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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO

DO RIO GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM


EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS

ROSEMERI AQUILLA

A EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO ESPAÇO


ESCOLAR:
SABER, SABOR E SAÚDE

Ijuí (RS)
2011
1

ROSEMERI AQUILLA

A EDUCAÇÃO ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO ESPAÇO


ESCOLAR:
SABER, SABOR E SAÚDE

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


Graduação Stricto Sensu em Educação nas
Ciências – Mestrado, da Universidade Regional do
Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
(UNIJUÍ), como requisito parcial para a obtenção
do título de Mestre em Educação nas Ciências.

Orientador: Doutor José Pedro Boufleuer

Ijuí (RS),
2011
2

“A concepção de conhecimento não


só incide e se reflete em tudo o que se
ensina e se aprende (que poderíamos
chamar de conhecimento na educação),
mas também em tudo o que intervém
como fundamentação, organização e
orientação desse ensinar e aprender, ou
dessa prática educativa (que distinguiría-
mos como conhecimento da educação)”.

(BOUFLEUER, 2001, p. 71).


3

AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, fonte de minha inspiração, que me acalentou em todos


os momentos difíceis. Acredito, confiante nEle, que esta obra, resultado de
tanto esforço, trará benefícios a todos que a lerem, será instrumento de
propagação da tão importante Educação Alimentar, e proporcionará uma
vida mais saudável e isenta de patologias às realidades escolares que a
instituírem.

A todos os pesquisadores e estudiosos com quem busquei aprender e


interagir segundo seus saberes, os quais me inspiraram por contribuir e
acreditar em uma Educação inovadora, todos citados no final deste estudo.

Ao meu orientador José Pedro Boufleuer, a quem admiro pela sua


trajetória na Educação. Muito obrigada por compartilhar comigo seus
saberes, sempre com paciência e dedicação, disposto a ouvir, ajudar e
interagir no resultado desta produção. Também, pela competência em
sinalizar os melhores caminhos a seguir, pela confiança depositada que
me estimulou a investigar um tema pouco estudado e pela oportunidade de
“saborear” os resultados deste trabalho, incentivando ainda mais minha
paixão pelo estudo da Educação Alimentar.

À prefeitura de Catuípe/RS, pelo apoio e pela compreensão quanto à


importância desta pesquisa para o avanço da Educação Alimentar em
nossas escolas e em nossa comunidade.

Aos membros da comunidade escolar de Horizontina e Pinheirinho do


Vale/RS, por proporcionarem uma gama de informações valiosas para a
realização e construção deste estudo.

À minha família que esteve em todos os momentos me incentivando, em


especial à minha mãe e ao meu esposo.

Enfim, agradeço a todos que de alguma forma me auxiliaram na


produção desta articulação entre educação e nutrição, na promoção de
uma vida saudável e na formação de saberes e seres.
4

RESUMO

A dissertação assume o pressuposto de que a escola, enquanto espaço de formação


humana, pode também desenvolver uma prática de Educação Alimentar. Após a
apresentação da questão da Segurança e Insegurança Alimentar e Nutricional, a
pesquisa aborda aspectos relativos à legislação sobre o assunto e às influências da
mídia no consumo alimentar. Em seguida é traçado o histórico do Programa Nacional
de Alimentação Escolar e se discutem questões relativas à Educação Alimentar a
partir das potencialidades pedagógicas da hora da merenda. Tendo como referência
essas tematizações, a pesquisa apresenta e discorre sobre dois modelos gaúchos
de gestão escolar que realizam práticas pedagógicas inovadoras relacionadas à
Alimentação Escolar, que são os modelos adotados nos municípios de Horizontina e
Pinheirinho do Vale, ambos localizados no Estado do Rio Grande do Sul. A busca de
dados ocorreu em escolas de Educação Infantil, de Ensino Fundamental e de
Educação Especial desses municípios, em que foi entrevistada parte da comunidade
escolar (pais, professores, conselheiros da alimentação escolar, merendeiras,
nutricionistas), perfazendo um total de 41 pessoas. Nesses espaços pesquisados a
Educação Alimentar aparece em atividades práticas como o cultivo de horta escolar,
encenações teatrais, contação de histórias, oficinas de culinária, dentre outras.
Dentre os projetos pedagógicos das escolas se destacam os da merenda
pedagógica, da avaliação nutricional e o da capacitação da comunidade escolar para
a boa alimentação. Como contribuição deste estudo tem-se a demonstração de que
resultados positivos no âmbito da educação alimentar requerem planejamento das
escolas sobre o tema, programa adequado de aquisição de alimentos, alimentos,
supervisão e orientações adequadas e estabelecimento de vínculos entre a cultura
familiar e as ações de formação no âmbito da escola. Por fim, constata-se a
importância de que qualquer atividade prática de educação alimentar seja
acompanhada de uma explicitação das razões de uma alimentação saudável.

Palavras-chave: Educação para a saúde. Educação alimentar e nutricional.


Alimentação escolar. Formação humana.
5

ABSTRACT

The dissertation takes the assumption that the school as an area of human
development, can also develop a practice of Nutrition Education. After the
presentation the issue of Security and Insecurity Nutrition and Food research
addresses aspects of the legislation on the subject and media influences on food
intake. It is then traced the history of the National School Feeding and raising
questions regarding Nutrition Education from the educational potential of the lunch
hour. With reference thematizations these, the study presents and discusses two
models of school management gauchos who perform teaching practices related to
school feeding, which are the models adopted in the municipalities of Horizontina and
Pinheirinho do Vale, both located in Rio Grande do South The search data occurred
in preschools, elementary schools and municipalities of Special Education, who was
interviewed on the part of the school community (parents, teachers, counselors,
school meals, cooks, nutritionists), a total of 41 people. In these spaces surveyed
Food Education appears in practical activities such as growing school garden,
theatrical performances, storytelling, cooking workshops, among others. Among the
educational projects in schools to highlight the teaching of meals, nutritional
assessment and training of the school community for good food. As a contribution of
this study is to demonstrate that positive results in the context of nutrition education in
schools requires planning on the subject, an appropriate program to buy food,
adequate supervision and guidance and establishment of links between the family
culture and training initiatives within the school. Finally, there is the importance of
practical activity that any food education is accompanied by an explanation of the
reasons for a healthy diet.

Keywords: Health education. Food and nutrition education. School feeding. Human
Formation.
6

LISTA DE FIGURAS

Figura 1: Total de participantes da pesquisa por faixa etária no município


de Horizontina, RS.......................................................................... 54
Figura 2: Total de participantes da pesquisa por faixa etária no município
de Pinheirinho do Vale, RS............................................................. 54
Figura 3: Total da comunidade escolar de Horizontina, participante da
pesquisa, por segmento/2010......................................................... 55
Figura 4: Total da comunidade escolar de Pinheirinho do Vale, participante
da pesquisa, por segmento/2010.................................................... 55
Figura 5: Aula em que os alunos preparam a bolacha caseira aprendendo
as letras do alfabeto, Horizontina/RS.............................................. 59
Figura 6: Cultivo da horta escolar nas escolas de Pinheirinho do Vale/RS... 61
Figura 7: Exemplo de Merenda Pedagógica e sistema em que os alunos
se servem nas escolas de Horizontina/RS..................................... 62
Figura 8: Exemplo da avaliação nutricional que é realizada nas escolas de
Pinheirinho do Vale/RS................................................................... 71
Figura 9: Cultivo da horta escolar por alunos de Horizontina/RS.................. 72
Figura 10: Capacitação com um especialista sobre preparação da merenda
pedagógica em que estão participando merendeiras..................... 78
Figura 11: Capacitação sobre produção de alimentos saudáveis em que
estão participando merendeiras e pais........................................... 80
7

LISTA DE MAPAS

Mapa 1: O que é Educação Alimentar para os professores de Horizontina,


RS?....................................................................................................... 57
Mapa 2: O que é Educação Alimentar para os professores de Pinheirinho do
Vale, RS?................................................................................. ........... 60
Mapa 3: O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente
com a alimentação escolar e o Comales, de Horizontina, RS?........... 66
Mapa 4: O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente
com alimentação escolar e o Comales, de Pinheirinho do Vale, RS?. 68
Mapa 5: O que é Educação Alimentar para os pais de Pinheirinho do Vale,
RS?....................................................................................................... 68
8

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

APAE − Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais


CAE – Conselho de Alimentação Escolar
COMALES − Conselho Municipal de Alimentação Escolar
CNA − Comissão Nacional de Alimentação
CONSEA – Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional
DHAA – Direito Humano à Alimentação Adequada.
EAN – Educação Alimentar e Nutricional
EJA − Educação de Jovens e Adultos
EMATER − Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
FAE − Fundação de Assistência ao Estudante
FAO − Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação
FIAN − Rede de Ação e Informação pelo Direito a se Alimentar
FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
LOSAN – Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional
MEC − Ministério da Educação e Cultura
OMS − Organização Mundial da Saúde
PCNs − Parâmetros Curriculares Nacionais
PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar
PNAN − Política Nacional de Alimentação e Nutrição
PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
PNDS – Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde
POF − Pesquisa de Orçamentos Familiares
SA – Segurança Alimentar
SENAR − Serviço Nacional de Aprendizagem Rural
SISAN – Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
SMEC − Secretaria Municipal de Educação e Cultura
SUS – Sistema Único de Saúde
9

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ..........................................................................................................10

1 SEGURANÇA E INSEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL ......................18


1.1 Segurança Alimentar: legislação e seu contexto atual ........................................18
1.2 Insegurança Alimentar .........................................................................................23
1.3 Mídia: informando e influenciando o consumo alimentar ....................................25

2 A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO ALIMENTAR: A HORA DA MERENDA ................32


2.1 O desenvolver histórico do Programa Nacional de Alimentação Escolar............35
2.2 O sabor da Alimentação Escolar, significados e representações culturais .........38
2.3 A Educação Alimentar como tema transversal....................................................41

3 A EDUCAÇÃO ALIMENTAR NO CONTEXTO ESCOLAR ...................................49


3.1 O percurso metodológico ....................................................................................49
3.2 Conhecendo os espaços em que foi realizada a pesquisa..................................51
3.3 Ações de Educação Alimentar desenvolvidas e a sua compreensão por parte das
comunidades escolares .............................................................................................56
3.4 Ouvindo as vozes da comunidade escolar: os resultados e a importância
da inclusão da Educação Alimentar ..........................................................................73
3.5 As práticas de Educação Alimentar e a sua articulação com demais saberes
escolares.....................................................................................................................74
3.6 Atividades de educação permanente em alimentação, saúde e educação
para toda a comunidade escolar ...............................................................................76

CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................81

REFERÊNCIAS.........................................................................................................83

OBRAS CONSULTADAS .........................................................................................88

ANEXOS ...................................................................................................................90
10

INTRODUÇÃO

Inicialmente, cabe indicar um conjunto de questões que se referem ao


surgimento deste trabalho, ou seja, como se desenvolveu, quais as reflexões
suscitadas e os resultados alcançados. Assim, é importante referir a minha trajetória,
entendendo, consequentemente, a escolha deste tema e o caminho percorrido pelo
estudo. Ao chegar ao Mestrado em Educação nas Ciências constatei que muito
havia para ser pesquisado. Foram dias, meses e anos de estudo, em que passei a
dedicar cada momento a leituras e pesquisas, intercalando o tempo com o trabalho,
onde cumpro 40 horas semanais.

O universo acadêmico me angustiava e, ao mesmo tempo, me incentivava. As


indagações que surgiam e a busca incansável pela compreensão dos assuntos
trabalhados nos componentes curriculares me fizeram aprender muito e expandir
minhas leituras e saberes.

Nesse sentido, aprendendo e partindo da experiência profissional adquirida na


trajetória do Serviço Público, executado junto às escolas e, em especial, na Política
da Educação Alimentar – onde o nutricionista desempenha papel fundamental como
responsável pela merenda e como promotor de saúde – algumas questões do
cotidiano vêm me inquietando. Uma delas é que atualmente poucos municípios do
Estado do Rio Grande do Sul consideram o espaço escolar rico para a construção
humana em todos os sentidos e, portanto, para a prática de Educação Alimentar.

Um dos desafios que a Educação Escolar enfrenta na atualidade é a definição


do real papel educativo das escolas, no sentido de saber se faz parte das suas
tarefas oportunizar uma formação humana em geral, isto é, preparar para a vida em
todas as suas dimensões. Considerando que o aluno está sob os cuidados da escola
por longos anos, espera-se que esta procure desenvolver todas as suas dimensões
fundamentais, permitindo que ele incorpore novas percepções, aprenda novos
sentidos, novos modos de fazer, de agir e de interagir, partindo da vivência de cada
um e do coletivo.

Na sociedade atual, dada à diversidade e a complexidade das informações


11

que são disseminadas pela escola, algumas representam necessidade instantânea


de serem trabalhadas, constituindo-se verdadeiros desafios educacionais, como por
exemplo, introduzir o trabalho de Educação Alimentar e Nutricional (EAN),
abordando o tema da alimentação saudável como parte do processo educacional no
Espaço Escolar.

Um dos aspectos importantes a serem desenvolvidos nesta perspectiva


ampliada das tarefas da escola é o da Alimentação Saudável, o que implica
considerar a escola como espaço fundamental e privilegiado em que os alunos têm
uma educação alimentar, fazendo parte de seu processo de formação humana. Isso
inclui decifrar a realidade da Educação Alimentar apresentada nas escolas,
incentivando a exploração de todos os espaços por ela oportunizados para a
aprendizagem da saúde e de outros saberes que as desafiam.

A alimentação equilibrada e balanceada é um dos fatores fundamentais para a


eutrofia1 e para o bom desenvolvimento físico, psíquico e social das pessoas. A
alimentação adequada refere-se ao padrão alimentar adequado às necessidades
biológicas e sociais dos indivíduos e de acordo com as fases do curso da vida. Para
ser adequada a alimentação deve embasar-se em práticas alimentares culturalmente
referenciadas; valorizar o consumo de alimentos saudáveis regionais (como
legumes, frutas e verduras); observar a qualidade e a quantidade dos alimentos nas
refeições; e considerar os aspectos comportamentais e afetivos relacionados a essas
práticas. Uma alimentação que não cumpre com essas condições pode resultar, por
exemplo, em aumento de peso2 e/ou em deficiências de vitaminas e minerais
(BRASIL, 2007).

A saúde alimentar pode também vir a ser comprometida pela desnutrição ou


por doenças que levam ao mau aproveitamento dos alimentos ingeridos, resultando
em inadequação quantitativa da energia de que o corpo necessita. Observe-se que
“a desnutrição é um problema que tem como consequência o crescimento e o
desenvolvimento deficiente, maior vulnerabilidade a doenças infecciosas, redução da
capacidade de raciocínio, problemas de ordem motora, entre outros” (MONDINI;
MONTEIRO, 1998, p. 30).
1
Eutrofia – nutrição de boa qualidade.
2
A expressão “peso” aqui, refere-se ao peso de uma pessoa, deve ser citada, portanto como peso da
massa corporal.
12

Outro fato preocupante relacionado ao estado nutricional de crianças diz


respeito aos índices de aumento de sobrepeso e obesidade na população infantil do
Brasil e também do mundo. Modificou-se radicalmente o quadro da situação
nutricional no país pela “transição de um quadro de desnutrição3 infantil grave para
uma epidemia de obesidade, que vem se acentuando significativamente e
suscitando a criação de políticas públicas de saúde voltadas para o controle do peso
corporal” (SALOMONS; RECH; LOCH, 2007, p. 248).

A própria definição de Obesidade – “Doença na qual o excesso de gordura


corporal se acumulou a tal ponto que a saúde pode ser afetada” (Organização
Mundial de Saúde, OMS) – demonstra a preocupação com as possíveis
consequências do acúmulo de tecido adiposo no organismo. De fato, esta é uma
doença universal de prevalência crescente e que vem adquirindo proporções
epidêmicas, sendo um dos principais problemas de saúde pública da sociedade
moderna (LOPES, 2006).

Comprovando essa modificação do quadro nutricional, os resultados são da


Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, realizada pelo IBGE, em
parceria com o Ministério da Saúde, que comprovou que em 2009, uma em cada três
crianças de 5 a 9 anos estava acima do peso recomendado pela Organização
Mundial de Saúde (OMS). Pode-se verificar que o excesso de peso e a obesidade
são encontrados com grande frequência a partir de 5 anos de idade, em todos os
grupos de renda e em todas as regiões brasileiras.

Ainda segundo este estudo, a parcela dos meninos e rapazes de 10 a 19 anos


de idade com excesso de peso da massa corporal passou de 3,7% (1974-1975) para
21,7% (2008-2009). Já entre as meninas e moças o crescimento do excesso foi de
7,6% para 19,4%, respectivamente nos anos especificados. Também o excesso de
peso da massa corporal em homens adultos saltou de 18,5% para 50,1% e
ultrapassou, em 2008-2009, o das mulheres, que foi de 28,7% para 48%.

A POF revelou um salto no número de crianças de 5 a 9 anos com excesso de


peso da massa corporal ao longo de 34 anos: em 2008-2009, 34,8% dos meninos
estavam com o peso acima da faixa considerada saudável pela OMS. Em 1989, este
3
Tanto o estado de desnutrição, como sobrepeso e obesidade caracterizam um quadro de má
nutrição.
13

índice era de 15%, contra 10,9% em 1974-1975. Observou-se padrão semelhante


nas meninas, que de 8,6% na década de 70 passaram para 11,9% no final dos anos
80 e chegaram aos 32% em 2008-2009.

O que preocupa nesses índices é o aparecimento de patologias associadas


provocadas pelo excesso ou pela falta de alimentos. Esta realidade direciona a
investigação para a amenização desses danos, incentivando as práticas de
Educação Alimentar para o início da vida, prosseguindo nas séries iniciais e
seguindo, gradualmente, ao avançar da idade, na intenção de introduzir nas crianças
e jovens hábitos saudáveis, duradouros e promissores.

Apesar dessas constatações, observa-se que muitas escolas não se


preocupam com a saúde nutricional de seus alunos e em oportunizar, pela
alimentação escolar, um espaço de aprendizagem permanente e interdisciplinar. Por
que não trabalhar a Educação em Saúde por meio de atividades pedagógicas
práticas que partam da realidade do aluno, respeitando sempre sua condição
socioeconômica e sua cultura alimentar?

Talvez a argumentação de Boufleuer (2001, p. 59) nos ajude a responder esta


pergunta quando afirma que:

a educação constitui uma interação que precisa ser coordenada e que suas
tarefas de ensino e aprendizagem se relacionam, em grandes linhas, com a
reprodução dos componentes simbólicos do mundo da vida: a cultura, a
sociedade e a personalidade.

É nesse sentido que entendemos que as tarefas de ensino e aprendizagem se


relacionam com o mundo da vida e que as atividades pedagógicas exercidas na
escola devem partir da realidade do aluno. Os dados aqui apresentados visam a
despertar para a urgência de incluir a Educação Alimentar nas escolas.
Complementando a importância do tema abordado e da importância de
preparar o espaço escolar para a realização do trabalho de Educação Alimentar e
Nutricional, cabe mencionar matéria da Revista do Conselho Federal de
Nutricionistas, (nº33, de janeiro-abril/2011), intitulada “Alimentação saudável ganha
reforço nas escolas". Esta matéria refere a Lei da Cantina Saudável, que, aliada à
Lei 11.947 de junho de 2009, deveria garantir alimentação saudável aos alunos
matriculados na rede de educação básica do Brasil.Infelizmente a Lei da Cantina
14

Saudável, que proíbe a venda de frituras, guloseimas, alimentos gordurosos e muito


calóricos nas cantinas e lanchonetes das escolas municipais e particulares, em
regra, não é cumprida, vigorando apenas em poucos estados brasileiros. Se fosse
respeitada esta lei, nenhuma escola venderia em suas cantinas esses alimentos
nocivos à saúde dos escolares. Nos estados em que esta lei vigora, como, Paraná e
Minas Gerais, e nas cidades de Florianópilis (SC), Rio de Janeiro (RJ), Ribeirão
Preto (SP) e dentre outras, há relatos de que ela tem sido um importante instrumento
de promoção da saúde dos escolares, segundo reportagem dessa Revista .

Acreditamos que mediante uma Educação Alimentar nas escolas seja


possível chegar a essa desejada Segurança Alimentar e Nutricional. Enquanto
processo recíproco, criativo e interativo de ensino e aprendizagem entre duas ou
mais pessoas, a educação escolar pode ampliar o acesso à informação sobre saúde
e nutrição. No âmbito das escolas, a começar pelo planejamento pedagógico,
passando pelas atividades em sala de aula, e chegando aos diferentes momentos de
recreação, ou mesmo às atividades “extramuros”, é possível proporcionar
aprendizagens que favoreçam uma nova postura em relação ao ato de comer. Ao
mesmo tempo, é importante valorizar – individualmente e em grupo – o prazer da
alimentação e estimular uma relação equilibrada com os alimentos e com os diversos
saberes do currículo escolar.

Marques (2002, p. 7) enfatiza que:

As reformas da educação nas últimas décadas foram articuladas a partir de


pressupostos que direcionaram as atividades de ensino para inserção no
mundo do trabalho. Este movimento deve ser repensado, estabelecendo-se
novas alternativas para a educação. Alternativas que reforcem, entre outros
aspectos, a capacitação para a vida autônoma, para o exercício da
cidadania e da dignidade, para a participação na vida política do país e para
o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das manifestações culturais em
suas diversas formas.

Nesse contexto, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura


e Alimentação (FAO, 2005, p.11), Segurança Alimentar existe quando “todas as
pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico e econômico a uma alimentação
que seja suficiente, segura, nutritiva e que atenda a necessidades nutricionais e
preferências alimentares de modo a propiciar vida ativa e saudável”.
15

A pesquisa em questão consiste em um estudo sobre a Alimentação Escolar


como uma prática pedagógica a partir de duas experiências que foram escolhidas
em virtude de sua trajetória destacada pelo Prêmio Gestão Eficiente em Alimentação
Escolar, realidades que estão implicadas com a tematização da Educação Alimentar
na escola, e na busca por oportunizar escolhas para uma vida saudável.

Nesse sentido, é importante conhecer o Prêmio Gestão Eficiente em


Alimentação Escolar, o qual foi criado com o objetivo de avaliar, classificar e divulgar
as prefeituras do Brasil que realizam a gestão da alimentação escolar com
qualidade. Tem o intuito de disseminar estas boas práticas para que sejam conhe-
cidas e adotadas por outros gestores. O lançamento do prêmio aconteceu em 2004.

Os municípios que receberam este prêmio foram avaliados a partir dos


indicadores quantitativos, que consideram aspectos financeiros, como a
complementação municipal em relação ao recurso total para o PNAE; os indicadores
nutricionais, que analisam o número, a qualidade e a quantidade de refeições
servidas por aluno, número de alunos por nutricionista, número de refeições por
merendeira, número de escolas com refeitório, frequência de cursos de Educação
Alimentar para alunos e capacitação para merendeiros, dias de atendimento com
oferta de Alimentação Escolar, impactos do Programa na economia local; os
indicadores do desenvolvimento local, que visam aos recursos gastos com
produtores locais em relação ao total de recursos; e, ainda, pelo indicador da
atuação do Conselho de Alimentação Escolar, que refere o número de reuniões do
CAE e a forma de escolha do representante da sociedade civil.

Este estudo procura analisar ainda, e de forma mais específica, os


indicadores qualitativos apresentados, que envolvem os projetos desenvolvidos e
outras iniciativas devidamente anexadas ao formulário de inscrição.

Os dois indicadores – quanti e qualitativos –, classificam os que consideram


os melhores, que agora serão analisados no que tange a práticas de Educação
Alimentar envolvendo toda a comunidade escolar, como os alunos, pais, serventes e
merendeiras, direção e professores e Conselho de Alimentação Escolar, compilando
todas as atividades que envolvam um saber a ser trabalhado, uma iniciativa de
educar para a alimentação saudável.
16

Pretende-se responder à questão: como essas duas realidades inscrevem


a educação alimentar nas suas rotinas, envolvendo as práticas pedagógicas?

Ainda, pretende-se elucidar a forma como este trabalho é desenvolvido no


dia-a-dia e os efeitos dessas práticas, as possíveis alternativas para que esse
trabalho se desenvolva de forma interdisciplinar, articulado com o todo do trabalho
da escola, uma vez que a alimentação nutre o corpo, mas também tem a ver com a
convivência e permite a interligação de diferentes saberes.

De acordo com Freire (2005, p. 98), “ensinar exige compreender que a


educação é uma forma de intervenção no mundo” e, diante disso, entendemos que
aprendemos e nos (re)construímos nas relações que estabelecemos com nossos
semelhantes ao longo de nossa vida.

A prática da merenda escolar nas escolas carrega significados, marca as


diferenças. Aqui no Brasil existe um diferencial: as nossas escolas públicas fornecem
de forma gratuita a merenda, o que não acontece nas escolas particulares do país.

Para a consecução dos objetivos deste estudo apresentamos, no primeiro


capítulo, o conceito de Segurança e de Insegurança Alimentar. Em relação à
Segurança Alimentar apresentamos a legislação e seu contexto na atualidade. No
que tange à Insegurança Alimentar abordamos a influência da mídia no consumo
alimentar de crianças, adolescentes e adultos.

No segundo capítulo apresentamos uma reflexão sobre a significativa


oportunidade da prática da Educação Alimentar: a hora da merenda e o desenvolver
histórico do Programa Nacional de Alimentação Escolar. Propomos, nesse sentido,
uma reflexão sobre o sabor da Alimentação Escolar, seus significados e
representações culturais. Por fim, investigamos o significado da Educação Alimentar
como tema transversal.

No terceiro capítulo apresentamos a Educação Alimentar no contexto escolar,


a metodologia utilizada na pesquisa e conhecemos os espaços em que a mesma foi
realizada. Relatamos as atividades de Educação Alimentar praticadas nas escolas
investigadas e o que estas entendem por Educação Alimentar. Abrimos espaço para
as vozes das comunidades escolares investigadas e analisamos os resultados
obtidos pelas práticas de Educação Alimentar, bem como sua importância no
17

conjunto do trabalho da escola. Considerações acerca da educação permanente em


alimentação e saúde para toda a comunidade escolar encerram o capítulo.

Para finalizar, seguem as considerações finais a que se chegou com a


realização do trabalho, as referências utilizadas e que fundamentam a dissertação, e
os anexos, os quais ilustram e complementam o estudo.
18

1 SEGURANÇA E INSEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL

São os dados relativos à situação nutricional da população brasileira, em


especial de crianças e adolescentes que frequentam instituições educacionais, que
instigam à reflexão sobre as possibilidades de uma educação alimentar articulada
com o conjunto do trabalho formativo das escolas. Há índices alarmantes relativos à
obesidade, a doenças derivadas do descontrole alimentar, como o diabetes melittus,
que chamam a atenção para consequências irremediáveis à saúde da população,
caso a questão não seja enfrentada com a seriedade que exige.

Para o início de nosso percurso investigativo tratamos, no presente capítulo,


do tema da Segurança e da Insegurança Alimentar e Nutricional, orientando-nos a
partir da recente e importante Lei n° 11.346, de 15/9/2006 – Lei Orgânica de
Segurança Alimentar e Nutricional - LOSAN. O proposto no âmbito desta lei,
confrontado com a real situação alimentar e nutricional da população brasileira,
especialmente a escolar, certamente indicará o quanto ainda há para ser feito.

1.1 Segurança Alimentar: legislação e seu contexto atual

Pode-se dizer que o conceito de Segurança Alimentar surgiu a partir da


Segunda Grande Guerra, com mais da metade da Europa devastada e sem
condições de produzir o seu próprio alimento. Esse conceito leva em conta três
aspectos principais: quantidade, qualidade e regularidade no acesso aos alimentos.

O conceito de segurança alimentar e nutricional é fruto de um processo de


construção coletiva e vem sendo ampliado no decorrer dos últimos anos,
principalmente a partir das duas últimas Conferências Mundiais sobre Alimentação4,
podendo ser assim expresso:

Segurança alimentar e nutricional consiste em garantir a todos condições de


acesso a alimentos básicos seguros e de qualidade, em quantidade
suficiente, de modo permanente e sem comprometer o acesso a outras
necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis,
contribuindo assim para uma existência digna em um contexto de
desenvolvimento integral da pessoa humana. (CONTI; VALENTE, 2002, p
48).

4
Conferências Mundiais sobre Alimentação: Cúpulas Mundiais sobre Alimentação realizadas em
Roma, em 1996 e 2002 (ONU/FAO).
19

No Brasil, a I Conferência Nacional de Alimentação e Nutrição, realizada em


1986, agregou um componente importante a este conceito, afirmando que a
alimentação é um direito de cidadania, enquanto o Conselho de Segurança
Alimentar e Nutricional (CONSEA)5 agregou-lhe a dimensão da nutrição e da
utilização biológica do alimento. A partir daquele contexto passou-se a trabalhar na
elaboração e proposição de políticas estratégicas de intervenção no campo da
segurança alimentar e nutricional.

Conhecer os pontos principais da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e


Nutricional (Lei nº 11.346/2006) permitirá esclarecer questões como a Segurança
Alimentar e indicará os desafios do que seria uma possível prática de Educação
Alimentar.

O art. 1o da Lei em foco estabelece as definições, os princípios, as diretrizes,


os objetivos e a composição do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional (SISAN). Tal sistema deverá ser assegurado por meio do poder público,
com a participação da sociedade civil organizada, cabendo a ele formular e instituir
políticas, planos, programas e ações que assegurem o direito humano à alimentação
adequada.

Como proposto pela Lei, todos os cidadãos têm o direito garantido à


alimentação adequada do ponto de vista nutricional e higiênico. O evidente não
cumprimento deste princípio traz a urgência de se buscar alternativas para a sua
efetivação mediante políticas, planos, enfim, formas de assegurar este direito a toda
população.

Já o art. 2o estabelece que a alimentação adequada é direito fundamental do


ser humano, inerente à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização
dos direitos consagrados na Constituição da República Federativa do Brasil (CF/88),
devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para
promover e garantir a Segurança Alimentar e Nutricional da população. Confrontando
o disposto na legislação com a realidade da população verifica-se o descumprimento
de um princípio constitucional. E mais uma vez pode-se indicar a necessidade de
políticas e ações que cumpram o estabelecido na lei. De que forma, porém, o poder
5
O CONSEA foi criado pelo presidente Itamar Franco, em 1990, extinto pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso, em 1995, e recriado pelo presidente Lula, em 2003.
20

público irá promover a Segurança Alimentar e Nutricional? Antes de responder a este


questionamento é importante relatarmos o art. 4o, que apresenta que a Segurança
Alimentar e Nutricional abrange:

I – a ampliação das condições de acesso aos alimentos por meio da


produção, em especial da agricultura tradicional e familiar, do
processamento, da industrialização, da comercialização, incluindo-se os
acordos internacionais, do abastecimento e da distribuição dos alimentos,
incluindo-se a água, bem como da geração de emprego e da redistribuição
da renda.

Nesse contexto, um sonho pessoal e, acreditamos, global, que ainda


necessita ser conquistado, é que todos tenham acesso a alimentos. Com toda a
produção brasileira é incompreensível que ainda tenhamos pessoas passando fome.

Um dado importante que reflete que estamos evoluindo, mesmo que a passos
lentos, é que hoje temos menos pessoas passando fome. Em relação a 2004, houve
aumento da Segurança Alimentar (SA). Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (PNAD), em 2009, 69,8% dos domicílios particulares brasileiros tinham
acesso regular e permanente a alimentos em diversidade e quantidade suficiente,
em face de 65% do levantamento anterior. Isso significa uma diferença – em
números absolutos – de 2,8 milhões de domicílios, correspondendo a
aproximadamente 11,1 milhões de brasileiros que passaram a viver em segurança
alimentar.

Um dos aspectos importantes que trago ao desenvolver este estudo é a


prevenção de doenças, que consta no inc. III, art. 4º, da Lei 11.346/2006, que propõe
a promoção da saúde, da nutrição e da alimentação da população, incluindo-se
grupos populacionais específicos e populações em situação de vulnerabilidade
social.

Nesse sentido, entende-se que promover a saúde, a nutrição e a alimentação


da população envolve um trabalho de educação desde os primeiros dias de vida de
cada indivíduo, perdurando para sempre. Este processo visa a atender todas as
pessoas em vulnerabilidade social, como os idosos, os adultos em risco, as crianças
desde o nascimento e, em especial, aquelas que chegam às escolas.

A responsabilidade não deve ser somente da escola, mas também da família,


e ambas devem trabalhar juntas este tema. A família precisa compreender e adotar
21

medidas para abordar e contribuir no sentido de transmitir conhecimentos para que


seu filho opte por uma alimentação saudável. É importante destacar que a
informação por si só não é suficiente para a mudança dos hábitos alimentares, mas
que esta acontecerá a partir da conscientização desta necessidade, o que torna
sempre importante levar e apresentar as informações sobre alimentação saudável.

Comprova-se, com o exposto, que o Direito Humano à Alimentação Adequada


existe e é garantido pela Constituição Federal de 1988, quando a saúde foi instituída
como um direito assegurado por políticas sociais e econômicas. Ao se definir a
saúde como resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda,
meio ambiente, trabalho e transporte, emprego e lazer, liberdade e acesso aos
serviços de saúde, houve a necessidade da integração de um conjunto de políticas
públicas estabelecidas por diferentes setores de governo.

No capítulo “Dos Direitos Sociais”, art. 6º da CF/88, estão previstos os direitos


à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, à moradia, ao lazer, à segurança,
entre outros. Esta alimentação, prevista e garantida pela Carta Magna como um
direito social, deve ser saudável e suficiente para assegurar o pleno desenvolvimento
dos indivíduos, em especial daqueles que se encontram em processo de
desenvolvimento.

Todos têm direito a uma alimentação saudável, acessível, de qualidade, em


quantidade suficiente e de modo permanente, o que conceitua a Segurança
Alimentar e Nutricional. Ela precisa ser totalmente baseada em práticas alimentares
promotoras da saúde, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais.
Trata-se, portanto, de um direito do cidadão brasileiro, devendo respeitar as
particularidades e características culturais de cada região, cuja valorização e
consideração são fundamentais no espaço escolar brasileiro.

Segundo Morin (2004), os direitos humanos tratam dos direitos reconhecidos


de todos os homens, e independentemente do grupo ao qual pertencem, possuem
os mesmos direitos.

Recentemente fortaleceu-se ainda mais a defesa da Segurança Alimentar e


Nutricional como uma questão de direito humano. Valente (2002) a defende como
22

um conjunto de políticas públicas destinado a garantir o direito à alimentação e à


nutrição, ou seja, um direito humano básico e essencial.

De acordo com o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA,


2004), o direito humano é alcançado quando todos os homens, mulheres e crianças,
sozinhos ou em comunidade, têm acesso físico e econômico, em todos os
momentos, à alimentação adequada, ou aos meios para sua obtenção.

É preciso refletir sobre o que foi caracterizado como direito à alimentação


adequada. O Conselho não refere simplesmente o respeito ao equilíbrio nutricional,
como valor calórico, proteínas e outros nutrientes que devem compor um plano
alimentar equilibrado. O termo “adequada” refere-se também às condições sociais,
econômicas, culturais, climáticas, ecológicas e, ainda, e mais importante, ao ser
humano que precisa entender o que representa isso e se inserir na busca por esta
adequação e, a partir daí, reforçar a importância da Educação Alimentar.

O que representa o direito à alimentação adequada abrange, no mínimo, o


direito de acesso ao alimento, o de consumir um alimento seguro nutricionalmente, e
o de efetuar escolhas alimentares saudáveis, conhecendo a composição do
alimento. É isso que deseja a Educação Alimentar por meio de suas atividades:
educar para que o indivíduo possa decidir sobre o que consumir.

A Lei 8.080/90, do Sistema Único de Saúde (SUS) apresenta grande evolução


nesse sentido, como o seu art. 3°, que define a alimentação como um dos fatores
determinantes e condicionantes da saúde da população. Diante do exposto, temos
consciência de que só teremos uma população saudável quando os representantes
do povo junto ao governo efetivamente valorizarem a alimentação saudável por meio
de projetos viáveis e de acordo com a realidade social.

Sabe-se que existe uma legislação a ser cumprida, mas na realidade são
poucas as atividades que envolvem os alunos e que promovem uma vida saudável.
A responsabilidade de promover ou garantir uma vida saudável em sua diversidade
envolve a efetivação de políticas, programas e ações, o que faz com que um dos
caminhos seja a introdução da Educação Alimentar nas escolas brasileiras.
23

Entende-se que a promoção da saúde entre crianças não é uma prioridade


das políticas oficiais de saúde, em particular no ambiente escolar. Entretanto, são
necessárias ações nesse sentido, incluindo aí programas educativos em nutrição. As
ações na direção da prevenção são extremamente importantes, e o ensino da
nutrição é fundamental na promoção de saúde, que precisa ocupar seu lugar na
escola. Por isso, a educação nutricional não pode deixar de compor, criticamente,
um plano nacional oficial de ensino.

A garantia de uma alimentação adequada passa pela construção de um novo


paradigma de sociedade, que privilegie as políticas sociais e a qualidade de vida da
população. Acredita-se que uma das alternativas seja a adoção de Políticas Públicas
Educativas de Segurança Alimentar e Nutricional.

O Ministério da Saúde aprovou, em 1999, a Política Nacional de Alimentação


e Nutrição (PNAN), que passou por reformulações em 2003 e possui diretrizes
importantes, como:
− a promoção de práticas alimentares e estilos de vida saudáveis;
− a prevenção e controle dos distúrbios nutricionais e das doenças associadas à
alimentação e à nutrição.

1.2 Insegurança Alimentar

Percebemos a necessidade de estabelecer prioridades e seguir as diretrizes


acima referidas. Por isso, após caracterizar a Segurança Alimentar é extremamente
importante saber o que representa a “Insegurança Alimentar”. Esta engloba desde a
preocupação e a angústia ante a incerteza de dispor regularmente de comida, até a
vivência de fome por não ter o que comer em um dia inteiro, passando pela perda da
qualidade nutritiva (macro e micronutrientes), incluindo a diminuição da diversidade
da dieta e da quantidade de alimentos. A Insegurança Alimentar envolve também as
pessoas que possuem recursos e alimentos para consumir, mas o fazem de forma
inadequada, consumindo-os em excesso.

A alimentação em excesso é resultado da grande variedade e da facilidade de


acesso aos alimentos, realidade oposta à desnutrição, que decorre da falta de
alimentos e da fome. É importante refletir que na falta de recursos financeiros, muitas
24

famílias brasileiras não conseguem comprar alimento para seus filhos, e por esse
motivo dependem da Alimentação Escolar para sobreviver.

Segundo Amaro (2002, p. 22):

É neste quadro dos direitos, direitos do cidadão, que a merenda escolar tem
sido apresentada e “falada". Da questão assistencialista e nutricional —
combate à desnutrição e ao fracasso escolar — para a questão pedagógica
e da cidadania — como espaço para aprendizagens e convivências entre os
alunos e exercício do direito de alimentar-se, independente da carência.
No Brasil todos os alunos da rede pública têm este direito assegurado e
respeitado, e muitos deles dependem da Alimentação Escolar para garantir a sua
alimentação. Como citado anteriormente, é preciso tratar a Alimentação Escolar num
contexto pedagógico e num espaço de aprendizagens.

Marques (1993, p. 11) afirma que

[...] não se ensinam ou se aprendem coisas, mas relações estabelecidas em


entendimento mútuo expressas em conceitos que, por sua vez, são
construções históricas, isto é, nunca dadas de vez, mas sempre retomadas
por sujeitos em interação e movidos por interesses práticos no mundo em
que vivem.

Diante disso, penso que um dos espaços mais adequados para orientações
sobre alimentação saudável e outros temas afins é o âmbito escolar, é a interação
entre toda comunidade escolar.

A não instituição desta prática de educar para a busca de uma alimentação


saudável pode conduzir à Insegurança Alimentar, que caracteriza a inclusão de
pessoas em risco nutricional não só pelo baixo consumo de alimentos e baixo peso
(desnutrição), mas pelo processo inverso de consumo excessivo de alimentos que
conduz ao sobrepeso e à obesidade, cujo índice é preocupante na idade escolar.

A pesquisa domiciliar do IBGE, de 2008-2009, confirma que nas três últimas


décadas deteriorou-se o padrão do consumo alimentar da população, assistindo-se a
substituição dos alimentos tradicionais e saudáveis da dieta brasileira, como a
mistura arroz e feijão, por bebidas e alimentos altamente processados, densamente
calóricos e com baixa concentração de nutrientes (IBGE, 2010).

Em virtude desta mudança de hábitos, estima-se que os gastos do Ministério


da Saúde com atendimentos ambulatoriais e internações em função das doenças
25

crônicas não transmissíveis (diabetes mellitus, hipertensão e outras) sejam de


aproximadamente R$ 7,5 bilhões por ano. A obesidade, a hipertensão e o diabetes
são propiciados pelo perfil alimentar, em que há uma participação crescente de
gorduras em geral, alimentos industrializados ricos em açúcar e sódio e a diminuição
do consumo de cereais, leguminosas, frutas, verduras e legumes.

A não implantação da prática de educar para uma alimentação saudável, a


falta de entendimento de que alimentar também é educar, pode conduzir ao
agravamento da situação já em estado extremamente preocupante.

A partir do que foi explicitado até aqui com relação à Segurança e à


Insegurança Alimentar, o item que segue apresenta a influência da mídia no
consumo alimentar de crianças, jovens e adultos. Esta incentiva uma alimentação
inadequada nutricionalmente, reforça o estado de Insegurança Alimentar e
Nutricional e fortalece a necessidade e a importância de a escola contrapor-se a
essa influência.

1.3 Mídia: informando e influenciando o consumo alimentar

Seguindo no sentido de buscar a proteção da saúde, das pessoas, e aqui de


forma mais especifica dos escolares, ressalta-se o risco do consumo de alimentos
altamente calóricos, ricos em açúcar, gorduras não saudáveis e sódio,
características encontradas na imensa maioria dos alimentos processados, alimentos
esses presentes em cerca de 95% da publicidade de alimentos veiculada no país,
inclusive naquela dirigida especificamente ao público infantil (CRN-2/RS, 2010).

É inegável do ponto de vista científico o efeito da publicidade sobre a decisão


de compra e de escolha das famílias. No caso das crianças, há fortes evidências de
que a publicidade televisiva, em um prazo curto de tempo influencia o consumo das
crianças, levando-as a preferir alimentos e bebidas que contêm alto teor calórico e
baixo valor nutritivo. Ressalta-se que os hábitos alimentares formados na infância
são levados para toda a vida, sendo muito difícil revertê-los posteriormente (CRN-
2/RS, 2010).
26

Diante das informações difundidas pelos meios de comunicação, algumas


benéficas, outras podendo até ser prejudiciais, não podemos esquecer da
importância de a escola preparar seu aluno para analisar, de forma crítica, todas
estas informações, verificando o que é importante ou não.

Ao pensar sobre o problema dos chamados meios de comunicação,


portanto, fica claro, logo assim de saída, que me sinto um homem de meu
tempo. Não sou contra a televisão. Acho, porém, que é impossível pensar o
problema dos meios sem pensar a questão do poder. O que vale dizer: os
meios de comunicação não são bons nem ruins em si mesmos. Servindo-se
de técnicas, eles são o resultado do avanço da tecnologia, são expressões
da criatividade humana, da ciência desenvolvida pelo ser humano. O
problema é perguntar a serviço de que e a serviço de quem os meios de
comunicação se acham. (FREIRE; GUIMARÃES, 1984, p. 14).

Neste contexto convém analisar e diferenciar os meios de comunicação e o


educar, este último com um espaço especial, mas não único – a escola. Segundo
Freire (2000, p. 109):

A questão fundamental que se coloca a nós, qualquer que seja a inteligência


da frase alfabetização em televisão não é lutar contra a televisão, uma luta
sem sentido, mas como estimular o desenvolvimento e o pensar críticos.
Como desocultar verdades escondidas, como desmistificar a farsa
ideológica, espécie de arapuca atraente em que facilmente caímos. Como
enfrentar o extraordinário poder da mídia, da linguagem da televisão, da sua
‘sintaxe’ que reduz a um mesmo plano o passado e o presente e sugere que
o que ainda não há já está feito. Mais ainda, que diversifica temáticas no
noticiário sem que haja tempo para a reflexão sobre os variados assuntos.
De uma notícia sobre Miss Brasil se passa a um terremoto na China; de um
escândalo envolvendo mais um banco dilapidado por diretores
inescrupulosos temos cenas de um trem que descarrilou em Zurich.

A informação, por sua vez, é vinculada necessariamente a um contexto e


possui organização e interpretação (SHEDROFF, 2001). Para Le Coadic (2004, p. 4),
“informação é um conhecimento inscrito (registrado) em forma escrita (impressa ou
digital), oral ou audiovisual, em um suporte”. O autor acrescenta que para
conceituarmos informação é preciso haver sentido para alguém e que este, uma vez
inscrito, é passível de interpretação aos outros por conta dos signos – “linguagem”,
associando “um significante a um significado”.

Já o conhecimento passa a se tornar algo cada vez mais pessoal, pois


funciona como processo mental em cada ser, “está fundamentado em nossos
contextos pessoais, culturais, e conhecimento prévio”, ou seja, a “medida se torna
27

mais pessoal, ele não pode ser formalmente compartilhado” (LE COADIC, 2004, p.
5 ).

Em relação ao saber, pode-se afirmar que o saber e o conhecimento são


partilhados desde que o processo seja entendido como intrínseco e unitário, em que
cada ser desperta em si o desejo de aprender, estimulado ou não por outro como,
por exemplo, o professor, que busca compartilhar seu conhecimento/sabedoria sobre
um determinado assunto com seus alunos.

Prossegue-se, agora, na diferenciação entre o informar que a televisão realiza


que, segundo o Dicionário Aurélio, vem do latim “informare” e significa “dar informe”,
“instruir”, “ensinar”, “avisar”, “cientificar”, “comunicar”, e o ensinar que tem como
espaço especial a escola, e que seria guiar, conduzir o educando ao ensino e
aprendizagem. A função do ensino está entrelaçada na condição humana. Todas as
práticas que levam a um saber, uma oportunidade de aprender a ser, um novo tema
para ser aprendido pelos alunos ou qualquer outro membro da família escola,
portanto, é Educação Alimentar. Esta busca oportuniza o ensinar e a consequente
aprendizagem e aplicação.

É preciso entender, no entanto, que ninguém ensina ou instrui ninguém


sozinho: os sujeitos têm que desejar, deve existir reciprocidade, acontecer uma
comunicação, um diálogo, na medida em que não se trata de transferência de saber,
mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam o conhecimento. É por isso
que o informar dos meios de comunicação tem efeito se o sujeito não for crítico o
suficiente para verificar o seu ponto de vista e analisar a questão com criticidade.

Para não promover somente o ensino, mas também a aprendizagem, é


necessário entender a realidade escolar e quem a compõe, ou seja, o professor, os
alunos, o objeto do saber e uma variedade de informações de vida. Esse encontro é
que vai oportunizar ou não o caminho que a escola deve trilhar. O professor
estabelece os objetivos que quer alcançar, os conteúdos que não pode deixar de
trabalhar, e escuta as sugestões dos alunos. Esse é um dos caminhos para o
resultado positivo do processo ensino e aprendizagem.

No meio desse debate não se pode esquecer da real função educativa da


escola, que tem de oferecer algo mais e oportunizar espaço de aprendizagem.
28

Entendemos que todo saber parte de uma problemática, e que é uma produção do
aluno, sendo este saber despersonalizado, descontextualizado, socioculturalmente
instituído. O saber só é válido quando aplicado em um contexto, e mobilizado para
resolver uma situação, que nesta oportunidade é caracterizado como problemática.

Quando nos reportamos à Educação Alimentar na escola, podemos pensar


sobre o que foi dito na Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
de 2004:

“As práticas alimentares e hábitos saudáveis são construídos pelos


indivíduos e pelas relações sociais que os mesmos estabelecem em
diferentes espaços de convivência e troca de informações. Na infância,
além da família, o ambiente escolar é um local favorável para o
desenvolvimento de ações para a promoção de práticas alimentares
saudáveis por ser um espaço de socialização, dado que é durante a fase
escolar que as crianças iniciam suas relações sociais”.

É necessário diferenciar a informação do saber escolar. A informação pode


ser vinculada pelos meios de comunicação e o saber tem como local de excelência a
escola. E qual a função da escola diante desta diversidade de informações?

Segundo Savater (2005), antes o professor podia jogar com a curiosidade dos
alunos, com o desejo de conseguir penetrar mistérios que ainda lhes eram vedados
e dispostos, para isso, a pagar o pedágio de saberes instrumentais, muitas vezes de
aquisição trabalhosa. Agora, porém, as crianças já chegam abarrotadas de mil
notícias e visões multiformes, que não lhes custou nada adquirir... que receberam
até sem querer! O professor tem de ajudá-las a organizar essas informações,
combatê-las parcialmente e oferecer-lhes ferramentas cognitivas para torná-las
proveitosas ou, pelo menos, não nocivas. E tudo isso sem que ele próprio se torne
um sugestionador e sem pedir outra adesão que não a de inteligências em via de
formação rumo à sua autonomia.

Savater (2005, p. 119) sublinha, ainda,

[...] que nisso a propaganda se distingue da educação. Esta última dirige-se


ao indivíduo por ele mesmo, para seu benefício e seu desenvolvimento
pessoais; a propaganda, ao contrário, refere-se ao grupo através do
indivíduo e propõe-se integrar a opinião deste último numa corrente de
opinião e orientar sua conduta no sentido de trazer proveito ao grupo e à
causa que este representa.
29

Nesse processo educacional é necessário questionar sempre que cidadão se


quer formar e, diante disso, que escola se oferece atualmente?

Com relação a tal questionamento, Arroyo (1991, p. 41) destaca: “Uma escola
possível para o povo tem de começar por criar condições para sua existência
material, sem a qual será romântico reprogramar alternativas pedagógicas
inovadoras”.

Esta escola possível, no meu entendimento, é aquela que conhece, respeita e


trabalha o ser humano como um ser complexo, com necessidades e, portanto,
trabalha com Educação Alimentar desde o primeiro contato que a criança tem com
ela, uma vez que a infância é a fase em que se estabelecem hábitos, inclusive os
alimentares, que podem perdurar por toda a vida. Por isso deve-se observar a
qualidade e a quantidade dos alimentos preferidos pelas crianças, estimular o gosto
pelo consumo de frutas e saladas, posto que possuem habilidade para escolha
adequada, mas, em contraponto, podem sofrer influências, inclusive decisivas, dos
veículos de comunicação para um consumo alimentar inadequado.

Na Educação Alimentar deve-se refletir que a família é o primeiro espaço de


aprendizagem e interação para a criança, que ela aprendeu muitas coisas neste
ambiente, e que estas aprendizagens devem ser consideradas na escola.Portanto, a
família deve fazer parte do processo de Educação Alimentar.

Constata-se que os primeiros contatos com a alimentação e formação de


hábitos alimentares acontecem na família; num primeiro momento com o aleitamento
materno e depois com a introdução e continuidade da oferta de alimentos. A
Educação Alimentar já começa em casa, e daí a importância de incentivar o
consumo de alimentos saudáveis e controlar a utilização excessiva de alimentos,
tarefa que a escola pode aprimorar ou, eventualmente, corrigir.

Posterior a este contato inicial com a família o aluno se insere em grupos da


sociedade civil, dentre eles a escola. Passa a ter outros pertencimentos, por
aproximação de desejos, podendo ser este outro grupo, formado de professores,
colegas, amigos e outros.
30

No início da fase educativa a escola deve se preocupar em continuar a


trabalhar com Educação Alimentar, adaptada a cada faixa etária, com materiais
criativos e pedagógicos, para que desperte o interesse dos alunos e os conduza a
escolhas saudáveis. Deve trabalhar em conjunto com os pais e a comunidade
escolar para que estes hábitos perdurem também em casa e para sempre.

A escola tem de preparar o aluno para que este saiba contatar com os meios
de comunicação e analisar as informações. O perigo reside justamente quando a
mídia estabelece como um de seus propósitos orientar a conduta da população, em
especial dos alunos. O meio de comunicação mais utilizado para o entretenimento é
a televisão.

Em sua pesquisa, Almeida, Nascimento e Quaioti (2002), após analisar 432


horas de programação nas três principais redes de televisão do país, concluíram que
nas 1.395 propagandas veiculadas, 57,8% eram de alimentos do grupo de óleos,
gorduras, doces e açúcares da Pirâmide Alimentar. É importante observar que este
grupo está na base da pirâmide dos alimentos, não sendo recomendado seu
consumo excessivo, e sim moderado, uma vez que, seu consumo em grande
quantidade ocasiona doenças nutricionais.

A mídia influencia, sem dúvida, o consumo de alimentos, pois a alimentação


engloba a necessidade e o desejo do indivíduo. Os meios de comunicação
trabalham com o despertar deste desejo, com comerciais que chamam a atenção,
são apelativos e atrativos para as crianças, jovens e adultos.

Segundo o documentário da internet “Criança, a alma do negócio (Brasil)”,


que mostra dados estatísticos do IBGE das horas que as crianças brasileiras ficam
na frente da Televisão, este revela que as nossas crianças são as que ficam mais
tempo na frente da televisão no mundo, totalizando 4 horas, 51 minutos e 19
segundos por dia. Este documentário reflete também o modo frouxo como as
propagandas aparecem nos programas infantis no Brasil. Para termos uma ideia,
segundo este documentário, hoje em dia as crianças conhecem mais as marcas de
salgadinhos do que os nomes das frutas.

Esse mecanismo de induzir comportamentos é uma estratégia denominada


marketing, que define um conjunto de medidas que visam a proporcionar melhores
31

condições possíveis para o sucesso de um novo produto ou serviço, empregando


diversos atrativos. Se for para atrair a atenção das crianças são utilizados
personagens de desenhos, aproveitando-se do conhecimento do imaginário infantil.

Em relação à alimentação e ao educar para este ato observa-se que os


comerciais veiculados pela televisão e Internet são prejudiciais, pois versam sobre
produtos alimentares que, em geral, contêm altos índices de constituintes não
saudáveis, como gorduras, açúcares e sal, podendo contribuir, como relatado
anteriormente, para a obesidade e/ou hipertensão se consumidos na proporção em
que são anunciados.

O que é mais alarmante é que frutas e vegetais não foram mencionados


sequer uma vez. Você já assistiu alguma propaganda em que se anuncia e se
incentiva o consumo de frutas e verduras e outros alimentos saudáveis em âmbito
comercial? Sorte é que a natureza faz uma excelente propaganda em relação à
alimentação. As cores, cheiros e sabores de suas frutas, saladas e toda diversidade
que ela nos oferece é a melhor propaganda, mais criativa e gostosa que existe.

Acreditamos que a mídia deve compreender melhor a importância de seu


papel. Segundo Morin (2004, p. 194),
a busca atual de um sensacionalismo constante combina muito pouco com o
espírito científico e, com o pretexto de que o público precisa ser informado,
um excesso de informação desorganizada corre o risco de provocar, no
final, uma desinformação prejudicial a todos.

A escola deve estar preparada para trabalhar com a difusão de informações


trazidas pelo aluno. Muitos dos hábitos de consumo excessivo de gorduras e doces
são estimulados pela mídia, mediante chamadas apelativas como: “comprem aquele
salgadinho, pois ele tem figuras para colecionar ou tatuagens”, entre outros atrativos.

Como a escola vai se omitir no assunto Alimentação Saudável e todas as


suas consequências? De quem é a responsabilidade de preparar os alunos para a
realidade, para que tenham corpo e não somente mente saudável? Como criar um
hábito saudável em uma criança que assiste televisão por várias horas ao longo do
dia, sendo estimulada ao consumo inadequado de alimentos?
32

Acreditamos na necessidade de inserir urgentemente a Educação Alimentar


em todas as realidades escolares e, assim, preparar melhor o aluno para suas
escolhas alimentares.

Alternativas educativas são propostas pela Política Nacional de Alimentação e


Nutrição (PNAN): quanto à promoção das práticas alimentares saudáveis, o foco
central deve estar na disseminação de informações, valorizando a importância dos
meios de comunicação nesse processo, seja estimulando a produção de campanhas
educativas, seja controlando as informações referentes à alimentação e aos
alimentos; utilizar a mídia para divulgar e promover uma vida saudável; e também a
conscientização da importância das atividades escolares abordando este tema e a
importância desta prática.

Outra alternativa é oportunizar que os alunos encontrem formas criativas de


marketing de alimentos saudáveis, trabalhando este tema e abrindo espaço para
apresentações em sala de aula. Devem ser orientados a pesquisar a importância de
consumir este alimento e convencer os seus consumidores, conhecendo aos poucos
todos os alimentos da pirâmide alimentar.

Na continuidade será abordado no próximo capítulo a significativa


oportunidade de prática da Educação Alimentar : a hora da merenda.

2 A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO ALIMENTAR: A HORA DA MERENDA

A Alimentação Escolar na escola pública municipal ocupa um espaço


significativo na rotina dessa escola. Esta rotina e prática da Alimentação Escolar
nesta realidade é uma das marcas diferenciadas da escola brasileira em benefício
das classes populares. Em contraponto, as escolas particulares do Brasil não
oferecem merenda de forma gratuita.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), instituído em 1955,


apresenta benefícios a milhares de alunos ao longo de todos estes anos de
existência. Após todo esse período de funcionamento está presente e atuante em
quase todos os municípios brasileiros e é o maior programa de suplementação
alimentar no Brasil. Para muitos estudantes, a merenda que recebem na escola é a
33

única refeição completa e balanceada do dia, pois oferece frutas e verduras,


segundo a recomendação nutricional. Esse programa de política pública engloba
práticas e projetos6, visando à saúde dos escolares e incentiva a realização de
projetos nesta área.

Uma das formas de potencialização desta política pública é utilizar o momento


em que os alunos estão consumindo a alimentação escolar para trabalhar a
Educação Alimentar. Antes de falarmos do ato em si de se alimentar, procuraremos
entender melhor o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que não só repassa
os recursos para oferta desta refeição, mas estabelece critérios para receber a
prática de Educação Nutricional e Alimentar.

Nesse sentido, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) coloca como


obrigatório no Programa Nacional de Alimentação Escolar a prática da Educação
Alimentar no Brasil, segundo a Portaria Interministerial n° 1.010, de 8 de maio de
2006. O art. 3° dessa Portaria ressalta que a promoção da alimentação saudável nas
escolas deve basear-se nos seguintes eixos prioritários:

I ― ações de educação alimentar e nutricional, considerando os hábitos


alimentares como expressão de manifestações culturais regionais e
nacionais;
II ― estímulo à produção de hortas escolares para a realização de
atividades com alunos e a utilização dos alimentos produzidos na
alimentação ofertada na escola [...].

O importante é que esta parte da legislação reforça o que trazemos ao longo


desta dissertação: a importância da prática de Educação Alimentar, o respeito pelos
hábitos alimentares culturais, as hortas como espaço rico de aprendizagem, e as
diversas formas para trabalhar as diferentes disciplinas e os distintos saberes.

Uma das alternativas aconselhadas para começar o trabalho de Educação


Alimentar é partir do conceito de alimentação na sua ascensão mais ampla
(desenvolvimento humano, dimensão histórica, social, econômica, cultural e política
alimentar).

6
Hortas escolares como espaço de aprendizagem, atividades de educação alimentar através de
peças de teatro.
34

É necessário criar sempre, em todas as projeções de realização da atividade


de Educação Alimentar, condições para a participação dos alunos, de forma que se
sintam ligados, atores principais do projeto e responsáveis por sua execução,
promovendo uma reflexão sobre as ações a empreender no sentido de melhorar a
alimentação.

A epistemologia da aprendizagem atual aponta para a necessidade de


considerarmos os conhecimentos já construídos pelo sujeito (aluno) e, a partir daí,
modificá-los ou aprofundá-los. Muitos modelos de formação, porém, ainda não
incorporaram isso na sua prática, por se encontrarem baseados simplesmente na
racionalidade técnica. Os saberes da experiência7, por exemplo, até bem pouco
tempo nem sequer eram considerados válidos.

Enquanto componente curricular constante da formação do nutricionista na


Universidade, a Educação Alimentar e Nutricional está longe de receber a devida
importância. Observa-se uma distância enorme entre os conteúdos ministrados e as
condições em que as práticas de educação alimentar ocorrem, o que vem
dificultando a formação de um profissional capaz de educar em sala de aula e no
espaço escolar em geral. Falta, na verdade, a perspectiva de formação do
nutricionista como um educador na sua área de atuação, o que é flagrado na
ausência de disciplinas didático- pedagógicas que auxiliam o nutricionista a abordar
os temas de sua área específica com competência pedagógica.

É importante organizar na cozinha e no refeitório da escola uma oficina de


aprendizagem para ensinar o aluno a escolher os alimentos, a apresentá-los de
forma sedutora, bem como manipulá-los, confeccioná-los e consumi-los. É um
método de ensino ao qual os alunos aderem com entusiasmo e aprendem fazendo e
experimentando.

Na prática, em primeiro lugar, seria preciso compreender que “o papel da


escola é ensinar as crianças o que o mundo é e não ensinar a maneira de viver e
agir” (MORIN, 2004, p. 180).

7
Segundo Tardif e Lessard (2005), os saberes da experiência são desenvolvidos pelo professor no
exercício da sua profissão.
35

É necessário buscar formas de incentivar a Educação Alimentar por meio da


pesquisa de receitas gastronômicas tradicionais e locais de cada município, de cada
realidade escolar, que permitam reavivar pratos que recuperam a nossa alimentação
que, muitas vezes, caíram em desuso e que são extremamente saudáveis.

Outra alternativa de trabalho é prestigiar a gastronomia local e os saberes


familiares, que representa a cultura e os hábitos de nossos alunos. Projetos que
envolvam os pais, avós e outros elementos da comunidade traduzem iniciativas
importantes para trabalhar Educação Alimentar, assim como palestras ou práticas de
culinária abordando a Alimentação Saudável. Educar os alunos em conjunto com a
família é provocar uma mudança social que valorize práticas saudáveis e que
desprestigie hábitos deletérios para a saúde.

É importante trabalhar a Educação Alimentar ultrapassando os limites da


escola, estabelecendo relações com as instituições exteriores e com a comunidade.
Também, observar de que forma é possível trabalhar o assunto e utilizar aquilo que é
enriquecedor para abordar a alimentação saudável.

No desenrolar do trabalho de Educação Alimentar é necessário sempre


realizar a reflexão sistemática e periódica sobre o seu desenvolvimento. Os registros
do que foi trabalhado e conquistado devem ser feitos pelas próprias escolas,
partilhados e refletidos por toda comunidade escolar.

Refletindo que alimentar é educar, entende-se que a melhor oportunidade de


ensino e aprendizagem é o momento em que os alunos vêm ao local onde
consomem a alimentação escolar, é a ocasião de interação de saberes e indivíduos.
A seguir conheceremos um pouco da evolução histórica do Programa Nacional de
Alimentação Escolar (PNAE), para entendermos melhor o seu funcionamento e a
prática de Educação Alimentar na atualidade.

2.1 O desenvolver histórico do Programa Nacional de Alimentação Escolar

No texto que segue pretendo apresentar alguns aspectos históricos da


merenda escolar, retratando um pouco da história que mostra a origem da merenda
escolar no Brasil e sua evolução até os dias atuais.
36

Segundo Moysés e Collares, até a década de 50 inexistia qualquer proposta


sistematizada de merenda nas escolas. A alimentação aos alunos era realizada
pelas “caixas escolares”, mantidas por contribuição voluntária de alunos que podiam
contribuir e de empresas locais. A proposta das caixas era de cunho assistencialista,
imprimindo a expressão “aluno da caixa”, já que, em algumas escolas, apenas os
“carentes” recebiam a alimentação escolar.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) teve origem em 1954,


com a criação da Comissão Nacional de Alimentação (CNA). Esse programa tinha
como objetivo principal e essencial reduzir a deficiência nutricional de estudantes
carentes do Brasil. Ele foi criado com o objetivo de atender crianças da pré-escola e
do Ensino Fundamental de escolas públicas e filantrópicas, da faixa etária de 7 a 14
anos, cobrindo 15% de suas necessidades calóricas e proteínas diárias (350 kcal e 9
gramas de proteínas) durante o ano letivo.

Embora não se encontrem registros documentais, relata-se que na década de


1980 alguns municípios desenvolveram um projeto piloto de descentralização da
Alimentação Escolar através da sua municipalização. Com isso alguns municípios,
como o de Ijuí (RS), passaram a programar os cardápios das merendas e a fazerem
as compras de alimentos localmente.

Em 1988 a alimentação escolar passou a ser um direito no Brasil, garantido


pela Constituição Federal, segundo o seu art. 208. Outra conquista em relação a
esta política pública ocorreu em 1994, a partir da descentralização do Programa
Nacional de Alimentação Escolar (Lei n° 8.913/1994).

Ainda em 1994 foi instituída a descentralização dos recursos por meio de


convênios firmados com o Distrito Federal, Estados e municípios, que passaram a
comprar e distribuir os alimentos. Com essa descentralização, a Fundação de
Assistência ao Estudante (FAE), órgão vinculado ao Ministério da Educação e
Cultura e responsável pelo PNAE, estabeleceu convênios com Estados e municípios
para o repasse de recursos financeiros, o que melhorou a qualidade dos produtos,
condizentes com os hábitos da população nas diferentes localidades do país.

Este repasse ficou, porém, condicionado à criação dos Conselhos de


Alimentação Escolar (CAE) em cada Estado e município do país, que permitiu uma
37

maior proximidade dos conselheiros em relação à gestão do PNAE. Nascia, então, o


CAE, órgão deliberativo, fiscalizador e de assessoramento composto por
representantes do Poder Executivo e do Legislativo, professores, pais e
organizações sociais.

Em relação à alimentação escolar, o CAE deveria fiscalizar e controlar a


aplicação dos recursos destinados à merenda escolar e também acompanhar a
elaboração dos cardápios (atividade que passou a ser de responsabilidade dos
Estados e municípios).

Nessa direção, atualmente os cardápios da alimentação escolar devem ser


elaborados e acompanhados pelo profissional nutricionista devidamente formado,
com inscrição no Conselho de sua categoria, respeitando as necessidades
nutricionais de cada aluno, segundo sua faixa etária, sexo, idade, problemas
nutricionais, necessidades especiais devido a algum problema físico ou fisiológico.

Na trajetória histórica, a partir de 1997, a Fundação de Assistência ao


Estudante (FAE) foi substituída pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (FNDE), desde então responsável pelo Programa Nacional de
Alimentação Escolar (PNAE).

Somente a partir de 1999, contudo, o Programa passou a transferir,


automaticamente, os recursos financeiros às entidades executoras, sem
necessidade de convênios. Em 2000 ocorreu a reformulação dos Conselhos de
Alimentação Escolar (CAE), o que se repetiu em 2009.

A efetivação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é


compromisso e está sob a responsabilidade das três esferas de governo – federal,
estadual e municipal – e os recursos repassados pelo governo federal são
complementares às contrapartidas dos demais níveis. O município pode
complementar financeiramente até chegar ao padrão de qualidade alimentar que
deseja, desde que respeite o estabelecido em lei.

São beneficiados pelo Programa os alunos matriculados na Educação Infantil,


oferecida em creches e pré-escolas, no Ensino Fundamental, no Ensino Médio e EJA
da Rede Pública de Ensino do Distrito Federal, dos Estados e dos municípios, ou
38

estabelecimentos mantidos pela União, que constem no Censo Escolar realizado


pelo Ministério da Educação no ano anterior ao atendimento.

O PNAE é uma política pública presente no cenário nacional há 50 anos e


representa um dos maiores programas de alimentação e nutrição do mundo, sendo o
maior programa da América do Sul. O gerenciamento do Programa Nacional de
Alimentação Escolar no Brasil é complexo em virtude de estarem diretamente
envolvidos no processo a União, os Estados, os Municípios, os Conselhos de
Alimentação Escolar e os estabelecimentos de ensino. Em termos de mudanças da
cobertura, o PNAE atende atualmente em torno de 47 milhões de estudantes, e a
partir de 2009 passou a atender, também, o Ensino Médio, caracterizando-se como
um dos maiores programas de atendimento universal na área de educação no
cenário mundial.

2.2 O sabor da Alimentação Escolar, significados e representações culturais

Inicialmente recorremos ao dicionário para conceituar o que é “sabor”, ao que


ele informa ser o resultado da associação complexa das sensações de gosto, de
aroma e das sensações táteis químicas. E aí vem o questionamento: é possível
ensinar isso na escola? As duas realidades pesquisadas neste estudo mostram que
sim, que temos uma relação emocional e intelectual com os alimentos. Quem de nós
não tem o cheiro e o sabor, seja esta sensação boa ou ruim, até hoje em sua
memória, da merenda que consumia na escola?

É possível pensar, então, que a alimentação localiza o homem socialmente.


As nossas escolhas quanto ao que comer, como comer e na companhia de quem
comer são escolhas socialmente estabelecidas. Assumimos que:

a comida opera como elemento de pertença. As escolhas e os rituais


relativos à alimentação são socialmente estabelecidos e se relacionam
diretamente à posição que determinadas sociedades ou grupos sociais
ocupam. Desta forma, compreende-se que os hábitos alimentares estão
vinculados à memória, ao imaginário (SANTOS, 2009, p. 52).

É preciso refletir, neste sentido, que nos alimentamos não apenas pelo desejo
de saciar a fome. O que move nossa prática alimentar não é só a necessidade
39

biológica. Ao nos alimentarmos, ou ao servirmos aquele que é nosso convidado,


saciamos a fome de nos situar social e economicamente. Em nossos pratos,
servimos nossos valores sociais, morais, religiosos, desejos e aquilo que
acreditamos ser importante para a manutenção de nossa vida.

Este estudo reafirma, assim, as várias dimensões culturais da Alimentação


Escolar, que vão muito além de uma simples questão nutricional. Ao relembrarmos o
tempo que frequentávamos a escola e consumíamos a merenda vem à memória o
cheiro e o sabor de nossas preferências do cardápio. Ao entrar nos espaços
pesquisados, em ambas as realidades, percebe-se esta busca ao ver movimento,
barulho, vozes, cheiros, todos os alunos em busca do sabor.

O modo de se alimentar é a expressão popular de uma cultura. O comer é


determinado pelo pensar, pelo fazer e pelo modo de vida do indivíduo. Este ato
traduz suas tradições e seu mundo de significações. São sabores que transparecem
saberes, ou seja, a sua cultura.

A cultura é compreendida neste estudo como sistema de saberes em


processo. “Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que
influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós
mesmos” (HALL, 2003, p. 50).

Ao falar da Educação Alimentar pretende-se refletir sobre a relação cultural, o


simbólico com o biológico, partindo do entendimento de que a alimentação faz parte
das nossas práticas e relações sociais e culturais, não sendo aconselhável analisar
simplesmente o aspecto nutricional.

Não há uma experiência humana não mediada pela forma e a cultura é,


justamente, um conjunto de esquemas de mediação, um conjunto de formas
que delimitam e dão perfis às coisas, às pessoas e, inclusive, a nós
mesmos. A cultura e especialmente a linguagem é algo que faz com que o
mundo esteja aberto para nós(LARROSA, 1998, p. 59).

O comer faz parte da nossa vida. Nesse sentido, o comer na escola não pode
se desvincular de questões culturais mais amplas sobre alimentação e, portanto,
dimensões históricas, políticas e econômicas, e que envolve e integra vários sujeitos
e diferentes grupos.
40

Segundo Tardif e Lessard (2005, p. 12), entre outras reflexões, ensinar é “[...]
um processo social (inserido em cada cultura, com suas normas, tradições e leis),
mas também é um processo profundamente pessoal: cada um de nós desenvolve
um estilo, seu caminho, dentro do que está previsto para a maioria”.

Da mesma forma, os hábitos alimentares compõem cruzamentos de histórias,


gostos, memórias e são transmitidos de geração para geração. Os hábitos
alimentares não podem ser considerados como algo natural, mas sim como uma
produção adquirida nas práticas culturais oriundas do convívio com a família, a
escola, os grupos sociais, a mídia.

Segundo Mintz (2001, p. 2), pela sua natureza vital, o comer assume uma
posição central. Por meio do comer o homem incorpora nutrientes essenciais ao seu
organismo e se nutre de simbolismo. Nossas escolhas alimentares estão
relacionadas ao universo simbólico, são uma afirmação da nossa identidade.
Interagindo com este universo simbólico estão a disponibilidade de alimentos e o
domínio das técnicas de produção. De acordo com o autor: "comer é uma atividade
humana central não só por sua frequência, constante e necessária, mas também
porque cedo se torna a esfera onde se permite uma escolha".

Ao investigar no dicionário descobrimos que o termo “hábito alimentar” é


usado quando se quer designar os costumes e o modo como se alimenta uma
pessoa ou uma comunidade. Notadamente ele é influênciado por vários fatores,
dentre os quais citamos: a) idade da pessoa; b) localização geográfica; c) condições
socioeconômicas; d) valores culturais.

Em relação ao citado anteriormente, Freitas (2004, p. 2) destaca que ao


valorizar a dimensão cultural do hábito e do comportamento alimentar, é na comida
que se mesclam valores simbólicos antigos e modernos, padrões socioculturais do
conhecimento: “[...] a comida representa a manifestação da organização social, a
chave simbólica dos costumes, o registro do modo de pensar a corporalidade no
mundo, em qualquer que seja a sociedade”.

Após verificar a influência da cultura em nossos hábitos alimentares,


entenderemos melhor a Educação Alimentar como tema transversal.
41

2.3 A Educação Alimentar como tema transversal

Iniciamos este tópico manifestando a crença de que a educação deve fornecer


aos alunos os conhecimentos para compreenderem o mundo, ao mesmo tempo em
que buscamos mostrar como o mundo se apresenta, considerando o ser humano
como um ser complexo.
Para Arendt (1990), a educação é necessária não para preparar as crianças
para sua vida e suas necessidades, mas porque temos que introduzi-las a um mundo
comum. Sua argumentação é a favor da autoridade na sala de aula e sua visão
educativa é assumidamente de uma escola como lugar do conhecimento, que
transmite para o aluno conhecimentos e habilidades, ciência(s) e tecnologia, numa
forma de abordagem que acompanha a explicação de suas razões e significado para
o aluno e para a coletividade.

Se acreditarmos que o principal papel da escola é o desenvolvimento integral


da criança devemos considerá-la em suas várias dimensões: afetiva, ou seja, nas
relações com as outras crianças e adultos com quem convive; cognitiva, construindo
conhecimentos por meio de trocas com parceiros mais e menos experientes e do
contato com o conhecimento historicamente construído pela humanidade; social,
frequentando não só a escola como também outros espaços de interação como
praças, clubes, festas populares, espaços religiosos, cinemas e outras instituições
culturais; e, finalmente, na dimensão psicológica, atendendo suas necessidades
básicas como higiene, alimentação, moradia, sono, além de espaço para fala e
escuta, carinho, atenção, respeito aos seus direitos (MEC/SEESP, 2005).

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) enfatizam que o papel


fundamental da educação no desenvolvimento das pessoas e das sociedades
amplia-se ainda mais no despertar do novo milênio e aponta para a necessidade de
se construir uma escola voltada para a formação de cidadãos (MEC, 1998).

A Educação Alimentar e Nutricional pode ser trabalhada também como tema


transversal. Fundamentalmente, acredito que a Educação Alimentar possa ser
trabalhada transversalmente num projeto de promoção da saúde, em sala de aula e
fora dela, demonstrando que a alimentação deve ser integrada nas diferentes
disciplinas do currículo oficial.
42

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) apresentam temas a serem


abordados pelas diversas áreas e disciplinas do Ensino Fundamental. Esses temas
são transversais e são denominados: ética, saúde, orientação sexual, trabalho e
consumo, pluralidade cultural e meio ambiente. Além desses, reservam um espaço
para que cada comunidade escolar possa discutir problemas próprios, específicos ou
isolados ou trabalhar aspectos que consideram importantes, como o tema local.

Conforme o MEC, o objetivo dos Parâme-tros Curriculares Nacionais é


propiciar aos sistemas de ensino, particularmente aos professores, subsídios à
elaboração e/ou reelaboração do currículo, visando à construção do projeto
pedagógico que leve em conta a cidadania do aluno.

Segundo o MEC, com os Parâmetros Curriculares Nacionais pretende-se criar


condições, nas escolas, que permitam aos jovens o acesso ao conjunto de
conhecimentos socialmente elaborados ou reconhecidos como necessários ao
exercício da cidadania.

O espaço e o tempo de aprender os currículos escolares não podem ser uma


simples justaposição de disciplinas que se consideram auto-suficientes, quando os
conhecimentos são decorados de forma fragmentada, sem se relacionar com sua
vida e o que se aprende no todo. No espaço escolar o tempo tem de mudar e ser
visto, sentido, como algo adaptado à vida das pessoas e não como o regulador que
adestra comportamentos.

A tarefa que proponho é pensar o ato social e comunicativo de se alimentar


como interação que deve acontecer de forma efetiva, interligada com todos os
componentes curriculares. Em outras palavras, é um processo interdisciplinar que
orienta sobre alimentação saudável, mas respeita a autonomia de cada ser
envolvido, a necessidade de cada um aderir ou não à opção para uma vida mais
saudável, despertando a seu ritmo e tempo para a educação para a saúde, a
educação e a alimentação saudável.

Por inúmeras vezes, na atividade prática educacional, são feitas referências à


interdisciplinaridade e à transversalidade, em especial por ocasião da elaboração
dos planejamentos escolares anuais. Fala-se muito na integração de disciplinas, mas
quase nunca se encontra um consenso. Frequentemente, a não efetivação dessas
43

práticas decorre do equívoco na interpretação dos PCNs e dos conceitos de


interdisciplinaridade e transversalidade.

A Educação Alimentar orienta no sentido de que uma alimentação adequada é


um direito humano, uma questão de saúde e ética, pois sem o alimento não existe
vida e seu excesso conduz a doenças nutricionais que podem ocasionar também a
morte. Nesse sentido, a Educação Alimentar pode ser elencada como tema
transversal, permitindo-se o desenvolvimento dos conteúdos de forma regular e de
modo contextualizado. Conforme o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o
tratamento transversal do tema deve-se ao fato de sua abordagem dar-se no
cotidiano da experiência escolar e não no estudo de uma “matéria”.

Ao analisar a escola, compreendemos que a mesma tem um compromisso


com a educação, necessitando atuar de forma abrangente, não só objetivando a
instrução. Deve oportunizar o ensino e a aprendizagem não só de conhecimentos,
mas da realidade, habilidades, capacidades, sentimentos, atitudes. Formar o cidadão
não só para o mercado de trabalho, mas para a vida, atendendo às necessidades
básicas como higiene e alimentação para conviver e aprender na sociedade
(MEC/SEESP, 2005).

A partir dessa reflexão pode-se compreender que o trabalho da Educação


Alimentar, como uma ação interdisciplinar, pode ser realizado pelos professores e
por toda a comunidade escolar, sendo necessário desenvolver uma metodologia de
trabalho interdisciplinar que implica: integração dos conhecimentos ― e aqui destaco
a inserção dos conhecimentos referentes à alimentação; desejar e passar de uma
concepção fragmentada para uma concepção unitária de conhecimento; entender
que um processo de ensino-aprendizagem está centrado numa visão de que
aprendemos ao longo da vida e também sobre a vida.

Fazenda (2001), que vem estudando a interdisciplinaridade no Brasil há cerca


de 30 anos, entende que o trabalho que se denomina interdisciplinar deve ir muito
além de misturar intuitivamente geografia e química, matemática e português.
“Tentar formar alguém a partir de tudo que você já estudou em sua vida”, define. O
objetivo dessa metodologia, na sua opinião, também é bem mais profundo do que
procurar interconexões entre as diversas disciplinas. Ela serve para “dar visibilidade
e movimento ao talento escondido que existe em cada um de nós”.
44

Nesta percepção todas as ações que podem ser entendidas como práticas de
ensino de Educação Alimentar são aquelas em que o centro do processo
educacional é o aluno e a sua realidade. A experiência de cada aluno sustenta e
marca a Educação Alimentar. Esta experiência torna-se o ponto de partida na
metodologia de ensino, de modo que a teoria está sempre em função de melhorar a
qualidade de vida do educando e proporcionar, associada a outras aprendizagens, a
diversidade de temas desejada.

Com esta dinâmica o desenvolvimento dessa prática educacional − o


sustentar da Educação Alimentar − acontecerá de forma normal e com resultados,
com um educador (merendeiras, pais, professores) ensinando os alunos. Um
trabalho interdisciplinar real, a partir do conhecimento que se produz, com reflexão,
contextualização e socialização.

A Educação Alimentar, portanto, poderá ser elencada como tema transversal,


permitindo-se o desenvolvimento dos conteúdos de forma regular e de modo
contextualizado. Conforme o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o tratamento
transversal do tema deve-se ao fato de sua abordagem dar-se no cotidiano da
experiência escolar e não no estudo de uma “matéria”.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais, ao elencarem os temas transversais,


elegeram critérios para defini-los e escolhê-los:
− Urgência social: abrange questões graves, que se apresentem como obstáculos
para a concretização da plenitude da cidadania, deteriorando sua qualidade de
vida.
− Abrangência nacional: contempla questões que, em maior ou menor medida, e
mesmo de formas diversas, são pertinentes a todo o país.
− A possibilidade de ensino e aprendizagem no Ensino Fundamental: esse critério
norteou a escolha de temas ao alcance da aprendizagem nessa etapa da
escolaridade, em especial no que se refere à Educação para a Saúde, Educação
Ambiental e Orientação Sexual, já desenvolvidas em muitas escolas. Justifica a
importância da Educação Alimentar, sendo que as atividades podem ser
desenvolvidas mediante recursos lúdicos, teóricos, práticos e de pesquisa
(pesquisa, ação e reflexão).
45

− Favorecer a compreensão da realidade e a participação social: os temas eleitos


em seu conjunto devem possibilitar uma visão ampla e consistente da realidade
brasileira e sua inserção no mundo, além de desenvolver um trabalho educativo
que possibilite uma participação dos alunos. A Educação Alimentar deverá
envolver a comunidade escolar (educandos, pais, educadores, equipe diretiva,
nutricionista, conselho, etc.), sendo este um tema estratégico, pois engloba a
saúde das pessoas. A Educação Alimentar é um tema relevante a ser discutido
em qualquer disciplina ou série e com todas as faixas etárias, favorecendo o
ensino e pesquisa interdisciplinar.

A ação pedagógica da interdisciplinaridade conduz para a construção de uma


escola participativa, que busca a formação do sujeito, que tenta articular saber e ser,
conhecimento e vivência. Acredito que a interdisciplinaridade perpassa todos os
elementos do conhecimento, pressupondo a integração entre eles, sempre
construindo, discutindo e desconstruindo, numa contínua evolução e crescimento.

Este trabalho humano possui fins que se manifestam por suas ações, e são
perpassados por motivos, intenções, objetivos, projetos, planos, programas,
planejamento, etc. Esses fins podem surgir antes ou complexificar-se durante a
ação, e configuram o ensino de práticas de Educação Alimentar.

O Brasil é considerado um país em transição nutricional em razão dos


recentes aumentos na prevalência de doenças crônicas, como a obesidade, entre
outras. Nesse sentido, a escola desempenha papel fundamental na formação dos
hábitos de vida dos estudantes e é responsável por abordar um conteúdo educativo
global e transversal, inclusive trabalhando do ponto de vista da educação e da
saúde, em que se insere a nutrição.

Para entendermos o que representa a Educação Alimentar, no entanto, é


necessário compreender melhor o que definimos por educar. O papel da Educação
Alimentar e Nutricional está vinculado à produção de informações que servem como
subsídios para auxiliar a tomada de decisões dos indivíduos. Educar no âmbito
alimentar e nutricional, ou melhor, introduzir a Educação Alimentar nas escolas, é
propiciar a aprendizagem de conhecimentos e habilidades que permitam às pessoas
produzir, descobrir, selecionar e consumir os alimentos de forma adequada,
saudável e segura.
46

Educação Alimentar, segundo pesquisa realizada nos municípios de


Horizontina e Pinheirinho do Vale/RS, envolve o capacitar e promover a
conscientização quanto a práticas alimentares mais saudáveis, fortalecer culturas
alimentares das diversas regiões do país e diminuir o desperdício, por meio do
aproveitamento integral dos alimentos; é consumir alimentos livres de agrotóxicos,
estimulando e comprando alimentos diretamente dos produtores.

A Educação Alimentar tem como objetivo orientar o indivíduo para que este
construa uma alimentação saudável, sem deixar de lado a contribuição social e
cultural de cada um. Nesse sentido, será efetuada a Educação Alimentar e não,
como muitos definem, a reeducação alimentar, uma vez que o primeiro termo é mais
constante, não desconstrói o que é feito pelo indivíduo, o que ele aprendeu até o
momento. Desse modo, não se esquece e se banaliza tudo o que este consumiu e
que representa muito para ele, apenas se conduz a modificação de algumas atitudes
enquanto se valoriza outras.

Educar para a condição humana exige um esforço educativo no sentido de


considerar a diversidade do ser humano, respeitando suas diferenças, suas
potencialidades, suas capacidades. Na Educação Alimentar não pode ser diferente.
Como em qualquer sistema educacional, o aluno deverá ser reconhecido como
sujeito do processo, parceiro do trabalho e integrado em suas atividades.

Resumindo, o fato de ensinar a nossos semelhantes e de aprender com eles é


mais importante para o estabelecimento de nossa humanidade do que qualquer um
dos conhecimentos concretos que assim se perpetuam ou se transmitem
(SAVATER, 2005, p. 35).

O desenvolvimento da Educação Alimentar na realidade das escolas e o


trabalho deste tema de forma interdisciplinar conduzirá a uma maior aceitabilidade
da alimentação escolar, uma aprendizagem integral sobre alimentação saudável,
sobre o meio ambiente, a higiene, a cooperação, o lazer, a música, a biologia, a
agricultura, enfim, sobre diversos conteúdos curriculares acerca dos quais se deseja
que os alunos venham a obter importantes aprendizagens. Trabalhando nesta
perspectiva podemos ter vidas mais saudáveis e a diminuição dos problemas dos
alunos portadores de doenças nutricionais, como obesidade, desnutrição,
intolerância à lactose, diabetes mellitus, dentre outras.
47

Em continuidade, o planejamento da Educação Alimentar não seria


simplesmente para trabalhar regras de etiqueta, uso dos talheres, mas sim para a
convivência com os outros e todos os conhecimentos que são mediados em sala de
aula. Por que não se trabalhar o ensino de Português, de Matemática ou de Ciências
de modo interligado com a Educação Alimentar?

Quanto ao modo de aprendizagem, a educação bancária8 é realidade,


infelizmente, em muitas escolas, o melhor aluno é o que decora e devolve ao
professor todos os conhecimentos que ele transmitiu. Romper esse modo de ensinar
e se orientar, pelo que assevera Bachelard (apud LOPES, 2007, p. 60), é o caminho:

se ensinar é a melhor maneira de aprender, só aprende quem ensina. Dessa


forma, se constata o empreendimento da operação dialógica: para o
aprendiz se capacitar a ensinar é preciso a reconstrução do conceito a ser
transmitido, por meio da organização coerente do pensamento. Não há
ensino se não houver aprendizagem.

Somente um ser saudável se envolve no processo de aprender e se prepara


para agir no mundo real. Por exemplo, para trabalhar as cores pode-se questionar o
colorido dos alimentos ofertados na merenda; sobre o meio ambiente pode-se
perguntar se os alimentos ofertados são ou não orgânicos, inclusive pode-se propor
o cultivo de hortas escolares.

Ao mesmo tempo em que é apontada a importância estratégica da introdução


da Educação Alimentar não se apresentam muitas orientações para esta ser
instituída. O seu espaço não se mostra claramente definido. A educação alimentar e
nutricional está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, não está em lugar algum.

Todos os elementos que poderiam estar abordando o tema acreditam não ser
sua responsabilidade ou competência como, por exemplo, a relação escola, família e
Estado. O assunto alimentação saudável deveria ser abordado de forma intensiva
por todos, mas cada qual acha não ser sua responsabilidade e acaba deixando o
trabalho para outro fazer e, nesta expectativa, não se trata o tema.

8
Segundo Freire (2005, p. 67), na visão "bancária" da educação, o "saber" é uma doação dos que se
julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações
instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que
chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro.
48

A Educação Alimentar está sendo pouco citada nos documentos oficiais, e a


Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) a reconhece como tendo
“elementos complexos e até conflituosos” que precisam ser resolvidos.

Após manifestação sobre o que acreditamos ser a Educação e a Educação


Alimentar, no capítulo que segue apresentaremos a Educação Alimentar no contexto
escolar das duas realidades pesquisadas.
49

3 A EDUCAÇÃO ALIMENTAR NO CONTEXTO ESCOLAR

Neste capítulo relatamos a metodologia utilizada na pesquisa, conhecemos os


espaços em que a mesma foi realizada e apresentamos as atividades de Educação
Alimentar praticadas nas escolas investigadas. Abrimos espaço para as vozes das
comunidades escolares sobre o que entendem por Educação Alimentar e analisamos
os resultados obtidos por estas práticas, destacando a sua importância no conjunto
do trabalho da escola. São analisadas, também, as atividades de educação
permanente em alimentação e saúde ofertadas para a comunidade escolar.

3.1 O percurso metodológico

Cabe aqui indicar um conjunto de questões que se referem ao surgimento


deste trabalho, como o mesmo se desenvolveu, as reflexões suscitadas e os
resultados alcançados.

Na verdade, em relação à prática de Educação Alimentar não há muitos


resultados documentados de como é possível fazer diferente e de forma mais
eficiente um trabalho em relação a esta dimensão da aprendizagem. Também não
existem muitos registros documentados e divulgados a respeito dos resultados do
processo de fazer desse espaço um momento de educar e de aprender, de degustar,
de experimentar e de ter a oportunidade de alcançar uma vida saudável.

Assim sendo, este trabalho objetiva estudar a Educação Alimentar de dois


municípios, suas ações de ensino, resultados, maneiras de realizar esta prática e
demais indagações que surgiram no decorrer da investigação. A divulgação destas
práticas já reais motiva outros municípios e escolas para que ações de Educação
Alimentar se reproduzam mais e mais, cada vez de forma mais verdadeira na vida de
nossos alunos. Toda essa dinâmica de ensinar e melhorar a saúde do escolar,
associada a outras aprendizagens sobre alimentação e outros temas curriculares, é
a união e o encontro para conquistar uma educação alimentar de qualidade.

A fim de verificar os objetivos propostos, agora de forma específica,


apresentamos a metodologia desta pesquisa. Inicialmente é importante esclarecer
que as pessoas que participaram da pesquisa não foram escolhidas, mas se
50

colocaram à disposição de forma voluntária para, juntos, compreendermos melhor a


Educação Alimentar. A não realização de sorteio ou qualquer outra forma de escolha
dos entrevistados para ver quem participaria da pesquisa tinha como objetivo que as
pessoas colaborassem pelo desejo em partilhar seus saberes em relação ao tema,
que desejassem socializar e aprender.

No ato da entrevista foi assinado o Termo de Consentimento Livre e


Esclarecido (Anexo 1)9.

Após esta autorização iniciou-se a investigação, a coleta e a análise das


informações, e neste processo de avaliação aconteceu a compilação dos dados, que
foram analisados seguindo os passos preconizados por Minayo (2007) e Fricke
(2005), com ordenação do material, classificação dos dados e análise final.

Esta busca investigativa consistiu em um aprofundamento teórico mediante


revisão bibliográfica. Em seu método levou em consideração a interpretação
dinâmica da realidade, considerando a importância da relação entre educação e
alimentação escolar, incluindo-a como atividade educativa no contexto da prática
escolar.

O trabalho caracterizou-se por ser um estudo qualitativo e projetivo, incluindo


a realização de uma pesquisa de campo exploratória para melhor contextualizar a
problemática em questão e proporcionar maior familiaridade com o tema investigado.
A pesquisa foi realizada durante o período de um ano.

Esta pesquisa de campo exploratória aconteceu nos municípios gaúchos de


Horizontina e Pinheirinho do Vale. Muitas vezes, as pessoas me perguntavam o
motivo de ir tão longe para coletar os dados da dissertação, e eu sempre respondia
que queria trazer um resultado real e diferente do que representa a Educação
Alimentar. E isto aconteceu. As realidades visitadas merecem todos os méritos pelo
trabalho e pelos resultados que alcançaram em Educação Alimentar.

A pesquisa de campo exploratória foi realizada por meio da coleta de dados

9
No Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) os entrevistados declararam consentir que
as informações fornecidas fossem utilizadas somente para a finalidade deste estudo. Após, estas
informações foram devidamente identificadas pela mestranda em Educação nas Ciências, Rosemeri
Aquilla, que pretende guardá-las sob sigilo durante 5 anos e, ao término deste prazo, fazer a
incineração do material.
51

nos dois municípios acima citados, os quais realizam a prática da Educação


Alimentar. O conhecimento destas realidades ocorreu em escolas de Educação
Infantil, de Ensino Fundamental e de Educação Especial (Apae), onde se entrevistou
parte da comunidade escolar (pais, professores, conselheiros da alimentação
escolar, merendeiras, nutricionistas), perfazendo um total de 41 pessoas.

Observam-se diferentes realidades sociais nesses municípios: escolas de


meio urbano, onde a clientela era carente financeiramente, e escolas consideradas
do centro, com situação financeira mais favorável. Na realidade do município de
Pinheirinho do Vale, onde a maioria das escolas municipais está localizada no
interior, e onde o trabalho de Educação Alimentar é diferenciado, também aconteceu
a coleta dos dados, investigando-se como ocorre esse processo em escolas de
Educação Especial.

Nessa coleta de dados todos os questionamentos da entrevista foram


gravados por mim, comprovando as realidades visitadas. As pessoas que
participaram da pesquisa identificaram-se com o nome completo ao responder por
escrito a entrevista e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, ao gravar,
para preservar e respeitar a individualidade de cada um, apresentou-se somente as
iniciais do nome do entrevistado ou o seu primeiro nome. Aconteceu, também, o
registro das visitas nos dois municípios em fotos e com cópias de projetos e demais
documentos oficiais que comprovam o trabalho realizado em Educação Alimentar.

Os participantes desta pesquisa responderam uma entrevista padronizada


com roteiro previamente elaborado e testado (Anexo 2), em que as perguntas
permitiam que o entrevistado expusesse sua opinião, caracterizando um questionário
aberto.

3.2 Conhecendo os espaços em que foi realizada a pesquisa

Vamos conhecer agora um pouco dos espaços pesquisados, como os


municípios, as escolas, os refeitórios, enfim todos os locais que, contribuíram de
forma significativa para o resultado desta pesquisa.
52

Antes de apresentar os resultados desta investigação por meio das


entrevistas, conheceremos um pouco da história de cada um dos municípios em que
a pesquisa foi realizada. O município de Horizontina foi criado em 1955, considerado
berço da imigração alemã, italiana e polonesa, com a chegada, em 1927, dos
primeiros colonizadores alemães. A Lei nº 2.556, de 18 de dezembro de 1954, criou
o município e foi assinado pelo então governador do Estado, general Ernesto
Dornelles, verificando-se a sua instalação em 28 de fevereiro de 1955. Horizontina
hoje é conhecida pela indústria de automotrizes, tratores e plantadeiras. A população
total, em 2007, era de 18.305 habitantes.

A pesquisa foi realizada também no município de Pinheirinho do Vale, no


passado denominado somente Pinheirinho, nome dado pelos antepassados que
encontraram às margens do Rio Uruguai um pinheirinho que lhes servia de
referência. Uma vez que esta não era uma região de pinheirais, encontrar um
pinheiro foi motivo de alegria para os imigrantes. Em 1958 foi reconhecido como
distrito. Localiza-se no extremo norte do Rio Grande do Sul, na região do Médio
Uruguai, limitando-se ao norte com Santa Catarina, sul com Palmitinho, leste com
Caiçara e oeste com Barra do Guarita e Vista Gaúcha. A população, em 2007, era de
4.411 habitantes, constituída de imigrantes alemães oriundos da região de Marau e
Montenegro, chegando mais tarde os italianos e os açorianos, todos em busca de
terras férteis.

Nos dois municípios investigamos uma escola de bairro e uma central. Mas
como o município de Pinheirinho do Vale apresentou o diferencial de ter muitas
escolas no interior, pesquisamos também nesse município uma escola interiorana.
Todas as escolas que participaram da pesquisa são municipais, cada escola tem sua
estrutura em alvenaria, as aberturas e a cor destas escolas são definidas pela
comunidade escolar, escola e Secretaria de Educação de cada município. Pode-se
perceber que as escolas visitadas têm sua história construída pela comunidade e
que há interação destes seres sociais, uma vez que todos trabalham em conjunto.

As escolas de Horizontina apresentam uma estrutura física externa e interna


com aparência mais nova, com várias reformas. Já as escolas do município de
Pinheirinho do Vale têm uma estrutura física menor, mas também são conservadas e
bem pintadas. Todas as escolas visitadas apresentaram cozinha e refeitório
53

devidamente mobiliados para receber os alunos, são espaços amplos e adequados


para o preparo e a distribuição da merenda.

Merece destaque também o refeitório – espaço em que são realizadas as


refeições. Todas as escolas têm refeitório estruturado, com local adequado para
cada aluno sentar e se alimentar, enquanto a cozinha possui os equipamentos
mínimos para preparo da merenda. As regras em ambas as realidades é que no
espaço do refeitório os alunos devem chegar em fila, acompanhados por um
professor, podem conversar de maneira educada, não gritar e nem desrespeitar o
colega e demais presentes. Sempre rezam antes de iniciar a Alimentação Escolar.
Em Horizontina utilizam garfo, faca, colher e pratos de vidro para distribuir e para os
alunos consumirem a merenda. Já em Pinheirinho do Vale os alunos recebem pratos
de plástico e usam as colheres.

Fazem parte desta história e dividem as cenas na realidade escolar vários


sujeitos, como direção e vice-direção, professores, alunos, merendeiras e
funcionários, os quais realizam a limpeza dos espaços da escola e do pátio. O
serviço de nutrição de ambos os municípios é composto por nutricionista que elabora
o cardápio e acompanha todo o processo. As merendeiras em ambas as realidades
investigadas são 100% do sexo feminino e, independente de terem realizado o
concurso para cozinheira ou auxiliar de cozinha, os papéis e funções
desempenhadas são semelhantes.

Verifica-se por meio de atas que a grande maioria dos pais se faz presente
nas escolas, sendo todos convidados para visitar os espaços e, inclusive, observar o
que seu filho está consumindo na merenda e dar sugestões.

Nestas duas cidades os representantes da comunidade escolar participaram


da pesquisa. Em Horizontina houve a participação de 21 pessoas, todas do sexo
feminino, com a faixa etária expressa na Figura 1.
54

Idade (anos) Nº de participantes


20 – 30 anos 3
30 – 40 anos 6
40 – 50 anos 10
50 – 60 anos 1
60 – 70 anos 1
Total 21 pessoas
Figura 1: Total de participantes da pesquisa por faixa etária no município de Horizontina, RS.
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Em Pinheirinho do Vale participaram 20 pessoas, sendo 19 do sexo feminino


e uma do masculino, com a faixa etária expressa na Figura 2.

Idade (anos) Nº de participantes


20 – 30 anos 7
30 – 40 anos 10
40 – 50 anos 2
50 – 60 anos 1
Total 20 pessoas
Figura 2: Total de participantes da pesquisa por faixa etária no município de Pinheirinho do Vale, RS.
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Como citamos anteriormente, o diferencial deste estudo é ouvir as vozes da


representação de todos os segmentos da comunidade escolar. Para a manutenção
da qualidade de vida e da educação, é imprescindível o comprometimento da direção
das escolas, professores, alunos, agricultores, Emater, Senar, merendeiras,
nutricionistas, funcionários, pais, equipe da Smec. A comunicação e o diálogo de
todos, trabalhando de forma cooperativa, garantirá o êxito nas ações.

Na Figura 3 expõe-se a porcentagem da representação por segmento da


comunidade no município de Horizontina, RS.
55

28%

42%

10%

10%
10%

Professor Nutricionista e equipe de merenda CAE Pais Merendeiras

Figura 3: Total da comunidade escolar de Horizontina, participante da pesquisa, por segmento/2010.


Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Na Figura 4 apresenta-se a porcentagem da representação por segmento da


comunidade do município de Pinheirinho do Vale, RS.

35% 40%

10% 10%
5%

Professor Nutricionista e equipe de merenda CAE Pais Merendeiras

Figura 4: Total da comunidade escolar de Pinheirinho do Vale, participante da pesquisa, por


segmento/2010.
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Percebe-se que nas realidades pesquisadas as representações que mais


tiveram interesse em participar da pesquisa foram as merendeiras e professores,
talvez por já estarem envolvidos e conscientes da importância de todos trabalharem
de forma conjunta para colher os frutos. Mas considerando o número de professores,
56

que é maior em relação ao número de professores, observa-se poderiam ter


participado em maior número.

Sem convocar nenhum segmento, tivemos ainda a colaboração dos pais,


conselheiros de alimentação escolar e equipe, que trabalham diretamente com a
Alimentação Escolar. Nesse sentido, pretende-se compreender o que cada um
destes segmentos entende por Educação Alimentar.

A Educação Alimentar e Nutricional deve constituir-se num processo ativo que


tem por finalidade levar às pessoas a ciência da Nutrição e, por meio dela, promover
mudanças para práticas alimentares saudáveis, garantindo a saúde dos indivíduos
mediante conhecimentos nutricionais. Por isso, a Educação Alimentar e Nutricional é
de fundamental importância, devendo consistir numa prática ativa, lúdica e interativa,
por meio da qual os sujeitos terão instrumentos para mudanças de atitudes e de
práticas alimentares, sendo estes instrumentos norteados pela ciência da nutrição
(JORGE; PERES, 2004).

3.3 Ações de Educação Alimentar desenvolvidas e a sua compreensão por


parte das comunidades escolares

É importante neste momento compreendermos o que as pessoas que


compõem estas duas realidades entendem por Educação Alimentar, com base em
que referência elas desenvolvem este trabalho e, ainda, quais as práticas e
atividades educativas que utilizam para trabalhar o tema.

Após compreender o que é Educação Alimentar, segundo a teoria


apresentada no item anterior, será apresentado a seguir o Mapa 1, que expressa o
pensamento dos professores de Horizontina, RS sobre esta prática.
57

“Oportunizar espaços para o aluno entender porque é importante ter uma


alimentação saudável. Iniciar o trabalho já na Educação Infantil”.

O que é Educação Alimentar para os professores de Horizontina?

“Trabalhar a Alimentação Saudável de forma interdisciplinar em sala de


aula. Uma forma de promover a Alimentação Saudável”.

Mapa1: O que é Educação Alimentar para os professores de Horizontina, RS?


Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

No Mapa 1 definimos o que os professores entendem por Educação


Alimentar, ou seja, iniciar desde cedo este trabalho, já na Educação Infantil,
mostrando aos alunos a importância de uma alimentação saudável e promovendo
esta prática. A fala de uma professora de Horizontina, RS, traduz o entendimento de
grande número de professores daquele município:

Unir a parte pedagógica com a alimentação é essencial para que os alunos


compreendam a importância dos alimentos e passem a incluí-los em suas
refeições (Professora de Horizontina, RS).

O importante é que este grupo tem consciência de que o trabalho de


resultados une a parte pedagógica e a alimentação. Percebemos que em todo
desenvolver da pesquisa os professores apresentam e focalizam muito o educar e a
forma desta ação. Esse professor faz parte, então, de um dos processos mais
importantes da vida, a Educação, sendo um dos responsáveis por ela. Educar,
segundo Moran, Masetto e Behrens (2000, p. 12):

[...] além de ensinar, é ajudar a integrar ensino e vida, conhecimento e ética,


reflexão e ação, a ter uma visão de totalidade. Educar é ajudar a integrar
todas as dimensões da vida, a encontrar nosso caminho intelectual,
emocional, profissional, que nos realize e que contribua para modificar a
sociedade que temos.

Quando questionamos a respeito das práticas de Educação Alimentar


desenvolvidas na escola, surgiram várias projeções de como realizá-las,
considerando que os professores de Horizontina trabalham o tema Alimentação
Saudável em sala de aula de forma interdisciplinar, e também estudam os alimentos,
58

sua função, o uso de conservantes e os riscos de consumir alimentos com


conservantes. Para tanto foi usado material de apoio como textos, teatro, música e
contação de histórias. Outra prática de Educação Alimentar é quando os professores
aguardam na fila e se sentam junto aos alunos para estimulá-los a consumir a
Alimentação Escolar – são educadores conscientes de suas ações.

A Educação Alimentar e Nutricional pode contribuir para a modificação de


determinados comportamentos na infância, resultando na redução de risco de várias
doenças que se manifestam na maturidade. Sendo assim, o professor torna-se um
agente transformador do comportamento infantil, o que lhe exige constante
formação, motivação e informação. Para que o professor contribua na promoção de
hábitos saudáveis, contudo, é essencial que possua, além do conhecimento dos
preceitos teóricos de dieta equilibrada, uma postura consciente de sua atuação na
formação de hábitos das crianças (DAVANÇO; TADDEI; GAGLIANONE, 2004).

Outro diferencial é que Horizontina tem no Projeto Político-Pedagógico das


escolas, o Projeto Alimentação Saudável, em que professores e serventes planejam
juntos a forma de trabalhar o tema. O que considerei importante é que eles
defendem a necessidade de a escola e a comunidade escolar tratarem
conjuntamente do tema, trabalhando de forma interligada a questão da alimentação.

Nas escolas deste município os professores realizam oficinas onde preparam


bolos de beterraba, de cenoura, de banana, de maçã e outros. Ainda aprendem a
fazer salada de frutas, sanduíche natural e outras receitas, quando cada aluno,
literalmente, coloca a mão na massa. Preparam também o café da manhã saudável
em que cada aluno traz um prato para confraternizarem e trocarem alimentos e
ideias com os colegas, professores, serventes e merendeiras.

A ação pedagógica não pode se limitar à coerção e ao controle autoritário,


porque ela exige, para ter êxito, uma certa participação dos alunos e, de algum
modo, seu “consentimento” (GAUTHIER, 1993 apud TARDIF; LESSARD, 2005).

Outra prática é a elaboração de um cardápio diário pelos professores,


supervisionado pela nutricionista, em conjunto com os alunos, para que estes o
sigam também em casa. Promovem, ainda, palestras com os pais sobre Alimentação
Saudável, para que estes incentivem os hábitos saudáveis de seus filhos.
59

As escolas de Horizontina, como apresentado na Figura 5, utilizam uma forma


lúdica de prática pedagógica, em que desenvolvem atividades sobre alimentação
saudável por meio de brincadeiras, contação de histórias relacionadas à Educação
Alimentar, diálogos e cantos, para que os alunos se relacionem com os personagens
e reflitam sobre seus hábitos alimentares.

Figura 5: Aula em que os alunos preparam a bolacha caseira aprendendo as letras do alfabeto,
Horizontina/RS.
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Já os professores de Pinheirinho do Vale têm uma visão diferente de


Educação Alimentar. Para eles, Educação Alimentar é oportunizar uma alimentação
saudável, e é por isso que todas as disciplinas trabalham, de forma interligada, a
Alimentação Saudável nos conteúdos escolares. O Mapa 2, a seguir, demonstra que
estas pessoas entendem que Educação Alimentar é unicamente trabalhar o
nutricional.
60

“É o ato de saber alimentar-se corretamente. Modificamos algumas atitudes


alimentares e valorizamos outras”.

O que é Educação Alimentar para os professores de Pinheirinho do Vale?

“É a alimentação saudável que resulta em bom desenvolvimento físico e mental”.

Mapa 2: O que é Educação Alimentar para os professores de Pinheirinho do Vale, RS?


Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Os professores de Pinheirinho do Vale afirmam que Educação Alimentar é o


ato de saber alimentar-se corretamente e que resulta em bom desenvolvimento físico
e mental, necessitando da intervenção do professor. Este trabalho docente é
permeado por teorias e ações práticas, produz resultados sobre o humano, requer
reflexão teórico-prática permanente, aprofundamento e formação continuada.
Envolve, também, a interação com alunos e colegas, planejamento e gestão
educacional do ensino, avaliação e avaliação permanente das práticas, entre outras.
Neste sentido, conforme Tardif e Lessard (2005, p. 8), a docência é “[...] uma forma
particular de trabalho sobre o humano, ou seja, uma atividade em que o trabalhador
se dedica ao seu objeto de trabalho, que é justamente um outro ser humano, no
mundo fundamental da interação humana”.

Os professores de Pinheirinho do Vale trabalham o tema Alimentação


Saudável por meio de peças de teatro, abordando sempre o tema em sala de aula.
No refeitório falam sobre a importância de mastigar bem os alimentos e a forma de
higienizá-los. Tratam com os alunos sobre a alimentação alternativa; discorrem sobre
aproveitamento de alimentos que contêm mais nutrientes e que muitas vezes são
descartados. É trabalhada em sala de aula a Pirâmide dos Alimentos para que os
alunos tenham conhecimento da importância dos alimentos essenciais à vida. São
desenvolvidos diversos projetos que envolvem toda a comunidade escolar, inclusive
convidam os pais para colaborar em projetos como: meio ambiente, coleta seletiva
do lixo, jardinagem, compostagem, horta escolar (Figura 6), horto medicinal e a já
citada alimentação alternativa.
61

Figura 6: Cultivo da horta escolar nas escolas de Pinheirinho do Vale, RS.


Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Os alunos colaboravam em cada projeto elaborado pela realidade de


Pinheirinho do Vale, colocando em prática os ensinamentos adquiridos. Enquanto
isso, uma turma com dois professores ficava responsável para verificar
permanentemente o andamento do projeto e não permitir que acabasse.

O mais importante é que todos estes projetos eram divulgados para a


comunidade regional por meio de reportagens com publicações em quatro jornais
regionais. Tinham também o programa Escola na Rádio, no qual a cada bimestre
eram divulgadas as atividades desenvolvidas. Para trabalhar o tema Alimentação
Saudável foram confeccionados panfletos e cartazes ilustrativos. Além disso, foram
utilizadas fitas de vídeo e realizadas pesquisas na Internet, entre outros.

Para Moran (1991), a relação entre escola e mídia pode estabelecer pontes
importantes, pois a instituição escolar é um espaço no qual é possível promover
discussões sobre os meios de comunicação, além de utilizá-los como motivação,
apoio, fonte de informação, pesquisa e novas formas de expressão. Segundo o
autor, os meios podem ser utilizados como forma de instrução, com o objetivo de
transmitir conteúdos objetivos.

Quem colabora também para entendermos o que é Educação Alimentar são


as merendeiras de Horizontina, que consideram por Educação Alimentar: comer
alimentos mais naturais, ter uma refeição balanceada, que contenha todos os
62

nutrientes. É, ainda, segundo elas, incentivar os alunos a comerem todo tipo de


alimento, é organizar os espaços para que os alunos se sirvam.

Questionadas sobre as práticas e atividades educativas desenvolvidas pelas


merendeiras de Horizontina para promover a educação alimentar, estas citaram:
estimular os alunos a experimentarem todos os tipos de alimentos saudáveis e a se
desafiarem para este ato; incentivar os alunos a comerem frutas e saladas, bolos e
outras preparações com estes alimentos; controlar a quantidade de alimento que é
servida para que tenham uma alimentação saudável; contribuir na preparação da
Merenda Pedagógica (Figura 7), que é um projeto que visa a apresentação atrativa
dos alimentos que constituem o cardápio. Neste projeto o alimento é um instrumento
de aprendizagem, em que se trabalham as cores dos alimentos que compõem o
cardápio, as suas formas geométricas, a roda e a pirâmide dos alimentos, os
nutrientes que estão presentes nos alimentos e muitos outros temas afins.

Figura 7: Exemplo de Merenda Pedagógica e sistema em que os alunos se servem nas


escolas de Horizontina, RS. Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Merece destaque o fato de que as profissionais merendeiras ensinam o


respeito, demonstrando aos alunos que façam o mesmo com seus colegas e
professores. No projeto da Merenda Pedagógica, preparada pelas merendeiras,
estas organizam a mesa, trabalham as cores e as formas dos alimentos,
oportunizando aos alunos para que se sirvam e aprendam a utilizar os talheres.

Observou-se também que após as refeições os alunos são incentivados a


63

adquirir o hábito permanente de escovar os dentes, trabalho desenvolvido por meio


de um projeto no qual os dentistas vão à escola, ensinam a maneira adequada de
escovar e higienizar os dentes e distribuem, de forma gratuita, um conjunto com
escova, pasta de dente e fio dental para ser utilizado na escola. Aqueles alunos que
não têm condições de comprar o material recebem um kit para levar para casa.

As merendeiras dizem que Educação Alimentar é tudo o que foi citado


anteriormente, ou seja, é aquilo que é desenvolvido para o aluno, como a Merenda
Pedagógica e os ensinamentos sobre os alimentos e seus benefícios para a saúde.
Uma delas comenta: “tudo que é trabalhado no refeitório o aluno aprende”. Outra
reforça: “É educar para vida com qualidade, o respeito reflete na educação”.

Segundo Tardif e Lessard (2005, p. 12), entre outras reflexões, ensinar é “[...]
um processo social (inserido em cada cultura, com suas normas, tradições e leis),
mas também é um processo profundamente pessoal: cada um de nós desenvolve
um estilo, seu caminho, dentro do que está previsto para a maioria”.

Como expressa uma das merendeiras:

Educação na alimentação também é ensinar a comer educadamente, saber


repartir, comer saudavelmente. A realidade se destacou por trabalhar com o
sistema de auto-serviço, os alunos podem se servir, escolhem o que querem
comer e aprendem a se relacionar, fazer escolhas, respeitar o próximo.
(Merendeira de Horizontina, RS).

Como queremos educar e preparar para a vida, concordo com (FREIRE, 1998,
p. 121):
“A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir
a ser.Não ocorre em data marcada. É neste sentido que uma pedagogia da
autonomia tem de estar centrada em experiências estimuladoras da
decisão e da responsabilidade, vale dizer, em experiências respeitosas da
liberdade”.

Complementando, as merendeiras de Pinheirinho do Vale ressaltam que a


Educação Alimentar ocorre quando as crianças aprendem que é preciso comer o que
é importante para a sua saúde; quando estas, portanto, realizam escolhas
alimentares sabendo porque é importante consumir estes alimentos. É, segundo
elas, oportunizar aos alunos conhecer os diversos tipos de alimentos, e, ainda,
preparar o ambiente adequado para recebê-los e ensiná-los a manter limpo o espaço
das refeições.
64

Questionou-se a respeito das práticas e atividades educativas que são


desenvolvidas pelas merendeiras de Pinheirinho do Vale para promover a educação
alimentar. Ao que estas responderam: buscam sempre a inclusão de novas receitas
saudáveis no cardápio, alimentos que as crianças, muitas vezes, não teriam
aceitabilidade ao natural e que, preparado de forma diferente, elas aceitam. Por
exemplo, o bolo de beterraba e outros. Outra atividade é o cultivo da horta escolar
que, além de fornecer alimentos saudáveis para a merenda, serve de instrumento de
aprendizagem. Nessa horta cultivam, inclusive, o chá que consomem.

Todo o trabalho realizado em ambas as realidades tem aspectos em comum,


como a conscientização que as merendeiras têm do seu papel como educadoras.
Como elas mesmas expressam, se o refeitório estiver limpo e agradável, a comida
bem-feita, nutritiva e saborosa, a experiência das refeições para os alunos será de
forma natural uma aula de higiene e Educação Alimentar.

Existe diferença de entendimento para a mesma pergunta feita inicialmente.


As respostas diferem e, ao mesmo tempo, se complementam. As merendeiras de
Pinheirinho do Vale, por exemplo, percebem a necessidade de o aluno entender em
primeiro lugar porque é importante consumir os tipos de alimentos, e que só
podemos ter interesse por consumir aquele que conhecemos. Ainda, que o próprio
ambiente pode servir para educar os alunos. Já as merendeiras de Horizontina
defendem a importância de oportunizar saberes sobre alimentação saudável.

Nesta noção de Educação Alimentar que se apresentou anteriormente,


alcançou-se um desafio ainda maior: entender a importância de incentivar os alunos
a compreenderem as mudanças ocorridas com eles próprios nesta prática de ensino
da Educação Alimentar e promover a mudança de postura alimentar.

Na realidade, estas práticas educativas baseiam-se em direcionar o aluno


para o caminho da sabedoria, que é resultado do conhecimento associado à
emoção, unindo saber e ser e propiciando uma ação que comprova o aprendizado.

Compreenderão as mudanças ocorridas consigo os alunos que conseguirem


mobilizar o saber. Quando necessitarem usar o que aprenderam, perceberão se isto
se tornou sua propriedade, ou seja, se realmente houve aprendizagem. Não me
refiro aqui ao conhecimento simplesmente depositado no aluno ou a ele transferido.
65

Todo o trabalho realizado em ambas as realidades tem aspectos em comum,


como a conscientização que as merendeiras têm do seu papel como educadoras.
Como elas mesmas expressam, se o refeitório estiver limpo e agradável, a comida
bem-feita, nutritiva e saborosa, a experiência das refeições para os alunos
acontecerá de forma natural e será uma aula de higiene e Educação Alimentar.

Quanto ao que representa Educação Alimentar para as merendeiras,


percebemos que o educar para elas está relacionado com o seu espaço de trabalho.
Cada ação delas visa a educar, e assim buscam incentivar os alunos a consumirem
alimentos saudáveis, a se comportarem no momento de se servirem. Enfim, buscam
à maneira delas educar e aprender e, talvez, esta seja uma das dinâmicas que dá
mais resultado na Educação Alimentar. É importante perceber que elas têm claro seu
papel como educadoras, e mesmo sem saber o conceito de interdisciplinari-dade,
agem assim, trabalhando no conjunto.

Sobre esta maneira de educar, Morin (2001, p. 11) afirma que

a junção dos dois termos, educação e ensino, direciona a um ensino


educativo, cuja missão não é transmitir um simples saber, mas construir um
conhecimento ou saber complexo, elaborando uma cultura que permita ao
ser humano compreender sua condição humana e ajudá-lo a viver,
favorecendo, ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre.

Outro grupo entrevistado em Horizontina foi composto pelo representante da


Secretaria de Educação, que trabalha diretamente com a Alimentação Escolar, a
nutricionista responsável e os membros do Conselho Municipal de Alimentação
Escolar (Comales). No Mapa 3 consta a demonstração do que entendem por
Educação Alimentar:
66

“Construir com o indivíduo uma alimentação saudável, respeitando sua cultura,


modificando algumas atitudes e valorizando outras".

O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente com a


Alimentação Escolar e o Comales de Horizontina?

Fonte: “Iniciar
Pesquisa da autora,
o trabalho julho/2010.
já na Educação Infantil, e envolver a família em todo
esse processo”.
Mapa 3: O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente com a Alimentação Escolar
e o Comales de Horizontina, RS?
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Este grupo pesquisado acrescenta uma informação nova à importância de


construir com o indivíduo essa alimentação saudável, respeitando sua cultura, e
sugere iniciar o trabalho com o envolvimento dos pais.

Na cultura daquele município, composto em sua maioria de alemães, respeitar


a tradição é trabalhar os hábitos em sala de aula, é elaborar o cardápio com
alimentos que fazem parte dessa cultura, que os alunos sintam que a sua história de
vida e de convívio social está sendo respeitada na escola.

Quando questionamos sobre as práticas de Educação Alimentar


desenvolvidas pelos conselheiros da Alimentação Escolar e equipe da merenda de
Horizontina em suas escolas, estes apresentaram: cardápio da alimentação escolar,
respeito aos valores nutricionais, adaptação a alunos com patologias nutricionais,
como: diabetes mellitus, hipertensão, intolerância à lactose.

Particularmente, acredito que este modo de adaptar a realidade de vida de


cada aluno representa o ato de educar a partir das diferenças, sejam estas em
relação ao processo de ensino e aprendizagem ou em relação à alimentação.
Alimentar é educar. Segundo Savater (2005), a melhor educação é aquela que
potencializa o maior número de virtualidades que possam coexistir harmonicamente.

Nas escolas de Horizontina realiza-se a Avaliação Nutricional periódica de


cada aluno para verificar se está evoluindo no seu estado nutricional. São oferecidos
cursos e palestras para os pais, apresentando a alimentação que está sendo
67

oferecida aos seus filhos e abrindo espaço para ouvir sugestões, bem como
palestras da nutricionista aos alunos, onde é abordado o tema. Como descrito, esta
realidade envolveu os pais na mudança da postura alimentar, oportunizando
alimentação saudável na escola e em casa.

Os membros conselheiros da Alimentação Escolar e a equipe da merenda de


Pinheirinho do Vale destacam como atividades educativas desenvolvidas em suas
escolas: palestras sobre alimentação e higiene para os alunos, café da manhã
saudável na escola, projeto horta nas escolas, capacitação para professores
trabalhando temas relacionados à alimentação saudável e atividades de educação
nutricional individualizadas (quando os alunos que necessitam têm, de forma
individual, avaliação nutricional, diagnóstico nutricional, orientações e o
acompanhamento com dieta especializada).

Os pais de alunos de Horizontina relatam como atividades o incentivo


permanente para seus filhos comerem saladas na quantidade certa, evitando os
exageros. Relatam, também, a conscientização sobre a alimentação adequada e a
mais natural possível. Já os pais de alunos de Pinheirinho do Vale falam sobre o
trabalho com alimentação alternativa, palestras sobre alimentação saudável e
higiene, cultivo da horta escolar e café da manhã saudável na escola.

De forma interessante os representantes de Pinheirinho do Vale –


colaboradores da Secretaria de Educação que trabalham diretamente com a
Alimentação Escolar, inclusive a nutricionista responsável e os membros do
Conselho Municipal de Alimentação Escolar (CAE) –, entendem por Educação
Alimentar o mesmo conceito apresentado pelo município de Horizontina, conforme
expõe o Mapa 4:
68

“É quando conseguimos construir conhecimentos para ter uma alimentação


saudável, utilizando alimentos que fazem parte da nossa cultura”.

O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente com a


Alimentação Escolar e o Comales de Pinheirinho do Vale?

“É um processo no qual se busca a percepção da importância de adequadas


escolhas alimentares e de hábitos saudáveis”.

Mapa 4: O que é Educação Alimentar para os que trabalham diretamente com a Alimentação Escolar
e o Comales de Pinheirinho do Vale, RS?
Fonte: pesquisa da autora (jul./2010).

Em ambas as realidades é destacada a importância de, além de incentivar a


alimentação saudável, respeitar os hábitos relacionados com a cultura de cada
aluno. Outro dado importante mencionado é quanto à opinião dos pais e ao que eles
entendem por Educação Alimentar. O Mapa 5 mostra a ideia das duas realidades:

“É uma alimentação à base de produtos nutritivos, alimentos naturais. É


alimentar-se corretamente, é uma arte”.

O que é Educação Alimentar para os pais de Pinheirinho do Vale?

“É usufruir de todos os alimentos necessários para o nosso organismo”.

Mapa 5: O que é Educação Alimentar para os pais de Pinheirinho do Vale, RS?


Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

O ponto de vista dos pais de alunos de Pinheirinho do Vale pode ser traduzido
na fala de uma mãe: “Educação Alimentar é ensinar a comer educadamente, saber
repartir, comer saudavelmente”. Eles apresentam a Educação Alimentar como uma
forma de aprendizagem nutricional e de conduta, porque a maioria dos pais se
preocupa com a alimentação de seu filho.
69

Além de todas as atividades citadas anteriormente, os dois municípios


investigados desenvolvem diversos projetos em suas escolas e comunidade, como
os apresentados a seguir.

O município de Pinheirinho do Vale apresenta um projeto que foi lançado em


abril de 2008, denominado “A Merenda Escolar Fazendo a Diferença”, que engloba
um conjunto de projetos anexados e interligados. A sua realização acontece em
virtude do fato de que o município de Pinheirinho do Vale tem como meta
desenvolver cada vez mais a educação com qualidade, incrementando a merenda
escolar. Com isso, visa a uma maior qualidade de vida e, consequentemente, um
maior aprendizado, com redução do índice de reprovação e de evasão escolar.
Também, visa fazer da escola um lugar apaixonante, com ambiente agradável, que
deixe saudades para que o aluno volte com entusiasmo no dia seguinte.

Justifica, ainda, que um meio ambiente saudável para o crescimento e


desenvolvimento da criança reflete na sua saúde física e mental. A mídia, as
propagandas e a exposição das crianças com mais frequência a alimentos
industrializados, fast-food, desenvolveu hábitos alimentares que prejudicam o bom
desenvolvimento e geram problemas, como a obesidade. É possível, no entanto, que
desde pequena, a criança aprenda a comer bem, agregando valores nutricionais na
escola, que pode desempenhar um papel fundamental neste processo.

Quanto mais jovem for a criança, maior deve ser a preocupação com sua
alimentação, porque é nesta fase da vida que o organismo está desenvolvendo
características que ficam para sempre, que é um valioso tesouro, segundo as
escolas que avaliaram a importância dos projetos.

Por intermédio da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Pinheirinho


do Vale, e de um programa de educação nutricional, elevou-se consideravelmente a
qualidade de vida de seus alunos e, consequentemente, a qualidade na
aprendizagem. O município de Horizontina também possui atividades permanentes
de Educação Nutricional, quando nutricionistas e extensionistas da Emater realizam
um trabalho integrado.

O município de Pinheirinho do Vale destaca que a soma dos esforços entre


Governo Federal e Administração Municipal visa ao desenvolvimento de um trabalho
70

competente que envolve merendeiras, direção de escolas, Secretaria Municipal de


Educação, agricultores que fornecem produtos para a merenda, Senar e Emater.

Todos juntos buscam diariamente o aperfeiçoamento mediante cursos, leitura


do material do PNAE escrito para educar, motivar e inspirar todo aquele que,
objetivando um viver saudável, esteja disposto a substituir antigos hábitos que
destroem a saúde, por um estilo de vida que promova bem-estar, alegria e vida
abundante, que faz “a diferença através da merenda escolar”.

O primeiro trabalho que faz parte deste projeto geral de Pinheirinho do Vale é
a “Nutricionista na Escola”, quando o cardápio é elaborado por uma profissional da
área, trazendo vários benefícios para as crianças, como: cardápio balanceado e
adaptado aos hábitos da região, do município e de acordo com as estações do ano.
O projeto valoriza produtos e produtores locais, realizando teste de aceitabilidade do
cardápio pelas crianças e modificação do mesmo, quando necessário, formando,
assim, bons hábitos alimentares. Esta mesma prática é realizada no município de
Horizontina e faz parte do projeto “Gestão Alimentar: uma prática de resultados no
controle e prevenção de patologias”.

Nestes projetos de ambas as cidades as nutricionistas realizam visitas


regulares às escolas, promovendo palestras com temas variados, tais como:
alimentação saudável, reeducação alimentar, pirâmide alimentar, procedência dos
alimentos, produção e cultivo dos alimentos.

Existe, também, um trabalho realizado por meio da avaliação nutricional dos


alunos (Figura 8), quando se procede a sua pesagem, calculando o Índice de Massa
Corporal, controlando alunos com sobrepeso e obesos. Depois de calcular o IMC, a
nutricionista, junto com a equipe da Smec, visita as famílias dos alunos com
sobrepeso ou obesos, dialogando com os pais sobre a dieta da família, sugerindo
uma alimentação balanceada, promovendo mais saúde e qualidade de vida.
71

Figura 8: Exemplo da avaliação nutricional que é realizada nas escolas de Pinheirinho do Vale.
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Outro projeto exclusivo de Pinheirinho do Vale é “A Escola Municipal de Turno


Integral Sagrada Família”, onde os alunos passam o dia todo realizando atividades e
recebendo as refeições. Logo cedo, na chegada, os alunos tomam o café da manhã;
às 10 horas, o lanche; ao meio-dia, o almoço; e às 15 horas, o lanche, para que
estejam bem-nutridos e possam desenvolver todas as atividades pedagógicas e
culturais com muita disposição e criatividade.

Em Pinheirinho do Vale existe o “Projeto de Ações Educativas


Complementares”, e a sua inserção na Educação Municipal tem como meta a
criação de oficinas de culinária e artesanato como um trabalho educativo
complementar à escola, voltado para o desenvolvimento das potencialidades da
criança, do adolescente e do jovem. Este projeto, segundo os entrevistados, vem
contribuir no processo de desenvolvimento pessoal, na promoção social, na melhoria
da qualidade de vida por meio da alimentação adequada e, consequentemente, do
fortalecimento da autoestima, transformando os envolvidos em cidadãos conscientes
e participativos do contexto sociocultural em que vivem, sendo o público-alvo os
alunos de Ensino Fundamental de baixa renda, composto de cerca de 300
participantes.

Na Oficina de Artesanato os alunos aprendem pintura em tela, em tecido,


bordados, confecção de chinelos, de bonecos, crochê e outras artes. Já na Oficina
de Culinária desenvolve-se o preparo de vários pratos a partir de alimentos nutritivos,
72

são fornecidas orientações sobre a pirâmide alimentar, os bons hábitos de higiene e


como manipular corretamente os alimentos. Esta oficina tem como monitora uma
nutricionista.

Outro trabalho desta realidade é o “Projeto Horta Escolar”, realizado em


Horizontina e em Pinheirinho do Vale, considerando que o cultivo das hortaliças na
escola oferece ao aluno a oportunidade de correlacionar teorias e práticas nas
diversas etapas de cultivo. Devido ao fato de as crianças serem provindas de
famílias de baixa renda, a escola sente a necessidade de despertar a consciência
para o cultivo da horta como fonte alternativa de benefícios à saúde e ao
crescimento da criança. O projeto é desenvolvido nas escolas da Rede Municipal
desses municípios, onde são distribuídos gratuitamente a todas as escolas sementes
diversas e adubo orgânico para o início do projeto e assistência técnica.

Em Pinheirinho do Vale há um professor responsável em cada horta, e


juntamente com os demais professores, funcionários e alunos, realiza o plantio nos
canteiros e na estufa. A produção é usada no preparo da merenda escolar, e parte é
distribuída gratuitamente para os alunos levarem para consumir em casa.

Figura 9: Cultivo da horta escolar por alunos de Horizontina, RS.


Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Já em Horizontina o diferencial é que o “Projeto Horta Escolar” envolve os


pais, e é feito o plantio na escola e nas casas dos alunos, onde a Smec fornece o
necessário para a produção, e toda a equipe de pais e alunos planta na escola e nas
casas. O importante é a união deste coletivo.
73

Como resultado deste projeto há uma alimentação mais saudável nas escolas
e nos lares dos alunos, com o consumo de hortaliças sem agrotóxicos. As crianças
percebem sua importância, o que eleva ainda mais a autoestima, uma vez que são
as responsáveis pela manutenção das hortas nas escolas. Temos, assim, uma
alimentação mais saudável e saborosa, utilizando os produtos de excelente
qualidade das hortas na merenda escolar.

Outro projeto é “Peixe: nutrição com qualidade” na rede escolar de


Horizontina. O Programa Merenda Saudável objetiva a inclusão da carne de peixe na
merenda escolar, que é uma iniciativa da Secretaria de Educação em parceria com a
Secretaria Municipal da Agricultura e Emater. O peixe é uma excelente fonte de
proteínas completas, ferro e outros minerais, além de conter os ácidos graxos
ômega-3. A inclusão da carne de peixe na merenda escolar parte do pressuposto de
que ela é saudável, nutritiva, macia e saborosa, e contribui para o crescimento e o
desenvolvimento dos escolares.

Após a apresentação e análise do trabalho desenvolvido, foi questionado se a


comunidade escolar percebeu resultados com as práticas realizadas.

3.4 Ouvindo as vozes da comunidade escolar: os resultados e a importância da


inclusão da Educação Alimentar

Na sequência questionamos as comunidades escolares quanto à percepção


dos resultados da prática de Educação Alimentar na sua escola e da possibilidade
de mudança na postura alimentar dos alunos. Todos os entrevistados de Horizontina
responderam positivamente, relatando como efeitos o aumento de consumo de frutas
e saladas e a diminuição do peso de alunos obesos ao longo do trabalho com
Educação Alimentar. Houve, também, a conscientização da família sobre a
importância de uma alimentação saudável, e o que os alunos aprendem no refeitório
relacionam com o que aprendem em aula. Após todo o trabalho os alunos entendem
a necessidade de uma alimentação saudável, comem com prazer a merenda servida
pela escola, bem como os alimentos saudáveis oferecidos em suas casas.

Em Horizontina, com a realização dos projetos foi possível constatar o


aumento da qualidade de vida dos alunos da rede pública, com reflexos na
alimentação oferecida em casa. A integração das ações da escola e da família
74

contribuiu significativamente para a diminuição dos problemas ocasionados pelas


patologias, uma vez que houve controle sistemático da glicemia por portadores de
diabetes, além da redução dos índices de desnutrição e de obesidade. Os alunos
que recebem leite de soja em todas as refeições do cardápio não mais apresentaram
complicações, como constipação, inchaço abdominal e hemorragia.

O resultado do projeto é um demonstrativo de que a Secretaria Municipal de


Educação e Cultura de Horizontina consolida sua missão de garantir condições para
a promoção do conhecimento, da cultura e da cidadania das crianças e adolescentes
das escolas da rede pública de ensino.

A comunidade escolar de Pinheirinho do Vale igualmente respondeu de forma


positiva quanto aos resultados da prática de Educação Alimentar. Citou crianças
bem-alimentadas, com menos problemas de saúde, mais disposição, maior
concentração, mais ativas, que gostam do cardápio oferecido e sentem prazer em
consumi-lo. A família, segundo relato, conscientizou-se da sua responsabilidade no
processo e participou de forma efetiva na consolidação da Educação Alimentar. Os
alunos aprenderam o respeito aos colegas, confirmaram que houve aumento de
consumo de frutas e saladas e que estão conscientes da importância de uma
alimentação saudável.

Os entrevistados relatam que o projeto da Horta Escolar de Pinheirinho do


Vale vem sistematicamente beneficiando os alunos das escolas, bem como as
famílias das crianças, permitindo que estas se posicionem como participantes ativas
da vida familiar, além de ter estimulado a reprodução de hortas nos fundos dos
quintais. O projeto vem ainda contribuindo para a diminuição da evasão escolar e
ampliação do interesse pelo estudo e pela escola.

3.5 As práticas de Educação Alimentar e a sua articulação com demais saberes


escolares

Outra pergunta realizada para a comunidade escolar (pais, professores,


merendeiras, conselhos de alimentação escolar, nutricionista) foi: Você achou
importante realizar estas práticas? Elas conseguem unir o educar para a
alimentação e demais saberes trabalhados na escola? Como? Estes
questionamentos tinham como objetivo verificar se teria como acontecer um trabalho
75

interdisciplinar, envolvendo não só os saberes abordados na escola, mas


acrescentando o tema “Alimentação Saudável”.

No município de Horizontina, as respostas aos questionamentos foram todas


(100%) de união entre a prática de Educação Alimentar e outros temas de sala de
aula, mediante o trabalho interdisciplinar. O importante que foi relatado é que os pais
ajudam e apoiam neste trabalho, abrangendo a própria rotina e atividades lúdicas,
lembrando sempre o quanto é importante a alimentação saudável para a formação
humana. A merenda pedagógica é desenvolvida em conjunto com professores e
merendeiras, quando os alunos percebem a importância de consumir todo tipo de
alimento. Muitas vezes a refeição é apresentada e elaborada pela merendeira de
uma forma diferente, despertando o interesse do aluno em experimentar
determinados alimentos.

Nas suas falas, os professores de Horizontina conseguem especificar que


trabalham no refeitório e em sala de aula a questão do limite, com histórias sobre
alimentação e a importância de consumir alimentos saudáveis. Depois trazem os
alunos para a cozinha da escola para preparar pratos e degustá-los. Relatam que
fazem um trabalho realmente conjunto com as merendeiras para estarem
conscientes do tema a ser abordado e falarem todos a mesma linguagem com os
alunos.

Já na comunidade escolar de Pinheirinho do Vale, 100% dos entrevistados


responderam que conseguem unir o educar para a alimentação e demais saberes
trabalhados na escola. Disseram que praticam atividades pedagógicas como
desenhos, teatro, contação de histórias e elaboração de cartazes em sala de aula,
mostrando as diferenças entre o comer bem e o comer mal, os resultados e a
importância da horta não só na escola, mas também em casa. Além disso, primam
pela boa alimentação e pelos bons hábitos, pois, como uma professora cita, quando
o corpo está bem alimentado é mais fácil trabalhar os demais saberes. Lembram que
a educação precisa ser transdisciplinar, envolvendo todas as áreas de
conhecimento, por meio do diálogo, brincadeiras, projetos, dramatizações,
envolvendo os alunos e o tema Alimentação Saudável.

Como um dos entrevistados expressa, ele consegue unir o educar para a


alimentação e demais saberes:
76

Trabalhando em forma de projetos, envolvendo as disciplinas e cita que


nosso papel na escola é procurar envolver cada vez mais os alunos em
atividades, transmitindo a eles o certo, para que tenham uma alimentação
saudável. É importante conhecer as práticas para uma alimentação
saudável e os benefícios que essas escolhas trazem e isso já é percebido
pelos alunos. É necessário que eles saibam o valor nutricional de cada
alimento ofertado na merenda escolar. Da mesma forma, é importante toda
a comunidade escolar saber os benefícios que um trabalho com enfoque no
que é saudável, que é seguro, pode proporcionar (Professora de Pinheirinho
do Vale/RS).

Nesse sentido, Shuvartz e Monego (2004, p. 168) defendem que,

A concepção entre educação em saúde é amplamente reconhecida, e na


perspectiva de novos modelos conceituais de escola é possível esperar que
crianças e adolescentes tenham a possibilidade de criar uma nova
consciência positiva com relação à saúde física e mental, além de valores
sobre convivência harmônica e o respeito ao cidadão. Salienta-se a
individualidade da escola, que possui uma combinação particular de
elementos físicos, culturais, emocionais e sociais que vão determinar um
processo de ensino aprendizagem único.

Ao observar todo o trabalho que é realizado envolvendo o nutricional e o


pedagógico, pergunta-se: estas pessoas que estão abordando o assunto estão
preparadas? Foram capacitadas? É o que veremos a seguir.

3.6 Atividades de educação permanente em alimentação, saúde e educação


para toda a comunidade escolar

Percebeu-se a importância da educação permanente sobre o tema, uma vez


que os saberes da formação pedagógica correspondem às estratégias e recursos
utilizados para articular conteúdos curriculares à transversalidade do tema Educação
Alimentar.

A formação do/a educador/a em Educação Alimentar, de acordo com os(as)


entrevistados(as), está pautada fortemente em atitudes e valores que remetem à sua
experiência pessoal e profissional. Toda comunidade escolar que desempenha o
papel de educador está de acordo a respeito do fato de que o conteúdo da Educação
Alimentar e Nutricional deve fazer parte da formação inicial e continuada dos(a)
professores(as) e de todos que compõem o segmento escola.

Em virtude disto a questão realizada para os entrevistados, ou seja,


professores, pais e Conselho de Alimentação Escolar, envolve o conhecer de
77

práticas de educação permanente para estes se capacitarem na teoria e na prática,


tendo o conhecimento necessário para falar sobre alimentação saudável de forma
interdisciplinar. Questionamos: realiza-se educação permanente em alimentação,
saúde e educação para toda a comunidade escolar (merendeiras, pais,
professores...) que trabalha com os alunos estes temas? De que forma?
Professores, pais e Conselho de Alimentação Escolar responderam positivamente,
ou seja, que realizam capacitações por intermédio de palestras ministradas pela
nutricionista para trabalhar o tema Alimentação Saudável.

Deve-se destacar novamente a importância de envolver a família nas


palestras, pois nas palavras de Savater (2005, p. 57):

Na família a criança aprende – ou deveria aprender – atitudes fundamentais,


como falar, limpar-se, vestir-se, obedecer os adultos, proteger os menores
(ou seja, conviver com pessoas de diferentes idades), compartilhar
alimentos e outros bens com quem a cerca [...].

Proporcionar atividades programadas de formação sobre Educação Alimentar


e apresentar e fornecer material didático que dê suporte à comunidade escolar são
fundamentais para um processo de informação consciente, consistente,
conscientizador e que pode resultar em mudanças concretas.

Questionando o grupo de merendeiras de Horizontina sobre as atividades de


educação permanente realizadas com a comunidade escolar, 90,47% da amostra
total responderam que recebem capacitação, mas que conhecem apenas o que é
ofertado a elas, não sabendo o que ocorre com os outros segmentos da comunidade
escolar. A capacitação acontece com encontros de formação a cada três meses para
capacitar as merendeiras sobre higiene, manipulação de alimentos, autoestima,
importância da alimentação saudável, como preparar a merenda pedagógica, o
papel de cada uma como educadora e sua responsabilidade.

A Secretaria Municipal de Educação de Horizontina tem o compromisso de


garantir a qualidade da merenda escolar das escolas do município, desde a
aquisição dos alimentos até a sua preparação e fornecimento às crianças. As
merendeiras, além de serem responsáveis por oferecer refeições bem preparadas e
sem riscos para a saúde, devem ser capacitadas para se tornarem excelentes
78

educadoras alimentares, ou seja, tornar a alimentação escolar um momento


pedagógico.

A realização de cursos de capacitação e a atualização dessas profissionais


tornam-se práticas relevantes, posto que elas podem ajudar a orientar os alunos na
busca de uma alimentação saudável.

O trabalho foi coordenado pelo setor de Merenda Escolar da Secretaria


Municipal de Educação e desenvolvido por meio de palestras trimestrais ministradas
pela nutricionista responsável pela alimentação escolar e demais equipes, como
psicóloga, professoras de dança e música, pedagogas, professores de Educação
Física, realizadas com todo o quadro de serventes e merendeiras da rede municipal
e estadual de ensino, em local estabelecido. Para abordagem e exposição dos
temas utilizou-se recurso audiovisual (projetor multimídia), bem com materiais
educativos (panfletos e cartilhas) referentes aos temas trabalhados, entregues aos
participantes. Complementando as atividades, visitas periódicas e contínuas foram e
são realizadas pela nutricionista em todas as escolas municipais para a verificação
da aplicação prática da teoria. Trabalhou-se o Manual de Boas Práticas e se orientou
seu seguimento.

Figura 10: Capacitação com um especialista sobre preparação da merenda pedagógica em que estão
participando merendeiras.
Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).
79

Foi importante capacitar as merendeiras para que utilizem o momento de


servir a alimentação escolar e assim ter contato com o aluno de forma afetiva e ao
mesmo tempo educador. Deve-se destacar que um diferencial do trabalho de
Horizontina é buscar a valorização e reconhecer todo o esforço desenvolvido pelas
merendeiras para manter a qualidade da alimentação escolar oferecida, com
momentos de lazer como forma de reconhecimento pela sua dedicação. Ao final de
cada ano proporciona-se uma viagem para um local escolhido pelo grupo, a qual é
custeada pelo município.

Como resultados deste projeto temos: melhor qualidade da merenda escolar


no que se refere à higiene, apresentação dos pratos, dedicação em orientar os
alunos sobre alimentação saudável; melhora da qualidade diária do trabalho
desenvolvido pelas profissionais e comprometimento com sua profissão; otimização
no preparo da merenda escolar, melhorando a qualidade de estocagem e
conservação dos alimentos nos depósitos das escolas, bem como a higiene de
equipamentos e utensílios utilizados na cadeia alimentar.

Outro projeto são os “Cursos de Formação para Merendeiras”, desenvolvido


pelo município de Pinheirinho do Vale, em parceria com o Serviço Nacional de
Aprendizagem Rural (Senar), voltados às pessoas do meio rural, para conquistarem
melhor qualidade de vida e o pleno exercício da cidadania. Os cursos são oferecidos
desde 2002, e com maior intensidade em 2007.

A justificativa para a realização desses cursos é que a Secretaria Municipal de


Educação e Cultura busca constantemente alternativas para a qualificação na área
da Educação no atendimento das “Metas de Todos pela Educação”, tanto na área
profissional quanto na formação humana e na valorização desses profissionais em
seu trabalho, contribuindo na formação dos educandos e promovendo maior
qualidade de vida. São ofertados cursos como “Aproveitamento Integral dos
Alimentos”, em que aprendem técnicas de aproveitamento, representando uma
oportunidade para produção caseira de alimentos equilibrados, evitando
desperdícios e protegendo a saúde das pessoas mediante a alimentação saudável e
nutritiva.
80

Outros cursos oferecidos foram de “Autoestima” e “Qualificação para o


Trabalho”, e também de “Boas Práticas de Higiene e Manipulação dos Alimentos”. A
realização destes cursos reduziu a distância entre o “dizer” e o “fazer”, auxiliou na
obtenção de resultados de qualidade e favoreceu o alcance de níveis cada vez mais
qualitativos na produção das mais diversas receitas, oportunizando melhores
produtos para a merenda e maiores possibilidades de fontes alternativas na
valorização do trabalho.

O curso de “Autoestima” proporcionou maior valorização da vida, tornou o


clima mais favorável, de harmonia, de amor, de entendimento e, consequentemente,
criou um ambiente familiar.

Um diferencial é que os pais são sempre convidados a participar de todos os


cursos de capacitação oferecidos pela Smec, e eles vêm em busca do saber, como
se pode observar na Figura 11:

Figura 11: Capacitação sobre produção de alimentos saudáveis em que estão participando
merendeiras e pais. Fonte: dados da pesquisa de campo (jul./2010).

Esse esforço em capacitar a comunidade escolar é o que contribui para os


resultados apresentados. Todos conseguem trabalhar utilizando a mesma linguagem
e analisando os resultados.
81

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Todo este trabalho é a realização de um projeto acalentado por muito tempo.


Indica-se, aqui, para um caminho, não o único, mas importante para a implantação
da prática da Educação Alimentar em todas as escolas brasileiras, iniciando o
trabalho na nossa região. Não existem muitos registros documentados e divulgados
a respeito das possibilidades de fazer desse espaço, da hora da merenda, e do
trabalho da questão em sala de aula, uma oportunidade de educar e de aprender, de
degustar, de experimentar e de ter uma vida saudável.
Nesta pesquisa são trazidas e analisadas práticas que indicam para
resultados possíveis de uma boa gestão no âmbito da alimentação escolar. Por isso,
cabe aqui reforçar os resultados e a importância do trabalho da Educação Alimentar
para a promoção de mudanças no quadro nutricional das crianças em idade escolar.
Conforme dados apresentados nesta investigação, atualmente muitas crianças das
escolas brasileiras se encontram em quadro de sobrepeso e obesidade, o que
reforça a necessidade de se iniciar o trabalho de educação nutricional e alimentar
desde o início de sua vida escolar.
Como questionado no início, o que é a educação alimentar no espaço
escolar, de que forma realizá-la para que integre o saber, o sabor e a saúde? A
pesquisa mostrou que são várias as atividades que podem ser desenvolvidas. Foi
possível verificar que os alunos aprendem no refeitório, fazendo relações com o que
aprendem em sala de aula; aprendem com palestras, com a contação de histórias e
por meio de outras tantas formas aqui indicadas. O importante é que toda a
comunidade escolar mantenha-se atenta, desejosa de mudar práticas e de alcançar
resultados positivos. É necessário, como relatado por ambas as realidades
pesquisadas, que o aluno entenda o que está acontecendo neste processo, e o
quanto é importante ele ter uma alimentação saudável. Por isso, a comunidade
escolar e os educadores devem saber sobre o tema e estarem preparados para a
interação de seus conhecimentos acerca do assunto com os saberes de seus
alunos.
Os resultados do trabalho em Educação Alimentar obtidos a partir das
realidades pesquisadas demonstram a mudança de hábitos, a melhora do estado
nutricional, com crianças alimentadas de forma saudável, sendo mais ativas e
estando mais dispostas para aprender. Tudo isso em meio à constatação de que as
82

crianças comem com prazer a merenda servida pela escola e os alimentos


saudáveis oferecidos também em casa. Essas conquistas, como verificado, devem-
se a um trabalho interdisciplinar e eficiente nas escolas, envolvendo família e
comunidade escolar.

A investigação das realidades que realizam sistematicamente a educação


alimentar mostrou mudanças de percepção acerca de seu lugar e papel no âmbito da
escola. Já não se trata apenas de uma ação de caráter assistencialista e nutricional
(de combate à desnutrição e ao fracasso escolar). Através dessa prática se
expressam toda uma dimensão pedagógica que envolve aprendizagens e interações
entre os alunos, configurando-se em espaço de construção da cidadania e do
exercício do direito de se alimentar de forma adequada e saudável.

É preciso compreender que a alimentação é parte integrante e fundamental no


processo de educação. A verdadeira escola, a que trabalha a realidade do seu
aluno, prepara as pessoas para a vida. E, nesse sentido, é necessária a consciência
de que o ser humano não vem pronto, mas que ele precisa aprender. Por isso,
compete aos professores, à família e à sociedade ensinar, falar e dar o exemplo em
relação aos diversos saberes vinculados à vida, dentre os quais o saber de uma boa
alimentação.

Espera-se que esta pesquisa instigue e desperte o desejo de mais pessoas


estudarem e difundirem a Educação Alimentar e sua importância junto às escolas e
que sejam criadas ações educativas que a desenvolvam, ressaltando suas possíveis
contribuições para a vida dos alunos. Esta investigação é apenas um início. Que ela
inspire novas e mais aprofundadas incursões sobre o tema.
83

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Lei nº 10.172/2001 − Apresenta o Plano Nacional de Educação.

Lei nº 9.394/1996 – Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Lei n° 8.742/1993 − Lei Orgânica de Assistência Social.

Lei nº 8.142/1990 − Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do SUS.


87

Lei nº 8.080/1990 − Lei Orgânica da Saúde.

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língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.

Portaria Interministerial n° 1.010, de 08/05/2006 – Institui as diretrizes para a


Promoção da Alimentação Saudável nas Escolas de Educação Infantil, Fundamental
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Alimentação Escolar – PNAE.
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OBRAS CONSULTADAS

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transdisciplinar re-significando os valores humanos. Texto para leitura. São Paulo:
Gepi/PUC-SP, 23/10/2007.

BICUDO-PEREIRA, I. M. T. et al. Escolas promotoras de saúde: onde está o


trabalhador professor? Saúde em Revista. Piracicaba, SP, v. 5, n. 11, 2003. p. 29-
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DOCUMENTÁRIO “Criança, a alma do negócio”. Disponível em site eletrônico.

FAZENDA, I. C. A. Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro:


efetividade ou ideologia. São Paulo: Loyola, 1979.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia – saberes necessários à prática educativa. 8.


ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988.

FREITAS, K. M. C. Obesidade, Mulher e Família. Dissertação (Mestrado em


Psicologia).Recife: Pontifícia Universidade Católica, 2004.

GUILLOT, G. O resgate da autoridade em educação. Porto Alegre, RS: Artmed,


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HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo


Brasileiro, 1989.

IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação


profissional .5. ed. São Paulo: Cortez, 2001.

LÜCK, H. Pedagogia interdisciplinar. Fundamentos teórico-metodológicos.


Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

MAHAN, L. K.; ESCOTT-STUMP, S. Krause: alimentos, nutrição e dietoterapia. 9.


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MALDANER, O. A formação inicial e continuada de professores de Química –


professores e pesquisadores. Ijuí, RS: Ed. da Unijuí, 2000.

MARQUES, M. O. Conhecimento e educação. Ijuí, RS: Ed. da Unijuí, 1998.

MORIN, E. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 3. ed.


Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

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______. Saberes globais e saberes locais – o olhar interdisciplinário. Rio de


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______. Terra pátria. Lisboa: Instituto Piaget, 1993.

______. Introdução ao pensamento complexo. 2. ed. Lisboa: Inst. Piaget, 1990.

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uma problemática do saber docente. Teoria & Educação. Porto Alegre: Pannonica,
n. 4, 1991. p. 215-234.
90

ANEXOS
91

ANEXO 1

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Prezado(a) Senhor(a)

Você está sendo convidado(a) para participar, como voluntário, em uma


pesquisa. Após ser esclarecido(a) sobre as informações a seguir, no caso de aceitar
fazer parte do estudo, assine ao final deste documento, que está em duas vias de
igual teor. Uma delas é sua e a outra é do pesquisador responsável. Em caso de
recusa você não será penalizado(a) de forma alguma. Em caso de dúvida você pode
procurar o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Regional do Noroeste do
Estado do Rio Grande do Sul, a própria pesquisadora ou seu orientador.

INFORMAÇÕES SOBRE A PESQUISA:


− Título do Projeto: A EDUCAÇÃO ALIMENTAR NO ESPAÇO ESCOLAR:
Saber, Sabor e Saúde
− Pesquisadora responsável: ROSEMERI AQUILLA

Este trabalho é fruto de estudos da Pós-Graduação Stricto Sensu, Mestrado


em Educação nas Ciências, na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul – Unijuí.

A pesquisa visa a investigar o papel pedagógico da escola e seus objetivos de


formar para a vida em sociedade, apresentando a importância de incluir a educação
alimentar nas escolas.

Os benefícios são a comprovação da eficácia desta prática e uma vida mais


saudável para os alunos. A pesquisa não oferece qualquer risco aos sujeitos
participantes.

Para a coleta de dados da pesquisa serão realizadas visitas em dois


municípios que praticam a Educação Alimentar de forma inovadora. A visita
acontecerá em duas escolas de cada município, ou seja, um total de 4 escolas,
entrevistando toda comunidade escolar (pais, professores, serventes, nutricionistas),
totalizando um total de 41 pessoas entrevistadas.
92

Esta pesquisa será feita mediante entrevista e, posteriormente, transcrita e


analisada. As entrevistas, fotos e demais documentos ficarão sob minha
responsabilidade e serão utilizadas apenas por mim e pelo meu orientador durante a
execução deste trabalho. Após serão guardadas durante cinco anos por mim e
posteriormente destruídas totalmente por meio de incineração.

Nós, pesquisadores, garantimos que seu anonimato está assegurado e as


informações obtidas serão empregadas apenas para fins científicos vinculados ao
presente projeto de pesquisa, podendo você ter acesso às informações e realizar
qualquer modificação no seu conteúdo, se julgar necessário.

Mesmo participando do estudo, você poderá recusar-se a responder as


perguntas ou a quaisquer outros procedimentos que ocasionem constrangimento de
qualquer natureza.

Está garantido que você não terá nenhum tipo de despesa financeira durante
o desenvolvimento da pesquisa, como também nenhum constrangimento moral dela
decorrente.

Todas as informações têm a garantia de sigilo e todos têm o direito de retirar


o consentimento a qualquer tempo.

Eu, ROSEMERI AQUILLA, bem como meu orientador JOSÉ PEDRO


BOUFLEUER, assumo toda e qualquer responsabilidade no decorrer da investigação
e garanto que suas informações somente serão utilizadas para esta pesquisa,
podendo os resultados virem a ser publicados.

Se houver dúvidas quanto a sua participação, poderá pedir esclarecimento a


qualquer um de nós nos endereços e telefones abaixo:
− Pesquisadora: Rosemeri Aquilla, Rua Osório Hilgenfritz, nº 297, Catuípe/RS, CEP
98770-000. Fone: (55) 9152-8380.
− Orientador: José Pedro Boufleuer. Fone (55) 9962-0715.
− Comitê de Ética em Pesquisa da Unijuí ― Rua do Comércio, 3000 ― Prédio da
Biblioteca ― Caixa Postal 560 - Bairro Universitário ― Ijuí/RS ― CEP 98700-000.
Fone/fax (55) 3332-0301.

Nome e assinatura do pesquisador ______________________________________


93

CONSENTIMENTO DA PARTICIPAÇÃO DA PESSOA COMO SUJEITO

Eu, ________________________________________, RG ____________________


CPF_________________________________ , ciente das informações recebidas,
concordo em participar da pesquisa, autorizando-os a utilizar as informações por
mim concedidas e/ou os resultados alcançados.
O presente documento foi assinado em duas vias de igual teor, ficando uma
com o voluntário da pesquisa e outra com o pesquisador responsável.

Local e data ________________________________________________________

_________________________ _________________________
Nome do entrevistado Assinatura do entrevistado

_______________________________ __________________________

Pesquisadora Assinatura da Pesquisadora


94

ANEXO 2

QUESTIONÁRIO DE ENTREVISTA

ESCOLA:
FUNÇÃO:
SEXO:
IDADE:
MUNICÍPIO: ( ) Horizontina/RS ( ) Pinheirinho do Vale/RS

1. O que você entende por Educação Alimentar?

2. Quais práticas e atividades educativas são desenvolvidas na sua escola para


promover a educação alimentar?

3. Você percebeu resultados depois do início da prática de educação alimentar na


sua escola? Você percebeu mudança na postura alimentar? Quais?

4. Você achou importante realizar estas práticas? Elas conseguem unir o educar
para a alimentação e demais saberes trabalhados na escola? Como?

5. Realiza-se educação permanente em alimentação, saúde e educação para toda a


comunidade escolar (merendeiras, pais, professores...) que trabalha com os
alunos estes temas? De que forma?
95

ANEXO 3

MODELOS DE CARDÁPIOS OFERECIDOS NAS REALIDADES PESQUISADAS

Secretaria Municipal de Educação e Cultura-SMEC


ESCOLA DE EDUCAÇÃO INFANTIL ADELAIDE AMBROS

CARDÁPIO MÊS DE AGOSTO / 2010


1ª Semana

SEGUNDA- TERÇA – QUARTA-FEIRA QUINTA-FEIRA SEXTA-FEIRA


FEIRA FEIRA

DESJEJUM - leite - leite - leite c/ chocolate - leite - leite c/ morango


- Pão com - Pão com mel - pão com margarina - pão com doce de leite - pão com nata e doce de fruta
nata e doce de - banana
leite

LANCHE - banana - bolacha salgada - mamão - bolacha doce - maçã

ALMOÇO - SALADA: - SALADA: -SALADA: repolho e - SOPA DE − SALADA: brócolis e beterraba


alface e tomate cenoura FEIJÃO,legumes
beterraba e - carne de frango - filé de peixe diversos e massa. - risoto
chuchu assada - arroz - pão
- massa com - arroz - feijão - Pão
molho de - lentilha - polenta com molho de
Carne moída - purê de batata tomate
- arroz inglesa
- feijão

LANCHE - docinho de - banana - arroz doce -creme de baunilha - pudim de leite


batata doce

LANCHE - leite c/ - sopa de feijão, - chá - chá - chá


chocolate legumes e massa -torradinhas com
- bolacha − Pão presunto,queijo e – bolo de limão - cachorro-quente
caseira maionese natural (PADARIA)
(PADARIA)
96