~ndo-se sobre as
trincheiras da praça de Peribebuy, peito a peito, com o inimigo que em vão
tentava defendel-a.
Descripção da Medalha : anverso, no campo, tropheus· militares. Na orla,
dentro de um circulo, Exercito em Operaçõu contra o Governo do Paraguay. Re-
verso: no campo, Recompen.Ja / á /Bravura/ ll1ilitar. Na orla, dentro de um
circulo, Decreto de 28 de ll1arço de 1868. Dimensões: 32x25 mms.
,Ha desta Medalha dous cunhas~ Um com a data do Decreto errada, 23
em lugar de 28 de ll1arço. Outro, feito pelo barão de São Victor, com a data
, __

Diploma da Medalha de Merito,' conferida pelo Conde d'Eu ao Coronel Luis M ~~i a
Campos, brilhante figura do Exercito Argentino.
48 FRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

certa. A miniatura desta medalha é rarissima 1 Os passadores de prata exis-


tem sob dois cunhos.
Conhecemos passadores com as seguintes datas: 6, 11, 25 e 27 de Dezem-
bro de 1868 e 12 e 16 de Agosto de 1869. E' possivel que existam passa~
dores com outras datas. Houve bravos que os sµbstituiram por um s6, onde
se lia : "ReiteradoJ' adoJ' de bravura". Possuimos um com esta inscripção. Não
sabemos em qué se fundou o dono para substituir os outros por este ,_. . mas
em todo caso era mais pratico.
O Conde d'Eu, que a tantos bravos concedera a Medalha de Merito,· s6
recebeu a que lhe correspo~dia, com passadores de 12 ·e 16 de Agosto de 1869,
em 29 de Abril de 1870, a bordo do transporte "Galgo", das augustas mãos de
sua esposa a Princeza Dona lzabel. O Decreto que lhe conferiu a Medalha
de Merito datava do dia anterior á chegada ao Rio. E' d:o theor seguinte :

'!Hei por bem conferir a S. A. Real, marechal do Exercito


Conde d'Eu, meu muito amado e prezado genro, a medalha de
..i!1erito ..i!1ilitar creada por Decreto n. 0 4131 de 28 de Março de
1868, em attenção aos actos de distincta bravura por elle prati-
cados como commandante em chefe de todas as Forças Brasi-
leiras em operações na Republica do Paraguay, nos combat~s de
Peribebuy e Campo Grande.
O Barão de Muritiba, Conselheiro de Estado, Senador do
lmperio, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Guer-
ra, assim o tenha entendido e faça executar.

Palacio dq Rio de Janeiro, em 28 de Abril de 1870.


49. 0 da lndependencia e do lmperio.

Com a rubrica de S . M . o Imperador.

Barão de .!l1uritiba.

Pelo Decreto de 6 de Junho de 1888, referendado pelo Ministro da


Guerra Thomaz José Coelho d' Almeida, a Princeza Imperial Regente, Dona
Izabel, em nome do Imperador, hou~e por bem conceder, a todos os offi-
ciaes que obtiveram .promoções por acto de bravura, na Campanha do
Paraguay, a medalha de Merito Militar, creada pelo Decret0 4131 de 28 de
Março de 1868, desde que a nãO' tivessem recebido.
A_ G U ERRA DO P ARAGUAY NA J\1EDALBISTICA BRASILE IBA 49

MEDALHA GERAL DA CAMPANHA DO PARAGUAY

A 1. de Março de 1870 o Marechal Francisco Sol ano Lopez proporcionou


0

a paz a seu povo heroico e destroçado. Não perdera a vida num combate glo-
rioso ; antes, perseguido e a fugir como -qm criminoso commum l ·
Alijado de Assumpção para Luque, para a Villa de Peribebuy, elevada á
categoria de Capital da Republica, para Caraguatahy, e finalmente, nas raias
de Matto Grosso, sem rumo, a fugir, quando foi morto.

O Imperio enviou o genro do Imperador afim de terminar a guerra, embora


o Duque de Caxias, na Ordem do Dia 272 de 14 de Janeiro de 1869, tivesse
dado por finda a luta.
O julgamento de Caxias não deixava de ser verdade_iro. O exercito do
dictador estava dizimado, as fortalezas destruidas, a nossa navegação para
Matto Grosso inteiramente livre e a cidade de Assumpção desde 5 de Janeiro
de 1869 em nosso poder. Consta que Caxias dis~era não J'er capitão do malto ...
Lopez tinha fugido . ..
No entanto, assim não entendeu o Governo Imperial. Não depôriamos
as armas sem anniquilar o Guerreiro Sul Americano.
Foi, então, o Conde d'Eu nomeado em 22 de Março de 1869, Commandante
em Chefe de todas as forças Brasileiras no Paraguay. Esse facto encheu de
alegria e esperanças o Exercito e a Armada. Em 14 de Abril Sua Alteza
desembarcou em Assumpção e no dia seguinte assumiu o cornmando.
Lopez, cada vez mais sombrio, julgava que todos conspiravam contra o
seu poderio arruinado, contra os seus planos. Durante a guerra não poupou
a Íé~milia. Vic:timou seus irmãos Benito e Venancio, seus cunhados Bedoya
5Q FRA..~CISCO M ARQUES DOS S ANTO.::

e Barrios. Seus melhores generae:?, seu ministro, o comodoro Mezza, o Bispo


Manoel Antonio Palacios, de Assumpção; por esse motiv o, foi exco~mungado
por Pio IX. Commetteu as maiores crueldades com as pessôas de mais
relevo . de seu paiz.
Os prisioneiros eram summariamente estropeados e trucidados, e d a hi
a _pe:rsistencia do Imperio em ca pturar aguella figura unica nas Americas,
que· por m aior isenção de animo, decorridos os annos em que a H istoria
gÍorifica os seus verdàdeiros heróes, ainda não s a hiu d a bruma. Entre tantos

"·! ,,

,,
'

E xem p la res d e passadores: d a C asa d a Moeda e d a joalheria d e Victor R esse.

crimes, não teve Solano opportu nidade de commetter a quelle que iria realisar
n<;> dia de sua morte : a execução d e sua mãe, dona Joanna Paula C a rrilho de
Lopez, conforme patheticamente descreve Manuel Galvez em Jornada.r de
Agonia.
Morto Lopez, terminou a guerra; e o povo do Paragriay viu que a Triplice
Alliança, e sobretudo o Brasil, o mais sacrificado, não lhe tom a ria vindictas .
Antes, o Brasil procurou erguer a Nação que, como a phenix da fabula, renasceria
das proprias cinzas, dos proprios recursos, e, sellando uma a miza de que n enhum
obsta:culo "jámais offuscará, deu ao mundo, com a restituição da independencia
paraguaya~ ilma prova de altruismo e fraternidad e .
, 'Conforme diziam cl.ocurh~ntos coevos, sustentamos guerra contra o Gover-
n o ' de:> Earaguay, representado por''Lopez. Nunca com fins hostis á existencia
da·' nacicinalidacÍ.e paraguaya. Tanto que considera.;.el numero de p a raguayo's
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BRASILE IRA 51

desde o inicio da luta, se manifestaram desejosos de cooperar com as forças


alliadas na pacificação de sua Patria.
Uma legião . paraguaya; que ostentava sua bandeira nacional, com essa
insígnia entrava nas refregas contra as hostes fanatisadas pelo Dictador. Bel-
lissimo é o lemma parag';layo que Lopez jámais comprehendeu: Paz y Ju.Jticia!
Segundo o Barão do Rio Branco, eis' a estatística tão exacta quanto po.Úillel
das perdas que os combates occasionaram aos Alliados e ao Dictador Lopez :
BRASILEIROS - 5.858 mortos (dos quaes 563 officiaes) ; 24.804 feridvs
(dos guaes 2.051 officiaes); 1.592 desapparecidos e prisioneiros (sendo 39 offi-
ciaes). Total 32.254 homens fóra de combate, dos quaes 2.653 officiaes.
ARGENTINOS - 1.572 mortos (105 officiaes); 4.026 feridos (374 officiaes);
343 prisioneiros (16 officiaes).. Total: 5.944 homens (495 officiaes) .
URUGUAYOS - 488 mortos (40 officiaes); 704 feridos (73 officiaes). Total:
1.192 homens (113 ~fficiaes) .
PARAC:UAYOS Cerca de 85.000 homens, enfre mortos feridos ou pns10-
ne1ros.
Foi com os pns1oneiros de guerra póstos em liberdade pelos Alliados e
c~m os velhos, as niulheres e as creanças, libertas da penosa tutella de Lopez
pelas expedições brasileiras enviadas. aos sertões do interior, que o Brasil pôde
fazer renascer o Paraguay ...

Cinco mezes depois da guerra, o Governo Imperial concedeu uma medalha


geral ao Exercito, por Decreto n .º 4.560 de 6 de Agosto de 1870, referendado
pelo Barão de Muritiba, Ministro de Estado · dos Negocios da Guerra, atten-
dendo aos relevantes serviços prestados pelo Exercito em Operações na Guerra ·
contra o· Governo do Paraguay, pelos officiaes generaes, officiaes superiores,
capitães e subalternos, e pelas praças de pret que formaram o mesmo Exercito.
O Decreto n .º 4.573 de 20 de Agosto de 1870, referendado pelo Ministro ·
da Marinha, Barão de Cotegipe, Senador do Imperio e do Conselho de S. M.,
fez extensiva a medalha á Armada, premiando os seus officiaes, classes annexas,
praç·a s dos differentes corpos de marinha · e marinhagem.
Estendeu-se, posteriormente, o uso da medalha aos nossos Alliados Uru-
guayos e Argentinos, conforme trataremos paginas adeante .
.- Feita de bronze dos canhões tomados ao inimigo, pendia a medalha de uma
fita, representando as côres nacionaes e dos Alliados, em cinco listas de egual
largura . e verticaes, .na seguinte ordem : verde, branca, azul, branca e ama-
reUa.
52 FRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

Tres são as variantes de passadores de prata e ouro, dessa medalha. O da


Casa da Moeda, mais largo, o do Barão de São Victor, menor, e outro mais gros-
seiro. Reproduzimos em ºcliché exemplares dos dois primeiros.
As fitas da Medalha Geral da Campanha do Paraguay são conhecidas em
duas larguras : a primeira fornecida pelo Governo, com 35 millimetros; a se-
gunda, que era vendida pela joalheria de Victor Resse e pela Casa Ramos So-
brinho, media 26 rn,illimetros e se adaptava aos passadores menores, fabri-
cados na primeira casa. Em 26 de Agosto de 1870, o Ministerio da Guerra
encommendou em Paris, por intermedio da nossa Legação, 4.000 metros
de fita.
Os officiaes generaes, os officiaes superiores, capitães, subalternos e praças
de pret dos differentes corpos do Exercitô, da Guarda Nacional, de Voluntarios
da Patria e de Policia, bem como os empregados civis, usavam a medalha no
lado esquerdo do peito, pendente da fita mencionada, presa a um passador no
centro do qual se achava inscripto o numero de arinos de Campanha.
O passador, de ouro para os officiaes generaes e superiores; de prata para
os capitães e subalternos ; de bronze para as praças de pret.
Para a inscripção de um anno no passador, foi contado o tempo de 9 mezes,
despresadas as fracções. Para o mesmo fim, era igualmente computado o tem-
po que o agraciado tivesse ·deixado de servir, em consequencia de ferimentos
recebidos em combate.
O agraciado usava em todo o tempo a medalha com o passador corres-
pondente ao gráo obtido, não podendo mudar o metal do passador, á medida
que ascendesse na carreira militar.
Descripção da medalha : Em f6rma de Cruz de Malta, tendo no anverso
uma corôa fechada, de ramos de carvalho, symbolo de valôr militar, entrela-
çada ele duas fitas. Ao centro: Campanha do Paraguay. Reverso: a mesma
corôa do anverso, tendo ao centro a data da creação da medalha, 6 - 8-1870.
Na parte superior da medalha ha um arco ligando as extremidades supe-
riores da cruz, por onde passa a fita, com cinco listas iguaes, em sentido verti-
cal : verde, branca, azul, branca e amarella, côres das bandeiras das nações
que formaram a Triplice Alliança contra o Paraguay.
Em 3 de Setembro de 1870 o Gravador Lüster foi encarregado de gravar
as matrizes para a medalha. Concluiu-as em 12 de Dezembro de 1870. Con-
cluiu a gravura dos cunhos para essa medalha em 23 de Fevereiro de 1871.
Em 18 de Abril começaram a ser cunhadas e apromptadas as primeiras
medalhas. Em 18 de Julho João Pedro Soares de Lima Junior foi encarregado
da cunhagem destas medalhas, concluindo em 31 de Outubro de 1871, Em 19
de Fevereiro de 1872 foram entregues á Thesouraria da Casa da Moeda 500
Diploma da Medalha Geral da Campanha do Paraguay, conferido aos do Exercito e da Marinha.
Esses diplomas, de autoria de Leonidio T~s.é Gonçalves, eram lithographados
no Archivo Militar.
54 FRANCIS CO MARQUES DOS S AN TOS

medalhas. Os gravadores F. J. da Costa, M. J. da Silveira, A. J. da Silveirn,


A. L. S. Teixeira e F. J. dos Santos foram encarregado3, em 27 de Setembro de
1872, da cunhagem de medalhas, em numero de 6 .500, concluidas em 4 de No-
vembro de 1872.
Conhecemos dois cunhas da medalha geral da Campanha: o da Casa da
Moeda e o do joalheiro Resse. Nas medalhas deste as grinaldas de louro do an-
verso e do reverso t~m um pouco mais relevo e são melhor acabadas. Qualquer
colleccionador não dará pela differença no primeiro momento. Esta variante
é mais rara do que a executada pela Casa da Moeda .
O Commendador Antonio Joaquim Rosas , successor, em 1889, de Victor
Resse & Sobrinhos, vendia, ha alguns 10 annos atraz, pedaços de fitas aos agra-
ciados com condecorações nacionaes e estrangeiras e medalhas militares.
Fomos comprador das ultimas condecorações honorificas e -medalhas mili-
tares do seu acervo. Em 1925, já fatigado de uma lida de 50 annos no com-
mercio de joalheria, o Commendador, que se achava afastado da actividade,
mantinha ainda o stock de medalhas do Paraguay, cornmendas ·e fitas, rara-
mente procuradas em sua residencia á Rua Buarque Macedo.
Ficámos com todas as caixinhas contendo os pedaços de fitas medindo 12
cms. cada ·um. No balcão deResse e Rosas custavam 1$500, com desconto para
os amigos . De algumas fitas, conseguimos rôlos 1 De outras fitas, porém, conse-
guimos convencer que nol-as dessem. Eram as de propriedade da Exma. Snra.
do Commendador, habilissima em trabalhos manuaes, que fizera pannos para
consolos e mesinhas, colchas para cama, ligando por meio de crochet grnmpado
fitões das grau-cruzes do Cruzeiro, da Rosa, de Aviz e de Christo, tirando as-
sim o melhor partido do lindo chamalote de seda das fitas daquellas veneras .
Fizemos prodiga distribuição dessas fitas, entre os amigos... Mas, ulti-
mamente, dizemos que . .. não as temos mais, para que ellas não se acabem
de todo. São tão bonitas l
Tempos depois, descobriamos outra casa tradicional do Rio, que, desde o
lmperio, vendia fitas de medalhas militares e commendas. Era a firma Ramos
Sobrinh? & Cia., á Rua da Quitanda, esquina de Hospicio. Lá depárámos novo
stock 1 Iamos comprai-as, já estavamos com as peças no balcão, medindo e
fazendo calculo . . . Nisto, entrou um senhor gordo, forte, de cavaignºa c, cin-
quentão, em busca de pedaços de fitas para algumas de suas condecoraÇões .
Era o General Aristides Arminio / Guaraná, nosso amigo e "habitué" da porta
do Club de Engenharia, onde m u ito conversávamos sobre a Guerra do Para-
guay. Ficou surpreso com a nossa idéa, pedindo-nos que desistissemos de um
...

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ofJSI) da r,,;.:rirla m~d.1in; com O:_PAS sAÓ oRnf pRATA f'V/! ler Sl'l'l'll'Íil. no ,,y,•r.-!ftl ,'1//i11_di• am
•'f•'1''1f~S <ontr.N Ovr~l·!lo tÍt.1 Íl,yr'!Ju<-!rr. •
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Outro diploma da Medalha Geral da Campanha do PaTaguay, litographado na Companhia • J

Artes Graphicas do Brazil, em marrou escuro, ostentando as ,armas da Republica. a c8res.


Contém a expressão: o Pre.ridente da Republica, em vez de GoPerno Pro PÍJ'Ol'ÍO. o
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Exemplar do Diploma que acompanhou as medalhas concedidas aos Exercitas Alliados pelo
Brasil, em virtude do Protocollo de 13 de Maio de 1888.
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BRASILEIRA 57

tal de.rideratum. "E' a unica casa commercial que as vende", dizia. Deixámos
as fitas em paz . .. e reflectimos que os veteranos do Paraguay eram mais dignos
de tel-as aos pedaços que nós ás peças.
Das fitas de medalhas militares adquiridas ao commendador Rosas fize-
mos larga distribuição 'a os Invalidos da Patria, no Asylo da Ilha do Bom Jesus,
em visitas domingueiras que faziamos, em solteiro, áquelle estabelecimento.
Os nossos heróes sempre nos inspiraram a maior veneração e um culto respei-
tosissimo l
A muitos veteranos demos medalhas. Nas vicissitqdes por que haviam
passado, haviam-nas p.e rdido ou extraviado . Experimentavamos immenso
prazer com esse gesto, porque dest'arte proporcionavamos alegria a bravos,
mas humildes, servidores da Patria. J ámais encontrámos veterano que não
se referisse com enthusiasmo aos nossos generaes e ás grandes figuras da Mo-
narchia l
A proposito da concessão da mepalha da Campanha Geral foram exp,e-
didos os Avisos que abaixo resumimos :
Aviso de 27 de Abril de 1872 (Ordem do Dia 852). Solveram~se duvidas
sobre o modo de se passarem os diplomas da Medalha Geral da Guerra do Para-
guay, e sobre a inscripção que deviam ter os passadores e contagem do tempo
de serviço em campanha.
Aviso de 10 de Junho de 1872. Foi nomeada uma commissão para se en-
carregar de passar os diplomas da Medalha, ao mesmo tempo que eram mar-
cados os vencimentos dos seus membros.
Aviso de 9 de Junho de 1872 (Ordem do Dia 863). Os officiaes e praças
do Exercito que assistiram unicamente á Rendição de Uruguayana não tinham
direito á Medalha. Quanto aos de MaHo Grosso, só tinham direito a ella os
que alli . estiveram em operações activas de guerra.
Aviso de 17 de Junho de 1872 (Ordem do Dia 900). Os commandantes
dos transportes que se achavam ao serviço do Ministro da Guerra durante a
Campanha do Paraguay . não tinham direito á Medalha.
Aviso de 16 de Agosto de 1872 (Ordem do Dia 872). Os officiaes ou: em-
pregados ~ommissionados em Montevidéo não teriam direito á Medalha da
Campanha Geral.
Aviso de 16 de Agosto de 1872 (Ordem do Dia 873). Os empregados civis
que, fazendo parte da Pagadoria, tiveram de acompanhar as forças de Matto
Grosso, ou outros que tiveram funcções junto a ellas, faziam jús á Medalha.
Projectcs não approvados, da Medalha Geral da Campanha do Paraguay, feitos pela Casa da Moeda
- . (Archivo Nacional). ,
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHISTICA BRASILEIRA 59

Decisão de 17 de Agosto de 1872. Declarou-se que a um Major de com-


missão e Capitão de um Corpo do Exercito devia ser distribuida a medalha com
o passador correspondente ao posto de Major, em que fez a dita campanha.
A viso de 2 de Setembro de 1872. (Ordem do Dia 877). Deviam ser de
ouro os passadores das medalhas da Campanha Geral que foram distribuidas
aos Juizes togados que serviram na Junta de Justiça Miütar.
Aviso de 3 de Setembro de 1873 . Ficou decidido que para a concessão da
medalha da Campanha Gera1 contar-se-ia o tempo de tratamento por ferimento
recebido em combate, se o official voltou ao serviço da Campanha depois de
restabelecido ; porém, si ficou inhabilitado de regressar ao Exe;cito e delle se
retirou para não voltar, só se devia contar o tempo de serviço effectivo
no mesmo Exercito, ou em seus hospitaes ou enfermarias.
Sobre a termi~ação da Guerra do Paraguay, assim trata a Ordem do dia
numero 45, do Commando em Chefe de todas as forças brasileiras em opera-
ções na Republica do Paraguay, dada no Quartel General na Villa do Rosario,
em 15 de Março de 1870 :
"As forças commandadas pelo Exmo. Sr. General José Antonio Corr~a
da Camara acabam de pbr termo glorioso á lucta ha tanto tempo sustentada
o -

pelas armas brasileiras.


"Sabidas da Conceição, umas a 9 de Fevereiro, outras a 15 d' aquelle mez,
para emprehenderem a nova expedição que devia corôar as marchas e fadigas
a que se viram obrigadas durante os ultimos cinco mezes, em menos de vinte
dias lograram o completo fito de seus esforços e asseguraram o descanço do
Brasil.
"Na madrugada de 1. 0 de Março, depois de surprehendida pelo tenente-
coronel Francisco Antonio Martins, a vanguarda inimiga, postada no passo
das Tacuaras, foi varado o rio Aguidaban, pelo 9. Batalhão de Infantaria e
0

clavineiros dos Corpos 18, 19 e 21. •


"A essa força, guiada pelo coronel João Nunes da Silva Tavares e pelo
general Camara em pessôa, coube a gloria de conquistar o ultimo acampamento
inimigo, de alcançar o proprio dictador em sua fuga, e v êl-o expi rar com seus
filhos mais velhos e seus validos, renitentes na resistencia, ao passo que os ou-
tros chefes e officiaes se entragavam prisioneiros, e que sua mãe e irmãs agra-
deciam a interve~ção inesperada que as salvara do destino cruel a que estavam
reduzidas.
"Faltam expressões para não só devidamente louvar e exaltar os serviços
prestados á causa publica pelo general Camara, corno tambem para especi-
CRUZ DE BRONZE d'Q'
CAMPANHA .DO PAR A 6 l/AY

\
A cruz .rel"a ~ trrmze j'CFNZ To~s ronel,· CJO ~e.rcoc:-o ~or u1n~ fii'«
os ay,acwdos, d$e.l'rm:lu .somen-/e de á'~n.:l'"c<-na ;~ara os offiàae:rye.
11m ter a coro'",/um.o e co/o', dé acuo n.erae! e a lu·aco(lo />Or un2a fii'a
/J~ra os olf' c1 ~f j'ene,.au . .de j'l"Oia de j'ran- eru:? ,1Jara o comrnandan-
f"ctra. os oj'iêt.'c,J..e.r doftte a(/el'eS ctle' coro· le em cÁ7 ele /"od'"".r as farpai' en? º/'€·
n~t, " de mesmo n'letei.I 1~-e.1rct ai f'ra- ra.""oêi .
~J df'~~t. /~rcl sofre o.sra- //,P-'f« lera' ct:..ico ·4$-t'ra> (.yuae.f ·

n101 aS' .reyuti•tes 1nH·1·t/•çÕtH .• na/re11 l'om. a.r e-tires d"a ~/4.a,-zc;a, ot0-,1-10.s-
1- 'CAMPANHA lJO PARÃ6l/,,t; Y "fd'tS'i /as na f'/J'u.:n.t'e oráCJhl. .· verde_ IÍ/rz'/l ·
a 1&70 ° o no uerso " O 8 R/IZ/L.. A. ec.· azul, tranco . e anzaret'lo.
CRAO.é'C/DO'' 40S BRA //OS NO A eruz . .fera' /e<'l'a -co172 o .Ira,,.
PARA<it/AY-" ze ®s can/.õe.r, lõrnadcn ao ª"'~"­
Sem pendenlé "º peelá es-~uer­ /º _ durante~ _PreJ'enle ecun/Ja·
áa f'<J/' uma /da a'e ,/-'Ollej'ad" dQ 71h~.
l~y-ura pal"c;z ou p r gçrU de prd.~ ______._ .O•-------
~ara cs- q;Yic1aef cte/de ufQref a/8 ~() Asrvny:i;do. Ro c4J/fye1·eu·-o a{; /c:f?o

Por
..loré T/.omt,,' .I'afya.d,,J
"'7'2-'~ .,,;, """fa '4 arlach ...,,,_,,,,. 4 /"'.:t'o.1>e.

Primeiro projecto de medalha da Campanha do Paraguay, executado em Assumpção,


a 20 de Fevereiro de 1870, pelo Capitão José Thomé Salgado.
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDAT,HISTICA BRASILEIRA 61

ficar as qualidades militares por elle demonstradas, a sua actividade sem igual,
a sua bravura e a sua intelligencia excepcional.
"Na parte por elle apresentada, e que ora é publicada:, vem apontados todos
os incidentes dessa notavel expedição que foi buscar o tyranno nas faldas da
serra de Maracajú, quasi na raia do territorio paraguayo.
"Semelhante result~do, que foi tanto além de todas as esperanças e que
corôa as aspirações da Nação Brasileira, é devido unicamente, posso dizel-o,
ao general que o conseguiu e que viu os seus calculas perfeitamente executados
pelos que operavam debaixo de suas ordens, á testa dos quaes figuram os dis-
. tinctos coroneis Antonio da Silva Paranhos, Frederico Augusto de Mesquita,
João Nunes da Silva Tavares e Bento Martins de Menezes.
"A todos, pois, louvo pelos seus bem succedidos esforços, e nisso nada mais
faço do que antecipar os applausos com que a opinião do Imperio, sem duvida,
acolherá o feito mais importante desta guerra de cinco annos.
"Se, porém, fosse licito repartir com outros a gloria que pertence aos trium-
phadores de Cerro Corá, a maior parte deveria, depois delles, tocar ao Exmo.
Sr. Marechal de Campo Vitorino José Carneiro Monteiro, commandante dàs'
forças ao norte do Rio Manduvirá, a cujo zelo pelo serviço e incansavel previ-
dencia se deve terem aquellas forças podido desempenhar a custosa tarefa,
sem que, por momentos, lhes faltassem o sustento e os meios imprescindíveis
da mobilidade.
"Merece tambem aqui menção o coronel Antonio Augusto de Barros e Vas-
concellos, o qual, na qualidade de commandante interino das forças estacio-
nadas na Villa da Conceição, muito contribuiu para o bom provimento de ca-
valhadas, mulas e viveres.
"Terminando, direi que, quando eu não tivesse colhido outro resultado de
meus trabalhos, dar-me-hia por satisfeito em ter feito brilhar e evidenciarem-
se pela pratica os nota veis talentos do brigadeiro José Antonio Corrêa da Ca-
mara, em que o Brasil tem, hoje em dia, um general, ainda .no vigôr dos annos,
capaz de levar ao cabo os mais arduos commettimentos e de honrar a sua Pa-
tria perante o mundo civilizado.
Gll.J'lão de Or!eanJ',
Commandante em Chefe.
SEGUNDA PARTE

MEDALHAS URUGUA YAS E ARGENTINAS CONFERIDAS


A'S TROPAS BRASILEIRAS
MEDALHA DO COMBATE DE YATAY

Occorreu o combate de Y atay a 17 de Agosto de 1865.


O brilhante historiador da Guerra do ,Paraguay, Pereira da Costa, no vol. 2,
pag. 174, fazendo considerações sobre a batalha, diz :
"A Batalha de Yatay foi a primeira acção que os Exercites Alliados déram
com vantagem assignalada, no principio da campanha contra o Paraguay.
Foi uma notavel operação militar que illustrou as tropas que nella toma-
ram parte, não s6 pela sua acção immediata sobre o inimigo, como tambem
p~los seus resultados; po.r que influju na sorte da columna paraguaya que des-

eia pela margem esquerda do Rio Uruguay, posto que esta columna, que então,
quando se deu a batalha de Yatay, ainda marchava desembaraçada, podia ter
sido anniquilada em São Borj a, se na província do Rio Grande houvesse meios
de fazer o que fez o general Don Venancio Fl8res em Yatay". .
Renhidíssimo foi o combate de Yatay e se desenrolou em territorio Argen-
tino da Provincia de Corrientes.. O Tenente Cel. Antonio Estigarribia fraccio -
nara seu grande exercito, entregando ao Major Duarte 3 .200 homens. Esti-
garribia, depois de invadir São Borja, decidiu esperar sobre o Uruguay, mas
acabou encurralado na ViHa de Uruguayana. O Major Duarte, proseguindo
pela costa Argentina, chegou a Passo de los Libres ou Villa da Restauração,
onde acampou a 12 de Agosto.
Desde 18 de Julho marchava do Sul o General Don Venancio F18res, á
testa do Exercito de Vanguarda, composto de 2440 orientaes, com 8 canhões ;
a 12.ª Brigada Brasileira, com 1.450 homens e o Regimento de Cavallaria Ar-
66 FRANCISC O M ARQUES DOS SANTOS

gentina San lflartin com 300 homens. Era inverno rigoroso, as chuvas alaga-
vam a região, transbordando os arroios, o que difficultava a marcha. A 13 de
Agosto fez juncção com o Exercito de Fl8res o Primeiro Corpo de Exercito da
Republica Argentina, composto de 4 .500 homens, sob o commando do Briga-
deiro Don Wenceslau Paunero. A juncção realizou-se no arroio Sant' Anna,
a 43 kilometros ao sul da Villa da Restauração.
A 15 de Agosto o Major Duarte teve conhecimento da aproximação do
Exercito Alliado, e, por uma carn?ia, mandou communicar e pedir auxilio a Esti-
garribia. Objectou este que poderia enviar um valente commandante para
pôr-se á frente de sua divisão, porque, para resistir á vanguarda dos Alliados,
ella só precisaria de commandante corajoso
No Rio Uruguay o vaporzinho "Uruguay" e dois lanchões, o "São João"
e o "Gariba!di", metralhavam canôas e chalanas paraguayas, impedindo a jun-
cção das columnas de Estigarribia ás de Duarte, separadas pelo rio.
"No dia 16 marchou o E xercito Alliado em direcção de Passo de Los Li-
bres, formando o Exercito Oriental e a Brigada Brasileira a cabeça da columna,
e cebrindo a frente e flancos as cavallarias dos Ge_n eraes Goyo Soares e l\1ada-
riaga. O Exercito commandado pelo General Paunero vinha um pouco dis-
tante; assim adeantaram-se até ao arroio Capiquisé.
Alli o General Fl8res recebeu aviso do General da Divisão correntina, Don
João Madariaga, de que o inimigo vinha ao nosso encontro.
Immediatamente participou ao General Paunero que o m1migo avançava
e que accelerasse a marcha, pois estava resolvido a dar batalha alli mesmo,
isto é, além do Capiquisé.
Pouco dep'ois, porém, soube que o inimigo se retirava para o Passo de los
Libres .
Toda noite estiveram de· promptidão, para qualquer golpe que · o inimigo
desesperadamente quizesse tentar.
No dia 17, ás 7 horas e meia da manhã, marchou o Exercito Alliado com
direcção ao Passo, a duas leguas de Capiquisé, em columnas parallelas, e com
distancias para desenvolver em linha. As cavallarias dos generaes Goyo Soares
e Madariaga iam na frente. Já se havia marchado uma legua, quando a van-
guarda communicou que o inimigo estava no Ombucito, a meia legua· ao norte
do povoado.
O General Flôres fez então obliquar a marcha um pouco~á esquerda e na
mesma ordem avançou cerca de 20 quadras (2 kilometros e meio, aproximada-
mente).
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDALHIS'rICA BRASILE IRA 67

Sabendo então que o m~igo, firme em pos1çao que escolhera, e com val-
las em suas frentes, esperava, continuou a ilvançar, tendo porém ordenado que
·as êavallarias que cobriam à frente formassem ao flanco esquerdo.
O inimigo havia estendido suas linhas no fundo da baixada do Ombuzito,
tendo a frente coberta P<?r arvoredos e valias com duas varas de largura e duas
de fundo, e disposto séus atiradores nos vallos e cercados.
O General D. Venancio Flôres deu então ordem ao General Paunero para
tomar o cororoando da Divisão Argentina e conjunctamente com a Brigada Bra-
sileira preparar-se a apoiar o ataque que ia levar ao· inimigo com os Batalhões
·Orientaes "Florida", "21 de Abril", "Libertad", e o 16. 0 de Voluntarios, Brasi-
leiro, commandado pelo Coronel Fidelis Paes da Silva.
Para isso dispersou em guerrilhas as companhias de caçadores destes bata-
lhões, e a passo de carga avançou sobre a linha inimiga.
O inimigo, fazendo vigoroso fogo, foi inclinando a sua linha para noss.a
direita, obrigando assim os contrarios a adeantarem-se para a esquerda. O
esquadrão de artiU:iaria oriental do General Borges avanço\!. então, mas, retido
pelos fossos, demorava-se a entrar na linha de fogo . Paunero immediatamente '
mandou seguir para a direita o ·esquadrão de artiU:iaria do Major Macdom, que,
avançando a todo galope, veiu augrnentar a desordem nas linhas paraguayas,
e adeantando-se a bateria Nelson, tornou-se então completa. Avançando
então as infantarias argentinas e a 12.ª Brigada Brasileira em columna de ata-
que, com fortes linhas de atiradores, foram os paraguayos rechassados de seus
fóssos, não obstante tenaz resistencia, cercados e postos em completa confusão.
A 2.ª Divisão Argentina tomou o flanco direito do ininugo, cortando-lhe
cerca de 500 combatentes e fazendo-os prisioneiros, sendo um delles o Major
Pedro Duarte, que entregou sua espada ao C a pitão Uri~uru.
O inimigo, .c ompletamente cercado pela nossa infantaria, no angulo de
confluencia do Yatay com o Rio Uruguay, defendia-se em grupos esparsos, com
grande vigôr e desespero, mas sempre recuando. Nesse momento a escolta do
General Flôres e o 1. 0 Regimento de Cavallaria Argentina deram brilhantes
· cargas, completando a derrota do inimigo. Este obliquou para a esquerda,
procurando passar o Yatay pelo unico passo praticavel; mas ahi foi com gran-
des perdas envolvido e rechassado pelas cavallarias çlos Generaes Madariaga e
Goyo Soares; e . atravessando os banhados teve de .ficar apertado na maior
desordem., no rincão formado pela confluencia do Yatay com o Uruguay.
A cavallaria liquidou ou aprisionou os dispersos, e é 'fóra de duvida que
do Exercito Paraguayo o que não foi morto foi feito prisioneiro."
Tal o episodio mais sangrento do inicio da Guerra 1 Os soldados para-
guayos nã9 desmentiram indomita bravura, preferindo a morte á rendição.
PRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

O combate de Yatay começara ás 11 horas e estava terminado ás 12 1/2.


A teimos.ia dos paraguayos em não querer render-se como prisioneiros; embora
vencidos, fez degenerar o combate em verdadeiro morticinio. Houve mais de
300 feridos e 1. 700 mortos em suas fileiras, 1.500 prisioneiros, inclusive o Ma-jor
Pedro Duarte. Como tropheos foram tomadas quatro bandeiras, toda a baga-
gem, armamento, petrechos bellicos e grande numero de chalanas.
As tropas Alliadas apresentaram, entre mortos e feridos, o total de 340 ho-
mens f6ra de combate.
Foi a 12.ª Brigada, commandada pelo Coronel Joaquim Rodrigues Coelho
Kelly, que deu combate aos paraguayos em Yatay. Compunha-se do 5. 0 Bata-
lhão de Infantaria, cujo commandante interino era o Major Francisco Antonio
de Souza Camisão; 7. 0 dito, commandante interino Major Herculano Sancho
da Silva Pedra; 3. 0 Batalhão de Voluntarios da Patria, Tenente-coronel José
da Rocha Galvão; e o 16. 0 Batalhão de Voluntarios, commandante Coronel Fi-
delis Paes da Silva.
Do campo de batalha, escreveu o General Venancio Fl8res ao General
Mitre: "Um triumpho completo acaba de obter o Exercito Alliadà".
Na Ordem do Dia n. 0 6, dada do quartel General em frente a Uruguayana,
em 29 de Agosto de 1865, o Tenente General Barão de Porto Alegre "mandava
scientificar, cheio de jubilo, que o General Don Venancio Fl8res lhe commu-
nicára em officio da vespera (28 de .i'.\gosto) que a 12." Brigada Brasileira 'a o
mando do Tenente Coronel Joaquim Rodrigues Coelho Kelly, no Combate de
17, em campos de Yatay, portou-se com bizarria e valor, tornando-se notavel
o empenho que empregára para com precisão cumprir as ordens que recebia.
Pelo. que Porto-Alegre felicitava os officiaes e praças que compunham a 12.ª
Brigada, por terem sabido conservar-se á altura em que se tem sempre collo"
cada o soldado brasileiro".
Na Ordem do Dia n. 0 82, dada no Quartel General do Exercito em ope-
rações no Ayuy Grande, em 19 de Agosto de 1865, o General Manoel Luiz Oso- .
rio communicava ao Exercito a parte dada pelo General em Chefe do Exercito ·
de Vanguarda, Don Venancio Fl8res, datada de 17 do corrente no campo de
batalha em Y a tay :

"Exmo. Snr. Presidente D. Bartholomeu Mitre.


Um triumpho completo acaba de obter o Exercito Alüado :
todos cumpriram o seu dever. - Venancio Flores".

O General Ozorio dizia: "Csmgratulo-me com o Exercito do meu comman-


do por tão feliz successo, que se completou com a apprehen~ão do proprio
Chefe da força inimiga, que descia por esta margem do Uruguay".
A GUERRA. DO PARAGUAY NA MED.A.LHISTICA. B RASILEIRA. 69

DECRETO PELO QUAL O GOVERNO DA REPUBLICA DO ESTADO ORIENTAL DO


URUGUAY CONCEDEU MEDALHA AOS "VENCEDORES DE YATAY"

Montevid~o, Setiembre 30 de 1865.

El Gobernador Delegado :

Considerando que la batalla del Yatay, alcanzada contra las


huestes del déspota Paraguayo, que estaban destinadas á invadir
nuestro territorio y convulsionar sus habitantes, reproduciendo
los horrores y ruinas de 1843, es un hecho glorioso precursor de may-
ores y esiüéndidos triunfos, - que es un timbre de honor haver
concurrido á él, no solo por su importancia politica sino por el valor
y emulacion con que todas las tropas lidiaron por obtener tan com-
pleto triu~fo.
Considerando en fin que aquella victoria se obtuvo bajo las
órdenes de General en Jefe del Ejército de vanguardia de los Aliados
y Gobernador Provisorio de la Republica, Brigadier General IJ.'
Venancio Fl8res.

Acuerda y Decreta :

Art. 1. 0 - Créase una medalla de honor que podrán llevar en


el pecho, colgada con cinta blanca y celeste' todos los individuos que
assistieron á la ba talla del Y a tay.
Art. 2. 0 - Esta medálla será oblonga, como de pulgada y media
de largo: llevará en anverso: "Vencedores del Y atay" y en el rever-
so : "17 de Agosto de 1865" ; orladas estas inscripciones por dos
ramas de laurel, y se acunará en tres metales diferentes, de oro para
los jefes, de plata para los Oficiales y de . cobre para la tropa.
Art. 3. 0 - El Ministerio de la Guerra queda encargado de la
ejecucion, etc.
Vida!
Lorenzo Battle.

Foi permittido o uso da medalha de Yatay pelo Aviso do Ministerio do


lmperio de 19 de Dezembro de 1865 (Ordem do Dia 490), aos officiaes e praças
das forças brasileiras, que, fazendo parte da divisão Oriental ao mando do Ge-
neral D. Venancio Flé>res, assistiram ao combate de Yatay, participando assim
da medalha concedida á mesma Divisão pelo referido General.
70 FRANCISCO M ARQUES DOS SANTOS

Descripção da medalha: Anverso, ao centro, o brazão do Uruguay assente


sobre tropheu. Na parte superior: Vencedore.r e no exergo : deL Yatay. A'
esquerda e á direita, tres estrellas. · .
Reverso, no campo, 17 de /lgo.Jto de 1865, dentro de uma corôa de louros.
No exergo, J. W. (iniciaes do gravador).
Conhecemos dois cunhas dessa med alha: um maior e mais artistico. O
segundo, menor, facilmente se distingue do primeiro, porque no anverso não
se v&, na parte inferior do Brazão, as hastes das seis bandeiras do tropheu. Am-
bos os cunhas apresentam no exergo do reverso as iniciaes do gravador, J.W

MEDALHA DA TOMADA DE CORRIENTES

O Governo lrµperial, em substituição á Missão Paranhos, enviara para o


Rio da Prata a Missão Especial chefiada pelo Conselheiro ºFrancisco Octaviano
de Almeida Rosa.
Em Abril de 1865 Octaviano- apresentava credenciaes ao governador pro-
visorio da Republica Oriental e ao Presidente Bartholomeu Mitre, da Argentina.
Com referencia á guerra tinha o Governo Argentino a n6rma de se manter
na mais completa neutralida.d e. No entantb o Governo Paraguayo julgara que

o paiz amigo iria permittir que tropas paraguayas atravessassem as provincias


de Corrientes e Entre Rios, afim de invadir o Rio Grande do Sul.
O presidente Mi.tre, é claro, negou tal permissão. O Marechal Solano Lopes,
não respeitando os direitos da Confederação Argentina, tomou iniquas repre-
salias, hostilizando, sem prévía declaração de guerra, aquelle pai7',· e.orno já
fizera ao Brasil. E, no dia 14 dé Abril de 1865, navios de guerra páraguayos
aprisionaram, de--surpreza, ~o porto de Corrientes, duas canhoneiras argentinas:
A GUERRA. DO PARAGUAY NA lVIEDALHISTICá. BRASILEIRA 71

"Veinte Cinco de ll1ayo" e "Gualeguay", seguindo-se a invasão daquella Pro-


v incia por um exercito de 18.000 homens, sob o commançlo do general Robles.
Caceres, Guafía e Silverio proclamaram a independencia de Corrientes, sob o
protectorado do Paraguay. Lopez mandara áquella cidade o ministro Berges
que remetteu para Ass~pção o archivo publico e todo o dinheiro amoedado,
substituindo-o por _p apel-moeda paraguàyo.
Diante da aggressão, declarou o Governo Argentino guerra ao Paraguay.
Em consequencia, foi a 1. 0 de Maio assignado, em Buenos Aires, o tratado da
Triplice Alliança, entre os plenipotenciarios do Brasil, Cons. Octaviano, Rufino
Elizalde, da Argentina, e C. Castro, do U ruguay.
Não permaneceu a cidade de Corrientes em mãos inimigas por muito tem-
po. A 25 de Maio de 1865 conseguiu o Governo Argentino tomal-a, com a ajuda
das tropas e navios . da esquadra do Brasil. O General Wenceslau Paunero,
dando parte da tomada ao seu Ministro da Guerra e Marinha, no dia seguinte,
assim se externou :·

"El batallon 9 . 0 de brasileros tuvo parte en la pelea, contr~­


buyendo poderosamente á dispersar unas guerrillas enemigas que
aparecieron más tarde por nuestro costado izquierdo, con la preten-
si6n ostensible de flanquernos, distinguéndose el teniente de artille-
ria Don Tiburcio Ferreira de Souza, que con dos caííones obuseros
hizo un fuego activissimo sobre el enemigo.
La escuadra brasilera al mando del Almirante Don Francisco
Manuel Barroso, que tantos servicios tiene ya prestados al ejército,
nos. auxili6 tambien de una m~nera mui importante, dirigiendo
certeros disparos sobre el cuartel que ocupaba el enemigo y el sefíor
coronel Gomensoro, segundo jefe de la misma, que baj6 á tierra en
aquellos momentos, prest6 tambien servic10s estirnables alentando
á sus compatriotas y atendiendo á nuestros heridos" .

Foram os seguintes os corpos do Exercito, Guarda Nacional e Voluntarias


ela Patria que se distinguiram em Corrientes :

1. 0 Batalhão de Artilharia,
12.° Corpo d~ Voluntarias da Patria,
9. 0 Batalhão de Infantaria (Brigada João Guilherme Bruce),
14. 0 Batalhão Provisorio de Infantaria,
22. 0 Batalhão Provisorio de Infantaria,
44.° Corpo de Vols. da Patria (recebeu 400 m~dalhas).
/

12 FRANC ISCO M ARQUES DOS SAN TOS

Transcrevemos o .Decreto argentino concedendo uma medalha aos que assis-


tiram ao combate de Corrientes :.

"Departamento de Guerra y Marina

Buenos Aires, Agosto 20 de 1866.

El Vicepresidente de la República, en ejercicio del Poder Executiyo,


acuerda y
Decreta:

Articulo 1. º - La medalla de honor acordada en Ley de 4 dei


corriente á las fuerzas argentinas y brasileras que tomaron parte
en el combate de Corrientes el 25 de Mayo último, será de oro orlada
con una palma y un laurel para el General, Commandante en Jefe
del primer Cuerpo del Ejército; de oro para los jefes, de plata para
los oficiales y de cobr~ para la classe de Sargento, inclusive soldados.
Art. 2 .0 - Por el Ministerio de la Guerra se pedirá al mencio-
nado General, Jefe del l'.'.:. Cuerpo de Ejército, las listas nominales
de aquellos á quienes corresponde la expresada medalla d~ honor.
Art. 3 .0 - El Ministerio de Guerra y Marina queda encargado
de disponer lo conveniente, tanto respecto de la construccion de
dichas medallas, como de la impresion de los diplomas correspoii-
dientes.
Art. 4 .0 - Comuníquese, publíquese y dése al Registro Nacional.

Paz
Julian· /l1artinez.

(Registro Nacional de la República Argentina)"

E' a medalha oval, medindo 34 x 26 millimetros, pende de fita das côres


nacionaes argentinas, de tres listas, branca a do centro e azues as lateraes, feitas
com duas tiras de sedél; lavavel. Modernamente, em collecções,_ a medalha
ostenta fita de chamalote.
Anverso: no campo, brazão de armas argentino usado sob a tyrannia
de Rosas, com o sól de cabelleira. Na orla, da esquerda para a direita, os dizeres :
La República Argentina á ÍoJ' Pencédoru en Corrientu. No reverso : ao centro
o sól de cabelleira, radiante. Na orla, ao alto, 25 de °J!1ayo, em baixo a data 1865.
" . . . as recompensas aos bI"avos não consistiam apenas na concessão de Medalhas-Militares.
Os - ~;:i;-'cÍ~stacado~fic;;;;, soldados- ou · ;-;;ajo~ido-;~;-;graciados - com
Ordens~Honorificas •• ," -
74 FRANCIS CO MARQUES DOS SAN TOS

O Ministro da Guerra, João Lustoza da Cuµha Paranaguá, em 25 de Fe-


vereiro de 1867 communicou ao Ministro do I~-p~rio, José Joaquim Fernandes
_Torres, ter o General Mar-quez de Caxias, em officio de 1. 0 de "Fevereiro, parti-
' cipado que, por intermedio do General Mitre, recebera do Governo da Republica
Argentina os diplomas e medalhas com que o Congresso daquella paiz premiára '
_o valôr e patriotismo das tropas brasileiras unicilas ás da mesma Republica -na
memoravel acção de 25 de Maio de 1865. Sollicitava o Ministrq da Guen_:a ao
collega do Ministerio do Imperio permissão para que os officiaes e mais pr'li.ças
do Exercito e Armada, a quem taes medalhas eram destinadas, puàessem fazer
uso dellas, e se d~gnasse transmittir-lhe a necessaria concessão de S .1\:1. o Im12era-
dor.
Em A viso de 9 de Março de .1867 o Miui.stro do Imperio communicou ao da
,G uerra ter o Imperador havido por bem permiítir o uso das medalhas argentinas,
·da tomada de Corrientes. (Ordem do Dia n. 0 542). -

MEDALHAS CONFERIDAS A'S TROPAS BRASILEIRAS PELA


REPUBLICA ARGENTINA E PELO URUGUA Y, EM RAZÃO DO PRO-
TOCOLLO FIRMADO NO RIO DE JANEIRO E~. 13 DE MAIO DE 1888

MEDALHA ARGENTINA CONFERIDA AO EXERCITO ALLIADO


EM OPERAÇÕES CONTRA O GOVERNO DO PA'RAGUAY

Em 13 de Maio de 1S88, por. Protocollo firmado entre o Ministro e Secre-


tario de Estado dos Negocios Extrangeiros, Cons. Rodrigo A. da Silva, e o En-
viado Extraordinario e Ministro Plenipontenciario da Republica Argentina,
A GUERRA DO PARAGUAY NA l\tIBDALRISTICA BRASILEIRA 75

D. Enrique B. Moreno, tendo presente que os seus Governos coincidiam no


pensamento de conceder reciprocamente uma medalha militar commemora-
tiva da Guerra contra o Dictador do Paraguay, convieram no seguinte : ·
1. - Cada uma das partes contractantes aprese~taria á outra uma relação
0

· dos membros do Exercito, da Armada e das classes que, por terem ºservido na
Guerra do Paraguay, · tivessem direito f.t medalha, em virtude do presente ajuste.
2. 0 - Estabelecia que, tendo o Uruguay tomado parte activa na Guerra,
como alliado, teria a faculdade de adherir á idéa, si lhe conviesse, e quando o
seu Governo se declarasse habilitado a · cumpril-a.
Deste Protocollo foram lavrados e firmados dois exemplares, um em portu-
tuguez e outro em hespanhol.
Por Decreto n.º 10.341, de 6 de Setembro de 18891 assignado pelo Imperador
e referendado pelo então Ministro dos Negocios Estrangeiros, José Francisc::o
Diana, foi ordenada a execução do ajuste feito com o Governo Argent,ino, por
meio do ProtocoHo acima referido, para mutua concessão das medalhas mili-
tares commemorativas da guerra contra o Dictador do Paraguay.
O Co~gresso Argentino, por lei n.º 2.490 de 9 de Agosto de 1889, approvou
o Protocollo firmado no Rio de Janeiro sobre as medalhas da Guerra. A m~~ma
lei, em seu artigo 2. 0 , descrevia a medalha, que teria, no anverso : ao centro
as armas da Republica, na orla, a inscripção : Republica Argentina, al Ejercito
Aliado en OperacioneJ' contra el Gobierno del Pq,raguay. Reverso : no . centro
o Sol e na orla : l!L valor y a La ConJ'iancia, La iVacion Agradecida.

Exernpli,!f da medalha man4ad.a . cun.har pela joalheria de Victor Resse.


76 FRANCIS CO MARQUES nos SAN'ros

A medalha pendia' de uma fita, com as côres nacionaes argenti~as, em tres


listas, azul a do centro e brancas as lateraes.
Destas medalhas são conhecidos dois cunhas : Primeiro: da medalha dis-
tribuída pelo Governo Argentino, com argola e, contra-argola onde passa a fita.
Segundo: x:nandado executar em Paris pela joalheria do Commendador Antonio
Joaquiri:J. Rosas, successor de Victor Resse & Sobrinhos. Nesta, em logar da ar-
gola, ha uma pequena esphera por onde passa ·a contra-argola, ligeiramente
maior do que a da medalha do Governo Argentino. Além disso, a gravura deste
cunho é .mais esmerada. · Ha, suppomos, um terceiro cunho!
São rarissimas as miniaturas dessa medalha.

MEDALHA DA REPUBLICA ORIENTAL DO URUGUA Y CONFERIDA


AO EXERCITO ALLIÁDO CONTRA O DICTADOR DO PARAGUAY .

O Governo Uruguayo adheriu ao Protocollo de 13 de Maio de 1888, entre


o Brasil e a Republica Argentina, para a concessão mutua de uma medalha mili-
tar ao Exercito Alliado que tomou parte na Guerra contra o Dictador do Pa-
raguay.

Medalha feita por Juan B. Giudice, em Buenos Aires.


·~

Â_ GUERRA. DO PARAGUÂY NA MEDALHISTICA BRASILEffiA 77

Damos abaixo os document.o s officiaes sobre a concessão da medalha:


"El Senado y Camara de Representantes de la Republica Oriental
del Uruguay reunidos em Asamblea General, etc.
Art. 1. 0 - Autorizase al Poder Ejecutivo para adherir al Pro-
tocollo celebrado entre los Gobiernos Argentino y Brasilero por el
cual se concede una medalla conmemorativa de la Guerra contra
el Dictador del Paraguay á los miembros del Ejercito, de la Arma-
da y de las dases anexas que sirvieron en la referida c~mpafia.
Art. 2. 0 - Queda asimismo facultado el Poder Ejecutivo
para hacer los gastos que demande la acufiaci6n de las meda)las
respectivas.
Art. 3. 0 - Comuniquese, etc.
· Sala de Sesiones de la Honorable Camara de Rfpresentantes
en Montevideo á 18 de Diciembre de 1890. - Chucarro, Presidente
- Manuel Garcia y Santos, Secretario ;Redador.
Ministerio de Relac~ones Exteriores
Montevideo, Diciembre 20 de 1890. - Cumpl~~c, ncu~ese
recibo, cornuniquese á quienes corresponda, insertese en el Registro
Nacional y publiquese. - Herrera y Obres - Oscar Hordefi.ana."
Ministerio de Guerra y Marina.
Montevideo~ Abril 4 de l891
Habiéndose adherido la Republica á la Convención celeb~ada
por la República A rgentina y los Estados Unidos dei Brasil, para
la concessión de una medalla conmemorativa de la guerra contra
el Dictador del Paraguay á todos los que formaron parte de los
Ejércitos aliados ; y obtenido del H . Cuerpo Legislativo la auto-
. rización correspondente,
El Presidente de la Republica
Acuerda y Decreta :
Articulo 1. - 0
Creáse una condecoraci6n de honor que po-
drán llevar todos los rniernbros de los Ejercitos, armadas y dases
anexas de la Triple Alianza que concurrieron á la Guerra del Pa-
raguay.
Art. 2. 0 - Dicha condecoración será en fórma de cruz griega,
corno de quatro y medio centimetros de largo, terminando los brazos
en ángulos agudos.
78 FRANCISCO MARQUES DOS SANTÓS

Dichos brazos serán ·ligados por una corona de laurel y en el


centro un disco de dos centimetros .
. Art. 3. 0 - Las condecoraciones serán acufíadas en hierro dulce,
colorido al temple, llevando en el anillo, de donde deberán . pender
de la cinta, un sól de oro la de los senores jefes, un sol de plata la
de los sefiores oficiales, y un sol de cobre la de los individuas de tro-
pa. Las condecoraciones penderán de una cinta de seda roja acor-
donada, de tres centimetros de · ancho y de un largo adecuado.
Art. 4. 0 - En el disco central del anverso, llevará cada condeco-
ración el escudo nacional de relieve, y rodeándo-lo 1a inscripción :·
"Campana del Paraguay 1865 y 1869", (1) en el reversa: "A'
las virtudes militares" y rodeando esta leyenda : "Republica Orien-
tal del Uruguay" .
Art . 5.0 - Por el Ministerio de Guerra y Marina se adoptarán
todas las disposiciones conducentes á la ejecución de este decreto.
Art. 6. 0 - C.omuniquese, etc.
H errera y Obe.r.
P. Ca!lo.rda" ,

A medalha uruguaya é bem interessante. Seus exemplares vinham acondi-


cionados em caixinhas rectangulares exteriormente vermelhas, com as armas
do paiz amigo douradas na tampa. Internamente, forradas de azul celeste,
ostentavam, em letras pretas, o endereço de Juan B . Giudice, de Buenos Aires,
provavelmente o joalheiro executor da encommenda.
Conforme diz o Decreto, a cruz grega era de ferro doce "colorido al temple",
mas, apezar do colorido protector, a medalha, em nosso clima, é muito susce-
ptivel de oxidação. Por tal motivo, deve-se evitar, quanto possivel, focal-a.
O joalheiro carioca Snr. Antonio Joaquim Rosas, a quem Deus conserve
por muitos annos, para bem proprio e de colleccionadores, successor de Victor
Resse e Sobrinhos, mandou fazer a cruz, não de ferro doce, mas de bronze com
patina escura. Realmente, só co:n: o iman o colleccionador novato conhecerá
as medalhas de ferro . As de bronze, da manufactura Rosas, são ligeiramente
abaúladas, e de gravura mais esmerada.

(1) Nesse anno as tropas uruguayas se reco1heram ao territorio pa trio. Aliás, por força do
tratado da Triplice Alliança, a campanha estava finda, pois não existia o governo de
Lopez. "O seu ultimo acto conhecido de soberania - diz Alberto Rangel - fôra a cir-
cular do Vice-Presidente Sanchez, expedida de Curuguatá em fim de Agosto de 1869,
e que ninguem acatára" . O Governg. Provisional do Paragu ay. por Decreto de 17 de
Agosto de 1869, collocou Sola no Lopes f6ra da lei, "como assassino da Patria e inimigo
do genero humano."
TERCEIRA PARTE

DISTINCTIVO DE VOLUNTARIOS DA PATRIA


E · MEDALHAS COMMEMORATIVAS

..
DISTINCTIVO DE VOLUNTARIOS DA PATRIA

Pelo Decreto 3371 de 7 de Janeiro de 1865, creou o Governo Imperial cor-


pos extraordinarios para serviço de guerra, compostos de cidadãos maiores
de 18 annos e menores de 50. E' um extenso documento e consta de 15 ar-
tigos. O Imperador firmou-o, na ausencia do corpo Legislativo, · ouvindo o
seu Conselho de Ministros, o qual, unanime, referendou o Decreto.
Os Voluntarias da Patria foram engajados na Côrte e nas Provincias. As
condições de entrada nos Batalhões eram na época muito vantajosas. Ao

appello do Imperador, em 1865, foram organisados 57 Batalhões de Voluntarias


da Patria, sendo 13 na Bahia, 11 no Rio de Janeiro (Côrte 7, Provincia 4); 8
em Pernambuco; 4 no Rio Grande do Sul; 3 em cada uma das Provincias de
São Paulo, Minas e Maranhão; 2 no Pará; 2 no Piauhy e um em cada uma
das Provincias do Ceará, Rio Grande do Norte, Parahyba, Alagôas, Goyaz e
Matto Grosso; um composto de voluntarias do Ceará, Piauhy e Sergipe. Um
sómente (N. 0 10 e depois N. 0 48), composto de estrangeiros. (Barão do Rio
Branco, Historia do Brazil, pag. 132) .
A idéa de creação e organisação desses corpos provisorios foi dada por Ca-
xias que os denominou : "Voluntarios da Patria". Segundo Monsenhor
Pinto de Campos, ''Vida do Duque de Caxias", pag. 220, desde o inicio da
Guerra, o Governo sollicitava· o conselho e a orientação do grande Lima e Sil-
va. A pedido do Ministro da Guerra, elle deu um plano de organisação do
Exercito e outro de campanha, que, infelizmente, não foram adaptados.
Dom Pedro II declarou-se o Primeiro Voluntario.
A Historia lhe memorará o nobre . gesto, quando, tolhido pelos Ministros,
que evitavam sua ida ao Sul, ao ser invadido pelo inimigo o territorio do Rio
82 FRANCISC O MARQUES DOS SANTOS

Grande, disse : "gue si lhe obstavam de ir como Imperador, certamente o não


fariam si abdicasse e fosse como Voluntario da Patria 1" E Dom Pedro foi
como Imperador e como Voluntario. Com a farda dessa memoravel milicia,
envolto num poncho gaúcho, elle assistiu á Rendição de Uruguayana 1
Foi-se o tempo em que, por cabotinismo ou obcessão, ou por ma l enten-
dido amor á Republica, era de praxe detractar os actos e a memoria do grande
brasileiro.
Os V oluntarios da Patria 1
Por onde lhes iniciar a folha de brilhantes e patrioticos serviços? As "Or-
dens do Dia" do Exercito consignam estes servíços. Uma pleiade de historia-
dores os fixaram nos volumes brilhantes e immortaes da nossa Historia Mi-
litar 1
Sobre a fabricação dos distinctivos de Voluntarias da Patria, encontrámos
no archivo da Casa da Moeda a seguinte nota, datada de 1. 0 de Junho de 1865 :
"Ao ensaio (secção do ensaio do ouro, onde se douravam objectos), 426 in-
sígnias de Voluntarias da Patria, que existiam na officina, para dourar."
Do dia 2 de Junho em diante começou, naquelle estabelecimento, a grande
cunhagem de distinctivos. O gravador Carneiro os imprimia, numa media de
240 por dia, e os praticantes Ernesto, Fonseca, Jus.tino, Coimbra, Sampaio,
Neves, Miguel e Coelho se encarregavam de recortal-os.
O artigo 11 do Decreto de 7 de Janeiro determinou que "Os Voluntarias
trariam no braço esquerdo uma chapa de metal amarello, com a Corôa Imperial,
tendo por baixo os dizeres: Voluntario.r da Patria, da qual poderiam usar,
mesmo depois da baixa.
Ha muito não vemos taes distinctivos em braços de heroes do Paraguay.
Tão poucos existem e quão d ispremiados 1
Suas bandeiras, conforme determinou o Aviso do Ministerio da G u erra de
28 de Fevereiro de 1870, á medida que os Batalhões regressavam, eram deposi-
tadas na cathedral ou egreja matriz da Capital de cada Província.
Entre as bandeiras hoje existentes, conta-se a que estava na Sé de São
Paulo, recolhida ao Museu da Curia Metropolitana pelo zelo benedictino de Dom
Duarte Leopoldo e Silva. Pertenceu ao 7. º Batalhão de Voluntarias de São
Paulo, e foi condecorada com a insígnia de Cavalleiro da Imperial Ordem do
Cruzeiro por Decreto de 1. 0 de Maio de 1866, referendado pelo Marquez de
Olinda.
Oxalá seja um dia escripta a historia dos Voluntarias da Patria ! De nossa
parte, procurámos revível-os, buscando os informes acima, relativos ao dis-
tinctivo, cuja descripção era imperiosa nesta "Memoria".
A gravura reproduz dois distinctivos : o creado pelo Decreto de 7 de Ja-
neiro, e o que os Voluntarias usavam no bonet, do qual s6 conhecemos tres exem-,
plares.
A GUERRA DO PARAGUAY NA MEDAL I:IISTI CA B RASILEffiA 83

MEDALHA COMMEMORATIVA DA RENDIÇÃO DE URUGUAYANA

Rara e preciosa medalha, antes monumento a Dom Pedro II, não foi
distribuída na época porque não agradaram ao grande Chefe de Estado as

expressões laudatorias nella contidas. Além do que, havia no reverso um erro


aliás facílimo de ser corrigido : foram aprisionados 5.545 paraguayos e não
8.000 conforme se .lê.
Outro factor foi decisivo para que a med a lha não fosse cunhada : em
Dezembro de 1865, o Ministro do lmperio fez, e~1 carta, p elos jornaes, a decla-
ração de que todo e qualquer objecto offerecido a S. M. o Imperador seria ven-
dido em beneficio do Asy lo dos Invalidos da Patria.
Nestas condições, o Prov edor d a C a sa da Moeda, Dr. Candido de Azeredo
Coutin110, officiou ao Conselheiro José Pedro Dias de Carvalho, então Minis-
84 FRANCIS CO MARQUES DOS SANTOS

tro da Fazenda e Chefe Supremo, conforme regulamento, da Casa da Moeda.


O officio, sob n. 0 85, d a tado de 3 de Janeiro de 1866, explicava ao Ministro que,
por sua annuencia, o pessoal daquelle estabelecimento, .em Outubro de 65, ás
propnas expen.sas, resolvera cunhar uma medalha "que recomrnendando o

Exercito Alliado, attestasse á posteridade que S. M . o Imperador á força de


incommodos . e soffrimentos, afastára do Imperio o desar de ser uma . de suas
Provincias libertadas por um general estrangeiro".
Obtida a concessão pedida, foi escolhido o desenho da medalha, em cujo
anverso se .vê o retrato imperial coroado de louro, tendo os hombros cobertos
por uma tunica semelhante a · dos Imperc:i.dores Romanos.
No reverso, a medalha, segundo primitiva idéa, teria na orla a seguinte
dedicatoria: AO IMPERADOR D. PEDRO 2. 0 , A CASA DA MOEDA . .
São extensos os dizeres latinos, e as palavras, segundo bôa epigraphia, se
acham seguidas d-as cabeças de prego do estylo.
A GUERRA DO p ARAGUAY NA JYfuDALRISTICA BRASILEIRA 85

Esses dizeres foram devidos a frei Camillo de Monserrate, erudito director


da Bibliotheca Nacional. A epigraphia era sciencia de sua predilecção. Na época,
ninguem no Rio de Janeir0, foi mais habil do que Frei Camillo, que deixou
valiosa contribuição na medalhistica do Segundo Reinado. O Provedor Azeredo
Coutinho, pediu-lhe, a 6 de Outubro de 1865, para compôr em latim a inscripção.
No dia 9 era a mesma entregue, e a 21 estava o projecto da medalha feito em gesso.
O trabalho foi executado por Christiano Luster, que, em 23, começou a abrir
o cunho do retrato.
A inscripção, por ser extensa, não foi por inteiro reproduzida, omittindo-se
os dizeres complementares finaes :

"ADSTABANT SOCERO PRINCIPES


LUDOVICUS COMES AUGIENSIS
LUDOVICUS DUX SAXONIAE."

Houve 0 maior enthusiasmo na elaboração da medalha. O abridor Luster,


ás tardes, gravava, em sua casa do Sacco do Alferes, o poncção do retrato.
Os operarios cunhariam as matrizes e a medalha. O gravador Paradella fa;i~,
das mais lindas madeiras das diversas Provincias, a caixa que deveria conter o
exemplar em ouro de Sua Magestade o Imperador.
A' vista, porém, da terminante declaração do Ministro do lmperio, Azeredo
Coutinho, consultou, novamente o Ministro da Fazenda. Na verdade, a meda-
lha em apreço não fugiria á regra.
Tempos de Dom Pedro Segundo 1
. Não foi cunhada em ouro, nem em metal algum. Os ferros dos cunhos e
mais t~àbalhos executados na Casa da Moeda foram descontados da importancia
angariada e o saldo de 306$100 entregue a quem de direito, em beneficio do Asylo
dos Invalidos.
O tarugo em que se achavam os dizeres do reverso, cuja abrição custara
40$000, não foi limado, mas torneac'fo e conservado para fazer parte do Museu
que o Provedor pretendia estabelecer naquella Casa.
O anverso da medalha foi concluido e guardado como reliquia para figurar
no Museu em perspectiva. Sobre esse cunho, disse Azeredo Coutinho: "E'
obra de valôr para os que forem capazes de apreciar 1" Na verdade, ajuntare-
mos : é um primoroso trabalho do gravador Luster.
Intransigente o Senhor Dom Pedro! As com.memorações que visavam
tocar-lhe a vaidade, eram postas á margem. F a llava-lhe aito o patriotismo;
dirigia o terceiro Imperio do Mundo e não desejava offerendas, embora expon-
taneas como esta dos dedicados funccionarios da Casa da Moeda, quando sol-
86 FRANCISCO MARQUES DOS SANTOS

dados invalidos perambulavam pelas ruas d.as Provinci~s e da Côrte á espera


da conclusão do grande Asylo onde encontrariam descanço e conforto.
Bem houve quem, nestes ultimos tempos, inconscientemente talvez, exhu-
mou dos montes de aço da Casa da Moeda o par de cunhos da medalha em apreço,
asim permittindo que fosse revivido um detalhe importante e quasi esquecido,
para a biographia a ser feita, do magnanimo Pedro II.
De minha parte envaideço-me, corno qualquer outro patricio, relatando a
historia desta medalha, que, oxalá; possa ser cunhada ofticialmente no cente-
nario da Rendição de Uruguayana, em 1965 ... Epoca em que será inaugurada,
em praça publica no Rio de Janeiro, a esta tua equestre de Dom Pedro II
em Uruguayana, cujo original em gesso, de Francisco Manoel Chaves Pi-
nheiro, se acha no Museu Historico Nacion l.

MEDALHA COMMEMORANDO O REGRESSO DE


DOM PEDRO II, DE URUGUAYANA

Na tÇtrde de 9 d'e Novembro de 1865 chegavam ao Rio de Janeiro, regressan-


do do sul, a bordo do "Gerente", ·º Imperador e seus genros, após urna ausencia
de 4 mezes. Em commemoração foi cunhada e vendida, em beneficio do Asylo
de Invalidos da Patria, uma rneddhinha bastante rara, representando penhor

de reconhecimento da Patria ao monarcha que, através vicissitudes de penosa


viagem ao theatro da guerra levou aos seus soldados consolo, fazendo melhorar
o estado material e moral das tropas. Sua presença mais eirnentou a amizade
dos Alliados, a união do Exercito, desvanecendo competições.
Esta medalha tem 19 rnms . de diameb:o, apresenta no anverso a cabeça
de .Dom Pedro, á esquerda e na orla os dizeres: D . Pedro Segundo. No exergo,
1865. Reverso : .d'/Chegada/de/Suai .171age.rtade/Imperial/ á/C ôrte.
Na parte superior ·desta pequena medalha ha uma saliencia por onde passa
pequena argóla para atar lacinho de fita verde-amarella. Foi ostentada na la-
pella dos cortezãos e <lo povo que, na rnemoravel tarde de Novembro de 1865,
aguardou, com grande alegria,. o regresso do soberano, do patriota "numeuo um" !
A GUERRA DO p ARAGUAY NA l\lillDALHISTICA BRASILEIRA ~7

PEQUENA MEDALHA AO EXERCITO E A' ARMADA


Uma joia numismatica

~sta medalhinha apresenta, no campo do anverso, a cabeça laureada do


Imperador á esquerda, tendo sob o córte o nome do gravador Luster. Na
orla: D. P edro II Imperador. Reverso: ao centro, brazão imperial sem os

ramos qe fumo e de çafé, assente sobre um tropheu cons'tando de canhões,


lanças, espadas e bandeiras. Na orla : /Ío Exercito e Armada do Bra.nf No
exergo: 1866.
São pouquiss~as as nossas medalhas de modulo reduzido. Esta é primo-
rosa, de impeccavel gravura. Esta medalha, bem como a do Calendario, de
1867, eram, na epoca, vendidas pela Casa da Moeda, em beneficio do Asylo
de Inva lidos da Patria.
Depois da Guerra, officiaes do Exercito, recorrendo á Casa da Moeda,
mandavam cunhal-as em ouro e, munindo-as _de um pequeno supporte; faziam
botões de collete. Era habito, sobretudo dos coronéis, usar, á paisana, collete
branco com botões de ouro.

MEDALHA COMMEMORATIVA DA CONCLUSÃO


r DA GUERRA DO PARAGUAY

A 13 de Abril de 1870 embarcou em Assumpção, com destino ao Rio de


] aneiro, o Conde d'Eu. Deixára naquella cidade seu primo Dom Felippe Bour-
bon Bragança, filho dos Condes d' Aguila, que fôra servir como cadete de caval-
laria nas forças brasileiras estacionadas no Paraguay. No dia 16, em Humaytá,
firmou a Ordem do Dia 47, cornmunicando que, por Aviso do Ministerio da
Guerra, passara o commando do Exercito ao General Visconde de Pelotas.
E' um extenso e patriotico documento aquella Ordem do Dia, na qual 0
Conde d'Eu apresenta o rehospedo da sua actividade, lastimando ao mesmo
tempo deixar o convivia de seus leaes collaboradores.
A 19 de Abril, tocando na cidade de Rosario, soube S. A. do assassinato de
Urquiza, . praticado 8 dias antes.
Passando por Buenos Aires e Montevidéo, foi o Conde d'Eu alvo de calo-
rosa ~anifestação dos nossos Alliados.
No dia 29 chegava ao Rio de ] aneiro.
88 F RANCISC O MARQUES DOS SANTOS

A's 7 horas da manhã, quando no Morro do Castello foi içado o signal


de achar-se o "Galgo" á vista, uma esquadrilha sahiu barra a f6ra, seguindo
no enco~raçad o "Lima Barro./' o Imperador, a Imperatriz, a Princeza Dona
Isabel, os Ministros de Estado, e pessôas de marcante distincção social.

O encouraçado, aproximando-se do "Galgo", permittiu que, por um largo


pranchão, o Imperador e comitiv a se transferissem para junto do Conde d'Eu.
Ao passar o "Galgo" pelos navios de guerra estrangeiros surtps no porto,
foi ca lorosamente saudado pelos vasos americanos, portuguez e ing~ez, cujas
tripula ções estavam nas vergas dos mastros embandeirados em arco. Todos
salvavam, acompanhando as fortalezas
O Conde d'Eu almoçou a bordó, com a Familia Imperial. Para lá affluiram
altas patentes que o foram cumprimentar.
A GUERRA DO PARAG UAY N A MEDAIJ:EUSTICA B RASILEIRA; 89

Procedente do ,Sul, acompanhava Sua Alteza a seguinte comitiv a: capitão


de Mar e Guerra JoãÓ Mendes Salgado, coroneis Dr. Frarwisco Bonifacio de Abreu,
Rufino Enéas Galvão, Agostinho Marques de Sá, Conego Seraphi~ Gonçalves
dos Passos Miranda, majores Hilario Marianno da Silva, Benedicto de Almeida
1

Torres, Luiz Carlos Marianno da Silva, capitão Alfredo de Escragnolle Tau-


nay, Cirurgião-mór de brigada, Dr. Firmino José Daria, tenentes José Ferreira
Ramos, Belarmino Augusto de Mendonça Lobo e Augusto Alves de Abreu.
Foi concorrido o desembarque do Conde d'Eu e festejadissimo o grande
acontecimento da volta do vencedor. A cidade inteira, dos mais sumptuosos
edifícios ás mai!> humildes casas da Capital, achav a-se adornada com bandei-
ras, flôres, damascos, velludos franjados de ouro, colchas da lndia.
Durante quatro noites s.e guidas, luminarias brancas e coloridas, nos ganchos
dos gradis, ás sacadas, emprestavam á cidade a luz e o brilhantismo que, na-
quelle tempo, poderia ter uma festa carioca.
90 FRANCISCO MARQUES DOS SAN'.1'0$.

Nas ruas e praças levantavam-se .arcos e coretos, e por toda a parte a


população alegre e ruidosa fesiejava a volta de Sua Alteza e a . terminação
da Guerra do Pa-raguay.
Foi cunhada uma rarissima medalha commemorativa, que, como a de Uru-_
guayana, não teve distribuição na época. Consta que um unico exemplar em
ouro foi conferido ao Conde d'Eu. Na Exposição de Historia do Brasil de 1881
figurou um exemplar em bronze, exposto pela Casa da Moéda .
O cunho dessa medalha acha-se na Casa da Moéda. Ha pouco d' ahi sahi-
ram alguns exemplares em chumbo cobreado. Gravou a medalha Eugene Mulon,
cujo nome figura entre os gravadores da época, naquelle estabelecimento.
Representa, no anverso, os bustos conjugados da Princeza Isabel e do Con-
de d'Eu, á direita; e na orla : D. lJabeL Princcra Imperial do BraJil - S. d.
R. GaJtão de QrLean.r Conde d'Eu. No exergo, um ramo com um florão central.
Sob o córte da cabeça da Princeza, F(ecd) E . .!lf ulon.
Reverso: Na orla superior : ConcLu.r?í.o da Guerra do Paraguay. No primei-
ro plano, ao centro, um guerreiro embainhando a espada ; á direita tropheus
de guerra. Num segundo plano, á esquerda, um grupo symbolizando a volta
do soldado ao seio da familia. Ao fundo um vapor, _e á· esquerda sobre um
montículo uma capella. No exergo: 1. 0 de .il1arço de 1870. Separando as duas
legendas, dois ramos com um florão ao centro. Diametro: 65 mms.

MEDALHA OFFERECIDA AO CONDE D'EU PELOS


EMPREGADOS DA CASA DA MOE'DA

Esta medalha foi cunhada em ouro e offerecida pelos empregados da Casa


da Moéda ao Conde d'Eu, em 1871. (1)

(1) - Em 26 de Mnrço de 1870 Christia n Lüster foi incurr.bido de grnvar em puncção o retrato
do Conde d'Eu, concluinco em 5 d~ Julho de 1870. Em 16 de Agosto gravou os cunhas
e os concluiu em 12 de Abril de 1871.
A medalha ele ouro destinada ao Conde d'EL1 ficou prompta em 27 de Abril de 1871,
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O CONDE D'EU NA VESPERA DO TRIUMPHO.


Lithographia de Sebas ti ão Agostinho Sisson, existen te na Bibliotheca Nacional (N .0 18,171 do Catalogo da
Exposiçã o de Historia do Brasil, 1881),
92 FRAN CIS CO MARQUES DOS SANTOS

Representa no anverso : meio busto do Principe á direita. Na orla, em


duas linhas : Ga.Jfon d' OrLean.J, Conde d' Eu, l!IarechaL do Exe~cito Bra.JiLeiro.
No exergo urna pequena estrella. Sob o córte, Lu.Jler F(ecit).
Reverso, no campo : Ao/ Vencedor/de/ Peribebuy/e Campo Grande/. 0.J
empregado.r da/ Ca.ra da JHoéda/ 1871. Na orla, ·dois ramos de louro, atados
por laço.
Diametro : 33 mms.
Por occasião da chegada do heróe da ultima phase da Guerra, a Casa da
Moéda ornou a fachada com bandeiras e festões verdes, ost~ntando, á noite, .
pomposa illuminação a bicos de gaz, vendo-se, sob doce,l, o busto do -Imperador.

rio dia seguinte foi entregue ao Snr. Conselheiro Dr. Provedor da Casa da Moeda. O pri-
meiro exemplar em cobre foi entregue ao Provedor em 23 .de Maio.
Grande espaço medeia entre a gravura do puncção e a terminação dos cunhos. Nesse
fapso de tempo Lüster gravou outros cunhas, do que se deve deduzir que não houve
pressa na execução dessa medalha, se)l ultimo trabalho. Ao fallecer, em 17 de Maio de
1871, deixou em meio a gravura do cunho da medalha commemorativa da Exposição
Nacional de 1866.
A GUERRA DO p .ARAGU.AY
. N.A MEll.ALI-IISTICA BRASILEIRA
. 93

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