Sunteți pe pagina 1din 12

ÉCLAIR ANTÔNIO DE ALMEIDA FILHO A EXPERIÊNCIA DE LAUTRÉAMONT, POR MAURICE BLANCHOT

MARLY BULCÃO=- BACHELARD DIANTE DO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL DE LAUTRÉAMONT

E
JOSÉ TERNES= BACHELARD E LAUTRÉAMONT: LITERATURA, PRIMITIVIDADE, ANIMALIDAD

= MARIZA WERNECKm BESTIÁRIO DO SERTÃO: O PRINCÍPIO ANIMAL EM GUIMARÃES ROSA

ola =-
s ç NILSON OLIVEIRA= DUCASSE-LAUTRÉAMONT: A ESCRITA COMO FRATURA
=
pt
E Re
É di CLAUDIO WILLER== LAUTRÉAMONT, LEITOR DE BAUDELAIRE E E
Bi ce |
asas e
aisH
3 3 a) CONTADOR BORGES= LAUTRÉAMONT ANACRÔNICO
< O A :
plais x
-
Nilza
<
l
a
Sia
E =
E o! To ODINQUDVNYV LNONVIHLNVIM SIDHOS HOCVINOD
pá tt E =
” pa
Q [0 2] = Ú
m q
aHIVISANVI AQ HOLIIT LNONVINLOV Im HATTIM OIANVTIO >
O Em
o
ms VFEISAITO NOSTIK =
s aid VENIVII OWOD VITSDSI V INONVIELAVI-ISSFIONAm

=
- WSOE SEFEFKIDO KI TFKINF OLEIDSIES O OTIESS 04 OTEFILSTES FOESEIA FIIEFR

SIDHOI HOCVINOD - VIIHAITO NOSTIN - OHTIA VOIIWIV OINQINY HIVIDA - OYITAS XTEYR

* SINTIL asof. HATTIIM OITNVIO - HIOANHAM VZIAVK - (9x0) ValanAV da VvaIadaaa OISYI
JUQUDILNDT op oi

= — E ri c
E

RR posso cmo ú
— cid E = = po O “o
NE
D
MS co svot ssgs
PE . nal
s ad
aoo
SSoWq s nçUd
VS NS Ss
| PR
So a O V
E E s E o os”
|| ou O
nr
es do
Dm Boo
dc
a
ocs
O o il
2E So Gessqo DRa = olAMS
Dos DE
o SEigçres E E og
M s ? sL og asge çã s e «
1— E
E Cm QU aa = e o my ES .sS É E Es
o aC ERES O a ae -
osshãs S —
PS a O ca
SH
É GS
SRego qua ce .S Ss8 aA E
as
o á S 2 . NU) a Õ = Í =

E o pas na a hd O e o E
É =
E ns E a a EE És
“O"S O q O o q
õ Ss O O «OD 2
O

z Oo sads-sal Us O Ss DO ns Ss E—
Almeida e Clément Editora e Comércio Ltda
Rua Serra Dourada, 353, Sala 93.
TEMPO
Setor Santa Genoveva

DE
CEP 74823-440
Goiânia -Goiás-Brasil
www.edicoes.ricochete.com
ricochete-editor(O gmail.com

CONSELHO EDITORIAL
LAUTRÉAMONT
Marlon Salomon Rodrigo Vieira Marques Daniel Lins Vera Portocarrero
Roberto Machado Jean Libis Jean-Jacques Wunenburger
Christian Thiboutot José Ternes
FÁBIO FERREIRA DE ALMEIDA (organizador)

Copyright O 2014 by: Fábio Ferreira de Almeida (Org.) MARIZA WERNECK | CLAUDIO WILLER
crp — Brasil - Catalogação na Fonte
(Bibhoteca Pública Estadual Pio Vargas)
JOSÉ TERNES | MARLY BULCÃO |

TEM Tempo de Lautréamont / ECLAIR ANTÔNIO ALMEIDA FILHO |


Fábio Ferreira de Almeida (org.) —
Goiânia: Edições Ricochete, 2014. NILSON OLIVEIRA | CONTADOR BORGES

1. Critíca Literária 2. Filosofia.1


Willer, Claudio; Contador Borges; Werneck, Mariza;
Oliveira, Nilson; Bulcão, Marly; Ternes, José. Almeida, Título.

CDU: 82.09:101.1

Índice para catálogosistemático:


EDIÇÕES RICOCHETE

GOIÂNIA-GO, 2014
SUMÁRIO

Fábio Ferreira de Almeida APRESENTAÇÃO

Mariza Werneck 16 BESTIÁRIO DO SERTÃO: O PRINCÍPIO


ANIMAL EM GUIMARÃES ROSA

Claudio Willer 37 LAUTRÉAMONT,


LEITOR DE BAUDELAIRE

José Ternes 65 BACHELARD E LAUTRÉAMONT: LITERA-


TURA, PRIMITIVIDADE, ANIMALIDADE

Marly Bulcão 86 BACHELARD DIANTE DO ONIRISMO


DINÂMICO E VISCERAL DE LAUTRÉAMONT

Eclair Antônio Almeida Filho 104 A EXPERIÊNCIA DE LAUTRÉAMONT


POR MAURICE BLANCHOT

Nilson Oliveira 1 DUCASSE-LAUTRÉAMONT:


A ESCRITA COMO FRATURA

Contador Borges 130 LAUTRÉAMONT ANACRÔNICO

164 SOBRE OS AUTORES


bachelardiana do poema vão nos ajudar a cumprir este
BACHELARD propósito. O segundo objetivo será mostrar o que constitui,
para Bachelard, a verdadeira imaginação que, segundo o f-
DIANTE DO ONI- lósofo, perpassa o poema de Ducasse, manifestando-se fun-
damentalmente como imagética criadora. Para chegarmos
à compreensão da noção bachelardiana de imaginação va-
RISMO DINÂMICO mos retomar, em seguida, dois autores que servem de refe-
rência para Bachelard. São eles: Roger Caillois e Armand
E VISCERAL DE Petitjean, cujas respectivas obras: O mito e o homem e Imagi-
nação e realização vão nos ajudar a esclarecer os pontos polê-
micos apresentados por Bachelard na conclusão de seu livro.
LAUTRÉAMONT Dessa forma, vamos poder chegar ao verdadeiro significado 87
de imaginação que é inerente a todo e qualquer onirismo.
Marly Bulcão O poema Os cantos de Maldoror irrompeu no cenário li-
terário francês no início do século xx como emblema de
rebeldia, pois, além de contrariar a métrica dominante na
TRABALHO QUE vamosapresentar terá que necessar época, contestava os valores estéticos que, então, vigoravam.
mente seguir um caminhosinuoso, devido a sua comple Apresenta-se como a descrição poética dos ritmos de um pe-
xidade e abrangência. Embora o tema central seja a obra de sadelo, no qual se destacam as ações instintivas e monstru-
Lautréamont, pretendemos também aprofundar aqui a osas da crueldade animal e humana. Sua narrativa é entre-
ção de imaginação exaltada por Gaston Bachelard em sua. meada de lacunas e ausências, dando a impressão de que
vertente poética e, para isso, vamos retomar livro Lau o autor quis, intencionalmente, afastar a continuidade e a
mont, no qual o filósofo apresenta sua interpretação do po cronologia temporal, características habitualmente indispen-
ema Os cantos de Maldoror. sáveis às histórias contadas. Os versos em prosa são, além
Para que este caminho sinuoso possa ser desbravado, disso, apresentados de forma pouco usuale vão revelando,
vando-nos à compreensão dos temas propostos, vamos através de ações transgressorase de atos de crueldade vivi-
mar, comolinhas diretrizes de nossa reflexão, dois objetivos dos pelo personagem, a primitividade e a espontaneidade
primordiais. O primeiro é tentar compreendero sentido dos. do instinto animal de agressão.
versos enigmáticos que compõem Os cantos de Maldoror, ex Pode-se dizer que os versos ducassianos sãoa tentativa de
crito por Isidore Ducasse sob o pseudônimo de Conde de reconstituição de um longo sonho, no qual as diversas par-
Lautréamont. Os aspectos ressaltados pela interpretação tes vão sendo reveladas através de uma narrativa poética
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

promissor, pois conforme afirma Bachelard em A poética


do espaço, as neuroses do poeta não podem jamais explicar
a magnitude de sua poesia e, sendo assim, deve-se despre-
dominado por uma sensação de estranheza e de exclusã zar a vida do autor e analisar a obra, levando-se em conta,
que o afasta do mundo cotidiano e de vigília, fazendo-o pe apenas, o impacto literário provocado pelas palavras e pelo
netrar na dinâmica de um pesadelo que se manifesta com conteúdo narrativo e poético do texto.
verdadeiro delírio. O poema Os cantos de Maldoror chegou às mãos de Ba-
Há, por outro lado, na poesia de Lautréamont, tal po chelard, através de Roger Caillois. Foi num congresso rea-
der de encantamento e de sedução que atrai o leitor, arre lizado em Praga, em 1934, que o filósofo conheceu o jovem
batando-o com força e vigor, ao mesmo tempo em quein poeta que, na ocasião, tinha apenas vinte anos. Durante o
cita sua curiosidade e o leva a indagar sobre o verdadeiro congresso Bachelard e Caillois tiveram longas conversas e
88 sentido e significado de seus versos. O leitor é conduzido numa delas, o poeta sugeriu ao filósofo que lesse o magní- 89
pelo poema numaaventura fantástica ao mundo do imaph fico poema de Lautréamont. Não há dúvida de que a lei-
nário, um mundo que pode ser encontrado nas profunde tura dos versos lautreamontistas" marcou profundamente
zas mesmas do ser humano, numa região na qual residem à trajetória bachelardiana, pois, desviando-se de sua refle-
as origens do fabuloso onírico. Pode-se concluir, assim, que xãoepistemológica, Bachelard embrenhou-se pelo caminho
a sensação de déjá vu, provocada pela leitura dos versos, ad da poética, publicando logo em seguida um livro inteira-
vém do fato de que o poema promove o reencontro dolei mente dedicado ao poema e que recebeu comotítulo, Lau-
tor com sua interioridade mais profunda. tréamont. Numacarta enviada a Albert Béguin, Bachelard
Tudoisso é reforçado nosversos pela linguagem absurda: confessa que sua intenção ao escrever livro era delinear a
apesar de grandiloquente, a única linguagem capaz de ex linha poética queatravessa os versos ducassianos e que, se-
pressar o mundo do devaneio e do sonho. Fazendo uso de. gundo o filósofo, deveria servir de fundamento para a aná-
umaescrita que não se submete ao rigor da razão o poem lise da poesia em geral.
de Lautréamont descreve fatos nos quais certas criaturas A obra Lautréamont é a primeira incursão de Bachelard nas
vivenciam a angústia, a destruição e a chacina. A ausência. sendas do imaginário, mas já contém, a nosso ver, as dire-
de uma biografia de Isidore Ducasse na época em que for trizes que mais tarde serão desenvolvidas pelo filósofo em
publicado fez com que seu autor fosse envolvido numa au: sua vertente poética. Constitui, portanto, obra fundamen-
réola de mistério, o que impossibilitava qualquer interpre: tal, impondo-se como uma espécie de chave mestra para a
tação do poema pelo viés da psicologia, da psicanálise ou leitura dos textos bachelardianos sobre a imaginação, pois
da inserção do poeta no contexto social e cultural da época|
!. Jean-Luc pouLIQUEN. “Bachelard e os poetas da Escola de Rochefort. ”
Mas, o que poderia parecer uma dificuldade é, a nosso ver, In: Revista Reflexão, sd.
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

nela está presente uma ideia fundamental que mais tard trajetória empreendida pelo filósofo nas obras poéticas, pois
vai ser retomada por Bachelard: a ideia de que a força do a noção de imaginação vai assumindo nesse percurso face-
imaginário, manifestada pelo instinto de agressão animal tas diversas. Reconhecemos, por outro lado, que alguns as-
emerge da energia vital que habita as regiões recônditas da pectos, dos quais falaremos a seguir, já estão presentes, em-
alma humanae constitui a função primordial da verdadeira bora de forma implícita, no livro Lautréamont e vão aparecer
imaginação. À interpretação de Bachelard vai nos ajudar à de forma explícita nas obras posteriores do filósofo.
vivenciar em profundidade a força poética dos versos law Bachelard aponta nos versos lautreamontistas uma feno-
treamontistas, na medida em que, conseguindo mergul menologia complexa, calcada na agressão e na crueldade e
no universo onírico de Ducasse, o filósofo resgata, com que tem origem na natureza profunda das paixões huma-
estria e perspicácia, a linha deforça que emana do poema. | nas e na primitividade da consciência. À leitura bachelar-
Antes de começarmos a delinear as principais caracte diana batiza essa animalidade primitiva de complexo de Lau-
90 rísticas das funções imagética e criadora que são ressalta tréamont, ressaltando seu aspecto marcadamente imaginá- 91

das na interpretação bachelardiana dos versos ducassianos, rio que se manifesta no poema, através de impulsos mons-
gostaríamos de enfatizar uma convicção nossa que resul. truosos e cruéis que são provenientes de uma região recôn-
tou dos longos anos de estudo dedicados à vertente poética. dita da alma humana. O filósofo deixa entrever, entretanto,
'bachelardiana. que tais impulsos trazem implícito um sonho deliberdade
Consideramos que a perspectiva de Bachelard em relação à e de espiritualização. Vejamos o que diz Bachelard: “Pre-
concepção de imaginação é inovadorae original, na medida. tendemos(...) libertar um “complexo” particularmente enér-
em que se impõe comocontestação dos parâmetrosda tradi' gico. É por essa tarefa que devemos começar, porque é pre-
çãofilosófica que abordava a questão da imaginação a partir. cisamente o desenvolvimento desse complexo que confere
de um enfoque psico-gnosiológico. Para a tradição, a imagem à obra, no seu conjunto, a sua vida e unidade e, no porme-
era considerada como construção sensório-subjetiva, como nor, a sua rapidez e as suas vertigens.”
substituto da percepção sensível e quando relacionada com, Lendo o poema de Lautréamont pudemos detectar, como
a ideia se apresentava como um decréscimo,já que na escala alicerces dessa poesia enigmática, dois aspectos que, a nosso
cognoscente a ideia se impunha como o meio adequado dese ver, constituem os pressupostos fundamentais da vertente
chegar à verdade. Optando pelo enfoque estético, Bachelard poética bachelardiana e que, acreditamos, vão nos ajudar
restitui a autonomia do ato de imaginar, mostrando que a | não só a vivenciar melhor os versos ducassianos como tam-
imagem deve ser compreendida como evento de linguagem, | bém nos permitirão compreender as verdadeiras linhas de
como acontecimento objetivo integrante de uma imagética, força da imaginação. São eles: a noção de tempo como instante e
Acreditamos que para compreender a originalidade | a noção de imaginação material.
da perspectiva bachelardiana é necessário acompanhar à 1. Gaston BACHELARD. Lautréamont. Paris: José Corti, 1986, pág. 8.
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

Em 4 dialética da duração, Bachelard, opondo-se a Bergso | Mostra que a metamorfose de Kafka se passa num tempo
mostra que o tempo não é duração, o tempo é descontínu que morre em um pesadelo de lentidão e impotência. Na
e tem a vida do instante. Nesse sentido, na poética bache obra kafkaniana, Gregor, transformado em inseto, vive num
lardiana, a imagem não dura, só existe no instante em qui tempo queé lentidão, num tempo que não tem futuro, sua
emerge na consciência, impõe-se, pois, de um golpe, par vontade é voltar ao passado. À preguiça orgânica de Gre-
logo em seguida morrer. gor é a expressão de um tempo que é ausência de vontade
Ão ler Os cantos de Maldoror, percebe-se claramente qu e, consequentemente, ausência de ação.
Conforme afirma Bachelard, tem-se com Lautréamont o
polo inverso da metamorfose de Kafka, pois essa se mani-
um tempo abrupto onde não há espera, nem ação contínua festa como uma aceleração vital; é urgente, direta, e se rea-
Com Lautréamont, o tempoestilhaçado em instantesse fay liza nos animais com rapidez e de forma instantânea. À me-
92 poesia, afastando a ideia de duração. Renegando história « tamorfose ducassiana não é jamais descrita através de um 93
poema canta o mundo no seu acontecer presente e ritmado, estudo psicológico, pois este implicaria num relato queteria
na suaação impulsiva e dinâmica. Da obra lautreamontista como pressuposto a vivência de uma lentidão que, por sua
emanaa força de uma poesia nervosa que explode em fra, vez, estaria submetida a um tempo continuado, a um tempo
mentos convulsivos de tempo, através do relato das agre: que se prolongaria na angústia e na dor. No poema de Lau-
sões animais. Conforme afirma Bachelard: tréamont, as formas são descritas como paragens bruscas
e irregulares e necessitam ser vividas na sua rapidez. Con-
Com Lautréamont, estamos nos atos descontínuos, ma
forme afirma Bachelard, “em nossa opinião, Kafka sofre de
alegria explosiva dos instantes de decisão. Porém esse
um complexo de Lautréamont negativo, noturno, negro.”
instantes não são meditados, saboreados no seu isola
O outro pressuposto que ressaltamos e que, a nosso ver,
mento; são vividos na sua sucessão sincopada e rápid
vai poder nos ajudar a vivenciar melhor o poema e a com-
(...) A poesia ducassiana é um cinemaacelerado, ao qui I
preender o que constitui a linha de força da verdadeira ima-
seriam propositadamente retiradas as formas intermedi
ginação é a noção bachelardiana de imaginação material.
árias indispensáveis.”
Em 4 água e os sonhos;; Bachelard distingue dois tipos de
À metamorfose ocupa um lugar de destaque nos versos de. imaginação, a imaginaçãoformal que se volta para as arestas
Ducasse e vem reforçar, a nosso ver, a ideia de que o poema. exteriores e geométricas do objeto e a imaginação material que
é a expressão literária da tese da temporalidade bachelar pretende o domínio mesmo sobre a intimidade da matéria
diana do instante. Ao comparar a metamorfose de Kafka. e consegue, assim, recuperar o mundo como provocação,
com a de Lautréamont, Bachelard tornaesta ideia evidente. 1. Idem, pr.
I. Idem, p. 23. 2. Gaston BACHELARD. Leau et les rêves. Paris : José Corti, 1997, p. 2.
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

como resistência, estimulando o trabalho ativo e transfor de dinamismo, só pode ser expressa por uma imaginação
mador da natureza. eminentemente material.
Ão exaltar o que denomina de imaginação material, Bac Pode-se concluir, então, que as noções de tempo como ins-
lard deixa claro que a função imaginante deve ter como meta. tante e de imaginação materialque consideramos como funda-
primordial recuperar o mundo como resistência e provoca» mentos primordiais da poética bachelardiana, são instrumen-
ção. Isso significa dizer que a imaginação não deve ter ori tos importantes para apreendermos em toda a sua magni-
gem na contemplação passiva e ociosa do mundo, queseria. tude o poema de Lautréamont, permitindo-nos compreender
apreendido pela visão como puro espetáculo. O ato de ima: osignificado das verdadeiras linhas de força da imaginação.
ginar deve resultar, pois, do confronto, de um verdadeiro A conclusão bachelardiana do livro apresenta, entretanto,
corpo a corpo, no qual o homem é ativo no ato de apreen. pontos polêmicos que merecem ser discutidos para que se
são da materialidade do mundo. Pode-se, então, concluir possa compreender melhor em que consiste, para Bachelard,
94 pela leitura dos textos da poética bachelardiana que a ver a verdadeira função imaginante e onírica. 95
dadeira imaginação se manifesta como imaginação material. Não há dúvida de que, ao longo da escrita, o filósofo de-
Na obra Os cantos de Maldoror, onde a agressividade é pre: fende a ideia de que os versos ducassianos são um exemplo
sença constante, a imaginação material torna-se cenário de . do verdadeiro onirismo. Mas, na conclusão, vai afirmar, para
fundo. As situações de confronto com o mundo e com os nossa surpresa, que O lautreamontismo deve ser superado pelo
outros, fazem da índole agressiva a marca primordial desta | que denomina de não-lautreamontismo, pois este último repre-
poesia energética e transgressora. Lautréamont, recusando sentaria a solução completa da verdadeira poesia.
as poéticas visuais € panorâmicas, provocao leitor com ver Segundo Bachelard, subsistem ainda nos versos ducassia-
sos que, por serem próximos da miséria humana, tornam | nos resquícios de uma causalidade eficiente, o que faz com que
-se mais dinâmicos e vigorosos. Desde as primeiras pági- o poema fique muito preso às coisas concretas. À superação
nas, percebe-se que a paisagem onírica de Ducasse revela do “lautreamontismopelo não-lautreamontismo, permitiria
um gosto pela matéria bruta e desnuda, pois ao longo do ao espírito reencontrar a alegria da causalidade formal, se-
poemaé ressaltado exaustivamente o aspecto de hostilidade guindo, [assim], uma crença de beleza, quando a inocência
e confronto com o mundo. Carregados de energia vital, os de um olhar se transforma em ternura.” A conclusão deixa
versos ducassianos tornam-se mensageiros de uma mate claro que o termo não-lautreamontismo está sendo usado com
rialidade primitiva, fazendo com que o leitor consiga apre: o mesmo sentido que tem, na epistemologia bachelardiana,
ender de imediato a beleza muscular que emana do poema. o termo não-euchdianismo, o que nos faz crer que o pensa-
Profundamentevisceral, a poesia lautreamontista emerge dor francês não está renegando o poema de Lautréamont
das profundezas recônditas do ser humano, tem origem nos como expressão poética inferior. Trata-se de interpretar a
impulsos primitivos, é a revelação da violência no seu estado r. Gaston BACHELARD. Laulréamont, p.I52.
puro, na sua forma animal, uma violência que, carregada 2. Idem, p.154.
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

passagem do lautreamontismo ao não-lautreamontismo, como.


a causa formal por baixo da criação poética. Somente a
um movimento dialético, no sentido que Bachelard dá ao:
causa poética, ao misturar a beleza e a forma, concede aos
termo dialética, ou seja, o não-lautreamontismo seria uma su
seres o poder de seduzir. Queisto não seja considerado
peração e, ao mesmo tempo, um englobamento do lautreao
um pancalismo fácil. A beleza não é uma simples conven-
montismo. Dessa forma, não se pode dizer que há uma opo
ção. Necessita de uma força, uma energia, uma conquista.
sição radical entre as duas formas de poesia.
A própria estátua tem músculos.”
Outro ponto da conclusão bachelardiana que nos causa
estranheza é a afirmação de que o não-lautreamontismo Mais adiante acrescenta:
presentaria o verdadeiro onirismo porque consegue subst
Porisso o belo nunca pode ser simplesmente reproduzido:
tuir a causalidade eficiente que perpassa o poema de Ducasse
primeiro tem de ser produzido. Ele vai buscar na vida, na
pela causalidadeformal. Cabe, então, refletir sobre o signilh
própria matéria, energias elementares que são primeiro
cado queteria para o filósofo, a expressão causalidadefo di
transformadase depois transfiguradas. Algumas poesias
Ora, se retomarmosa trajetória poética bachelardiana qu
estão relacionadas com a transformação, outras com a
se segue após a escrita de seu livro Lautréamont, constata
transfiguração. Porém o ser humano, através do verda-
que uma tese primordial se impõe: a de que a verdadeira.
deiro poema, tem de sofrer uma metamorfose. A princi-
imaginação é eminentemente material. Para Bachelard, |
pal função da poesia é a de nos transformar.
imaginaçãoformal é exaustivamente condenada ao longo d
sua obra como uma imaginação ociosa e passiva, pois A partir das citações, pode-se concluir que a noção de causa
fundamenta no vício da ocularidade que tem predominade formalestá ligada à capacidade que a poesia deve ter de pro-
na tradição científico-filosófica do ocidente e faz com q vocar no leitor uma transformação, de provocar uma meta-
todo conhecimento verdadeiro seja resultante do ato de morfose dinâmicae forte que o levaria a se transformar, ou
menosprezando o embate material com o mundo. Logo, à seja, que o levaria a passar por diversas formas.
termo causalidadeformal não pode, de maneira alguma,4 Vimos anteriormente que Bachelard exalta as metamor-
compreendido a partir da distinção bachelardiana feita em foses expressas pelo poema de Lautréamont, dizendo que
tre imaginaçãoformal e imaginação material. são muito mais vigorosas do que as de Kafka. Apesar disso,
No capítulo V do livro Lautréamont, encontramos uma al segundo a interpretação bachelardiana, os versos ducassia-
mação quetalvez possa nos ajudar a compreender melhor q nos ainda estão presosà causalidade eficiente, o que significa,
sentido da noção de causaformal. Diz Bachelard: em última instância, que aindafalta na descrição das meta-
morfoses lautreamontistas o meio capaz de afastar o leitor
Por isso é que um filósofo, ao procurar nos poemas
1. Idem, p. 103-4.
ação dos princípios metafísicos, reconhece sem hesitação.
2. Idem, p. 104.
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

das coisas do mundo concreto, fazendo-o vivenciar O « que tais leis biológicas sejam liberadas sob a forma de mito
denomina de um apetite deformas. ou de imaginação. Vejamos o que diz Caillois:
Bachelard acrescenta ainda que a poesia regida pela «
(..) os estudos como estes levam a pensar que as deter-
salidadeformal deve ser fundamentalmente o que denom
minações vindas da estrutura social, por mais importan-
de poesia projetiva. Afirma que “prever é sempre imagit
tes que sejam, não são as únicas a determinar o conteúdo
À imaginação deve acariciar as formas em relevo do futui
dos mitos. Paralelamente a elas parece ser preciso intervir
próximo.” |
fatores fisiológicos, psicológicos, tais constelaçõesafetivas
Como se pode ver são muitos os aspectos intrigantes.
primordiais que não se encontram no homem senão em
conclusão bachelardiana. Acreditamos ser indispensável estados virtuais, mas que correspondem a fatos habitu-
secá-los um pouco mais, analisando mais detalhadameni
almente observáveis no resto da natureza.
o significado de causalidadeformal e de poesia projetiva. |
nosso ver, o melhor caminho para isso é seguir a sugestd Nesse sentido, para compreender o mito, torna-se necessá- 99
do próprio Bachelard, ou seja, retomar dois autores que, rio fazer apelo à biologia, pois existe uma tendência inerente
gundo filósofo, conseguiram expressar o sentido de im a todo organismo vivo de reproduzir um estado original e
nação que perpassa o verdadeiro onirismo. Roger Caillois primitivo que existe no interior de cada um de nós. No caso
Armand Petitjean mostram em suas obras Le mythe et ["homy do homem,esse estado original foi recalcado em função das
e Imagination et réalisation o que constitui a chave mestra pa forças exteriores, o que faz com que o homem só consiga ex-
a compreensão da verdadeira poesia, uma poesia que é “ pressar essa força vital através do mito ou da poesia.
e projetiva,” uma poesia que vai provocar sua “função d Há, pois, para Caillois, uma espécie de condicionamento
ensaio, de risco, de imprudência e de criação.” biológico da imaginação que vem de determinações funda-
Em Le mythe et ["homme Caillois mostra que o homem nã mentais suscetíveis de intervir cada vez que a razão passa
é, como muitos acreditam, um ser particular e isolado, a atuar num segundo plano. Sendo assim, a inervação do
que diz respeito aos animais da natureza. Para o poeta,« imaginário é de ordem afetiva e deve ser encontrada nas
homem é, como todos os demais, submetido a leis biolóy | linhas de força que tem origem nas leis vitais e biológicas
cas que determinam seu comportamento. É preciso ress do ser. Conforme afirma Caillois o “mito representa para a
tar, entretanto, que no caso do homem essas leis se mostram consciência a imagem de uma conduta, da qual esta sente
menos aparentes e menos imperativas, ou seja, “elas condi a solicitação”
cionam mais a representação do que a ação?» Isso faz com A concepção de imaginação desenvolvida por Armand
1. Idem, p. 149.
Petitjean em Imaginação e realização segue a mesma linha de
2. Idem, p. 154. r. Idem, ibidem.
3. Roger caILLOIS. Le mythe et homme. Paris: Gallimard, 1998, p. 82. 2. Idem, p. 84.
MARLY BULCÇÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

Caillois, pois também vai ressaltar o caráter biológico 1 Seguindo a sugestão bachelardiana de beber na fonte dos
imaginação, voltando-se, entretanto, para outro pólo da , dois jovens poetas: Caillois e Petitjean, fomos conduzidos
esia. Petitjean tem comointuito revelar as condições ocull ao centro do turbilhão que dinamiza a evolução biológica e
das realizações vitais a fim de mostrar que a função imay é capaz, por sua vez, de provocar no homem função ima-
nante e poética é o fator dominante da evolução. Afirmy ginante que promove o verdadeiro onirismo.
“De forma que, se imaginar é se afastar da questão do Pode-se concluir, através do caminho sinuoso de nossas
deixando que o elã vital se posicione no alto do crânio; é na reflexões que, para Bachelard, Os cantos de Maldoror, apesar
revelações da Imaginação que o homem tocará o fundod de terem renovado a poesia de sua época, uma poesia que
animal e o cume do ser, indo do nível mais baixo da bes já estava se deteriorando,não resolve completamente o pro-
à auréola do anjo.” blemacentral da imaginação. Com Lautréamontfoi possível
Com o jovem escritor aprendemos que é necessário |i nos situarmos diante das forças vitais da poesia, mas com
100 tar contra a mediocridade da nossa vida psicológica e, rom Caillois e Petitjean conseguimos ultrapassá-las, ensaiando IOI

pendo com as imagens reprodutoras, possamos encont um mergulho ainda mais profundo na instintividade bioló-
dentro e fora de nós, uma renovação íntima. A concepç gica, afastando-se da causalidade eficiente, alcançando, assim,
de imaginação petitjeaniana se fundamenta na desobedié a causalidadeformal que nos conduz à poesia projetiva.
cia, pois uma vez libertos dos valores da vida cotidiana,| Conforme mostra Bachelard, o poema lautreamontista
imaginação vai ser ativada pelos valores lúcidos, deixa teve o mérito de se libertar dos liames impostos pela esté-
de ser imitação para ser criação. Nesse sentido, a imagin tica de sua época, rompendo com padrões delinguagem, de
ção se impõe como adequação ao futuro, deixa de ser 8 expressão e com os valores estéticos vigentes, fazendo aflo-
ples visão para ser previsão. É nesse sentido que para Peti rar um onirismo visceral, até então recalcado pela poesia
tjean, prever é imaginar. da tradição. Por outro lado, submetido a condutas que es-
Mas, para se fazer o balanço enérgico do futuro que per tavam ainda presas às ações concretas do mundo, não con-
mitirá distinguir o que vairesistir e o que vai ceder, é neces seguiu alcançar a poesia pura e projetiva que vai caracterizar
sário vivenciar as formas que são os instantes decisivos d o não-lautreamontismo.
causalidadeformal. Assim sendo, a imaginação é, para Peti Mas, retomando o que foi dito, devemos chamaratenção
tjean, fundamentalmente realização, pois deve ter como met | aqui para o alerta bachelardiano, cuja importância é incgá-
primordial visar uma forma. Pode-se, então, concluir que vel. A verdadeira poesia é uma poesia sem imagens, é uma po-
imaginação só compreende uma forma quandoa transfor esia que devese afastar das coisas do mundo, que não pode
quando a colhe no fluxo da causalidadeformal. ser jamais reprodutora, mas sim produtora, uma poesia que
1. Armand PETITJEAN. Imagination et réalisation. Paris : Les Éditions Denoél
deve se desprender das ações diretas e das metamorfoses
et Steele,1936, p. 34. brutais para alcançar o que Bachelard denomina de “sonho
MARLY BULCÃO ONIRISMO DINÂMICO E VISCERAL

de ação, [no qual] residem as alegrias verdadeiramente u De qualquer modo,o leitor de Os cantos de Maldoror que ti-
manas da ação, ou seja, fazer agir sem agir, trocar o temp j ver vivido algum dia a forma nervosa da poesia da agres-
cativo pelo tempo livre, o tempo da execução pelo da deci são, não esquecerá jamais a sua virtude tonificante. Lau-
são, o tempo pesadamente contínuodas funções pelo tempc tréamontsitua a poesia nos centros nervosos. Projeta a
cintilante dos instantes, dos projetos.” poesia sem intermediário. Serve-se do presente das pala-
A verdadeira poesia é, pois, o resultado de uma renún: vras. Deste simples ponto de vista linguístico,ele já estava
que nos impõe abandonar as imagens da vida, as imagens adiantado em relação aos poetas do seu tempo,os quais,
ensinadas, uma poesia que substitui o tempo cativo da he na sua maioria viveram uma história da língua, falaram
rizontalidade pelo tempo cintilante e frenético dosinstante: da fonética clássica, repetiram-nos tal como Leconte de
Resistindo às imagens reprodutoras, a imaginação dev Lisle, um eco, muitas vezes impotente e sempre inveros-
pois, emergir, como mostra Caillois e Petitjean, de uma símil das vozes heróicas do passado.”
102 gião primitiva do ser humano, de uma região quetoca « 109
t. Idem, p. 156.
instintivo e o biológico e na qual reside o verdadeiro viés
da função imaginante.
Dessa forma, o homem liberto das responsabilidades NOTA DO ORGANIZADOR
vida, dos ensinamentos da sociedade, do pragmatismo que = Neste capítulo, a opção pelo termo “lautréamontista” em detrimen-
assola a civilização contemporânea vai se entregarà imagi to de “lautréamontiano;” bem como em todas as suas declinações,
atende a um pedido da autora.
nação autônoma e livre, regida pelos impulsos primitivos
e biológicos de animalidade, uma imaginação que é capaz
de conduzir o homem ao onirismo na sua mais plena acep
ção, um onirismo que representa um esforço estético de vid
Mas, Bachelard, seduzido pelo vigore pelo impacto q
o poema lautreamontista lhe provocou, apesar deter exal:
tado naconclusão o não-lautreamontismo, não pôde deixar «
dedicar as últimas linhas de seu livro a expressar sua pro:
funda admiração pelo jovem poeta Lautréamont, cujos vei
sos conduziram filósofo pelas sendas do imaginário e im
contestavelmente marcaram suatrajetória poética. Gostaria:
mos, pois, de concluir com as palavras de Gaston Bachelard:
I. Gaston BACHELARD. Op.cit. p. 154.