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A estética da miséria manter uma vida saudável e produtiva.

Metade desse contingente está na Região


por Eliane Garcia
Nordeste e lá, quando se trata da fatia ru-
orientação: Cristine Nogueira
ral de miseráveis, o percentual sobe para
70%, em nível de Brasil.
A miséria do Aurélio é estado, adjetivo e
ação. Acumula significados que qualquer A ONU divulga que existem 830 milhões
ser humano com algum grau de sanidade de miseráveis no planeta. A Ásia concen-
pretende manter distantes da sua existên- tra 63% desse número (300 milhões na
cia: é pobreza extrema, indigência, penú- Índia!). Na África, uma em cada quatro
ria. Por outro lado, no mesmo dicionário, pessoas passa fome.
a estética – que compreende (para dizer
pouco!) a descoberta de Baumgarten e o O Brasil, com seus 23 milhões de miserá-
“não sei o quê” de Leibniz – vem a ser o veis, representa 3% do problema mundial.
ramo do conhecimento que racionaliza os Antes que isso pareça pouco grave diante
conceitos e emoções suscitadas pelo belo. da situação do mundo, deve ser aplicada
Quem chegou até aqui talvez julgue soar uma análise mais cuidadosa:
estranho que palavras de significados tão
opostos ocupem a frase, do título deste
artigo, da forma que lá estão. Partindo
desse estranhamento, surge a questão:
de que forma essa experiência se dá?

Antes de tentar responder a essa ques-


tão, convém contextualizar a miséria no
mundo e em nosso país. O que quer dizer
pobreza e indigência, como identificar um
pobre? Para efeito estatístico, estudiosos
chegaram a uma definição do que é misé-
ria e pobreza, estabelecendo duas gran-
des linhas:

Linha de pobrez a
Pessoas que não têm renda suficiente para
cobrir os custos mínimos de manutenção da Assim, podemos concluir que o Brasil é o
vida humana: alimentação, moradia, transporte mais rico dentre os pobres e, diante dessa
e vestuário realidade, não é difícil supor que reside na
pobreza e na miséria uma das principais
Linha de miséri a causas da violência. A periferia e as fave-
Pessoas que não têm renda suficiente para las dos grandes centros urbanos aí estão
cobrir os custos mínimos de uma necessidade para confirmar o fato.
básica: a alimentação.
Para Wacquant (extraído do texto de Daniel
No Brasil, 30 milhões de pessoas vivem na Soczec sobre Comunidade, de Bauman), os
linha da pobreza (com renda de menos de guetos se apresentam como confinamento
R$ 80,00/mês), enquanto 23 milhões vivem espacial combinado com a idéia de fecha-
na linha da miséria, ou seja, não ganham mento social. Todavia, ele categoriza dois
o bastante para suprir uma dieta de 2.000 tipos: os voluntários e os verdadeiros. Nos
calorias diárias, que é o suficiente para voluntários, como os condomínios, o sujeito
escolheu estar ali, enquanto que nos ver-
dadeiros guetos, como as favelas, o indi-
víduo não pode sair: “A vida no gueto não
sedimenta a comunidade porque, no pri-
meiro caso, amplia a individualização, e,
no segundo, a partilha do estigma da hu-
milhação – ficar ao lado de outros sofre-
dores – só faz aumentar o ódio e vontade
de não estar ali.”

Voltemos ao nosso ponto de partida: a es- Foto e texto: Sebastião Salgado


tética da miséria. Em toda a história da “Para não serem recrutados pelo exército sudanês
humanidade, o homem se vê movido pela ou por grupos guerrilheiros, meninos tentam che-
gar aos campos de refugiados do Quênia, escon-
necessidade de registrar, de expressar e dendo-se durante o dia e caminhando à noite. Sul
de refletir a sua realidade. Não é diferente do Sudão, 1993.”
em nosso tempo.

Podemos encontrar no cinema e na foto-


grafia dois pontos altos para o que quer
ser dito aqui: Fernando Meirelles com o fil-
me Cidade de Deus, vencedor de diversos
prêmios ao redor do mundo e Sebastião
Salgado que tem, em sua obra, um vasto
registro de imagens de pobreza e miséria.
Os artistas em questão absorvem o que é Cena de Cidade de Deus, o filme
“Brecht prestou um desserviço à humanidade ao
tido como realidade e projetam nos seus cunhar o jargão ‘distanciamento crítico’. A paixão é
suportes o registro de sua experiência na tão responsável pelas transformações quanto a ra-
matéria. Vale lembrar que a priori consi- zão. (...) penso que o lado emocional e envolvente
deramos que esses profissionais não têm do filme, que para alguns parece pejorativo, foi o
que fez a diferença aqui.” (Fernando Meirelles)
qualquer compromisso escuso em relação
ao que é retratado: temos pessoas de
bem que vêem na sua obra um objeto de Fotografia e cinema são linguagens – sis-
registro, de expressão e de reflexão da re- temas de códigos, verbais ou visuais –,
alidade. Podemos ir mais além, com base instrumentos visuais de comunicação. E
nas declarações desses artistas na mídia: toda linguagem nada mais é do que um
eles buscam construir um país melhor, re- suporte que sustenta aquilo que realmen-
velando a realidade e vislumbrando uma te se pretende tornar público: a mensa-
mudança de entendimento e postura de gem. Qual é a mensagem que esses dois
sua audiência. artistas nos trazem?

Não resta dúvida de que são motivações O talento e o domínio da linguagem dos
nobres as dos que levam o assunto da mi- profissionais em questão recorrentemen-
séria para as grandes galerias e salas de te promovem no espectador a exclama-
cinema. É, sim, uma realidade a ser retra- ção “é lindo!” ou alguma variação dessa
tada e discutida. Se o objetivo, porém, é a sensação. Deve ser bonito, belo? Acredito
reflexão e a mudança de comportamento que não. Não há poesia na miséria para
do público, será que isso de fato é alcan- quem a vê de dentro e não deveria haver
çado? para quem está de fora.
É inegável o valor de pessoas que trazem derá se dar quando abordarmos o assunto
à sociedade a discussão dos problemas de dentro para fora, ou seja, sob a ótica
sociais de nossa época, através da arte. do miserável. O ponto de vista do “poeta
Devemos a elas a discussão que se inicia: estrangeiro” deve ser eliminado.
a da necessidade de passarmos para um
outro nível na representação das imagens, A miséria pelo miserável – este tema,
de modo que estas atuem não só no emo- provavelmente, não nos trará bilheterias
cional do público como também em seu milionárias, mas isso seria só mais um in-
racional, em seu universo crítico. Enquan- dicador de que não queremos lidar com a
to isso não for levado em consideração, realidade como ela é. Para a estética, só o
continuaremos no patamar dos ingênuos. que há de realmente belo. Para a miséria,
a câmera, o papel, a caneta, a voz.
Vejo com bastante otimismo a experiên-
cia de Nascidos em Bordéis, documentá-
rio que marca a estréia dos ingleses Zana
Briski e Ross Kauffman, vencedor do Os-
car de melhor doucumentário em 2005.

Cena de Nascidos em Bordéis

No documentário, é registrado o resultado


de três anos de convivência de Zana Briski Bibliografia
com crianças indianas, filhas de prostitu- BAUMAN, Zygmunt. 2003. Comunidade: a
tas. Ela é fotógrafa e ensina às crianças busca por segurança no mundo atual. Rio
noções básicas de fotografia, o que aca- de Janeiro : J. Zahar
ba se tornando uma janela para o mundo
sobre todos os aspectos. O documentário Aurélio Eletrônico
registra a tentativa de Briski de mudar a
sorte daquele grupo de dentro da sua re-
Artigo
alidade: as fotos das crianças são expos-
Reportagem da Veja, 23/1/2002
tas, talentos surgem, algumas ganham o
mundo. A beleza se dá por conta dos re-
gistros das próprias crianças. A miséria é Site
feia, inimiga do belo. www.ibge.gov.br

Se queremos mudar a miséria através da Filmes relacionados


arte, não devemos permitir que haja uma Cidade de Deus
análise estética a seu respeito. Isso só po Nascidos em Bordéis