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Supremo Tribunal Federal

MEDIDA CAUTELAR NA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE


6.299 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. LUIZ FUX


REQTE.(S) : PARTIDO TRABALHISTA NACIONAL E
OUTRO(A/S)
ADV.(A/S) : GUILHERME RUIZ NETO E OUTRO(A/S)
INTDO.(A/S) : CONGRESSO NACIONAL
PROC.(A/S)(ES) : ADVOGADO -GERAL DA UNIÃO
INTDO.(A/S) : PRESIDENTE DA REPÚBLICA
PROC.(A/S)(ES) : ADVOGADO -GERAL DA UNIÃO

DIREITO CONSTITUCIONAL. DIREITO


PROCESSUAL PENAL. ART. 3º-A, 3°-B, 3°-
C, 3°-D, 3°-E e 3°-F DO CPP. JUIZ DAS
GARANTIAS. REGRA DE
ORGANIZAÇÃO JUDICIÁRIA.
INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL.
ARTIGO 96 DA CONSTITUIÇÃO.
INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL.
AUSÊNCIA DE DOTAÇÃO
ORÇAMENTÁRIA PRÉVIA. ARTIGO 169
DA CONSTITUIÇÃO. AUTONOMIA
FINANCEIRA DO PODER JUDICIÁRIO.
ARTIGO 96 DA CONSTITUIÇÃO.
IMPACTO SISTÊMICO. ARTIGO 28 DO
CPP. ALTERAÇÃO REGRA
ARQUIVAMENTO. ARTIGO 28-A DO CPP.
ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO
PENAL. SISTEMA DE FREIOS E
CONTRAPESOS ENTRE ACUSAÇÃO,
JUIZ E DEFESA. ARTIGO 310, §4º, DO CPP.
RELAXAMENTO AUTOMÁTICO DA
PRISÃO. AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA.
PROPORCIONALIDADE. FUMUS BONI
IURIS. PERICULUM IN MORA. MEDIDAS

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ADI 6299 MC / DF

CAUTELARES PARCIALMENTE
DEFERIDAS.

1. A jurisdição constitucional, como


atividade típica deste Supremo Tribunal
Federal, diferencia-se sobremaneira das
funções legislativa e executiva,
especialmente em relação ao seu escopo e
aos seus limites institucionais. Ao contrário
do Poder Legislativo e do Poder Executivo,
não compete ao Supremo Tribunal Federal
realizar um juízo eminentemente político do
que é bom ou ruim, conveniente ou
inconveniente, apropriado ou inapropriado.
Ao revés, compete a este Tribunal afirmar o
que é constitucional ou inconstitucional,
invariavelmente sob a perspectiva da Carta
da 1988.

2. A medida cautelar na ação direta de


inconstitucionalidade tem escopo reduzido,
sob pena de prejudicar a deliberação a ser
realizada posteriormente pelo Plenário da
corte. Consectariamente, salvo em hipóteses
excepcionais, a medida cautelar deve ser
reversível, não podendo produzir, ainda
que despropositadamente, fato consumado
que crie dificuldades de ordem prática para
a implementação da futura decisão de
mérito a ser adotada pelo Tribunal,
qualquer que seja o teor.

3. Fixadas essas premissas, impende

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ADI 6299 MC / DF

esclarecer que foram propostas as ADI


6.298, 6.299, 6.300 e 6305, cujo objeto de
impugnação são os seguintes dispositivos:

(a) Artigos 3º-A a 3º-F do Código de


Processo Penal, na redação concedida pela
Lei n. 13.964/2019 (Juiz das garantias e
normas correlatas):

(a1) O juiz das garantias, embora


formalmente concebido pela lei como
norma processual geral, altera
materialmente a divisão e a organização de
serviços judiciários em nível tal que enseja
completa reorganização da justiça criminal
do país, de sorte que inafastável considerar
que os artigos 3º-A a 3º-F consistem
preponderantemente em normas de
organização judiciária, sobre as quais o
Poder Judiciário tem iniciativa legislativa
própria (Art. 96 da Constituição);

(a2) O juízo das garantias e sua


implementação causam impacto financeiro
relevante ao Poder Judiciário, especialmente
com as necessárias reestruturações e
redistribuições de recursos humanos e
materiais, bem como com o incremento dos
sistemas processuais e das soluções de
tecnologia da informação correlatas;

(a3) A ausência de prévia dotação


orçamentária para a instituição de gastos

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ADI 6299 MC / DF

por parte da União e dos Estados viola


diretamente o artigo 169 da Constituição e
prejudica a autonomia financeira do Poder
Judiciário, assegurada pelo artigo 99 da
Constituição;

(a4) Deveras, o artigo 113 do Ato das


Disposições Constitucionais Transitórias,
acrescentado pela Emenda Constitucional n.
95/2016, determina que “[a] proposição
legislativa que crie ou altere despesa obrigatória
ou renúncia de receita deverá ser acompanhada
da estimativa do seu impacto orçamentário e
financeiro”;

(a5) É cediço em abalizados estudos


comportamentais que, mercê de os seres
humanos desenvolverem vieses em seus
processos decisórios, isso por si só não
autoriza a aplicação automática dessa
premissa ao sistema de justiça criminal
brasileiro, criando-se uma presunção
generalizada de que qualquer juiz criminal
do país tem tendências que favoreçam a
acusação, nem permite inferir, a partir dessa
ideia geral, que a estratégia institucional
mais eficiente para minimizar eventuais
vieses cognitivos de juízes criminais seja
repartir as funções entre o juiz das garantias
e o juiz da instrução;

(a6) A complexidade da matéria em análise


reclama a reunião de melhores subsídios

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ADI 6299 MC / DF

que indiquem, acima de qualquer dúvida


razoável, os reais impactos do juízo das
garantias para os diversos interesses
tutelados pela Constituição Federal,
incluídos o devido processo legal, a duração
razoável do processo e a eficiência da justiça
criminal;

(a7) Medida cautelar concedida, para suspensão


da eficácia dos artigos 3º-A a 3º-F do Código de
Processo Penal (Inconstitucionalidades formal e
material);

(b) Artigo 157, §5º, CPP (Alteração do juiz


natural que conheceu prova declarada
inadmissível):

(b1) Os princípios da legalidade, do juiz


natural e da razoabilidade restam violados
pela proibição de o juiz que conheceu a
prova declarada inadmissível proferir
sentença. A ausência de elementos claros e
objetivos para a seleção do juiz sentenciante
permite eventual manipulação da escolha
do órgão julgador, conduzindo à
inconstitucionalidade a técnica eleita
legislativamente;

(b2) Medida cautelar concedida, para suspensão


da eficácia do artigo 157, §5º, do Código de
Processo Penal (Inconstitucionalidade material);

(c) Artigo 28, caput, Código de Processo

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ADI 6299 MC / DF

Penal (Alteração do procedimento de


arquivamento do inquérito policial):

(c1) Viola as cláusulas que exigem prévia


dotação orçamentária para a realização de
despesas (Artigo 169, Constituição), além da
autonomia financeira dos Ministérios
Públicos (Artigo 127, Constituição), a
alteração promovida no rito de
arquivamento do inquérito policial, máxime
quando desconsidera os impactos
sistêmicos e financeiros ao funcionamento
dos órgãos do parquet;

(c2) A previsão de o dispositivo ora


impugnado entrar em vigor em 23.01.2020,
sem que os Ministérios Públicos tivessem
tido tempo hábil para se adaptar
estruturalmente à nova competência
estabelecida, revela a irrazoablidade da
regra, inquinando-a com o vício da
inconstitucionalidade. A vacatio legis da Lei
n. 13.964/2019 transcorreu integralmente
durante o período de recesso parlamentar
federal e estadual, o que impediu qualquer
tipo de mobilização dos Ministérios
Públicos para a propositura de eventuais
projetos de lei que venham a possibilitar a
implementação adequada dessa nova
sistemática;

(c3) Medida cautelar deferida, para suspensão


da eficácia do artigo 28, caput, do Código de

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ADI 6299 MC / DF

Processo Penal;

(d) Artigo 28-A, inciso III e IV, e §§§ 5°, 7°,


8º do Código de Processo Penal (Acordo de
Não Persecução Penal):

(d1) A possibilidade de o juiz controlar a


legalidade do acordo de não persecução
penal prestigia o sistema de “freios e
contrapesos” no processo penal e não
interfere na autonomia do membro do
Ministério Público (órgão acusador, por
essência);

(d2) O magistrado não pode intervir na


redação final da proposta de acordo de não
persecução penal de modo a estabelecer as
suas cláusulas. Ao revés, o juiz poderá (a)
não homologar o acordo ou (b) devolver os
autos para que o parquet – de fato, o
legitimado constitucional para a elaboração
do acordo – apresente nova proposta ou
analise a necessidade de complementar as
investigações ou de oferecer denúncia, se
for o caso;

(d3) Medida cautelar indeferida;

(e) Artigo 310, §4°, Código de Processo


Penal (Ilegalidade da prisão pela não
realização da audiência de custódia no
prazo de 24 horas):
(e1) A ilegalidade da prisão como

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ADI 6299 MC / DF

consequência jurídica para a não realização


da audiência de custódia no prazo de 24
horas fere a razoabilidade, uma vez que
desconsidera dificuldades práticas locais de
várias regiões do país, bem como
dificuldades logísticas decorrentes de
operações policiais de considerável porte. A
categoria aberta “motivação idônea”, que
excepciona a ilegalidade da prisão, é
demasiadamente abstrata e não fornece
baliza interpretativa segura para aplicação
do dispositivo;

(e2) Medida cautelar concedida, para suspensão


da eficácia do artigo 310, §4°, do Código de
Processo Penal (Inconstitucionalidade material).

4. Medidas cautelares concedidas para


suspender sine die a eficácia:

(a) Da implantação do juiz das garantias e


seus consectários (Artigos 3º-A, 3º-B, 3º-C,
3º-D, 3ª-E, 3º-F, do Código de Processo
Penal);

(b) Da alteração do juiz sentenciante que


conheceu de prova declarada inadmissível
(157, §5º, do Código de Processo Penal);

(c) Da alteração do procedimento de


arquivamento do inquérito policial (28,
caput, Código de Processo Penal); e

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(d) Da liberalização da prisão pela não


realização da audiência de custodia no
prazo de 24 horas (Artigo 310, §4°, do
Código de Processo Penal);

5. A concessão desta medida cautelar não


interfere nem suspende os inquéritos e os
processos em curso na presente data.

Decisão: Esta decisão cautelar contempla quatro ações diretas de


inconstitucionalidade, ajuizadas em face de dispositivos da Lei n. 13.964,
de 24 de dezembro de 2019, os quais alteraram dispositivos do Código de
Processo Penal e do Código Penal, no bojo do que se denominou “Pacote
Anticrime”.

A ADI n. 6.298, ajuizada pela Associação dos Magistrados Brasileiros


(AMB) e pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE), impugna
a) o artigo 3º da Lei n. 13.964/2019, que acrescentou os artigos 3°-A, 3°-B,
3°-C, 3°-D, 3°-E e 3°-F ao Código de Processo Penal e institui a figura do
juiz das garantias, e b) o artigo 20 da Lei n. 13.964/2019, que determina o
prazo de vacatio legis para a vigência respectiva.

A ADI n. 6.299, ajuizada pelos partidos políticos PODEMOS e


CIDADANIA, impugna os mesmos dispositivos supracitados, além do
artigo 157, §5°, do Código de Processo Penal, inserido pela Lei n.
13.964/2019.

A ADI n. 6.300, ajuizada pelo Diretório Nacional do Partido Social


Liberal (PSL), impugna os artigos 3°-A a 3°-F do Código de Processo
Penal, na mesma linha das ações anteriores.

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Por fim, a ADI n. 6.305, ajuizada pela Associação Nacional dos


Membros do Ministério Público - CONAMP, impugna os artigos 3º-A; 3º-
B, incisos IV, VIII, IX, X e XI; 3º-D, parágrafo único; 28, caput; 28-A,
incisos III e IV, e §§ 5º, 7º e 8º; e 310, §4º, do Código de Processo Penal,
todos introduzidos pela Lei n. 13.964/2019.

Em apertada síntese, os autores das ações apresentaram os seguintes


argumentos para sustentar o fumus boni iuris da medida cautelar
pleiteada:

(i) Inconstitucionalidade formal da Lei n. 13.964/2019, em razão de


dispor sobre procedimentos processuais (e.g. normas sobre a fase pré-
processual do inquérito), matérias de competência legislativa concorrente
entre os Estados e a União, nos termos do artigo 24, XI e §1°, da
Constituição;

(ii) Inconstitucionalidade formal em face de vício de iniciativa


relativo à competência legislativa do Poder Judiciário para alterar a
organização e a divisão judiciária, nos termos do artigo 96, I, “d”; e II, “b”
e “d”, da Constituição;

(iii) Inconstitucionalidade formal em razão da instituição do juiz das


garantias por meio de lei ordinária, em violação ao artigo 93, caput, da
Constituição;

(iv) Inconstitucionalidade material em razão de violação ao princípio


do juiz natural (art. 5°, LIII), da isonomia (art. 5°, caput), da duração
razoável do processo (art. 5°, LXXVIII) e da regra de autonomia financeira
e administrativa do Poder Judiciário (artigo 99, caput, Constituição);

(v) Inconstitucionalidade material em razão da ausência de prévia


dotação orçamentária para a implementação das alterações
organizacionais acarretadas pela lei, nos termos do artigo 169, §1°, da

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ADI 6299 MC / DF

Constituição, bem como da violação do novo regime fiscal da União,


instituído pela Emenda Constitucional n° 95 (art. 104, do ADCT), e do
mandamento do art. 113, do ADCT;

(vi) Desproporcionalidade da vacatio legis de apenas 30 (trinta) dias


para implementação das alterações organizacionais requeridas pela lei;

(vii) Inconstitucionalidade material em relação ao acordo de não


persecução penal, por permitir o controle judicial do mérito da avença,
desafiando a prerrogativa constitucional do Ministério Público,
decorrente da sua titularidade exclusiva da ação penal pública, e a
imparcialidade do juiz.

No tocante ao periculum in mora, os autores das quatro ações


sustentam que a lei entrará em vigor em prazo exíguo, de modo que o
Poder Judiciário e o Ministério Público serão incapazes de promover, em
tempo hábil, as necessárias reformas estruturais a fim de atender às novas
exigências legais. Assim, ter-se-ia uma situação de completa insegurança
jurídica e instabilidade institucional.

Em 15.01.2020, o Ministro Presidente Dias Toffoli, no exercício do


plantão judicial, concedeu parcialmente as medidas cautelares
pleiteadas nas ADIs 6.298, 6.299 e 6.300. Eis o teor da parte dispositiva da
decisão, in verbis:

“[...]
Conclusão
Pelo exposto, ante a urgência de análise liminar, tendo em vista
a entrada em vigor da Lei nº 13.964/19 no dia 23 de janeiro de 2020
(art. 20 da lei), concedo parcialmente a medida cautelar pleiteada, ad
referendum do Plenário, para:
(i) suspender-se a eficácia dos arts. 3º-D, parágrafo único, e
157, § 5º, do Código de Processo Penal, incluídos pela Lei nº
13.964/19;

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(ii) suspender-se a eficácia dos arts. 3º-B, 3º-C, 3º-D, caput, 3º-
E e 3º-F do CPP, inseridos pela Lei nº 13.964/2019, até a efetiva
implementação do juiz das garantias pelos tribunais, o que deverá
ocorrer no prazo máximo de 180 (cento e oitenta) dias, contados
a partir da publicação desta decisão;

(iii) conferir-se interpretação conforme às normas relativas ao


juiz das garantias (arts. 3º-B a 3º-F do CPP), para esclarecer que não
se aplicam às seguintes situações:
(a) processos de competência originária dos tribunais, os quais
são regidos pela Lei nº 8.038/1990;
(b) processos de competência do Tribunal do Júri;
(c) casos de violência doméstica e familiar; e
(d) processos criminais de competência da Justiça Eleitoral.

(iv) fixarem-se as seguintes regras de transição:

(a) no tocante às ações penais que já tiverem sido


instauradas no momento da efetiva implementação do juiz das
garantias pelos tribunais (ou quando esgotado o prazo máximo de 180
dias), a eficácia da lei não acarretará qualquer modificação do juízo
competente. O fato de o juiz da causa ter atuado na fase investigativa
não implicará seu automático impedimento;
(b) quanto às investigações que estiverem em curso no
momento da efetiva implementação do juiz das garantias pelos
tribunais (ou quando esgotado o prazo máximo de 180 dias), o juiz
da investigação tornar-se-á o juiz das garantias do caso
específico. Nessa hipótese, cessada a competência do juiz das
garantias, com o recebimento da denúncia ou queixa, o processo será
enviado ao juiz competente para a instrução e o julgamento da causa.

Por sua vez, a ADI 6.305, ajuizada em 20.01.2020, foi distribuída a


este relator por prevenção e restou conclusa para a Vice-Presidência na
mesma data, nos termos do artigo 13, inciso VIII, e do artigo 14 do

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Regimento Interno deste Supremo Tribunal Federal.

É o relatório.
Decido.

A jurisdição constitucional presta-se a analisar a compatibilidade das


leis e dos atos normativos em relação à Constituição, com o objetivo
precípuo de resguardar a autoridade das normas constitucionais no
âmbito da vida social. Como atividade típica deste Supremo Tribunal
Federal, a jurisdição constitucional diferencia-se sobremaneira das
funções legislativa e executiva, especialmente em relação ao seu escopo e
aos seus limites institucionais.

Ao contrário do Poder Legislativo e do Poder Executivo, não


compete ao Supremo Tribunal Federal realizar um juízo eminentemente
político do que é bom ou ruim, conveniente ou inconveniente, apropriado
ou inapropriado. Ao revés, compete a este Tribunal afirmar o que é
constitucional ou inconstitucional, invariavelmente sob a perspectiva da
Carta de 1988. Trata-se de olhar objetivo, cirúrgico e institucional, que
requer do juiz minimalismo interpretativo, não se admitindo inovações
argumentativas que possam confundir as figuras do legislador e do
julgador. Afinal, como afirma o professor Daryl Levinson, a legitimidade
da jurisdição constitucional assenta-se, entre outros fatores, na
capacidade de os juízes produzirem decisões qualitativamente diferentes
daquelas produzidas pelos agentes políticos dos demais poderes (Vide
“Foreword: Looking for Power in Public Law”, 130 Harvard Law Review, 31,
2016; “Rights Essentialism and Remedial Equilibration”, 99 Columbia Law
Review 857, 1999). O pressuposto das cláusulas de independência e de
harmonia entre os poderes consiste precisamente no fato de que cada um
deles desenvolveu, ao longo do tempo, distintas capacidades
institucionais. Não fossem distintas as habilidades de cada um dos
poderes, não haveria necessidade prática de haver separação entre eles.

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Em termos concretos, não cabe ao Supremo Tribunal Federal, ainda


que com as melhores intenções, aperfeiçoar, criar ou aditar políticas
públicas, ou, ainda, inovar na regulamentação de dispositivos legais, sob
pena de usurpar a linha tênue entre julgar, legislar e executar. No âmbito
do controle de constitucionalidade, a competência deste Tribunal
restringe-se a verificar a coexistência entre, de um lado, os valores morais
e empíricos que sublinham a Constituição, e, de outro, o texto da
legislação.

A partir dessas linhas gerais, três pontos ganham especial relevo


para a análise aqui proposta, os quais adoto como premissas teóricas
desta decisão.

Primeiro, o fato de a lei questionada ter sido aprovada pelo


Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República não
funciona como argumento apto a minimizar a legitimidade do Poder
Judiciário para o exercício do controle de constitucionalidade. Pelo
contrário, a aprovação e a sanção do ato normativo questionado, ou
qualquer procedimento correlato que o faça as vezes, constituem
pressupostos para a sua própria existência no mundo jurídico e, portanto,
constituem pressupostos indiretos para o exercício da jurisdição
constitucional. Desde 1891, autorizado pelas sucessivas constituições
brasileiras, este Supremo Tribunal Federal tem analisado a
constitucionalidade de leis que, por óbvio, passaram pelos devidos ritos
de formação e de vigência. Assim, argumentos que procuram eliminar a
legitimidade democrática do Supremo Tribunal Federal para realizar
controle de constitucionalidade de leis devem ceder à disposição do
artigo 102 da Constituição, que institui a competência deste Tribunal para
processar e julgar, originalmente, a ação direta de inconstitucionalidade.

Segundo, não desconheço que a Constituição e a jurisprudência


autorizam, no exercício da jurisdição constitucional, a adoção de técnicas
de interpretação e de decisão que funcionam, na prática, como

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incrementos ao conteúdo da legislação objeto do controle. A título de


exemplo, cito a interpretação conforme à Constituição, a declaração de
inconstitucionalidade com ou sem redução de texto, e o controle dos
efeitos retroativos da declaração de inconstitucionalidade. No entanto,
entendo que, como regra geral, essas técnicas são próprias do exame do
mérito do pedido e somente podem ser utilizadas em casos específicos,
como para possibilitar uma leitura sistêmica das normas jurídicas, para
sanar ambiguidades porventura existentes no texto legal, para preencher
o conteúdo de cláusulas abertas ou, ainda, para calibrar dificuldades
práticas relativas à implementação da declaração de
inconstitucionalidade.

Terceiro, a decisão a ser proferida em sede de medida cautelar na


ação direta de inconstitucionalidade tem escopo reduzido, sob pena de
prejudicar a deliberação a ser realizada posteriormente pelo Plenário da
corte. Nesse ponto, salvo em hipóteses excepcionais, a medida cautelar
deve ser faticamente reversível, não podendo produzir, ainda que
despropositadamente, fato consumado que crie dificuldades de ordem
prática para a implementação da futura decisão de mérito a ser adotada
pelo Tribunal, qualquer que seja ela. A essência desta Corte repousa na
colegialidade de seus julgamentos, na construção coletiva da decisão
judicial e na interação entre as diversas perspectivas morais e empíricas
oferecidas pelos juízes que tomam parte das deliberações. Por isso
mesmo, entendo que a atuação monocrática do relator deve preservar e
valorizar, tanto quanto possível, a atuação do órgão colegiado.

Balizado nessas três premissas teóricas, e imbuído de todas as vênias


possíveis ao Presidente deste Tribunal, que louvadamente se dedicou a
equacionar as complexas questões constitucionais destas ações durante o
exercício do plantão judiciário, entendo, na qualidade de relator, que a
decisão de Sua Excelência merece ser pontualmente ajustada, com vistas a
resguardar a reversibilidade da medida cautelar e prestigiar a deliberação
de mérito a ser realizada oportunamente pelo Plenário.

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ADI 6299 MC / DF

A seguir, passo ao reexame dos pedidos cautelares formulados nas


ações diretas de inconstitucionalidade nn. 6.298, 6.299, 6.300 e 6.305.
Neste momento processual, não realizarei um juízo de mérito exaustivo e
definitivo quanto ao tema. Em nível de cognição vertical, limitar-me-ei ao
escopo do que recomenda a análise de uma medida cautelar, no sentido
de demonstrar que os questionamentos apresentados pelas partes autoras
militam pela imediata suspensão ad cautelam de várias das normas
impugnadas, ad referendum do Plenário. Por questões didáticas,
distribuirei os dispositivos questionados em grupos, os quais serão
analisados em tópicos separados.

1. Instituição do juiz das garantias e normas correlatas (Artigos 3º-


A a 3º-F do Código de Processo Penal)

A processualística civil e a jurisprudência desta Corte impõem como


requisitos de concessão de medida cautelar o fumus boni iuris e o
periculum in mora. O primeiro requisito exsurge a partir de evidências
diretas ou indiretas que demonstrem a probabilidade de acolhimento
futuro do direito alegado. Por sua vez, o segundo requisito consiste no
perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo (Vide FUX, Luiz.
Processo Civil Contemporâneo. Editora Forense, 2019).

Quanto aos dispositivos analisados neste tópico, o fumus boni iuris


encontra-se demonstrado pelas evidências de que há vícios de
inconstitucionalidade formal e material na redação dos artigos
impugnados.

Os artigos 3º-B a 3º-F, do Código de Processo Penal, incluídos pelo


artigo 3º da Lei n. 13.964/2019, instituem a figura do juiz de garantias,
“responsável pelo controle da legalidade da investigação criminal e pela
salvaguarda dos direitos individuais cuja franquia tenha sido reservada à
autorização prévia do Poder Judiciário” (Art. 3º-B, caput). Nos termos do

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ADI 6299 MC / DF

artigo 3º-F, do mesmo diploma legal, “a competência do juiz das garantias


abrange todas as infrações penais, exceto as de menor potencial ofensivo, e cessa
com o recebimento da denúncia ou queixa”. Por sua vez, o artigo 3º-D
determina que o juiz de garantias “ficará impedido de funcionar” na ação
penal posterior ao inquérito no âmbito do qual ele tomou deliberações.
Os artigos 3º-D, parágrafo único, e 3º-E tratam da implantação do juiz de
garantias pelos Tribunais. O primeiro afirma que, “nas comarcas em que
funcionar apenas um juiz, os tribunais criarão um sistema de rodízio de
magistrados”; o segundo, “o juiz de garantias será designado conforme as
normas de organização judiciária da União, dos Estados e do Distrito Federal,
observando os critérios objetivos a serem periodicamente divulgados pelo
respectivo tribunal”. Por fim, o artigo 3º-F impõe deveres ao juiz de
garantias quanto ao tratamento dos presos.

Segundo se depreende das petições iniciais, o ponto controverso


consiste na natureza jurídica desses dispositivos, o que definiria a
legitimidade para a respectiva iniciativa legislativa e, em consequência, a
satisfação do requisito de constitucionalidade formal. Afinal, a
Constituição Federal define regras específicas de competência e de
iniciativa legislativa em relação a determinadas matérias, que devem ser
observadas como condição sine qua non para a regularidade da norma a
ser produzida. O artigo 22 da Constituição define que compete
privativamente à União legislar sobre direito processual. Por sua vez, o
artigo 24 autoriza a União, os Estados e o Distrito Federal a legislarem
concorrentemente sobre procedimentos em matéria processual, no âmbito
do que a competência da União se restringirá ao estabelecimento de
normas gerais. Por fim, o artigo 96, inciso II, determina que cabe ao
“Supremo Tribunal Federal, aos Tribunais Superiores e aos Tribunais de Justiça
propor ao Poder Legislativo respectivo, [...]: [...] d) a alteração da organização e
da divisão judiciárias”.

No caso em tela, o projeto que deu azo à Lei n. 13.964/2019 foi


proposto pelo Poder Executivo, em nível federal. No entanto, os artigos

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ADI 6299 MC / DF

relativos ao juiz de garantias foram acrescidos ao projeto de lei por meio


de emenda de iniciativa parlamentar, no âmbito do Congresso Nacional,
situação que desafia a análise acerca de possível violação dos artigos 24 e
96 da Constituição.

A jurisprudência deste Supremo Tribunal Federal tem realizado


distinção entre normas processuais e normas de organização judiciária.

Como explicitei no julgamento da ADI 3711, “as normas de


organização judiciária diferem ontologicamente daquelas de natureza
processual”. É que “[a] norma de Direito Processual se peculiariza por afetar
aspectos umbilicalmente ligados à tríade jurisdição, ação e processo” (ADI 3711,
Plenário, Rel. Min. Luiz Fux, j. 05/08/2015, DJe 24/08/2015, p. 2 e 16).

Com esteio na lição de José Frederico Marques, as leis de


organização judiciária “cuidam da administração da justiça”, já as leis de
natureza processual dizem respeito à atuação da justiça. É dizer: “as leis
processuais, portanto, regulamentam a ‘tutela jurisdicional’, enquanto que as de
organização judiciária disciplinam a administração dos órgãos investidos da
função jurisdicional” (MARQUES, José Frederico. Organização Judiciária e
Processo. Revista de Direito Processual Civil, São Paulo (Saraiva), vol. 1, ano
1, Jan/Jun. 1960, pp. 20-21).

Em igual sentido, no bojo da ADI 4414, esclareci que “a lei processual


é aquela que cuida da delimitação dos poderes, faculdades e deveres dos sujeitos
processuais, da coordenação de sua atividade, da ordenação do procedimento e da
organização do processo”. Isto é: “envolve, basicamente, a tríade jurisdição, ação
e processo”. (ADI 4.414, Rel. Min. Luiz Fux, PLENÁRIO, j. 31/05/2012, DJe
17/6/2013, p. 54).

In casu, sob uma leitura formalista, poder-se-ia afirmar que, ao


instituírem a função do juiz de garantias, os artigos 3º-A ao 3º-F teriam
apenas acrescentado ao microssistema processual penal mera regra de

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ADI 6299 MC / DF

impedimento do juiz criminal, acrescida de repartição de competências


entre magistrados paras as fases de investigação e de instrução processual
penal. Nesse sentido, esses dispositivos teriam natureza de leis gerais
processuais, definidoras de procedimentos e de competências em matéria
processual penal, o que autorizaria a iniciativa legislativa por qualquer
dos três poderes, nos termos do artigo 22 da Constituição.

Com a devida vênia aos que militam em favor desse raciocínio,


entendo que essa visão desconsidera que a criação do juiz das garantias
não apenas reforma, mas refunda o processo penal brasileiro e altera
direta e estruturalmente o funcionamento de qualquer unidade
judiciária criminal do país. Nesse ponto, os dispositivos questionados
têm natureza materialmente híbrida, sendo simultaneamente norma
geral processual e norma de organização judiciária, a reclamar a
restrição do artigo 96 da Constituição.

De antemão, o artigo 3º-D, parágrafo único, do Código de Processo


Penal, ao determinar que, “[n]as comarcas em que funcionar apenas um juiz,
os tribunais criarão um sistema de rodízio de magistrados, a fim de atender às
disposições deste Capítulo”, parece veicular a violação mais explícita ao
artigo da 96 da Constituição.

No entanto, em um juízo perfunctório, entendo que os demais


artigos que tratam do juiz de garantias também padecem da mesma
violação constitucional direta. De fato, para além do artigo 3º-D,
parágrafo único, nenhum dos demais dispositivos cria explicitamente
novos cargos de juízes ou varas criminais. No entanto, a evidência que
emerge acima de qualquer dúvida razoável é a de que a implantação dos
artigos 3º-A a 3º-F do Código de Processo Penal requer, em níveis poucas
vezes visto na história judiciária recente, a reestruturação de unidades
judiciárias e a redistribuição de recursos materiais e humanos.

Nesse ponto, ressalto que a atividade interpretativa não pode estar

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ADI 6299 MC / DF

apartada de dados empíricos que sublinhem a materialização dos efeitos


da norma jurídica no mundo fenomênico. Igualmente, a jurisdição
constitucional não pode ser concebida como uma mera abstração
idealista, em que a interpretação dos textos normativas ocorra apartada
da realidade fática.

A título de exemplo, imagine-se, por hipótese, que esses dispositivos


questionados efetivamente entrem em vigor in totum, após a vacatio legis
de 30 dias determinada pelo artigo 30 da Lei n. 13.964/2019.
Considerando que as leis processuais têm vigência imediata em relação
aos atos processuais futuros, um juiz titular de vara criminal estaria
impedido de atuar na quase totalidade do acervo de ações penais em
trâmite naquela unidade judiciária, na medida em que muito
provavelmente teria atuado na fase investigativa anterior a essas ações
penais, no exercício de atribuições elencadas no art. 3º-B, como de
competência do juiz de garantias. Em cumprimento ao novo regramento,
esse mesmo acervo seria então atribuído a um segundo juiz, que
certamente já dispõe de acervo próprio atribuído e se encontra em
atuação em unidade judiciária diversa, causando distúrbio também no
exercício de suas funções. Multiplicando esse mesmo exemplo às
milhares de varas criminais do país, propagar-se-ia uma desorganização
dos serviços judiciários em efeito cascata de caráter exponencial, gerando
risco de a operação da justiça criminal brasileira entrar em colapso.

Essas questões práticas ganham outra dimensão quando se verificam


realidades locais, relativamente à ausência de magistrados em diversas
comarcas do país, o déficit de digitalização dos processos ou de conexão
adequada de internet em vários Estados, as dificuldades de deslocamento
de juízes e servidores entre comarcas que dispõem de apenas um único
magistrado, entre outras inúmeras situações.

Não há solução simplista para a concretização desse conjunto de


normas, e isso deve ser analisado nas searas adequadas, inclusive judicial,

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quando do julgamento de mérito. No entanto, em sede de medida


cautelar, entendo que o pronunciamento judicial deve se limitar ao juízo
de suspensão da norma impugnada.

De qualquer modo, esses dados da vida real são essenciais para a


análise da inconstitucionalidade formal dos dispositivos atacados, na
medida em que conduzem a uma inescapável conclusão: a instituição
do juiz de garantias altera materialmente a divisão e a organização de
serviços judiciários em tal nível que demanda uma completa
reorganização da justiça criminal do país. Por óbvio, cada Tribunal tem a
prerrogativa de decidir como essa reorganização de funções será feita, se
for o caso (especialização de varas, criação de núcleos de inquéritos etc),
de sorte que é inafastável considerar que os artigos 3º-A a 3º-F consistem
preponderantemente em normas de organização judiciária.

Por sua vez, em uma primeira análise, a inconstitucionalidade


material dos dispositivos 3º-B a 3º-F do Código de Processo Penal exsurge
especialmente a partir de dois grupos de argumentos: a ausência de
dotação orçamentária e estudos de impacto prévios para implementação
da medida e o impacto da medida na eficiência dos mecanismos
brasileiros de combate à criminalidade.

Quanto ao primeiro grupo, percebe-se que os dispositivos que


instituíram o juiz de garantias violaram diretamente os artigos 169 e 99 da
Constituição, na medida em que o primeiro dispositivo exige prévia
dotação orçamentária para a realização de despesas por parte da União,
dos Estados, do Distrito Federal, e o segundo garante autonomia
orçamentária ao Poder Judiciário. Sem que seja necessário repetir os
elementos fáticos aqui já mencionados, é inegável que a implementação
do juízo das garantias causa impacto orçamentário de grande monta ao
Poder Judiciário, especialmente com os deslocamentos funcionais de
magistrados, os necessários incremento dos sistemas processuais e das
soluções de tecnologia da informação correlatas, as reestruturações e as

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redistribuições de recursos humanos e materiais, entre outras


possibilidades. Todas essas mudanças implicam despesas que não se
encontram especificadas nas leis orçamentárias anuais da União e dos
Estados.

Acrescente-se a esse argumento que os tribunais não podem fazer


uso de seu poder regulamentar para reorganizar serviços judiciários
quando há incremento de despesa, devendo recorrer a projetos de leis
com rito próprio. No entanto, as reestruturações a serem realizadas, em
sua maioria, necessitariam de novas leis a serem aprovadas pelo
Congresso Nacional e pelas Assembleias Legislativas estaduais, não
havendo tempo hábil para o respectivo planejamento no período da
vacatio legis, que transcorreu no prazo de recesso parlamentar.

Outrossim, a criação do juiz das garantias viola o Novo Regime


Fiscal da União, instituído pela Emenda Constitucional n. 95/2016. O
artigo 113 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias,
acrescentado por essa emenda constitucional, determina que “[a]
proposição legislativa que crie ou altere despesa obrigatória ou renúncia de
receita deverá ser acompanhada da estimativa do seu impacto orçamentário e
financeiro." Não há notícia de que a discussão legislativa dessa nova
política processual criminal que tanto impacta a estrutura do Poder
Judiciário tenha observado esse requisito constitucional.

Em suma, concorde-se ou não com a adequação do juiz das garantias


ao sistema processual brasileiro, o fato é que a criação de novos direitos e
de novas políticas públicas gera custos ao Estado, os quais devem ser
discutidos e sopesados pelo Poder Legislativo, considerados outros
interesses e prioridades também salvaguardados pela Constituição. Nesse
sentido, não cabe ao Poder Judiciário definir qual a prioridade deve ser
mais bem contemplada com o uso do dinheiro arrecadado por meio dos
tributos pagos pelos cidadãos – por exemplo, se a implantação do juiz das
garantias ou a construção de mais escolas, hospitais, ou projetos de

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ressocialização para presos. Afinal, esse ônus recai sobre os poderes


Legislativos e Executivo. No entanto, por estrita aplicação da regra
constitucional do artigo 113 da ADCT – aprovada pelo próprio Poder
Legislativo – compete ao Judiciário observar se os requisitos para
concretização dos interesses que o legislador preferiu proteger
obedeceram às formalidades exigidas, especialmente quanto ao estudo de
impacto orçamentário.

Uma vez justapostos todos esses argumentos de natureza


orçamentária, conclui-se que, houvesse o legislador tratado a criação do
juiz de garantias em toda a sua complexidade, como política pública que
é, delimitando e concedendo a devida deferência às matérias atinentes às
competências legislativas estaduais e às iniciativas de lei dos Tribunais,
analisando e calibrando os impactos orçamentários decorrentes,
promovendo ampla discussão social e política, com a devida participação
dos entes juridicamente interessados – inclusive do Poder Judiciário, do
Ministério Público e da Defensoria Pública, em todos os níveis federativos
–, não teria a Lei n. 13964/2019 incorrido nesses vícios que inquinam a
constitucionalidade de alguns dos seus dispositivos.

Outras experiências recentes podem ser exemplificativas de como é


possível promover mudanças estruturais no microssistema processual e
na organização do Poder Judiciário em total respeito às disposições
constitucionais, às regras de iniciativa legislativa e a necessidade de
observância dos impactos orçamentários. A instituição progressiva dos
juizados especiais cíveis e criminais, a partir da Lei n. 9.099/95 e outras
legislações subsequentes, demonstra outro comportamento legislativo,
com o respeito às reservas de competência material dos entes federativos
e dos Tribunais, previsão de prazos mais elásticos para a implantação
progressiva das mudanças operadas pela lei, respeito à liturgia
orçamentária, entre outros fatores.

Diversamente, no presente caso, para a instituição do juiz das

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garantias, em vez de se produzir uma política pública integrativa com a


participação dos entes interessados, promove-se uma mudança
estrutural no Poder Judiciário por meio da aprovação de uma regra de
impedimento processual, a qual, embora de efeitos aparentemente
sutis, encontra-se apta a gerar a completa desorganização do sistema de
justiça criminal. Na prática, criaram-se dois novos órgãos – juízos das
garantias e juízo da instrução – por meio de uma regra de impedimento
processual, o que abreviou indevidamente uma discussão legislativa
que deveria ter tomado amplitudes equivalentes aos seus impactos.
Observo que se deixaram lacunas tão consideráveis na legislação, que o
próprio Poder Judiciário sequer sabe como as novas medidas deverão
ser adequadamente implementadas. O resultado prático dessas
violações constitucionais é lamentável, mas clarividente: transfere-se
indevidamente ao Poder Judiciário as tarefas que deveriam ter sido
cumpridas na seara legislativa. Em outras palavras, tem-se cenário em
que o Poder Legislativo induz indiretamente o Poder Judiciário a
preencher lacunas legislativas e a construir soluções para a
implementação das medidas trazidas pela Lei n. 13964/2019, tarefas que
não são típicas às funções de um magistrado.

O segundo grupo de argumentos relativos à inconstitucionalidade


material dos dispositivos analisa o impacto dessas novas funções aos
valores constitucionais que militam pela eficiência do microssistema
processual penal e, de modo mais abrangente, pela operação de
mecanismos anti-criminalidade.

Neste estágio inicial, não realizarei análise exauriente sobre esse


ponto, na medida em que diversos dados ainda deverão ser apresentados
nos autos nas próximas etapas procedimentais, inclusive mediante
realização de audiências públicas, o que permitirá uma visão sistêmica
entre a compatibilidade do juiz das garantias e as normas constitucionais.

No entanto, essa cautela não impede que se explicitem, desde logo,

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algumas considerações breves sobre argumentos valorativos que têm sido


utilizados para a defesa da constitucionalidade material do juiz das
garantias, os quais, com a devida vênia, merecem uma reflexão mais
aprofundada e, por isso mesmo, reforçam o fumus boni iuris da medida
cautelar requerida. Concentrarei essa análise em dois pontos.

O primeiro ponto diz respeito aos argumentos de Direito


Comparado, que preconizam experiências de outros países que adotam o
sistema de juízo das garantias. Segundo essa perspectiva, a implantação
do juiz das garantias, coloca o Brasil no mesmo patamar de outros países
civilizados, no que tange ao sistema acusatório processual.

No entanto, penso que esse argumento merece uma maior cautela


reflexiva.

No exercício da jurisdição constitucional, eu tenho sido sensível à


utilização de argumentos do Direito comparado, sempre atento aos
pronunciamentos de outras Cortes Constitucionais, às contribuições de
doutrinadores estrangeiros, e até mesmo ao exame qualitativo de outras
experiências constitucionais sobre temas comuns ou sobre arranjos
institucionais (A título de exemplo, vide MS 35.985/DF, Rel. Min. Luiz
Fux, j. 19/11/2018, DJe 21/11/2018).

No entanto, ao balizar minhas decisões nesse tipo de argumento,


uma de minhas preocupações centrais consiste em trazer rigor
metodológico à comparação. É dizer: com força nos ensinamentos da
professora Vicki Jackson, da Harvard Law School, procuro minimizar os
vieses metodológicos que podem advir de uma análise comparada (Vide
Methodological Challenges in Comparative Constitutional Law. Penn
State International Law Review, v. 28, n.3, p. 319-326, 2010).

Como exemplo, no exercício de comparação de experiências


constitucionais, tem sido comum o que a doutrina convencionou chamar

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de “cherry-picking”, na qual se seleciona estrategicamente um país ou um


caso estrangeiro que apresenta semelhanças pontuais com o caso
paradigma, com vistas a meramente reforçar o argumento comparativo,
sem se ter o cuidado de se justificarem os motivos pelos quais o caso em
comparação realmente se adequa ao paradigma. Trata-se, assim, de um
mero uso retórico do Direito comparado, que desconsidera
particularidades dos arranjos institucionais e da cultura política de cada
um dos países, divergências contextuais, dissidências doutrinárias e
jurisprudenciais, entre outros pontos. (Vide FRIEDMAN, Andrew. Beyond
Cherry-Picking: Selection Criteria for the Use of Foreign Law in Domestic
Constitutional Jurisprudence. Suffolk University Law Review, v. XLIV, pp.
873-889, 2011).

In casu, com a devida vênia ao pensamento contrário, e ainda em


sede perfunctória e não definitiva, o simples argumento do “sucesso” da
implementação do “Juiz de Garantias” em outros países (e.g. Alemanha,
Portugal e Itália) merece cautela, sob pena de se realizar um verdadeiro
transplante acrítico de ideias e de instituições.

Conforme afirma Campos Dutra, “sem essa atenção necessária, é


perfeitamente possível que haja a escolha por parte do país receptor de um item
jurídico estrangeiro idealizado, digamos, do direito penal ou civil, sem sequer ter
a fundamental informação de que sua aplicação só foi bem-sucedida num
determinado país” em virtude de que o seu sistema judiciário e a sua
sociedade detinham características determinantes para que a referida
instituição fosse implementada com sucesso. Na realidade, por outro
lado, não se pode olvidar que a mesma estrutura institucional
transplantada de um país para outro pode gerar impactos totalmente
diversos – inclusive efeitos colaterais negativos – em outros países que
não dispunham das mesmas características do país paradigma (DUTRA,
Deo Campos. Transplantes Jurídicos: história, teoria e crítica no Direito
Comparado. Revista da Faculdade de Direito da UFRGS, n. 39, p. 76-96,
dez. 2018, p. 91).

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Nesse sentido, a análise comparada não pode ser pontual e


descontextualizada. Além de rigor metodológico, ela necessita de uma
perspectiva sistêmica, levando em conta aspectos institucionais do país
analisado.

No caso em tela, a análise comparada do juiz das garantias demanda


a observância de outras questões, como, por exemplo, (i) a capacidade
que o sistema judiciário brasileiro possui para a recepcionar o “Juiz de
Garantias” (e.g. contingente processual, bem como os recursos humanos e
financeiros disponíveis); (ii) a proximidade e/ou vinculação institucional
entre os órgãos de acusação e de julgamento nos países em análise; (iii) as
regulamentações das competências do juiz das garantias nos países
comparados. Em verdade, torna-se também imprescindível analisar
justamente as experiências comparadas que foram infrutíferas, nas quais
a instituição foi implementada, porém não obteve os resultados
esperados e/ou foi posteriormente extinta.

Em uma análise comparada perfunctória, percebo que existe uma


diversidade superlativa em relação a esse tópico. Em países que adotam o
sistema acusatório no microssistema processual penal, há variações
consideráveis em relação à distinção de competências entre os juízes que
acompanham a investigação e os juízes que acompanham o julgamento.
Há países, como a França, em que o juiz que acompanha as investigações
tem competências investigativas que seriam inimagináveis no sistema
brasileiro. Em outros sistemas europeus, o Ministério Público não se
encontra em total independência do Poder Judiciário, podendo inclusive
juízes pedirem remoções para ofícios ministeriais, o que de certa forma
justificaria melhor o arranjo do juiz de garantias. Outros países, como a
Inglaterra, não fazem qualquer distinção entre as fases pré-processual e
processual, podendo um mesmo juiz acompanhar o processo desde a
investigação até a sentença, mesmo nos casos não abarcados por júri.

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Ademais, numa visão sistêmica, poucos países no mundo


construíram uma jurisprudência de garantias ao devido processo legal na
mesma extensão que o Brasil produziu. A título de exemplo, em nenhum
dos países citados como cases preferidos quanto ao juiz das garantias
existe a possibilidade de esgotamento de todas as instâncias recursais
para o início do cumprimento da pena. Em suma, tentando-se evitar
qualquer visão excepcionalista, a ponto de se concluir que nenhuma
comparação pode ser feita entre sistemas, o fato é que a discussão
comparada quanto ao tema objeto dessas ações assume complexidade
acima da média, e deve ser tratada com cautela.

A fim de concretizar essas premissas, debruçar-me-ei com atenção às


particularidades e aos pormenores dos países que costumam ser citados
como modelos de sucesso do juiz das garantias em sede meritória.
Porém, neste momento preliminar, o argumento comparado não me
parece contundente e apropriado para diminuir a plausibilidade jurídica
do pedido deduzido nesta cautelar.

O segundo ponto refere-se à alegada presunção de que os juízes que


acompanham investigações tendem a produzir vieses que prejudicam o
exercício imparcial da jurisdição, especialmente na fase processual penal.

Do mesmo modo, a minha trajetória revela que tenho sido atento às


contribuições da Análise Econômica do Direito e das ciências
comportamentais (behavioral sciences) à seara jurídica, mormente quanto
aos possíveis vieses cognitivos gerados pela atuação do julgador. Por isso
mesmo, observo que esse debate também inspira cautela, a fim de se
evitarem generalizações inadequadas.

A base das ciências comportamentais é o caráter empírico de seus


argumentos. A existência de estudos empíricos que afirmam que seres
humanos desenvolvem vieses em seus processos decisórios não
autoriza a presunção generalizada de que qualquer juiz criminal do

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ADI 6299 MC / DF

país tem tendências comportamentais típicas de favorecimento à


acusação. Mais ainda, também não se pode inferir, a partir desse dado
científico geral, que a estratégia institucional mais eficiente para
minimizar eventuais vieses cognitivos de juízes criminais seja repartir
as funções entre o juiz das garantias e o juiz da instrução. Defensores
desse argumento sequer ventilam eventuais efeitos colaterais que esse
arranjo proposto pode produzir, inclusive em prejuízo da defesa.

Nada obstante, conforme bem demonstra Pery Francisco Assis


Shikida, pesquisador na área da Análise Econômica do Direito, a
instituição do juiz das garantias, combinada com a morosidade atual de
muitos juízos criminais do país em virtude do assolamento de processos,
pode fornecer também incentivos à impunidade ou, ao menos, prejudicar
a duração razoável do processo - aumentando o tempo necessário para
que prestação jurisdicional final ocorra (SHIKIDA, Pery Francisco Assis.
A economia e o juiz de “garantias”. Disponível em Portal Jota Info,
08.01.2020; (Vide também: SCHAEFER, Gilberto José; SHIKIDA, Pery
Francisco Assis. Economia do Crime: elementos teóricos e evidências empíricas.
Revista Análise Econômica, Faculdade de Ciências Econômicas da
UFRGS, Porto Alegre, v. 19, n. 36, 2001).

Em que pese a relevância desse debate empírico, igualmente não me


parece apropriado adentrá-lo nesta análise primária e cautelar da
questão, em face da ausência de dados firmes que permitam uma
conclusão definitiva sobre o tema. O aprofundamento desse tópico, com o
devido rigor metodológico e empírico, somente será possível em sede
meritória. Nela, poderei me debruçar, com maior vagar, nas contribuições
teóricas e, sobretudo, nos dados empíricos disponíveis (com especial
atenção à solidez, tecnicidade e consistência desse dados) sobre os
impactos que o juiz de garantias ensejará aos diversos interesses
constitucionalmente tutelados, sob pena de se recair em uma análise
baseada em meras especulações que carecem de consistência empírica.

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Por meio de audiências públicas e de amici curiae, por exemplo,


entidades científicas e institutos de pesquisa poderão, ainda, melhor
esclarecer esses (e outros) relevantes tópicos para o Supremo Tribunal
Federal fomentando, por conseguinte, a concretização de uma jurisdição
constitucional empiricamente informada (Sobre a importância desses
instrumentos de “abertura” da Corte para a sociedade e para a academia
e a consecução de uma jurisdição empiricamente informada e
democrática, como já refleti em sede doutrinária: FUX, Luiz. Cortes
Constitucionais e Democracia: o Supremo Tribunal Federal sob a
Constituição de 1988. TOFFOLI, José Antônio Dias (Org.). 30 anos da
Constituição Brasileira: Democracia, Direitos Fundamentais e Instituições.
Rio de Janeiro: Editora Forense, 2018).

Em suma, nesta análise preliminar, a justaposição desses argumentos


demonstra a plausibilidade do direito invocado para se definir o fumus
boni iuris da medida cautelar em relação aos artigos dos artigos 3ª-A a 3º-F
do Código de Processo Penal.

Em relação ao periculum in mora, retomo as premissas teóricas já


aventadas na introdução desta decisão. Permitir a entrada em vigor,
ainda que parcialmente, de legislação que suscita questões de
inconstitucionalidade formal e material de alta complexidade ensejaria
forte probabilidade de dano ao funcionamento da justiça criminal, com
efeitos irreversíveis, especialmente se o julgamento de mérito redundar
na declaração de inconstitucionalidade de alguns ou de todos os
dispositivos. Como já mencionei anteriormente, entendo que, nesse
momento preliminar, é prudente a suspensão ad cautelam dos dispositivos
impugnados, permitindo-se o adequado colhimento de informações das
autoridades interessadas, a ampla participação dos amicus curiae, e,
oportunamente, a realização de audiências públicas para a democrática
participação da sociedade civil nessa discussão sobre ponto que pode
reestruturar por completo a justiça criminal do país, inclusive com a
colheita de dados empíricos.

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Reitero, ainda, a impossibilidade de que a decisão em medida


cautelar gere fato consumado que crie dificuldades práticas para a
implementação de eventual decisão de mérito a ser construída pelo
Plenário.

Ex positis, entendo satisfeitos os requisitos do fumus boni iuris e do


periculum in mora, para determinar a suspensão da eficácia dos artigos 3º-
A a 3º-F, do Código de Processo Penal, na redação dada pela Lei n.
13.964/2019.

2. Alteração do juiz natural que conheceu de prova declarada


inadmissível (Artigo 157, §5º, CPP)

Além dos artigos 3ª-A a 3º-F, as partes impugnaram norma correlata,


consistente no 175, §5º, do Código de Processo Penal, acrescentado pela
Lei n. 13964/2019. Esse dispositivo determina que “[o] juiz que conhecer do
conteúdo da prova declarada inadmissível não poderá proferir sentença ou
acórdão”. Nesse ponto, retomo e adoto como razão de decidir a bem
lançada argumentação do Presidente desta Corte, que justificou o pedido
de suspensão da norma nos seguintes termos:

“De início, anoto que a norma em tela é extremamente vaga,


gerando inúmeras dúvidas. O que significa “conhecer do conteúdo da
prova declarada inadmissível”? Significa apenas travar contato com a
prova ou pressupõe que o juiz necessariamente tenha emitido algum
juízo de valor sobre o material probatório? Como se materializaria a
demonstração desse “conhecimento”? O juiz, após “conhecer” do
conteúdo da prova, ainda poderá proferir decisões interlocutórias e
presidir a instrução, ficando impedido apenas para a sentença, ou
ficará impedido desde logo? A ausência de clareza do preceito é
também capaz de gerar situações inusitadas. Imagine-se o juiz que, ao
proferir a sentença, se depare com uma prova ilícita e a declare como
tal. Nesse caso, ele interrompe a prolação da sentença e, em seguida,
remete os autos ao juiz que o substituirá? Imagine-se, agora, que a
câmara de um tribunal decida anular um processo por ilicitude da

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ADI 6299 MC / DF

prova e determine o retorno dos autos à origem. Nesse caso, a câmara


ficará impedida de julgar nova apelação? A vagueza do preceito e as
inúmeras dúvidas que ele suscita, por si sós, colocam em dúvida sua
constitucionalidade. Uma das facetas do princípio da legalidade,
princípio basilar do Estado Democrático de Direito, é que as leis sejam
editadas, tanto quanto possível e adequado, com precisão, de modo que
sejam aptas a efetivamente orientar a ação individual. Desse modo,
promove-se previsibilidade e, consequentemente, segurança jurídica.
Assim, a utilização de fórmulas legislativas excessivamente vagas
viola a segurança jurídica e o princípio da legalidade.
[...]
O § 5º do art. 157 é também danoso ao princípio do juiz natural,
por ser norma de competência que não fornece critérios claros e
objetivos para sua aplicação. Como redigido, o preceito pode resultar
na criação de situações em que a produção de prova eventualmente
nula sirva como instrumento deletério de interferência na definição do
juiz natural (CF, art. 5º, LIII), abrindo brecha para a escolha do
magistrado que examinará o processo crime, vulnerando-se, por via
transversa, o postulado constitucional em questão. Com efeito,
Gustavo Badaró anota que existe o direito ao juiz certo, determinado
segundo os critérios legais de competência, “que devem ser
estabelecidos a partir de elementos claros e objetivos, que não
permitam qualquer manipulação da individualização ou escolha do
órgão que legitimamente irá julgar o processo”. (Juiz natural no
Processo Penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 157).
[...]
Por essas razões, neste juízo preliminar, próprio das medidas
liminares, entendo ser o caso de suspensão do § 5º do art. 157 do CPP,
inserido pela Lei nº 13.964/2019”

Ex positis, neste tópico, acolhendo a argumentação proferida na


análise cautelar preliminar, determino a suspensão da eficácia do artigo
157, §5º, do Código de Processo Penal, na redação dada pela Lei n.
13.964/2019.

3. Alteração do procedimento de arquivamento do inquérito

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policial (Artigo 28, caput, Código de Processo Penal):

A Lei n. 13964/2019 alterou o rito de arquivamento do inquérito


policial, ao modificar o artigo 28 do Código de Processo Penal, cuja nova
redação dispõe que, “ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de
quaisquer elementos informativos da mesma natureza, o órgão do Ministério
Público comunicará à vítima, ao investigado e à autoridade policial e
encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial para fins de
homologação, na forma da lei”.

Em relação a esse dispositivo, impugnado exclusivamente nos autos


da ADI 6305, a parte autora Associação Nacional dos Membros do
Ministério Público afirma, in verbis:

“De fato, esta alteração é muito elogiável, tratando-se de medida


que, há muito tempo, é aguardada pela comunidade jurídica brasileira,
preservando a imparcialidade judicial e o protagonismo ministerial
que são medidas estruturais do sistema acusatório. Ocorre que, ao
estabelecer a vigência da alteração proposta no novo enunciado do art.
28 em prazo de 30 dias após a data de sua publicação, a lei desafiou
normas constitucionais que dizem respeito à falta de razoabilidade e
proporcionalidade da alteração para a sua vigência, na medida em que
causará extremo impacto na autonomia e gestão administrativa e
financeira do Ministério Público. O fato é que em todo o país, o
elevado número de inquéritos policiais e outros elementos
investigativos de mesma natureza é uma realidade inconteste, que não
pode ser desconsiderada. O novo comando legislativo parece não ter
somente desconsiderado esta realidade, mas também toda a
problemática que a envolve, com a existência de inquéritos físicos e
digitais, a necessidade de compartilhamento de sistemas de
informática, a estruturação administrativa das instituições
envolvidas, entre outras. Sobre a questão do volume de inquéritos,
para se ter uma noção da situação real que se enfrenta, o Ministério
Público do Estado de São Paulo fez um levantamento de dados
que apontou para um acervo de 829 inquéritos policiais objetos

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ADI 6299 MC / DF

de aplicação do art. 28 do CPP no ano de 2019, o que daria uma


média mensal de 70 procedimentos investigatórios criminais
para apreciação do Procurador-Geral de Justiça. A partir da
ampliação feita pelo novo art. 28, o número apresentado pelo
MPSP de arquivamentos no ano de 2019 seria de 174.822, o que
daria uma média mensal de análise de 14.500 procedimentos.
Esta situação, que se repete na medida das suas especificidades em
outros Estados da Federação, não pode ser desprezada, sob pena de ser
instituído o caos processual sistêmico.
[...]
Criou-se, agora, nova competência institucional, em que o
Ministério Público passa a revisar todos os arquivamentos de
inquéritos policiais e procedimentos investigatórios criminais do país.
Trata-se de regra que demanda reestruturação e não mera
reorganização!”

Em análise perfunctória, verifico satisfeito o requisito do fumus boni


iuris para o deferimento do pedido cautelar de suspensão do artigo 28,
caput, da Lei n. 13964/2019. Na esteira dos dados empíricos apresentados
pela parte autora, verifica-se que o Congresso Nacional desconsiderou a
dimensão superlativa dos impactos sistêmicos e financeiros que a nova
regra de arquivamento do inquérito policial ensejará ao funcionamento
dos órgãos ministeriais. Nesse sentido, a inovação legislativa viola as
cláusulas que exigem prévia dotação orçamentária para a realização de
despesas, além da autonomia financeira dos Ministérios Públicos. Na
esteira do que já argumentado no tópico anterior, vislumbro, em sede de
análise de medida cautelar, violação aos artigos 169 e 127 da Constituição.

O periculum in mora também se encontra demonstrado na medida em


que o dispositivo impugnado poderá entrar em vigor em 23.01.2020, sem
que os Ministérios Públicos tenham tempo hábil para se adaptar
estruturalmente à nova competência estabelecida. Não apenas há
dificuldades operacionais relativas aos recursos materiais e humanos que
precisarão ser deslocados para a implementação da medida. Anoto que
questões operacionais simples deixaram de ser resolvidas pelo legislador,

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como, por exemplo, a cláusula aberta trazida no caput do artigo 28, ao


determinar que o arquivamento do inquérito policial será homologado
pela “instância de revisão ministerial”. A nova legislação sequer definiu qual
o órgão competente para funcionar como instância de revisão.

Ressalto, ainda, a vacatio legis desse dispositivo transcorreu


integralmente no período de recesso parlamentar federal e estadual, o
que impediu qualquer tipo de mobilização dos Ministérios Públicos para
a propositura de eventuais projetos de lei que venham a possibilitar a
implementação adequada dessa nova sistemática.

Embora entenda que algumas dessas questões trazidas pela parte


autora possam ser solucionadas em sede jurisdicional, por meio das
técnicas de decisão e de interpretação que possam controlar o prazo da
entrada em vigor da norma e definir eventuais ambiguidades legislativas,
anoto que a solução jurídica adequada, por ora, é a suspensão do
dispositivo impugnado, para posterior análise de mérito do Plenário
deste Supremo Tribunal Federal.

Ex positis, suspendo ad cautelam a eficácia do artigo 28, caput, do


Código de Processo Penal, na redação dada pela Lei n. 13.964/19. Nos
termos do artigo 11, §2º, da Lei n. 9868/99, a redação revogada do artigo
28 do Código de Processo Penal permanece em vigor enquanto perdurar
esta medida cautelar.

4. Acordo de Não Persecução Penal (Artigo 28-A, inciso III e IV, e


§§§ 5°, 7°, 8º do Código de Processo Penal)

O art. 28-A, introduzido ao Código de Processo Penal pela Lei n°


13.964/2019, estabelece uma relevante mudança, no sistema processual
penal brasileiro, ao implementar o “acordo de não persecução penal”.

Eis o teor dos dispositivos impugnados:

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“Art. 28-A. Não sendo caso de arquivamento e tendo o


investigado confessado formal e circunstancialmente a prática de
infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima
inferior a 4 (quatro) anos, o Ministério Público poderá propor acordo
de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para
reprovação e prevenção do crime, mediante as seguintes condições
ajustadas cumulativa e alternativamente:
III - prestar serviço à comunidade ou a entidades públicas por
período correspondente à pena mínima cominada ao delito diminuída
de um a dois terços, em local a ser indicado pelo juízo da execução, na
forma do art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940
(Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de
1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro
de 1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7
de dezembro de 1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848,
de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº
2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei
nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal)art. 46 do Decreto-
Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal) art. 46 do
Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal)art. 46
do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal)art.
46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940
(Código Penal)art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de
1940 (Código Penal);
IV - pagar prestação pecuniária, a ser estipulada nos termos do
art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940
(Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de
1940 (Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 (Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de
7 de dezembro de 1940 (Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº
2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal),art. 45 do Decreto-
Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal),art. 45 do

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Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal),art. 45


do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), art.
45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940
(Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de
1940 (Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 (Código Penal),art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de
7 de dezembro de 1940 (Código Penal), a entidade pública ou de
interesse social, a ser indicada pelo juízo da execução, que
tenha, preferencialmente, como função proteger bens jurídicos
iguais ou semelhantes aos aparentemente lesados pelo delito;
§ 5º Se o juiz considerar inadequadas, insuficientes ou abusivas
as condições dispostas no acordo de não persecução penal, devolverá os
autos ao Ministério Público para que seja reformulada a proposta de
acordo, com concordância do investigado e seu defensor.
§ 7º O juiz poderá recusar homologação à proposta que não
atender aos requisitos legais ou quando não for realizada a adequação
a que se refere o § 5º deste artigo.
§ 8º Recusada a homologação, o juiz devolverá os autos ao
Ministério Público para a análise da necessidade de complementação
das investigações ou o oferecimento da denúncia.

Em relação a esses dispositivos, impugnados exclusivamente nos


autos da ADI 6305, a Associação Nacional dos Membros do Ministério
Público afirma, in verbis:

“Ocorre que, também nesta proposta, o legislador se equivocou


em alguns pontos que merecem ser corrigidos por esta Suprema Corte,
em razão das suas flagrantes inconstitucionalidades.
A primeira delas diz respeito aos incisos III e IV do art. 28-A,
que, ao prever que o local para prestação de serviço e a entidade
pública ou de interesse social para o pagamento de prestação
pecuniária sejam escolhidos pelo juiz de execução penal, desafia a
prerrogativa constitucional do Ministério Público, que decorre da sua
titularidade exclusiva da ação penal pública, além da própria
concepção do sistema acusatório e da imparcialidade objetiva do juiz.

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Como se percebe do texto, o acordo de não persecução penal é


proposta que cabe ao Ministério Público, tendo o magistrado o papel
de seu homologador.
Assim, justamente por não se tratar de pena, tanto as condições
quanto os detalhamentos do acordo devem ser confiados ao Ministério
Público, o que inclui a definição dos locais de prestação de serviço e
das entidades públicas e de interesse social para efetuação de
pagamento de prestação pecuniária. Não possui, portanto, harmonia
com a Constituição a escolha feita pelo legislador de confiar estas
funções ao magistrado, especialmente ao juiz de execução penal, pois
(a) não se trata de pena e (b) se revela uma atribuição confiada pelo
texto constitucional ao Ministério Público.
A segunda, também por violar o sistema acusatório, a
independência funcional do membro do Ministério Público e a própria
imparcialidade objetiva do Magistrado, refere-se aos conteúdos
normativos contidos nos parágrafos 5º, 7º e 8º, que estabelecem o
controle inadequado e inconstitucional do acordo por parte do
Magistrado. É que, conforme se depreende dos textos, a atuação da
magistratura foge da dimensão homologatória e fiscalizatória no plano
da legalidade formal, para invadir um patamar de mérito indevido,
estabelecendo um controle que não encontra mais base no sistema
constitucional brasileiro, por desafiar a ideia do sistema processual
acusatório. Nesta concepção do sistema acusatório, as atividades dos
sujeitos processuais são repensadas e ajustadas conforme a essência
dos seus respectivos papeis constitucionais, alterando,
progressivamente, a ordem jurídica vigente. Uma destas alterações é,
justamente, a atuação do juiz na temática de arquivamento do
inquérito policial, retirando, como já dito anteriormente, a iniciativa
do magistrado para entregá-la à vítima (novo art. 28 do CPP).
Este regramento está devidamente estabelecido também no
próprio art. 28-A, parágrafo 14, que estabelece: ‘no caso de recusa, por
parte do Ministério Público, em propor o acordo de não persecução
penal, o investigado poderá requerer a remessa dos autos a órgão
superior, na forma do art. 28 deste Código. ’ A solução harmoniosa do
texto legislativo deveria ser a mesma estabelecida nas normas citadas
nos parágrafos anteriores, que confiam a revisão da atividade

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ministerial ao órgão revisional do próprio Ministério Público, o que


deve ser reconhecido e declarado por esta r. Corte Constitucional.
Por isto mesmo, a escolha do legislador de conferir ao
magistrado esse papel de controlador do acordo de não persecução
penal, da forma como foi posta, é medida flagrantemente
inconstitucional, por violar o sistema acusatório, a autonomia do
membro do Ministério Público e a imparcialidade objetiva do
magistrado”.

Em análise perfunctória, e sem prejuízo de posterior posicionamento


em sede meritória, não antevejo o requisito do fumus boni iuris para o
deferimento do pedido cautelar de suspensão dos dispositivos
questionados.

Nesta análise preliminar, não observo incompatibilidade com os


dispositivos e princípios constitucionais alegados, tais como “a autonomia
do Ministério Público e a imparcialidade objetiva do magistrado”. Trata-se de
medida que prestigia uma espécie de “freios e contrapesos” no processo
penal (art. 28-A, §5°).

A despeito do que argumentado pela parte autora, a autonomia do


membro do Ministério Público (órgão acusador, por essência) permanece
plena, vez que ao magistrado cabe, no máximo, não homologar o acordo.

É dizer: o magistrado não pode intervir na redação final da proposta


em si estabelecendo as cláusulas do acordo (o que, sem dúvidas, violaria
o sistema acusatório e a imparcialidade objetiva do julgador). Ao revés, o
juiz poderá somente (a) não homologar ou (b) devolver os autos para que
o parquet – de fato, o legitimado constitucional para a elaboração do
acordo – apresente nova proposta ou analise a necessidade de
complementar as investigações ou de oferecer denúncia, por exemplo
(art. 28-A, §8°).

Ex positis, ausentes os requisitos legais, indefiro o pedido cautelar de

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suspensão do artigo 28-A, formulado exclusivamente no bojo da ADI n.


6.305.

5. Ilegalidade da prisão pela não realização da audiência de


custódia no prazo de 24 horas (Artigo 310, §4°, Código de Processo
Penal)

No tocante ao art. 310, §4°, igualmente introduzido ao Código de


Processo Penal pela Lei n° 13.964/2019, a sua redação determina que
“transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do prazo estabelecido no
caput deste artigo, a não realização de audiência de custódia sem motivação
idônea ensejará também a ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade
competente, sem prejuízo da possibilidade de imediata decretação de prisão
preventiva”.

Em relação a esse dispositivo, impugnado também exclusivamente


nos autos da ADI n° 6305, a Associação Nacional dos Membros do
Ministério Público afirma, in verbis:

“O parágrafo 4º do artigo 310 do Código de Processo Penal,


acima negritado e fruto da alteração legislativa feita pela Lei nº
13.964/2019, padece de inconstitucionalidade ao prever hipótese de
soltura automática, leva em consideração prazo inflexível, e ao mesmo
tempo permite o decreto de prisão preventiva sem a realização da
própria audiência de custódia.
Conforme o artigo 13 da Resolução nº 213, de 2015 do Egrégio
Conselho Nacional de Justiça, a audiência de custódia é aplicável não
só à prisão em flagrante, mas também às seguintes prisões: preventiva,
temporária, decorrente da execução penal e civil. A prisão em
flagrante tem por fundamento a proteção da ordem pública, a
preventiva, o atendimento dos fundamentos do artigo 312 do Código
de Processo Penal, a temporária quando imprescindível para as
investigações de crimes graves, a decorrente da execução penal para
assegurar cumprimento da pena, e por fim, a civil, para garantir o
adimplemento de prestação alimentícia.

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ADI 6299 MC / DF

A essência da audiência de custódia é possibilitar que o preso ou


detido seja imediatamente levado à presença do juiz competente, da
maneira mais rápida possível, que é normalmente de 24 (vinte e
quatro) horas. Ocorre que, nem sempre esse período de tempo,
rigidamente fixado, pode ser cumprido, não por vontade dos membros
do Ministério Público ou dos magistrados, mas pela realidade
existente no Brasil.
A dimensão territorial do Brasil e de seus Estados Federados
muitas vezes impede o cumprimento exato do prazo de 24 (vinte e
quatro) horas para apresentação do preso ou detido à realização da
audiência de custódia. É comum nos Estados, no âmbito da Justiça
Estadual, quando da realização do plantão judiciário, a divisão do
território em regiões administrativas, o que pode abarcar mais de uma
comarca, de modo que pode vir a ocorrer de o juiz designado para o
plantão ser lotado na cidade A, o promotor de justiça na cidade B, e o
defensor público, na cidade C, o que inviabiliza a realização do ato no
prazo de 24 (vinte e quatro) horas, de modo extemporâneo, não
acarreta a nulidade do ato, e portanto, não há ilegalidade
(...)
Entendemos, por isso, que o dispositivo em comento, ao fixar o
prazo de 24 horas como causa de ilegalidade de prisão, podendo
sujeitar até mesmo os magistrados e membros do Ministério Público à
imputação de abuso de autoridade, viola o artigo 5º, incisos LXI, LXV
e LXVII
(…),”

Em análise perfunctória, e sem prejuízo de posterior posicionamento


em sede meritória, entendo presentes os requisitos para a concessão da
medida cautelar pleiteada. Não se desconsidera a importância do
instituto da audiência de custódia para o sistema acusatório penal. No
entanto, o dispositivo impugnado fixa consequência jurídica
desarrazoada para a não realização da audiência de custódia, consistente
na ilegalidade da prisão. Esse ponto desconsidera dificuldades práticas
locais de várias regiões do país, especialmente na região Norte, bem como
dificuldades logísticas decorrentes de operações policiais de considerável

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ADI 6299 MC / DF

porte, que muitas vezes incluem grande número de cidadãos residentes


em diferentes estados do país. A categoria aberta “motivação idônea”,
que excepciona a ilegalidade da prisão, é demasiadamente abstrata e não
fornece baliza interpretativa segura aos magistrados para a aplicação do
dispositivo.

Nesse ponto, entendo que, uma vez oportunamente instruído o


processo quanto à realidade das audiências de custódia em todo o país, o
Plenário poderá decidir o mérito, inclusive, sendo o caso, fornecendo
balizas interpretativas mais objetivas para as categorias normativas nele
incluídas. Por ora, a eficácia do dispositivo deve ser suspensa para se
evitarem prejuízos irreversíveis à operação do sistema de justiça criminal,
inclusive de direitos das defesas.

Ex positis, concedo a medida cautelar requerida para suspender a


eficácia do artigo 310, §4°, do Código de Processo Penal (CPP), na redação
introduzida pela Lei n° 13.964/2019.

Conclusão

Ex positis, na condição de relator das ADIs 6.298, 6.299, 6.300 e 6305,


com as vênias de praxe e pelos motivos expostos:

(a) Revogo a decisão monocrática constante das ADIs 6.298, 6.299,


6.300 e suspendo sine die a eficácia, ad referendum do Plenário,

(a1) da implantação do juiz das garantias e seus consectários


(Artigos 3º-A, 3º-B, 3º-C, 3º-D, 3ª-E, 3º-F, do Código de Processo Penal); e

(a2) da alteração do juiz sentenciante que conheceu de prova

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ADI 6299 MC / DF

declarada inadmissível (157, §5º, do Código de Processo Penal);

(b) Concedo a medida cautelar requerida nos autos da ADI 6305, e


suspendo sine die a eficácia, ad referendum do Plenário,

(b1) da alteração do procedimento de arquivamento do inquérito


policial (28, caput, Código de Processo Penal);

(b2) Da liberalização da prisão pela não realização da audiência de


custodia no prazo de 24 horas (Artigo 310, §4°, do Código de Processo
Penal);

Nos termos do artigo 10, §2º, da Lei n. 9868/95, a concessão desta


medida cautelar não interfere nem suspende os inquéritos e os processos
em curso na presente data.

Aguardem-se as informações já solicitadas aos requeridos, ao


Advogado-Geral da União e ao Procurador-Geral da República.

Após, retornem os autos para a análise dos pedidos de ingresso na


lide dos amici curae e a designação oportuna de audiências públicas.

Publique-se. Intimem-se.
Brasília, 22 de janeiro de 2020.

Ministro LUIZ FUX


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