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MAGIA NO HAVAÍ

DANGEROUS CHARADE
MARISSA OWENS

Kyle tem uma obsessão: possuir aquela mulher!


A detetive Ermily Summers aproxima-se para observar o homem que está
dormindo quase nu De repente, ele a agarra e a joga sobre a cama, imobilizando-
a. "Muito bem”, diz Kyle Spencer, "vejamos quem veio me visitar a esta hora...
As mãos fortes de Kyle devassara- o corpo dela, levando-a à loucura. O
desejo de Emily está próximo à agonia, a excitação ultrapassando o limite do
tolerável.
Ela não pode? se entregar àquele homem misterioso e irresistível. Não
deve! Mas Kyle sabe como submeter Emily...

Disponibilização: Ana Cris/Nelma


Digitalização: Ana Cris
Revisão e Formatação: Cynthia M.
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens

ANGEROUS CHARADE
© 1985 by Marrissa Owens

Originalmente publicado pela Silhouette Books,


divisão da Harlequin Enterprises Limited

MAGIA NO HAVAÍ
© 1985 para a língua portuguesa
ABRIL S.A. CULTURAL

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de


reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.

Esta edição é publicada através de contrato com a


Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Silhouette, Silhouette Intimate Moments e o colofão são


marcas registradas da Harlequin Enterprises B. V.

Tradução: Maria Helena C. Marchesan


Nova Cultural — Caixa Postal 2372 — São Paulo

Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Gráfica Ltda


e impressa na Editora Parma Ltda.

CAPÍTULO I

Projeto Revisoras 2
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens

Emily Summers estacionou o carro que alugara embaixo de uma figueira e embrenhou-
se na densa vegetação tropical. Meia hora mais tarde, alcançava o oceano. Não havia
praia ali. As ondas quebravam-se contra os rochedos, lançando espuma até uma altura
considerável. A noite estava clara; o luar deixava um rastro prateado sobre as águas.
"Droga", pensou Emily. Não havia nuvens no céu, e a Lua brilharia durante toda a noite.
Não havia sentido em aguardar um momento mais oportuno.
Verificou se os cordões dos sapatos de borracha estavam bem amarrados e colocou
um boné preto, tendo o cuidado de enfiar todas as mechas dos cabelos para dentro. O
tecido do macacão que usava, também preto, era leve, mas, ainda assim, quente demais
para uma noite abafada como aquela. Respirou fundo várias vezes, como um atleta que
se prepara para a corrida, e então recomeçou a andar a passos rápidos, porém mais
cautelosos agora. Quando alcançasse a praia, começaria a parte mais difícil de sua
missão.
Depois de caminhar pouco mais de um quilômetro, encontrou seu primeiro obstáculo:
um muro de cerca de três metros de altura, constituído de pedaços de coral,
irregularmente dispostos sobre uma estrutura de cimento. Seria uma barreira
intransponível, não fossem os galhos fortes e resistentes da trepadeira que crescia nela.
Emily escalou-o com relativa facilidade e saltou sobre a areia fina do outro lado. Durante
alguns instantes, ficou agachada, imóvel, o olhar atento estudando o campo inimigo; os
ouvidos treinados procurando identificar um possível ruído.
As copas das palmeiras farfalhavam ao vento. Poucos metros adiante começava o
gramado, que se estendia até a casa. Emily correu furtivamente, tendo o cuidado de
manter-se bem junto ao muro até ultrapassar a piscina e a quadra de esportes.
"Pelo menos, não há sinal de cães", pensou, umedecendo os lábios com a ponta da
língua.
Deu um profundo suspiro e, abandonando a segurança do muro, esgueirou-se
rapidamente para o outro lado da casa. A construção era térrea, ampla, cercada de
árvores e arbustos. Portas enormes de vidro davam para o jardim, e, quando achou o que
procurava, Emily tirou um grampo de cabelo do bolso e abriu a fechadura.
Como esperava, nenhum sistema de alarme protegia a residência. As dobradiças
estavam enferrujadas e rangeram, quando ela empurrou a porta. Emily teve a sensação
de que seu coração pulsava na garganta. O ruído, apesar de insignificante, assumira
proporções assustadoras, no silêncio da noite. Tensa, deteve-se por alguns instantes,
antes de entrar na casa.
Uma vez lá dentro, esperou que seus olhos se habituassem à escuridão. Pouco a
pouco, os objetos começaram a tomar forma: os quadros na parede, as portas do armário,
a ampla cama que ocupava o centro do aposento. Sentindo que pisava em terreno mais
seguro, deu alguns passos na direção da cama e inclinou-se para observar melhor o
homem que dormia ali. Um lençol cobria-o até a cintura, deixando à mostra o peito nu. O
rosto estava virado para ela, e a respiração regular indicava que estava mergulhado num
sono profundo.
Ainda havia tempo para desistir, pensou Emily, sentindo o sangue latejar nas têmporas.
Bastava dar meia-volta, sair por onde havia entrado e fazer o percurso que a conduziria à
segurança de seu carro.
Sacudiu a cabeça, irritada com aquela idéia absurda que lhe cruzara a mente. Havia
um trabalho a ser feito, e não podia recuar agora. Mais alguns instantes, e sua missão
estaria cumprida. Ergueu a mão e aproximou-a lentamente do homem.
Qual não foi seu espanto, quando ele a agarrou pelo pulso e, com uma força
extraordinária, jogou-a de bruços sobre a cama. Uma exclamação de dor escapou dos
lábios de Emily, ao sentir as mãos imobilizadas sobre a nuca, ao mesmo tempo que o
joelho dele, em suas costas, lhe tirava qualquer chance de reagir e lhe dificultava a

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respiração.
— Muito bem — falou ele, estendendo a mão para acender o abajur. — Vamos ver
quem decidiu me fazer uma visita a esta hora.
Arrancou-lhe o boné, e, uma vez livres, os cabelos de Emily espalharam-se pelas
costas.
— Você! —exclamou ele, surpreso. Segurou-a pelos ombros e a virou, obrigando-a a
encará-lo.
A boca de Emily estava tão seca que ela não conseguia articular as palavras. No
espaço de apenas doze horas, era a terceira vez que se defrontava com Kyle Spencer.
O primeiro encontro acontecera no vôo do meio-dia de Los Angeles para Honolulu, e a
pegara de surpresa. Não estava nos planos de Emily permitir que um contato pessoal
colocasse em risco o sucesso de sua missão.
Quando Wally Forrester, seu chefe, a informara dos detalhes daquele caso, Emily
declarara, com sua franqueza habitual, que a coisa toda não passava de um grande erro.
— Pode ser — admitira Wally —, mas é o que a Sra. Barr deseja, e, afinal, o dinheiro é
dela.
— E você pode me dizer o que ela espera que eu faça?
— Que fique de olhos bem abertos. E fora exatamente isso o que ela havia feito, da
forma mais
discreta possível, depois de reconhecer Kyle Spencer através de uma fotografia que
Clarinda Barr lhe entregara. No verso, Emily havia anotado: um metro e noventa», olhos e
cabelos castanhos.
Bastou avistá-lo na sala de embarque para que Emily percebesse que estava diante de
um homem incomum. A fotografia e os dados pessoais que reunira sobre Kyle Spencer
não a haviam preparado para enfrentar a segurança e a arrogância que transpareciam
nos menores gestos dele, e muito menos aquele estranho magnetismo que tornava
insignificante o fato de que o rosto não tinha traços bonitos e regulares.
O jeans de boa qualidade e a camisa esporte, azul, eram de uma elegância um tanto
displicente, que contribuía para torná-lo ainda mais atraente. Os cabelos eram castanhos
e curtos; o nariz, ligeiramente aquilino, destacava-se no rosto triangular.
Além do fato de que ele atraía a atenção da maioria das mulheres que estavam por
perto, Emily estava certa de que nenhum dos passageiros que aguardavam o embarque
demonstrava qualquer interesse particular em Kyle Spencer.
Uma vez dentro do jumbo que a conduziria a Honolulu, foi obrigada a admitir a
impossibilidade de manter uma vigilância cerrada sobre cada um dos ocupantes do
compartimento de primeira classe.
O melhor a fazer, ponderou, seria tentar relaxar e cochilar um pouco. Quando chegasse
ao seu destino, precisaria estar bem descansada, se desejava levar sua tarefa a bom
termo.
Poucos minutos depois, percebeu que não teria condições de colocar seu plano em
prática. Um homem alto e gordo ocupou a poltrona ao lado dela, apresentou-se como Bob
Dovene e passou a desfiar um rosário de histórias, tão longas quanto monótonas, sobre o
sucesso que obtivera explorando petróleo por conta própria no oeste do Texas.
Depois de quase duas horas ao lado de Bob Dovene, ela estava à beira do desespero.
Nem durante o jantar, quando consumiu uma quantidade considerável de comida regada
a doses generosas de bourbon, o homem deu uma folga a Emily.
Na hora da sobremesa, ela recusou os doces e frutas que o comissário de bordo lhe
ofereceu, mas aceitou um amaretto. Com o cálice numa das mãos, aproveitou o instante
em que Bob Dovene olhava em êxtase para a taça de sorvete e a torta de chocolate que
tinha diante de si, e tratou de escapar.
— Com licença — murmurou, levantando-se. — Acho que estou precisando esticar um
pouco as pernas.

Projeto Revisoras 4
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Antes que Bob Dovene dissesse qualquer coisa, Emily apressou-se na direção da
escada em espiral que conduzia a uma sala mobiliada com sofás e pequenas mesas,
onde os passageiros tinham oportunidade de se distrair com jornais e revistas colocados
à sua disposição.
Emily sentou-se num dos sofás e deu um suspiro de alívio. Ali, teria paz e tranqüilidade
para saborear seu licor. Mas sua alegria terminou assim que viu o homem que acabara de
entrar. Era Kyle Spencer, e o único lugar vago ficava ao lado dela. Seus olhares se
encontraram apenas durante um segundo, mas foi o suficiente. Ele sorriu e caminhou na
direção de Emily.
— Posso? — perguntou, indicando o lugar ao lado dela.
— Claro que sim. Eu já ia mesmo voltar lá para baixo.
No momento em que se levantou, o avião jogou e gotas de amaretto espirraram na
blusa de Emily e na mão que Kyle estendera para ampará-la.
— Oh, desculpe... — murmurou ela. — Eu. . .
Um novo movimento brusco do avião terminou de entornar o que restava do líquido.
— Acho que teremos de providenciar outro licor para você — comentou Kyle, com um
sorriso. — Talvez seja melhor você se sentar.
Emily não teve outra alternativa senão aceitar a sugestão. Se insistisse em descer,
correria o risco de cair e se machucar seriamente. Uma campainha soou, e a voz do
comandante comunicou que estavam atravessando uma zona de turbulência. Não havia
motivo para alarme, mas seria aconselhável que todos apertassem os cintos de
segurança.
O avião vibrava como se houvesse sido arremessado dentro de um liqüidificador
gigante.
Emily apertou o cinto de segurança e procurou um lenço de papel na bolsa. Não sabia
o que dizer e evitava olhar para Kyle. Nada poderia ser mais inconveniente para o bom
andamento do seu trabalho do que aquela aproximação inesperada.
" Não entre em pânico", ordenou a si mesma. Isso só pioraria as coisas. Droga! Tinha
certeza de que havia um pacotinho com lenços de papel em algum lugar na bolsa.
— Talvez eu possa ajudá-la — falou Kyle, tirando um lenço do bolso e oferecendo-o a
ela.
— Obrigada — murmurou Emily. Sua blusa estava salpicada de gotas de amaretto
bem na altura dos seios. Embaraçada, percebeu que ele acompanhava com indisfarçável
interesse seus esforços para removê-las. O tecido fino colava-se de uma forma insinuante
ao corpo, revelando os contornos bem-feitos dos seios. Sob a intensidade daquele olhar,
Emilly sentiu-se como se estivesse nua em público, e o sangue afluiu-lhe às faces.
Os lábios de Kyle entreabriram-se num sorriso divertido.
— Não gostaria de um outro licor? — sugeriu.
— Acho que não. — O avião ultrapassara a zona de turbulência, e ela percebeu que
poderia levantar-se sem correr o risco de cair. — Com licença — murmurou, e saiu
apressada na direção da escada.
No banheiro, mal podia conter a irritação, enquanto limpava a blusa. Que encontro
mais inoportuno! Kyle Spencer não deveria notar a presença dela no avião. Mas não
adiantava chorar sobre o leite derramado, refletiu, resignada. Esse incidente dificultaria as
coisas, porém não a impediria de levar a cabo a missão que lhe fora confiada.
Não poderia entrar na casa à noite, sem ter feito um reconhecimento prévio do lugar.
Teria que ser mais cautelosa, agora que estivera frente a frente com Kyle. Estudou com
atenção seu reflexo no espelho. Os cabelos estavam soltos e caíam até a altura dos
ombros. Podia puxá-los para trás e fazer um coque. Óculos e uma maquilagem um pouco
mais pesada do que o simples batom e blush que estava usando completariam o disfarce.
Talvez desse certo. Já fora obrigada a recorrer a esse tipo de truque em outras ocasiões.
Além disso, era possível que nem chegasse a se avistar com Kyle. Segundo a Sra.

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Barr, havia criados na casa.
O pensamento de Emily voou para a tarde em que conhecera Clarinda Barr no
escritório da Forrester Investigações. A Sra. Barr devia andar pelos sessenta e cinco
anos, contudo ainda conservava a silhueta esbelta e a postura ereta. Emily suspeitava de
que ela nunca havia sido um tipo de beleza e - que compensara isso com uma
personalidade forte e uma inteligência aguçada. Era evidente que nenhuma dessas
qualidades empalidecera com o passar dos anos. Teve certeza disso assim que sentiu o
olhar de Clarinda Barr estudá-la cuidadosamente dos pés à cabeça e viu o sorriso de
satisfação que lhe curvou o canto dos lábios. Era como se, após um exame minucioso,
Emily houvesse sido aprovada com distinção.
Agora, desejava ardentemente que a Sra. Barr fosse tão esperta e inteligente quanto
aparentava.
Ao deixar o banheiro, teve o cuidado de se sentar o mais distante possível de Bob
Dovene. Aos poucos, a tensão foi diminuindo, e ela conseguiu cochilar um pouco.
Acordou quando a voz do comandante anunciou que estavam sobrevoando o aeroporto
de Honolulu.
Um ônibus aguardava os passageiros para levá-los da área de desembarque até o
saguão principal do aeroporto. Uma brisa suave agitou os cabelos de Emily e levou até
ela um cheiro gostoso de mar. Como num sonho, imaginou-se deitada na praia,
bronzeando-se ao sol e admirando o movimento das ondas do Pacífico.
"Deixe de bobagens", ordenou a si mesma, enquanto descia do ônibus. Não era uma
turista. Estava ali a serviço e havia muito que fazer.
Caminhava rapidamente na direção do portão quando ouviu uma voz logo atrás de si.
— Você anda depressa — comentou Kyle Spencer, emparelhando seus passos com
os dela. — Posso ajudá-la com a bagagem?
— Não é necessário, obrigada. Você pode me dizer onde fica o balcão da Hertz? —
perguntou, enquanto tentava encontrar uma forma de escapar dele.
— Posso fazer mais do que isso, vou levá-la até lá.
— É muita gentileza sua — murmurou Emily, tentando ocultar o nervosismo. Pelo jeito,
não seria fácil descartar-se dele. — O final da viagem até que foi agradável — comentou,
forçando um sorriso. Por que se sentia tão perturbada ao lado daquele homem?
— É verdade — concordou Kyle. — Mas, sempre que desço do avião, fico imaginando
como seria chegar a Honolulu num navio e ser recebido por canoas repletas de nativos.
— Ou por dançarinas de hula-hula, com colares nas mãos — brincou Emily. — Por
falar nisso, não( estou vendo nenhum nativo.
— Lá estão eles. — Apontou para uma barraca, onde guirlandas floridas estavam
penduradas, cativando os turistas com sua profusão de cores.
— São lindas. Agora me sinto em Honolulu — afirmou Emily com um sorriso. Afinal,
era supostamente uma turista e devia comportar-se como tal. Onde, diabos, ficava o
balcão da Hertz?
Avistou a agência que alugava carros no exato momento em que ele dizia:
— Eu preciso dar um telefonema urgente. É só um instante.
— Fique à vontade — apressou-se em dizer, contendo um suspiro de alívio.
O escritório da Forrester Investigações já havia tomado todas as providências, e Emily
levou poucos minutos para alugar um carro. Colocou a mala no chão para assinar a ficha,
pegou as chaves e virou-se para sair.
Kyle caminhava na direção dela, um colar de pétalas brancas numa das mãos. Emily
não fez qualquer movimento, enquanto ele se aproximava e lhe colocava o colar ao redor
do pescoço. Sem dizer nada, Kyle segurou o rosto dela entre as mãos.
Como se estivesse hipnotizada, Emily não esboçou a menor reação. Tudo o que via era
aquele rosto atraente, cada vez mais próximo do seu. Inebriada pelo aroma suave das
pétalas, cerrou os olhos, ao sentir os lábios de Kyle roçarem os seus.

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— Aloha — sussurrou ele. As mãos rodearam a nuca de Emily, jogando-lhe os cabelos
sobre o colar, num gesto ainda mais íntimo que o beijo.
Agora, caída sobre a cama dele, Emily perguntava-se se Kyle ainda a trataria com
tanta delicadeza. E pela expressão dele, adivinhou a resposta.
— Eu posso explicar — balbuciou.
— Espero que sim, se tem amor à vida — falou ele, irritado. — Na última vez que nos
vimos, você saiu do aeroporto como uma bala. Agora entra na minha casa no meio da
noite, como um ladrão.
Colocou uma das mãos na garganta de Emily, obrigando-a a continuar deitada. Com a
outra, começou a revistá-la. Sem a menor cerimônia, seus dedos apalparam os quadris,
coxas e tornozelos, antes de verificar o conteúdo dos bolsos do macacão.
— Não estou armada — murmurou Emily. — Se você me soltar, eu...
— Você vai ficar exatamente onde está — replicou, inflexível. — Pelo menos, até que
eu descubra quem é e que diabo está fazendo aqui.
Kyle vestia apenas um calção. Embora se encontrasse numa situação bastante difícil,
Emily não deixou de notar que o peito era largo, coberto de pêlos escuros e
encaracolados. Os músculos das pernas e dos braços e o tora bronzeado da pele davam-
lhe uma aparência de saúde e vitalidade, cultivada, provavelmente, através da prática de
esportes ao ar livre.
— Meu nome é Emily Summers, e eu trabalho para a Forrester Investigações —
explicou, procurando manter-se calma. — A minha identificação está no bolso. Posso?
— Não se mova — ordenou Kyle em tom ríspido. Comum gesto brusco, abriu o zíper
de um dos bolsos, à procura da identificação. — Quer dizer que estou diante de uma
detetive particular. Por que não está armada?
— Ora, pelo amor de Deus! — exclamou, contrariada. — O que eu faria com um
revólver?
— Pensei que os detetives até dormissem com um embaixo -do travesseiro.
— Não estamos num seriado de televisão, Sr. Spencer — replicou, permitindo-se um
leve tom de ironia. — Acredite-me: as armas mais letais que eu uso são um telefone e um
computador.
— É óbvio que o seu trabalho não se limita a um escritório, Emily Summers, ou você
não estaria aqui. Vamos, fale!
— A Sra. Clarinda Barr contratou-nos para investigar as ameaças que você anda
recebendo.
— Tia Clarinda? — Era evidente que a informação o pegara de surpresa. — Isso ainda
não explica por que você está aqui.
— Sua tia sabe que uma investigação dessa natureza leva tempo e que você não está
levando as ameaças a sério. Ela queria provar como alguém pode entrar facilmente na
sua casa e surpreendê-lo durante o sono.
— Faz sentido. É uma idéia maluca, bem ao estilo de tia Clarinda — comentou,
pensativo. Soltou-a e saiu da cama.
— Obrigada — falou Emily secamente, massageando a garganta, dolorida pela
pressão daquela mão forte. — Posso me levantar?
Quando Kyle concordou com um gesto de indiferença, ela saltou da cama. Passou os
dedos pelos cabelos e procurou ajeitar a roupa. Tinha certeza de que devia estar com
uma aparência horrível. E ele? Teria consciência de que estava quase nu?
— Vamos ver se entendi bem — começou Kyle. — Minha tia a contratou para entrar
aqui no meio da noite, apenas para provar que a casa não oferece a menor segurança?
— Isso mesmo. Ela está preocupada com você.
— Ora, pelo amor de Deus! Então eu recebo algumas cartas de um maluco, e minha
tia age como se a máfia estivesse atrás de mim! — explodiu. — Esta ainda é a minha
casa, e eu tenho todo o direito de chamar a polícia e mandar prendê-la por invasão de

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domicílio.
Sem dúvida alguma, ele tinha esse direito, Emily sabia que, aos olhos da polícia, sua
história pareceria inverossímil. Seria bombardeada com perguntas, revistada e acabaria
passando a noite na cadeia. Não era uma perspectiva das mais agradáveis.
"Vá com calma", recomendou a si mesma. A situação não estava perdida. Ainda lhe
restava um trunfo, e Emily pretendia fazer uso dele.
— É claro que você pode chamar a polícia — começou, adotando um tom
despreocupado. -— Mas sua tia mandou avisá-lo de que, se você fosse tolo o bastante
para agir assim, ela o faria arrepender-se depois.
Kyle riu com espontaneidade, jogando a cabeça para trás.
— Não acredita? — ela perguntou, desconcertada com a reação dele.
— Só se eu fosse louco. Tia Clarinda é capaz das atitudes mais imprevisíveis, e
sempre cumpre o que promete. Mas vamos voltar ao nosso assunto. Seguindo as
instruções de minha tia, você chegou até aqui. Só que você se esquece de um detalhe: eu
a apanhei — afirmou, com um sorriso de triunfo.
— Mas eu poderia ter feito o que quisesse, antes que você me agarrasse pelo pulso —
replicou Emily.
— Você se dá conta do risco que correu? E se eu tivesse uma arma?
— Na minha profissão, jamais corremos riscos inúteis. Sua tia já nos havia avisado de
que não há armas na casa. Além do mais, eu. . . tomei a precaução de me certificar disso
esta tarde.
— Então era você a representante da... Como é mesmo o nome? "Sempre Verde,
Manutenção de Jardins", certo? — Sem esperar pela resposta dela, continuou: — Kim
Sung mencionou a sua visita. Sou obrigado a reconhecer que você tem imaginação. Mas
o que teria acontecido, se eu estivesse em casa naquela hora? Afinal, tive oportunidade
de dar uma boa olhada em você, esta manhã, no aeroporto.
Ela corou, diante do ligeiro tom de malícia na voz de Kyle. Ele havia feito mais do que
dar uma boa olhada nela. Durante um breve instante, a lembrança daquele beijo pairou
entre eles, tornando ainda mais humilhante a posição de Emily.
— Eu. . . eu modifiquei um pouco a minha aparência.
— Vamos ver se posso adivinhar: cabelos presos e um pouco de maquilagem. Óculos
talvez? — Com inesperada delicadeza, puxou os cabelos dela para trás, formando um
coque. — Gosto mais deles soltos.
— Olhe, não podemos continuar esse assunto amanhã? — perguntou Emily, fugindo
do contato daquelas mãos. O que havia acontecido com a brisa do oceano? Sua pele
parecia pegar fogo, sob o tecido do macacão. — Já é tarde, e estou muito cansada. Você
teve algumas horas de sono, mas eu ainda não descansei um instante, desde que desci
do avião. E estou com uma sede terrível. — Por que gaguejava como uma idiota? — E
com fome também. Não tive tempo de jantar, nem...
— Com fome? Você invade a minha casa no meio da noite e ainda quer que eu lhe dê
comida?
— Quem falou em comida? — replicou, furiosa. — Eu quero apenas um copo de água,
se não for muito incômodo.
— Não seja tola. — Pegou um robe que estava aos pés da cama e vestiu-o. Abriu a
porta e apontou para o corredor. — Vamos? Imagino que você saiba onde fica a cozinha.
Depois da sua inspeção desta tarde, já deve saber até mesmo onde guardo os meus
apetrechos de pesca.
Emily percebeu que ele estava se divertindo à sua custa. Ergueu a cabeça com altivez
e saiu do quarto pisando duro.
À medida que avançavam pelo interior da casa, Kyle ia acendendo as luzes. Olhando
ao redor, Emily reviveu a sensação de aconchego e bem-estar que a dominara quando
estivera ali à tarde. A casa era ampla e confortável. Tapetes rústicos estavam espalhados

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pelo chão de madeira polida. Enormes portas envidraçadas davam para o jardim e,
durante o dia, tornavam as salas claras e bem arejadas. A decoração misturava móveis de
linhas modernas e peças em laça, de origem chinesa, criando um efeito
surpreendentemente harmônico.
Quando entraram na cozinha, Kyle abriu a geladeira.
— Nós, os habitantes das ilhas, nos orgulhamos da nossa hospitalidade. — Inclinou-
se, examinando o conteúdo das prateleiras.— Vejamos o que temos aqui: frios,
hambúrguer, frutas, frango. . . Que tal uma omelete? Ou um filé? Se preferir um prato
mais sofisticado, posso acordar Kim Sung e. . .
— Pare, por favor — interrompeu-o Emily, sentindo o estômago roncar e a boca
encher-se de água. Mas não pretendia dar o braço a torcer. — Não estou com fome.
Queria apenas arrumar um jeito de sair do seu quarto.
Pela expressão divertida dele, compreendeu que só conseguira piorar as coisas.
— Você estava assim tão ansiosa para fugir de mim? Mais uma vez, ela sentiu as
faces arderem. "Droga! Uma
pessoa na minha profissão não pode ficar vermelha por qualquer bobagem", pensou,
contrariada consigo mesma. Aquela noite estava se transformando num verdadeiro
desastre. Kyle nunca a levaria a sério como investigadora particular se continuasse a se
comportar como uma perfeita idiota.
Fez um último esforço para manter a conversa num nível profissional. Afinal, estava ali
a serviço.
— Sr. Spencer, será que podemos voltar ao assunto que me trouxe aqui?
— Como você quiser. Depois de tudo o que passamos juntos, não acha que seria mais
natural se me chamasse de Kyle?
— Está bem. . . Kyle — concordou com relutância.
Ele sorriu, satisfeito. Emily quase podia vê-lo marcar mais um ponto no placar invisível
daquela disputa ridícula que estavam travando.
— Que tal alguma coisa para beber? — sugeriu Kyle. — Ou a sede era apenas outra
desculpa?
— Não, não era — assegurou Emily, ignorando o tom irônico que ele adotara. — Fiz
uma boa caminhada para chegar até aqui, e a minha garganta está seca.
Kyle ofereceu-lhe ponche de frutas, uma das especialidades de Kim Sung. Com. as
mãos nos bolsos do robe, observou-a atentamente, enquanto ela bebia o ponche, quase
que de um gole só.
— Mais um pouco? :— perguntou, quando ela colocou o copo sobre o balcão da
cozinha.
— Não, obrigada. É tarde e preciso ir embora.
Ele apoiou uma das mãos no balcão, ficando perigosamente próximo dela.
— Já? Você não disse que precisávamos conversar sobre o que a trouxe aqui?
Falava com naturalidade agora, e em nada lembrava . o homem entre agressivo e
irônico de antes. Como numa alucinação, Emily recordou o momento em que ele colocara
o colar em seu pescoço, e a beijara com tanta delicadeza.
— É melhor deixarmos para amanhã — murmurou, sem muita convicção, enquanto ele
apoiava a outra mão no balcão, cercando-a. — Estou cansada demais. "Se ele me
beijar..."
— Movendo-se com incrível agilidade, passou por debaixo do braço dele e alcançou a
porta.
— Você é bem rápida, Emily Summers — Kyle comentou, rindo.
"O que estou fazendo?", perguntou-se Emily. "Fugindo?" A mão imobilizou-se no trinco,
e ela se voltou para encará-lo.
— Talvez você ache tudo isso muito divertido, mas seria mais prudente pensar melhor
na razão de minha presença aqui. Qualquer um pode entrar nesta casa, e isso inclui a

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pessoa que lhe escreveu aquelas cartas. No seu lugar, eu não sentiria vontade de rir.
— Um ponto para você — afirmou, sem perder o bom humor. — Vai voltar amanhã,
Emily? — perguntou, o olhar prendendo o dela durante um longo instante.
— Não. A minha tarefa está concluída. Daqui para a frente, cabe a você decidir o que
fazer. Adeus, Kyle. — Abriu a porta, mas, antes de sair, olhou novamente para ele e
acrescentou: — Tenha cuidado.
Já havia alcançado o gramado, quando a voz dele a deteve:
— Você está de carro? Eu posso lhe dar uma carona.
— Não é preciso, obrigada — gritou em resposta, e correu na direção do portão.
Quando chegou ao hotel, Emily mal conseguia manter os olhos abertos. Sentia-se
esgotada física e emocionalmente. Sentou-se na cama e jogou longe os sapatos. Que dia!
Pelo menos, sua missão estava cumprida, e não precisaria defrontar-se outra vez com
Kyle Spencer. Graças a Deus, tivera o bom senso de fugir daquela casa, antes que e
absurda atração que sentia por ele a levasse por um caminho perigoso, que não estava
disposta a percorrer novamente. Seu casamento com Teffery Summers havia durado
apenas um ano, mas fora o suficiente. Emily saíra tão machucada daquele
relacionamento que havia jurado jamais tentar de novo: E não estava disposta a mudar de
idéia. Muito menos por causa de Kyle Spencer.
Estendeu a mão para o telefone e segundos depois ouviu a voz da recepcionista do
hotel. Reprimindo um bocejo, Emily pediu-lhe que transferisse sua reserva no vôo do
meio-dia para o das seis horas da manhã. Estava ansiosa para voltar a Los Angeles.
Consultou o relógio e viu que já eram quatro horas. Não teria tempo para dormir,
constatou, desanimada. Temendo não resistir ao cansaço, saiu da cama e sentou-se
numa poltrona. Com o telefone no colo, discou o número da casa de Wally Forrester.
Passava das seis em Los Angeles, e ela sabia que seu chefe ainda devia estar dormindo.
Mas, se deixasse para ligar do aeroporto, talvez não o encontrasse mais.
Só depois do décimo toque, Wally atendeu:
— Alô...
— Wally? É Emily. Eu acordei você? — perguntou, num tom inocente.
— Emily? É a segunda vez que interrompem o meu sono, esta madrugada. Você sabe
que horas são?
— Hora de voltar para casa — respondeu com bom humor. — Minha missão está
concluída e eu estou pronta para partir.
— Espere um pouco. — A voz de Wally soou com mais vivacidade. — Você está
pronta para o quê?
— Partir. Voar para casa. Tenho reserva no vôo das seis horas para Los Angeles.
— Cancele.
— Como assim? Minha passagem < estava marcada para o meio-dia, lembra-se? Que
diferença faz, se antecipar a minha volta em algumas horas?
— Houve uma pequena mudança de planos — explicou Wally. — Emily, o que me diz
de bancar o guarda-costas durante alguns dias?
— Você está louco?
— Nenhuma consideração especial pelo fato de você ser mulher. Foi o que me pediu
quando a contratei, certo?
Dois homens divertindo-se à sua custa numa mesma noite era demais.
— Agora escute aqui, Wally. . .
— Calma, Emily. Não se trata exatamente de ser um guarda-costas. Terá apenas que
acompanhar todos os passos de uma certa pessoa e ficar de olhos bem abertos. Você fez
um trabalho tão bom, esta noite, que Clarinda.. .
— Clarinda? Clarinda Barr? E como você sabe que eu fiz um bom trabalho?
— A própria Clarinda me contou. Ela e você parecem decididas a não me deixar
dormir, esta noite.

Projeto Revisoras 10
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
— Ela também telefonou para você? Por quê?
— Para me dizer que você fez um trabalho fantástico, mas que o sobrinho continua
sendo teimoso. Nós vamos ter que ficar de olho nele, pelo menos por alguns dias. Assim
sendo, quero que cancele a sua reserva, arrume a mala e volte para lá. Depois, então,
eu...
— Um momento — interrompeu-o Emily, começando a entrar em pânico. — Voltar
para onde? — perguntou, embora não tivesse certeza de querer ouvir a resposta.
— Para a casa de Kyle Spencer — explicou Wally com paciência. — Clarinda já
providenciou tudo para que você passe alguns dias lá. .

CAPÍTULO II

— Emily? Você está me ouvindo? — perguntou Wally diante do prolongado silêncio do


outro lado da linha.
Aquela inesperada mudança de planos deixara Emily atordoada, e, durante alguns
segundos, ela não soube o que dizer. Voltar para a casa de Kyle Spencer? Wally devia
estar brincando.
— Não posso, Wally — falou finalmente. — Não se esqueça do caso Murchinson. Eu
mal comecei as investigações e.. .
— Já designei Mareei para substituí-la.
— Mas eu ainda não concluí os relatórios para a Intex — insistiu. — Há uma tonelada
de papéis que preciso...
— Isso pode esperar. — O tom decidido de Wally não deixava "dúvidas de que ele não
aceitaria desculpas. Emily teria que pegar ou largar aquele caso. E, se ficasse com a
segunda opção, não lhe restariam muitas outras alternativa na Forrester Investigações. —
Você é a pessoa certa para esse trabalho. Além disso, a nossa cliente não quer outro
investigador. Ela exige que você continue no caso.
— Mas, Wally...
— O que há, Emily? — Wally já estava perdendo a paciência. — Por acaso aconteceu
alguma coisa que você não me contou?
— Não! — replicou Emily com veemência. Não iria jogar fora sua carreira apenas
porque Kyle Spencer a fazia sentir-se como uma colegial. — Não aconteceu nada. Só
estou um pouco cansada e ansiosa de voltar para casa. Além disso, tinha alguns planos
para o fim de semana.
— Segundo Clarinda, Spencer pretende voltar a Los Angeles na quinta-feira. Como vê,
você não vai precisar cancelar o seu programa para o fim de semana. Talvez eu até lhe
dê folga na sexta. Agora durma um pouco e me telefone assim que estiver instalada na
casa de Spencer.
Depois de pedir à recepcionista que cancelasse a reserva e a acordasse às dez horas,
Emily tirou o macacão, jogou-o no chão e desabou sobre a cama. Wally estava certo; ficar
de olho em Kyle Spencer por alguns dias era um trabalho como outro qualquer. Desde
que ela encarasse a coisa dessa forma e se comportasse como uma profissional, tudo
terminaria bem.
O ruído insistente do telefone arrancou Emily de seu sono. Resmungou uma resposta
para o bom-dia da recepcionista e mergulhou o rosto no travesseiro outra vez, a mente
recusando-se a voltar à realidade, presa ainda a fragmentos de um sonho.
O rosto de Kyle. . . uma sombra movendo-se na direção da cama... e, então, o
estampido de um tiro.
Emily sentou-se, olhos arregalados agora, a cena repetindo-se diante dela como um
flashback.
Fora apenas um pesadelo, mas não um daqueles que nos parecem absurdos quando

Projeto Revisoras 11
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acordamos. Lembrando-se do bilhete que Clarinda lhe mostrara no escritório de Wally,
Emily estremeceu involuntariamente. A hipótese de que alguém pudesse atentar contra a
vida de Kyle estava longe de ser improvável. "Você vai levar o seu", dizia o bilhete.
Durante alguns minutos, Emily continuou sentada. Apenas cinco palavras, porém mais
sinistras do que uma página repleta de ameaças. "Fique de olhos abertos", recomendara
Wally. E ela se esforçara para seguir as instruções do chefe. Mas não teria mesmo
cometido nenhuma falha no aeroporto de Los Angeles? E se alguém tivesse seguido Kyle
sem que ela notasse?
Ora, por que estava tão insegura? Irritada consigo mesma, levantou-se e entrou no
banheiro. Ninguém seguira Kyle no dia anterior. Talvez a Sra. Barr estivesse se
preocupando à toa e a coisa toda não passasse de uma brincadeira de mau gosto. Em
noventa e nove por cento das vezes, casos como aquele não davam em nada. Obra de
um maluco, fora como Kyle definira o bilhete.
Kyle... Bastava pensar nele para que seus pensamentos ficassem confusos e o pulso
se acelerasse. Precisava tomar cuidado, caso contrário acabaria perdendo seu senso
profissional. Se já não o havia perdido, refletiu, desanimada.
Admitia que ele a atraíra desde o momento em que o avistara no aeroporto. Afinal, não
era uma adolescente inexperiente, e isso já lhe acontecera outras vezes, após o divórcio.
O que mais a preocupava era a certeza de que Kyle também não ficara indiferente.
Teria que encontrar uma forma de lidar com isso, ponderou. Abriu a torneira do
chuveiro, deixando que a água fria caísse sobre o corpo. Correr riscos fazia parte de seu
trabalho, e ela jamais recuara diante de uma situação perigosa. Além disso, seria apenas
por alguns dias. O que poderia acontecer em tão pouco tempo? Nada, garantiu a si
mesma, esfregando os cabelos com energia.
Pelo menos, havia um saldo positivo em tudo aquilo: Wally lhe daria folga na sexta-
feira. Seria ótimo descansar um pouco, antes do fim de semana agitado que teria pela
frente.
Havia prometido ao pai e à madrasta que ficaria com as crianças para que os dois
pudessem passar o fim de semana fora. Sorriu, ao pensar nos "diabinhos" que estariam
sob a sua
responsabilidade durante dois dias: sua meia-irmã, Jenny, que estava com cinco anos,
e os filhos do primeiro casamento de Evelyn, três garotos de oito, nove e dez anos.
Decidiu ligar para a madrasta e confirmar que estaria em Los Angeles no fim de
semana. Evelyn atendeu depois do sexto toque, parecendo um tanto ofegante.
— Pensei que você não estivesse em casa, Evelyn.
— Desculpe a demora para atender, querida. Eu estava no banheiro, dando o terceiro
banho em Jenny.
— Terceiro banho? — espantou-se Emily.
— Jenny encontrou o estojo de tintas dos meninos e decidiu pintar a parede. — Deu
um profundo suspiro antes de continuar. — Gostaria de não ter saído da cama hoje.
Emily não conseguiu conter o riso. Sua irmã era uma menina irrequieta e cheia de vida,
sempre envolvida em alguma travessura.
— Ânimo, Evelyn. Faltam poucos dias para que você tenha um merecido descanso.
— Estou contando as horas — brincou a madrasta. — Tudo bem com você?
— Tudo. Liguei apenas para dizer que ainda estou em Honolulu.
— Acha que estará de volta antes do final da semana? Eu não me importo de adiar a
viagem, mas você sabe como seu pai está ansioso.
— Não se preocupe, eu estarei aí. Inclusive, Wally me deu folga na sexta-feira. Você e
papai podem partir assim que deixarem as crianças na escola. O resto fica por minha
conta.
— Você é maravilhosa, Emily. E corajosa também — acrescentou em tom brincalhão.
— Você não sabe o que a espera.

Projeto Revisoras 12
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— Se eu conseguir atravessar os próximos dias aqui, então serei capaz de enfrentar
qualquer coisa.
— Algum problema? — perguntou Evelyn, ao reparar na tensão na voz da enteada.
Emily fechou os olhos e desejou estar sentada na confortável
e acolhedora sala de estar de sua madrasta, tomando uma xícara de chá e contando-
lhe tudo sobre Kyle Spencer. O assunto era longo e complexo demais para ser discutido
por telefone. Além disso, podia distinguir claramente os gritinhos de Jenny do outro lado
da linha e a algazarra que ela estava fazendo na banheira.
— Emily? — insistiu Evelyn.
— Não é nada — assegurou, sem muita convicção. — É melhor você ir cuidar de
Jenny antes que o banheiro fique inundado. Só mais uma coisa: poderia pedir à Sra.
Pazic que dê comida aos gatos enquanto eu estiver fora?
— É claro que sim. Até a volta, querida.
Quando desligou, Emily sentiu o estômago roncar. Só então deu-se conta de que não
comia nada há muitas horas. Se arrumasse suas coisas rápido, ainda teria tempo para
uma xícara de café e um croissant, antes de voltar para a casa de Kyle.
Colocou a valise sobre a cama e começou a tirar as roupas do armário. Como havia
planejado ficar apenas dois dias em Honolulu, não levara muita coisa: dois shorts de
náilon, uma camiseta, um vestido de Unho, o conjunto que usara na viagem, um maio...
Com displicência, ia jogando as peças dentro da mala. Por fim, só restou dentro do
guarda-roupa o vestido preto de seda, uma peça bem pouco adequada para uma viagem
como aquela. Ainda não sabia por que decidira trazê-lo. Afinal, estava ali a trabalho e não
havia a mais remota possibilidade de que participasse de alguma festa.
Depois de alguns instantes de reflexão, decidiu vestir o conjunto de saia e blazer, de
linho, e uma blusa branca. Talvez não fosse a roupa ideal para o clima quente do Havaí,
mas conviria perfeitamente ao seu propósito de dar um tom profissional ao seu
relacionamento com Kyle Spencer.
Vestiu-se e prendeu os cabelos, fazendo um coque na altura da nuca. Puxou alguns
fios sobre a testa, formando uma franja rala, que lhe dava um aspecto mais jovial, sem
comprometer a imagem de austeridade e eficiência com que desejava aparecer diante de
Kyle.
Na portaria, entregou a chave de seu quarto e pagou a conta com o cartão de crédito.
Já estava saindo, quando a voz da recepcionista a deteve:
— Srta. Summers, um momento, por favor. Está esquecendo o seu colar. Eu vou
buscá-lo. — Antes que Emily dissesse qualquer coisa, a moça desapareceu por uma porta
que dava para a cozinha. Quando voltou, trazia o colar de pétalas brancas
cuidadosamente embalado em um saco plástico. — Aqui está — falou, com um sorriso. —
As pétalas não perderam o viço.
O primeiro impulso de Emily foi jogar o colar dentro da cesta de papéis que havia ao
lado do balcão da recepção. Reprimiu-o, no entanto, pois sabia que seria um gesto
indelicado, depois do trabalho que a moça tivera.
— Obrigada — murmurou, forçando um sorriso. — Você foi muito gentil.
Enquanto tomava café, o delicado aroma das pétalas sobre o seu colo espalhou-se
pelo ar, trazendo-lhe à mente a lembrança daquele momento no aeroporto: o colar ao
redor do pescoço acariciando-lhe a pele... o rosto de Kyle bem próximo do seu... o contato
aveludado dos lábios dele.. .
Mas o que estava acontecendo com ela, afinal? Aquelas divagações românticas eram
totalmente sem propósito e acabariam por fazê-la perder a objetividade e a frieza, tão
necessárias na profissão dela. Num gesto irritado, jogou o saco plástico na cadeira ao
lado. Na primeira oportunidade, trataria de se livrar daquele colar detestável.
Kyle mergulhou na piscina, a água fria provocando um choque no corpo atlético,
aquecido pelo sol forte do Havaí. Com braçadas cadenciadas e vigorosas, ia de uma

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borda à outra, cruzando várias vezes a piscina em toda a sua extensão. À medida que os
músculos trabalhavam, sentia a tensão diminuir.
Há quanto tempo não se dava ao luxo de fugir do escritório! Depois de vários
adiamentos, rendera-se à evidência de que precisava de um pouco de descanso.
Contudo, mesmo distante, as preocupações com o trabalho não lhe davam trégua. Havia
dado instruções expressas a Noel para apresentar-lhe um relatório por telefone todas as
manhãs. E, caso surgisse alguma emergência, deveria telefonar-lhe a qualquer hora do
dia ou da no te.
Com um movimento ágil, ergueu o corpo e sentou-se na beira da piscina. Suas
preocupações não tinham fundamento, ponderou. Antes de viajar, deixara tudo
providenciado para a reunião de diretoria na sexta-feira. O melhor que tinha a fazer era
afastar os problemas do escritório de sua mente e tentar pensar em outras coisas, em
outras pessoas. Em outra pessoa...
Emily Summers. Que mulher! Corajosa, decidida e muito, muito atraente. Lembrou-se
de quando a revistara, na noite anterior, e uma vontade irrefreável de desvendar os
segredos daquele corpo esbelto e firme invadiu-o.
Fantasias eróticas haviam cruzado a mente dele, enquanto a via atravessar o jardim à
luz do luar. Precisara usar de toda a sua força de vontade para não correr atrás dela.
.Outras mulheres haviam passado pela vida de Kyle, depois que se divorciara de
Susan, más nenhuma instigara o desejo dele de uma forma tão avassaladora.
Lembrou-se do que Susan lhe havia dito certa vez, numa mistura de admiração e
contrariedade:
— Quando você quer uma coisa, Kyle, é capaz de usar de todos os meios para
consegui-la.
Era verdade. E ele queria Emily Summers. Mergulhou outra vez e, em poucos
segundos, alcançou o outro lado da piscina. Tinha a estranha sensação de que conquistá-
la representaria ura verdadeiro desafio. Melhor, disse para si mesmo. Nada poderia ser
mais estimulante do que um desafio.
Era a terceira vez que Emily se dirigia à casa de Kyle Spencer. Como não
precisasse mais consultar o mapa, podia distrair-se admirando a paisagem entre Honolulu
e Makapuu. À medida que a estrada galgava os rochedos, Emily podia avistar as águas
do Pacífico, de nuanças que iam do turquesa ao anil. Era difícil resistir à tentação de tirar
aquele incômodo conjunto de linho e ir ao encontro das ondas espumantes que se
quebravam nas praias lá embaixo.
Deu um profundo suspiro e pisou com mais força no acelerador. Tinha um trabalho
difícil pela frente, e era melhor que se concentrasse nele.
Quando avistou a casa de Kyle, sentiu um aperto na boca do estômago. Tentando
dominar aquele pânico absurdo que a invadira, apertou a campainha. Pelo interfone,
reconheceu a voz de Kim Sung. O portão era acionado através de um mecanismo
eletrônico instalado no interior da casa, e abriu-se suavemente para dar passagem a ela.
O mecanismo do portão oferecia uma segurança ilusória, pensou Emily. O mesmo
acontecia com os muros que cercavam a casa. Não representariam obstáculos
intransponíveis para uma pessoa determinada a entrar. Seria esse o caso do autor dos
bilhetes "Você vai levar o seu"?
A simples lembrança daquelas palavras trouxe-lhe uma sensação estranha, como se
dedos frios deslizassem lentamente ao redor de seu pescoço.
"Francamente, Emily Summers! Desde quando você se tornou tão impressionável?",
recriminou-se.
Kim Sung a esperava diante da porta. Era magro, uns quatro centímetros mais baixo do
que Emily, olhos escuros e vivos.
— Bom dia, Srta. Summers. — Deu-lhe passagem e seguiu-a até o hall. Uma deliciosa
combinação de aromas impregnava o ar, aguçando o apetite de Emily. — Deixe-me levar

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a sua mala.
— Pode deixar, Kim. Eu mesmo cuidarei da bagagem da Srta. Summers.
Emily voltou-se, ao ouvir a voz de Kyle. Com certeza, ele vinha da piscina, imaginou.
Usava um short de náilon azul-marinho, e havia uma toalha ao redor de seu pescoço.
Comparada àquele traje sumário, a roupa dela parecia ainda mais quente e inadequada.
Kyle observou-a longamente, e era evidente que estava pensando a mesma coisa.
— Não se preocupe, eu... — começou, mas Kyle já havia atravessado a sala e
segurado a mala, deixando-a apenas com o saco plástico nas mãos.
Por que havia trazido aquela coisa estúpida? Sentiu as faces pegarem fogo, diante do
olhar indagador dele.
— Talvez seja melhor que Kim Sung coloque esse colar num lugar mais fresco —
sugeriu Kyle. —i Você cuidou muito bem dele. Até parece que foi comprado agora.
Emily mordeu o lábio, sem saber o que dizer.
Seria ridículo contar uma longa história sobre a gentileza da recepcionista do hotel. De
qualquer forma, Kyle não acreditaria. Seria mais estimulante para o ego dele julgar que
ela cuidara daquele presente com todo o carinho. Felizmente, a pronta intervenção de
Kim Sung livrou-a do embaraço de ter ficado vermelha e muda diante da provocação de
Kyle.
— Com licença, Srta. Summers. — Delicadamente, o empregado tirou o colar das
mãos de Emily. — O almoço estará pronto em dez minutos — anunciou, antes de
desaparecer pela porta da cozinha.
— Agora podemos discutir sobre as suas acomodações — falou Kyle, com uma ponta
de ironia. — Ainda não decidi em que quarto você vai ficar. Da forma como leva o seu
trabalho a sério, imaginei que talvez você preferisse dormir diante da porta do meu. Ou,
quem sabe, aos pés da minha cama.
Emily contou até dez antes de retrucar:
— Acho que o quarto do fundo do corredor será perfeito — declarou com frieza,
recorrendo ao seu conhecimento sobre a disposição dos cômodos da casa. — Mas, antes
de mais nada, precisamos ter uma conversa.
— Depois do almoço. — Kyle atravessou as salas, e Emily foi obrigada quase a correr
para acompanhá-lo. — Isto é, se você ainda não almoçou. — Abriu a porta do quarto que
ela escolhera e deixou-a entrar primeiro.
A simples alusão ao almoço aumentou o vazio no estômago de Emily. O café e o
croissant haviam apenas amenizado seu apetite, e o aroma que vinha da cozinha
aguçava-o.
— Está certo — concordou. — Podemos conversar após o almoço.
— Então encontre-me daqui a cinco minutos, à beira da piscina. Com este calor, será
bem mais agradável almoçarmos ao ar livre. — Colocou a mala sobre a cama e foi para a
porta. —E, se você for inteligente como imagino, vai trocar essas roupas por alguma coisa
mais leve — sugeriu, antes de sair.
Quando a porta se fechou, Emily sentou-se na cama e bateu com o punho cerrado na
mala. Droga! Era obrigada a reconhecer que ele estava certo. Ninguém usava roupas
como aquelas no Havaí. Fora uma grande tolice tentar impressioná-lo com uma aparência
profissional. Quase com raiva, tirou o conjunto de linho e vestiu um short e uma camiseta.
Kyle já estava sentado, quando Emily entrou na varanda. A mesa redonda, coberta com
uma toalha branca, ficava a poucos metros da piscina. As cadeiras eram de vime branco e
estofadas num delicado tom de amarelo. Ali, mais do que em qualquer outro recanto da
casa, ficava evidenciado o gosto de Kyle por plantas. Samambaias-de-metro pendiam do
teto e quase, tocavam o chão; vasos de diversos tipos estavam espalhados entre a
mobília, criando um efeito bonito e uma atmosfera agradável.
Mal Emily havia ocupado o lugar diante de Kyle, Kim Sung entrou com a comida: uma
salada bem colorida, camarões e filés de peixe. Sobre à mesa, já havia uma bandeja com

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frutas tropicais. Depois de lhes servir chá gelado, o empregado pediu licença e se retirou.
Enquanto se servia, Emily tentava encontrar alguma coisa para dizer. Ele não queria
falar sobre o motivo da presença dela ali. O que restava então? O clima? A paisagem?
A atitude de Kyle não ajudava a quebrar o silêncio que começava a constrangê-la.
Comia em silêncio, observando-a atentamente, o olhar entre condescendente e divertido.
— Não tivemos tempo para nos conhecer melhor, ontem à noite — comentou Kyle,
servindo-se de uma fatia de abacaxi. — Tudo o que sei a seu respeito é que tem muita
habilidade para arrombar fechaduras. Fale-me sobre você, Emily. É casada? Noiva?
Existe algum homem na sua vida?
— Sou divorciada — respondeu, contrariada com o rumo que a conversa estava
tomando.
— Então nós temos pelo menos uma coisa em comum. Também sou divorciado.
— Eu sei.
Ele ergue uma das sobrancelhas, o que tornou ainda mais cínica sua expressão.
— Como pude me esquecer? Provavelmente você tem um dossiê completo a meu
respeito.
O apetite de Emily desapareceu como por encanto. Colocou os talheres sobre o prato e
enfrentou o olhar dele.
— Acho que já é hora de colocarmos as cartas na mesa, caso contrário, minha
permanência aqui será perda de tempo. Sua tia me contou algumas coisas sobre você,
mas isso não significa que eu saiba a história da sua vida — explicou, permitindo-se um
sorriso sarcástico. — Sei muito bem que você não quer que eu fique e. . .
— Isso não é verdade.
— O quê? — perguntou, confusa.
— Eu quero que você fique. O que não quero é um guarda-costas.
— Não sou um guarda-costas. Estou aqui apenas para. .. — para o que mesmo? —
para investigar a origem dos bilhetes. Agora, sê a minha presença o incomoda tanto, por
que você não vetou o plano de sua tia?
— Tia Clarinda é inflexível. — Pegou uma manga e começou a descascá-la. — Se eu
não permitisse que você ficasse, ela tomaria o primeiro avião e viria montar guarda
pessoalmente.
— Então, entre duas opções desagradáveis, você escolheu a mais aceitável?
— E a mais bonita também. — Sorriu e enterrou os dentes na manga. O caldo
escorreu-lhe pelas mãos, salpicando o prato de gotas amarelas.
Emily acompanhava cada movimento daqueles lábios, que sugavam a polpa da fruta
com evidente prazer.
— Não quer uma? — ofereceu Kyle. Subitamente, dominou-o um desejo quase
irrefreável de provar o gosto daquela boca, de saborear-lhe a doçura, deliberada e
vagarosamente como fizera com a manga.
— Não! — respondeu Emily, com exagerada veemência. — Não, obrigada —
acrescentou num tom mais suave. — Serviu-se de um pouco mais de chá e procurou
evitar aqueles olhos que a perturbavam tanto. — Olhe — começou, um tanto relutante —,
eu não pedi para cuidar deste caso. Para ser franca, nem ao menos me julgo qualificada
para ele. — Ergueu os olhos, onde se via um brilho de desafio. — Mas já que estou aqui,
pretendo fazer um bom trabalho. E espero que você não me atrapalhe.
Lentamente, Kyle colocou a fruta no prato. O momento recomendava cautela,
ponderou, limpando as mãos no guardanapo. Uma palavra mal empregada, e ela não
hesitaria em ir embora.
— Acho que não tenho facilitado as coisas para você, Emily. Espero que entenda que
é difícil, para um homem, aceitar a proteção de uma mulher. — Deu um sorriso cativante.
— Vamos passar uma borracha em tudo isso e começar outra vez?
Emily olhou-o um tanto desconfiada, porém acabou cedendo ao fascínio daquele

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sorriso.
— É uma proposta sensata...
— Ótimo. Agora que fumamos o cachimbo da paz, o que me diz de nos divertirmos um
pouco? Eu tenho equipamento de mergulho e. ..
Kim Sung entrou na varanda e aproximou-se da mesa.
— Telefone, Sr, Spencer. É a Srta. Harrington.
— A minha secretária — explicou Kyle, enquanto se levantava. — Com licença, Emily.
Sozinha, Emily reclinou-se na cadeira, o olhar perdido no oceano. Até que não seria má
idéia, refletiu. Desde que descera do avião, no dia anterior, sentira-se tentada a dar um
mergulho e. . . Santo Deus, estaria ficando louca? Wally aguardava um telefonema dela
antes do final da tarde. Ele queria um relatório completo sobre as medidas que poderiam
ser tomadas para aumentar a segurança da casa. Era melhor entrar, pegar um bloco, uma
caneta e começar a inspeção.
Quando voltou, Kyle a esperava na varanda.
— Pensei que nós fôssemos mergulhar — falou, ao ver que ela ainda estava de short.
— Você não trouxe um maio?
— Não posso ir com você. Por acaso se esqueceu de que é o único em férias por
aqui? — Em poucas palavras, explicou-lhe a inspeção que precisaria fazer.
— Eu não pedi isso — protestou Kyle.
— É uma medida de rotina, no nosso trabalho. Além disso, nossa cliente é a sua tia. —
á era tempo de colocar as coisas em seus devidos lugares.
— E você fará a inspeção, quer eu queira, quer não, certo? — arriscou, cruzando os
braços e envolvendo-a num olhar de zombaria. — Neste caso, vou acompanhá-la.
— Não é preciso, eu...
— Eu sei que você conhece muito bem a casa, mas, ainda assim, faço questão. Você
se incomoda?
Emily não conseguiu dizer nada, e limitou-se a balançar a cabeça. A casa era dele e
seria absurdo não concordar.
Mais absurda ainda era a perturbação que sentia ao lado aquele homem. O que havia
nele que a deixava tímida como uma adolescente e ao mesmo tempo despertada nela
sensações | próprias de uma mulher madura?
— Este lugar não oferece a menor segurança — afirmou, tentando concentrar a mente
no trabalho. — Qualquer um pode entrar aqui. È preciso colocar mais obstáculos que...
— Obstáculos? — interrompeu-a Kyle. A brisa soprou uma mecha dos cabelos de
Emily sobre a testa, e ele a recolocou no lugar. — Uma pessoa decidida é capaz de
remover qualquer obstáculo — sussurrou.
O sexto sentido de Emily lhe dizia que ele não estava falando de ladrões. Deu alguns
passos, tentando aumentar a distância entre eles.
— Um sistema de alarme — falou, rabiscando algumas palavras no bloco. De repente
a varanda pareceu-lhe pequena demais para duas pessoas. Mesmo de costas, podia
sentir como ele estava próximo. Bastaria que ela se virasse e... — É... um sistema de
alarme seria uma ótima medida.
Depois de uma inspeção por toda a casa, Emily foi para o quarto. Precisava entrar em
contato com Wally antes que ele deixasse o escritório.
Agora, tinha a exata noção do que era necessário para tornar a casa mais segura. No
entanto, sabia que nada poderia ser feito sem a aprovação de Kyle. Ele a acompanhara
durante toda a vistoria e não protestara contra nenhuma das sugestões dela. Muito
educado, limitara-se a ouvir e a balançar a cabeça de quando em quando.
Porém, aquele silêncio não significava um consentimento. Uma voz impessoal
informou-a de que os circuitos para Los Angeles estavam ocupados. Emily deitou-se e
abraçou uma das almofadas que enfeitavam a cama. Como Kyle podia encarar com tão
pouco caso a própria segurança? Ele concordara com a presença dela na casa, mas era

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evidente que não a levava a sério. "Não quero um guarda-costas", havia dito. "Quero que
você fique." "Quero você", sussurrou a voz dele na mente de Emily.
Assustada, sentou-se na cama. Sabia que não estava fantasiando as coisas. A verdade
surgiu diante de seus olhos, transparente como cristal: desejava Kyle, e esse sentimento
era recíproco. Nervosa, tentou entrar em contato com Los Angeles e novamente foi
informada de que os circuitos estavam ocupados.
Droga! Precisava.falar com Wally e dizer-lhe que. .. Dizer o quê? Que sentia uma
terrível atração por Kyle e que, se não saísse daquela casa, acabaria irremediavelmente
apaixonada por ele?
Se Wally soubesse disso, não só a tiraria daquele caso como também lhe daria o
bilhete azul.
— Os circuitos estão ocupados — repetiu aquela voz fria e impessoal. — Tente mais
tarde, por favor.
Uma batida na porta, e a voz de Kyle soou do outro lado:
— Emily? Já falou com o seu chefe?
— Ainda não.
— Eu vou mergulhar, e, se não me engano, você está aqui para tomar conta de mim.
O oceano era um mundo verde, isolado e tranqüilo. Kyle tocou no ombro de Emily e
mostrou-lhe um cardume, uma orgia de cores contra a vegetação ondulante.
A máscara distorcia as feições de Kyle. Ele poderia ser uma criatura marinha,
movendo-se com elegância e agilidade, .como se a água fosse seu habitat natural.
Seus olhares se cruzaram, e Emily imaginou se ele também a estaria achando
estranha, diferente. Ali, nada parecia real. Havia algo de fantástico e misterioso, naquele
mundo submerso, que a amedrontava e fascinava ao mesmo tempo. O que quer que
fosse, porém, tinha um efeito surpreendentemente relaxante. Pela primeira vez, não se
sentia tensa ao lado de Kyle. Ambos eram seres alienígenas, naquele meio, e esse traço
comum criava um inesperado e reconfortante elo entre eles.
Kyle deu um tapinha no relógio à prova de água, e Emily | entendeu o sinal. Era hora
de voltar. Só se deu conta de como ; estava cansada quando subiram à tona. Na praia, ele
a ajudou a j tirar o equipamento e ofereceu-lhe uma toalha.
— Obrigada. — Passou a toalha pelos cabelos e, com um| movimento rápido, jogou-os
para trás. — Foi maravilhoso. Nunca senti nada igual.
— Mergulhar é mesmo uma experiência fascinante — Kyle concordou.
O Sol já começava a cair, no horizonte, e um vento frio soprava na praia. Emily
estremeceu. A magia daqueles momentos sob a água começava a se dissipar.
— Você está com. frio. — Kyle pegou outra toalha e envolveu o corpo de Emily. Estava
bem junto dela, e, mais do que o tecido felpudo, aquecia-a o calor do corpo dele.
As mãos de Kyle mantinham a toalha fechada sobre o peito de Emily. Era um contato
suave, mas ela intuiu que bastaria um sinal seu para provocar uma reação em cadeia.
Seria o suficiente aproximar-se alguns milímetros.
— Já é tarde. É melhor voltarmos — sugeriu, num fiapo de voz que mal reconheceu
como sua.
— Por que você está sempre fugindo? — perguntou Kyle, o rosto bem próximo do dela
agora.
— Eu.. . eu não estou fugindo — balbuciou. Fechar os olhos significaria um claro
convite para um beijo. Como eram atraentes aqueles lábios cheios, bem desenhados... —
Você já deve ter ouvido falar em ética. Eu não posso me envolver com um cliente.
— Não gosto de regras, mas... — Soltou-a e abaixou-se para recolher o equipamento.
— Vá em frente, Emily. Parece que você está com pressa.

CAPÍTULO III

Projeto Revisoras 18
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens

O exercício deixara Emily exausta. Ao sair do chuveiro, a cama pareceu-lhe mais


convidativa do que nunca. Quanto havia dormido na noite anterior? Cinco horas? Não era
de estranhar que mal conseguisse manter os olhos abertos.
Só meia hora, pensou, deitando-se sobre a colcha de cetim, macia e perfumada.
O corpo estava fatigado, mas os pensamentos sucediam-se com rapidez em sua
mente. Não havia tentado falar com Wally. Agora, era tarde demais para encontrá-lo no
escritório e muito, cedo para que ele já estivesse em casa. O que mais ela havia!
esquecido? Ah, Kim Sung. Precisava colocar o empregado á| par da situação e, junto com
ele, tomar algumas medidas urgentes para reforçar a segurança da casa.
Desanimada, cobriu a cabeça com o travesseiro. Comportara-se durante todo o dia
como se fosse uma turista em férias no Havaí e não fora capaz de cumprir a mais
elementar rotina de trabalho. A atração entre ela e Kyle, forte como uma corrente!
magnética, levava-a a agir como uma idiota. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê?
Tentar resistir não estava dando resultado.
Talvez fosse o momento de parar de remar contra a maré. Um caso com Kyle
certamente resolveria o problema de ser obrigada a ficar ao lado dele e trabalhar ao
mesmo tempo,
"Está delirando, Emily Summers?", perguntou-se, surpresa e assustada com o rumo de
seus pensamentos. Mal o conhecia, e nunca fora para a cama com estranhos.
Era verdade que havia saído com alguns homens, após o divórcio. Na maioria das
vezes, porém, a coisa não fora além de filmes de Pergman e jantares em restaurantes
bem freqüentados. Tudo muito agradável, seguro e. ... terrivelmente chato. Mas, ainda
assim, preferível ao relacionamento apaixonado e tempestuoso que tivera com Jeff.
Kyle acertara em cheio. "Por que está sempre fugindo, Emily?", ele havia perguntado.
Abraçou o travesseiro como uma criança em busca de proteção. Porque.. . porque
ninguém se deita nos trilhos à espera do trem. Não, já passara por isso uma vez e não
pretendia repetir a experiência.
Sentou-se na cama e passou as mãos pelos cabelos ainda úmidos. Já que não
conseguia dormir, seria melhor tentar fazer algo de útil. Vestiu-se, penteou os cabelos e
saiu à procura de Kim Sung.
Encontrou-o na sala de estar, ocupado em colocar algumas revistas no lugar. Usava
uma bermuda branca e camisa florida, bem de acordo com os padrões da ilha.
— Ah, Srta. Summers... — Levantou-se, sorridente, e aproximou-se dela. — Eu ia
mesmo procurá-la.
Emily percebeu que Kim Sung devia ser mais jovem do que ela havia imaginado a
princípio. O que mais lhe teria escapado?
— Estou de saída — continuou o empregado. — O Sr. Spencer vai levá-la para jantar
fora. Ele ainda está no banho, mas as reservas foram feitas só para as oito horas. —
Caminhou até a porta e, antes de sair, voltou-se e sorriu. — Espero que aproveite o
passeio em Kauai, amanhã.
Jantar fora? Kauai? Antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa, Kim Sung
desapareceu pela porta da cozinha. Já que ele estava de folga naquela noite, não seria
má idéia sair para jantar, refletiu com alívio. A última coisa que pretendia era ficar sozinha
na casa com Kyle. Não confiava nele. Nem em si mesma.
O relógio da sala bateu sete horas, e Emily correu para o quarto. Não poderia ir a lugar
algum, com aqueles cabelos molhados. Felizmente, nunca viajava sem o secador.
Dez minutos mais tarde, admirava, satisfeita, as mechas ruivas que caíam como uma
cortina sedosa até os ombros. Sem perder tempo, abriu o estojo de maquilagem.
Cuidadosamente, delineou os olhos com lápis, o que realçou sua tonalidade esverdeada.
Um pouco de rimei, uma leve camada de batom, e estaria pronta. O sol daquela tarde na
praia deixara-a com uma cor saudável, que dispensava o uso de blush.

Projeto Revisoras 19
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
Abriu a porta do guarda-roupa e examinou-o, desanimada. Sua única opção para
aquela noite era o vestido preto. Droga! Nada poderia ser pior do que viajar tão
desprevenida. Bem, pelo menos não perderia tempo decidindo o que vestir.
Até que valera a pena pagar uma fortuna por aquela roupa, concluiu, ao olhar-se no
espelho. O tecido" macio moldava-lhe o corpo, sugerindo, mais do que revelando, as
curvas perfeitas. O decote não era ousado, mas um tanto insinuante. Era obrigada a
reconhecer que aquela roupa a tornava incrivelmente feminina e sensual. Seria
impossível manter a conversa, durante o jantar, em assuntos gerais, inofensivos. Aparecer
diante de Kyle vestida assim seria o mesmo que agitar um pano vermelho diante de um
touro.
Estava prestes a tirá-lo, quando Kyle deu duas batidas na porta.
— Está vestida, Emily?
— Estou.
— Desta vez, você caprichou mesmo — ele comentou, envolvendo-a num olhar cheio
de admiração.
— Para falar a verdade, ainda não me decidi. — Quando conseguiria parar de corar
diante dele? — Este vestido é um
tanto. . . Bom, acho que vou sentir frio, se sair assim. Eu não trouxe nenhum agasalho.
— Tolice. A noite está quente. É melhor "nos apressarmos. Faltam vinte minutos para
as oito.
— Eu estou pronta. — Pegou a bolsa e saiu do quarto, Se trocasse de roupa agora,
ele desconfiaria do motivo, o que seria muito mais embaraçoso.
O Mercedes de Kyle rodava velozmente no asfalto. Nada como um carro conversível
numa noite tão agradável, pensou Emily. Disfarçadamente, olhou para trás. Poucos
carros. Nada suspeito. Aliviada, acomodou-se melhor no banco.
— Kim Sung mencionou qualquer coisa sobre uma viagem a Kauai — comentou em
tom casual.
— Vou visitar meus pais — explicou Kyle. — Depois que papai se aposentou, eles
decidiram morar lá. Se você não quiser ir.. .
— Não, é melhor que eu vá — apressou-se em dizer. Afinal, acompanhá-lo a todos os
lugares fazia parte do trabalho dela.
Olhou novamente para trás, e, dessa vez, Kyle surpreendeu-a.
— Estamos sendo seguidos? — perguntou. O sorriso de escárnio no canto dos lábios
desmentia a seriedade da voz.
— Não, a não ser que estejam usando mais de um carro para isso.
— Você realmente entende desse negócio?
— É tão difícil de acreditar?
— Não se ofenda, mas você não tem o tipo. Ser detetive foi o seu sonho desde a
infância?
— Investigadora particular — corrigiu-o Emily, ignorando a provocação. — E se quer
mesmo saber, acabei nessa profissão por acaso.
Falava a verdade. Depois do divórcio, pensara na possibilidade de voltar para a
universidade e concluir o curso de economia. Mas sentira-se desmotivada, incapaz de se
concentrar em Adam Smith ou nos gráficos Laffer. Havia decidido, então, arrumar um
emprego. Poucos dias depois, já trabalhava para uma companhia de seguros.
Com certeza, passara uma dúzia de vezes diante do edifício art deco, antes de reparar
na placa: "Escola Devore, Técnicas de Investigação Particular". Ainda assim, passaram-se
algumas semanas, antes que a idéia tomasse forma em sua mente. Tudo o que sabia
sobre o assunto resumia-se ao que vira no cinema e na televisão. Era difícil imaginar
Thomas Magnum freqüentando uma escola para se tornar um detetive. Que tipo de aulas
eles dariam?
Cada vez que passava diante do edifício, a placa atraía-lhe a atenção. Homens e

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mulheres de aparência comum entravam e saíam, algumas vezes carregando livros
debaixo do braço. Certo dia, ela tomou coragem e decidiu pedir informações.
A secretária assegurou-lhe que a profissão não era perigosa, mas cheia de emoções e
aventuras. O campo começava a se abrir para as mulheres, e os salários de um
investigador particular eram muito compensadores.
A idéia fascinou-a, e imediatamente ela compreendeu que não havia nascido para
trabalhar num escritório. Diante da perspectiva de fazer algo tão incomum, a rotina na
companhia de seguros pareceu-lhe mais enfadonha do que nunca. Um mundo repleto de
aventuras a esperava, e ela seria louca se lhe desse as costas.
Da Escola Devore à Forrester Investigações fora um pulo. E agora, lá estava ela no
Havaí.
— Eu entrei nesse meio por acidente — repetiu. — E acabei descobrindo o trabalho
certo para mim. — Sorriu e ergueu os ombros. — Não é tão arriscado como as pessoas
supõem. Pode até ser um pouco monótono, às vezes.
— Mas a noite de ontem não foi monótona, foi? — arriscou Kyle.
Emily esquivou-se de fazer qualquer comentário. Monotonia era uma palavra que não
combinava com Kyle Spencer. Pela primeira vez, desde que entrara para a Forrester
Investigações, sentia-se em perigo. A Escola Devore a preparara para todas as situações,
exceto enfrentar o magnetismo de um homem envolvente como o que estava ao seu lado.
Respirou aliviada ao ver a placa luminosa do restaurante. Pelo menos por algumas horas,
estaria segura.
Segurando-a pelo braço, Kyle conduziu-a por um caminho cercado de bambus, até a
entrada do restaurante. A casa era antiga, e o ambiente, elegante. Uma moça vestindo um
sarong foi ao encontro deles e levou-os a uma mesa próxima às janelas. Depois de lhes
entregar o menu, sorriu e se afastou.
Emily leu a lista de drinques exóticos e escolheu o coquetel da casa.
— Acho que você não vai gostar. Por que não tenta um mai tai? — sugeriu Kyle.
—- Eu agradeço a sugestão, mas vou ficar com o coquetel da casa mesmo. — Deixou
o olhar perambular pela sala. Quase todas as mesas estavam ocupadas. Não havia
nenhum rosto familiar, e ninguém prestava atenção em Kyle.
— Ainda bem que estamos de costas para a parede — comentou Kyle. Pegou uma
cenoura de um dos pratinhos de aperitivo e mordeu-a. — Assim poderemos notar
qualquer aproximação suspeita.
— Se eu estivesse no seu lugar, não sentiria vontade de fazer piadas — retrucou ela
secamente.
— Aquele bilhete foi apenas uma brincadeira de mau gosto. Um trote. Você nunca
levou trotes pelo telefone?
Os drinques chegaram, interrompendo a conversa. O de Emily tinha a aparência de um
ponche de frutas, mas o gosto. ..
— Bem que eu avisei... — comentou Kyle. — Pegou o copo, entregou-o a uma
garçonete que passava e pediu um mai tai.
A combinação de rum e suco de abacaxi era deliciosa.... e forte também. Na mesa ao
lado, um casal conversava baixinho, mãos entrelaçadas, alheio à agitação ao redor.
Recém-casados, deduziu Emily.
A garçonete aproximou-se, tirou os pratos de salada e serviu o mahimahi que Kyle
havia pedido.
— Como é, você acha que estamos livres de alguma emboscada? — perguntou ele
sublinhando a ironia da pergunta com um sorriso. Um dia de sol bastara para lhe dar uma
tonalidade bronzeada à pele.
— Por enquanto — afirmou Emily, tomando um gole do Chardonnay que ele escolhera
para acompanhar o jantar. Como as mãos dele eram grandes e fortes. . . Sem que
pudesse evitar, veio-lhe à mente a lembrança da noite anterior, quando aquelas mesmas

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mãos haviam revistado seu corpo à procura de uma arma. E, menos de vinte e quatro
horas depois, lá estava ela, jantando com o homem que a submetera a uma humilhação
tão grande. Sentiu o rosto quente e a garganta seca. Alcançou o copo de vinho, e só
então percebeu que já o esvaziara.
— Quer dizer que estamos seguros? — insistiu ele, enchendo o copo de Emily.
As chamas dos castiçais oscilavam, dando uma tonalidade mais profunda aos olhos de
Kyle.
— Talvez, enquanto estivermos neste salão, cercados de pessoas. — Sorriu,
desafiando-o com o olhar. — Mas no momento em que sairmos daqui... — A pausa foi
mais significativa que uma torrente de palavras. — Na sua situação, Kyle, segurança é
uma coisa muito relativa...
— Como tudo na vida, não? — Ergueu o copo e tomou um gole de vinho, sem desviar
o olhar do rosto dela.
Constrangida,. Emily deixou o seu passear pela sala. O casal da mesa ao lado parecia
totalmente esquecido da comida. O homem acariciava o rosto da esposa, e o gesto levou
a mente de Emily a uma noite em Half Moon Bay, três dias após o seu próprio casamento.
Nada de romantismo para ela e Jeff. Haviam comido numa lanchonete a fim de voltarem o
mais rápido possível para a cama macia de seu quarto no hotel. Ela ainda sei lembrava
do sabor dos lábios dele, da excitação que lhe despertava - aquele corpo forte,
bronzeado, de pêlos escuros que formavam pequenos caracóis no peito. . . Não, estava
confundindo as coisas. Jeff era loiro como ela, pele clara, o peito liso, quase sem pêlos.
"Deus", pensou angustiada. "Acho que bebi demais."
Ergueu os olhos e encontrou os de Kyle que a observavam atentamente. Corou, como
se ele tivesse o poder de adivinhar-lhe os pensamentos. Por que sempre tinha a
sensação de que ele podia ler seus pensamentos?
— Que tal se tomarmos o café em casa? — sugeriu Kyle, enquanto a garçonete tirava
os pratos. — E um licor — acrescentou. — É feito aqui na ilha mesmo, e tenho certeza de
que você nunca provou outro igual.
Fora do restaurante, Emily não se lembrou de verificar se alguém os seguia até p carro.
Era estranho como só agora reparava na Lua, redonda como se uma mão invisível
houvesse traçado sua circunferência com precisão. Uma brisa suave agitou-lhe os
cabelos e o vestido, colando o tecido ao corpo e revelando os contornos perfeitos das
pernas.
Kyle apoiou a mão na cintura dela enquanto caminhavam até o carro. Um gesto casual
que na mente de Emily„ adquiriu uma conotação de doce intimidade. O que havia nas
noites do Havaí que mexiam a tal ponto com as suas emoções? Era como se, de repente,
elas escapassem ao seu controle e adquirissem vida própria, povoando-lhe a mente de
fantasias tão românticas quanto eróticas.
"Você está bêbada", disse a si mesma. Ridículo! Ninguém ficaria bêbado com um
coquetel e dois copos de vinho. Endireitou o corpo no banco do carro e apertou as mãos,
as unhas enterrando-se na palma. Precisava colocar os pés no chão. "Fique de olhos
bem abertos", recomendara Wally. O aviso soou-lhe incrivelmente irônico. Naquele
momento, não temia o autor dos bilhetes, uma figura indefinida em sua mente, uma
ameaça cada vez mais distante; mais concreto e iminente era o perigo de sucumbir ao
fascínio do homem ao seu lado.
Respirou fundo e olhou para as mãos que seguravam o volante. Kyle dirigia
velozmente e com segurança. Assustou-se ao reparar como estavam próximos da casa
dele. A volta fora bem mais rápida. Talvez fosse impressão, ou talvez ele estivesse
mesmo com muita pressa de chegar.
Assim que o carro parou, Emily saiu, sem ao menos esperar que Kyle lhe abrisse ã
porta.
Haviam feito o percurso em silêncio, e agora, enquanto ele colocava a chave na

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fechadura, Emily sentia uma necessidade urgente de dizer alguma coisa, qualquer coisa,
de erguer entre eles uma barreira com palavras.
— Puxa, como estou cansada... — afirmou, atravessando a sala na direção do
corredor. — Também, não é para menos, dormi pouco mais de quatro horas, a noite
passada, e depois de todo o exercício desta tarde...
— Emily. — Kyle alcançou-lhe o pulso no momento em que ela abria a porta do quarto.
— Quer fazer o favor de ficar calada por um momento?
Puxou-a de encontro ao corpo e, sem lhe dar tempo de reagir, procurou-lhe a boca.
Emily tentou livrar-se, porém seus esforços foram inúteis. Kyle estreitou-a com mais força,
e ela não teve outra alternativa senão ficar rígida entre os braços dele, os lábios
comprimidos com firmeza.
Então Kyle afastou d rosto, apenas o tempo suficiente para que ela murmurasse:
— Pare... Solte-me ou...
Ele a beijou novamente, e,°dessa vez, os lábios dela estavam entreabertos e
vulneráveis. Uma onda de calor invadiu o corpo de Emily, quando a língua de Kyle
encontrou a sua, num duelo instigante ê sensual. Pouco a pouco, sua resistência foi
enfraquecendo. As sensações que o beijo despertava cresciam dentro dela, derrubando,
uma a uma, as barreiras que a razão tentava erguer. Era loucura... não podia envolver-se
com um cliente... não podia deixar que um homem entrasse novamente em sua vida...
Mas seria impossível ficar indiferente ao apelo apaixonado daqueles lábios, daquelas
mãos que exploravam as curvas do seu corpo sem a menor cerimônia.
Incapaz de resistir, rodeou o pescoço dele com os braços e correspondeu ao beijo com
uma sensualidade de que não se sabia capaz até então. Era o sinal que Kyle esperava.
As mãos dele pressionaram-lhe os quadris de encontro ao corpo, e Emily constatou que a
excitação que o dominava era tão intensa quanto a sua.
No instante seguinte, ele lutava com os botões do vestido. A ansiedade tornava-lhe os
dedos desajeitados, sem habilidade. Para o diabo os botões! Com um movimento brusco,
puxou o tecido. Um a um, os pequenos círculos de metal caíram no chão, e, segundos
depois, o vestido seguia o mesmo caminho.
Kyle não teve tantos problemas com a própria roupa. Zíperes eram bem mais práticos
que botões.
— Você é linda! — sussurrou. Acariciou-lhe os ombros, sentindo a maciez da pele.
Lentamente, suas mãos deslizaram pelo colo até alcançarem os seios, que se
enrijeceram àquele contato.
Emily gemeu baixinho, e aquele sinal de fragilidade aguçou nele o desejo de dominar,
de possuir. Como numa alucinação, Emily sentiu-se arrebatada do chão por dois braços
fortes, que, um segundo depois, colocavam-na com cuidado sobre os lençóis de cetim.
O telefone tocou, trazendo-a bruscamente de volta à realidade. O que estava fazendo?
Teria perdido todo e qualquer vestígio de bom senso?
— Pare, Kyle... —suplicou, procurando se afastar. — É melhor você atender.
— Esqueça... — Não permitiria que nada os interrompesse agora. Esperara muito por
aquele momento. Beijou-lhe os cabelos, o rosto, o pescoço...
Com um movimento ágil, Emily libertou-se .e alcançou o telefone.
— Residência do Sr; Spencer.
— Emily? — rugiu Wally Forrester. — É você?
Ela conhecia muito bem aquele tom irritado. Sentou-se na cama, subitamente
embaraçada com a própria nudez.
— Sim. . . sou eu — murmurou, cobrindo-se com uma ponta do lençol, como se o
chefe pudesse vê-la através do telefone. — Eu... Oi, Wally.
— Oi, Wally? É só isso que tem para me dizer? Onde diabo você esteve?
— O seu chefe? — perguntou Kyle, puxando o lençol. Emily tampou o bocal.
— Pare com isso! — ordenou com energia. — É o meu chefe e... Wally? — Kyle jogou

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o lençol para os pés da cama, impedindo-a de se cobrir outra vez. — Desculpe, eu tentei
ligar para você, mas os circuitos estavam ocupados. E aí nós fomos mergulhar e depois
jantar fora...
— Magnífico! E em meio a todo esse divertimento, você achou tempo para fazer o seu
trabalho? Eu aguardei a tarde toda um relatório completo sobre as condições de
segurança da casa. Por acaso você se esqueceu?
— Não, claro que não. Já lhe disse que tentei telefonar antes. — Deitado, o rosto
apoiado numa das mãos, Kyle acompanhava, divertido, as explicações de Emily. —
Escute, Wally, eu estava no chuveiro, quando você ligou. — Um sorriso irônico apareceu
nos lábios de Kyle. Cretino! — As minhas anotações estão na sala e...
— Ora, esqueça. Ao menos me diga se Kyle Spencer está inteiro, para que eu possa
me livrar de Clarinda Barr. Ela me ligou cinco vezes, esta tarde.
— Garanto que ele está — afirmou, lançando um rápido olhar para o homem deitado
na cama, tão à vontade como se estivesse vestido. Ela faria qualquer coisa para arrancar
aquele sorriso do rosto dele. — Wally, assim que eu pegar as minhas anotações, ligarei
para você e. . .
— Já é muito tarde — retrucou, mal-humorado. — E eu estou cansado. Mas amanhã
quero um relatório completo antes de sair de casa.
— Claro, eu.. . — começou, mas o clique do telefone cortou a frase pelo meio.
— Problemas? — perguntou Kyle, aproximando-se dela.
— Não. Pare, por favor. — Saiu da cama e vestiu o robe que estava na cadeira. Suas
pernas estavam trêmulas, e as palmas das mãos, úmidas. O que teria acontecido, se
Wally não houvesse ligado? — Sinto muito sobre tudo isso. Acho que exagerei na bebida
e acabei perdendo o controle. Você é muito atraente, mas eu não posso. . . Bom, dormir
com um cliente fere qualquer código de ética. — Eram palavras frias e um tanto rudes,
porém não lhe ocorrera outra coisa para dizer. — Acho que devo pedir desculpas pelo
meu comportamento. — Droga! Aquilo soava ainda pior.
— Desculpas?
— É, eu...
Os olhos dele brilhavam de cólera, e, instintivamente, Emily deu dois passos para trás.
— Deixe de representar, Emily! — explodiu. — Seja honesta com você mesma. Por
que acha que dei corda a esse plano maluco de tia Clarinda? Garanto que não foi por
medo do idiota que escreveu aquela carta. Eu queria segurá-la aqui, e você sabia muito
bem disso. Não me venha agora com desculpas esfarrapadas como código de ;ética ou sei
lá o quê. Você me quer, Emily Summers, tanto quanto eu a quero. Está certo, não vou
insistir. Já conheço esse seu ar de teimosia. — Agarrou as roupas que estavam no chão e
saiu batendo a porta.
O alívio de Emily foi varrido instantaneamente por uma onda de frustração e raiva. Kyle
estava certo? ela também o desejava. Deus, e como! Lágrimas amargas escorreram-lhe
pelo rosto. Vestiu a camisola e deitou-se. Desde que chegara ao Havaí, não era mais a
mesma pessoa. Sempre conseguira manter as emoções sob controle, e agora. . .
Enxugou o rosto com uma ponta do lençol. Mas talvez aquela cena desagradável tivesse
servido para colocar as coisas nos eixos. Duvidava de que Kyle voltasse a tentar qualquer
aproximação, e isso facilitaria as coisas para ela.
Virou-se de bruços, tentando esquecer o que se passara entre ela e Kyle. Precisava
concentrar-se em outra coisa, qualquer coisa. O fim de semana com Jenny e os meninos,
seus dois gatos, Holmes e Watson, as rosas que pretendia plantar no jardim de sua casa.
O cansaço começava a vencer, e uma reconfortante sonolência invadiu-a. Kyle...
Podia controlar os pensamentos, mas não os sonhos.

CAPÍTULO IV

Projeto Revisoras 24
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens

Quando o despertador tocou, às seis horas da manhã, Emily pulou da cama. Ao voltar
do banheiro, vestiu-se rapidamente, antes que cedesse à tentação de se enfiar de novo
embaixo das cobertas. Com cuidado, abriu a porta-janela de seu quarto, que dava para o
jardim, e esgueirou-se para fora.
O Sol começava a despontar, tingindo de tons róseos o horizonte. Emily sempre
iniciava o dia com uma boa corrida, a fim de se manter em forma, Além de saudável, essa
rotina era fundamental na sua profissão. Por vezes, fez o percurso da casa ao portão de
entrada, num ritmo acelerado. Sentindo o corpo aquecido, dedicou-se com empenho aos
exercícios: a ginástica era uma de suas paixões.
Quando terminou, sentia-se reanimada e... suada. Sem pressa, começou a voltar para
casa. Tomaria um bom banho, entraria em contato com Wally e... Vinha tão distraída que
tropeçou na raiz de uma árvore, que, rompendo o solo, estava exposta na superfície. Para
piorar a situação, foi cair em cima de um ancinho e uma cesta, que estavam junto ao
tronco, provocando a revoada de um bando de pássaros.
Levantou-se lentamente, limpando as roupas. A queda não tivera conseqüências mais
sérias além de um corte na mão e de sua dignidade ferida. Graças a Deus, Kyle não
presenciara aquela cena. Por um instante, temeu que ele houvesse acordado, porém,
tranqüilizou-se ao constatar que a casa permanecia em silêncio.
Retomou o caminho, tendo o cuidado de olhar bem onde pisava. Mal colocou os pés no
quarto, alguém a segurou por trás. Numa fração de segundo, uma possibilidade
aterrorizante cruzou-lhe a mente: ele estava ali, o autor dos bilhetes. E a culpa era dela,
porque deixara a porta aberta. E ele segurava alguma coisa, uma faca ou um revólver,
para silenciá-la e, em seguida, entrar no quarto de Kyle.
As mãos pressionaram-lhe com mais força os ombros, e então ele a virou, obrigando-a
a encará-lo. Emily não conteve um suspiro de alívio, ao ver que era Kyle quem a
segurava.
— Droga, Emily! — exclamou, parecendo tão nervoso quanto ela. — Que diabos
estava fazendo?
— Tendo um ataque do coração — replicou, tentando soltar-se. — Você quase me
matou de susto.
— Eu a assustei? — Sacudiu-a pelos ombros. — Um barulho estranho me acordou e
eu fui verificar o que estava acontecendo. Só então me ocorreu que você seria maluca o
bastante para agir por conta própria, e decidi vir até o seu quarto para ter certeza. Você é
doida mesmo!
Estava tão próximo que Emily podia sentir o calor do corpo dele. De súbito, lembrou-se
da noite anterior, dos beijos e de como Kyle a carregara nos braços até a cama. O sangue
subiu-lhe às faces, e ela lutou para se libertar.
— Eu saí há meia hora — explicou, quase grata pela dor aguda que sentia na mão e
que desviava seus pensamentos. — Fui correr e fazer um pouco de ginástica. Quando
estava voltando. . . — Droga! Agora teria que contar. — Bem, eu tropecei e...
— Por que você está escondendo a mão? — ele perguntou, desconfiado.
— Escondendo? Não, eu só. . .
— Kyle não deu ouvidos aos seus protestos e puxou a mão que ela tentava ocultar.
Um corte atravessava toda a palma.
— Você está ferida.
— É só um corte sem importância. Nem está doendo — mentiu.
— Posso imaginar — retrucou num tom irritado. — Eu vou buscar a caixa de remédios.
Assim que ele saiu, Emily foi para o banheiro. Abriu a torneira e começou a lavar o
ferimento com água e sabão, mordendo o lábio de tanta dor.
— Quer um lenço para morder? — sugeriu Kyle, observando-a da porta. — Por que
você insiste em fazer as coisas do jeito mais difícil? — Enxugou-lhe a mão e, depois, com

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todo o cuidado, passou um líquido desinfetante no corte. — Este remédio tem efeito
anestésico. Não se sente melhor agora?
— Hum, hum. .. — concordou Emily.
— Ótimo. Vamos deixar secar um pouco, para depois passarmos uma pomada.
Kyle reteve a mão dela entre as suas por mais alguns instantes. Era incrível que uma
mulher de aparência tão delicada pudesse ser tão decidida, corajosa mesmo. Lembrou-se
da noite anterior e precisou de toda a sua força de vontade para não estreitá-la nos
braços novamente. Sentiu que o pulso dela se acelerava e, erguendo o rosto, percebeu
que Emily também estava pensando na noite passada.
— Pode deixar, eu mesma cuido disso — afirmou ela, com voz trêmula. Puxou a mão
e voltou para o quarto, levando a pomada consigo.
Bastava uma pequena aproximação para que ela fugisse como um passarinho
assustado. Kyle respirou fundo e passou a mão pelos cabelos. O problema era que ela
não era páreo para "águias" e "gaviões". Não podia permitir que Emily continuasse
agindo daquela forma. O que teria acontecido, se realmente houvesse alguém do lado
de fora, tentando entrar na casa? Precisavam ter uma conversa séria, mas não agora.
Aguardaria o momento oportuno, quando ela não pudesse inventar uma desculpa e
escapar.
— Você deve estar com fome — falou, aparecendo na porta do quarto de Emily. —
Vou preparar o café. O que gostaria de comer?
— Só algumas torradas. A que horas vamos para Kauai?
— Assim que estivermos prontos.
O Cessna 172 decolou meia hora mais tarde do que Kyle havia planejado, porque
Emily insistira em fazer uma vistoria completa no aparelho, antes de partirem. O gerente
da companhia que alugava os jatinhos era um velho amigo de Kyle, e pareceu um tanto
desconcertado diante do pedido dela.
— Isso é sério? — perguntou, dirigindo-se ao amigo. — Afinal, o que ela espera
encontrar?
— Só Deus sabe, Mike — respondeu com ar resignado. — Mas é melhor atendê-la, ou
jamais sairemos daqui. — Pegou uma cadeira no escritório e, depois de sentar-se,
reclinou-a ates que ela ficasse encostada na parede e apoiada apenas nos pé de trás.
Emily sentiu vontade de passar o pé na cadeira, ao notar a expressão divertida com
que ele acompanhava cada um de seus movimentos. Um bom tombo seria o suficiente
para acabar com aquela arrogância.
— O Sr. Spencer não está levando isso a sério — comentou enquanto examinava o
aparelho junto com Mike. — Admitida que a possibilidade é muito remota, mas não posso
descartai a hipótese de que alguém tenha sabotado b avião. O que você acha?
— Seria praticamente impossível. Kyle nunca usa o mesmo jatinho. Eu mesmo, até
duas horas atrás, não sabia qual ele alugaria.
— E então? — perguntou Kyle, quando os dois se aproximaram. — Nós vamos
conseguir chegar a Kauai?
— Desde que você se lembre de como manejar os controles — respondeu Mike, e os
dois caíram na risada.
Os dois homens apertaram-se as mãos com cordialidade e depois Kyle e Emily
dirigiram-se para o avião.
— Ei, Kyle! — gritou Mike. — Cuide-se, está bem? — O tom brincalhão desaparecera
de sua voz.
Kyle sorriu, acenou para o amigo e entrou no avião com Emily.
— Myke e eu estivemos juntos no Vietnã — contou, apertando alguns botões no
painel.
Emily estava tensa demais para prolongar o assunto. Voara uma vez num jatinho igual
àquele, de Burbank a Palm Springs, para encontrar um cliente, e não fora uma

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experiência agradável. Embora o dia estivesse lindo na Califórnia, o vôo havia sido
turbulento, e ela ficara enjoada praticamente durante toda a viagem.
À medida que o avião ganhava altura, Emily percebia que havia sido a falta de
habilidade do piloto que transformara aquela primeira viagem numa verdadeira aventura.
Kyle manejava os controles com segurança, e, pouco a pouco, ela se sentiu mais
relaxada.
Quando o Cessna sobrevoava a costa de Oahu, Emily olhou para baixo e avistou Pearl
Harbor.
— Quanto tempo vamos levar para chegar a Kauai?
— Mais ou menos uma hora — respondeu Kyle.
O Cessna inclinou-se ligeiramente para o lado e fez uma curva suave. Estavam sobre o
oceano agora.
— Nervosa? — quis saber Kyle.
— Nem um pouco — respondeu com convicção. Pelo menos, não com o vôo.
A cabine do avião era pequena, aconchegante. Ele estava tão Próximo que Emily podia
sentir o suave aroma de loção após-barba. Desde quando sua mente se tornara tão
dispersiva? Lá estava ela, outra vez, divagando e se afastando de seu objetivo: proteger
Kyle.
— É melhor decidirmos o que vamos dizer aos seus pais. Eles sabem que eu estou
indo com você?
— Lógico. Não costumo aparecer de surpresa com hóspedes.
— E você contou também o motivo da minha presença?
— Não. Eles pensam que somos amigos, e eu gostaria de lhe pedir que não
mencionasse os bilhetes. Meu pai sofreu um infarto há dois anos, e não quero preocupá-
lo.
— Claro — concordou Emily prontamente.
— E não brinque de detetive enquanto estivermos lá.
— Quem disse que estou brincando? — reagiu Emily. — Eu sou uma detetive! E das
melhores, se está interessado em saber.
— Pode ser, mas não quero que corra riscos per minha causa.
— Do que você está falando?
— Do que aconteceu esta manhã.
— Esta manhã, eu estava fazendo exercícios e caí como uma idiota — explicou,
irritada. — O que isso tem a ver com correr riscos?
— Dessa vez, nada. Mas, e se houvesse mesmo alguém lá fora? Aposto a minha
cabeça como você sairia para investigar.
— Pelo jeito, você confia bem pouco em mim.
— Só quero saber uma coisa, Emily: o que você faria numa situação como essa?
— Antes de mais nada, chamaria a polícia. Em seguida, iria ao seu quarto para
acordá-lo, trancaria as portas e as janelas e aguardaria a chegada da polícia. Satisfeito?
— perguntou, a voz vibrante de desafio.
— A mesma Emily de sempre: eficiente, fria, todas as emoções sob controle, certo?
Segurou-a pelo queixo e aproximou o rosto dela do seu. Emily estremeceu, o sangue
fluindo mais rápido nas veias.
— Não! — exclamou, recuando. Olhou para baixo e avistou algumas ilhas. Kauai. Mas
ainda estavam tão distantes. . .
— Quando vamos aterrissar? — Estava aflita para sair do avião.
— Logo. Queria conversar com você sobre a noite de ontem, Emily.
— Mas eu não quero — retrucou, sem desviar os olhos da janela.
— Que diabo, Emily! — Segurou-a pelo braço, obrigando-a a se voltar.
Emily recusou-se a encará-lo. A expressão fria e inflexível dela deixou-o exasperado, e
ele precisou lutar contra o impulso de sacudi-la.

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— Se há uma coisa que odeio é ser tratada com brutalidade. — Sustentava o olhar de
Kyle agora. - Tire suas mãos de mim.
A frieza da voz dela deixou-o cego de raiva. Queria reduzir a pó a arrogância de Emily,
beijá-la com fúria, até senti-la suplicante de desejo. Só quando ouviu um gemido de dor,
percebeu que estava apertando o braço dela com força.
"O que está acontecendo comigo?", pensou Kyle, e soltou-a no mesmo instante.
— Desculpe — murmurou. — Não queria machucá-la. -— Respirou fundo e passou as
mãos pelos cabelos. — Mas você acabaria com a paciência de um santo. Essa sua
teimosia, essa insistência em colocar uma barreira entre nós, me deixa louco.
Emily não disse nada, e o seu silêncio irritou-o mais ainda.
— Diabos! — Por que estava desperdiçando tanta energia? — Foi uma tolice permitir
que você viesse comigo. Não quero transformar a casa dos meus pais num campo de
batalha. Eu vou levá-la a Lihue e colocá-la no primeiro avião para Honolulu.
— Não posso voltar —- replicou Emily, magoada, embora sem entender por que, com
a decisão dele. — Tenho instruções para ficar ao seu lado, e é o que vou fazer.
— Então tire um dia de folga. Que diferença faz, se ninguém vai saber?
— Eu saberei, e isso basta — replicou, inflexível. Se alguma coisa acontecesse a Kyle.
Deu um profundo suspiro e observou-o atentamente enquanto ele manejava os
controles para a descida do avião.
— Se você me deixar em Lihue, não hesitarei em alugar um carro e aparecer na casa
dos seus pais.
— Você não desiste, não é mesmo? — Não havia impaciência na voz dele. Pelo
contrário, naquele momento, sentia até uma certa admiração por Emily.
— Eu não vou criar problemas — prometeu ela. — Basta que você... ahn.. . mantenha
o nosso relacionamento num nível profissional.
— Em outras palavras: nada de beijos nem carícias ou qualquer outra coisa, certo?
Emily sentiu as faces arderem.
— Certo — confirmou num sussurro.
Lenta e deliberadamente, Kyle deixou o olhar vagar pelo corpo dela.
— Nada feito — falou por fim. Seus lábios curvaram-se num sorriso, o mesmo sorriso
irônico com que ele a observara na noite anterior enquanto ela conversava com Wally. —
Você fez a sua escolha, minha cara; agora terá que assumir os riscos.
Ignorando a resposta furiosa de Emily, Kyle entrou em contato com a torre de controle
e pediu permissão para descer.
Vista do alto, Kauai era incrivelmente verde e exuberante, Nuvens pairavam ao redor
de uma montanha no centro da ilha
— É o monte Waialeale — explicou Kyle.
O avião circundou o lado oeste da ilha, onde vastos canaviais ondulavam ao vento.
Kyle apontou para o jipe estacionado ao lado da pista de pouso. Uma mulher, que
estava na direção, acenou quando < avião começou a aterrissar.
— Mamãe! — Kyle abraçou a mulher carinhosamente e beijou-a na testa.
Emily notou logo a semelhança com Clarinda. O mesmo corpo esbelto, olhos escuros,
gestos elegantes e naturais. No entanto, bastou um olhar para que ela percebesse que a
mãe de Kyle fora a beleza da família, uma versão mais suave e feminina da irmã mais
velha. Os cabelos ondulados começavam a apresentar fios prateados. Ela os trazia
curtos, o que dava destaque aos traços bonitos daquele rosto pouco marcado pela
passagem dos anos.
Kyle fez as apresentações, e a Sra. Spencer segurou a mão de Emily entre as dela.
— Seja bem-vinda, Emily. — Espero que goste de Kauai e aproveite bem o dia.
— Obrigada, Sra. Spencer. É um prazer conhecê-la.
— Pode me chamar de Dorothy, querida.
Um segundo jipe estacionou ao lado do da Sra. Spencer. O motorista era um nativo da

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ilha, alto e bronzeado, usando jeans e uma camisa estampada.
— Eu vou com Emily para casa — falou Dorothy. — Enquanto isso, você e Kam
podem cuidar do avião e da bagagem, Kyle.
Dorothy Spencer dirigia o jipe com a mesma segurança com que o filho pilotava o
Cessna.
— Tom está à nossa espera — disse Dorothy, ao atravessarem o portão da casa. —
Lá está ele.
Um homem alto, de cabelos grisalhos, aproximou-se para recebê-las. Seu rosto tinha
os mesmos traços marcantes do filho, mas não a expressão arrogante e um tanto irônica.
Dois cães de caça o seguiram, e puseram-se a salutar alegremente ao redor das
recém-chegadas.
— Calma, meninos. Agora chega. — Os esforços de Dorothy para afastar os animais
foram inúteis. — Sinto muito, Emily. Se você não gosta de cães, é só dizer, e eu. . .
— Não, eu adoro animais. Aqui, rapazes. — Estalou os dedos Para os cães, que não
esperaram um segundo chamado. De joelhos, Emily acariciou-lhes o pêlo macio e bem
cuidado.
— O nome deste é Bear — falou o pai de Kyle, apontando o maior deles. — O outro é
Chester. E eu sou Tom. — Segurou a mão de Emily e ajudou-a a se levantar.
— Como você vê, apresentações formais não são o nosso forte -— comentou Dorothy,
rindo.
O outro jipe estacionou diante da casa, e a chegada de Kyle provocou a mesma reação
entusiástica em Bear e Chester.
A casa era espaçosa e arejada. A decoração dava preferência aos tons suaves, o que
tornava o ambiente alegre e acolhedor. Quando entrou em seu quarto, Emily entendeu por
que se sentia tão à vontade. A residência dos Spencer, embora muito maior e luxuosa,
tinha o mesmo ar hospitaleiro da casa de sua própria família; a acolhida afetuosa, sem
formalidades, de Tom e Dorothy lembrara-lhe a forma simpática com que a madrasta e o
pai abriam as portas de seu lar aos amigos.
— Aqui estamos — falou Dorothy. — Sinta-se como se estivesse em sua própria casa,
Emily.
Também ali ficava evidente o bom gosto de Dorothy Spencer. O quarto era enorme,
decorado em branco. O toque colorido ficava por conta da estampa delicada do papel de
parede, da colcha e do estofado da cadeira próxima à janela.
— Obrigada, Dorothy. Seria impossível eu me sentir constrangida, depois de uma
acolhida tão simpática. E o quarto é lindo — afirmou, aproximando-se da janela. A vista
era de tirar o fôlego, um verdadeiro cartão-postal. Quem vivia num lugar como aquele
devia sentir-se próximo do paraíso.
— O quarto de Kyle fica no fim do corredor; meu marido e eu ocupamos o do outro
lado do hall. — Fez uma pausa, Emily teve a estranha sensação de que ela estava
escolhendo as palavras cuidadosamente. — Nós levamos um estilo de vida bem
descontraído, porém respeitamos a privacidade de cada um
"Bom Deus", pensou Emily. "O que ela está tentando dizer Que eu e Kyle podemos
ficar à vontade?"
— Isso é... ótimo. — Começou a tirar as roupas da mala rezando para que Dorothy
não notasse seu embaraço.
— Eu vou descer, querida. Assim que estiver pronta, junte-se a nós para um drinque.
O almoço será servido ao meio-dia.
Uma vez sozinha, Emily decidiu tomar um banho. Era natural que Dorothy deduzisse
que entre ela e Kyle houvesse mais do que amizade, refletiu, ensaboando o corpo. Tudo o
que a mãe dele sabia era que ela estava passando uns dias na casa de Kyle. Droga! E
ela não podia fazer nada para esclarecer a situação.
Representar papéis fazia parte de sua profissão, e Emily reconhecia que, às vezes, era

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uma estratégia indispensável. Mas esse não era o caso, agora.
Perturbava-a, mais do que gostaria de admitir, enganar aquelas pessoas simpáticas
que a haviam acolhido tão bem. "Nada de envolvimentos emocionais", recomendou a si
mesma. Não era uma hóspede comum. Estava ali a serviço e concordara em representar
o papel de amiga de Kyle. Porém, não pretendia ir mais longe do que isso.
Olhou-se mais uma vez nó espelho, antes de sair. O rabo-de-cavalo e o rosto sem
maquilagem davam-lhe um ar ingênuo, quase infantil.
Kyle a esperava ao pé da escada. Seu olhar deteve-se longamente nela, provocando
uma onda de calor pelo corpo de Emily. Mas ela estava determinada a não demonstrar o
quanto ele mexia com suas emoções.
— Com fome? -— perguntou Kyle.
— Um pouco. — Deu alguns passos para a sala e fingiu admirar um enorme aquário,
embora mal reparasse nos peixes. Kyle segurou-a delicadamente pelos ombros e virou-a,
o olhar analisando-lhe o rosto, que, embora conservasse a expressão fria, tingira-se de
vermelho mais uma vez.
— Emily, por que você insiste em fugir de mim?
— Eu não estou fugindo — replicou, irritada, livrando-se das mãos dele.
— Olhe, Emily, não estou disposto a discutir. Na verdade, queria conversar sobre os
bilhetes antes do almoço.
— Por que está tão preocupado? Eu prometi não comentar nada, e é o que vou fazer
ainda que...
— Sim?
— Ainda que sua mãe pense que nós... que nós.. . somos amigos — concluiu num
sussurro.
— Amigos? — Sem que ela esperasse, puxou-a para um abraço. — Ou amantes? —
insinuou, o rosto bem próximo do dela.
Um ruído de vozes no jardim interrompeu-os, deixando a pergunta no ar. Kyle soltou-a,
porém não tão rápido que Dorothy e Tom não os surpreendessem.
E, pelo brilho no olhar da mãe de Kyle, Emily compreendeu que jamais a convenceria
de que eram apenas amigos.

CAPÍTULO V

O almoço foi servido na varanda, de onde se avistava a piscina. Um aroma suave de


orquídeas e samambaias enchia o ar. Realmente, o lugar não poderia ser mais
encantador, pensou Emily, o olhar vagando pelo jardim.
Um toldo protegia a varanda do sol e sob ele estava posta uma mesa para quatro
pessoas, dois lugares de cada lado.
— Sente-se ao lado de Kyle, Emily — falou Dorothy.
O braço de Kyle roçou o de Emily, quando ele abriu o guardanapo, e bastaria que se
aproximasse alguns centímetros para que suas pernas se tocassem. Pelo menos, não
seria obrigada a enfrentar aquele olhar arguto, consolou-se.
— Estamos muito contentes por você estar aqui conosco, Emily — falou Dorothy, com
um sorriso. — Este aqui — olhou para o filho, simulando reprovação — é tão ocupado que
raramente vem nos visitar e quase nunca traz uma amiga.
— Não se esqueça de Noel, meu bem — interferiu Tom. — Garota encantadora! Como
vai ela, Kyle?
Noel! De repente, Emily perdeu o apetite. Quem seria essa moça? E, pelo visto, o pai
de Kyle tinha uma grande afeição por ela.
— Vocês não pretendem falar de negócios durante o almoço, não é? — A intervenção
de Dorothy foi rápida e decidida. — E secretárias se encaixam nessa categoria. Que tal se

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falarmos de Noel Harrington mais tarde?
Harrington. Numa fração de segundo, Emily lembrou-se de que, no dia anterior, Kim
Sung avisara Kyle de que a Srta. Harrington o aguardava ao telefone. Se ele costumava
trazê-la à casa dos pais, talvez ela fosse mais do que uma secretária.
Uma moça morena, de rosto redondo, entrou na varanda, empurrando um carrinho com
a comida. Kyle apresentou-a como Lani, a irmã de Kam. Enquanto comiam, Dorothy
contava ao filho as novidades dá família, tendo sempre o cuidado de incluir Emily na
conversa.
Lynda, a irmã de Kyle, chegaria em junho para a temporada que costumava passar
todos os anos com os pais. O marido dela era um dos mais renomados neurocirurgiões
de Nova York.
— Você precisa conhecer meus dois netos, Emily — afirmou Dorothy, passando-lhe a
salada. E em seguida contou algumas travessuras que ilustravam bem o temperamento
irrequieto dos meninos.
— Dois diabinhos — comentou Tom, com um sorriso afetuoso. — E enchem a nossa
casa de vida.
— E você, Emily? Kyle foi tão vago ao telefone... Sua família é grande?
— Tenho três irmãos e uma irmã — disse. — Na verdade, os meninos são filhos de
Evelyn, a minha madrasta. — Explicou então que a mãe havia morrido e o pai casara-se
novamente.
— Seu pai é mais corajoso do que eu — Brincou Tom. — Poucos homens aceitariam
ganhar três filhos de uma só vez.
— Para ser franca, ele tirou a sorte grande. Papai sempre quis ter muitos filhos, mas
minha mãe morreu logo após c meu nascimento.
— E você se dá bem com a sua madrasta?
— Muito. Somos grandes amigas — declarou com orgulho. — Evelyn é uma mulher
encantadora — acrescentou, consciente de que Kyle a observava com interesse.
— Pelo visto, vocês formam uma família feliz — disse Dorothy. — E eu aposto como
você adora crianças, Emily. Passa bastante tempo com os seus irmãos?
— Tanto quanto possível. Meu trabalho me mantém muito ocupada.
— E o que você faz, querida? — perguntou Dorothy. Emily ficou petrificada, o garfo a
meio caminho da boca, Mas
Kyle adiantou-se com as explicações:
— Emily trabalha na área de computadores. — E antes que a mãe quisesse saber
detalhes, mudou o rumo da conversa: — Você ainda não nos contou os seus planos para
hoje, mamãe.
— Não pretendo sair após o almoço. Tom precisa descansar um pouco e.. .
— Ora, Dorothy... — protestou Tom.
— Por favor, Tom. Você sabe que precisa seguir as recomendações do médico. — Deu
um tapinha afetuoso na mão do marido antes de prosseguir: — Achei que seria uma boa
idéia se jantássemos no Iate Clube. Isto é, se você e Emily estiverem de acordo.
Jantar no Iate Clube? Deus, aquele problema com o seu guarda-roupa já estava se
tornando um pesadelo. Não tinha nada adequado para vestir. Se ao menos houvesse
trazido o vestido preto. . . Tomou um gole de suco, procurando não pensar nas mãos de
Kyle em seu corpo, nos botões pipocando no chão. . .
— Emily? — A voz de Dorothy trouxe-a de volta à realidade. Todos olhavam para ela,
como se estivessem esperando a resposta para alguma pergunta.
— Desculpe... o quê?
— Eu perguntei se você tinha em mente algum outro programa para esta noite.
— Não. Para ser franca, eu não esperava ficar tantos dias no Havaí. — Perguntou se
havia um lugar onde pudesse fazer algumas compras.
— É uma pena que você não tenha pensado nisso antes — falou Kyle. — Eu sugeri

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levá-la a Lihue, lembra-se?
Ergueu o copo e deu um largo sorriso. Emily reprimiu a custo o impulso de chutar-lhe a
canela.
— Há pouco tempo foi inaugurada uma. loja excelente na praça da cidade — disse
Dorothy. — Por que você não a leva até lá, Kyle? Tenho certeza de que Emily encontrará
alguma coisa que lhe agrade.
— Não é preciso, Dorothy — interferiu Emily. — Kyle veio visitá-los, e eu nem sonharia
em tirá-lo daqui.
— Que bobagem, Emily... — falou Tom. — Vocês não precisam passar o dia inteiro
conosco. Além disso, eu pretendo mesmo descansar um pouco. Vocês poderiam
aproveitar e dar uma volta pela ilha, Kyle.
Dorothy estava certa sobre a loja; era excelente... e muito cara também. Kyle
acomodou-se num sofá, enquanto as vendedoras mostravam os mais diversos modelos a
Emily.
— Você não tem nada para fazer? — perguntou Emily. — Não preciso de ajuda para
decidir o que comprar.
— Mas, querida — falou, fingindo-se magoado —, pensei que fosse vê-la provar as
roupas.
— Era só o que faltava. — Pegou alguns vestidos e foi para o provador, deixando as
vendedoras à vontade para se desmancharem em atenções com ele.
Emily finalmente decidiu-se por um vestido branco de linho e um macacão verde-água.
O vestido seria perfeito para o jantar: no Iate Clube. Um tanto relutante, acrescentou às
compras alguns shorts, camisetas, um jeans e um maiô. Já podia imaginar como Wally
resmungaria, antes de reembolsá-la por aquela despesa.
Quando estendeu o cartão de crédito para a vendedora, a moça olhou-a surpresa.
— O Sr. Spencer já me deu o cartão de crédito dele — explicou.
— Pois então devolva-o.
Quando saiu da loja, Kyle a esperava no jipe.
— Que idéia foi essa de querer pagar a conta? — perguntou, sem se preocupar em
ocultar a irritação.
— Você não acha natural que eu queira lhe dar um vestido novo, depois de ter
rasgado o seu na noite passada?
— Pelo amor de Deus, Kyle, você não leva nada a sério? — perguntou, enquanto ele
dava a partida. — Eu me senti tão pouco à vontade, durante o almoço... Seus pais foram
muito gentis comigo. Não acho justo deixar que eles pensem que. Bom, você sabe o que
eu quero dizer... E se contarmos a verdade só para a sua mãe?
— Não.
Kyle tinha certeza de que a mãe ficaria alarmada, e seu pai, que a conhecia como a
palma da mão, acabaria descobrindo tudo. Quando chegaram em casa, Kyle já havia
conseguido fazer Emily jurar que não diria nada.
— Que calor! — exclamou ela, ao entrarem na sala. — Estou louca para tomar um
banho e trocar de roupa.
— Pois eu tenho uma idéia melhor: que tal nadarmos um pouco? — sugeriu Kyle,
seguindo-a pela escada.
— É, um mergulho na piscina seria ótimo — concordou Emily.
— Quem falou em piscina? — Colocou os pacotes sobre a cama dela. — Meu pai
recomendou que lhe mostrasse a ilha, não foi? Pois é o que pretendo fazer. Vou trocar de
roupa e a espero lá embaixo daqui a dez minutos. — Antes que ela recusasse,
desapareceu pela porta.
— Aonde estamos indo, Kyle? — quis saber Emily. O jipe tomara o caminho das
montanhas. O oceano ficava na direção oposta. Ele não ia levá-la à praia?
— Nadar.

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Apesar da insistência dela, recusou-se a dar qualquer outra informação. Pouco depois,
estacionou o jipe e pegou as toalhas! que estavam no banco de trás. Estendeu a mão
para Emily,j ajudou-a a descer e conduziu-a por uma trilha, cercada por densa vegetação.
Emily seguia-o um tanto apreensiva. Sempre ouvira dizer que não existiam cobras no
Havaí, no entanto, quem podia garantir? Uma mistura de cheiros impregnava o ar: flores,
mato, terra úmida... O silêncio era quase total. Ouvia-se apenas uri murmúrio de água
corrente, o sussurro do vento entre as folhas das árvores e, de quando em quando, o grito
de uma ave. No momento em que ela avistou uma clareira, Kyle parou.
— Feche os olhos, Emily.
— O quê?
— Será que pelo menos uma vez você pode atender um| pedido meu sem protestar?
Por favor...
Aquele "por favor" desarmou-a completamente,
— Está certo.
— Estamos a poucos passos do que eu quero lhe mostrar.! — Passou-a à frente e,
segurando-a pelos braços, começou a| guiá-la. — Você está de olhos fechados? Não
tente bancar espertinha, hein?
Emily sentiu-se um tanto tola e... apreensiva. O que ele estaria tramando?
— Kyle...
— Fique quietinha. Já estamos chegando. Pronto. Ao abrir os olhos, ela deixou
escapar uma exclamação surpresa e encantamento.
Logo adiante, um fluxo de água cristalina, uma pequena cachoeira, caía do alto dos
rochedos, formando uma piscina, beleza do lugar era indescritível, e, durante alguns
instantes Emily ficou sem fala.
— Gostou? — perguntou Kyle.
— Se eu gostei? É lindo!
— Que tal mergulharmos do rochedo? — sugeriu ele.
— De lá? Ah, não.
— Não me diga que está com medo — provocou-a. — Coragem, Emily, não é tão alto
assim, e a água deve ter uns oito metros de profundidade. Garanto que não há perigo.
Sem esperar pela resposta dela, começou a escalar o rochedo. A hesitação de Emily
não durou mais que alguns segundos. A água era tão convidativa. . . Além disso, não
queria dar a impressão de ser medrosa.
Quando alcançou o ponto onde Kyle a aguardava, Emily olhou para baixo e engoliu em
seco. Mas agora não poderia recuar.
— Espero você lá embaixo — falou Kyle, com um sorriso. 0 mergulho foi perfeito e,
poucos segundos depois, ele reapareceu à tona d’água, acenando para ela.
Emily respirou fundo e contou até três. Teve a sensação de que se passara uma
eternidade, antes que alcançasse a piscina. Após o choque do primeiro contato, a
temperatura da água revelou-se perfeita. Quando voltou à superfície, estava alguns
metros distante de Kyle.
— Gostou da minha surpresa? — gritou ele.
— Adorei — respondeu, antes de mergulhar outra vez. Pouco depois, Kyle a
alcançava, nadando ao lado dela sob a água. Emily sentia-o cada vez mais próximo. Mais
tarde, ela não saberia dizer de quem partira a iniciativa para o beijo. As mãos se
entrelaçaram, os lábios se uniram, e, quando chegaram à superfície, estavam abraçados.
Kyle segurou o rosto dela entre as mãos e beijou-a, suavemente a princípio e, pouco a
pouco, com mais impetuosidade.
— Não... — murmurou Emily contra os lábios de Kyle, ao sentir as mãos dele
descerem as alças do maio.
Mas aquele tímido protesto não conseguiu detê-lo. Como ela era linda, pensou,
tocando os seios firmes e quentes, acariciando com delicadeza os círculos rosados. O

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desejo explodiu dentro dele, contaminando-lhe o sangue, e ele precisou lutar contra 0
impulso de estreitá-la contra o peito e sufocá-la de beijos. Não, disse a si mesmo, aquele
momento tinha que ser perfeito.
Suas mãos deslizaram pelo corpo de Emily, até alcançarem a cintura.
Ao perceber que ele tinha a intenção de despi-la, Emily recuou e tentou alcançar a
margem. Kyle, porém, foi mais rápido Abraçou-a por trás, as mãos fechando-se sobre os
seios.
— Você é linda, Emily — murmurou ao ouvido dela. Emily fechou os olhos, incapaz de
qualquer reação. Os lábios dele moviam-se em seu pescoço, explorando-lhe a maciez da
pele, atordoando-a.
Sentia-se como uma flor desabrochando, a cada toque de Kyle, permitindo que ele
desvendasse os segredos de seu corpo
De repente, Kyle soltou-a e mergulhou. Emily sentiu o maiô descer-lhe pelas pernas e,
dessa vez, não opôs a menor resistência. Quando ele reapareceu, trazia numa das mãos
o maiô e na outra seu próprio calção. Jogou-os para a margem e puxou Emily para perto.
Não havia nada entre eles agora, exceto a água. Incapaz d< raciocinar, Emily decidiu
aventurar-se por aquele mundo d prazer e sensualidade. Que sensação indescritível
provocava í nudez de Kyle contra a sua.
— Há um lugar aqui perto... — sussurrou Kyle. — Vamos! Ela apenas balançou a
cabeça. A emoção a impedia de articular uma palavra sequer.
Puxando-a pela mão, Kyle conduziu-a através da cachoeira! Em alguma era passada, a
água, caindo sobre a rocha, formara.; uma depressão. Kyle deitou-a delicadamente no
chão coberto pelo musgo. Atrás dele, a cachoeira assemelhava-se a uma cortina,
isolando-os do mundo. Raios de sol atravessavam a água e incidiam nos cabelos de Kyle.
Como num sonho, Emily viu aquele corpo, que nunca lhe parecera tão grande e forte,
inclinar-se, e fechou os olhos para receber o beijo de Kyle.
As mãos dele desceram pelos ombros de Emily, passando pelos seios e pelo ventre,
massageando, acariciando até fazê-la gemer, de prazer.
A excitação dela alcançou um ponto intolerável quando a boca de Kyle começou a
seguir o caminho traçado anteriormente pelas mãos. Dessa vez, porém, as carícias eram
mais lentas, provocantes.
— Kyle, agora... — balbuciou Emily, o sangue latejando-lhe nas têmporas.
Kyle ergueu o rosto e sorriu. Nos olhos dele brilhava o mesmo desejo que crescia,
inexorável, dentro dela. Mas Kyle não parecia ter pressa. Seus lábios continuavam a
explorar a maciez do corpo de Emily, a saborear o gosto de sua pele molhada, detendo-se
com mais vagar em cada um dos seios até senti-los intumescidos sob a língua.
Quando Kyle se deitou sobre ela, Emily estava mais do que pronta para recebê-lo.
Mãos apoiadas nos ombros dele, as pernas rodeando-lhe os quadris, ela estremeceu, ao
vislumbrar a paixão nos olhos escuros e profundos como a "piscina" lá fora. Louca. . .
louca. . . disse para si mesma. Mas o beijo de Kyle calou aquela voz débil que se erguera
na consciência dela. As dúvidas cederam lugar ao abandono; o instinto venceu a razão, e
ela começou a acompanhar os movimentos cada vez mais impetuosos de Kyle. Quando o
êxtase chegou, Emily abraçou-o com mais força, o rosto escondido no peito dele. Um
gemido escapou-lhe dos lábios, e as unhas riscaram a pele de Kyle. Uma última investida,
e ele largou o peso de seu corpo sobre o dela. Durante alguns instantes ficaram imóveis,,
a respiração arquejante, exaustos, como se todas as energias se houvessem consumido
naqueles momentos intensos de paixão.
— Foi bom? — perguntou Kyle, deitando-se ao lado dela.
— Foi....
— Maravilhoso?
— Hum, hum. . . — concordou com um sorriso. Um brilho malicioso cruzou o olhar de
Kyle. .

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— Foi perfeito?
— Foi. E você planejou tudo direitinho, certo?
— Eu estudei a minha estratégia nos menores detalhes, como um general antes da
batalha — admitiu em tom brincalhão.
— Está arrependida?
— Não. — Pelo menos, não estava naquele exato momento.
— Mas...
— Droga, Emily! Estou começando a achar que essa é a sua palavra favorita. Quer me
contar o que a transformou numa mulher tão desconfiada? Assim, pelo menos eu saberei
onde estou pisando.
— Não quero falar sobre isso. Por favor, Kyle. — Lentamente, traçou com o indicador o
contorno dos lábios dele. — Eu quero que este momento seja perfeito.
A expressão de Kyle suavizou-se, porém ele ainda parecia contrariado.
— Não é sempre que eu peço por favor — continuou Emily.
— Você não vai desperdiçar esta oportunidade, vai? — perguntou, usando seu sorriso
mais provocante.
Kyle não resistiu, e acabou aceitando aquele pedido de conciliação.
— Eu não consigo ficar zangado, quando você me olha desse jeito — murmurou,
antes de beijá-la. Acariciou-lhe os cabelos e, com o olhar, percorreu lentamente o corpo
dela.
— O que foi? — perguntou Emily, de repente. Conhecia muito bem aquele ar divertido.
— Quando voltarmos para casa, tome cuidado para não trocar de roupa na frente de
minha mãe.
— Por quê? — quis saber, um tanto apreensiva.
— Você está com uma mancha bem aqui. Emily sentou-se no mesmo instante.
— Kyle! — foi tudo o que conseguiu dizer, ao ver a mancha ligeiramente azulada na
altura dos quadris.
Ele caiu na risada, o que a deixou ainda mais contrariada.
— Não tem graça nenhuma, seu bobo! Faça alguma coisa. Meu Deus, isso tem que
sair! — falou, aflita, massageando a pele.
— Desista. Agora você é a mulher de Kyle Spencer, e essa marca é a prova.
— Verdade? E o que me diz de você? — Apoiou as mãos nos ombros dele e deitou-o
sobre o musgo.
— Quer mesmo saber? — Segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu também
estou marcado para sempre, e não me importo nem um pouco — sussurrou, atraindo-a
para um beijo. Durante um bom tempo, ficaram deitados em silêncio, nos braços um do
outro. Com o olhar perdido na cachoeira, Emily pensava que, quando alcançassem o
outro lado, o encanto se quebraria e tudo voltaria a ser como antes. Por mais que lhe
custasse admitir, sabia que não podia ser de outro jeito.
— Detesto ter que dizer isso, amor — sussurrou Kyle —, mas já é hora de voltarmos.
A tarde começava a cair, e a temperatura da água parecia alguns graus mais baixa.
Quando alcançaram a margem, Emily estremeceu, ao sentir a brisa contra o corpo
molhado. Kyle envolveu-a com uma das toalhas e depois abraçou-a.
— Ainda está com frio?
— Não. — Com uma certa relutância, afastou-se dele. — Não é melhor voltarmos
antes que seus pais saiam à nossa procura?
— Acho que sim. Só mais uma coisa, Emily. — Segurou-a pelo queixo e ergueu-lhe
delicadamente o rosto. — Você agora é minha; não se esqueça disso.
Emily não replicou e apoiou a cabeça no ombro dele. Pertencia a Kyle naquela tarde,
naquele exato momento, mas no futuro. .. Ora, pensaria nisso mais tarde.

CAPÍTULO VI

Projeto Revisoras 35
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens

Quando o Cessna decolou, Emily deu um suspiro de alívio e melancolia ao mesmo


tempo. Felizmente, a farsa havia terminado. Durante a curta estada em Kauai, aprendera
a gostar dos Spencer e sentira-se a última das pessoas por enganá-los daquela forma.
Quando Dorothy a abraçara, dizendo: "Tenho certeza de que vamos vê-la muitas vezes.
Volte logo, querida", Emily sentira-se à beira das lágrimas.
Como reagiria Dorothy, se lhe dissesse que o relacionamento entre ela e Kyle não era
o que aparentava e que elas jamais | voltariam a se encontrar?
Olhou para Kyle, totalmente concentrado no manejo dos controles. Ele parecia sempre
tão seguro em tudo o que fazia... Sentiu o sangue fluir mais rápido, ao lembrar-se dos
momentos de paixão que haviam dividido na tarde anterior.
Não era de admirar que os pais dele houvessem trocado olhares significativos, durante
o jantar no Iate Clube. Aquela tarde ; perfeita, a melhor que já vivera até então, dera-lhe
um novo colorido às faces e um brilho diferente ao olhar, sinais de felicidade que se
intensificavam a cada vez que Kyle lhe dirigia a palavra ou a tocava. O casal Spencer
precisaria ser cego para não notar.
O avião inclinou-se para o lado, descrevendo uma curva, e começou a voltar para a
ilha.
— Algum problema? — perguntou Emily.
— Não. Eu quero apenas dar uma última olhada. -— Sorriu e apontou para baixo.
Em meio a uma espessa vegetação, raios de sol provocavam reflexos nas águas que
formavam uma piscina aos pés da cachoeira. Emily ficou fascinada pela beleza do lugar
como se fosse a primeira vez que o via.
— Você não gostaria de ficar aqui para sempre? — perguntou ele à queima-roupa, ao
mesmo tempo que retomava o rumo de Honolulu. — Nós poderíamos morar numa cabana
perto da cachoeira, nadar todos os dias...
— Transformar em realidade algum tipo de fantasia tropical? — interrompeu-o Emily.
— Esquecer família, trabalho e tudo o mais que faz parte das nossas vidas?
— Coisas que são mais importantes do que o resto, não é isso? Olhou-a com tanta
frieza que Emily encolheu-se no banco.
Ele não podia estar falando sério. Aquilo seria muito bonito e adequado no cinema, mas
no dia-a-dia.. . Não, tinha certeza de que ele estava apenas brincando ou sonhando em
voz alta. Sentiu um aperto no coração ao pensar nessa segunda hipótese. Quando ela
perderia aquela mania de racionalizar tudo? Quando se aventuraria a tirar os pés do chão,
mesmo que por poucos minutos?
— Essas coisas são importantes, Kyle — insistiu, colocando-se na defensiva. — Acho
que nenhum de nós dois é do tipo capaz de viver fora da sociedade, isolado do mundo.
— Não, claro que não. — Segurou-lhe o queixo, obrigando-a a encará-lo. — Nós dois
somos pessoas sadias perfeitamente adaptadas ao sistema. Mas às vezes...
Suas bocas estavam tão próximas que o beijo foi inevitável. O avião perdeu altitude, e
o coração de Emily deu um salto.
— Desculpe — falou Kyle, recuperando altitude. — Da próxima vez, acho melhor
alugar um avião com piloto automático. Por hora, teremos que nos limitar a conversar.
Conversar sobre o quê?, perguntou-se Emily. Era estranho pensar que soubessem tão
pouco um do outro, quando, no dia anterior, a intimidade entre eles havia atingido o ponto
máximo.
— Conte-me alguma coisa sobre a sua família — pediu Kyle, como se houvesse lido
os pensamentos dela.
— Não há muito que contar — replicou, evasiva. Embora ele conhecesse cada detalhe
de seu corpo, Emily não estava disposta a deixá-lo entrar em sua vida. E, procurando
mudar de assunto, acrescentou: — Prefiro que você me fale de Noel Harrington,
— Ela é minha secretária. Eu a trouxe comigo uma vez, num feriado. Por quê? Por

Projeto Revisoras 36
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
acaso está com ciúme?
— Ora, que absurdo... — Emily reagiu com certa rispidez.
— Eu só fiquei um pouco curiosa de saber que tipo de moça ela é. Seus pais parecem
gostar muito dela.
— Mas gostaram mais ainda de você. Emily, espero que tenha entendido por que
ontem à noite. . .
— Claro que sim — apressou-se em afirmar.
Embora a mãe dele houvesse deixado claro que não se escandalizaria se eles
passassem a noite juntos, Kyle despedira-se de Emily apenas com um beijo diante da
porta do quarto dela.
— Acho que, em alguns aspectos, sou um pouco antiquado
— justificou-se Kyle. — Por que você se divorciou, Emily? — E, diante da expressão
contrariada dela, acrescentou: — Não responda se não se sentir em condições de falar
sobre isso.
— Nós éramos muito jovens — disse. Deus, o seu casamento com Jeff era a última
coisa que desejava discutir com Kyle.
— Eu tinha apenas dezenove anos. Não deu certo. Só isso. E você? Por que o seu
casamento fracassou?
Um sorriso amargo pairou nos lábios de Kyle por alguns instantes.
— Eu não posso usar inexperiência ou pouca idade para me justificar. Já estava com
vinte e oito anos, quando me casei. Tudo o que sei é que Susan e eu éramos loucos um
pelo outro. Levamos dois anos para perceber que o que julgávamos amor não passava de
atração física.
Então Kyle havia cometido o mesmo engano que ela. Jeff era o rapaz mais bonito da
faculdade. Corpo de músculos bem desenvolvidos, estupendo na cama. Mas isso era
muito pouco para uma vida a dois. Pelo menos, Kyle saberia reconhecer se entre eles,
agora, estava acontecendo a mesma coisa. Excluída a atração física, nada restaria para
manter o relacionamento.
— Nós deixamos o barco correr por algum tempo — continuou Kyle. — Eu me
enfronhava cada vez mais no trabalho, e Susan... bom, ela acabou encontrando outro
homem. Não a censuro. Meu orgulho ficou ferido, mas acabei superando.
— Tenho certeza de que o trabalho o ajudou a atravessar essa fase difícil. — E, antes
que ele recomeçasse a fazer perguntas, emendou: — Wally me contou que você dirige
um conglomerado de empresas. Você está em que ramo?
Kyle, porém, era muito mais perspicaz do que ela havia imaginado.
— Por que será que estou com a estranha sensação de que você está tentando mudar
de assunto?
— Pelo amor de Deus, Kyle. Eu ganho a vida fazendo perguntas. E não é sempre que
encontro pela frente um gênio das finanças — acrescentou, com um sorriso maroto.
Acreditando ou não, ele começou a discorrer sobre as diversas áreas onde os Spencer
tinham interesses. Quando Kyle assumira a presidência, o patrimônio da família
constituía-se basicamente de terras e petróleo. A fim de diversificar o ramo de negócios,
Kyle investira pesado na área de computadores, comunicações e na indústria
farmacêutica.
Emily acompanhava a narrativa com grande atenção. O que começara como uma
manobra para desviar a curiosidade de Kyle da vida pessoal dela acabara transformando-
se num interesse genuíno pelo que ele contava.
Ela só percebeu que o avião estava descendo quando a pressão nos ouvidos
aumentou. Kyle entrou em contato com a torre de controle, pedindo permissão para
pousar. Pouco depois, o Cessna aterrissava suavemente na pista do aeroporto de
Honolulu, e Kyle taxiou na direção do hangar da Flightways.
Emily lutava para soltar o cinto de segurança, que parecia emperrado. Kyle inclinou-se

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para ajudá-la. O contato das mãos : dele, embora ligeiro, bastou para provocar o já tão
familiar i arrepio pelo corpo dela. O cinto se abriu, mas Kyle não sei afastou. Enlaçou-a
pela cintura e puxou-a para perto.
— Agora estamos no chão — murmurou, antes de beijá-la. O toque dos lábios dele
teve o efeito de um fósforo aceso em
lenha seca. Passara-se quase um dia, desde que haviam feito amor. Uma vida, pensou
Emily, correspondendo ao beijo, as mãos acariciando a nuca de Kyle.
Alguém bateu na porta e, em seguida, a abriu. Kyle voltou-se para o intruso, e Emily viu
o rosto redondo e sorridente de Mike.
— Desculpem a interrupção — o gerente da Flightways foi logo falando. — Há dois
empresários no meu escritório com uma pressa louca de voar para Kona. Sinto muito,
mas preciso do meu avião.
— Alguém já lhe disse que você é um desmancha-prazeres, Mike? — brincou Kyle. —
Já que insiste em ganhar dinheiro, nós teremos que continuar o beijo em outro lugar.
Emily sentiu o rosto pegar fogo, enquanto Mike a ajudava a descer. Bastava que Kyle a
tocasse para que ela se transformasse numa massa de sensações, com tanto juízo
quanto um inseto. De que lhe adiantava, porém, ter consciência disso, se não conseguia
colocar um ponto final no seu relacionamento com Kyle? Onde estava o seu bom senso, o
seu equilíbrio? Desde que chegara ao Havaí, transformara-se numa insensata, ansiosa
por momentos de amor. A intuição lhe dizia que, se não pulasse fora, acabaria por se
machucar bastante.
Depois de tantas horas sob o sol, o Mercedes mais parecia uma fornalha. Kyle ligou o
ar-condicionado e deu a partida.
— Acho que, quando chegarmos em casa, vou dar folga a Kim Sung pelo resto do dia.
— Lançou-lhe um olhar que a aqueceu mais ainda que a temperatura do carro. —
Pensando bem, vou dispensá-lo pelo resto da semana.
Quando o carro parou diante da casa, Kim Sung saiu para recebê-los.
— Boa tarde — falou, sorrindo, abrindo a porta de Emily. Ela olhou para o relógio no
painel. Meio-dia e cinco. Como era tarde! Wally devia estar furioso com a falta de notícias.
Enquanto subiam os degraus da entrada, tomou o cuidado de se manter distante de Kyle.
Kim Sung seguia-os com a bagagem, fazendo perguntas sobre o casal Spencer e o dia
em Kauai.
— Não sabia ao certo a que horas o senhor chegaria, Sr. Spencer — falou o
empregado, quando entraram no hall. — Se estiverem com fome, posso preparar alguma
coisa em meia hora.
— É uma boa idéia, Kim Sung. Tenho a impressão de que a Srta. Summers está
faminta.
— Acertou em cheio — concordou Emily.
— Então vou cuidar agora mesmo do almoço. — Kim Sung desapareceu na cozinha,
mas voltou no mesmo instante. — Sr. Spencer, a Srta. Harrington telefonou, e isto chegou
hoje cedo. — Entregou-lhe um maço de cartas e depois saiu.
À medida que as examinava, Kyle ia jogando as cartas sobre a mesa. Contas,
prospectos... De repente, um envelope azul chamou-lhe a atenção. Ou muito se
enganava, ou... Sem perda de tempo, rasgou a borda do envelope. Uma ruga marcou-lhe
a testa, e a fisionomia ficou tensa.
Um calafrio percorreu a espinha de Emily.
— O que foi, Kyle?
— Nada. — Colocou a carta de volta no envelope com estudada casualidade. — Se
você quiser tomar um banho antes do almoço.
— O que eu quero é ver essa carta — replicou com firmeza.
— Emily...
— Que inferno, Kyle! Será que estou falando grego?

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Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
Ele percebeu a determinação na voz de Emily e fez o que ela pedia.
Não havia sentido em se preocupar com o envelope. Dúzias de pessoas já o haviam
tocado, até aquela hora. Usando um lenço, Emily tirou a folha de papel do interior e abriu-
a cuidadosamente. Agora, o papel tinha as impressões digitais de Kyle, o que dificultaria o
trabalho dos técnicos. Ela estava lá e deixara que isso acontecesse. Estúpida! Mil vezes
estúpida!
"Breve, Spencer, muito em breve", dizia a frase datilografada no centro do papel. Os
dedos de Emily tremeram e seu rosto ficou lívido. Sem dizer nada, foi para a cozinha, e
Kyle a seguiu, intrigado.
— Quando chegou esta carta? — perguntou ao empregado, ocupado em fatiar um
rosbife com uma faca elétrica.
— Lá pelas nove. Aconteceu alguma coisa? — Alarmado, olhava do rosto de Emily
para o de Kyle.
— Não foi nada — respondeu Kyle. — Apenas uma carta anônima.
— Uma carta ameaçando o Sr. Spencer — Emily fez questão de esclarecer. — E não é
a primeira que ele recebe.
— Meu Deus! — Kim Sung olhou para a carta como se houvesse descoberto que
segurara uma cobra. — Impressões digitais — balbuciou. — Eu devia ter usado um
pano... Se eu soubesse...
"Se eu tivesse feito o meu trabalho", pensou Emily com amargura.
— Agora é tarde — falou Kyle. — Vou jogar esta porcaria no lixo e. . .
— Não vai não — interferiu Emily. Já era mais do que tempo de assumir o controle da
situação. — Kim Sung, eu preciso de um saco plástico e de fita adesiva.
O empregado concordou e saiu às pressas da cozinha.
— Emily... — Kyle aproximou-se por trás e colocou as mãos nos ombros dela. —
Esqueça essa droga de carta. Vamos almoçar e depois. . .
Ela se afastou no mesmo instante em que Kim Sung voltava.
— Mais alguma coisa, Srta. Summers?
— Sim — respondeu Kyle por ela. — Por que o almoço ainda não foi servido? — Só
mais alguns minutos, Sr. Spencer. Querem alguma coisa mais, além de rosbife e salada
de batatas?
— Eu não vou almoçar — afirmou Emily. — Tenho muito que fazer. Quero apenas um
sanduíche.
Colocou a carta no saco plástico e fechou-o com a fita adesiva. O que mais? Nada,
antes de falar com Wally. Wally. . . Sentiu um aperto no estômago, ao pensar no chefe.
Que explicação daria? "Desculpe, Wally, não fiz o meu trabalho porque estava ocupada
demais fazendo amor com o meu cliente."
— Emily... — A voz de Kyle interrompeu a linha de seus pensamentos. — É ridículo
deixar que um... um maluco estrague o nosso dia. Vamos esquecer tudo isso, está bem?
— Não.
Sem olhar para ele, saiu da cozinha e foi para o telefone na sala de estar. Estava
discando o número do escritório de Wally quando Kyle sentou-se na poltrona diante dela.
— Para que diabos você pensa que a mandei ao Havaí? — explodiu o chefe, depois
que ela contou o que se passara. — Você não tinha prevenido o empregado? Maldita hora
em que a encarreguei dessa missão! Você nem ao menos se lembrou de impedir Spencer
de abrir o envelope.
A cabeça de Emily latejava, e ela pressionou os dedos nas têmporas, ouvindo sem
protestar a série de nomes que Wally lhe atirava no rosto. "Amadora de terceira categoria"
foi o mais suave, e, no entanto, nenhum outro a ofendeu tanto. O prolongado silêncio de
Emily e a palidez de seu rosto despertaram a atenção de Kyle.
— O que foi, Emily? Forrester a ofendeu? Passe-me o telefone e eu vou lhe dizer
umas...

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— Fique fora disso! — advertiu-o Emily, tampando o boca — Você entendeu bem?
Fique fora disso!
Kyle baixou lentamente o braço, uma raiva contida brilhando no olhar. A rispidez de
Emily atingira em cheio o orgulho dele. Sem dizer nada, deu-lhe as costas e saiu da sala.
Quando finalmente Wally se acalmou, Emily pediu-lhe instruções. A Forrester
Investigações tinha contato com um laboratório em Honolulu. Emily alcançou uma caneta
e um bloco e anotou o endereço e o telefone.
— Não vou admitir mais falhas, Emily — foi o aviso de Wally. — Entendido?
Depois de ligar para o laboratório e solicitar a presença de um técnico, Emily continuou
alguns minutos na sala, imóvel. Sua cabeça doía e os músculos do pescoço estavam
tensos. Tinha a estranha sensação de ter esquecido alguma coisa. O que seria? Alguma
recomendação de Wally? Ora, pensaria nisso depois. No momento, só queria livrar-se
daquela dor de cabeça insuportável.
Saiu à procura de uma aspirina e, ao passar pela porta da varanda, viu Kyle sentado ao
lado,da piscina. Ele ainda estava lá, tomando café, quando ela voltou do quarto. Emily
pensou na hipótese de pedir a Kim Sung que lhe servisse o sanduíche no quarto, mas
acabou tachando essa idéia de ridícula. Reconhecia que havia sido rude com Kyle, e de
nada adiantaria adiar o momento de enfrentá-lo.
— Acabei de telefonar para um laboratório local. — Parou atrás de uma das cadeiras
ao redor da mesa. — Eles vão mandar um técnico para apanhar a carta e, provavelmente,
tirar as suas impressões digitais e as de Kim Sung.
— Maravilha. — Seu rosto estava inexpressivo, e ele não desviou os olhos da piscina,
ao falar. — Você providenciou mais alguma distração para mim?
— Eu estou fazendo o meu trabalho, Kyle. — Suas mãos pressionaram o encosto da
cadeira. — Ignorar a carta é uma atitude infantil. O problema existe, é sério e precisa ser
resolvido.
— Por você.
— É, por mim. — Sentou-se apoiou os cotovelos na mesa e começou a massagear as
têmporas, descrevendo círculos imaginários com as pontas dos dedos.
— Ótimo. Então vá em frente e... — Calou-se, ao olhar para ela. — Está sentindo
alguma coisa, Emily?
— Uma dor de cabeça à toa. Você tem algum comprimido em casa? Não achei
nenhum na minha bolsa.
Ele se levantou imediatamente.
— Vou buscar uma aspirina.
Entrou na cozinha, chamando Kim Sung. Deu ordens ao empregado para preparar um
lanche para Emily.
— Você precisa comer alguma coisa — insistiu, quando ela afirmou que não estava
com fome. — Não é de admirar que esteja com dor de cabeça. — Levantou-se e começou
a massagear-lhe o pescoço e os ombros.
Os dedos dele pressionavam alguns pontos específicos, aliviando a tensão dos
músculos. Emily fechou os olhos. O início da tarde fora bem diferente do que eles haviam
imaginado.
Deveriam estar terminando de almoçar agora. Kim Sung iria embora, e as mãos de
Kyle não massageariam apenas o pescoço dela, mas todo o corpo; sua boca a faria
delirar e...
Com um movimento abrupto, Emily se levantou.
— Estou bem melhor agora, obrigada. — Felizmente, Kim Sung entrou com a bandeja,
o que deu a ela alguns momentos para se recompor. Não podia permitir que, mais uma
vez, a atração que sentia por Kyle a impedisse de raciocinar, de analisar os fatos com
objetividade e frieza.
Talvez Kyle conseguisse encarar as cartas com pouco caso. Ela, porém, não conseguia

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afastar aquelas duas frases do pensamento: "Você vai levar o seu" e "Breve, Spencer,
muito breve". Ameaças pelo correio ou por telefone aconteciam com mais freqüência do
que a maioria das pessoas supunha. Geralmente eram dirigidas a grandes empresários
ou artistas famosos. A Forrester Investigações já havia cuidado de mais de um desses
casos. Embora tivesse uma certa experiência no assunto,? Emily nunca vira nada que se
comparasse à frieza, à objetividade assustadora daquelas duas cartas. Quem quer que
fosse? o autor, era um mestre na arte de expressar, em tão poucas, palavras, sentimentos
como ódio, ressentimento e vingança. Um; calafrio percorreu-lhe o corpo. Dos homens
que já havia visto em igual situação, Kyle era o único que não demonstrava medo, mais
ainda, que se dava ao luxo de fazer piadas a respeito. Por isso mesmo, de todos era o
que corria mais perigo.
Quando os dois técnicos se retiraram, Emily foi até o quarto telefonar para o chefe. O
laboratório mandaria o resultado diretamente para Wally, mas ele prometeu colocá-la a
par de tudo.
— Isto é, se eu conseguir encontrá-la — acrescentou com ironia, antes de desligar.
Um pouco mais de sal nas feridas. Ela merecia, mas nem por isso a dor era menor.
Cobriu o rosto com as mãos. Sentia-se exausta. O dia fora agitado, e tudo o que ela
desejava naquele momento era mergulhar na cama e dormir até a manhã seguinte. Mas
de que adiantaria fugir dos problemas por algumas horas?
Respirou fundo e saiu do quarto, à procura de Kyle. Encontrou-o na piscina, cruzando a
água com braçadas longas e vigorosas. Sentou-se, observando-o, enquanto ele
atravessava a piscina de ponta a ponta. Nunca havia conhecido um homem tão seguro de
si. Kyle era uma daquelas pessoas destinadas a vencer em tudo na vida. A palavra
"derrota" não tinha significado para ele.
E ela, com toda certeza, representara uma de suas vitórias mais fáceis, refletiu com
amargura.
Ele saiu da água e pegou uma toalha. Seu corpo molhado brilhava à luz do sol daquele
final de tarde.
— Terminou? — perguntou, sentando-se ao lado dela e enxugando o peito.
— Por hoje, sim. — Ela se levantou e foi para o outro lado da varanda, de onde se
podia avistar o mar. A linha do horizonte era agora de um suave tom rosado, quase
indistinta com a chegada do crepúsculo.
Kyle parou atrás de Emily, os dedos subindo e descendo pelos braços dela.
— Então o trabalho está encerrado por hoje — falou, com voz terna e insinuante.
Emily deu alguns passos para a frente.
— Não para mim. Meu chefe acabou de me lembrar que estou aqui a serviço e que
preciso ficar atenta vinte e quatro horas por dia.
— Tenho a impressão de que ele foi severo demais com você. Eu bem que gostaria de
ter uma conversinha com ele a esse respeito. É só você dizer e eu.. .
— Não! — interrompeu-o com veemência. — Wally está certo. Eu devia ter feito o meu
trabalho, em lugar de... — Não teve coragem de concluir a frase. — Olhe, vamos deixar
esse assunto de lado. É como se nós estivéssemos andando em círculos.
— Por mim, tudo bem. Que tal um drinque, enquanto decidimos sobre o jantar?
— Acho que estou mesmo precisando de um.
Kyle foi até um canto da varanda, onde Kim Sung mantinha permanentemente uma
mesinha com bebidas, copos e gelo.
—- Nós podemos sair — falou, enquanto preparava dois uísques — ou jantar aqui
mesmo. Kim Sung deixou uma torta no forno e salada na geladeira.
— Onde ele está?
— Saiu. — Ergueu seu copo como se brindasse à ausência de Kim Sung. — Eu lhe
dei alguns dias de folga.
Então eles estavam a sós... O coração dela disparou por antecipação. "Pare com isso",

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recomendou a si mesma, lutando contra a emoção que mais uma vez traía seus
propósitos de se concentrar apenas no trabalho.
— Eu estou um pouco cansada e, se você não se importa, prefiro jantar em casa —
disse, tentando aparentar naturalidade. — Vou até a cozinha preparar tudo.
— Não há pressa. Tome o seu uísque primeiro.
— Pode deixar, eu levo o copo comigo. — E escapou da varanda.
A noite estava agradável, e Emily arrumou a mesa na varanda mesmo. Quando estava
tudo pronto, colocou as travessa com a comida, uma bandeja com frutas e o café num
carrinho de madeira.
Assim que terminaram, ela começou a tirar os pratos.
— Deixe isso para depois, Emily. Não quer tomar um licor?
— Não, obrigada. —- Enquanto falava, ia colocando a louça sobre o carrinho. — Estou
com uma dor de cabeça horrível e quero ir dormir assim que terminar de dar um jeito na
cozinha.
— Dor de cabeça? Pensei que uma mulher inteligente como você fosse capaz de
pensar numa desculpa mais original.
— Há uma série de motivos para que eu não fique aqui
com você, Kyle — A voz soou trêmula e as mãos também
não estavam firmes. — Mas não estou com disposição para discutir isso agora. Quer
você acredite, quer não, a minha dor de cabeça não é. uma desculpa.
— Tensão — falou Kyle, caminhando na direção dela.
Se agisse rápido, ela poderia colocar aquele carrinho pesado entre eles. No entanto,
continuou imóvel, sentindo-se indefesa como um coelho preso numa armadilha.
— Conheço um método excelente para acabar com a sua tensão — falou Kyle
suavemente, abraçando-a pela cintura. — E você vai gostar — sussurrou, beijando-lhe o
pescoço, o queixo e finalmente os lábios.
Seria tão fácil ceder, pensou Emily, deixar que a língua dele explorasse sua boca,
atender aos apelos de seu corpo, que ansiava pelas carícias de Kyle.
— Não, Kyle... — suplicou, tentando libertar-se. — Eu não posso. .. Tente entender,
por favor. — Deu um passo para trás, mas o carrinho estava lá, bloqueando-lhe a
passagem.
— Entender o quê? — ele perguntou, segurando-a pelos pulsos. — Essa sua
preocupação ridícula com ética profissional ou sei lá o quê? — Puxou-a de encontro ao
peito. — Se o problema é esse, querida, desista desse trabalho. Não é o único emprego
do mundo.
— Desistir? Quem lhe deu o direito de... — Apoiou as mãos no peito dele e tentou
empurrá-lo. — Solte-me, Kyle. Vá para ò inferno!
— Eu quero você, Emily. — Agarrou-a pelos braços, tentando beijá-la, mas ela virou a
cabeça. O carrinho estava travado e não se moveu, quando os dois se chocaram contra
ele, derrubando uma garrafa e copos no chão. — Você vai ser minha aqui e agora —
afirmou, o rosto a poucos centímetros do dela.
— Isso é o que você pensa, eu. .. — Kyle calou-a com um beijo, mas Emily continuou
a resistir, batendo com os punhos fechados nos ombros dele. — Fui treinada para
enfrentar estupradores — falou, desafiando-o com o olhar.
Kyle caiu em si e largou-a tão de repente que Emily quase perdeu o equilíbrio.
— Desculpe — murmurou, ofegante, passando as mãos pelos cabelos. — Acho que
mereci ouvir isso. — Foi até o bar, colocou um pouco de uísque num copo e bebeu de um
só gole. — Se está esperando uma explicação, sinto muito, não quero falar nisso agora.
— Eu vou buscar uma pá e uma vassoura para limpar estes cacos. — A voz soou
natural, embora a mente estivesse um verdadeiro caos.
— Pode deixar, eu mesmo cuido disso. Preciso fazer alguma coisa para não pensar. . .
Eu gostaria de ficar sozinho. Boa noite, Emily.

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Ela continuou imóvel durante alguns segundos, olhando para ele. Qualquer coisa que
dissesse naquele momento só tornaria o clima ainda pior. Além disso, ela não saberia o
que dizer.
— Boa noite.
Emily custou a pegar no sono. Ouvia cada um dos movimentos de Kyle pela casa, o
som ampliado pelo silêncio da noite. Só muito tempo depois ele foi para o quarto.
Ela se levantou então, vestiu um robe e saiu pela porta-janela que dava para o jardim.
O luar iluminava o caminho até a praia. Sentou-se sobre uma pedra, o olhar perdido no
movimento das ondas que chegavam até a areia.
Só mais um dia, um único dia com Kyle. Mesmo depois do que havia acontecido
naquela noite, sabia que seria difícil ficar distante dele enquanto estivesse naquela casa.
O que deveria fazer? Telefonar para Wally, contar-lhe tudo e pedir para ser substituída?
"Ele vai me despedir", pensou. E ela se recusava a jogar fora a posição que lutara para
conquistar na Forrester Investigações simplesmente porque não conseguia resistir ao
fascínio de Kyle.
Um dia não era tanto tempo assim. Por acaso não seria capaz de manter as emoções
sob controle durante algumas horas? Bastaria que se concentrasse em sua missão e. . .
nas cartas. Sentiu um calafrio, ao pensar naquelas ameaças. "Breve, Spencer, muito em
breve." Quando? Naquela noite?
Voltou para o quarto, vestiu-se e saiu outra vez. Deu a volta na casa, percorreu o
jardim, a área da piscina e foi até o portão. Estava tudo calmo, e ela não notou nenhum
movimento suspeito. Finalmente, exausta, foi para o quarto, vestiu a camisola e atirou-se
na cama.
O relógio da sala bateu três horas, e Emily ainda não havia conseguido dormir.
Pensava no último bilhete, e aquela angustiante sensação de que deixara escapar alguma
coisa continuava a atormentá-la.
Os primeiros raios de sol que entraram pelas frestas das venezianas encontraram
Emily de olhos abertos. Agora sabia o que a estivera perturbando. A última carta fora
enviada para a casa de Kyle em Oahu. Como o seu autor podia controlar os passos de
Kyle a ponto de saber quando ele estaria no Havaí? Tremendo, Emily puxou as cobertas
até o pescoço. Não podia ser precipitada. Precisaria investigar uma série de detalhes,
antes de ter certeza.
Ainda assim, tinha a terrível sensação de que já sabia a resposta antes mesmo das
investigações.
A pessoa que mandara as cartas não era um estranho sem rosto, mas alguém muito
ligado a Kyle.

CAPÍTULO VII

Eram quase sete horas quando Kyle ouviu Emily sair. do. quarto. Pouco depois, o
aroma de café fresco espalhou-se pela casa. Dormira mal, e sua cabeça doía em
conseqüência das doses de uísque que havia tomado na noite anterior. O pior de tudo,
porém, era a lembrança daquela cena desastrosa com Emily. "Você estragou tudo,
Spencer", disse para si mesmo. Era incrível! Controlava companhias que movimentavam
milhões de dólares, era responsável por centenas de empregos e, no entanto, permitira
que uma garota o transformasse àquele ponto. Garota? Não, uma mulher, a mais decidida
que já conhecera, de idéias bem definidas e que seguia apenas a própria cabeça.
Nenhuma outra o atraíra tanto. Fechou os olhos, imaginando-a nua em seus braços, o
corpo rijo, a pele aveludada... O que o exasperava era a certeza de que ela também o
desejava. Por que então lutava tanto contra isso? Quando Emily assumia aquele ar frio e
distante, erguendo um muro invisível entre eles, despertava nele os instintos mais

Projeto Revisoras 43
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primitivos, um desejo selvagem de possuí-la à força, de...
"Eu teria sido capaz de chegar a esse ponto?", perguntou-se. Na noite anterior, estivera
bem próximo disso. Esse pensamento revoltou-o. Nunca mais, jurou. Nunca agiria de uma
forma tão indigna novamente.
Levantou-se e foi até o banheiro em busca de uma aspirina. Um homem civilizado não
podia permitir que as emoções o levassem tão longe. Sorriu, ao ver o próprio reflexo no
espelho: barba por fazer, cabelos despenteados, aquele nariz ligeiramente adunco. . .
Parecia mais a imagem de um bárbaro que de um homem civilizado.
Emily servia-se de uma segunda xícara de café quando Kyle entrou na varanda. Pelo
visto, ele também acordara cedo. Estava barbeado, os cabelos ainda úmidos do banho.
Usava jeans e uma camiseta pólo. O rosto, um tanto abatido, indicava que não havia
dormido bem.
— Bom dia — falou, ocupando a cadeira do outro lado da mesa.
— Você quer ovos com bacon ou alguma outra coisa? — perguntou Emily, evitando
olhar para ele.
— Não, só café. Não se preocupe, eu mesmo me sirvo.
Emily continuou comendo uma fatia de abacaxi e, de quando em quando, olhava para
ele disfarçadamente. Kyle tomava o café em pequenos goles, segurando a xícara comas
duas mãos, olhar distante. Estava um tanto pálido, com olheiras. Quanto teria bebido, na
noite anterior? Talvez fosse melhor esperar que ele terminasse o café, antes de falar nos
bilhetes. Tinha a sensação de que ele não iria gostar do que ela tinha para dizer.
Kyle colocou a xícara sobre o pires e acendeu um cigarro, durante alguns instantes,,
distraiu-se acompanhando com o olhar os círculos de fumaça que subiam em direção ao
teto.
— Acho que lhe devo um pedido de desculpas — falou de i repente. — Não sei o que
deu em mim, ontem à noite.
— Esqueça. — Emily colocou os talheres sobre o prato e, : tomando coragem, falou: —
Nós precisamos conversar sobre o j bilhete que chegou ontem.
— Aquele maldito bilhete outra vez.
— Você não acha estranho que ele tenha sido enviado para cá?
— Nem um pouco. Esta casa é minha, lembra-se?
— Mas foi o primeiro que veio para o Havaí, certo? — insistiu.
Ele pensou um pouco antes de responder:
— Acho que sim. Onde você quer chegar?
— O que Kym Sung faz com a correspondência?
— Manda as contas para o meu contador e as cartas pessoais para a minha casa em
Los Angeles. — Deu uma tragada, sem tirar os olhos de Emily. — Sei o que você está
imaginando e a resposta é sim. Eu saberia, se alguma dessas cartas anônimas tivesse
sido enviada para cá antes.
— Você recebeu alguma carta na sua casa em Los Angeles?
— Que inferno, Emily! Não estou, com disposição para enfrentar um interrogatório.
— Não entende que esses detalhes são importantes, Kyle? — Estava tão irritada
quanto ele. — Eu preciso ter certeza de que, até ontem, as cartas haviam sido enviadas
apenas para o escritório. Por favor, não dificulte as coisas.
— Está bem — concordou, com ar resignado. — Eu recebi duas cartas no escritório
em Los Angeles. Uma terceira foi para o meu escritório em San José, quando eu estava
lá, tratando de assuntos da companhia. A última foi a de ontem.
— Quanto tempo você ficou em San José?
Não me lembro bem. . . Acho que dois dias. Vamos, Emily, abra o jogo. É óbvio que
você não está fazendo tantas perguntas à toa.
— Só ontem à noite eu percebi que havíamos passado por cima de um detalhe
importante.

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— Que interessa saber para onde esse maluco mandou as cartas? — ele perguntou,
com ar cético.
— Você não percebe, Kyle? A sua programação de viagens não é publicada nos
jornais, é? E se por acaso alguém ligar para
O seu escritório em Los Angeles, na sua ausência, a sua secretária não vai informar
sem mais nem menos onde você está. — Inclinou-se sobre a mesa e olhou bem para ele.
— Kyle, quem quer que esteja escrevendo essas cartas sabe de todos os seus
movimentos.
Ele se levantou e deu alguns passos pela varanda, e então voltou-se para Emily.
— Essa sua conclusão não me agrada nem um pouco. Além disso, ela é fantástica,
absurda.
— Pois eu acho que ela faz muito sentido. Quer você goste, quer não, o fato é que não
estamos lidando com um estranho. Um psicopata talvez, mas não um estranho — insistiu.
Kyle apoiou as duas mãos na mesa e encarou-a quase com raiva.
— Você está insinuando que algum dos meus funcionários está por trás de tudo?
— É uma hipótese bem viável. Quantas pessoas costumam saber com antecedência
das suas viagens?
— Muitas. Que diabo! Minhas viagens não são um segredo de Estado. Escute bem,
Emily: eu confio nas pessoas que trabalham para mim e não tenho nenhum motivo para
duvidar da lealdade delas. Você não vai me convencer dessa sua teoria maluca.
— Teoria maluca? — repetiu, levantando-se, o rosto vermelho de raiva. — Você pode
se recusar a enxergar os fatos, pode até mesmo fazer pouco caso das ameaças que vem
recebendo, mas...
— Ameaças?. Já estou cansado de ouvir essa palavra. Você e tia Clarinda têm a
mesma tendência para o exagero.
— E eu começo a achar que você está fazendo gênero. Ninguém, no seu lugar,
encararia essas cartas com tanta indiferença.
— Acontece que eu me recuso a deixar que um imbecil qualquer estrague o meu
último dia no Havaí com brincadeiras de mau gosto.
Quando a discussão atingiu esse ponto, Emily desistiu de replicar. Brincadeira de mau
gosto... Kyle não tinha mesmo a menor noção do perigo que estava correndo. Ela, porém,
estava convencida de que encontrara a primeira pista.
— Vou telefonar para Los Angeles.. — Kyle parecia aliviado com o final da discussão.
— Quero saber como estão as coisas no escritório.
Quando ele saiu, Emily começou a tirar os pratos. Saber como estavam as coisas no
escritório ou conversar com Noel Harrington? Sem que pudesse impedir, um ciúme
irracional tomou conta dela. Como seria a secretária de Kyle? Podia apostar como era
jovem e bonita. E, a julgar pelos comentários do pai dele, muito simpática também. E
Kyle, com certeza, não havia ficado indiferente a tantas qualidades, se até a levava para
passar alguns dias em Kauai. O que teria acontecido entre eles, longe da rotina do
escritório, naquele clima romântico do Havaí? "Pare de. bancar a idiota." No dia seguinte,
voltariam para Los Angeles e ela nunca mais veria Kyle Spencer; o que acontecera entre
eles não significava nada. Uma relação puramente física, sem um envolvimento maior,
sem compromissos. E não era isso o que ela queria? Não havia jurado, após o desastre
de seu casamento, jamais envolver-se seriamente com outro homem?
Quando Kyle voltou para a varanda, ela já havia tirado a mesa e estava dobrando a
toalha.
— Para que tanto trabalho? — perguntou ele.— Você podia ter deixado tudo para Kim
Sung. Ele vai passar por aqui mais tarde, para dar um jeito na casa.
— Como estão as coisas no front? — quis saber Emily, sem conseguir evitar uma
pitada de ironia na voz.
— O número habitual de problemas. Nada que não possa esperar. Estou com vontade

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de ir a Honolulu agora de manhã e talvez até Hanama Bay também. Você ainda está
brincando de cão de guarda?
Emily mordeu o lábio, reprimindo uma resposta irritada. Não queria provocar uma nova
discussão.
— Estou. Você vai sair já? Estou aguardando um telefonema do meu chefe.
— Você tem vinte minutos. Depois disso, vou sair, com ou sem você. Só tenho mais
um dia para descansar e me distrair, e é isso o que pretendo fazer.
Saiu em busca do equipamento de mergulho, assobiando despreocupadamente. Em
vez de esperar o telefonema de Wally, Emily decidiu ligar para ele.
— Acabo de receber o relatório do laboratório — disse Wally.
— E então?
— As únicas impressões digitais encontradas batem com as de Spencer e do
empregado. Droga! Continuamos na estaca zero. — E a voz dele deixava claro de quem
era a culpa.
Emily não tinha muitas esperanças de que o relatório lançasse alguma luz sobre o
caso, mas, ainda assim, ficou desapontada.
— E Spencer? — perguntou Wally. — Está mais disposto a cooperar?
— Não. Ele ainda se recusa a levar as ameaças a sério. Wally, esses bilhetes estão me
deixando cada vez mais preocupada. Talvez você consiga mostrar a ele a gravidade da
situação, quando voltarmos a Los Angeles.
Wally resmungou qualquer coisa no tom rabugento de sempre. Antes de desligar,
recomendou que Emily pegasse o bilhete no laboratório. Não havia sentido em pagar
tarifas aéreas, já que ela estava lá.
Ainda aborrecida com os resultados negativos do exame, telefonou para o laboratório,
comunicando que passaria para pegar o bilhete na manhã seguinte, a caminho do
aeroporto.
— Imagino que você já saiba que não encontramos nada — falou o técnico.
— Meu chefe acabou de me colocar a par das boas novas.
— Se isto a faz sentir-se melhor, Srta. Summers, eu tenho quase certeza de que
alguém teve o cuidado de limpar o papel antes que o Sr. Spencer colocasse as mãos
nele. Não posso provar, no entanto aposto o meu pescoço nisso.
Kyle misturou-se à multidão, no Mercado Internacional de Honolulu, com uma Emily
apreensiva seguindo-o de perto. Quando ele havia dito que queria se divertir no seu
último dia no Havaí, ela não. imaginara que ele pretendesse fazer um tour pelas atrações
turísticas da cidade.
Kyle comprou uma flor vermelha, colocou-a atrás da orelha de Emily e deu-lhe um beijo
carinhoso no rosto.
O clima de férias, em meio a tantas pessoas fazendo compras, era contagiante. Kyle
não se interessou pelo perfume forte, uma essência de jasmim que, segundo a
vendedora, continha, uma poção de amor vinda do Oriente. Em vez disso, preferiu
presentear Emily com um patinho amarelo, de plástico, cujos olhos se mexiam ao menor
movimento. Ela sorriu e agradeceu, imaginando a reação de Holmes e Watson quando
vissem o brinquedo.
— E os seus irmãos? Você não pode voltar de mãos vazias, Emily.
Ela concordou e comprou camisetas e shorts para todos. Quando voltaram para o
carro, carregados de pacotes, ela se sentia como uma típica turista em férias no Havaí.
Almoçaram no terraço de um restaurante com vista para a praia de Waikiki e depois
seguiram pela Pali Highway para o outro lado da ilha.
O coração de Emily palpitava, numa mistura de receio e ansiedade. Hanama Bay. . .
Seria algum outro lugar retirado, onde ela e Kyle ficariam sozinhos?
Quando chegaram a um estacionamento praticamente repleto de carros, ela ficou
aliviada e um tanto decepcionada também. Uma profusão de palmeiras acompanhava a

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praia em toda a extensão. Adiante delas, a areia era fina e quente. Algumas centenas de
metros mar adentro, os recifes formavam uma barreira para as ondas.
Emily vestiu o maio em uma cabine. Quando saiu, Kyle esperava com o equipamento
de mergulho. A água era mais fria" que a da piscina em Kauai. Kauai. . . Foi impossível
impedir que as recordações daquela tarde tão especial voltassem. Algum dia conseguiria
esquecê-la? Colocou a máscara, consciente de que Kyle a observava. Era óbvio que ele
estava pensando na mesma coisa.
Mergulhou, determinada a esquecer aquelas horas de amor nos braços de Kyle. No
entanto, ele parecia conspirar contra aquela decisão. Esbarrava nela constantemente,
tocava-a para. mostrar-lhe ora um peixe de aparência exótica, ora uma planta delicada,
ora uma anêmona marinha.
Quando voltaram à superfície, deitaram-se lado a lado na areia. Emily sentia-se
esgotada pela batalha que travara consigo •mesma durante todo o "dia. Se por um lado
tinha consciência da necessidade de evitar qualquer contato mais íntimo com Kyle, por
outro desejava ardentemente reviver aquela tarde em Kauai. Nunca se sentira tão dividida
antes. E pensar que na noite anterior encarara com desânimo as longas horas que a
separavam do momento de voltar a Los Angeles... Agora que o Sol começava a cair,
surpreendia-se ao constatar que o dia já estava terminando. Só lhe restava uma noite ao
lado de Kyle, uma única noite.
O sol foi encoberto por uma nuvem, e Emily estremeceu.
— Frio? — Kyle apoiou-se num cotovelo e olhou para o céu.
— Tenho a impressão de que vai cair uma chuva daquelas, qualquer momento —
afirmou, apontando para as nuvens escuras que começavam a se formar do outro lado
da ilha.
A previsão de Kyle não demorou a se concretizar. Mal entraram no carro, pingos
grossos começaram a bater contra o pára-, brisa. Quase não falaram durante o trajeto.
Aos poucos a chuva foi diminuindo, e um arco-íris desenhou-se no céu.
No dia seguinte, àquela hora, já estaria em casa, pensou Emily, sem conseguir afastar
a melancolia. Aqueles dias no Havaí se transformariam numa lembrança distante, e ela
retomaria a rotina de casos na Forrester Investigações que, agora, lhe parecia tão
monótona.
Quando chegaram, Kyle recolheu a correspondência que estava na caixa do correio.
Eram quatro envelopes, e Emily aguardou, ansiosa, que ele os examinasse um a um.
— Parece que o nosso amigo decidiu nos dar ura dia de folga — Kyle comentou. — Só
contas.
— Você falou bem: um dia de folga. Duvido que esse pesadelo tenha terminado.
— Quem pode saber? De qualquer forma, não tenho o hábito de me preocupar com
antecedência. Prefiro deixar o barco correr e ver o que acontece.
— Nas atuais circunstâncias, essa filosofia de vida é, no mínimo, imprudente.
Entraram na casa, e Emily foi direto para o quarto, ansiosa para tomar um banho.
Enquanto a água removia o sal e a areia de seu corpo, ela pensava na viagem do dia
seguinte, no funde semana com Jenny e os meninos e em qualquer outra coisa que
afastasse Kyle de sua mente.
E se ela levasse as crianças à Disneylândia? Jenny não era problema, mas os
garotos... Saiu do chuveiro e enrolou-se na toalha. Seus três irmãos tinham um talento
especial para desaparecer de repente, sem deixar pistas. Talvez fosse uma boa idéia
comprar uma coleira, não, três coleiras, corrigiu com um sorriso. Os diabinhos, com toda
certeza, a deixariam louca, naquele fim de semana.
Seria bem mais seguro levá-los à praia e ao cinema, refletiu, enquanto secava os
cabelos. Decisivamente, aquela semana ficaria na história.
Kyle preparou um scotch e foi tomá-lo na varanda, à espera de Emily. O chão ainda
estava molhado, e, de quando em quando, um relâmpago riscava o céu, anunciando uma

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outra tempestade.
Uma noite chuvosa combinaria bem com o estado de espírito dele. Levou o copo aos
lábios e surpreendeu-se ao ver que já estava vazio. Nunca se sentira tão ansioso e
agitado, nem mesmo no dia da incorporação da Comptron, uma operação que envolvera
cinco milhões de dólares.
Ele havia planejado aquele último dia no Havaí com todo o cuidado. Nada de pressões
nem atitudes precipitadas, apenas algumas horas de divertimento e distrações. A
pergunta era: por quê? Sem dúvida, queria Emily em sua cama. Contudo, se era uma
simples questão de sexo, havia muitas outras mulheres.
O que a tornava tão diferente, especial mesmo? O fato de que representava um
desafio? Isso ela era, sem dúvida alguma, e também complicada, geniosa, imprevisível,
teimosa como uma mula...
— Kyle?
Emily estava parada na porta, a luz das lâmpadas da sala de estar incidindo sobre os
cabelos ruivos. Atordoado por aquela í visão de rara beleza, Kyle sentiu um nó na
garganta e não ir conseguiu dizer nada.
— O que foi? — perguntou Emily, confusa. — Há alguma \ coisa errada com a minha
roupa? — O macacão verde-água, de alças, formava um bonito contraste com a pele
bronzeada e dava relevo aos ombros perfeitos, aos braços bem I torneados.
— Não, não. Você está... muito bem. — O desejo de abraçá-la, de cobri-la de beijos
era quase incontrolável. Colocou os copo sobre a mesa e acendeu um cigarro. Não podia
se precipitar agora, e colocar tudo a perder. Ela já o olhava um tanto desconfiada, como
um animal surpreendido pelo caçador. — Pensei em levá-la a um luau no Diamond head
Club. O que você acha?
— Eu adoraria. — Por que de repente ele se tornara tão frio e distante? Teria perdido o
interesse por ela? Durante todo o dia, ela havia estranhado o comportamento de Kyle,
exemplar, é verdade, porém tão pouco característico dele. Nada de beijos nem carícias...
— Parece que vai chover.
— Talvez seja melhor levarmos um guarda-chuva. — Kyle atravessou a sala e foi até o
armário do vestíbulo. — Acho que você vai precisar disto na volta — falou, tirando uma
malha branca de um cabide.
Um perfume suave, bem feminino, chamou a atenção de Emily.
— Não sei, eu... — Quem teria deixado aquela malha lá? Noel Harrington? — Você
acha mesmo necessário?
— Nós vamos jantar ao ar livre. Você vai sentir frio, com essa roupa leve. Foi uma
sorte minha mãe ter esquecido esta malha aqui, caso contrário, você teria que usar um
dos meus casacos.
Então era da mãe dele? Teve vontade de cair na risada, como se ele houvesse dito a
coisa mais engraçada do mundo.
No Diamondhead Club foram recebidos por uma moça com os braços carregados de
colares. Um de pétalas amarelas para Kyle. ..
— E um para a sua acompanhante, senhor — falou ela, com um sorriso, oferecendo-
lhe um de pétalas encarnadas.
— Você se importaria, se eu ficasse com o branco?
A moça atendeu-o prontamente. Kyle colocou o colar ao redor do pescoço de Emily,
com a reverência de quem cumpre um ritual sagrado.
— Aloha — murmurou, beijando-a de leve na boca. Aloha. Alô e adeus...
Kyle passou um braço pelos ombros dela e levou-a para a mesa, montada ao ar livre.
Travessas de frutas estavam espalhadas sobre ela, e um aroma delicioso de carne de
porco despertou o apetite de Emily.
Várias moças usando sarong circulavam entre os ocupantes da mesa, oferecendo-lhes
cocos. Emily levou o canudinho à boca e surpreendeu-se ao descobrir que havia uma

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bebida alcoólica no interior da fruta.
A atmosfera não poderia ser mais alegre e romântica ao mesmo tempo. Tudo contribuía
para criar um ambiente de sonho e fantasia: as comidas exóticas, as risadas, os
dançarinos com trajes típicos, as batidas dos tambores taitianos...
Uma moça sorridente ofereceu outro coco a Emily, ao ver que ela estava de mãos
vazias. Que bebida era aquela, afinal? Sua cabeça girava, e ela se apoiou em Kyle.
Sentiu o braço dele rodear-lhe a cintura e os dedos acariciarem-na, traçando círculos
imaginários na altura dos quadris. Emily tinha a sensação de que o tempo voava, e não
havia nada, nada que ela pudesse fazer para detê-lo.
— Vamos para casa, Emily — sussurrou Kyle, beijando-lhe os cabelos.
Só uma noite, ela disse para si mesma, enquanto caminhavam até o carro, e então
tudo estaria terminado. Mas seria uma noite mágica. Um tempo fora do tempo.
A realidade que ficasse para o dia seguinte.
Emily não se lembraria, mais tarde, de ter feito o trajeto até a casa. Mas, agora, lá
estavam os dois, no quarto de Kyle, ele lhe beijava o pescoço, os cabelos, a boca. . .
Estava chovendo, o ruído da água que escorria das calhas transportando-a Para uma
tarde tão especial como aquela noite haveria de ser.
Rodeou o pescoço de Kyle com os dois braços e aproximou os lábios dos dele.
— Parece a cachoeira... — murmurou. — Lembra?
Ele a levou para a cama, onde recordaram juntos, com sensualidade e paixão, cada
momento daquela tarde em Kauai.
Quando Kyle acordou, no meio da noite, sentindo frio, os relâmpagos iluminavam o
quarto, e ele descobriu que estava sozinho na cama. Mais uma vez, Emily havia fugido.

CAPÍTULO VIII

Emily dormiu muito pouco, depois que saiu do quarto de Kyle. A cama pareceu fria e
pouco aconchegante. A chuva, batendo contra a janela, tornava a madrugada ainda mais
melancólica. Puxou as cobertas até o pescoço, esperando que as horas passassem
rápido e o dia amanhecesse. Por que à noite, tudo parecia pior?
Custara-lhe abandonar o quarto de Kyle, o calor do corpo dele, porém sabia que era a
única coisa sensata a fazer. Dormir com ele, acordar na mesma cama de manhã,
significaria um tipo de compromisso. E só da parte dela, disso estava certa. Ela
representara um desafio para Kyle, uma aventura passageira que tornara mais excitante
aquela semana de férias. Era melhor deixar as coisas como estavam. Se não o fizesse,
tinha um bom palpite de que acabaria se machucando.
Felizmente, havia chegado o dia de voltar a Los Angeles, e seu caminho jamais voltaria
a se cruzar com o de Kyle Spencer.
Quando amanheceu, o céu estava limpo, sem nuvens, e o dia Prometia ser quente e
ensolarado. Emily vestiu-se e foi correr na Praia. A areia ainda estava úmida, e o mar
avançara alguns metros. Apesar das poucas horas de sono, fez um percurso de quase
três quilômetros. Nada melhor para descarregar a tensão. Quando voltou, sentia-se
reanimada e com as idéias mais claras. Depois de tomar uma ducha e vestir-se, começou
a arrumar as coisas para a viagem. Levou uns quinze minutos para ajeitar tudo na mala.
Havia comprado tantas roupas. Depois de se certificar de que não deixara nada nos
armários e nas gavetas, foi até a cozinha preparar o café.
Estava colocando o pão na torradeira quando dois braços fortes a enlaçaram pela
cintura, erguendo-a do chão.
— Senti a sua falta — murmurou Kyle, beijando-lhe a ponta da orelha.
Emily desvencilhou-se dele e continuou a arrumar a mesa.
— O café está pronto. — Andava apressada de um lado para o outro da cozinha. —

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Você quer alguma coisa, além de frutas e torradas? Ovos, talvez?
— Um beijo seria ótimo — afirmou, abraçando-a. — E talvez uma explicação para a
sua fuga no meio da noite.
— Kyle, por favor, não há tempo para isso agora. — Mais uma vez, afastou-se dele. —
O nosso avião sai às dez. Espero que você não se importe de tomar o café aqui na
cozinha. O chão da varanda está todo molhado.
— Não, está ótimo assim. — Sentou-se e observou-a atentamente enquanto ela lhe
servia uma xícara de café. — Não pense que está livre, Emily. Você ainda me deve uma
explicação. Mas nós podemos conversar durante a viagem.
Ela não disse nada e foi pegar geléia e manteiga na geladeira. Enquanto comiam,
procurou restringir a conversa a assuntos banais.
— Nós podemos ir para o aeroporto no carro que aluguei — sugeriu, servindo-se de
uma fatia de mamão. — Espero que o vôo seja mais tranqüilo. Sei que é ridículo, mas
sempre fico nervosa, quando o avião atravessa zonas de turbulência.
Kyle não dizia nada, limitando-se a observá-la, os olhos escuros e expressivos
atravessando a barreira que Emily tentava erguer entre eles.
Ela mal conteve um suspiro de alívio, ao ouvir o telefone. Kyle foi atender na sala, e
Emily começou a colocar os pratos na máquina. Já eram oito horas e ela ainda precisaria
parar no laboratório, a caminho do aeroporto. Assim que Kyle estivesse pronto, eles...
— Eu ouvi bem, Sr. Forrester.
Wally. Emily largou a louça na pia e foi para a sala. Ergueu a mão para pegar o fone,
porém Kyle a deteve e continuou a falar:
— Eu entendo a preocupação de minha tia, mas a minha resposta é não. — As
sobrancelhas estavam franzidas, e ele parecia um tanto irritado. — Não, não vou mudar
de idéia, Sr. Forrester. Esta é a minha palavra final. Agora, se quiser falar com Emily... —
Colocou a mão sobre o bocal. — Seu chefe quer me arrumar um guarda-costas em
período integral. Parece que ele, você e minha tia estão querendo me deixar louco. Não
quero ninguém me seguindo como uma sombra. Eu vou tomar banho.
— Wally?
— Nunca vi um sujeito mais teimoso — resmungou Wally. — Posso imaginar o que
você teve de agüentar, estes dias. Eu falei de suas suspeitas a Clarinda e ela ficou muito
preocupada. Para maior segurança, sugeri um guarda-costas, no entanto, Spencer. . .
Bom, você ouviu a resposta dele. Acha que pode convencer essa cabeça-dura a mudar
de idéia?
— Duvido. Wally, e se nós colocássemos alguém para segui-lo?
— É uma manobra bem mais complicada; no entanto, parece a única solução. Você
pegou o bilhete no laboratório?
— Vou passar por lá a caminho do aeroporto.
— Ótimo. Quero vê-la no meu escritório assim que você colocar os pés em Los
Angeles.
E, com certeza, pediria um relatório completo e datilografado antes de dispensá-la.
Emily suspirou e continuou a arrumar cozinha. Aquele seria um longo dia.
No avião, ela tentou voltar ao assunto do guarda-costas.
— Eu gostaria que você pensasse melhor — pediu. -
— Está certo, — Kyle acariciou-lhe o rosto e sorriu. —.j Desde que eu possa escolher
o guarda-costas.
— Kyle...
— Você quer me ver em segurança, não quer? O seu desempenho tem sido perfeito.
Não vejo razão para que outra pessoa ocupe o seu lugar.
A comissária de bordo parou ao lado deles, oferecendo-lhes champanhe e salgadinhos.
O almoço começava a ser servido, e" as interrupções constantes impediam uma conversa
mais pessoal entre eles.

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— Quer jantar comigo esta noite? — sugeriu Kyle.
— Depois de toda esta comida? De qualquer forma, eu vou trabalhar até tarde.
— Amanhã, então.
— Sinto muito, mas não posso. Eu... Ah, acho que vou aceitar um pouco de salada,
sim.
Kyle balançou a cabeça. Não, ele não queria salada. Queria pelo menos cinco minutos
da atenção de Emily com exclusividade. Quando finalmente a comida foi servida e os
copos reabastecidos de champanhe, ele a interpelou um tanto impaciente:
— E o que me diz de sábado? Ou será que a sua agenda para o fim de semana está
completa?
— Receio que sim. —- Falava com a mesma indiferença que adotaria com um
estranho. Sua atenção parecia totalmente concentrada no filé ao molho madeira.
— Emily, você me tira do sério! — O tom era baixo e irritado. — Que inferno! Eu quero
você comigo, e não saindo com outro homem. Cancele o seu encontro, seja lá com quem
for.
— Impossível — replicou com calma. — Quer acredite, quer não, Kyle, eu tenho
assuntos meus, particulares. A minha vida não gira ao redor da sua. Pare com isso, ou
juro que vou procurar outro lugar.
Kyle sabia que ela cumpriria a ameaça. E isso só reforçaria o muro que Emily se
esforçava para erguer entre eles. Se forçasse a situação, ela não hesitaria em sair da vida
dele. Essa perspectiva aborreceu-o mais do que gostaria de admitir. Incrível! Eram tão
íntimos quanto duas pessoas poderiam ser, e, no entanto, não tinha a menor idéia do tipo
de vida que Emily levava. E se ele quisesse fazer parte dela, teria que mudar de
estratégia.
Tomou um gole de champanhe, observando-a atentamente através do cristal.
— E se eu tentasse beijá-la agora? Provavelmente, você me espetaria com o seu
garfo.
— Provavelmente. — A raiva de Emily diminuiu. Seu objetivo era ficar longe da vida
dele, e não fazê-lo consumir-se de ciúme. — Se quer mesmo saber, Kyle, eu não tenho
um encontro. Vou apenas tomar conta dos meus irmãos para que Evelyn e papai passem
o fim de semana fora.
A comissária de bordo interrompeu-os mais uma vez.
— Não, obrigada, não quero sobremesa — respondeu Emily. E antes que ele
retomasse a conversa, falou: — Se você me der licença, eu preciso preparar um relatório.
Kyle não voltou a insistir e, durante o resto da viagem, ocupou-se com alguns papéis
que tirou de uma pasta.
Parecia tão concentrado naqueles documentos que, de quando em quando, Emily
arriscava uma olhadela furtiva. Ao chegarem a Los Angeles, Kyle retomaria o trabalho no
escritório e sua rotina habitual de vida. Com certeza, pensaria nela durante algum tempo.
Talvez até telefonasse. Depois de ouvir as desculpas dela durante uma semana ou mais,
acabaria por mandá-la para o inferno. Kyle era um homem atraente, e uma dúzia de
mulheres devia aguardar um convite dele com ansiedade. Noel Harrington, por exemplo.
Tinha certeza de que tomara a atitude certa, a mais prudente. Se ao menos não se
sentisse tão infeliz. . .
O avião pousou suavemente na pista do aeroporto internacional de Los Angeles.
Ocupados com a bagagem, os dois mal trocaram duas palavras.
— Vou telefonar para você na semana que vem — prometeu Kyle, quando alcançaram
o terminal.
— Ótimo — respondeu, distraída. Acabara de localizar o agente da Forrester
Investigações. Derek Cole poderia ser confundido com um dos muitos homens de
negócios em trânsito pelo aeroporto. Emily tomou o cuidado de não olhar novamente para
ele. Se Kyle descobrisse que estava sendo seguido, tudo iria por água abaixo.

Projeto Revisoras 51
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
— Bom, eu vou tomar um táxi. . . Kyle segurou-a pelo braço.
— Sei muito bem o que está tentando fazer, Emily, e não vai adiantar nada. Você não
vai se livrar de mim. Juro que não. — Deu-lhe as costas e misturou-se à multidão que
circulava pelo aeroporto.
Emily ficou parada até perdê-lo de vista, lutando contra o impulso de correr atrás dele.
Quando Emily entrou em casa, os dois gatos foram ao seu encontro. Watson, dengoso
como sempre, miava e esfregava o corpo nos tornozelos dela; Holmes, mais retraído,
pulou para o sofá, observando-a a distância.
— Holmes, seu malandro! Pare de fingir que não está contente de me ver. — Pegou
Watson no colo e sentou-se no sofá, acariciando o pêlo de Holmes. — Como engordaram!
Pelo jeito, a Sra. Pazic tem mimado bastante vocês.
Levantou-se e foi abrir as janelas para arejar ai casa. Estava cansada e com fome.
Wally a segurara no escritório por mais de duas horas. Depois de cumprimentá-la, num
tom irônico, pelo "lindo bronzeado" que ela havia adquirido no Havaí, ele pedira um
relatório completo sobre a viagem. Emily havia se esmerado naquele trabalho, que
colocaria um ponto final na sua participação no caso Kyle Spencer.
Quando terminara, estava esgotada demais para fazer compras e decidira ir direto para
casa.
Agora contemplava, desanimada, o interior da geladeira: legumes murchos e um queijo
que começava a mofar era tudo o que havia para comer.
Estava indecisa entre dormir de estômago vazio ou sair para comprar alguma coisa,
quando tocaram a campainha.
— Sou eu, Emily — gritou Joy Pazic, abrindo a porta. — Pelo amor de Deus, feche
essa geladeira — pediu, colocando um saco de supermercado sobre a mesa. — Seja lá o
que for que você tenha aí dentro, jogue fora porque está estragado. Que cheiro!
— Se isto é uma sopa de legumes, a senhora salvou a minha vida — afirmou Emily,
sorridente, ao vê-la tirar uma tigela de dentro do saco de papel.
— Acabei de prepará-la, e os legumes são da minha horta. Howard foi até a padaria e
comprou pão fresquinho. Sente-se, menina. Você está tão pálida que até parece que vai
desmaiar.
Movimentava-se pela cozinha, ignorando os protestos de Emily, colocando água para o
chá no fogão e arrumando a mesa. Joy Pazic era uma mulher baixinha e roliça, de
fisionomia enérgica e um coração de manteiga. Howard, seu marido, era um funcionário
público aposentado. Alto e bonachão, gostava de dar a impressão de que era dominado
pela mulher. Mas Emily nunca havia conhecido um casal tão unido, dois temperamentos
tão díspares completando-se com tamanha perfeição.
— Obrigada por ter tomado conta dos gatos, Sra. Pazic — falou Emily, enquanto
tomava a sopa.
— Isso não me custou nada. — Colocou um bule com chá sobre a mesa e consultou o
relógio. — Eu gostaria de ficar e saber das fofocas, .querida, mas está na hora de servir o
jantar de Howard. — Deu um beijo maternal na testa de Emily e foi em direção à porta. —
Vá cedo para a cama. Pelo seu aspecto, eu diria que você não tem dormido bem.
Embora gostasse da companhia da Sra. Pazic, Emily sentiu um certo alívio quando a
vizinha foi embora. Tantas coisas haviam acontecido nos últimos dias... Precisava ficar
sozinha para colocar as idéias em ordem.
Decidiu deixar a louça para o dia seguinte. Como havia prometido, Wally dera-lhe folga
na sexta-feira, e ela teria tempo para limpar a cozinha, a geladeira e arrumar a casa.
Nesse dia não sentia a menor disposição para fazer qualquer coisa.
Levou a mala para o quarto e começou a guardar as roupas e outros objetos. Alguns
vestidos precisariam ir para a lavanderia. Debaixo de sua camisola encontrou a sacola de
papel com os presentes que havia comprado para os irmãos. Tirou de dentro as
camisetas, admirando-lhes mais uma vez as estampas alegres e coloridas. Bem no fundo

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da sacola estava o patinho amarelo que ganhara de Kyle.
Segurou-o, observando, distraída, aquele sorriso tolo, os olhinhos que se moviam. Seu
pensamento voou para aquela manhã no Mercado Internacional de Honolulu. A sensação
era de que haviam decorrido anos, desde então. E no entanto, tudo acontecera no dia
anterior: as compras, o almoço na praia de Waikiki, Hanama Bay e... Deitou-se e fechou
os olhos, o patinho bem junto ao peito. Ah, aquela noite... O clima romântico do luau, a
expectativa que os impedira de trocar uma única palavra no carro, o amor na cama de
Kyle.. .
Mas aquilo pertencia ao passado. Era preciso enterrar as lembranças. Deus, algum dia
conseguiria esquecer aquela semana no Havaí? Estava tudo acabado. Não tinha mais
nada a ver com o caso. Sua missão fora cumprida e... Sentou-se na cama, o coração aos
saltos. Isso significava que Kyle não era mais um cliente, raciocinou. Agora, as
circunstâncias eram outras e nada os impedia de ficarem juntos. Levantou-se e começou
a andar de um lado para outro do quarto, subitamente reanimada por aquele sinal de
esperança. Talvez agora houvesse uma chance de...
Não, não, era loucura. Embora ela não tivesse mais qualquer ligação com aquele caso,
Kyle ainda era cliente da agência. Envolver-se com ele significaria passar por cima da
ética profissional, violar a linha de conduta que ela sempre fizera questão de seguir desde
que havia entrado para a Forrester Investigações.
Jogou o patinho dentro do armário e foi para o chuveiro. Felizmente, no dia seguinte,
as crianças chegariam, e ela estaria tão atarefada que não teria tempo para pensar em
mais nada. Assim que saísse do banho, telefonaria para Evelyn, a fim de avisá-la de que
já estava em Los Angeles. Faria também uma lista de compras. Salgadinhos, bolachas,
chocolates, ia anotando mentalmente. E peras. Jenny adorava peras.
Emily dormiu até tarde, na manhã seguinte, e aproveitou o I seu dia de folga para tomar
o café tranqüilamente, lendo o jornal. A calmaria depois da tormenta, pensou um tanto
melancólica.
Depois de lavar a louça, fez a sua programação para o dia. Não havia sentido em
perder tempo limpando a casa, quando quatro crianças estavam para chegar. O mais
importante, no momento, era abastecer a geladeira.
Quando voltou do supermercado, carregada de pacotes, viu Howard Pazic podando as
roseiras. Ele largou a tesoura no chão e correu para ajudá-la.
— Puxa, Emily, aqui tem comida para um batalhão! — comentou, sorridente. Embora
os cabelos já estivessem quase totalmente brancos, Howard era dono de uma energia
inesgotável e de uma jovialidade pouco comum num homem de sua idade. Aposentado,
preenchia as horas do dia com uma intensa atividade: exercícios pela manhã, jardinagem
e os cuidados com a horta que tinha atrás da casa.
— As crianças vão ficar comigo no fim de semana — explicou Emily, enquanto
colocavam os pacotes sobre a mesa da cozinha. — E, para elas, não há o que chegue.
— Quer dizer que o trio terrível está de volta — comentou Howard, com bom humor. —
Lá se vão os meus tomates, as rosas...
— Não se preocupe, Sr. Pazic, eu não vou permitir que eles cheguem perto da sua
horta ou do jardim.
— Minha querida, você não pode confinar três crianças dentro de casa. Posso colocar
os frios na geladeira? Elas precisam gastar as energias. Além disso, mesmo que fiquem
do seu lado da cerca, sempre haverá bolas, aviões e outras coisas para invadirem o meu
domínio — brincou. — Isto sem falar de como é excitante entrar em território proibido.
Emily caiu na risada. Os Pazic eram mesmo pessoas especiais.
— Graças a Deus, o senhor não é um vizinho rabugento. Se fosse, depois do fim de
semana, nós provavelmente estaríamos de relações cortadas. Quer um biscoito?
Uma hora mais tarde, a perua de Evelyn estacionou diante da casa de Emily. Jenny foi
a primeira a descer, seguida pelo "trio terrível", carregado de brinquedos, colchonetes e

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sacolas. Pelo menos Beau, o cachorro, não os acompanhara. Por causa dos gatos,
Evelyn pedira a um vizinho que cuidasse dele. Depois de abraçar a enteada, Evelyn
passou a coordenar as manobras com a habilidade e a autoridade de um sargento.
— Não, Steve, você não vai dormir sob as estrelas, coloque essa tenda de volta no
carro. Tire esse skate do caminho antes que alguém caia, Todd. Brent, pegue a valise da
sua irmã. Vamos, Jenny, dê a valise para ele. Ela é muito pesada para você. OK, pessoal,
todos para dentro de casa. Quero ver tudo arrumado daqui a dez minutos. Espero que
não se arrependa, querida — falou, dirigindo-se a Emily, — Você parece um tanto abatida
— comentou, os olhos argutos examinando o rosto da enteada.
— Impressão sua, Evelyn. Eu estou ótima. Juro.
— Olhe, tenho certeza de que seu pai não se incomodará de esperar alguns minutos.
Não quer conversar um pouco?
— Quer parar de se preocupar? — Passou o braço pelos ombros da madrasta e levou-
a até o carro. — Se não se apressar, vocês vão acabar saindo na hora do rush.
— Está certo. Mas, quando eu voltar, prometa que... .
— Está prometido. Ei, meninos! A mamãe já vai.
Os garotos saíram correndo da casa, seguidos de perto por Watson, visivelmente
encantado com a algazarra. Jenny apareceu por último, carregando Holmes, que olhou
para Emily como que dizendo: "Em que bela trapalhada você nos meteu".
Assim que Evelyn foi embora, Emily ajoelhou-se ao lado da irmã.
— Olhe, querida, é melhor você deixá-lo comigo. Ele é um tanto mal-humorado.
— Eu não acho. Ele é muito bonzinho. — E abraçou o pobre Holmes com mais força
ainda. Seu cabelo era claro como o de Emily, e os olhos tinham a mesma tonalidade
esverdeada.
— Ah, sim, ele é muito bonzinho. Mas o pobre Watson, aqui, vai achar que você não
gosta mais dele.
Uma vez livre, Holmes escalou a cerca dos Pazic e saltou para o outro lado. Brent e
Steve brincavam com uma bola e luvas de beisebol, enquanto Todd fazia manobras
arriscadas com o skate.
— Muito bem, pessoal, ouçam todos! — gritou Emily, assumindo o comando. — Antes
de mais nada, vamos nos organizar. — Os meninos tinham vindo preparados para
acampar no quarto de hóspedes, que ainda não estava mobiliado; Jenny dormiria com
Emily.
— Ei, Emily, você viu onde foi parar a bola? — perguntou Steve.
— Achei! — gritou Brent.
Emily olhou para o menino, que vinha do jardim dos Pazic. As petúnias, tão bonitas e
viçosas até poucos instantes, estavam parcialmente pisoteadas.
"Deus, vai ser um longo fim de semana", pensou Emily.
— Vamos entrar, meninos. Se vocês arrumarem as suas coisas bem rapidinho, nós
poderemos sair para comer uma pizza.
No domingo de manhã, em lugar de continuar tentando manter o "trio terrível" longe do
jardim e da horta de seus vizinhos, Emily decidiu levar todos à praia. Voltaram às seis
horas, e, fora um ou outro contratempo, o dia foi bem divertido. Todos, e Emily mais do
que qualquer um, estavam cansados e famintos, depois do exercício ao ar livre.
Enquanto as crianças se distraíam vendo televisão, Emily foi à cozinha preparar
hambúrgueres para o lanche.
— Acabaram as batatas fritas — reclamou Todd, depois de inspecionar o armário da
cozinha.
— Não é possível, eu comprei cinco pacotes. — Ela foi examinar o armário
pessoalmente. — É, acabou mesmo. Que tal algumas bolachas e. .. Não, querida, eles
não vão comer isso agora. — Jenny pegara a caixa de comida para gatos, e estava
espalhando porções generosas pelo chão. — Brent — gritou. — Diminua o volume dessa

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televisão.
— Ei, Emily, olhe só. — Steve entrou na cozinha, equilibrando-se sobre o skate.
— Cuidado, Steve, você vai...
Tarde demais. Ele deu uma trombada em Jenny, que caiu sentada em cima do rabo de
Holmes. Holmes, mais furioso do que machucado, atacou Watson.
— Briga de gatos! Briga de gatos! — gritaram os meninos, entusiasmados.
— Eu vou contar até três e então não quero ver mais ninguém nesta cozinha! —
berrou Emily, ao mesmo tempo que acudia Jenny e tentava separar os gatos com o pé. —
E levem este skate antes...
— Ei, Emily! — gritou Brent, da sala. — Tem um cara aqui na porta.
— Oh, Deus! — exclamou. — Seja lá o que for que ele esteja vendendo...
— Ele não está vendendo nada. — Kyle apareceu na cozinha e, com toda a calma,
acrescentou: — Os meus hambúrgueres estão se queimando, Emily.
Sem perder tempo, abriu a janela para que a fumaça saísse e, depois de arregaçar as
mangas, tirou os hambúrgueres queimados da chapa.
Os meninos começaram a se aproximar, cautelosos, e, quando Kyle os mandou limpar
o chão da cozinha, repleto de flocos de comida para gatos, obedeceram sem replicar.
Emily sentou-se com Jenny no colo, aturdida demais para dizer qualquer coisa além
de:
— Kyle, o que está fazendo aqui?
— Eu não havia acreditado muito naquela sua história de bancar a babá — explicou,
virando os hambúrgueres na chapa.
— Podem sentar-se, meninos, os primeiros já vão sair.
— Também quero — falou Jenny, saltando do colo de Emily.
— Você fez um para mim?
— O mais caprichado de todos. Pronto. Você consegue cortá-lo sozinha?
— Claro. Não sou um bebê. Tenho cinco anos.
— Ela é a sua cara, Emily — comentou Kyle, enquanto servia os meninos. — E parece
tão auto-suficiente quanto você
— acrescentou, com um sorriso.
Era a primeira vez que seus olhares se encontravam. De repente, Emily lembrou-se de
que estava com uma aparência horrível. Usava uma camiseta por cima do biquíni, e o
cabelo, ainda úmido, estava um tanto desgrenhado.
— Eu mesma termino isso, Kyle. Parece que o ambiente está mais calmo — falou,
apontando para as crianças, distraídas em colocar catchup, mostarda e maionese nos
hambúrgueres.
— Nada disso. Sente-se com as crianças e coma. Eu vou começar a preparar a
segunda rodada. Aposto como essa turma está com uma fome de leão.
Emily percebeu que ele estava se divertindo e obedeceu sem replicar.
Sob a supervisão de Kyle, os meninos revezaram-se no chuveiro, sem maiores
problemas. Enquanto vestia o pijama em Jenny, Emily podia ouvir as risadas no banheiro
e, de vez em quando, a voz calma, porém firme, de Kyle, controlando a brincadeira. A
menina aninhou-se sob as cobertas e Emily deitou-se ao lado dela para contar-lhe uma
história. Bem antes do "... e foram felizes para sempre", Jenny já estava profundamente
adormecida. Emily apagou a luz do abajur, cobriu a irmã e deu-lhe um beijo carinhoso no
rosto.
Foi então que viu Kyle parado na porta, braços cruzados, apoiado no batente. Sua
silhueta recortava-se contra a claridade do Corredor, e Emily engoliu em seco, sufocando
o desejo de abraçá-lo, de sentir aquele corpo forte e musculoso contra o seu.
— Não me diga que os meninos já dormiram — falou, procurando dar uma inflexão
casual à voz.
— Que ilusão! Com certeza, estão preparando alguma. Acho que estou precisando de

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um drinque. Posso me servir?
— Claro. — Emily sentou-se no sofá da sala, apoiando a cabeça no encosto. Sentia-se
bem melhor, agora que tomara um banho. Sem maquilagem, os cabelos úmidos, usando
um jeans e camiseta, poderia ser confundida com uma adolescente.
Kyle voltou da cozinha com um garrafa de burgundy e dois copos. Ela segurou a
risada, ao reparar que a aparência dele não estava tão irrepreensível como quando havia
chegado: o cabelo um tanto despenteado, e a camisa, respingada de água.
— Sua casa é muito bonita e aconchegante.
— Obrigada. Ela é muito antiga, e eu fiz algumas reformas, antes de me mudar para
cá. Ainda faltam alguns detalhes...
— Gostei deste piso. A madeira é muito bonita. O seu marceneiro fez um bom
trabalho.
— Você acreditaria se eu dissesse que fiz o trabalho sozinha? — perguntou.
— Por que não? Se você é uma detetive, profissão pouco comum para mulheres, por
que não poderia fazer o trabalho de um marceneiro? — Ofereceu-lhe um copo de vinho e
depois serviu-se também. — Sentiu saudades de mim? — perguntou, sem olhar para ela.
O coração de Emily deu um salto.
— Bom, as coisas têm andado meio agitadas por aqui...
— E você não pensou em mim? — Olhava para ela agora. — Nem uma vez? —
insistiu.
Ela tomou um gole de vinho lentamente e depois colocou o copo na mesa de centro.
— Claro que pensei. — E se ele soubesse como eram eróticos àqueles pensamentos..
. — Você fugiu da pergunta antes, Kyle, porém eu gostaria de saber por que está aqui.
Como descobriu o meu endereço?
— Por intermédio do seu chefe.
— Wally? — perguntou, chocada. Não podia imaginá-lo dando o endereço dela a um
cliente. — Por que ele fez isso?
— Porque eu disse que gostaria de informá-la pessoalmente das últimas decisões que
tomamos. Na sexta-feira fui ao escritório dele exigir que tirasse aquele sujeito dos meus
calcanhares.
— Você descobriu que Derek... — Emily deu um suspiro desanimado. — Suponho que
tenha dado as investigações por terminadas.
— Essa era à minha intenção. No -entanto, o seu chefe não é do tipo que desiste
facilmente. Ele telefonou para tia Clarinda.
— E...
— Ela hão me deixará em paz enquanto o autor daqueles bilhetes não for descoberto.
Então, nós três tivemos uma reunião hoje de manhã.
— Hoje? — Wally nunca trabalhava aos domingos.
— Quando tia Clarinda decide uma coisa... — Tomou outro gole de vinho. — Fui
obrigado a concordar em que alguém trabalha no meu escritório sob o disfarce de
funcionário. — Fez uma pausa, e Emily reconheceu naquele olhar a mesma expressão de
Holmes quando encurralava um passarinho. —
E também concordei com a presença de um guarda-costas em período integral.
— Essa é uma boa notícia — ela falou, aliviada. De repente, uma suspeita horrível
começou a tomar forma em sua mente. — Você sabe que agentes Wally designou para os
dois trabalhos?
— Nós decidimos que uma mesma pessoa poderia cobrir os dois setores. — Kyle deu
um sorriso de triunfo. — Você.

CAPÍTULO IX

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Emily custava a acreditar no que ouvira. Guarda costas? Isso significaria instalar-se na
casa de Kyle, ficar todo o tempo com ele...
— Isso é... é ridículo. Eu não tive treinamento específico. Sou uma investigadora, não
um... Meu Deus, e se esse maluco resolver cumprir as ameaças? — Assustada com essa
possibilidade, esqueceu por um momento o receio de ficar com Kyle sob o mesmo teto
outra vez.— Eu não vou fazer isso. Não posso. Não tenho as qualificações necessárias.
— Você fez um ótimo trabalho no Havaí — insistiu Kyle.
— Isso não quer dizer nada -- ela retrucou, impaciente. — Lá, a possibilidade de que
pudesse acontecer alguma coisa a você era remota. Por que diabos Wally escolheu justo
a mim para essa missão? Não faz sentido. Ele, melhor do que ninguém, sabe que não
estou preparada para assumir uma responsabilidade dessas.
Kyle sorriu e encheu novamente o copo. Sua calma exasperava Emily.
— Digamos que o seu chefe não teve escolha. — Encostou-se preguiçosamente no
sofá e acendeu um cigarro. — Eu exigi que ele a designasse para esse trabalho, caso
contrário dispensaria os serviços da Forrester Investigações.
— Mas isso é loucura! Você não lê os jornais, Kyle? Por acaso faz uma idéia do
número de psicopatas soltos pelas ruas de uma cidade como Los Angeles? Você precisa
de proteção até termos certeza de que não corre mais perigo.
— Então me proteja. A escolha é sua, Emily. Se é tão difícil para você aceitar a idéia
de ficar na minha casa.. .
Para ele, aquilo não passava de um jogo, um jogo excitante, de lances eróticos... Kyle
continuava tão indiferente ao perigo quanto no Havaí. Fazia uso das circunstâncias para
inverter a partida a seu favor, para conseguir a única coisa que lhe interessava: ela. No
entanto, por mais que se recusasse a levar a sério os fatos, o risco que corria era real. O
que aconteceria, quando o autor dos bilhetes decidisse que chegara o momento de
cumprir as ameaças? Surpreendido no meio da noite por um louco disposto a tudo, Kyle
teria condições de reagir? Como Emily poderia lavar as mãos e entregá-lo à sua própria
sorte? Se alguma coisa acontecesse a Kyle, ela jamais se perdoaria. Deu um suspiro
resignado. Só lhe restava aceitar as condições dele,
— Muito bem, vai ser como você quer — falou. — Mas apenas em parte. É bom que
fique bem claro que eu estarei na sua casa para protegê-lo. E só. O que aconteceu no
Havaí... Bom, aquilo não vai se repetir.
— Tem certeza?
Kyle apagou o cigarro, o olhar vagando pelo corpo de Emily. A intenção dele era clara,
porém ela não conseguiu se mover. Seus membros pareciam entorpecidos e recusavam-
se a obedecer às ordens do cérebro. Com um movimento ágil, ele» a encurralou no canto
do sofá.
— Por que insiste em lutar contra si mesma, Emily?
Ah, aquela voz... Por que tinha o poder de tocar as fibras mais íntimas do coração
dela? E que mulher seria capaz de resistir àquele olhar, à proximidade daqueles lábios tão
provocantes?
Ela não era feita de gelo. Ao contrário. E não haveria nada no mundo capaz de apagar
as chamas que ardiam dentro dela. Wally, o trabalho, o medo de sofrer outra vez foram se
transformando em imagens indistintas, cada vez mais remotas. Não havia lugar para mais
nada além do desejo implacável que crescia dentro dela, com força suficiente para
derrubar todas as barreiras que a razão e a prudência tentavam erguer.
Quando suas bocas se encontraram, Emily deu-se conta de que esperava por aquele
momento desde que Kyle surgira inesperadamente em sua casa.
O contato dos lábios dele era suave, provocante. Sem pensar, ela permitiu que sua
língua fosse ao encontro da dele, num duelo sensual, estimulante.
Kyle a deitou contra o braço do sofá, as mãos percorrendo as curvas bem-feitas

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daquele corpo que o, excitava mais do que nunca. As carícias foram se tornando mais
ousadas; o beijo, exigente. Que falta sentira dela... Aqueles poucos dias de separação
haviam sido um suplício. Tortura maior, porém, era controlar a vontade de despi-la e
possuí-la ali mesmo, na sala.
Emily vibrava ao menor toque de Kyle. Como as figuras de um caleidoscópio, as
recordações se sucediam em sua mente: a cachoeira, colares brancos, a boca de Kyle
marcando a fogo a pele dela...
Quando percebeu que ele tentava abrir-lhe o zíper da calça, Emily sentiu-se
bruscamente arrancada de um sonho. O que ela estava fazendo? Iria permitir outra vez
que o desejo varresse qualquer vestígio de bom senso? Deus! Esquecera-se até mesmo
das crianças. Virou o rosto e tentou empurrá-lo.
— Pare, Kyle! Me largue!
Ele a soltou, confuso diante daquela reação quando as coisas Pareciam caminhar tão
bem.
Emily levantou-se, tentando ajeitar as roupas e os cabelos.
Seu rosto estava vermelho de raiva. Raiva de si mesma por ser tão fraca, e de Kyle,
que não hesitara em se aproveitar disso.
— Você não desiste, não é? — Falava em voz baixa para não acordar as crianças,
mas o olhar exprimiu com eloqüência a irritação que a dominava. — Olhe, Kyle, eu só vou
adiante com essa história de guarda-costas porque não quero ser responsável por alguma
desgraça. Agora, preste atenção a uma coisa: não vou permitir que isto aconteça de novo.
Está claro?
— Claríssimo — ele concordou prontamente. Era óbvio que, mais uma vez, não a
estava levando a sério. — Forrester me disse que você só estará livre amanhã, ao meio-
dia — continuou, acendendo um cigarro. — Eu a encontrarei no escritório dele a essa
hora, e nós três acertaremos os últimos detalhes do plano. Leve a sua mala com você.
Pretendo tirar a tarde de folga para ajudá-la a se instalar na minha casa em Malibu.
— Está certo. — Então Wally e Kyle já haviam combinado tudo, e a ela cabia apenas
curvar-se diante das decisões dos dois. De que adiantaria protestar? Kyle havia planejado
tudo muito bem, de forma a não lhe deixar alternativa. — Eu prefiro mesmo chegar lá à
tarde, porque assim terei chance de fazer uma vistoria na casa antes que escureça.
— E depois que escurecer?
Emily nem se deu ao trabalho de responder. Atravessou a sala e abriu a porta.
— Já é tarde, Kyle. Eu tive um dia agitado e estou exausta. Boa noite.
Kyle parou ao lado dela e segurou-lhe o queixo, obrigando-a a encará-lo.
— Não vai me dar um beijo de despedida?
— Não!
Ele sorriu com ironia, como se esperasse por aquela resposta.
— Como você quiser. Não vou insistir. Pelo menos por enquanto — avisou, antes de
sair.
Num gesto infantil, Emily bateu a porta.
— O Sr. Forrester está à sua espera — disse a secretária.
— Pode entrar.
Emily deu duas batidas na porta.
— Entre.
Wally estava se servindo de uma xícara de café, o cigarro habitual num canto da boca.
— Aceita um café? — Indicou-lhe uma cadeira enquanto enchia outra xícara. — Li o
seu relatório. Não acrescenta nada de novo ao caso, mas eu já esperava por isso.
— Girava a cadeira de um lado para o outro, o olhar arguto fixo no rosto dela. —
Vamos lá, Emily, desabafe. Qual é o problema?
— Wally, eu não me sinto capaz de...
— Eu sei, Emily, no entanto... Droga! Que outra alternativa nos restava? Spencer

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insiste em não levar o caso a sério, e Clarinda está quase doente de preocupação.
Quando ele disse que aceitaria apenas você como guarda-costas, ela se agarrou a essa
concessão sem hesitar. Eu abri o jogo e falei que você não foi treinada para isso, mas ela
estava desesperada.
— E então você...
— O que mais poderia fazer? — O cigarro tremeu no canto da boca, derrubando a
cinza na camisa branca. — Os clientes pagam as despesas, minha cara, o que lhes dá o
direito de fazerem exigências.
— Claro...
Wally levantou-se e aproximou-se de Emily. Braços cruzados, apoiou uma das pernas
na mesa.
— Olhe, Emily, é óbvio que Spencer está caído por você. Você acha que pode
contornar essa situação?
"Agora é a chance de contar tudo, pensou ela, em desespero. Tudo? Antes que
terminasse a história, Wally já a teria colocado fora daquele caso. E talvez da Forrester
Investigações.
— Bom... acho que posso dar um jeito nisso.
— Ótimo. Agora precisamos discutir o seu disfarce no escritório de Spencer.
Emily seria apresentada aos funcionários como a representante de uma conhecida
firma de assessoria na área de computadores, contratada para dar instruções sobre a
melhor forma de utilizar os programas.
— Você está falando sério, Wally? Eu entendo bastante de computadores, mas daí a...
— Vai dar tudo certo — garantiu. — Visite todos os departamentos, anote muitos
dados, pareça eficiente. É o quanto basta. Kelly deixará todos os papéis e documentos
necessários ao seu disfarce na casa de Spencer, ainda hoje...
O ruído do interfone interrompeu-os. Wally inclinou-se sobre a mesa e apertou um
botão.
— Sim? .
— A Sra. Barr está aqui — comunicou Kelly.
— Mande-a entrar.
Uma ligeira batida na porta, e Clarinda surgiu na sala. Wally foi ao encontro dela, com a
mão estendida.
— Como vai, Clarinda? Lembra-se de Emily Summers?
— É claro que sim.
Ela parecia ainda mais esbelta e elegante, naquele chemisier branco, de seda.
Estendeu a mão para Emily, que rezou para não ficar vermelha sob aquele olhar
especulativo.
Até onde ela teria conhecimento do que se passara no Havaí? Não podia imaginar Kyle
fazendo confidencias à tia, porém uma mulher experiente e perspicaz como a Sra. Barr
saberia ler nas entrelinhas.
— Sente-se. — Todo solícito, Wally ofereceu-lhe uma cadeira. — Aceita um café, ou
um chá?
— Café. Com pouco açúcar, por favor. Espero não estar interrompendo nada.
— Não, imagine. Emily e eu estávamos justamente acertando os últimos detalhes.
Clarinda recostou-se na cadeira, mexendo lentamente o café.
— Srta. Summers...
— Pode me chamar de Emily.
A Sra. Barr sorriu e tomou um gole de café antes de prosseguir:
— Emily, em primeiro lugar, gostaria de dizer que a sua dedução sobre o autor dos
bilhetes foi muito inteligente.
— Espero descobrir mais alguma coisa no escritório.
— O que mais me preocupa é a outra parte do seu trabalho. Wally nos contou que

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você não foi treinada para proteger alguém, no entanto meu sobrinho se recusou a aceitar
outro agente.
— Emily é uma garota muito viva — declarou Wally. — Tenho certeza de que vai
compensar essa deficiência com outras qualidades. E, numa emergência, ela saberá o
que fazer.
— Estou certa disso — afirmou Clarinda, com um sorriso. — E já que ela teve
oportunidade de conviver com meu sobrinho, espero que... bem, que esteja empenhada
em mantê-lo a salvo.
"Ela sabe sobre nós", pensou Emily. Se ao menos pudesse ler alguma coisa naqueles
olhos escuros e impenetráveis, que se fixavam nela com tanto interesse.
— Bem, eu preciso ir. — Clarinda levantou-se e estendeu a mão para Emily. —
Gostaria de ser informada sobre o andamento das investigações.
Emily prometeu que o faria, com a sensação de que a Sra. Barr gostaria de saber muito
mais do que dera a entender.
Quando Kyle chegou ao escritório, Emily recusou a carona que ele lhe ofereceu até
Malibu. Preferia ir em seu próprio carro, e, além disso, o disfarce dela estaria arruinado se
os dois fossem para o trabalho e voltassem juntos todos os dias.
Kyle morava na área mais exclusiva da praia de Malibu. Emily seguiu o Porsche dele
através do portão acionado eletronicamente e percorreu, encantada, a alameda que
conduzia à casa, que mais se assemelhava a uma vila mediterrânea.
Ele tirou a mala de Emily do bagageiro e, segurando-a pelo braço, conduziu-a para o
interior da residência. Ela fugiu daquele contato, o que provocou um sorriso irônico em
Kyle.
Uma mulher de meia-idade foi ao encontro deles, sorridente, um brilho de curiosidade
nos olhos escuros.
— Emily, esta é Sylvia Diaz — falou Kyle. — É ela quem cuida de tudo, nesta casa.
— Apenas durante o dia — explicou a Sra. Diaz. — À noite tenho um marido à minha
espera.
Emily sentiu as faces quentes. Como Kyle teria justificado a presença dela naquela
casa? Droga! Esquecera-se completamente desse detalhe. O que mais teria deixado
escapar?
Como se houvesse lido os pensamentos dela, Kyle sussurrou:
— Eu disse a Sylvia que você está cuidando de um projeto muito importante para a
empresa e que vai passar alguns dias aqui para discutirmos os detalhes.
"E aposto como ela não acreditou numa única palavra", pensou Emily.
Kyle levou-a para a ala da casa onde ficavam os quartos. Abriu uma porta e deu-lhe
passagem. Encantada, Emily entrou num aposento enorme, mobiliado com luxo e bom
gosto. Kyle acionou um botão, e as cortinas abriram-se lentamente, deixando à mostra
janelas que ocupavam toda a extensão da parede e ofereciam uma vista espetacular do
Pacífico.
— Achei que você gostaria de ficar instalada no quarto ao lado do meu. — Emily, que
admirava a paisagem, voltou-se bruscamente. — Por razões de segurança, é claro —
acrescentou Kyle, um sorriso divertido no canto dos lábios.
— É claro — ela concordou friamente. — A sua empregada deveria saber o motivo
verdadeiro da minha presença aqui. Por Deus, Kyle! Já estou em desvantagem neste
trabalho, e você ainda quer que eu me preocupe em representar um papel para a Sra.
Diaz?
— Não quero ver Sylvia apavorada com a possibilidade de um maníaco estar atrás de
mim. Concordei com o prosseguimento das investigações, porém dentro de certos limites.
Agora, por que você não aproveita para desfazer a mala? O jantar será servido às sete.
Irritada com a teimosia dele, Emily começou a guardar as roupas no armário. Quanto
tempo seria obrigada a ficar naquela casa? Se ao menos conseguisse decifrar aquela

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charada sinistra o mais rápido possível. .. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Estava de
mãos atadas, pelo menos até que o autor dos bilhetes desse o próximo passo.
Depois de seguir duas vezes a direção errada, Emily finalmente achou a cozinha, onde
Sylvia Diaz supervisionava as panelas no fogão. O cheiro era delicioso.
— O jantar será servido no pátio — disse a empregada. Provou o conteúdo de um
caldeirão e pareceu satisfeita com o resultado. — Bonitinha a sua roupa — comentou.
Emily percebeu um ligeiro tom de desaprovação na voz da mulher. Sem se deixar
perturbar, saiu da cozinha. Depois do banho, havia escolhido, de propósito, uma roupa
bem informal: um jeans délavé que se afunilava nos tornozelos, camiseta lilás e um tênis
da mesma cor. Nada de maquilagem, havia decidido, fazendo uma concessão apenas ao
batom.. Agora, pelo tom de Sylvia, percebera que os hóspedes, naquela casa luxuosa,
tinham o hábito de se vestir com maior esmero para o jantar. Ergueu os ombros com
indiferença. Não era uma hóspede; estava ali a serviço. E por nada no mundo queria dar
a Kyle a impressão de que estava se arrumando para ele.
Atravessou as salas e foi para o pátio. Ao cruzar a porta envidraçada, não conteve uma
exclamação encantada diante do espetáculo de cores daquele final de tarde. Apoiou-se
numa coluna, deixando o olhar vagar pela linha do horizonte, onde o Pacífico parecia
encontrar aquele céu de tons rosados.
— Gostou? — Kyle parou bem atrás dela.
— É lindo, Kyle.
— Engraçado... — Acariciava os braços dela, de cima até embaixo. — Nós dissemos a
mesma coisa naquela tarde, na cachoeira, lembra? — Havia uma emoção na voz dele
que Emily nunca surpreendera antes.
— Claro — sussurrou.
A garganta dela estava seca. Kyle puxou-a mais para perto. Ou teria sido ela que se
apoiara no peito dele? Ele a abraçou, cruzando os braços na altura dos seios, o rosto
contra os cabelos macios e perfumados, a boca roçando-lhe a ponta da orelha. Kyle podia
sentir as batidas aceleradas do coração dela, os mamilos despontarem sob a camiseta.
Emily também o desejava, e essa certeza aumentou a excitação dele.
O ruído das rodas de um caminhão no pátio, e, imediatamente, Kyle a soltou. Emily
ainda ficou alguns instantes de costas, olhos fechados, mal ouvindo as frases casuais que
ele trocava com a Sra. Diaz. Quando sentiu que recuperara o controle de suas emoções,
aproximou-se dos dois.
Sobre a toalha de linho, cristais, porcelanas e talheres de prata estavam dispostos de
forma irrepreensível. A chama das velas tremulava ao sabor da brisa que vinha do
oceano. Como um cavalheiro, Kyle puxou uma cadeira para Emily e depois ocupou o
lugar em frente. A Sra. Diaz informou-os de que nas travessas tampadas havia peixe,
camarões e arroz à grega, ao mesmo tempo que colocava diante de cada um deles um
prato com salada Waldorf.
— Está tudo perfeito, Sylvia — afirmou Kyle, abrindo uma garrafa de vinho branco. —
Por que você hão vai para casa? A Srta. Summers e eu podemos nos servir sozinhos.
— Como quiser, Sr. Spencer. — Olhou de um para o outro e sorriu, como para deixar
claro que entendia por que tinham tanta pressa em dispensá-la.
— Algum problema, Sylvia?
O tom frio de Kyle varreu o sorriso do rosto da Sra. Diaz.
— Não senhor. Buenas noches.
Emily mal provou a comida. Todos os seus sentidos estavam alertas, antecipando o
que viria após o jantar. Porém, no fundo da mente, uma voz tentava chamá-la à razão.
Era loucura... Ela não devia. . . não podia. . .
— Mais vinho? — Kyle encheu o copo dela mais uma vez. — Por que não vamos
tomá-lo ali, perto da piscina?
Ela olhou para o lado que ele indicava. Sobre o gramado que rodeava a piscina

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estavam espalhadas peças de vime, estofadas num estampado delicado. O sofá de três
lugares, largo e confortável, chamou imediatamente a atenção de Emily.
Como ela pressentira, Kyle levou-a até ele. Sentaram-se lado a lado. O Sol já
desaparecera no horizonte, mas as nuvens continuavam a refletir sua luz, num jogo de
cores que ia do rosa ao púrpura;
Kyle ergueu seu copo num brinde, o olhar prendendo o de Emily.
— A nós — murmurou, e os cristais se entrechocaram ligeiramente.
Kyle tirou o copo das mãos dela e colocou-o no chão, junto ao seu. Emily mal
respirava. Sabia que, se ele a beijasse, estaria perdida.
— Senti tanto a sua falta, Emily. . . — Kyle murmurou, beijando-lhe a testa, as
pálpebras e finalmente a boca.
Sem parar de beijá-la, deitou-a sobre as almofadas do sofá. Acariciava os lábios dela
com os seus, saboreando aos poucos a doçura daquela boca. Atordoada, Emily não
pensou em resistir. Como poderia? O desejo a arrastava com a mesma força das ondas
que se quebravam contra os rochedos lá embaixo. Os beijos de Kyle queimavam-lhe os
lábios, a pele macia do pescoço . . . Através do tecido fino da camiseta, podia sentir o
calor daquelas mãos que se fechavam sobre os seios, acariciando delicadamente os
mamilos.
Ele se apoiou num cotovelo, o rosto a poucos centímetros do dela, o olhar intenso e
ardente como uma carícia. Kyle sabia exatamente como deixá-la louca de desejo, ansiosa
por ele. Sem Pressa, parecia disposto a conhecer cada parte do corpo dela, estimulando,
excitando, até quase fazê-la implorar para que ele a amasse.
A mão de Kyle alcançou um dos tornozelos de Emily, percorreu a perna e insinuou-se
sob a saia, acariciando com mais vagar a carne firme e macia da coxa.
— Emily.. . você me deixa louco, sabia? — sussurrou, mordiscando-lhe os lábios.
Ela não conseguiu dizer nada. Seu coração parecia pulsar na garganta, e uma nuvem
toldava-lhe a vista. Nunca sentira nada semelhante nos braços de outro homem. Com
dedos trêmulos, desabotoou-lhe a camisa, espalmando as mãos naquele peito largo,
apalpando-lhe os músculos rijos e bem desenvolvidos. Sentia-se frágil, diante da força
dele, e essa sensação levou as mais eróticas fantasias à sua mente.
Num movimento rápido, Kyle puxou-lhe a camiseta de dentro da saia. Instintivamente,
Emily ergueu-se um pouco, e um segundo depois a camiseta ia para o chão, seguida pela
saia. As palmas das mãos dele eram ligeiramente ásperas, contra a pele delicada dos
seios; os polegares moviam-se em círculos sobre a aréola rosada dos mamilos.
— Você é tão linda, Emily... — ele murmurou, os lábios apoderando-se dos dela com
volúpia.
-— Kyle... Kyle... — Enterrou os dedos nos cabelos dele, sentindo aqueles lábios
quentes e úmidos descerem-lhe pelo pescoço, percorrerem o colo até se fecharem sobre
um dos seios.
Emily arqueou o corpo, a excitação ultrapassando os limites do possível. Quem era,
onde estava, nada mais parecia claro. Os pensamentos giravam em sua mente, as
sensações eliminando qualquer vestígio de lucidez.
Longe, muito longe, soou uma campainha. A princípio, aquele ruído distante não teve
forças para quebrar a magia do momento. Porém, à medida que se tornou mais insistente,
trouxe Emily de volta à realidade.
— Kyle... a campainha...
— Esqueça. Não estou em casa para ninguém.
E ela? De repente, tudo ficou claro. Kelly! Wally havia dito que a secretária levaria os
documentos naquela noite!
A boca de Kyle procurou o outro seio, mordiscando, provocando, fazendo-a esquecer-
se de Kelly e da campainha. O mundo resumia-se novamente às sensações que ele
despertava nela.

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As mãos dele escorregaram pelo corpo de Emily e alcançaram o elástico da calcinha.
Sem pressa, foram puxando o minúsculo pedaço de tecido, Era incrível! Já havia feito
amor com ela duas vezes e, no entanto, Kyle sentia a mesma emoção, a mesma
expectativa daquela tarde em Kauai. A calcinha foi juntar-se às outras roupas espalhadas
pelo chão, deixando Emily inteiramente nua sob o olhar dele. O desejo misturava-se a
uma espécie de admiração, quase reverência, como se Kyle estivesse diante de uma obra
de arte, esculpida com perfeição pelas mãos de um mestre.
— Emily... Emily... Eu não me canso de olhar para você. Apoiou as mãos no sofá e
inclinou-se sobre ela, beijando-lhe as pálpebras, a boca, os seios. Os lábios passaram
pelo estômago, provocando manchas rosadas na pele, e continuaram descendo,
descendo...
— Kyle... não... — gemeu Emily, ao perceber a intenção dele.
Protestos tímidos, incapazes de detê-lo. Um espasmo agitou o corpo de Emily, e ela
enterrou os dedos nos ombros dele.
— Ah... Kyle...
Ele ergueu a cabeça e sorriu. Como esperara para vê-la assim, sem defesas, pronta
para amá-lo sem dúvidas nem remorsos...
As mãos dela percorreram-lhe o peito, puxando os pêlos escuros e macios.
— Venha, Kyle... — Emily implorou, baixinho. — Agora. .. Ele se afastou por alguns
momentos, tempo suficiente para se livrar das roupas. Longe do calor dele, Emily
estremeceu, ao mentir a brisa do oceano. Acima deles, as estrelas, como minúsculos
cristais, pontilhavam o céu. Ela fechou os olhos e abriu os braços para recebê-lo. As
pernas rodearam os quadris de Kyle, e, juntos, seus corpos começaram a se mover, o
contato tornando-se mais profundo, como se eles desejassem fundir-se em uma só
pessoa.
Arrebatada num turbilhão de sensações, o prazer atingindo um ponto próximo à agonia,
Emily cravou as unhas nas costas de Kyle, a boca sentindo-lhe o gosto salgado da pele.
Quando o momento culminante chegou, uma exclamação rouca escapou dos lábios de
Kyle, e ele a abraçou,com mais força, até finalmente largar o peso de seu corpo sobre o
dela.
Como se voltasse de um sonho, Emilly abriu os olhos. Beijos, carícias, excitação, tudo
se fora, e, agora, restava-lhe apenas a realidade. Quanto tempo ela resistira, antes de cair
nos braços dele outra vez? Poucas horas. Novamente, esquecera-se de suas
responsabilidades, da ética, das recomendações de Wally. Até mesmo de Kelly e dos
documentos. Sem eles, não haveria como sustentar seu disfarce no dia seguinte, no
escritório.
— Vamos nos congelar, aqui fora, Emily — falou Kyle, ao ver como ela tremia. Deu-lhe
um beijo na ponta do nariz. — Mas eu posso dar um jeito nisso. Que tal um banho de
piscina? Depois do sol forte de hoje, a água deve estar morna. — Levantou-se e acendeu
as luzes, iluminando o jardim e a piscina. — Venha, Emily.
— Não. . . — Deixou o sofá e pegou as roupas do chão. — Não.
Correu para dentro, mas Kyle alcançou-a e bloqueou-lhe a passagem.
— O que foi, Emily? Droga! Fale comigo! Aonde você vai?
— Arrumar a mala, telefonar para Wally... — Ergueu o rosto, desafiando-o com o olhar.
— Eu vou embora.
— Embora? Você ficou louca?
— Eu avisei, Kyle, eu disse que não queria. . . que o nosso relacionamento... Droga!
Você sabe!
— Emily, isso não faz sentido! Não quero ouvir mais nenhuma daquelas bobagens
sobre ética! Quem vai saber que você e eu...
— Eu sei, e isso basta. Tenho certeza de que Wally encontrará uma pessoa para me
substituir. A Forrester Investigações tem dezenas de agentes.. .

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— Não quero outra pessoa. — O comportamento de Emily começava a deixá-lo
exasperado. — Pensei que isso já estivesse bem claro. Se você for embora, darei as
investigações por terminadas.
Ela sabia que Kyle estava falando sério. E se alguma coisa acontecesse a ele...
— Você ganhou mais uma -vez, mas não estou disposta a participar novamente dos
seus joguinhos de sedução. Vou ficar porque você precisa de proteção, e, Deus me ajude,
parece que sou a única pessoa disponível.

CAPÍTULO X

— Pode subir, Srta. Summers — falou a recepcionista, di volvendo o cartão que Emily
lhe entregara. — Está sendo esperada na sala da presidência.
Emily saiu do elevador, no último andar do edifício. Seus. passos eram abafados pelo
carpete espesso. Atravessou uma sala, onde três moças datilografavam numa velocidade
incrível. Seguiu direto para a porta onde havia uma placa: "Presidência". Bateu antes de
entrar.
Uma moça saiu de trás de uma mesa e foi ao seu encontro. Noel Harrington, adivinhou
Emily. Deus, ela precisava ser tão bonita? Em segundos, seu cérebro catalogou todos os
dados: loira, olhos azuis, pele macia e bronzeada, corpo perfeito.
— Srta. Summers? Sou Noel Harrington. Sente-se, por favor. O Sr. Spencer está ao
telefone, mas vai atendê-la em poucos minutos.
— Obrigada. Pode me chamar de Emily; afinal, vamos trabalhar juntas durante algum
tempo.
Noel sorriu, chamando a atenção de Emily para seus lábios cheios e bem desenhados.
— Quer um café? — sugeriu. — Mais tarde, eu a apresentarei ao resto do staff.
— Aceito, obrigada.
Depois de servi-la, Noel sentou-se. Havia um vaso com rosas ranças sobre o tampo de
vidro da mesa. Naquela sala respirava-se eficiência e organização. Noel tirou um maço de
cigarros de uma gaveta e acendeu um.
— O Sr. Spencer foi muito vago a seu respeito — comentou, soprando a fumaça para
cima. — Na verdade, ele só me falou sobre você ontem. O que vai fazer aqui
exatamente?
— Apenas observar e dar sugestões — Emily respondeu. Era uma explicação muito
vaga, mas a única que ela poderia dar. — O Sr. Spencer quer ter certeza de que os
computadores estão sendo utilizados com o máximo de eficiência.
— Sei... — Noel deu uma tragada. Não parecia acreditar muito na explicação.
"Ela é esperta", pensou Emily. Se Noel tivesse a menor razão para desconfiar dela...
— O Sr. Spencer já desligou. — Noel apertou o botão do interfone e anunciou a
chegada de Emily.
Ela não via Kyle desde a noite anterior. Quando acordara naquela manhã, ele já havia
saído para o trabalho. Sentiu o rosto enrubescer, quando seus olhares se encontraram.
— Como vai, Srta. Summers? — Foi ao encontro dela, o já tão conhecido brilho
sarcástico no olhar, a mão estendida.
Emily hesitou, mas não teve outro remédio senão apertar a mão dele. Kyle a reteve na
sua um segundo além do necessário e então voltou-se para Noel:
— Quero que a Srta. Summers tenha acesso a todos os arquivos e entrada livre em
cada departamento. Por favor, comunique isso ao resto do staff.
— Pois não, Sr. Spencer.
Emily sentiu o olhar de Noel fixar-se atentamente nela, antes que a porta se fechasse.
— E então, super detetive? — falou Kyle. — E agora?
— Alguma novidade na caixa de correspondência?

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— Muitas contas, mas nenhuma carta anônima.
— Bom, então eu vou conhecer os funcionários que trabalham diretamente com você e
tentar parecer uma perfeita conhecedora de computadores.
O interfone tocou, e Kyle aproximou-se da mesa.
— Sim, Noel? — perguntou, pressionando o botão. — Está certo, obrigado. — Voltou-
se para Emily: — Noel está à sua espera. Dê um giro por aí e me encontre ao meio-dia
para o almoço.
Emily pensou em dar uma desculpa, mas sabia que não adiantaria nada, e, além disso,
a secretária estava à sua espera.
Noel apresentou-a às outras funcionárias ligadas à presidência: Sally, a recepcionista,
era uma moça simpática e extrovertida. Pam e Lisa eram agradáveis, porém mais
reservadas.
Instalada à mesa que Noel lhe indicou, uma pilha de pastas diante de si, Emily dedicou
o resto da manhã a dar veracidade ao seu disfarce.
Às onze e meia, Pam e Lisa saíram para o almoço. As duas pareciam muito amigas.
— Se você esperar até o meio-dia e meia, Emily, eu terei prazer em levá-la ao
restaurante da empresa.
— Obrigada, Sally, mas eu vou almoçar com o Sr. Spencer.
— Ah, sei. . . — Seria impressão, ou um brilho de inveja cruzara o olhar da moça? —
Quem sabe amanha, então. Eu acabei de ser transferida do departamento pessoal para
cá, e a maioria dos meus amigos almoça às onze e meia.
Noel saiu poucos minutos depois. O Sr. Spencer logo estaria livre para o almoço,
comunicou. Emily agradeceu, observando que a moça parecia um tanto apressada e
ansiosa.
Não se passaram cinco minutos, e um rapaz entrou na sala. Emily ergueu a cabeça, ao
ouvir Sally dizer:
— Oi, Peter. Sinto muito, mas Noel acabou de sair. Não sei como você não a viu no
elevador.
— Ela deve estar no restaurante. Eu vou até lá. Obrigado; Sally.
Era alto e magro; a pele clara e os cabelos bem loiros sugeriam ascendência nórdica.
— Não, ela.. . — Sally parecia um tanto embaraçada. — Ela não ia almoçar no
restaurante, e, pelo que me disse, vai demorar um pouco para voltar.
— Entendo... Imagino que o Sr. Spencer também não esteja.
— Está, sim. Ainda não saiu. Você quer falar com ele?
— Agora não. Meu assunto não é urgente. Por favor, diga a Noel que eu passarei por
aqui mais tarde.
— Que tipo estranho. . . — comentou Sally, depois que o rapaz saiu.
— Você acha? — Emily o achara um rapaz comum. — Ele e Noel são muito amigos?
— É o que parece, embora, pelo que eu tenho ouvido por aqui... — Calou-se de
repente, o rosto um tanto vermelho. — Desculpe, eu não queria... Bom, odeio fofocas.
Elas só trazem encrencas. Você não acha?
Emily foi obrigada a concordar. Não podia dizer que a fofoca era a mola mestra de seu
trabalho. Nesse momento, Kyle entrou, impedindo-a de induzir Sally a falar.
— Está pronta? — Segurou-a pelo braço e foram para o elevador. — Descobriu
alguma coisa?
— Nada importante — respondeu, puxando o braço. — Que coisa, Kyle! O que as
pessoas vão pensar, se você não ficar com essa mão longe de mim?
— Vão pensar que estou caído por você. Não é segredo para ninguém que eu também
sou humano. Além disso, estou mesmo louco por você.
— Você é impossível — falou, sem conseguir reprimir um sorriso.
Durante a tarde, Emily percorreu os outros departamentos, porém não conseguiu
apurar nada de concreto. Na hora do café, escapou para a rua e, de um telefone público,

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conversou com Wally. Ficou acertado que o próximo passo seria examinar as fichas dos
cento e noventa e três funcionários que trabalhavam no edifício da Spencer International.
Para isso, precisariam da autorização de Kyle, e, por motivos óbvios, o trabalho não
poderia ser feito no escritório.
Assim que voltou, Emily solicitou uma entrevista com Kyle. Quando entrou na sala dele,
foi recebida com um sorriso divertido.
— Que boa surpresa, Emily. .. Mas aposto que você vai estragar tudo, dizendo que
veio até a minha sala apenas para falar de trabalho.
— E que outro assunto eu teria para tratar com você? — E antes que ele aproveitasse
a deixa, continuou: — Preciso examinar as fichas dos funcionários.
O sorriso desapareceu e o rosto de Kyle ficou sombrio.
— Isso é mesmo necessário?
— Indispensável.
— Nesse caso, só me resta concordar, certo?
— Ótimo. — Em poucas palavras, Emily explicou que precisaria fazer esse trabalho
em casa, e Kyle comprometeu-se a tomar as providências. — Só mais uma coisa, Kyle.
— O que é agora?
— Avise-me quando estiver para sair, assim eu terei tempo de ir até a garagem fazer
uma vistoria.
— Vistoria? No meu carro? — De repente, percebeu o que ela pretendia. — Pelo amor
de Deus, Emily, você acha mesmo que alguém colocaria uma bomba no meu carro?
— É uma hipótese que não podemos descartar.
— E o que você sabe sobre bombas? Por acaso é perita em desmontá-las?
— Você ficaria surpreso com o que eu sei a respeito — replicou, irritada. — Não sou
uma grande conhecedora do assunto, mas pelo menos sei o que procurar.
— E se acontecer alguma coisa e você se machucar?
— Correr riscos faz parte do meu trabalho.
— Você é impossível. Não vou permitir que... — Levantou-se e, num gesto impaciente,
passou a mão pelos cabelos. — De que diabos estou falando, afinal? Ninguém vai colocar
uma bomba no meu carro.
— Como você pode ter...
— Está bem, está bem. Vou fazer o que você quer, caso contrário, sei que não vai me
deixar em paz, e eu preciso trabalhar.
Felizmente, Kyle estava certo. O carro estava em ordem, e a volta para Malibu
transcorreu sem qualquer problema.
Para decepção da Sra. Diaz, que com certeza esperava uma repetição do romântico
jantar da noite anterior, Emily pediu uma bandeja em seu quarto. Alegou que precisava
trabalhar, e, embora isso fosse verdade, o principal motivo era evitar qualquer
aproximação com Kyle.
Trabalhou até tarde, examinando cuidadosamente a ficha dos empregados da Spencer
International, bem como das pessoas que haviam sido dispensadas nos últimos dois
anos. Só no começo da madrugada, exausta e decepcionada com a falta de resultados,
foi para a cama.
Na manhã seguinte, no escritório, Emily sentiu constantemente o olhar de Noel fixar-se
nela com interesse. Mergulhada numa pilha de papéis, Emily tentava mostrar-se
produtiva, porém tinha certeza de que seria preciso mais do que isso para convencer uma
mulher inteligente e perspicaz como a secretária de Kyle. Era óbvio que ela desconfiava
de alguma coisa.
Emily decidiu almoçar com Sally no restaurante da empresa. Enquanto esperavam que
Pam e Lisa voltassem, Peter Walker apareceu.
— Noel e eu vamos almoçar juntos — falou, dirigindo-se a Sally. — : Será que ela. . .
— Já estou pronta — afirmou Noel, saindo de sua sala.

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O olhar do moço adquiriu um brilho diferente e suas feições se suavizaram, quando
segurou a mão dela. Esses sinais convenceram Emily de uma coisa: Peter Walker estava
completamente apaixonado por Noel.
— Eu fiz reservas — disse Peter, enquanto se dirigiam para a porta, e mencionou um
dos lugares mais concorridos de Hollywood.
— Quanta gentileza, Peter... — Noel dava a impressão de estar escolhendo as
palavras com todo o cuidado. — Você sabe que é o meu restaurante favorito, mas o
serviço é muito lento, e nós temos apenas uma hora de almoço.
A porta se fechou e Emily não pôde ouvir mais nada. Os olhos de Sally brilhavam. Era
evidente que estava louca para contar os comentários que já ouvira sobre os dois. Assim,
Emily não teve dificuldade em entrar no assunto, quando chegaram ao restaurante,
— Não deve ser fácil, para ele, estar apaixonado por alguém como Noel — comentou
Sally.
— Você acha que ele é do tipo ciumento?
— Todos são. Não sei como Peter agüenta que ela trabalhe para um homem
fascinante como o Sr. Spencer, ainda mais depois que... — Calou-se, visivelmente
embaraçada.
— Depois do quê?
— Olhe, eu não tinha a intenção de... — Sally parecia mortificada. — O que quero
dizer é que, se existe alguma coisa entre você e o Sr. Spencer...
— Não existe nada entre nós além de uma relação de trabalho. — Colocou os talheres
sobre o prato. De repente, perdera o. apetite.
— Claro, claro. — Sally não parecia convencida, mas continuou, um tanto relutante: —
Ouvi alguns rumores sobre Noel e o Sr. Spencer, mas isso quando eu ainda estava no
departamento pessoal. Desde que estou trabalhando junto à presidência, nunca vi nada
que justificasse aqueles comentários. Deve ser fofoca mesmo. Você sabe como as
pessoas gostam de falar... É verdade que algumas vezes eles viajam juntos, porém não é
comum a secretária acompanhar o patrão?
Claro, muito comum, Emily disse para si mesma, tentando afastar a imagem dos dois
em Kauai, Noel nos braços de Kyle... o romântico luau...
"Pare com isso!", ordenou a si mesma. Não podia se deixar envolver pelos seus
próprios sentimentos. Precisava ser fria e objetiva. Se Kyle tivesse tido um caso com
Noel, Peter teria razões de sobra para ter ciúme, se soubesse disso.
Ciúme. .. Um sentimento forte, capaz de levar uma pessoa à loucura. A História estava
aí para provar. Quantos crimes não haviam sido cometidos, através dos séculos, por esse
mesmo motivo? Pela primeira vez, sentiu que não estava tateando no escuro. Era uma
possibilidade que precisaria ser cuidadosamente analisada.

CAPÍTULO XI

A questão do ciúme de Peter acompanhou Emily durante toda a tarde, enquanto ela
visitava vários departamentos.
De volta para casa, seguindo o Porsche vermelho de Kyle, ela enfrentava um dilema.
Precisava descobrir se Peter tinha razões para sentir ciúme, e só havia uma forma de
esclarecer essa dúvida: perguntar diretamente a Kyle.
A Sra. Diaz havia deixado um bilhete, dizendo que precisara sair mais cedo e que havia
carne fria, salada e sorvete na geladeira.
— Parece que estamos sozinhos —- comentou Kyle. — Que tal um drinque?
— Não, obrigada. Eu vou arrumar a mesa para o jantar. — E escapou na direção da
cozinha.
A mesa já estava arrumada e havia café fresco na cafeteira elétrica. Não havia nada a

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fazer, a não ser servir a comida.
Kyle manteve a conversa em assuntos gerais, durante a refeição. Falava com
naturalidade e bom humor, sem se deixar perturbar pelas respostas vagas e frias de
Emily.
O estômago dela queimava, e a mente estava um verdadeiro caos. Não se sentia
em condições de comer nem de conversar.
— O que há? Não gostou da comida? — perguntou Kyle, ao ver que ela mal tocara no
prato.
— O quê? Não, a comida está ótima. Estou sem fome, só isso.
Levantou-se e começou a tirar a mesa. Foi para a cozinha, consciente de que ele vinha
logo atrás.
— Quer uma xícara de café? — Sem esperar pela resposta de Kyle, pegou o bule e
levou-o para a varanda.
— A noite está linda. — Ele colocou as mãos sobre os ombros de Emily e sentiu-a
estremecer ligeiramente. — Depois do café, você não gostaria de dar uma volta pela
praia?
— Sinto muito, mas não posso. — Virou-se para Kyle e ofereceu-lhe uma xícara,
evitando encontrar o olhar dele. — Preciso trabalhar.
— O que você espera encontrar naquele maldito fichário, afinal? Até quando vai insistir
nessa tolice, Emily? O que você conseguiu até agora com o seu brilhante disfarce no meu
escritório?
— Graças ao meu brilhante disfarce, descobri uma coisa muito interessante —
replicou, furiosa com a ironia dele. — Ouvi rumores de que você e Noel.. . — Não foi
capaz de concluir a frase, as palavras pareciam recusar-se a sair de sua boca. Tudo o
que conseguiu fazer foi erguer os olhos, numa súplica silenciosa. Se ele negasse...
— Vamos ver se entendi bem: você ouviu dizer que eu tenho um caso com Noel e quer
saber se é verdade. — Seus olhos escuros expressavam com eloqüência a raiva que o
dominava. — Já que você insiste em deixar claro que o nosso relacionamento, é apenas
profissional, eu não lhe devo satisfações da minha vida pessoal. Agora, se me der licença,
vou tomar o meu café no escritório.
Então era verdade, pensou Emily, sentando-se e cobrindo o rosto com as mãos. Ele e
Noel já haviam. .. Não, não queria pensar nisso agora. Não podia. Machucava demais.
Era melhor concentrar a mente em alguma outra coisa. No trabalho, por exemplo. O ruído
do motor de um carro atraiu-lhe a atenção. Ela chegou diante da casa a tempo de ver o
carro de Kyle cruzar o portão.
Que inferno! O que poderia fazer? Tentar alcançá-lo? Impossível. Kyle sempre dirigia
em alta velocidade.
No hall, encontrou um bilhete: "Emily, fui visitar tia Clarinda. Volto logo".
Bem, pelo menos sabia onde ele estava. Belo tipo de guarda-costas ela se revelara!
Mas, também, o que poderia ter feito? Kyle era impossível. Era melhor voltar para o
fichário e terminar aquele trabalho sem demora.
Às nove horas, Kyle chegou à casa de sua tia em Beverly Hills, uma mansão tão
imponente e luxuosa quanto as outras daquele bairro elegante.
Uma empregada conduziu-o a uma sala íntima no primeiro andar, onde Clarinda
tomava um café e lia o jornal.
— Então é você. — Colocou a xícara na bandeja de prata e levantou-se. — Já estava
ficando tarde e achei que você não viria mais, Kyle.
— Eu não me atreveria a recusar o seu... ahn... convite para uma visita, tia Clarinda —
falou, dando-lhe um beijo.
— Pois sim. Você é o único que se atreveria — replicou, num tom um tanto rude. —
Onde está a Srta. Summers? Ela não deveria acompanhá-lo a todos os lugares?
— Deveria, mas eu aproveitei para escapar enquanto ela estava ocupada com outras

Projeto Revisoras 68
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coisas.
— Oh, Kyle! Você insiste em não levar isso a sério, não é? Ele não disse nada. Serviu-
se de uma xícara de café e sentou-se numa poltrona, diante da tia.
—- E então, tia Clarinda? O que a está preocupando agora?
— A investigação, é claro. Tenho recebido relatório diários de Wally Forrester. Ele me
garantiu que você não recebeu outra carta. É verdade?
— Palavra de escoteiro. Wally está examinando as fichas de todos os funcionários da
matriz para ver se encontra alguma pista. Assim, pare de se preocupar.
— Eu me preocuparia muito menos se você permitisse que Wally colocasse uma
pessoa mais experiente no caso.
— Tia Clarinda. . .
— Estou falando sério, Kyle. Não sou cega e muito menos tola. Eu suspeitava de que
havia acontecido alguma coisa entre vocês, no Havaí, e, depois de conversar com
Dorothy, tive certeza. Não quero que o envolvimento dela com você a impeça de fazer um
bom trabalho,
— Tire isso da sua cabeça, minha tia. -— Colocou a xícara na bandeja e reclinou-se
na poltrona. — Não há nada entre mim e Emily. "E do jeito que as coisas vão, nunca
haverá", pensou. Aquele diabo de investigação era uma faca de dois gumes: de um lado,
os aproximava; do outro, separava-os por causa da teimosia de Emily em insistir num
relacionamento profissional.
— Olhe, tia Clarinda, se a senhora está pensando em terminar com essa coisa toda,
eu concordo plenamente.
— Você sabe muito bem que não é isso o que eu quero.
— Nesse caso, as regras que estabelecemos antes continuam valendo. Que tal
mudarmos de assunto? — sugeriu, servindo-se de mais café.
Emily continuava a examinar as fichas. O que poderia transformar uma pessoa a ponto
de levá-la a fazer ameaças? Ser esquecida na hora de uma promoção? Um pedido de
aumento recusado? Ou uma razão mais pessoal como ciúme?
Leu atentamente os dados de Peter Walker. O homem não era um gênio no mundo dos
negócios, mas estava fazendo carteira. Tudo parecia normal, exceto pela suspeita de que
ele sentia ciúme de Noel e Kyle.
Lembrando-se de sua própria reação ao ter certeza de que Noel e Kyle haviam sido
amantes, Emily separou a ficha de Walker.
Duas horas mais tarde, terminou o trabalho. Tinha seis fichas na mão, seis tênues
possibilidades. Não passara por cima nem mesmo dos que haviam sido despedidos.
Quem pode-ria garantir que uma dessas pessoas não tivesse um amigo, talvez mesmo
um amante, na empresa de Kyle?
Das seis fichas que separara, três eram de pessoas que estavam fora da Spencer
International há meses. A Forrester Investigações tinha meios de descobrir se uma delas
ainda mantinha contato com algum dos funcionários da matriz.
Telefonou para Wally, colocando-o a par de suas suspeitas.
— Nós vamos investigar, Emily. Continue atenta. Ah, seria uma boa idéia falar com
Spencer a respeito. Talvez ele se lembre de algum fato relativo a essas pessoas que
possa nos ajudar.
Quando Kyle chegou, Emily o aguardava na sala de estar, as fichas numa das mãos.
— O quê? Não me diga que resolveu tirar uma noite de folga — ele ironizou.
— Já terminei de examinar o fichário — explicou, imperturbável. -— Precisamos ter
uma conversa, Kyle.
— Pelo tom da sua voz, acho melhor tomar um drinque antes. — Foi até o bar e
colocou um pouco de conhaque num copo. — Quer beber alguma coisa?
— Eu aceito um licor.
Seus dedos se tocaram levemente, quando ele lhe ofereceu o cálice. Emily baixou os

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olhos. O suave e atordoante aroma de loção após-barba era capaz de despertar todos os
sentidos dela.
Ele se sentou num dos sofás e colocou os pés sobre a mesinha de centro.
— Vamos lá, senhora detetive. — O sorriso não poderia ser mais sarcástico. — O que
descobriu?
Em poucas palavras, Emily explicou-lhe do que se tratava, e depois entregou-lhe as
fichas.
— Por que você separou alguns que não trabalham mais na Spencer International?
Isso não contraria a sua teoria de que o autor das cartas é alguém do escritório?
— Não, se essa pessoa ainda tiver algum contato na companhia — respondeu
prontamente.
A ironia desapareceu do olhar dele, dando lugar a uma grande admiração. Emily era
mesmo uma ótima detetive. Mas esse era o problema. Não parecia haver espaço na vida
dela para nada além do trabalho. Não, não era possível. Ela era jovem demais, bonita
demais para não ter outros interesses. Por que insistia em fugir dele, então? Com certeza,
havia uma outra pessoa em sua vida... Tentou ler as fichas, concentrar-se no que estava
escrito, mas foi inútil. Tudo o que desejava fazer era olhar para Emily. As lembranças da
noite anterior ainda estavam bem vivas na mente dele. O corpo escultural, o sabor
daquela boca, os seios firmes e macios entre suas mãos...
— E então? — Perguntou Emily. Por que ele insistia em olhá-la daquele jeito? Deus,
se ao menos ela conseguisse ficar indiferente... Sentia o rosto quente, e o coração
parecia querer saltar do peito. — Wally vai investigar a vida dessas pessoas, mas talvez
você se lembre de algum incidente ligado a uma delas...
— Não quero falar sobre esse assunto agora.
— Kyle, você não vê que é importante? Há uma boa chance de...
— Está certo. Prometo que vou pensar nisso. . . depois.
Sem desviar os olhos de Emily, Kyle colocou o copo de conhaque sobre a mesa. Ela
percebeu na hora a intenção dele, e sentiu o corpo trêmulo de expectativa. Bastaria que
Kyle a tocasse para...
— Já é tarde — falou, levantando-se de repente. — Eu vou dormir. Não deixe de
examinar as fichas amanhã, logo cedo.
Estava fugindo mais uma vez, e Kyle, com toda certeza, havia percebido. Agindo
assim, só "conseguira deixar claro o poder que ele tinha sobre ela, que a tornava fraca,
incapaz de enfrentá-lo. No entanto, o que mais poderia ter feito? Se ficasse na sala,
terminaria a noite nos braços de Kyle, fazendo amor de uma forma ardente e apaixonada,
exatamente como das outras j vezes.
Sozinha na cama, Emily "rolava de um lado para o outro.I Imagens de Kyle e Noel
perseguiam-na, impedindo-a de dormir, j Podia vê-los abraçados, beijando-se com
sofreguidão, as mãos dele descendo o zíper do vestido. . .
Desesperada, cobriu a cabeça com o travesseiro. Acontecera de novo. Ela jurara que
aquilo jamais se repetiria e, no entanto, apaixonara-se novamente pelo homem errado.
— Dormiu bem? — perguntou Kyle na manhã seguinte, o olhar estudando-a
atentamente.
— Muito bem, obrigada. — Serviu-se de suco de laranja,! tentando não pensar em
como sentira falta dele durante a noite, dos beijos que lhe queimavam a pele, das carícias
que a deixavam louca de desejo. .. Tentando varrer esses pensamentos da cabeça,
concentrou-se na leitura do jornal.
Enquanto Kyle tirava o carro da garagem, Emily tentava, sem resultados, dar a partida
no seu.
— Problemas? — perguntou ele.
— Deve ser a bateria. Vou telefonar para a oficina. Você pode esperar um pouco?
Ele balançou a cabeça.

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—- Sinto muito, mas tenho uma reunião daqui a meia hora. Eu vou na frente.
— Não posso ficar aqui. Sou o seu guarda-costas, lembra-se?
— Venha comigo, então.
— Ótima idéia — replicou, perdendo a paciência. — E se alguém nos vir chegando no
mesmo carro?
— Com certeza vai deduzir que dormimos juntos. Não seria irônico?
Emily mordeu o lábio e entrou no carro de Kyle. Por que ele sempre conseguia levar a
melhor? Mal trocaram duas palavras, no caminho. Quando estavam a quatro quarteirões
do edifício da Spencer International, Emily pediu-lhe que parasse. Por precaução, ela faria
aquele trajeto a pé. Uma vez no escritório, foi direto para a sala de Kyle.
— Ele tem uma reunião daqui a dez minutos — Noel disse, pronta para lhe barrar o
caminho.
— Não se preocupe. Não vou me demorar mais do que cinco — replicou Emily,
reparando, a contragosto, em que a outra nunca lhe parecera tão bonita quanto naquela
manhã. Deu duas batidas na porta, antes de entrar.
— Como é, gostou da caminhada? Emily ignorou o sarcasmo dele.
— Havia alguma coisa na correspondência?
Sem dizer nada, Kyle lhe entregou uma carta.
Emily engoliu em seco, ao reconhecer o envelope azul, sem remetente. Correu para o
telefone e discou o número da Forrester Investigações.
— Wally, recebemos outra carta. Chegou ao escritório esta manhã.
— Venha para cá imediatamente.
Na sala de Wally, Emily aguardava, ansiosa, o resultado do laboratório. Talvez
tivessem mais sorte, dessa vez, e houvesse alguma impressão digital no papel.
Quando Wally entrou com o relatório, Emily adivinhou o resultado pela expressão dele. |
— Nada, não é? — arriscou.
— Nada. — Wally sentou-se e entregou-lhe a carta.
"Já tenho tudo planejado, Spencer, e você não vai gostar."
— O estilo continua bem agradável, não é? — comentou Wally.
— Nós temos que encontrar o autor dessas cartas, Wally, antes. . . antes que seja
tarde demais.
— Eu sei. — Parecia tão tenso quanto ela. — Diabos! É como procurar uma agulha
num palheiro, com a agravante de que não temos a menor idéia de como é a agulha.
— Você já conseguiu alguma coisa com aquela lista de nomes que lhe dei pelo
telefone?
— Duas pessoas estão eliminadas. Um homem morreu num acidente de automóvel;
outro mudou-se para o Alasca. Mas o nosso pessoal continua investigando. E Spencer?
Deu uma olhada na lista?
— Ainda não. Mas que diferença isso pode fazer? Investigar a Vida de todas essas
pessoas pode levar muito tempo. — Impaciente demais para continuar sentada, Emily
levantou-se e começou a andar de um lado para outro da sala. — Nós temos que fazer
alguma coisa, Wally. Temos que pegá-lo antes... — Calou-se de repente e ficou parada no
mesmo lugar.
— O que foi?
— Estava apenas me lembrando de uma coisa que você disse certa vez. Há duas
maneiras de se apanhar uma pessoa: seguindo uma pista ou preparando uma armadilha.
Wally sorriu, entendendo onde ela queria chegar.
— E já que não temos tempo para seguir tantas pistas...
— Vamos preparar uma armadilha — afirmou Emily.

CAPÍTULO XII

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— O que você tem em mente, Emily? — quis saber Wally.


— Mandar Kyle sair da cidade. Olhe, eu observei bem como circulam os comunicados
da presidência. Apenas cinco chefes de departamento são informados das viagens de
Kyle. E se cada um deles pensasse que Kyle está indo para um lugar diferente? Dessa
forma, se houver uma nova carta, poderemos isolar um departamento, dependendo do
lugar para onde ela for enviada,
Wally não disse nada. Pensativo, tamborilava com os dedos na mesa.
— E então? — perguntou Emily, nervosa com aquele silêncio prolongado.
— É um plano inteligente — ele afirmou. — Não é perfeito, mas tem boas chances de
dar certo.
— O tempo está correndo, e não podemos ficar de braços cruzados. Pelo menos,
estaremos tentando alguma coisa.
— Você acha que Spencer vai concordar?
— Creio que sim. Afinal, ele também quer que esse pesadelo termine.
— Emily... — Ela já estava na porta e voltou-se ao ouvir a voz do chefe. — Você está
fazendo um bom trabalho, menina.
Emily sorriu.
— Eu tive um bom professor.
Emily chegou ao edifício da Spencer International pouco antes da uma. Na hora de
pagar o táxi, percebeu que seu dinheiro estava no fim. Não teria tempo de passar no
banco, mas poderia recorrer ao caixa eletrônico mais tarde.
— A que horas o Sr. Spencer vai voltar do almoço? — quis saber assim que entrou.
— Ele ainda não saiu — respondeu Sally. — Acho que está à sua espera. Vou dizer-
lhe que você já chegou.
Kyle estava sentado, quando Emily abriu a porta. Sem paletó, as mangas da camisa
dobradas, assinava alguns papéis.
— Ah, finalmente — falou, ao vê-la. — Espero que você ainda não tenha almoçado.
— Como? — Não conseguia acreditar no que ouvia. Nem uma palavra sobre o bilhete.
Por acaso ele teria esquecido de onde ela estava vindo? — Espero que você ainda não
tenha almoçado — repetiu Kyle. — Não me diga que está sem fome. Nunca conheci uma
mulher com tanto apetite quanto você — brincou.
— Leia isto. — Ela lhe estendeu Uma fotocópia do bilhete. — Quero ver se, depois,
você ainda vai sentir vontade de almoçar.
A fisionomia dele não se alterou. Impassível, amassou o papel e jogou-o no cesto do
lixo.
— Exatamente como os outros — afirmou. — Por que eu deveria ficar alarmado?
Vamos almoçar?
— Acorde, Kyle! Você não me parece o tipo de homem que foge da realidade. O que é
preciso para que entenda que está correndo um grande perigo?
— Perigo? Ora, Emily, se esse sujeito quisesse mesmo me matar, tomaria logo uma
atitude, em vez de ficar escrevendo essas cartas.
— Kyle, eu tenho tanto medo de que alguma coisa lhe aconteça.. .
— Não sei por quê. Com você como meu guarda-costas,eu me sinto bastante seguro.
A indiferença com que ele encarava a situação tirou-a do sério novamente.
— Só quero ver se você vai ter vontade de fazer piadas, quando esse psicopata
decidir cumprir as ameaças. Por favor, Kyle, reconsidere a sua decisão e deixe que Wally
indique um outro agente para protegê-lo, alguém treinado para essa missão.
— Emily, pensei que você já tivesse percebido que não tenho o hábito de mudar de
idéia. Se quer saber, é mais provável que eu morra de fome do que pelas mãos desse
maluco. Será que podemos almoçar agora?
Foram a pé a um restaurante que ficava a três quarteirões da Spencer International.

Projeto Revisoras 72
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Durante o trajeto, Kyle falou de outros assuntos, deixando claro que não pretendia
retomar a questão das cartas.
Ocuparam uma mesa ao lado da janela, e uma garçonete aproximou-se para anotar os
pedidos. Emily estava preocupada demais para pensar no que comer e pediu apenas um
filé grelhado. A intuição lhe dizia que precisaria travar uma verdadeira batalha com Kyle,-
antes de convencê-lo a cooperar no plano.
Esperou que a refeição fosse servida e, só então, atreveu-se a entrar no assunto:
— Kyle, a respeito daquela lista de nomes que lhe entreguei. ..
— Você não tem nada mais agradável para discutirmos? — Deu um suspiro resignado.
— Está certo, eu li a lista. Por que o nome de Peter Walker está lá?
— O ciúme é um bom motivo. — Tomou um gole de suco, esperando que ele não
notasse que suas mãos tremiam. — Ele tem motivo para sentir ciúme, Kyle?
— Claro que não. Pelo menos, não agora.
— Mas no passado. . . você e Noel...
— Você não vai sossegar enquanto não souber a verdade, não é? Pois bem, Noel e eu
tivemos um caso. Ela havia rompido com Peter, e eu... bom, eu me sentia muito sozinho.
Logo percebemos que estávamos cometendo um erro, e terminamos tudo. Ela ainda
estava apaixonada por Peter, e eu fiquei feliz quando eles se reconciliaram.
— E você... você não está mais apaixonado por ela?
— Não, mas considero Noel uma boa amiga. E isso nunca vai mudar, Emily.
Embora ela já soubesse de tudo, ouvir a verdade da boca de Kyle doeu mais do que
poderia imaginar.
— E as outras pessoas da lista? — perguntou, satisfeita ao ver que conseguia falar
com naturalidade.
— Não consigo ver nenhum deles como o provável autor dos bilhetes.
— Tem certeza? E os que foram despedidos?
— Não tive participação direta em nenhum dos casos. Geralmente, essas providências
cabem aos chefes de departamento. Como vê, não haveria motivo para que eles se
voltassem contra mim.
— Bom, pelo menos foi uma tentativa. Wally vai continuar investigando. Mas nós não
podemos ficar esperando de braços cruzados. Eu tive uma idéia, e vou precisar de sua
cooperação.
A garçonete interrompeu a conversa, e Emily precisou esperar que a sobremesa fosse
servida, antes de continuar. Precisava fazer um grande esforço para se concentrar no
trabalho. Kyle e Noel. .. Por que ela o pressionara para contar a verdade? Era difícil de
acreditar que ele não sentisse mais nada por uma mulher tão linda.
— Kyle, voltando à minha idéia...
Em poucas palavras, explicou-lhe do que se tratava. Para colocar o plano
imediatamente em prática, poderiam aproveitar a viagem que ele faria a San José na
próxima segunda-feira.
O olhar de Kyle ficou sombrio e a fisionomia endureceu.
— Você espera que eu transforme a minha empresa num caos apenas pela remota
possibilidade de que esse lunático escreva outro bilhete? E se ele decidir esperar que eu
volte para casa?
— Então a nossa tentativa terá falhado — afirmou Emily, sem se deixar abalar pelo
tom ríspido dele. — Mas existe uma possibilidade de que o plano dê certo, e, nesse caso,
nós restringiremos as suspeitas a um único departamento.
— E para isso eu serei obrigado a mentir para pessoas que sempre foram leais
comigo. Acho que não quero a sobremesa. — Levantou-se, tirou algumas notas da
carteira e jogou-as na mesa. — Vamos sair daqui.
Emily precisava quase correr para acompanhar as passadas largas e rápidas de Kyle.
Quando chegaram diante do edifício, ela o segurou pelo braço.

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— Kyle, nós temos que conversar. Sei que é difícil para você tomar uma atitude como
essa, mas eu não consegui ter uma idéia melhor. Por favor, Kyle, talvez seja a nossa
única chance. Você promete pelo menos pensar a respeito?
— Está bem, eu vou pensar.
Emily entendeu que, naquele momento, era tudo o que conseguiria arrancar dele. E,
pelo que conhecia de Kyle, duvidou que ele concordasse com o plano. Inventou que
precisava ir até a farmácia e, quando Kyle desapareceu pela porta giratória do edifício,
correu para um telefone público.
— Wally?É Emily.
— E então?
— Por enquanto, nada feito. No entanto, consegui que ele prometesse pensar melhor
no assunto.
— Diabos! Esse homem é um completo idiota.
— Não, ele não é! — Aborreceu-se consigo mesma por defendê-lo com tanta
veemência. — Kyle é leal com as pessoas que trabalham para ele — explicou com mais
calma. — Ele se recusa a aceitar a idéia de que alguém que merece a sua confiança
esteja por trás disso tudo.
— E o que vamos fazer então? Não podemos garantir que o seu plano dê certo, porém
até agora não tivemos uma chance melhor de colocarmos as mãos no autor desses
malditos bilhetes.
— Sei disso, Wally. É uma pena que ele não esteja disposto a cooperar. — E a Sra.
Barr? Talvez ela seja a única pessoa capaz de convencê-lo. O que você acha?
— Bem pensado, Emily. Clarinda sabe como colocá-lo contra a parede. Vou telefonar
para ela agora mesmo.
Emily voltou para o escritório, pensando no bilhete daquela manhã. Não se tratava de
outra ameaça velada; havia algo mais definido agora. O bilhete dizia que já estava tudo
planejado. Era como se agora fosse apenas uma questão de tempo. Se ao menos
houvesse uma forma de descobrir quando e como o autor pretendia agir! Não podiam
continuar esperando. Ela sabia que o próximo passo deveria ser deles, caso contrário,
tudo estaria perdido. No entanto, sem o consentimento de Kyle, estavam de mãos
amarradas, e essa sensação de impotência a deixava desesperada. Sua última
esperança era que Clarinda conseguisse convencê-lo.
Sally ainda não havia voltado do almoço. Noel também não estava lá. Emily duvidava
que conseguisse tratá-la com naturalidade, agora que sabia de tudo. Kyle afirmava que
não havia mais nada entre eles, e ela não tinha motivos para duvidar. Ainda assim.
Abriu uma das pastas que Lisa deixara em sua mesa. Trabalho. Era disso que
precisava, mesmo que, no caso, fosse apenas um faz-de-conta. De que adiantava
torturar-se pensando em Noel e Kyle? A vida particular dele não lhe dizia respeito. Não
eram casados, não havia qualquer compromisso entre eles, e Kyle nem ao menos dissera
que a amava. Precisava ser realista e admitir que representara apenas um desafio para
ele. Nada mais.
Kyle tentava, sem resultados, concentrar-se no orçamento do ano seguinte. Aquela
maldita investigação! Concordara com ela apenas para ficar perto de Emily. Que mulher!
Quanto mais convivia com ela, mais se sentia atraído. Às vezes, ela o deixava
exasperado com sua teimosia, no entanto, era obrigado a admitir que admirava sua
inteligência e tenacidade, aquela força interior que a levava a transpor qualquer obstáculo.
E como era linda! Tinha certeza de que a única barreira entre eles era aquele diabo de
investigação. Se ao menos não houvesse mais nenhum bilhete...
Emily levava aquele caso a sério demais, e exagerava sua proporção. Desde o
começo, ele havia decidido que o melhor a fazer era não permitir que aquele psicopata o
intimidasse. E agora Emily queria que ele simplesmente transformasse a empresa num
caos para cooperar naquele plano absurdo. Bom, talvez não fosse tão absurdo assim.

Projeto Revisoras 74
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Tinha que admitir que era até bastante inteligente, e poderia dar certo. Ainda assim...
O interfone tocou, e Pam comunicou-lhe que a Sra. Barr estava na linha A. Kyle
apertou-o botão correspondente, perguntando-se por que não se surpreendera com
aquele telefonema da tia.
— Kyle, Wally Forrester acabou de me. contar que você está colocando espinhos no
caminho de Emily — falou Clarinda, entrando direto no assunto.
— Boa tarde, tia Clarinda -— disse secamente.
— Não é hora "para etiquetas, meu caro — replicou ela, com severidade. — Isso pode
ficar para depois. Por que está sendo tão obstinado?
— Eu avisei que concordaria com essa investigação desde que ela não interferisse no
meu trabalho.
— Sei... Bem, talvez você esteja certo. Acho melhor eu procurar alguma coisa mais
interessante para fazer do que me preocupar com a sua segurança.
— É uma ótima idéia — afirmou Kyle, um tanto desconfiado. Nunca vira tia Clarinda
mudar de idéia tão rápido.
— Estou com saudades de sua mãe — continuou Clarinda, em tom casual. — Acho
que vou telefonar para ela hoje mesmo e sugerir que venha me visitar. Nós poderemos
fazer compras e aproveitar para colocarmos as novidades em dia.
— Tia Clarinda...
— É claro que, durante a conversa, ela vai conseguir arrancar de mim toda essa
história sobre bilhetes e ameaças. — Deu um profundo suspiro. — Nunca consegui
esconder nada de Dorothy.
— Droga, tia Clarinda! — Estava furioso. Ela sabia muito bem que ele jamais aceitaria
correr o risco de que tudo aquilo chegasse aos ouvidos do pai. — Desta vez, a senhora
passou dos limites. Se pretende me forçar a concordar com aquele plano maluco, eu... A
senhora sabe do que sou capaz, não sabe?
— Sei — concordou Clarinda, com tristeza. — Eu posso suportar a sua raiva e até
mesmo que você corte relações comigo. Mas, se alguma coisa lhe acontecer sem que eu
tenha feito o possível para impedir... Não conseguiu terminar. Kyle nunca sentira tanta
emoção na voz da tia antes. — E então? Clarinda perguntou, num tom ríspido. — O que
vai ser? Posso telefonar para Dorothy?
— Emily!
Ela ergueu a cabeça, e só então se deu conta de que Pam a chamava pela segunda
vez.
— Desculpe. O que é?
— O Sr. Spencer quer vê-la na sala dele.
— Obrigada.
Com certeza, Clarinda já entrara em contato com ele, pensou, enquanto batia na porta.
Sua suspeita se confirmou assim que colocou os pés no escritório dele. Pela expressão
de Kyle, Emily compreendeu que só a muito custo ele controlava a vontade de esganá-la.
— Meus parabéns, você venceu — falou, depois que ela fechou a porta. — Por mais
que isso me desagrade, sou forçado a concordar com o seu plano. Vamos lá, Emily. Estou
pronto para ouvir os detalhes.
Era tudo muito simples, afirmou Emily, e, em poucas palavras, explicou-lhe como
fariam para que cada chefe de departamento recebesse um comunicado diferente.
— É bem simples mesmo — concordou Kyle. — só espero que você não pretenda que
eu minta para Noel também, É ela quem toma todas as providências para as minhas
viagens.
— Não, ela vai receber a informação correta.
— Muito gentil da sua parte — ironizou. Sua fisionomia suavizou-se e um brilho
divertido cruzou-lhe o olhar. — E quanto a você? Suponho que irá comigo, certo?
— Não sei, eu... — Deveria ir? Podia imaginar-se com Kyle no avião, depois os dois

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em quartos contíguos no hotel, tudo muito íntimo e acolhedor. — Não, eu não irei.
— Por quê, Emily? — A voz dele não poderia ser mais irônica. — Você vai me deixar
sozinho e desprotegido?
O telefone direto de Kyle tocou, e Emily sentiu-se aliviada com aquela interrupção tão
oportuna.
— É para você — ele falou, estendendo-lhe o fone.
— Emily? — Era Kelly, a secretária de Wally.
— Kelly? O que aconteceu?
— A diretora da escola de sua irmã telefonou para cá. Ela não disse o que aconteceu,
mas parece uma emergência. Anote o telefone.
Emily pegou uma caneta na escrivaninha e uma folha de papel.
— O que foi? — quis saber Kyle, ao notar como ela ficara lívida.
— Não sei... Jenny. Pode falar, Kelly. — Sua boca estava seca, e a mão tremia tanto
que ela mal conseguia escrever.
— Emily... — começou Kyle.
— Só um instante. Eu vou... Alô? — Identificou-se para a secretária da escola, e ficou
sabendo que Jenny sofrerá um "pequeno acidente".
— Não consegui localizar os pais dela, e então...
— Um pequeno acidente? — interrompeu-a Emily. — Mas o que foi? — perguntou,
sentindo o sangue latejar nas têmporas. — Ela está bem?
— Houve uma briguinha na classe. Você sabe como são as crianças. ..
— E aí? — perguntou, impaciente com tantos rodeios.
— Bom, Jenny caiu e machucou o braço. Não parece nada sério, mas talvez seja
melhor levá-la para tirar uma radiografia.
— Eu já estou a caminho.
— O que foi? — perguntou Kyle, quando ela desligou.
— Jenny sofreu um acidente.
— Um acidente? O que aconteceu?
— Não sei direito. Talvez ela tenha quebrado um braço.
— Pegou a bolsa e foi para a porta. — Eu vou até lá. — Saiu e voltou em seguida. —
Meu Deus, onde estou com a cabeça? Esqueci que o meu carro não está aqui. E eu não
tenho dinheiro suficiente para o táxi. Você pode me emprestar, Kyle?
Ele vestiu o paletó e, segurando-a pelo braço, foi com ela para a porta.
— Eu vou levá-la até lá.
— Não é necessário. Eu posso cuidar de tudo. Basta que você me empreste algum
dinheiro e...
— Diabos, Emily!— Segurou-a pelos ombros e sacudiu-a.
— O que é mais importante? Essa sua irritante auto-suficiência ou a saúde da sua
irmã?
Ela baixou a cabeça, os olhos cheios de lágrimas.
— Desculpe, eu estou agindo como uma tola. Vamos embora.
O médico que atendeu Jenny garantiu-lhes que não se tratava de uma fratura e, sim,
de uma simples luxação. Seria necessário engessar o braço, porém a recuperação não
levaria mais do que uma semana. Kyle encarregou-se de preencher todos os formulários,
e Emily foi ficar junto da irmã.
Uma hora mais tarde, deixaram o hospital. Jenny, um tanto sonolenta pelo efeito dos
analgésicos, ia no colo da irmã. Emily estava tão atordoada com o acidente que só na
metade do caminho se lembrou de que não havia avisado a madrasta.
— Meu Deus! Esqueci completamente de Evelyn! Já são três e meia, e às quatro ela
vai buscar Jenny na escola!. . . — Não se preocupe — falou Kyle. — Eu telefonei para ela.
— Você telefonou? — Por que se surpreendera tanto? Já devia saber que ele sempre
pensava em tudo. — Evelyn ficou muito assustada? — Ficou. Ela queria ir para o hospital,

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mas eu lhe disse que nós já estávamos para sair e a convenci a nos esperar em casa.
Emily não disse nada. Acariciou os cabelos de Jenny, pensando que era a primeira vez,
desde que se tornara uma mulher independente, que se dava ao luxo de buscar apoio em
alguém. Na H verdade, Kyle oferecera ajuda espontaneamente. Como era reconfortante
dividir as responsabilidades e preocupações com outra pessoa! Como seria bom poder
contar sempre com a segurança e a força de Kyle!
Quando seus pensamentos atingiram esse ponto, Emily reagiu. Estava fantasiando as
coisas mais uma vez. Kyle a ajudara num momento difícil como qualquer pessoa com um
mínimo de solidariedade humana teria feito. E apenas por isso ela se permitia sonhar com
o impossível? Não havia nada sério entre eles, (e nunca haveria. Quando aquele caso
estivesse encerrado, e ela desejava que isso acontecesse o mais breve possível, cada
um deles seguiria o seu próprio caminho. Ela voltaria para casa, recuperaria a liberdade e
a independência de antes, e nunca mais se encontraria com Kyle Spencer. Sem que
pudesse evitar, seus olhos se encheram de lágrimas. De que adiantava tentar se iludir?
Sua vida nunca mais seria a mesma, e duvidava que pudesse ser feliz, se Kyle não
fizesse parte dela.

CAPÍTULO XIII

A tarde começava a cair, quando eles deixariam a casa dos pais de Emily. Ela encostou
a cabeça no banco do carro, que seguia velozmente em direção a Malibu.
Tantas coisas haviam acontecido naquele dia... A carta, o acidente de Jenny. . .
Felizmente, a menina estava bem. Passado o susto, Emily sentia-se exausta como se
tivesse percorrido quilômetros a pé, e uma inexplicável sensação de angústia não a
abandonava.
Como se houvesse compreendido o que se passava com ela Kyle apenas conversou
sobre temas gerais, evitando qualquer assunto mais íntimo. Emily sentiu-se grata e
aliviada, ao ver que ele não pretendia tirar vantagem de seu estado de espírito. Sensível e
vulnerável como se encontrava, ela não hesitaria em se apoiar na força e na segurança
de Kyle. E sabia muito bem como aquilo terminaria... .
Kyle ofereceu-lhe um Martini, e sentaram-se à espera da comida.
— Você ainda não me disse por que mudou de idéia a respeito do meu plano —
comentou Emily. — Imagino que sua tia tenha algo a ver com isso.
— Que dúvida! Tia Clarinda sabe ser muito persuasiva.
— Talvez seja uma boa idéia — concordou, deitando-se, enquanto a Sra. Diaz enchia
a banheira e colocava sais na água.
— Não fique preocupada, Srta. Summers — falou do banheiro. — Sua irmã vai ficar
boa logo. É impressionante como as crianças se recuperam rápido.
Emily sorriu e não disse nada. E ela? Quanto tempo levaria para se recuperar? Quando
aquele caso terminasse e ela saísse da vida de Kyle, conseguiria algum dia ser a mesma
mulher de antes?
Ao sair do banho, Emily encontrou seu vestido branco sobre a cama. Ah, a Sra. Diaz.. .
Guardou-o de volta no armário. Fora um presente de Evelyn, e era lindo; no entanto,
pouco apropriado para o estado de espírito em que se encontrava.
Vestiu um jeans e uma camiseta, adivinhando a reprovação no olhar da Sra. Diaz. A
boa mulher devia estar confusa. Depois daquele primeiro jantar tão íntimo, tão romântico,
com certeza ficara desapontada, ao ver que Emily dormia em seu próprio quarto todas as
noites e que trazia diariamente pilhas de papéis, do escritório para casa.
Kyle a esperava no pátio, ao lado da mesa arrumada com esmero pela Sra. Diaz.
Toalha de linho, castiçais e, no centro, um pequeno vaso de estanho com
crisântemos brancos e amarelos.

Projeto Revisoras 77
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
Desta vez não foi minha idéia — desculpou-se Kyle, com um sorriso. — Eu havia
sugerido ovos fritos na cozinha.
— Acredito. Acho que a Sra. Diaz é uma romântica incor-
— Ela gosta muito de você e está preocupada com a sua segurança.
— Sei disso, mas odeio ser manipulado, ainda que para o meu próprio bem. — Tomou
um gole de uísque. — Vamos falar de outra coisa?
A Sra. Diaz entrou com a comida, e, "dali em diante, a conversa girou em torno de
política, cinema e outros assuntos inofensivos. O lombo com batatas coradas que a Sra.
Diaz havia preparado estava delicioso, mas não conseguiu despertar o apetite de Emily.
— Kyle, você se importaria se eu subisse? Preciso falar com Wally e também quero
saber como está Jenny. Depois, acho que vou para a cama. O dia não foi muito fácil, e eu
ainda estou um tanto abalada.
Antes que ele pudesse responder, a Sra. Diaz veio da cozinha para tirar os pratos.
— Já vou servir a sobremesa e o café. Preparei um pudim d( queijo especialmente
para a Srta. Summers — disse, com um sorriso.
Emily olhou para Kyle como se buscasse ajuda.
— A Srta. Summers está sem apetite, Sylvia — falou Kyle — Ela teve um dia agitado e
está muito cansada. Mas eu não vou dispensar o pudim. Você sabe que adoro seus
doces.
Emily deu um sorriso cheio de gratidão.
— O jantar estava uma delícia, Sra. Diaz, e eu prometo experimentar o pudim amanhã.
Isto é, se ele deixar algum pedaço para mim — brincou.
A Sra. Diaz deu risada e voltou para a cozinha. Aliviada por ver que ela não ficara
magoada, Emily pediu licença e deixou a mesa.
Kyle acompanhou-a com o olhar, reprimindo, o impulso de ir atrás dela. Parecia tão
triste e cansada. ..
Aquela droga de viagem! Havia planejado passar o fim de semana com Emily, e
agora... A Sra. Diaz serviu-lhe o café, e ele levou a xícara à boca, pensativo, o olhar
perdido no jardim.
De repente, endireitou o corpo, e algumas rugas marcaram-lhe a testa. A viagem. . . E
se o plano de Emily fosse bem-sucedido?
O caso estaria solucionado, e ela sairia da vida dele da mesma forma abrupta como
havia entrado. Lembrou-se de como a sentira distante à tarde, na casa dos pais. Emily
tinha a família, sua própria casa, uma vida, enfim, totalmente desvinculada da dele.
Mas não estava disposto a desistir tão rápido. Não era do seu feitio. Por que o
incomodavam tanto as barreiras que Emily tentava erguer entre eles? Orgulho ferido?
Não sabia dizer. Só tinha certeza de uma coisa: por nada no mundo a deixaria fugir.
Viajaria apenas na segunda-feira. Noel, como sempre, tomaria todas as providências.
No entanto, havia alguns assuntos pendentes no escritório que provavelmente tomariam
todo o sábado, refletiu. Para o inferno os problemas! Passaria o fim de semana com
Emily. Não podia desprezar aquela chance. Sabia que seria sua última cartada.
A Sra. Diaz voltou para tirar a mesa.
— Vai querer alguma coisa especial para o fim de semana, Sr. Spencer? — perguntou.
— Vou — respondeu, pensativo, sem olhar para ela. — Uma coisa muito especial. — E
então, com mais vivacidade, acrescentou: — Pegue o seu bloco, Sylvia. Vamos fazer uma
lista. Será um fim de semana inesquecível.
Depois dos telefonemas, Emily vestiu uma camisola e foi para a cama. Ia desligar o
abajur, quando ouviu duas batidas na porta.
— Sim?
Kyle entrou no quarto.
— Como está Jenny?
— Melhor. Ainda um pouco assustada, mas Evelyn vai dormir com ela.

Projeto Revisoras 78
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Ele foi até a cama e puxou as cobertas até os ombros de Emily. Havia mesmo carinho
no olhar dele ou seria impressão?
Antes que ela pudesse descobrir, Kyle esticou o braço e apagou a luz.
— Jenny vai se recuperar logo. Não se preocupei —. sussurrou.
— Eu sei, porém não consigo deixar de pensar no que teria acontecido se...
— "Sshh... — Deitou-se ao lado dela e abraçou-a. — Não aconteceu nada.
A angústia que Emily tentara sufocar durante tantas horas acabou explodindo.
Tremendo, apoiou a cabeça no peito de Kyle, como uma criança em busca de conforto e
proteção.
Kyle foi beijando-lhe os cabelos, a testa, as pálpebras até alcançar-lhe a boca. Sem
refletir, Emily entreabriu os lábios. Um beijo suave, porém o suficiente para varrer para
longe dela o medo e a insegurança.
Quando Kyle ergueu o rosto, Emily não conteve uma exclamação abafada de
decepção. Com um movimento rápido, ele a puxou para o colo, abraçando-a com força,
como se temesse que ela escapasse mais uma vez.
O desejo crescia dentro deles com uma força que nenhum dos dois podia controlar.
Emily podia sentir as batidas aceleradas do coração de Kyle, ouvir-lhe a respiração
entrecortada, enquanto ele lhe beijava os lábios, o pescoço, o colo.
Kyle levantou-se, levando-a consigo. De pé sobre a cama, Emily ficava da altura dele.
Enlaçou-lhe o pescoço, e, mais uma vez, suas bocas se uniram num beijo ansioso.
As mãos dele subiram lentamente pelas costas de Emily, até alcançarem as alças da
camisola. Em segundos, o tecido vaporoso deslizou, e as mãos dele fecharam-se com
delicadeza sobre os seios.
— Kyle...
Ele afastou e rosto e sorriu. Sem dizer nada, começou a desabotoar a camisa, o olhar
vagando pelo corpo que a semi-obscuridade do quarto protegia parcialmente.
Olhos fechados, respiração arquejante, Emily sentiu as mãos dele moverem-se
lentamente em sua cintura, descerem em direção aos quadris e acariciarem as coxas
longas e firmes. Bem devagar, ele a deitou na cama.
— Você é tão linda... — murmurou, inclinando-se sobre ela.
Quando a boca de Kyle alcançou um dos seios, o corpo de Emily contraiu-se num
espasmo.
— Kyle... — chamou num sussurro. — Me beije...
Ele obedeceu, e rolaram pela cama, lábios unidos, corpos abraçados. Quando Kyle se
deitou sobre ela, Emily prendeu-o entre as coxas, guiando-o para dentro de si.
Ela gostaria de prolongar a sensualidade daquele momento, mas era tarde demais. As
mãos crisparam-se nos ombros de Kyle, quando os movimentos dos quadris dele
tornaram-se mais impetuosos.
Ele murmurava palavras entrecortadas ao ouvido dela, mas Emily não o escutava.
Seus sentidos estavam fechados para qualquer coisa, exceto para aquela alucinante
sensação de prazer.
Momentos depois, enquanto Emily deitava a cabeça no travesseiro, Kyle afastou-lhe
algumas mechas de cabelo da testa.
— Agora durma — sussurrou, cerrando-lhe as pálpebras com um beijo.
Quando abriu os olhos na manhã seguinte, o primeiro pensamento de Emily foi para a
noite anterior, e ela desejou que tudo não houvesse passado de um sonho. Mais uma vez,
deixara que Kyle fizesse amor com ela.
Olhou à sua volta e percebeu que estava sozinha na cama. Kyle havia saído, porém o
inconfundível perfume de seu corpo continuava nos lençóis, travesseiros e nela mesma.
Não tinha a menor idéia das horas, mas não se apressou em levantar. Ficou deitada,
preguiçosamente enrolada nos lençóis, relembrando cada momento daquela noite junto
de Kyle e a segurança que sentira entre seus braços.

Projeto Revisoras 79
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
De que adiantava iludir-se? Sabia que aquilo era passageiro.
Talvez, na segunda-feira, o caso já estivesse resolvido, e então . ela retomaria sua
vida, solitária como sempre.
Consultou o relógio e assustou-se ao ver que eram sete e meia. Apressada, saiu da
cama e foi para o chuveiro. Um bom banho a reanimaria. Queria esquecer a mulher frágil
e carente na qual se transformara na noite anterior.
Vestida num robe, saiu do banheiro e, voltando para o quarto, começou a escovar os
cabelos diante do espelho. Um ruído na porta chamou-lhe a atenção, e ela virou a
cabeça.
Kyle entrou com uma bandeja, onde havia croissants, café e suco de laranja. Vestia um
terno escuro, que valorizava a elegância de seu porte. Os cabelos ainda estavam úmidos
do banho.
— Você deve estar com fome. — Colocou a bandeja na cama e aproximou-se de
Emily.
Ela deu alguns passos para o outro lado do quarto, escovando os cabelos com energia.
— Por que você não me- acordou? — perguntou, no tom mais frio possível. — Já é
tarde.
Kyle foi até ela e abraçou-a por trás.
— Não tive coragem — justificou-se, acariciando-lhe os cabelos com a boca. — Você
dormia tão tranqüila. . . Sua expressão se suaviza, durante o sono, perde aqueles sinais
de tensão, de desconfiança.
Emily libertou-se mais uma vez.
— Kyle, é melhor aproveitarmos para esclarecer ás coisas. O que aconteceu ontem à
noite foi... foi.. .
— Bonito? — arriscou, os olhos nos dela.
Emily baixou o rosto, incapaz de dizer alguma coisa, Quando o ergueu novamente,
trazia um brilho decidido no olhar.
— Eu quero esquecer que fiz amor com você, que dormimos juntos na mesma cama.
— Sabia que suas palavras tinham o efeito de um tapa no rosto dele. Ainda assim,
prosseguiu no mesmo tom gelado: -— Admito que, em parte, a culpa foi minha. Eu estava
deprimida e precisava de apoio.
— Só apoio?
— Só. Agora, se você me der licença. . .
— É claro — concordou, numa voz glacial. Deu-lhe as costas e saiu do quarto.
Durante a maior parte da manhã, Emily não viu Kyle. Ele estava, numa reunião que só
terminou às onze horas.
Ela precisava acertar com ele os detalhes da viagem, e, usando um relatório como
pretexto, pediu que Noel a anunciasse. Cada vez que olhava para a secretária,
imaginava-a na cama com Kyle.
Mas, ao entrar na sala dele, concentrou-se no que tinha a lhe dizer.
— Não me diga que você preparou mesmo um relatório sobre o nosso sistema de
computação — ironizou ele, ao vê-la com um maço de papéis na mão.
— Camuflagem — ela explicou, colocando os papéis na mesa. — Precisamos dar os
últimos retoques no nosso plano.
— Seu plano — corrigiu. — Sou apenas um colaborador involuntário.
Emily preferiu ignorar a observação dele.
— O mais importante é afastar Noel do escritório e mantê-la ocupada com alguma
coisa. Dessa forma, você terá uma desculpa para encarregar outra pessoa de distribuir os
comunicados da sua viagem pelos departamentos. Por sorte, Sally não veio hoje, e Pam e
Lisa estarão tão sobrecarregadas de trabalho que parecerá natural que você me peça
essa gentileza.
— Você pensa em tudo, hein?

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Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
— Só falta arrumar um pretexto para afastar Noel — afirmou, desanimada. — Mas
pensarei em alguma coisa.
— Não se preocupe. Eu encontrarei algo bastante diabólico, bem de acordo com o seu
plano.
— Por mim, está ótimo. Uma preocupação a menos. Já ia abrir a porta, quando a voz
dele a deteve:
— Emily...
— Sim?
— Se o seu plano der certo, nós não estaremos mais vivendo juntos, quando eu voltar.
Já pensou nisso?
— Não estamos vivendo juntos — replicou, um tanto ríspida. — Apenas estamos sob o
mesmo teto. Você impôs condições, antes de concordar com as investigações. É bom que
não se esqueça da minha: nada de envolvimentos pessoais.
— Você se esqueceu disso, ontem à noite.
— Pois não vou me esquecer mais.
— Não?
Deu a volta à mesa e aproximou-se dela. Seus dedos acariciaram-lhe o rosto, depois
desceram em direção ao pescoço, massageando-lhe a nuca. Então, inclinou a cabeça
lentamente. Sem hesitar, Emily fechou os olhos e entreabriu os lábios, pronta para ser
beijada. Só que não houve beijo.
— Você vai esquecer, Emily. Vai esquecer. — Havia um j brilho de triunfo no olhar dele,
quando a soltou.
Emily sentiu o rosto pegar fogo. Humilhação e. revolta misturavam-se em seu coração.
Sem dizer nada, saiu da sala.
Às duas horas, Noel apareceu na sala das datilógrafas e comunicou que precisaria sair
para tratar de assuntos particulares do Sr. Spencer.
Fingindo ler atentamente um relatório, Emily não perdia uma palavra das moças. Sentia
todos os músculos do corpo tensos e as palmas de suas mãos estavam úmidas. Não
tinha a menor i idéia de quanto tempo Noel ficaria fora.
Assim que a secretária saiu, Kyle pediu a Emily que datilografasse alguns comunicados
urgentes para os departamentos da empresa. As outras lançaram-lhe olhares
agradecidos, quando ela aceitou sem replicar. Afinal, aquilo não fazia parte das funções
dela.
Sem perder tempo, Emily foi para a sala de Noel e pôs mãos à obra.
Quando terminou, sentia-se mais tensa do que nunca. Consultou o relógio e,
desanimada, constatou que ainda eram quatro e meia. O expediente só se encerraria às
seis.
Os minutos passavam com uma lentidão desesperadora. Às cinco horas, Noel
apareceu no escritório e foi direto para a sala de Kyle.
Nervosa, Emily precisava usar de toda a sua força de vontade para não consultar o
relógio a todo instante. Cada vez que o telefone tocava, ela ficava atenta à conversa,
temendo que algum chefe de departamento quisesse saber mais detalhes sobre a viagem
de Kyle.
Só conseguiu relaxar quando entrou no elevador com a última leva de funcionários que
deixava o edifício.
Seguindo o carro de Kyle, Emily sentia um estranho vazio por dentro. Sua tarefa
terminara. Havia feito tudo o que dependia dela para o êxito do plano. Dali para a frente,
poderiam contar apenas com a sorte.
Quando chegaram em casa, Emily disse à Sra. Diaz que não precisaria colocar um
prato para ela na mesa. Estava com dor de cabeça e iria direto para a cama. Dessa vez,
não era um pretexto. O dia fora desgastante, e ela se sentia esgotada física e
emocionalmente. Não teria condições de enfrentar um jantar com Kyle. Além disso, depois

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da cena daquela tarde, a última coisa que desejava fazer era ficar a sós com ele.
Para sua surpresa, Kyle não procurou fazê-la mudar de idéia.
— Durma bem, Emily — falou, acompanhando-a até a escada. — Eu também vou
dormir cedo, esta noite. Amanhã teremos um dia movimentado pela frente.
— Como assim? Amanhã é sábado...
— O sábado é sempre um dia movimentado — afirmou ele, deixando-a tão confusa
quanto antes. — Boa noite, Emily.

CAPÍTULO XIV

No dia seguinte, Emily levantou-se mais tarde que de hábito. Quando entrou na
cozinha, encontrou Kyle preparando ovos com bacon. A mesa já estava arrumada, e nela
havia geléia queijos, frutas, croissants e suco de laranja.
— Se você ainda estiver disposta a ser a minha sombra coma rápido — ele avisou. —
Vou sair daqui a vinte minuto
— Você vai trabalhar hoje? — espantou-se.
— Não. Tenho outros planos — falou, sem dar maior" detalhes.
Comeram em silêncio, e em seguida Emily subiu para aprontar. Vestiu uma saia de
brim que ficava pouco acima d joelho, uma camiseta colorida e calçou um par de tênis.
Kyle avisara que não gostaria de vê-la vestida como uma executiva. Queria algo bem
esportivo e confortável. Depois de fazer u rabo-de-cavalo, ela pegou a bolsa, uma jaqueta
de náilon e f ao encontro dele.
Logo, Emily percebeu que se preocupara à toa com o mistério que ele havia feito. A
atividade daquela manhã não poderia ter sido mais prosaica. Kyle arrastou-a por uma
infinidade de lojas de artigos masculinos. Finalmente, carregados de pacotes, foram
almoçar. Eram duas horas, e havia pouco movimento no restaurante.
Quando voltaram para o carro, Emily sentia-se revigorada pela refeição e mais
descansada. Não havia uma nuvem no céu, e o dia não podia estar mais bonito e
ensolarado. No entanto, ela estava com o coração apertado. Talvez, aquele fosse o último
fim de semana ao lado de Kyle.
Rodaram em silêncio durante algum tempo. Distraída, Emily olhava pela janela.
Deixaram o centro de Los Angeles, e de repente ela percebeu que estavam seguindo na
direção oposta à casa dele.
— Aonde vamos? — quis saber.
— A uma praia afastada, muito bonita, mas pouco freqüentada. Garanto que você
nunca esteve lá.
Praia? Não estavam com trajes de banho. Se ele pensava que ela concordaria em
nadar nua, teria uma bela decepção. Como se houvesse lido os pensamentos dela, Kyle
se adiantou:
— Eu trouxe uma sacola com tudo o que vamos precisar. Emily respirou fundo e
apoiou a cabeça no encosto do banco.
Realmente, ele pensava em tudo.
A praia era linda e bastante retirada. Os turistas ainda não a haviam descoberto.
Estava quase deserta. Pararam para observar alguns pescadores que puxavam a rede, e
depois Kyle levou-a para explorarem a região. Foram até os rochedos; ali ondas bravias
quebravam contra as pedras, lançando a espuma branca a uma altura considerável.
Passaram o resto da tarde tomando sol e dando um mergulho de vez em quando.
— Gostou? — perguntou Kyle, deitado ao lado dela na areia.
— Muito. — Estava surpresa com o comportamento dele durante todo o dia. Em
nenhum momento Kyle arriscara qualquer gesto mais íntimo, nem mesmo um beijo. O que
mais a intrigava, porém, era o mistério que sentia no ar desde que haviam saído de casa.

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Ora, com certeza estava deixando a imaginação ir longe demais. Vícios da profissão,
pensou com um sorriso.
— O que foi? — quis saber Kyle.
— Nada. Por quê?
— Você estava sorrindo.
— Eu me lembrei de uma coisa engraçada — mentiu. Vamos? Já está ficando tarde.
Kyle olhou para o relógio.
— Cinco horas — falou, pensativo. — É, acho que demos. ir.
Quando ele estacionou o Porsche diante da casa, Emily viu| carro da Sra. Diaz ao lado
de dois furgões.
— Por que a Sra. Diaz veio trabalhar hoje? E quem md está aqui?
— Às vezes, ela vem aos sábados. Com certeza trouxe alguém para ajudá-la em
algum serviço mais pesado — ele explicou vagamente.
A Sra. Diaz abriu-lhes a porta, e Emily podia jurar que ela. trocara um olhar de
entendimento com Kyle. Um delicioso aroma vinha da cozinha, e um som distante de
música chegava até eles. A empregada segurou-a pelo braço, compelindo-a a subir para o
quarto.
— Como está cheia de areia, Srta. Summers... É melhor tomar um banho agora
mesmo.
Emily estava cansada demais para protestar. Na verdade, até gostava do jeito maternal
da Sra. Diaz e de se ver cercada de tantos cuidados.
Ao sair do banheiro, uma toalha ao redor do corpo, Emily encontrou seu vestido branco
sobre a cama. A Sra. Diaz não desistia, pensou, com um sorriso. Secou os cabelos p
deixou-os soltos. Era incrível como bastava uma tarde ao sol para que sua pele adquirisse
um lindo bronzeado.
Foi até o armário, mas não conseguiu decidir o que usar. O vestido continuava sobre a
cama, e, obedecendo a um impulso,,
Emily vestiu-o. A saia era justa e tinha um corte reto, o que valorizava as formas dos
quadris e acentuava a delicadeza da cintura. O modelo deixava-lhe as costas totalmente
nuas. A blusa terminava em duas alças, que se uniam na altura da nuca.
Ao olhar-se no espelho, sentiu-se tão feminina e atraente que não teve coragem de
tirá-lo. Pelo menos por uma noite, esqueceria tudo o que a separava de Kyle. Naquela
noite, seria apenas uma mulher solitária na companhia de um homem cujo olhar a deixava
trêmula de expectativa.
Kyle a aguardava ao pé da escada.
— Valeu a pena esperar — afirmou, envolvendo-a num olhar cheio de admiração. —
Vamos jantar? — sugeriu, oferecendo-lhe o braço.
Quando ele abriu as portas que davam para os jardins, Emily mal conseguiu acreditar
no que viu. A área ao redor da piscina fora transformada num verdadeiro paraíso tropical.
Em todo lugar havia flores, e tochas iluminavam o jardim. Uma mesa baixa, montada
sobre o gramado, estava preparada para um luau.
Ele a puxou delicadamente, levando-a para o meio daquele cenário de fantasia, ao
som dos instrumentos de músicos havaianos. Deixando-a por um instante, foi até uma
pequena mesa. Ao ver o que Kyle trazia nas mãos, Emily sentiu um nó na garganta. Um
colar de pétalas brancas. . .
— Aloha, Emily — sussurrou contra os lábios dela.
Emily tinha a sensação de que voltara no tempo, até aquela noite no Havaí. A música, o
perfume suave das pétalas do colar, os pratos exóticos, a mesma bebida na casca de
coco... Tudo tão irreal, tão fantástico...
Kyle fez com que ela provasse um pouco de cada prato. Tratava-a como a uma rainha,
e, pouco a pouco, Emily deixou-se envolver por aquela atmosfera de sonho.
A bebida começou a fazer efeito, e ela apoiou a cabeça no ombro de Kyle. Ah, o calor

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daquele corpo, o toque mágico da mão dele em suas costas, o ritmo erótico da música.. .
Mais uma vez, ele havia conseguido. Kyle sempre encontrava um jeito de envolvê-la,
de minar suas forças até conseguir o que queria. Quando aprenderia que não era páreo
para ele? Se não saísse dali agora. . .
— Acho. . . acho que vou subir — falou, levantando-se. Sua cabeça rodava, e ela teria
caído, se Kyle não a amparasse.
— Você está em condições de subir as escadas?
— Claro que sim. Estou apenas um pouco tonta. — Tinha a estranha sensação de que
a voz soava arrastada.
Deu-lhe as costas e, respirando fundo, concentrou-se para atravessar os jardins e subir
as escadas.
No banheiro, lavou o rosto com água fria. Suas pupilas estavam dilatadas, e as faces,
vermelhas. Tirou o vestido e o deixou ali mesmo, no chão. Ainda com o colar ao redor do
pescoço, voltou para o quarto em busca da camisola.
Estava diante do armário, quando ouviu um ruído na porta. Voltou-se e viu Kyle.
— O que está fazendo aqui?
— A festa começou com a sua chegada e terminou quando você saiu — explicou
calmamente. — Por que está tão surpresa? Pensei que estivesse me esperando.
— É. . . é claro que não. — Consciente de que usava apenas o colar, puxou o lençol,
tentando se proteger. — Saia, por favor.
Em lugar de obedecer, Kyle foi andando na direção dela, desabotoando a camisa.
Emily engoliu em seco, ao vê-lo despir-se pelo caminho.
— Não vou sair daqui. — Parou diante dela e arrancou-lhe o lençol das mãos. Em
seguida, o colar também foi parar no chão. — Eu queria que esta noite fosse como aquela
no Havaí, lembra-se? — Segurou o rosto dela entre as mãos e procurou-lhe a boca.
Bastou aquele beijo para que ela se esquecesse de tudo. Nada mais importava, exceto
a indescritível sensação de estar outra vez junto dele, de sentir aquele corpo nu contra o
seu.
Quando Kyle ergueu a cabeça, Emily mal podia respirar, e, sem oferecer a menor
resistência, deixou que ele a levasse para a cama.
Ao abrir os olhos, na manhã seguinte, Kyle viu Emily deitada ao seu lado. Estava de
bruços, o lençol cobrindo-a até a cintura, os cabelos espalhados nas costas. O sono dava-
lhe uma aparência frágil e vulnerável. As linhas do rosto suavizavam-se, perdendo
qualquer vestígio de tensão. Com a cabeça apoiada numa das mãos, Kyle admirava
aquela transformação. Ela trazia sempre as emoções sob controle e impedia qualquer
tentativa de aproximação. Agora, ele conhecia todos os segredos daquele corpo, mas a
mente de Emily continuava indecifrável.
A estratégia dele alcançara o resultado esperado. Conseguira levá-la para a cama
outra vez. Em nenhum momento duvidara de seu sucesso. Estava habituado a saltar
sobre qualquer obstáculo, a vencer nas circunstâncias mais adversas. Fora tudo
cuidadosamente planejado, cada passo estudado com exatidão. Só não estava em seus
planos terminar apaixonado. Inclinou a cabeça e beijou-lhe as pálpebras.
— Acorde, dorminhoca.
Ela abriu os olhos e espreguiçou-se languidamente.
— Que horas são?
— Não tenho a menor idéia. Mas que diferença faz? Temos um dia inteiro pela frente,
só para nós. — Afastou-lhe uma mecha de cabelos da testa. — Precisamos conversar,
Emily.
— Não antes do café
— Emily. . .
Dessa vez a voz dele estava séria, e ela sentiu uma necessidade urgente de
interrompê-lo. Não estava certa de querer ouvir o que Kyle tinha a dizer.

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Vestiu o robe que estava aos pés da cama e se levantou. .— Sinto muito, mas não
consigo me concentrar de estômago vazio. Fique deitado. Hoje você vai tomar o café na
cama.
Quando ela saiu, Kyle deitou-se outra vez, os braços cruzados sob a cabeça, sonhando
com a perspectiva de acordar com Emily ao seu lado todas as manhãs e fazer amor com
ela todas as noites.
O aroma de café chegou até o quarto. Logo ela estaria de volta. O café e a conversa
podiam esperar. Queria amá-la de novo, demonstrar tudo o que sentia por ela, para
depois colocar esses sentimentos em palavras.
Quando Emily voltou, não trazia nenhuma bandeja. Kyle sentou-se, assustado com a
palidez dela.
— O que aconteceu, Emily?
Ela não conseguiu dizer nada. Ergueu a mão, agitando no ar o já tão familiar envelope
azul. Kyle deu um suspiro de alívio.
— Ah, é isso? Você me assustou. Pensei que alguma coisa horrível. . .
— Eu não verifiquei a caixa de correspondência ontem, Kyle Simplesmente esqueci —
falou, em pânico.
— Qual o problema? Você fez isso agora, não fez? E aposto que nesse bilhete há o
mesmo blábláblá de sempre.
— Como você pode ter certeza? Se neste bilhete houver uma ameaça específica, eu
coloquei a sua vida em perigo, com minha negligência. Você não entende? Esse louco
poderia te agido esta noite, e nos pegaria totalmente desprevenidos.
— Abra essa droga de envelope, e nós descobriremos isso num segundo. — Saltou da
cama e foi até ela.
— Não! Por acaso quer que eu seja despedida?
— Não seria má idéia — replicou, tão furioso quanto ela. — Deus sabe que isso
resolveria todos os nossos problemas.
— Do que você está falando? Saia do meu quarto e vá tomar o seu estúpido café. Eu
vou telefonar para Wally.
Raiva e decepção alternaram-se no rosto dele, porém Emily estava nervosa demais
para se preocupar com aquilo. Foi até o telefone e discou o número de Wally. Quando
olhou para trás, descobriu que estava sozinha no quarto.
— Diabos, Emily! — berrou Wally, do outro lado da linha. — O que há com você?
Ultimamente, parece incapaz de seguir as mais elementares rotinas de trabalho.
— Wally, eu...
— Guarde as suas desculpas para mais tarde. Encontre-me no escritório daqui a meia
hora.
— Não seria aconselhável abrir o envelope antes? —- sugeriu. — Talvez Kyle esteja
correndo algum perigo imediato...
— Está certo. Você tem a minha permissão. Eu a verei no escritório.
Emily tirou um par de luvas da bolsa, sentou-se na cama e, com todo o cuidado, abriu o
envelope.
"Você pensa que é esperto, Spencer, mas vou arrancar esse sorriso de superioridade
do seu rosto. Você não perde por esperar."
Sem perder tempo, Emily guardou o bilhete na bolsa, tomou um banho rápido e se
vestiu.
Kyle estava na sala, olhando para os jardins, uma xícara de café na mão.
— Vou até o escritório de Wally — comunicou, apressada.
— Você vai voltar?
— Claro. Sou responsável por você até que esteja no avião.
— Tinha esperanças de que você fosse comigo.
— Receio que não. Há muito que fazer por aqui e...

Projeto Revisoras 85
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
— Para o inferno com o seu trabalho! — explodiu Kyle. — O que importa é ficarmos
juntos.
— Ah, claro! — ironizou. — Não me surpreende que você pense assim. Você sempre
encarou o meu trabalho como uma piada, Kyle. Olhem só para aquela mulher bancando a
detetive; ela não é engraçadinha? Pois fique sabendo que o trabalho ocupa o primeiro
lugar, na minha vida.
Saiu da sala e correu para o carro. Só quando estava perto do escritório, conseguiu
deixar de pensar na discussão com Kyle. Agora teria de enfrentar a ira de Wally. Mais uma
vez, ela havia falhado, e não poderia se queixar quando ele a repreendesse,
Para sua surpresa, ele parecia bem mais calmo que ao telefone. Estava sério, no
entanto não fez qualquer comentário sobre o esquecimento de Emily.
— Você vai voltar ao escritório de Spencer, amanhã?
— É preciso. Sabe como é, talvez alguém deixe escapar alguma coisa, uma
informação que possa nos ajudar.
— Mas, quando descobrirem os comunicados desencontrados que você redigiu, o
ambiente vai esquentar. Tem certeza de que está preparada para isso?
— Isso não importa. O que eu quero mesmo é...
O telefone interrompeu-os. Wally atendeu e, em seguida, passou o aparelho para ela.
— É Spencer. Ele quer falar com você.
— Queria apenas avisá-la de que antecipei a minha partida. — A voz dele parecia fria
e distante. — Estou de saída para o aeroporto. Meu avião sai daqui a uma hora. Pedi à
Sra. Diaz que viesse para cá, assim você poderá entrar e pegar as suas coisas.
— Você vai sozinho para o aeroporto?
— É o que parece. Meu guarda-costas tem coisas mais importantes para fazer.
Na segunda-feira de manhã, Emily quase desistiu de ir à Spencer International. Podia
imaginar a cena desagradável que se seguiria à descoberta dos erros nos comunicados.
Mas que importância tinha isso? Não era funcionária da empresa. Aquele era um caso
típico em que os fins justificavam os meios.
A manhã transcorreu sem qualquer novidade. Tensa, Emily esperava que a bomba
estourasse a qualquer momento.
A confusão começou logo após o almoço, com um telefonema do departamento de
marketing. Noel saiu de sua sala como uma bala, e Emily deduziu que ela havia ido
verificar o que estava havendo. Tranqüilamente, começou a arrumar suas coisas.
Meia hora depois, Noel voltou e jogou algumas folhas na mesa de Emily. Eram cópias
dos comunicados.
— Você pode me explicar o que significa isso? Por acaso é algum tipo de brincadeira?
Emily balbuciou uma desculpa qualquer, que só conseguiu aumentar a irritação de
Noel. Enquanto a secretária a censurava em termos ásperos, ela pegou a bolsa e o
casaco. Quando Noel foi para a outra sala, Emily despediu-se das três moças, que a
olhavam perplexas, e foi embora.
Na Forrester Investigações, Kelly avisou-a de que Wally desejava vê-la.
— E então? — perguntou ele. — Conseguiu descobrir alguma coisa?
— Não. Ufa! — Deixou-se cair numa cadeira. — Nunca enfrentei uma cena tão
desagradável. Alguma notícia de Kyle?
— Nenhuma. Ainda é cedo.
— Wally, estou começando a achar que isso tudo foi uma loucura. Você acredita que
existe alguma chance de que esse plano dê certo?
— O que você quer? Uma garantia? Espero que não pretenda passar o dia andando
de um lado para outro, roendo as unhas. Por que não faz alguma coisa útil? Ajudar a
investigar os suspeitos de sua lista, por exemplo.
E foi isso o que ela fez o resto do dia. A atividade ajudou-a a não pensar em Kyle.
Queria esquecer a última noite que haviam passado juntos.

Projeto Revisoras 86
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
Saiu da Forrester às sete horas e, depois de passar pelo supermercado, foi para casa.
Estava esgotada e não tinha vontade de comer nada. Tomou um banho, vestiu um robe e
foi à cozinha preparar um chá.
Estava voltando para o quarto com a xícara quando o telefone tocou. Era Wally.
— Não há tempo para explicações — falou ele. — Clarinda acaba de me telefonar.
Quer que a encontremos na casa de Spencer.
— Aconteceu alguma coisa? Kyle está bem?
— Não, não houve nada — respondeu, impaciente. — Vi para lá o mais rápido
possível.
Quando Emily estacionou o carro diante da casa de Kyle Wally estava subindo os
degraus da entrada.
— Você não tem idéia do que está acontecendo, Wally? perguntou, ao alcançá-lo.
— Parece que Clarinda telefonou para a empregada e ficou sabendo que Kyle havia
voltado, mas estava arrumando aí malas novamente.
A própria Clarinda abriu-lhes a porta.
— Graças a Deus, vocês chegaram! Alguma coisa terrível aconteceu, porém eu não
consigo arrancar uma palavra dele.
Atravessaram o hall no exato momento em que Kyle descia as escadas com a mala.
— O que é isso? Uma reunião de cúpula? — Olhou para relógio. — Tenho apenas
cinco minutos.
— Kyle, o que aconteceu? — perguntou Emily, aproximando se dele.
— Você estava certa desde o princípio. — As feições dele estavam contraídas, e Emily
sabia o quanto lhe custava admitir aquilo. — Eu agi como um completo idiota. Devia ter
dado ouvidos a você. — Tirou um envelope do bolso. — Este bilhete chegou ao meu
escritório em San José.
Emily pegou o bilhete, mas suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia abri-lo.
— Deixe isso comigo — falou Wally. — Foi enviado domingo de manhã — observou,
depois de examinar o carimbo de correio.
"Eu avisei, Spencer, mais pessoas vão morrer."
Pelo menos, Kyle estava lá. Em poucas horas todos saberiam que a Davco, uma
indústria International, haviam criado um produto letal ao organismo humano.
— Já me comuniquei com o Ministério da Saúde e com o gerente da Davco —
afirmou-nos que estão recolhendo toda a linha de produtos, e a imprensa já foi avisada.
— Meus Deus! — murmurou Clarinda.
— Você não acha que agiu com muita precipitação? — argumentou Wally. — Talvez
seja apenas um blefe.
— Eu sei, mas não posso colocar vidas em risco até termos certeza.
— Não vamos demorar para descobrir — afirmou Wally. — Tenho a impressão de que
ainda esta noite colocaremos as mãos no culpado.
Todos entenderam o que ele queria dizer. O bilhete fora enviado para o escritório em
San José, e a única pessoa que recebera a informação correta sobre a viagem de Kyle
era Noel Harrington.
Noel. Emily ainda se recusava a acreditar. O ciúme podia levar uma pessoa a cometer
loucuras. Ela mesma havia dito isso. Se ao menos houvesse seguido sua intuição...
— Com certeza, a esta altura, o FBI já foi notificado — afirmou Wally. — Você chamou
a polícia?
— Não. Não tenho tempo para ficar aqui e responder a todas as perguntas que eles
vão querer fazer. A Davco é minha responsabilidade, e eu preciso ir para lá. Vocês se
encarregam da polícia e. .. de Noel.
A campainha tocou.

CAPÍTULO XV

Projeto Revisoras 87
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens

Emily voltou para dentro da casa. Clarinda parecia muito abatida, e Wally estava
preparando um drinque para reanimá-la.
— Precisamos do endereço de Noel — falou Wally, ao vê-la.
— Há um caderno de endereços na mesa do hall — Emily foi até lá e voltou folheando
um livrinho preto. — Encontrei. Você vai chamar a polícia?
— Não, isso nos tomaria muito tempo. Temos que agir rápido. Eu ligarei para o distrito,
do apartamento dela.
— E se ela não estiver em casa?
— Nesse caso, caberá à polícia encontrá-la. Sente-se melhor, Clarinda? Acha que está
em condições de ficar sozinha?
— Não se preocupem comigo. Vou telefonar para Dorothy. Não quero que ela tome
conhecimento de tudo pelos jornais.
Uma vez no carro de Wally, Emily contou-lhe suas dúvidas:
— Não acredito que Noel seja a responsável pelas cartas.
— Você suspeita do namorado dela, Peter Walker, certo? — arriscou Wally, o
raciocínio rápido de sempre.
— Eu sinto que foi ele. Meu Deus, a culpa é toda minha.
Wally. .. Coloquei o nome dele na lista, mas não me preocupei em averiguar melhor.
— Isso é absurdo. Como podia adivinhar? Você fez um ótimo trabalho, Emily.
O porteiro do prédio não permitiu que eles subissem. Era contra as normas de
segurança do condomínio. Teriam que falar com a Srta. Harrington pelo interfone.
Ao terceiro toque, Noel atendeu.
— Noel? É Emily. Preciso falar com você.
— Falar comigo? Se é sobre os comunicados, desista. Se quiser, entenda-se
diretamente com o Sr. Spencer, quando ele voltar.
— Escute, Noel, eu redigi aqueles comunicados desencontrados de propósito. Sou
uma investigadora particular. Kyle estava ciente de tudo. Posso subir agora?
Noel estava pálida, quando lhes abriu a porta. Emily apresentou-a a Wally, e a moça
olhou de um para o outro, a expressão confusa e assustada.
— Mas o que está acontecendo? Por que Kyle não me disse nada?
— Sente-se, Srta. Harrington — sugeriu Wally. — É uma longa história. — De uma
forma rápida e sucinta, Wally falou dos bilhetes, da suspeita de Emily de que o autor era
alguém do escritório e do plano que haviam colocado em prática.
— Meu Deus... — Os olhos de Noel estavam arregalados de medo. — Kyle... ele...
— Ele está bem — assegurou Emily. — Mas aconteceu uma coisa horrível. — Em
poucas palavras, contou-lhe sobre ó último bilhete.
— Você disse que o bilhete foi para San José? — Nervosa, Noel apertava as mãos. —
Más ninguém sabia que ele estava lá, exceto... Meu Deus! Vocês não podem estar
suspeitando de mim... Por favor, acreditem! Eu não seria capaz de...
— Eu sei — disse Emily. — Quem mais tinha essa informação, Noel?
— Bom, não era um segredo. Talvez eu tenha comentado com Pam ou Lisa... Não,
agora me lembro. Eu fiquei até o final da tarde na sala de Kyle, e, quando saí, as outras
moças já não estavam lá. Ninguém poderia saber, a não ser. . .
— Quem? — perguntou Emily.
— Não, não é possível. Ele não...
— Ele quem? — insistiu Emily. —- Peter?
— Eu contei a ele. — Lágrimas corriam pelo rosto de Noel, e ela parecia à beira de
uma crise nervosa.
— Vou chamar a polícia. — Wally levantou-se e foi até o telefone. — Cuide dela, Emily.
Quando ele terminou a ligação, chamou-a de lado e sussurrou:
— O FBI já está cuidando do caso. Eles vão mandar alguém para tomar o depoimento

Projeto Revisoras 88
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
da Srta. Harrington. Fique aqui até que eles cheguem. Eu vou com Derek e Mason até o
apartamento de Walker.
Depois que ele saiu, Emily preparou um chá. Noel parecia mais calma, mas suas mãos
estavam trêmulas, ao aceitar a xícara que Emily lhe ofereceu.
— Como eu não percebi nada? — murmurou Noel, como se falasse para si mesma. —
Peter andava contrariado por não ter sido promovido depois de três anos na empresa.
Acho que culpava Kyle por isso. Eu sabia que ele sentia ciúme, mas daí a fazer uma coisa
tão... — Os soluços embargaram-lhe a voz. Ela tomou um gole de chá e olhou para Emily.
— Sabe, Kyle e eu...
— Eu sei que vocês tiveram um caso.
— Nós dois estávamos numa fase difícil. Logo percebemos que não daria certo. Kyle
não sentia nada por mim, e eu amava Peter. Meu Deus, ainda custo a acreditar que ele
tenha feito isso.
Eram três horas da madrugada quando Emily chegou em casa. Depois de Noel, ela
também prestara declarações aos agentes do FBI.
Tomou um banho e foi sentar-se na sala. Estava exausta, mas não conseguiria dormir
antes de saber notícias de Kyle. Wally havia prometido telefonar assim que tivesse
alguma novidade. Quando o telefone tocou, depois de uma espera que lhe parecera
interminável, Emily correu para atender.
— Emily? —- Era Kyle.
— Como estou contente de ouvir a sua voz, Kyle! E então? Alguma novidade?
— Felizmente, está tudo terminado. Walker admitiu que estava blefando. Nós sabíamos
que ele não tinha acesso à linha de produção, mas temíamos a hipótese de um cúmplice.
—. Graças a Deus, tudo terminou bem. Você não dormiu um pouco?
— Há muito que fazer. É tarde demais para impedir que a notícia saia nos jornais. Nós
vamos dar uma entrevista coletiva daqui a pouco, esclarecendo tudo.
—- Será que isso vai ajudar?
— Um pouco, porém o estrago já está feito. Você sabe, os consumidores se assustam
facilmente e levam algum tempo para esquecer. Mas isso é o de menos. O que importa é
que a vida das pessoas que compram os nossos produtos não corre nenhum risco.
— Quando você vai voltar?
— Não sei. Olhe, eu preciso me preparar para a entrevistai Cuide-se bem, Emily.
Q alívio de Emily foi substituído por uma certa decepção. Kyle havia feito questão de
telefonar, mas a conversa fora rápida e impessoal. Irritada consigo mesma, foi para a
cama. O que esperava, afinal? O caso estava resolvido. Nada mais a ligava a Kyle. Se
sonhasse demais, acabaria se machucando. Ele não sentia nada por ela, exceto gratidão.
No dia seguinte, de manhã, Wally surpreendeu-se, ao vê-la entrar no escritório.
— O que você está fazendo aqui?
— Eu trabalho aqui, certo?
— Você leu os jornais? As manchetes alertam a população para não consumir os
produtos da Davco. O resultado das investigações, esclarecendo a opinião pública,
deverá sair apenas amanhã. Que diabo! Kyle foi muito precipitado.
— Ele não queria correr riscos, Wally. Tomou a única atitude que um homem
consciente e responsável podia tomar.
— Tem razão. Kyle merece o nosso respeito por isso. Olhe, Emily, por que não tira o
resto da semana de folga? Acho que está precisando de um bom descanso.
— Obrigada, Wally, mas prefiro retomar o meu trabalho. — O que faria em casa? As
horas pareceriam intermináveis, e a lembrança de Kyle seria uma tortura constante.
— Tem certeza? O que me diz,de passar duas semanas em San Francisco, então?
Um famoso estilista de modas solicitou a nossa ajuda para descobrir quem está roubando
suas idéias para a próxima coleção.
San Francisco? Não seria má idéia, passar alguns dias naquela cidade, conhecer

Projeto Revisoras 89
Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
pessoas novas...
— Quando eu devo partir?
— Amanhã de manhã. Kelly vai cuidar da passagem e dar-lhe todos os detalhes do
caso.
Emily abriu a porta, mas, antes de sair, voltou-se para o chefe.
— Wally — começou, um tanto relutante —, você teve alguma notícia de Kyle?
— Não diretamente. Clarinda me contou que ele pretende passar uns tempos no
Havaí. Depois de tudo o que aconteceu, Kyle deve estar precisando refrescar a cabeça.
Havaí... Por que justamente lá?
— Está se sentindo bem, Emily? — perguntou Wally, ao notar a palidez do rosto dela.
— Eu estou ótima — mentiu. — Vou falar com Kelly.
Depois do almoço, Emily foi para casa, cuidar das malas. Abriu o guarda-roupa e
examinou-o, um tanto desanimada. O que deveria levar para trabalhar numa das mais
famosas casas de moda de San Francisco? O telefone tocou, tirando-a daquela dúvida.
Devia ser Kelly, com o horário de vôo.
— Emily? É Kyle.
As pernas dela fraquejaram, ao ouvir aquela voz.
— Oi, Kyle! — falou com entusiasmo, tentando desesperadamente disfarçar a emoção.
— Como estão as coisas?
— Bem. Agora é só dar tempo ao tempo.
— Soube que você vai passar uns dias no Havaí — comentou casualmente.
— Estou precisando descansar. Emily... — Fez uma pausa, como se estivesse
escolhendo as palavras. — Eu gostaria que... Viaje comigo, Emily — falou finalmente.
— Receio que não seja possível. Vou para San Francisco amanhã, cuidar de um novo
caso.
— Por quanto tempo?
— Duas semanas.
— Wally não pôde designar um outro agente?
— Talvez, mas eu quero essa missão.
— Emily, faria alguma diferença se eu dissesse que eu te amo?
As mãos dela apertaram o telefone.
— Kyle, se isso é mais um dos seus truques... — Não conseguiu terminar. As palavras
pareciam estranguladas em sua garganta.
— Não é um truque. Sei que, depois de tudo o que aconteceu entre nós, é difícil de
acreditar. Mas é verdade, Emily.
— Pois eu não acredito — afirmou com veemência, e bateu o telefone.
Era um truque. Só podia ser. Kyle queria convencê-la a ir para o Havaí. Se ele a amava
de verdade, por que não fora até lá, em lugar de telefonar? .
Voltou para o armário, pegou alguns vestidos e jogou-os na cama. "Eu vou esquecer",
dizia a si mesma. Iria para San Francisco e começaria uma vida nova. Olhou para as
roupas que tirara do armário e começou a guardá-las novamente. Não serviriam. Estava
tão nervosa, que não conseguia nem mesmo decidir o que levar.
Foi para a cozinha, pensando em tomar um chá. Precisava acalmar-se e colocar as
idéias em ordem.
Sentou-se no sofá, e Watson pulou para o seu lado. Amava Kyle, mas como poderia ir
para o Havaí? Queria muito mais que alguns dias junto dele. Kyle não a amava; sentia
apenas uma forte atração por ela. E isso era muito pouco..
A campainha tocou, porém Emily continuou sentada no sofá. Não queria ver ninguém.
Mas a pessoa que estava do lado de fora não parecia disposta a desistir. Com um suspiro
resignado, ela foi abrir.
— Kyle...
— Nós precisamos conversar — afirmou ele, entrando e fechando a porta. Sem

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Magia no Havaí MI 18 Marissa Owens
esperar pelo convite dela, sentou-se no sofá. Aturdida, Emily ocupou a poltrona em frente.
— Acho que não temos mais nada a dizer um ao outro — arriscou ela.
— Você está enganada. — Respirou fundo e passou as mãos pelos cabelos. — Emily,
você estava certa desde o princípio, e eu não procurei facilitar o seu trabalho, certo?
— Certíssimo.
— Você é ótima na sua profissão, e se eu não estivesse tão preocupado em seduzi-
la... — Calou-se e balançou a cabeça. — Estou tentando me desculpar. Não por querer
você, ou por fazer o possível para ficar ao seu lado. Talvez eu tenha escolhido o caminho
errado, porém isso me fez perceber que a minha vida não tem sentido sem você. Mas eu
quero pedir desculpas por ter usado de todos os meios para levá-la para a cama.
— Não sei se posso acreditar em você, Kyle. Talvez isso seja apenas mais um dos
seus truques. Você está habituado a conseguir tudo o que deseja, e, neste exato
momento, o que quer é me levar para o Havaí. E se eu disser que não posso, que tenho
um trabalho à minha espera? Você vai me abraçar e...
— Eu vou esperar.
— ,,, e me beijar até que eu não consiga pensar em mais nada e.... O que foi que
você disse?
— Eu disse que vou esperar. Vá em frente, termine o seu trabalho, e só então eu a
beijarei até que você não consiga pensar em mais nada — falou, com um sorriso
irresistível. — Olhe, Emily, sei que sou um tanto arrogante, prepotente e. . .
— Impossível.
— Também. Mas o que eu disse, ao telefone é verdade. Eu te amo muito.
Emily endireitou o corpo, as mãos crispadas nos braços da poltrona, o coração batendo
furiosamente.
— E então, querida? Eu diria que a bola está no seu campo, agora.
— Eu. .. eu também te amo, Kyle, mas...
Ele foi até ela e ergueu-a da poltrona, os braços rodeando-lhe a cintura.
— Não coloque outro "mas" entre nós, Emily. Se você também me ama, então nós
podemos recomeçar, e, desta vez, tudo vai ser diferente.
— Kyle, eu te amo tanto!... — murmurou, rodeando-lhe o pescoço com os braços.
— Eu ainda quero levá-la para o Havaí — murmurou ele, os lábios bem próximos dos
dela. — Mas em viagem de lua-de-mel. O que você acha?
— Que, se isto for um sonho, eu não quero acordar nunca mais — sussurrou,
entreabrindo os lábios para receber o beijo dele.

Projeto Revisoras 91