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Telef (+351291)214970 Fax (+351291)223002 VIEIRA, Alberto (1999), Economia da Madeira-dados

VIEIRA, Alberto (1999),

Economia da Madeira-dados históricos

COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:

VIEIRA, Alberto (1999), Economia da Madeira-dados históricos, Funchal, CEHA-Biblioteca Digital, disponível em: http://www.madeira-edu.pt/Portals/31/CEHA/bdigital/avieira/Economia2.pdf, data da visita: / /

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A afirmação hodierna da realidade insular madeirense, não poderá ser reduzida a uma conquista

deste findar do século pois que é o corolário de todo um processo de labuta com mais de quinhentos anos. Hoje, nós somos os lídimos usufrutuários deste quotidiano e cultura por que tão

afanosamente lutaram os nossos avoengos. Esta forma acabada, em permanente recriação, toma corpo nas múltiplas conjunturas políticas e económicas que marcaram o devir do nosso processo histórico. Ai um conjunto restrito de produtos agrícolas detêm uma função primordial, como catalisadores da animação social e económica, ou definidores de uma diversa realidade societal. Nos primeiros momentos de ocupação do solo, o vinho, o trigo, em primeiro lugar e, depois, o açúcar, surgem ai como elementos aglutinadores dum quotidiano com inevitáveis implicações políticas e urbanísticas. Os primeiros materializam a necessária garantia das condições de subsistência e do ritual cristão, enquanto o ultimo encerra a ambição e voracidade mercantil da nova burguesia atlantico-mediterranica, que fez da Madeira o principal pilar para afirmação na economia atlântica e mundial.

O

processo é irreversível de modo que em consonância com os movimentos económicos sucede-

se

uma catadupa de produtos, com valor utilitário para a sociedade insular, ou com capacidade

adequada para activar as trocas com o mercado externo. Se na primeira fase o domínio pertenceu à economia agrícola, no segundo, que se aproxima da nossa vivência, ele reparte-se em serviços industrias artesanais (vimes e bordado) e de novo produtos agrícolas. O seu enquadramento e afirmação económica não é pacífico, sendo feito de embates permanentes entre essa necessária manutenção de subsistência e da animação comercial externa. Desse afrontamento resultou a afirmação, num ou noutro momento, do produto que adquire maior pujança e numero de defensores nessa dinâmica. É nesta luta permanente de produtos de uma subsistência familiar, local e insular com os impostos pela permanente solicitação externa que se alicerçou a economia da ilha até ao limiar do século XIX. Estes produtos são os pilares mais destacados para a compreensão da realidade socio-económica madeirense, ao longo destes quinhentos anos, com reflexos inevitáveis na actualidade.

A definição dos espaços económicos não resultou apenas dos interesses políticos e económicos

derivados da conjuntura expansionista europeia mas também das condições internas, oferecidas pelo meio. Elas tornam-se por demais evidentes quando estamos perante um conjunto de ilhas dispersas no oceano. A Madeira apresentava-se como uma réplica mediterrânica, enquanto nos dois arquipélagos meridionais eram manifestas as influências da posição geográfica, que estabelecia um clima tropical seco ou equatorial. Daqui resultou a diversidade de formas de valorização económica e social. Para os primeiros europeus que aí se fixaram a ilha oferecia melhores requisitos, pelas semelhanças do clima com o de Portugal. Por fim é necessário ter em conta as condições morfológicas, que estabelecem as especificidades de cada ilha e tornam possível a delimitação do espaço e a sua forma de aproveitamento económico. Aqui o recorte e relevo costeiro foram importantes. A possibilidade de acesso ao exterior através de bons ancoradouros era um factor importante. É a partir daqui que se torna compreensível a situação da Madeira definida pela excessiva importância da vertente sul em detrimento da norte. De um modo geral estávamos perante a plena dominância do litoral como área privilegiada de fixação ainda que, por vezes, o não fosse em termos económicos.

De acordo com as condições geo-climáticas é possível definir a mancha de ocupação humana e agrícola. Isto conduziu a uma variedade de funções económicas, por vezes complementares. Deste modo nos arquipélagos constituídos por maior número de ilhas a articulação dos vectores

da subsistência com os da economia de mercado foi mais harmoniosa e não causou grandes

dificuldades. O processo de povoamento das ilhas, já atrás abordado, definiu-lhes uma vocação

de áreas económicas sucedâneas do mercado e espaço mediterrânicos. Assim o que sucedeu nos

séculos XV e XVI foi a lenta afirmação do novo espaço, tendo como ponto de referência as ilhas.

A tradição mediterranio-atlantica, que define a realidade peninsular, repercute-se,

inevitavelmente na estrutura agrária e por consequência no impacto ecológico que acompanha a expansão atlântica. Dai saíram as sementes, utensílios e homens que lançarão as bases dessa

nova vivência insular e atlântico., mas também se situavam as principais solicitações e

orientações. A par disso o confronto com as novas realidades civilizacionais americanas e indicas contribuiu para um paulatino desencravamento planetário da ecologia e cardápio dos séculos

XVI e XVII, com inevitáveis repercussões na economia e hábitos alimentares do europeu. Da

Europa saíram os cereais (centeio, cevada e trigo), as videiras e as socas de cana, enquanto da América e índia aportaram ao velho continente o milho, a batata, o inhame. o arroz. Nesse contexto as ilhas atlânticas, pela sua posição charneira no relacionamento entre esses mundos, surgem como viveiros da aclimatação desses produtos às novas condições eco-sistémicas que se acolhem. A Madeira deteve uma posição importante, afirmando-se no século XV como o viveiro experimental das culturas que a Europa pretendia implantar no Novo Mundo - os cereais, o pastel, a vinha e a cana de açúcar.

A expansão europeia desde o século XV veio revolucionar o cardápio europeu enriqueceu-se,

aumentando a gama de produtos e condimentos. Todavia esta assimilação não foi fácil, pois a

tradição culinária europeia foi destronada pelo exotismo das novas sensações gustativas que acabaram por afeiçoar o paladar. Mas ate que isso se generalizasse tornava-se necessário

conduzir aos locais mais recônditos o cereal e o vinho. Assim as embarcações que sulcavam o oceano levavam nos seus porões, para alem das manufacturas e bugigangas aliciadoras das populações autóctones, inúmeras pipas de vinho e barris de farinha ou biscoito. Se o cereal poderá encontrar similar, como o milho e a mandioca, o mesmo não acontecia com o vinho que

era desconhecido e incapaz de se adaptar as novas condições mesológicas oferecidas pela

colónias europeias. Desta forma o vinho foi conduzido da Europa ou das ilhas, onde ele se afirma

com essa finalidade aos mais recônditos espaços em que se fixou o europeu. Este era o

inseparável companheiro dos mareantes, expedicionários, bandeirantes e colonizadores. Aos primeiros servia de antídoto ao escorbuto, aos segundos saciava a sede, enquanto aos últimos servia como recordação ou devaneio hilariante da terra-mãe. O vinho é assim um dos principais traços de união das gentes europeias na gesta de expansão além-Atlântico.

No imaginário e devir histórico madeirense paira sempre essa visão tripartida da sua faina

agrícola: o vinho e o cereal que a tradição impõe como necessários ao quotidiano espiritual e alimentar, o açúcar que se afirma como provento excedentário capaz de atrair a atenção dos mercados europeus e de trazer a ilha as manufacturas que necessita. Todavia essa harmónica

trifuncionalidade produtiva pela sua extrema dependência as dinâmicas e directrizes europeias

será sujeita a diversos sobressaltos que contribuirão para uma desmesurada desarticulação do

quotidiano e economia madeirenses. Assim a concorrência do aguçar americano lança o pânico na ilha e obriga a uma necessária afirmação da cultura da vinha, cujo derivado, o vinho, se afirmara como a moeda de troca, substitutiva do açúcar. O mesmo sucedera nas primeiras

décadas oitocentistas em que o vinho perde a sua posição preferencial nas trocas com o exterior. Aqui, como aquém, depara-se com uma conjuntura difícil, dominada pela fome e emigração.

Essa precariedade da economia madeirense não deriva apenas da sua posição dependente em

relação ao velho continente, mas também radica nas diminutas possibilidades de usufruto dos

741 Km2 de superfície. Todavia o lançamento e afirmação de uma sociedade em moldes europeus nesse espaço dependeria das possibilidades de afirmação simultânea desse conjunto de produtos; motores da expansão atlântica e da europeização do seu espaço insular.

Certamente que os povos peninsulares e mediterrânicos, ao comprometerem-se com o processo atlântica, não puseram de parte a tradição agrícola e os incentivos comerciais dos mercados de origem. Por isso na bagagem dos primeiros cabouqueiros insulares foram imprescindíveis as cepas, as socas de cana, alguns grãos do precioso cereal, de mistura com artefactos e ferramentas. A afirmação das áreas atlânticas resultou deste transplante material e humana de que os peninsulares foram os principais obreiros. Este processo foi a primeira experiência de ajustamento das arroteias às directrizes da nova economia de mercado. A aposta preferencial foi para uma agricultura capaz de suprir as faltas do velho continente, quer os cereais, quer o pastel e açúcar, do que o usufruto das novidades propiciadas pelo meio.

Ao nível do sector produtivo deverá ter-se em conta a importância assumida, por um lado, pelas condições geofísicas e, por outro, pela política distributiva das culturas. É da conjugação de ambas que se estabelece a necessária hierarquia. Os solos mais ricos eram reservados para a cultura de maior rentabilidade económica (o trigo, a cana de açúcar, o pastel), enquanto os medianos ficavam para os produtos hortícolas e frutícolas, ficando os mais pobres como pasto e área de apoio aos dois primeiros. A esta hierarquia definida pelas condições do solo e persistência do mercado podemos adicionar para a Madeira outra de acordo com a geografia da ilha e os microclimas que a mesma gera.

No processo de labuta, mais do que uma revolução ecológica, assiste-se a outra humana e técnica. Se as condições eco-sistemicas favoreceram a transplantação das primeiras sementes; primeiro ergueram os socalcos (poios), depois adaptaram as técnicas e as alfaias agrícolas aos condicionalismos do novo espaço cultivado. A testemunhar tudo isso perduram os poios, ladeados de levadas, que bem podem ser considerados entre as principais realizações do homem sobre a terra. A homenagem deverá ser concedida ao cabouqueiro, colono que recebe das principais gentes da ilha o encargo de valorizar economicamente as parcelas que estas receberam como benesse. Esse investimento da sua capacidade de trabalho terá justificação jurídica nas chamadas benfeitorias, que englobavam paredes, casas de habitação, lagares ou lagariças, arvores de fruto, latadas, etc. é, assim, o colono que lança as bases desta revolução tecnico-

agricola e um dos principais obreiros dessa harmoniosa paisagem rural os proprietários preferiam

os bulício ribeirinhos da cidade ou do burgo que tentam erguer, fazendo com que a arquitectura e

viver quotidiano se adaptassem a medida volume dos reditos acumulados com o comércio do açúcar e vinho; estava-lhes reservado o usufruto da vida no espaço urbano, empenhados nas lides administrativas ou entretidos nos jogos de pela e canas.

A persistência de alguns lavradores, a celebridade da sua superior qualidade e a sua solicitação

pela doçaria e casquinha madeirenses fizeram com que a cultura se mantivesse por largos anos atingindo, em momentos de crise dos mercados americanos, alguma pujança. Mas, irremediavelmente condenada a sua cultura o madeirense vê-se forçado a canalizar todas as suas

atenções nas vinhas, fazendo-as assumir o espaço abandonado pelas socas de cana. Desta forma os canaviais fazem-se substituir pelas latadas, enquanto os engenhos dão lugar aos lagares e armazéns.

Essa mudança na estrutura produtiva provocará alterações na dinâmica económica da ilha; o açúcar definia apenas um complexo industrial, o engenho, onde decorria a respectiva safra, o

vinho necessitara de dois espaços distintos. O lagar onde as uvas dão lugar ao saboroso mosto e os armazéns da cidade onde este fermenta e é preparado para atingir o necessário aroma e bouquet. Deste modo o agricultor, colono ou não, detém apenas o controle da viticultura, ficando reservado ao mercador o moroso processo de vinificação. Por mais de dois séculos a vinha e o vinho surgem como os principais aglutinadores das actividades económicas da ilha; dando ao meio rural e urbano desusada animação; o Funchal cresce em monumentalidade e as principais famílias reforçam a sua posição económica.

A conjuntura da primeira metade de oitocentos. demarcada pelos conflitos europeus, guerra de independência das colónias, associada aos factores de origem botânica (oidio-1852, filoxera- 1872) conduziram ao paulatino degenerescimento da pujança económica do vinho. Como corolário, desse inevitável processo, sucedem-se as fomes, nos anos quarenta, e a sangria emigratória nas décadas de 50 e 80, para o continente americano, onde o madeirense vai substituir o escravo nas plantações. Por um período de mais de setenta anos a confusão institucional e económica alarga-se ao domínio social e alimentar. Assim sucedem-se novos produtos de importação do Novo Mundo que ganham uma posição de relevo na culinária madeirense. Destes destacam-se o inhame e a batata. A par disso definem-se políticas de reconversão e ensaios de novos produtos com valor comercial (tabaco, chá, )

Em pleno apogeu da indústria vinhateira temos a paulatina afirmação de um novo sector de serviços. Na segunda metade do século XVIII a ilha assume um outro papel com a revelação da Madeira como estância para o turismo terapêutico, mercê das então consideradas qualidades profiláticas do seu clima na cura da tuberculose, o que cativou a atenção de novos forasteiros. A tísica propiciou-nos, ao longo do século dezanove, o convívio com poetas, escritores, políticos e aristocratas. Não obstante a polémica causada em torno das possibilidades deste sistema de cura a ilha permaneceu por muito tempo como local de acolhimento destes doentes, sendo considerada a primeira e principal estância de cura e convalescença do velho continente.

Foi a presença, cada vez mais assídua, deste doentes que provocou a necessidade de criação de infra-estruturas de apoio: sanatórios, hospedagens e agentes, que serviam de intermediários entre estes forasteiros e os proprietários de tais espaços de acolhimento. Este último é o prelúdio do actual agente de viagens. Então o turismo, tal como hoje o entendemos, dava os seus primeiros passos. E foi como corolário disso que se estabeleceram as primeiras infra-estruturas hoteleiras e que o turismo passou a ser uma actividade organizada e com uma função relevante na economia da ilha. E mais uma vez o inglês é o principal protagonista. No passado foram as condições do meio que fizeram da ilha um dos principais motivos de atracção turística. Hoje o turista é outro e por isso também as exigências são diferentes. Assim aos motivos ambientais aliam-se os culturais, passando os dois a andar de braço dado. No fundo é a simbiose do “grand tour” europeu com o turismo terapêutico insular.

Nos últimos anos a Madeira adquiriu uma posição desusada no “ranking” da comunidade cientifica. A ilha continua a fascinar cientistas e visitantes. O clima, o endemismo, as particularidades do processo histórico, o protagonismo na História do Atlântico fazem dela, ontem como hoje, um pólo chave para o conhecimento científico. Hoje a ilha é tema de debate nos diversos areópagos científicos e cada vez mais se sentem o apelo da comunidade cientifica para o seu conhecimento e divulgação. Em certa medida esta próxima realidade vai ao encontro daquilo que foi a História do arquipélago. Na verdade, o passado histérico da ilha, relevado quase sempre pelos aspectos económicos e sociais, esquece uma componente fundamental da nossa aportação: a inovação e divulgação tecnológica que transformou a rotina das tarefas

económicas e revolucionou o quotidiano dos nossos avoengos. Mais do que isso, o madeirense, além de exímio inventor — na inevitável tarefa de encontrar solução para as questões e dificuldades do dia a dia —, foi também um eficaz divulgador da sua tecnologia. A Madeira foi a primeira terra revelada do novo mundo, escala para a navegação e expansão dos produtos europeus no mundo atlântico. Com o século XVIII a ilha transforma-se em escala obrigatória das expedições científicas que fizeram saciar a curiosidade inata do Homem das Luzes.

Hoje a realidade e os desafios são outros e a todos nós resta dar continuidade a essa aquisição de mais-valia que reverta em nosso favor e não de estranhos. Ao nível científico deparam-se-nos inúmeros desafios que deverão ser tidos em conta. O suporte institucional, através da plena afirmação das instituições que dão corpo a esta nova realidade, é uma opção inadiável. Por isso,

se queremos ganhar todos estes desafios e corresponder ao apelo do protagonismo que o passado

nos acalenta, há que permitir a “rédea solta” destas instituições, dotá-las de meios adequados à sua existência e afirmação. Caso contrário estamos a sacrificar o nosso futuro e a desvalorizar todo o trabalho destes últimos dez anos de aposta do processo autonómico. Consolidar a

autonomia, nesta conjuntura de contratempos, implica um profundo mergulho nas profundezas

da nossa identidade. A aposta no conhecimento, na cultura é a via inevitável se queremos vencer

os desafios do futuro e atribuir à ilha o novo protagonismo no espaço Atlântico, fazendo jus à

tradição histórica de que, afinal, somos todos herdeiros.

TÉCNICAS E FONTES DE ENERGIA. O aproveitamento económico da ilha implicava a disponibilidade de instrumentos e técnicas capazes de fazerem com que da terra brotassem as culturas. Estes são preciosos auxiliares do homem que se aperfeiçoam de acordo com as necessidades, a disponibilidade de materiais e o seu engenho e arte. A agricultura implica um nível elevado de conhecimento tecnológico adequado às diversas tarefas de lavrar e plantar a terra, canalizar a água e transporte das riquezas dela extraídas. Também aqui vamos encontrar uma vinculação directa ao Norte de Portugal, o que não é de espantar tendo em conta que a maioria dos povoadores é originária desta região. As duas formas de enxada usadas na ilha para cavar a terra, o arado radial que se usou em Santana, Ponta do Pargo, S. Jorge, Ponta de Sol e Porto Santo, encontram as mesmas filiações. Tudo isto evidencia que os primeiros portugueses que lançaram as bases da economia agrícola da ilha eram lavradores bem preparados e equipados.

A água tem uma função fundamental no curso da História. Ela é a fonte da vida e da História.

Aproxima povos e civilizações. Faz medrar as culturas verdejantes nos campos e substitui-se ao homem em algumas das suas árduas tarefas. Ela assume um papel fundamental na História material, orientando as formas de vida e desenvolvimento económico das populações que dela se

podem servir. A água foi e continua a ser um elemento vital ao progresso e bem estar do Homem. Mas, o seu uso não foi fácil. Mobilizou povos, monarcas engenheiros e trabalhadores

para grandes obras de engenharia. Em alguns casos, estamos perante as sociedades hidráulicas.

E, segundo alguns estudiosos marxistas, definiu uma forma peculiar de estruturação de algumas

sociedades, que ficaram conhecidas como modo de produção asiático. É de salientar que na Madeira os grandes empreendimentos hidráulicos são da responsabilidade dos particulares, cabendo à coroa apenas a função de criar as condições para este investimento, com a obrigatoriedade de todos os colonos à permissão de passagem das levadas. A intervenção do estado é recente e surge a partir da década de quarenta com a Comissão de Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira. Mesmo assim a Madeira não ficou alheia a esta situação, uma vez que o

seu progresso inicial deveu-se à abundância da água. Hoje, a Ilha da Madeira apresenta-se com duas áreas hidrográficas distintas: as vertentes norte e sul. Mas isto é, todavia, resultado das condições orográficas da ilha mas também da intervenção do Homem no corte da densa floresta que a cobria, aquando do encontro pelos europeus. Nos séculos XV a XVII a água corria nas ribeiras, em abundância na vertente norte. No sul os caudais eram, na época estival, quase todos desviados para as levadas A maior concentração populacional e aposta agrícola assim o definiram. Os cronistas são disso testemunho. O caso

mais evidente encontramos em Gaspar Frutuoso Seguindo o seu testemunho podemos afirmar que a existência ou não de água condicionou o assentamento dos primeiros povoadores em todo

o espaço da ilha. Aliás, a atenção do portugueses: e não viam mais que correntes, ribeiras, fontes

e regatos, que, por entre ele, vinham com grande frescura deferir ao mar”. E é o mesmo quem, depois de um descrição exaustiva da ilha conclui: “toda ela se rega com grande abundância das águas que tem, que, como veias em corpo humano, a estão humedecendo e engrossando e mantendo, com que se faz rica, fresca, formosa e lustrosa.”. A partir daqui podemos afirmar que

o sucesso do povoamento e valorização económica da ilha são resultado do facto de a ilha ser “toda regada com água”, como refere o historiador das ilhas.

As ribeiras exerceram aqui um papel fundamental. Foi por elas que entraram os primeiros europeus que reconheceram a ilha e nelas se assentaram os primeiros núcleos de povoamento. É, na verdade, no leito e margens das ribeiras que se joga a nossa História. A sua bravura, tão pouco atemorizou os colonos, como sucedeu com a sua fixação no local da Ribeira Brava, que foi buscar o nome a isso mesmo”. Note-se que isto causou inúmeros transtornos aos madeirenses, que viveram, a partir do século XVII, sob a ameaça das aluviões. É durante este século que se insiste na necessidade de muralhas de protecção no Funchal” e Ribeira Brava cidade dá-se conta do dilúvio de 22 de Janeiro de 1605, que destruiu 130 casas e as três pontes. Aqui convém salientar por um lado a ilha da Madeira e, por outro o Porto Santo, isto porque na primeira as crises de seca são reduzidas e de menor influências, enquanto na segunda elas perduram ao longo do século XVIII e XIX, provocando as mais graves crises de fome e de abandono da ilha. A primeira referência a uma seca prolongada na ilha da Madeira, no período invernal data de 1798, pois que em carta de 31 de Janeiro o Senado da Câmara da cidade em carta ao bispo implora que se façam preces públicas"Os tempos que tem e concorrem com geral falta de chuva, nos promete notável esterilidade, nos frutos no presente ano, por impedirem aos lavradores a semearem seus trigos, e a outros haver nascido as plantas do que a terra tem entregue para a multiplicaçäo, motivo porque ansiosos desejam deprecar a Deus Nosso Senhor para do mesmo Deus alcançarem o remédio a tanto mal ameaçado.

E nós por bem de todos somos conformes a pedir a Vossa Exa. se digne determinar três dias de

preces nessa catedral do Santíssimo Sacramento, concorrendo a elas as colegiadas e mais clero, para

que o Altíssimo Deus nos conceda o remédio necessário como temos recebido, quando nestas deprecações o imploramos. Determinando-nos Vossas Senhorias com a brevidade possível, o dia, que dão princípio às ditas rogativas para nós concorrermos com juntamento todo o povo desta ilha".

Em 1850 novamente a seca no período invernal e o mesmo sentimento de impotência, de submissão ao Divino, levou o governador civil José Silvestre Ribeiro ao implorar em carta de 6 de Fevereiro ao bispado preces públicas: "Desgraçadamente tem continuado a falta de chuva, e é bem claro que, ou não poderão lançar-se as sementes à terra ou as que tiverem sido e forem sendo lançadas não

poderão frutificar, nem tão pouco os campos poderão produzir pastos para os gados. Nesta apurada situação, em que as providências humanas se apresentam ineficazes, a alguém tem ocorrido apelar para a misericórdia divina e seguir os exemplos de outros tempos, nos quais em idênticas circunstâncias costumavam os povos correr aos templos, e dirigir a quem tudo manda fervorosas preces para que Deus se compadecesses da desgraça dos homens". Em carta do mesmo, dirigida aos administradores do concelho da Ponta do Sol se dá conta das razões deste pedido ao bispo: "Quando as calamidades públicas excedem as faculdades humanas, só resta invocar a misericórdia divina, e neste caso nos encontramos hoje, tendo que deplorar o temeroso flagelo da seca, que se continuar pode acarretar-nos horrores de fome, como V. S. tão judiciosamente antevê - uma filosofia desdenhosa e altiva pergunta nestas circunstâncias se a Natureza não obedece, por ventura, a leis gerais e imprescritíveis, - e argumenta com esse facto para rejeitar a submissão ao omnipotente. Sim a Natureza obedece a leis gerais: mas quem prescreveu essas leis? Foi Deus. Humilhemo-nos, pois ante os seus decretos e não nos envergonhemos de lhe pedir socorro nas nossas atribulações. E ainda quando esta piedosa crença deixasse de assentar em sólidas convicções do espírito, conviria, em todo o caso não arrancar aos infelizes a consolação única, que nos dolorosos transes da vida pode ter o desgraçado".

As secas surgindo em momento do ano, em que os factores meteorológicos têm pouca influência no desenvolvimento da videira e dos novos rebentos, pouco teria sido sua acção face uma crise, ela apenas faria sentir os seus efeitos sobre as culturas feitas nessa época, ou em vias de germinação. No entanto cá ficam atestando um momento de crise agrícola. A ilha do Porto Santo, mais propícia às estiagens prolongadas, devido ao seu posicionamento geográfico, à falta de arvoredos, pautou-se, desde muito cedo, como uma ilha seca e pobre, sujeita a prolongadas estiagens. Estas são uma constante ao longo do período que medeia o nosso estudo. Assim em 1770, temos a primeira seca, seguindo-se outras em 1802, 1806, 1815, 1815, 1829, 1847, 1850, 1854, 1855, 1883. Como podemos ver são crises intervaladas num máximo de 32 anos e no mínimo de 1 a 3 anos, de que resulta em média uma crise por decénio. Se tivermos em conta que a cada crise de seca se segue outra mais prolongada de fome e abandono dos campos com a fuga para a Madeira, teremos então uma visão do que foram estas crises.

Em 15 de Junho de 1770 o governador João António Correia de Sá em ofício dirigido a Martinho de Mello e Castro dá conta da deplorável situação dos povos da ilha do Porto Santo em resultado das

prolongadas estiagens, da invasão das areias, da esterilidade do solo, do excesso populacional em

acentuando a necessidade de lhes acudir com medidas eficazes. Em

27 de Outubro a Câmara da ilha em carta ao mesmo governador faz ver a situação da ilha clamando auxílio. Prontamente o governador respondeu, seguindo as orientações régias, com um regulamento preciso de medidas que deu ao capitão Pedro Telles de Menezes, para aí executar, solicitando ao povo a obediência ao seu representante. A estas medidas se juntaram outras por provisão régia de 13

de Outubro. Mesmo assim ainda em 1783 a situação pouco se havia alterado, o que obrigava, ao folgazão governador, D. Diogo Pereira Forjaz Coutinho, mandar em diligência o sargento-mor Manuel da Câmara Bettencourt Noronha e o seu ajudante Diogo Luís Drumond. Em 1829 grave período de estiagem, provocado por falta de chuvas durante 4 anos consecutivos, provocou nova crise de fome a que acudiu o governador José Maria Monteiro. Esta estiagem provocou uma grave quebra na produção do vinho, pois que das 1000 pipas que a ilha produzia entre 1815/6, ficava-se

relação aos recursos da região

por 600 em 1829. Em conclusão podemos afirmar que a seca sendo muito prolongada torna-se lesiva à cultura da vinha, provocando um decréscimo na sua produção, devido ao definhamento das parreiras. Mas sendo extemporâneas e em determinadas épocas do ano propícias à manutenção da uva, tornam-se úteis e benéficas à boa qualidade da colheita. Pelo menos assim se exprimia em 1851 nas "Notícias Agrícolas" do "Agricultor Madeirense", quando se aludia que o referido ano era seco nas freguesias do norte:- "Sítios há onde nunca se viu uva cerejada como este ano, ou seja madura, a novidade não é das grandes, mas também não das escassas, e os vinhos devem ser excelentes para a sua qualidade".

Em contraste com as estiagens prolongadas do Porto Santo, temos na ilha da Madeira a afluência espaçada das aluviões e tempestades que ao longo dos séculos XVIII e XIX assolaram esta: 18 de Novembro de 1724, 18 de Novembro de 1765, 9 de Outubro de 1803, 26 de Outubro de 1815, 24 de Outubro de 1842, 19/20 de Novembro de 1848, 5/6 de Janeiro de 1856. De todas estas aluviões os mais catastróficos e lesivos para a viticultura foram sem dúvida o de 1803, que atingiu toda a ilha e de modo especial o Funchal, Machico, Santa Cruz, Campanário, Ribeira Brava e Calheta; e o de 1848 que inundou o concelho de Santana, tendo sido arrastadas pelas águas as benfeitorias produtivas mais importantes. No entanto temos a considerar a acção dos aluviões que alastraram a cidade do Funchal em 1765, 1803, 1815, 1842, provocando graves danos nas lojas de vinhos, deteriorando o vinho armazenado. Mais temos a destruição das estufas, muitas delas situadas junto das ribeiras da cidade. Se face às secas era lícito implorar a clemência e intercessão divina por meio de preces públicas, com as chuvadas nada havia a fazer para conter a queda das bátegas de chuva, mais do que fazer preces, o madeirense optou neste domínio pela tomada de medidas que minorassem os seus efeitos, através de projectos de rearborização, desentulhamento das ribeiras.

ENFRENTAR A NATUREZA E A FÚRIA DAS RIBEIRAS. A orografia da ilha condiciona de modo evidente a vida dos vicentinos, sendo agravada esta condição com as condições climáticas. A ilha foi assolada ao longo da história por inúmeras aluviões. Ao norte mercê das encostas íngremes, da grande quantidade de água, a época invernosa foi sempre um quebra- cabeças para os seus moradores. A realidade repete-se ao longo do tempo e quase todos os anos é necessário, após o Inverno, reparar os caminhos, refazer as pontes e levantar as quebradas. Os séculos XIX e XX são na verdade marcados pelas aluviões. Para o século dezoito não se registam notícias destas calamidades para além da de 1724 e 1765. É de salientar a primeira metade do século dezanove com três aluviões de efeitos catastróficos em toda a ilha: 1803, 1815 e 1842. O primeiro assume uma posição cimeira neste conjunto de calamidades que fustigaram a ilha, tendo em conta o número de mortos, as perdas de bens materiais e a destruição de casas. Os efeitos nas lojas comerciais foram iguais, sendo de destacar a perda de seis mil pipas de vinho. Já na presente centúria são notórios os efeitos das aluviões de que se destacam em 1939 na Madalena do Mar, em 1956 em Santa Cruz e Machico, em 1970 na Ribeira Brava e Serra de Água e em 1981 no Funchal. Mas o de mais recente e triste memória ocorreu em 1993 no Funchal.

As aluviões são o símbolo da tragédia que sempre espreitou o madeirense desde o primeiro dia em que decidiu escolher as terras de aluvião da foz das diversas ribeiras, que riscam os vales da ilha, para assentar a sua morada. O povoamento da ilha, devido à orografia do terreno faz-se através das ribeiras que abrem as portas ao assentamento e oferecem as melhores terras de cultura. Deste modo podemos afirmar que o madeirense sempre viveu com o perigo à espreita. Nas planícies que marginalizam ou fazem a foz da ribeira está sempre presente nas épocas de invernia a força da água, enquanto fora do seu alcance expõe-se aos precipícios. As principais freguesias terem à cabeceira uma ou mais ribeiras. O Funchal, principal assentamento da ilha, é cortado por três ribeiras: João Gomes, Santa Luzia e S. João. Gaspar Frutuoso refere que: “ deleitoso vale ao mar três grandes e frescas ribeiras, ainda que não tão soberbas, na aparência, como a de Machico; eram, porém, muito formosas por todas virem acabar ao mar, saídas deste vale.”

À fúria da água das ribeiras deverá juntar-se o deslizamento de terras, situação constante num espaço geográfico como a ilha da Madeira marcado por um acentuado declive das encostas. Várias das fajãs do litoral são prova disso. O testemunho mais antigo é do século XV e anota a morte trágica de Henrique Alemão, sesmeiro do Paul do Mar considerado o imperador da Polónia, numa derrocada no Cabo Girão. Nova derrocada ocorreu no mesmo sítio em 1930. Mas

a mais mortífera de todas ocorreu em 1929 na Vargem em S. Vicente. A 6 de Março pelas 10 h

da manhã uma quebrada vitimou 29 famílias e causou danos, avaliados em mais de dois mil contos. Os dados assim o provam: 40 mortos, perda de 100 palheiros e igual número de cabeças de gado. O tema correu por toda a ilha e foi manchete, por algum tempo nos jornais locais, obrigando o Governador Civil a deslocar-se ao concelho a 8 de Março. Não parou por aqui a fúria do tempo pois que em 28 de Outubro de 1934 e Janeiro de 1952 novas trombas de água se abateram sobre a ilha provocando elevados prejuízos materiais e a destruição de inúmeras estradas e pontes, nomeadamente nos concelhos do Norte da Ilha, que só foi possível recuperar com apoio de subsídios da Junta Geral e do Governo Central. Termina aqui o medo do vicentino face às ribeiras. Desde então não mais estas transbordaram de forma violenta molestando os residentes, destruindo caminhos e pontes. O clima parece ter mudado com também a força do

homem para enfrentar a natureza.

Ao homem estava atribuída a dura tarefa proceder ao encanamento das ribeiras e de desviar o curso das suas águas. A intervenção no sentido de amansar e controlar o curso das ribeiras acontece desde o século XV mas foi no século XIX com as diversas aluviões que se lançaram as grandes obras de engenharia. Assim em 1804 chegou à ilha o Engenheiro Reynaldo Oudinot com

o objectivo de proceder ao levantamento das ribeiras da cidade e de apresentar um projecto para

o seu encanamento, sendo seguido por Paulo Dias de Almeida. Todavia a solução com segurança estava na mudança da cidade para o alto no Parque de Santa Catarina, mas a solução de um cidade nova não ganhou o necessário consenso, não obstante a repetição da calamidade.

As levadas estabeleciam a ligação entre os cursos das ribeiras e os canaviais, engenhos, moinhos

e serras de água. O sistema permitiu um maior aproveitamento dos socalcos e o alívio do homem

em algumas tarefas, como sejam, o moer do grão ou da cana e o serrar das madeiras. Moinhos, engenhos e serras convivem pacificamente usufruindo da água que corre na mesma levada. A estes vieram juntar-se no século XX as centrais hidroeléctricas. A orografia da ilha ao mesmo tempo que dificultava a condução da água favorecia este aproveitamento, pela força motriz

atribuída pelos declives acentuados.

Este foi um trabalho hercúleo, referido muitas vezes pelos visitantes e recordado com apreço

pelos especialistas, como o Eng. Amaro da Costa:

mas já a denotar arrojo para mais largos voos indo sempre mais longe e mais acima até aos recônditos das serranias; furou as montanhas; riscou as muralhas rochosas talhadas a pique em centenas de metros de altura; debruçou-se nos abismos; venceu as cristas; saltou nos despenhadeiros; dobrou-se nos refegos das ravinas; amansou-se nas chãs; e, por fim, exausta, entregou-se a todos, através de uma rede vascular tão densa, que torna maravilhosa a chegada ao termo. Mas a mingua no fim da caminhada é por vezes tamanha, que dolorosamente contrasta com tanta luta

a levada, de limitadas proporções no início;

0 USO E ABUSO DA ÁGUA. A ilha é abundante em água e lenhas pelo que a cana de açúcar tem condições para ser promissora. Em face disto as doações de terra não fazem expressa referencia à repartição da água. Esta, no primeiro momento dá e sobra, os problemas com a sua falta e a necessidade de regulamentar o seu uso e posse, surgem depois. Na Madeira a água corria nas ribeiras, em abundância na vertente norte. No sul os caudais eram, na época estival, quase todos desviados para as levadas. A maior concentração populacional e aposta agrícola assim o definiram, sendo os cronistas testemunho. O caso mais evidente encontramos em Gaspar Frutuoso. Seguindo a sua informação podemos afirmar que a existência ou não de água condicionou o assentamento dos primeiros povoadores em todo o espaço da ilha. As ribeiras exerceram assim um papel fundamental. Foi por elas que entraram os primeiros europeus que reconheceram a ilha e nelas se assentaram os primeiros núcleos de povoamento. É, na verdade, no seu leito e margens que se joga a nossa História. A sua bravura, tão pouco atemorizou os colonos, como sucedeu com a sua fixação no local da Ribeira Brava, que foi buscar o nome a isso mesmo. Facto significativo é o de também as principais freguesias terem à cabeceira uma ou mais ribeiras. O Funchal, principal assentamento da ilha, é cortado por três ribeiras.

Ao homem estava atribuída a dura tarefa de desviar o curso das ribeiras fazendo com que movessem engenhos, moinhos e irrigassem os canaviais e demais culturas. Para isso, traçaram kilómetros de canais para a sua condução, que ficaram conhecidos, na ilha, como levadas. O sistema permitiu um maior aproveitamento dos socalcos e o alívio do homem em algumas tarefas, como sejam, o moer do grão e da cana e o serrar das madeiras. Moinhos, engenhos e serras convivem pacificamente usufruindo da água que corre na mesma levada. A orografia da ilha ao mesmo tempo que dificultava a condução da água favorecia este aproveitamento, pela força motriz atribuída pelos declives acentuados.

As águas e nascentes são consideradas, nos primeiros documentos emanados para a ilha, como domínio público. Assim, o entendia D. João I no capítulo de um regimento dado a João

Gonçalves Zarco onde considerava nesta situação as «fontes, tornos e olhos de agua

costas do mar, rios e ribeiras». Todavia, a água foi um problema ao longo da História da ilha,

praias e

pois desde o começo surgiram açambarcadores a reivindicar para si a posse exclusiva deste bem comum.

Em 1461 coloca-se a primeira dificuldade nesta repartição das águas, no que o Duque responde que, o almoxarife mais dois homens ajuramentados, repartam “as aguas a cada hum para seus açucares e lugares seguindo cada hum merecer”. Mesmo assim, continuaram as demandas sobre

as águas pelo que em 1466” o duque decidiu mandar à ilha, Dinis Anes de Sã, seu ouvidor, com

intuito de resolver esta e outras questões. Aqui o monarca recomendava: “acerca destas aguas tereis grande cuidado de as repartirdes de guisa que se aproveite toda a terra que se poder

aproveitar guardando nisso justiça e o comum proveito».

Nas áreas de maior concentração populacional e aproveitamento do solo, como foi o caso do Funchal, a água das ribeiras não era suficiente para suprir as solicitações dos vizinhos. Deste modo, em 1485 o Duque D. Manuel recomendava que as águas da Ribeira de Santa Luzia fossem usadas apenas nos engenhos, moinhos e benfeitorias que dela se serviam não podendo ser desviadas para outro destino. Idêntica recomendação repete-se em 1496”. Note-se que esta ribeira servia vários engenhos e os moinhos” do capitão do Funchal.

É, todavia, com D. João II que ficaram definidos os direitos sobre a água que perduraram até ao

século XIX”. Por cartas de 7 e 8 de Maio” ficou estabelecido, de uma vez por todas, “que particular algum tenha direito domínio nem acção nas fontes, olhos e tornos de agua que nas suas terras nascerem e jamais em tempo algum posam ter nem adquirir posto que sejam senhores das terras com as quais as fontes não passarão e as não poderão nem ainda por suas terras mudar nem divertir e correrem de modo, guisa e maneira que tomarão seu caminho e corrente até darem e se meterem nos rios e ribeiras nas quais juntas as ditas águas que das fontes correrem se tirarão as levadas». As águas ficavam património comum, sendo distribuídas pelo capitão e oficiais da

câmara, entre todos os proprietários, pois que “sem as águas as terras se não podiam aproveitar”.

A partir daqui ficou estabelecido a água como propriedade pública, sendo o seu usufruto para

aqueles que possuíam terras e delas necessitavam. Todavia, desde finais do século quinze, a água

passou a ser negociada, a exemplo do que sucedia com a terra”. É com o regimento de D.

Sebastião, em 1562 que se processa uma alteração ao sistema primitivo. As águas, numa forma

de reconhecimento e disciplinar a prática corrente, podem ser vendidas ou arrendadas, o que veio

a permitir um fosso entre a propriedade da terra e da água. Contra isto militaram as medidas pombalinas, levadas a cabo pelo governador José António de Sá Pereira”. O documento de 1493 determina de forma evidente a importância assumida pelas levadas no sistema de distribuição de águas. Destas há a considerar as públicas e as privadas. As últimas eram de iniciativa particular, precisando de uma autorização. Neste caso temos em 1495 a licença a Pêro Fernando para tirar água da Ribeira de Água d’Alto (Ponta Sol).

Uma das tarefas que ocupou os primeiros colonos foi a tiragem das levadas. Por isso elas são os imemoriais testemunhos do labor do homem insular que ficam na ilha, a exemplo dos imponentes aquedutos peninsulares”. Em 1496 parece que, ao menos no Funchal, estava delineado o sistema de regadio pelo que na Ribeira de Santa Luzia não se permitia mais a abertura de novas levadas ou a tiragem da água, acima das já existentes. Esta situação resulta da pretensão de alguns heréus de um destas quererem tirá-la mais acima das já existentes no sentido de aproveitar terras acabadas de arrotear. Mas, a coroa insiste na proibição em nova levada em cota superior”, punindo os infractores com pesadas penas. Na verdade, segundo nos conta Gaspar Frutuoso, a Ribeira de Santa Luzia servia várias levadas, sendo uma delas para os cinco moinhos do capitão e um engenho. Mas, o Funchal ficou servido, ainda, por outras como a dos Piornais, do Pico do Cardo e Castelejo. É de salientar que esta água das levadas tinha um elevado aproveitamento, pois, para além do seu uso industrial e do regadio, era canalizada para o consumo das casas e limpeza das ruas da cidade. Os poços existiam um pouco por toda a cidade”, mas não eram suficientes para as suas necessidades. Destes, destaca-se aquele que servia toda a população em Santa Maria, situado no hoje Largo do Poço, construído por Afonso

Fernandes.

Em 1566, após o assalto dos franceses à cidade, as ruas ficaram imundas pelo que “se soltaram depois as levadas, que regam os açúcares, e lavaram toda aquela sujidade”. De acordo com as posturas sabe-se que o município procedia à limpeza das ruas da cidade entre as tardes de sábado e de domingo, ficando assim proibido o uso das águas das ribeiras da cidade”.

Os conventos, como os dos jesuítas, de Santa Clara e S. Francisco eram servidos por água destas levadas. As freiras de Santa Clara tinham um aqueduto próprio que em 1663 foi danificado o que resultou grande prejuízo “por não terem água alguma de que pudessem beber e cozinhar e se servirem para o fabrico de seus doces”. Fora do Funchal, Gaspar Frutuoso, refere a levada mandada construir por Rafael Catanho que servia Machico e Caniçal, em que gastou cem mil cruzados. Também na Ribeira dos Socorridos temos outras levadas de iniciativa particular: a do engenho de Luís de Noronha que lhe custou 20.000 cruzados; a de António Correia para as terras

da Torrinha. Outro problema, não menos importante, foi o da partição da água. Desde o início

que a coroa recomendara todo o cuidado nisso, ficando com tal encargo o almoxarife, auxiliado por dois homens escolhidos”. Sabemos que estas eram distribuídas por toda a semana, excepto o domingo que ficava comum a todos, pois tal como refere a coroa em 1491 era “contra comçiencia Na Ponta de Sol, a vereação convocava todos os anos os heréus para a limpeza das

duas levadas existentes e eleição dos levadeiros. Estes, depois de eleitos, deveriam jurar perante

os vereadores que procederiam bem à distribuição da água e limpeza das levadas.

A manutenção das levadas foi outra preocupação a que o capitão deveria tomar em conta,

conforme ordem de D. Catarina de 1562. Mais se recomendava que aqueles que não tivessem

necessidade das águas que dispunham não as podiam arrendar a ninguém, não ser para se regar

os canaviais. Apenas, os que haviam tirado levadas próprias podiam dar ou vender as águas.

Neste momento a coroa apoiou a reparação das levadas da Ribeira dos Socorridos, dos Piornais e Castelejo com o intuito de incrementar de novo a cultura dos canaviais, que tinham preferência nesta nova redistribuição das águas.

A tradição de traçar levadas fez com que os madeirenses se tivessem transformado nos seus

exímios construtores, levando a tecnologia para todo o lado onde se fixaram. Primeiro, foi as

Canárias e, depois, na América. Esta perícia e engenho dos madeirenses está evidenciada na reclamação de Afonso de Albuquerque para que o rei lhe mandasse madeirenses «que cortavam

as

serras pera fazerem levadas, com que se regam as canas de açúcar”, para desviar o curso do

rio

Nilo”.

O plano de levadas da ilha não ficou concluído no século XVII foi apenas adiado pela afirmação

da vinha, uma cultura de sequeiro, e, por isso mesmo, quando a cana retornou à ilha, no século

XIX, de novo se pôs a questão das levadas para irrigar os canaviais e mover os engenhos. A centúria oitocentista foi marcada por uma forte aposta no delineamento de levadas para o regadio

de novas áreas. É de salientar a levada do Rabaçal cuja concretização foi morosa. Em 1823 era

evidente a necessidade desta obra, pois era considerada uma mais valia para a ilha pela

possibilidade que dava de regar 1440 alqueires de terra. Todavia as obras iniciaram-se em 1834 e

só ficou concluída em 1890.

A água adquire de novo uma dimensão económica importante, levando as autoridades a nova

intervenção no sentido da sua regulamentação e do traçar de novas levadas para alargar a área de regadio e, por consequência, dos canaviais. É de salientar que o regime jurídico das águas, estabelecido em 1493 por D. João II, perdurou até 1867, altura em que foi aprovado um novo

Código Civil. A partir de então água e terra são duas realidades distintas, vindo a agravar a situação, por ser favorável à especulação, situação que foi atacada por leis de 1914 e 1931. Seis anos após o governo avançou com uma política específica da água que chegou à Madeira em 1939. A criação da Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira (1943) foi o ponto de partida para esta mudança na política da água e das áreas de regadio na ilha.

Dos objectivos da comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidroeléctricos da Madeira, donde se destacou a iniciativa do Eng. Amaro da Costa, releva-se a intenção de estabelecer um amplo sistema de regadio, de construções de centrais hidroeléctricas. As obras iniciaram-se durante a guerra, e por isso ocuparam muitos desempregados, mas só se concluíram após o conflito, nos inícios da década de cinquenta: em 1929 foi a abertura do sistema de regadio de Machico, Caniçal, em 1952 a levada do Norte e a Central Salazar e 1955 na Calheta.

As levadas são ainda hoje uma constante na paisagem madeirense, transformando-se em locais aprazíveis para os passeios a pé. Note-se que elas, desde muito cedo, despertaram a atenção dos visitantes, que não se cansam em louvar o trabalho hercúleo do madeirense na sua construção.

A ÁGUA E AS INDUSTRIAS. A água, mais do que a sua indispensável utilização no regadio, tinha na ilha uma função industrial relevante. O declive das encostas, sobranceiras às ribeiras, aliado à habilidade do homem na sua canalização pelas levadas, conduziu à grande aposta na sua força motriz: moinhos ou azenhas, engenhos e serras. O progresso das indústrias açucareira e madeiras deve-lhe muito. Note-se que no início da ocupação da ilha estes eram propriedade do senhorio da ilha que depois cedeu parte dos privilégios aos capitães nas suas capitanias. Desta forma o controle dos meios de produção era apertado e os proventos da sua exploração uma das mais destacadas fontes de rendimento. O incremento da cultura da cana de açúcar obrigou a uma mudança nesta situação, cedendo o senhorio o seu direito de propriedade em favor do progresso da cultura e em contrapartida de um direito. Por arroba de açúcar laborado. Já no caso dos moinhos o privilégio mantêm-se nas mãos dos capitães e seus descendentes até à Revolução Liberal, pois uma lei de 1821 acabou com os direitos banais.

AS SERRAS DE ÁGUA. A par dos engenhos temos as serras de água, que não são criação madeirense, pois a tecnologia foi importada do reino”. Estas surgem, por vezes ligadas aos engenhos de açúcar. É o caso de Diogo de Teive em 1454 com ambos engenhos na Ribeira de Santa Luzia, então conhecida como ribeira da serra de água e em 1492 de Bartolomeu de Paiva na Ribeira de S. Bartolomeu. Elas tiveram um grande incremento no início da ocupação da ilha, fruto da exploração das madeiras, para exportação ao reino, uso nos engenhos e construção de habitações. Esta foi, aliás, a primeira riqueza com que os primeiros colonos se depararam. Deste modo, nas cartas de doação das capitanias esta é considerada uma fonte de receita para o capitão, que recebe duas tábuas por semana ou dois marcos de prata ao ano, e senhorio, com a dízima disso. As serras de água existiram em toda a ilha, em especial no recinto da capitania de Machico, que detinha uma importante mancha florestal. Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, refere aí cinco em laboração, de que descreve a do Faial: Está nesta freguesia uma serra de água, que foi um grande e proveitoso engenho, em que dois ou três homens chegam por engenho um pau de vinte palmos de comprido e dois e três de largo à serra, e, por arte, um só homem, que é o serrador, com um só pé (como faz o oleiro, quando faz a loiça) leva o pau avante e a serra

sempre vai cortando e, como chega ao cabo com o fio, com o mesmo pé dá para trás, fazendo tornar o pau todo, e torna a serra a tomar outro fio; de maneira que quem vir esta obra julgará por muito grande e necessária invenção a serra de água naquela ilha, onde não era possível serrarem-se tão grandes paus, como nela há, com serra de braços, nem tanta soma de tabuado, como se faz para caixas de açúcar, que se fazem muitas, e para outras do mais serviço, que vem ser cada ano muito grande soma.”

Foi, na realidade, no Norte da ilha que as mesmas persistiram nestes cinco séculos. Ainda hoje, em S. Jorge, são visíveis alguns vestígios desta indústria, onde ainda funciona uma. Para além disso a sua memória perpetua-se na designação atribuída a uma freguesia e a algumas localidades na Calheta, Seixal e S. Vicente.

AS AZENHAS e ATAFONAS. A importância dos cereais na alimentação na dieta alimentar dos madeirenses desde a ocupação da ilha conduziu à valorização dos meios de transformação destes em farinha. No arquipélago assinalam-se quatro processos distintos: os moinhos de mão, atafonas, azenhas e moinhos de vento. Aqui daremos o merecido destaque às azenhas. Até 1821

os moinhos continuam a ser um privilégio exclusivo dos capitães do donatário. Resquício disso é

o largo dos Moinhos no Funchal onde o capitão detinha um conjunto de azenhas que se serviam da água da ribeira de Santa Luzia. O último moinho foi destruído em 1910 e hoje só resta a memória na toponímia dos arruamentos do local. Na verdade de acordo com as cartas de doação os moinhos ficavam em poder dos capitães que cobravam sobre todos os que aí moessem os cereais a maquia, isto é um alqueire em doze. Desde o início do povoamento que estão documentadas as insistentes queixas dos moradores pelo mau funcionamento destas infra- estruturas. Em 1461 era evidente a falta e má qualidade do serviço pelo que o senhorio, o Infante D. Fernando, determinou o melhor cuidado neste serviço. Esta situação deverá ter perdurado até 1821, altura em que se abriu à iniciativa particular a construção de novos moinhos deste modo em 1863 temos em toda a ilha 365 moinhos, sendo 79 no Funchal.

A par das azenhas é de notar a presença das atafonas e dos moinhos de vento, principalmente na

ilha do Porto Santo. O facto de esta ilha não dispor de cursos de água conduziu. Mas estas também existiram na Madeira referindo Gaspar Frutuoso que o capitão tinha uma dentro da Fortaleza de S. Lourenço. É de salientar na primeira metade do século XVI a autorização dada pela coroa para que dois porto-santenses pudessem concretizar as suas inovações tecnológicas na construção de atafonas no Porto Santo: João Henrique(1501) e Afonso Garro(1545). Este apresentava um projecto de um complexo de moagem servido de quatro moinhos que tanto podiam ser movidos por animais ou água. Estas perduraram até ao nosso século sendo ainda visível nos anos cinquenta duas na Serra de Fora e no Campo de Cima. Mas foi dos moinhos de vento que ficou o registo até aos nossos dias. Em 1791 surge o projecto de uma unidade municipal que só foi concretizada seis anos depois e que teve dificuldades em ganhar a confiança dos habitantes da ilha. Em 1827 eram bem visíveis do mar os dois únicos moinhos de vento e quase sem anos depois, em 1927, temos 29 moinhos activos em toda a ilha, cifrando-se na

década de cinquenta em 23 com as velhas defraldadas.

No século dezanove surgiram algumas unidades industriais motorizadas e depois o advento e a expansão da energia eléctrica a partir dos anos quarenta conduziu à electrificação de muitas unidades. Aliás em princípios do século é evidente uma tendência para a centralização da industria de moagem nas unidades que souberam inovar. É o caso da Companhia Insular de Moinhos no Funchal, alvo da fúria dos populares em 1931 face ao decreto que regulava o comércio e transformação dos cereais. Esta começou por ser conhecida com a Fábrica de Moagem dos Lavradores, sendo propriedade da família Blandy. É de salientar ainda a firma da viúva de Romano Gomes & Filhos Lda dedicada à moagem do milho conjuntamente com a de Marques Teixeira & Co Lda na Ponta de Sol.

OS ENGENHOS. As técnicas de cultivo e transformação da cana atravessaram o Atlântico. Na Madeira as condições geo-hidrográficas foram propícias à generalização dos engenhos de água, de que os madeirenses foram exímios criadores. 0 primeiro foi patenteado em 1452 por Diogo de Teive, o que levou alguns a apontarem este como o primeiro engenho de açúcar movido a água 12. Aliás, na ilha estavam criadas as condições para a afirmação da cultura: inúmeros cursos de água e de uma vasta área de floresta, disponibilizando lenha para as fornalhas e madeira de pau branco para a construção dos eixos do engenho. Não existem dados exactos sobre os engenhos industriais movidos pela força motriz da água. A primeira informação possível sobre estes engenhos temo-la no estimo de 149411 em que são mencionados dezasseis. Destes, apenas em onze se conhece o proprietário: Gonçalo Anes de Avelossa, João Afonso dos Bois, Fernão Lopes da Lombada, Filipa Gil, Fernão Domingues do Arco, Álvaro Eanes do Arco, Álvaro de Figueira, Comes Pacheco, Pedro Álvares, Álvaro Eanes do Arco, Fernão Comes. Mais tarde, em finais do século XVI, surge nova relação dos engenhos, apresentada por Gaspar Frutuoso 14. No total, são 34 engenhos em toda a ilha, numa extensa área da vertente sul, que vai desde o Porto da Cruz à Calheta.

A partir do século XVII é reduzido o número de engenhos em laboração de modo que na década

de quarenta houve necessidade de levar a cabo um plano de reconstrução com alguns incentivos

financeiros por parte da coroa. Mas cedo se esvaneceu esta esperança de recuperação da cultura, ficando estes de novo votados ao abandono. No século XVIII, só está referenciado um destes engenhos. Na segunda metade do século XIX, com a nova aposta na cultura da cana, os engenhos de água renascem em concorrência com os movidos a vapor. Em 1907, de acordo com

o relatório do engenheiro Vitorino José dos Santos”, existiam na ilha 47 fábricas, sendo 26 a

água, 3 mistas e 18 a vapor. É de salientar que o Funchal surge apenas com engenhos movidos a

vapor, sendo os de água, maioritariamente, da Ponta de Sol, S. Vicente e Santana.

Os cronistas, excepção feita ao Porto Santo, não se cansam de enunciar duas riquezas fundamentais para fazer medrar os canaviais e a industria subsequente. A ilha é abundante em água e lenhas pelo que a cana de açúcar tem condições para ser promissora. Em face disto as doações de terra não fazem expressa referencia à repartição da água. Esta, no primeiro momento dá e sobra os problemas com a sua falta, e a necessidade de regulamentar o seu uso e posse, surgem num segundo momento. Tendo em conta a importância que a água assume para a cultura a safra do açúcar é necessário não esquecer a forma da sua distribuição e posse.

Ao homem estava atribuída a dura tarefa de desviar o curso das ribeiras fazendo com que as suas movessem engenhos, moinhos e irrigar os canaviais e demais culturas. Para isso, traçaram kilómetros de canais para a sua condução, que ficaram conhecidos, na ilha, como levadas. O

sistema permitiu um maior aproveitamento dos socalcos e o alívio do homem em algumas tarefas, como sejam, o moer do grão e da cana e o serrar das madeiras. Moinhos, engenhos e serras convivem pacificamente usufruindo da água que corre na mesma levada. A orografia da ilha ao mesmo tempo que dificultava a condução da água favorecia este aproveitamento, pela força motriz atribuída pelos declives acentuados.

A moenda e o consequente processo de transformação da guarapa em açúcar, mel, álcool ou

aguardente projectaram as áreas produtoras de canaviais para a linha da frente das inovações técnicas, no sentido de corresponderem às cada vez maiores exigências. A madeira e o metal são

a matéria-prima que dá forma a capacidade inventiva dos senhores de canaviais e engenhos. Na moenda da cana utilizaram-se vários meios técnicos comuns ao mundo mediterrânico. A

disponibilidade de recursos hídricos conduziu à generalização do engenho de água. Na Madeira,

o primeiro que temos conhecimento foi patenteado em 1452 por Diogo de Teive. Este processo

resultou apenas nas áreas onde foi possível dispor da força motriz da água, enquanto noutros fez-

se uso da força animal ou humana. Os últimos eram conhecidos como trapiches ou almanjaras.

Não conhecemos qualquer dado que permita esclarecer os aspectos técnicos deste engenho. Apenas se sabe, segundo Giulio Landi, que na década de trinta do século XVI funcionava um com o sistema semelhante ao usado no fabrico de azeite: “Os lugares onde com enorme actividade e habilidade se fabrica o açúcar estão em grandes herdades, e o processo é o seguinte:

primeiramente, depois que as canas cortadas foram levadas para os lugares acima referidos, põem-nos debaixo de uma mó movida a água, a qual triturando e esmagando a cana, extrai-lhes todo o suco”.

Uma das questões que mais tem gerado polémica prende-se com a evolução da tecnologia do fabrico do açúcar, concretamente a passagem do trapiche ao engenho de cilindros. O primitivo Trapettum era usado na Roma antiga para triturar azeitonas e sumagre, sendo, segundo Plínio, inventado por Aristreu, Deus dos Pastores. Mas este tornou-se um meio pouco eficaz nas grandes plantações, tendo-lhe sucedido o engenho de eixo e cilindros. É aqui que as opiniões divergem. Existe uma versão que aponta esta evolução como uma descoberta mediterrânica: Noel Derr e F. O. Von Lippmann atribuíram a descoberta a Pietro Speciale, prefeito da Sicília; a Historiografia castelhana encara isso como um invento de Gonzalo de Veloza, vizinho da ilha de La Palma, que teria apresentado o seu invento em 1515 na ilha de S. Domingos. David Ferreira Gouveia refere esta como resultado do invento do madeirense Diogo de Teive, patenteado em 1452. Outros apontam para a sua origem chinesa. O engenho de três eixos surge mais tarde no Brasil, considerado também uma invenção portuguesa, inegavelmente ligada aos madeirenses aí radicados.

Na Madeira a primeira referência aos eixos para o engenho data já do último quartel do século XV. Em 1477 Álvaro Lopes tem autorização do capitão do Funchal para que “faça hum engenho

qual engenho será de agua

com sua casa e casa de caldeiras

Em

Depois, em 1485, D. Manuel isentava da dizima “quaisquer

de fazer açúcar que seja de moo ou d’alçapremas, ou doutra arte

o

”.

teixos que forem necessários para eixos esteios casas latadas dos engenhos e tapumes

1505 Valentim Fernandes refere que o pau branco era usado no fabrico de “eixos e parafusos

para os engenhos de açúcar”. A isto associa-se o inventário do engenho de António Teixeira, no Porto da Cruz em que são referidos como aprestos: rodas eixos, prensas, fornalhas espeques (

A palavra trapiche entrou depois no vocabulário do açúcar a designar todos os tipos de engenhos

de cilindros usados para moer cana. Nos arredores do Funchal existe uma localidade com este nome, o que prova ter existido aí um engenho deste tipo. As condições geo-hidrográficas foram

”.

propícias à generalização dos engenhos de água, de que os madeirenses foram exímios criadores. Aliás, aqui estavam criadas as condições para a afirmação da cultura. Enquanto a primeira desfrutava de inúmeros cursos de água e de uma vasta área de floresta, disponibilizando lenha para as fornalhas e madeira de pau branco para a construção dos eixos do engenho.

Toda a animação sócio-económica gerada pelo açúcar foi dominada pelo engenho, mas isto não significou que a existência de canaviais fosse sempre sinónimo da presença próxima de um engenho. Aqui, mais do que no Brasil, são inúmeros os proprietários incapazes de dispor de meios financeiros para montar semelhante estrutura industrial e por isso socorriam-se dos serviços de outrem. No estimo da produção da capitania do Funchal para o ano de 1494 são referenciados apenas 14 engenhos para um total de 209 usufrutuários, dispondo de 431 canaviais.

Não é fácil estabelecer o número exacto de engenhos que laboraram na ilhas As informações disponíveis são, em muitos dos casos, díspares. Em 1494 são referenciados apenas 14 engenhos, quando noutro documento de 1493 se dava conta da existência de 80 mestres de açúcar. Note-se ainda que Edmund von Lippermann refere para o Funchal 150 engenhos no início do século XVI, número que não se coaduna com os valores razoáveis para a extensão arável da ilha e a produção dos canaviais. Depois, em finais do século XVI, Gaspar Frutuoso refere-nos 34 engenhos, sendo nove na capitania de Machico e os restantes na do Funchal. A sua localização geográfica permite aferir das áreas de maior incidência da cultura no século XVI. No século dezassete o número de engenhos era reduzido. Assim, em 1602, Pyrard de Laval refere a existência de 7 a 8 engenhos em laboração. Esta aposta na cultura levou ao necessário o estabelecimento de alguns incentivos à sua reparação, como sucedeu em 1649. Nesta década fala-se apenas de quatro engenhos, destes dois foram construídos em 1650. Daí derivaram,

enormes dificuldades em conseguir moer a cana por falta de engenhos suficientes. No Funchal o de André de Betancor há três anos que não funcionava e seria difícil que o fizesse pelo estado em que se encontrava. Ademais, do abandono dos engenhos registava-se o das levadas como sucedia com a do Pico do Cardo e Castelejo em S. Martinho que há trinta anos não era tirada. Para repor a cultura a coroa preparou um plano de recuperação dos engenhos, com empréstimos e a isenção do pagamento do quinto por cinco anos. Estes concentravam-se no Funchal e Câmara de Lobos,

o que implicava redobradas dificuldades para a maioria dos lavradores das partes da Calheta, Ponta de Sol e Ribeira Brava.

O preço de montagem de semelhante estrutura industrial não estava ao nível da bolsa de todos os

proprietários. De acordo com a avaliação, para inventário, do engenho de António Teixeira no

Porto La Cruz em 1535 esta benfeitoria estava avaliada em duzentos mil reais. Noutro documento de 1547 refere-se que os canaviais, engenho e água de servidão dos mesmos orçavam os 461.000 reais. Mas em 1600 João Berte de Almeida vendeu a Pedro Gonçalves da Câmara, no Funchal, um engenho pelo valor de 700.000 reais. Em 1644 o engenho de Gaspar Betencourt na Ribeira dos Socorridos foi avaliado em 500.000 rs e no ano imediato o engenho de Baltazar Varela de Lira foi vendido por 422.000 rs.

Os valores de produção dos engenhos insulares são muito distintos dos americanos. Para a Madeira em finais do século XV são referenciados apenas 12 engenhos para um total de 233 proprietários de canaviais. Estes situam-se todos nas partes do fundo, não havendo qualquer referência para os que funcionavam na área do Caniço a Câmara de Lobos. Tomando em conta, apenas as Partes do Fundo, nota-se que a cada engenho estariam atribuídas mais de cinco mil arrobas, valor elevado se tivermos em conta o estado da tecnologia usada. Também é de referir que estes proprietários de engenho não se situam entre os mais importantes detentores de

canaviais. Apenas Fernão Lopes surge com 1600 arrobas, havendo caso de lavradores com valores superiores que não são proprietários de engenho. Note-se, ainda, que Fernão Lopes apresentava mais 2000 arrobas em conjunto com João Esmeraldo. Na primeira metade do século

XVI estes valores desceram a mais de um terço, pois a média é de 1478 arrobas. Por outro lado é

de salientar que os grandes proprietários de canaviais não são sinónimo de engenho. No século dezasseis alguns situam-se entre os principais produtores, mas a maioria surge com valores de produção muito inferiores, como é o caso de João de Ornelas que em 1530 declarou apenas 70

arrobas de açúcar no Funchal. Deste modo podemos afirmar que estamos perante duas realidades distintas que geram uma dinâmica particular na estrutura produtiva da cana de açúcar: os proprietários de canaviais e os de engenho.

Com o decorrer dos anos escasseiam os engenhos, mas também os canaviais. Assim em 1698 insiste-se na escassez de engenhos, em 1730 refere-se a existência de poucos, enquanto no período de 1750 a 1782 é referenciado apenas um engenho em laboração. Durante o século

XVIII e até princípios da centúria seguinte existiu apenas um engenho em funcionamento à Ribeira dos Socorridos. A partir da década de cinquenta o panorama é distinto e a cana volta de novo a ocupar um lugar de destaque, ocupando ½ da superfície cultivada em 1850. Deste modo aumenta o número de engenhos, sendo referenciado em 1851 quatro fábricas de refinação de açúcar, quatro engenhos de moer cana e três fábricas de aguardente. Em Câmara de Lobos a cultura teve grande incremento uma vez que são referenciados três novos engenhos em 1854.

Esta situação alastrou a toda a ilha e levou a promoção de novos engenhos ou à reactivação de

antigos, uma vez que em 1856 temos já 80 e 10 fábricas de destilar aguardente. Aqui há que

distinguir as fábricas de moer cana e os engenhos para fabrico de açúcar e destilação de

aguardente. Os engenhos de moer apresentavam duas rodas na disposição horizontal, enquanto

os movidos por bois tinham estas na posição vertical.

Os séculos XIX e XX marcam o momento da grande inovação tecnológica dos engenhos e da forma de fabrico do açúcar. A revolução industrial foi provocada pela abolição da escravatura e

pela crise que atingiu o mercado internacional do açúcar a partir de 1880. O uso de máquina a

vapor teve lugar em Jamaica em 1768 mas foi só a partir de meados do século XIX que a mesma

se generalizou. Esta inovação técnica é favorecida pela concentração destas estruturas industriais, resultado de uma política governamental que tem na década de vinte da presente centúria a sua máxima expressão. No Brasil deu origem aos chamados engenhos centrais, enquanto na Madeira foi o princípio da total afirmação do engenho Hinton. De acordo com D.

João

da Câmara Leme o avanço da cultura na ilha só será possível com “a fundação de fábricas

com

os aparelhos modernos e aperfeiçoados”. Enquadrava-se neste espírito a Companhia Fabril

de Açúcar Madeirense criada em 1866 e inaugurada em 1873, que se saldou num verdadeiro fracasso e motivo de acesa polémica. Por outro lado é de salientar as iniciativas tecnológicas do próprio D. João da Câmara Leme que em 1875 apresentou o seu novo invento de aproveitamento do açúcar que fica no bagaço nomeadamente usado por W. Hinton. As inovações introduzidas por este último ocorreram após a licença de 1872 para a construção de uma fábrica de extracção

e cristalização de açúcar.

A política de proteccionismo e favorecimento do engenho do Torreão afastou todos os demais

desta industria, levando a sua maioria ao encerramento. Em 1934 um decreto estabelece claramente essa situação: proíbe-se a construção de mais engenhos até 1953 e os demais existentes não podiam laborar açúcar, actividade exclusiva do engenho do Torreão, apenas são

autorizados os melhoramentos. Pior foi o que sucedeu em 1954 com o decreto que determina a concentração de todos os fabricantes de aguardente em apenas três fábricas. Os engenhos do norte ficaram reunidos na companhia dos engenhos do norte com sede no Porto da Cruz.

O preço de montagem de semelhante estrutura industrial não estava ao nível da bolsa de todos os proprietários. Em 1535, de acordo com a avaliação, para inventário, o engenho de António Teixeira no Porto da Cruz estava avaliado em duzentos mil reais. Noutro documento de 1547 refere-se que os canaviais, engenho e água de servidão dos mesmos orçavam os 461.000 reais. Mas em 1600 João Berte de Almeida vendeu a Pedro Gonçalves da Câmara, no Funchal, um engenho pelo valor de 700.000 reais. Em 1644 o engenho de Gaspar Betencourt na Ribeira dos Socorridos foi avaliado em 500.000 rs e no ano imediato o engenho de Baltasar Varela de Lira foi vendido por 422.000 rs. O primeiro deverá ser o mesmo que em 1780 pertencia a D. Madalena Guiomar de Sá Vilhena, que o arrendou ao capitão Francisco Esmeraldo Betencourt por 10.000 réis ano.

Para os séculos XIX e XX a construção de um engenho para fabrico de açúcar, de acordo com as inovações tecnológicas, era uma aposta impossível para qualquer industrial caso não fossem garantidos os financiamentos e apoios governamentais. Esta neste caso o favorecimento dado ao engenho do Torreão, que levou ao quase monopólio da sua laboração. Daqui resultou que a maioria apostou em manter a tecnologia tradicional, servindo-se da tracção animal e da força motriz da água.

A situação arcaica das fabricas de moer cana era intolerável perante o incessante aumento da produção, por isso foi necessário a aposta num estabelecimento moderno, capaz de minorar os custos de laboração e de corresponder à oferta de cana. Enquadra-se neste objectivo a novel Companhia de Açúcar Madeirense, criada em 1868. Por outro lado, tendo em conta a grande dificuldade do fabrico do açúcar e os elevados custos do investimento, denota-se nesta época dois tipos de complexos: para produção de açúcar e destilação de aguardente. Em meados do século a distinção entre a moenda da cana, o fabrico de açúcar e aguardente é claro. A partir de então a tendência foi para a aposta nas fábricas de destilação de aguardente, tendo em conta o atrás referido e o facto da sua procura para o consumo corrente e no processo de vinificação. Destas temos indicações dos custos da sua instalação. Em 1857 Diogo de Ornelas Frazão gastou 14.3000.000 réis na construção de uma fábrica de aguardente no estreito da Calheta e no ano imediato o Conde Carvalhal montou engenho semelhante no Paul do Mar por 8.800.000 réis. De acordo com inventário industrial feito em 1863 é possível fazer uma ideia das infraestruturais existentes e do seu valor.

AS CENTRAIS HIDROELÉCTRICAS. A orografia da ilha foi propícia à utilização da força motriz da água. Isto aconteceu desde o século XV ao nível agrícola e a partir do nosso século assumiu outra função para a produção de energia hidroeléctrica. As primeiras experiências são de iniciativa particular e acontecem no meio rural. As pequenas centrais hidroeléctricas surgiram nos Canhas, Ponta de Sol, Porto Moniz, S. Vicente e Boaventura.

S. Vicente foi um concelho pioneiro na utilização deste serviço, pois desde muito cedo tivemos algumas iniciativas particulares. A primeira tentativa data de 1917, altura em que Benjamim Teixeira de Aguiar e João Francisco de Andrade solicitaram à Câmara a cedência da água da levada velha das Feiteiras para montagem de uma turbina hidráulica para o fornecimento de energia eléctrica. A este junta-se o do Dr. Gregório Dinis, facultativo do concelho, que por esta

altura deveria ter montado uma central hidroeléctrica no sítio do Pé de Corrida, com material importado directamente de Alemanha. A Central produzia energia para iluminação das ruas do sítio das Feiteiras a casa do proprietário e alguns vizinhos e serragem de Carlos França, que funcionava no sítio do Teatro, e outra do próprio proprietário junto da casa de habitação.

Em Novembro de 1931 a Vereação vicentina manifestava-se interessada numa instalação de energia eléctrica para iluminação da Vila. Na mira deveria estar a central do Dr. Gregório Dinis, que faleceu em 20 de Dezembro desse ano. Tanto assim era que em Dezembro de 1932 a Câmara decide negociar com a família e o Banco Nacional Ultramarino a sua compra. A 5 de Março de 1933 a Vereação, mediante proposta do seu presidente, João Nunes de Freitas, decidiu adquirir a

central hidroeléctrica do sítio da Corrida e sua rede, solicitando para o efeito o apoio financeiro

da Junta Geral, onde se salientava "a necessidade e vantagens de aproveitar uma tal oportunidade

de realização de um tão grande benefício público". Para essa compra a câmara necessitava de 100.000$00, mas a Junta Geral só avançou com um décimo pelo que o processo se foi atrasando. Entretanto a central havia já sido tomada pelo Banco Nacional Ultramarino por hipoteca, decorrendo as negociações da venda com esta entidade. A câmara em 1937 ofereceu apenas 40.000$00 o que não satisfez os responsáveis do banco e levou ao seu desmantelamento e venda

para a Ponta de Sol.

Ainda, na freguesia de S. Vicente a tradição popular e alguns vestígios evidentes testemunham a existência de outras quatro pequenas centrais para usufruto privado: Cooperativa dos Lacticínios

do Norte no Passassol, Manuel Filipe de Andrade no Passo, Manuel Francisco Faria na Vargem e

José Martinho de Freitas nos Lameiros. Em Vereação apenas está documentada outra iniciativa mas em Boaventura para fornecimento de energia eléctrica à Igreja paroquial. Sabemos da sua existência pelo simples facto de a estrada municipal entre S. Cristóvão e a Achada do Castanheiro ter atravessado a sua conduta de água1. Isto obrigou a um desvio da conduta, no que

reverteu numa quebra de rendimento na produção de energia, pelo que o pároco solicitou uma indemnização.

A iniciativa particular foi o incentivo para o governo avançar na década de quarenta com um

plano de aproveitamento hidroeléctrico da ilha da Madeira, nomeado para o efeito um grupo de trabalho que depois se transformou em comissão para a execução do plano estabelecido. A Comissão tinha como missão proceder à electrificação do arquipélago, socorrendo-se da energia produzia pelas centrais. Em 1953 foram inauguradas as primeiras centrais hidroeléctricas na Serra de Água e Calheta e em 1962 tivemos o início dos trabalhos da Fajã da Nogueira(1971) e Ribeira da Janela. Concomitante com isto procedeu-se de forma faseada à electrificação rural da ilha, plano que só ficou concluída na década de oitenta. Depois disto tivemos a central de Inverno da vila da Calheta(1990) e central dos Socorridos.

Ainda no sentido do aproveitamento das fontes de energia não-poluente é de destacar o aproveitamento da energia eólica com a construção dos parques do Paul da Serra e Caniçal.

1. Vereação de 9 de Maio de 1963.

A TECNOLOGIA DA VINIFICAÇÃO- DO LAGAR AO CANTEIRO. A cultura da vinha

conduziu igualmente ao desenvolvimento de uma tecnologia adequada à valorização sócio- económica da cultura. Várias actividades artesanais giram em torno dos lagares e adegas. Primeiro a construção do lagar estrutura imprescindível para início do processo, depois, a construção de pipas e o prolongado sistema de vinificação do mosto.

A presença do lagar foi, durante muito tempo, sinónimo de uma importante área de vinhas.

Note-se que nem todos os viticultores tinham meios para o dispor e que a maior parte dos caseiros se serviam do lagar do seu senhor. O seu usufruto implicava o pagamento de uma taxa,

conhecida na Idade Média como lagaragem. Hoje o lagar é uma peça de museu, sendo substituído pela moderna tecnologia, mas tempos houve em que ele era um instrumento

imprescindível para o fabrico do vinho. Na Madeira está documentada a presença de três tipos: 1.

as lagariças de pedra, onde o cocho é escavado na rocha, dispondo de vara e fuso em madeira

para exercer pressão sobre o bagaço; 2. lagariças de madeira, em que o cocho é escavado num tronco de madeira; 3. o lagar de madeira calafetada. Depois, mais próximo de nós foram estes lagares substituídos por outros em cimento, prensas manuais e mecânicas. Hoje a ilha dispõe já da mais avançada tecnologia para o fabrico do vinho. Lagares ou prensas existem para a laboração do vinho caseiro.

Feito o vinho no lagar era depois transportado às adegas pelos carreteiros em borrachos (uma pele de cabra curtida e voltada do avesso) . Muitas vezes era transportado directamente ao

Funchal, por via marítima ou terrestre ficando aí a fermentar nas grandes lojas. Temos três fontes que comprovam de modo directo o que vimos afirmando e explicitam as razões de tal

procedimento:

A 1ª é-nos dada num documento de 1777 , em que se salienta que na ilha não se procede de modo

idêntico como no reino:- “não se praticam as colheitas como no reino que vão passando dos lagares a encubar nas adegas, mas como as terras estão aqui divididas em porções módicas de colonos, estes pisando suas módicas porções que logo imediatamente conduzem a meia parte respectiva ao senhorio para a cidade, nem dão lugar a tirar guias, o que é impraticável por ser a condução em barris de dois almudes, ou odres sobre ombros de homens, porque a escabrosidade

dos caminhos faz impraticáveis outras conduções” , 2ª surge-nos de modo idêntico em documento

os moradores são avulsos por não haver na ilha povoações, ou lugares, nem os

de 1779 :

colonos encubam os vinhos em suas adegas, porque não tem, e cada um em sua casa em lagariças de pau faz o vinho que daí se transporta por homens rústicos muitas léguas para as dos senhorios pela escalosidade dos caminhos, tais que nem cavalgaduras o podem transportar,

quanto mais vasos ou pipas” . 3ª é dada noutro documento de 1789 .-

no campo não se acham

adegas suficientes para o vinho, porque a parte dos senhorios habitantes nesta cidade, todo é transportado para esta e a maior parte do vinho dos caseiros, é vendido à bica a infinitos habitantes também desta cidade para onde igualmente transportam” . Será então no Funchal que,

de ordinário, o vinho fermenta nas adegas sendo depois sujeito à trasfega e trato em canteiro ou

estufa. As adegas madeirenses, não eram edifícios preparados, mas sim qualquer um que fosse

extenso e escuro , junto das quais se situavam as estufas e a oficina de tanoaria.

De acordo com D. João da Câmara Leme”Os vinhos da Madeira que hoje aparecem, geralmente nos mercados, são muito diferentes desses vinhos afamados, e que a Madeira exportava antes dos

- “

fins do século XVIII.A ilha da Madeira não mudou

o que mudou foi o sistema de tratamento” .

Deste modo temos que desde os finais do século XVIII se deu profundas alterações no processo de vinificação madeirense ao nível do trato. Alteração essa provocada, quer pelo uso das estufas para aceleração do envelhecimento do vinho, quer pelo uso imoderado de aguardentes, primeiro de França, depois da terra, para fortificar os vinhos mais fracos. O método antigo, de canteiro, anteve-se, mas cada vez menos solicitado, por ser mais demorado e dispendioso e fora do alcance das solicitações do mercado internacional do vinho nesta época, o que só poderia ser feito com as estufas e o trato das aguardentes, processos rapidíssimos e muito baratos. Por isso temos a partir de então a generalização dos três métodos, com a afirmação dos dois últimos.

D. João da Câmara Leme já em meados do século XIX tomou contacto com os processos de vinificação utilizados no trato e cedo se apercebeu da deficiência do uso das aguardentes e das estufas, daí ter encarado uma nova solução mais rápida e eficaz de trato - o sistema canavial. A partir de então escalonou os diversos processos do seguinte modo: “1º - sistema sem aquecimento; 2º - sistema com aquecimento lento, ficando o vinho em comunicação com o ar ambiente; 3º - sistema com aquecimento rápido e arrefecimento lento, demorado ou não, em recipiente fechado” .

Este sistema era o dominante até finais do século XVIII e aquele que dava ao vinho da Madeira o trago especial, que lhe valeu fama mundial, à sombra do qual vegetou por algum tempo o vinho da estufa adubado. Feito o vinho era transportado à adega onde fermentava no vasilhame instalado sobre o canteiro, ou seja “duas traves na altura de dois ou três palmos” , fermentado e retiradas as borras, o que é para velho é trasfegado após ter sofrido o processo de clarificação com goma de peixe, clara de ovo, sangue, repetindo-se este processo por seis ou oito vezes no decurso de 19 meses, posteriormente no momento da trasfega começou a adicionar-se aguardente . Além os elementos fornecidos por P. P. da Câmara fomos encontrar nalguns documentos o modo como se tratava em Lisboa os vinhos que para aí eram enviados após a fermentação. Aí nos armazéns do Arsenal da Marinha se procedia ao trato do vinho; clarificação com goma de peixe e trasfegas. Tal prática encontra-se documentada, apenas a partir de 1832.

Em Abril a Junta da Fazenda do Funchal envia a Lisboa o vinho do sequestro feito nos armazéns do morgado João de Carvalhal Esmeraldo, pronunciado na devassa de 1828 e ausente em Londres. Juntamente com o vinho é enviado o escrivão da Alfândega, Manuel António Serrão para proceder aí ao devido trato, pois que o “trato dos vinhos deste país é inteiramente diferente daquele que se pratica em Portugal, sendo necessário cuidá-lo de contínuo” .

Já em Lisboa o dito representa que “aonde se acham os vinhos da Madeira, não é aquela

comodidade necessária para os beneficiar, e fazer caldas que é preciso ser em mais particular, da

mesma forma não há nas sete casas a dita comodidade

o armazém no sítio da Boavista, que já antes servira tal fim e ora encontrava-se cheio de tabaco”

o único lugar onde tal seria possível era

.Maria José Joaquim Rosa Coelho, do Arsenal da Marinha não agradou tal relutância do madeirense e por isso em representação, chama-o de “impostor refinado”:”Tratei imediatamente

de fazer despejar dois armazéns, os mais inxulados (sic), fi-los limpar, pôr canteiros, arrecadar neles o vinho que se tem recebido, e guardei em meu poder as chaves ficando desta maneira o vinho acondicionado de forma que é costume desde que no mundo há vinho, e a coberto de toda

o encarregado de os tratar perguntou em um dos

e qualquer fraude, que ele pudesse ter, (

)

armazéns se era fresco, respondeu-se-lhe que era que sim, desaprovou-o logo, porque deve ser quente, passou imediatamente ao outro e fez a mesma pergunta, respondeu-se-lhe que era quente, reprovou-o porque devia ser frio. Reprovava os canteiros que não são outra coisa, mais do que uns paus sobre os quais se estivão as pipas, para não estarem no chão, por conseguinte o homem reprovava tudo, e por tal motivo confirmo a opinião que dele faço, e digo a V. Exa. que neste arsenal só pode haver armazéns quentes como ele quer, metendo-lhe dentro alguma estufa, e frescos talvez também como ele deseja tendo-lhe a porta aberta” .

Em Agosto são escolhidos 5 homens para o trabalho de lotação do vinho da Madeira, pagos a

300 reis por dia , iniciando-se de imediato os trabalhos. Na altura da trasfega deu-se pela falta de 2 almudes em cada pipa das 40 pipas trasfegada, o que o encarregado do seu trato de imediato deu conta, ilibando-se de qualquer responsabilidade: “Eu não sei se é dos navios que conduziram os vinhos, donde esta falta procede, eu não sei, só o que sei que falta, eu não estou para responder a V. Exa. por faltas dos outros” .

Durante os meses de Agosto/Setembro, nos armazéns de vinho do Arsenal da Marinha, onde se encontrava o vinho, laborava-se com grande intensidade, ora armazenando/envasilhando o vinho novo, ora trasfegando o velho ao mesmo tempo que se clarificava e tratava com aguardente e baldeação de alguma malvasia velha. Assim em 5 de Agosto é feito o trato a lotes de vinho sercial de 1820, de 1823/5, tendo-se clarificado com goma de peixe 28 tonéis e 1 pipa, e a trasfega de um lote particular de 1244 pipas, um lote de 1824 com 7 tonéis e 12 pipas e outro de 1826 com 6 tonéis e 8 pipas. Entre 27 de Agosto e 10 de Setembro foram clarificados e trasfegados outros lotes de vinho totalizando 32 tonéis e 399 pipas . A 15 de Setembro clarificou- se vinho Madeira Particular de primeira qualidade ao mesmo tempo que foram tratados 46 tonéis

e 369 pipas com efusão de Malvasia . Seguindo-se mais 220 pipas clarificadas com goma de

peixe . A 17 de Setembro fez-se a trasfega e clarificação de 39 pipas, e a 14 de Outubro 228 tonéis e 459 pipas de Sercial. A 14 de Outubro, Manuel António Serrão dava por terminados os trabalhos, e descrevia de modo sumário o processo de trato usado: “Achando-se acabado as lotações do vinho de que vim encarregado pelo Exmo. Governador e Capitão General da ilha da Madeira, sendo do meu dever como encarregado de uma tal comissão e para crédito de tais vinhos, uma vez que sejam exportados para países estrangeiros, exceptuando deste o da Rússia, que é aonde tem menor preço por não gostarem senão de vinhos baixos e estufados, com bastante aguardente, e como estes sejam vinhos, sejam criados de canteiro, tem por sua idade adquirido cheiro balsâmico por isso se fizeram dois lotes, como já fiz patente a V. Exa. por um mapa que remeti e agora por o que vai junto e, que pertence ao segundo lote, sendo estes dois lotes de primeira e segunda qualidade, que pouco diferem do primeiro, a que ficará tudo igual logo que leve a sua competente aguardente, e como esta só haja própria na ilha da Madeira dos mesmos bens socrestados, onde se acha preparada e concertada com malvasia, que era já para adubar estes mesmos vinhos. E por isso de certo não se poderá dispensar o ela vir, não só para que dê mais valor aos mesmos vinhos, como também para interesse da Real Fazenda, cujos vinhos já se acham clarificados, e prontos a entrar na sua trasfega. logo que aguardente venha para se deitar aquela porção que for suficiente, segundo o clima do país e ficarem de todo prontos. E por isso julgava de necessidade que V. Exa. mandasse vir da dita ilha, a qualidade de 180 a 200 galões d’aguardente já acima indicada. E achando-se a malvasia ainda por concertar, não se poderá

fazer sem vir a dita aguardente, pois na ocasião de ser concertada é que leva a sua competente porção ”

.

A baldeação da aguardente de França, primeiro, e depois da terra foi uma prática muito tardia no tratamento dos vinhos de canteiro, pois só nos surge documentada a partir de meados do século XVIII: “O que porém, parece averiguado é que, na segunda metade do século XVIII, os vinhos da Madeira superiores eram já adubados com aguardente de França para o mesmo fim” . As aguardentes são ao longo do século XIX motivo de polémica, pois que as aguardentes francesas comummente usadas para adubar os vinhos ora surgem como adubo necessário e precioso dos vinhos, ora como prejudiciais ao mesmo vinho. Dessa polémica daremos conta quando tratarmos da questão das aguardentes.

AS ESTUFAS. A origem das estufas deve ser procurada, por um lado, na determinação de uma determinada conjuntura favorável ao escoamento rápido do vinho, que adveio com as guerras napoleónicas, com consequente esgotamento dos stocks, criando a necessidade de um trato rápido dos vinhos novos para satisfazer as encomendas do mercado, o que só seria possível com as estufas; por outro lado advêm dum facto ocasional, - por motivo da constatação de que os vinhos da Madeira quando sofriam a influência do calor dos trópicos ao navegarem nos porões das naus que iam e vinham das Índias ocidentais e orientais, adquiriam um trago especial e envelheciam. Mais do que isso estamos certos que o madeirense ligado ao conhecimento científico, não desconhecia esse sistema de tratamento já usado pelos antigos romanos e, até mesmo os gregos. Quanto ao primeiro facto comenta D. João da Câmara Leme: - “Estamos em fins do século XVIII. A exportação dos vinhos da Madeira tem aumentado, muito principalmente para a Inglaterra, porque, em razão da guerra, lhe estão fechados os portos da Europa. As reservas de vinhos em boas condições de embarque estão esgotados. O sistema do canteiro não é processo aplicável a um largo e importante consumo com a perspectiva de grandes lucros” .Quanto ao segundo destaca A. A. Sarmento: “Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes exportadores de vinho da Madeira, que este sujeito a longa viagem batido pelo balanço da embarcação, aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões, tomava características especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido, pelo que mandavam muitas pipas à Índia com frete de torna-viagem, para lá voltar melhorado o vinho, que ficou sendo chamado de roda do mundo ou simplesmente vinho de roda” .

Constatado este facto houve desde logo um rápido aproveitamento deste meio de envelhecimento que, mesmo assim, ainda era oneroso e demorado para as exigências de um mercado momentâneo apressado. Em 1818 a própria Junta dá o exemplo ao carregar 50 pipas no brigue-

escuna Maria do capitão José A. Martim de Sá . Tendo-se dado ordem de embarque a 21 de Abril . Em aviso ao deputado escrivão da Junta de Cabo Verde se dá conta da remessa de vinho para envelhecer e depois terá o destino que S. M. desejar, recomendando ao dito “o cuidado e vigilância de sua existência, de maneira que receba o muito calor possível de Verão futuro e não

haja extravio” .Noutro aviso a J. de Araújo Barros em Cabo Verde dá-se conta da remessa “para

os fazer pôr nessa ilha e voltarem a vir depois de passado o Verão futuro

desvelo e cuidado na boa guarda e vigilância do dito vinho a fim de que não haja extravio casual

lhe rogo o maior

nem voluntário e obtenha aquele grau de melhora que se espera” .

Em 1826 essa prática havia-se generalizado e todo o vinho de roda era reembolsado dos direitos pagos à saída ou levantada a fiança. Assim em 21 de Fevereiro Philip Noailles Searle solicita o desconto dos direitos de 3 quartos e 10 meias quartolas de vinho de roda que havia tido autorização para tal acto em 8 de Junho de 1825 . Um ano depois essa prática era geral e causava graves incómodos à administração da alfândega, daí ter-se embargado tal pratica:- “Havendo-se nesta ilha introduzido o costume de embarcar vinho com faculdade de voltar a ela para na viagem ganhar melhoramento, foi sempre tolerado em pequenas proporções. De tal uso passou a fazer-se abuso, pois que os negociantes para ganharem maior prazo no pagamento dos direitos, figuravam em muitas das suas especulações os embarques do vinho para vir de roda, dando a sua fiança, e a final quando passava o prazo marcado para a entrada do vinho, e este não chegava, se lhes carregavam os direitos, cuja arrecadação ia ter a demora que as mais ordens terminam a favor dos assinantes. Resultava deste meio acharem-se muitos direitos por cobrar, poderem ometer-se outros dolos que esta Junta por bem da fazenda entendeu dever prevenir e subtrair na continuação de tal prática” . Este informe vem a propósito de um requerimento de Philip Noailles Searle & Ca. em que solicitava o reembolso dos direitos de 50 pipas de vinho de roda .

Nos registos de embarque de vinho entre 1823/30 assinala-se essa modalidade, que durante esta fase permissiva atingiu grandes proporções. Assim em 1823 saíram 1650 pipas de vinho de roda

e em 1824, 366. Destacam-se aqui os comerciantes ingleses John Howard March & Ca. e Philip Noailles Searle, e poucos portugueses, de que se destacam as casas madeirenses mais importantes como Monteiros & Ca., Luís de Ornelas Vasconcelos, João Oliveira & Ca.

Já os Gregos e Romanos tinham conhecimento da acção do calor dos porões dos barcos

se serviram para trato dos seus vinhos tal como nos refere Plínio, entre outros. No entanto na Madeira essa prática é tardia, remontando a 1730 . Daí às estufas o salto foi rápido: Viäo os comerciantes que o calor dos navios e dos climas mais ardentes beneficiaram considerável e

visivelmente os vinhos em toda a sua qualidade, tanto de sabor como de cheiro, logo pela razão,

e dele

a

mais bem deduzida, se persuadiram, e se convencerão de que o vinho Madeira se aperfeiçoava

e

mesmo se requintava com o calor: ocorreu logo, que sendo possível tratá-lo em terra com uma

precisa quentura para o seu benefício seriam grandes os proveitos que colheria o comércio, o

público, e não menos S. A. Real” . Assim temos o primeiro ensaio de estufa com vinhos novos, enquanto outro que aquecia dia e noite um armazém com vinhos novos, enquanto outro comerciante colocava no seu armazém canos de ar quente . A primeira estufa levantada nesta ilha se fabricou no ano de 1794 e 1795, e depois dela se levantavam sucessivamente muitas outras que todas tem trabalhado até os últimos meses passados” . Em 1802 segundo John Leacock

“estufas are now become general”.Numa carta de 1800, o mesmo descreve a sua primeira estufa que teve na ilha, dando conta do movimento das estufas, e da discussão sobre o vinho estufado:

“We are erecting an estufa & hope to have it furnished in two or three weeks we shall stard in need of two common thermometheos. good but the lerst expeensive, in order that we may regulate the heat; we therefore by you will send out a couple very carefully packed we hope this new mode of treating wine will answer, but the correspondants of those who ship its - they are now common of all the houses use estufas - several of them have built them & others put their

wine into hired estufas, where they pay 5 mas. p. pipa for 3 months sterwing. We are not yet perfectly satisfied of all the effects produced by the application of heat to the wine, but think in general they keep too fierce a degree of heat, nicke keeps the wine constantly boiling, and in rather insipid of weak. We are of opinion that a mon moderate temperature will succed better & shall proloy the paiod to six instead of three months as we have see. However the great test will be, how it is approved by those who are no good judges, the new wine with three months estufa imitates wine of 4 or 5 years old & we dont think that the deception will be easily discovered- perhaps prejudice the character of madeira wine. Wall hot climates its improves much quichet than in gold over: twelve months in the East or West Indies ha me effect than 3 years here, or four or five years in England - there for the heat must be on benefit & we must make a climate” .

Em 1877 Henry Vizetelly de visita à Madeira conheceu o complexo vinícola da firma de Menrs Cossart Gordon & Ca., dando conta da sua estufa do seguinte modo: “The estufa stors os Menrs. Cossart, Gordon & Ca. comprise a black of buildings of two stories, divided into four distinct compartments. In the first of these common wines are subjected a temperature of 140 dg. Gahrenheit - derived from flues, heated with anthracite coal for the space of three monts in the next compartment wines of an intermediate quality are heated up to 130 deg. for a period of four

and half months; whele the third is set apart for superior wines heated variously from 110 to 120 dg. for the term of six months. The fourth compartment, known as the “calor”, possesses no flues, but derives its heat, varying from 90 to 100 deg., exclusively form the compartments

adjacet, and here only high-class wines are placed

packed full, are placed on end in sacks of four, with smaller casks do not leak, as when subjected to great heat they are naturally indined to do. A hole about the sixth of an inch in diameter has been previously bored in the being of each pipe to allow the hot vapour to escape, otherwise the pipe would burst. As it patches in various parts of the floor, rendering it necessary for the different compartments of the estufa to be inpected once during the daytime and during the nigth, in order that any mishap of thair kind may be at once rectified. Each compartments is provided with double folding-doors, and after is is filled with wine the inner doors are coated over with lime, so as to close up any chance apectures. When it is necessary to enter the estufa the outer doors only are opened, anda a small trap in the inner door I pushed back to allow of the entrance of the man in charge, who passes bet wen the various stacks of casks, tapping them one after the other to satisfy himself that not leakage is going on. On coming out of the estufa , after a stay of a full hour, he instantly wraps himself in a blanket, drinks a tumbler full of wine, and then shuts

himself up in a closet, into wich no cool as penetrates, provided for the purpose” .

In the estufas I am now describing-wich, if

Em casa de Krohn Brothers viu no seu complexo uma estufa de sol onde o vinho era aquecido sob “the influence of sun’s ray’s”. Mas as estufas tiveram os seus percalços, pois em todos acreditavam no auxílio benéfico das mesmas, tal como aconteceu com o governador D. José Manuel da Câmara que por editais de 23 de Agosto de 1802 e 6 de Novembro de 1803 proíbe as estufas por serem prejudiciais à boa reputação dos vinhos. Mas face à reacção da maioria dos comerciantes nacionais e estrangeiros da região e do Senado da Câmara . O que levou o mesmo

em 14 de Fevereiro de 1804 a oficiar ao Conde de Anadia, dando conta do sucedido e da pretensão dos locais para que fosse levantada a suspensão de modo a poderem aviar as encomendas. Por ordem régia de 7 de Maio, do mesmo ano, foi expedido aviso para ser levantada a proibição. Mesmo assim a questão das estufas não terminou, pois que em todos os debates das estufas. O próprio Senado da Câmara cuja composição heterogénea mudava, A

opinião desfavorável destaca que tal processo de tratamento de vinho está na origem da decadência da fama e comércio do vinho, sendo igualmente prejudicial às suas propriedades conhecidas, retirando-lhes as qualidades “balsâmicas” , ou alterando-lhe o sabor e dando-lhe o gosto torrado, queimado “muito desagradável” . Desta forma se faz eco de modo sarcástico, em

1851 no “Correio da Madeira”: “O vinho estufado, cozido, fervido, frito, assado e agrilhoado é a

As

estufas são somente próprias para o vinho mão, e o que é essencialmente mau, não há forças

humanas que o façam bom.

O vinho bom carece de estufa, logo as estufas só servem para o ordinário: que se deve ferver

para aguardente, e consumir nas tabernas. O cheiro, o sabor do vinho estufado são péssimos, são

repugnantes e asquerosos: o vinho não sabe à uva, parece sumo das aduelas, das vasilhas, que o tiveram em fermentação. Nada mais ingrato, nada mais desgostoso ao paladar. O vinho de estufa ataca o cérebro, afecta o bofe, excita sede insaciável, provoca almorreimas, produz puxos, tenesmos, frenesim, delírios, loucura. E uma calamidade pública esta funesta descoberta; que fazendo exportar o vinho mau, deixa o bom, e óptimo estagnado, arruinado o nosso crédito” . Contrapondo-se a esta opinião muito generalizada na época, temos outra opinião que pugnava pela qualidade doo vinho produzido por este trato, que surge como medida útil e barata para o trato e, consequente escoamento do vinho com maior rapidez para os centros consumidores. Assim o referem os comerciantes locais em 1804: “Granjeou o comerciante o fruto preciso dos seus cuidados, dos seus cálculos, e da sua bem atendida vigilância, pois que com o novo método

de melhorar, e adiantar os seus vinhos de 5 a 6 meses apronta toda a quantidade de vinho, que é

preciso para os seus embarques, não sendo obrigados a esperar o espaço seguro de 4 a 5 anos” .

causa suficiente da decadência do nosso comércio e o abatimento da nossa agricultura

Em 1834 ainda a Câmara do Funchal desfaz as acusações contra as estufas apontadas como causa primeira da ruína do comércio local, antes notando o seu efeito benéfico e incentivador do mesmo:”Ora devendo-se considerar a invenção das estufas como admirável processo por meio do qual se melhora rapidamente a qualidade dos vinhos, apressando sua maturação, ao mesmo passo que se evitam grandes embates de capital; e sendo este aliás o único método que nos pode habilitar a competir com os vinhos de outras nações nos quais a cultura dos vinhos é mui pouco

dispendiosa ”

a não ser esta providência que

estufa que desacreditou este género, e diminuiu o seu consumo

.Da mesma opinião é P. P. da Câmara: “Seria inepto julgar, que foi o processo da

tanto veio a baratear a única produção que aviventa a Madeira, o que seria hoje d’ella, se este

O sistema das estufas

método não tivesse facilitado a sua exportação, barateando o seu custo?

veio facilitar a sua extracção, assim como dar-lhe velhice e fortaleza para resistir ao gelo do

norte, recebeu nova incubação e sangue desta ilha ”

.

No Funchal, principal centro vinícola da ilha, se procedia ao tratamento do vinho por meio das estufas, que aí começaram a surgir desde 1795/6. Estas eram distribuídas indiscriminadamente por toda a cidade situando-se nos terrenos anexos as adegas, que se situavam na área circunvizinha do cabrestante. Por editais de 23 de Agosto de 1802 e 6 de Novembro de 1803 se havia proibido a construção de estufas no recinto da cidade, argumentando o juiz do povo os inconvenientes que delas advinha para a saúde pública, em razão do fumo e constante perigo de incêndio no período de laboração. Contra ela se manifestaram os comerciantes da praça do Funchal, alegando os prejuízos que daí adviria e os argumentos infundados do referido juiz do

povo . Na realidade como eles referem, só houve até 1803 três ameaços de incêndio e, de incêndios apenas encontramos referência a um na estufa de Phelps Page & Ca. em 29 de Outubro de 1806 . Se as estufas não eram um perigo para a saúde pública, tornavam-se, no entanto prejudiciais à pouca salubridade do burgo oitocentista e mais em pleno centro do burgo e nos eixos de maior atracção em redor do porto do Funchal: é o caso da área da Sé do Funchal, próxima da Alfândega e do cabrestante, onde entre 1809/34 laboraram as estufas de Gordon Duff, & Ca., respectivamente no Beco do Assucar e Rua do Esmeraldo. Aliás se tivermos em conta que a freguesia da Sé se situa na área central da cidade teremos uma ideia clara da sua implantação no burgo, pois que entre 1839/40 existiam 15 estufas, a que se seguiam 9 na freguesia de S. Pedro, denotando assim uma forte concentração das estufas na área circunvizinha da Alfândega e Porto do Funchal o que, em parte, se justifica para um fácil transporte do vinho a ser embarcado.

De notar entre 1839/40 uma forte concentração das estufas no Beco dos Aranhas (4 e 5) e em S. Paulo (3 e 1), área ribeirinha ao mar pelo lado da Pontinha e sobranceira à ribeira de S. João. No

termo da cidade as estufas localizavam-se em Santa Luzia, no Caminho da Torrinha, Torreão

em Santa Maria Maior na Rua dos Balcões, Rua Bela de Santiago, Rochinha

Funchal, encontramos apenas 2 estufas em Santa Cruz em 1840, uma em S. Fernando de Joaquim Telles de Menezes e outra na Rua Direita de Augusto César de Oliveira, prova insofismável da forte concentrção das estufas e lojas na cidade e termo. Entre 1805/16 nota-se uma certa estabilização no número de estufas, com variantes reduzidas para mais ou menos, marcando o período de hesitação de novos estabelecimentos, em razão das medidas proibitivas e da discussão contrária à sua implantação e utilidade. Passado esse período ganha uma certa estabilidade, a que se seguiu, depois de solucionada a crise um forte impulso entre 1817/1829. Entrando-se então em queda, que se acentua a partir de 1832, tendo-se atingido em 1834 número idêntico. O período que decorre de 1834/44 é marcado por uma certa estabilidade no número de estufas em laboração, apenas se notando um salto isolado em 1839 em que se atingem valores idênticos aos médios dos anos evidencia (1817/29). Desde 1845 a tendência é para subir, atingindo-se em 1851 o número máximo, mas desde 1852 é marcante uma descida que se

acentuará a partir de 1860.

Fora da área do

e

D. João da Câmara Leme, especialista em assuntos enológicos teve oportunidade de, em França entrar em contacto com os sistemas de aquecimento aí usados desde o primeiro quartel do século XIX, nomeadamente aos sistemas em vaso fechado dados por Appert, ervais, Verguette, Cemotte e Pasteur . De regresso à Madeira tomou contacto com o processo de estufagem então praticado, tendo notado que o “sistema de aquecimento lento com comunicação com ar ambiente” dava ao

vinho um “sabor torrado de queimado muito desagradável” ao mesmo tempo que lhe retirava as propriedades essenciais:”Um sistema que priva os vinhos novos das suas melhores qualidades naturais e lhes introduz efeitos persistentes; que lhes tira o açúcar, álcool, óleos essenciais, e lhes introduz, um sabor desagradável que o carvão vegetal empregado lhes não pode nunca tirar de tudo, e que os impede de adquirir a finura tão assinalada nos antigos vinhos de canteiro “Na destilação do vinho de garapa despreza-se o vinham e guardam-se líquidos alcoólicos, éteres, e

sais e guarda-se o vinham” . Perante a constatação deste facto houve que tomar providências, optando por um sistema de aquecimento em vaso fechado, de modo especial, o método Pasteur, conhecido por pasteurização. Feitas as devidas experiências com este processo constatou D. João

da Câmara Leme “que o gosto de novo desaparecia muito pouco para que o vinho Madeira pudesse ser embarcado em pouco tempo como vinho mais velho, e que os seus outros caracteres não tinham suficientemente melhorado” .

Com seis anos de estudo ponderado, eis que ao fim de 10 anos de ensaios e experiências, em 1889 estabelece um sistema de aquecimento e afinamento dos vinhos, que tomou o nome de sistema canavial, que adoptava o novo método de “aquecimento rápido e arrefecimento lento,

demorado ou não, em recipiente fechado” (163), salientando que “este processo de aquecimento

e afinamento dos vinhos, ou processo de aquecimento e de arrefecimento demorado, em

recipiente fechado, é o mais próprio para vinhos superiores ou medianos, é o mais próprio para o

vinho Madeira e Para todos os vinhos especiais” .O vinho que vai ser aquecido entre, depois de medido, num reservatório superiormente disposto, donde desde, pelo seu próprio peso, por um cano de estanho, no qual é elevado, em banho-maria e o abrigo do contacto do ar à temperatura de 158º F. (70º C), continuando depois a descer, sem encontrar nada no caminho que lhe apresse

o aperfeiçoamento; e chegando finalmente, depois de ter marcado num termómetro a uma

temperatura adquirida, ao fundo da mesma pipa donde sairá pouco antes, e cuja boca, disposta de

modo a impedir perda de vapores, é fechada logo que termina a operação (

O vinho gasta cerca de 3 minutos no tratamento do seu aquecimento, que para uma pipa de 450

litros, exige hora e meia. O calor, comunicado pelo vinho ao interior da pipa, manifesta-se em breve exteriormente. Os Arcos alargam-se, e precisam de ser rebatidos. O vinho assim aquecido não é nunca voluntariamente arrefecido: e, quando se lhe não demora o arrefecimento, deixa-se que ele se faça naturalmente, mais ou menos, lentamente segundo a diferença entre a temperatura

da pipa e a do meio ambiente; gastando, geralmente, cerca de três dias.

É o mais curto arrefecimento do vinho rapidamente aquecido pelo sistema canavial.

Quem observar este vinho pouco depois do aquecimento, ou no fim do arrefecimento, tendo-se conservado a pipa sempre bem fechada, nota que ele não fermenta; que não tem cheiro que indique a presença de enxofre; e que o aroma de novo se tornou mais agradável; nota que o gosto está também sensivelmente mudado, e que parece de vinho de mais idade; e uma operação destilatória, feita antes e depois do aquecimento, mostra que a percentagem alcoólica é igual. Houve, pois neste aquecimento, um notável melhoramento; e não houve prejuízo (

É baseado em tais princípios que este estabelecimento organizou casas, ou estâncias, próprias

para demorar o arrefecimento do vinho. Quando, pois, uma pipa de vinho é destinada ao afinamento numa destas estancias, é para lá transportada, hermeticamente fechada, logo depois de terminado o aquecimento; e assim permanece, durante meses, num recinto onde a temperatura

é moderada, mas constante e bem regulada.

Cinco fornalhas introduzem ar quente em canos que dão três voltas nas estancias; e que são guarnecidos de chapas de ferro para facilitarem a transmissão do calor, sempre bem regulado e facilmente observado por termómetros que se podem bem ler de fora.

As estancias, que são sempre cuidadosamente revistadas para serem as pipas oportunamente rebatidas, são a princípio, mantidas na temperatura de 120º F. (50º C); mas depois de ter o vinho arrefecido suficientemente para se pôr em equilíbrio com o meio ambiente, essa temperatura vai lentamente descendo, e fazendo paradas convenientes, até ao fim do afinamento.

O vinho assim aquecido e afinado conserva todas as qualidades naturais, apresenta qualidades próprias do vinho de canteiro que tem cinco ou seis anos e uma notável finura muito apreciável; sem apresentar nenhum mau sabor, nem defeito algum, sendo convenientemente tratado, pode logo ser lotado com outros vinhos aquecidos e conservados livres de fermentos, e mesmo ser embarcado, sem risco de se alterar, e com grande economia d’alcool” .

Este é o único processo de tratamento por estufa que anima a qualidade do vinho fazendo-o manter sempre as suas características; e adquire qualidades próprias capazes deste modo de rivalizar com os melhores vinhos de canteiro. Este é o vinho canavial preparado normalmente com o boal, que se apresenta com as seguintes propriedades-digestivo, anticéptico, medicinal, alimentício.

Muito antes de D. João da Câmara Leme temos já notícia de um invento de estufagem até então usado, ou se apresenta como inovador, pois que as referências apenas nos dão indicação de que o novo método se dava nos vinhos “comunicando-lhes o calor internamente e de os fazer assim

vermelhos em pouco tempo” . Será este o mesmo sistema do praticado em França, nomeadamente

a pasteurização? . Tudo indica que assim seja, uma vez que o dito foi a França várias vezes, donde trouxe alambiques de destilação contínua e travou contacto com as inovações da técnica francesa de destilação e aquecimento do vinho.

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O COMEÇO

O progresso e a riqueza económica da ilha causaram a estupefacção de todos aventureiros e foram um forte incentivo à presença de novos colonos e de avanço do processo de reconhecimento das ilhas e litoral Atlântico. Tudo isto, segundo Gaspar Frutuoso, resultou do espírito empreendedor dos primeiros colonos madeirenses, que sob as ordens dos capitães empenharam-se em “cultivar e beneficiar a terra para dar fruto”.

João Gonçalves Zarco, após o reconhecimento da costa meridional da ilha, fixou-se no Funchal enquanto Tristão Vaz recolhe-se ao vale de Machico. É a partir destes dois pólos, mais tarde sedes das capitanias, que irradiou a força dos cabouqueiros. O processo foi rápido, tal como o testemunham os cronistas. Zurara refere-nos que “em breve tempo foi grande parte daquela terra aproveitada”, sendo corroborado por Gaspar Frutuoso: “Foi assim tudo tanto em crescimento em ambas as jurisdições, com boa diligência de seus capitães, que em breve tempo se povoou e

enobreceu a ilha toda (

Desde o início da ocupação é evidente o contraste entre as ilhas do Porto Santo e Madeira. Assim, segundo Zurara na primeira “não se pode em ela fazer lavra”. A principal dificuldade

estava, segundo Valentim Fernandes, no “não haver aguas a terra em si estéril”, o que implicou

que “não se fez tanta obra nela como em a ilha de Madeira

Aliás, esta última era “mais nobre

e mais rica e mais abundante”. A falta de águas só permitiu as culturas de sequeiro e a valorização do pastoreio. Para Zurara a sua importância está na criação de gado. É ele quem refere a praga dos coelhos e a constatação de que “criam-se ali muitos gados”. Note-se que foi com a carta de doação da capitania do Porto Santo que o infante se deu conta da importância do gado bravo e apastorado. A estas duas junta-se a Deserta, que segundo Zurara era “intenção de a mandar povoar com as outras”, lançando-se para isso gado.

Distribuídas as primeiras terras, um longo trabalho esperava os primeiros colonos: as queimadas, a construção de paredes encosta fora, para retenção da terra, o delineamento das levadas para o regadio e aproveitamento da força motriz nos moinhos, serras de água e, depois, engenhos açucareiros. Á mão de todos estavam as madeiras resultantes do abundante arvoredo que cobria a ilha da Madeira. O arroteamento das terras implicava o seu desbaste. E foi aí que o colono encontrou uma das primeiras riquezas, verdadeira dádiva da natureza. Com as madeiras foi

).

Crescendo as povoações e moradores com a fama da sua fatalidade

”.

possível avançar na construção naval e civil, beneficiando a marinha e a cidade de Lisboa. Assim o refere Jerónimo Dias Leite: “E neste tempo pela muita madeira que daqui levavam para o reino começarão com ela a fazer navios de gávea, e castelo da vante, porque dantes não havia no

reino

que existia em abundância passou a ser uma raridade, contribuindo para isso a necessidade de desbravar a densa floresta para abrir as arroteias.

As queimadas comuns na Europa tiveram aqui lugar e foram responsáveis por um duradoiro

tomou o fogo posse da roça e do mais

arvoredo, que sete anos andou vivo no bravio daquelas grandes matas que a natureza tinha criado avia tantas centenas de anos. A qual destruição de madeira posto que foi proveitosa para os primeiros povoadores logo em breve começarem lograr as novidades da terra: os presentes sentem bem este dano, por a falta que tem de madeira e lenha: porque mais queimou aquele primeiro fogo do que lentamente ora poderá delepar força de braço e machado. Coisa que o infante muito sentiu e parece que como profecia viu esta necessidade presente que a ilha tem de

Algumas das fontes insistem

na durabilidade do incêndio que ateou na ilha o próprio João Gonçalves Zarco para abrir clareiras. Todos os autores referem o terrível espectáculo do fogo e o facto de Zargo e

companheiros terem fugido de terra, abandonando os seus haveres.

Hoje todos estão de acordo que este incêndio não durou sete nem nove anos, devendo ser entendido como o sucedâneo de queimadas para abrir clareiras onde lançar a semente e construir a casa de habitação. Este fogo certamente que não atingiu a encosta norte da ilha, que permaneceu por muito tempo como uma densa floresta, aos poucos desbastada para retirar a lenha necessária como combustível e as madeiras para construir habitações e engenhos. A importância das madeiras está bem patente no facto de o infante ter determinado, nas cartas de doação e lembranças e regimentos, de tributar o seu aproveitamento. Ele tinha direito ao dizimo das madeiras usadas na construção de habitações e latadas, das lenhas para uso caseiro e industrial. Todas estas, mesmo em terras de sesmaria, eram sua propriedade, como se pode inferir da doação na Madalena a Henrique Alemão: “com condição que das ditas terras e lugar não pague senão o dizimo de tudo o que seus der em ele, salvando paus de teixo, vinho, canas e quaisquer tintas que houver e gomas, que tudo seja para mim”. Contra isto reclamaram em 1461 os moradores do Funchal ao infante D. Fernando no que não tiveram qualquer apoio. também nas cartas de doação das capitanias refere-se a esta importante industria. Assim aqueles que construíssem serras de água deveriam entregar ao capitão “um marco de prata em cada um ano ou seu certo valor ou duas tábuas cada semana das que costumarem serrar”, enquanto ao infante era devido “o dizimo de todas as ditas serras segundo pagam das outras coisas o que serrar as

ditas serras”. Acresce que nos capítulos do regimento atribuído a D. João I está valorizada esta actividade ligada ao aproveitamento das madeiras. Aí alude-se os “de menos, que vivam do seu

trabalho e de cortar de talhar madeiras

o que quererá significar que foi uma actividade muito

lenha: porque dizem que mandava que todos plantassem matas,

incêndio. É o que refere João de Barros: “

Todavia, esta riqueza e preciosidade das madeiras foi efémera. Em pouco tempo aquilo

assim

”.

”,

importante no primeiro momento de ocupação da ilha. A par disso é de notar o aproveitamento de outros recursos que na Época tinham grande valor comercial. Referimo-nos ao sangue de drago. Em ambas as ilhas eram abundantes os dragoeiros, mas especialmente no Porto Santo ele mereceu maior atenção dos povoadores, por ser o primeiro e principal recurso disponível.

Outra importante fonte de riqueza terá sido a criação de gado. Não obstante, alguns cronistas referirem a existência de gado selvagem no Porto Santo, onde os castelhanos faziam carnagem, o certo é que nas ilhas não se encontrava qualquer espécie animal indígena com utilidade para o

homem. É por isso que aqui, a exemplo do que virá a suceder nos açores, o processo de povoamento inicia-se com o lançamento de gado trazido do reino. Isto era uma forma, não só de testar a capacidade de sobrevivência dos seres vivos, mas também de assegurar um primeiro

suplemento alimentar aos primeiros colonos. Daqui resultou que a criação de gado se transformou numa das primeiras e principais riquezas. Assim o testemunha, em meados do século XV, Cadamosto. Quanto ao Porto Santo ele refere que “é abundante de carne de vaca, porcos selvagens e infinitos coelhos”, enquanto a Madeira é “abundante em carnes”. Esta reserva

de pastos propiciava o desenvolvimento da pecuária, provocada pelo uso na alimentação dos

primeiros habitantes da ilha, mas também para o abastecimento das embarcações que demandavam a costa africana que, desde 1455, segundo nos informa Zurara, tinham aqui escala obrigatória na ilha.

A vinha e o vinho assumem particular destaque na caracterização do processo histórico

madeirense ao longo destes quase seiscentos anos de labuta. Desde os primórdios da ocupação da ilha até a actualidade este produto manteve a mesma vivacidade na vida agrícola e comercio da ilha. Dos mais não houve capacidade suficiente para resistir a concorrência desenfreada de novos e potenciais mercados Fornecedores de aquém e além-mar. Os cereais tiveram saque fácil nos Açores, Canárias, Europa e, depois América, sofrendo, mais tarde, a concorrência do abundante fornecedor americano. Apenas o vinho resistiu a concorrência do dos Açores, Canárias, Europa e Cabo da Boa Esperança, mantendo o tradicional grupo de apreciadores no velho e novo Mundo.

No principio da ocupação da ilha as necessidades do cardápio e ritual cristão comandaram a selecção das sementes que acompanharam os primeiros povoadores. As do precioso cereal acompanham os primeiros cavalos de cepas peninsulares nesse processo de transmigração vegetativa. A fertilidade do solo, resultante do seu estado virgem e das cinzas fertilizadoras das queimadas, fizeram elevar a produção a níveis inatingíveis, criando excedentes que supriram as necessidades de mercados carentes, como foi o caso de Lisboa e praças do norte de África.

Para que tudo isto tivesse lugar de forma ordenada houve necessidade, por parte do senhorio e da coroa, de definir normas para o aproveitamento dos recursos agrícolas dos novos espaços. Daí resultaram inúmeras medidas regulamentadoras das actividades produtivas. Esta política esboça- se já com a entrega de terras, onde se estabelecem, muitas vezes, os produtos mais adequados para o seu cultivo. Na Madeira em 1492 elas apontavam para a preservação das searas, mas em 1508 a prioridade estava nos canaviais. O mesmo sucedia nos Açores, onde em S. Miguel se estabeleceu em 1532 uma divisão equitativa do solo em searas e terras de pastel. No caso de Cabo Verde a doação das ilhas pequenas tinha como finalidade a criação de gado, mais pela riqueza das suas peles do que pelo valor alimentar.

Não se esgotava aqui a iniciativa das autoridades no ciclo produtivo uma vez que a fase de

transformação dos produtos era outro domínio a cativar o seu empenho. Tudo isto é proporcional

ao volume e especialização das tarefas. Assim no caso do açúcar, cujo processo de era moroso,

havia um apertado controlo e regulamentos para as tarefas, por meio de regimentos e posturas específicos. Maior e mais evidente era a actuação ao nível do sector comercial. Neste caso as autoridades intervinham com o duplo objectivo de assegurar, por um lado, o comércio monopolista da burguesia nacional, por outro, da normalização dos circuitos. A par disso deverá referir-se as posturas municipais que defendem, única e exclusivamente, interesses dos concidadãos. Isto é, garantir o abastecimento do mercado local de produtos essenciais.

Um dos iniciais objectivos que norteou o povoamento da Madeira foi a possibilidade de acesso a

uma nova área produtora de cereais, capaz de suprir as carências do reino e depois as praças africanas e feitorias da costa da Guiné. A última situação era definida por aquilo a que ficou conhecida como o “saco de Guiné”. Entretanto os interesses em torno da cultura açucareira recrudesceram e a aposta na cultura era óbvia. Esta mudança só se tornou possível quando se encontrou um mercado substitutivo. Assim sucedeu com os Açores que, a partir da segunda metade do século dezasseis passaram a assumir o lugar da Madeira.

O cereal foi o produto que conduziu a uma ligação harmoniosa dos espaços insulares, o mesmo

não sucedendo com o açúcar, o pastel e o vinho, que foram responsáveis pelo afrontamento e uma crítica desarticulação dos mecanismos económicos. A par disso todos os produtos foram o suporte, mais que evidente, do poderoso domínio europeu na economia insular. Primeiro o açúcar, depois o pastel e o vinho exerceram uma acção devastadora no equilíbrio latente na economia das ilhas.

A incessante procura e rendoso negócio conduziram à plena afirmação, quase que exclusiva

destes produtos, geradora da dependência ao mercado externo. Este para além de ser o

consumidor exclusivo destas culturas, surge como o principal fornecedor dos produtos ou artefactos de que os insulares carecem. Perante isto qualquer eventualidade que pusesse em causa

o sector produtivo era o prelúdio da estagnação do comércio e o prenúncio evidente de dificuldades, que desembocavam quase sempre na fome.

A estrutura do sector produtivo da ilha moldou-se de acordo com isto, podendo definir-se em

componentes da dieta alimentar (cereais, vinha, hortas, fruteiras, gado) e de troca comercial (pastel, açúcar e algodão). Em consonância com a actividade agrícola verificou-se a valorização dos recursos disponibilizados por cada ilha, que integravam a dieta alimentar (pesca e silvicultura) ou as trocas comerciais (urzela, sumagre, madeiras).

A presença na ilha de um grupo de colonos, oriundos de uma área em que as componentes

fundamentais da alimentação se baseavam nos cereais, definiu para eles uma função primordial

na abertura das frentes de arroteamento. No começo tudo foi moldado à imagem e semelhança do

rincão de origem e, onde isso se tornava difícil era quase impossível recrutar e fixar gentes. Assim surgiram as searas, os vinhedos, as hortas e as fruteiras dominadas pela casa de palha e, mais tarde, pelas luxuosas vivendas senhoriais.

A partir do século dezassete o Atlântico foi devassado por novas culturas dos espaços recém-

conhecidos, que passaram a fazer parte da dieta alimentar das populações: primeiro o milho, depois, o inhame e a batata. Todavia a sua presença na agricultura insular variou de arquipélago para arquipélago. O milho chegou cedo aos Açores e a S. Tomé, enquanto na Madeira o seu aparecimento só teve lugar no século dezanove. A batata começou a ter aceitação na Madeira na segunda metade do século dezassete.

O PÃO NOSSO DE CADA DIA

Na Madeira, até à década de setenta do século quinze, a paisagem agrícola foi dominada pelas searas, decoradas de parreiras e canaviais. A cultura cerealífera dominava a economia madeirense, gerando grandes excedentes com que se abasteciam os portos do reino, as praças africanas e a costa da Guiné. Tudo isso foi resultado da elevada fertilidade do solo provocada pelas queimadas para abrir caminho às primeiras arroteias.

As condições em que se estabeleceram as primeiras arroteias fizeram com que as sementes de cereal, lançadas sobre as cinzas das queimadas, frutificassem em abundância. Diz Jerónimo Dias Leite que de um alqueire semeado se colhiam sessenta, enquanto Diogo Gomes refere “que uma medida dava cinquenta e mais”. Cadamosto corrobora o primeiro mas anota que esta relação foi

baixando devido à deterioração do solo. Ainda, segundo ele, a ilha produzia 3000 moios de trigo

de que só tinha necessidade de um quarto. O demais era exportado para o reino, tal como o diz

Diogo Gomes: “E tinham ali tanto trigo que os navios de Portugal, que por todos os anos ali iam, quase por nada o compravam”. Em data, que desconhecemos, estabeleceu o infante D. Henrique

ou o rei a obrigatoriedade de envio de mil moios para a Guiné, o que era considerado, na década

de sessenta um vexame para os funchalenses, que prontamente reclamaram ao novo senhor da ilha, no que não tiveram grande acolhimento por ser “trato de el-rei”. Até à década de 70, a paisagem agrícola madeirense foi dominada pelas searas, decoradas de parreiras e canaviais. A cultura cerealífera dominava, então, a economia madeirense. A este propósito refere Fernando Jasmins Pereira que no período henriquino os cereais constituíram a base da colonização da ilha.

A fertilidade do solo, resultante das queimadas, fez com que esta cultura atingisse níveis de

produção espectaculares, que a historiografia quatrocentista e quinhentista anuncia com

assiduidade, notando que o cereal se exportava para o reino e praças africanas. Em meados do século, segundo Cadamosto, a ilha produzia 3000 moios de trigo, que excedia em mais de 65%

as necessidades da parca população. Este excedente, avaliado em cerca de 2/3 da produção, era

exportado para o reino e, segundo os cronistas, vendido ao preço de quatro reais. Desde 1461,

1000 moios foram suprir as carências dos assentamentos africanos, ficando conhecidos como o saco da Guiné.

A partir da década de 60, com a valorização do comércio do açúcar, as searas diminuíram em

superfície e a produção cerealífera passou a ser deficitária. Por isso, a partir de 1466, a ilha precisava de importar trigo para sustento dos seus vizinhos, sendo impossível manter as escápulas estabelecidas. Em 1479, referia-se que a produção dava apenas para quatro meses.

Tudo isto derivou da acção dominadora dos canaviais, aliada ao rápido esgotamento do solo e inadequação da cultura, resultante de uma exploração intensiva, sem recurso a qualquer técnica

de arroteamento. O agravamento do défice cerealífero nas décadas de 70 e 80, que conduziu à

fome em 1485, foi a principal preocupação das autoridades locais e centrais. Primeiro procurou-

se colmatar a falta com o recurso à Berbéria, Porto, Setúbal, Salónica; depois foi necessário

definir uma área externa produtora, capaz de suprir as necessidades dos madeirenses. Assim sucedeu, desde 1508, com a definição dos açores como principal área cerealífera do Atlântico português: as ilhas açorianas actuam como o celeiro de provimento da Madeira e capaz de a substituir no fornecimento às praças africanas. A Madeira, que se havia afirmado no período henriquino, como um importante mercado de fornecimento de trigo, passou no governo fernandino à situação de comprador, adquirindo mais de metade do seu consumo nas ilhas

vizinhas: açores, Canárias. Felizmente que a crise cerealífera madeirense é concomitante com a

sua afirmação no solo açoriano. O rápido incentivo do povoamento deste arquipélago nas

décadas de 60 e 70, conduziu ao igual desenvolvimento da cultura cerealífera, de modo que esta

se afirmava, em finais do século, como a principal área produtora de trigo do Novo Mundo.

A insuficiente colheita cerealífera insular, acompanhada da incidência de crises de produção,

conduziram à valorização da componente leguminosa e frutícola na dieta insular. Assim a fruticultura e horticultura apresentar-se-ão como componentes importantíssimas na economia de

subsistência. Gaspar Frutuoso, em finais do século XVI, alude com frequência às hortas e

quintais, que ornamentavam a paisagem humanizada, onde se produzia um conjunto variado de legumes e frutas. Estes, para além do uso na dieta alimentar, eram também valorizados pelo uso

no provimento das caravelas que aportavam com assiduidade ao porto do Funchal.

Até

a década de setenta a Madeira firma a sua posição de celeiro atlântico, perdendo-a, depois

em

favor dos Açores que emergem desde então, com uma posição dominante na política e

economia frumentária do Atlântico. Na Madeira inverte-se a situação; a ilha de área excedentária

passa a uma posição de dependência em relação ao celeiro açoriano, canário e europeu. O

estabelecimento de uma rota obrigatória, a partir do fornecimento de cereal açoriano à Madeira, criará as condições necessárias à afirmação da cultura da cana sacarina, produto tão insistentemente solicitado no mercado europeu. O empenho do senhorio e coroa na cultura deste novo produto conduziu a afirmação preferencial de uma nova vertente da economia atlântico- insular. A partir de então os interesses mercantis dominam a dinâmica agrária madeirense. Na

ilha as searas deram lugar aos canaviais, enquanto as vinhas mantém-se de modo insistente numa

posição de destaque. A coroa havia estabelecido em 1508 que os Açores eram o celeiro do mundo atlântico, suprindo as carências da Madeira e substituindo-a no fornecimento às praças africanas e cidade de Lisboa. Na verdade a crise cerealífera madeirense coincidiu com o incremento da mesma cultura em solo açoriano, tendo-se determinado, nomeadamente em S. Miguel, um travão ao avanço da cultura do pastel.

As dificuldades de abastecimento de cereais manteve-se como uma constante até à

contemporaneidade. Tudo isto porque a ilha por mais que apostasse no seu cultivo nunca conseguiu assegurar o necessário cereal consumido e também porque os circuitos de fornecimento, nas ilhas, colónias e América estiveram sujeitas a inúmeras conjunturas. O corso

atlântico e as guerras europeias condicionaram este abastecimento. A primeira metade do século

XX pode ser considerada um momento crítico. As dificuldades no abastecimento de farinhas

levou as autoridades a intervir, através de medidas de controle das importações, da moagem e da promoção da cultura cerealífera. No mesmo objectivo se enquadra o plano de alargamento das terras de regadio, tendo-se alcançado em 1939 3600 ha, situação que foi alargada na década de quarenta com a Comissão dos Aproveitamentos Hidráulicos.

A campanha do trigo começou ao nível nacional em 1929 e chegou à ilha em nos anos quarenta.

Através de prémios aos agricultores procurava-se promover o aumento da produção cerealífera diminuindo a dependência ao mercado externo. Esta campanha abrangeu em 1942 144 proprietários que semearam 713660 ha. Mesmo assim a ilha estava longe de conseguir a sua libertação dos mercados abastecedores externos uma vez que nos princípios da década de cinquenta apenas estavam garantidos 11% do trigo e 6,4/ do milho. A média de importação de milho na década de quarenta era superior a vinte toneladas. Algumas destas medidas não foram bem entendidas pela população como foi o caso do decreto 19275 de 1931, conhecido como do proteccionismo cerealífero, que provocou uma revolta popular, a célebre revolta da Farinha. Esta

medida de disciplina das moagens foi entendida como uma forma de favorecimento da família Blandy e de criação de um monopólio. Primeiro em 1934 foi criado o Grémio do Milho Colonial Português que em 1938 deu lugar à Junta de Exportação dos Cereais que passou a dispor de uma delegação na Madeira no ano imediato, mantendo-se até 1962. A esta estrutura estava atribuída a missão de abastecimento do mercado e de fixação dos preços. O papel da Junta ficou demonstrado na ilha durante a Segunda Guerra Mundial, momento crítico de abastecimento da ilha.

O MAR E OS RECURSOS PISCÍCOLAS. A alimentação dos insulares não se resumia apenas a estes dois produtos basilares da economia, pois que a eles se poderiam juntar as leguminosas e as frutas, que participaram na luta a favor da subsistência. fruticultura e horticultura definem-se como componentes importantes na economia de subsistência, sendo referenciadas com grande insistência por Gaspar Frutuoso em finais do século XVI. As leguminosas e frutas, para além do uso no consumo diário, eram também valorizados pelo provimento das naus que aportavam com assiduidade aos portos insulares. A alimentação dos insulares completava-se com o aproveitamento dos recursos disponíveis no meio e que adquiriam valor alimentar, isto é a caça e pesca e os derivados da actividade pecuária, como a carne, o queijo e o leite. A pesca terá sido uma importante actividade das populações ribeirinhas, que usufruíam de uma grande variedade de mariscos e peixe.

A descoberta do mar confunde-se com a da ilha, tendo com protagonista João Gonçalves Zarco

Tudo começou quando ele decidiu proceder ao reconhecimento da costa. Este momento merece ser referenciado, não só por ser o primeiro encontro com a costa madeirense, mas também pelas revelações que lhe permite no baptismo dos diversos acidentes da costa. A atenção dos marinheiros direcciona-se para a terra e o mar. Na primeira busca-se boas oportunidades de abordagem e de fixação, enquanto no segundo a sua atenção move-se para a fauna marinha. Um bando de garajaus deu nome a uma ponta: Ponta do Garajau. Os lobos marinhos deram nome à Câmara de Lobos.

No ano imediato tratou-se do assentamento mas a curiosidade por reconhecer terra que ficara no desconhecimento tinha agora lugar, com “o correr a costa” até ao seu limite a Ponta do Pargo, assim chamada pelo facto de aí terem pescado um pargo enorme: “e o maior que até aquelle tempo tinham visto, pela rezão do qual peixe ficou nome aquela Ponta à do Pargo”. O facto da toponímia da costa revelar algumas associações à fauna marinha é revelador do interesse que os navegadores depositam nesta riqueza e o empenho com que a observavam: Porto das Salemas (P. Santo), Baixa da Badajeira (Madeira). Na verdade o Atlântico era desde a antiguidade um espaço privilegiado de pesca, descoberto desde o século VI A. C. pelos cartagineses. E aquilo que buscavam os portugueses não era só novas terras, mas acima de tudo riquezas no mar e em terra. Tenha-se em atenção, por exemplo, que os primeiros frutos do reconhecimento da costa africana estão no mar, é o óleo e pele de lobo marinho das expedições posteriores à de 1436 ao Rio do Ouro, tal como o documenta Gomes Eanes de Zurara. Note-se ainda que alguns autores fazem eco da riqueza em peixe dos mares da Madeira. Assim Cadamosto, em meados do século XV, refere ser a ilha rica “em garoupas, dourados e outros bons peixes”.

A revelação e descoberta do mar adquiriram interesse devido à possibilidade de fruição das

riquezas piscícolas. Todavia a atenção do europeu quanto ao mar não se orienta apenas neste sentido. O mar é a sua via de comunicação e para se servir dela é preciso conhecê-la, através dos

sistemas de correntes e ventos, além do conhecimento dos acidentes da costa, os baixios, etc. O conhecimento do mar vai ainda permitir uma evolução no sistema de construção das embarcações na definição do velame. Tudo isto acompanhado de roteiros e cartas que asseguram

o

traçado ideal permite navegar com maior segurança e rapidez. Note-se que no caso da Madeira

o

calado das embarcações dos primórdios do século XV não permitiam suportar as invernias pelo

que a ilha ficava isolada do reino por cerca de seis meses. Mas aos poucos esse isolamento quebrou-se com o volume das embarcações e as soluções engendradas para fugir às tempestades.

Note-se que nos séculos XVII e XVIII inúmeras embarcações da carreira do Brasil, de regresso

ao

reino com açúcar ou tabaco, sendo vítimas de tempestade aportam ao Funchal para reparação

do

velame e mastros e cura dos doentes. A costa da ilha não oferece grandes enseadas de abrigo

e desembarque e o Funchal, que se afirmou como o principal porto, encontra-se situado numa

zona da costa que não oferece as melhores condições de abrigo na estação invernosa devido aos ventos que sopravam do quadrante sul. Mesmo assim para o período de 1727 a 1802 só estão registados e conhecidos 52 naufrágios.

O mar é hoje incontestavelmente um recurso importante. A sua presença é cada vez mais

evidente no nosso quotidiano, como via de comunicação, espaço de lazer e recurso económico.

Se nos reportarmos ao passado mais evidente se torna a sua presença para espaços como as ilhas.

Até ao advento dos meios aéreos o mar foi para os ilhéus aquilo que os aproximava ou afastava

de outras ilhas e espaços continentais. O mar foi e continua a ser a via fundamental de comunicação. Daí advém que o mar está preso à vista do ilhéu e é uma presença permanente no

seu quotidiano. A sua ausência gera saudade. O ilhéu por muito tempo teve no mar o seu cordão umbilical. Perante isto o ilhéu olha o mar com um misto de devoção e medo. Esta atracção pelo mar condicionou desde o início a vocação do madeirense. Deste modo a Madeira foi terra descoberta, mas também de descobridores. Na verdade, a Madeira, arquipélago e ilha, afirma-se

no processo da expansão europeia pela singularidade da sua intervenção.

O mar não é só a via que leva o ilhéu à aventura da descoberta, pois está sempre presente no dia

à dia da ilha. Também as condições orográficas da ilha o arrastaram para outra ligação ao mar,

como via fundamental do desenvolvimento interno. Toda a economia madeirense é dominada pelo mar e define-se pela litoralidade da sua implantação sócio-geográfica. A insuficiência das comunicações terrestres, que perdura até ao nosso século, evidencia a importância de actuação das vias marítimas materializadas numa teia complicada de rotas de cabotagem. A sua preferência é muitas vezes relativizada em face dos acidentes e adversidades da costa e do mar, pois os ventos e as correntes marítimas dificultam a sua utilização. A Madeira, devido aos condicionalismos de ordem geográfica e climática, apresentava reduzidas possibilidades para o desenvolvimento das vias e meios de comunicação terrestres e marítimas. Esta condição limitou

as possibilidades de desenvolvimento económico, fazendo restringir essa actuação à faixa litoral

sul entre Machico e a Calheta, espaço recheado de enseadas e calhetas para o necessário movimento de cabotagem. Assim surgem portos em Machico, Santa Cruz, Funchal, Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calheta. O transporte da produção de açúcar da Calheta do ano de 1509 para o Funchal fez-se por barqueiros, em conjunto ou individualmente; executava-se ao longo de

todo o ano, mas habitualmente no período da safra e de maior exportação, entre Março e Julho.

Até 1508 todo o movimento com o exterior era feito a partir do Funchal. daí que existisse um contínuo movimento de cabotagem, entre este porto e os restantes da ilha, para o escoamento do açúcar. A partir de então, ao ser permitida a carga e descarga para a exportação do açúcar, contribuiu-se para a valorização dos portos das partes do fundo em detrimento do Funchal. Esta

situação manteve-se por pouco tempo, pois no ano imediato a medida foi revogada. O porto do Funchal surge no dealbar do século XVI como o principal entreposto madeirense do comércio atlântico. A zona ribeirinha do burgo funchalense, em redor da alfândega nova, era o pólo principal de animação. Aí convergiam mercadores, carreteiros, barqueiros, mareantes e curiosos. No calhau havia-se instalado em 1488 o cabrestante, cuja exploração foi concedida em regime de monopólio a João Fernandes Mouzinho, com o foro anual de cem reais. Desde 1568 a sua exploração seria entregue a uma sociedade, passando em finais do Século a ser explorado por diversos mareantes que Aí construíram um número variado de cabrestantes. O município aforava não só a instalação do cabrestante, mas também as casas e os chãos necessários para a actividade desses mareantes e barqueiros. O foro de um cabrestante variava entre duzentos a trezentos reais, enquanto o de um chão ou casa se cifrava em trezentos reais.

Perante a evidência do mar no quotidiano madeirense será necessário descobrir os testemunhos

dos seus agentes ao longo da História. Note-se que o centro principal de incidência dos homens

do mar se situava na zona ribeirinha do Funchal. Aí deparamo-nos com 82% dos barqueiros e

98% dos mareantes. Muitos destes encontravam-se temporariamente ao serviço de embarcações que aportavam ao Funchal. Desses 12% são do reino, nomeadamente de Tavira, Faro, Lagos, Alcácer do Sal, Santarém, Porto, Esposende, Sesimbra, Gaia. Viana, Barcelos e Vila do Conde.

Sendo assim, o movimento de embarcações entre a Madeira e o reino era intenso, salientando-se neste último o litoral algarvio, a região de Lisboa e a costa norte. A existência de mareantes fora

do Funchal - Calheta, Santa Cruz, Machico (3%) - evidencia também a existência de contactos

dessas embarcações de comércio a longa distância nestas zonas costeiras.

A acostagem de navios e o serviço de carga e descarga foi por muito tempo um problema

insolúvel para o porto do Funchal. No século dezoito insiste-se na necessidade de um molhe. Os estudos começaram em 1755 mas este só foi concluído no reinado de D. José. O advento do século XIX, acarreta novas exigências, mas a reivindicação de um porto capaz foi-se arrastando até à presente centúria. Nos séculos seguintes continuou a apostar-se no mar como a via mais fácil e rápida de comunicação, quer na vertente sul quer a norte. A atestar esta valorização das comunicações marítimas está a construção de cais nos principais centros desse trafico. Assim temos na vertente Sul Ponta de Sol(1850), Santa Cruz(1870), Lazareto e Machico(1874), Faial(1901), Câmara de Lobos e Porto da Cruz(1903), Ribeira Brava(1904-1908), Ponta da Oliveira e Caniço(1909), Ponta da Cruz(1910). E para a vertente norte surgem os de S. Jorge(1910), Porto Moniz e Seixal(1916) .

A pesca, ao contrário do que hoje acontece não era a actividade exclusiva de alguns núcleos do sul, pois se alargava a toda a ilha. A afirmação desta actividade levou à criação de núcleos piscatórios que se afirmaram ao longo dos tempos e que evidenciaram a importância da vertente sul. O desenvolvimento de algumas indústrias no nosso século levou à sua valorização. Em 1909 Adolfo Loureiro assinala os seguintes portos piscatórios: Funchal, Caniço, Porto Novo, Aldonça, Santa Cruz, Seixo, Machico, Caniçal, Porto da Cruz, Faial, S. Jorge, Ponta Delgada, S. Vicente, Seixal, Porto Moniz, Ponta do Pargo, Paul do Mar, Jardim do Mar, Calheta, Fajã do Mar, Madalena do Mar, Anjos, Lugar de Baixo, Tabua, Ribeira Brava, Campanário, Câmara Lobos e Porto Santo.

A presença dos grandes cetáceos está também testemunhada na Madeira desde muito cedo. A

primeira baleia conhecida na baía do Funchal é de 1595, enquanto em 1692 uma outra capturada rendeu 64 000 réis, mas já em 1899, ficou por menos de metade, isto é, 30.000 réis. Em 1741 Nicolau Soares pretendia estabelecer uma fábrica de transformação de baleia na Madeira, mas a

resistência das indústrias da Baía, temerosos da concorrência, impediu-o de levar por diante tal objectivo. A indústria em questão só terá lugar após a grande guerra, conhecendo -se três fábricas: Garajau, Ribeira Janela e Caniçal. A conserva de peixes torna-se numa realidade nos primeiros anos da presente centúria: fábrica da Ponta da Cruz de João A. Júdice Fialho (1909), fábrica do Paul do Mar de António Rodrigues Brás (1912), transferida em 1928 para a Praia Formosa; Fábrica de Pedra Sina em S. Gonçalo de Maximiano Antunes (1939); Fábrica de Machico (1949) de D. Catarina Andrade Fernandes Azevedo, Francisco António Tenório e Luís Nunes Vieira; Fábrica do Porto Santo (1944). A partir daqui o pescado da ilha passará assim a ter dois destinos: o consumo público e a indústria de conservas, o que veio permitir um aumento das capturas. Até então o único destino era o consumo público sob a forma de fresco ou salgado. tenha-se em conta o interesse nas salinas em Câmara de Lobos e Praia Formosa de que existem testemunhos desde o século XVIII mas nunca adquiriram grande dimensão e interesse.

Desde o início da ocupação da ilha que o peixe é um recurso destacado. Deste modo sobre ele recai um imposto, isto é, o dízimo do pescado, que onerava todos os barcos de pesca. No Campanário, Ribeira Brava e Tabua esse dizimo era cobrado pelos jesuítas, que desde a segunda metade do século XVI tiveram assento na ilha. O pescado acudia com maior assiduidade ao

Funchal onde tinha escoamento imediato e um preço mais favorável. Deste modo sucedia que as diversas localidades da vertente sul, embora dispondo de núcleos piscatórios, debatiam-se quase sempre com a sua falta, por os pescadores preferirem a sua venda na cidade. Face aos produtos as autoridades municipais foram forçadas a tomar medidas. Em Machico os pescadores da vila estavam obrigados a aí venderem ¼ do pescado, passando em 1640 para 1/3. Já na Ponta do Sol

a Câmara proibiu em 1704 a sua venda para fora do concelho e em 1727 obrigava os pescadores

a irem todos os dias ao mar sob pena de 2 000 réis. Mesmo assim o Funchal não estava

devidamente abastecido de pescado, necessitando importar arenque salgado de Inglaterra. A prova disso está no facto do foral de 1516 os isentar do pagamento do dizimo.

Os madeirenses também iam pescar às costas da Berbéria, um dos melhores bancos de peixe do Atlântico. Disso se conclui face a uma reclamação dos pescadores em 1596 face ao tributo que pagavam a João Gonçalves de Ataíde pelo peixe que daí traziam. A par disso sucedem-se medidas intimidatórias aos pescadores de Câmara de Lobos, obrigando-os, de acordo com mandato de 1713, a descarregar o seu pescado no Funchal. Esta e outras situações levaram o corregedor a organizar em 1783 um regulamento para as pescas nas ilhas - Estabelecimento das Pescarias das ilhas da Madeira e Porto Santo - que não teve efeito. A par disso sucederam-se medidas de defesa desta industria através de regulamentos que delimitavam a forma da pescada,

quanto às redes a usar e no século XIX o uso abusivo de bombas, testemunhadas no norte da ilha

e Ponta de Sol, situação que levou a uma portaria de 1877 recomendando ao governador medidas

contra essa prática. A venda do pescado era feita na praça de acordo com condições estabelecidas pelas posturas. Todo o peixe deveria ser aí vendido a preços tablados e a todos os que o procuravam, de modo a evitar o uso abusivo dos mais ricos que através dos seus escravos procuravam tirar o peixe à força às vendedeiras.

O mareante e o barqueiro, tal como o pescador, assentaram morada na zona ribeirinha pelo apego

ao mar, junto do burburinho do calhau, onde poderiam ouvir o marulhar das ondas. A zona do calhau, hoje Corpo Santo, acolhia o maior número de marinheiros, barqueiros e pescadores. A sua influência foi dominante nesta área citadina. Em Machico, Santa Cruz, Ribeira Brava, Calheta e na ilha do Porto Santo havia igualmente uma diminuta comunidade de homens do mar com morada fixa junto ao calhau ou aos ancoradouros. A pesca ocupava em 1914 mais de mil e

quinhentos pescadores com 537 embarcações, já em 1931 temos 1500 pescadores servidos de 24 embarcações a motor e de 508 à vela ou a remos. Mas a tendência parece ter sido no sentido inverso na década de quarenta. Não obstante assinalarmos a captura de 2471 toneladas é evidente uma redução do número de embarcações a vela e remos em favor das motorizadas. Das primeiras assinalam-se 327 e das segundas 46.

O interesse pelo mar não se reduziu apenas à junção dos seus recursos económicos. Também é

de registar uma aposta nos estudos científicos a partir do século XVII. A passagem de alguns cientistas ingleses pela Madeira propiciou uma primeira descoberta das raridades da sua fauna

marinha

Já no decurso do século XIX aumentou o interesse pela ilha, por parte de súbditos ingleses

residente ou de passagem. Destes podemos destacar os estudos de Richard Lowe(1833-1846), interrompidos com a sua morte num naufrágio em 1874. James Yate Johnson seguiu-lhe o encalço e publicou alguns estudos até à sua morte em 1900.

O empenho dos madeirenses neste estudo poderá ser assinalado com João José Barbosa du

Bocage. O primeiro a apelar a isso foi José Silvestre Ribeiro quando em 1850 criou o Gabinete

de História Natural., que se apagou com a sua saída em 1852. Todavia a aposta no estudo e divulgação dos recursos marinhos viria só a acontecer mais tarde com a criação do Aquário do Museu Municipal, que abriu ao público em 1951.A publicação do Boletim do Museu Municipal desde 1945, os estudos de Adão Nunes, Adolfo César de Noronha e Gunter Maul vieram a dar conta de quão rico é o nosso património marinho.

Nas comunidades piscatórias a devoção religiosa adquire dimensão particular. Esta poderá incidir em qualquer dos santos patronos - S. Pedro o pescador, S. Pedro Gonçalves Telmo - ou nos oragos do lugar, como é o caso de Nª Senhora da Piedade para o Caniçal, do Senhor dos Milagres para Machico, de Nª Senhora da Conceição no Porto Moniz e do Senhor Bom Jesus de

Ponta Delgada(

associava-se as centelhas luminosas que apareciam nas extremidades dos mastros dos navios, provocadas pela electricidade atmosférica. Este fenómeno ficou conhecido como o fogo de Santelmo. A devoção ao santo ocorria com particular incidência no Funchal, ao cabo do Calhau, e em Câmara de Lobos. Em ambos os portos piscatórios existe uma capela da sua invocação, cujo culto era assegurado por uma confraria da responsabilidade dos mesmos pescadores. Todavia a confraria em questão apostava mais no auxílio mútuo aos pescadores e familiares. Cada barco deveria entregar uma cotização à confraria que este administrava depois no auxílio em caso de naufrágio ou morte. Assim sucedeu no Funchal, Câmara de Lobos e Calheta, onde funcionou esta confraria. Já no presente século todo esse apoio passou, desde 1939, a estar centralizado na Casa dos Pescadores.

Santelmo era a invocação óbvia em momentos de tempestade. A ele

Tenha-se em conta as expedições de Hans Sloane(1687) e James Cook(1768 e 1772).

).

Olhando à história da ilha denota-se que o mar, embora obrigatoriamente sempre presente, não adquire a dimensão que deveria merecer. No início, os madeirenses são mais aventureiros do que marinheiros e, depois, continuam quase que a ignorar o mar e os seus recursos. Para isso deverá ter contribuído a política centralista da coroa, que sempre estabeleceu limitações a essa

redescoberta do mar a partir das ilhas. São os entraves ao desenvolvimento da construção naval e

os

segredos que medeiam os conhecimentos sobre o mar. Perante tudo isto o madeirense afirma-

se

como agricultor e aventureiro, que faz-se transportar e às suas riquezas por outrem. De entre,

os homens que têm por palco o mar, são um grupo reduzido, o que gera algumas dificuldades nomeadamente no aproveitamento dos seus recursos para a alimentação. No passado foi insistente a falta de pescado para abastecimento do mercado local, tornando-se indispensável a

sua importação. De igual forma o madeirense deixou entregue a mãos alheias a tarefa de estudo e conhecimento do mar. Foram os ingleses que tiveram o condão de nos revelar quão rico era o mar que nos rodeiam.

A RIQUEZA ARRANCADA À TERRA

Se o cereal pouco contribuía para aumentar os reditos dos seus intervenientes o mesmo não se poderá dizer em relação ao açúcar e vinho que, a seu tempo contribuíram para o enriquecimento das gentes da ilha. A própria coroa e senhorio fizeram depender grande parte das suas despesas ordinárias dessa fonte de receita. A par disso o enobrecimento da vila, mais tarde, cidade do

Funchal fez-se à custa desses dinheiros. O Funchal avança para poente e adquire fama de novos e potenciais mercados. Todavia esta opulência foi de vida efémera. Desde a terceira década do século XVI o açúcar madeirense é destronado da posição cimeira no mercado europeu, perdendo

a preferência em favor do canário ou brasileiro, de menor qualidade, mas que ai aparecem com preços mais baratos.

A exploração agrícola na ilha estava limitada à superfície arável e as condições que o mesmo

oferecia. A orografia era o óbice mais importante e conduzia a que pouco mais de trinta por

cento da superfície podia ser dedicada à agricultura. Por outro lado a sua disposição em altitude levou a que a sua distribuição estivesse limitada a patamares. Perante isto seremos confrontados com uma exploração extensiva do solo e uma valorização escalonada das culturas. Deste modo em cada época as culturas dominantes ocupavam os melhores e mais ricos solos agrícolas. Ainda

de acordo comas condições agro-climáticas de cada produto teremos uma diversidade de culturas

a moldar a policromia da paisagem.

A CANA DE AÇÚCAR. A rota do açúcar, na transmigração do Mediterrâneo para o Atlântico, tem na Madeira a principal escala. Foi na ilha que a planta se adaptou ao novo ecossistema e deu mostras da elevada qualidade e rendibilidade. Deste modo a quem quer que seja que se abalance a uma descoberta dos canaviais e do açúcar, na mais vetusta origem no século XV, tem obrigatoriamente que passar pela ilha. A Madeira manteve uma posição relevante, por ter sido a primeira área do espaço atlântico a receber a nova cultura. E por isso mesmo foi aqui que se definiram os primeiros contornos desta realidade, que teve plena afirmação nas Antilhas e Brasil. Foi na Madeira que a cana-de-açúcar iniciou a diáspora atlântica. Aqui surgiram os primeiros contornos sociais (a escravatura), técnicos (engenho de água) e político-económicos (trilogia rural) que materializaram a civilização do açúcar. Por tudo isto torna-se imprescindível uma análise da situação madeirense, caso estejamos interessados em definir, exaustivamente, a civilização do açúcar no mundo atlântico.

A história do açúcar na Madeira confunde-se com a conjuntura de expansão europeia e dos

momentos de fulgor do arquipélago. A sua presença é multissecular e deixou rastros evidentes na sociedade madeirense. Dos séculos XV e XVI ficaram os imponentes monumentos, pintura e a ourivesaria que os embelezou e que hoje jaz quase toda no Museu de Arte Sacra. Do século XIX

e do primeiro quartel da nossa centúria perduram ainda a maioria dos engenhos desta nova vaga

de cultura dos canaviais. Aqui, a cana diversificou-se no uso industrial, sendo geradora do álcool,

aguardente e, raras vezes, o açúcar. Foi certamente neste momento que surgiu a tão afamada

poncha, irmã do ponche de Cabo Verde e da caipirinha no Brasil.

A Europa sempre se prontificou a apelidar as ilhas de acordo com a oferta de produtos ao seu

mercado. Deste modo, sucedem-se as designações de ilhas do pastel, do açúcar e do vinho. O açúcar ficou como epíteto da Madeira e de algumas das Canárias, onde a cultura foi a varinha de

condão que transformou a economia e vivência das populações. Também do outro lado do oceano elas se identificam com o açúcar, uma vez que serviram de ponte à passagem do Mediterrâneo para o Atlântico. Daqui resulta a relevância que assume o estudo do caso particular, quando se pretende fazer a reconstituição da rota do açúcar. A Madeira é o ponto de partida, por dois tipos de razões. Primeiro, porque foi pioneira na exploração da cultura e, depois, na expansão ao espaço exterior próximo ou longínquo, incluído as Canárias.

O açúcar é de todos os produtos que acompanharam a diáspora europeia aquele que moldou, com

maior relevo, a mundividência quotidiana das novas sociedades e economias que, em muitos casos, se afirmaram como resultado dele. A cana sacarina, pelas especificidades do seu cultivo, especialização e morosidade do processo de transformação em açúcar, implicou uma vivência particular, assente num específico complexo sócio-cultural da vida e convivência humana. Gilberto Freyre foi o primeiro em 1971 a chamar a atenção dos estudiosos para esta realidade, quando definiu as bases daquilo que a que designou de Sociologia do Açúcar: A publicação em 1933 de “Casa-Grande & Senzala” foi o prelúdio de nova preocupação e domínio temático para a

Sociologia e a História.

A cana sacarina, ao contrário do que sucedeu com os demais produtos e culturas (vinha, cereais),

não se resumiu apenas à intervenção no processo económico. Ela foi marcada por evidentes

especificidades capazes de moldarem a sociedade, que dela se serviu para firmar a sua dimensão económica. A importância a que o sector comercial lhe atribuía conduziu a que fosse uma cultura dominadora de todo (ou quase todo) o espaço agrícola disponível, capaz também de estabelecer

os contornos de uma nova realidade social. Foi precisamente esta tendência envolvente que levou

a Historiografia a definir o período da afirmação como o Ciclo do Açúcar. Aqui não estávamos perante uma aplicação da teoria dos ciclos económicos, mas pretendia-se subordinar esta tendência para a afirmação da cultura na vida económica e social com este conceito. A omnipresença da cultura, as múltiplas implicações que gerou nos espaços em que foi cultivada levou alguns investigadores a estabelecer um novo modelo de análise: os ciclos de produção assentes na monocultura

O grande erro da Historiografia europeia foi ter encarado a economia açucareira da Madeira ou

das Canárias como um retrato em miniatura. O confronto das duas realidades, coisa que ainda